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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ENCONTROS PARA A HISTÓRIA

 


1. “Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o seu nome seja usado para matar e aterrorizar as pessoas”.

 

Quando li este passo no “Documento sobre a Fraternidade Humana” a favor da paz mundial e da convivência humana, assinado no início desta semana em Abu Dhabi, pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al Azhar, Ahmed al-Tayeb, lembrei-me da mesma afirmação que há anos ouvi ao então Bispo de Nampula e que transcrevi na abertura do livro que coordenei, “D. Manuel Vieira Pinto. Cristianismo: Política e Mística”:  “Porque é que Você, que é Bispo, quando vem falar comigo, nunca me fala de Deus e da religião, mas do povo, da defesa dos seus direitos e da sua dignidade?”, perguntou o Presidente Samora Machel a D. Manuel Vieira Pinto. “Porque um deus que precisasse da minha defesa seria um deus que não é Deus. Deus não precisa que O defendam. O Homem sim.”, respondeu D. Manuel.

 

Este é um princípio decisivo para quem queira estar na religião/religiões com dignidade: Deus não precisa que O defendam; as pessoas sim. Porque é isso que Deus quer, o seu único interesse são as pessoas. Já Santo Ireneu o disse: “Gloria Dei homo vivens”: a glória de Deus é o homem vivo, realizado, pleno, feliz. Quantas vezes a pretensa defesa de Deus e da sua glória levou à humilhação, ao espezinhamento, à brutalidade sobre outros homens, a guerras, a terrorismos... Em nome de Deus!

 

2. De 3 a 5 deste mês de Fevereiro, quando se celebram os 800 anos do encontro entre Francisco de Assis e o sultão Al-Malik, o Papa Francisco, recebido com as maiores honras de Estado pelo príncipe herdeiro de Abu Dhabi, esteve nos Emiratos Árabes Unidos para uma visita que também fica para a História. Dois acontecimentos fundamentais ocuparam as 48 horas da visita: promover e fortalecer o diálogo inter-religioso, especialmente com os muçulmanos, e uma Missa para os católicos, que serão uns 900.000 no país.

 

2.1. É nos Emiratos Árabes Unidos, que o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, definiu como “uma ponte entre Oriente e Ocidente bem como uma terra multicultural, multiétnica e multirreligiosa”, que tem a sua sede o Conselho Muçulmano de Anciãos ou Conselho de Sábios Muçulmanos, um grupo internacional que visa combater o fanatismo religioso e que é presidido pelo Grande Imã da Mesquita e Universidade islâmica do Cairo Al Azhar. Foi a seu convite que se realizou o encontro inter-religioso sob a designação de “Fraternidade Humana”.

 

Francisco, que já na vídeo-mensagem enviada ao povo dos Emiratos advogara o “respeito pela diversidade”, foi contundente no seu discurso programático durante o encontro inter-religioso: “Ou construímos o futuro juntos ou não haverá futuro”. Onde se fundamenta a fraternidade? Claro: no Deus criador, que “quer que vivamos como irmãos e irmãs, habitando na casa comum da criação que Ele nos deu”; portanto, “temos todos a mesma dignidade” e “ninguém pode ser senhor ou escravo dos outros”. A fraternidade implica igualdade e diferença e, assim, ao mesmo tempo que elogiou “a coragem da alteridade” lembrou o pressuposto da “identidade própria”: identidade e alteridade co-implicam-se, exigindo o reconhecimento do outro como igual e diferente, com direitos fundamentais, entre os quais, o da liberdade religiosa, que “se não limita só à liberdade de culto,  pois vê no outro um verdadeiro irmão, um filho da minha própria humanidade que Deus deixa livre e que, portanto, nenhuma instituição humana pode forçar, nem sequer em seu nome”. “A coragem da alteridade é a alma do diálogo”, que tem também a sua base na oração: “feita com o coração, a oração é regeneradora de fraternidade”; com elas —oração e fraternidade —, construiremos o futuro juntos.

 

O símbolo da viagem papal era a pomba com o ramo de oliveira, símbolo bíblico da paz. Por isso, disse que, sendo a tarefa das religiões construir pontes, elas precisam, como a pomba, de duas asas para voar: a educação e a justiça. A educação, para “formar identidades abertas”, em ordem a afastar o ódio, dialogar e “defender os direitos dos outros com o mesmo vigor com que se defende os seus”. A outra asa é a justiça, justiça universal. “Que as religiões sejam a voz dos últimos, que não são estatísticas mas irmãos, e estejam do lado dos pobres.”

 

Francisco elogiou o país que o acolheu como exemplo de inclusão, que quereria ver reproduzido “em toda a amada e nevrálgica região do Médio Oriente”, para a qual pediu “oportunidades concretas de encontro”: “uma sociedade onde pessoas de diferentes religiões tenham o mesmo direito de cidadania”. Suplicou a “desmilitarização do coração”, porque “a guerra só sabe criar miséria e as armas nada mais do que a morte”. Citou o Iémen, a Síria, o Iraque, a Líbia. Concluiu, convidando à não rendição perante “os dilúvios da violência e da desertificação do altruísmo”. “Deus está com o homem que procura a paz. E do Céu abençoa cada passo que, neste caminho, se realiza na Terra.”

 

Foi também neste encontro que foi publicado o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, já referido. Uma Declaração verdadeiramente histórica, elaborada ao longo de um ano de diálogos e debates entre Al Azhar e o Vaticano até alcançar a sua redacção final. “Em nome de Deus, Al Azhar al-Sharif, com os muçulmanos de Oriente e Ocidente, e a Igreja Católica, com os católicos de Oriente e Ocidente, declaram assumir a cultura do diálogo como caminho, a colaboração comum como conduta, o conhecimento recíproco como método e critério”. “Pedimos a nós mesmos e aos líderes do mundo, aos artífices da política internacional e da economia mundial, que nos comprometamos seriamente para difundir a cultura da tolerância, da convivência e da paz, intervir o mais depressa possível para parar o derramamento de sangue inocente e pôr fim às guerras, aos conflitos, à degradação ambiental e à decadência cultural e moral que o mundo vive actualmente.” De facto, “entre as causas mais importantes da crise do mundo actual estão uma consciência humana anestesiada e um afastamento dos valores religiosos, a que se junta o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas”. Para a explicação das raízes do terrorismo niilista, o Documento insiste na “deterioração da ética, que afecta a acção internacional, e na debilitação dos valores espirituais e do sentido da responsabilidade”, elementos que favorecem a frustração e o desespero, “levando muitos a cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico ou no fundamentalismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego”.

 

De modo mais concreto, declara-se veementemente que “as religiões por si nunca incitam à guerra, à violência ou derramamento de sangue. Estas desgraças são fruto do desvio dos ensinamentos religiosos, da utilização política das religiões e também das interpretações de grupos religiosos que abusaram do sentimento religioso nos corações dos homens para levá-los a realizar algo que não tem nada a ver com a verdade da religião, mas com alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes.” Exige-se, portanto, uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados. As outras condições em ordem à paz entre as religiões e os povos são o respeito pelos direitos humanos, entre os quais sobressai o da liberdade religiosa e a cidadania plena: “A liberdade é um direito de toda a pessoa: todos gozam da liberdade de crença, de pensamento, de expressão e de acção. O pluralismo e a diversidade de religião, cor, sexo, raça e língua são expressão de uma sábia vontade divina.” “O conceito de cidadania plena baseia-se na igualdade de direitos e deveres sob cuja protecção todos desfrutam da justiça. Por isso, é necessário comprometermo-nos em estabelecer na nossa sociedade o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório da palavra minorias, que arrasta consigo as sementes de sentir-se isolado e inferior, prepara o terreno para a hostilidade e a discórdia e retira os direitos religiosos e civis de alguns cidadãos, ao discriminá-los.”

 

Al Azhar e a Igreja Católica consideram de tal importância esta Declaração que “exigem que este Documento seja objecto de investigação e reflexão em todas as escolas, universidades e institutos de educação e formação”, esperando que se transforme num “símbolo do abraço entre Oriente e Ocidente, entre o Norte e o Sul.”

 

3. Como já referido, há nos Emiratos cerca de 900.000 cristãos, sendo a quase totalidade constituída por imigrantes (filipinos, indianos, paquistaneses, do Sri Lanka, Bangladesh e outras nacionalidades), que vieram para trabalhar. Assim, outro acontecimento histórico foi a celebração da Missa no estádio Zayed, na qual participaram, dentro e fora do estádio, 150.000 pessoas de 45 nacionalidades, incluindo 5.000 muçulmanos. Vários bispos concelebraram, entre eles os Patriarcas do Oriente, nomeadamente o do Líbano e o do Iraque — este, cardeal L. R. Sako, lembrou que “houve um tempo em que éramos 20% da população, mas o número desceu repentinamente e hoje somos à volta de 2%”, esperando que esta visita do Papa ajude também a situação dos cristãos iraquianos.

 

Foram horas de indescritível entusiasmo e de recolhimento e profunda oração. O Evangelho foi o das Bem-aventuranças. E ficaram estas palavras da homilia papal: “Não é fácil viver longe de casa. Mas o Senhor está perto e caminha ao nosso lado.” “Olhemos para Jesus: não deixou nada escrito, não construiu nada imponente. E, quando nos disse como devemos viver, não nos pediu que ergamos grandes obras ou que nos destaquemos pela realização de façanhas extraordinárias. Pediu-nos que levemos a cabo uma só obra de arte, ao alcance de todos: a obra de arte da nossa vida”. No final da celebração, saudou cordialmente todos os participantes: “fiéis caldeus, coptas, greco-católicos, greco-melquitas, latinos, maronitas, sírio-católicos, siro-malabares, siro-malankares”. E, como sempre: “Não vos esqueçais de rezar por mim”.

 

4. Há quem acuse Francisco de se deixar manipular pelo mundo islâmico. Será assim? É claro que a Igreja Católica não está no mesmo nível que Al Azhar nem o Papa no mesmo nível que o Grande Imã. O diálogo não pode ser unidireccional. É verdade que, apesar de toda a cordialidade indesmentível da recepção, mesmo os Emiratos Árabes Unidos são um Estado no qual o islão é religião oficial; ora, sem laicidade, não se evitará a “capitis diminutio”, isto é, a não cidadania plena dos cidadãos que não têm aquela religião. E também é verdade que se denuncia mais a islamofobia do que a cristianofobia, embora o cristianismo seja hoje a religião mais perseguida...

 

Mas o que é facto é que foi a primeira vez que um Papa visitou um país da Península Arábica, berço do islão, e que celebrou a primeira Missa pública na história da Península. Francisco ousou denunciar os horrores da guerra do Iémen na qual os Emiratos  também estão implicados e fez apelos aos líderes políticos islâmicos a favor do respeito pelos direitos fundamentais de todos e, nomeadamente, o da liberdade religiosa. E é indizível a alegria dos cristãos que puderam encontrá-lo. E deu-se mais um passo para a paz e para a tolerância entre as pessoas.

 

Pequeno? Mas um passo, que todos os beneficiários agradecerão e que Deus abençoa.

 


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 9 FEV 2019

DO PANAMÁ PARA PORTUGAL

 

1. Nesta sua presença de 5 dias nas Jornadas Mundiais da Juventude no Panamá, o Papa Francisco também visitou um centro de detenção de jovens, que é modelar, pois, com a ajuda de assistentes sociais, psicólogos e peritos de várias especialidades, prepara os jovens para a sua integração na sociedade, sendo também obrigatória a sua participação em cursos de formação profissional e de desenvolvimento humano. Francisco animou-os: “Que ninguém vos diga nunca: ‘não vais conseguir’. Deus não vê rótulos nem condenações, vê filhos.”

 

Foi ali que um jovem preso contou ao Papa a sua história: que desde pequeno sempre sentira um vazio interior, a falta de um olhar carinhoso de pai; um dia, encontrou esse olhar em Deus, mas, depois, caiu e agora encontrava-se ali cumprindo uma pena; e disse-lhe, do fundo do seu contentamento, que havia de ser um grande chefe. Francisco ouviu com atenção e carinho, como só ele sabe escutar. E o jovem comentou enternecida e admirativamente: “... Que alguém como você tenha arranjado tempo para ouvir alguém como eu, um jovem privado da liberdade!... Não sabe a liberdade que sinto neste momento!” O jesuíta Diego Fares comentou: “Talvez tenha que ser um preso para valorar quem o Papa é e o que faz.”

 

Ao longo desta sua viagem, Francisco encontrou-se com políticos, bispos, padres, religiosos e religiosas, fez discursos para as centenas de milhares de jovens, vindos de 155 países, mas encontrou tempo para escutar a história deste rapaz e assim escreveu mais um capítulo da sua encíclica, que não é de palavras, mas de gestos, encíclica que dá sentido a todas as suas encíclicas e discursos. Jesus também assim procedeu.

 

2. Neste contexto, Francisco tem autoridade para falar duro aos bispos. Arremetendo contra “o funcionalismo e o clericalismo eclesial, tão tristemente generalizado e que representa uma caricatura e uma perversão do ministério”, pediu-lhes conversão. Invocando o exemplo do bispo Óscar Romero, assassinado e recentemente canonizado por ele, atirou: “Não inventámos a Igreja, ela não nasce connosco e continuará sem nós. Uma Igreja autosuficiente não é a Igreja de Deus. É importante, irmãos, que não tenhamos medo de nos aproximar e de tocar as feridas da nossa gente, que também são feridas nossas, e fazê-lo segundo o estilo do Senhor. O pastor não pode estar longe do sofrimento do seu povo; mais: poderíamos dizer que o coração do pastor se mede pela sua capacidade de se deixar comover perante tantas vidas doridas e ameaçadas.”

 

A Igreja de Cristo “não quer que a sua força esteja no apoio dos poderosos ou da política”, a sua força vem-lhe do Crucificado”. A Igreja de Cristo “é a Igreja da compaixão, e isso começa por casa, pelos sacerdotes, pelos fiéis, e o que não podemos delegar é ‘o ouvido’, o que não podemos delegar é a capacidade de escutar”; os bispos devem, em primeiro lugar, ouvir os seus padres, e “é importante que o padre encontre no bispo o pai, o pastor em quem se revê e não o administrador que quer ´passar revista às tropas’.” “No pastor, a autoridade radica especialmente em ajudar a crescer, em promover os seus padres, mais do que em promover-se a si mesmo: promover-se a si mesmo fá-lo um solteirão”.

 

E, lembrando o acontecimento das Jornadas, chamou a atenção dos bispos para “irem ao encontro e aproximar-se ainda mais da realidade dos nossos jovens, cheia de esperanças e desejos, mas também profundamente marcada por tantas feridas”. Os jovens “levam com eles uma inquietação que devemos valorar, respeitar, acompanhar, e que tão bem nos faz a nós todos porque desinstala e recorda-nos que o pastor nunca deixa de ser discípulo e está a caminho. Como não agradecer ter jovens inquietos pelo Evangelho!”, acrescentou. “Exorto-vos a que promovais programas e centros educativos que saibam acompanhar, apoiar e potenciar os vossos jovens; ‘roubai-os’ à rua antes que seja a cultura de morte, ‘vendendo-lhes’ fantasias e soluções mágicas, a apoderar-se e a aproveitar a sua imaginação. E fazei-o, não com paternalismo, de cima para baixo, porque isso não é o que o Senhor nos pede, mas como pais, como irmãos para irmãos.” “Há lares alquebrados tantas vezes por um sistema económico que não tem como prioridade as pessoas e o bem comum e que fez da especulação o seu ´paraíso’, a partir do qual continuar a ‘engordar’, sem se importar à custa de quem, e, assim, os nossos jovens sem lar, sem família, sem comunidade, sem pertença, ficam à intempérie do primeiro vigarista.”

 

3. Evidentemente, o centro tinha de ser ocupado pelos jovens. Francisco conhece bem as suas dificuldades e os seus dramas e, por isso, já na mensagem de preparação das Jornadas lhes tinha dado ânimo. “Convido-vos a todos a olhar para dentro de vós próprios e a ‘dar nome’ aos vossos medos. Perguntai-vos: hoje, na situação concreta que estou a viver, o que é que me angustia, o que é que mais temo? Porque é que não tenho a coragem de abraçar as decisões importantes que deveria tomar?”. Continuou: “O medo nunca deve ter a última palavra, mas ser ocasião para realizar um acto de fé em Deus... e também na vida. Isto significa acreditar na bondade fundamental da existência que Deus nos deu, confiar que ele conduz a um fim bom, mesmo através de circunstâncias e vicissitudes muitas vezes misteriosas para nós.”

 

Logo à chegada, nas boas vindas, avisou: “O cristianismo não é um conjunto de verdades nas quais se tem de acreditar, de leis que se tem de cumprir ou de proibições. Assim, é repugnante. O cristianismo é uma Pessoa que me amou tanto que reclama e pede o meu amor. O cristianismo é Cristo e é amar com o mesmo amor com que ele nos amou.” E, utilizando linguagem digital, ele que não tem computador nem smartphone, como lembrou A. Tornielli, director dos média do Vaticano: A mensagem de Cristo “não é uma salvação armazenada na ‘cloud’ (nuvem) nem uma aplicação descarregável”; “a vida não espera ser descarregada, não é uma ‘aplicação’ nova a descobrir, a salvação é uma história de amor que se entretece com as nossas histórias.” Quanto às redes sociais alertou: “As redes servem para criar vínculos, mas não raízes, são incapazes de nos dar pertença, de fazer-nos sentir parte de um mesmo povo.”

 

No final da Via-Sacra, Francisco fez um reflexão sobre “o caminho de sofrimento e solidão” que Jesus já padeceu e que “continua nos nossos dias”. “Ele caminha e sofre em tantos rostos que sofrem a indiferença satisfeita e anestesiante da nossa sociedade que consome e se consome, que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos.” A via-sacra da Humanidade prolonga a de Jesus “no grito sufocado das crianças que se impede de nascer e de tantas outras às quais se nega o direito de ter uma infância, família, educação, que não podem brincar, cantar; nas mulheres maltratadas, exploradas e abandonadas, despojadas e coisificadas na sua dignidade; nos olhos tristes dos jovens que vêem arrebatadas as suas esperanças de futuro pela falta de educação e trabalho digno; na angústia de rostos jovens que caem nas redes de gente sem escrúpulos — entre elas também se encontram pessoas que dizem servir-te, Senhor, redes de exploração, de criminalidade e de abuso, que se alimentam das suas vidas; na espiral de morte por causa da droga, do álcool, da prostituição e do tráfico; na dor oculta e indignante daqueles que, em vez de solidariedade por parte de uma sociedade repleta de abundância, encontram rejeição, dor e miséria, e mais: são tratados como os portadores e responsáveis por todo o mal social; na resignada solidão dos velhos abandonados e descartados; no grito da nossa mãe Terra, numa sociedade que perdeu a capacidade de chorar e comover-se perante a dor.”

 

Pediu aos jovens que continuem a sonhar e que sejam os “influencers do século XXI”: “ser ‘influencers’ no século XXI é ser guardiães das raízes, guardiães de tudo aquilo que impede que a nossa vida se torne gasosa, se evapore no nada. Sede guardiães de tudo aquilo que nos permite sentirmonos parte uns dos outros. Que pertencemos uns aos outros.” Avisou: “Não se está a dar raízes e alicerces à juventude”. “Sem educação, é difícil sonhar com um futuro. Sem trabalho, é muito difícil ter futuro, família e estar em comunidade.”

 

4. Já de regresso ao Vaticano, deu, como é hábito, uma conferência de imprensa no avião.

 

4.1. Renovou o pedido suplicante de “uma solução justa e pacífica” para a situação dramática da Venezuela, “respeitando os direitos humanos e desejando exclusivamente o bem de todos os seus habitantes”. E preveniu para o risco da violência: “O que mais me custa? O derramamento de sangue, e aí também peço grandeza aos que podem ajudar a resolver o problema”.

 

4.2. Quanto à cimeira anti-pedofilia, com os Presidentes de todas as Conferências Episcopais do mundo, convocada para os dias 21-24 de Fevereiro em Roma, disse que deve ser, em primeiro lugar e essencialmente, uma tomada de consciência da tragédia, “uma catequese para que se tome consciência do drama que é uma menina ou um menino abusados. Eu recebo com regularidade pessoas abusadas, e recordo uma que passou 40 anos sem conseguir rezar. É terrível o sofrimento.” Como disse, durante as Jornadas, Alessandro Gisotti, director de imprensa da Santa Sé, “A questão dos abusos está no centro, no coração e na mente de Francisco”, que quer que se adopte, durante a próxima cimeira de bispos, “medidas concretas” para combater esta “terrível chaga”. “Será uma ocasião sem precedentes para enfrentar, como dissemos muitas vezes, o problema e encontrar realmente medidas concretas para que, quando os bispos regressem de Roma às suas dioceses, possam combater este flagelo da Igreja.”

 

4.3. Francisco também foi dizendo que é contra o fim da lei do celibato obrigatório: “Pessoalmente, creio que o celibato é um dom à Igreja e eu não estou de acordo com a permissão do celibato opcional.” Mas está aberto à possibilidade, que está a ser estudada, de ordenar homens casados que deram e dão exemplo de maturidade humana e cristã. Como tenho escrito aqui, estou convencido de que isso vai tornar-se realidade já no Sínodo sobre a Amazónia, em Outubro próximo. Quanto à lei do celibato e ao seu fim, também estou convencido de que é uma questão de tempo. Francisco também saberá disso, mas está como João Paulo II: “Eu sei que os padres hão-de vir a poder casar, mas isso não acontecerá no meu pontificado.”

 

5. Já após o anúncio de que a sede das próximas Jornadas será Portugal, Francisco agradeceu a todos, sobretudo aos jovens: “A vossa fé e alegria fizeram vibrar o Panamá, a América e o mundo inteiro. Somos peregrinos, continuai a caminhar, continuai a viver a fé e a partilhá-la; vós, queridos jovens, não sois o futuro nem o ‘entretanto’, mas o agora de Deus. Peço-vos que não deixeis esfriar o que vivestes durante estes dias.” Uma expressão belíssima, plena de sentido: sois “o agora” de Deus.

 

Em 2022, pensa-se que poderão participar 2 milhões de jovens de todo o mundo no acontecimento com mais representatividade de sempre em Portugal, precisamente as Jornadas Mundiais da Juventude. Reunidos na alegria da juventude, da festa, do encontro de culturas e histórias diferentes, estabelecendo pontes — o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o Patriarca de Lisboa Manuel Clemente lembraram concretamente as pontes com o mundo lusófono, sobretudo na África, o único continente que ainda não recebeu as Jornadas —, sabem que o ponto de confluência e união é a fé em Jesus Cristo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 3 FEV 2019

DESAFIOS PARA FRANCISCO

 

Perante uma das mais graves crises de sempre da Igreja, o desafio maior para Francisco continuará a ser tentar converter a cristãos os católicos, começando pela cúpula: cardeais, bispos, padres, religiosos e religiosas. Essa conversão implicará uma organização eclesial na linha do Evangelho.

 

 O próximo ano será marcado por acontecimentos decisivos para se saber qual o lugar que a História reservará a Francisco:  um Papa da continuidade ou o  Papa da ruptura que se impõe.

 

1. Em Fevereiro, reunião em Roma com os Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo sobre a pedofilia. Ter-se-á a coragem de tomar medidas que acabem com essa podridão estrutural na Igreja? Vão ser abertos os arquivos para ficar a claro por uma vez tudo o que tem acontecido? E serão devidamente sancionados, colaborando também com a justiça civil, os abusadores e os encobridores? E para a formação dos novos padres: mais presença feminina e testes de maturidade, também com peritos credenciados de saúde mental?

 

2. Em Março, será aprovada a nova Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana, Governo central da Igreja. Continuará o centralismo ou haverá uma Constituição democrática, de comunhão, com representação de todos, incluindo as mulheres, e das Igrejas locais do mundo, superando o dualismo clero-leigos a substituir pela relação viva: comunidade-ministérios (serviços)?

 

3. O Sínodo sobre a Amazónia em Outubro: ocasião para aumentar a consciência ecológica global e avançar com novos ministérios, incluindo a ordenação de homens casados?

 

4. Em Janeiro, na Jornada Mundial da Juventude no Panamá: o anúncio da próxima Jornada em Portugal em 2022, com o regresso do Papa ao país, constituirá um novo impulso para reanimar a Igreja em Portugal, que parece continuar paralisada?

 

Ano novo 2019 bom e feliz!

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 29 DEZ 2018

FRANCISCO EM PEQUIM?

 

1. A perseguição aos cristãos foi particularmente feroz durante a Revolução Cultural no tempo de Mao. Mas a situação está a mudar de modo rápido e surpreendente. Desde 1976, com a morte de Mao, as igrejas começaram a reabrir e há quem pense que a China poderá tornar-se mais rapidamente do que se julgava não só a primeira potência económica mundial mas também o país com maior número de cristãos. “Segundo os meus cálculos, a China está destinada a tornar-se muito rapidamente o maior país cristão do mundo”, disse Fenggang Yang, professor na Universidade de Purdue (Indiana, Estados Unidos) e autor do livro Religion in China. Survival and Revival under Communist Rule (Religião na China. Sobrevivência e Renascimento sob o Regime Comunista). Isso “vai acontecer em menos de uma geração. Não há muitas pessoas preparadas para esta mudança assombrosa”.

 

Cresce sobretudo a comunidade protestante. De facto, a China tinha apenas um milhão de protestantes. Em 2010, já tinha mais  de 58 milhões. Segundo Yang, esse número aumentará para cerca de 160 milhões em 2025, o que faria com que a China ficasse à frente dos Estados Unidos. Em 2030, a população cristã total da China, incluindo os católicos, superará os 247 milhões, acima do México, Brasil e Estados Unidos. “Mao pensava que poderia acabar com a religião. E julgava ter conseguido”, diz Yang. “É irónico pensar que o que fizeram foi fracassar completamente.”

 

A situação parece preocupar as autoridades chinesas, que, por outro lado, não quererão 70 milhões de cristãos como inimigos.

 

2. Os católicos serão uns 12 milhões. Desde 1951 que a China não tem relações diplomáticas com o Vaticano. Mas o Governo chinês felicitou Bergoglio a seguir à sua eleição como novo Papa e exprimiu o desejo de que, sob o pontificado de Francisco, o Vaticano “elimine os obstáculos”, para uma aproximação. Francisco declarou por várias vezes não só o seu apreço pelo povo chinês como o seu desejo de visitar Pequim. Por exemplo, disse aos jornalistas: “Estamos próximos da China. Enviei uma carta ao Presidente Xi Jinping quando foi eleito, três dias depois de mim. E ele respondeu-me. Há contactos. É um grande povo do qual gosto muito.” E que está à espera de um sinal para uma visita.

 

O que é facto é que, aquando das viagens de Francisco à Ásia, a China, pela primeira vez, abriu o espaço aéreo para que um Papa pudesse sobrevoá-la. Não se pode esquecer que Francisco é jesuíta e que o jesuíta Matteo Ricci, cujos conhecimentos científicos deixaram o imperador deslumbrado, juntamente com Marco Polo são os dois estrangeiros recordados por Pequim entre os grandes vultos da China. Aliás, a inculturação do cristianismo na cultura e religião chinesas poderia ter-se dado nos séculos XVI-XVII, por influência precisamente do génio de Ricci, não fora a cegueira do Vaticano, que interveio desgraçadamente, impedindo essa síntese entre o Evangelho e a cultura milenar chinesa.

 

3. Francisco é um jesuíta da estirpe de Ricci, que admira: o processo da sua beatificação avança e a frase “venho dos confins do mundo” será citação de Ricci, que dizia ter passado a vida nos “confins do mundo”. Francisco é também considerado um “animal político”, que sabe de geoestratégia, acompanhado pelo secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, um diplomata de primeira água, como disse o Papa, no regresso da sua viagem aos países bálticos, respondendo às perguntas dos jornalistas sobre o acordo assinado dias antes entre o Vaticano e Pequim: “o Secretário de Estado que é um homem muito devoto, o cardeal Parolin, que tem também uma especial devoção pela observação. Estuda todos os documentos, até nos pontos, nas vírgulas e acentos. Isto dá-me uma segurança muito grande.” Foi um acordo que durou anos de negociações e é sabido que, acrescentou o Papa, “quando se faz um acordo de paz ou uma negociação, as duas partes perdem alguma coisa. Esta é a lei. As duas partes, e continua-se. E isto continuou. Dois passos para a frente, um para trás, dois para a frente, um para trás. Depois, passaram meses sem falarmos e depois chegou o tempo de falar, à maneira do tempo chinês, lentamente. Esta é a sabedoria, a sabedoria dos chineses.” Não houve improvisação, mas um caminho que durou a percorrer “mais de dez anos”.

 

Francisco fez questão de sublinhar que assumiu a total responsabilidade pelo que se passou: “Fui eu que assinei o acordo.” Em que consiste esse acordo de 22 de Setembro passado? Antes, havia a Igreja Patriótica, com bispos nomeados pelo Governo, e a Igreja clandestina, com bispos nomeados e fiéis ao Papa. Agora, “há um diálogo sobre eventuais candidatos. A coisa faz-se em diálogo, mas quem nomeia é Roma, o Papa. Isto é claro.” Há uma consulta entre os fiéis para o candidato a bispo, o Governo aprova, mas o Papa tem o direito de veto, havendo neste caso a necessidade de encontrar outro candidato.

 

Sucede, pois, que o Papa reconheceu sete bispos da Igreja Patriótica, que ficaram, em igualdade com os outros, em comunhão com o Papa. É compreensível que alguns bispos e muitos católicos que foram perseguidos e tiveram de viver na clandestinidade se tenham sentido um pouco traídos e sofram. Para esses Francisco teve também uma palavra: “Penso na resistência, nos católicos que sofreram. É certo, e sofrerão, num acordo, há sempre sofrimento, mas eles têm uma fé grande, e escrevem, fazem chegar mensagens. Sim, a fé martirial desta gente avança. São grandes.” E, numa alusão a Viganó, que o acusou na célebre carta bem conhecida, Francisco contou: “Quando saiu aquele famoso comunicado de um ex-núncio, os episcopados do mundo inteiro escreveram-me, dizendo de modo claro que se sentiam próximos, que rezavam por mim... Os fiéis chineses também escreveram e a assinatura desse escrito era do bispo, digamos, da Igreja tradicional católica e do bispo da Igreja Patriótica, os dois juntos e os fiéis juntos com eles. Para mim foi um sinal de Deus. Rezamos pelos sofrimentos de alguns que não entendem ou que têm às suas costas muitos anos de clandestinidade.”

 

O primeiro resultado visível deste acordo provisório é a presença no Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a decorrer em Roma, de dois bispos da República Popular da China: um da Igreja tradicional e outro da Igreja Patriótica. Na Missa de abertura do Sínodo, ao referir os seus nomes, um nomeado por Bento XVI e outro que pertencia à Igreja Patriótica, Francisco comoveu-se: “Hoje, pela primeira vez, estão também aqui connosco dois irmãos bispos da China continental. Demos-lhes as nossas afectuosas boas vindas: graças à sua presença, a comunhão de todo o episcopado com o Sucessor de Pedro é ainda mais visível.”

 

4. Poderia Francisco culminar o seu pontificado com uma visita à China? No quadro da reconfiguração geoestratégica daquela região — pense-se nos encontros entre o Presidente Donald Trump e o Presidente Kim Jong-un, no convite deste ao Papa para uma viagem à Coreia do Norte, nas próximas viagens de Kim a Seul e a Moscovo, na visita próxima do Presidente da China, Xi Jinping a Pyongyang... — e da importância deste acordo sobre um tema que era a principal razão de conflito entre Pequim e o Vaticano, não se pode excluir essa possibilidade ou até, diz-se, probabilidade.

 

Mas haverá ainda outro longo caminho a percorrer. O bispo de Hong Kong, Michael Yeung, apoiou — “Eu disse: Santo Padre, avance, não tenha medo, mas seja cauteloso” — e apoia este acordo com a China, mas adverte: “Não creio que a assinatura deste acordo provisório signifique a solução de tudo. É preciso tempo, um par de anos, para ver.” Acrescentou que “um acordo provisório não poderia ter parado a opressão” dos católicos chineses por parte do regime comunista nem tão-pouco “ter evitado que as igrejas sejam destruídas” ou que “os jovens sejam proibidos de ir à Missa”. “Estas coisas exigirão tempo para serem resolvidas”. De qualquer forma, pede que daqui em diante o Vaticano vele especialmente por duas coisas: os clérigos “clandestinos” encarcerados por Pequim e a liberdade religiosa.

 

Uma questão maior. Como é sabido, para o estabelecimento de relações diplomáticas, a República Popular da China pressiona todos os Estados para que cortem relações com Taiwan. Ora, a Santa Sé continua a reconhecer Taiwan e o Vaticano é mesmo o único aliado que Taiwan tem na Europa. John Hung Shan-chuan, arcebispo de Taipé, declarou em relação ao acordo: “Estamos felizes pelo progresso das relações, fomos informados antes”, e acrescentou: “O que vemos é que pela primeira vez o partido comunista está a abanar. Eles dizem que não querem que poderes estrangeiros se metam no seu país, mas desta vez permitiram-no. E isso é um bom sinal, embora não saibamos quais serão as consequências no futuro. Mas não estamos preocupados, porque o Papa disse-nos que não nos ia abandonar nem prejudicar Taiwan. Pedimos-lhe isso e sabemos que como bom pastor não nos vai abandonar”.

 

Neste enquadramento, a Presidente de Taiwan convidou oficialmente o Papa a visitar a ilha, que tem 300.000 católicos, aproximadamente 1, 5% da população. E os dois bispos chineses que estiveram no Sínodo — foi a primeira vez — convidaram o Papa a visitar o seu país, a República Popular da China. Para que a visita se concretize, será necessário um convite formal de Pequim.

 

Imediatamente a seguir, neste passado dia 18, o Papa Francisco recebeu, como previsto e como escrevi aqui na semana passada, o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, que lhe transmitiu oralmente, a pedido de Kim Jong-un, o convite para visitar a Coreia do Norte.  Depois do encontro, o porta-voz presidencial sul-coreano, Yoon Young-chan, declarou que “o Papa disse: ‘Darei uma resposta incondicional, se me chegar um convite oficial e puder ir’”. Já em relação ao convite para visitar Taiwan, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, confirmou, no mesmo dia, o convite, mas “posso afirmar que essa visita do Santo Padre não está a ser estudada”, disse.

 

Questões da diplomacia, imensas e complexas.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 20 OUT 2018

FRANCISCO EM PYONGYANG?

 

A notícia chegou completamente inesperada e surpreendente: o Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, será portador de um convite formal do Presidente Kim Jong-un ao Papa Francisco para que visite o seu país, a Coreia do Norte. E está preparado para recebê-lo em Pyongyang “com entusiasmo”.

 

A Coreia do Norte ocupa hoje o primeiro lugar na lista dos países onde os cristãos são mais perseguidos. Nos princípios do século XX, a capital, Pyongyang, foi chamada “a Jerusalém do Oriente” ou “a Jerusalém da Ásia”. Na Coreia do Norte,  em 1950 viviam ainda mais de 55.000 católicos, com 57 igrejas construídas, com missionários, escolas católicas e actividades pastorais florescentes. A perseguição tinha começado antes, mas acentuou-se com a guerra da Coreia e o brutal regime instalado: as igrejas foram arrasadas, os cristãos, católicos e protestantes, mortos ou enviados para campos de concentração, num processo de eliminação de qualquer presença religiosa. As comunidades católicas tornaram-se verdadeiramente a “Igreja do silêncio”. Hoje existe apenas uma igreja católica, construída em 1988, mas sem padre nem religiosos nem baptismos. Na capital, os católicos  serão uns 800 e, dispersos por toda a Coreia do Norte, uns 2 ou três mil; no entanto, é convicção de padres do Sul, que estiveram no Norte, que o número pode ser muito superior: haverá muitos homens e mulheres que continuam a viver a sua fé em Cristo de modo  íntimo, sem possibilidade de exprimi-la publicamente. O regime é ateu, mas, a partir de 1989, com a queda do bloco comunista, reconheceu uma “Associação Católica” e uma “Federação Cristã”, que são duramente enquadradas e controladas pelo Governo. Alguns contactos informais têm tido lugar em Roma entre representantes norte-coreanos e diplomatas do Vaticano, revela o jornal La Croix, que também escreve que em 2017 um diplomata norte-coreano declarou expressamente a um seu enviado especial à Coreia do Norte que “as organizações humanitárias católicas faziam um trabalho muito bom na Coreia do Norte; são sérias, eficazes e nós confiamos, pois são mais honestas e sinceras do que outras grandes organizações laicas que nos enviam espiões”.

 

Como reagirá o Papa Francisco ao convite? Ele vai receber no próximo dia 18 o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, um católico fervoroso, que lhe entregará o convite oficial do líder norte-coreano. Nesse dia, o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, um diplomata reconhecido e prestigiado internacionalmente, celebrará uma Missa na Basílica de São Pedro pela “Paz na península coreana”, na qual participará o presidente Moon.

 

Possivelmente o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, é o grande artífice da presente situação cada vez mais distendida na península coreana, no quadro de uma nova ordem, que poderia estar inclusivamente a caminho de uma união entre as duas Coreias; para um dos encontros inter-coreanos convidou também o presidente da Conferência Episcopal Coreana, que esteve presente. O convite do líder norte-coreano ao Papa surge no contexto dessa reconfiguração geoestratégica, estando previsto que Kim Jong-un visite Seul, visitando também proximamente Moscovo, ao mesmo tempo que se espera uma visita do presidente chinês,  Xi-Jinping, a Pyongyang, e outro encontro entre Kim e Donald Trump poderá acontecer em breve. Por outro lado, Kim, que é sabido ser um ditador cruel e que poderia correr o risco de uma sublevação por parte da população esfomeada, quererá mudar a sua imagem, agora uma imagem de homem pacífico; e que solução melhor para isso do que o convite a Francisco, líder político-moral global e símbolo do combate a favor do diálogo e da paz?

 

E se Francisco fosse visto em Pyongyang? Ele visitou a Coreia do Sul em Agosto de 2014. Aquando da cimeira histórica entre Trump e Kim a 12 de Junho passado em Singapura repetiu os  vários apelos que tem feito a favor da paz entre as duas Coreias.  O cardeal Andrew Yeom Soo-Jung, arcebispo de Seul, declarou a propósito do convite: “Dá-me satisfação e conforta-me saber que, durante a sua visita ao Vaticano na próxima semana, o Presidente Moon Jae-in levará consigo a mensagem do líder norte-coreano Kim Jong-un, que deseja convidar o Papa Francisco para Pyongyang. O Santo Padre preocupou-se sempre e preocupa-se com a paz na península coreana e incluiu nas suas orações os coreanos sempre que houve acontecimentos importantes na história recente. Espero que estes esforços ajudem a construir uma paz genuína na península da Coreia. Sobretudo como administrador apostólico de Pyongyang, rezo sinceramente para que em breve possamos enviar sacerdotes e religiosos e religiosas para o Norte e celebrar juntos os Sacramentos.”

 

Francisco tem a convicção de que o futuro do cristianismo se joga em grande parte na Ásia. Está prevista uma viagem sua ao Japão no próximo ano e não se deverá esquecer que este convite vem também na sequência do acordo de 22 de Setembro passado entre o Vaticano e Pequim sobre a nomeação em conjunto dos bispos da República Popular da China. Este acordo será o tema da minha próxima crónica.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 13 OUT 2018

PENSANTES E NÃO PENSANTES

 

Imersos numa crise sem precedentes da Igreja Católica, que está longe de terminar, retomo, na substância e com a devida vénia, um texto que escrevi para o livro “Portugal Católico. A beleza na diversidade”.

 

1. Quando cheguei à Universidade, admirava-me com o espanto de estudantes e até de professores por causa do meu pensar interrogativo no que se refere à religião. No entanto, I. Kant tinha razão ao escrever que a religião, apesar da sua majestade, não pode ficar imune à crítica. Só uma Igreja autocrítica e que acolhe a crítica da sua realidade tantas vezes tenebrosa pode criticar as infâmias do mundo.

 

Julgo que continua em Portugal a ideia de que o católico na Igreja está infectado por uma fé dogmática, imóvel e incapaz de pensamento aberto e crítico. A pergunta é: Quem assim pensa estará enganado? Infelizmente, parece-me que não. De facto, quando se pensa nas feridas deixadas pela Inquisição, que tolheu a abertura do pensar, e num clero frequentemente inculto, que se deixou ultrapassar pelo mundo moderno — ouça-se as homilias de grande parte dos padres, impreparadas, inúteis ou mesmo prejudiciais —, fica-se com a convicção de que a Igreja se imobilizou num mundo do dogma repetitivo de uma doutrina que já não é aliciante para a vida e que, pelo contrário, transformou o Evangelho, notícia boa e felicitante, em Disangelho, notícia infeliz e de desgraça, para utilizar a palavra de Nietzsche. Drama maior: a modernidade acabou por ter de impor à Igreja oficial o que é património e herança do Evangelho: os direitos humanos, a liberdade, a igualdade, a separação da Igreja e do Estado.

 

No entanto, a Primeira Carta de Pedro manda “dar a razão da fé e da esperança”. E é M. Heidegger que tinha razão, ao dizer que “o perguntar é a piedade do pensamento”. Job — está na Bíblia — atreveu-se a fazer perguntas de protesto a Deus e Deus louvou-o por isso. Jesus morreu a rezar, com uma pergunta que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?” E é preciso aceitar que há perguntas sem resposta ou para as quais o crente não tem resposta, como reconhece o Papa Francisco. 

 

O ser humano é constitutivamente o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, chega ao infinito, perguntando ao Infinito pelo Infinito, isto é, por Deus. É aqui que encontra fundamento a dignidade humana. Finitos e mortais, levamos connosco a capacidade de perguntar ao Infinito pelo Infinito e a sua existência, independentemente da resposta que se dê à pergunta. Isso significa que temos algo de infinito em nós, precisamente essa capacidade. Finitos, somos da ordem do infinito. Por isso, temos dignidade e somos fim e não meio, como é próprio do infinito: para lá do infinito não há mais nada. Lá está Ernst Bloch, o ateu religioso, na sua pedra tumular: “Denken heisst überschreiten” — “Pensar significa transcender”.

 

2. O Evangelho explicita os dois princípios que devem presidir à reforma que se impõe na Igreja, ao “definir” Deus como Agapê, Amor incondicional, e, logo no início do Evangelho segundo São João, ao dizer que no princípio era o Logos (Verbo, Palavra, Razão, Sentido), o Logos estava em Deus e o Logos era Deus e tudo foi criado pelo Logos. Os dois princípios que têm de animar os católicos, começando por aqueles a quem foi entregue a missão de presidir à Igreja, comunidade de comunidades espalhadas pelo mundo todo, são, portanto: o Amor, a Bondade, e a Razão, a Inteligência. A bondade sem inteligência não abre caminhos novos e pode causar imensos estragos irreparáveis; a inteligência sem a bondade pode tornar-se cruel e fazer um sem número de vítimas.

 

É neste fundo que se percebe claramente a urgência impreterível da renovação da teologia. O jesuíta Jorge Costadoat chamou a atenção para esta necessidade, ao constatar que talvez nunca como hoje, desde os inícios do cristianismo, a Igreja precise tanto de se pensar a si própria teologicamente no seu respectivo mundo. Uma tarefa gigantesca. De facto, o que acontece é que a teologia não tem ajudado a Igreja na sua entrada numa nova época, o que deriva também das sucessivas condenações de teólogos, de tal modo que a teologia que os ambientes eclesiásticos consideram a melhor é realmente “muitas vezes a pior”. Daí, o fosso entre a Igreja “oficial” e o mundo e mesmo o comum dos baptizados, a ponto de “não se saber exactamente quem tem real autoridade para orientar os outros”: o poder formal sabe-se quem o tem, mas o problema é a autoridade, inexistente, para orientar. “O que se constata é que a distância da Igreja em relação à cultura — a cultura predominante e as diversas culturas —, é crescente. A actual configuração histórica e cultural da Igreja não suporta tantas e tão aceleradas mudanças. Este foi já o diagnóstico do Concílio Vaticano II há 50 anos. Hoje, a tensão é muito maior”.

 

Uma coisa sabemos: primeiro, é a necessidade da conversão ao Deus de Jesus, ao amor e à misericórdia, que o Papa Francisco encarna. Esta é a direcção correcta e o rumo certo e necessário. “Mas, continua Costadoat, a caridade cristã acerta verdadeiramente quando exige e depende de uma articulação da fé e da razão. Uma caridade infantil e piedosa nunca deve ser menosprezada, mas também não deve ser mistificada. A caridade de que hoje precisamos requer ser pensada e reflectida em todos os planos da vida humana, e a nível político e planetário”. E isso exige uma teologia que não seja mera teologia de teologia, isto é, comentário de comentários, no quadro de uma ortodoxia empacotada e repetida ad nauseam de modo caduco, estéril e, por isso, prejudicial. Impõe-se a necessidade de uma teologia viva e que “tenha a coragem que tem o próprio Francisco de tentar e de equivocar-se”. A teologia com uma tarefa pendente tem de ser “teologia que se confronta com hipóteses e interpretações de uma realidade cada vez mais difícil de compreender; que se situe historicamente e pense a sua missão numa cultura em transformação variada, muitas vezes disparatada, e incessante. O que se requer é uma conversão teológica de 180 graus. A teologia ocupou-se da revelação de Deus no passado; a teologia de que agora se precisa deveria concentrar-se na fala de Cristo no presente. Sem uma teologia deste tipo, que atenda também à pluralidade cultural, a proposta evangelizadora está a naufragar”.

 

O Papa Francisco tem dado o exemplo. Não só não condenou teólogos como pede pensamento teológico novo na liberdade de pensar e de expressão, tendo ele próprio avançado com dois textos essenciais, que farão história: a Laudato si’ sobre a salvaguarda da criação, a humanidade no cosmos, e a Amoris laetitia, uma visão nova sobre a sexualidade, o casamento e a família.

 

3. A Igreja tem de dialogar com humildade e sem medo com as ciências, com todos, incluindo os agnósticos e os ateus. Diálogo, como diz a etimologia, é o logos comunicante, a razão comunicativa. Homem de diálogo, o cardeal jesuíta Carlo Martini, que dizia que a Igreja anda atrasada duzentos anos, criou em Milão a Cátedra dos Não-Crentes e, reportando-se a um pensamento de Norberto Bobbio, dizia: “o que me interessa é a diferença entre pensantes e não pensantes. Quero que todos vós sejais pensantes. Depois, escutarei as razões de quem crê e as de quem não crê”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 6 OUT 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

    Como prometido, vamos então descontraidamente procurar pistas que nos guiem num passeio histórico pelas institucionalizações humanas, mais ou menos ideológicas, "políticas", sempre canónicas, desse corpo místico cuja cabeça é Jesus Cristo, e é, no mundo, conhecido por assembleia ou Igreja dos seus fiéis ou batizados. Pelo Novo Testamento é esse povo, por Cristo, com Cristo e em Cristo, o único sacerdote.

 

   Para frei (e cardeal) Yves Congar, a Igreja inicial, ou dos Apóstolos, continua no período dos mártires (não esqueças, Princesa, que mártir quer dizer testemunha) até à paz constantiniana (1ª metade do século IV); segue-se-lhe o período dito "monástico", de que te falei em carta anterior, que mantém o princípio da autoridade episcopal como fator de união, em osmose com a comunidade dos cristãos e com carácter acentuadamente carismático ou espiritual. Período definido até ao século XI. Volto a citar-te São Cipriano (2ª metade do século III): Tenho por regra, desde o inicio do meu episcopado, nada decidir sem o vosso conselho (de padres e diáconos) e sem o sufrágio do povo, algo que fosse só da minha opinião pessoal... E traduzo o comentário de Yves Congar:

 

   De facto, todo o povo eclesial, e especialmente os leigos, intervinha na eleição dos bispos e na designação dos ministros, nos concílios aonde levavam informações, e, finalmente, na criação dos costumes pelos quais as próprias comunidades regulavam em grande parte as suas vidas. Contribuição tanto melhor acolhida quanto, apesar de bem estruturada canonicamente, a Igreja primitiva se queria dócil às intervenções do Espírito Santo. Ora, é do agrado de Deus dar a conhecer a sua vontade através do mais pequenos ou menos considerados...

 

   Pergunto-nos, Princesa de mim, se, na atual instituição clerical da Igreja Católica, não acabaremos por estar mais próximos da igreja senhorial, a da classe social chamada "primeiro estado" na nomenclatura sociopolítica medieval (clero, nobreza e povo, lembras-te?), do que da inicial Igreja dos Apóstolos, já que com tanta pujança se mantém o uso - pode dizer-se o costume, a consuetudo - das designações dos ministros dos fiéis (diáconos, presbíteros e epíscopos, sejam bispos ou arcebispos) como títulos honoríficos e até graus de uma carreira de honras clericais. Assim, continuam a ser nomeados bispos ou arcebispos de dioceses desaparecidas, clérigos nomeados para funções (que, por vezes, nem pastorais são) na cúria vaticana ou, até, junto a entidades estranhas à Igreja. Esquece-se que diácono, padre, bispo ou arcebispo não são patentes nem sequer graus hierárquicos, são designações de prestadores de serviços das comunidades eclesiais. Ou, dito de outra maneira: no povo de sacerdotes que são os batizados, escolhem-se ou elegem-se (como é, claramente, o caso do bispo de Roma ou papa) pessoas preparadas para o exercício de certas funções da palavra, do culto, dos sacramentos. O conceito - e a respetiva prática socio-eclesial - de uma classe de batizados de primeira (também erradamente chamados, a meu ver, consagrados) gerou a praga do clericalismo, que é sentimento de si e atitude de presumida superioridade de quem pensa deter e poder dispor do poder divino na terra, sobretudo o de absolver erros e pecados, declarar nulidades, ou mesmo ainda o de, no passado, se terem pregado e justificado guerras religiosas. Parece-me indispensável erradicar este mal clericalista... Por isso mesmo penso também que é verdadeiramente justa e digna de louvor a disposição da Igreja denunciar às legítimas instâncias judiciais civis os crimes cometidos pelos seus ministros.

 

   Vai-se alongando esta carta e ainda não cheguei a falar-te de parte do pensarsentir que me inspirou a escrevê-la. Ficará para a seguinte. Todavia, deixa-me dizer-te agora coisas que, creio eu, poderão ajudar a melhor entendermos o que a seguir vier. Sobretudo na medida em que for capaz de te pôr a adivinhar outro rosto de uma Igreja que, sendo mais fiel àquelas que os Apóstolos fundaram, seja também uma comunidade do nosso tempo, mais livre de tantos rebocos e pinturas que lhe foram fazendo, ao ponto de muitas vezes nos esquecermos da sua alma evangélica, para antes a encararmos como uma organização ideológica e jurídica de funcionários do sagrado  -  ou mesmo como um Estado transnacional, com sistema jurisdicional próprio e funcionalismo dispensador de passaportes para o paraíso...

 

   Recorro, uma vez mais, a Congar e ao seu Pour une Église servante et pauvre, livrinho que muitos consideram o "livro-programa do Papa Francisco". Refere-se a um artigo de Chateaubriand, publicado a 5 de Julho de 1824 e citado nas Mémoires d´outre-tombe, que diz assim (traduzo Chateaubriand): O tempo reduziu esta monarquia [a francesa] ao que ela tem de real : em política, já se ultrapassou a idade das ficções; já não se pode ter um governo de adoração, de culto e de mistério : cada qual conhece os seus direitos, nada é possível fora dos limites da razão, e até mesmo o favor, última ilusão das monarquias absolutas, é, como tudo o mais, pesado e apreciado nos dias de hoje. O teólogo e historiador dominicano transpõe assim a inspiração deste trecho:

 

   A sociedade moderna tende a construir-se sobre a razão, não sobre o sagrado. E pergunto se a Igreja operou a crítica correspondente, ou seja, a dessa parte de profano, de imperial, de feudal e de senhorial, que durante tanto tempo não só tolerou como buscou... Já não há Sacro Império, mas muitos títulos e insígnias, muitos cerimoniais ou ritos de visibilidade do seu prestigiado esplendor ficaram na Igreja... Não será já tempo, não haveria benefício nisso, de «sacudir a poeirada imperial que se foi depositando, desde Constantino, no trono de São Pedro?»

O dito é de João XXIII…

 

   Creio que nos será ainda útil respigar e traduzir mais uns trechos de frei Yves Congar, que nos ajudarão a melhor considerar certos aspetos ou facetas da Igreja que, sendo historicamente datados e circunstancialmente explicáveis, tendem muitas vezes a ser apresentados como traços essenciais da tal "Igreja fundada por Cristo"... Vou busca-los a um capítulo que aquele autor dominicano intitulou L’invasion du juridisme:

 

   Se interrogarmos os Padres [os Padres da Igreja, a Patrística] e a liturgia sobre o sentido que dão à Igreja, damos connosco num clima diferente do da eclesiologia moderna, pelo menos da que tem prevalecido nas escolas desde finais do século XVI ou quiçá começos do século XIV e a renovação atual [Vaticano II]. Essa eclesiologia das escolas mais não era do que a versão apologética de um tratado de direito público eclesiástico: só falava de poderes e direitos. Os Padres, a liturgia, falam de Igreja em termos de vida e comunidade espirituais, de Cidade santa, de combate espiritual do espírito contra a carne. Dela falam com os símbolos ou tipos dos patriarcas, de Rahab, a cortesã salva pela fita vermelha que põe à janela e pressagia a fé no sangue de Cristo, de Madalena, a impura que se torna pura, da Virgem Maria, mais feliz por ter acreditado do que por ter gerado Jesus Cristo... É que a Igreja deles é feita do conjunto dos homens que se convertem ao Evangelho. A sua eclesiologia inclui uma antropologia e os meios (sacramentos, regras de vida santa) pelos quais os homens podem viver na comunhão com Deus em Jesus Cristo.

 

... A alta Idade Média, e os grandes escolásticos, são ainda largamente tributários de tal perspetiva... Mas, pelo final do século XI, impõe-se a reforma gregoriana (de Gregório VII, papa): ... para operar a necessária conversão do clero, libertando-o do mal do nicolaísmo (incontinência) e sobretudo da simonia [transação comercial de bens religiosos] pela retirada da Igreja da sujeição a poderes laicos, reforçando a autoridade do papado e, consequentemente, a ação deste.

 

    Desta conjuntura surgirá necessariamente a procura e elaboração de um ordenamento jurídico da sociedade eclesial, donde o desenvolvimento do direito canónico cuja proeminência se revelará, por exemplo, no facto de que, após Alexandre III (papa de 1159 a 1181) e por dois séculos, quase todos os papas terem sido juristas, não apenas canonistas mas também doutores in utroque jure, isto é em direito romano e eclesiástico. Escreve frei Ivo:

 

   Esse desenvolvimento, essa ascensão do direito serviram sobretudo o papado nos conflitos com as potências seculares, conflitos esses que cobrem todos os «séculos de fé»: são os séculos da «cristandade», ou seja, esses em que, idealmente, os dois poderes são como os dois braços de um mesmo corpo, dois «ministérios» de uma única sociedade cristã...   ... É no contexto da luta do papa contra o imperador Henrique IV que se situa essa palavra de Gregório VII: «Ecclesia non est ancilla sed domina», "a Igreja não é serva mas senhora". Palavra que se deve entender em relação com o contexto histórico (tratava-se de sacudir a tutela, ou a dominação, da potência temporal), mas que não deixa de ser embaraçosa, por representar, materialmente, o contrário do princípio evangélico: non dominari sed ministrare, "não dominar mas servir".

 

   Aqui te ficam umas pistas para tua reflexão - como também orientam a minha: na verdade, é a todos nós, cristãos batizados, que compete essa abertura ao Espírito Santo para, em comunhão, irmos renovando a face da Igreja...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

OS INIMIGOS DO PAPA FRANCISCO

 

1. No meio desta tragédia da pedofilia do clero, que coloca a Igreja Católica numa crise sem precedentes, e quando se pode erguer a suspeita de que ela é um antro de anormais e pedófilos, parece-me justo esclarecer que, no mundo dos pedófilos, a percentagem dos padres é mínima.

 

Sinceramente, esta constatação não é para mim de modo algum motivo de consolação. Pelo contrário. De facto, este dado só vem confirmar que o número de crianças que sofreram e que sofrem é muitíssimo mais vasto do que aquilo que se poderia imaginar.

 

Depois, os abusos de menores e adultos fragilizados por parte do clero têm uma agravante terrível: as pessoas confiavam, diria que de modo incondicional, nos padres e na Igreja, e foi essa confiança que foi traída. Uma traição que envergonha  os católicos. E a agravar ainda mais a situação: responsáveis, incluindo bispos e cardeais e a Cúria Romana, ocultaram e encobriram estes horrores, porque pensaram que o mais importante era defender e salvaguardar a honra e o prestígio da Igreja enquanto instituição. Evitar a todo o custo o escândalo era a palavra de ordem. Deste modo, o Evangelho foi ferido de modo brutal no seu núcleo, que é colocar a pessoa e a sua dignidade no centro, sobretudo quando se trata de vítimas inocentes. Uma catástrofe moral.

 

Sobre as crianças, há duas palavras essenciais de Jesus no Evangelho, que é necessário continuamente relembrar. A primeira: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus. Quem quiser entrar no Reino de Deus deve ser como elas.” Elas são simples e não discriminam... A outra palavra de Jesus é terrível: “Ai de quem escandalizar uma criança, ai de quem fizer mal a uma criança. Era melhor atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao mar.”

 

2. Causas para este colapso moral são muitas. Mas o Papa Francisco apresenta como principal o clericalismo e, consequentemente, o carreirismo, que ele, desde o princípio, diz que constituem “a peste da Igreja”, sempre em conexão com a Cúria Romana, a corte, de que ele diz que é “a lepra do papado”. Neste contexto, Francisco associa “abusos sexuais, de poder e consciência”. Disse, há uns meses, ao episcopado chileno: “Há uma ferida aberta, dolorosa, e até agora foi tratada com um remédio que, longe de curar, parece tê-la aprofundado mais na sua espessura e dor. Os problemas que hoje se vivem dentro da comunidade eclesial não se solucionam apenas abordando os casos concretos e removendo pessoas. Constituiria grave omissão da nossa parte não aprofundar nas raízes. Essa psicologia de elite ou elitista acaba por gerar dinâmicas de divisão, separação, círculos fechados, que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias nas quais, em vez de evangelizar, o importante é sentir-se especial, diferente dos outros, pondo assim em evidência que nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. Messianismos, elitismos, clericalismos, são todos sinónimos de perversão no ser eclesial.”

 

No seu comentário, Ramón Alario caracteriza estas palavras como “duras, corajosas, clarividentes”, pois mostram que é preciso ir à raiz deste tsunami da pederastia do clero e atacá-la enquanto “problema estrutural”, portanto, para lá da responsabilidade das pessoas concretas. Evidentemente, o celibato imposto tem de ser considerado, mas como parte de uma estrutura clerical muito mais ampla e um dos seus pilares. Alguns dos elementos que fazem parte desta estrutura: “concentração do poder nas mãos da clerezia”, poder hierarquizado e assente na contraposição clérigos/leigos; um poder patriarcal e machista, que exclui as mulheres; a carreira e ascensão no poder fazem-se mediante dois mecanismos complementares: “a obediência e/ou a hipocrisia”; “uma concepção e prática dualista e maniqueia” concretamente em relação à sexualidade; “sobrevalorização do celibatário”, considerado mais perfeito do que o casado, porque mais próximo de Deus; o celibato obrigatório é “uma imposição legal” para poder pertencer a esta classe superior; o clero está à frente de “comunidades reduzidas a lugares de culto e serviço religioso à volta do padre, sem voz nem voto nas decisões de base: convertidas em grupos menores de idade...”.

 

Depois, pode dar isto, segundo aquela diatribe dura e melancólica de Nietzsche contra os padres, prevenindo contra a infelicidade, que traz consigo sempre mais infelicidade: “Até entre eles há heróis. Muitos deles sofreram demasiado: por isso, querem fazer sofrer os outros”. Nietzsche, que proclamou a morte de Deus, também deixou escrito, na mesma obra, Assim Falava Zaratustra: “Eu só acreditaria num deus que soubesse dançar”.

 

3. Francisco quer renovar a Igreja, refontalizá-la, levando-a às origens, com o Evangelho de Jesus. Tolerância zero para a pedofilia. Transparência nas contas do Banco do Vaticano. Reforma profunda da Cúria. Uma Igreja fraterna, pobre, em saída para as periferias geográficas e existenciais. Uma igreja viva, que não é museu. Sem clericalismo, capaz de se aproximar dos divorciados recasados, dos homossexuais, que são católicos como os outros (o problema não é ser homossexual, o problema é “o lóbi gay”, diz). Francisco também está próximo dos mais desfavorecidos e critica o capitalismo desenfreado, escreveu uma encíclica, a Laudato Sí, apelando à necessidade de salvaguardar a Terra, criação de Deus e nossa casa comum, e também à necessidade de humanitariedade para com os migrantes e refugiados...

 

Evidentemente, os rigoristas fariseus e os lóbis económicos não gostam e atacam-no ferozmente, acusando-o inclusivamente de heresia.

 

Recentemente, o arcebispo Carlo Maria Viganò, num golpe cobarde e vil, pretendeu acusá-lo de cumplicidade e encobridor. Francisco, naquela sabedoria só dele, disse aos jornalistas que fossem profissionais e cumprissem o seu dever de investigação, e eles cumpriram e a imprensa internacional desmascarou o ex-Núncio Viganó e os seus apaniguados, envolvidos em mentiras e contradições. E a Igreja universal, que queriam ver desunida, tem vindo massivamente a manifestar o seu apoio incondicional a Francisco. Também a Conferência Episcopal Portuguesa o fez.  Para lá dos eclesiásticos, é longa a lista de políticos (incluindo Trump) e figuras públicas que vieram em defesa de Francisco.

 

Quem já anunciava que dentro de semanas ou meses teríamos a renúncia de Francisco e um Papa conservador a suceder-lhe devia saber que ele já preveniu que não sai a pontapé. Como tenho vindo a repetir, estou convicto de que Francisco, nesse encontro admirável de franciscano e jesuíta, não se demite nem se deprime. E não se ficará só com pedidos de perdão e exigência de justiça, incluindo a justiça civil. Até porque é preciso ir mais longe e fundo. Pode vir aí um Sínodo — Francisco está continuamente a falar da sinodalidade da Igreja, que quer dizer necessidade de caminhar juntos e em comum —, um Sínodo enquanto reunião universal de toda a Igreja, com representação de bispos, mas também de padres, de religiosos e de religiosas, da Cúria, de leigos e de leigas, portanto, eles e elas, na devida proporção, sob a presidência do Papa. Para debater esta e muitas outras questões. A que se deve esta tragédia? Como caminhar para estruturas mais democráticas na Igreja? Que novo tipo de padre? Ordenar homens casados? Pôr fim à lei do celibato? Qual o papel das mulheres na Igreja? É legítimo continuar a discriminá-las, contra a vontade de Jesus? O que é que as impede de poderem presidir à celebração da Eucaristia? Que moral sexual? O que é que a Igreja pensa de si mesma, da sua identidade e missão? Como é que deve ir ao encontro da Humanidade actual, com os seus novos problemas, questões de bioética, questões que têm a ver com o transhumanismo e o pós-humanismo, a justiça social, os direitos humanos, o diálogo ecuménico e inter-religioso, a paz num mundo globalizado...

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 8 SET 2018

O equívoco da fé "na" Igreja

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1. É de A. Loisy um dos ditos que, desde o seu pronunciamento, no início do século XX, mais animaram o debate teológico: "Jesus anunciou a vinda do Reino de Deus, mas o que veio foi a Igreja." E é um dito decisivo também para a compreensão em profundidade da tragédia da pedofilia por parte do clero.

 

Quando se recita o credo (a síntese da fé cristã), é necessário estar prevenido contra possíveis alçapões. Vejamos. Diz-se: "Creio em Deus Pai, em Jesus Cristo, no Espírito Santo." Em português também se diz "Creio na Igreja una, santa, católica", como se esta estivesse ao mesmo nível de Deus. Realmente, não pode ser nem é assim. Aliás, o latim faz a distinção essencial, pois diz: "Credo in Deum..."; porém, não diz "Credo in Ecclesiam", mas "Credo Ecclesiam". A diferença essencial está naquele "in": Creio "em" Deus, o que significa: entrego-me confiadamente a Deus, mas não creio "na" Igreja; o que lá está é: em Igreja, isto é, fazendo parte da Igreja como comunidade de todos os baptizados, creio em Deus, em Jesus e espero a vida eterna...

 

Como habitualmente se coloca tudo no mesmo plano, dizendo "creio na Igreja", é fácil interiorizar a ideia de que se acredita na Igreja enquanto instituição, e instituição divina, com todos os enganos e desastres que se sucedem.

 

Jesus queria a Igreja enquanto povo de Deus, não uma Igreja instituição de poder e clerical, com duas classes: de um lado, a hierarquia, o clero, que ensina e que manda em nome de Deus, e, do outro, os leigos, os que obedecem. Veja-se o significado da palavra leigo no linguajar comum: sou um "leigo", com o sentido de incompetente, ignorante. Ou a expressão referida aos padres, quando lhes é retirado o ministério: "foi reduzido ao estado laical", com o sentido implícito de ter perdido o privilégio de clérigo. Na Igreja, segundo Jesus, há ou deveria haver uma igualdade radical e, consequentemente, nela deve reinar a fraternidade, a igualdade e a liberdade. Evidentemente, uma vez que há muitos cristãos e católicos, terá de haver alguma organização, algo institucional, mas a instituição tem de estar ao serviço da Igreja povo de Deus, e não hipostasiar-se, sacralizar-se, dando a si mesma atributos divinos. Aliás, Jesus disse: "Eu vim não para ser servido mas para servir." Na Igreja, há serviços, ministérios.

 

O que se passou e passa é que a hierarquia, padres e bispos, sacralizaram-se, atribuindo-se a si mesmos privilégios sacros ao serviço dos quais estaria o próprio celibato. Eles trazem Cristo à terra na Eucaristia, só eles perdoam os pecados, e formam uma espécie de casta à parte, como diz a própria palavra clero, são ministros, mas ministros sagrados... O padre é alter Christus (outro Cristo). Isso foi de tal modo interiorizado pelo comum dos católicos que há constantemente o perigo da deriva para o clericalismo, como diz o padre Stéphane Joulain, psicoterapeuta: "Considerar que, porque se foi ordenado, se tem direito a uma forma de reverência é um erro, de que alguns não hesitam em abusar... A cultura de um país, a sua história, desempenham um papel nisso: nos Estado Unidos, mas também na África, os leigos encontram-se numa grande submissão aos padres. Alguns fiéis, citados no relatório judicial da Pensilvânia, contam que, quando um padre os visitava, era como se o próprio Deus entrasse em casa..."

 

Mais: neste contexto, também se entende que o perigo máximo consista em defender e proteger a instituição, mesmo à custa daqueles que verdadeiramente deveriam ser defendidos e protegidos: as crianças e os mais frágeis. O encobrimento para defender a Igreja-instituição no seu prestígio!

 

 

2. Perante os escândalos que se sucedem - Irlanda, Chile, Austrália, Estados Unidos... -, o arcebispo de Boston e presidente da Pontifícia Comissão para a Protecção de Menores, cardeal Sean O"Malley, manifestou-se "totalmente envergonhado pelos atrozes fracassos" na sua protecção - "há momentos em que nos faltam as palavras" -, esperando que a Igreja abrace finalmente de verdade a "conversão pastoral", a "transparência legal" e a "responsabilidade pastoral".

 

Neste contexto, o Papa Francisco escreveu uma carta a todo o povo de Deus, co-responsabilizando-o nesta tarefa. Uma carta inédita, sentida, corajosa, leal, na qual condena com "dor e vergonha" as "atrocidades" dos abusos sexuais, denuncia o clericalismo, "peste da Igreja", como uma causa fundamental dos abusos - este "modo desviante de conceber a autoridade na Igreja gera uma cisão no corpo eclesial que encoraja e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos" -, afirma que "as feridas nunca prescrevem" e que os abusos são "um pecado" e um "crime", como sublinhou Greg Burke, o porta-voz do Vaticano, acrescentando que "é preciso que os culpados prestem contas urgentemente, não só os que cometeram esses crimes mas também os que os encobriram, o que em muitos casos inclui os bispos". Para lá das sanções previstas pela Igreja e a colaboração com a justiça civil, Francisco sublinha que é "necessário que cada baptizado se sinta comprometido na transformação eclesial e social de que tanto necessitamos".

 

 

3. Medidas concretas, pois, como justamente se tem afirmado, "não basta a conversão espiritual".

 

O secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, admitiu que os abusos tiveram um "impacto devastador na Igreja". Como o Papa Francisco insiste, "o nosso primeiro compromisso é estar com as vítimas e ajudá-las para que possam reconstruir as suas vidas". Ajudá-las nos vários domínios, ouvindo-as, acolhendo-as, dando-lhes protecção real, apoio psicológico, ajudas materiais...

 

É necessário abrir os arquivos, pois só com a verdade se poderá fazer justiça, justiça para todos, garantindo também a legítima defesa dos acusados.

 

O que se passa na Cúria, com as suas ocultações?

 

Terá de haver lucidez e coragem para pôr fim à lei do celibato obrigatório para os padres. E as mulheres têm de encontrar na Igreja o seu lugar em igualdade com os homens, segundo os ensinamentos e prática de Jesus. Rever o actual modelo de padre e caminhar no sentido de um escrutínio psicológico dos candidatos a padres, como já acontecia a seguir ao concílio. Neste sentido, já há muitos anos, o teólogo e psicanalista Eugen Drewermann, num livro célebre, Die Kleriker (Os Clérigos), escreveu: "O problema da psicologia do estado clerical adquire uma relevância de primeira ordem e apresenta-se, cada dia mais, como o verdadeiro ponto débil da Igreja Católica."

 

 

4. Perante uma das piores crises da história da Igreja, importa refundá-la, indo ao encontro do Evangelho. Na linha da carta de Francisco, apelando à co-responsabilidade de todo o povo de Deus, penso que se deveria convocar um sínodo, com a representação dos bispos de todo o mundo, mas também da Cúria, dos padres, dos religiosos e das religiosas e dos leigos, eles e elas, proporcionalmente ao seu número, sob a presidência do Papa.

 

Como escreveu Joana Petiz a propósito destes escândalos que bradam aos céus, "a Igreja Católica não é isto. Mas enquanto não tomar medidas sérias e exemplares contra aqueles que usam Deus como desculpa para submeterem os mais fracos - precisamente o oposto do que defende a religião - será confundida com isto, com o que de pior existe no mundo."

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 25 AGO 2018

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   No seu texto de apresentação da exposição L´Au-delà dans l´art japonais (Paris, 1963), de que te falava na minha última carta, Seiroku Noma não podia esquecer o monge Mincho (século XIV-XV), pioneiro da utilização da tinta da china na pintura japonesa, e diz: As obras de Mincho e de Josetsu acentuaram o vigor do desenho, como que para mostrar a acuidade da intuição do Zen, e os seus temas foram sobretudo relativos à iluminação. Chama-se Zenki-ga a tal pintura, a palavra Zenki significando qualquer ocasião que provoque a iluminação. A variedade dos assuntos abordados por Shubun, Sesshu e outros artistas mais tardios estendeu-se às paisagens e à representação de flores e pássaros. Essas paisagens não valem apenas pela beleza natural dos sítios, ilustram o que os artistas consideravam ser o quadro puro e calmo conveniente à habitação de um monge Zen. Quando pintavam flores e pássaros, faziam-no para libertar a "budeidade" inerente às plantas e aos animais que, para esses artistas e o seu público, mais não eram do que formas da transmigração das almas. Pela mesma razão vimos surgir, entre esses monges, criadores de jardins...   ... Como o essencial da pintura Zen era surpreender o coração escondido por detrás da complexidade superficial da aparência, ela rejeitou a cor e escolheu o estilo monocromático.

 

   Muito embora também próximo da chamada "linha clara" da banda desenhada europeia, o desenho de Jiro Taniguchi, sobretudo o que ilustra a sua obra intimista, mais espiritual, inspira-se certamente na tradição Zen, quer no que toca a surpreender a alma das plantas, dos animais e das pessoas - e, como ele mesmo confessa, a força dos fenómenos maiores da natureza, incluindo os cataclismos em que ela se revela dura e perigosa -- como na procura da iluminação, isto é, do espírito escondido que anima tudo. Alguém já disse, e creio que muito bem, que Taniguchi tenta desenhar o indizível... Deus cala-se ou, pelo menos, parece calar-se: assim começa um livro do jesuíta Louis Barjon, que consegui desencantar das profundezas da minha biblioteca, a pedido de um velho amigo meu, o frei Eugénio de Paiva Boléo. O título da obra é Le Silence de Dieu dans la Littérature Contemporaine, tenho-o desde os anos 50, quando o comprei em Paris. Pensossinto que poderia, hoje ainda, entender os vários porquês das problemáticas a que o livro acode. Mas com outra distância: a minha convivência local com a cultura dita oriental induziu-me - devo reconhecê-lo - a uma aproximação diferente a questões como a do mal e da culpa, do mundo e do espírito e, sobretudo, da presença de Deus em tudo. Não deixei de ser e pensarsentir-me cristão, mas sê-lo-ei hoje de um modo diferente. O meu pressentimento do Zen japonês, sobretudo pelo que ele me deu de abraço da natureza e do nosso despojamento interior, retornou-me a Mestre Eckhart e a uma mística cristã que desde muito novo me envolve. Os Evangelhos continuam a ser, para mim, as mais comoventes narrativas da literatura mundial, mas quem, como tu, os tem lido e relido, compreenderá melhor o que quero dizer quando afirmo que, depois da minha meditação "oriental", os leio mais simultaneamente à luz de S. João Evangelista e com os olhos e o coração de S. Francisco de Assis.

 

   Todavia analisei muitas arquiteturas teológicas que tentam explicar a boa razão do mal que conhecemos, e até debati a questão, inclusive nas minhas cartas a José Saramago (lembras-te?), tal como escutei o grito angustiado da perplexidade de crentes (o próprio Jesus clamou na cruz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?), assim como a revolta de ateus e agnósticos (pensa no Goetz de Le Diable et le bon Dieu do Jean-Paul Sartre : Est-ce que tu m´écoutes, Dieu sourd?- perante a morte desamparada de Catherine). Mas acabo por me render à evidência do mistério que tudo é para mim. Não entendo, não sei explicar. Faço por me despojar dos meus sentimentos, revoltas e resignações, angústias e euforias. E num silêncio escuro, vácuo, espero o encontro com o indizível, inefável, porque fora do tempo e do espaço das nossas medições. E pensossinto que a minha desinvestidura, despojamento e despedimento de mim, é a porta aberta para a íntima alegria possível: a do acolhimento universal, que é o amor. Até de mim, que em tanto mal tenho comungado e ao bem apenas tenho aspirado. Deus - eis a lição da incarnação, morte e ressurreição de Cristo - está connosco, presente na partogénese da Jerusalém celeste.

 

   Escrevo-te estas linhas ao som das Pièces de Viole, 1701 (Hommage à Mons. de Lully et Mons. de Sainte Colombe) de Marin Marais, excecional compositor de peças para viola da gamba, neste registo tocadas por Jordi Savall. Foi este músico catalão que redescobriu Marais e o seu instrumento antecessor do violoncelo. O mesmo Savall - de quem tantas vezes te falei já - que, há pouco ainda, foi partilhar, com companheiros músicos sérvios, afegãos, africanos, judeus, turcos e outros europeus, sul-americanos, etc., música do mundo, com os refugiados migrantes encerrados na "selva de Calais". O Jordi tem feito diálogo de culturas através da música, e, em Calais mesmo, não tocou só para refugiados em seu ghetto, foi à cidade tocar para os seus habitantes: o objetivo da integração é que cada cultura tenha o seu espaço e fecunde a sociedade pela sua contribuição. A riqueza de um país mede-se pela sua diversidade; as sociedades fechadas tornam-se decadentes, apenas prosperam as que se abrem - disse ele recentemente. E mais adiante: A intensidade dos fluxos migratórios e a falta de uma política de acolhimento eficaz levam os povos a sentirem-se invadidos no seu próprio solo...  ... Por isso toquei também na cidade de Calais, para apresentar aos habitantes aqueles que vivem perto deles. E à pergunta sobre se o Ocidente terá o monopólio da intolerância (a entrevista é atual e francesa), responde: É evidentemente necessário opormo-nos à mentalidade teocrática, à rejeição do incréu que grassa em certos países e é por vezes exportada para os nossos. Mas nós contribuímos, através de intervenções nossas, para a emergência de regimes intolerantes e totalitários, e assim também para a destruição dos países donde vêm esses refugiados. O problema fundamental não é um racismo que fosse exclusivo deste ou daquele povo, mas a incapacidade de muita gente aceitar um autêntico diálogo intercultural, o único que nos permite conhecermo-nos na paz. Ajudando os jovens a apropriarem-se da sua cultura, e a partilhá-la connosco, podemos fazer com que as coisas avancem...   ... É preciso trabalhar naquilo que amamos; se sentirmos que o resultado tem alguma utilidade, tudo muda. É por isso que não toco só nas grandes salas, mas também nos hospitais e nas prisões. Se não levarmos aos jovens a experiência da beleza, dentro de vinte anos estarão vazias as salas de concerto. É preciso trabalhar para o porvir. Sem utopia, não há criação possível.

 

   Antes de assinar esta carta, pensossinto o Papa Francisco (nome profético!) no Egipto, em convívio, sem proteção blindada. O Ernâni que, com o António Luciano, é um dos amigos do coração, com que partilhava afinidades espirituais difíceis de proclamar - e eles eram, noutras coisas, bem diferentes um do outro!  -- acreditava muito na comunhão dos santos. Ambos da minha mesmíssima idade já não precisam de instrumentos de métrica, muito menos de cálculos a prazo. Sabem melhor do que eu o que nos comove no Taniguchi, no Savall, no Francisco, e em todos aqueles que fazem da descoberta e contemplação do mundo e da vida, não pretexto de revolta, medo, culpa, angústia ou depressão, mas razão de amor ativo.

 

Camilo Maria 

P.S.- Esta noite, quebrou-se a seca persistente, choveu como Deus dá. Saí de manhã cedo, extasiei-me à vista da alegria dos campos: toda a vegetação, agradecida, cantava verdura e vida. E lembrei-me do Taniguchi, que tão bem desenhava a graça anímica dos bosques...

Camilo Martins de Oliveira