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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de maio de 2021

 

“Portugal – Ser e Representação” de Miguel Real (Difel, 1998) constitui uma reflexão crucial, no conjunto de uma obra que atinge os quarenta anos de persistente labor intelectual.

 

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PERMANENTE INTERROGAÇÃO

Os quarenta anos de Escrita de Miguel Real correspondem a uma permanente interrogação sobre o tema dos mitos e da essência da cultura. Eis por que razão a sua obra tem de ser analisada a partir do seu sentido crítico e não apenas através de uma identificação simplificadora das glosas que tem desenvolvido, por exemplo, a partir de Teixeira de Pascoaes, Jorge Dias, António José Saraiva e Eduardo Lourenço. De facto, o elemento dominante encontrado pelo ensaísta no homem português de “ser o que não é”, leva-nos à compreensão de que a riqueza do pensamento de Miguel Real é a sua capacidade de pôr em causa os lugares comuns e de assumir a complexidade. Tal como refere José Gil, sobre o “ensaísmo trágico”, relativamente a Eduardo Lourenço, Miguel Real não segue os dois caminhos tradicionais do pensamento filosófico – ora partindo dos grandes conceitos, com o horizonte reconfortante e estável das sínteses, como em Kant e Hegel; ora exercendo a análise pura e direta da decomposição das noções. Miguel Real prefere os conceitos, encarados como “figuras simbólicas”, a partir da função ontológica do mito. Com efeito, aceita que há dois tipos de existência – a empírica e a mítica, mas é a segunda que estrutura a primeira e fá-la consistente. A mitificação do empírico conduz-nos ao primado do sentido crítico, não havendo confusão entre a invocação dos mitos, o seu efeito, e a respetiva aceitação. Eis por que são importantes os mitos que a sociedade produz, assumindo a dupla dimensão de integração e renovação. De facto, o mito evolui e adapta-se à realidade e, simultaneamente, contribui para fazer alterar a própria realidade. Não por acaso, M. Real faz da crítica literária o seu terreno de eleição, a fim de compreender melhor a capacidade criadora. É a busca da complexidade hermeneutica, ontológica e histórico-sociológica que o preocupa. O “imaginário português” é, assim, o campo de ação do analista, como fator de liberdade, de independência e de diversidade. Ao aventurar-se no lugar dos outros e no campo do ser o que não se é,  depara-se, tantas vezes, com uma menor compreensão daquilo que verdadeiramente põe em causa. Pode, assim, aplicar-se-lhe o que Eduardo Lourenço afirma em “Heterodoxia – I”: “o homem é livre de aceder a uma visão geral da vida através duma reflexão incondicionada, cuja essência consiste na possibilidade de recusar ou discutir toda a espécie de postulados”. Por isso a distância em relação à ideia de sistema, e a evidente preferência pelo método ensaístico, tal como preconizado por Sílvio Lima. E assim eis-nos perante a interrogação exigente sobre o modo como somos e como imaginaríamos ou deveríamos ser. Daí uma especial coerência em recusar os temas circunstanciais ou as ilusões da moralidade – o que se evidencia nas incursões romanescas, com evidente sucesso, em que a singularidade dialoga com a comunidade, sem pretensão de uma qualquer conclusão edificante.

 

QUALIDADES E DEFEITOS…

Portugal é visto com qualidades e defeitos, com avanços e recuos, com características próprias, as mais das vezes contraditórias: a Providência e o anti-clericalismo; a unidade e a diversidade; o conformismo e o inconformismo; o lirismo e o picaresco, a tragédia e a ilusão. Afinal, urge denunciar o “irrealismo prodigioso da imagem que os portugueses fazem de si mesmos”, como lemos no autor de “O Labirinto da Saudade”. Longe da placidez das explicações unívocas, encontramos no caminho da nossa História: os gestos traumáticos da independência nacional; a longa hesitação do Mestre de Avis; o desastre de Alfarrobeira; a tragédia do Infante Santo; a morte da esperança do Principe Perfeito; a loucura de D. Sebastião; a ambiguidade do Quinto Império; o efeito do Ouro do Brasil; a partida da Corte para o Brasil; a humilhação do Ultimato inglês; o colonialismo; a neutralidade colaborante do Estado Novo… Tudo se projeta na vida coletiva, na gestação e desenvolvimento dos mitos. “Os Lusíadas” são uma genial ficção, em que Camões segue os passos de Virgílio e põe-nos na linhagem de Eneias e dos heróis de Tróia. É uma ficção grandiosa que não esconde a excecionalidade de uma evolução dificilmente explicável de uma “existência crepuscular”. De facto, só a crítica, do mito e pelo mito, pode tentar encontrar uma chave para esse encontro com o destino difícil de explicar.

 

EUROPA E LUSOFONIA

Os mitos da Europa e da lusofonia obrigam, no fundo, à interrogação paradoxal sobre o velho continente e as relações ancestrais ambíguas que o tempo tem procurado resolver: depois de a Europa nos ter feito e de nós termos feito a Europa é tempo de assumir criticamente um sonho, apesar do desencantamento que resulta do confronto com a realidade. Afinal, Portugal e a Europa fazem-se mutuamente, designadamente através de uma relação ibérica inteiramente nova e absolutamente necessária… É de uma reconciliação connosco próprios que falamos, deixando de nos sentirmos marginais ou sós – com uma garantia de segurança e liberdade. De facto temos “Duas Europas”: uma, a nossa (em conjunto com a Espanha), castiça, do sul, arrastada pela má consciência de termos sido grandes; e a outra nórdica, avançada e acelerada… Já a “lusofonia” corresponderá a um espaço de língua, que não significa espaço de cultura unívoca. Tratar-se-á sempre de uma ligação de geometria variável, em que as complementaridades e as imperfeições serão muito mais importantes do que qualquer falso sucedâneo imperial. E Miguel Real diz-nos que, como nó central do imaginário português, o sebastianismo é um ativo cultural gerado pela consciência popular. Fernando Gil diz ser a alucinação um operador natural da evidência. O que obriga a que a crítica do mito se torne aguilhão de maior exigência futura. Prova póstuma de existência e desafio à lucidez. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

                                         

A VIDA DOS LIVROS

 

De 26 de novembro a 2 de dezembro de 2018.

 

Em boa hora, a Universidade da Beira Interior decidiu promover um Colóquio em torno da obra de Miguel Real. Foi uma excelente oportunidade para a realização de uma reflexão e um diálogo aprofundados em torno da obra de um dos mais persistentes e fecundos ensaístas e críticos no panorama português.

 

 

ENSAÍSTA ATENTO
Se refiro o ensaísta, não esqueço o romancista, com provas dadas e justos prémios alcançados, porém sendo um cultor da língua e um fino leitor e autor do romance, notamos (e essa é uma qualidade incontestável) que nunca deixa de pensar a cultura e a identidade, como realidades complexas que não podem passar despercebidas. Ora é a perspetiva do ensaísta que ocupará as linhas que se seguem. E as recentes iniciativas levadas a cabo, aquando do centenário do Padre Manuel Antunes, permitiram um reencontro com as reflexões de Miguel Real, até porque o autor do indispensável Repensar Portugal apontou muitas vezes no sentido de compreender a cultura portuguesa não em termos fechados ou retrospetivos, mas em termos integradores de uma complexidade, incompatível como estereótipos ou simplificações. O humanismo universalista é tudo menos uma marca redutora ou providencialista. Aliás, quando hoje lemos o Padre António Vieira da Clavis Prophetarum, tendo em consideração as mais recentes investigações nesse domínio, percebemos que as ideias de povo eleito ou de uma vocação imperial caem por terra – abrindo caminho ao reconhecimento da dignidade humana como património comum e como objetivo a partilhar pela humanidade… E Miguel Real nos vários registos da sua escrita e da sua reflexão tem procurado demarcar-se da tentação de uma certa predestinação de um povo ou de uma existência… Deste modo, a leitura marcadamente crítica sobre a mediocridade nacional insere-se na tradição das correntes de pensamento que desde tempos imemoriais olham a nossa realidade numa perspetiva crítica, com a preocupação de assegurar uma séria articulação de esforços, capaz de negar o fatalismo do atraso e de criar condições para podermos viver uma melhor defesa do bem comum. Fala-se do escárnio e maldizer, do picaresco, do não nos levarmos demasiado a sério, mas também do querer viver ao ritmo do mundo civilizado – os elementos são vários e as personagens da nossa cultura apresentam-se com características contraditórias, o que as leva a não se eximirem ao sentido fortemente crítico, que não deve ser confundido com puro negativismo.

 

HUMANISMO UNIVERSALISTA
António José Saraiva falava do “estar-se onde não se está”, o que leva os portugueses a serem religiosos e heréticos; ortodoxos, mas heterodoxos; emigrantes mas não colonizadores (por força da miscigenação); aventureiros, mas radicados (como na Diáspora); pobres mas generosos; e atrasados, mas crentes num destino (messianismo). De Gil Vicente a António José da Silva, de Garrett a Camilo e Eça de Queiroz encontramos a exigência crítica como contraponto à indiferença ou ao conformismo. E que é o país de suicidas de Unamuno, que hoje já não seria assim entendido, senão a manifestação séria de um inconformismo, que apenas visa combater a passividade e a irrelevância? A abrir “Portugal – Ser e Representação” Miguel Real cita, sintomaticamente, o Padre Manuel Antunes: “Reencontrar o antigo, por vezes mesmo o mais antigo para criar algo de novo (…). A nossa história multissecular de Povo independente é feita de espaços de continuidade e de espaços de rutura, de períodos de deterioração e de períodos de recuperação, de anos de sonolência e de momentos de crítico despertar, de estados de descrença e de instantes largos de esperança quase tão ampla como o universo”… Uma história antiga, com raízes culturais múltiplas, as alternâncias entre continuidade e recusa, entre altos e baixos (numa ciclotimia de euforia e pessimismo) e o encontro entre vontade e destino – tudo se soma, numa Ibéria em que a nossa “maritimidade” se contrapõe à “continentalidade” de Espanha, projetando nos dois símbolos contrapostos – Fernão Mendes Pinto, como personagem múltipla no mundo, e D. Quixote, como imaginação e sonho. A multiplicidade da aventura da Peregrinação sublima-se na vontade do povo que Herculano encontra como explicação da independência e da unidade. O Brasil é a imagem grandiosa da frente marítima europeia de Portugal, enquanto as Espanhas projetam-se na América em múltiplos países, em razão das autonomias metropolitanas…

 

A DEMANDA DE PORTUGAL
A Portugal, segundo Eduardo Lourenço, faltou mentalidade europeia desde a segunda metade do século XVI. E o que nos ensinou Antero? A não nos escondermos no nosso passado (o Messias de Portugal é o seu próprio passado). O sebastianismo, além de prova póstuma da nacionalidade, é uma alucinação mental delirante, sentimentalmente verdadeira e racionalmente falsa (segundo Miguel Real). “Como nó central do imaginário português, o mito sebastianista sintetizou os quatro complexos culturais recorrentemente sofridos pelos portugueses: o complexo de Viriato ou viriatino, o complexo de Padre António Vieira ou vieirino; o complexo do Marquês de Pombal ou pombalino e o complexo canibalista, vinculado à inveja individual e à intolerância coletiva. Assim, ainda que de origem histórica profundamente negativa, o sebastianismo constitui igualmente uma espécie de motor ético dos portugueses, forçando-os a acreditarem dever ser o futuro melhor do que o presente, mesmo para que tal se sintam obrigados a fugir da medíocre elite portuguesa, que do País se apodera como uma coutada sua e emigrar como o fazem hoje” (o autor escrevia em 2013 na Nova Teoria do Sebastianismo). Aqui se encontra como que uma síntese, que explica, afinal, a severa crítica, em que Miguel Real aprofunda a exigência de termos de fazer mais do que meramente nos adaptarmos e que está bem presente no universo romanesco do autor... Como José Mattoso ou Eduardo Lourenço têm dito, não somos nem melhores nem piores que outros – somos um país médio, com responsabilidades e oportunidades significativas, mas na senda de Herculano tudo depende do que formos capazes de fazer. Um messianismo larvar, a sombra sebástica, a tensão permanente das contradições do nosso código genético, o uso crítico dos nossos mitos para os podermos superar em emancipação – tudo isto constitui pano de fundo do nosso ser… Esta a base para a célebre “psicanálise mítica do destino português”, publicada em primeira mão na revista “Raiz e Utopia”. Miguel Real não é, porém, catalogável. Nós somos realmente uma mistura de fatores contraditórios. E neste ponto, não podemos deixar de recordar a importância que Matias Aires (1705-1763) teve no pensamento do nosso autor. Para o filósofo luso-brasileiro, a verdadeira felicidade não é a ilusória: do poder, da riqueza e da fama; é, sim, a “da aproximação incessante à verdade, exigindo o desmascaramento da vaidade individual e social, findando no estado interior de serenidade de quem sabe (…) que tudo é vaidade”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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       Minha Princesa de mim:

 

Miguel Real (já leste tu, Princesa de mim, o seu Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa - Planeta, Lisboa, 2017 ?) será, a meu ver, pelo método e seriedade, o ensaísta de serviço à arrumação dos vários esforços e exercícios que outros fizeram e vêm fazendo, com convergências e divergências, para refletir sobre identidade e cultura portuguesa - e cito-o - desde a obra dos pensadores da Geração de 70, mas também - e sobretudo - de Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes, António Sérgio, padre Manuel Antunes, Jorge de Sena, António José Saraiva, Boaventura de Sousa Santos, José Mattoso e Eduardo Lourenço. E, no balanço, traça o perfil de um discurso de Guilherme d´Oliveira Martins, por ele espremido da leitura do livro deste (Portugal. Identidade e Diferença, Gradiva, Lisboa, 2007) que parece matizar a afirmação do mesmo de que "os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo":

 

Segundo Guilherme d´Oliveira Martins, Portugal, reafirmando a sua complexada identidade cultural passada, mas recusando simultaneamente «o triunfalismo e o miserabilismo», tem hoje, nos princípios do século XXI, integrado na Europa, a grande oportunidade de superação dos seus traumas históricos, normalizando-se, racionalizando as suas estruturas sociais e estatais, unindo «pensamento e ação», integrando ambos num projeto complexo e multidimensional sumamente caracterizado pela abertura ao «outro». Neste sentido, propõe o repensamento e a revitalização da nossa identidade histórica por via de uma abertura relacional a outras entidades (Europa, África, Brasil...), um autêntico mergulho no «outro» que provocatoriamente abale os nossos complexos («saudosismo, sebastianismo, lirismo sonhador, fatalismo oriental, brandura de costumes»), forçando a sociedade civil a não depender em absoluto do Estado, «matando» definitivamente Dom Sebastião dentro de cada português.

 

Mas agora, pergunto eu, não estaremos nós a reentrar, pela porta do quadro de uma "atualização" conveniente, na mesma obsessão? Na fezada num eu nacional histórico, chamado a dar "autênticos mergulhos" noutros, tudo isto (quanto é?) proposto num discurso grandiloquente e alheio a qualquer análise empírica e crítica da realidade da sociedade portuguesa atual, e da sua presente circunstância?

 

Na verdade, aquele tal Portugal só pode ser um conceito abstrato, um sentimento desencarnado, o "outro" ou "outros" em que deverá "mergulhar" mais não sendo do que destinos de uma viagem de regresso a mitos com que se relacionaram passadas grandezas ou onde se procuram novas alienações... As a matter of fact, como diriam os nossos pérfidos albiões, a portugalidade contemporânea - falo de gente, não de um conceito - surge ainda, infeliz e largamente, como a piolheira de que falava o Senhor Dom Carlos I, e também, doa a quem doer, feliz e crescentemente, como um movimento de novos "estrangeirados" (dói-me, a mim, que assim sejam tratados) que se distinguem no panorama internacional, desde a interpretação da música clássica e barroca até à qualidade dos trabalhos de investigação em áreas de humanidades clássicas, ou em disciplinas na vanguarda da investigação científica. E não esqueço os emigrantes operários que, em terras estranhas, se converteram à contemporaneidade e se reorganizaram, em si mesmos e socialmente, para saber responder a desafios que o imobilismo da sociedade portuguesa vezes demais nem sequer permitiu que se lhes pusessem... 

 

Não vou maçar-te com discursos tratadistas, deixa-me só citar-te passos de autores vários que poderão ajudar-nos na interrogação desses que, quiçá, serão alguns dos nossos atuais mitos alienantes, como a lusofonia, o Atlântico, o Brasil, a África, etc., etc.. Se bem me lembro, já João Gaspar Simões emitia reservas sobre o português do premiado Luandino Vieira, torcendo o nariz ao uso de vocabulário de raiz regional ou dialectal angolana e outros idiomatismos... E talvez me não engane muito ao dizer-te que o famigerado acordo ortográfico também é uma tentativa de controlo da língua portuguesa pelos seus primeiros "proprietários"... Simplesmente, a meu ver, vira-se mesmo assim o feitiço contra o feiticeiro: gerou-se mais confusão no que já era um medíocre tratamento do português por uma geração de nativos europeus, em que deparamos com alunos e, até, docentes universitários a falar e escrever a língua pátria bem pior do que gente do tempo dos nossos avós que apenas recebera instrução primária; e, pior, vai-se fazendo com que se percam oportunidades de cada um poder descobrir caminhos para chegar à origem das palavras e melhor entender o seu significado e a relação entre elas. Mas vou a um trecho do professor Onésimo Almeida, no seu A Obsessão da Portugalidade (Quetzal, Lisboa, 2017):

 

A transformação da língua portuguesa em África é um fenómeno mais recente e mais escrutinizado pelo antigo poder dominante. Agora libertos, os escritores africanos têm vindo a fazer um maravilhoso trabalho linguístico, tornando verdadeiro para eles próprios o dito de Pessoa/Bernardo Soares «A minha pátria é a língua portuguesa». Basta vermos as posições de Jofre Rocha, Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane («Uma coisa que eu deixo muito clara: português-padrão, nunca! Não estou interessada.»), Henrique Teixeira de Sousa, Raul David ou Boaventura Cardoso. Este angolano, em particular, é sucinto e claro:

 

   [...] essa língua vai-se enriquecendo de uma forma acelerada, vai-se afastando cada vez mais da norma do português falado em Portugal. Não será uma língua diferente, não será outra língua, mas haverá certamente muitas contribuições novas que resultarão da coexistência entre a língua portuguesa e as mais diversas línguas nacionais. Porque a língua portuguesa coexiste com as línguas nacionais. E, naturalmente, dessa coexistência resultarão uma série de empréstimos - quer para a língua portuguesa, quer para as próprias línguas nacionais. Eu acho que a língua portuguesa em Angola vai sofrer profundas alterações - aliás está sofrendo neste momento - e nalguns casos haverá um afastamento considerável em relação à norma do português falado em Portugal.

 

Luandino Vieira, o esplêndido criador literário que tão bem soube aprender com Guimarães Rosa a transformar a linguagem da gente e a fazer com ela obras de arte - cadeia que desembocou depois no mágico Mia Couto -, captou o problema nestes termos:

 

   Não tenho dúvida nenhuma [...] as nossas crianças não vão falar, evidentemente, o português de Portugal [...]. [Ele] mantém-se, mas o resultado vai ser outro. Ainda não se percebe muito bem como é que vai ser.

 

Nem se poderá facilmente adivinhar. Recordo-me, Princesa de mim, dos meus 25 meses de Guiné, em que diariamente tinha de lidar com onze diferentes línguas nativas que, evidentemente, eu não entendia. Mas falava longamente com os intérpretes, procurava sobretudo entender como se formavam as expressões de diversos modos de pensar. Qualquer língua, ou linguagem, é basicamente uma forma de expressão, sendo ainda verdade, por outro lado, que quando se ensina ou transmite uma língua também se está traduzindo um certo modo de pensar. O crioulo (cabo-verdiano e guineense) era igualmente um cadinho de misturar línguas várias, entre as quais se reconhecia a portuguesa, curiosamente mais pelo vocabulário que emprestava, do que pela sintaxe que a sustentava. Dei comigo a compor, só para mim, uma espécie de gramática do crioulo. Já lá vão 50 anos... Talvez a descubra um dia, numa das caixas de manuscritos que nesta casa dormem e ainda não acordei. Numa antiga entrevista ao Jornal de Letras, intitulada Um Escritor Abensonhado, o moçambicano Mia Couto diz bem o que, alhures e por diferente experiência, eu aprendera na Guiné:

 

   Os moçambicanos não são apenas consumidores, mas também produtores ou coprodutores da língua e, nesse aspeto, fazem-no com muita liberdade e de modo que a cultura que lhes é própria faça estalar o edifício do português-padrão e dessa fratura haja a emergência de termos novos, de construções novas. E essas fraturas deixam ver outra sensibilidade, outra cultura, outra maneira de olhar o mundo.

 

Pessoalmente, sou grande leitor de escritores africanos lusófonos, designadamente Agualusa, Mia Couto e Ondjaki. E recorro também frequentemente aos seis gordos volumes do dicionário Houassis, um vade mecum da minha lusofilia. E sinto-me muito mais feliz no ambiente de um universo linguístico e literário em expansão, do que no colete dos purismos castiços ou, pior ainda, na pretensiosa disciplina de um pretenso acordo ortográfico. Sem que tal impeça, ou sequer condicione o meu estilo de escrita, na expressão que aprendi, acarinhei e amo. E serei sempre mais contente pelo encontro de Houassis alargados do que pela mesquinhez de acordos ortográficos.

 

     Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 26 de junho a 2 de julho de 2017.

 

Miguel Real acaba de dar à estampa Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa (Planeta, 2017), que constitui um belíssimo repositório de reflexões, na linha de um percurso sério e persistente, de análise e estudo, que o autor vem seguindo.

 

 

PORTUGAL EM TRAÇOS FUNDAMENTAIS
Na linha de obras anteriores, temos agora uma síntese, onde se apresentam os “traços fundamentais” de uma cultura plena de diferenças e contradições, que alguns procuram simplificar, mas insuscetíveis de redução, que, a existir, tornar-se-ia caricatura. Uma cultura de “melting pot”, como a nossa, não pode deixar de se afirmar numa tensão entre o que se mantém e o que muda, entre os que ficam, os que partem e os que chegam. De facto, como Eduardo Lourenço ou José Mattoso têm ensinado, na linha de Garrett e Herculano, da geração de 1870 e das correntes críticas do século XX, para Miguel Real: “não existe uma essência identitária de Portugal, uma noção metafísica sintetizadora da existência de Portugal e identificadora da sua história…” – e “um dos maiores equívocos dos teóricos da cultura portuguesa tem sido a insistência, ao longo dos tempos, mas fortemente desde o final da monarquia, em 1910, na busca de um conceito absoluto, transcendente, exclusivo, excecional e extraordinário, definidor da identidade nacional ou do homem português”. Este é o ponto de partida, não só para compreendermos a diversidade e a complexidade de quem somos, mas também para nos mantermos abertos às diferenças – sobretudo considerando que a nossa cultura está na génese de outras culturas, geradas a partir de uma língua falada em todos os continentes, que se enriquece através da coexistência de várias outras línguas (como os crioulos), correspondentes às zonas geográficas onde o português é língua oficial… Deste modo, o futuro não pode deixar de ser encarado como um campo aberto à diversidade e de multiplidade cultural, onde coexistem vários e naturais polimorfismos… De facto, não podemos esquecer as sequelas de ressentimento (para que nos alerta o autor, na senda de Eduardo Lourenço) nos Estados e povos colonizados, “que ora legitimamente desconfiam do afã lusófono”. Por isso, a “Lusofonia não pode repetir a história, renovando os vícios dos diferentes desencontros históricos havidos em séculos passados”. Daí a necessidade de uma “paisagem política nova” – que considere o alerta do célebre título do ensaio de Maria Manuel Baptista: «a lusofonia não é um jardim ou a necessidade de “perder o medo à realidade e aos mosquitos”»… No fundo, a saudade e a morabeza, bem como as diversas idiossincrasias resultantes dos diálogos interculturais, fazem parte integrante de um modo de ser complexo e heterogéneo do mundo da língua portuguesa…

 

QUEM SOMOS, AFINAL…
Longe de uma explicação de destino transcendente, não somos nem melhores nem piores que outros – nem um segundo povo eleito de Deus, da herança judaica, nem depositários exclusivos da saudade (de Pascoaes), nem vocacionados para o Quinto Império sebastianista ou para a Terceira Idade de Joaquim de Flora… Portugal é um cadinho de múltiplas influências. Está aí a sua “maravilhosa imperfeição”. E quando encontramos em Fernando Pessoa as contradições insanáveis, que a heteronímia alberga, verificamos a importância da coexistência das diferenças que enriquecem a nossa cultura e das culturas que a animam. “A cultura é uma espécie de biblioteca, de ideal, em que nós pensamos separar aquilo que ainda perdura na memória, ainda atuante, daquilo que está morto”. Eis o ponto em que nos encontramos e que permite compreendermos que António Sérgio e Jaime Cortesão correspondem a faces de uma mesma exigência de compreensão da realidade que nos cerca. Sérgio alerta-nos para as condições materiais e para o conflito entre a fixação e o transporte, que marca o patriotismo prospetivo – contra o fatalismo do atraso. Cortesão não nos deixa esquecer, ao lado da razão, o anseio espiritual e emotivo. E sabemos bem, lendo os textos fundamentais de ambos e confrontando-os entre si e com a moderna historiografia, como Portugal e os Portugueses, apesar de todas as vicissitudes, continuam na luta, combatendo a mediocridade e a irrelevância. País suspenso no tempo? As elites alimentam uma cultura dúplice, ora escolástica e contra-reformista; ora europeia, reformista e aberta à modernidade; enquanto a cultura popular persiste vernacular, nativa e rústica. E a psicanálise mítica do destino português invoca a ciclotimia do sucesso e do fracasso, a força do centralismo da Arcada e de S. Bento e as resistências à autonomia e a descobrir e inovar. Afinal, perante as dificuldades encontramos energias desconhecidas, que se relacionam com a sobrevivência. Mas a que se deve o atraso estrutural? O debate sobre os estrangeirados e sobre a fragilidade das elites não perdeu atualidade. A natureza complexa da nossa realidade cultural leva-nos a que os elementos vários que a constituem favoreçam a formação de uma vontade comum, apesar dos egoísmos. E o pessimismo nacional? Será que o velho do Restelo de Camões ou Sá de Miranda na carta a D. João III são demonstrações insanáveis de uma incapacidade congénita para nos superarmos? E estaremos condenados a ser um “povo póstumo”? Se virmos bem, os melhores momentos da nossa existência coletiva (1415-1539) e a durabilidade do projeto Portugal deveram-se não ao improviso, mas à determinação e à definição de metas de largo prazo… Leia-se a «Crónica dos Feitos da Guiné» e perceba-se que não há aí espontaneísmo ou loucura… Há capacidade de planear e de mobilizar vontades.

 

O PORTUGAL FUTURO…
A anteceder o prefácio de José Eduardo Franco, está transcrito o poema de Ruy Belo “O Portugal Futuro”. “O Portugal futuro é um país / aonde o puro pássaro é possível…”. O poeta diz que, chamem o que chamarem, “Portugal será e lá serei feliz / Poderá ser pequeno como este / ter a oeste o mar e a Espanha a leste / tudo nele será novo desde os ramos à raiz”. Em lugar do pessimismo sem horizonte, é possível a determinação e a continuidade. Para tanto, há que cultivar o espírito crítico e conhecer a história. Os mitos tornam-se construtivos, quando compreendidos reflexivamente. Os judeus, a Inquisição, os jesuítas, Camões, o sebastianismo, Vieira, Pombal, a ideia de nação superior e inferior, o pessimismo nacional, a decadência, o país suspenso no tempo como lugar cultural e mental encantado, o canibalismo cultural, os grupos fratricidas e parricidas – são fatores que nos obrigam a perceber a identidade nacional limitada nas condicionantes de nove séculos de história. «Por via da Europa – honra lhe seja feita -, e não por gradual esforço nosso, não são apenas dois ou três pensadores portugueses a exigirem o império da tolerância, mas as próprias instituições sociais, e antes de mais o Estado e a Igreja Católica…». E assim, preparamo-nos para enfrentar o século XXI, libertando Portugal de um passado económico, político e cultural que há meio milénio «sempre nos atrofiou as virtualidades».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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