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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

AS ENERGIAS ALINHADAS

  


Nenhuma cidade, nenhuma casa, e de facto nenhuma parte de casa, deve ser construída ou arrumada sem que as energias estejam perfeitamente alinhadas. A arte antiga do Chop Suey assegura-nos que nenhuma janela pode estar virada a poente a menos que a máquina de sumos irradie para o quarto de cama; que não se pode descurar os armários e a parede; e que os Quatro Ventos são comandados pela via de cintura interna. Um pouco abaixo da cintura, outra linha imaginária une a parte esquerda da alma ao centro cultural. Para o demais, um cesto de artesanato com hemoptises, cristais, cornélias e ermelindas negras. Sentimos que o mundo é a nossa ostra, e que a nossa casa nos abraça.

Trata-se da origem da antiga arte da planificação, e com resultados semelhantes. A atenção às energias alinhadas é responsável pela harmonia entre pessoas, animais e cosmos. Cada pessoa, animal ou cosmos pode ser comparado a um rim; as energias acumuladas passam pelo meridiano de Greenwich, o qual por sua vez afecta os rins. O rim tem a forma da ostra, e regista a ecografia dos sons. Foi desde muito cedo na história da espécie, quase desde o primeiro Ano do Gato,  um modo seguro de evitar as Dez Abominações. Inserindo agulhas esterilizadas na Hóstia de Camarão, revelam-se os Quatro Ventos; brotam aproximadamente mil flores, numa média de duzentas e cinquenta por armário, segundo se calcula.

Com a casa arrumada estamos finalmente prontos para começar o Chow Min. Sem ele as nossas manhãs não seriam como de facto são. Nos jardins preparados antecipadamente pelo Ancinho os praticantes sincronizados movem-se como o polvo entre as flores. Com uma lentidão calculada  levantam todos a mesma perna; ‘a mesma perna’, dizemos bem. Com efeito, embora num sentido trivial a perna seja de quem acontece tê-la, qualquer perna, por maior que seja, é a perna do Um. O Um corresponde por sua vez sensivelmente a metade do Dois.

Só quem não participou alguma vez numa aula de Chow Min, com a extraordinária experiência que isso implica, a pode reduzir às coreografias que parecem inconclusivas a olhos estranhos, sem comparação possível com as aulas buliçosas de Herodes ou de Kwanza. Tal como o Chop Suey organiza o espaço físico, a verdadeira dimensão do Chow Min é mental. Parte a partir do físico, por assim dizer, em direcção ao mental, até acabar por lá chegar. A mente, que é a marca do mental, caracteriza-se por ter um extraordinário poder de concentração mental, como um sumo a que não foi adicionado qualquer outro sumo. Ao focar-se nas luzes que estão para lá do muro, levanta-se uma energia. Dizem os fiéis, e com perfeito motivo, que assim até dá gosto viver na Parede.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

A ROCHA TARPEIA

  


Apesar de o modo normal de execução na Roma Antiga ser o estrangulamento, da tradição penal da república romana recordamos em particular a Rocha Tarpeia. A Rocha ficava em Roma, não muito longe do Capitólio, e servia para que dela se pudessem fazer despenhar vários tipos de criminoso. Os historiadores informam-nos que tinha a altura de um prédio de sete andares.

Sendo nós de um modo geral contra a pena de morte, coisas das nossas vidas e o esforço de todos os dias ter de lidar com outras pessoas dão-nos motivos frequentes para considerar as vantagens de dotar as comarcas principais de uma rocha tarpeia. As circunstâncias orográficas portuguesas são no geral admiráveis, visto que as cidades mais antigas foram quase todas construídas em cumes; algumas têm mesmo penhas: as obras de adaptação tarpeia parecem nesses casos simples e mais conducentes a tarefas de despenhamento. Lisboa, a capital, está por natureza equipada para a instalação de sete rochas; serão talvez demais para as necessidades, mas o desafogo da escolha permitiria escolher com escrúpulo a que mais conviesse a cada caso.

Os espectáculos das execuções são bárbaros e detestáveis; não passaria pela cabeça de ninguém reinstituí-los. Um método moderno seria o Passeio, conhecido por processo peripatético. O Passeio tem três fases:  na primeira, convida-se o executando para dar uma volta; na segunda, conduz-se o executando para a vizinhança da rocha tarpeia da respectiva comarca, tendo sempre o cuidado de chamar a sua atenção para outros aspectos da paisagem (o restaurante japonês, uma veiga, o edifício do tribunal de trabalho), não imediatamente relacionáveis com a penha; na terceira, empurra-se.

Resta naturalmente apurar quem seriam os executandos. Mesmo a um exame perfunctório não faltariam candidatos ao Passeio.   Tal abundância poderia no entanto ter repercussões internacionais e criaria problemas logísticos. Entre as alternativas ao Passeio a menos má é o método conhecido por Passeio Mental. No Passeio Mental encaminha-se mentalmente os executandos para a proximidade de uma rocha tarpeia; e depois aplica-se os passos dois e três do processo peripatético, a saber, distracção verbal e empurrão vigoroso. Tem sobre o Passeio a vantagem de poder ser repetido frequentemente, e de se poder despenhar a mesma pessoa muitas vezes, e quase com a mesma alegria.

A proporcionalidade da retribuição, como lembra utilmente Dante, requer em certos casos um castigo constante. No entanto, justamente por razões logísticas, um castigo constante só pode ser aplicado de forma prática por meios mentais; supõe assim o convite aos executandos para um passeio mental, seguido do seu despenhamento reiterado. Pode pois continuar a deixar-se aos tribunais normais e às outras instituições de reinserção social o castigo dos criminosos correntes. Para os casos principais da vida, a que aborrece o cúmulo jurídico e que as considerações de ordem prática não afectam, a Rocha Tarpeia revelar-se-ia um instituto de grande utilidade; a sua reintrodução merece ser objecto de um debate sério.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

A FAVOR DA DESERTIFICAÇÃO DO INTERIOR

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Qualquer excursão, mesmo breve, pelo interior de Portugal, não poderá deixar de mostrar as vantagens do seu estado actual de desertificação. Não há quase ninguém; os grandes equipamentos modernos, nomeadamente hipermercados e hospitais, são de utilização fácil e pouco demorada; exceptuando uma universidade ou outra onde se estuda Gestão de Gestão de Estruturas, ou Engenharia de Circulação da Circulação, e cuja população mais buliçosa é não obstante decídua, as pessoas têm uma idade madura. Com essa idade vem uma perspectiva mais assente sobre os grandes assuntos do mundo, e um temperamento previsível.

Quando a população temporária desaparece, o interior revela todas as suas vantagens: a poesia e quase o aspecto de uma estação balnear em Janeiro. A perder de vista estendem-se os campos e os matagais, com as suas casas abandonadas, os palheiros sem telhado, e os cães à solta; e só esporadicamente aparece uma casa recente, cuja construção foi interrompida a tempo. Das povoações mais remotas, graças às excelentes estradas, todos os habitantes se deslocam até à sede de concelho, onde trabalham na Hemeroteca Municipal ou na Piscina Olímpica. Da parte da tarde os funcionários da hemeroteca vão nadar; de manhã os funcionários da piscina vão consultar a imprensa de todo o mundo; e no dia seguinte tudo recomeça. 

Só quem não vive no interior se pode indignar com a sua desertificação; e considerar que tanto espaço vazio é um desperdício. No litoral todas as amenidades são de utilização difícil e demorada; as estradas são menos boas; e os locais têm que se entender com os médicos em português. É pois compreensível que lá se inveje os sítios onde não há ninguém, e que se sonhe, não sem acinte, com um mundo em que as pessoas do interior possam sofrer o horror genuíno da vida. A engenharia social é filha do ressentimento. No fundo o que preocupa as pessoas do litoral é que haja quem não viva tão mal como elas.

O interior deserto tem vantagens morais importantes. A maior é justamente a de lembrar à grande maioria das pessoas que não vive lá que ainda há quem viva longe deles. Essa vida não será diferente porque esteja mais perto da natureza, ou porque os habitantes do interior sejam menos primitivos. É diferente porque no interior se fazem as coisas de modo diferente; ninguém por exemplo se dá ao trabalho de disfarçar o facto de não ter muito para fazer. Entretanto, enquanto os habitantes do litoral se entretêm a imaginar como devia ser o interior, o interior vai-se movimentando com placidez em direcção ao litoral. Cada metro que conquista reduz melhor a área disponível para a miséria humana, e torna mais real a possibilidade de a orla costeira, cheia de gente, vir um dia a partir-se como uma bolacha de água e sal.

 

Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia.

O FIM DA ADMIRAÇÃO

  


“Não te espantes com nada,” aconselhou um poeta romano. E outro seu contemporâneo mais velho, quando informado da morte do filho, observou secamente que estava ao corrente de que tinha gerado um mortal. A atitude, que ambos consideravam condição necessária para a felicidade, era ainda muito minoritária. Muitos gregos tinham sugerido antes que o conhecimento e a felicidade dependem precisamente da capacidade de se ficar espantado, e durante muito tempo a ideia parecera boa à maioria. As coisas mudaram; hoje só uma minoria se dá ao trabalho de ficar espantada.

As pessoas podem ficar espantadas com duas coisas: com coisas que acontecem e com coisas que se fazem. No primeiro caso, o espanto dirige-se sobretudo à natureza. Traduz-se numa admiração reiterada por cabriolas de zebras, ou fenómenos meteorológicos raros. No segundo caso, o espanto é movido por aqueles que realizam certas acções; e a este espanto chama-se também admiração: por aquilo que se fez, e por quem o fez.

No entanto, há uma diferença importante entre espanto e admiração. ‘Espantar-se’ é equivalente a ‘admirar-se’;  mas ‘admirar’ é diferente de ‘admirar-se.’ Posso espantar-me ou admirar-me de que certas pessoas façam certas coisas; mas não é por isso que as admiro. Quando me admiro ou espanto posso ser acusado de ignorância; pelo contrário, quando admiro o que alguém fez, ou alguém que fez alguma coisa, sou sobretudo acusado de simplicidade de espírito ou de exagero. A diferença é a seguinte: quando alguém se admira com alguma coisa, os outros recomendam ciência; mas quando alguém admira alguma coisa ou alguém os outros perdem a paciência.

O fim da admiração consiste no desaparecimento da admiração da galeria das nossas emoções frequentes; afecta a maneira como nos interessamos pelas outras pessoas e como falamos daquilo que fazem. Quando admiramos alguém por aquilo que faz, de facto, não queremos saber de nada; não nos preocupam as causas das suas acções, ou até os seus motivos. Uma investigação das causas parece sempre diminuir aquilo que admiramos. Aqueles que são imunes à admiração gostam por isso de misturar causas nas suas descrições. É a desculpa perfeita: dizem que admiram a generosidade de uma pessoa, mas logo a seguir explicam que a causa dessa generosidade foi ele estar em posição de ser generoso; e também celebram o génio de Einstein não obstante censurarem o facto de fumar cachimbo.

É raro encontrarmos hoje quem fale dos outros sem restrições. E há uma relação entre isso e, como os romanos, gostar de lembrar constantemente a terceiros que são mortais comuns. Deixamos de sentir admiração quando concluímos que, porque somos todos mortais, nada do que fizermos é merecedor do menor espanto, e aliás da menor condenação. Todos mortais, todos iguais.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

PELA SEGUNDA VEZ

  


“Nunca,” declarou alguém, “vou a sítios pela primeira vez.” A frase exprime a atitude dos poucos a quem a ideia de uma experiência nova ainda deixa indiferente, ou a quem tal ideia provoca cansaço ou hostilidade. Não é uma atitude comum, e não é, sobretudo, uma atitude encorajada. O que se encoraja é pelo contrário um acumular daquelas coisas que se fazem pela primeira vez, a que um autor chamou sinistramente “as várias formas de actividade entusiástica”; e também a desconfiança em relação a coisas que se fazem pela segunda.

A mais aparentemente inócua e comum, mas nem por sombras a única, é viajar. Há pessoas que organizam os seus tempos livres por ordem geográfica. Mas mesmo aqueles que não sofrem dessa inclinação consideram por princípio desejável ir a sítios onde nunca se foi, e de que se ouviu dizer bem. Porquê, no entanto? Os rumores e as descrições podem, decerto, estar errados. Mesmo que porém estivessem certos e que as Seychelles e a Suécia fossem o que consta reiteradamente que são, tal não tornaria por si recomendável a deslocação. Qual é a vantagem de conhecer sítios onde nunca se foi? E qual é a esperança que anima aqueles que o fazem?

A esperança parece ser como a esperança de que amanhã o sol nasça de modo inédito: azul, triangular, ou a ocidente. É irrazoável. Tal como o mais provável é que o nascer do sol de amanhã seja parecido com o nascer do sol de hoje, assim o mais provável é que os sítios onde nunca se foi sejam parecidos com os sítios onde se foi. O resto são surpresas, que por definição não temos o direito de esperar. Quem parte das suas Seychelles natais para a Suécia encontrará assim na Suécia aquilo que os termos de comparação natais lhe ditam. A Suécia aparecer-lhe-á como uma extensão modesta daquilo que conhece, muito parecida com as Seychelles, mais tartaruga menos tartaruga; e se for dado à filosofia perceberá que não foi à Suécia pela primeira vez mas às Seychelles pela segunda.

Existe uma versão deste problema a respeito de pessoas. Tudo à nossa volta nos recomenda com insistência que as conheçamos. “O homem,” repete-se regularmente, “é um animal social.” É possível que todos o sejamos num sentido genérico, e alguns em sentido próprio. Mas mesmo nesses casos não ficará demontrado que precisemos de conhecer mais pessoas;  pode muito bem dar-se o caso de já conhecermos as suficientes, e até nem as conhecermos bem; as pessoas que sempre conhecemos são como os países em que pela primeira vez nos encontrámos, e onde nunca tivemos que ir. Acresce a isto que, como nos países, descobrimos nas pessoas que encontramos pela primeira vez aquelas que já conhecemos. Como terá observado Elizabeth Taylor, todos os maridos são iguais, embora cada vez piores.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

A POLÍTICA DA LÍNGUA

  


A melhor política da língua e a única decente é: nenhuma. Deviam assim desaparecer todas as cátedras portuguesas pagas pelo governo português em universidades estrangeiras; todos os professores de português pagos pelo governo português, fora de Portugal; todas as regras sobre ortografia, e todas as tentativas grotescas de sugerir que por escreverem da mesma maneira as pessoas vão falar da mesma maneira; e de insinuar que quem fala da mesma maneira não pode deixar de estar de acordo; em suma, devia desaparecer toda a política externa baseada em afinidades linguísticas; e extinto o Instituto chamado maliciosamente Camões. Para o necessário bastam os hábitos existentes e as liberdades fundamentais: de expressão, de comércio, e de circulação.

Quando se fala de políticas fala-se de meios e de modos de encorajar certos comportamentos. No caso da língua portuguesa os comportamentos não são claros: será o falar português? O impressionar pessoas que não falam português? Fazer versos? As complicações aumentam porque a chamada política da língua tem uma dimensão internacional. Ao desejo de encorajar comportamentos linguísticos fora do país, mesmo que não se saiba quais, corresponde a fórmula opaca ‘a defesa da língua.’ A expressão intima campanhas militares, e inimigos numerosos; mas também não é claro quem possam ser.

Vistas as dificuldades logísticas, a defesa da língua consiste essencialmente em aulas profilácticas de português coloquial, literatura em tradução, e visitas a feiras e congressos; estes processos não requerem discernimento especial; visam cativar estrangeiros por atacado. Há o risco porém de, no seu cativeiro, os estrangeiros poderem aprender a conjugar o infinitivo pessoal. A habilidade torna-os capazes de exercer medicina, abrir floristas, ou comprar transportadoras aéreas de modo idiomático; e tais eventualidades correspondem aos piores pesadelos dos defensores da língua.

Uma língua estrangeira é uma coisa que dá trabalho a aprender. É como tocar violino, engolir fogo ou resolver equações diferenciais. É por isso preciso uma boa razão para o fazer. É natural que haja pessoas com boas razões para aprender português. Nunca todavia serão muitas, e as suas razões serão sempre muito circunstanciais. Razões circunstanciais não requerem políticas. São sempre particulares, e na maior parte dos casos desinteressantes.

Quando se torna em objecto de política, a língua transforma-se em religião; os barulhos portugueses mais primitivos passam a ser vistos como manifestação oracular de deuses. Um poeta brasileiro chamou-lhes por isso a última flor do Fábio. Em Portugal a língua é um objecto de culto no altar onde se adoram mais restos das religiões da Lusitânia: a luz de Lisboa, a ética republicana e a porca de Murça. Não pode nem deve naturalmente proibir-se ninguém de acreditar nessas coisas; mas não se deve legislar sobre elas, exactamente como não se deve legislar sobre religiões. Uma consequência de se aceitar que o estado não deve legislar sobre religião é aceitar-se que não deve legislar sobre a língua.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

PENSAR O FUTURO

  


Não se passa um mês sem que se verifique uma nova reunião de sábios dedicada a pensar o futuro. Esta sintaxe inusitada do verbo ‘pensar’ dá a entender que a actividade é diferente dos modos mais familiares de pensar em coisas, ou pelo menos dos modos normais de falar disso. Requererá em consequência gente especial. Trata-se na maior parte dos casos de pessoas que já fizeram na sua vida intelectual tudo o que podiam ter feito, que são reconhecidas justamente por aquilo que já não fazem, e de que muitas vezes não querem sequer ouvir falar. Estarão assim na posição perfeita para falar sobre aquilo de que ninguém, a começar por eles, pode ter qualquer ideia, e portanto para pensar o futuro.

Há uma certa sabedoria nos sábios; no que diz respeito ao futuro não se comprometerão com previsões concretas. Fazer previsões, ensinou-lhes a sua vida anterior, é sempre dificultado por acontecimentos supervenientes. Em vez de fazer previsões os sábios preferem declarar por atacado a gravidade de vários problemas graves: a fome, a desigualdade, a guerra e o clima; e também, mas em tom optimista, a possibilidade de várias soluções optimistas.

Como há várias soluções optimistas possíveis é requerido o contributo de sábios de muitas especialidades diferentes. Estão assim normalmente representadas nestas reuniões públicas, por ordem decrescente de dignidade, as neuro-coisas, as organizações internacionais, as ciências médicas, as religiões do mundo, a astrofísica e, em último lugar, o romance ou a economia. São todas especialidades muito técnicas, que requerem anos de preparação e trabalho; é assim praticamente impossível arranjar quem tenha uma ideia simultânea de todas; e só a quem não a tenha de nenhuma será possível ter de algumas. É pois precisa a cooperação do leitor médio, que, porque foi poupado a qualquer preparação, está habituado a admirar com equanimidade documentários sobre malformações genéticas, rituais religiosos, fotografias de corpos celestes, artigos sobre a desigualdade, e requisitórios contra a poluição dos riachos; e assim se explica que o tópico ‘pensar o futuro’ desperte tanto interesse no leitor médio.

A imagem de gente a pensar o futuro diante de plateias interessadas corresponde a uma tradição muito antiga: a das actividades verbais de um conjunto de pessoas que não tem nada de particular a dizer, realizadas diante de um conjunto de pessoas que nunca teriam qualquer possibilidade de perceber o que de particular alguém tivesse a dizer. A atracção das segundas pelas primeiras é tão irremediável como a atracção de espécies menores pelas nuvens de tinta emitidas por chocos em fuga. Explica ainda que o acordo quanto aos diagnósticos e aos remédios seja pronto e unânime; e que pensar o futuro seja uma tarefa relativamente fácil.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

AUTO-CONFIANÇA E AUTO-AJUDA

  
    Barão de Münchhausen


A auto-confiança e a auto-ajuda são consideradas sentimentos parecidos; existe uma correlação observada entre ter a primeira e cultivar a segunda; e acredita-se em ambos os casos que causam emoções respeitáveis. São por isso encorajadas, consideradas desejáveis nas crianças, e objecto de estima. As noções foram inventadas por dois autores que viveram na mesma altura e que são frequentemente confundidos um com o outro. Há no entanto qualquer coisa de admirável na noção de auto-confiança, e qualquer coisa de duvidoso na noção de auto-ajuda.

O que é admirável na noção de auto-confiança não é naturalmente o exagero de supor que tudo depende das opiniões que temos a respeito de nós próprios, e em que costumamos acreditar; tais opiniões acelerarão quando muito o nosso metabolismo, far-nos-ão sair de casa sem cachecol, e levarão erradamente a imaginar que mais ninguém nota as vilanias que vamos cometendo. Mas a quem assim exagera só podemos lembrar que a estupidez humana está muito melhor distribuída do que se pensa.

O que é admirável numa pessoa auto-confiante é pelo contrário fazer certas coisas sem pedir desculpa, mas deixar de as fazer sem hesitação; ouvir as opiniões das outras pessoas, mas saber quando as opiniões das outras pessoas não adiantam; saber mudar uma lâmpada, mas saber quando precisa de um electricista. Haverá sempre quem veja estes momentos de independência e mudanças de direcção como manifestações de orgulho; mas trata-se de um orgulho venial. É no pior dos casos parecido com um ataque de soluços: desagradável mas assistemático, e aliás de curta duração.

No que diz respeito à noção de auto-ajuda, todavia, aquilo que é em todos os casos duvidoso é a insistência sistemática em que tudo aquilo que nos diz respeito depende de nós. O Evangelista tinha já sugerido que os médicos, para variar, se tentassem curar a si próprios. Sabia evidentemente que há qualquer coisa de suspeito na ideia de auto-medicação, como na ideia de profecia em causa própria, e na ideia de que o tempo que fará amanhã depende da nossa energia mental de hoje. O santo padroeiro da auto-ajuda é o Barão de Münchhausen, que há cerca de duzentos e cinquenta anos terá tentado içar-se de um pântano puxando pelo seu próprio carrapito.

A maior secção, e a mais frequentada, em qualquer livraria contemporânea é normalmente a secção onde se alinham os meios incontáveis de puxar por carrapitos próprios. Sob a designação genérica ‘auto-ajuda’ incluem-se aí os livros em que nos explicam que somos os nossos melhores amigos, os nossos melhores conhecedores, os nossos melhores terapeutas, os nossos maiores admiradores. Incluem-se também livros em que nos recomendam que tomemos o nosso destino nas nossas mãos, e em que nos explicam que enfrentar o nosso destino é como mudar o arranjo de uma sala; e que tudo o que nos diz respeito é fácil como desenvolver uma personalidade, ou ir acampar sozinho.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

O PONTO DE VISTA DA PORTEIRA

  


Aqui há umas semanas deu na televisão a notícia de que numa cidade quase exclusivamente habitada por portugueses um conjunto pequeno de pessoas terá desencadeado uma série de ataques armados; que os factos foram lamentados por um vereador português; que várias daquelas pessoas tinham naturalmente pais estrangeiros; que tudo foi observado e descrito por uma porteira portuguesa. A este fenómeno, tradicionalmente conhecido por Quinto Império, poderíamos chamar também o ponto de vista da porteira.

Para imaginar o ponto de vista da porteira precisamos de imaginar alguém que espreita por uma janela alta, ou um postigo, de onde se apercebe dos pés e da parte inferior das pernas de quem passa na rua; ao local onde se encontra chegam ecos difusos de palavras, em que por vezes se adivinha uma frase, mas cujos autores permanecem inespecificados. Os dias e as noites mudam apenas ligeiramente a iluminação na caverna da porteira. O mundo que o seu ponto de vista descreve é uma confusão de membros inferiores que se movem nas direcções mais supreendentes, temperados com barulhos de natureza variável.

Com astúcia, no entanto, a porteira aprendeu a tirar conclusões sobre a realidade a partir das menores oscilações de luz, das variações de voz, e dos movimentos de pés e pernas. Desenvolveu uma forma de atenção que consiste em registar as alterações projectadas ou consentidas pelas paredes do sítio onde vive. O seu mundo coincide exactamente com aquilo que ouve e vê, e com aquilo que conclui a partir do que ouve e vê.

De vez em quando, em alturas em que existe necessidade de saber como tudo se passou, as pessoas da televisão vão chamar a porteira e perguntam-lhe o que realmente se passou; a porteira desfia o seu rosário de alterações luminosas e segredos; e diz aquilo que pensa. Quem chama a porteira trata a porteira como  a porteira trata as alterações das sombras na parede do seu covil: como a verdadeira realidade.

Tem aliás a televisão um repositório inesgotável de porteiras à sua disposição; terão todas visto e ouvido qualquer coisa: ou em casa, ou enquanto passeavam na rua, ou enquanto ouviam segredos contados por pessoas que conheciam pessoas. Umas moram em casas de porteira, outras em universidades, outras em escritórios, outras em hospitais. Todas terão concluído qualquer coisa a partir daquilo que, do seu ponto de vista, viram e ouviram; e à média daquilo que todas concluíram chama-se na televisão a verdade.

Torna-se claro que a televisão está para a porteira como a porteira está para os barulhos e movimentos que espreita e ouve pelo seu postigo; dos movimentos de pés e pernas, e das trocas de palavras que promove e encoraja a televisão tira conclusões que do ponto de vista das fontes e do raciocícinio não diferem muito das conclusões das porteiras que cultiva. Quando está desligada percebe-se que o seu écran preto é realmente uma caverna.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

OS QUATRO ESTÁDIOS DA FILANTROPIA

  
    Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian © Paula Corte-Real


A filantropia tem má reputação, mas isso deve-se à propaganda que é feita por aqueles que estão no primeiro estádio da filantropia. São em Portugal a maior maioria. No primeiro estádio da filantropia, quando confrontados com um pedido para ajudar terceiros, ou uma causa, normalmente com dinheiro ou tempo, a resposta é: ‘já dei,’ ou ‘os nossos impostos já pagaram isso,’ ou mesmo, astuciosamente, ‘se eu der, os nossos impostos nunca irão pagar isso’ (as pessoas que não pagam impostos têm tendência para usar a expressão ‘os nossos impostos.’) O primeiro estado da filantropia explica a qualidade das nossas universidades, e a mobilidade social exuberante.

O segundo estádio da filantropia consiste em responder aos pedidos, e consoante os pedidos, ‘não posso’, ‘não tenho tempo,’ ou ‘não tenho troco.’ Estas respostas incluem normalmente considerações sobre os outros. Se com os impostos de todos se fizesse o que se devia, eu naturalmente já poderia, e mesmo com gosto, ajudar quem me pedisse. A causa de eu não poder ajudar alguém deve-se ao facto de mais niguém ter antes ajudado essa pessoa. Se todos ajudassem os outros, concluo, eu também poderia fazer o mesmo, e sem dificuldade.

O terceiro estádio da filantropia é vastamente diferente dos dois anteriores. Caracteriza-se desde logo por responder aos pedidos com a minha ajuda. Muitas vezes com dificuldade, e algumas vezes com desagrado, dou o que posso a romenos, hospitais, universidades, teatros de ópera e cães abandonados. Em consequência daquilo que faço pessoas arranjam emprego, constrói-se laboratórios, e a situação dos animais muda e melhora. Graças à minha ajuda muitas pessoas morrem em circunstâncias menos difíceis do que aquelas em que nasceram, e morrem mais tarde e mais confortavelmente. Ajudo com satisfação e em nome próprio. Ao olhar para o meu nome nas listas de dadores tenho a satisfação de ter feito a coisa certa; e saber que os outros também o viram dá-me também, porque não dizê-lo, algum contentamento.

O quarto estádio da filantropia é no essencial parecido com o terceiro, menos numa coisa. A diferença é a de que o meu nome nunca aparece nas listas de dadores; as minhas acções são realizadas sem testemunhas; o meu orgulho é limitado quando muito a pequenas cerimónias onde apenas eu participo; e até, porque não dizê-lo, ninguém suspeita daquilo que fora das horas de expediente faço pelos outros. Nas listas de pessoas que com o seu tempo e o seu dinheiro ajudaram gatos, museus e doentes, fizeram construir centros de dia e financiaram cátedras, ocorre de vez em quando, em Portugal quase nunca, a expressão ‘dador anónimo.’ Os outros perguntam-se quem será, e indignam-se com o facto não ser tornado público, suspeitando de motivos ominosos. E no entanto a expressão ‘dador anónimo’ é sinal de decência; corresponde à ideia de que o melhor de nós, e aquilo que fazemos de melhor, não tem de ser comunicado a mais ninguém.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia