Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

21. O ENIGMA IBÉRICO
IMPRESSÕES DE UM BRASILEIRO EM PORTUGAL (IV)

 

Quanto a uma pretensa miopia diplomática de Portugal oscilando “(…)entre a cegueira interna, a falta de foco à distância e essa eterna “paranóia espanhola” - que o não deixa olhar o vizinho de frente, nem deixa de o espreitar com o canto do olho”[1], mais uma vez se simplifica, esquecendo que embora a reaproximação seja crescente, isso não é incompatível com as naturais cautelas, à semelhança de países iguais e mais pequenos, ao lado de outros maiores e mais poderosos, como a Holanda, Dinamarca e Áustria em relação à Alemanha, a Bélgica com referência à França, a Irlanda por confronto com o Reino Unido, entre outros, com a agravante de termos como vizinho um só país, maior, mais poderoso e populoso, em que a mentalidade conquistadora e imperial de Castela predomina. 

 

A propósito de Espanha, não será por ser a língua do conquistador (Castela) que o castelhano é o idioma oficialmente unitário?   

 

Não será simplista ter como questiúnculas literalmente provincianas, insólitas e patéticas, aos olhos e ouvidos de um estrangeiro (in casu de Wilson) a preservação das variedades linguísticas em Espanha? Incluindo o catalão, da sua amável Catalunha e sedutora Barcelona? Barcelona que, curiosamente, e à semelhança de Lisboa, o seduziu em absoluto. O que compreendemos, pois não esmagam, mas encantam. 

 

Mas observa, curiosamente, que os catalães nas ruas, festas ou grupos privados, usam o castelhano na presença de um estrangeiro, de um espanhol não local ou sabendo que entre eles o interlocutor não é catalão. Porquê? Resposta: “Por falta de autoestima (como os portugueses)? Não. Rigorosamente o contrário: porque os catalães são meritoriamente orgulhosos da sua terra, da sua cultura e das suas virtudes.”[2]  

 

Salvo o devido respeito, a História não demonstra que o sejam mais que os portugueses (pelo contrário),  pela simples razão de que Portugal tem sobrevivido desde sempre no contexto peninsular como um estado-nação unitário e coeso, em paralelo a um vizinho maior e menos unitário, havendo muitos catalães (e nativos de outras regiões espanholas) que nos admiram e tomam como referência, o que só se justifica por os portugueses serem meritoriamente portadores de um amor-próprio e pátrio que o autor não valoriza de modo adequado e proporcional.              

 

Restam as convicções monárquicas de Wilson Solon, tendo a monarquia como um regime que em milénios e séculos construiu as respetivas nacionalidades, vendo o seu derrube, entre nós, como uma rutura com a autoestima, a cidadania, a história e a identidade, referindo que “(…)há quase um século Portugal recusa a permitir-se sequer um plebiscito sobre a restauração da própria monarquia.[3]    

 

Concorde-se ou não, não deixa de ser irónico que mais de cem anos após a implantação da República um brasileiro nos interpele sobre o art.º 288.º, alínea b) da nossa Constituição, segundo o qual as leis de revisão constitucional terão de respeitar a forma republicana de governo. Discussões jurídicas à parte, quer se defenda que “(…)este limite material não se circunscreve forçosamente à proibição da restauração da monarquia em Portugal”[4], ou que surja a dúvida de que “(…)apesar de ser controvertido se não deveria ser deixado à livre margem de escolha do legislador ordinário  (para não dizer a referendo nacional)[5], a questão, para muitos, é pertinente, não cabendo aqui aprofundá-la, ao inverso do que sucederia se de um artigo de enfoque essencialmente jurídico ou político se tratasse.   

 

11.10.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

 

[1] Obra citada, p. 120.
[2] Obra citada, p. 27.
[3] Idem, p. 232.
[4] Miranda, Jorge e Medeiros, Rui, Constituição Portuguesa Anotada, Tomo III, Coimbra Editora, 2007, p. 937.
[5] Sousa, Marcelo Rebelo de, Constituição da República Portuguesa Comentada, Lex, Lisboa 2000, p. 433.

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

20. O ENIGMA IBÉRICO
IMPRESSÕES DE UM BRASILEIRO EM PORTUGAL (III)

 

Apesar de Portugal ser pobre em recursos naturais, é verdade que prevalece entre nós uma mentalidade de ricos, para o que contribuiu o antigo Império, como sucedeu, em graus diferentes, com outras ex-potências coloniais europeias. 

 

À decadência geral da superioridade europeia, agravada pelas crises recentes, generaliza-se a ideia de que o máximo que podemos atingir é manter intocável o nosso modo de vida, defendendo-se a ausência da possibilidade de o melhorar consideravelmente (teoria conservacionista).   

 

É o que aparenta suceder em Portugal e na Europa, mas não no mundo em geral. A este conservacionismo essencialmente europeu, vem-se contrapondo que a ideia de mudança e de conquista do futuro está viva noutras paragens, na China, Índia, Ásia em geral. O que neste momento os europeus tentam conservar, é o que outros tentam alcançar, entre eles o Brasil. Este elemento terá de ser introduzido como um elemento novo a ter presente na análise crítica que aqui fazemos a Wilson Solon, que este não consciencializou em relação à “pátria-mãe”[1].

 

Também é observável que há em Portugal um discurso catastrofista em dizer mal de nós. Televisões e imprensa em geral deliciam-se em fazer o culto da autovitimização, do pessimismo e do miserabilismo, de que estamos em primeiro lugar em tudo o que é mau e em último em tudo o que é bom, existindo sempre algo a lastimar, sem pensar no mundo que nos rodeia, onde há quem esteja melhor, mas muitos, demasiados, pior. Que podíamos e devíamos estar melhor, ter mais ambição e esperança é verdade, mas daí à eterna insatisfação e lamúria, portadora de um complexo de inferioridade em relação ao estrangeiro que vive melhor, não se justifica.

 

Se os portugueses em geral são afáveis, há-os acres, mormente algumas elites, que se envergonham do país, aproveitando qualquer oportunidade para o denegrir, gerando uma psicologia derrotista, onde não nos revemos. Portugal renovar-se-á por uma atitude psicológica positiva, reprodutora dos momentos criativos da sua história, abrindo-se e confrontando-se com a multiplicidade, desmentindo a atual ausência do espírito de missão e apelando ao que de melhor nos disseminou pelo mundo.

 

Já não aceitamos que seja pelo facto de terem um nível de vida superior, que países similares ou mais exíguos tenham mais autoestima e sejam externamente mais conhecidos e considerados, o que peca por uma visão redutora e eurocêntrica,  excluindo a maioria dos outros, sendo facilmente observável que Portugal, pela sua história e universalidade, supera muitos deles, para já não falarmos da ficção que é, por exemplo, a Bélgica como nação (de um nível de vida superior ao nosso). 

 

À alegada indiferença de brasileiros, há-os reconhecidos, por paixão uma vez identificadas afinidades e afetos mútuos (como Wilson), sendo motivo de orgulho que um país continental tenha surgido da força, calculismo e diplomacia de um país tido pelo Brasil como minúsculo, a “terrinha”.

 

A que acresce, de momento, uma vinda elevada de brasileiros para Portugal, incluindo milionários e classe alta, fugindo da crise e da insegurança, tendo o nosso país como interessante, atrativo, pacífico e na moda, com a vantagem de falar um idioma comum.                                                   

 

04.10.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

 

[1] Como ele próprio lhe chama na p. 319.

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

19. O ENIGMA IBÉRICO
IMPRESSÕES DE UM BRASILEIRO EM PORTUGAL (II)

 

É a visão de um encenador e realizador brasileiro, aliada à de artista, jornalista,  historiador e viajante que permaneceu entre nós no decurso de mais de cinco anos, e que aqui chegou em 1999.

 

A intenção é boa, sendo o livro polémico e merecedor de uma leitura ponderada, agregada a uma vontade de tentar compreender e expressar uma necessidade de mudança, o que nem sempre é conseguido.

 

O Portugal de que fala é o reflexo da sua televisão, da mediocridade dos seus écrans, do lixo televisivo, do fraco nível literário, linguístico e dramatúrgico, por confronto com uma literatura portuguesa de excelência.

 

Ao tomar como centro de análise o imobilismo reinante no meio em que trabalhava, generaliza ao todo, ao Portugal total, o que tinha como o essencial de uma parte. O meio televisivo português, com a sua negatividade, onde o autor exerceu a sua profissão temporariamente, serve de centro amplificador. Como na parte impera a apatia e os formatos televisivos importados, transfere essa caraterística para o todo, concluindo que tudo em Portugal está paralisado.

 

Trata-se de um simplismo redutor de uma realidade complexa de difícil (e impossível) simplificação, por Portugal não ser simplificável. É uma primeira crítica a anotar.

 

Ademais, não surpreende que o audiovisual brasileiro prolifere entre nós, não só pela sua reconhecida qualidade técnica e artística a nível mundial, mas também por falarmos a mesma língua, à semelhança do que sucede com os Estados Unidos em relação à Inglaterra. Apesar de o próprio Wilson não o negar: Não é menos verdade que no mundo lusófono em particular (analogamente ao anglófono), vêm da América as contribuições culturais mais numerosas para o património universal.”[1]  

 

É redutor falar num neocolonialismo cultural da antiga colónia. Se o Brasil é portador de uma mais-valia televisiva, qual o problema em aprendermos com ele? Compreensível, pois, que Solon tenha sido convidado a trabalhar entre nós.

 

Mas apesar da sua qualidade técnica televisiva, o Brasil é responsável por alguma  mediocridade da nossa televisão, uma vez Portugal ter adotado o formato das suas telenovelas como entretenimento televisivo predominante, pese embora o desagrado do ensaísta.         

 

Mas a mediocridade televisiva não é um fenómeno tipicamente lusitano, muito menos numa era global de consumos homogéneos em que toda a gente vê os mesmos programas televisivos. Muitos deles pejados de banalidades, excluindo qualquer sentido crítico, tantas vezes de importação maciça da atual superpotência. E que dizer do “Grande Irmão”/“Big Brother” originário da tão vanguardista Holanda?   

 

Questão diferente é a degradação da ficção televisiva portuguesa, de um  conservadorismo mental que não investe na “(…)incontestável  - e regra geral não utilizada - capacidade criativa dos portugueses”[2], renunciando à construção de um pensamento cultural próprio, por maioria de razão num país rico em história, singularidades e universalidades, com o que concordamos.

 

Absurda é a legendagem, em português do Brasil, neste país, de filmes e outros audiovisuais portugueses, ao invés do que sucede entre nós com películas e telenovelas brasileiras, como Wilson reconhece. Pergunta-se: terá o português de Portugal um valor acrescentado que o português do Brasil não tem, no pressuposto de que quem o fala compreende os demais lusófonos, não parecendo relevar, do mesmo modo, o inverso neste país irmão? Ou tratar-se-á de um analfabetismo mais acentuado e universalizado da população brasileira em geral?

 

Tratar-se-á de um conservadorismo mental brasileiro? De um “tempo brasileiro” paralisado, o efeito de uma vaidade desmedida e orgulho doentio pela continentalidade territorial, adaptando e devolvendo ao autor algumas considerações sobre Portugal? A nós, em terras brasileiras, nunca nos soou incompreensível o português do Brasil, nem para os nossos interlocutores o português de Portugal, o que agrava o paroxismo do absurdo. O que faz pensar num Brasil, o Enigma Lusófono. 

 

Generalizar que os portugueses assistem passivos a tudo, tomando como referência a formatação televisiva, é redutor e excessivo. Ter como suas caraterísticas estruturais e intrínsecas a resignação e a melancolia, mesmo que se invoque o fado (nem todo é triste, há-o alegre), também o é. 

 

Nem se pode absolutizar como inatas e inalteráveis de um povo certas caraterísticas, uma vez existirem reações comportamentais modificáveis consoante as circunstâncias e a situação que se vive. E se é verdade que Portugal teve dimensão superior às suas forças e ao seu território, nada impede que lutemos por isso, tendo sempre presente que as coisas muito desejadas e pensadas mentalmente, acabam por passar da teoria à prática. Desde logo, repudiando o fechamento (que sempre nos prejudicou), acolhendo a abertura aos outros e a aceitação ativa e crítica dos seus contributos, sem esquecer a  universalidade, invertendo uma certa e atual receção acrítica do modismo europeu e norte-americano, de um Portugal horizontal, consumista, sem espírito, sem razão de existir para além do dia-a-dia.

 

27.09.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

[1] Idem, pp. 117 e 118.
[2] Idem, p. 57.

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

18. O ENIGMA IBÉRICO
IMPRESSÕES DE UM BRASILEIRO EM PORTUGAL (I)

 

1. No livro Portugal, o Enigma Ibérico (Quidnovi, 2005), de Wilson Solon1, argumenta o autor que nenhum especialista, turista ou ciência pode interpretar Portugal, uma vez mover-se numa lógica única, nem sempre expondo na matéria os enigmas do seu espírito, sendo incompreensível a olho nu, num “tempo lusitano” paralisado em rituais de autoflagelação e vitimização.

 

Tem por irrealista que a pequenez territorial seja decisiva, refutada pela antiga determinação de um punhado de naus nas mãos decididas dos portugueses, sendo irreal supor que as grandes decisões surgirão de uma estreiteza mental à medida dos limites geográficos, o que também não justifica a ausência de autoestima. 

 

Na “velha Europa dos 15” (à data), é ridículo que tal dimensão possa ser usada para a falta de iniciativa dos seus habitantes, o que não sucede na Holanda, Bélgica, Suíça, Áustria, Irlanda, Dinamarca, Luxemburgo, de territórios mais pequenos, que tem como nações mais conhecidas e respeitadas.

 

Alegando que o comodismo paralisa a História, conclui que o nosso complexo de inferioridade pela retração do império, não pode ser disfarçado como se de modéstia ou humildade se tratasse, defendendo que o excesso de vaidade da alma lusa pode ter sido causa desse marasmo, findo o estatuto de nação imperial.   

 

Ao desperdício de energias da atitude pessimista dos portugueses em Portugal, contrapõe o empreendedorismo dos que emigram desconhecendo, em geral, casos mal sucedidos, ficando estes libertos das fronteiras psicologicamente opressoras da nacionalidade.

 

Os portugueses parecem sentir-se permanentemente culpados pelo que têm de melhor, têm um desprendimento pela sua língua, a saudade tem um lado passadista e ausente, ao invés do lado saudável no Brasil, de onde Portugal é visto como a memória de um passado comum entretanto obscurecido, onde muito turista usual ou pontual não o inclui nos seus roteiros, por indiferença ou ser tão parecido que nem vale a pena conhecê-lo.   

 

Após lamentar que os portugueses preferissem livrar-se (ou despojar-se) da sua monarquia, diz serem os mais fervorosos consumidores de audiovisuais brasileiros, sem vontade de construírem um pensamento cultural próprio para a televisão, o que se traduz num neocolonialismo cultural de uma antiga colónia: “Um caso singular no mundo, de um domínio que nem sequer fora imposto e sim, curiosamente, desejado pelo antigo colonizador!”, acrescentando: “Se tudo isso já soaria estranho para um português, não o fora menos para um brasileiro que optou por viver em Portugal.”2

 

Apesar destas distâncias e incompreensões, “(…) o português segue sendo o mais admirável fator de coesão nacional e união internacional no âmbito da lusofonia”3, ao invés de Espanha, de disputas linguísticas localizadas, embora Portugal e Brasil não se deem conta desse enorme património comum e unificador. Ambas as nacionalidades irmãs têm um traço comum: não acreditarem no vigor histórico da lusofonia. 

 

2. Ao falar das motivações originais das colonizações predominantes nas Américas, defende que os anglo-saxónicos e os hispânicos traziam a vontade de matar, ao contrário dos portugueses, diferenciando a arrogância anglo-saxónica da flexibilidade do espírito lusitano, exemplificando-o com o Brasil.   

 

No Brasil - caso único mundial - as referências raciais originais não têm cor, “(…) dado que quando adquiriu a sua identidade nacional, já lá estávamos todos - pretos, brancos, índios e mestiços (…). O próprio sentimento nacional na sua origem inclui as diversas raças. (…) Não há o de “fora” como informação visual”,4 sendo das nações “mescladas” a menos racista. 

 

Acrescenta que no Brasil “(…) subconscientemente, os nossos pretos não são “afros”. São brasileiros”5, razão pela qual a questão africana aí terá uma interpretação inversa à  europeia, para a qual prevalece a “visão superior” do colonizador, o que explica que a miscigenação racial seja algo de impensável a curto prazo em Portugal. 

 

Portugal tem de se reconciliar com a sua imagem, com um património inexplorado que sobrevive, como metrópole de um grande império de novos e velhos ideais, pelo que “Cabe perguntar: por que não usar este património a favor de um capitalismo espiritualista?”.     

 

Vendo que a maioria dos emigrantes no nosso país têm no português a sua língua materna, pergunta: “Suportarão, enfim, os portugueses uma aproximação com africanos e brasileiros sem que haja pelo menos um oceano pelo meio?6 

 

A integração lusófona tem de ser aceite como um facto consumado, libertando os portugueses das fronteiras que os aprisionam, começando pelas geográficas “(…) que os fazem experimentar a sensação de uma pequenez que a rigor é apenas mental; das ilusórias fronteiras europeias que, ao contrário, os convenceram de uma falsa grandeza que na prática pouco souberam aproveitar; e, por sinal, também das fronteiras virtuais de um capitalismo de ocasião que a rigor nem fronteiras possui.” 7   

 

Portugal terá de se expandir em todos os sentidos, cruzando de novo o Atlântico em todas as direções e transformando as barreiras que o separam de Espanha em reaproximação, pondo de lado a eterna “paranoia espanhola”. 

 

Analisaremos, nos próximos textos, os merecimentos e críticas que nos merecem estes olhares e impressões de um brasileiro que viveu alguns anos em Portugal. 

 

20.09.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

 

[1] Realizou trabalhos televisivos e assinou séries de ficção, como Jornalistas e O  Processo dos Távoras.
[2] Obra citada, p. 309.
[3] idem, p. 24.
[4] Idem, p. 108.
[5] Idem, p. 113.
[6] Idem, p. 119.
[7] Idem,p. 120.

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

17. FERNANDO PESSOA

 

Fernando Pessoa aceita o providencialismo como fundo espiritual do povo português, atestando-o, por exemplo, em A Mensagem”, tida como símbolo de uma verdade providencial explicitamente assumida como destino sagrado de Portugal.   

 

Assim o parece ter pensado, entre outros, Agostinho da Silva, ao escrever:

 

“Mas eu suponho que Fernando Pessoa pensa que Portugal não teve apenas um papel histórico num certo século, para mostrar ao mundo o que era o mundo, que foi o que Portugal fez, mas que precisa continuar essa obra e passar agora a outro descobrimento muito mais importante, que é o descobrimento da natureza humana e da sua realização plena. Que Portugal apenas descobriu ao mundo o mundo material, descobriu os outros continentes, mas que precisa agora que as pessoas descubram, não apenas o mundo que têm fora de si, mas o mundo que dentro de si têm” (entrevista a Antónia de Sousa, publicada no diário de Notícias de 06/12/94). 

 

Conjuga de um modo muito atual nacionalismo, universalismo e europeísmo. A conciliação de opostos faz-se por assimilação e absorção, sendo essa capacidade, a de ser tudo, que define a verdadeira essência de Ser Português.   

 

Quanto mais formos tudo, mais europeus e universais seremos.

 

Escreve, a propósito:  


“O futuro de Portugal … é sermos tudo. Quem, quer que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro, pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único Deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a Terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade” (Revista Portuguesa, nºs 23-24, 13/10/23).

 

“Tudo está em tudo”, tida como uma fascinante e fundamental teoria do século XXI, em que impera a ciência da complexidade, face à qual o local é global e o global é local, eis o que um dos vultos da nossa história (e universal) defendia. 

 

Eis um Pessoa heterodoxo em relação a todas as crenças e teorias estéticas.

 

Apesar do futuro de Portugal se centrar, uma vez mais, à semelhança de Pascoaes e Agostinho da Silva, no seu passado.    

 

07.05.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

 

16. TEIXEIRA DE PASCOAES

 

O futuro de Portugal, em Teixeira de Pascoaes, centra-se no seu passado.

 

A intenção nacionalista de Pascoaes é operar a reconversão do espírito decadente português num espírito glorioso e vencedor, exemplar para os restantes povos europeus, dignificando, deste modo, a imagem de Portugal sobre si próprio, contrariando a imagem de exterior à margem do progresso e de inferiorização que a consciência nacional tinha de si própria.

 

Embora não conteste a noção de decadência, deslocaliza o ponto de focagem, deslocalização essa em função da qual ganha um outro sentido a construção dessa imagem. Os descobrimentos deixam de ser vistos, como até aí,  exemplo do único, verdadeiro e real apogeu de Portugal, para serem tidos como mero sinal material, visível, da que será, de facto, a verdadeira aventura de Portugal: a aventura espiritual. Em A Era Lusíada, escreve: “Sim a alma lusitana tem de completar a sua obra iniciada com as Descobertas. (…) Ela precisa, enfim, de concluir espiritualmente o que materialmente iniciou, porque a vida corpórea é o meio, mas a vida espiritual é o fim”.

 

Reconhece ao povo português duas grandes qualidades: o Génio Aventureiro e o Temperamento Messiânico. No tempo em que o poder de aventura se media em função do território conquistado, Portugal cumpria a sua missão dando “novos mundos ao mundo”. Agora, de novo o génio aventureiro, mas em sentido espiritual, se tornava o motor da evolução humana, e novamente Portugal poderia dar “novos mundos ao mundo”. Portugal mantivera sempre as mesmas qualidades no decurso da sua existência, pelo que o seu caráter saudoso, que o leva à aventura, teria sido sempre o mesmo ao longo dos tempos. Simplesmente, o que cada época exige aos homens e às nações é que é diferente. E quando se trata de Aventura, material ou espiritual, Portugal tem sempre o poder de guia. Daí que a “Nova Era” fosse, por direito natural, lusíada. Daí que quisesse transformar a Saudade, tida como aventura espiritual, em motor de ressurgimento pátrio e, até, universal, ou seja, uma nova forma de civilização, a civilização lusitana da Saudade.

 

Sendo a Saudade a própria fisionomia da raça, o perfil inconfundível do povo português, quanto mais português e mais saudoso se for, mais universal se será, assentando a Nova Era Lusíada (em que de novo Portugal será guia da humanidade, mas em termos espirituais), numa conjugação entre nacionalismo e universalismo.

 

Com as suas “Epístolas aos Saudosistas”, publicadas na revista A Águia, em 1913, António Sérgio viria a inaugurar uma polémica célebre com Pascoaes, ao perguntar: “Quem é que vive principalmente da saudade? Os velhos, e os desgraçados a quem a morte levou uma pessoa muito querida. Ora, em ambos os casos se nota, acompanhando sempre a saudade, o horror do novo, o ódio ao movimento, um protesto contra a lei da mobilidade e do devir. Para o velho só merecem estimação as coisas do seu tempo - a juventude do seu tempo, os costumes do seu tempo, as cantoras do seu tempo. Toda a variação foi uma queda, e todo o mobilismo o indispõe”.  

 

Na sua resposta Pascoaes irá replicar que Sérgio erra ao pensar assim, “quando afirma que a Saudade é retrógada e paralítica… Não resulta ela da combinação ativa e amorosa dos dois princípios da Vida? (…) Sim: a Saudade é a grande criadora do Futuro, mas não tira o Futuro do Nada, não consegue um Futuro de geração espontânea ou caído miraculosamente das estrelas. Ela constrói o Futuro com a matéria do Passado…”, elegendo, em Portugal, como primeiro poeta da Saudade, o Povo.

 

Em relação à Europa Pascoais pretende preservar a especificidade no convívio com as demais nações europeias, onde levará a cabo a sua missão providencial: “É muito possível que os povos cultos da Europa, a certa altura do seu avanço vertiginoso e científico, descansem um pouco e volvam os olhos para nós. Pois toda a sua vida se resume em duas palavras: ciência e indústria….Vida é a atividade, mas, antes de tudo, atividade de alma…” (O Paroxismo, em A Águia, Porto, 2.ª série, vol. V, n.º 30, junho, 1914, pp. 166-168). 

 

Portugal é, porque existe uma alma autenticamente portuguesa e incontestavelmente lusitana, procurando curar o “corpo doente” pela reabilitação da sua alma, assim se aproximando e afastando da Geração de 70. Aproxima-se pela consciência de crise e pela procura de soluções para normalizar o país na sua grandeza ideal; afasta-se porque enquanto aquela, voltando os olhos para o exterior, pretendia europeizar Portugal em termos civilizacionais, já Pascoais ao impor Portugal como nação o fazia perder qualquer complexo de inferioridade em relação à Europa (em paralelo com outros, como Agostinho da Silva). 

 

Não se pense que este providencialismo, misticismo ou messianismo, esta atração pela invenção de um país imaginário que possa eximir-se à futilidade do país real não tenha tido seguidores.

 

Teve-os, como o confirma o mentor do agrupamento musical mais internacional de todos os tempos da música portuguesa, Pedro Ayres Magalhães, dos Madredeus, ao afirmar: “Não há nenhum escritor da portugalidade - exceto Teixeira de Pascoes - que tenha documentado a ligação terra-espírito, que foi sempre o nosso grande trunfo. O Pessoa tem a desculpa de ter vivido sempre fechado em casa. É evidente que ele é o vate de uma grande metade da alma portuguesa - mas fica-se por aí”.    

 

 

30.04.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

15. GERIR DEPENDÊNCIAS E ANTECIPAR ESTRATÉGIAS CULTURAIS

 

Quanto a influências exteriores e à importação do que vem de fora, é sempre positivo, para alguns, revelando a nossa grande capacidade de apropriação e absorção, sendo negativo, para outros, porque sintoma de uma subserviência acrítica, por vezes excessiva.

 

Há que encontrar um equilíbrio, expurgando extremos, pelo facto de não podermos ser imunes ao que vem do exterior e termos o dever de preservar o que nos particulariza e faz sobressair pela positiva perante os outros.

 

Estando na era da globalização, não nos podemos acomodar, pelo que temos de antecipar estratégias a nível ambiental, económico, social, sem nunca esquecer a vertente cultural, tendo presente que somos um país não exclusivamente  eurocêntrico, pois além de europeus, sempre tivemos uma ligação forte com outros continentes, através dos oceanos Atlântico e Índico, não podendo, de repente, no presente, virar as costas a um passado histórico e construir um futuro que privilegie tão só a Europa, a União Europeia ou uma aproximação ibérica.   

 

Daí a importância de uma aposta na diversificação das dependências, sobrevivendo sabendo-as gerir, via relações a todos os níveis.

 

No plano cultural há uma necessidade premente de consagrarmos o que somos pela imagem, pela força condensada e cada vez mais velocista e universal do audiovisual.

 

É inquietante a ausência de filmes e séries sobre figuras da nossa história, algumas delas evocadas e homenageadas mundialmente, como os navegadores portugueses Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães no museu da navegação da cidade portuária de Hamburgo, na Alemanha, onde estão os seus bustos, entre os sete grandes navegadores de todos os tempos aí recordados e reconhecidos (em paralelo com o viking Leif Eriksson, o chinês Zheng He, o inglês James Cook e Colombo). 

 

Outros podem ser lembrados, e são muitos, desde Viriato, Afonso Henriques, D. Dinis, Nuno Álvares Pereira, D. João I, D. Filipa de Lencastre, a Ínclita Geração (Infantes D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. João, D. Fernando e a Infanta Isabel de Portugal, Duquesa da Borgonha), Gil Eanes, Diogo Cão, Duarte Pacheco Pereira, os irmãos Corte-Real, Pedro Álvares Cabral, Diogo Álvares Correia (Caramuru), Catarina Álvares Caramuru (Paraguaçú), Damião de Gois, João de Barros, Garcia de Orta, Pedro Nunes, D. João II, Afonso de Paiva, Pero da Covilhã, D. Leonor (fundadora das Misericórdias), D. Manuel I, D. Lourenço de Almeida, D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque, Tristão da Cunha (uma ilha que descobriu, ainda hoje tem o seu nome), Jorge Álvares, Tomé Pires, Fernão Mendes Pinto, padre António de Andrade (Tibete), D. João IV, entre muitos da literatura, ciência, política e outra áreas (por exemplo, São João de Deus e a ordem dos Hospitaleiros), muitos de prioridade estratégica nacional e universal. Todos eles suportes da presença portuguesa no mundo. 

 

Com o argumento da ausência de dinheiro para a cultura, para frivolidades, ninharias ou coisas fúteis, abdicamos a favor de outros o testemunho da nossa História, tantas vezes tratada com desdém ou sobranceria, ao arrepio da verdade histórica, como na série britânica “Os Tudor”, em que a corte do reinado de D. Manuel I é representada como um albergue acolhedor de seres exóticos, atrasados e bafientos.   

 

Cada vez mais, nos tempos atuais, um país sem imagens é um país “ausente e “sem história”.        

 

09.04.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

14. SUICÍDIO E PESSIMISMO NACIONAL EM MANUEL LARANJEIRA (III)  

 

Suicídios célebres foram usados por Laranjeira para interpretar o país e o seu pessimismo. Em 1889, Soares dos Reis; em 1890, Camilo de Castelo Branco; em 1891, Antero de Quental.

 

Embora no primeiro artigo de Pessimismo Nacional os não tenha como um sintoma de condenação da raça portuguesa, em missiva a Miguel de Unamuno, de 28.10.1908, é mais apocalíptico, ao escrever:    

 

“Amigo: 
Não imagina o prazer que senti ao saber que V., espírito superior, andava a compor um livro sobre as coisas da minha terra, desta minha tão desgraçada terra de Portugal.  Desgraçada - é a palavra.
   

 

O pessimismo suicida de Antero de Quental, de Soares dos Reis, de Camilo, mesmo do próprio Alexandre Herculano (que se suicidou pelo isolamento como os monges) não são flores negras e artificiais de decadentismo literário. Essas estranhas figuras de trágica desesperação irrompem espontaneamente, como árvores envenenadas, do seio da Terra Portuguesa. São nossas: são portuguesas: pagaram por todos: expiaram as desgraças de todos nós. Dir-se-ia que foi toda uma raça que se suicidou.

 

Em Portugal chegou-se a este princípio de filosofia desesperada - o suicídio é um recurso nobre, é uma espécie de redenção moral. Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa”[1]         

 

Laranjeira suicidar-se-ia em 22.02.1912.

 

Ter-se-á tratado duma consequência natural do rumo que a vida portuguesa tinha tomado e da inviabilidade de mudá-lo?     

 

Centrando-nos em Laranjeira, o seu pensamento é duma leitura decadentista de apatia, desânimo, azedume, morbidez, falsa felicidade, tédio, angústia temporal e inquietação metafísica, mundo de engano e fuga em busca da “terra prometida”, deísmo e panteísmo, aceitação do suicídio como decisão pessoal e libertadora.

 

Nada era excêntrico, nem originariamente português, a Europa atravessava uma densa crise de pessimismo, o tédio dos tempos. E Laranjeira era conhecedor das ideias de Durkheim, Schopenhauer, Nordau, Hartman, Nietzche e Darwin.

 

Há aqui um pessimismo importado do exterior, adaptado internamente.

 

De alguns países tidos como mais vanguardistas e civilizados, onde também houve suicidas célebres: Gerard de Nerval (1855), Van Gogh (1890), Tchaikovski (1893), Angel Ganivet (1898), Otto Weininger (1903), Ludwig Boltzmann (1906), Paul Lafargue (1911), Kitty Melrose (1912), Peyo Yanorov (1914), Jack London (1916). E para quem queira reforçar com Mário de Sá Carneiro (1916), Florbela Espanca (1930), ou outro/s, um pretenso pendor suicida português, podem citar-se Kostas Kariotakis, Charlotte Mew (1928), Dora Carrington, George Eastman, Hart Crane, Santos-Dumont (1932), Alfonsina Storni (1938), Virginia Woolf (1941), Hemingway (1961). 

 

Inventário a que acresce Rousseau, Tolstoi ou Kafka, que se “suicidaram” pela fuga ou solidão, por analogia com o “suicídio de isolamento” (ou exílio mental) de Herculano na sugestão de Laranjeira.

 

Se assim é, não visualizamos o intrínseco pendor para a tão fadada desgraça suicidária que carateriza a nossa raça, em que teve contributo decisivo Manuel Laranjeira, influenciando Unamuno com a publicação de Portugal Povo de Suicidas, não obstante na geração do escritor espanhol ter havido um suicídio célebre, o de Ganivet, em paralelo e por confronto com a do seu parceiro português, cuja vítima foi o próprio amigo de Espinho.   

 

Excluída a hipótese do suicídio ser diretamente proporcional ao maior ou menor grau de desenvolvimento dos povos, porquê este desespero suicidário de Laranjeira? 

 

Para Jorge de Sena, morreu ou suicidou-se de indigestão do seu “moi haissable”[2], realçando uma sua face: “Em Espinho, no Verão, o desporto que incansavelmente praticava, pela praia, casino, teatro e cinema, era o flirt. Entre Maio de 1908 e Março de 1909, Laranjeira deitou as suas vistas sobre 18 mulheres, antigas amantes, prostitutas, possíveis amantes. Teve então como companheira uma “criatura do povo”, com quem passeava em público para escandalizar as classes médias. Não queria que as suas relações amorosas fossem mais que a satisfação da “carne indisciplinada”. Mas eram. (…) - “e essa alegria assusta-me”.[3]     

 

Teve dois filhos, à data ilegítimos, de relações com uma criada e uma “criatura do povo”, ambos morrendo cedo. De figura desalinhada, abusava do café e tabaco, tinha insónias e passava noites a escrever, após boémias e tertúlias, frequentando os “ex-libris” da vila. Não surpreende ser, para muitos, de um egoísmo mortal, exercendo a Medicina sem grande vocação, não se libertando do estado de espírito melancólico via ocupação quotidiana. Outros apelidavam-no de “médico dos pobres”, salientando uma vertente solidária. A sua vida foi ainda um convívio perene com a ameaça da morte, pelo rol de doenças e perturbações de que sofria, de modo ocasional ou crónico: sífilis, tísica, ataxia, asmas e febres, doença hepática, neurose, histeria, neurastenia, psicastenia, crises nervosas, um sentidor maior que um pensador.

 

Amargurado pelos seus males físicos e fealdade, tendo a vida como uma comédia cruel e dolorosa numa visão naturalista aplicada à sua vivência, conjugada com a apologia da morte voluntária, defendida por Nietszche, que o influenciou, a sua opção final indicia um suicídio egoístico causado por uma insuficiência de integração na sociedade, em que a doença e o decadentismo grandemente importado foram determinantes, e nem sequer a tão ansiada República o salvou, suicidando-se quase 17 meses após a sua implantação, anulando-lhe qualquer perspetiva messiânica. 

 

Conclui-se ser premente combater uma tendência para ir buscar sistematicamente o que nos apouca, criando estereótipos caricatos, perspetivas redutoras que tombam por confronto com o Outro, sabido que no tempo dos “Vencidos da Vida” nos visitou uma estrangeira, a princesa Rattazzi, que se cruzou com outros portugueses e escreveu que “Les portugais sont toujours gais”[4], decerto menos cultos, mas que tinham de si próprios uma imagem mais segura e alegre.  

  

19.02.2019   
Joaquim Miguel de Morgado Patrício
   

 

 

[1] Obra cit., pp. 5 e 6, incluindo duas cartas de Laranjeira a Miguel de Unamuno sobre o mesmo tema. 
[2] Em O Poeta é um Fingidor, Colecção Ensaios, Lisboa., Edições Ática, 1960, p. 126.
[3] Rui Ramos, Portugal Naturalista, p. 319, VI Volume da História de Portugal, direção de José Mattoso, Círculo de Leitoras, 1994. 
[4] Maria Rattazzi, Portugal de Relance, Antígona, Lisboa, 1997.

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

13. O PESSIMISMO NACIONAL EM MANUEL LARANJEIRA (II)  

               

 Mas há um pessimismo associado a uma ideia de decadência, em que o analfabetismo e a ausência de educação eram para Laranjeira a base primordial do decadentismo nacional, perante o facto de quatro quintos da população portuguesa ser analfabeta, o desencontro e a incapacidade de comunicação de uma minoria civilizada e intelectualmente desenvolvida com a restante sociedade, não sabendo ou não podendo impor-se à maioria da nação arrastando-a consigo, origem dum desnivelamento causador duma crise sobreaguda de pessimismo.   

 

Conclui: “O nosso pessimismo quer dizer apenas isto: que em Portugal existe um povo, em que há, devoradas por uma polilha parasitária e dirigente, uma maioria que sofre porque a não educam e uma minoria que sofre porque a maioria não é educada” (ib., pg.ª 41).     

 

A deficiência educativa é tida como insuficiência determinante do processo coletivo de sobrevivência, o que se reflete na inferioridade social da maioria da população: “Incapaz de receber ideias e sentimentos, o cérebro da grande massa da sociedade portuguesa, em virtude daquele princípio lamarkeano que condena à morte o órgão que não trabalha, definha-se, atrofia-se, lenhifica-se, e a alma portuguesa estagna na tranquilidade morta das águas paludosas”, acrescentando: “(…) a única coisa que espanta (…) é a pasmosa resistência deste desgraçado povo” (ib., pp. 32, 33), propondo uma educação intensiva. 

 

Se o povo existia, era preciso educá-lo. Corroborado pelo avanço educativo numa elite reduzida, que apesar de intelectualmente superior e credível, sobrepunha ao ideal de Pátria o de Humanidade, desajustando-se da realidade interna. Impunha-se refazer tudo, refundindo a sociedade de baixo a cima, abatendo velhos messias e transformando a monarquia numa sociedade livre e num novo regime, a República, a qual, uma vez vingada, não foi para Laranjeira a República desejada.

 

Se é verdade que a ignorância do povo português era, infelizmente, incontestável, decorridos 100 anos ainda se mantêm alguns diagnósticos, apesar de profundas transformações.   

 

Mesmo atenuada, permanece a distância entre as elites e o povo, agravada por uma incapacidade daquelas em desencadearem movimentos sociais de relevo, o que implica uma análise deformada ou hipostasiada da realidade portuguesa, tendo havido sempre minorias defensoras do culto da manutenção do poder na base da ignorância, gerando a falta de democratização fracas elites e menos por onde escolher. 

 

Por outro lado, existindo uma minoria dependente intimamente do Estado, nela se concentrando desproporcionalmente o poder e os recursos, ter-se-á gerado a convicção, para muitos, da inutilidade de participar nas decisões e assunção de responsabilidades.

 

Mesmo com a democratização e universalização do ensino, cada vez são menos os que sabem muito e de tudo, ao lado do analfabetismo funcional dos outros.       

 

12.02.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

12. O PESSIMISMO NACIONAL EM MANUEL LARANJEIRA (I)

 

O pequeno livro tem um título chamativo - O Pessimismo Nacional (Frenesi, Lisboa, MMIX). O autor, Manuel Laranjeira, é um protótipo do pessimismo instintivo, a que não é alheio o seu suicídio. Ao “deprimir e denegrir a pátria”, como “hábito inato”, tenta-se incutir a toda a sua obra uma desfiguração que se justifica por vezes corrigir. É o caso dos artigos sobre O Pessimismo Nacional[1], comummente não os referindo como o que na realidade são, no geral interpretados como apologia dum pessimismo estruturalmente português.   

 

Esse artifício interpretativo sobressai no interior da contracapa, onde se escreve a impossibilidade atual de subscrever “(…) com iguais ilusões o otimismo generoso de que o seu Autor parecia possuído quando os publicou”, rematando: “Aliás, a morte que Manuel Laranjeira a si próprio deu, pouco depois, não significará que foi ele o primeiro a desesperar? E não chegaria essa antecipação definidora para justificar o nosso presente pessimismo, tão negro e tão magoado como o que o levou, numa hora triste, àquele seu gesto de renúncia final?”  

 

Este desfigurar do texto a partir do seu título, corrobora o culto de um pessimismo doentio, estrutural e permanente, conducente a um fim fatal, que vive, entre nós, nalguma intelectualidade e imprensa, tentando fazê-lo corresponder a um pessimismo ainda maior, que o que advém da análise dum fenómeno epocal em que se defendia a regeneração da vontade coletiva e o suprimento das disfunções e injustiças na nossa sociedade através dum otimismo esperançoso, embora amargo.

 

O pessimismo de Laranjeira não é “(…) a manifestação clara, iniludível, dum esgotamento senil, degenerativo, doloroso, (…) o estado desesperadamente agónico dum povo como entidade coletiva”, uma degeneração “orgânica” do tipo Crepúsculo dos Povos (à Max Nordau), antes sim uma dificuldade adaptativa passageira, de génese normal, antes sim, nas palavras do autor, “(…) uma perturbação de crise evolutiva, significando apenas que os povos se transformam e progridem, embora penosamente” (ibidem, pg.ª 20), não nos vendo como um povo irremediavelmente perdido. 

 

Ao invés do pessimista degenerado, que o é por vício constitucional e defeito estrutural, derivado de insuficiência congénita imodificável, Laranjeira vê o pessimismo nacional como uma deficiência momentânea, a que o português, ou qualquer outro ser humano normal, temporariamente se adapta, sinal de que Portugal tem futuro.

 

Indicia-se a negação da permanência de estruturas de longa duração relacionadas com características comuns e inalteráveis dos portugueses, podendo-se alterar se as condições estruturais de natureza cultural, económica e social se modificarem.

 

E escreve: “Submeta-se esse desgraçado povo, criminosamente desprezado e levianamente caluniado, à prova decisiva: eduquem-no, intensivamente, tenazmente, sem desfalecimento, e vê-lo-ão florescer e progredir como os povos cheios de saúde” (ibidem, pg.ª 37)   

 

Bastará uma retrospetiva da nossa História para refutarmos o pessimismo mórbido de tendência degenerativa e esgotamento agónico, dado que não somos um povo corroído de senescência. Nem basta dizê-lo, é imperioso prová-lo, não se podendo concluir de imediato, em face duma crise, sermos um povo irrefutavelmente perdido. Aceitá-lo seria negar a excelente adaptação dos portugueses a qualquer meio-ambiente e em qualquer tempo e lugar, o seu grande ativo de aptidão para lidar com outras culturas, a nossa longevidade histórica de mais de 800 anos.

 

O que também prova que não há uma psicologia indiscutível dos povos, apesar da História estar a perder impacto sobre as crenças imediatistas do presente além de, nos nossos dias, um pessimismo mais catastrofista ser fomentado fortemente pelos media.  

      

05.02.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 


[1] Saíram pela primeira vez no jornal O Norte, diário republicano da manhã, do Porto, em 24 e 31/12/1907 e 07/01 e 14/01/1908.