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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

34. PRAXES


Estudantes de capas pretas desfilam em cortejos chamativos, ruidosos e cinzentos, coagindo e humilhando iniciandos que nos anos seguintes o farão a outros, numa sucessão temporal de décadas.    


Uns são a favor. Outros, contra. Há quem relativize.


É um ritual passageiro que faz parte da juventude, num grupo de ignorantes intolerantes, ou de todos fomos assim, consoante a opinião.  


Os que praxam e os que são praxados, na maioria estudantes universitários, serão as futuras elites do país, que fazem o culto da subordinação, humilhação e sofrimento como valor essencial, valorizando relações hierárquicas. 


Uma causa de exclusão da ilicitude, um costume consuetudinariamente reconhecido.


Estranha-se que os que são alvo de violência e de violações de direitos humanos o permitam, submetendo-se e sujeitando-se.  


Há, infelizmente, condições estruturais e sistémicas para tais submissões, que beneficiam uma cultura reverencial pelo poder, paternalista, paroquial, de ausência de escrutínio e de sentido crítico.  


A que acresce a possibilidade de os que foram praxados poderem, mais tarde, puxar dos galões e praxar os novos “caloiros”, compensando-se e perpetuando uma tradição de práticas desadequadas num país que se quer civilizado.


Por que não, em alternativa, atividades, eventos, cortejos, festivais culturais e desportivos, sem o aviltamento e sevícias das praxes?   


A vontade de praxar e ser praxado, de a praticar e aceitar, dando azo a exibicionismos e obscenidades barbaras e censuráveis, é um sintoma deprimente da nossa atual juventude, com reflexos de caraterísticas de permanência traduzidas numa forma atávica do nosso atraso como sociedade, por maioria de razão vinda duma geração universitária geradora de elites.  


03.12.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

33. CIDADANIA ORIGINÁRIA E DERIVADA


Ascendência (ius sanguinis) e território (ius soli) são os elementos causais da cidadania originária.


Casamento, filiação, residência, naturalização, são exemplos de conexões relevantes para aquisição da cidadania derivada.


A cidadania originária relaciona-se com a nacionalidade, o que herdámos biologicamente, por via sanguínea, com o não escolhido, transmitindo-se de pais para filhos, de ascendentes para descendentes, enquanto consequência do sangue e do solo.


A cidadania derivada agarra mais de perto o âmbito do desejado, querido, aceite, contratado, consentido e não herdado.   


A retórica da cidadania como signo de identidade tem conteúdos primariamente conservadores: pátria, mátria, patriotismo, natureza, tradição, costumes, origens, raízes, terra.       


A da cidadania como símbolo de comunicação tem conteúdos basicamente funcionais e de substituição, usando-a por me ser necessária e útil.     


De um discurso tendencial e potencialmente sacralizador, (cidadania originária), transita-se para um dessacralizador (cidadania derivada).   


Vem isto a propósito da controvérsia sobre emigrantes e estrangeiros que escolheram Portugal para seu país agudizada, recentemente, pela nossa representação nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em que havia 19 atletas não nascidos em terras lusas.


Naturais de Angola, Brasil, Cabo Verde, China, Camarões, Costa do Marfim, Congo, Cuba, Estados Unidos, França, Geórgia, São Tomé e Príncipe, Suíça e Ucrânia.


Com particular destaque para três dos quatro medalhados: Pedro Pichardo, Patrícia Mamona e Jorge Fonseca. Com ênfase para Pichardo, medalha de ouro, não nascido português, sendo naturalizado.


Sucede que a ideia de português (ou pátria portuguesa) não exige, nem reclama ou reivindica, uma herança ou transmissão por via biológica ou genética, antes sim, e cada vez mais, uma opção desejada, necessária, querida, sentida e útil, uma compensação e um reconhecimento tão ou mais poderoso que a cidadania originária de nascença, em favor de uma cidadania derivada de uma livre escolha, por imigração, mas não só.


Tendo presente sermos um país de emigrantes, de longas viagens e misturas, em que a atual noite demográfica, uma baixa taxa de natalidade e um envelhecimento demográfico, exigem medidas adequadas e proporcionais que razoavelmente as anulem.

 

26.11.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL


32. LIBERDADE E SEGURANÇA (II)


Com o 25 de abril democratizámos. 


Mas a nossa democracia não factualizou, embora a consagre, a liberdade como valor prioritário, mas sim a segurança.   


Por razões históricas, a antiga aceitação da liderança por instituições e pessoas onde o poder está estritamente concentrado, continuou após abril de 1974. 


Tal tolerância é uma tradição que tem raízes no passado, em fenómenos estruturantes de cariz totalitário, por contraste com menos anos de constitucionalismo liberal. 


O que tem reflexos no não culto do debate público e exercício do contraditório, não uso da reclamação, nem de expressões assertivas, francas, frontais e diretas, mesmo que incómodas.


E no não uso robusto da liberdade, com todas as inevitáveis e estruturais consequências danosas a nível da educação, ciência, investigação, criatividade e grau de desenvolvimento.


A que acresce a ausência duma classe média maioritária, pagadora de impostos, exigente, instruída, reclamante e reivindicativa. 


Se na luta entre fortes e fracos, quem governa tende a dominar os governados e se estes, mesmo assim, se conformam, não escrutinam ou dizem bem daqueles, não se justifica a liberdade, pois só nos interessa tê-la quando somos perseguidos pela nossa contundência e sentido crítico.


Dizer bem e concordar, não acarreta o perigo de perseguição, exílio, prisão ou morte, pelo que faz falta tal liberdade para podermos opinar sobre coisas não elogiosas, polémicas, escandalosas, que magoam e de que não gostamos, desde que não se opine ou publiquem notícias de consabida falsidade, falte à verdade ou se façam afirmações por maldade ou malvadez, ou grosseiramente investigadas por omissão. 


É esta liberdade que me possibilita, aqui e agora, não me sentir censurado ou espiado, que gostaria de ter permanentemente garantida e vivida, e não apenas formalmente consagrada ou restaurada por lei no meu país. 


Que não se baseia em messianismos fundados num milagre ou salvador que nunca veio, na desistência de pensar ou mero gerir da saudade, no bota-abaixo, de dizer mal de tudo e todos, festança e papança sem responsabilidades, de querer todos os direitos sem deveres. Embora proibir, condenar e mandar alguém para a prisão, por opinar e pensar mal, possa ser um atentado a essa liberdade.   


Trata-se dum itinerário com sucessivas viagens, em que a democratização foi um meio que nos aproximou da democracia pluralista da União Europeia a qual, mesmo em crise, nos exige como pressuposto e objetivo um pluralismo em liberdade, só assim garantido, de momento, entre nós, por confronto com a longa noite de fenómenos estruturantes, totais e totalitários do nosso historial.


Sem esquecer que quem está no topo aprecia predominantemente o status quo vigente, razão pela qual o exercício e garantia dos direitos fundamentais são uma defesa contra os excessos do poder estadual e dos poderosos, pois se perdermos a liberdade (liberdades fundamentais e direitos humanos, onde se integram a liberdade de expressão e o direito à informação), acabamos por perder também a segurança.

19.11.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL


31. LIBERDADE E SEGURANÇA (I)


Uma opinião livre e esclarecida é essencial numa sociedade democrática.

Quanto maior o grau e o valor da liberdade, mais democrática é a sociedade.  

Ser tido como o menos mau de todos os sistemas, começa pelo direito de fazer perguntas, aceitar a interpelação, o contraditório, a incerteza, a dúvida adequada e responsável.

Os portugueses, em geral, lidam mal com a discordância, agravada se crítica, chocante, contundente, frontal.

Valorizam bastante o pessoal e a segurança, privilegiando esta em desfavor da liberdade. Consequência de mais anos de absolutismo, inquisição, autoritarismo, ditadura, tiranetes, ruralismo, ultramontanismo religioso, do manda quem pode e obedece quem deve, no abrigo obediente e acomodado que garante a segurança e uma sociedade que pouco pensa e renova. 

A maior mais-valia do 25 de abril, para muitos, foi a liberdade, no seu respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades individuais, onde pontuam a liberdade de expressão e o direito à informação. 

Liberdade que é inerentemente antiautoritária e aberta ao não sectarismo, à mudança, à crítica, ao debate, à publicação livre e à troca de informações.

Onde há níveis mais elevados de ciência, investigação, educação e literacia, maior a propensão para a liberdade e graus mais elevados de democracia. 

Os países mais livres e apologistas da liberdade, sempre foram os mais capazes em empreendedorismo e inovação, a nível democrático, de conhecimento e saber, e em termos científicos.  

 

12.11.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL


30. JOSÉ MATTOSO (II)


Quanto à alegada incapacidade de planeamento dos portugueses, aliada ao talento para a improvisação, JM desmistifica-a dizendo tratar-se de um fenómeno normal numa sociedade semiperiférica, o que desapareceria com a generalização de um ensino racional e a preferência pelo valor da previsão mais do que do imediato e do inesperado, pondo de lado uma acentuada concentração de poder e recursos de uma minoria que gira em redor do Estado, gerando uma permanente convicção da inutilidade das previsões, da impossibilidade de assumir responsabilidades sociais e a não capacidade de participar nas decisões, concluindo:

“Se,…, o sucesso - não só económico e político, mas também cultural - estava praticamente garantido mas só para alguns, qualquer que fosse a sua competência, não seria mais rentável para os outros (para a maioria) exercitar os dotes da improvisação, a habilidade para viver o dia a dia, quando não o jeito para a pequena fraude, a economia paralela, a  fuga aos impostos, a “cunha”, o clientelismo? Ou, no melhor dos casos, descobrir o fascínio de viver intensamente o dia a dia, momento a momento, aproveitando as coisas boas da existência, como o convívio e a afetividade, ou as mais emotivas, como a paixão, a intriga ou o jogo, com tudo o que ele tem de aleatório? Confirmar-se-ia, assim, uma das caraterísticas mais típicas dos portugueses, uma daquelas,…, que mais entusiasmou Agostinho da Silva. Mas será só deles? Não existe também noutras sociedades da Europa meridional, ou mesmo naquelas que não alcançaram o “benefício” da civilização e não se renderam à racionalidade?”.  

Embora tais críticas, argumentos e observações possam ser empírica e objetivamente aceitáveis (algumas bem atualistas na nossa sociedade), dentro dum relativismo determinista das coisas, sem prejuízo de, em rigor, tudo poder ser tido como subjetivo (no sentido de todos os nossos conhecimentos e opiniões são fruto da perceção individual de cada um de nós); parece assertivo questionarmo-nos de que o mesmo não possa ser extensivo, em maior ou menor grau, a qualquer outro povo ou grupo social estável em termos de regularidade, o mesmo quanto à emotividade, irrealismo e sonho das chamadas teorias providencialistas, míticas e messiânicas, para além de que nenhuma teoria se pode arrogar totalmente “determinista” (incluindo as míticas, messiânicas, utópicas), porque o que é tido como “determinista” hoje pode não o ser amanhã. Não pode o sonho ser “uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer”? (poema de António Gedeão cantado por Manuel Freire). 

Por que também há uma dimensão espiritual em tudo, mesmo em democracia e no Estado de Direito (que podem ser vistos como uma religião laica).

 

05.11.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL


29. JOSÉ MATTOSO (I)


“Se o critério é o da objetividade, teremos de excluir, desde logo, as teorias messiânicas, tão insistentes e tão carregadas de emotividade, acerca do destino universal do povo português, do seu insondável ”mistério” e da sua irredutível originalidade” (José Mattoso, “A Identidade Nacional”).   

A inventariação dos carateres específicos da gente portuguesa é um processo ilusório:   

“Nem o sebastianismo, nem a saudade, postas em relevo por António Sardinha, nem o universalismo internacionalista, propalado por vários autores, nem o lirismo sonhador aliado ao fáustico germânico e ao fatalismo oriental, apontados por Jorge Dias, nem a plasticidade do homem português, intuída por Natália Correia, nem o culto do Espírito Santo, que fascinou António Quadros, nem a capacidade para criar uma “filosofia portuguesa”, patrocinada por Sampaio Bruno, Álvaro Ribeiro e José Marinho, nem mesmo a “brandura dos costumes”, feita lugar comum, se podem considerar como caraterísticas mais do que imaginárias do povo português” (José Mattoso, idem).

Mattoso reconhece que tais interpretações não têm todas o mesmo grau de arbitrariedade ou de subjetividade, sendo premente distinguir aquelas que partem da observação empírica de carateres comportamentais que podem corresponder factualmente a hábitos mentais, daquelas que se fundamentam em especulações de tipo idealista ou de feição mística, merecendo as primeiras, segundo diz, maior atenção, competindo a sua análise e espírito crítico a especialistas da área da sociologia geral, que ele não é, tomando a História como ponto de referência para algumas interrogações sobre elas, do ponto de vista do historiador, como se reclama. 

Após afirmar ter sido necessária a democratização de Portugal e a perda das colónias, para que o passado deixasse de ser visto como tempo glorioso, uma “idade de ouro”, e de defender que o teor subjetivo dos seus critérios e o método impressionista de tais teorias são sempre impossíveis de demonstrar reconhece, de seguida, não podermos também “deixar de registar a formação de uma espécie de consenso a respeito de alguns deles”.      

Exemplifica-o com os estudos do antropólogo Jorge Dias sobre o caráter nacional português, para quem a personalidade básica do português é “um misto de sonhador e de homem de ação,…, um sonhador ativo a que falta certo fundo prático e realista”, com “enorme capacidade de adaptação a todas as coisas, ideias e seres sem que isso implique perda de caráter”, “…tem vivo um sentido da Natureza e um fundo poético e contemplativo…”, “No momento em que o português é chamado a desempenhar qualquer papel importante, põe em jogo todas as suas qualidades de ação, abnegação, sacrifício e coragem e cumpre como poucos”, “Para o português, o coração é a medida de todas as coisas”, “é um povo paradoxal e difícil de governar. Os seus defeitos podem ser as suas virtudes e as suas virtudes os seus defeitos, conforme a égide do momento”.

Entende, JM, que o perfil de português de Jorge Dias aponta para a permanência de estruturas de longa duração relacionadas com tendências mentais aparentemente comuns, não sendo carateres intrínsecos ao povo português, mas tendências correntes que podem modificar-se se as condições estruturais de ordem económica e social se modificarem. Interroga-se, com outros: quanto à saudade-lirismo, não se relacionará com a constatação de tantos portugueses terem de emigrar, desde sempre, para sobreviver?

 

29.10.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

28. OPÇÃO ATLÂNTICA E EUROPEIA (III)


Quanto à adesão à Comunidade Europeia, Portugal teve de optar pela democracia, anuência que lhe foi retardada para que pudesse entrar juntamente com Espanha, o que prova que do lado marítimo Portugal tem prioridade, havendo países que têm como do seu interesse a preservação da individualidade portuguesa, sendo Espanha vista como um país essencialmente continental, mais próximo da Europa.     


É nesta perspetiva que melhor se compreende a oposição de muitos a que Madrid se torne o centro radial da Península Ibérica.   


Eis algumas palavras de Henrique Neto, em artigo de opinião: 


“Quanto ao TGV, basta olhar para o traçado imposto por Espanha (…), para compreender a estratégia espanhola: criar uma radial napoleónica, que faça de Madrid o centro da Península Ibérica, ligando esta capital às cidades provinciais de Barcelona, Sevilha, Bilbau, Lisboa, Porto e, como vamos ver no futuro, à Corunha.  Que estratégia mais clara poderá ser desenhada do que ligar Lisboa a Madrid, antes de ligar Lisboa ao Porto, ou fazer com que o caminho-de-ferro de Lisboa para a Europa nos leve a Badajoz, a Cáceres, a Madrid, a Tarragona e a Barcelona - um autêntico passeio ibérico - antes de entrar em França pelo Sul? Os nossos antepassados, que nos ligaram por comboio diretamente a Paris, sem passar por Madrid, devem dar voltas no túmulo, ao mesmo tempo que os turistas do Norte da Europa não deixarão de considerar castiça a ideia de os fazer passar pela Costa Azul e pela Costa Brava, na sua problemática viagem para Lisboa.     


A estratégia correta passaria por dar prioridade absoluta ao TGV em território nacional, ligando a Corunha a Sevilha, ao longo da costa portuguesa e ao aeroporto da Ota. Esta estratégia corresponde ao objetivo de valorizar (…) a maior concentração humana da Península Ibérica e tornar Lisboa o centro natural desse espaço, que tem o mar e a dimensão atlântica com a sua vantagem competitiva”.   


Acrescenta-se que a saída por San Sebastian ainda vai demorar duas décadas, se realizável, acentuando Madrid a sua força centrípta na Península, obrigando todas as regiões de Espanha e Portugal a prestar-lhe vassalagem.   


Daí que, como alternativa à cada vez maior dependência dos corredores rodoviários e ferroviários de ligação a Espanha e à Europa, se fale no transporte marítimo e aéreo com a mais ampla diversificação de itinerários e dependências, via reconversão e adaptação (marítima) e como rótula de articulação intercontinental aérea com a Europa, nomeadamente via países da América Latina e África, caso dos mercados brasileiro, venezuelano e PALOP.


Todavia, a propósito de Portugal e Espanha, Boaventura Sousa Santos, depois de ter Portugal como uma sociedade periférica e não ser previsível que num futuro próximo seja promovido ao centro do sistema ou despromovido para a sua periferia, tendo como mais provável que a sua posição intermédia se consolide em novas bases, fala em que o “federalismo ibérico” está em curso, não por via de renascidas crenças em hispanidades míticas, decorrendo, sobretudo, da atuação das grandes multinacionais, ao estabelecerem as suas sedes em Madrid ou Barcelona tomando como um todo e unidade de ação a Península Ibérica, pelo que, na sua ótica, os sinais de despromoção são mais fortes que os de promoção.   


Para outros, como Loureiro dos Santos, numa Europa das regiões extensiva à Península Ibérica, as condições são-nos mais favoráveis que a Madrid, pois enquanto este tenderá a perder poder político por força da artificialidade de tal centro, surgido apenas por motivos político-estratégicos, pois os grandes centros periféricos, onde a Península produz riqueza, tendem a ser polos de competição; nós poderemos aumentá-lo em face dessa fragmentação, com a vantagem de sermos um país coeso, de forte unidade e identidade nacional, atraído pelo mar e a mais populosa região ibérica.


Resta sempre uma vontade elucidada e firme que nos tem defendido, mesmo que se tenha como adversa e perigosa, em termos ibéricos, uma só fronteira e a nossa posição geográfica.  
     

22.10.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

27. OPÇÃO ATLÂNTICA E EUROPEIA (II)


Autores há que apesar de aceitarem a opção europeia, a olham com reticências, reforçando a vertente atlântica.  

Falam em estar de novo à vista uma civilização predominantemente marítima, face a crescentes dificuldades de acesso a regiões terrestres detentoras de produtos estratégicos, como o petróleo, que obrigam a pensar em recorrer também ao mar. 

A propósito de tais dificuldades tem-se falado numa revolução estratégica dos Estados Unidos, na qual se englobaria, há anos, um pedido de um porto de abrigo em São Tomé e Príncipe para meios navais e aéreos. O que teria a ver com o valioso veio de petróleo da Nigéria até Angola, via São Tomé, Guiné Equatorial e Cabinda.

Falou-se ainda de uma nova era da NATO, tendo como objetivos, entre outros, constituir no Atlântico Sul uma alternativa petrolífera ao Médio Oriente para pôr, em especial a Europa, menos dependente dele. 

Propôs-se, também, uma eventual aceitação pelos EUA de uma parceria estratégica luso-brasileira no Atlântico Sul para preservar a CPLP da cobiça de potências europeias, como a França, com a sua política francófona de envolvimento no espaço da lusofonia, caso da Guiné-Bissau. Tais factos são tidos como razões que apontam para um reforço da vertente atlântica de Portugal.   

Outra diferença de peso político que é apontada a Portugal, para optar preferencialmente pelo Atlântico sem excluir a Europa, reside no facto de ter sido convidado como membro fundador da NATO, apesar de o seu regime, à data, não ser democrático, sendo então recusada qualquer hipótese de adesão da Espanha, não obstante o seu regime ser idêntico ao português.   

Ressalta, em qualquer situação, que sendo Portugal um país predominantemente atlântico, tem como desígnio estratégico prioritário trazer a lusofonia e a CPLP à Europa e trazer a Europa à lusofonia e à CPLP, rumo a um compromisso europeísta e atlântico global, dado que não se esgota nem completa apenas na continentalidade europeia nem na sua vertente atlântica e marítima. 

 

15.10.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL


26. OPÇÃO ATLÂNTICA E EUROPEIA (I)


A opção atlântica é reconhecida desde sempre como historicamente vital para Portugal, não esgotando todas as suas potencialidades, pelo que se impõe também a opção europeia, desde logo porque parte integrante da Europa.


O problema presente e futuro que se coloca a Portugal é o de compatibilizar e harmonizar estas duas opções. O que indica a conveniência de tirar partido de todas as oportunidades de desenvolvimento e modernização da opção europeia, sem pôr em causa as vantagens oferecidas pela histórica opção atlântica.


Portugal tem interesse em compatibilizar e reforçar desenvolvimento com segurança na diversificação das dependências, gerindo-as para efeitos de sobrevivência, tendo presente que a opção europeia tem a ver com a Europa toda, que como tal lhe dá mais garantias de afirmação da sua identidade em relação a Espanha, encarada, nesta perspetiva, como um país europeu, entre vários. 


Diversificar dependências e relações é parte do caminho certo do desenvolvimento em segurança.


É o que fazem países com desafios e problemas idênticos aos de Portugal, como a Dinamarca (que impôs no Tratado de Maastricht uma cláusula especial proibindo a aquisição de propriedades no seu litoral a estrangeiros, pensando na Alemanha, com que tem uma só fronteira terrestre), a Irlanda, que diversificou as relações e dependências, fazendo da Inglaterra um parceiro europeu, entre outros.


Continentalizações e iberizações de Portugal podem ser compensadas pelo reforço correspondente do seu poder centrífugo, que decorre preferencialmente das potencialidades da sua litoralização, atlantização e universalização.   


Refere, a propósito, Virgílio de Carvalho, que a palavra Mar, aqui utilizada, tem um sentido mais amplo que o do simples meio líquido, “abarcando o sentido do poder marítimo (económico, militar), e ainda tudo o que, duma forma ou de outra, concorre para o centrifugismo económico, cultural e político que torne Portugal no referido país mais euro-atlântico que ibérico, universalista, viável” (A Importância do Mar para Portugal, p. 88).       


Mar que deve ser constituído pelo litoral do continente (locomotiva de desenvolvimento) e o interior a aproximar dele por meio de rios navegáveis e vias terrestres a ele paralelas; os arquipélagos dos Açores e da Madeira; o espaço marítimo e aéreo interterritorial (como área de grande interesse estratégico nacional). E como complemento os países que falam português, caso dos estados membros da CPLP, bem como as comunidades de interesses comuns culturais, económicos e geopolíticos que o possam desejar vir a constituir com Portugal; as potências marítimas (europeias e extraeuropeias) racionalmente interessadas na preservação da individualidade estratégica de Portugal; as comunidades de portugueses e seus descendentes, no estrangeiro, e respetivos países de seu acolhimento.     


Para Portugal é inquestionável que lhe interessa uma política de cooperação com os países que falam português, dado que, se for possível uma concertação de objetivos, de estratégias e meios para os realizar, ela pode redundar em poder negocial e em segurança que lhe são necessários, nomeadamente, como reserva para contrabalançar o desafio europeu. Pode, pois, tal cooperação ser tida como parte e componente universalista do potencial estratégico de Portugal.


Refira-se também o interesse estratégico, económico e cultural da escola de pensamento geopolítico brasileiro, de que é tido como mentor principal o general Golbery do Couto e Silva, que em 1981 disse ser dever do Brasil estar pronto para assumir a defesa do património lusófono criado por Portugal, nomeadamente no Atlântico ao sul do Senegal, caso tal se torne necessário.


08.10.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL


25. INTERROGAÇÕES SOBRE O CASO PORTUGUÊS


A “excecionalidade” do caso português, em termos de existência e sobrevivência é tida como exemplo, por vários autores, tendo como referência imediata o desequilíbrio e desproporção territorial com o único estado vizinho, agudizada pela natureza insular da Península Ibérica, qual ilha, tipo Jangada de Pedra de Saramago, tornando mais surpreendente e enigmática tal realidade.   


Consequência desse enigma ou sociedade paradoxal de que por vezes é apelidado Portugal, ainda não há muito Hans Magnus Enzensberger se interrogava como é que o nosso país, sendo um dos países menos desenvolvidos da Europa, “é capaz de tanta utopia (do sebastianismo à revolução do 25 de Abril de 1974), a tal ponto que seria certamente uma grande potência numa “Europa dos desejos” (citação de Boaventura de Sousa Santos, eds. Afrontamento). 


Acrescenta, na mesma obra, Boaventura Sousa Santos: 


“Apesar de ser um país europeu e de os portugueses serem tidos por um povo afável, aberto e sociável, é Portugal considerado um país relativamente desconhecido. Apesar de ser um país com longa história de fronteiras abertas e de “internacionalismo” das descobertas dos séculos XV e XVI à emigração dos anos sessenta - é considerado um país exótico, idiossincrático. Desconhecimento e exotismo são, pois, temas recorrentes quando se trata de propor uma apreciação global do país e do seu povo. Geralmente crê-se que o exotismo é a causa do desconhecimento. Eu avanço a hipótese oposta, a de que o exotismo é um efeito do desconhecimento. Por outras palavras, sabe-se pouco sobre Portugal e, por isso, se considera ser Portugal um país relativamente exótico” (sublinhado nosso).  


Argumentos históricos, geográficos, étnicos, políticos e outros são tidos como insuficientes para explicação, nem pensamos ser nós, na nossa modéstia, a explicá-lo, o que, por certo, sempre persistirá para os seus defensores, seguramente se aceitarmos que em rigor tudo é subjetivo, tomando como ponto de partida que todas as nossas opiniões e conhecimentos são fruto da perceção individual de cada um de nós. Isso não exclui, contudo, que se tente compreender melhor a existência e sobrevivência de Portugal na sua individualidade e universalidade, rumo a uma perspetiva global e multilateral, a uma pluralidade na diferença, passando pelo nacionalismo, lusofonismo, europeísmo e universalismo.   


Nesta sequência, e prosseguindo, sendo Portugal um país europeu periférico, geograficamente falando, um país pequeno, em dimensão continental, mas não marítima, com poucos recursos naturais imediatamente exploráveis (pense-se nas potencialidades não exploradas relacionadas com o mar), o que faz a sua riqueza, no essencial e agora, e em nossa opinião, são os milhões de portugueses que aqui nasceram, habitam e trabalham, milhões de emigrantes que no exterior lutam por um futuro melhor e as centenas de milhares de imigrantes que entre nós procuram uma vida melhor (recursos humanos).       


Verifica-se, porém, que Portugal depende do exterior para se afirmar como país empreendedor e influente no concerto das nações, bem como para sobreviver melhor que confinado ao seu espaço genético e cronológico. Foi assim no passado, quando decidimos atravessar os oceanos, é assim no presente quando lutamos por uma Europa das Nações. Que esse exterior esteve sempre presente provam-no os vários momentos decisivos e traumáticos da nossa história, em que nos questionámos em termos de Ser, Ter e Dever Ser, tipo interrogações vitais e sempre ultrapassadas, a que não será alheia (também) a singularidade derivada da ancestralidade de uma existência oito vezes secular, a forte identidade e unidade cultural que uma pequenez geográfica maioritariamente permite.    


Se para muitos somos o país mais internacionalizado da União Europeia, em termos humanos, não é menos verdade que herdámos dos fenícios, celtas, iberos, cartagineses, gregos, romanos, árabes, e de todos os demais povos que por aqui passaram, um internacionalismo tolerante.   


Trata-se de um país dependente que sempre soube gerir dependências, que sempre se levantou queda, após queda, que se viabilizou e realizou quando dado como inviável ou irrealizável, que se multiplicou de muitos modos, nomeadamente através da língua, recebendo influências dos povos com que se cruzou, incluindo os que dominou, sem necessidade de se hipostasiar, sem esquecer que a par da permanência de estruturas de longa duração, há caraterísticas que podem alterar-se se as condições estruturais de natureza política, económica, cultural e social se modificarem, o que exclui pretensos e imutáveis carateres intrínsecos de um ser português.   


01.10.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício