Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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Milan Kundera, ca. 1980. Photograph by Elisa Cabot
227. UMA NOÇÃO ESPIRITUAL EUROPEIA
“Com efeito, o que é a Europa para um húngaro, um checo, um polaco? Desde o começo que estas nações pertenciam à parte da Europa enraizada na cristandade romana. (…) A palavra “Europa” não representa para eles um fenómeno geográfico, mas sim uma noção espiritual que é sinónimo da palavra “Ocidente”.
“A Europa geográfica (aquela que vai do Atlântico aos Urais) foi sempre dividida em duas metades que evoluíam separadamente: uma ligada à antiga Roma e à Igreja Católica (…); a outra ancorada em Bizâncio e na Igreja Ortodoxa (…). Depois de 1945, a fronteira entre estas duas Europas deslocou-se para Oeste, e algumas nações que se tinham sempre considerado como ocidentais acordaram um belo dia e constataram que se encontravam a Leste.
Na sequência disso tomaram forma na Europa três situações fundamentais: a da Europa Ocidental, a da Europa Oriental e, a mais complicada, a da parte da Europa situada geograficamente ao centro, culturalmente a Oeste e politicamente a Leste”. Milan Kundera
Kundera, em 1983, num artigo célebre denominado Um Ocidente sequestrado ou a tragédia da Europa Central, defendia que os países do centro europeu tinham sido raptados e “anexados” pela Rússia, passando a ser seus satélites. Tratava-se, segundo ele, de uma violação, dado que fazendo parte, pelos seus valores, da constelação cultural ocidental, foram raptados, sequestrados e violentados à força, através da lei do mais forte, pelo espaço gigantesco, neoimperial e poderoso da Rússia, após a segunda grande guerra.
Interesses políticos e geoestratégicos russos e da União Soviética prevaleceram sobre os do ocidente europeu, nomeadamente os culturais, ficando este amputado de uma parte de si mesmo, estando-se perante um “ocidente raptado”, nas palavras de Kundera.
Após a queda do muro de Berlim e da União Soviética, a maioria dos países da Europa central e de leste regressaram ao ocidente, integrando um número significativo a União Europeia, num momento em que os acontecimentos relacionados com a guerra na Ucrânia têm gerado uma desconfiança quanto aos dirigentes políticos russos, o que não pode confundir-se com uma errada descrença no que toca à cultura russa que faz parte da História cultural do nosso continente, incluindo o ocidente, quando a Europa culta e civilizada ia de São Petersburgo a Paris e Londres.
A condenação da invasão da Ucrânia não pode confundir o povo russo, a alma russa, a arte e a sua cultura com as tentações megalómanas dos seus dirigentes políticos, pois o povo, a arte e a cultura russa antepõem-se-lhes e são-lhe anteriores.
Não há dúvidas sobre a importância de Dostoievsky, Tolstoi, Tchekhov, Pushkin, Pasternak, Gogol, Tchaikovsky, Stravinsky, Chestov, Berdiaev, Mandelstam, Akhmatova, Chagall ou Kandinsky na alma e cultura europeia. Toda a grande literatura, artes em geral, música e ópera russa fazem parte de uma noção espiritual europeia (incluindo o cristianismo), que é transversal a toda a Europa, desde o Atlântico aos Urais.
Se assim é, há que chamar a cultura para a construção de uma Europa do futuro em que a ocidentalidade se complemente com as nossas raízes euroasiáticas, em que a palavra Europa não é um mero fenómeno geográfico, mas, antes de mais, uma noção espiritual e um fator essencial de paz, sem os pensamentos de sequestro belicista da Budapeste de 1956, da Praga de 1968 e da Ucrânia de 2022.
Em oitava de Páscoa, na cultura em que respiramos, interrogamos e debatemos, até a incréus acontece - se acaso convivem de perto com pessoas já idosas que sofram degeneração implacável das suas faculdades de concentração e de memória, sobretudo no imediato ou a curto prazo - refletir mais sentidamente nesse mistério da nossa vida e morte, a que Milan Kundera chamaria, apesar de poder pesar-nos, a insustentável leveza do ser. Na verdade, lembrados da nossa infância ou já confortados pelo espetáculo oferecido por netos e bisnetos, sempre recordamos primeiros passos e, desde logo, a extraordinária e gratificante aventura da curiosidade humana como motor de procura. Meninos, até à nossa custa vamos aprendendo a descobrir o mundo, as pessoas, a comunicação. E alegram-se-nos os corações com tal e tanta empresa milhentas vezes repetida, mas em cada uma delas sempre animada pelo impulso de uma ressurreição interior em dialética com a progressiva descoberta do mundo...
Por isso a princípio nos inquieta e entristece a cena de quem já não entende porque não percebe nem sabe distinguir, nem mais nada consegue guardar por que já não se fixa nem sabe registar. Eis uma experiência de vida e convívio que será desanimadora e dolorosa, mas que em período pascal também poderá ser embarque para nova viagem. Pois que nessa idade em que o descobrimento vai dando lugar ao encobrimento, e o discorrer ao confundir, também tudo parece cobrir-se de noite, daquela noite que tantas vezes evoco nos versos de Álvaro de Campos, como sabes. E, neste final de tarde de Pascoela, vejo bem, e com incontida ternura, esta figura de mulher cujo olhar se vai enchendo da penumbra que cresce lá fora e vem entrando pela janela vasta, aberta sobre os campos e que, ajoelhada num sofá macio, ela perdidamente contempla... Não deverá lembrar-se - para os ir recitando - dos versos do Poeta que, todavia, talvez dissessem aquilo que ela simultaneamente vai vendo, perdendo e profundamente sentindo:
Vem, vagamente, vem, levemente, vem sozinha, solene, com as mãos caídas ao teu lado, vem e traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas, funde num campo teu todos os campos que vejo, faze da montanha um bloco só do teu corpo, apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo, todas as estradas que a sobem, todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe, todas as casas brancas e com fumo entre as árvores, e deixa só uma luz e outra luz e mais outra, na distância imprecisa e vagamente perturbadora, na distância subitamente impossível de percorrer.
A alma ali ajoelhada talvez já não saiba, nem sequer pensa nessa oculta vontade de soluçar que, todavia, sente a tentar trepar-lhe pelo íntimo de si. Terá agora, pensossinto eu, outra sageza, talvez porque a alma é grande e a vida é pequena, / e todos os gestos não saem do nosso corpo / e só alcançamos onde o nosso braço chega, / e só vemos até onde chega o nosso olhar...
Assim me imagino a genufletir a seu lado, rezando, diante da noite que sobre nós vai caindo, com as palavras suplicantes do Poeta:
Vem, Noite silenciosa e extática, vem envolver na noite manto branco o meu coração... Serenamente, como uma brisa na tarde leve, tranquilamente, como um gesto materno afagando, com as estrelas luzindo nas tuas mãos e a lua máscara misteriosa sobre a tua face. Todos os sons soam de outra maneira quando tu vens. Quando tu entras baixam todas as vozes, ninguém te vê entrar, ninguém sabe quando entraste, senão de repente, vendo que tudo se recolhe, que tudo perde as arestas e as cores, e que no alto céu ainda claramente azul já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,
a lua começa a ser real.
Esta ode do Pessoa Álvaro de Campos, muitas vezes a leio e recito como oração à morte in hora mortis. Aliás, até posso substituir, em quase todos os versos, a palavra noite por morte. Ambas têm cinco letras, três delas idênticas e na mesma posição. Mas, no último verso, lembro-me da lumen vitae, e digo a vida começa a ser real. Aí, afinal, escrevo a morada da minha, da nossa, esperança. Porque somos inquietos por natureza, muitas vezes insatisfeitos só por precipitação, há em nós essa propensão ao descontentamento: resmungamos, ou disparatamos, ou desesperamos, vamo-nos pondo a jeito de nos ocultarmos esse pisca-pisca interior que nos avisa de que a paragem é um convite à paciência. A partir de certa idade, quiçá mais difícil connosco do que para com os outros... Ao ponto de até nos esquecermos de que a substância da nossa esperança é, precisamente, a nossa vida, esta sendo um facto evidente. Nem será necessário recorrermos ao que poderia chamar-se, por contraposição à intuição metafisica, a conclusão biológica do António Damásio quando nos fala na perseverança celular do ser vivo. Em momentos difíceis, recordo muitas vezes a primeira quadra de um fado de Coimbra que, há seis décadas atrás, ouvi em serenata frente à Sé Velha de Coimbra ao Fernando Machado Soares:
A vida é negra, tão negra, como a noite nos pinhais! Mas é nas noites mais negras que as estrelas brilham mais!
Até qualquer passado romantismo nos pode ensinar que tudo é graça... Tal como o Livro do Apocalipse de S. João nos diz: Mas ele pousou a mão direita sobre mim e disse-me: «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Estive morto, mas eis-me vivo»... Pelos tempos que correm, talvez nos fizesse bem voltar ao treino da contemplação dos mistérios.
- Não, nada. Está tudo em ordem. Exceto o armagnac… Já não há. Desculpa-me, Alain!
- O papel de desculpador é meu – disse Alain -, foi culpa minha ter-te deixado subir a essa velha cadeira estragada. – Depois, preocupado: - Mas, meu amigo, estás a coxear!
- Só um bocadinho, mas não é grave.
(…) – O que é que se passou?
- Parti a garrafa – anunciou-lhe Caliban. – Já não há armagnac. Um mau sinal.
- Sim, um péssimo sinal. Preciso de ir depressa para Tarbes – disse Charles. - A minha mãe está a morrer.
Milan Kundera in “A Festa da Insignificância”
Kundera: uma indefinida nostalgia sobre a finalidade da escrita explorando a existência. O imenso saber da partida quando o saber das identidades que se dissolvem abordam desse modo temas essenciais.
O enamoramento, como estado nascente, é uma exploração do possível a partir do impossível, é uma tentativa que o imaginário faz de se impor ao existente. O comportamento do outro é decifrado a esta luz, para conhecer o que é e o que será, e, antes de o ver nos malmequeres.
«Oui, dit Jean qui voulait dire quelque chose de tout à fait différent.»
Milan Kundera, Le livre du rire et de l’oubli.
Uma outra dimensão de um estado nascente é a da verdade e da autenticidade. A verdade faz-nos libertos quando o «em ti» indica a vida real.