Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


132. FILOSOFAR


Se filosofar é uma formulação de porquês geradora de outros porquês, um refletir sobre nós, a vida e a morte, questionar as coisas, escrutinando em permanência o que temos por adquirido e se a filosofia, em paralelo, interpela a incerteza, o desconhecimento, o amor pelo saber experimentado pelo ser humano consciente da sua ignorância, não surpreende que esta realidade seja tida por estimulante, para uns (democracias), e perigosa, para outros (ditaduras e totalitarismos).

Não reunindo um conjunto de verdades absolutas e pondo em causa o que sabemos, todos podem filosofar, mas nem todos querem fazê-lo, pois é mal visto, por muitos, o ato de pensar e de refletir sobre as coisas. 

Quem somos? De onde viemos? Que queremos? Que é o ser humano e quem o rodeia? Para onde vamos? Questões permanentes que permanecem desde sempre.

Os estudantes peripatéticos, da escola aristotélica, há mais de dois milénios, filosofavam e refletiam enquanto caminhavam, valorizavam o valor do tempo lento, silencioso e do saber, o que hoje, em geral, é tido como mais inútil que útil, um interessante percurso sem saídas.

Há quem entenda que a filosofia e o filosofar é uma maneira de ensinar as pessoas a desaprender a aptidão natural das coisas e da vida, uma especulação sobre aquilo que a natureza nos dirá que fazer no momento adequado e à revelia do nosso pensar, desempenhando-o ela por nós, não tendo que nos preocupar nem refletir.   

Nesta perspetiva, não nos preocuparmos nem refletirmos sobre a morte é um ato de libertação que nos permite simplesmente viver sobrevivendo, mesmo que se tenha como mais difícil.

Para Cícero e Montaigne, por sua vez, filosofar é aprender a morrer:  

“Cícero diz que filosofar nada mais é do que aprender a morrer. Isto porque o estudo e a contemplação puxam até certo ponto a nossa alma para fora de nós e mantêm-na ocupada à margem do corpo, o que constitui uma espécie de aprendizagem e de semelhança com a morte; ou antes, porque toda a sabedoria e todos os pensamentos do mundo culminam neste ponto: ensinar-nos a não ter medo de morrer” (Montaige, Ensaios).       

Pode-se filosofar sendo hedonista ou moralista, mas há que ter sempre presente que temos que antecipadamente nos convencer que não podemos alcançar ou ter tudo, e que privarmo-nos de alguma coisa faz parte da vida, assim como filosofar é pôr tudo em questão, e mesmo ter dúvidas sobre o universal “só sei que nada sei”, tal como em relação à morte.


17.02.23
Joaquim M. M. Patrício

ANTOLOGIA

  


FOLHEANDO MONTAIGNE…

por Camilo Martins de Oliveira


"Folheando o volume I dos "Essais" de Michel de Montaigne, paro no capítulo XXVIII, que é, afinal, a dedicatória, em jeito prefacial, da edição - que ele promoveu - dos vinte e nove sonetos do seu amigo Étienne de la Boétie a Diane d’Andoins: "Senhora, nada vos ofereço de meu, ou porque isso já é vosso, ou porque nisso nada encontro digno de vós"... É bonito, mas levanta uma pergunta: será sincero? Ou ainda uma questão: não será uma das faces, ou máscaras, que a necessidade de atrair a atenção do outro (dela) vai escolher e exibir? A outra, no oposto desta confissão de rendição irreparável, será a prosápia ou a autovalorização a pavonear-se... Como se o amor que se busca devesse ser uma esmola ou, pelo contrário, uma adoração... Os desenganos de amor são fruto desses truques do amante sobre a coisa amada. Ora, a verdade do amor não pode ser um artifício, mas é simplesmente o infindável caminho que incessantemente nos leva ao encontro de um encontro. Só assim ele não engana nem cansa: quando a paixão se define pela fidelidade à descoberta de caminhos comuns para o bem de estar e continuar a estar. Não é, nem pode ser, submissão, nem tampouco dominação. Deve até excluir qualquer preocupação com estatutos de igualdade ou cálculos de reciprocidade. O diálogo é o caminho das diferenças que se acompanham e respeitam, sem que qualquer delas se sinta superior ou inferior à outra. Pois se tal acontecer, se esvairá a liberdade de sentir e de dizer”. Estes pensamentos aliam-se ao que o mesmo Montaigne diz no capítulo anterior (o XXVII) do mesmo livro I dos "Essais", que é uma elegia da sua amizade com Étienne de la Boétie, que falecera. Para ti, Princesa querida (não pelo título genealógico, mas pelo do meu coração, minha Princesa de mim), transcrevo, dali, estes passos: "Assim, a união de tais amigos sendo verdadeiramente perfeita os leva a perder o sentimento de tais deveres, e odiar e afastar deles essas palavras de divisão e de diferença: favor, obrigação, reconhecimento, súplica, agradecimento, e outras que tais. Já que tudo isso existe por comum efeito entre eles: vontades, pensamentos, juízos, mulheres, filhos, honra e vida. E o seu convénio não sendo senão uma alma em dois corpos, segundo a própria definição de Aristóteles, não podem aí prestar nem dar nada. Eis porque é que os que fazem leis, a fim de honrarem o matrimónio com uma qualquer parecença imaginária com essa divina relação, proíbem as doações entre marido e mulher. Querem por aí inferir que tudo deve ser de cada um deles, e que nada haja para dividirem ou entre si fazer partilhas. Se, na amizade de que falo, um pudesse dar ao outro, seria aquele que recebe a benfeitoria que obrigaria o seu companheiro. Pois que, procurando um e outro, acima de qualquer outra coisa, entre-fazerem-se bem, aquele que se presta a objeto e ocasião, é esse que, de facto, é o liberal, pois que dá ao seu amigo o contentamento de lhe fazer, a ele mesmo, aquilo que ele mais deseja..." Camilo Maria regressa aqui à mesma ideia que Camões versejara:" transforma-se o amador na coisa amada..." Os trechos acima foram, aliás, respigados de uma carta que, em parte, já aqui traduzi. O premiado filme de Michael Hanneke, "Amor", é, no fundo, uma meditação trágica sobre o amor como comunicação. Amar é, afinal, comunicar infinitamente, até nos entendermos no silêncio: na osmose das almas se transforma o amador na coisa amada. Pego na edição dos "Essais" na Pléiade, para voltar à leitura de Camilo Maria, e diz-nos Montaigne: "As nossas almas confluíram tão unamente juntas, consideraram-se com uma afeição tão ardente, e com tal afeto se descobriram até ao fundo último das entranhas uma à outra, que não só eu conhecia a sua como minha, como de boa vontade me confiaria mais de mim a ele do que a mim mesmo"... No filme de Hanneke, a incomunicabilidade que a doença de Anne vai cruelmente impondo ao casal leva à tragédia do uxoricídio. Mas não faz do marido executor um assassino. Como confessará num testamento escrito, foi depois incapaz de matar o pombo que apanhara. O desfecho da história é-nos revelado em duas sequências: na primeira, a filha adulta do casal, que nunca comunicara bem com o universo a dois dos pais, em que não penetra, percorre uma casa vazia. Na segunda e última sequência, na mesma casa vazia, o casal (fantasmas ou seres reais?) encontra-se post mortem e sai para um passeio. Fora da casa que encerrou um mundo. E além da morte, pois o amor é como Deus: enche o universo, vem do princípio esquecido do tempo até à eternidade, do fundo ignoto do coração dos homens até à plenitude.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 01.03.13 neste blogue.