Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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Para se entender o que se passa com as narrativas dos Evangelhos à volta do Natal, há pressupostos fundamentais.
1. Em primeiro lugar, a fé cristã dirige-se a uma pessoa, Jesus confessado como o Cristo (o Messias) e, através dele, a Deus que Jesus revelou como Pai e poderemos e deveremos dizer também como Mãe (Pai-Mãe), com todas as consequências que daí derivam para a existência.
O que diz o Credo cristão, símbolo da fé? “Creio em Jesus Cristo. Gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, ressuscitou ao terceiro dia.” Segundo a fé cristã, isto é verdade? Sim, é verdade, mas é preciso dar atenção ao “consubstancial”. De facto, como mostrei no artigo da semana passada — “E vós quem dizeis que eu sou?” —, Jesus nunca se declarou a si mesmo Deus: veja-se, por exemplo, como no Evangelho a alguém que o chamou “bom mestre”, respondeu: “Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus”. De qualquer modo, recitando o Credo, segue-se a pergunta fundamental: o que deriva dessas afirmações para a nossa existência de homens e mulheres, cristãos ou não? O Credo é teologia dogmática, especulativa, em contexto linguístico da ontologia grega, como mostrei aqui no texto da semana passada. Ora, a teologia dogmática tem que ver com doutrinas e dogmas, com uma estrutura essencialmente filosófica. Pergunta-se: os dogmas movem alguém, convertem alguém, transformam a existência para o melhor, dizem-nos verdadeiramente quem é Deus para os seres humanos e estes para Deus?
Exemplos mais concretos, um do Antigo Testamento e outro do Novo, até para se perceber a passagem do universo hebraico em que Jesus se moveu e o universo grego no qual aparecem redigidos os Evangelhos. No capítulo 3 do livro do Êxodo aparece a manifestação de Deus na sarça ardente e Moisés dirige-se a Deus: se me perguntarem qual é o teu nome, que devo responder-lhes? E Deus: “Eu sou aquele que sou”. Dir-lhes-ás: “Eu sou” enviou-me a vós. A fórmula em hebraico: ehyeh asher ehyeh (“eu sou quem sou”, “eu sou o que sou”) é o modo de dizer que Deus está acima de todo o nome, pois é Transcendência pura, que não está à mercê dos homens, mas diz também (a ontologia hebraica é dinâmica) o que Deus faz: Eu sou aquele que está convosco na história da libertação, que vos acompanha no caminho da liberdade e da salvação. Depois, com a tradução dos Setenta, compreendeu-se este ehyeh asher ehyeh como “Eu sou aquele que é”, “Eu sou aquele que sou”, o Absoluto. Filosofando sobre Deus, a partir daqui, Santo Tomás de Aquino dirá que Deus é “Ipsum Esse Subsistens” (O próprio ser subsistente), Aquele cuja essência é a sua existência. Isto é verdade, mas significa o quê para iluminar a existência? Perdeu-se a dinâmica do Deus que está presente e acompanha a Humanidade na história da libertação salvadora.
No Novo Testamento, João Baptista, preso, mandou os discípulos perguntar a Jesus se ele era o que estava para vir, o Messias. Jesus não afirmou nem negou. Mas deu uma resposta existencial, prática: “Ide dizer-lhe o que vistes e ouvistes: os coxos andam, os cegos vêem, a Boa Nova é anunciada, a libertação avança, a salvação está em marcha”.
O que é que isto significa? A teologia, a partir da Bíblia, é, antes de mais, teologia narrativa e não dogmática. Quer dizer: tem uma estrutura existencial, histórica. Na teologia especulativa, o centro de interesse é o ser; na teologia narrativa, o decisivo é o que acontece. Assim, na perspectiva cristã, o essencial consiste na pergunta: O que é que acontece quando Deus está presente? Na linha dogmático-doutrinal, exige-se e até se pode dar um assentimento intelectual, subordinando-se, mas a existência continua inalterada. Corre-se então o perigo de uma “fé” em fórmulas doutrinais coisistas, petrificadas, sem qualquer transformação da vida, que é o que acontece tão frequentemente. Ora, a vida cristã, se quiser ser verdadeiramente cristã, no discipulado de Jesus, tem de ser determinada mais pela ortopráxis — a acção correcta, boa — do que pela ortodoxia, embora, evidentemente, sem menosprezar a ortodoxia, segundo uma hermenêutica adequada: Jesus louvou a cananeia pela sua fé, que não era ortodoxa, deu como exemplo o samaritano, que não seguia a ortodoxia, mas praticava a misericórdia, e, sobretudo, leia-se o Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 25 sobre o Juízo Final, no qual não há perguntas sobre fórmulas teóricas religiosas, mas sobre a prática: “Destes-me de comer, de beber, vestistes-me, visitastes-me na cadeia e no hospital...”.
2. Não há figura mais estudada do que Jesus Cristo e não há hoje nenhum historiador sério que negue a sua existência histórica. E sabe-se que frequentava a sinagoga, trabalhou no duro como tekton, que é mais do que um carpinteiro (ele trabalhava a madeira e outros materiais, tanto na construção de uma casa como de instrumentos agrícolas), portanto, poderíamos dizer: um artesão.
Fez a experiência funda e única de Deus como Abbá, Paizinho, querido Papá, que ama com amor de pai e de mãe. Em seu nome, quando tinha pouco mais de 30 anos, anunciou o Evangelho (notícia boa e felicitante da parte de Deus para todos) e o Reino de Deus, que é o reino da justiça, da paz, da fraternidade, da realização plena de todos os homens e mulheres. Fê-lo por palavras e obras para todos, a começar pela proximidade em relação aos mais fracos, pobres, abandonados, impuros, heréticos... Enfrentou a religião oficial do Templo, escandalizando aqueles que viviam da religião explorando o povo. Foi condenado pelos sacerdotes, que não o toleravam, e foi crucificado pelo poder imperial romano. Morreu como blasfemo religioso e subversivo social e político. Depois, mais uma vez, lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A figura histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Ele conclui que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas, continua, também sabemos que, “depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a ‘ressurreição’”: aquele que tinha morrido realmente apareceu como “pessoa viva, mas transformada”. “Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso”. Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a História. Grande parte da Humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta. Não se pode esquecer, muito menos ignorar, que da biografia de alguém faz parte a sua Wirkungsgeschichte, na reflexão do célebre filósofo Hans-Georg Gadamer, isto é, a história dos efeitos dessa vida ou, por outras palavras, as consequências dessa vida na História.
A experiência pascal — Jesus, o crucificado, está vivo em Deus para sempre — foi avassaladora para os discípulos. São Paulo fez também essa experiência e, assim, de perseguidor passou a apóstolo, percorrendo talvez mais de 15.000 quilómetros para anunciar a Boa Nova. O que vale um morto? Nada. O que vale um crucificado? Ainda menos. Mas, se Jesus, o crucificado, está vivo em Deus, isso significa o aval de Deus a tudo quanto Jesus disse e fez, Deus ratifica a sua pessoa e a sua mensagem. Então, se Jesus, o crucificado, vale para Deus, todos valem, concluindo São Paulo que “já não há judeu nem grego, homem ou mulher, escravo ou livre”, pois todos valem para Deus: “foi para a liberdade que Cristo nos libertou”, “já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus”. Ernst Bloch, o ateu religioso, um dos maiores filósofos do século XX, com quem tive o privilégio de conversar, viu bem: “O cristianismo venceu mediante a proclamação: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’”.
A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem de dignificação de todos, mensagem que mudou a História.
3. A História lê-se de trás para a frente, a partir do princípio, evidentemente, mas tem sobretudo de ser lida do fim para o princípio. Portanto, com a história e a razão hermenêutica. No caso de Jesus e do cristianismo, essa leitura é essencial, para não se cair em alçapões mortais.
Frequentemente, com certas formulações dogmáticas, acabar-se-ia por fazer concretamente de Jesus e de sua mãe, Maria, autênticos robôs, com tudo pré-sabido e pré-determinado. Ora, evidentemente, no princípio, Maria e José não sabiam quem era aquele menino a quem deram o nome de Jesus e perguntaram como todos os pais: o que será deste filho? Ele ia crescendo e umas vezes entendiam o que estava a acontecer e outras vezes não entendiam. Está no Evangelho segundo São Lucas, no relato de Jesus perdido no Templo: “Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura. Ele respondeu: Não sabíeis que devia estar na casa de meu Pai? Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse”. E Jesus ia crescendo “em sabedoria, em estatura e em graça”. E no Evangelho segundo São Marcos: “E quando os seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão nele, pois diziam: Está fora de si”.
Os Evangelhos escrevem sobre a realidade histórica, mas foram escritos por quem, à luz do fim, já acreditava que Jesus é, na confissão de São Pedro, “o Filho do Deus vivo”. Concretamente no que se refere aos Evangelhos ditos da infância, é necessário ter em atenção a sua significatividade mais do que a historicidade. De facto, eles são construções teológicas, colocando no princípio a revelação do fim: Jesus é o Messias. Se é o Messias, nele realizam-se as profecias e as promessas de Deus. Assim:
3.1. O que é o Natal? Sim, é “um novo começo”, como bem viu o famoso teólogo Hans Küng, com quem falei várias vezes. Também tive o privilégio de ter tido como professor talvez o maior teólogo católico do século XX, Karl Rahner, que escreveu: "Quando dizemos ‘é Natal’, estamos a dizer: (Em Jesus de Nazaré), ‘Deus disse ao mundo a sua palavra última, a sua mais profunda e bela palavra numa Palavra feita carne’. E esta Palavra significa: amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos."
3.2. Como foi o seu nascimento? Maria é virgem? Jesus teve irmãos? Foi também a Karl Rahner que ouvi pela primeira vez que os Evangelhos e a teologia não são tratados de biologia e anatomia.
Diz o Evangelho segundo São Lucas, referindo a admiração dos seus conterrâneos, quando Jesus começou a pregar: “Donde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós? E isto parecia-lhes escandaloso.”
Maria é bem-aventurada, não por ser a mãe de Jesus, mas porque acreditou e se converteu à mensagem do seu Filho, como se lê no Evangelho segundo São Lucas: “Enquanto Jesus falava, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse: Bem-aventuradas as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram! Ele, porém, retorquiu: Bem-aventurados, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática”.
Outro jesuíta, filósofo e teólogo, Juan Masiá, disse, neste contexto, o essencial: Maria é bem-aventurada “ao conceber com José a Jesus por cooperação com o Espírito Santo. Agraciada ao dar à luz Jesus e os seus irmãos e irmãs. Salve!, Maria e José, agraciados e abençoados, com todas as mães e pais que recebem como um dom do Espírito os filhos que procriam e, ao gerá-los, consumam a virgindade simbólica que se realiza na maternidade e na paternidade. Porque não é incompatível a união dos progenitores com a acção do Espírito: a criatura nasce pela união dos seus progenitores e pela graça, a força, do Espírito Santo”.
Acrescenta: “Toda a criatura nasce em graça original. Maria não é uma excepção. O chamado pecado original não é originário nem mancha. O seu nome exacto é o pecado do mundo. A criatura, que nasce sem nenhuma mancha, vem à luz num mundo no qual já é vasta uma rede de pecado. Como quem entra numa sala de fumadores e se contamina com o fumo”.
3.3. Quando nasceu? Ninguém sabe exactamente, mas terá sido entre o ano 6 e o ano 4 a.C. Parece paradoxal, mas isso deve-se a um erro do monge Dionísio, o Exíguo, quando no século VI quis estabelecer precisamente a data do nascimento de Jesus.
Evidentemente, não se pode dizer que nasceu no dia 25 de Dezembro. O que se passou é que, quando, nos séculos III-IV já havia comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano, a festa pagã do Dies Natalis Solis Invicti (Natal do Sol Invicto), associada ao solstício do Inverno, deu lugar ao Natal cristão, pois Jesus é que é o verdadeiro Sol, a Luz invencível.
3.4. Onde nasceu? É quase certo que Jesus nasceu em Nazaré, por isso lhe chamavam o Nazareno. Mas, se ele, segundo a fé, é o Messias, então ele é o verdadeiro rei, da linhagem de David, que era de Belém. E puseram-no a nascer em Belém.
3.5. Os pastores foram os primeiros avisados, porque Deus manifestou a sua salvação a todos, a começar pelos que constituíam a classe baixa dos pequenos e pobres e viviam à margem da prática religiosa.
3.6. E os magos vieram do Oriente? E quantos eram? E viram uma estrela sobre a manjedoura?
Será inútil procurar nessa data algum sinal especial no céu, porque, mais uma vez, os Evangelhos também não são nenhum tratado de astronomia. Eles vêm do Oriente, porque “ex Oriente lux” (a luz vem do Oriente) e Jesus é a verdadeira luz. E o salvador veio para todos, também para os pagãos. E Herodes não precisava de se preocupar com a notícia, porque Jesus é rei, mas o seu reino implica um reinado de serviço e não de domínio.
3.7. E, claro, a chamada fuga para o Egipto não aconteceu, é apenas uma metáfora para dizer que Jesus é que é o verdadeiro novo Moisés, porque é o Libertador definitivo de toda a escravidão e opressão, incluindo a libertação da morte. Como Jesus não morreu para o nada, mas para a plenitude da vida em Deus, com a fé nele nasceu para todos a esperança da vida plena e definitiva em Deus.
4. Para todos, cada uma e cada um, de coração, vai o meu vivo desejo de um novo ano de 2026 bom, realmente bom, e feliz.
Com Jesus.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 3 de Janeiro de 2026
É do nosso sentir criar Natais não desligados do humano
Liguemo-nos, pois, à estrela!
É do nosso sentir o quanto um plano alimentar em cadeia pelo mundo seria a grande conexão por onde se estabeleceria uma verdade e, por aí, um princípio da celebração do nascer.
É do nosso sentir o dever de partilhar e de prestar.
É do nosso sentir que nada, no muito, funciona de forma isolada e que não podemos continuar a pactuar com os natais cegos e surdos à denúncia de todas as iniquidades.
É do nosso sentir saber que quem se sente excluído da vida digna não é a sua dor que quer ouvir, mas sim a voz de alguém tão vigilante, tão envergonhado, que, enfim, cumpra a promessa.
É do nosso sentir que a indiferença à desumanidade não torna nenhuma natureza digna.
É do nosso sentir que não se aguentará prolongar o viver como perdidos num mundo que não nos é fraternal, porque não somos seres da fraternidade, como no começo dos grandes solipsismos.
Natal: o nascimento de Jesus e a infinita dignidade do Homem
A festa do Natal deveria ser infinitamente mais do que o festival do comércio natalício exasperado. Há pessoas que chegam à noite de Natal cansadas e desfeitas, por causa dos presentes. No último instante, ainda tiveram de ir à última loja aberta, por causa de mais uma compra. Há inclusivamente pessoas para as quais o tormento das compras natalícias começa logo no início do novo ano, pouco tempo depois do Natal: o que é que vão dar como presente àquele, àquela, no próximo Natal?!...
Realmente, a festa do Natal é infinitamente mais, e deve sê-lo. Porque o Natal é a visita de Deus aos seres humanos, homens, mulheres, jovens, crianças, bebés. É Deus presente entre os homens. E, ao contrário do que frequentemente fazemos com os nossos presentes, que pretendem ser uma manifestação de ostentação de poder junto dos outros, Deus veio, sem majestade, sem poder. Veio, humilde, na simplicidade. De tal maneira que os mais pobres entre os pobres — os pastores — se não sentiram humilhados ao visitá-lo. Foram os pastores os primeiros que viram Deus visível num rosto de criança. Quem é que imaginaria que Deus, se algum dia viesse, viria assim: simples, pobre, precisamente para que ninguém se sentisse excluído?...
Quer se seja cristão ou não, quer se acredite quer não, é necessário reconhecer que foi através do cristianismo, isto é, mediante a fé no Deus revelado em Jesus, que veio ao mundo a tomada de consciência explícita e clara da dignidade infinita de ser ser humano. Isso foi reconhecido por pensadores da estatura de Hegel, Ernst Bloch, Jürgen Habermas... Hegel afirmou expressamente que na religião cristã está o princípio de que "o homem tem valor absolutamente infinito". Ernst Bloch, embora ateu, confessou que foi pelo cristianismo que veio ao mundo a consciência do valor infinito de ser homem, de tal modo que nenhum ser humano pode ser tratado como "gado". E Jürgen Habermas, mais recentemente, escreveu que a democracia se não entende sem a compreensão judaico-cristã da igualdade radical de todos os homens, por causa da "igualdade de cada indivíduo perante Deus". A própria ideia de pessoa enquanto dignidade inviolável e sujeito de direitos inalienáveis veio ao mundo através dos debates à volta da tentativa de compreender a pessoa de Cristo e o mistério do Deus trinitário cristão.
Sim, é uma alegria enorme dar um presente e receber um presente, concretamente na época de Natal. Mas essa alegria não provém tanto do valor material do presente como desse saber que consiste em sermos e estarmos nós próprios presentes uns aos outros: ele lembrou-se de mim, eu lembrei-me dele; eu lembrei-me dela, ela lembrou-se de mim...
O pequeno presente oferecido é sinal, símbolo, dessa presença calorosa, e exprime a alegria de ser Homem, cuja dignidade infinita reconhecemos em cada ser humano. Assim, celebrar o Natal tem de ser também contribuir para que se concretize o anúncio dos anjos aos pastores, os mais pobres de entre os pobres de então: "Nasceu para vós um salvador; Paz na terra aos homens amados por Deus". É uma vergonha para a Humanidade que hoje centenas de milhões de pessoas passem fome e morram de fome… O que se gasta em armamento, para matar milhões, não deveria ser, se realmente se entendesse o Natal verdadeiro, para dar educação, comida, água potável, serviços sanitários mínimos..., a milhares de milhões de pessoas?...
Bom Natal! Natal feliz!
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 20 de Dezembro de 2025
Porque estamos no Advento, que deveria preparar para o Natal, fica aí uma breve reflexão sobre o ser humano e o tempo. De facto, seria tremendamente lamentável que este tempo se reduza a compras compulsivas numa sociedade de consumo materialista e, no limite, niilista e, tanto quanto se pode observar, por isso mesmo, profundamente infeliz e sem sentido.
Característica essencial do ser humano é que conjugamos os verbos no passado, no presente e no futuro.
Há quem julgue que a salvação está no passado. Há sempre os saudosistas do passado: antigamente é que era bom. É a saudade do Paraíso perdido... Também há aqueles que não querem preocupar-se nem com o passado nem com o futuro. O que há é o aqui e agora, o presente a que se segue outro presente. A salvação consiste no amor e fruição do presente... Depois, há os sonhadores e os ascetas. Fogem do agora, para refugiar-se no amanhã. Nunca estão no presente, pois a sua morada é só o futuro...
Ora, pensando bem, se, por um lado, não podemos instalar-nos no passado, por outro, nenhum ser humano pode abandonar o passado, como se fosse sempre e só o ultrapassado. De facto, quando demos por nós, já lá estávamos, o que significa que vimos de um passado que nem sequer dominamos. E temos de aprender com o passado, nosso e dos outros, para, a partir dele, nos decidirmos no presente.
Sim, é sempre no presente que vivemos, mas também não é possível a simples instalação no presente, pois só podemos viver no presente projectando-nos constantemente no futuro. Na bela expressão de Helena Buescu, “somos herdeiros e futurantes”. O ser humano está estruturalmente voltado para o futuro, já que é constitutivamente um ser esperante.
Aqui, é necessário perguntar-se: não é a esperança filha da infelicidade e do temor? É célebre a afirmação de Espinosa: "Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança". O que é que isto quer dizer? Vivemos voltados para o futuro, pois somos projecto: agimos e somos, antecipando sempre. Sem esta antecipação, não poderíamos agir humanamente. Mas, por outro lado, não se pode esquecer que realmente a esperança também significa que, se desejamos, é porque não temos, e isso implica que se não é feliz. E, depois, quando temos, há sempre o temor de perder o que temos, o que nos coloca em permanente inquietação...
Viver humanamente não pode, portanto, significar viver exclusivamente do futuro e para o futuro, pois viver unicamente da esperança é nunca viver, já que verdadeiramente só se vive no presente. Viver unicamente da esperança seria adiar constantemente a vida, no sentido do viver. Aliás, colocar permanentemente o presente ao serviço do futuro, vê-lo exclusivamente em função do futuro, é abrir as portas ao perigo da tirania: quantos homens e mulheres não foram de facto vítimas do sonho dos "amanhãs que cantam"?!...
É isso: querer viver exclusivamente do presente e para o presente não é humano, pois isso significaria viver na imediatidade animal, sem horizonte de futuro e transcendência. Mas, por outro lado, quem quisesse viver exclusivamente do futuro e para o futuro nunca poderia afastar a dúvida de estar apenas a lidar com as suas ilusões. Assim, a arte de viver humanamente consiste em, a partir do passado, viver com tal intensidade e dignidade o presente que se torna legítimo esperar a vida plena futura...
Nestes tempos de niilismo, com “sub-produção de transcendência”, como se queixava Ernst Bloch, o filósofo ateu-religioso da esperança, temos de voltar ao Advento a caminho do Natal.
Advento é uma palavra que vem do latim e quer dizer vinda, chegada: em sentido religioso, é a chegada, a vinda de Deus: Ele veio e mostrou-se em Jesus, Ele vem, Ele virá. Herdeiros e sempre futurantes, face ao fim, só resta uma alternativa, que já aqui por vezes sublinhei.
Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu “L’homme nu”: "Ao Homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada."
A Bíblia, no seu último livro, Apocalipse, que quer dizer revelação, conclui assim: “Vi então um novo céu e uma nova terra.” “E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém”. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: “Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram."
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado 29 de Novembro 2025
Os Evangelhos escrevem sobre a realidade histórica, mas foram escritos por quem, à luz do fim, já acreditava que Jesus é o Messias, “o Filho do Deus vivo”. Assim, na sequência da crónica da semana passada e da explicação apresentada, continuo a responder a perguntas que muitos me fazem sobre o Natal.
São José é o pai de Jesus? A teologia não é um tratado de biologia e anatomia. São Paulo escreverá de modo simples: Jesus, “nascido de mulher”, para dizer que é da nossa raça, que é o que se lê também nos evangelistas. Mas Ele é especial, único. Para mostrar que João Baptista é especial, os Evangelhos dirão que foi concebido quando a mãe, Isabel, já não podia ter filhos. Quanto a Jesus, acreditando que Ele é o Filho de Deus, a revelação definitiva de Deus como Pai/Mãe, escreverão que foi concebido pelo Espírito Santo.
A mãe era Maria, o pai era José. Tinha irmãos e irmãs. Há algum mal em ter uma família numerosa?
Como foi a sua infância? Normal e despercebida, de tal modo que, quando aparece em Nazaré, a anunciar o Reino de Deus, os seus conterrâneos enchem-se de assombro: quem é este?, a família dele não vive entre nós? Lê-se no Evangelho segundo São Mateus: “Donde lhe vem esta sabedoria? Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não estão todas aqui entre nós? E estavam escandalizados por causa dele.”
Certamente, frequentando a sinagoga, Jesus aprendeu a rezar, a escrever e a ler as Escrituras (Antigo Testamento), aprendeu o ofício de tekton, artesão, trabalhando com a madeira, a pedra, o ferro: um ofício duro.
Os pastores foram os primeiros avisados do seu nascimento, porque Deus manifestou a sua salvação a todos, a começar pelos que constituíam a classe baixa dos pequenos e pobres...
E os magos vieram do Oriente? E quantos eram? E viram uma estrela sobre a manjedoura? Será inútil procurar nessa data algum sinal especial no céu, pois os Evangelhos também não são nenhum tratado de astronomia. Eles vêm do Oriente, porque “ex Oriente lux” e Jesus é a verdadeira Luz.
O episódio dos reis magos vindos do Oriente, guiados por uma estrela, é dos mais conhecidos e fascinantes para o imaginário colectivo, mas, quando se analisa criticamente todos os dados, realmente não crível historicamente. O que se passa é que o evangelista compara Jesus com o rei Salomão. Salomão, tão estimado pelos judeus pela sua sabedoria, foi visitado por uma rainha anónima vinda de longe, de Sabá, atraída pela sua fama. Jesus é mais do que Salomão. Ele é a Sabedoria verdadeira, que a todos ilumina. “Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.” E veio para todos, também para os pagãos.
Também não é crível a matança dos inocentes. Como seria possível Flávio Josefo não ter referido essa matança? Herodes não precisava de preocupar-se com a notícia, porque Jesus é rei, mas o seu reino é de serviço e não de domínio.
E Jesus é levado para o Egipto — realmente nunca terá lá estado —, donde voltará. Isto para dizer que Jesus é o novo verdadeiro Moisés, o Libertador de todo o mal e opressão, incluindo a morte. Porque Deus não suporta a opressão, a escravidão. Jesus é que é o verdadeiro novo Moisés, o Libertador definitivo de toda a escravidão, incluindo a libertação da morte. Jesus ressuscitou, não morreu para o nada, mas para a plenitude da vida em Deus; com a fé nele veio para todos a esperança da vida plena e definitiva em Deus.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 10 de janeiro de 2025
Já estamos no ano de 2025 em todas as partes do mundo — desejo a todos um 2025 com saúde, paz, boas realizações... —, mas quantos tomaram consciência de que a data se refere ao nascimento de Jesus?
Precisamente por causa do Natal, muitas pessoas vêm ao meu encontro com perguntas, e nesta e na próxima crónica tentarei dar respostas ainda que breves, por vezes até com algumas repetições.
Para entender as respostas, é essencial perceber que a festa do Natal não é a festa principal do cristianismo, mesmo que seja a mais popular e entendamos o entusiasmo que suscita em toda a parte, compreendendo perfeitamente a luz, o calor humano, as deslocações para juntar as famílias e os amigos, a evocação da ternura do nascimento de uma criança...
A festa central da fé cristã é a Páscoa, que celebra a vida, o anúncio da Boa Nova do Reino de Deus, a paixão e morte de Jesus e a sua ressurreição: na morte, Jesus não morreu para o nada, na morte encontrou a plenitude da vida em Deus, que é Pai-Mãe. Este é o núcleo da mensagem cristã, como proclamou São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé.”
E assim é à luz da Páscoa que se compreendem as narrativas do Natal. De facto, no início, os cristãos não se interessaram pelo nascimento de Jesus, pois o essencial era a vida, a morte e a ressurreição.
Então, como apareceu a festa do Natal? Hoje, nenhum historiador sério nega que Jesus existiu realmente. Quando, nos séculos III-IV já havia comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano, houve a ideia de transformar a festa pagã do Dies Natalis Solis Invicti (Natal do Sol Invicto), associada ao solstício do Inverno, quando os dias começam a crescer e com eles a luz solar, na festa do nascimento do Sol dos cristãos, dAquele que é o verdadeiro Sol invencível, a Luz verdadeira. A Missa do galo está associada a esta luz; o galo canta, anunciando a aurora.
E voltamos à questão da data e de nos encontrarmos no ano de 2025. Quando nasceu Jesus? Realmente, estamos enganados quando dizemos que entrámos no ano 2025 depois de Cristo. De facto, no século VI, quando o cristianismo já se tinha vastamente difundido e Jesus surgia como figura determinante da História, de tal modo que agora o calendário se deveria orientar pela data do seu nascimento: a. C., d. C. (antes de Cristo, depois de Cristo), o monge encarregado de determinar essa data, Dionísio o Exíguo, enganou-se em 4 ou mesmo 6 anos. Portanto, Jesus, paradoxalmente, terá nascido em 4-6 a.C.
Nasceu em Belém? Voltamos ao início. O essencial da fé cristã encontra-se na Páscoa. Foi a partir dessa fé que os discípulos leram a vida histórica de Jesus, real, situada num tempo concreto, uma história real, mas lida e interpretada com o olhar da fé. Esta leitura é particularmente visível nos relatos da infância, que só aparecem nos Evangelhos de São Mateus e São Lucas, utilizando um género literário próprio, que projecta e vê no princípio o que só sabem no fim: em Jesus cumpriram-se as promessas, Ele é o Messias, o Filho de Deus, o Salvador por todos esperado. Na realidade, Jesus terá nascido em Nazaré: é conhecido por Jesus de Nazaré ou o Nazareno. Mas puseram-no a nascer em Belém: trata-se de mostrar que ele é o verdadeiro Messias e rei, da descendência de David, que era de Belém.
E a mensagem do Natal? Jesus proclamou o Reino de Deus. Deus é Pai/Mãe. Somos todos filhos e filhas e, portanto, irmãos. No Reino de Deus, não há súbditos. Continua.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 3 de janeiro de 2025
Numa troca célebre de cartas entre o cardeal Carlo Martini, arcebispo de Milão, aquele que afirmou que a Igreja anda atrasada pelo menos 200 anos, e o agnóstico Umberto Eco, publicadas com o título “Em que crê quem não crê”, este escreveu: Mesmo que Cristo fosse apenas o tema de um grande conto, “o facto de esse conto ter podido ser imaginado e querido por bípedes implumes, que só sabem que não sabem, seria miraculoso (miraculosamente misterioso)”. O Homem teve, a dada altura, “a força religiosa, moral e poética, de conceber o modelo de Cristo, do amor universal, do perdão aos inimigos, da vida oferecida em holocausto pela salvação dos outros. Se fosse um viajante proveniente de galáxias longínquas e me encontrasse com uma espécie que soube propor-se este modelo, admiraria, subjugado, tanta energia teogónica, e julgaria esta espécie miserável e infame, que cometeu tantos horrores, redimida pelo simples facto de ter conseguido desejar e crer que tudo isto é a Verdade”.
Ouço falar no Natal pelo menos desde Agosto. Parece impossível, porque só se pensa em compras, esquecendo o essencial, que é o nascimento de Jesus. Não quereria ser tão pessimista, mas é possível que o famoso teólogo José I. González Faus tenha razão: “O que se celebra hoje no Ocidente a cada 25 de Dezembro é o nascimento do messias Consumo, filho único do deus Dinheiro. O que os cristãos celebramos no Natal é o nascimento de um Messias ‘pobre e humilde’, filho único do Deus Amor. Ambos são absolutamente incompatíveis.”
Evidentemente, o Natal implica festa e alegria, o Natal é talvez a grande festa da família, mas não se pode esquecer o essencial, determinante. Seria uma perda incomensurável ignorar ou esquecer que o Natal está vinculado ao nascimento de Jesus. Ele representa, na História, a maior revolução, como reconheceram grandes pensadores como Hegel, Ernst Bloch, Jürgen Habermas... Foi através dele que soubemos da dignidade inviolável de cada pessoa. Jesus revelou que Deus é bom, Pai/ Mãe de todos os homens e mulheres e quer a alegria, a felicidade, a realização plena de todos como seus filhos e filhas, a começar pelos mais frágeis e abandonados. É aqui que assenta, em última análise, a fraternidade humana.
Jesus Cristo é figura “decisiva, determinante” da História da Humanidade. Quem o disse foi um dos grandes filósofos do século XX, Karl Jaspers. Hegel afirmou que foi pelo cristianismo que se tomou consciência de que todos são livres. Ernst Bloch, o ateu religioso, escreveu que é ao cristianismo que se deve que nenhum ser humano pode ser tratado como “gado”. Jürgen Habermas, o maior filósofo felizmente ainda vivo, da Escola Crítica de Frankfurt, agnóstico, afirma que a democracia, com “um homem, um voto”, é a transposição para a política da afirmação cristã de que Deus se relaciona pessoalmente com cada homem e cada mulher. Frederico Lourenço, o grande especialista em literatura clássica e bíblica, agnóstico, escreve: “Não tenho nenhum problema em afirmar que, pessoalmente, considero Jesus de Nazaré a figura mais admirável de toda a História da Humanidade.” Jesus foi “o homem mais extraordinário que alguma vez viveu.”
Mahatma Gandhi deixou estas palavras: Jesus “foi um dos maiores mestres da Humanidade. Não sei de ninguém que tenha feito mais pela Humanidade do que Jesus.” Mas acrescentou: “O problema está em vós, os cristãos, pois não viveis em conformidade com o que ensinais.” Bom Natal!
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 22 de dezembro de 2024
O Papa Francisco propõe para o Novo Ano de 2025 o tema da Esperança como mobilizador dos cristãos e das pessoas de boa vontade num tempo muito exigente, pleno de incertezas e ameaças, a exigir o compromisso de todos para desfazer os sérios perigos que nos perseguem.
“Exorto-vos a todos a viver este tempo forte de Natal com uma oração vigilante e uma esperança ardente”, sendo um “tempo de graça, irradiando a alegria que é fruto do encontro com Jesus” – acaba de proclamar o Papa Francisco. Mas acastelam-se nuvens negras no horizonte e o apelo é mais necessário que nunca.
Lembremo-nos que a singularidade e a solidariedade são faces da mesma moeda, obrigando-nos à recusa da indiferença e à noção positiva de compromisso. A nossa relação de uns com os outros, baseada no respeito mútuo, obriga-nos a uma ligação essencial entre pessoa e comunidade. A pessoa humana parte do que somos e do que nos distingue dos outros, segundo a própria etimologia, enquanto máscara do teatro grego. Já a comunidade é o que nos liga intrinsecamente, tornando-nos responsáveis uns pelos outros. E assim a autonomia individual demarca-se do egoísmo e do narcisismo, constituindo-se como valor ético, como eixo de abertura, de generosidade e de disponibilidade. Não nos reportamos, porém, a qualquer visão idílica de vida, destituída de diferenças e conflitos. Referimo-nos, sim, à necessidade de recusa da tentação do isolamento e da autossuficiência.
«O bem comum consiste no conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana» - afirmava João XXIII na encíclica «Mater et Magistra» (1961). Os poderes públicos devem orientar-se no sentido do respeito, da harmonização, da tutela e da promoção dos direitos invioláveis prescrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Se uma autoridade não reconhecer os direitos ou os violar «não só perde a razão de ser, como também as suas injunções perdem a força de obrigar em consciência», insistia João XXIII há cinquenta anos, num documento moderno que se tornou mais atual do que nunca. De facto, a noção de serviço público não se pode ater apenas ao Estado e ao mercado, mas à comunidade. O Estado social tem de representar a sociedade e os cidadãos, devendo o serviço público corresponder sempre a uma rede de iniciativas e de cidadãos criadores e participantes. Falamos do catálogo de direitos aceites e reconhecidos pelas Nações Unidas, que a encíclica «Pacem in Terris» refere: a existência de um padrão de vida digno; o respeito pelos valores morais e culturais; o prestar culto segundo o imperativo da reta consciência; a liberdade de escolha do estado de vida; a satisfação justa de necessidades económicas; para além dos direitos de reunião, de associação, de migração e de participação política – assim o Concílio Vaticano II consagrou a liberdade religiosa e de consciência. E este conjunto completa-se com o elenco dos deveres de cidadania (e não deveres de servos ou de súbditos): reciprocidade entre direitos e responsabilidades, colaboração mútua entre pessoas, convivência na verdade, na justiça, no amor e na liberdade, bem como salvaguarda de uma ordem moral, cujo fundamento para os cristãos é o próprio Deus. Deste modo, encontramos um fundamento universal e não uma mera lógica de hierarquia formal. Não se trata de referir um modelo de bem comum ou uma noção estereotipada de democracia – mas sim de considerar que a pessoa humana é a medida comum dos direitos e responsabilidades.
Não esquecemos que Hannah Arendt coloca entre as Origens do Totalitarismo a atomização radical do indivíduo e a eliminação da espontaneidade e da liberdade política. O colapso da distinção entre os domínios público e privado conduz à invasão ilegítima do puro utilitarismo. Afinal, o crescimento livre dos interesses privados torna-se incompatível com a necessidade de termos instituições políticas estáveis e com a existência de instâncias de mediação capazes de representar os interesses legítimos, de suscitar a participação cívica, de garantir representação cidadã e de regular os conflitos de forma racional e pacífica. Afinal, o totalitarismo, distinto do mero autoritarismo, torna a ação política impraticável, através da capacidade de falar e de ouvir, porque destrói pelo terror a possibilidade de ações espontâneas entre as pessoas. A solidão e o abandono são causas que subjazem a todos os movimentos totalitários, ainda segundo H. Arendt – lembrando a pensadora o conceito de Santo Agostinho de “Amor ao mundo”. A pessoa humana sente-se em casa, podendo preparar-se na espera do bem e do mal. E assim, em lugar do isolamento e do abandono, o cidadão torna-se um participante comprometido, capaz de agir em prol do comum. E a essência dos direitos torna-se um direito a ter direitos, fundamento da coesão social e da confiança.
Eis por que razão a noção de liderança não se confunde com a aquisição de poder e de proeminência, mas deve corresponder ao serviço, à atenção e ao cudado. Serviço, na medida em que se trata de dar resposta e de corresponder ao que nos é solicitado pelos outros e se espera de nós. Atenção, uma vez que resulta de termos de estar despertos perante o nosso próximo – tornando viva a pergunta bíblica: “onde está o teu irmão?” E devemos considerar o cuidado, entendendo que, mais do que uma solidariedade formal do que se trata é de garantir que precisamos uns dos outros. Daí a necessidade de superarmos a superficialidade e o imediatismo, uma vez que quanto mais cedermos a tais condicionantes mais provável será deixarmo-nos aprisionar pelo mal e pelo desrespeito da dignidade. Jacques Maritain numa das suas conferências do período do exílio americano durante a guerra afirmou: «Dizer que o homem é uma pessoa, quer dizer que, no fundo do ser, ser é mais um todo que uma parte, e mais independente que servo».
O Natal não é uma época para nos obrigarmos a ser felizes.
É sim, uma época por entre todas as dos dias que não deviam descuidar a construção dos significados, das razões de se deixar à mesa uma cadeira vazia à frente de um prato- expetativa-lembrança- lugar-de-pertença de alguém que está sem lar.
O Natal é sim, mais uma proposta de um tempo, um tempo de “ir à terra”.
À terra que nos desafia a memória que afirma o primado da vida sobre a morte, aquela mesma memória pela qual nos conhecemos, nos esquecemos, nos desentendemos e nos compreendemos.
“Ir à terra” no Natal, é sim, como todos os tempos são, tempos de nos recebermos recebendo os outros; tempo de compartilhar, de escutar tal como o devemos fazer em qualquer outra data, vivendo a realidade que não conhece o poente do amor.
Esquecer as razões da tristeza, da dor, da nostalgia, das guerras, da fome, das doenças, da revolta, da solidão, do abandono, da ausência de laços entre os homens, quando ninguém é como as famílias dos filmes, quando se concorda uns com os outros em não nos importarmos, é esquecer a renovação da verdade do nascer, e este “ir à terra “ no Natal não é de todo um ato luminoso, mas antes a visibilidade de um mundo que continua a escurecer.
Um dia, ainda na infância, cavei na praia, uma leve cova e do seu fundo vi surgir um outro mar e o meu empenho foi guardá-lo inteiro para o próximo Natal, dali a um nadinha, dali a uma próxima onda.
E continua a ser nesta época e em todas as da natureza dos musgos que as crianças nos saciam uma fome.
A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA RECANTOS DE NATAL
1. Na província não neva (o poeta é um fingidor) e, mesmo que nevasse, nunca passei um Natal na província. Também nunca passei um Natal na neve ou com neve. Confesso que tenho alguma inveja. Um Natal, como esse da Judy Garland em "Meet Me in St. Louis", com muitos bonecos de neve e a dita a bater leve, levemente. "Have yourself a merry little Christmas". Também a mim, o Natal, em províncias technicoloridas e lares aconchegados, me faz sonhar saudades. Mas não se pode ter tudo. Sobretudo não se deve ser mal agradecido. Os meus natais lisboetas e sintrenses já dão pano para mangas, atravessando quatro - ou cinco - gerações felizes, ou imaginariamente felizes, em noites de tantíssimos anos, de tanta gente que já dos meus olhos se apartou ou que os aos meus olhos começa a aportar. Quantos foram? Horror, a lembrança das datas? Horror não é palavra que rime com os meus Natais nem com as minhas lembranças. Dos antiquíssimos que recordo, era eu dos mais crianças, aos recentíssimos, sou eu dos mais velhos, a sucessão é boazissimamente boa e o Natal fica-me bem como bem eu me fico nele. Por isso, não esperem de mim conversas de maldição à sociedade de consumo, de raiva à paganização, de mentira às famílias, conversas "desmistificadoras". Natal de manhãzinha ou de noite dentro, de rabanadas e de perus, de missas do galo e de presépios, de sapatinhos ou de chaminés, de tudo conheci e de todos vivi. E não os troco por nada.
2. Ao princípio (estou a falar dos anos 40 e muito poucos picos) a véspera do Natal era só isso: a véspera do Natal, a ansiosa espera pelo dia seguinte. O Menino Jesus ia nascer à meia-noite, quando eu estivesse a dormir, e ia descer dos céus "pela abaixo chaminé", para me deixar no sapatinho todos os presentes que eu desejava ter. Os crescidos não me deixavam entrar nas salas em que se sussurravam segredos e mistérios. Depois de jantar, antes de me deitar, dois rituais fatalmente sucedâneos, deixavam-me finalmente entrar na sala grande para depor junto à lareira o famoso sapato. Crianças dormem como anjos? Nessa noite, não era bem assim. Acordava muitas vezes, à espera de ouvir, lá longe, os passos do Menino carregadinho de prendas. Às vezes, ia jurar que o ouvia. Mas tinham-me catequizado devidamente. Não sei se a tia que me contou todos os contos já me tinha contado o do Barba Azul. Sei é que, na minha memória ou na minha imaginação, o que me aconteceria, se acaso ousasse levantar-me e ir lá ver, era o mesmo que aconteceu às mulheres do Barba Azul quando entraram no quarto proibido. Não só ficaria manchado para sempre, como os presentes que o Menino trouxe - ou havia de trazer - o Menino os levaria e eu ficava culpado e solteiro. Por isso, nunca ousei. O pior era quando o dia começava a clarear. Pela única vez no ano, as horas mais doces do meu sono tornavam-se as mais agitadas. Inabalável era a minha fé que os presentes já lá estavam, mas nenhum passo precoce me era consentido. Restava-me esperar horas infindas pelo acordar dos pais. Finalmente, entravam-me pelo quarto e juntávamo-nos os quatro (o quinto dos irmãos só nasceu anos depois) no corredor, à espera do "já podem" mais apetecido de sempre. Em cima de cada sapato, a pilha de presentes. Só com os meus filhos e com os meus netos, aprendi retrospetivamente quão estremecente eu ficava, antes de me precipitar a rasgar papéis e a abrir caixas. Incrivelmente, milagrosamente, o que eu tinha pedido cumpria-se. "Se algum dia pedires, com verdadeira fé, à montanha que se mova, a montanha mover-se-á." É a imagem mais aproximável que consigo dar para a sensação que tinha. Também me tinham dito que, se tivesse asneado muito, no Natal só receberia carvão. Mas o Menino era Todo Misericordioso, embora não Todo Distraído. Entre as prendas ubérrimas havia um carvãozinho. Ele lá sabia e eu também sabia. Mas aquilo ficava entre nós e em nada atenuava a desmedida alegria. Depois, ia ver os presentes dos outros, depois o dia passava a correr no gozo de prazeres novos. À noite, chegavam os tios e os primos para um jantar de 16 pessoas, 12 na mesa grande e os quatro miúdos numa mesa pequena. Até hoje, o menu não mudou: canja, folhados de camarão com salada russa e salada de agriões, o peru (com o recheio, o molho, os rabanetes, as batatas fritas aos palitos), depois, à sobremesa, as rabanadas, os sonhos, a "mousse" de chocolate, o ananás. Um jantar de horas à mesa, servido por duas criadas impecavelmente fardadas, de crista e luvas brancas. Só no dia 26, a vida de cada dia retomava o seu dia, até um jantar de idêntica ementa, idênticas presenças e idêntica euforia no Dia de Ano Novo. Só mudava o "décor". Em vez da nossa casa, a casa dos meus únicos tios que eram casal, ali na Rodrigues Sampaio. Mas não havia risco que qualquer de nós (adultos ou crianças) disséssemos ou pensássemos o que um neto meu disse há uns anos, quando falou da casa daquela tia em que o jantar é sempre a mesma coisa. Além de uma educação mais severa, o peru, nesses anos, era exclusivo do Natal e do Ano Bom. Dias antes do Natal, chegavam vivos e de boa saúde, oferta dos alguéns que deviam favores. Depois, em sótãos onde não nos deixavam entrar, a cozinheira embebedava-os com aguardente, antes de lhes cortar as goelas e calar os últimos berros desesperados. Outro sinal dos tempos: antes de jantar, telefonava, de Portimão onde vivia, o irmão mais novo do meu pai, que só nesses dois dias telefonava, não por alheamento da família (que, para ele, era a única verdade), mas porque um telefonema de tão longa distância era manifestação perdulária, só admissível em datas especiais. Precipitávamo-nos todos para o auscultador, um minuto, um minuto apenas, que as chamadas eram caríssimas.
3. Até que chegou o dia fatal, tinha eu oito anos e andava no Lar Educativo João de Deus. Um colega explicou-me, a um canto do recreio, que não havia Menino Jesus nenhum e que os dadores não eram divinos mas os meus humaníssimos pais. Recusei-me a acreditar, mas a dúvida já cá estava. Chegado a casa, perguntei à mãe se era verdade. Confessou-mo. "Então os pais também mentem?" Ela explicou-me a diferença entre mentira e imaginação e como as coisas bonitas se podem sobrepor às verdades nuas. No futuro, interpretei-a muito latamente, mas disso não teve ela culpa ou se a teve foi uma "felix culpa". Não fiquei com os traumas que pedagogos perversos atribuem a revelações dessas. Só que no ano seguinte achei menos graça ao Natal e dormi melhor nessa noite. Quando chegou a minha altura de ser pai - e já se discutia seriamente entre "casais modernos", se se devia ou não contar isso do Menino Jesus às crianças - não hesitei na atitude a tomar. Talvez seja por isso que os meus filhos se maravilharam com o Natal tanto quanto eu me maravilhei e todos eles tenham contado a mesma história aos filhos deles, terceira geração maravilhada da família. Só acabou - e eu não me consolo - o Menino Jesus e os sapatinhos, que apenas sobreviveram até ao tempo dos meus filhos. Para os meus netos, já foi sempre o Pai Natal. E como até um reacionário como eu se tem que adaptar aos tempos que correm, eu próprio me converti no Pai Natal, mascarando-me dele na noite do dito, para, enquanto todos esperam no corredor, e as luzes se apagam, bater muito com os pés no chão, soltar alguns uivos medonhos e fugir precipitadamente, mas não tanto que alguns não jurem que viram o velho encarnado, tão real e perfeitamente como está nas renas. Também mudou o ritual dos dias e das noites. Crianças, agora, não vão para a cama a seguir ao jantar, à espera do dia seguinte, como eu, os meus irmãos, os meus filhos ou os meus sobrinhos. Ficam à espera da meia-noite. A hora do milagre é agora noturna e não diurna. Tem, aliás, desde que me casei, um extra que não fazia parte da minha educação, mas que incorporei, já que tradições as incorporo todas e quantas mais melhor. Como a família da minha mulher (pelo lado do pai dela) vem mesmo da província e dos lares aconchegados da Vila da Feira de outrora, a festa, no caso dela e na casa dela, era a noite de 24, ao jantar, com o caldo verde, o bacalhau e mil variedades de sobremesas (ovos mexidos e bilharacos). Igualmente passou a acontecer, desde que troquei Lisboa por Sintra, nos idos dos anos 50. Qual é a sucessão? Jantar de consoada; distribuição dos presentes (já não entre 20 mas entre 40) com as crianças interditas de entrar na sala e uma confusão dos diabos (crescidos e multiplicados, sucedem-se as chegadas de pessoas-sacos de presentes, a distribuir em montões por cuja ordem zelo eu); escuridão à meia-noite para a minha metamorfose em Pai Natal; reacender das luzes para a entrada da turba em êxtases renascidos; depois, a ceia (que já vem dos meus 12-13 anos) com os "palitos de la reine", a "tête d'achard" (receita arcana da minha mãe), as rabanadas, o chocolate com natas, os presuntos, os queijos, o bolo-rei. Depois, as crianças caem de exaustão e de orgasmos, e os crescidos ficam nos copos até às tantas. Invariavelmente, desde os anos 60, o cenário é a minha casa, variavelmente, no jantar do dia 25 e dos perus de plástico, em casa de um dos meus irmãos (este ano, pela primeira vez, uma sobrinha minha será anfitriã). O camarão dos folhados também não é o camarão vindo do mar dos meus verdes anos; a salada russa é comprada feita; e qualquer semelhança entre as batatas fritas de agora e as de antanho é pura coincidência. Desapareceram as cozinheiras, desapareceram as criadas, as travessas estão em cima da mesa e cada um trata de si e Deus de todos. Mas o dia 25 é um epílogo, não um cerne. Um recanto, não um canto. O canto e o cerne continuam a ser na véspera, na noite em que é Natal e vamos a Belém adorar o Menino que a Senhora tem. E o melhor do mundo são as crianças. A acreditar que tudo é possível, sendo que até hoje - graças a Deus! - tudo foi e é mesmo possível. Diante de mim, seja em que recanto for, ninguém amaldiçoará o Natal. Do Menino, e desde menino, da Baby Born, às "asas a sério para a Vera voar" (carta da Vera para o Pai Natal) sou fanático.
por João Bénard da Costa 24 de dezembro 2004 in Público