Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  
De 29 de janeiro a 4 de fevereiro de 2024


«Noites de Peste» de Orhan Pamuk é uma narrativa histórica que põe na ordem do dia temas atuais e que nos permitem refletir sobre o futuro.


UMA PESTE ANTIGA
Orhan Pamuk começou a escrever o seu último romance antes da pandemia, mas estava longe de esperar que o tema pudesse tornar-se tão premonitório. A narrativa de Noites de Peste (Presença, tradução de Marta Mendonça) refere-se aos acontecimentos que tiveram lugar na ilha imaginária de Mingheria no Mediterrâneo Oriental durante o surto de peste de 1901. A narradora que o romancista criou, cuja identidade descobriremos mais tarde, propôs-se fazer a introdução editorial relativamente a cento e treze cartas que a princesa Pakize, terceira filha do sultão Murad V, escreveu a sua irmã mais velha, a sultana Hatice, de 1901 a 1913. Temos, assim, a construção de um enredo, no qual a imaginação permite apresentar uma interpretação verosímil sobre a aceleração dos vários sinais de decomposição de um império, que coincidem com a ocorrência de uma epidemia de peste. Ninguém teria sido capaz de abordar o tema com tanta perspicácia e atenção à diversidade de pormenores como a princesa Pakize, que nos apresenta relatos espirituosos e cheios de vida. E o romancista idealiza um lugar fictício, bem definido, e assume a pele de uma narradora, que compreende não só a perspetiva feminina da filha do sultão, mas também a sua cultura, numa evolução surpreendente, reveladora de um domínio seguro da construção literária. A protagonista e “autora dessas cartas raramente saiu da ala residencial do Palácio do Governador e só descobriu o que estava a acontecer na cidade por meio das histórias contadas pelo seu marido médico!” Hoje podemos avaliar a dimensão e características desse confinamento, aqui traduzido nas quarentenas, que uma criatividade fértil permite dar à protagonista e ao seu marido, uma princesa e um cientista, um papel histórico literariamente muito rico. A narradora, que nos transmite a leitura dos acontecimentos da ilha de Mingheria, revela-nos antes do mais, que essa era a sua terra-natal e descobriremos depois que a sua ligação ao que nos transmite é muito mais intensa do que à primeira vista pode parecer. Se as outras pessoas viam a ilha como um lugar mítico e lendário, para ela “a princesa Pakize era uma heroína típica de um conto de fadas”. E assim Ohran Pamuk, fazendo jus ao Prémio Nobel que ganhou em 2006, demonstra inequivocamente como “a arte do romance reside na capacidade de contarmos as nossas próprias histórias como se pertencessem a outas pessoas e de contarmos as histórias alheias como se fossem as nossas”…


UMA METÁFORA
No início do século XX, um navio a vapor partia de Istambul em direção a sul, rumo a Alexandria, passando pela ilha de Rodes ao fim de quatro dias de viagem, e entre águas turbulentas, avistava, passado meio dia, as delicadas torres do castelo de Arkaz, que identificam Mingheria, descrita por Homero na Ilíada como “uma esmeralda feita de terra rosada”. O romance é marcado pela sequência da chegada à ilha da embarcação real Azizye, tendo a bordo a princesa Pakize, filha de um sultão deposto, acompanhada do marido e príncipe consorte doutor Nuri e de Bonkowski Paxá, químico real, que teria um fim dramático Cada qual vai desempenhar uma missão. A catástrofe que se aproxima não se limita, porém, à peste bubónica, avassaladora que grassa na ilha. O Império Otomano está em crise, e a independência do 29º Estado da Grande Porta é evidente sinal dessa tensão, que o romancista descreve com minúcia, não só nas diversas peripécias públicas, mas nos sentimentos expressos pelos protagonistas e em especial pela jovem princesa, perante o evoluir dos eventos.


Na sucessão de acontecimentos trágicos, a princesa é chamada a desempenhar um papel muito relevante e o jornal parisiense Le Figaro noticia a declaração de independência do pequeno estado otomano. Os nacionalistas de Mingheria escolhem como rainha a princesa, que assim se vê no centro dos acontecimentos, sem que o pudesse prever. A tensão entre a princesa e o seu marido médico, com funções importantes no combate à peste, não deixa de se fazer sentir. Mas com o surto de peste ativo e as comunicações com o novo governo cortadas, a ilha continuou sob o bloqueio dos navios britânicos, franceses e russos. A princesa alimenta sentimentos contraditórios, já que a instabilidade psicológica acompanha a angústia geral pela situação da ilha. Mas a nova rainha alimenta a ilusão de que pode estabelecer a coesão e a confiança entre o povo da ilha nesse momento de grande dificuldade. É uma nova realidade que se constrói. E, apesar de tudo, os sinais de abrandamento da peste fazem-se sentir, a ponto de no dia 16 de outubro de 1901 não ter havido uma única morte de peste na ilha.


“As andorinhas e os estorninhos que, segundo a princesa Pakize, sabiam que o surto tinha acabado esvoaçavam de um lado para o outro, com chilreios empolgados e cheios de vida. Havia imensas altercações entre as pessoas que regressavam aos seus lares e as pessoas que os tinham ocupado ilegalmente na sua ausência, ou entre comerciantes furiosos cujas lojas tinham sido pilhadas e os aldeãos que se tinham instalado na cidade perante a peste, e não havia polícias nem soldados no Regimento de Quarentena suficientes para sequer tentarem intervir. Contudo, nenhum desses problemas conseguia ofuscar o sentimento de euforia que devolvera a capacidade de sorrir às pessoas…”. Contudo, apesar do entusiasmo, Mingheria deveria pertencer aos mingherianos. Mazhar Effendi assumiria o poder. E os tempos de liberdade chegavam ao fim. Regressada a normalidade, a princesa, tornada momentaneamente rainha por razões fortuitas e o Dr. Nuri Bei, príncipe consorte, compreenderam como a peste se juntara a uma revolta política, de que eram meros instrumentos. Afinal, tinham chegado à ilha a caminho da China, numa missão especial determinada pelo sultão Abdul Hamid II, para onde agora prosseguiriam, com seis meses de atraso, fixando-se em Hong Kong, onde os ingleses chegaram a prometer-lhes “oferecer” o reino de Albânia, que não aceitaram por falta do domínio da língua albanesa.


Em outubro de 1912, a Itália reconheceria oficialmente a independência de Mingheria, mas tratou-se de uma espécie de semi-independência, pois a bandeira italiana passou a partilhar com a bandeira mingheriana a posição cimeira no mastro do Palácio do Governador. E descobre-se que a autora do estudo que serviu de base ao romance era a bisneta da princesa Pakize e do príncipe consorte. A história de Mingheria é simbolicamente a história do fim do império otomano e de uma espécie de utopia sobre o futuro de uma ilha perdida, pretensa candidata à União Europeia, numa lógica romanesca. A bandeira otomana foi substituída pela mingheriana de 1901 a 1912; de 1912 a 1943 houve a partilha com a italiana; de 1943 a 1945, ondeou a cruz suástica alemã; entre 1945 e 1947 o Union Jack britânico tomou o lugar em nome dos vencedores da Grande Guerra, regressando a bandeira mingheriana, como símbolo da vitória da literatura e do sonho… E ao longo do romance sente-se a explicação de muitas interrogações que enchem o nosso tempo de incerteza e de incompreensão.  


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

GOM.jpeg
   De 9 a 15 de novembro de 2020

 

Orhan Pamuk diz-nos que o património cultural se assemelha ao amor, enquanto atenção profunda e compaixão sentida.

Orhan Pamuk.jpg

 

«O MUSEU DA INOCÊNCIA»

“Enquanto passearem de vitrina em vitrina e de caixa em caixa, observando todos estes objetos”, compreenderão como o escritor pôde ficar a olhar para a protagonista do romance durante um jantar ao longo de oito anos - é Orhan Pamuk quem o diz em relação ao seu “O Museu da Inocência”. O amor é como o património cultural, uma atenção profunda e uma compaixão sentida. Na sequência do romance, Pamuk criou um museu em Istambul de pequenos e diversos objetos que se relaciona com o encontro entre os afetos e as lembranças da vida quotidiana. De facto, “O Museu da Inocência” tem a ver com um amor total, persistente, sereno, possível em cada momento e depois tornado impossível. Podemos dizer muito sobre o património cultural, mas ninguém o compreenderá se não o considerarmos uma realidade viva. E eis-nos perante a melhor metáfora sobre o património, a herança e a memória. A identidade não pode ser um quarto escuro, um lugar sem janelas para o mundo – como muitos pretendem. Porque o autocomprazimento esquece, afinal, que só nos compreendemos se entendermos que o outro é a outra metade de nós, como afirmou o Padre Matteo Ricci. Os nacionalismos esquecem, contudo, a essência do patriotismo, que é aberto e disponível, capaz de aceitar as diferenças e de as tornar fatores de enriquecimento pessoal e mútuo. Patriotismo significa afinal amar as raízes e dar-lhes asas para o futuro, a partir da compreensão do horizonte como limite. “Porque nada pode ser tão surpreendente como a vida. Exceto a escrita. Exceto a escrita, sim, evidentemente, exceto a escrita que é a única consolação”. O património como um museu ou como uma tradição, é um lugar de consolação, também porque é onde encontramos objetos ou referências antigas ou novas que amamos, mas sobretudo porque perdemos a noção de tempo. Falo de um tempo fugaz e imediato, porque ganhamos o conceito de duração. E desejamos também a procura melancólica do diálogo entre hábitos, afetos, tradições e culturas e isso leva-nos a considerar hoje o património cultural como uma permanente metamorfose.

 

CELEBRAR A MEMÓRIA

Devo dizer-vos que aquele tempo que passei em Estrasburgo com os meus colegas na feitura da Convenção de Faro de 2005 correspondeu a mais do que um exercício normativo, mas a uma verdadeira interrogação sobre o futuro, quando estava bem fresca a memória de uma guerra como a dos Balcãs. Parece um paradoxo tratar do património cultural e pensar no futuro, mas não há contradição alguma nisso, uma vez que é a interrogação sobre a eternidade que está em causa. São as marcas da humanidade com todas as suas diferenças que vamos encontrando. Como definir, afinal, o património como realidade comum e fator de paz? Foi já há quinze anos e parece que foi ontem – e em cada momento que reconhecemos a atualidade do documento (a Convenção Quadro) podemos perceber que as dificuldades que sentimos e tivemos foram positivas, uma vez que permitiram anteciparmos, prevenirmos, corrigirmos e superarmos a tentação da obra fechada. A Convenção designa-se como quadro porque lança um campo novo e é uma obra aberta que recusa, porém, o aleatório, visando reconhecer um elo que torne a humanidade e as humanidades fatores de emancipação e de justiça – distinguindo a “excelência autêntica das formas de parasitismo que hoje proliferam como cogumelos”, no dizer de George Steiner. Mas se falo de obra aberta, não esqueço a compreensão dos limites e a exigência permanente de uma aprendizagem que permita a troca de conhecimentos e a ligação entre exemplo e experiência… Sempre com os limites do horizonte presentes… Deparámo-nos, porém, com a desconfiança de alguns relativamente à ideia de comunidade, e daí a nossa preocupação de salvaguardar a definição do Património cultural como “conjunto de recursos herdados do passado que as pessoas identificam independentemente do regime de propriedade dos bens, como um reflexo e expressão dos seus valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução”. Nesta perspetiva, “inclui todos os aspetos do meio ambiente resultantes da interação entre as pessoas e os lugares através do tempo. Isto, enquanto “uma comunidade patrimonial é composta por pessoas que valorizam determinados aspetos do património cultural, que desejam, através de iniciativa pública, manter e transmitir a gerações futuras”. Partimos da singularidade e reconhecemos a liberdade como valor primeiro que nos leva à dignidade, ao bem comum, a fraternidade e à justiça.

 

CULTURA E PATRIMÓNIO

Estão na ordem do dia o património material e imaterial, a natureza, a paisagem, a tecnologia e o património digital, que apenas têm pleno sentido e fecunda virtualidade se se ligarem à criação contemporânea e se forem oportunidade de direitos e responsabilidades. O Ano Europeu do Património Cultural 2018 pôde pôr as escolas, as comunidades educativas em diálogo, sempre escolhendo o próximo e o mais distante, a nossa terra e a terra dos outros que nos contemplam. E agora, nesta tremenda pandemia, percebemos melhor o valor da cultura, que corresponde à compreensão do essencial, devendo preservar o cuidado do que é permanente. Quem há um ano pensaria chegarmos onde chegámos – com um choque entre o que julgávamos elementar e o que se tornou mais raro. E que podemos concluir? Que a liberdade exige que se revalorize a cultura e que aquilo que tem mais valor é exatamente essa arte que não tem preço, a começar na vida. A reconstrução económica obriga a que a cultura, como fator de tomada de consciência da liberdade, ponha a economia ao serviço das pessoas. O sentido de responsabilidade exige-nos que sejamos capazes de colocar um dique numa pandemia descontrolada. Isso obriga a verdade, vontade, resistência e recusa da facilidade. Temos de saber que o domínio de nós mesmos é a única maneira de recuperarmos a liberdade, protegendo-nos mutuamente – e esse é um desafio cultural. A maturidade significa sermos capazes de concentrar esforços e não de apostar na ilusão. Património cultural significa sermos nós, compreendendo os outros e fazendo da autonomia força e complementaridade. A cultura tornou-se mais importante como sinal de criatividade e apelo de justiça. E desejam uma ilustração nesta mágica Convenção de Faro do que falamos, quando falamos de património cultural como realidade viva? Veja-se como o “Guia de Portugal” de boa memória fala das nossas chaminés algarvias, símbolos da nossa especificidade: “canudos, caixinhas perfuradas, espigueiros, coruchéus, minaretes, zimbórios, agulheiros, chapéus de bico, turbantes, numa exuberância decorativa que revela a persistência do gosto e da tradição mouriscas e a intenção deliberada de fazer diferente, caprichando cada qual na fantasia mais pródiga mais imaginosamente sugestiva”… Aqui se encontram singularidade, memória e criação.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença