CRÓNICAS PLURICULTURAIS
Nick Bostrom © The Washington Post/Getty Images
233. UM “HOMO DEUS” LIMITADO
Os clássicos Homo economicus, Homo sociologicus e Homo Sapiens estão em expansão permanente, num processo sempre aberto e contínuo, em busca do infinito, agora com o advento do Homo digitalis e da inteligência artificial.
Novos desafios emergem com a cibernética, digitalização, algoritmos, manipulação genética, novos fármacos, transplantes, próteses, a inteligência artificial, ajudando-nos a interpelar um futuro que já existe, surgindo toda uma variedade de inovações que adicionam artificialidade ao natural, obrigando-nos a perguntar: onde acaba a máquina e começa o humano? Ou: onde acaba o humano e começa a máquina?
O que se pode processar à revelia da nossa sensibilidade emocional e espiritual, em que o critério é o da eficácia, da operacionalidade e utilidade, atuando o nosso cérebro segundo uma programação de algoritmos sem consciência, espírito ou sentimentos, pondo em causa a nossa própria subjetividade e anulando gradualmente, cada um de nós, como cidadão.
Para Nick Bostrom, filósofo e pensador sueco, o objetivo da inteligência artificial é o desemprego total, interpretado no sentido de que ninguém precisaria de trabalhar para ganhar dinheiro, a que acresce um “mundo resolvido”, uma utopia segundo a qual é exequível uma maturidade tecnológica suficientemente adequada se usada, em termos gerais, para fins benéficos, em vez de nos oprimirmos e matarmos uns aos outros, libertando-nos da governação e do labor diário. Fica a questão: o que poderá dar um propósito à nossa vida num “mundo resolvido” em que tudo é feito por máquinas? Sabendo-se que “não fazer nada” é o mais difícil, exigindo toda a nossa energia?
O progresso científico processa-se a um ritmo tão vertiginoso, que há quem acredite na criação de um processamento de dados - “a Internet-de Todas-as-Coisas” - que dará ao Homo Sapiens tamanha abrangência que o levará à ascensão de uma nova espécie humana, ora divinizada e há muito ansiada: o “Homo Deus”.
Só que sendo o ser humano finito, com limites naturais intrínsecos (desde logo com um cérebro humano estruturalmente finito, mesmo que com capacidade para imaginar o infinito), não se vislumbra que, algum dia, pelo que racionalmente sabemos, possa ter a veleidade de ser sacralizado como uma alegada divindade do “Homo Deus”, podendo ser vítima da sua própria e inegável mestria.
Nem se pode falar de um “Homo Deus” que desconhece o que há para além da morte, quando morremos, finda o universo e a infinitude do que nos transcende. São mínimos que se exigem a um Deus.
07.11.25
Joaquim M. M. Patrício