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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

NESTA HORA

 

 

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exilio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

 

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

 

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

 

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

 

Não basta gritar povo
É preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

 

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

 

Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção -

 

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen | "O nome das coisas", 1977