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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

JEAN-PAUL SARTRE E O NATAL

 

1. Ninguém pensa a partir do nada, melhor, a partir de zero. Quando damos por nós, já cá andávamos e estamos sempre marcados pela nossa história desde o ventre materno, pelas experiências fundas dos nossos primeiros encontros e desencontros na vida, na família, numa determinada língua, com os vizinhos, com os amigos, ...

 

Há os pressupostos no sentido negativo: ir para um encontro, para um debate, já com preconceitos malévolos. Mas ninguém está na vida sem pressupostos no sentido indicado, positivo: a nossa história toda que nos marca positiva e negativamente. Ninguém se encontra na vida puro, sem pressupostos, sem preconceitos. Ninguém parte de um ponto inaugural puro e neutro.

 

Também o filósofo Jean-Paul Sartre foi marcado pelas suas experiências, desde tenra idade. Segundo Charles Moeller, ter ficado órfão de pai muito cedo e viver com o padrasto como um estranho foi uma experiência marcante. A sua posição face à fé é bem conhecida e essa sua experiência de órfão não lhe foi indiferente.

 

Para ele, o mundo é sem sentido, o ser está a mais, é “viscoso” — leia-se A Náusea. Na sua obra estritamente filosófica, O ser e o nada, quer explicar como é que o desejo do ser humano é ser Deus, mas o próprio conceito de Deus é contraditório. Por isso, é absurdo ter nascido, é absurdo viver, é absurdo morrer. Reclamando uma liberdade absoluta, nega a alteridade, o mundo, Deus.

 

Houve, no entanto, uma espécie de interregno neste seu posicionamento intelectual e existencial. Com a derrota do exército francês, foi feito prisioneiro, e precisamente em 1940, num campo de prisioneiros escreveu um auto de Natal — Bariona, ou le Fils du tonerre (Barjonas, ou o Filho do trovão), para ser representado num barracão, um auto que unisse cristãos e não cristãos.  Ele próprio desempenhou o papel de uma das personagens, mas que se trata de uma espécie de interregno prova-o o facto de a sua primeira publicação, em 500 exemplares não comercializáveis, só se ter dado em 1962. Mas também escreveu a Simone de Beauvoir: “Parece que fiz um mistério de Natal muito comovente, de tal modo que um dos actores, quando representava, chegava a chorar.”

 

Não vou desenvolver o desenrolar da peça. Mas do que se trata, em vários níveis e desenvolvimentos, é do confronto entre, por um lado, o niilismo existencialista, colocar um ponto final ao absurdo e à Humanidade, e, por outro, a luminosidade de um novo nascimento, que abre esperança para um mundo novo, um recomeço, “um novo início”, como diz Massimo Borghesi, que estou a seguir.

 

Barjonas, que quer convencer Sara a eliminar o filho que tem no seu ventre, diz-lhe: “Mulher, essa criança que queres deixar nascer é como uma nova edição do mundo. Por meio dela, as nuvens, a água, o sol, as casas, as dores dos homens existirão mais uma vez. Tu recriarás o mundo. Fazer um filho é aprovar a criação do mundo do fundo do próprio coração, é dizer ao Deus que nos atormenta: ‘Senhor, tudo é bom e dou-vos graças por terdes feito o universo’. Queres realmente cantar esse hino? A existência é uma lepra horrenda que nos corrói a todos, e nossos pais foram culpados.”

 

Mas lá está também o rei mago Baltasar, personificado em cena pelo próprio Sartre e que representa o momento da esperança: “É verdade, somos muito velhos e muito sábios e conhecemos todo o mal da Terra. Por isso, quando vimos aquela estrela nos céus, os nossos corações alegraram-se como o das crianças, e tornámo-nos crianças e pusemo-nos a caminho, pois queríamos cumprir o nosso dever de homens que esperam. Quem perde a esperança, Barjonas, será expulso do seu vilarejo. Mas a quem espera tudo sorri e o mundo é dado como um presente.”

 

A esperança de Baltasar é como a esperança de Sara. Também ela quer ir a Belém: “Lá em baixo, há uma mulher feliz e satisfeita, uma mãe que deu à luz por todas as mães. É como se me desse uma permissão: a permissão de pôr no mundo o meu filho, dando-o à luz. Quero vê-la, vê-la, essa mãe feliz e sagrada.”

 

Em Belém, diante do estábulo, Barjonas encontra Maria de costas, não vê Jesus, vê apenas José: “Mas vejo o homem. É verdade, como ele olha para o Menino! Com que olhar! O que pode haver por trás daqueles dois olhos claros, claros como duas profundezas límpidas nesse rosto doce e marcado? Que esperança será essa?”

 

Sartre está mesmo à porta do mistério cristão, pondo Barjonas a afirmar: “Um Deus-Homem, um Deus feito da nossa carne humilde, um Deus que aceitaria conhecer este gosto de sal que existe no fundo das nossas bocas quando o mundo inteiro nos abandona, um Deus que aceitaria antecipadamente sofrer o que eu sofro hoje.”

 

2. E aí fica outra parte belíssima, a mais bela, do texto de Jean-Paul Sartre. Todas as mães olharão para o seu bebé com um encanto que só elas poderão sentir perante aquele milagre que vem delas e as ultrapassa infinitamente. Neste texto, Sartre descreve-nos o maravilhamento terno e a ternura maravilhada e também ansiosa, inexcedíveis, de Maria diante do seu “pequenino”.

 

“A Virgem está pálida e olha para o Menino. Seria preciso pintar no seu rosto aquela admiração ansiosa que se viu apenas uma vez num rosto humano.

 

Porque Cristo é o seu Filho, a carne da sua carne e fruto do seu ventre. Ela teve-O em si própria durante nove meses e dar-Lhe-á o seio e o seu leite tornar-se-á sangue de Deus.

 

Há momentos em que a tentação é tão forte que esquece que Ele é Filho de Deus.

 

Aperta-O nos braços e sussurra-Lhe: ‘Meu pequenino’.

 

Mas noutros momentos fica perplexa e pensa: ‘Deus está ali’ e é invadida por um religioso temor por este Deus mudo, por esta criança que, num certo sentido, incute medo.

 

Todas as mães ficam perplexas, por um momento, diante daquele fragmento  da sua carne, que é a sua criança, e sentem-se exiladas perante esta nova vida feita da sua vida, habitada por pensamentos alheios. Mas nenhum filho foi arrancado à sua mãe de forma tão cruel e radical, porque Ele é Deus e ultrapassa completamente tudo o que ela poderia imaginar... Mas penso que houve também outros momentos, rápidos e fugazes, em que ela sente que Cristo é o seu Filho, o seu menino, e que é Deus.

 

Olha-O e pensa: ‘Este Deus é meu menino, meu filho. Esta carne é a minha carne, é feito de mim, tem os meus olhos e a forma da sua boca é semelhante à minha, parece-se comigo. É Deus e parece-se também comigo’.

 

E nenhum ser humano recebeu da sorte o seu Deus só para si, um Deus tão pequenino para apertar nos braços e cobrir de beijos, um Deus quentinho que sorri e respira, um Deus que se pode tocar e que ri.

 

É nesses momentos que eu, se fosse pintor, pintaria Maria.”

 

3. Sartre, conclui Massimo Borghese, “nunca mais escreveria assim, nem de Deus nem do homem. A obra do Natal de 1940 continuará a ser, deste ponto de vista, uma ‘excepção’, como se a atmosfera peculiar do campo de prisioneiros o tivesse tornado mais próximo do mistério da existência. Mas isso bastou para nos conceder uma das mais belas representações do Natal na literatura do século XX.”

 

4. Bom Natal! Feliz, habitado pela esperança que Jesus é para todos! No final da peça, Barjonas reúne os seus homens e está disposto a bater-se para salvar a vida de Jesus, que Herodes mandou matar. Como escreveu M. Perrin, “os homens de Barjonas vão em frente, talvez para morrer, mas morrerão para que não seja assassinada a esperança dos homens livres”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 22 DEZ 2019

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

MEMÓRIA DE FERNANDO BENTO

 

A edição que hoje vos apresento é preciosa. Trata-se do número do Natal de 1954 do “Cavaleiro Andante”. Representa um vitral da autoria de Fernando Bento (1910-1996), o grande ilustrador da revista dirigida por Adolfo Simões Müller. Nota-se o traço inconfundível do autor. O número especial vendia-se em duas versões: normal e encadernado, sendo que um custava 10 escudos e o outro 16. Em primeiro plano, fora da representação, está o Cavaleiro Andante (símbolo da revista) ajoelhado. No quadro central está a Sagrada Família, no painel da esquerda estão os três magos e do lado direito, figuras exóticas de pastores com feições tipicamente orientais. E assim lembramo-nos das ilustrações de Bento sobre narrativas em terras distantes. Trata-se de um presépio que procura representar o momento histórico da Natividade de Jesus, e não, como normalmente, a encenação recriada por S. Francisco de Assis, que corresponde normalmente ao que nos é familiar. Se nos lembrarmos dos presépios tradicionais portugueses, como os de Machado de Castro e da sua oficina, vemos os pastores vestidos com roupas tradicionais, bem portuguesas. Não é este o caso. O desenhador quis dar um toque de originalidade e de exotismo ao seu desenho. De facto, a originalidade do traço de Fernando Bento associa-se muitas vezes a figuras com traços marcados. A cada passo, notamos no desenho inconfundível do autor uma preocupação de movimento, bem evidenciada em obras-primas, como “Beau Geste” (1952) e “Emílio e os Detetives” (1957-58). Como afirma João Paulo Paiva Boléo: “Fernando Bento é um dos maiores autores, um dos maiores desenhadores da BD portuguesa. Fernando Bento marcou o imaginário de milhares de leitores, fê-los sonhar, fê-los descobrir mundos ‘da Terra à Lua’, histórias de emoção e de coragem… Em síntese, abriu-lhes (abriu-nos), em simultâneo, o mundo da aventura e o mundo da literatura. Deu-nos a magia de uma arte de corpo inteiro, que vive da sugestão da ação e – como repetidamente se tem sublinhado – do preenchimento do espaço branco entre imagens, da elipse, de uma forma original de contar histórias através da utilização singular, sugestiva e sintética do desenho e do texto, e abriu-nos o caminho para outra arte, mais sugestiva ainda, mas convocadora ainda da imaginação, a literatura, assente na maior e mais distintiva criação da inteligência humana – a palavra”. Esta apreciação constitui uma análise rigorosa das características de Fernando Bento. Com efeito, a aventura e a literatura encontram-se intimamente relacionadas. E o exemplo que hoje aqui trazemos, permite-nos compreender que cada figura representada pode muito bem estar associada a uma aventura literária: a viagem dos três reis magos, a presença dos jovens pais Maria e José, com o filho recém-nascido e a presença misteriosa dos pastores, que se assemelham a berberes do deserto… No fundo, é a magia da Banda Desenhada que aqui está toda – a ilustração, o movimento, a aventura, a literatura, o enredo, a palavra… E lembro um poema de Miguel Torga para ilustrar este vitral, que nos lembra um tempo antigo, um autor profícuo e um artista, o desenhador Fernando Bento, merece muito ser lembrado   

 

Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.

Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.

Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário...
E Deus não representou.

 

Agostinho de Morais

FELIZ NATAL DE ANO BOM E FUTUROS MELHORES!

 

   Pela sua própria etimologia latina, e na linguagem corrente, profecia quer dizer predição, quase como adivinhar o futuro. Todavia, a figura do profeta, bíblica e não só, desenha-se mais pela sua inspiração divina do que por habilitações de pitonisa. Nesse sentido, a profecia é sobretudo o anúncio ou transmissão de desígnios divinos sobre a vida e a história dos seres humanos. Não tem termo certo, é sempre o início de um percurso de conversão, a partir de uma nova leitura dos sinais dos tempos. Assim também, as narrativas bíblicas, tantas vezes inspiradas ou copiadas de tradições antigas, serão mitos, tal como os seus respetivos originais. Mitos, sim, mas não no sentido de fantasias pretensamente reais. Antes como interrogações sobre a nossa humana condição. Frei Philipe Lefebvre, frade dominicano e professor de teologia e exegese bíblica na Universidade de Friburgo (que é, como outras na Suíça, uma universidade do Estado) realça bem que há pais assassinos na Bíblia, como nos mitos, como na vida real.

 

  Resumindo, a questão não é saber se tal caso aconteceu, mas se a parábola mítica nos faculta uma palavra mais fundamental sobre a condição humana. Respondo que sim e que, por isso mesmo, os autores bíblicos retomaram e utilizaram os mitos por conta própria. 

 

   A celebração do Natal de Jesus é, profeticamente, em cada aniversário, o anúncio da glória celestial de Deus que se irá realizando na terra pela boa vontade dos humanos na construção da justiça e da paz. Na verdade, cada festa desse Natal é afinal um apelo, uma vocação, a que tudo façamos para que o novo ano que se aproxima seja, como lhe chamavam os nossos antigos, ANO BOM... e assim também sejam todos os mais em tempos da nossa vida. Eis o que quero acentuar quando dou um jeito especial aos meus votos e desejo Feliz Natal de Ano Bom: peço que este Natal seja nascimento de um Ano Novo Bom e com vista para outros, melhores ainda, que hão de vir! Faço votos de um Feliz Natal de tempos novos!

 

   Talvez por pensar e senti-lo tanto assim este ano, me ocorreu concentrar o meu olhar sobre sinais dos tempos que vivemos. Dizem-nos, diariamente, os noticiários que este mundo se vai cobrindo de dramas da migração de infelizes, e, por outro lado, de greves e reivindicações de tudo e sobre o mais que houver... E à chuva noticiosa vem depois ainda acrescentar-se, mais ou menos conformemente aos variegados indignados em moda, uma invasão de comentários que falam de tudo sem o fôlego requerido por qualquer alma que queira mesmo chegar ao fundo das questões. Ficamos sem perceber porque permanecem tantas perguntas sem resposta capaz.  

 

   Dos muitos sinais que por aí se vão  intermitentemente acendendo escolhi, para esta breve mensagem de Natal, os muitos afrontamentos que se agitam em redor da distribuição dos rendimentos e, nas avaliações de orçamentos de receitas e despesas públicas, sobre a questão do jurado equilíbrio das contas ou da fugidia sustentabilidade da segurança social. Conflitos que, aliás, surgem num cenário geral de desigualdade económica e social, mesmo em sociedades afluentes ou relativamente abastadas, cujas populações já não padecem situações de grande pobreza e necessidade, violência infligida, esquecimento ou ostracismo. Na verdade, nos países ditos desenvolvidos ou industrializados, as contendas mais comuns e frequentes traduzem sobretudo contradições inerentes ao modelo em voga do chamado capitalismo liberal. A desenfreada promoção do consumismo  -  fomento de compras muitas vezes supérfluas para aumentar lucros do capital e seus agentes, correndo até o risco da facilitação do crédito ao consumo que já tantos "buracos" financeiros gerou  -  não tem tido apenas efeitos económicos, pois atinge confusamente a própria racionalidade das opções do comportamento do mesmo homo economicus, e cria fantasiosas visões do mundo, da vida, do futuro, que cativam as mentes e comprometem a liberdade interior de cada um e a boa relação de pessoas e comunidades. A outra face dessa bússola moral e social em que se tornou a prossecução do lucro, é já hoje a generalizada orientação das gentes para o máximo usufruto e conforto dos bens oferecidos nos mercados. Consequentemente, o desejo de encontrar e garantir maior aumento das suas posses, através do crescimento máximo dos seus rendimentos próprios. Só marginalmente, na periferia dos debates próprios do sistema político, social e económico, vem finalmente ocorrer qualquer chamada à responsabilidade pública e coletiva - preferiria chamar-lhe comunitária - na solução de situações puramente humanas de abandono por desleixo. Os cuidados paliativos que tantas organizações civis e muitas pessoas generosamente providenciam são, para além do seu mérito próprio, mais gritos de alerta do que reformas eficazes de um sistema político e social, cuja cultura inspiradora e envolvente temos de rever urgentemente. Para um cristão, por exemplo, o tempo do advento e a celebração do Natal anunciam claramente que o Evangelho de Jesus é o anúncio da Boa Nova aos pobres.

 

   Perante tantas insolúveis questões sobre concórdia, justiça e paz nos sistemas vigentes, impõe-se que saibamos rever o atual modelo económico e social e, inspirados pela profundíssima humanidade do nascimento de Jesus, Deus e Palavra feito carne, e que trabalhemos pelo bem por vir.  Bem lembrados ainda das desutilidades, deseconomias e mais desastres que tal sistema vai provocando, sobretudo nas regiões do globo em que se esquecem as pessoas pela ganância do proveito, e se exploram riquezas naturais, sem cuidar dos prejuízos que, em consequência, possamos causar à casa de todos nós. As reformas necessárias a um sério esforço de melhoria da situação global, que inevitavelmente passará pelo estabelecimento da justiça económica e social não são essencialmente problemas técnicos a resolver. Antes radicam, devem radicar, em considerações humanistas e fortaleza moral. É hora de escolhermos, contra o princípio do lucro ou da riqueza como medida de todas as coisas, uma economia humanista em que seja o ser humano a nossa medida e a nossa bússola. Como já disse o Prof. Adriano Moreira, pobres de nós que substituímos o valor pelo lucro.

 

   Façamos votos de que o carinho que reunir, na noite deste Natal, tantas famílias tradicionais - e tantas outras que a emoção do momento ou a cultivada generosidade do amor fraterno conseguir congregar - nos aqueça, a todos nós, o coração. E que esse maravilhoso instante de comunhão não nos deixe esquecer o cumprimento do dever cívico de trabalharmos, com inteligência e vontade, pela realização dessa profecia que nos anuncia ser glória de Deus o anúncio da boa nova aos pobres. E pobres somos todos, sobretudo em tempos tão carenciados de solidariedade e da inteligência e boa vontade necessárias à sua construção.

 

   Mando-vos um abraço a dizer Feliz Natal!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

E SE O NATAL FOSSE NA RUA?

 

Existiria uma sabedoria, um afeto, uma solidariedade, para quem o decisivo não fosse o egoísmo do bem-estar pessoal, mas sim, a realidade do mundo que somos se o Natal hoje se passasse na rua.

 

Funda e extraordinária experiência, o desafio de, pelas horas x do dia 24 de Dezembro, irmos saindo de casa para nos encontrarmos todos na rua, fosse a rua onde fosse, a celebrar este evento fundador, em que a real prova, seria uma imensa mesa de amor sob a noite que abarcaria uma sincera preocupação pela incomunicabilidade das pessoas.

 

A prova real de sermos gente, seria uma busca à razão dos conflitos, dos sofrimentos, das injustiças, dos desamores, da pobreza, da ingratidão, do desinteresse, promovido pelas sociedades que usam os templos da euforia comercial, qual dieta do coração, ficticiamente acalmada em torno de uma refeição em casa de muitos, com árvore de luzes ou missa do Galo cumprida, solução temporária de apaziguamento ao incómodo eventual do dia-a-dia ou exaltação discreta à bondade que, igualmente, cada um, a si mesmo se atribui ter em boa dose.

 

E afinal na rua bastaria um olhar, uma quente porção de sorriso, uma mão, e nela, uma estrela feita de lã com a promessa de cumprirmos o pensar do que nos tornámos afinal, quando já só as lágrimas são o mistério, quando já só as lágrimas nos ensinam.

 

Depois, pela noite fora, um fascinante laboratório de vida, iria passear-se em cada rua onde historicamente a nossa vida foi mais vivida, ou não, mas intuía-se o quanto o não se faz perto.

 

Nas aldeias a grande fogueira era sim, um modo irrecusável de convite ao estarmos perto uns dos outros: ao saber partilhar pão.

 

As crianças, arquitetas da comunicação, viabilizariam a autoestrada dos rires espontâneos e em instantes de recolhimento, cada um seria avô ou avó e indicaria uma estrela reacendida ao extremo por nada e por tudo, reacendida fulgurantemente porque o Natal era na rua.

 

E a chave do entendimento fundamental não roda na fechadura. Nem tem de rodar. O Natal na rua assiste à doença, mas não a cura. Ainda.

 

O Natal na rua, por ora, seria um intervalo a uma vida que nasceu submissa e esfarelada em pó e uma outra de consciência alheada à realidade e ainda uma outra convicta de que fez o suficiente ou o que lhe era possível.

 

Todavia se o Natal fosse na rua, conheceríamos o sol da noite e este na expectativa do outro sol, seria o início, a força de um futuro do homem já não em declínio, antes corsário e peregrino de um texto que, passando a estar entre todos, dele, a luta e a decifração, deixaria de ser vida perdida, e nós deixaríamos de nos sentirmos perdidos de todo.

 

E se o Natal fosse na rua uma interioridade da fala de todos? Um poeta que pôde resistir?

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A Rita viera jantar comigo no dia seguinte ao acordo do divórcio e fê-lo em benefício da sua verdade. Adivinha-se que existem muitas coisas difíceis de dizer e que mortificam e que criam constrangimentos dolorosos em situações como a dela.

 

- Podes ler-me o que escreveste no Natal de 86?

 

- Sim Rita, claro que sim.

 

(…) e saíram do carro na Praça de Londres. De mão dada atravessaram para o lado das montras. As luzes estavam acesas em todas as árvores, o Natal chamava-a como nunca. Sentiu-se muito feliz. Olhou de novo as iluminações natalícias e todas lhe segredavam paz, encontro, vida excelsa por viver, parir, aconchego, justeza, amor finalmente, e, seguros os enigmas principais. Olharam-se e beijaram-se. A Rita e o marido viviam em inspiração, em paixão, em amor; o coração era-lhes apto às suas certezas e segredos e tudo lhes chegava numa íntima unidade. A Rita sentia mesmo um certo pasmo face ao que lhe estava a ser dado viver. Afinal tanto esperara em dor lenta, e, segurando no peito as farpas dos invasores dos terrenos serenos das mães, tal como lhe transmitira a sua mãe serem essas seguras terras, e só agora por fora e por dentro de si era completamente feliz, completamente! Era até protegida das próprias reconciliações.

 

Quanta delicadeza neste sentir, quanta comoção! Quanto sonho a acontecer! Poema com as coisas todas agora revelado, assim era o que acontecia, e mais do que mundo a obra era esta.

 

- Arderam os tempos não é?, perguntou-me a Rita.

 

Só tenho cinzas dessas tuas palavras que relataram tão bem o meu sentir de então. Não sei, não sei ainda como o archote queima o espaço de voo das andorinhas. Terá sido esse o meu grande lapso? Não entender a tempo essa realidade, esse espaço queimado? Só sinto que os ressentimentos me rodeiam e de dentro de mim não saem.

 

Violências, muitas. Tensões contraditórias, radicais, expressas agora em plena solidão em fundas dores. Limites afinal em tudo. Inconformidade com eles. Impossibilidade de bolas de Natal nas árvores. Náuseas porque ele se afastou de mim, feliz e vigoroso. Ele que atravessara comigo a Praça de Londres, num beijo indizível que em nada poderia vir a condizer com a gélida indiferença instalada. E eu, agora, numa viscosidade de memórias elevo o meu gigante não, frente ao mundo, e pertenço àquela condição que interpreta o princípio dos caminhos que violentamente enfrentam o absurdo, e uma liberdade, te digo, amiga minha, uma liberdade estranha que ainda reivindica as fomes das estrelas natalícias do Natal de 86! Que faço? Apago o céu?

 

Não! Amiga, vim a tua casa para brindar à semente que estoira o mundo. Nunca à que o segura já não o sendo. 

 

Teresa Bracinha Vieira

NARRATIVAS EVANGÉLICAS DO NATAL

 

Para se entender o que se passa com as narrativas dos Evangelhos à volta do Natal, há pressupostos fundamentais.

 

1. Em primeiro lugar, a fé cristã dirige-se a uma pessoa, Jesus confessado como o Cristo (o Messias) e, através dele, a Deus que Jesus revelou como Pai e poderemos também dizer como Mãe, com todas as consequências que daí derivam para a existência.

 

O que diz o Credo cristão, símbolo da fé? “Creio em Jesus Cristo. Gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, ressuscitou ao terceiro dia.” Segundo a fé cristã, isto é verdade? Sim, é verdade. Mas segue-se a pergunta fundamental: o que deriva dessas afirmações para a nossa existência de homens e mulheres, cristãos ou não? O Credo é teologia dogmática, especulativa, em contexto linguístico da ontologia grega. Ora, a teologia dogmática tem que ver com doutrinas e dogmas, com uma estrutura essencialmente filosófica. Pergunta-se: os dogmas movem alguém, convertem alguém, transformam a existência para o melhor, dizem-nos verdadeiramente quem é Deus para os seres humanos e estes para Deus?

 

Exemplos mais concretos, um do Antigo Testamento e outro do Novo, até para se perceber a passagem do universo hebraico em que Jesus se moveu e o universo grego no qual aparecem redigidos os Evangelhos. No capítulo 3 do livro do Êxodo aparece a manifestação de Deus na sarça ardente e Moisés dirige-se a Deus: se me perguntarem qual é o teu nome, que devo responder-lhes? E Deus: “Eu sou aquele que sou”. Dir-lhes-ás: “Eu sou” enviou-me a vós. A fórmula em hebraico: ehyeh asher ehyeh (“eu sou quem sou”, “eu sou o que sou”) é o modo de dizer que Deus está acima de todo o nome, pois é Transcendência pura, que não está à mercê dos homens, mas diz também (a ontologia hebraica é dinâmica) o que Deus faz: Eu sou aquele que está convosco na história da libertação, que vos acompanha no caminho da liberdade e da salvação. Depois, com a tradução dos Setenta, compreendeu-se este ehyeh asher ehyeh como “Eu sou aquele que é”, “Eu sou aquele que sou”, o Absoluto. Filosofando sobre Deus, a partir daqui, Santo Tomás de Aquino dirá que Deus é “Ipsum Esse Subsistens” (O próprio ser subsistente), Aquele cuja essência é a sua existência. Isto é verdade, mas significa o quê para iluminar a existência? Perdeu-se a dinâmica do Deus que está presente e acompanha a Humanidade na história da libertação salvadora.

 

No Novo Testamento, João Baptista, preso, mandou os discípulos perguntar a Jesus se ele era o Messias. Jesus não afirmou nem negou. Mas deu uma resposta existencial, prática: “Ide dizer-lhe o que vistes e ouvistes: os coxos andam, os cegos vêem, a Boa Nova é anunciada, a libertação avança, a salvação está em marcha”.

 

O que é que isto significa? A teologia, a partir da Bíblia, é, antes de mais, teologia narrativa e não dogmática. Quer dizer: tem uma estrutura existencial, histórica. Na teologia especulativa, o centro de interesse é o ser; na teologia narrativa, o decisivo é o que acontece. Assim, na perspectiva cristã, o essencial consiste na pergunta: O que é que acontece quando Deus está presente? Na linha dogmático-doutrinal, exige-se e até se pode dar um assentimento intelectual, subordinando-se, mas a existência continua inalterada. Corre-se então o perigo de uma “fé” em fórmulas doutrinais coisistas, petrificadas, sem qualquer transformação da vida, que é o que acontece tão frequentemente. Ora, a vida cristã, se quiser ser verdadeiramente cristã, no discipulado de Jesus, tem de ser determinada mais pela ortopráxis do que pela ortodoxia (sem menosprezo, evidentemente, pela ortodoxia, segundo uma hermenêutica adequada): Jesus louvou a cananeia pela sua fé, que não era ortodoxa, deu como exemplo o samaritano, que não seguia a ortodoxia, mas praticava a misericórdia, e, sobretudo, leia-se o Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 25 sobre o Juízo Final, no qual não há perguntas sobre fórmulas teóricas religiosas, mas sobre a prática: “Destes-me de comer, de beber, vestistes-me, visitastes-me na cadeia e no hospital...”.

 

2. Não há figura mais estudada do que Jesus Cristo e não há hoje nenhum historiador sério que negue a sua existência histórica. E sabe-se que frequentava a sinagoga, trabalhou no duro como tekton, que é mais do que um carpinteiro (ele trabalhava a madeira e outros materiais, tanto na construção de uma casa como de instrumentos agrícolas), portanto, poderíamos dizer: um artesão.

 

Fez a experiência funda e única de Deus como Abbá, Paizinho, querido Papá, que ama com amor de pai e de mãe. Em seu nome, quando tinha pouco mais de 30 anos, anunciou o Evangelho (notícia boa e felicitante da parte de Deus para todos) e o Reino de Deus, que é o reino da justiça, da paz, da fraternidade, da realização plena de todos os homens e mulheres. Fê-lo por palavras e obras para todos, a começar pela proximidade em relação aos mais fracos, pobres, abandonados, impuros, heréticos... Enfrentou a religião oficial do Templo, escandalizando aqueles que viviam da religião explorando o povo. Foi condenado pelos sacerdotes, que não o toleravam, e foi crucificado pelo poder imperial romano. Morreu como blasfemo religioso e subversivo social e político. Depois, mais uma vez, lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A figura histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Ele conclui que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas, continua, também sabemos que, “depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a ‘ressurreição’”: aquele que tinha morrido realmente apareceu como “pessoa viva, mas transformada”. “Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso”. Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a História. Grande parte da Humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta. Não se pode esquecer, muito menos ignorar, que da biografia de alguém faz parte a sua Wirkungsgeschichte, na reflexão de Hans-Georg Gadamer, isto é, a história dos efeitos dessa vida ou, por outras palavras, as consequências dessa vida na História.

 

A experiência pascal — Jesus, o crucificado, está vivo em Deus para sempre — foi avassaladora para os discípulos. São Paulo fez também essa experiência e, assim, de perseguidor passou a apóstolo, percorrendo 25.000 quilómetros para anunciar a Boa Nova. O que vale um morto? Nada. O que vale um crucificado? Ainda menos. Mas, se Jesus, o crucificado, está vivo em Deus, isso significa o aval de Deus a tudo quanto Jesus disse e fez, Deus ratifica a sua pessoa e a sua mensagem. Então, se Jesus, o crucificado, vale para Deus, todos valem, concluindo Paulo que “já não há judeu nem grego, homem ou mulher, escravo ou livre”, pois todos valem para Deus: “foi para a liberdade que Cristo nos libertou”, “já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus”. Ernst Bloch, o ateu religioso, um dos maiores filósofos do século XX, viu bem: “O cristianismo venceu mediante a proclamação: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’”.

 

A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem de dignificação de todos, mensagem que mudou a História.

 

3. A História lê-se de trás para a frente, a partir do princípio, evidentemente, mas tem sobretudo de ser lida do fim para o princípio. Portanto, com a história e a razão hermenêutica. No caso de Jesus e do cristianismo, essa leitura é essencial, para se não cair em alçapões mortais.

 

Frequentemente, com certas formulações dogmáticas, acabar-se-ia por fazer concretamente de Jesus e de sua mãe, Maria, autênticos robôs, com tudo pré-sabido e pré-determinado. Ora, evidentemente, no princípio, Maria e José não sabiam quem era aquele menino a quem deram o nome de Jesus e perguntaram como todos os pais: o que será deste filho? Ele ia crescendo e umas vezes entendiam o que estava a acontecer e outras vezes não entendiam. Está no Evangelho segundo São Lucas, no relato de Jesus perdido no templo: “Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura. Ele respondeu: Não sabíeis que devia estar na casa de meu Pai? Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse”. E Jesus ia crescendo “em sabedoria, em estatura e em graça”. E no Evangelho segundo São Marcos: “E quando os seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão nele, pois diziam: Está fora de si”.

 

Os Evangelhos escrevem sobre realidade histórica, mas foram escritos por quem, à luz do fim, já acreditava que Jesus é, na confissão de São Pedro, “o Filho do Deus vivo”. Concretamente no que se refere aos Evangelhos ditos da infância, é necessário ter em atenção a sua significatividade mais do que a historicidade. De facto, eles são construções teológicas, colocando no princípio a revelação do fim: Jesus é o Messias. Se é o Messias, nele realizam-se as profecias e as promessas de Deus. Assim:

 

3.1. O que é o Natal? Sim. É “um novo começo”, como bem viu o famoso teólogo Hans Küng, com quem falei várias vezes.

 

Como se escreve no Evangelho segundo São João, “No princípio era o Logos (a Palavra) e o Logos (a Palavra) era Deus” — repare-se que não se diz que é ho theós, o Deus em si mesmo, mas theós, sem artigo, Deus, divino: “a Palavra é divina”. “E a Palavra fez-se carne”. Assim, Jesus é Deus presente, a revelação, a manifestação visível do Deus invisível: Deus fez-se humano, história, neste homem concreto que é Jesus de Nazaré. 

 

Tive o privilégio de ter tido como professor o maior teólogo católico do século XX, Karl Rahner, que escreveu: "Quando dizemos ‘é Natal’, estamos a dizer: ‘Deus disse ao mundo a sua palavra última, a sua mais profunda e bela palavra numa Palavra feita carne’. E esta Palavra significa: amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos."

 

3.2. Como foi o seu nascimento? Maria é virgem? Jesus teve irmãos? Foi também a Karl Rahner que ouvi pela primeira vez que os Evangelhos e a teologia não são tratados de anatomia.

 

Diz o Evangelho segundo São Lucas, referindo a admiração dos seus conterrâneos, quando Jesus começou a pregar: “Donde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós? E isto parecia-lhes escandaloso.”

 

Maria é bem-aventurada, não por ser a mãe de Jesus, mas porque acreditou e se converteu à mensagem do seu Filho, como se lê no Evangelho segundo São Lucas: “Enquanto Jesus falava, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse: Bem-aventuradas as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram! Ele, porém, retorquiu: Bem-aventurados, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática”.

 

Outro jesuíta, filósofo e teólogo, Juan Masiá, disse, neste contexto, o essencial: Maria é bem-aventurada “ao conceber com José a Jesus por cooperação com o Espírito Santo. Agraciada ao dar à luz Jesus e os seus irmãos e irmãs. Salve!, Maria e José, agraciados e abençoados, com todas as mães e pais que recebem como um dom do Espírito os filhos que procriam e, ao gerá-los, consumam a virgindade simbólica que se realiza na maternidade e na paternidade. Porque não é incompatível a união dos progenitores com a acção do Espírito: a criatura nasce pela união dos seus progenitores e pela graça, a força, do Espírito Santo”.

 

Acrescenta: “Toda a criatura nasce em graça original. Maria não é uma excepção. O chamado pecado original não é originário nem mancha. O seu nome exacto é o pecado do mundo. A criatura, que nasce sem nenhuma mancha, vem à luz num mundo no qual já é vasta uma rede de pecado. Como quem entra numa sala de fumadores e se contamina com o fumo”.

 

3.3. Quando nasceu? Ninguém sabe exactamente, mas terá sido entre o ano 6 e o ano 4 a.C. Parece paradoxal, mas isso deve-se a um erro do monge Dionísio, o Exíguo, quando no século VI quis estabelecer precisamente a data do nascimento de Jesus.

 

Evidentemente, não se pode dizer que nasceu no dia 25 de Dezembro. Esse dia do Natal de Jesus foi fixado no século III em substituição da festa pagã do Sol Invicto, porque Jesus é que é o verdadeiro Sol, a Luz invencível.

 

3.4. Onde nasceu? É quase certo que Jesus nasceu em Nazaré, por isso lhe chamavam o Nazareno. Mas, se ele, segundo a fé, é o Messias, então ele é o verdadeiro rei, da linhagem de David, que era de Belém. E puseram-no a nascer em Belém.

 

3.5. Os pastores foram os primeiros avisados, porque Deus manifestou a sua salvação a todos, a começar pelos que constituíam a classe baixa dos pequenos e pobres e viviam à margem da prática religiosa.

 

3.6. E os magos vieram do Oriente? E quantos eram? E viram uma estrela sobre a manjedoura?

 

Será inútil procurar nessa data algum sinal especial no céu, porque, mais uma vez, os Evangelhos também não são nenhum tratado de astronomia. Eles vêm do Oriente, porque “ex Oriente lux” e Jesus é a verdadeira luz. E o salvador veio para todos, também para os pagãos. E Herodes não precisava de preocupar-se com a notícia, porque Jesus é rei, mas o seu reino implica um reinado de serviço e não de domínio.

 

3.7. E, claro, a chamada fuga para o Egipto não aconteceu, é apenas uma metáfora para dizer que Jesus é que é o verdadeiro novo Moisés, porque é o Libertador definitivo de toda a escravidão e opressão, incluindo a libertação da morte. Como Jesus não morreu para o nada, mas para a plenitude da vida em Deus, com a fé nele nasceu para todos a esperança da vida plena e definitiva em Deus.

 

4. Não me preocupa que se diga que sou herético. A única pena que tenho é a de não ser suficientemente cristão.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no Observador | 4 JAN 2019

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - FELIZ NATAL!

 

Minha Princesa de mim,

 

   Queridos Amigos:

 

   Vem-me à lembrança uma velha canção do Gilbert Bécaud, com uma profissão de fé: À chaque enfant qui naît, le monde recommence... -  por cada criança que nasce, recomeça o mundo!

 

   Desde o início deste período do Advento, venho-me interrogando sobre a celebração do Natal que se aproxima e o mundo em que vivemos. Aí estão as luzes, a publicidade, o comércio e os festejos, tudo tendo, como pano de fundo (ou cenário real?) um mundo perplexo e crescentemente inquieto, sem respostas para desesperos, agitações, reivindicações, ódios e agressões.

 

   Entretidos com os nossos hábitos de consumo e algumas fantasias, prazenteiros, será que andaremos a esquecer tantos factos da vida, todas essas humanidades iguaizinhas à nossa, todos esses seres que todos os dias nascem para que recomece o mundo - este mundo de todos e para todos - que o nosso esquecimento vai destruindo ou deixando destruir?

 

   Entre outros alertas e sinais dos tempos, o atentado no mercado de Natal de Estrasburgo desafia a nossa estupefação para nos propôr pensarsentir o nosso Natal, o nosso renascimento. É altura de cuidarmos deste mundo de todos, pois Deus fez-se carne e veio habitar entre nós. Quando nasce uma criança, nasce uma esperança. E qualquer esperança merece ser cumprida. Só assim será Feliz este Natal, e o Ano Bom! Não no sentido de entrar já perfeito, mas no esforço de ser melhor, pelo nosso abraço.

 

  Votos de um Feliz Natal de todos nós! E um abraço.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

O NATAL DE JESUS E A DIGNIDADE HUMANA

     

        

Ernst Bloch, um dos maiores filósofos do século XX, ao mesmo tempo ateu (não acreditava no Deus pessoal) e religioso (estava religado à divina Natureza), quando era professor na Universidade de Leipzig, na antiga República Democrática Alemã, na última aula antes das férias de Natal desejava a todos os estudantes boas-festas, falando-lhes do significado do Natal e terminava, dizendo: “É sempre Advento”, querendo desse modo apelar para a esperança: o mundo e a humanidade continuam grávidos de ânsias e de possibilidades, e a esperança está viva e há razões objectivas para esperar. Apesar do Natal, ainda é Advento, porque a plenitude ainda não chegou.

 

Foi em Tubinga que o conheci, pois Ernst Bloch, embora se confessasse marxista e ateu, acabou por ter  de deixar Leipzig e a República Democrática Alemã: as autoridades comunistas acusavam-no de misticismo religioso. Ele defendia-se, sublinhando o carácter único, na história das religiões, do judeo-cristianismo e do seu livro, a Bíblia. Para ele, “a Bíblia é o livro mais significativo da literatura mundial”, pois responde à pergunta decisiva do ser humano, que é a questão do fim, do sentido e finalidade do mundo e da existência. Ir ao encontro da Bíblia “não pode prejudicar” nenhum ser humano que queira bem à Humanidade e a si próprio. Concretamente, não é possível compreender o Homem europeu e as suas obras literárias e artísticas, sem um conhecimento aprofundado da Bíblia. Os nazis, por exemplo, ao rejeitar a Bíblia como algo estranho que não devia ser estudado, não só não puderam compreender a cultura alemã como caíram na barbárie.

 

Sem a mitologia grega, não podemos entender a Antiguidade clássica. Assim também, sem o conhecimento da Bíblia, não podemos compreender as catedrais, o gótico, a Idade Média, Dante, Rembrandt, Händel, Bach, Beethoven, os Requiem, “absolutamente nada”, escrevia Ernst Bloch. Impõe-se pôr termo ao desconhecimento da Bíblia, porque este desconhecimento constitui uma “situação insustentável”, pois produz bárbaros que, por exemplo, perante a “Paixão segundo São Mateus” ou o “Messias” de Händel, ficam como bois a olhar para palácios.

 

Está aí o Natal. E o Natal, mesmo que alguns já não se lembrem disso — li há dias que um terço dos norte-americanos não sabem que o Natal se refere a Jesus — e haja até quem menospreze a data, é o aniversário natalício de Jesus Cristo. Sobre ele deixou escrito Ernst Bloch: Jesus agiu como um homem “pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido”. Anunciou o Deus próximo, de amor, o Deus da misericórdia, um Deus amoroso e amável, e o seu Reino: o Reino de Deus, reino da liberdade — “onde está o espírito de Cristo aí está a liberdade”, proclamou São Paulo —, reino da justiça, do amor, da fraternidade, da paz, da igualdade radical de todos perante Deus e perante os outros seres humanos, o reino da realização plena de toda a esperança.

 

Sobre Jesus, Mahatma Ghandi também deixou estas palavras: Jesus “foi um dos maiores mestres da Humanidade”. “Não sei de ninguém que tenha feito mais pela Humanidade do que Jesus. De facto, nada há de mau no cristianismo”. Mas acrescentou: “O problema está em vós, os cristãos, pois não viveis em conformidade com o que ensinais”. E tem razão.

 

Para quem está atento e não tem preconceitos é claro que um dos fundamentos da Europa é o cristianismo. É necessário confessar os erros, fragilidades e crimes do cristianismo histórico, mas é indubitável que da compreensão dos direitos humanos e da democracia, da tomada de consciência da dignidade inviolável do ser humano — de todo o ser humano —, da ideia de história e do progresso, da separação da Igreja e do Estado, portanto, da laicidade, de tal modo que crentes e ateus têm os mesmos direitos, faz parte inalienável a mensagem originária do cristianismo.     

 

Lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A figura histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Ele conclui que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas, continua, também sabemos que, “depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a ‘ressurreição’”: aquele que tinha morrido realmente apareceu como “pessoa viva, mas transformada”. “Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso”. Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a História. Grande parte da Humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta.

 

A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem que mudou a História.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 22 DEZ 2018

OS LIVROS SÃO SEMPRE FESTA…

 

Eis mais dez sugestões de livros de 2017 – todas igualmente suculentas!

Boas Festas! Boas Leituras! Muitos e bons livros…

 

1) Obras Completas de Luís de Camões – volume I – Maria Vitalina Leal de Matos (E-Primatur);

2) O Crepúsculo do Colonialismo, Bernardo Futsher Pereira (D. Quixote);

3) O Canto e o Signo – Existência e Literatura (1957-1993), Eduardo Lourenço (Gradiva);

4) Camões e Outros Contemporâneos, Hélder Macedo (Presença);

5) Tendências Gerais da Filosofia da Segunda Metade do Século XIX, Antero de Quental (Gulbenkian);

6) Memórias, Raul Brandão (Quetzal);

7) Ensaios e Artigos (1951-2007), Agustina Bessa-Luís (Gulbenkian);

8) Holocausto – Uma Nova História, Laurence Rees (Vogais);

9) Uso Particular, Rui Knopfli (Do Lado esquerdo);

10) 145 Poemas, Konstantinos Kavafis (Flop).

 

CNC

MAIS DEZ LIVROS DE NATAL – AS MELHORES TRADUÇÕES

 

Dando continuidade às nossas sugestões de Natal, damos uma lista de dez traduções de qualidade.

 

1) O Teu Rosto Amanhã, Javier Marias (Alfaguara)
2) Falcó, Arturo Perez-Reverte (Asa)
3) Os Contos, Giuseppe Tomasi di Lampedusa (D. Quixote)
4) Um Legado de Espiões, John Le Carré (D. Quixote)
5) Lorde Jim, Joseph Conrad (Relógio d’Água)
6) Dez Dias Que Abalaram o Mundo, John Reed (Aletheia)
7) O Escritor Fantasma, Philip Roth (D. Quixote)
8) Nova Antologia Pessoal, Jorge Luís Borges (Quetzal)
9) Nunca me Deixes, Kazuo Ishiguro (Gradiva)
10) Poemas Escolhidos, W.B. Yeats (Relógio d’Água)

 

Muito boas leituras!

CNC