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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

Há que dispensar o cocktail da política do ódio, da mentira, do pessimismo

  


As desigualdades mais revoltantes não se gerem no descompasso dos processos simbólicos do inverso das coisas más serem as boas e de imediato identificá-las com o bem personificado na pessoa-divindade que se assume como tal.

Todos temos os nossos constrangimentos externos e internos que balizam o exercício das liberdades e nos instam a entender que ninguém escolhe livremente agendas na totalidade, o que também não nos condena a escolhas de óbvios defeitos e horrores.

O modelo avatar condiciona processo e resultado, circulação de narrativas e imagens, e procura o controlo da ignorância oferecendo-lhe os mais lustrosos jogos simplistas que se encaixam em todos os preconceitos considerados de senso comum, qual receita de controlo completo à escala planetária.

O enfraquecimento do ensino, da educação, dos meios de comunicação, a multiplicação de canais sem evoluções substantivas, a própria Internet, tudo emergiu numa mercantilização tremenda pela atenção humana.

As próprias teses do conspiricionismo já descobriram há muito a importância dos discursos a soundbites pois a atenção das gentes já não se mantém para além do instantâneo.

Muito, demasiado mesmo, se entregou ao poder do dinheiro, enquanto as dores se não queixavam dos ataques sem precedentes que as provocavam e que advinham da decisão referida ao poder puramente mercantilista.

Há que gerir as compatibilidades que impedem a vida dos naufrágios em naufrágios e, para tal, a simples força de vontade poderá não ser suficiente, e por essa razão as mutações devem ser usadas para convergir e virar os tortuosos e apocalípticos jogos em decisões conscientes num outro caminho de humanidade real.

A própria heterogeneidade espicaça a criar conteúdos e a descobrir o razão do mais urgente, e se não estivermos a ser apenas reativos, produziremos um modo de nos entendermos a nós próprios e às sociedades, evitando o extremo saque do mundo e a anulação completa de sistemas que ainda têm muito para serem refundados.

Para tanto dispense-se de imediato o cocktail da política do ódio, do pessimismo, da mentira.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

A mentira é quando não se compartilha o alimento. 

  


É mais ameaçador admitir que para manter uma instituição há que mentir, ou que não mentir é algo mais ameaçador que nos faz passar para um mundo sem norma?

É uma questão desestruturante, uma interrogação agudíssima, pois o que significa o caos? Tudo tem e não tem sentido? Qual a chave interpretativa?

Há em estes questionares, uma espécie de incandescência dos pensamentos. Vai-se a muitos lados numa estimulação e num entusiasmo que, quando se sai disso, o mundo amornece tanto que falece em pouco.

No entanto, continuará a vir das perguntas a efervescência da criação, da inteligência, da novidade que estimula a inovação, e pelo bom caminho começa o laço com as coisas que saem por entre os céus do puro idealismo e entram na comunhão de bens com a realidade.

As temáticas das conferências multidisciplinares e rigorosas passam então por saber o que é preciso para sorrir com uma agilidade intelectual tão espantosa, tão amorosa que envolva o imprescindível respeito pelo que é vivo e pela sua condição neste mundo.

A minha homenagem por quem nos deixou há pouco tempo.

Refiro-me a Jane Goodall e à sua lucidez obsessiva para que se redefinisse Homem, para que ele redefinisse o seu interior e o enfrentar-se, para que saísse do seu pedestal e se entendesse por entre as mentiras mais aproximadas das verdades que pudesse consciencializar.

Este um dos grandes fragmentos em falta na vida social humana: a auto-reflexão.

Com profunda humildade agradecerei sempre a Jane Goodall a grande viagem e o imenso despertar, a clareza do quanto a mentira é quando não se compartilha o alimento.

 

  


Teresa Bracinha Vieira