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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 5 a 11 de novembro de 2018.

 

«Portugal, a Europa e a Globalização» do Padre Manuel Antunes, com organização e introdução de José Eduardo Franco (Bertrand, 2018) constitui uma reunião de textos fundamentais que assinaram o centenário do autor.

 

 

EM NOME DA LIBERDADE DA CULTURA
João Bénard da Costa lembrava como o Padre Manuel Antunes acompanhou o grupo de católicos inconformistas da geração de “O Tempo e o Modo”, tendo visto na sua atitude “um sinal de Deus e de caminhos futuros ou de caminhos do futuro”. O jesuíta foi ainda um dos membros da comissão portuguesa do Congresso para a Liberdade da Cultura, que tanta importância teve na preparação da democracia portuguesa, estando “em combates muito difíceis nos anos 60 e 70, antes dessa Revolução que ele analisou, como mais ninguém, nesse livrinho sublime a que chamou Repensar Portugal””… Também Luís Lindley Cintra disse, de modo muito claro: “Leiam Repensar Portugal… é um livro importantíssimo, quase diria é único pela reflexão e pelo espírito que o anima”. O texto «Que Projeto-Esperança para Portugal?» integrou essa luminosa obra, que lida à distância, ganha uma renovada atualidade e pertinência. E, segundo o autor, era a democracia que estava em causa, era a sua concretização que deveria ser objeto de reflexão e ação: “a democracia é preciso merecê-la. Não pode constituir dádiva generosa de um dia trazida nas espingardas não disparadas e nos cravos não manchados de sangue do Movimento das Forças Armadas. A democracia é necessário traduzi-la, pelo esforço de todos – mas sobretudo daqueles a quem assiste maior responsabilidade política, social, económica e cultural – a democracia é necessário traduzi-la nos factos e nas instituições que objetivem e encarnem a verdade, a justiça, a fraternidade e a liberdade de uma comunidade verdadeiramente humana”. A atualidade desta reflexão do Padre Manuel Antunes põe-nos perante o tema atualíssimo da democracia – quando espreitam, um pouco por toda a parte, as tentações imediatistas e populistas, sob a falsa invocação do mero formalismo do voto. A legitimidade do voto é fundamental, mas tem de ser completada pela mediação permanente nas instituições democráticas. Os cidadãos tem ser representados e de participar, tem de se sentir legitimados. Não podia o nosso autor antecipar o mundo das redes sociais, ou das notícias falsas – mas conhecia muito bem os instrumentos subtilmente perigosos dos “reflexos condicionados” ou das “lavagens ao cérebro”. O “Grande Irmão” de George Orwell aparece onde menos se espera, “O Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley esconde as maiores perversidades anti-humanas. «Que Projeto-Esperança para Portugal?» constitui um conjunto de alertas que se projetam no nosso tempo – e que permitem encontrar respostas atuais, sem diabolizar os meios novos de que dispomos. O que importa é não confundir meios e fins – de modo a colocar a dignidade humana no centro da vida democrática.

 

JUSTIÇA, SOLIDARIEDADE E LIBERDADE
Uma “revolução moral” preocupava o pedagogo da democracia. A justiça, a solidariedade, a liberdade, a honestidade devem orientar a vida das instituições: de modo realista, “renovando as instituições existentes – e não apenas mudando-lhes os nomes – e criando outras que se imponham”. Partindo do país real e dos seus dualismos e limitações, há sempre que encontrar alternativas – compreendendo a democracia como “um conceito axiológico e dinâmico, isto é, de ordem moral mas sujeito às vicissitudes das situações concretas em que é preciso venha a encarnar e a objetivar-se em leis, regulamentos e costumes em determinado espaço-tempo; que é um conceito de gradual ascensão histórica, sujeito, por conseguinte, ao acontecedoiro dos «dois passos para diante e um para trás»; que é um conceito que se define, na prática soberana, pela participação, cada vez mais larga e profunda, cada vez mais extensa e intensa, cada vez mais consciente e estruturada, nos bens e nos serviços, nos direitos e nos deveres, nas prestações e nas obrigações de todos para com a comunidade e da comunidade para com todos; que é um conceito operativo de um sistema que vive em função do meio em que historicamente se implanta…”. A liberdade política, a justiça social e a gestão da prosperidade geral têm de se ligar, numa lógica humanizadora. Nesse sentido, o Padre M. Antunes definia uma agenda, que pressupunha não encarar o Estado como novo Leviatã, produtor, planificador, omnipresente e invasor da esfera privada, pelo que se tornaria imperativo: desburocratizar, desideologizar, desclentelizar e descentralizar. Interiorizar a democracia obrigaria, assim, a assegurar a democracia do Estado e a democracia da sociedade civil. E ao Estado competiria revelar-se como consciência crítica da Nação, “na sua realidade de ser coletivo e histórico”. Não pode haver democracia sem haver consciência cívica, sem haver instituições representativas e mediadoras – só desse modo poderemos precaver-nos perante os perigos de manipulações e de condicionamentos ilegítimos. Num tempo em que a complexidade é a marca indelével do progresso humano, não podemos cair na tentação de resumir tudo a opções simplificadoras ou a caricaturas da realidade. Veja-se o que acontece quando a via referendária se sobrepõe à ponderação rigorosa das consequências de decisões difíceis – que não podem ficar prisioneiras da tirania do número, da indiferença ou da demagogia… É preciso tempo e reflexão. Numa palavra, a instituição a fortalecer neste projeto-esperança é a própria democracia – “condição necessária, embora não suficiente. De facto não é qualquer carta constitucional ‘outorgada’ e muito menos ainda ditatorial ou violentamente imposta que nos fará ‘escolher’ o caminho realmente nosso”. Não pode haver expressão mais atual. Daí a demarcação em relação a uma qualquer tutela. As Forças Armadas, por exemplo, deveriam ter o papel o mais discreto possível e o mais técnico possível. E a democracia política deveria ser completada pela democracia social – devendo unir-se liberdade e justiça, ou pelo menos uma maior liberdade e uma maior justiça.

 

A DIMENSÃO CULTURAL
E a dimensão cultural? “Sem crítica, a cultura instala-se no uniforme sem inspiração, no escolasticismo sem vontade de essencial, no dogmatismo sem nervo de verdade, e, por isso mesmo, em constante apelo à força do ‘braço secular’. Sem crítica, a querela instala-se por toda a parte: na rua e no palácio, na academia e na caserna, na cidade e no campo, durante a vida e post mortem”. E se a instituição a fortalecer é a democracia, o ideal a realizar é o bem comum. E lendo este texto, e alargando-o a uma dimensão mais vasta do que o âmbito nacional, estamos perante um documento crucial para os dias que correm. O Padre Manuel Antunes compreendia muito bem o género humano e a vida das sociedades – e daí a pertinência e intemporalidade deste texto. E em que consiste o bem comum? “Na existência de estruturas e instituições que em determinada fase histórica sirvam ao uso, à dignidade e à dignificação da comunidade; na vontade de solidariedade que une todos os membros dessa comunidade, de forma a que todos participem, na devida proporção, desse objetivo fundamental”. A encíclica “Pacem in Terris” de João XXIII e a constituição “Gaudium et Spes” do Concílio Vaticano II são claras nesse sentido. Importará cortar o passo à alternância entre anarquia e tirania – “uma comunidade pode ser feliz sem viver propriamente numa abundância material de lés-a-lés”. Em suma, num tempo em que tanto se fala de austeridade, importa insistir na noção de sobriedade, que previne o desperdício e a corrupção, a injustiça e a exclusão, a desigualdade e a fragmentação social – com ensinava o Padre Lebret, cuja obra o Padre M. Antunes bem conhecia e que tanto influenciou a encíclica “Populorum Progressio” do Papa Paulo VI. À democracia e ao bem comum, haverá ainda de juntar um destino a cumprir – a universalidade. Que sentido teria a eminente dignidade humana se não fosse um valor universal? E lembramos o nosso humanismo universalista que nos leva a Santo António de Lisboa ou a Pedro Julião, o Papa João XXI – e lembra a relação incindível entre diversidade e unidade, entre diferença e identidade. “Cada homem é uma exceção” – dizia Kierkegaard – também cada povo! E não fugimos à regra. A maior necessidade sentida neste “repensar de Portugal”, neste “projeto-esperança” é assim uma renascença – ou seja, “vontade de retomar um certo fio de outros dados e dados que outros quebraram”. E é de cultura que devemos falar, de abertura de horizontes, de Europa e de mundo da língua portuguesa. “Um país na verdade culto e com cerca de um milénio de história vivida atrás de si – e que história -, só demitindo-se por completo e por completo desistindo de existir como um animal esgotado que se deita para morrer é que deixará de contar no concerto dos povos. Antes não».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 29 de outubro a 4 de novembro de 2018.

 

Passam no dia 3 de novembro cem anos sobre o nascimento do Padre Manuel Antunes (1918-1985) na Sertã.

 

 

UM MESTRE INIGUALÁVEL
Os alunos e os discípulos do Padre Manuel Antunes lembram-se bem do auditório da Faculdade de Letras de Lisboa, completamente cheio, plenamente disponível para o ouvir, como paradigma da sabedoria pura. E isso era admirável, numa escola em que o seu exemplo era uma exceção (graças ao convite de Vitorino Nemésio). A figura frágil do professor contrastava com a segurança no desfiar dos conhecimentos, dos tempos, das épocas, dos autores e das suas obras… Maria de Lourdes Belchior lembrou “este homem de muitos saberes e rigorosos dizeres, que muito viu porque pensou e muito sentiu porque muito sofreu”. A cultura clássica era sobretudo oportunidade para tomar contacto com a essência do conhecimento. A propósito de T. S. Eliot, referia-se a um humanismo nascido “do seio da vida e da cultura dos tempos modernos em crise”, por contraponto à degenerescência em arrivismo e mera expressão quantitativa. E era essa interrogação sobre as raízes e sobre a essência dos problemas que atraía aquela multidão de ouvintes interessados. E assim se entendia como uma atitude humanista pressupunha a compreensão da memória do tempo e uma tomada de consciência da complexidade. E essa memória obrigava a ligar a tradição, enquanto transmissão e herança, com a contemporaneidade que se preocupa com as bases de um futuro de justiça e verdade. Em lugar de uma tradição repetitiva e esclerosada e de uma tradição objeto da curiosidade erudita, tornar-se-ia essencial encarar a tradição como atualização do outrora no agora, “que é diálogo dos vivos com os grandes mortos vivos, que é prolongamento da sua experiencia e que é consciência do seu saber”. Daí a paixão pelos clássicos (“os grandes mortos vivos”), que para Eliot implicaria o culto da maturidade, de uma língua, de uma civilização, de um espírito, implicando, além da perfeição do estilo comum, “a história e a consciência da história, de uma história mais ampla que a simples ‘história paroquial’, na expressão de Toynbee”. E assim o mestre jesuíta recordava os belíssimos versos do poeta anglo-americano, em “Four Quartets”: “O tempo passado e o tempo futuro, / Aquilo que poderia ter sido e aquilo que foi / Tendem para um único fim, que está sempre presente”. Afinal, “ser consciente é não estar no tempo”. Como? O professor fazia compreendê-lo, procurando não se deixar iludir pelo curtíssimo prazo. E assim se entende o apego do Padre M. Antunes à História e ao espírito, que Henri de Lubac, o celebrado teólogo, encontrava na grande mensagem de Orígenes.

 

ABRIR CAMINHOS NOVOS
Werner Jaeger, autor de Paideia, era referencial. Longe de qualquer repetição, o que o Padre Manuel Antunes fazia era abrir caminhos para a leitura dos clássicos, não apenas os antigos, mas os de todas as épocas, aqueles que se foram singularizando na maturidade do saber, do exemplo, da experiência e da aprendizagem. Não esquecemos o que nos disse sobre o estar especialmente grato ao grande clássico tedesco: “por, através dos seus livros, lhe ter indicado um fio de Ariana no vasto labirinto da cultura grega – a areté como ideal de perfeição humana -, por lhe ter feito ver um Aristóteles mais real e menos abstrato, por lhe ter apontado a direção das fontes do neoplatonismo e por, mais recentemente, o ter orientado no sentido do humanismo cristão dos primeiros séculos…”. E quando tantos estudantes se quotizavam para partilhar e usufruir a leitura de obras que ultrapassavam as suas posses ou quando procuravam o Padre Manuel Antunes na casa da Rua Maestro António Taborda, rodeado de livros de uma biblioteca preciosa, mas nunca distanciado do mundo e da vida, como se ela fosse uma muralha, o que encontravam era abertura, disponibilidade e conhecimento, que lhes permitia melhor descobrir a humanidade. A cultura viva como tradição e diálogo, como especialização e interdisciplinaridade era a marca que distinguia o seu magistério. De facto, importa cuidar do conhecimento e do método. Muito conhecimento se perde na informação e muita sabedoria se perde no conhecimento, na expressão de T. S. Eliot. Sem tradição haveria o risco de infantilismo e do primarismo. Sem diálogo haveria a tentação da sofística labiríntica e obsessiva, do “hermetismo sem janelas, no mutismo sem possibilidades de comunicação”. Sem especialização cair-se-ia nas “generalidades inócuas e nas afirmações sem fundamento”. Sem interdisciplinaridade haveria o risco de as árvores impedirem a visão da floresta.

 

SEMPRE PEDAGOGO
Como pedagogo que sempre foi – na cátedra universitária ou nas páginas da revista “Brotéria”, com dezenas de pseudónimos – o Padre Manuel Antunes admirava o modo de cultivar o pensamento e a crítica pelos educadores. Admirou, por isso, António Sérgio “um pedagogo que se propôs ensinar a pensar em voz alta, a olhar para os problemas e as coisas com idealidade e lisura, com olhos despreconcebidos e com amor à verdade, que era a sua versão do espinosiano amor intelectualis Dei, por ele com tanto gosto e tanta frequência citado”. D. Luísa Sérgio, mulher do ensaísta, foi o elo que os ligou. Da Travessa do Moinho de Vento à porta da Rua da Lapa, onde o Padre Manuel Antunes celebrava, gerou-se uma amizade. “Entre ele, o ‘agnóstico’ e o sacerdote católico havia muito naturalmente, divergência. Mas a relação foi sempre irénica, nunca polémica: franca, nunca reservada; respeitadora, nunca impositiva”… O jesuíta admirava a “nobre e lucidíssima figura”, até porque “era o contrário do erudito que se afunda em fichas e morre em citações tanto quanto se situava nos antípodas do isolamento ebúrneo”. E quais os seus amores? O amor das ideias, “na sua pureza diáfana e intemporal” e “o amor dessas pedras vivas do edifício social, que são os homens em carne e osso”… Assim, animava-o uma “consciência vigilante, de sentinela nas fronteiras do espírito”… “Por isso, já quase no crepúsculo da vida (revela o jesuíta), vi-o exultar de alegria e júbilo quando João XXIII publicou a Pacem in Terris. Era uma linguagem que ele compreendia e era um conteúdo que ele aceitava”… Sophia de Mello Breyner disse melhor que ninguém: “Havia uma coisa extraordinária no padre Antunes: uma grande ligação entre a cultura e a vida. Eu penso que isso lhe era dado, em grande parte, pelo facto de ser padre. Ele nunca se revelou um homem escolar. Qualquer homem com o grau de erudição e inteligência, a capacidade intelectual que ele tinha, corria sempre o perigo de esterilizar humanamente num pensamento abstrato e muito teórico”. E João Bénard da Costa lembra como o sacerdote acompanhou o grupo de católicos inconformistas (António Alçada Baptista e os amigos) nos tempos do “Pacto”, tendo visto na sua atitude “um sinal de Deus e de caminhos futuros ou de caminhos do futuro, tendo ainda sido um dos membros da comissão portuguesa do Congresso para a Liberdade da Cultura, estando “em combates muito difíceis nos anos 60 e 70, antes dessa Revolução que ele analisou, como mais ninguém, nesse livrinho sublime a que chamou Repensar Portugal””…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 10 a 16 de abril de 2017.

 

«Occasionalia – Homens e Ideias de Ontem e de Hoje» da autoria do Padre Manuel Antunes, S.J. (Multinova, 1980) é uma reunião de textos sobre figuras e ideias marcantes do século XX, onde a personalidade muito rica do académico e grande mestre da cultura se manifesta em toda a sua plenitude.


 

A FORÇA DA CULTURA
A cultura para o nosso autor é, entre muitas outras coisas, tradição, diálogo, especialização e interdisciplinaridade. Sem tradição, há o risco de se cair no infantilismo e no primarismo; sem diálogo, pode cair-se «na sofística mais labiríntica e/ou obsessiva, no hermetismo sem janelas, no mutismo sem possibilidades de comunicação»; sem especialização pode ficar-se em generalidades inócuas ou em afirmações sem fundamento; e sem interdisciplinaridade falta a perspetiva de conjunto e as árvores impedem a visão da floresta… A sociedade contemporânea tem de compreender que a capacidade criadora depende do conhecimento, da visão de conjunto e do entendimento da complexidade. O Padre Manuel Antunes foi um dos professores da Faculdade de Letras de Lisboa mais respeitado, pelo conhecimento, pela sabedoria, pela abertura de espírito e sobretudo pela extraordinária capacidade de tornar próxima a cultura clássica. Nas Memórias, há pouco dadas à estampa, de José Medeiros Ferreira está bem expressa a grande admiração que o intelectual devotava ao grande mestre. No Centro Nacional de Cultura recordamos também a sua influência e o seu magistério, determinantes na compreensão das mudanças necessárias na sociedade portuguesa no sentido da democracia, do pluralismo, em nome da dignidade da pessoa humana. A sua ligação a Sophia de Mello Breyner, aos poetas e escritores que se situavam na esfera de influência de «O Tempo e o Modo» foi muito significativa. O cidadão e o professor de Cultura Clássica complementavam-se, assim, naturalmente – em nome de um humanismo centrado na ideia de aperfeiçoamento constante da pessoa humana e da centralidade da consciência histórica. Como Werner Jaeger, que tanto admirava, pode dizer-se que Manuel Antunes também habitou três pátrias – considerando, além da própria, a Antiguidade e o Cristianismo. E o elo que as une é a filologia, a história e a filosofia. Para o português, talvez mais a literatura. E é assim que lembra a afirmação do mestre alemão: «Todo o humanismo antigo é orientado para a imitação de um modelo. O cristianismo tinha aceitado desde o começo este pensamento, mas referia-o a Cristo. (…) O processo de formação do homem tornou-se o processo de formação de Cristo nos cristãos»… Por ocasião da morte de Gabriel Marcel, em 1973, o pensador afirmava que o filósofo foi dos que melhor soube compreender o perigo da substituição progressiva e total do sagrado pelo profano, bem como das técnicas manipuladoras ou de lavagem aos cérebros de milhões e milhões de seres humanos. E o autor salienta como doía a Marcel a vontade reducionista que via «nos princípios, nos métodos e nas estruturas das ideologias do seu tempo». Hoje, sentimos os efeitos dessa tendência. Eis o que está em causa: o vazio ético e espiritual gera a tentação do fanatismo – em lugar de favorecer o respeito mútuo, o pluralismo e a salvaguarda da liberdade de consciência. Notícias inquietantes enchem os periódicos.

 

ENTRE A ARBITRARIEDADE E A INTOLERÂNCIA
A indiferença gera a arbitrariedade, a simplificação abre caminho à intolerância. E lembra o jesuíta a emergência não do espírito de verdade, mas do mero espírito de verificação - «espírito não do primado dos fins mas da soberania absoluta dos meios; espírito não de contemplação mas de ação e manipulação das pessoas e das coisas; espírito principalmente hábil, organizativo e tecnocrático que a racionalização conduz e a eficiência inspira». Não que a experiência e o sentido crítico devam ser desvalorizados, mas urge que não se caia na tentação do abstrato. «A abstração, isolando e desvinculando seres e realidades, ergue, vai erguendo, sistemas fechados, que surgindo com a pretensão de encerrarem a totalidade, a mutilam e a deformam»… E qual o resultado? A demonstração de que a indiferença e o fundamentalismo são faces de uma mesma moeda… «O fanatismo, a despersonalização e a massificação, eis os resultados». Gabriel Marcel falava, por isso, dos homens contra o humano. E assim «os extremos do racionalismo e do irracionalismo tocam-se na mesma abolição das diferenças, na mesma promoção do uniforme e do homogéneo, na mesma negação do humano». A desordem que oprime e a ordem que reprime são expressões da mesma violência. E o que presenciamos hoje nesta tremenda escalada do ressentimento e da irracionalidade representa, no fundo, que «violência da paixão e violência da razão são as duas faces da mesma realidade histórica do ideologismo». E nessa palavra se resume a intolerância dos que julgam possuir o exclusivo da verdade e da razão. O Padre Manuel Antunes recorda, a propósito, o seu encontro com Gabriel Marcel: «estou a vê-lo na sua infinita curiosidade por tudo quanto é humano, nobremente humano, de preferência, e se revela através de uma superior forma de cultura: poema, quadro, drama, romance, música, pensamento filosófico e reflexão teológica, principalmente». Como «homo viator» buscava a unidade e a coerência, na «disponibilidade de serviço em prol do humano, na sua busca permanente de mais justiça, de mais verdade e de maior amor entre os homens».

 

DIVERSOS REGISTOS E SENTIDO CRÍTICO
Os textos que compõem «Occasionalia» homenageiam figuras como, e damos apenas alguns exemplos: Blondel, Guardini, Maritain, Eliot, Graham Greene, Waugh, mas também Tomás More, Pascal e Claudel, Raul Brandão, António Sérgio, José Régio e Vitorino Nemésio; analisam Kafka, Malraux, Gorki, Steinbeck, Gide, Chateaubriand, Toynbee ou Bloch, Heidegger e Marcuse; interrogam Croce, Hegel, Marx, Lenine e Mao. Estamos, afinal, perante a extraordinariamente fecunda produção publicada nas páginas da «Brotéria», onde o autor se desmultiplicou em pseudónimos, reveladores da sua grande versatilidade e de uma singular capacidade para compreender o mundo moderno. E podemos, a propósito do que o autor diz de Pascal, apontar uma síntese, aplicável ao nosso cicerone: «ele continua vivo (…).Partindo da meditação sobre a condição humana, a sua reflexão projetou-se além, muito além de esquemas e de formalismos, de sistemas e de conteúdos que costumam limitar o pensamento de tantos filósofos e cientistas dos tempos modernos. A nós, nesta hora incerta e conturbada, neste momento crucial da história humana – e nossa, principalmente – compete recolher a lição».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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