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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FRANCISCO: “UM PECADOR QUE PROCURA FAZER O BEM”

Papa na Hungria.jpeg

 

Foi nestes termos — “Eu sou um pecador que procura fazer o bem” — que o Papa Francisco se definiu numa longa entrevista à rádio Cope, Espanha, a primeira depois da operação que lhe tirou 33 centímetros de intestino. “Levo uma vida totalmente normal”, “como o que quero”, “continuo vivo”. E não pensa em renunciar, mesmo se “sempre que um Papa está doente corra uma brisa ou um furacão de Conclave”, a pensar na eleição de um novo Papa. “Nem me passou pela cabeça”. E vai continuar com as reformas, tudo o que foi pedido pelos cardeais antes da sua inesperada eleição. “Creio que ainda há várias coisas por fazer, mas não há nada de inventado por mim. Estou apenas a obedecer ao que se estabeleceu na altura, embora talvez alguns não se tenham apercebido do que estavam a dizer ou de que as coisas eram tão graves...”. As viagens vão continuar normalmente — as próximas são à Hungria e Eslováquia. A propósito, estará amanhã na Hungria, no encerramento do Congresso Eucarístico; neste contexto, o jornalista perguntou-lhe como será o encontro com o primeiro-ministro Viktor Orbán, e Francisco: “uma das coisas que tenho é não andar com livreto: quando estou diante de uma pessoa, olho-a nos olhos e deixo que as coisas fluam...”.

O diabo anda à solta no Vaticano? Francisco riu-se e respondeu que ele anda por todo o lado, também no Vaticano, mas tem sobretudo medo dos “diabos educados”: “tocam à campainha, pedem licença, entram em casa, fazem-se amigos..., tenho pavor aos diabos educados. São os piores, e a gente engana-se muito, muito.”

Sobre a corrupção no Vaticano: “é preciso evitar isso por todos os meios, mas é uma história antiga”. Quer que a Justiça se torne mais independente, eficaz... “Este é o caminho, não tenho medo da transparência nem da verdade. Por vezes dói e muito, mas é a verdade que nos torna livres”. A propósito do julgamento iminente do cardeal Becciu: “Quero de todo o coração que seja inocente..., mas é a Justiça que vai decidir.”

Sobre a pedofilia do clero, evidentemente, “tolerância zero”. Presta homenagem ao Cardeal O’Malley, de Boston, que está na base da Comissão de Defesa de Menores. Desgraçadamente, é um drama na Igreja, mas, infelizmente — veja-se as estatísticas —, não é só na Igreja, é “um problema mundial e grave”. E fala sobre a pornografia infantil: “Pergunto-me às vezes como é que certos governos permitem a produção de pornografia infantil. Que não digam que não sabem. Hoje, com os serviços secretos, sabe-se tudo. Para mim, é das coisas mais monstruosas que vi.”

Sobre a reforma da Cúria, fala em “ajustes” (por exemplo, junção de Dicastérios (Ministérios), com um leigo ou leiga à frente...), não de revolução. Está-se a trabalhar na Constiuição Apostólica “Praedicate Evangelium” (Anunciai o Evangelho): “o último passo é eu lê-la — e tenho de lê-la, pois tenho de assiná-la e tenho de lê-la palavra a palavra —, não vai ter nada de novo em relação ao que se está a ver já.”

Sobre as “missas tridentinas” (em latim e de costas para o povo), diz que ele não é de “dar murros na mesa, não consigo, até sou tímido”. Mas impôs limites. E quer que “a proclamação da Palavra seja na língua que todos entendam; o contrário é rir-se da Palavra de Deus”. Sobre o “Caminho Sinodal” da Igreja na Alemanha, atendendo aos receios da Cúria, diz que não se colocaria numa atitude “demasiado trágica”. “Em muitos Bispos com quem falei não há má vontade. É um desejo pastoral, mas há que ter em conta algumas coisas que eu explico numa carta.”

Sobre a ecologia, afirma que é “um convertido”, pois durante demasiado tempo não prestou atenção. Quando se apercebeu, convocou “um grupo de cientistas que me expuseram os problemas reais, não as hipóteses. Apresentaram-me um belo catálogo e com razões. Passei-o a teólogos que reflectiram sobre isso. E assim se foi preparando a ‘Laudato Sí’.” E estará em Glasgow, que espera “nos meta mais na linha”.

A propósito de uma pergunta sobre a eutanásia, pede que nos situemos: “Estamos a viver uma cultura do descarte. O que não serve deita-se fora. Os velhos são material descartável: incomodam. Os doentes mais terminais, também, os bebés não desejados, também, e são mandados para o remetente antes de nascer.” Depois, quando se pensa nas periferias, temos “o descarte de povos inteiros. Pense nos rohingyas...”. Quanto aos migrantes: “A minha resposta seria: quatro atitudes: acolher, proteger, promover, integrar. Vou à última: acolhidos, se não são integrados, são um perigo, porque se sentem estranhos.” Mas também eles têm de se integrar, digo eu.

Sobre a Europa: “Para mim, a unidade da Europa neste momento é um desafio. Ou a Europa continua a aperfeiçoar e a melhorar na União Europeia ou desintegra-se.” E que pense no inverno demográfico, com a inversão da pirâmide das idades. Quanto ao Afeganistão: “É uma situação difícil. Pelo que se vê, não se tiveram em conta — parece, não quero julgar — todas as eventualidades”. Sobre a China: “O que à China se refere não é fácil, mas estou convencido de que não se deve renunciar ao diálogo. Podem enganar-te no diálogo, podes equivocar-te, tudo isso..., mas é o caminho. O fechamento nunca é caminho.” O mesmo quanto ao islão...

As suas maiores desilusões? “Tive várias na vida e isso é bom, pois fazem-nos aterrar de emergência. O problema está em levantar-se... Creio que perante uma guerra, uma derrota, um fracasso ou o próprio pecado, o problema é levantar-se e não permanecer caído.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 11 de setembro de 2021

ABUSOS DE MENORES NO CÓDIGO DE DIREITO CANÓNICO

 

1. O Evangelho é duríssimo. Nele, diz-se: “Deixai vir a mim as criancinhas”, mas também se diz: “Ai de quem escandalizar uma criança! Era melhor atar-lhe uma mó de moinho ao pescoço e lançá-lo ao mar”. O que tem acontecido na Igreja quanto aos abusos de menores é pura e simplesmente execrável.


Em 2019, Francisco tomou uma iniciativa histórica, convocando uma Cimeira para o Vaticano, com 190 participantes, entre os quais 114 Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, bispos representando as Igrejas católicas orientais, alguns membros da Cúria, representantes dos superiores e das superioras gerais de ordens e congregações religiosas, alguns peritos e leigos. Os três dias estiveram sob o lema: “responsabilidade”, “prestação de contas”, “transparência”. O Papa quer — não se trata de mero desejo — implantar “tolerância zero”.


2. Para implantar essa “tolerância zero” e pôr fim a esta catástrofe na Igreja, publicou o Motu ProprioVos estis lux mundi” (Vós sois a luz do mundo), decretando medidas concretas contra a pedofilia na Igreja.


Estas normas contra os abusadores e os encobridores impõem-se, porque, escreveu Francisco, “o delito de abuso sexual ofende Nosso Senhor, causa danos físicos, psicológicos e espirituais às vítimas e prejudica a comunidade dos fiéis.”


Os clérigos e religiosos ficaram obrigados (não se trata de mera obrigação moral, mas legal) a denunciar os abusos aos superiores, bem como a informá-los sobre as omissões e encobrimentos na sua gestão. Todas as Dioceses do mundo têm a obrigação de criar no prazo de um ano ou mais sistemas estáveis e de fácil acesso ao público, para que, com facilidade, todos possam apresentar informações sobre abusos sexuais cometidos por clérigos e religiosos e o seu encobrimento. O documento ratifica a obrigação de colaborar com a justiça civil dos países. Aliás, “estas normas aplicam-se sem prejuízo dos direitos e obrigações estabelecidos em cada lugar por leis do Estado, em particular as relativas a eventuais obrigações de informar as autoridades civis competentes”. Para lá do assédio e da violência contra menores (menos de 18 anos) e adultos vulneráveis, o texto inclui a violência sexual e o assédio que provêm do abuso de autoridade, bem como a posse de pornografia infantil e qualquer caso de violência contra as religiosas por parte de clérigos e ainda os casos de assédio a seminaristas ou noviços maiores de idade. Impõe a protecção dos denunciantes e das vítimas: quem denuncia abusos não pode ser objecto de represálias ou discriminação por ter informado; as vítimas e suas famílias serão tratadas com dignidade e respeito e devem receber a devida e adequada assistência espiritual, médica e psicológica; é preciso atender também ao problema das vítimas que no passado foram reduzidas ao silêncio. Estas normas aplicam-se à Igreja universal. Solicita-se vivamente a colaboração dos leigos, que podem ter capacidades e competências que os clérigos não dominam. Evidentemente, reafirma-se o princípio da presunção de inocência da pessoa acusada e o segredo da confissão deve manter-se como inviolável. Como escreve o Papa, “para que estes casos, em todas as suas formas, nunca mais aconteçam, é necessária uma conversão contínua e profunda dos corações, atestada por acções concretas que envolvam todos os membros da Igreja.”


3. Francisco acaba de ir mais longe ao incorporar no Código de Direito Canónico a legislação contra os abusos sexuais de menores e adultos vulneráveis (“pessoas que habitualmente têm um uso imperfeito da razão”), agravando-a. No Código anterior, estes delitos apareciam no capítulo “Delitos contra as obrigações especiais dos clérigos”. Agora, passam para o capítulo “Delitos contra a vida, a dignidade e a liberdade da pessoa”. E trata-se de delitos cometidos não só por clérigos mas também por membros de institutos de vida consagrada e outros fiéis, nomeadamente leigos que ocupem determinadas funções na Igreja.


Há o endurecimento das penas, dilata-se o tempo da prescrição. O novo cânone 1398 dispõe que “seja punido com a privação do ofício e com outras penas justas, sem excluir, se o caso o requerer, a expulsão do estado clerical”, o clérigo  que “comete um delito contra o sexto mandamento do Decálogo com um menor ou com pessoa que habitualmente tem um uso imperfeito da razão ou a que o direito reconhece igual tutela.”


É igualmente punido quem “recrutar ou induzir um menor ou uma pessoa que habitualmente tem um uso imperfeito da razão para que se exponha pornograficamente ou para particpar em exibições pornográficas, tanto verdadeiras como simuladas” ou quem “imoralmnete adquire, conserva, exibe ou divulga, por qualquer forma ou através de qualquer instrumento, imagens pornográficas de menores ou de pessoas que habitualmente têm um uso imperfeito da razão.”


As alterações no Direito Penal da Igreja também prevêem novos delitos no domínio económico e financeiro. Assim, “penaliza-se os abusos de autoridade, a corrupção, tanto do corrupto como do corruptor, a má gestão do património eclesiástico”. Francisco ataca “o diabo que entra pelos bolsos”,  impondo “transparência” no domínio da gestão do património da Igreja.


4. Francisco refere a necessidade da prevenção. Quanto aos abusos de menores, penso que ela deve implicar também o fim do celibato obrigatório para os padres e o acesso das mulheres a todos os cargos da Igreja, sem discriminação.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 JUNHO 2021

HANS KÜNG E FRANCISCO

 

1. Faz amanhã dois meses que, como aqui dei a devida notícia, morreu Hans Küng, o teólogo católico mais conhecido dos últimos decénios e um pensador de influência mundial.


Küng tinha imensa esperança no Papa Francisco, que lhe escreveu duas vezes, inclusivamente a dizer que a infalibilidade pontifícia era questão a estudar,  e lhe enviou uma bênção antes da morte. Lamentavelmente, talvez para não ferir Bento XVI, não o reabilitou de modo oficial. De qualquer forma, julgo que é inegável a influência do seu pensamento na primavera da Igreja prosseguida por Francisco, não só por causa das suas investigações sobre o cristianismo primitivo mas também do seu contributo incalculável para o encontro da fé com o mundo moderno e pós-moderno e um ethos (nova atitude ética) global.   


2. Por isso, vale a pena voltar concretamente ao seu livro A Igreja ainda tem salvação? (1997), no qual confessa que foi por imperativo de consciência que o escreveu. “Preferiria não ter escrito este livro. Não é agradável dirigir à Igreja, que foi e é a minha, uma publicação tão crítica”, mas, “na presente situação, o silêncio seria irresponsável”. De que sofre a Igreja? A Igreja católica, a maior, a mais poderosa, a mais internacional Igreja, essa grande comunidade de fé, está “realmente doente”, “mortalmente doente”, “sofre do sistema romano de poder”, que se acaracteriza pelo monopólioo da verdade, pelo juridicismo e clericalismo, pelo medo do sexo e da mulher, pela violência espiritual.


Que propôs Küng não só como teólogo eminente, mas também como cristão profunamente convicto, que nunca abandonou a Igreja que considerava a sua? É preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. De facto, em síntese, a Igreja é a comunidade dos que crêem em Cristo: “A comunidade dos que se entregaram a Jesus Cristo e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível, se disser a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus. Toda a sua credibilidade depende da fidelidade a Jesus Cristo.” Como procederia Jesus nas actuais situações, quando pensamos no modo como agiu? Seria contra o preservativo, os anticonceptivos, excluiria as mulheres, obrigaria ao celibato, proibiria a comunhão aos recasados? Que diria sobre as relações sexuais antes do casamento? Como procedria em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso?


A Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa, mas como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares do mundo. O papado não tem que desaparecer, mas o Papa não pode ser visto como “um autocrata espiritual”, antes como o bispo que tem o primado pastoral, vinculado colegialmente aos outros bispos e, acrescentaria eu, a representantes das congregações religiosas e de todo o Povo de Deus, homens e mulheres.


A Igreja, ao mesmo tempo que tem de fortalecer as suas funções nucleares — oferecer aos homens e às mulheres de hoje a mensagemm cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos —, deve assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando, sem partidarismos, à sociedade opções fundamentais, orientações para um futuro melhor.


Não se trata de acabar com a Cúria Romana, mas de reformá-la segundo o Evangelho. Essa reforma implica humildade evangélica (renúncia a títulos como: Monsignori, Excelências, Reverências, Eminências...), simplicidade evangélica, fraternidade evangélica, liberdade evangélica. E é necessário mais pessoal profissional, acabando com o favoritismo. De facto, esta Igreja é altamente hierarquizada e ao mesmo tempo caótica. Quem manda no Vaticano? “Conselheiros independentes haverá poucos.”


Mais: precisa-se de transparência nas finanças da Igreja; deve-se acabar com a Inquisição, não bastando reformulá-la, e eliminar todas as formas de repressão; não é suficiente melhorar o Direito eclesiástico, que precisa de uma reforma de fundo; deve-se permitir o casamento dos padres e dos bispos, abrir às mulheres todos os cargos da Igreja, incluir a participação do clero e dos leigos na eleição dos bispos; não se pode continuar a negar a Eucaristia a católicos e protestantes; é preciso promover a compreensão ecuménica e o trabalho conjunto.


3. Não é legítima a pergunta: Passados quase 25 anos, não é algo de semelhante a este projecto que move o Papa Francisco?


A sua medida mais recente e a mais importante neste sentido tem a ver com a sinodalidade da Igreja (caminhar em conjunto), tema do próximo Sínodo em Roma, adiado para 2023, também para criar uma dinâmica que permita que “sejam ouvidos todos os baptizados”, concretizando um desiderato já presente na Evangelii Gaudium que recomenda aos bispos “ouvir a todos e não apenas alguns sempre prontos a lisonjeá-los”.


Assim, o processo começará pelas bases: com uma primeira etapa, diocesana, e a nível dos países, até Abril de 2022, para que todos sejam ouvidos, elaborando-se então uma primeira síntese. As questões suscitadas serão depois reflectidas ao nível continental, no quadro de organismos continentais dos bispos, que, por sua vez, aoresentarão a sua síntese, sendo a partir daí que se elaborará o documento que servirá de instrumento  de trabalho para o Sínodo. Nele, pela primeira vez, votará também uma mulher.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 JUNHO 2021

O PERIGO DE UM DEUS BOM

 

1. Julgo que o que no Papa Francisco provoca mais a admiração das pessoas, dentro e fora da Igreja — talvez até mais fora —, é ele ser um cristão. Por palavras e obras.


O que é ser cristão? É ser discípulo de Jesus, tentar viver como ele. Jesus é o autor da maior revolução da História, que consiste na revolução da imagem de Deus. Até pessoas que se dizem cristãs continuam com a ideia de que Deus manda epidemias, por exemplo, de que Deus precisou da morte do seu Filho Jesus para se reconciliar com a Humanidade. Pergunto: que pai ou mãe decentes exigiriam a morte de um filho? Em relação ao Deus que tivesse mandado o Filho ao mundo para, pela sua morte na cruz, poder aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade só haveria uma atitude humanamente digna: ser ateu.


Na realidade, Jesus, veio, pelo contrário, revelar que Deus é Pai/Mãe, amigo de todos, que a todos dá a mão, que compreende e perdoa e quer a salvação de todos. Deus é Amor incondicional, “o seu nome é Misericórdia”, diz o Papa Francisco, que faz como Jesus: anima a todos, dá a mão aos mais pobres, abandonados, marginalizados, denuncia a economia financeira especulativa e corrupta, que mata...


Afinal, na Páscoa, a pergunta que precisamos de fazer é sempre esta: Quem mandou matar Jesus, crucificando-o? Dá que pensar e até causa arrepios: Jesus foi mandado matar, em primeiro lugar, pelos sacerdotes do Templo. Eles não toleravam que Jesus dissesse, colocando na boca de Deus estas palavras: “Eu não quero sacrifícios (de pombas, ovelhas, vitelos...), mas sim justiça e misericórdia.” Os sacerdotes viviam, até financeiramente, da exploração do povo em nome da religião. Quem mandou crucificar Jesus, a pedido dos interesses do Templo, foi o representante do Império, Pilatos. Para que é que existem os impérios senão para idominar, explorar, escravizar? Pilatos teve medo de que o fossem denuncar ao imperador por libertar um subversivo com consequências para o poder imperial. De facto, o Deus de Jesus não quer escravos nem explorados por impérios ou seja pelo que for. Deus quer a dignidade de todos.


Não é esta dignidade e justiça para todos que Francisco também anuncia, quer e pratica?


Até parece que nos damos mal com um Deus bom para todos. Talvez não seja só parecer; em geral, damo-nos mesmo mal. É que, se Deus não fosse bom, não seríamos obrigados também nós a ser bons; se Deus fosse vingativo, também nós podíamos vingar-nos; se Deus não fosse o Deus da justiça e da paz, nós também podíamos roubar, ser corruptos, fazer a guerra, matar em nome de Deus ou invocando o seu nome...


Será que temos meditado suficientemente sobre o que levou Jesus à Cruz? Jesus não morreu na cruz por vontade de Deus. Morreu por vontade dos homens. Jesus não morreu para satisfazer um Deus irado. Morreu pela causa de um Deus bom, amável. Morreu para dar testemunho da Verdade e do Amor: Deus é Amor... e só quer o bem de todos. Quem nunca ouviu falar da parábola do filho pródigo, dos banquetes de Jesus com pecadores públicos, com prostitutas, acolhendo todos em nome de Deus?...


O sofrimento físico, psicológico, moral, de Jesus durante o julgamento, o abandono e a fuga dos discípulos mais próximos, a flagelação, a coroação de espinhos, o caminho do Calvário, aquelas horas de horrores na cruz, é inimaginável. Rezou a Deus, que tratava por “Abbá” (Pai querido), que o libertasse daquele suplício, que se aproximava, sentiu pavor, suou sangue, rezou aquela oração que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”. Mas as últimas palavras foram de perdão e de confiança filial: “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. “Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito.”


Tantas vezes a cruz verdadeira de Cristo foi insultada com cruzes peitorais de ouro com pérolas incrustadas para ostentação de quem as utilizou...


2. Aparentemente, foi o fim. Mas, lentamente, os discípulos — a primeira foi Maria Madalena,, porque amava mais — foram reflectindo sobre tudo o que viveram com Jesus, o que Ele disse, o que Ele fez, o modo como o fez até à morte e morte de Cruz, e foi-se tornando claro para eles, numa experiência avassaladora de fé, que aquele Jesus crucificado para dar testemunho do Deus que é Amor, não podia ter sido devorado pela morte. Na morte, não encontrou o nada, mas o Deus que é a Vida e Amor. Jesus é o Vivente. E reuniram-se outra vez e foram anunciar o Deus que Jesus anunciou, por palavras e obras. Deram testemunho dEle até à morte. “Vede como eles se amam”, diziam os pagãos sobre os cristãos. E uma nova esperança percorreu o mundo. E quando parecia que tudo se afundava, o cristianismo venceu, como sublinhava o ateu religioso Ernst Bloch, por causa desta proclamação: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”.


3. As primeiras comunidades cristãs reuniam-se e celebravam a Eucaristia com alegria nas suas casas, lembrando Jesus, a sua vida, a sua morte, a sua ressurreição, e aunciando a esperança da vida eterna plena: “Fazei isto em memória de mim”.


Mas damo-nos mal com um Deus bom. E, lentamente, porque eram acusados de ateísmo por não oferecerem sacrifícios à divindade, a Eucaristia foi transformada em sacrifício oferecido a Deus, e surgiram os sacerdotes com ordens sacras para oferecerem o sacrifico da Missa, e reapareceram os senhores do Sagrado e as duas classes na Igreja: o clero e os fiéis.


Introduziram-se as cerimónias, com mais ou menos solenidade, das cortes imperiais. O que restou (resta?) da Ceia de Jesus?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 MAIO 2021

FRANCISCO E O PÓS-PANDEMIA. 2


Continuo com o discurso de Francisco ao Corpo Diplomático, com perspectivas para o mundo pós-pandemia, a partir das crises causadas ou postas a nu pela pandemia.

2.3. Crise migratória.

A crise provocará um aumento dramático de migrantes e refugiados. Desde a Segunda Guerra Mundial que o mundo não tinha ainda assistido a “um aumento tão dramático do número de refugiados. Por isso, torna-se cada vez mais urgente “erradicar as causas que obrigam a emigrar”, como também se exige um esforço comum para apoiar os países de primeiro acolhimento, que se encarregam da obrigação moral de salvar vidas humanas.


Neste contexto, Francisco espera com interesse “a negociação do Novo Pacto da União Europeia sobre a migração e o asilo”, observando que “políticas e mecanismos concretos não funcionarão sem o apoio da vontade política necessária e do compromisso de todas as partes, incluindo a sociedade civil e os próprios migrantes.”


2.4. Crise política.
Para Francisco, todos estes temas críticos “põem em relevo uma crise muito mais profunda, que de algum modo está na raiz das outras e cujo dramatismo veio à luz precisamente com a pandemia.” É a crise política, que desde há uns tempos mina de modo violento muitas sociedades e “cujos efeitos devastadores emergiram durante a pandemia”. Aumentam os conflitos políticos e a dificuldade, se não a incapacidade, para “encontrar soluções comuns e partilhadas para os problemas que afligem o nosso planeta”. Manter viva a democracia é, portanto, um gigantesco desafio neste momento histórico. “A democracia baseia-se no respeito recíproco, em que todos possam contribuir para o bem da sociedade, e em considerar que opiniões diferentes não só não ameaçam o poder e a segurança dos Estados, como, pelo contrário, num confronto honesto, se enriquecem mutuamente e permitem encontrar soluções mais adeqaudas para os problemas que é preciso enfrentar.”


Infelizmente, “a crise da política e dos valores democráticos afecta também a nível internacional, com repercussões em todo o sistema multilateral.” É o momento de levar adiante reformas, para que as organizações internacionais recuperem a sua vocação essencial de servir a família humana, preservar a vida de todas as pessoas e a paz. “Todo o corpo vivo precisa de reformar-se continuamente e, nesta perspectiva, estão também as reformas que implicam a Santa Sé e a Cúria Romana.”


Constata: “Há demasiadas armas no mundo”. Por isso, é necessário intensificar o esforço no âmbito do desarmamento, contra a proliferação do armamento nuclear, que deve estender-se às armas químicas e às armas convencionais.  Um equilíbrio baseado no medo  apenas tende a minar a confiança entre os povos. Confessa: “Não posso esquecer outra grave praga do nosso tempo: o terrorismo”, com tantas vítimas entre pessoas inocentes e indefesas.


2.5. Crise das relações humanas.
Esta é talvez a mais grave: “a crise das relações humanas, expressão de uma crise antropológica geral, que diz respeito à própria concepção da pessoa humana e à sua dignidade transcendente.”


Longos períodos de confinamento também permitiram mais tempo passado em família e redescobrir “as relações mais queridas”. Não há dúvida de que “o casamento e a família constituem um dos bens mais preciosos da Humanidade” e “o berço de toda a sociedade civil”. Perante a dimensão mundial dos problemas, a família cumpre as novas incumbências que sobre ela recaem, “em primeiro lugar oferecendo aos filhos um modelo de vida fundado sobre os valores da verdade, liberdade, justiça e amor”. Também é um facto que nem todos puderam viver com serenidade na própria casa e muitas vezes as situações degeneraram em violência doméstica e “sabemos que lamentavelmente são as mulheres que, amiúde com os seus filhos, pagam o preço mais alto”. Aliás, a pandemia aprofunda as desigualdades sociais e as mulheres são as mais atingidas.


2.6. Catástrofe educativa.
A pandemia obrigou a longos meses de isolamento, e é preciso pensar nos estudantes que não puderam frequentar presencialmente a escola ou a univeridade. Até certo ponto colmatou-se a situação através de plataformas educativas informatizadas, mas isso contribuiu também para o aprofundamento das  desigualdades — não se pode esquecer que a escola é factor decisivo a favor da igualdade —, e o aumento “da dependência das crianças e adolescentes da internet e das formas de comunicação virtual em geral, tornando-os ainda mais vulneráveis e sobre-expostos às actividades cibercriminais.” 


2.7. A dimensão religiosa.
As exigências para conter a difusão da pandemia acabaram por limitar também várias liberdades fundamentais, incluída a liberdade de religião. Ora, não podemos “passar por alto que a dimensão religiosa constitui um aspecto fundamental da personalidade humana e da sociedade; mesmo quando se está a procurar proteger vidas humanas da difusão do vírus, a dimensão espiritual e moral da pessoa não se pode considerar como secundária relativamente à saúde física.”


Por outro lado, “a liberdade de culto não constitui um corolário da liberdade de reunião, pois deriva essencialmente do direito à liberdade religiosa, que é o primeiro e fundamental direito humano. Por isso, é necessário que seja respeitada, protegida e defendida pelas autoridades civis, como a saúde e a integridade física. Aliás, um bom cuidado do corpo nunca pode prescindir do cuidado do espírito.”


Páscoa Feliz!

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 3 ABR 2021

FRANCISCO E O PÓS-PANDEMIA. 1


São 187 os países que têm relações diplomáticas com a Santa Sé/Vaticano. Também várias organizações internacionais, como a União Europeia, a Liga dos Estados Árabes, a Organização Internacional para as Migrações, o Alto-Comisssariado das Nações Unidas para os Refugiados, a Ordem Soberana Militar de Malta, têm um representante junto do Papa.


1. Como habitualmente, também este ano o Papa Francisco saudou o Corpo Diplomático num discurso com propostas para o futuro novo. Derrotar o vírus é “uma responsabilidade que nos envolve a todos: cada um de nós pessoalmente e também os nossos países.” O ano de 2020 “deixou atrás de si um peso de medo, desânimo e desespero, a par de muitos lutos.” A pandemia mostrou como somos interdependentes: os seus efeitos são verdadeiramente globais, afectando toda a Humanidade. “Pôs-nos em crise, mostrando-nos o rosto de um mundo doente, não só pelo vírus, mas também no meio ambiente, nos processos económicos e políticos, e ainda mais nas relações humanas. Colocou diante de nós uma alternativa: continuar pelo caminho que temos seguido ou empreender uma nova via.”


Francisco apresentou as crises causadas ou manifestadas pela pandemia, examinando ao mesmo tempo “as oportunidades que delas derivam para construir um mundo mais humano, justo, solidário e pacífico”.  O ponto central é a dignidade inviolável da pessoa humana. Tendo I. Kant em fundo, disse: “Cada pessoa humana é um fim em si mesma, nunca um simples instrumento cujo valor é medido só pela sua utilidade, e foi criada para conviver na família, na comunidade, na sociedade, onde todos os membros têm a mesma dignidade. Desta dignidade derivam os direitos humanos, bem como os deveres”, e lembra, por exemplo, a responsabilidade de acolher e ajudar os pobres, os doente, os marginalizados. “Se se suprime o direito à vida dos mais débeis, como se poderá garantir de facto todos os outros direitos?”.


Aqui, impõe-se perguntar: qual é o fundamento da dignidade da pessoa humana, fim em si mesma e não simples meio? Pessoalmente, defendo que esse fundamento se mostra e se encontra na constituição do ser humano, constiuição que o faz perguntar, mas de tal modo que, de pergunta em pergunta, inevitavelmente chegará à pergunta pelo Infinito. Nesta capacidade de perguntar ao Infinito pelo Infinito, em última análise, por Deus, mostra-se que o Homem tem em si algo de infinito. E só o Infinito é fim e não meio: na verdade, o que é que há para lá do Infinito? Por isso, a pessoa humana é livre e faz a experiência da liberdade no ser dada a si mesma. Cada um/a é senhor/a de si mesmo/a e das suas acções, autopossui-se, é dono/a de si e das suas acções, respondendo por elas: é responsável.


2.1. Crise sanitária.
A pandemia colocou de modo violento à nossa frente “duas realidades iniludíveis da existência humana: a doença e a morte”. Perante elas, tomámos consciência mais aguda do valor e dignidade  de cada vida humana. De facto, perante a morte, cada um/a é confrontado/a  com o seu ser único, como revela aquele clamor dramático de Miguel de Unamuno frente à morte: “Ai que roubam o meu eu!” A doença e a morte lembram-nos também a necessidade e o direito ao cuidado: precisamos de ser cuidados e de cuidar. Aos responsáveis políticos e de governo impõe-se, portanto, o esforço para favorecer “o acesso universal à atenção sanitária de base”, não podendo ser só “a lógica do lucro” a guiar um sector tão delicado como decisivo. Evidentemente, no imediato, é necessário assegurar “a distribuição equitativa das vacinas, que devem beneficiar toda a Humanidade”. Aqui, diria eu, até por uma imposição de um egoísmo esclarecido: de facto, dada a interdependência, enquanto não forem todos vacinados, estamos todos ameaçados, tanto mais quanto há o perigo de contínuas novas variantes do vírus. Ninguém é uma ilha; como escreveu John Donne, “a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte da Humanidade.”


2.2. Crise ambiental.
Percebemos agora melhor que não é apenas o ser humano que está doente, também o nosso planeta Terra está doente, e “a pandemia mostrou-nos mais uma vez a medida em que também é frágil e quanto precisa de cuidados.” Francisco espera que a próxima Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP26), em Glasgow, em Novembro próximo, “permita chegar a um acordo efectivo para enfrentar as consequências das mudanças climáticas. Este é o momento de agir, pois já estamos a sentir os efeitos de uma prolongada inacção.”


2.3. Crise económica e social.
A pandemia impôs restrições à circulação e confinamentos, que acabaram por provocar inevitavelmente uma terrível crise social e económica a nível global. Esta crise “é uma ocasião propícia para recolocar a relação entre a pessoa e a economia. É necessária uma espécie de “nova revolução copernicana” que ponha a economia ao serviço do Homem e não ao contrário, começando a estudar e a praticar uma economia diferente, “a que faz viver e não mata, que inclui e não exclui, que humaniza e não desumaniza, que cuida da criação e não se alimenta da depradação.” Não se pode buscar soluções particulares para problemas que são globais. Neste sentido, o plano Next Generation EU é um bom exemplo de colaboração e solidariedade.  “Que a conjuntura seja também um estímulo para perdoar ou pelo menos reduzir a dívida dos países mais pobres, que de facto impede a recuperação e o pleno desenvolvimento.”   (Continua)

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 MAR 2021

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM


Minha Princesa de mim:


   Verifico, com surpresa, talvez mágoa, não sei, que as notícias e comentários de órgãos de comunicação católicos portugueses se referem à recente visita do papa Francisco ao Iraque enaltecendo sobretudo a coragem, a resposta ao desafio dos riscos, a "loucura" que apelidam de profética, etc., sem se lembrarem de que aquela peregrinação foi a de um homem de fé, que nos trouxe a contemplação essencial desta virtude teologal e das outras duas: esperança e amor. O espírito cristão parece, assim, quase ausente do nosso sentimento da aventura quotidiana... ou será que preferimos, a uma visão íntima, mística, da vida e da história, a emoção proporcionada por feitos humanos, à nossa medida? 


   Por outro lado, surpreendeu-me também um boletim do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, órgão da Conferência Episcopal Portuguesa, em que se destacava um suplemento do Jornal de Notícias sobre o cardeal José Tolentino Mendonça, um dos fundadores do tal boletim, seu diretor durante anos e que tem sido, em tempos recentes, assunto de artigos bastante encomiásticos, pelo mesmo publicados.


   Na verdade, de Tolentino ou outra pessoa qualquer um de nós pensará, por bem, o que lhe parecer, e o Jornal de Notícias está no seu direito de publicar o que melhor entender. Os eventuais leitores, por seu lado, farão sobre o que lerem um juízo conforme ao exercício do espírito crítico de cada um. Pessoalmente, é-me indiferente que Maria João Avillez escreva que aquele clérigo é a única pessoa que consegue trazer o sagrado para perto dela, ou que "o investigador" Luís Mah o considere único e veja nele o próximo papa. Já me escandaliza que um boletim do episcopado que ele fundou e dirigiu reúna todo esse material numa espécie de panfleto propagandístico, com um título que retoma o dito da jornalista Avillez: «Ninguém como ele nos traz o sagrado para tão próximo de nós».


   Aliás, também me parece assaz incorreta a afirmação da mesma jornalista, ali reproduzida: «O Papa Francisco sabia bem o que fazia quando foi pescar este padre ainda jovem no nosso mar português». Cheira-me a tentativa de ligar umbilicalmente à figura extraordinária do papa atual o perfil de José Tolentino. Sabemos que a carreira vaticana do atual cardeal português se iniciou ainda no pontificado de Bento XVI, embora já sob o patrocínio do cardeal Gianfranco Ravasi, padrinho de um dos mais conhecidos grupos de pressão da Cúria Romana. Foi em 2011 que foi nomeado, pelo papa Ratzinger, consultor do Conselho Pontifício para a Cultura, presidido pelo cardeal italiano. 


   Sabes bem, minha Princesa de mim, quanto me repugna falar dos outros, precisamente pelas mesmas razões que me levam a aborrecer (no sentido antigo, etimológico, de ter horror a) as campanhas malévolas ad hominem ou as mitoconstrutoras pro homine, umas e outras claramente fulanistas. As pessoas podem discutir gostos e ideias, não têm, nem devem, discutir-se umas às outras enquanto tais. E é por isso que te recito agora um poema de frei José Augusto Mourão, o.p., que foi professor de semiótica de José Tolentino que, aliás escreveu o prefácio ao seu livro de poesia reunida (O Nome e a Forma, Pedra Angular, 2009), donde os versos seguintes são retirados, com os meus votos de que Tolentino consiga vir ainda a partilhar da respiração mística que anima o sopro poético daquele seu falecido mestre:


                            introito


          não somos a fonte
          nem o rio
          mas a sede,
          o desejo do permanecer
          e do louvor
          corre em nós como o rio
          e a fonte
          nunca passaremos do átrio
          o santo dos santos sobre que se detêm
          os nossos pés
          é a vida misteriosa de Deus


          a hora é para suspirar,
          para louvar,
          para pedir a água eu irrigava o Templo
          e no batismo nos introduziu
          no mistério de sermos hoje o templo do Espírito


         II


          Nós somos o corpo que o Amor reúne
          nós procuramos todos um colo onde repousar
          dos trabalhos e dos dias,
          do desamor e das trevas
          que também nos assaltam
          e nos tolhem


          nós procuramos a paz e o perdão
          sem disfarces nem armas


          que a misericórdia de Deus nos cubra
          neste momento de graça e de perdão


   Creio mesmo, Princesa de mim, que estes versos do frei José Augusto, já falecido, são todos os dias repetidos pelo papa Francisco e por todos aqueles que, sem ambições nem narcisismos, vão procurando achegar-se a essa presença do amor misericordioso, bem maior do que algo a que se possa chamar sagrado, pois é o próprio Deus em comunhão connosco.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

"SUA FRATERNIDADE" O PAPA FRANCISCO NO IRAQUE

 

1. Era a viagem mais arriscada do seu pontificado. Mas Francisco foi, porque era um “dever”, repetiu no avião a caminho do Iraque, país onde nunca tinha estado um Papa.


Precisava de ir, e havia quatro razões e objectivos essenciais: fazer uma reparação, visitar uma Igreja martirizada, aprofundar o diálogo inter-religioso, contribuir para a reconstrução do Iraque.


1.1. O que João Paulo II fez para tentar impedir a invasão do Iraque, mas sem êxito! O que é facto é que, com base numa mentira, a invasão e a guerra em 2003 atiçaram ainda mais o incêncio dos horrores. Um erro fatal! Francisco também disse: “Venho como penitente”.


1.2. Francisco encontrou-se com o ayatollah Ali al-Sistani, a maior autoridade xiita no Iraque, que vive numa casa modesta, num bairro pobre de Nayaf e que, contra as regras se levantou humildemente para saudar Francisco. Foi um encontro a sós. Apesar de não ter havido um documento comum (pode vir mais tarde) como o assinado por Francisco e o Grande Imã de Al-Azhar, o egípcio Ahmad al-Tayyeb, a maior autoridade sunita, “Documento pela Fraternidade Humana”, foi um gesto histórico, pois aprofunda o diálogo com o outro ramo do islão. Num encontro que durou uns 50 minutos, segundo um comunicado oficial, o líder muçulmano afirmou que os “os cristãos no Iraque devem poder viver em paz e segurança”. O Papa “destacou a importância da colaboração e amizade entre as comunidades religiosas para que, cultivando o respeito mútuo e o diálogo, possamos contribuir para o bem do Iraque, da região e de toda a Humanidade.” Ambos apelaram à fraternidade.


Também realizou o sonho que João Paulo II não pôde realizar, viajando até Ur dos Caldeus, onde, segundo a tradição, nasceu Abraão, pai dos crentes: judeus, cristãos e muçulmanos. Reuniu–se aí com representantes das várias religiões do país e proclamou bem alto: “Hostilidade, extremismo e  violência não nascem de um espírito religioso; são traições à religião. Nós, crentes, não podemos calar-nos quando o terrorismo abusa da religião”. “Hoje rezamos por todos os que padeceram sofrimentos horríveis e por todos os que ainda se encontram desaparecidos e sequestrados. E rezamos para que em toda a parte se respeite a liberdade de consciência e a liberdade religiosa, que são direitos fundamentais.”


1.3. Foi ali, ao lado, em Antioquia da Síria, que, segundo os Actos dos Apóstolos, os discípulos de Jesus foram pela primeira vez chamados cristãos. O cristianismo esteve presente na Mesopotâmia desde o começo. Em 2003, ainda eram 1,5 milhões. Actualmente, serão uns 270 mil. Com indizível alegria deles, o Papa foi visitá-los — perguntavam: “Mas ele vem mesmo?!”. Se Jesus fosse hoje ao Iraque, seria entendido, pois há cristãos que ainda falam aramaico, a língua materna de Jesus.


O Papa, com uma inaudita coragem, foi e, logo à chegada, pediu aos católicos para se não deixarem contaminar pelo “vírus do desânimo”. Agradeceu-lhes a força da sua fé. Aos pastores pediu isso: “Sejam pastores, servidores do povo e não administradores públicos”.


Reservou o dia 7, Domingo, para os cristãos e a perseguição a que estiveram sujeitos pelo Estado Islâmico no norte. Esteve em Mossul, onde em 2014 os jihadistas declararam o califado e onde ainda hoje a destruição é terrivelmente visível.  Aqui, disse, “saltam à vista as trágicas conequências da guerra e das hostilidades”. “Como é cruel que este país, berço de civilizações tenha sido atingido por uma tempestade tão desumana, com antigos lugares de culto destruídos e milhares e milhares de pessoas, muçulmanas, cristãs, yazidis, cruelmente aniquidas, deslocadas à força, mortas.” Seguiu para a martirizada Qaraqosh, onde centenas  participaram na oração do Angelus. “Não estais sós”. Em Erbil, celebrou a Missa final, com 10.000 fiéis, na qual Francisco se declarou feliz: “A Igreja continua viva”. Pediu aos cristãos força para perdoar: Cristo “revigora-nos para sabermos resistir à tentação de procurar vingança, que nos mergulha numa espiral de retaliações sem fim”. E garantiu-lhes: “O Iraque ficará sempre comigo, no meu coração.”


1.4. O Iraque é berço de civilizações e religiões. Logo à chegada, na presença das autoridades, sublinhou a riqueza da diversidade e apontou o programa de futuro: “Só se conseguirmos olhar-nos entre nós, com as nossas diferenças, como membros da mesma família humana, poderemos começar um processo efectivo de reconstrução e deixar às gerações futuras um mundo melhor, mais justo e mais humano”, e fez uma defesa cerrada da “diversidade religiosa, cultural e étnica que caracterizou a sociedade iraquiana durante milénios” e que “é um recurso valioso a aproveitar, não um obstáculo a eliminar”.  E Barham Saleh, o presidente do Iraque: “Não podemos imaginar um Oriente sem cristãos.”


2. Em Mossul, Francisco clamou: “Se Deus é o Deus da vida, e é, não nos é lícito matar os irmãos em seu nome. Se Deus é Deus da paz, e é, não nos é lícito fazer a guerra em seu nome. Se Deus é o Deus do amor, e é, não nos é lícito odiar os irmãos.”


Conheceu o pai de Aylan, o menino sírio curdo que apareceu afogado numa praia da Turquia fugindo do Estado Islâmico e cuja imagem na praia comoveu o mundo. Foi no final da visita, que tinha como lema: “Sois todos irmãos”. 


Faz parte do protocolo dirigir-se ao Papa assim:  “Santidade”. No caso de Francisco, é mais realista e evangélico, sugere o teólogo González Faus, dirigir-se-lhe como “Fraternidade”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 13 MAR 2021

O PAPA FRANCISCO E O DESPORTO. 3

 

Os jornalistas da Gazzeta dello Sport perguntaram-lhe se tinha pensado em escrever uma encíclica sobre o desporto. Francisco: “Explicitamente não, mas há muitos elementos dispersos nas minhs intervenções, sugerindo, por exemplo, como o desporto pode ajudar ou pelo menos dar um contributo para a globalização dos direitos. A cada quatro anos há os Jogos Olímpicos, que podem servir de farol para os navegantes: a pessoa no centro, a pessoa orientada para o seu desenvolvimento, a defesa da dignidade de todas as pessoas. Contrfibuir para a construção de um mundo melhor, sem guerras nem tensões, educando os jovens através do desporto praticado sem discriminações de nenhuma espécie, num espírito de amizade e de lealdade.”


Jogos Olímpicos.
“O lema olímpico: “Citius, Altius, Fortius” (Mais veloz, Mais alto, Mais forte) é belíssimo. Com os cinco círculos e a chama olímpica é um dos símbolos dos Jogos. Não é um convite à supremacia de uma equipa sobre a outra, ainda menos a uma espécie de incitamento ao nacionalismo. É uma exortação aos atletas, para que tendam a trabalhar sobre si mesmos, superando de modo honesto os seus limites, em ordem a construir algo de grande, sem se deixar bloquear por eles. Tornou-se uma filosofia de vida: o convite a não aceitar que alguém assine a vida por nós.”


Dos Jogos Olímpicos fazem parte integrante “os Paraolímpicos, uma das formas mais altas de igualdade, dignidade, redenção”. Francisco: “No desporto, agrada-me a ideia de inclusão. Aqueles cinco anéis entrelaçados, com cores diferentes e representando as cinco partes do mundo, são uma imagem fantástica de como o mundo poderia ser. O movimento paralímpico é preciosíssimo: não só para incluir a todos, mas também porque é a oportunidade para contar e dar direito de cidadania nos média a histórias de homens e mulheres que fizeram da deficiência a arma da redenção. São histórias que fazem nascer histórias, quando todos pensam que já não haveria nenhuma história para contar.”


Mas os negócios rondam a maravilha e a beleza do desporto, fazendo-lhe perder a alma
. “O atleta é um mistério fascinante, uma obra-prima de graça, de paixão. Mas é facílimo transformá-lo num objecto, uma mercadoria que gera lucro. Na Fratelli Tutti, quis tornar claro que o mercado só não resolve tudo, embora a cultura de hoje pareça fazer-nos crer a todo o custo neste dogma de fé neoliberal. Isto acontece quando o valor económico faz lei, tanto no desporto como em tantos outros sectores da nossa vida. Vimos, nos últimos meses, como a pandemia tornou claro que nem tudo se resolve com a liberdade do mercado.”


Aqui, nesta crise, permita-se-me uma reflexão pessoal. A nossa palavra escola vem do grego scholê, que significa ócio (do latim otium), não no sentido de preguiça, mas de tempo livre para pensar, pesar razões, reflectir sobre o essencial. Desgraçadamente, hoje parece que tudo se trasformou em negócio (do latim nec-otium, negação do ócio). O resultado está à vista. Até o desporto, que pode e deve ser uma escola de vida, se tornou negócio, um gigantesco espaço de negócios, com imensa corrupção pelo meio.


Por detrás de um campeão há um treinador.
Treinar é um pouco como educar? Francisco: “Sim. No momento da vitória de um atleta, quase nunca se vê o treinador. Mas, sem treinador, não nasce um campeão, um treinador que invista tempo, que saiba entrever possibilidades que nem o atleta imaginaria. Não basta, porém, treinar o físico; é preciso saber falar ao coração, motivar, corrigir sem humilhar. Quanto mais genial for o atleta mais delicado tratar com ele: o verdadeiro treinador, o verdadeiro educador sabe falar ao coração de alguém que nasce campeão.”


O segredo para competir no campeonato da santidade?
Francisco: “Que faz um jogador quando é convocado para um jogo ou um atleta antes de uma competição? Deve treinar, treinar, treinar um pouco mais. A cada um Deus deu um campo no qual jogar a sua vida; sem treino, até o mais talentoso continua a ser um perdedor. Para treinar — até um Papa tem de continuar a treinar —, perguntar a Deus todos os dias: ‘Que queres que eu faça?, que queres da minha vida?’ Pedir a Jesus, confrontar-se com ele como treinador.”


O segredo da vitória
. Francisco: “Penso que, se perguntássemos a qualquer desportista o segredo último das suas vitórias, mais de um nos diria que vence porque é feliz. E a felicidade é a consequência de um coração em ordem, em estado de graça, pronto para o desafio.”


Um sã competição pode ajudar também o espírito a amadurecer?
Francisco: “São Paulo escreveu aos Coríntios: ‘Não sabeis que, nas corrida no estádio, todos correm, mas só um conquista o prémio? Correi também vós de modo a conquistá-lo’. É um belíssimo convite a entrar no jogo, para não olhar o mundo pela janela.”


A Igreja e o desporto
. “A Igreja sempre alimentou um grande interesse pelo mundo do desporto. Podemos dizer que no desporto as comunidades cristãs identificaram uma das gramáticas mais compreensíveis para falar com os jovens.” O desporto contribui para um desenvolvimento saudável e harmónico.


Votos para 2021
. “O meu desejo é muito simples, exprimo-o com as palavras escritas numa camiseta que me foi oferecida: ‘Mais vale uma derrota limpa do que uma vitória suja.’ Desejo isto para toda a gente, não só para o mundo do desporto. É a forma mais bela de jogar a vida com a cabeça erguida. Que Deus nos conceda dias santos. Por favor rezem por mim, para que não desista de treinar com Deus.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 23 JAN 2021

O PAPA FRANCISCO E O DESPORTO. 2

 

O Papa Francisco é popular, também porque se assume como vindo do povo. Ele sabe da vida. Os pais eram imigrantes italianos na Argentina. Para pagar os estudos, trabalhou como guarda-nocturno de bares. Exerceu como técnico químico, pois os primeiros estudos foram de Química. Desde miúdo jogou à bola e afeiçoou-se ao desporto. E aí está agora com a "encíclica laica" - "Lo sport secondo Papa Francisco", in: La Gazzetta dello Sport, 2 de Janeiro, 2021 - sobre o desporto e o seu significado na e para a vida. Não é visível que o desporto arrasta multidões e que a dimensão lúdica é constitutiva do ser humano?


O desporto pode e deve ser uma grande escola de virtudes. Mais: a vida é um grande jogo, é mesmo o jogo decisivo, pois nele decide-se a própria vida. O jogo da vida está presente em todos os jogos, pois o que em todos os jogos se joga, também nos jogos económicos e políticos, é a vida. Quem perde e quem ganha? Quais são as regras e os critérios para este jogo? Quem é o árbitro definitivo que vai julgar a vida de cada um, julgar as histórias e a História?


1 A bola de trapos e o guarda-redes. 
Francisco recorda o seu tempo de miúdo e a alegria com que ia com a família ao "Gasómetro", o estádio do San Lorenzo, de que ainda continua adepto e fã. Lembra-se de modo especial do campeonato de 1946, quando o seu San Lorenzo ganhou. "Recordo os dias que passei a ver os futebolistas a jogar e a felicidade nos nossos rostos, a adrenalina no nosso sangue. E tenho outra recordação, a da bola de trapos: éramos pobres, mas ela bastava para nos divertirmos e quase fazer milagres jogando na pequena praça perto de casa. Em miúdo gostava do futebol, mas eu não era dos melhores, pelo contrário, chamavam-me 'perneta'. Por isso, punham-me sempre na baliza. Mas ser guarda-redes foi para mim uma escola de vida. O guarda-redes tem de estar pronto para responder a perigos que podem vir de todos os lados. Também joguei basquete, o que me deu prazer também."


2
 Diego Maradona. Diz Francisco: "Encontrei-o por ocasião de um jogo a favor da Paz em 2014. Recordo com prazer tudo o que fez pela Scholas Ocurrentes, a fundação que se ocupa dos necessitados em todo o mundo. No campo, era um poeta, um grande poeta que deu alegrias a milhões de pessoas, tanto na Argentina como em Nápoles. Também era um homem muito frágil. Tenho uma recordação pessoal do Campeonato do Mundo de 1986, que a Argentina ganhou graças a Maradona. Estava em Frankfurt a estudar, só soube da vitória contra a Alemanha no dia seguinte. Recordo isso como a vitória da solidão, pois era o único argentino e não tinha ninguém com quem celebrar a alegria da vitória: a solidão faz que te sintas realmente só, porque o que torna bela a alegria é poder partilhá-la."


Permita-se-me que lembre o que aqui escrevi recentemente sobre Maradona. Um ano antes de morrer, confessou que "não tinha sido exemplo para ninguém", voltou à Igreja, pediu paz para o tempo de vida que Deus ainda lhe concedesse.


3 O desporto e a festa.
 O desporto é também festa e celebração, uma espécie de liturgia, de pertença, observou o jornalista. "Sim, o desporto é tudo isso: esforço, motivação, assimilação das regras. E divertimento: penso nas coreografias nos estádios de futebol, nas bandeiras que se agitam, nas trombetas, nos foguetes, nos tambores: é como se tudo desaparecesse e o mundo ficasse suspenso naquele instante. Quando é bem vivido, o desporto é uma celebração: ali, é o encontro, a gente alegra-se, chora, sente 'pertencer' a uma equipa. 'Pertencer' é admitir que sozinhos não vivemos bem, pertencer é exultar, festejar...". O ser humano é um ser festivo.


4 Ganhar e perder. 
Da dinâmica desportiva fazem parte a vitória e a derrota. "Ganhar e perder são dois verbos que parecem opostos: todos gostam de ganhar, ninguém gosta de perder. A vitória contém uma emoção que é difícil de descrever, mas a derrota também tem qualquer coisa de maravilhoso. Para os que estão habituados a ganhar, é forte a tentação de se sentir invencível: a vitória pode por vezes tornar-te arrogante e levar-te a pensar que já chegaste. Pelo contrário, a derrota favorece a meditação: leva-nos a perguntar porque é que perdemos, fazemos um exame de consciência, analisamos o trabalho realizado. Por isso, de certas derrotas nascem grandes vitórias, porque, uma vez identificado o erro, acende-se a sede de redenção. Eu diria que os que ganham não sabem o que estão a perder. Não é só um jogo de palavras. Perguntem aos pobres."


5 Não desistir. 
"A tua desistência é o sonho do teu adversário: desistir é entregar-lhe a vitória. É sempre um risco: '"E se tivesse resistido mais uns instantes?!' Também é verdade que há dias em que é melhor continuar a lutar e outros nos quais é sábio deixar perder. A vida assemelha-se a uma guerra: pode-se perder uma batalha, mas a guerra, não. Um homem não morre quando é derrotado: morre quando desiste, quando deixa de combater."


6
 Exercícios espirituais. Há relação entre os Exercícios Espirituais e o treino desportivo? "Quando Santo Inácio escreveu os Exercícios, fê-lo pensando na sua história passada de soldado, feita de formação, exercícios, treinos. Intuiu que o espírito, como o corpo, deve ser treinado. Mais: exercitar-se requer disciplina, os exercícios são bons mestres. Exercitar-se para a bondade, para a beleza, para a verdade: ocasiões nas quais a pessoa pode descobrir dentro de si recursos inesperados. Que, depois, utiliza."

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 JAN 2021