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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FELIZ PÁSCOA!

"A Ceia em Emaús" por Caravaggio, 1601. Atualmente na National Gallery, em Londres.  

 

   Muitas vezes me perguntam porque faço sempre votos de Feliz Páscoa e nunca digo Santa Páscoa. Pela simples razão de desejar a todos e cada um a feliz viagem a partir da porta que Jesus abriu para que, passando por ela, caminhemos à descoberta da boa nova que Cristo assim anuncia na narrativa de S. Lucas lida na missa crismal de 5ª feira santa: Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, ao abri-lo, encontrou o trecho em que estava escrito «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois, enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Disse-lhes então: «Cumpriu-se hoje mesmo este trecho da Escritura que acabais de ouvir».
 
   O caminho da Páscoa é a libertação. E toda a liberdade implica uma conversão interior, porque quem deixou de ser servo, jamais agirá por ser mandado, mas terá de agir por amor.
 
   No tríduo pascal, entre a celebração do drama da Paixão e a festa da Ressurreição, há um dia mais silencioso do que litúrgico, em que nos retiramos para uma comunhão da humanidade inteira com a morte e a vida, talvez o momento em que mais sentimos esse rasgão que é a condição humana na sua própria consciência de si. Aspiramos a saber tudo e nada afinal sabemos, estamos às escuras, e mesmo a fé só vê o invisível. No sábado santo, também os familiares e discípulos de Jesus, e todos aqueles que o seguiam e aguardavam, se sentem profundamente desamparados. Como quem empreendeu uma longa viagem e chega à beira de um rio torrencial, fundo e largo, sem ponte nem barca. Todos eles se lembram certamente do Cristo crucificado que grita: «Meu Deus, Deus meu, porque me abandonaste?». Chegam-nos então ao coração todos os que sofrem, mais do que tentação, uma experiência do mal, uma vertigem de negação, desespero, incompreensão.
 
   Tenho aqui comigo um exemplar velhinho (de 1950) da Attente de Dieu, pequena colectânea de cartas e outros textos de Simone Weil, que o padre J.-M. Perrin reuniu em 1949. Simone, judia francesa de educação agnóstica, morreu em 23 de Agosto de 1943, aos 34 anos, no sanatório de Ashford, sem ter sido baptizada, ainda que prosseguindo o seu caminho de busca da fé. Diz o padre Perrin, seu confidente e correspondente, que, através dos textos precedendo a sua morte nota-se que ela estaria ainda, em muitos pontos, longe da fé católica na sua plenitude, e que sentia perfeitamente que só a morte a transportaria a essa verdade de que se sabia ainda afastada. Traduzo seguidamente um texto de Simone Weil, que pertence a uma meditação sobre a oração ao Pai Nosso. O trecho respigado é um comentário aos versículos finais (e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal) daquela prece. Para melhor entendimento da inspiração de Simone transcrevo aqui a versão francesa desse passo, que ela traduziu diretamente do grego: Et nous ne jette pas dans l´épreuve, mais protège nous du mal. Termino com a tradução do comentário da filósofa judia francesa, que aqui deixo com votos muito amigos de santa e feliz viagem de Páscoa!
 
   A única provação do homem é ser abandonado a si mesmo ao contacto do mal. O nada do homem é então experimentalmente verificado. Apesar da alma ter recebido o pão sobrenatural no momento em que o pediu, a sua alegria mistura-se com receio, porque apenas para o presente o pôde pedir. O porvir permanece temível. Ela não tem o direito de pedir pão para amanhã, mas exprime o seu receio em forma de súplica. Assim acaba. A palavra "Pai" começou a oração, a palavra "mal" termina-a. É necessário ir da confiança ao receio. Só a confiança traz a força necessária a que o receio não seja causa de queda. Depois de ter contemplado o nome, o reino e a vontade de Deus [recitemos o Pai Nosso], depois de ter recebido o pão sobrenatural e ter sido purificada do mal, a alma está pronta para a verdadeira humildade que coroa todas as virtudes. A humildade consiste em saber que, neste mundo, a alma toda, e não somente o que chamamos eu, a alma na sua totalidade, i. e., também na parte sobrenatural da alma que é Deus presente nela, está sujeita ao tempo e às vicissitudes da mudança. É preciso aceitar absolutamente a possibilidade de que seja destruído tudo o que em nós mesmos é natural. Mas é simultaneamente necessário aceitar e rejeitar a possibilidade de que desapareça a parte sobrenatural da alma. Aceitá-lo como acontecimento que só em conformidade com a vontade de Deus se produziria. Rejeitá-lo como sendo algo horrível. É preciso ter medo disso. Mas que o medo seja como que o acabamento da confiança.
 
   Gosto, eu, de dizer que o percurso da Páscoa é um caminho de confiança.
 
 
   Camilo Martins de Oliveira
  

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim: 

 

   Começo esta carta por curta tradução de Matsuo Basho (1604-1654), poeta japonês que bem conheces:

 

               meses e dias são

               perpétuos passageiros

               e viajantes os anos

               que se encadeiam

 

   Somos prisioneiros do tempo. Dessa cadeia que nos amarra e arrasta, num qualquer movimento, seja roda circular ou progressão escatológica. Esta manhã, em visita à minha cerejeira do Japão, que continua a florir em tão lindos dias, murmurei outro haiku do Basho que, se bem me lembro, nos diz algo como "todos os anos, as flores que caem ao chão vão sustentar a cerejeira"... O que hoje penso ser apenas aparente - a contradição entre tempo escatológico e tempo circular - será quiçá tão só a diferença do modo da vivência que qualquer de nós possa ter da circunstância de um momento. Em si própria, a circunstância do tempo é a intemporalidade. O tempo mais não é do que um conceito, categoria mental por que construímos a duração. E esta mais não é do que o que vamos conseguindo apreender, isto é, o que vai preenchendo o nosso alcance. O tempo define-se pela nossa presente limitação. A realidade, como o universo, é o infinito, não tem tempo. Nem espaço. Como Deus. "Criador inefável ! "- assim, todas as manhãs, ao começar as aulas, no colégio, os meus colegas e eu nos dirigíamos, rezando, ao invisível, intocável, inapreensível, pedindo-lhe luz...

 

   Hoje, em Domingo de Ramos, ao ouvir outra prece "Deus, meu Deus, porque me abandonaste?", lembro-me dessa oração infantil, e pensossinto que todos fomos abandonados ao nosso tempo de cada um, talvez perdidos no infinito que ainda não alcançamos. Mas a Páscoa é um convite a transpor o tempo que nos circunscreve. Além da desolação de tão incompreensível desgraça e mortandade, à nossa volta, talvez a esperança nos dê a coragem de acreditar. O sustento da vida é a infinita renovação. Talvez por isso me lembre tanto do Bolero de Ravel, quando me ocorre o destino do tempo na intemporalidade... O final dessa peça musical é um inesperado apocalipse. Nenhum de nós conhece o dia nem a hora da revelação, cada um, todavia, saberá como entregar-se.

 

   Nesta Páscoa, chamo a nós, Princesa, esse princípio da filosofia africana ubuntu: Existo porque existimos. Evocando uma declaração de Nelson Mandela: Essa ideia tão africana de que só somos humanos graças à humanidade de outrem, contribuiu fortemente para o nosso desejo universal de um mundo melhor. Não sou "eu", sozinho, quem se pode descobrir- "me eu mesmo", mas somente "nós juntos" que poderemos aprender a conhecer e apreciar respeitosamente "os outros" e "nós mesmos". Aqui entre nós, pergunto, quantas vezes pensamossentimos que o convite pascal é um apelo à ressurreição de todos?

 

   Feliz Páscoa!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira