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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FRANCISCO SOBRE O DIÁLOGO, AS MULHERES, OS CATÓLICOS ALEMÃES...

  


Entre 3 e 6 deste mês de Novembro, o Papa Francisco esteve no Bahrain, no Fórum a favor do Diálogo: Oriente e Ocidente pela coexistência humana. No regresso, no avião, deu, como é hábito, uma conferência de imprensa. É sempre enriquecedor dar atenção a essas conferências, até porque há temáticas múltiplas da actualidade e uma espontaneidade acrescentada. Seguem-se alguns temas.


1. Referindo o diálogo, acentuou que é uma palavra-chave: "diálogo, diálogo". Já tinha sublinhado, aliás, que os animais é que não dialogam, os humanos têm de resolver os seus problemas através do diálogo. Condição para dialogar é que se tem de partir da identidade própria, ter identidade afirmada, não difusa. Quando alguém não tem a sua própria identidade ou ela não é firme, o diálogo torna-se difícil, até impossível. A sua viagem foi uma viagem de encontro, porque o objectivo era estar em diálogo inter-religioso com o islão e ecuménico com os ortodoxos. Ora, tanto o Grande Imã de Al-Azhar, no Cairo, Ahmed al-Tayeb, como o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, "têm uma grande identidade" e as suas ideias vão no sentido de procurar a unidade, respeitando as diferenças, evidentemente, em ordem ao entendimento e ao trabalho conjunto para o bem e a paz da Humanidade. Também se chamou a atenção para a Criação e a sua protecção: "isto é uma preocupação de todos, muçulmanos, cristãos, todos". Os crentes das várias religiões "devemos caminhar juntos como crentes, como amigos, como irmãos."


2. Na sua viagem, lembrou outro jornalista, "falou sobre os direitos fundamentais, incluindo os direitos das mulheres, a sua dignidade, o direito a ter o seu lugar na esfera social pública"...


Resposta de Francisco. "Temos de dizer a verdade. A luta pelos direitos da mulher é uma luta contínua. Há lugares onde a mulher tem igualdade com o homem, mas noutros não. Pergunto: porque é que uma mulher tem de lutar tanto para manter os seus direitos?" E falou na ferida da mutilação genital feminina: "isto é terrível". Como é que a humanidade não acaba com isto, que é "um crime, um acto criminoso! As mulheres, segundo dois comentários que ouvi, são material "descartável" - isso é mau, claro - ou são "espécies protegidas". A igualdade entre homens e mulheres ainda não é universal, e existem estes incidentes: as mulheres são de segunda classe ou menos. Temos de continuar a lutar. Deus criou-os iguais, homens e mulheres. Todos os direitos das mulheres provêm desta igualdade. E uma sociedade que não é capaz de colocar a mulher no seu lugar não avança." As mulheres têm uma capacidade de gerir as coisas de outra maneira, que "não é inferior, mas complementar". E uma constatação: "Vi que no Vaticano sempre que entra uma mulher para fazer um trabalho as coisas melhoram: por exemplo, o vice-governador do Vaticano é uma mulher e as coisas mudaram para bem." Só um exemplo.


Igualdade de direitos, mas também igualdade de oportunidades; caso contrário, empobrecemo-nos. Há ainda muito caminho para percorrer. Porque "existe o machismo. Venho de um povo machista. Lutamos não só pelos direitos, mas porque precisamos que as mulheres nos ajudem a mudar."


3. Quanto à Ucrânia. "O Vaticano está permanentemente atento". Ele foi à embaixada russsa falar com o embaixador, "um humanista", está disposto a ir a Moscovo para falar com Putin, falou duas vezes ao telefone com o Presidente Zelensky... O que lhe chama a atenção é "a crueldade, que não é do povo russo... Tenho uma grande estima pelo povo russo, pelo humanismo russo. Basta pensar em Dostoievsky, que até hoje nos inspira... Sinto um grande afecto pelo povo russo e igualmente pelo povo ucraniano".


E atirou, desolado: "Num século, três guerras mundiais! A de 1914-1918, a de 1939-1945, e esta! Esta é uma guerra mundial, porque é certo que, quando os impérios de um lado e do outro se debilitam, precisam de fazer uma guerra para sentir-se fortes e também para vender armas. Hoje creio que a maior calamidade do mundo é a indústria armamentista. Por favor! Disseram-me, não sei se está certo ou não, que, se não se fabricassem armas durante um ano, acabar-se-ia com a fome no mundo." E contou que sempre que vai a cemitérios e encontra o túmulo de um jovem morto numa guerra, chora.


4. Sobre os abusos de menores, reconheceu que houve secretismo e encobrimento. Agora, é a "tolerância zero". "Nisto hoje a Igreja está firme, pois, mesmo que só tivesse havido um caso, seria trágico."


5. Mesmo a terminar, Francisco mostrou alguma preocupação com o "caminho sinodal" da Igreja na Alemanha: "Aos católicos alemães digo: a Alemanha tem uma grande e bela Igreja evangélica; não quero outra, que não será (nunca) tão boa como aquela; quero-a católica, em fraternidade com a evangélica."


A Conferência Episcopal Alemã esteve no Vaticano e o caminho sinodal foi um dos temas centrais nos encontros com o Papa e a Cúria. Os bispos alemães apelam à "unidade" da Igreja. Mas o Presidente da Conferência, G. Bätzing, também foi lembrando que Roma foi e é "ponto de referência para a fé católica e para toda a Igreja", mas "não é a origem e a meta do caminho que tomamos na fé"; "a origem e a meta desse caminho é Jesus Cristo".


Assim, pessoalmente, pergunto, por exemplo: o que impede acabar com o celibato obrigatório ou a ordenação de mulheres para presidirem à celebração da Eucaristia? Onde esteve afinal a igualdade de direitos?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 de novembro de 2022

RELIGIÕES: "O DIREITO À ESPERANÇA, À BELEZA, AO CÉU". 2

  


O Papa Francisco esteve no Cazaquistão nos dias 13-15 de Setembro, para participar no VII Congresso de Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais. Coube-lhe o discurso de encerramento. Na continuidade da crónica do dia 22 de Outubro, esta quer ser uma síntese desse discurso.


Uma constatação: Aí está “o peso da insensata loucura da guerra; há demasiado ódio e divisões, demasiada falta de diálogo e de compreensão do outro; isto, num mundo globalizado, resulta ainda mais escandaloso e perigoso. Não podemos continuar conectados e separados, vinculados e divididos por tanta desigualdade.”  Evidentemente, “o terrorismo de matriz pseudo- religiosa, o extremismo, o radicalismo, o nacionalismo alimentado de sacralidade, fomentam ainda hoje temores e preocupações em relação à religião”, mas “eles não têm nenhuma relação com o autêntico espírito religioso e têm de ser rejeitados e condenados sem condições nem ‘mas’. Para lá do mais, porque Deus criou todas as pessoas iguais, independentemente da sua pertença religiosa, étnica ou social, e, por isso, nós (líderes das religiões) estivemos de acordo em afirmar que o respeito mútuo e a compreensão devem ser considerados essenciais e imprescindíveis no ensino religioso.”


Tema essencial é o da relação entre religião e política. Um vínculo são entre política e Transcendência, uma coexistência sã entre os dois âmbitos implicam “distinção, não confusão nem separação”. Impõe-se um “não” à confusão, para salvaguardar o bem do ser humano, que “precisa, como a águia, de um céu livre para voar, um espaço livre e aberto ao infinito que não esteja limitado pelo poder terreno”. Por outro lado, a Transcendência “não deve ceder à tentação de transformar-se em poder”, para que “o ‘além’ divino” não fique “apanhado pelo hoje terreno”. Por fim, um “não” ao corte entre política e transcendência, pois “as mais altas aspirações humanas não podem ser excluídas da vida pública e relegadas para o simples âmbito privado.” Está aqui presente toda a questão da liberdade religiosa: “quem desejar exprimir de modo legítimo o seu próprio credo que seja amparado sempre e em todo o lugar… Sobretudo é necessário comprometer-se para que a liberdade religiosa não seja um conceito abstracto, mas um direito concreto. Defendamos para todos o direito à religião, à esperança, à beleza, ao céu.” A laicidade, que exige que nenhum Estado tenha uma religião oficial, é essencial para garantir a liberdade de todos; por outro lado, a laicidade não pode ser confundida com laicismo, que pretende que a religião seja excluída do espaço público.


Pensando em todos os seres humanos, é necessário reconhecer que “as grandes sabedorias e religiões estão chamadas a dar testemunho da existência de um património espiritual e moral comum, que se funda em dois pilares: a transcendência e a fraternidade. A transcedência, o ‘além’, a adoração.  É bonito que a cada dia milhões e milhões de homens e mulheres, de diferentes idades, culturas e condições sociais, se reúnam para rezar em inúmeros lugares de culto. Essa é a força oculta que faz com que o mundo avance. E, depois, a fraternidade, o outro, a proximidade, pois não pode professar uma verdadeira adesão ao Criador quem não ama as suas criaturas.” Este é o espírito que impregna a Declaração do Congresso, e Francisco quis concluir destacando três palavras.


A primeira é um grito angustiado e exprime a meta do caminho: a paz, peace! “A paz é urgente, porque qualquer conflito militar ou foco de tensão e enfrentamenteo hoje só pode ter um nefasto ‘efeito dominó’ e compromete seriamente o sistema de relações internacionais. Mas a paz não é a mera ausência da guerra nem se reduz só ao equilíbrio das forças adversárias nem surge de uma hegemonia despótica; com toda a exactidão e propriedade, chama-se obra da justiça”. A paz “brota da fraternidade, cresce através da luta contra a injustiça e a desigualdade, constrói-se estendendo a mão aos outros.  Por isso, a Declaração exorta os líderes mundiais a acabar com os conflitos e o derramento de sangue em toda a parte. Pedimo-vos, em nome de Deus e pelo bem da Humanidade: comprometam-se a favor da paz, não a favor das armas. Só servindo a paz é que o vosso nome será grande na História.”


A segunda palavra é a favor das mulheres. “Se falta a paz é porque falta o cuidado, a ternura, a capacidade de gerar vida. Por isso, é preciso buscá-la implicando mais as mulheres. Porque a mulher cuida e dá vida ao mundo, é caminho para a paz. Por isso, apoiamos a necessidade de proteger a sua dignidade e melhorar o seu status social como membros da família e da sociedade com os mesmos direitos. Deve-se-lhes confiar papéis e responsabilidades maiores. Quantas opções que levam à morte se evitariam, se as mulheres estivessem no centro das decisões. Comprometamo-nos para que sejam mais respeitadas, reconhecidas e incluídas.”


A terceira palavra: os jovens. “Eles são os mensageiros da paz e da unidade de hoje e do amanhã. Eles são os que, mais que outros, invocam a paz e o respeito pela casa comum da criação.” No enquadramento de sonhos e esperanças da juventude, diz Francisco: “Assim também, religiosidades rígidas e sufocantes não pertencem ao futuro, mas ao passado”. E: “Nas mãos dos jovens ponhamos oportunidades de educação, não armas de destruição.” O futuro constrói-se não esquecendo “a transcendência e a fraternidade”. “Avancemos, caminhando juntos na Terra como filhos do Céu!”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 de novembro de 2022

RELIGIÕES: "O DIREITO À ESPERANÇA, À BELEZA, AO CÉU". 1

  


1. O Papa Francisco esteve no Cazaquistão nos dias 13-15 de Setembro, para participar no VII Congresso de Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais. Coube-lhe o discurso de encerramento, no qual se socorre de várias citações da Declaração final do Congresso. O que aí fica pretende ser uma síntese dos momentos considerados essenciais dos dois textos, sendo o de hoje dedicado à Declaração. Mas começaria por sublinhar a importância decisiva destes encontros sobre as religiões, não só porque, como sublinhou o teólogo Hans Küng, “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos (atitude ética) global, sem um ethos mundial”, mas também para que as religiões reflictam, se convertam à sua essência, ao que verdadeiramente devem ser, e assim evitem barbaridades em nome de Deus. Por exemplo, no passado dia 25 de Setembro, o Patriarca Kirill, o representante máximo da Igreja ortodoxa na Rússia, no sermão de Domingo, afirmou que o sacrifício “no cumprimento do dever militar” na guerra contra a Ucrânia “lava todos os pecados”. E o que fez a Inquisição senão assar dissidentes na fogueira, apenas porque, com razão, divergiam da Igreja oficial? E a tragédia da pedofilia?  E as barbaridades em nome do islão?... Nas religiões, há o melhor e o pior…


2. A Declaração conjunta tem como ponto de partida “o facto imutável de que o Todo Poderoso criou todas as pessoas iguais, independentemente da sua filiação racial, religiosa, étnica ou de outro tipo ou da sua condição social, e, assim, a tolerância, o respeito e a compreensão mútua são a base de apoio de todo o ensino religioso.” Mais: “o pluralismo e as diferenças de religião, cor da pele, género, raça e língua são expressões da sabedoria da vontade de Deus na criação.” Por isso, a Declaração acentua que as religiões só podem ser factores de paz: “Cremos que o extremismo, o radicalismo, o terrorismo e todas as outras formas de violência e guerra,  sejam  quais forem os seus objectivos, nada têm que ver com a verdadeira religião e devem ser rejeitados do modo mais enérgico.”


Também por isso, insiste encarecidamente com os governos nacionais e as organizações internacionais “para que prestem uma assistência integral a todos os grupos religiosos e comunidades étnicas que foram e são objecto de violação de direitos e de violência por parte de extremistas e terroristas.” Apela igualmente aos líderes mundiais para que “abandonem toda a retórica agressiva e destrutiva que conduz à desestabilização do mundo e para que cessem os conflitos e o derramento de sangue em todos os quadrantes do nosso mundo.”


Em ordem à resolução dos conflitos, pede a colaboração dos líderes religiosos e dos políticos: “Apelamos aos líderes religiosos e aos políticos de diferentes partes do mundo para que desenvolvam incansavelmente o diálogo em nome da amizade, da solidariedade e da coexistência pacífica”, defendemos “a participação activa desses líderes das religiões mundiais e tradicionais e das figuras políticas proeminentes na resolução de conflitos em ordem a conseguir a estabilidade a longo prazo.” Há “a necessdiade urgente de que os líderes espirituais e políticos trabalhem juntos para fazer frente aos desafios do nosso mundo.”


Não há dúvida nenhuma de que a religião pode contribuir para uma maior humanização, uma humanização integral, plena. Com uma condição: ser bem entendida. Reconhece-se que “o Congresso de Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais desempenha um papel importante na realização de esforços conjuntos para fortalecer o diálogo em nome da paz e da cooperação, bem como dos vlaores espirituais e morais.” Por isso, a Declaração adverte: “Esforçamo-nos por desenvolver um diálogo com os meios de comunicação social e outras instituições da sociedade para esclarecerem a importância dos valores religiosos para promover a alfabetização religiosa, a tolerância inter-religiosa e a paz civil”, continuando: “Constatamos que as pessoas e as sociedades que desestimam a importância dos valores espirituais e as directrizes morais são susceptíveis de perder a sua humanidade e criatividade.” Por isso, ao mesmo tempo que acolhem “com satisfação os progressos realizados nos campos da ciência, da tecnologia, da medicina, da indústria e outros âmbitos”, chamam a atenção para a necessidade da sua “harmonização com os valores espirituais, sociais e humanos.” Fundamental é “aumentar o papel da educação e da formação religiosa para reforçar a coexistência respeitosa das religiões e as culturas e desterrar os perigosos preconceitos pseudoreligiosos.” “Pedimos que se apoiem todas as iniciattivas práticas para levar a cabo o diálogo inter-religioso e interconfessional, em ordem a construir a justiça social e a solidariedade entre os povos. Solidarizamo-nos com os esforços das Nações Unidas e todas as outras instituições e organizações internacionais, governamentais e regionais, para promover o diálogo  entre civilizações e religiões, estados e nações.”


A família e sua importância fundamental não foram esquecidas, os direitos da mulher também não. “Prestamos especial atenção à importância de fortalecer a instiuição da família. Defendemos a protecção da dignidade e dos direitos das mulheres, a melhoria do seu status social como membros iguais da família e da sociedade.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 22 de outubro de 2022

FRANCISCO OLHANDO PARA O FUTURO

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Com as tremendas responsabilidades que pesam sobre ele, o Papa Francisco olha para o futuro: o seu futuro, o futuro da Igreja, o futuro do mundo…

 

1. Qual o futuro de Francisco? Ele sabe que tem 85 anos e que anda em cadeira de rodas e que há rumores de renúncia no ar, tão desejada por alguns sectores ultraconservadores que anseiam por ver-se livres dele. De qualquer forma, mesmo sentindo-se um pouco diminuído, não está nos seus planos a renúncia para breve. Disse-o recentemente a duas jornalistas mexicanas, María Antonieta Collins e Valentina Alazraki: “Não tenho nenhuma intenção de renunciar. Para já, não.”

Repetiu a mesma coisa na conferência de imprensa no regresso da recente “peregrinação penitencial” ao Canadá. Confessou que uma eventual renúncia “não é uma catástrofe: pode-se  mudar de Papa, isso não é um problema”. De qualquer forma, acrescentou, “não pensei nessa possibilidade. Isso não quer dizer, porém, que não venha a pensar nisso num futuro próximo.” Evidentemente, não poderá “continuar com o mesmo ritmo de viagens de antes. Com a minha idade e com esta limitação, devo poupar-me um pouco para servir a Igreja ou até pensar na possibilidade de me afastar”. De qualquer forma, declarou: “continuarei a fazer viagens e a estar perto das pessoas, pois julgo que a proximidade é um modo de servir.” Deu como quase certa a sua viagem ao Kazaquistão em Setembro — “é uma viagem tranquila, é um congresso” — e reiterou a sua intenção de ir à Ucrânia e realizar a visita à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul, prevista para os princípios de Julho e adiada por causa da recuperação do joelho.

 

2. Entretanto, a ida ao Kazaquistão, de 13 a 15 de Setembro próximo, foi confirmada pelo Vaticano. Para participar no VII Congresso de Líderes de Religiões Mundiais e Tradicionais.

Precisamente aí poderia dar-se o tão desejado encontro com o Patriarca de Moscovo, Cirilo, que, desgraçadamente, continua a abençoar a invasão e a guerra da Ucrânia. Francisco, pelo contrário, com mais de 70 intervenções a favor da paz, tem manifestado disponibilidade para visitar tanto Kiev como Moscovo, colocando a diplomacia da Santa Sé ao serviço de uma mediação em ordem a uma paz justa e duradoura. Como acaba de declarar o Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, à revista italiana de geopolítica “Limes”, “o Papa gostaria de ir a Kiev para levar consolação e esperança às pessoas afectadas pela guerra”, anunciando igualmente a sua disposição  para ir a Moscovo, “desde que haja condições que sejam realmente úteis para a paz.” Afirmou: “A diplomacia da Santa Sé não está vinculada a um Estado mas a uma realidade de direito internacional que não tem interesses políticos, económicos, militares. Põe-se ao serviço do bispo de Roma, que é o pastor da Igreja universal. A Igreja é pacifista porque crê e luta pela paz”. Parolin reconheceu que o diálogo entre Roma e Moscovo é “um diálogo difícil, que avança com pequenos passos e também experimenta altos e baixos”, mas “não está interrompido”.  

Francisco vive sobremaneira preocupado com o perigo nuclear. Por isso, não se cansa de declarar como doutrina oficial da Igreja que “o uso e a posse de armas atómicas são imorais”.

 

3. Francisco deixa uma marca indelével na Igreja. Ele não quer uma Igreja “autorreferencial”, ela tem de estar aberta ao mundo, “em saída”. A liturgia tem de ser viva, não um ritual seco. Contra uma Igreja piramidal, centrada na hierarquia, afirma uma Igreja sinodal, na qual todos têm voz, sem tabus. Certamente a Igreja tem de ser fiel à tradição, mas uma tradição viva, contra o imobilismo... E, aqui, voltando à citada conferência de imprensa, fica um exemplo de abertura. Uma das perguntas incidiu sobre os contraceptivos. E Francisco aproveitou para reflectir sobre o dogma e a moral em vias de desenvolvimento, citando S. Vicente de Lérins, no século X: “a verdadeira doutrina para avançar e desenvolver-se não pode ficar parada, isto é, consolida-se com o tempo, mas sempre em contínuo progresso”. “Uma Igreja que não desenvolve o seu pensamento em sentido eclesial é uma Igreja que recua, e este é o problema hoje de tantos que se dizem tradicionais”, impedindo que a Igreja avance, apenas “porque sempre se fez assim.” São “tradicionalistas”, “retrógrados”. Deste modo, Francisco mostrou a abertura actual à contracepção.

Ainda sobre a renúncia. Francisco é jesuíta, e há um ponto essencial para um jesuíta: o discernimento. Ele irá, portanto, segundo as circunstâncias, discernindo, para tomar a decisão certa. Como ficou dito, irá ao Cazaquistão em Setembro. Em 28 de Agosto, visitará Aquila, cidade italiana onde se encontra o túmulo de Celestino V, o último Papa, antes de Bento XVI, a renunciar. Mas, logo no dia seguinte, os cardeais todos do mundo estão convocados para uma reunião. Francisco quer aconselhar-se sobre a reforma da Cúria e, sobretudo, o processo sinodal.

É minha convicção que ele, excepto no caso de total incapacidade, não renunciará enquanto Bento XVI viver. E tudo fará para poder estar presente, em Outubro de 2023, no Sínodo sobre a sinodalidade. 

 

4. Como ele próprio disse, quando vir que “não posso continuar ou prejudico ou sou um estorvo”, espera “ajuda” para tomar a decisão de retirar-se. E, retirado, não será “Papa emérito”, mas “bispo emérito de Roma”. E que fará? “Gostaria de atender confissões e ir visitar os doentes”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 13 de agosto de 2022

FRANCISCO NO CANADÁ EM "PEREGRINAÇÃO DE PENITÊNCIA"

  


1. Não tenho dúvidas em afirmar que Jesus trouxe ao mundo por palavras e obras a melhor notícia que a Humanidade ouviu e viu. Por isso se chama Evangelho, que vem do grego (notícia boa e felicitante): Deus é bom, Pai/Mãe de todos. Jesus morreu para dar testemunho disso: da Verdade e do Amor.


Esta mensagem deu frutos através dos séculos. Cito Antonio Piñero, agnóstico, grande especialista em cristianismo primitivo. Depois de declarar que Jesus afirmou a igualdade de todos enquanto filhos de Deus, escreve que, a partir deste fermento, “se esperava que mais tarde chegasse a igualdade social. Se compararmos o cristianismo com todas as outras religiões do mundo, vemos que essa igualdade substancial de todos é o que tornou possível que com o tempo se chegasse ao Renascimento, à Revolução Francesa, ao Iluminismo e aos direitos humanos. Isto quer dizer: o Evangelho guarda, em potência, a semente dessa igualdade, que não podia ser realidade na sociedade do século I. O cristianismo está, à maneira de fermento, por trás de todos os movimentos igualitários e feministas que houve na História, embora agora não o vejamos claramente, porque o cristianismo evoluiu para humanismo. Mas esse humanismo não se vê em religiões que não sejam cristãs. Ou porventura o budismo, por si, chegou ao Iluminismo? O xintoísmo? O islão? Os poucos movimentos feministas que há nas religiões estão inspirados na cultura ocidental. E a cultura ocidental tem como sustento a cultura cristã. Embora se trate de uma cultura cristã descrida, desclericalizada e agnóstica, culturalmente cristã.” O mesmo dizem muitos outros filósofos e historiadores, incluindo agnósticos e ateus. Não se pode duvidar de que o cristianismo foi e é fermento de bondade, de alegria, de fraternidade, de tomada de consciênicia da dignidade infinita de ser ser humano, de esperança e sentido, Sentido último.


Mas há aquela máxima: “corruptio optimi pessima”, que, infelizmente, também se aplica à Igreja: “a corrupção do melhor é o pior”. Isso acontece quando se esquece o serviço e se procura o poder enquanto domínio. É que o poder é o maior afrodisíaco, disse-o quem sabe: Henry Kissinger. Aí está o clericalismo, a peste da Igreja, como não se cansa de repetir o Papa Francisco. E, aqui, pode ajudar a bela síntese do teólogo José I. González Faus: é fundamental saber que a palavra grega kleros não significa clero, mas sorte, parte de uma herança. É assim que a usa o Novo Testamento referida a todos os cristãos. Quando a Igreja cresceu, precisou de estruturar-se; indo acriticamente ao Antigo Testamento, aplicou aos servidores ecclesiásticos a palavra sacerdote, que o Novo Testamento nunca lhes tinha aplicado, porque é título de grande dignidade que só pode dar-se a Cristo. Deste modo, o ministério ecclesiástico sacralizou-se, revestiu-se de grande dignidade e aplicou-se-lhe em exclusivo a palavra kleros, como se fossem os únicos participantes dessa herança divina. “O clericalismo designa assim uma situação de dignidade e de superioridade, merecedora de todos os privilégios. Boa parte dos dramas de abusos parece ter derivado daqui.”


Então, é preciso percorrer o círculo para voltar à fonte. E aí estão, por exemplo, os que o filósofo Paul Ricoeur chamou “os mestres da suspeita”:  Karl Marx, Nietzsche e Freud. Foi Nietzsche que se apercebeu do perigo de transformar o Evangelho em Disangelho, uma notícia desgraçada, contra o Evangelho, contra a vida.


2. O Papa Francisco estará de 24 a 30 de julho, no Canadá. Numa “peregrinação penitencial”, como ele próprio disse, pois o objectivo, ao percorrer 19.246 quilómetros, é manifestar “indignação e vergonha” e pedir perdão e reconciliação aos povos indígenas: Primeiras Nações, Métis (mestiços), Inuit, pelos horrores sofridos em 139 internatos, as chamadas “escolas residenciais”, ao longo de 150 anos (meados do século XIX até ao final do século XX). Por essas escolas, financiadas pelo governo canadiano, mas geridas pelas Igrejas cristãs, portanto, também por ordens religiosas católicas, passaram 150.000  crianças, que eram tiradas às famílias e  “educadas” e “instruídas” com duras disciplinas e dentro de um plano sistemático de autêntico “genocídio cultural” (não podiam falar a sua língua nem viver segundo a sua cultura e costumes), como mostra o relatório da Comissão para a Verdade e a Reconciliação, constituída pelo Governo e com a participação de indígenas, escutando mais de 7.000 testemunhos de sobreviventes, que relataram os maus tratos e abusos de vária ordem. Umas 6.000 crianças desapareceram e o seu destino poderá ter sido o de valas comuns.


O primeiro-ministro do Canadá, J. Trudeau, falou da situação como “dolorosa lembrança” de um “capítulo vergonhoso da história do nosso país”, e pediu que a Igreja Católica “assuma as susa responsabilidades”. É isso que Francisco quer fazer, correspondendo também à exigência que a citada Comissão fez em 2015: que fosse pessoalmente pedir desculpa.


Observação
. O Papa Francisco é uma bênção para a Igreja e para o mundo. Um dos seus combates mais duros é contra o clericalismo e, para isso, voltou ao Concílio Vaticano II, que é preciso aprofundar, pois muitos dos seus adversários e inimigos “só se lembram do Concílio de Trento”. Em Outubro próximo, celebra-se o sexagésimo, e não o quadragésimo aniversário da sua abertura, como, numa desatenção imperdoável, escrevi no Sábado passado. Peço imensa desculpa.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 23 de julho de 2022

O PAPA FRANCISCO VAI RESIGNAR?


A notícia percorreu mundo e nenhum dos grandes meios de comunicação social internacionais terá ignorado a notícia sobre a possibilidade de o Papa Francisco resignar em breve, abrindo caminho à sua sucessão à frente da Igreja Católica. Isso concretamente a partir do momento em que foi visto numa cadeira de rodas e em que se viu obrigado a adiar a sua viagem nos princípios de Julho à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul.


Para os rumores sobre a renúncia contribuíram sobretudo três factores.


Em primeiro lugar, sabe-se que Francisco está doente, sofre concretamente de dores no joelho da perna direita, que o impedem de estar em pé e o obrigam a andar em cadeira de rodas e de bengala. Ora, ele próprio já dissera a propósito de uma operação ao intestino: “Sempre que o Papa está doente corre brisa ou furacão de conclave”; de qualquer forma, acrescentou, “não lhe tinha passado então pela cabeça renunciar.” De qualquer modo, já em 2014 afirmou que “Bento XVI não é caso único”, o que faz pensar que não exclui a resignação no caso de se sentir impossibilitado de exercer o cargo.


Outro fundamento para os rumores assenta em que durante as conversas de preparação para o conclave no qual Francisco foi eleito ficou claro que uma das tarefas essenciais para o novo Papa era uma reforma funda da Cúria Romana. Ora, essa reforma, preparada durante nove anos de ponficado, é o tema da Constituição Apostólica “Praedicate Evangelium (Pregai O Evangelho), que entrou em vigor no passado dia 5 deste mês de Junho. Levada à prática, poderá constituir uma  autêntica revolução na Igreja, já que deixa de ser uma Igreja auto-centrada, auto-referencial, para ser uma Igreja em saída, aberta ao mundo, uma Igreja que deixa de ser piramidal para ser uma Igreja sinodal, em que verdadeiramente todos participam, segundo o princípio: “o que é de todos deve ser decidido por todos”.


Por outro lado, Francisco convocou um consistório para a nomeação de 21 novos cardeais, 16 dos quais possíveis eleitores. Isto significa que, no caso de um conclave, a maior parte dos cardeais eleitores já são da responsabilidade de Francisco. Significativamente, este consistório para o qual estão convocados todos os cardeais realizar-se-á nos dias 27 e 28 de Agosto, também com a intenção de estudo e aplicação da nova Constituição. Para acentuar os rumores, Francisco anunciou que no dia 28 de Agosto participará na celebração do “Perdão”  em Áquila, no centro da Itália. Que tem de especial este anúncio? Essa celebração foi instituída por Celestino V, e é em Áquila que se encontra o seu túmulo. Ora, Celestino V é o Papa que, passados pouco mais de quatro meses de pontificado, renunciou ao cargo em 1294, retirando-se para uma vida contemplativa. Mais: por coincidência ou não, Bento XVI, pouco tempo antes de anunciar a sua resignação, também foi visitar o túmulo de Celestino V.


Entretanto, Francisco, apesar de ter adiado a viagem a África e ter cancelado, nesta passada Quinta-Feira, a Missa e a Procissão do Corpo de Deus, continua a trabalhar. As viagens anunciadas continuam na agenda, nomeadamente ao Canadá no final de Julho, onde quer pedir perdão a grupos indígenas maltratados pela Igreja Católica, e ao Cazaquistão em Setembro, também para poder, pensando na tragédia da Ucrânia, encontrar-se com Cirilo, Patriarca Ortodoxo de Moscovo... Por outro lado, dadas as resistências na Cúria — dizia recentemente Óscar R. Maradiaga, o cardeal que presidiu ao grupo de cardeais que prepararam a Constituição “Pregai o Evangelho”: “É preocupante: perante a reforma que a Constituição quer há uma greve de braços caídos na Cúria”  — Francisco, que já uma vez disse que é “mais difícil reformar a Cúria do que limpar a esfinge do Egipto com uma escova de dentes”, quererá discutir com o colégio cardinalício a necessidade da implementação da reforma. E certamente terá ainda a intenção de presidir ao Sínodo sobre a sinodalidade em Outubro de 2023.  


Depois, há convergência de opiniões, referindo que dificilmente Francisco renunciará enquanto Bento XVI viver. E pode-se pensar no Presidente Roosevelt que numa cadeira de rodas governou durante a Segunda Guerra Mundial. De qualquer modo, Francisco não está a pensar renunciar em breve. Os testemunhos de figuras muito próximas vão nesse sentido. Assim, Maradiaga veio esclarecer que “os rumores de renúncia são telenovela barata”, não passando de “notícias falsas”. Também Guillermo Marcó, ex-porta-voz de Francisco enquanto cardeal, declarou depois de um encontro recente: Francisco continua “com muito bom ânimo, superatento e conduzindo com energia e coragem a Igreja; para lá do problema no joelho, que está em pleno processo de superação, o Papa encontra-se perfeitamente bem e não está de modo nenhum a pensar em renunciar”.


Seja como for, mais tarde ou mais cedo, a renúncia virá. E é agora a ocasião propícia para pensar na situação em que fica um ex-Papa, não só quanto ao seu estatuto mas até do ponto de vista da residência, pois, por mais liberdade que o ex-bispo de Roma queira, não é fácil, pensando na responsabilidade em termos da sua segurança, encontrar um Estado disposto a acolhê-lo.


É evidente que o Papa Francisco foi e é uma bênção para a Igreja e para o mundo e a História não vai esquecê-lo. A pergunta é: quem se segue a partir de um conclave próximo?  Pessoalmente, gostaria que fosse o cardeal Luis Tagle, que vem da Ásia e segue as pegadas de Francisco.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 18 de junho de 2022

CONTRA A GUERRA. A CORAGEM DE CONSTRUIR A PAZ

  

 

A quem é que, perante as imagens de horror desta guerra na Ucrânia ditada por um megalómeno humilhado e insensato — mortes incontáveis, a tragédia de valas comuns, milhões de deslocados e refugiados, mulheres, crianças, idosos em total desamparo, na falta de tudo, quando nada é poupado à destruição: maternidades, escolas, hospitais —, não vieram já as lágrimas aos olhos?  


O Papa Francisco não se cansa de clamar contra a guerra e apelar à paz: “Em nome de Deus peço-vos : parem este massacre!” “Um massacre sem sentido” e de “uma crueldade inumana e blasfema”. Por ocasião da celebração da Páscoa ortodoxa, no fim de semana passado, ele, a ONU, o Conselho Mundial das Igrejas apelaram a um cessar-fogo, também para abrir a possibilidade de corredores humanitários, mas não foram ouvidos. Quero sublinhar que, atendendo às celebrações pascais, o arcebispo de Munique, cardeal Reinhard Marx, foi particularmente duro na saudação pascal. Chamou “perversos” aos líderes religiosos que, como o Patriarca de Moscovo, Kirill, apoiam a guerra na Ucrânia, lamentou que ao longo da História “os cristãos tenham usado a violência sob o sinal da cruz”, algo que se repete hoje “na guerra actual, com cristãos baptizados a matar outros cristãos e receebendo o apoio de líderes das suas Igrejas”. A Igreja “deve erguer-se como um lugar de não violência, e a cruz como sinal da violência sofrida e superada.” Chamou “ditador” a Putin: “a Páscoa é a rebelião de Deus contra todas as forças da violência e da morte. A vitória da vida sobre a morte não pode ser detida, nem sequer com as armas de Putin e outros ditadores”.


Francisco confessa numa entrevista a “La Nación” que “está disposto a fazer tudo para deter a guerra — o Vaticano nunca descansa” — e acaba de publicar um livro precisamente com o título Contra a guerra. A coragem de construir a paz. Ficam aí algumas ideias fundamentais, a partir de Religión Digital.


Começa por lembrar como há um ano, na sua peregrinação ao martirizado Iraque, pôde constatar directamente o desastre causado pela guerra, a violência fratricida, o terrorismo, viu os escombros dos edifícios e as feridas dos corações. Também viu sementes de esperança. E “nunca teria imaginado que um ano depois rebentaria um conflito na Europa.”


Referi aqui muitas vezes que desde o início do seu pontificado Francisco falou da Terceira Guerra Mundial em curso, mas “aos pedaços, por partes”. O que é facto é que essas partes se foram tornando cada vez maiores e ligando-se entre si. Neste momento há muitas guerras espalhadas pelo mundo, que causam “imensa dor, vítimas inocentes, especialmente crianças”, milhões de pessoas obrigadas a deixar a sua terra, as suas casas, as suas cidades destruídas. Mas essas guerras esquecemo-las, pois andamos distraídos e elas passam-se longe. “Até que, de repente, a guerra rebentou perto de nós. A Ucrânia foi atacada e invadida. E, no conflito, os mais atingidos são, desgraçadamente, muitos civis inocentes, muitas mulheres, muitas crianças e muitos idosos”, obrigados a viver em bunkers para proteger-se das bombas ou com as famílias separadas, pois, enquanto as mães e as avós atravessam fronteiras à procura de refúgio, os maridos, pais e avós ficam para combater.


Perante as imagens terríveis de horror que nos chegam todos os dias, “não podemos fazer outra coisa que não seja gritar: ‘Parem!’ A guerra não é a solução, a guerra é uma loucura, a guerra é um monstro, a guerra é um cancro que se autoalimenta devorando tudo. Mais: a guerra é um sacrilégio, que causa estragos no mais precioso que há sobre a terra: a vida humana, a inocência dos mais pequenos, a beleza da criação.” “Sim, a guerra é um sacrilégio”.


Pela enésima vez estamos perante a barbárie, porque perdemos a memória: esquecemos a História, esquecemos o que nos disseram os nossos avós, os nossos pais. “Se tivéssemos memória, não gastaríamos dezenas, centenas de milhares de milhões para nos equiparmos com armamentos cada vez mais sofisticados, para aumentar o mercado e o tráfico de armas que acabam por matar crianças, mulheres, anciãos. 1981 mil milhões de dólares por ano, segundo os cálculos  de um importante centro de investigação de Estocolmo.”


Se tivéssemos memória, “saberíamos que a guerra, antes de chegar à frente de combate, tem de ser parada nos corações. É necessário o diálogo, a negociação, a escuta, a habilidade e criatividade diplomática, uma política com visão de futuro capaz de construir um novo sistema de convivência que já não se baseie nas armas, no poder das armas, na dissuasão.” Toda a guerra “representa não só uma derrota da política, mas também uma vergonhosa rendição perante as forças do mal.”


Acrescenta: em 2019, em Hiroshima, “cidade símbolo da Segunda Guerra Mundial, cujos habitantes foram massacrados, com os de Nagasaki, pelas bombas nucleares, reafirmei que o uso da energia atómica com fins bélicos é, hoje mais do que nunca, um crime. O uso da energia atómica com fins bélicos é imoral, como o é a posse de armas atómicas. Quem podia imaginar que menos de três anos depois, o espectro da guerra nuclear pairaria sobre a Europa? Assim, passo a passo, avançamos para a catástrofe. Pouco a pouco, o mundo corre o risco de transformar-se no cenário de uma única Terceira Guerra Mundial. Avançamos para ela como se fosse inelutável. Pelo contrário, devemos, todos juntos, repetir, com força: ‘Não, não é inelutável’. A guerra não é inelutável!”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 30 de abril de 2022

FRANCISCO VAI A KIEV?

  


1. Depois de uma invasão injustificável e uma uma guerra cruel, com milhões de deslocados e refugiados, crianças traumatizadas para sempre, prédios arrasados, o que fica para trás, após a retirada russa de perto de Kiev, nomeadamente em Butcha, é de uma atrocidade de pesadelo: corpos de civis com as mãos atadas e assassinados, valas com cadáveres ao abandono, mulheres violadas, num cenário de tragédia indescritível. Não há palavras. E alguém beneficia com estas atrocidades? Aqui, veio-me à mente um livrinho famoso. O seu autor: Carlo M. Cipolla (1922-2000), historiador da economia O seu título: As leis fundamentais da estupidez humana, de que fica aí uma resumo.


2. Para estabelecer as leis fundamentais da estupidez, é preciso, primeiro, definir quem é o estúpido. Quando temos um indivíduo que faz algo que nos causa uma perda, mas lhe traz um ganho a ele, estamos a lidar com um bandido. Quando alguém age de tal maneira que todos os interessados são beneficiados, temos uma pessoa inteligente. Ora, o nosso quotidiano está cheio de incidentes que nos fazem "perder dinheiro, e/ou tempo, e/ou energia, e/ou o nosso apetite, a nossa alegria e a nossa saúde", por causa de uma criatura ridícula que "nada tem a ganhar e que realmente nada ganha em causar-nos embaraços, dificuldades e mal". Ninguém percebe por que razão alguém procede assim. "Na verdade, não há explicação ou, melhor, há só uma explicação: o indivíduo em questão é estúpido."


Cá está a primeira lei: "Cada um subestima sempre inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos que existem no mundo." Já a Bíblia constata: o seu número é infinito.


Os estúpidos estão em todos os grupos, pois "a probabilidade de tal indivíduo ser estúpido é independente de todas as outras características desse indivíduo": segunda lei.


A terceira lei corresponde à própria definição do estúpido: "É estúpido aquele que desencadeia uma perda para outro indivíduo ou para um grupo de outros indivíduos, embora não tire ele mesmo nenhum benefício e eventualmente até inflija perdas a si próprio." A maioria dos estúpidos persevera na sua vontade de causar males e perdas aos outros, sem tirar daí nenhum proveito. Mas há aqueles que não só não tiram ganho como, desse modo, se prejudicam a si próprios: são atingidos pela "super-estupidez".


É desastroso associar-se aos estúpidos. A quarta lei diz: "Os não estúpidos subestimam sempre o poder destruidor dos estúpidos. Em concreto, os não estúpidos esquecem incessantemente que em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as circunstâncias tratar com e/ou associar-se com gente estúpida se revela inevitavelmente um erro custoso." A situação é perigosa e temível, porque quem é racional e razoável tem dificuldade em imaginar e compreender comportamentos irracionais como os do estúpido. Schiller escreveu: "Contra a estupidez mesmo os deuses lutam em vão."


Como consequência, temos a quinta lei: "O indivíduo estúpido é o tipo de indivíduo mais perigoso." O corolário desta lei é: "O indivíduo estúpido é mais perigoso do que o bandido." De facto, se a sociedade fosse constituída por bandidos, apenas estagnaria: a economia limitar-se-ia a enormes transferências de riquezas e de bem-estar a favor dos que assim agem, mas de tal modo que, se todos os membros da sociedade agissem dessa maneira, a sociedade no seu conjunto e os indivíduos encontrar-se-iam numa "situação perfeitamente estável, excluindo toda a mudança". Porém, quando entram em jogo os estúpidos, tudo muda: uma vez que causam perdas aos outros, sem ganhos pessoais, "a sociedade no seu conjunto empobrece".


A capacidade devastadora do estúpido está ligada, evidentemente, à posição de poder que ocupa. "Entre os burocratas, os generais, os políticos e os chefes de Estado, é fácil encontrar exemplos impressionantes de indivíduos fundamentalmente estúpidos, cuja capacidade de prejudicar é ou tornou-se muito mais temível devido à posição de poder que ocupam ou ocupavam. E também não se deve esquecer os altos dignitários da Igreja." É assim o mundo.


3. Ao ler Igreja, lembrei-me do Papa Francisco, esse cristão que é uma bênção para a Igreja e para o mundo. Ele, atravessado pela angústia dos migrantes e da guerra “sacrílega”, como a caracteriza, da Ucrânia, visitou no fim de semana passado a ilha de Malta, manifestando, mais uma vez, a sua predilecção pelas periferias — “é preciso ir à periferia para ver o mundo como é”, diz.


Já na ida de Roma para Malta, tinha manifestado a sua disponibilidade para ir a Kiev: “Uma visita a Kiev está em cima da mesa”. Já de regresso, na habitual conferência de imprensa, agradeceu as notícias sobre os horrores de Butcha, que desconhecia, e declarou: “A guerra é cruel, desumana. Estou disposto a fazer tudo o que possa ser feito. A Santa Sé está a fazer a sua parte diplomática: o Cardeal Parolin, Monsenhor Gallagher estão a fazer tudo. Por razões de prudência, não se pode publicar tudo, mas estamos a levar o nosso trabalho até ao limite. Entre as várias possibilidades, está a viagem. Digo com sinceridade: há sempre disponibilidade para partir. Está em cima da mesa. É uma das propostas, mas não sei se é possível e se será conveniente. Tudo está no ar. Há algum tempo que também pensei num encontro com o Patriarca Ortodoxo de Moscovo. Estamos a trabalhar no sentido de concretizá-lo.”


Desgraçadamente, digo eu, o Patriarca Cirilo está ao lado de Putin.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 9 de abril de 2022 

FRANCISCO: HÁ NOVE ANOS PAPA

  

 

1. Fez no passado dia 13 nove anos que Francisco foi eleito Papa. Apresentou-se de modo simples na varanda de São Pedro à multidão, sem esplendor, apenas com a batina branca e uns sapatos toscos. E logo na saudação à multidão ficou claro ao que vinha: “Agora iniciamos este caminho, Bispo e povo..., um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade. Espero que este caminho de Igreja seja frutuoso para a evangelização. E agora quero dar a bênção, mas antes... peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim. Façamos em silêncio esta oração vossa por mim...”


Escolheu o nome de Francisco, o que nenhum Papa anterior tinha feito. Em ligação com São Francisco de Assis, o da simplicidade, da fraternidade universal, da paz, do vínculo com a Terra, do que tinha ouvido Cristo dizer-lhe: “Repara a minha Igreja em ruina...” Não foi viver para o Palácio Apostólico mas para a Casa de Santa Marta, utiliza um carro modesto, e é cristão — eu disse-o na televisão, logo quando foi eleito, causando imenso espanto e até perplexidade; mas, pensando bem, não é essa a causa de ele se ter imposto ao mundo como uma voz político-moral global, talvez a mais influente? Como cristão, bate-se pela paz, é simples, está com todos, a começar por aqueles e aquelas com quem ninguém está, é profundamente humano, o Deus que anuncia é o do Evangelho: o seu nome é Misericórdia...


2. Nas reuniões prévias ao conclave no qual foi eleito, tomou mais consciência da crise que a Igreja está a atravessar e de como era urgente uma reforma, para acabar com o longo inverno no qual mergulhara... Evidentemente, a reforma tem de ir ao interior e começar por cada católico/católica, com destaque para os padres, cónegos, bispos, cardeais, perguntando cada um, cada uma a si mesmo, a si mesma: Estou na Igreja porquê? Apenas por tradição? Por rotina? Ou porque a mensagem do Evangelho me interessa de modo vital? Ela é boa para mim? Para mim? Só com a resposta positiva a esta pergunta se poderá avançar para a reforma da Igreja enquanto instituição. Mas, por outro lado, também é certo que há  reversibilidade: a reforma da instituição ajudará na resposta pessoal de cada um, de cada uma.


Assim, acompanhado por um pequeno grupo de cardeais, ao longo destes nove anos, Francisco empenhou-se profundamente nesta reforma, que implica — ponto essencial —, a reforma da Cúria, apesar  de ter consciência de que “é mais difícil reformar a Cúria do que limpar a esfinge do Egipto com uma escova de dentes”. E, inopinadamente, sem fugas de informação, no passado dia 19, no nono aniversário do início solene do seu pontificado, Francisco promulgou a “Constituição Apostólica “Praedicate Evangelium” sobre a Cúria Romana e o seu serviço à Igreja no Mundo”, que entra em vigor no próximo dia 5 de Junho, dia do Pentecostes.


No título, “Praedicate Evangelium”, está o núcleo: “Pregai o Evangelho”. De facto, para que serve a Igreja senão para anunciar por palavras e obras o Evangelho, a notícia boa e felicitante de Jesus, a cada pessoa e à Humanidade inteira? Assim começa a Constituição: “Esta é a missão que o Senhor Jesus confiou aos seus discípulos. Este mandato constitui o primeiro serviço que a Igreja pode prestar a cada pessoa e a toda a Humanidade no mundo de hoje. A isto foi chamada.” 


O núcleo é a evangelização, e aí está uma Cúria humanizada, desclericalizada, numa Igreja em saída, não autorreferencial, sinodal, povo de Deus, ao serviço... Francisco põe em marcha “a revolução da primavera na Igreja”, como José Manuel Vidal, director de Religión Digital, gosta de lhe chamar.


Com 250 artigos, o texto é longo. Ficam aí apenas algumas notas, com a promessa de que voltarei ao tema. 1. “As pessoas que servem na Cúria são escolhidas entre os bispos, os padres, os diáconos, os membros dos Institutos de vida consagrada e das Sociedades de vida apostólica e os leigos que se distinguem pela sua vida espiritual, a sua boa experiência pastoral”. Mais: os membros da Cúria devem ser exemplares quanto à “sua sobriedade de vida e o seu amor aos pobres, o seu espírito de comunhão e de serviço, a sua competência nos assuntos que lhes são confiados e a sua capacidade de discernir os sinais dos tempos.” 2. Para cercear o “carreirismo eclesiástico”, os membros da Cúria vêem o seu tempo de serviço limitado a 5 anos, excepcionalmente renovado por mais cinco. 3. Como sublinhou o cardeal O’Malley, “pela primeira vez o Papa fez da protecção dos menores uma parte central do governo da Igreja.” De facto, o artigo 78 da Constituição estabelece que, no Dicastério (na linguagem corrente, um Dicastério é um Ministério) para a Doutrina da Fé, “institui-se a Comissão Pontifícia para a Protecção dos Menores, que tem como missão assessorar e aconselhar o Papa  e propor as iniciativas mais oportunas para a protecção dos menores e das pessoas vulneráveis.” 5. Agora, todos os fiéis poderão exercer um poder de governo na Cúria: os leigos, homens e mulheres, poderão ser chamados a presidir a um Dicastério ou outro Organismo. Para dar um exemplo, o próximo Secretário de Estado poderá ser uma mulher. As nomeações são decididas pelo Papa em função da “competência, do poder de governança e da função” da pessoa escolhida. 6. Há um Dicastério (Minitério) da caridade, para ir ao encontro da dor em todo o mundo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 26 de março de 2022

A VIDA DOS LIVROS

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  De 28 de fevereiro a 6 de março de 2022

 

«O Mundo e a Igreja – Que Futuro?» da autoria do Padre Anselmo Borges (Gradiva, 2021) é um conjunto muito atual de reflexões sobre as consequências do pontificado do Papa Francisco

 

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UMA INTERROGAÇÃO

Interrogando-se sobre como devemos encarar hoje os valores éticos, Anselmo Borges afirma no seu último livro, agora dada à estampa - O Mundo e a Igreja. Que Futuro? (Gradiva) – que assistimos a uma inversão na pirâmide de valores, já que o dinheiro se tornou um valor central e a medida de todos os valores. Nesta obra, contamos com um conjunto oportuno e bastante claro de reflexões sobre as responsabilidades da Igreja Católica na sua relação com o mundo contemporâneo, numa perspetiva de exigência crítica e de coerência, em lugar de acomodação ou de indiferença. E em diversos passos do livro somos levados a recordar a obra fundamental “A Largueza do Reino de Deus” do Padre Alves Correia, tantas vezes recordado por Anselmo Borges no seu magistério. “Onde está a honra, a dignidade, o valor da palavra dada, a solidariedade, a família como esteio que segura os valores, a escola que forma pessoas íntegras e assim bons profissionais, alguns princípios orientadores da humanidade e para a Humanidade?”. Afinal, importa refletir, pensar para além do imediato e superar o imediatismo e as certezas baseadas na superficialidade. Urge compreender que não há explicações unívocas, já que a complexidade é a regra humana. Essa a lógica das bem-aventuranças – entender a humanidade como realidade plural. O homem não se fez para o sábado, mas o sábado para o homem e Jesus Cristo foi acusado de se relacionar com todos, recusando condenar a mulher adúltera…

 

SABEDORIA E CONFINAMENTO

E o Padre Anselmo Borges recorda o que Edgar Morin disse a propósito desta pandemia e no contexto dela: “Não digo que a sabedoria é permanecer toda a vida num quarto, mas para dar um exemplo: pensando apenas no nosso modo de consumo e alimentação, é talvez o momento de nos desfazermos de toda esta cultura industrial, cujos vícios conhecemos, o momento para nos desintoxicarmos. É também a ocasião para tomarmos consciência de modo duradouro dessas verdades humanas, que todos conhecemos, mas que estão recalcadas no nosso subconsciente: o amor, a amizade, a comunhão, a solidariedade, que fazem a qualidade de vida”. E assim um decálogo para a felicidade não pode ser confundido com uma receita de boticário. Exige-se compromisso pessoal e sentido de entreajuda. O início da alegria é começar a pensar nos outros. A melancolia deve dar lugar a uma atitude positiva e prospetiva. Não são o poder, o dinheiro ou os prazeres efémeros que podem dar alegria, mas o amor. Daí a necessidade de ter sentido de humor, de não nos levarmos demasiado a sério, de saber agradecer, de saber perdoar e de pedir perdão, de ter o gosto do compromisso e de saber ter o desprendimento em que se baseiam as bem-aventuranças, bem como de compreender a importância do diálogo fraterno e da oração, abandonando-nos nas mãos de Deus, por sabermos que somos amados. Longe da indiferença (e isto é uma responsabilidade de todos os homens e mulheres de boa vontade, como tanto insistiu o Bom Papa João XXIII) trata-se de saber partilhar, falando olhos nos olhos, entendendo a relação pessoal como permanente revelação do alfa e do ómega da dignidade humana. E o livro é um apelo constante à compreensão mútua, segundo o testemunho vivo de Jesus Cristo. Nos últimos dois anos, perante a inesperada pandemia e a demonstração de como assistimos a uma destruição avassaladora da natureza e do meio ambiente, tomamos consciência de que não podemos esconder-nos ou ser indiferentes. Importa compreender as ameaças e os riscos, a distinção entre o que é passageiro e o que é permanente. A crise ambiental obriga-nos a compreender os limites, combatendo o desperdício e prevenindo a destruição irreversível dos recursos que são património comum da humanidade toda. A crise económica e social agravou, por outro lado, as desigualdades e as injustiças e esqueceu uma distribuição equitativa de recursos não apenas entre os cidadãos de hoje, mas também relativamente às gerações futuras. À crise financeira de 2008 somou-se a situação sanitária, à ilusão monetária sucedeu a paragem brusca da atividade económica em todo o mundo, com todas as consequências conhecidas, das quais resulta que as desigualdades aumentaram, os mais ricos ficaram mais ricos e os mais pobres ficaram mais desprotegidos. A crise migratória pôs a nu o medo dos outros e a recusa das diferenças, exigindo uma verdadeira solidariedade planetária, que continua a faltar. E urge recordar o apelo do Papa Francisco a que os migrantes sejam acolhidos com prudência, reclamando um novo Plano Marshall para os países mais pobres, para estancar a hemorragia de assola o mundo.

 

QUE DEMOCRACIA, QUE CIDADANIA?

A crise política tem levado à fragilização da democracia e da cidadania, obrigando a que cuidemos mais da qualidade das instituições, do Estado de Direito, dos direitos fundamentais e da dignidade humana. A democracia precisa de melhor legitimação, de mais responsabilidade de todos e de mais participação cidadã. E a palavra do Papa Francisco tem de ser mais ouvida, apontando para que os princípios humanos se tornem compromissos de justiça: “A democracia baseia-se no respeito mútuo, em que todos possam contribuir para o bem da sociedade e em considerar que opiniões diferentes não só não ameaçam o poder e a segurança do Estado, como, num confronto honesto, se enriquecem mutuamente e permitem encontrar soluções mais adequadas para os problemas que é preciso enfrentar”. Os conflitos da sociedade, sendo naturais, não podem gerar a tentação da violência e da cegueira. A crise das relações humanas está, porém, na raiz de muitas das dificuldades e bloqueios atuais. A atenção, o cuidado, o respeito mútuo, a solidariedade estão na ordem do dia. A crise na educação, a desvalorização da cultura, a subalternização do dom e da troca, da comunicação e da capacidade de aprender obrigam a encontrar um contrato social que permita favorecer a coesão, o desenvolvimento e a justiça distributiva capazes de fazer da equidade uma prática comummente aceite. A liberdade religiosa e a paz entre as religiões revelam-se mais necessárias que nunca, uma vez que sem compreensão dos limites e sem a coragem de pôr em comum o que verdadeiramente nos pode unir, nada conseguiremos. E assim, longe da ideia de “ópio do povo”, o que importa é a procura dos fundamentos de uma ética cordial, baseada na compreensão do outro, no respeito mútuo e na salvaguarda da liberdade, da autonomia pessoal e da dignidade humana. A recusa do paternalismo e do clericalismo liga-se à necessidade de uma prática cristã mais madura e mais humana. Daí que o Papa Francisco insista em que não pode haver ecumenismo com proselitismo. Mais do que as palavras, importa fazer prevalecer os atos e os exemplos. E as reflexões de Anselmo Borges constituem preciosos auxiliares nesse sentido.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença