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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

17. FERNANDO PESSOA

 

Fernando Pessoa aceita o providencialismo como fundo espiritual do povo português, atestando-o, por exemplo, em A Mensagem”, tida como símbolo de uma verdade providencial explicitamente assumida como destino sagrado de Portugal.   

 

Assim o parece ter pensado, entre outros, Agostinho da Silva, ao escrever:

 

“Mas eu suponho que Fernando Pessoa pensa que Portugal não teve apenas um papel histórico num certo século, para mostrar ao mundo o que era o mundo, que foi o que Portugal fez, mas que precisa continuar essa obra e passar agora a outro descobrimento muito mais importante, que é o descobrimento da natureza humana e da sua realização plena. Que Portugal apenas descobriu ao mundo o mundo material, descobriu os outros continentes, mas que precisa agora que as pessoas descubram, não apenas o mundo que têm fora de si, mas o mundo que dentro de si têm” (entrevista a Antónia de Sousa, publicada no diário de Notícias de 06/12/94). 

 

Conjuga de um modo muito atual nacionalismo, universalismo e europeísmo. A conciliação de opostos faz-se por assimilação e absorção, sendo essa capacidade, a de ser tudo, que define a verdadeira essência de Ser Português.   

 

Quanto mais formos tudo, mais europeus e universais seremos.

 

Escreve, a propósito:  


“O futuro de Portugal … é sermos tudo. Quem, quer que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro, pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único Deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a Terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade” (Revista Portuguesa, nºs 23-24, 13/10/23).

 

“Tudo está em tudo”, tida como uma fascinante e fundamental teoria do século XXI, em que impera a ciência da complexidade, face à qual o local é global e o global é local, eis o que um dos vultos da nossa história (e universal) defendia. 

 

Eis um Pessoa heterodoxo em relação a todas as crenças e teorias estéticas.

 

Apesar do futuro de Portugal se centrar, uma vez mais, à semelhança de Pascoaes e Agostinho da Silva, no seu passado.    

 

07.05.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

 

16. TEIXEIRA DE PASCOAES

 

O futuro de Portugal, em Teixeira de Pascoaes, centra-se no seu passado.

 

A intenção nacionalista de Pascoaes é operar a reconversão do espírito decadente português num espírito glorioso e vencedor, exemplar para os restantes povos europeus, dignificando, deste modo, a imagem de Portugal sobre si próprio, contrariando a imagem de exterior à margem do progresso e de inferiorização que a consciência nacional tinha de si própria.

 

Embora não conteste a noção de decadência, deslocaliza o ponto de focagem, deslocalização essa em função da qual ganha um outro sentido a construção dessa imagem. Os descobrimentos deixam de ser vistos, como até aí,  exemplo do único, verdadeiro e real apogeu de Portugal, para serem tidos como mero sinal material, visível, da que será, de facto, a verdadeira aventura de Portugal: a aventura espiritual. Em A Era Lusíada, escreve: “Sim a alma lusitana tem de completar a sua obra iniciada com as Descobertas. (…) Ela precisa, enfim, de concluir espiritualmente o que materialmente iniciou, porque a vida corpórea é o meio, mas a vida espiritual é o fim”.

 

Reconhece ao povo português duas grandes qualidades: o Génio Aventureiro e o Temperamento Messiânico. No tempo em que o poder de aventura se media em função do território conquistado, Portugal cumpria a sua missão dando “novos mundos ao mundo”. Agora, de novo o génio aventureiro, mas em sentido espiritual, se tornava o motor da evolução humana, e novamente Portugal poderia dar “novos mundos ao mundo”. Portugal mantivera sempre as mesmas qualidades no decurso da sua existência, pelo que o seu caráter saudoso, que o leva à aventura, teria sido sempre o mesmo ao longo dos tempos. Simplesmente, o que cada época exige aos homens e às nações é que é diferente. E quando se trata de Aventura, material ou espiritual, Portugal tem sempre o poder de guia. Daí que a “Nova Era” fosse, por direito natural, lusíada. Daí que quisesse transformar a Saudade, tida como aventura espiritual, em motor de ressurgimento pátrio e, até, universal, ou seja, uma nova forma de civilização, a civilização lusitana da Saudade.

 

Sendo a Saudade a própria fisionomia da raça, o perfil inconfundível do povo português, quanto mais português e mais saudoso se for, mais universal se será, assentando a Nova Era Lusíada (em que de novo Portugal será guia da humanidade, mas em termos espirituais), numa conjugação entre nacionalismo e universalismo.

 

Com as suas “Epístolas aos Saudosistas”, publicadas na revista A Águia, em 1913, António Sérgio viria a inaugurar uma polémica célebre com Pascoaes, ao perguntar: “Quem é que vive principalmente da saudade? Os velhos, e os desgraçados a quem a morte levou uma pessoa muito querida. Ora, em ambos os casos se nota, acompanhando sempre a saudade, o horror do novo, o ódio ao movimento, um protesto contra a lei da mobilidade e do devir. Para o velho só merecem estimação as coisas do seu tempo - a juventude do seu tempo, os costumes do seu tempo, as cantoras do seu tempo. Toda a variação foi uma queda, e todo o mobilismo o indispõe”.  

 

Na sua resposta Pascoaes irá replicar que Sérgio erra ao pensar assim, “quando afirma que a Saudade é retrógada e paralítica… Não resulta ela da combinação ativa e amorosa dos dois princípios da Vida? (…) Sim: a Saudade é a grande criadora do Futuro, mas não tira o Futuro do Nada, não consegue um Futuro de geração espontânea ou caído miraculosamente das estrelas. Ela constrói o Futuro com a matéria do Passado…”, elegendo, em Portugal, como primeiro poeta da Saudade, o Povo.

 

Em relação à Europa Pascoais pretende preservar a especificidade no convívio com as demais nações europeias, onde levará a cabo a sua missão providencial: “É muito possível que os povos cultos da Europa, a certa altura do seu avanço vertiginoso e científico, descansem um pouco e volvam os olhos para nós. Pois toda a sua vida se resume em duas palavras: ciência e indústria….Vida é a atividade, mas, antes de tudo, atividade de alma…” (O Paroxismo, em A Águia, Porto, 2.ª série, vol. V, n.º 30, junho, 1914, pp. 166-168). 

 

Portugal é, porque existe uma alma autenticamente portuguesa e incontestavelmente lusitana, procurando curar o “corpo doente” pela reabilitação da sua alma, assim se aproximando e afastando da Geração de 70. Aproxima-se pela consciência de crise e pela procura de soluções para normalizar o país na sua grandeza ideal; afasta-se porque enquanto aquela, voltando os olhos para o exterior, pretendia europeizar Portugal em termos civilizacionais, já Pascoais ao impor Portugal como nação o fazia perder qualquer complexo de inferioridade em relação à Europa (em paralelo com outros, como Agostinho da Silva). 

 

Não se pense que este providencialismo, misticismo ou messianismo, esta atração pela invenção de um país imaginário que possa eximir-se à futilidade do país real não tenha tido seguidores.

 

Teve-os, como o confirma o mentor do agrupamento musical mais internacional de todos os tempos da música portuguesa, Pedro Ayres Magalhães, dos Madredeus, ao afirmar: “Não há nenhum escritor da portugalidade - exceto Teixeira de Pascoes - que tenha documentado a ligação terra-espírito, que foi sempre o nosso grande trunfo. O Pessoa tem a desculpa de ter vivido sempre fechado em casa. É evidente que ele é o vate de uma grande metade da alma portuguesa - mas fica-se por aí”.    

 

 

30.04.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

15. GERIR DEPENDÊNCIAS E ANTECIPAR ESTRATÉGIAS CULTURAIS

 

Quanto a influências exteriores e à importação do que vem de fora, é sempre positivo, para alguns, revelando a nossa grande capacidade de apropriação e absorção, sendo negativo, para outros, porque sintoma de uma subserviência acrítica, por vezes excessiva.

 

Há que encontrar um equilíbrio, expurgando extremos, pelo facto de não podermos ser imunes ao que vem do exterior e termos o dever de preservar o que nos particulariza e faz sobressair pela positiva perante os outros.

 

Estando na era da globalização, não nos podemos acomodar, pelo que temos de antecipar estratégias a nível ambiental, económico, social, sem nunca esquecer a vertente cultural, tendo presente que somos um país não exclusivamente  eurocêntrico, pois além de europeus, sempre tivemos uma ligação forte com outros continentes, através dos oceanos Atlântico e Índico, não podendo, de repente, no presente, virar as costas a um passado histórico e construir um futuro que privilegie tão só a Europa, a União Europeia ou uma aproximação ibérica.   

 

Daí a importância de uma aposta na diversificação das dependências, sobrevivendo sabendo-as gerir, via relações a todos os níveis.

 

No plano cultural há uma necessidade premente de consagrarmos o que somos pela imagem, pela força condensada e cada vez mais velocista e universal do audiovisual.

 

É inquietante a ausência de filmes e séries sobre figuras da nossa história, algumas delas evocadas e homenageadas mundialmente, como os navegadores portugueses Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães no museu da navegação da cidade portuária de Hamburgo, na Alemanha, onde estão os seus bustos, entre os sete grandes navegadores de todos os tempos aí recordados e reconhecidos (em paralelo com o viking Leif Eriksson, o chinês Zheng He, o inglês James Cook e Colombo). 

 

Outros podem ser lembrados, e são muitos, desde Viriato, Afonso Henriques, D. Dinis, Nuno Álvares Pereira, D. João I, D. Filipa de Lencastre, a Ínclita Geração (Infantes D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. João, D. Fernando e a Infanta Isabel de Portugal, Duquesa da Borgonha), Gil Eanes, Diogo Cão, Duarte Pacheco Pereira, os irmãos Corte-Real, Pedro Álvares Cabral, Diogo Álvares Correia (Caramuru), Catarina Álvares Caramuru (Paraguaçú), Damião de Gois, João de Barros, Garcia de Orta, Pedro Nunes, D. João II, Afonso de Paiva, Pero da Covilhã, D. Leonor (fundadora das Misericórdias), D. Manuel I, D. Lourenço de Almeida, D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque, Tristão da Cunha (uma ilha que descobriu, ainda hoje tem o seu nome), Jorge Álvares, Tomé Pires, Fernão Mendes Pinto, padre António de Andrade (Tibete), D. João IV, entre muitos da literatura, ciência, política e outra áreas (por exemplo, São João de Deus e a ordem dos Hospitaleiros), muitos de prioridade estratégica nacional e universal. Todos eles suportes da presença portuguesa no mundo. 

 

Com o argumento da ausência de dinheiro para a cultura, para frivolidades, ninharias ou coisas fúteis, abdicamos a favor de outros o testemunho da nossa História, tantas vezes tratada com desdém ou sobranceria, ao arrepio da verdade histórica, como na série britânica “Os Tudor”, em que a corte do reinado de D. Manuel I é representada como um albergue acolhedor de seres exóticos, atrasados e bafientos.   

 

Cada vez mais, nos tempos atuais, um país sem imagens é um país “ausente e “sem história”.        

 

09.04.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

14. SUICÍDIO E PESSIMISMO NACIONAL EM MANUEL LARANJEIRA (III)  

 

Suicídios célebres foram usados por Laranjeira para interpretar o país e o seu pessimismo. Em 1889, Soares dos Reis; em 1890, Camilo de Castelo Branco; em 1891, Antero de Quental.

 

Embora no primeiro artigo de Pessimismo Nacional os não tenha como um sintoma de condenação da raça portuguesa, em missiva a Miguel de Unamuno, de 28.10.1908, é mais apocalíptico, ao escrever:    

 

“Amigo: 
Não imagina o prazer que senti ao saber que V., espírito superior, andava a compor um livro sobre as coisas da minha terra, desta minha tão desgraçada terra de Portugal.  Desgraçada - é a palavra.
   

 

O pessimismo suicida de Antero de Quental, de Soares dos Reis, de Camilo, mesmo do próprio Alexandre Herculano (que se suicidou pelo isolamento como os monges) não são flores negras e artificiais de decadentismo literário. Essas estranhas figuras de trágica desesperação irrompem espontaneamente, como árvores envenenadas, do seio da Terra Portuguesa. São nossas: são portuguesas: pagaram por todos: expiaram as desgraças de todos nós. Dir-se-ia que foi toda uma raça que se suicidou.

 

Em Portugal chegou-se a este princípio de filosofia desesperada - o suicídio é um recurso nobre, é uma espécie de redenção moral. Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa”[1]         

 

Laranjeira suicidar-se-ia em 22.02.1912.

 

Ter-se-á tratado duma consequência natural do rumo que a vida portuguesa tinha tomado e da inviabilidade de mudá-lo?     

 

Centrando-nos em Laranjeira, o seu pensamento é duma leitura decadentista de apatia, desânimo, azedume, morbidez, falsa felicidade, tédio, angústia temporal e inquietação metafísica, mundo de engano e fuga em busca da “terra prometida”, deísmo e panteísmo, aceitação do suicídio como decisão pessoal e libertadora.

 

Nada era excêntrico, nem originariamente português, a Europa atravessava uma densa crise de pessimismo, o tédio dos tempos. E Laranjeira era conhecedor das ideias de Durkheim, Schopenhauer, Nordau, Hartman, Nietzche e Darwin.

 

Há aqui um pessimismo importado do exterior, adaptado internamente.

 

De alguns países tidos como mais vanguardistas e civilizados, onde também houve suicidas célebres: Gerard de Nerval (1855), Van Gogh (1890), Tchaikovski (1893), Angel Ganivet (1898), Otto Weininger (1903), Ludwig Boltzmann (1906), Paul Lafargue (1911), Kitty Melrose (1912), Peyo Yanorov (1914), Jack London (1916). E para quem queira reforçar com Mário de Sá Carneiro (1916), Florbela Espanca (1930), ou outro/s, um pretenso pendor suicida português, podem citar-se Kostas Kariotakis, Charlotte Mew (1928), Dora Carrington, George Eastman, Hart Crane, Santos-Dumont (1932), Alfonsina Storni (1938), Virginia Woolf (1941), Hemingway (1961). 

 

Inventário a que acresce Rousseau, Tolstoi ou Kafka, que se “suicidaram” pela fuga ou solidão, por analogia com o “suicídio de isolamento” (ou exílio mental) de Herculano na sugestão de Laranjeira.

 

Se assim é, não visualizamos o intrínseco pendor para a tão fadada desgraça suicidária que carateriza a nossa raça, em que teve contributo decisivo Manuel Laranjeira, influenciando Unamuno com a publicação de Portugal Povo de Suicidas, não obstante na geração do escritor espanhol ter havido um suicídio célebre, o de Ganivet, em paralelo e por confronto com a do seu parceiro português, cuja vítima foi o próprio amigo de Espinho.   

 

Excluída a hipótese do suicídio ser diretamente proporcional ao maior ou menor grau de desenvolvimento dos povos, porquê este desespero suicidário de Laranjeira? 

 

Para Jorge de Sena, morreu ou suicidou-se de indigestão do seu “moi haissable”[2], realçando uma sua face: “Em Espinho, no Verão, o desporto que incansavelmente praticava, pela praia, casino, teatro e cinema, era o flirt. Entre Maio de 1908 e Março de 1909, Laranjeira deitou as suas vistas sobre 18 mulheres, antigas amantes, prostitutas, possíveis amantes. Teve então como companheira uma “criatura do povo”, com quem passeava em público para escandalizar as classes médias. Não queria que as suas relações amorosas fossem mais que a satisfação da “carne indisciplinada”. Mas eram. (…) - “e essa alegria assusta-me”.[3]     

 

Teve dois filhos, à data ilegítimos, de relações com uma criada e uma “criatura do povo”, ambos morrendo cedo. De figura desalinhada, abusava do café e tabaco, tinha insónias e passava noites a escrever, após boémias e tertúlias, frequentando os “ex-libris” da vila. Não surpreende ser, para muitos, de um egoísmo mortal, exercendo a Medicina sem grande vocação, não se libertando do estado de espírito melancólico via ocupação quotidiana. Outros apelidavam-no de “médico dos pobres”, salientando uma vertente solidária. A sua vida foi ainda um convívio perene com a ameaça da morte, pelo rol de doenças e perturbações de que sofria, de modo ocasional ou crónico: sífilis, tísica, ataxia, asmas e febres, doença hepática, neurose, histeria, neurastenia, psicastenia, crises nervosas, um sentidor maior que um pensador.

 

Amargurado pelos seus males físicos e fealdade, tendo a vida como uma comédia cruel e dolorosa numa visão naturalista aplicada à sua vivência, conjugada com a apologia da morte voluntária, defendida por Nietszche, que o influenciou, a sua opção final indicia um suicídio egoístico causado por uma insuficiência de integração na sociedade, em que a doença e o decadentismo grandemente importado foram determinantes, e nem sequer a tão ansiada República o salvou, suicidando-se quase 17 meses após a sua implantação, anulando-lhe qualquer perspetiva messiânica. 

 

Conclui-se ser premente combater uma tendência para ir buscar sistematicamente o que nos apouca, criando estereótipos caricatos, perspetivas redutoras que tombam por confronto com o Outro, sabido que no tempo dos “Vencidos da Vida” nos visitou uma estrangeira, a princesa Rattazzi, que se cruzou com outros portugueses e escreveu que “Les portugais sont toujours gais”[4], decerto menos cultos, mas que tinham de si próprios uma imagem mais segura e alegre.  

  

19.02.2019   
Joaquim Miguel de Morgado Patrício
   

 

 

[1] Obra cit., pp. 5 e 6, incluindo duas cartas de Laranjeira a Miguel de Unamuno sobre o mesmo tema. 
[2] Em O Poeta é um Fingidor, Colecção Ensaios, Lisboa., Edições Ática, 1960, p. 126.
[3] Rui Ramos, Portugal Naturalista, p. 319, VI Volume da História de Portugal, direção de José Mattoso, Círculo de Leitoras, 1994. 
[4] Maria Rattazzi, Portugal de Relance, Antígona, Lisboa, 1997.

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

13. O PESSIMISMO NACIONAL EM MANUEL LARANJEIRA (II)  

               

 Mas há um pessimismo associado a uma ideia de decadência, em que o analfabetismo e a ausência de educação eram para Laranjeira a base primordial do decadentismo nacional, perante o facto de quatro quintos da população portuguesa ser analfabeta, o desencontro e a incapacidade de comunicação de uma minoria civilizada e intelectualmente desenvolvida com a restante sociedade, não sabendo ou não podendo impor-se à maioria da nação arrastando-a consigo, origem dum desnivelamento causador duma crise sobreaguda de pessimismo.   

 

Conclui: “O nosso pessimismo quer dizer apenas isto: que em Portugal existe um povo, em que há, devoradas por uma polilha parasitária e dirigente, uma maioria que sofre porque a não educam e uma minoria que sofre porque a maioria não é educada” (ib., pg.ª 41).     

 

A deficiência educativa é tida como insuficiência determinante do processo coletivo de sobrevivência, o que se reflete na inferioridade social da maioria da população: “Incapaz de receber ideias e sentimentos, o cérebro da grande massa da sociedade portuguesa, em virtude daquele princípio lamarkeano que condena à morte o órgão que não trabalha, definha-se, atrofia-se, lenhifica-se, e a alma portuguesa estagna na tranquilidade morta das águas paludosas”, acrescentando: “(…) a única coisa que espanta (…) é a pasmosa resistência deste desgraçado povo” (ib., pp. 32, 33), propondo uma educação intensiva. 

 

Se o povo existia, era preciso educá-lo. Corroborado pelo avanço educativo numa elite reduzida, que apesar de intelectualmente superior e credível, sobrepunha ao ideal de Pátria o de Humanidade, desajustando-se da realidade interna. Impunha-se refazer tudo, refundindo a sociedade de baixo a cima, abatendo velhos messias e transformando a monarquia numa sociedade livre e num novo regime, a República, a qual, uma vez vingada, não foi para Laranjeira a República desejada.

 

Se é verdade que a ignorância do povo português era, infelizmente, incontestável, decorridos 100 anos ainda se mantêm alguns diagnósticos, apesar de profundas transformações.   

 

Mesmo atenuada, permanece a distância entre as elites e o povo, agravada por uma incapacidade daquelas em desencadearem movimentos sociais de relevo, o que implica uma análise deformada ou hipostasiada da realidade portuguesa, tendo havido sempre minorias defensoras do culto da manutenção do poder na base da ignorância, gerando a falta de democratização fracas elites e menos por onde escolher. 

 

Por outro lado, existindo uma minoria dependente intimamente do Estado, nela se concentrando desproporcionalmente o poder e os recursos, ter-se-á gerado a convicção, para muitos, da inutilidade de participar nas decisões e assunção de responsabilidades.

 

Mesmo com a democratização e universalização do ensino, cada vez são menos os que sabem muito e de tudo, ao lado do analfabetismo funcional dos outros.       

 

12.02.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

12. O PESSIMISMO NACIONAL EM MANUEL LARANJEIRA (I)

 

O pequeno livro tem um título chamativo - O Pessimismo Nacional (Frenesi, Lisboa, MMIX). O autor, Manuel Laranjeira, é um protótipo do pessimismo instintivo, a que não é alheio o seu suicídio. Ao “deprimir e denegrir a pátria”, como “hábito inato”, tenta-se incutir a toda a sua obra uma desfiguração que se justifica por vezes corrigir. É o caso dos artigos sobre O Pessimismo Nacional[1], comummente não os referindo como o que na realidade são, no geral interpretados como apologia dum pessimismo estruturalmente português.   

 

Esse artifício interpretativo sobressai no interior da contracapa, onde se escreve a impossibilidade atual de subscrever “(…) com iguais ilusões o otimismo generoso de que o seu Autor parecia possuído quando os publicou”, rematando: “Aliás, a morte que Manuel Laranjeira a si próprio deu, pouco depois, não significará que foi ele o primeiro a desesperar? E não chegaria essa antecipação definidora para justificar o nosso presente pessimismo, tão negro e tão magoado como o que o levou, numa hora triste, àquele seu gesto de renúncia final?”  

 

Este desfigurar do texto a partir do seu título, corrobora o culto de um pessimismo doentio, estrutural e permanente, conducente a um fim fatal, que vive, entre nós, nalguma intelectualidade e imprensa, tentando fazê-lo corresponder a um pessimismo ainda maior, que o que advém da análise dum fenómeno epocal em que se defendia a regeneração da vontade coletiva e o suprimento das disfunções e injustiças na nossa sociedade através dum otimismo esperançoso, embora amargo.

 

O pessimismo de Laranjeira não é “(…) a manifestação clara, iniludível, dum esgotamento senil, degenerativo, doloroso, (…) o estado desesperadamente agónico dum povo como entidade coletiva”, uma degeneração “orgânica” do tipo Crepúsculo dos Povos (à Max Nordau), antes sim uma dificuldade adaptativa passageira, de génese normal, antes sim, nas palavras do autor, “(…) uma perturbação de crise evolutiva, significando apenas que os povos se transformam e progridem, embora penosamente” (ibidem, pg.ª 20), não nos vendo como um povo irremediavelmente perdido. 

 

Ao invés do pessimista degenerado, que o é por vício constitucional e defeito estrutural, derivado de insuficiência congénita imodificável, Laranjeira vê o pessimismo nacional como uma deficiência momentânea, a que o português, ou qualquer outro ser humano normal, temporariamente se adapta, sinal de que Portugal tem futuro.

 

Indicia-se a negação da permanência de estruturas de longa duração relacionadas com características comuns e inalteráveis dos portugueses, podendo-se alterar se as condições estruturais de natureza cultural, económica e social se modificarem.

 

E escreve: “Submeta-se esse desgraçado povo, criminosamente desprezado e levianamente caluniado, à prova decisiva: eduquem-no, intensivamente, tenazmente, sem desfalecimento, e vê-lo-ão florescer e progredir como os povos cheios de saúde” (ibidem, pg.ª 37)   

 

Bastará uma retrospetiva da nossa História para refutarmos o pessimismo mórbido de tendência degenerativa e esgotamento agónico, dado que não somos um povo corroído de senescência. Nem basta dizê-lo, é imperioso prová-lo, não se podendo concluir de imediato, em face duma crise, sermos um povo irrefutavelmente perdido. Aceitá-lo seria negar a excelente adaptação dos portugueses a qualquer meio-ambiente e em qualquer tempo e lugar, o seu grande ativo de aptidão para lidar com outras culturas, a nossa longevidade histórica de mais de 800 anos.

 

O que também prova que não há uma psicologia indiscutível dos povos, apesar da História estar a perder impacto sobre as crenças imediatistas do presente além de, nos nossos dias, um pessimismo mais catastrofista ser fomentado fortemente pelos media.  

      

05.02.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 


[1] Saíram pela primeira vez no jornal O Norte, diário republicano da manhã, do Porto, em 24 e 31/12/1907 e 07/01 e 14/01/1908.

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

11. O CULTO DE DIZER MAL DE NÓS

 

Há que expurgar determinada fatalidade, crítica ou indiferença resignada a que tantos portugueses se agarram, a que não é alheia uma auto-flagelação, miserabilismo e pessimismo de que se faz eco, entre nós, uma certa elite pensante detentora de domínio e prestígio sobre o grupo social, uma certa filosofia e imprensa portuguesa onde se faz o culto de tudo o que nos inferioriza, com um especial gosto tendencioso, tido como real (mesmo quando falso), de nos fazer sobressair com o que existe de pior na Europa omitindo, tantas vezes, o que temos de bom ou de melhor.

 

Com o recurso tão frequente, entre nós, ao país mais atrasado da Europa em tudo ou quase tudo, em último lugar em tudo o que é bom e em primeiro no que é mau,  falseando intencionalmente ou por ignorância a verdade, quando a Europa é constituída por mais de quarenta países, generalizando-se (muitas vezes) a todo o continente europeu ou a toda a União Europeia o que se deveria generalizar, comparativamente e por confronto, e tão só, a todos ou alguns países da UE ou da Europa Ocidental.

 

Isto prova, quanto a nós, portugueses, que não é só o “ferrete” dos antigos emigrantes analfabetos, incultos e pobres que deu causa à aludida inferiorização.

 

Por exemplo, em termos europeus, e agarrando mais de perto o continente de que fazemos parte, integram a Europa os seguintes países: Islândia, Irlanda, Reino Unido, Portugal, Espanha, França, Luxemburgo, Bélgica, Holanda, Alemanha, Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorrússia, Ucrânia, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Áustria, Suíça, Itália, Eslovénia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Sérvia, Kosovo, Albânia, Grécia, República da Macedónia, Bulgária, Roménia, República Moldova, Chipre, Malta, bem como a Turquia, Azerbaijão e Cazaquistão (transcontinentais, com parte europeia e asiática, em paralelo com a Rússia), sem esquecer a Geórgia, Arménia (tido como um país político, social e culturalmente europeu), Andorra, Mónaco, Listenstaine, São Marinho e o Estado do Vaticano. Não será faltar impudentemente à verdade dizer-se (com assiduidade) que Portugal é o último, segundo, terceiro ou quarto país mais atrasado a nível europeu, quando os elementos conhecidos, em termos estatísticos, de estudo ou investigação, na maioria das áreas, contemplam apenas, e tantas vezes, oito, dez, quinze, vinte países (por vezes menos) num universo de mais de quatro dezenas de países? O mesmo relevando, com inerentes adaptações, em escala menor, a nível do total de membros da UE e do ocidente europeu. 

 

Por maioria de razão se tivermos presente existirem duzentos países (por arredondamento) a nível global.

 

Permanece uma conceção eurocêntrica e imperial, em que o centro nuclear planetário, por excelência, continua a ser a Europa, em detrimento dos demais continentes, em maioria.

 

Há que excluir este culto doentio de um discurso catastrofista, interessado em só nos diminuir, apetecendo concluir que, a termos tanto queixume, por maioria de razão têm legitimidade para o ter a quase totalidade dos Outros, porque excluídos das sociedades 15% a 20% mais ricas e desenvolvidas do mundo onde, mesmo assim, nos incluímos.

 

Há que combater uma visão “egocêntrica negativa” de quem se acha pobre por se comparar apenas com os mais ricos, de um povo que regressou ao ponto de partida após longas viagens, findo o Império e superada (ou não) a depressão, à semelhança do que sucede, em maior ou menor grau, em antigas potências coloniais como a Inglaterra, França, Países Baixos e Espanha.

 

Trata-se de um estranho culto de dizer mal de nós próprios, essencialmente no nosso país, menorizando-o e menosprezando-o com qualificativos que vêm de longe, como a piolheira, a parvónia, a parvalheira, a espelunca e a choldra, sem qualquer fundamento sólido, como o provam a  nossa história e marcas deixadas pelo mundo, e em contraste com a natureza privilegiada que os nossos emigrantes e o português em geral usufruem no estrangeiro.   

 

O que não exclui uma crítica pedagógica e construtiva pela positiva, sempre e quando   necessário, mesmo que em si não favorável, tomando como referência, por exemplo, países mais evoluídos e adequadamente proporcionais em dimensão, população e inovação, tendo-se como melhor pedagogia a análise que potencia o que há de melhor e não a que só sabe realçar o que está mal.

 

O que não nos impede de sonhar com outro país, sempre para melhor, sem azedumes, desancar por desancar e sem sermos facciosos.             

 

Joaquim Miguel de Morgado Patrício
29.01.2019 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

10. OVER FLOW - UM EXCESSO FLUTUANTE E TRANSBORDANTE

CENA MARÍTIMA DE PESADELO AMBIENTAL GLOBAL E NACIONAL  

 

“Tendo em conta a relação de proximidade do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), com o rio e o mar, que desagua logo ali, achei que talvez fosse uma oportunidade interessante olhar para este planeta de plástico em que vivemos, procurar uma perspetiva crítica”.

 

Palavras do artista japonês Tadashi Kawamata, que o MAAT, em Lisboa, convidou para a sua primeira exposição em Portugal, que ocupa a sala principal do museu, a Galeria Oval, abordando um dos mais graves problemas ambientais do nosso planeta, o plástico, numa instalação submersa onde os detritos plásticos dos oceanos são o foco nuclear.

 

Garrafas, garrafões, bidões, cordas, brinquedos, grades, baldes, vassouras, esfregonas, pás, recipientes de lixo, embalagens de iogurte, de sumos, escovas de dentes, palhinhas, cotonetes, sacos, chinelos, sapatos, peças de automóveis, de barcos, boias, redes e armadilhas de pesca, tudo em plástico, eis os ingredientes, entre outros, que fazem parte desta cena marítima de pesadelo ambiental.

 

São centenas de quilos de detritos plásticos recolhidos à mão em praias portuguesas, lixo produzido em Portugal e em muitos continentes, graças a uma rede de colaborações que se manteve ao longo de um ano de investigação, planeamento e montagem, tendo como resultado final uma malha de cabos cruzados simulando a linha de superfície da água, em que estão suspensos materiais plásticos que materializam uma paisagem náutica e marítima que corporiza uma das mais graves ameaças ambientais que enfrentamos, de momento, na Terra. 

 

Imagem do mundo de hoje, com demasiada produção, demasiado consumo, demasiada massificação, um excesso transbordante, em que o visitante “(…) não só submerge num vasto interior escultórico, como é também convidado a mergulhar na evocação de uma paisagem marítima imaginária onde, como por efeito de uma catástrofe, os seres vivos foram substituídos pelos escombros da civilização humana” (disponível no esboço da exposição no MAAT).   

 

É uma experiência de pura contemplação, vista de cima para baixo, à medida que descemos, gradualmente e num círculo oval, do plano superior de entrada na galeria para o piso inferior, e vista de baixo para cima, numa experiência contemplativa e imersiva a partir de um ponto de observação subaquático, simulando olhar-se para cima do fundo do mar.

 

Eis um excesso excessivo, flutuante e transbordante de material plástico. 

 

Uma embriaguez de plástico com oceanos transformados em caixotes de lixo.

 

Um pesadelo ambiental de lixeira, entulho e poluição marítima que nos acusa e questiona.

 

Sendo o plástico um material que dura para sempre, em vez de desaparecer, acumula-se, parte-se em pedaços cada vez mais pequenos, em micropartículas, que entram na corrente sanguínea dos animais e, tantas vezes, por meio destes, nas pessoas.

 

E sendo o mar o maior ecossistema da Terra e a sua principal garantia de habitabilidade, produzindo quase metade do oxigénio que se respira e absorvendo uma percentagem significativa do dióxido de carbono que emitimos, melhor se compreende - dizem os especialistas - que em nenhum sistema natural o impacto do plástico é tão danoso quanto no mar.   

 

De uma descoberta inovadora e revolucionária, flexível e versátil, de sentido democrático e garante de uma acessibilidade universal, o plástico tornou-se, com o seu excesso massificador e transbordante, uma força destrutiva e um pesadelo do meio ambiente, com especial enfoque no mar.

 

Calcula-se que haja, neste momento, 150 milhões de toneladas de plástico no mar, prevendo-se, se a espiral de produção continuar, que sejam 250 milhões em 2025, uma tonelada de plástico por cada três toneladas de peixe, podendo em 2050 o peso de plástico ser superior ao de peixe, e que apenas 1% das aves marinhas do planeta não terá ingerido plástico nem o terá no seu organismo, acabando por entrar na cadeia alimentar,  à medida que se transformam em “microplásticos”.

 

Toda esta consciência ecológica que nos angustia, interpela e faz pensar, sobressai nesta exposição, sendo de uma pedagogia acutilante e instrutiva, apelando a coisas simples que todos podemos fazer, concluindo:    

 

“Ao longo das últimas décadas acreditámos que o problema do plástico seria possível de resolução através da reciclagem. Hoje sabemos que a melhor maneira de impedir a produção de lixo é fazer com que nada chegue a tornar-se”.   

 

Na Galeria Oval do MAAT, até 1 de abril de 2019 (patente desde 5 de outubro deste ano). 

 

06.11.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

9. NÃO CULPEM NEM SACRALIZEM O MAR (III)

 

Há necessidade de olhar para o mar através do encontro de culturas que é visível na arte, monumentos, religião, costumes e tradições deixados pelo interagir recíproco a partir das primeiras viagens, e em que ressalta, nos nossos dias, a disseminação da língua portuguesa pelos descobrimentos, pela diáspora lusíada, lusófona e contemporânea, pelo seu potencial geoestratégico, o que decorre, em primeiro lugar, de ter sido capaz de atravessar vários espaços geográficos deslocalizados territorialmente e alcançados pelo mar, numa descontinuidade linguística.

 

Se foi o mar, e não a UE nem a continentalidade europeia, que foi essencial para a internacionalização e vanguardismo de uma língua que não é apenas nossa, se é verdade que Portugal só é um país pequeno se lhe retirarmos o mar, tudo aconselha a uma mudança de atitude assente no facto de ser para nós um recurso estratégico, mas também, desde logo, para a Europa e o mundo lusófono, de que somos parte, por direito próprio.

 

Há um mar de oportunidades perdidas, há potencial que tem de se concretizar, há que recolher amostras no âmbito do projeto de extensão da plataforma continental que vai permitir ampliar a área de soberania autorizada pela convenção das Nações Unidas sobre o direito do mar, há que catalogar, compreender, estudar e valorizar os seus recursos naturais, há que navegá-lo e explorá-lo em vez de apenas contemplá-lo. Desde os usos tradicionais como as pescas, construção naval, transportes e turismo, às energias renováveis, indústria eólica, criação de algas para produção de biocombustíveis e biomassa, expansão da aquacultura, exploração offshore de gás e petróleo, fixação de reservas marinhas para preservação da biodiversidade, desenvolvimento da biotecnologia marinha para a indústria farmacêutica, de cosmética e alimentar, extração de novos metais e minerais. Sem esquecer uma governação integrada do mar, onde também estão presentes o ambiente, a ciência, a defesa, a diplomacia, a cultura, incluindo a língua, a literatura e as artes em geral.   

 

Paradoxal e significativo que a cerimónia de assinatura de adesão à CEE tenha ocorrido nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, celebrizando a importância do mar para Portugal, para a Europa e para o mundo e a que demos, via oceano, uma contribuição específica para a globalização planetária.   

 

Sem excluir as coexistências, urge que o mar volte a ter um significado e um valor especial para Portugal.

 

Sem o culpar nem sacralizar.

 

30.10.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

8. NÃO CULPEM NEM SACRALIZEM O MAR (II) 

 

Mas há quem culpe o mar:       

 

“Mas o mar, o Atlântico, desequilibrou-nos. Ao pé da sedução e do mistério do mar, tudo é relativo. Tudo é pouco. A dificuldade de motivação que os Portugueses têm e a sua dependência do carisma motivador de alguém vêm daí”.

 

“Faz-nos olhar para o fim das coisas sem olhar para o princípio ou para o meio delas”, pelo que “Os Portugueses, de uma forma geral, confundem desejo com vontade, fantasia com ambição, improvisação com genialidade, esforço com método, impunidade com tolerância”.

 

Daí a culpa, em todo o caso, ser do mar e, por contraditório que pareça, “O mar tem sempre razão, diz-nos a nossa identidade”[1].     

 

Ter como caraterísticas duradouras, senão mesmo como carateres intrínsecos dos portugueses, por exemplo, uma alegada dificuldade de motivação, falta de método e incapacidade de planeamento aliada ao talento para improvisar, em consonância com o mistério do mar, que nos atrai e torna difícil distinguir o sonho da realidade, é redutor, simplificando, em demasia, o que é complexo. Tê-las como resultantes do modo de ser português, em que a culpa é do mar, que torna tudo pouco, indiferente e relativo, é esquecer que aquelas são sempre suscetíveis de modificação, em razão de condições culturais, económicas, sociais, ou outras, alterando os nossos carateres comportamentais à medida que se altera a natureza estrutural de tais condições.  

 

Se o mar “desequilibra” na sua imensidão avassaladora e misteriosa, como se justifica que não vingue igual raciocínio, em paralelo ou por analogia, em relação a países como a pequena e rica Dinamarca, com uma única fronteira terrestre (como nós), por sinal com a poderosa Alemanha? E por que não quanto a outros, também confrontados com a relevante componente marítima, realçando o que lhe devem em competitividade, liberdade, individualidade, riqueza e soberania, como Singapura, Japão, Canadá, Islândia, Inglaterra e Estados Unidos? Embora influenciando-nos, nunca foi, nem é, culpando-o que nos redimimos, tornando-nos mais europeus através do desejo de dissolução em espaços mais “civilizados” e “desenvolvidos”, mas antes, e sempre, em conjunção com ele.   

 

Há que afastar tendências para hipostasiar o mar como componente da realidade portuguesa, quer culpando-o ou exaltando-o.   

 

Não é culpando-o através de teorias culpabilizantes, endeusando-o, idolatrando-o ou sacralizando-o, através de teorias míticas e messiânicas sobre o seu inexplicável “mistério” e consequente singularidade e universalidade do povo português, que melhor o compreenderemos como fator essencial da nossa identidade e em termos de estratégia. 

 

Para além de um dos maiores ativos que possuímos, a par da língua, é ainda, à semelhança desta, uma realidade óbvia e consensual, que não se restringe a um interesse nacional claro, evidente, manifesto, permanente e irrenunciável, mas também a uma realidade e a um interesse permanentemente estratégico. 

 

Se o critério é a objetividade, há que não qualificar abusivamente como realidade absoluta, inferior ou ter como culpável algo que o não é, havendo que normalizar o mar, objetivando-o racionalmente. Embora saibamos, pela experiência comum, que também tudo é subjetivo, se tivermos como referência que os nossos conhecimentos e pensamentos são consequência da perceção pessoal de cada um de nós, tornando discutível a mera objetividade como critério total.    

 

23.10.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício  

 


[1] Pinto Leite, António, Portugal, a culpa é do mar, crónica de imprensa publicada e reunida no livro Qual é o mal?, Sopa de Letras, 1.ª edição, Novembro 2002, pp. 31 a 33.