Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

O PAPA FRANCISCO E O DESPORTO. 3

 

Os jornalistas da Gazzeta dello Sport perguntaram-lhe se tinha pensado em escrever uma encíclica sobre o desporto. Francisco: “Explicitamente não, mas há muitos elementos dispersos nas minhs intervenções, sugerindo, por exemplo, como o desporto pode ajudar ou pelo menos dar um contributo para a globalização dos direitos. A cada quatro anos há os Jogos Olímpicos, que podem servir de farol para os navegantes: a pessoa no centro, a pessoa orientada para o seu desenvolvimento, a defesa da dignidade de todas as pessoas. Contrfibuir para a construção de um mundo melhor, sem guerras nem tensões, educando os jovens através do desporto praticado sem discriminações de nenhuma espécie, num espírito de amizade e de lealdade.”


Jogos Olímpicos.
“O lema olímpico: “Citius, Altius, Fortius” (Mais veloz, Mais alto, Mais forte) é belíssimo. Com os cinco círculos e a chama olímpica é um dos símbolos dos Jogos. Não é um convite à supremacia de uma equipa sobre a outra, ainda menos a uma espécie de incitamento ao nacionalismo. É uma exortação aos atletas, para que tendam a trabalhar sobre si mesmos, superando de modo honesto os seus limites, em ordem a construir algo de grande, sem se deixar bloquear por eles. Tornou-se uma filosofia de vida: o convite a não aceitar que alguém assine a vida por nós.”


Dos Jogos Olímpicos fazem parte integrante “os Paraolímpicos, uma das formas mais altas de igualdade, dignidade, redenção”. Francisco: “No desporto, agrada-me a ideia de inclusão. Aqueles cinco anéis entrelaçados, com cores diferentes e representando as cinco partes do mundo, são uma imagem fantástica de como o mundo poderia ser. O movimento paralímpico é preciosíssimo: não só para incluir a todos, mas também porque é a oportunidade para contar e dar direito de cidadania nos média a histórias de homens e mulheres que fizeram da deficiência a arma da redenção. São histórias que fazem nascer histórias, quando todos pensam que já não haveria nenhuma história para contar.”


Mas os negócios rondam a maravilha e a beleza do desporto, fazendo-lhe perder a alma
. “O atleta é um mistério fascinante, uma obra-prima de graça, de paixão. Mas é facílimo transformá-lo num objecto, uma mercadoria que gera lucro. Na Fratelli Tutti, quis tornar claro que o mercado só não resolve tudo, embora a cultura de hoje pareça fazer-nos crer a todo o custo neste dogma de fé neoliberal. Isto acontece quando o valor económico faz lei, tanto no desporto como em tantos outros sectores da nossa vida. Vimos, nos últimos meses, como a pandemia tornou claro que nem tudo se resolve com a liberdade do mercado.”


Aqui, nesta crise, permita-se-me uma reflexão pessoal. A nossa palavra escola vem do grego scholê, que significa ócio (do latim otium), não no sentido de preguiça, mas de tempo livre para pensar, pesar razões, reflectir sobre o essencial. Desgraçadamente, hoje parece que tudo se trasformou em negócio (do latim nec-otium, negação do ócio). O resultado está à vista. Até o desporto, que pode e deve ser uma escola de vida, se tornou negócio, um gigantesco espaço de negócios, com imensa corrupção pelo meio.


Por detrás de um campeão há um treinador.
Treinar é um pouco como educar? Francisco: “Sim. No momento da vitória de um atleta, quase nunca se vê o treinador. Mas, sem treinador, não nasce um campeão, um treinador que invista tempo, que saiba entrever possibilidades que nem o atleta imaginaria. Não basta, porém, treinar o físico; é preciso saber falar ao coração, motivar, corrigir sem humilhar. Quanto mais genial for o atleta mais delicado tratar com ele: o verdadeiro treinador, o verdadeiro educador sabe falar ao coração de alguém que nasce campeão.”


O segredo para competir no campeonato da santidade?
Francisco: “Que faz um jogador quando é convocado para um jogo ou um atleta antes de uma competição? Deve treinar, treinar, treinar um pouco mais. A cada um Deus deu um campo no qual jogar a sua vida; sem treino, até o mais talentoso continua a ser um perdedor. Para treinar — até um Papa tem de continuar a treinar —, perguntar a Deus todos os dias: ‘Que queres que eu faça?, que queres da minha vida?’ Pedir a Jesus, confrontar-se com ele como treinador.”


O segredo da vitória
. Francisco: “Penso que, se perguntássemos a qualquer desportista o segredo último das suas vitórias, mais de um nos diria que vence porque é feliz. E a felicidade é a consequência de um coração em ordem, em estado de graça, pronto para o desafio.”


Um sã competição pode ajudar também o espírito a amadurecer?
Francisco: “São Paulo escreveu aos Coríntios: ‘Não sabeis que, nas corrida no estádio, todos correm, mas só um conquista o prémio? Correi também vós de modo a conquistá-lo’. É um belíssimo convite a entrar no jogo, para não olhar o mundo pela janela.”


A Igreja e o desporto
. “A Igreja sempre alimentou um grande interesse pelo mundo do desporto. Podemos dizer que no desporto as comunidades cristãs identificaram uma das gramáticas mais compreensíveis para falar com os jovens.” O desporto contribui para um desenvolvimento saudável e harmónico.


Votos para 2021
. “O meu desejo é muito simples, exprimo-o com as palavras escritas numa camiseta que me foi oferecida: ‘Mais vale uma derrota limpa do que uma vitória suja.’ Desejo isto para toda a gente, não só para o mundo do desporto. É a forma mais bela de jogar a vida com a cabeça erguida. Que Deus nos conceda dias santos. Por favor rezem por mim, para que não desista de treinar com Deus.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 23 JAN 2021

O PAPA FRANCISCO E O DESPORTO. 2

 

O Papa Francisco é popular, também porque se assume como vindo do povo. Ele sabe da vida. Os pais eram imigrantes italianos na Argentina. Para pagar os estudos, trabalhou como guarda-nocturno de bares. Exerceu como técnico químico, pois os primeiros estudos foram de Química. Desde miúdo jogou à bola e afeiçoou-se ao desporto. E aí está agora com a "encíclica laica" - "Lo sport secondo Papa Francisco", in: La Gazzetta dello Sport, 2 de Janeiro, 2021 - sobre o desporto e o seu significado na e para a vida. Não é visível que o desporto arrasta multidões e que a dimensão lúdica é constitutiva do ser humano?


O desporto pode e deve ser uma grande escola de virtudes. Mais: a vida é um grande jogo, é mesmo o jogo decisivo, pois nele decide-se a própria vida. O jogo da vida está presente em todos os jogos, pois o que em todos os jogos se joga, também nos jogos económicos e políticos, é a vida. Quem perde e quem ganha? Quais são as regras e os critérios para este jogo? Quem é o árbitro definitivo que vai julgar a vida de cada um, julgar as histórias e a História?


1 A bola de trapos e o guarda-redes. 
Francisco recorda o seu tempo de miúdo e a alegria com que ia com a família ao "Gasómetro", o estádio do San Lorenzo, de que ainda continua adepto e fã. Lembra-se de modo especial do campeonato de 1946, quando o seu San Lorenzo ganhou. "Recordo os dias que passei a ver os futebolistas a jogar e a felicidade nos nossos rostos, a adrenalina no nosso sangue. E tenho outra recordação, a da bola de trapos: éramos pobres, mas ela bastava para nos divertirmos e quase fazer milagres jogando na pequena praça perto de casa. Em miúdo gostava do futebol, mas eu não era dos melhores, pelo contrário, chamavam-me 'perneta'. Por isso, punham-me sempre na baliza. Mas ser guarda-redes foi para mim uma escola de vida. O guarda-redes tem de estar pronto para responder a perigos que podem vir de todos os lados. Também joguei basquete, o que me deu prazer também."


2
 Diego Maradona. Diz Francisco: "Encontrei-o por ocasião de um jogo a favor da Paz em 2014. Recordo com prazer tudo o que fez pela Scholas Ocurrentes, a fundação que se ocupa dos necessitados em todo o mundo. No campo, era um poeta, um grande poeta que deu alegrias a milhões de pessoas, tanto na Argentina como em Nápoles. Também era um homem muito frágil. Tenho uma recordação pessoal do Campeonato do Mundo de 1986, que a Argentina ganhou graças a Maradona. Estava em Frankfurt a estudar, só soube da vitória contra a Alemanha no dia seguinte. Recordo isso como a vitória da solidão, pois era o único argentino e não tinha ninguém com quem celebrar a alegria da vitória: a solidão faz que te sintas realmente só, porque o que torna bela a alegria é poder partilhá-la."


Permita-se-me que lembre o que aqui escrevi recentemente sobre Maradona. Um ano antes de morrer, confessou que "não tinha sido exemplo para ninguém", voltou à Igreja, pediu paz para o tempo de vida que Deus ainda lhe concedesse.


3 O desporto e a festa.
 O desporto é também festa e celebração, uma espécie de liturgia, de pertença, observou o jornalista. "Sim, o desporto é tudo isso: esforço, motivação, assimilação das regras. E divertimento: penso nas coreografias nos estádios de futebol, nas bandeiras que se agitam, nas trombetas, nos foguetes, nos tambores: é como se tudo desaparecesse e o mundo ficasse suspenso naquele instante. Quando é bem vivido, o desporto é uma celebração: ali, é o encontro, a gente alegra-se, chora, sente 'pertencer' a uma equipa. 'Pertencer' é admitir que sozinhos não vivemos bem, pertencer é exultar, festejar...". O ser humano é um ser festivo.


4 Ganhar e perder. 
Da dinâmica desportiva fazem parte a vitória e a derrota. "Ganhar e perder são dois verbos que parecem opostos: todos gostam de ganhar, ninguém gosta de perder. A vitória contém uma emoção que é difícil de descrever, mas a derrota também tem qualquer coisa de maravilhoso. Para os que estão habituados a ganhar, é forte a tentação de se sentir invencível: a vitória pode por vezes tornar-te arrogante e levar-te a pensar que já chegaste. Pelo contrário, a derrota favorece a meditação: leva-nos a perguntar porque é que perdemos, fazemos um exame de consciência, analisamos o trabalho realizado. Por isso, de certas derrotas nascem grandes vitórias, porque, uma vez identificado o erro, acende-se a sede de redenção. Eu diria que os que ganham não sabem o que estão a perder. Não é só um jogo de palavras. Perguntem aos pobres."


5 Não desistir. 
"A tua desistência é o sonho do teu adversário: desistir é entregar-lhe a vitória. É sempre um risco: '"E se tivesse resistido mais uns instantes?!' Também é verdade que há dias em que é melhor continuar a lutar e outros nos quais é sábio deixar perder. A vida assemelha-se a uma guerra: pode-se perder uma batalha, mas a guerra, não. Um homem não morre quando é derrotado: morre quando desiste, quando deixa de combater."


6
 Exercícios espirituais. Há relação entre os Exercícios Espirituais e o treino desportivo? "Quando Santo Inácio escreveu os Exercícios, fê-lo pensando na sua história passada de soldado, feita de formação, exercícios, treinos. Intuiu que o espírito, como o corpo, deve ser treinado. Mais: exercitar-se requer disciplina, os exercícios são bons mestres. Exercitar-se para a bondade, para a beleza, para a verdade: ocasiões nas quais a pessoa pode descobrir dentro de si recursos inesperados. Que, depois, utiliza."

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 JAN 2021

O PAPA FRANCISCO E O DESPORTO. 1

 

Não há dúvida de que o Papa Francisco é hoje uma das figuras mais destacadas e influentes no mundo, também das mais amadas, e em quem se deposita esperança para o futuro de um mundo melhor.


Penso que isso advém também do facto de ele não ser, na vida e na actuação, clerical ou eclesiástico. É um cristão que segue o Evangelho, notícia boa e felicitante, que está com todos, tanto nas suas tristezas e sofrimentos como nas suas alegrias e esperanças, dando cumprimento ao preceito do Concílio Vaticano II. A demonstrá-lo de modo concreto e inesperado está aí uma longa entrevista ao director, Stefano Barigelli, e ao vice-director, Pier Bergonzi, da Gazzeta dello Sport, que aparecerá também em livro, sobre o desporto. Uma espécie de “encíclica laica” sobre o universo desportivo enquanto metáfora da existência humana, individual e colectiva.


Logo de entrada, avança com os valores que ama no desporto, à volta de sete palavras-chave.


1. Lealdade
. O desporto é lealdade e respeito pelas regras, mas também luta contra os atalhos, luta contra o doping. “Tomar atalhos é uma das tentações com que frequentemente temos de lidar: pensamos ser a solução imediata e conveniente, mas quase sempre leva a consequências negativas. Penso, por exemplo, em quem vai à montanha: a tentação de procurar atalhos para chegar primeiro, em vez de seguir os caminhos indicados, esconde muitas vezes e inevitavelmente um lado trágico. O jogo e o desporto em geral são belos, quando se respeita as regras: sem regras, seria a anarquia, a confusão total. Respeitar as regras é aceitar o desafio de bater-se contra o adversário de modo leal. Portanto, a prática do doping no desporto não é só um engano, é um atalho que anula a dignidade.”


2
. Compromisso. O talento não é nada sem aplicação. Pode-se nascer talentoso, mas não se pode adormecer em cima do talento. “A história, não só a desportiva, mostra tanta gente de talento que depois se perdeu no caminho. No desporto, para vencer, não basta ter talento, é preciso treiná-lo, vivê-lo como oportunidade para prosseguir e manifestar o melhor de nós. A própria parábola evangélica dos talentos ajuda-nos nesta reflexão: o servo que, quando no regresso do patrão, restitui o talento recebido, porque com medo o tinha enterrado, é considerado mau precisamente porque não pôs a render o que recebera como dom. A parábola ensina-nos que Jesus é um treinador exigente: se enterrares o talento, já não fazes parte da sua equipa.”


3. Sacrifício
. “O sacrifício é um termo que o desporto partilha com a religião: vem de ‘sacrum-facere’, dar sacralidade ao esforço e à fatiga. Ninguém gosta de cansar-se a trabalhar, porque a fadiga é um peso. No entanto, se consegues encontrar um sentido para o esforço e a fadiga, o teu jugo torna-se mais leve. O atleta é um pouco como o santo: conhece a fadiga, mas não lhe pesa, porque, nela, é capaz de entrever algo outro, um mais além. Encontra uma motivação, que lhe permite não só enfrentar a fadiga, mas quase alegrar-se com ela: de facto, sem motivação, não se pode enfrentar o sacrifício. Depois, o sacrifício requer disciplina para poder ter êxito.”


4. Inclusão
. Este ano será o ano dos Jogos Olímpicos. “Desde sempre os Jogos são um sinal de inclusão, contraposto à cultura do racismo, do descarte. Peçamos ao Senhor a graça de poder arrancar para um ano de novo ponto de partida de tudo. Penso, por exemplo, no drama da falta de trabalho e da consequente desigualdade, cada vez maior, entre quem tem e quem perdeu até o pouco que tinha. Os Jogos Olímpicos, cujo desejo inato de construir pontes em vez de muros sempre apreciei, podem representar simbolicamente também o sinal de um ponto de partida novo e com um coração novo. No início da experiência dos Jogos Olímpicos, previa-se até a trégua nas guerras durante o tempo das competições. A cada quatro anos, o mundo tem a possibilidade de parar para se perguntar como está, como estão os outros, qual é o termómetro de tudo. Celebrar os Jogos Olímpicos é uma das formas mais altas de ecumenismo humano, da partilha do esforço para um mundo melhor.”


5. Espírito de equipa
. Fazer equipa é essencial no desporto. Também o é na vida de todos os dias. “É verdade: ninguém se salva sozinho. E como crente posso testemunhar que a fé não é um monólogo, mas um diálogo, uma conversa. Utilizando uma metáfora desportiva, dir-se-ia que só nos podemos salvar como equipa. O desporto tem isto de belo: tudo funciona em equipa. Os desportos de equipa assemelham-se a uma orquestra: cada um dá o seu melhor no que lhe compete, sob a sábia direcção do maestro. Ou se joga em conjunto ou se corre o risco de estragar tudo. É assim que grupos pequenos, mas capazes de permanecer unidos, chegam a bater grandes equipas incapazes de trabalhar em conjunto.”


6. Ascese
. Ao pensar na história de tantíssimos santos e santas, “é evidente que praticar ascese não significa só renunciar. O desporto di-lo muito bem: imagino as escaladas de oito mil metros, as imersões nos abismos, as travessias dos oceanos como intentos de buscar outra dimensão, mais alta, menos habitual. É redescobrir a possibilidade do espanto, do assombro, do transcendimento.”


7. Resgate
. Desporto também é dizer redenção para todos. “Não basta sonhar com o êxito, é preciso despertar e trabalhar no duro. O desporto está cheio de gente que, com o suor do seu rosto, venceu os que nasceram com o talento no bolso. É por isso que certas vitórias nos levam à comoção.” (Continua).

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 09 JAN 2021

O PAPA FRANCISCO CONFESSA-SE. 2

 

1. Penso muitas vezes na solidão do Papa. Chega ao Vaticano, que não conhece por dentro, concretamente, a sua secular e gigantesca burocracia. Não tem mulher nem família com ele. E os amigos?! Sabe que os seus gestos, atitudes, discursos, homilias, tudo será escrutinado até ao mínimo pormenor. Vive e trabalha num palácio, guardas fazem-lhe continência ao passar. Aquele palácio é testemunha de muitas histórias, ao longo do tempo, tantas vezes nada, mesmo nada, edificantes, pelo contrário, revelando o pior da natureza humana e do poder, sobretudo quando absoluto. Dali também se transmitiu imensa esperança a milhões de pessoas em todo o mundo, e isso constitui mais uma preocupação: o que fizer vai influenciar um número incalculável de vidas. O Papa é um dos homens mais poderosos do mundo. No entanto, deve sentir-se tantas vezes só... Até sabe que, resignando, não é livre de escolher o lugar onde quer viver os últimos dias em tranquilidade. De facto, como ex-chefe de Estado, quem assume a responsabilidade da sua segurança? Pensei nisso quando recentemente o ex-Papa Bento XVI esteve na Alemanha para despedir-se do irmão em finais de vida e de como ruas ficaram encerradas, com soldados a guardar os telhados. É sabido que Paulo VI pensou em resignar e não ficaria no Vaticano, mandou preparar quartos num convento... Francisco, quando resignar, não quereria ficar no Vaticano, complicando a vida do sucessor, mas...


2. O jornalista da AdnKronos também veio ao assunto. E Francisco, na sua sinceridade: “Se estou só? Pensei nisso. E cheguei à conclusão de que existem dois níveis de solidão. Alguém pode dizer: sinto-me só, porque quem devia colaborar não colabora, porque quem deveria sujar as mãos pelo próximo não o faz, porque não seguem a minha linha e por aí adiante, e esta é uma solidão digamos... funcional. Depois, há uma solidão substancial, que eu não sinto, porque encontrei tantíssima gente que corre riscos por mim, coloca a sua vida em risco, que se bate com convicção, pois sabe que estamos no que está correcto e que o caminho empreendido, mesmo entre mil obstáculos e naturais resistências, é o correcto. Houve exemplos de maldades, de traições que ferem quem crê na Igreja. Essas pessoas não são certamente religiosas de clausura.”


Francisco não sabe se vencerá ou não a batalha. Mas com amorosa resolução diz-se seguro de uma coisa: “Sei que devo travá-la, fui chamado para travá-la, depois será o Senhor a dizer se fiz bem ou se fiz mal. Sinceramente, não estou muito optimista (sorri), mas confio em Deus e nas pessoas fiéis a Deus. Lembro-me de que quando estava em Córdova, rezava, confessava, escrevia, um dia vou à biblioteca procurar um livro e dou com 6-7 volumes sobre a história dos Papas e entre os meus antiquíssimos antecessores encontrei alguns exemplos não propriamente edificantes.”


Como reage às críticas que lhe chegam do interior da Igreja? E há tantas! Por causa das uniões civis dos homossexuais, da abertura à comunhão dos divorciados recasados, do acordo com a China... Francisco pensa durante uns segundos e responde: “Não diria a verdade e insultaria a sua inteligência, se dissesse que elas te deixam bem. Não agradam a ninguém, especialmente quando são bofetadas na cara, quando fazem mal se são ditas de má-fé e com malvadez. Mas com a mesma convicção lhe digo que as críticas podem ser construtivas, e então assumo-as totalmente, porque a crítica leva a examinar-me, a fazer um exame de consciência, a perguntar-me se errei, em quê e porquê errei, se fiz bem, se fiz mal, se podia fazer melhor. O Papa escuta todas as críticas e depois faz o discernimento, discernimento que é a linha-guia do meu percurso, sobre tudo, sobre todos. E aqui — continuou — seria importante uma comunicação honesta para descrever a verdade sobre o que está a acontecer no interior da Igreja. É verdade, portanto, que, se na crítica devo encontrar inspiração para fazer melhor, não posso, por outro lado, deixar-me arrastar por tudo o que de pouco positivo escrevem sobre o Papa.”


O jornalista comenta que hoje o maior ataque dos inimigos figadais de Francisco é preparar um sucessor contrário. Eu, pessoalmente, penso que não é possível voltar atrás em relação a Francisco. Porque as pessoas gostaram do seu estilo, dos seus gestos, da sua proximidade às pessoas, da sua proximidade ao Evangelho... E que pensa Francisco sobre a sucessão? “Também eu penso naquele que virá depois de mim, sou o primeiro a falar disso. Recentemente, submeti-me a exames médicos de rotina, os médicos disseram-me que um deles podia fazer-se a cada cinco anos ou anualmente, eles inclinavam-se para que fosse a cada cinco anos, eu disse: façamo-lo ano a ano, nunca se sabe.” Aqui, o jornalista observa: desta vez o sorriso foi mais generoso.


Seja como for, a pergunta é inevitável: E que futuro para a Igreja? Francisco conta uma história que lhe desagradou: “Soube de um bispo que afirmou que, com esta pandemia, as pessoas “desabituaram-se” — foi esta a palavra — de ir à igreja, que as pessoas não voltarão a ajoelhar-se diante de um crucifixo ou a receber a comunhão. Eu digo que se esta “gente”, como lhe chama o bispo, ia à igreja por hábito, então é melhor que fique em casa. É o Espírito Santo que chama a gente. Talvez após esta dura provação, com estas novas dificuldades, com o sofrimento que entra nas casas, os fiéis sejam mais verdadeiros, mais autênticos. Acredite em mim: vai ser assim.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 NOV 2020

O PAPA FRANCISCO CONFESSA-SE. 1

 

1. Francisco é o Papa que mais entrevistas deu. É claro que, ao conceder entrevistas a grandes meios de comunicação social mundiais, acaba por falar mais directa e espontaneamente de temas que nem sequer apareceriam se se mantivesse nos pronunciamentos formais de homilias e documentos oficiais. De facto, os jornalistas são curiosos e fazem perguntas que o grande público também gostaria de fazer.


Acaba de ser este o caso com uma longa entrevista concedida ao director da agência italiana AdnKronos, Gian Marco Chiocci. Concedida na sequência e no contexto da destituição do cardeal Angelo Becciu, acusado de ter desviado fundos normalmente destinados aos pobres, para beneficiar a sua família, Francisco declara que a corrupção é “um mal antigo que se transmite e se transforma nos séculos”. Na Igreja, “a corrupção é uma história cíclica, repete-se, depois vem alguém que limpa e põe em ordem, mas depois recomeça-se, na expectativa que chegue outro  para pôr fim a esta degeneração.” Numa Igreja para os pobres, mais missionária, não há lugar para quem enriquece e faz enriquecer o seu círculo, vestindo indignamente a batina. “A Igreja é e permanece forte, mas o tema da corrupção é um problema profundo, que se perde nos séculos. No início do meu pontificado fui ao encontro de Bento XVI. Ao passar-me a ‘pasta’, entregou-me uma caixa grande, dizendo: ‘Está tudo aí dentro, estão os procedimentos com as situações mais difíceis, eu cheguei até aqui, afastei estas pessoas, e agora... cabe a ti.’ E eu não fiz mais do que recolher o testemunho do Papa Bento, continuei a sua obra.”


Neste contexto, e querendo desfazer dúvidas e insinuações, Francisco refere-se ao antecessor como “um pai e um irmão, escrevo-lhe por carta ‘filialmente e fraternalmente’. Vou ao seu encontro muitas vezes; se ultimamente o vejo menos é porque não quero cansá-lo. A relação é verdadeiramente boa, muito boa, concordamos sobre o que deve ser feito. Bento é um homem bom, é a santidade feita pessoa. Entre nós não há problemas, depois cada um pode dizer e pensar o que quiser. Pense nisto: até chegaram a dizer que tínhamos discutido, eu e Bento, sobre que túmulo cabia a mim e qual a ele.”


De volta à corrupção, refere o famoso bispo Santo Ambrósio: “A Igreja foi sempre uma ‘casta meretrix’, uma casta meretriz, uma pecadora. Melhor: uma parte dela, porque a grande maioria vai no sentido contrário, segue no caminho justo. Mas é inegável que personagens de vários géneros e importância, eclesiásticos e tantos leigos amigos fingidos da Igreja contribuíram para dissipar o património móvel e imóvel,  não do Vaticano, mas dos fiéis.”


A situação quanto à opacidade da gestão das finanças do Vaticano, ao óbolo de São Pedro, à imprudência de certos investimentos, às actividades pouco caritativas de alguns pastores é mais grave do que suporia. Para “extirpar a erva daninha da corrupção não há estratégias particulares, o esquema é banal, simples, andar em frente e não parar, é preciso dar passos pequenos, mas concretos. Para chegar aos resultados de hoje partimos de uma reunião realizada há cinco anos sobre como actualizar o sistema judicial, depois com as primeiras investigações tive de remover posições e resistências, escavou-se nas finanças, tivemos novos directores no IOR (Instituto para as Obras de Religião, normalmente conhecido como Banco do Vaticano), numa palavra, tive de mudar muitas coisas, e muitas rapidamente vão mudar.”


E aparece a avó a dar bons conselhos: “Ela, que não era teóloga, dizia-nos sempre, quando éramos crianças: o diabo entra pelos bolsos. Tinha razão”.


E certamente não será inocentemente que Francisco venha lembrar a história da velhinha que encontrou numa imensa favela de Buenos Aires no dia em que João Paulo II morreu. Na Missa, rezou pelo Papa defunto. “Terminada a celebração, aproximou-se uma mulher muito, muito pobre, queria saber como é que se elege o Papa, falei-lhe do fumo branco, dos cardeais, do conclave. Ela interrompeu-me e disse: ouça, Bergoglio, quando for Papa, lembre-se de que a primeira coisa que tem que fazer é comprar um cãozinho. Respondi-lhe que dificilmente seria eleito Papa, mas, mesmo assim, perguntei-lhe porque é que devia arranjar um cão. ‘Porque sempre que vá comer, respondeu, dê-lhe primeiro um bocadinho e, se ele continuar bem, então continue o senhor também a comer.” O que é que levou Francisco a contar a história? É assim que está o Vaticano? Francisco imediatamente: “Tratava-se obviamente de um exagero. Mas exprimia a ideia que o Povo de Deus, os pobres entre os mais pobres no mundo, tinha da Casa do Senhor atravessada por feridas profundas, lutas intestinas, desfalques.” Terá sido só por simplicidade e porque gosta de estar com as pessoas que Francisco não quis ficar no Palácio Apostólico, preferindo vir para Santa Marta?


O Papa Francisco terá medo? A resposta desta vez é mais ponderada, confessa o jornalista, o silêncio parece nunca mais ter fim, parece que à espera de encontrar as palavras justas. “E porque havia de ter?”, pergunta. “Não temo consequências contra mim, não temo nada, ajo em nome e por conta de nosso Senhor. Sou um inconsciente? Falta-me um pouco de prudência? Não sei o que dizer, são o instinto e o Espírito Santo que me guiam, guia-me o amor do meu povo maravilhoso que segue Jesus Cristo. E depois rezo, rezo muito, todos nós neste momento tão difícil devemos rezar muito por tudo o que está a acontecer no mundo.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 7 NOV 2020

FRATELLI TUTTI. 3. UMA POLÍTICA SÃ

 

1. É evidente que é necessário defender o princípio essencial da liberdade, mas é igualmente necessário defender os outros dois princípios, o da igualdade e o da fraternidade. É a tríade que tem de estar sempre vinculada: liberdade, igualdade, fraternidade.


Se toda a pessoa tem dignidade inviolável e, portanto, o direito de viver com dignidade e desenvolver-se e realizar-se integralmente, impõe-se que o Estado não seja apenas o garante da liberdade, nomeadamente da liberdade de empresa e de mercado. Quem nasceu em boas condições económicas, quem recebeu uma boa educação, quem é bem alimentado, quem possui por natureza grandes capacidades..., esses “seguramente não precisarão de um Estado activo, e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, não se aplica a mesma regra a uma pessoa com deficiência, a alguém que nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades. Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficiência, não há lugar para essas pessoas, e a fraternidade não passará de uma palavra romântica.”


2. Aí está, portanto, a necessidade de uma política sã e melhor. Quando hoje muitos têm uma má ideia da politica, e isso também por causa da corrupção, das mentiras, da ineficiência de muitos políticos, Francisco pergunta: “Mas poderá o mundo funcionar sem política?”, para insistir que não é possível “encontrar um caminho eficaz para a fraternidade universal e a paz social sem uma boa política”, e uma política transnacional, verdadeiramente global, para defesa do bem comum, salvaguarda da paz, preservação da natureza. Aliás, “hoje nenhum Estado nacional isolado é capaz de garantir o bem comum da própria população.” Exige-se pensar numa possível forma de autoridade mundial regulada pelo direito, que “deveria prever pelo menos a criação de organizações mundiais mais eficazes, dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial, a erradicação da fome e da miséria e a justa defesa dos direitos humanos fundamentais”. Neste sentido, “é necessária uma reforma quer das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações.”


3. Neste quadro, Francisco apela ao exercício da grande caridade, “a caridade política”, que gera processos sociais de fraternidade e justiça para todos: “Convido uma vez mais a revalorizar a política, que é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum.” O amor não se exprime só nas relações íntimas e de proximidade, “também nas macrorrelações como relacionamentos sociais, económicos e políticos”. O amor implica a amabilidade no trato, que leva alguém a dizer uma palavra de ânimo e também palavras como “com licença”, “desculpe”, “obrigado”; o amor está vivo na proximidade de “alguém que ajuda um idoso a atravessar um rio, e isto é caridade primorosa; mas o politico constrói-lhe uma ponte, e isto é também caridade. É caridade se alguém ajuda outra pessoa fornecendo-lhe comida, mas o político cria-lhe um emprego, exercendo uma forma sublime de caridade que enobrece a sua acção política.”


Para honrarem actividade tão nobre, os políticos não podem pensar só nas sondagens e numa mera busca de poder. Precisam de amor, coragem, lucidez, a favor de uma política da “globalização dos direitos humanos mais essenciais”, para uma humanidade justa, livre, num mundo onde todos possam viver em paz e realizar adequadamente a sua dignidade. Para isso, ajudará também que façam a si mesmos “estas perguntas, talvez dolorosas: Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Quanta paz social semeei? Que produzi no lugar que me foi confiado?”


4. Na impossibilidade de apresentar todos os domínios sobre os quais deve incidir esta actividade da “amizade social” universal, indico sumariamente alguns.


4.1. Francisco não se cansa de insistir na necessidade primeira de “assinar um pacto educativo global para fazer frente à virulenta pandemia do descarte”.


4.2. Não se assegura a dignidade das pessoas através de subsídios. “Ajudar os pobres com dinheiro deve ser sempre uma solução provisória para resolver uma urgência. O grande objectivo deveria ser sempre permitir-lhes uma vida digna através do trabalho”. Porque “não existe pior pobreza do que a que priva do trabalho e da dignidade do trabalho”. O verdadeiro caminho para a paz: terra, tecto e trabalho para todos.


4.3. Contra a lógica da guerra, impõe-se um “diálogo perseverante e corajoso”. “É muito difícil hoje defender critérios racionais, amadurecidos noutros tempos, para falar de uma possível ‘guerra justa’”. Com Paulo VI na ONU Francisco clama: “Nunca mais a guerra!”. E pede que com o dinheiro gasto em armas se crie um Fundo Mundial contra a fome, que é uma tragédia e uma vergonha. A pena de morte deve ser abolida em todo o mundo.


4.4. “O ideal seria evitar as migrações inúteis e, para isso, seria necessário criar nos países de origem a possibilidade efectiva de viver e realizar-se na dignidade.” Quando isso não é possível, é necessário avançar com os quatro verbos: “acolher, proteger, promover e integrar”.


4.5. É essencial o conceito de ecologia integral, para entender a conexão desta encíclica com a Laudato Sí. (Continua).

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 24 OUT 2020

FRATELLI TUTTI. 2. UMA OUTRA ECONOMIA

 

1. Ninguém é uma ilha. Só somos uns com os outros e precisamos de amor e de reconhecimento. Que importa a existência se ninguém nos reconhecer, se não valermos para alguém? Não é desse reconhecimento que todos andam à procura? Só o valer para alguém é que justifica a existência. E, quando se descobre que valemos para Deus, que Deus nos dá valor e nos reconhece, então a vida está salva, encontrando a plenitude de sentido.


Um dos pressupostos na nova encíclica— “Todos irmãos e irmãs” — é exactamente esta verdade fundamental: “Ninguém pode experienciar o valor de viver sem rostos concretos a amar. Aqui reside um segredo da verdadeira existência humana.” E daqui arranca a revolução de Francisco, a da dinâmica da fraternidade universal. Este é um ponto de partida, porque esta experiência, se autêntica, irradia e torna-se contagiante, num contágio bom de felicidade: começa-se por baixo, por um, pela família, e vai-se “pugnando pelo mais concreto e local, até ao último recanto da pátria e do mundo. Mas não o façamos sós, individualmente. Todos, retomando a parábola do bom samaritano, somos responsáveis pelo ferido que é o próprio povo e os povos todos da Terra.” Quem na vida foi meu próximo e de quem é que eu fui e sou próximo? Vai-se dando assim o encontro entre o concreto local e o universal, evitando tanto um localismo individualista fechado como um universalismo abstracto, homogeneizante e dominador. Realiza-se, pelo contrário, aquele ideal do poliedro, tão caro a Francisco: a unidade que floresce na variedade da riqueza de  perspectivas, do tesouro de cada cultura, um mundo com  “o seu colorido variado, a sua beleza e, em última análise, a sua humanidade”.


Outro pressuposto é a dignidade sagrada de cada ser humano. Aqui, vamos tocar a transcendência. Onde assenta a dignidade da pessoa, que é fim e não meio? Certamente, o ser humano é finito e mortal, mas tem algo de infinito nele. O quê? A pergunta ao Infinito pelo Infinito, se quisermos, a pergunta a Deus por Deus. Independentemente da resposta que se lhe dê, positiva ou negativa, todos os seres humanos são confrontados com esta pergunta, que revela neles o Infinito. Ora, o que é que há para lá do Infinito? Nada. Por isso, o ser humano é fim em si mesmo e não pode ser tratado como simples meio. As coisas são meios e, por isso, dirá Kant, têm um preço, o ser humano é fim e, por isso, não tem preço, tem dignidade. É livre, autopossui-se na liberdade e só é verdadeiramente no encontro com outras liberdades. Por isso, desde o início, a Bíblia diz que o ser humano foi criado à imagem de Deus, é imagem de Deus, e esta imagem está viva na liberdade e no reconhecimento de todo o ser humano como humano, digno.


A dignidade da pessoa humana é inviolável, e isso não por simples convenção ou convicção subjectiva, ela tem um fundamento real, de ser, transcendendo, portanto, as condições de nascimento ou as fronteiras...,  como escreve Francisco: a dignidade da pessoa “não se fundamenta nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro nem para a fraternidade nem para a sobrevivência da Humanidade”.


2. O que fica dito e a consciência mais aguda que nos é dada pela pandemia de que “hoje ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém — a pobreza, a decadência, os sofrimentos de um lugar da Terra são um silencioso caldo de cultura de problemas que acabarão por afectar todo o planeta” — obrigam à conversão a uma nova Economia, que não nega o lucro justo, mas que diz ‘Não’ “ao lucro a qualquer preço”, fazendo do Dinheiro um ídolo absoluto. A dignidade da pessoa humana, de todas as pessoas, exige, em ordem à sua realização, esta conversão urgente. “O mundo existe para todos, porque todos os seres humanos nascem nesta Terra com a mesma dignidade.”


Aqui, Francisco retoma João Paulo II: “Deus deu a Terra a todo o género humano para que ela sustente todos os seus habitantes, sem excluir nem privilegiar ninguém.” Por isso, arremete contra “o direito absoluto e intocável à propriedade privada”. “O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados.” Ninguém pode ficar excluído. “O direito de alguns à liberdade de empresa e de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos nem da dignidade dos pobres nem do respeito pelo meio ambiente.”


3. O Papa Francisco não é economista nem escreve como tal: anuncia o Evangelho e denuncia o ter de viver na indignidade.


De qualquer forma, neste domínio, ergue-se, inevitavelmente, uma questão de suma complexidade, que tem que ver com o conflito da eficiência e da equidade na Economia. Pessoalmente, quando tenho de falar sobre o tema, dou um exemplo: estão aqui 300 pessoas, partamos de zero, eu vou dar a cada uma 1000 euros; passado algum tempo, uns ainda têm 1000 euros, outros já têm 10 ou 20 mil e alguns terão dívidas. Sim, o liberalismo quer a liberdade, também de possível exploração,  mas já vivi num regime comunista e lá nem liberdade nem justiça, só fome para a quase totalidade da população. Como pôr a Economia a funcionar, salvaguardando a dignidade de todos?


Exige-se uma política sã. Em que sentido? Este será o tema da próxima crónica. Entretanto, sobre este magno problema, aconselho uma obra recente, Deus e o Mercado, com um diálogo provocador entre José César das Neves e o P. Vítor Melícias.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 17 OUT 2020

FRATELLI TUTTI. 1

 

1. “FRATELLI TUTTI” (irmãos todos) é o título da nova encíclica do Papa Francisco, abrindo horizontes novos para a Humanidade mergulhada numa profundíssima crise global. Cita Francisco de Assis escrevendo aos seus irmãos e irmãs para lhes propor uma forma de vida segundo o Evangelho, convidando-os a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço: feliz quem ama o outro, “o seu irmão que está longe ou que está perto”. Inspira-se, pois, em Francisco de Assis: não é acidental que, publicada com a data de 4 de Outubro, a tenha ido assinar na véspera sobre o seu túmulo, em Assis. Não é a única fonte de inspiração: estão também presentes outros líderes espirituais e políticos, como Charles de Foucauld, Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Gandhi...


O subtítulo da carta: “Sobre a fraternidade e a amizade social”, explicitado nestes termos: “Entrego esta encíclica social como humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas actuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras.” Embora partindo das suas convicções cristãs, quer dirigir-se a todas as pessoas de boa vontade, num diálogo sincero e plural, para a realização de um sonho comum de dignificação de todos. “Sonhemos como uma única Humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma Terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos.”


2. Começou a ser escrita antes da pandemia, mas esta parece ter agravado ainda mais a situação e há sombras negras que pairam no horizonte, obrigando a pensar e a exigir que se mude de rumo.


Exemplos de sombras e “tendências que dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal”.


Não há um sonho comum mobilizador, “um projecto para todos”, o que se impõe é uma “cultura do descarte mundial”. A própria Europa avançava para variadas formas de integração, havia um anseio semelhante na América Latina e tentativas de pacificação e reaproximações noutras regiões. Mas “a História dá sinais de regressão”, reacendendo-se conflitos que se considerava superados, ressurgem nacionalismos “ressentidos e agressivos”. A ditadura do mercado quer impor um modelo cultural único e num mundo cada vez mais massificado perdemos a dimensão comunitária e encontramo-nos cada vez mais sós. O avanço da globalização favorece normalmente a identidade dos mais fortes e ameaça as identidades das regiões mais frágeis e pobres e, deste modo, “a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes económicos transnacionais.” Acentua-se a perda da memória, das raízes e do sentido da história, ficando em pé “apenas a necessidade de consumir sem limites” e um individualismo vazio. Aí estão “novas formas de colonização cultural”, sem pensamento crítico: “Que significado têm hoje palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas para utilizá-las como instrumento de domínio.” As redes sociais tomaram conta de muitos e a verdade esvai-se em fake news e no controlo das mentes, sem capacidade para pensar, tanto mais quanto se nega a outros “a capacidade de existir e pensar”, recorrendo-se “à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los”. A sociedade acaba “reduzida à prepotência do mais forte” e “um projecto com grandes objectivos para o desenvolvimento de toda a Humanidade soa a um delírio.” Precisamos de nos construirmos como um “nós” que habita a casa comum de todos, mas isso “não interessa aos poderes económicos que necessitam de um ganho rápido”. Pairam no horizonte ameaças de novas guerras, e a Natureza dá sinais de alarme. Aumenta a riqueza, mas nascem novas pobrezas e morre-se de fome aos milhões. “Os direitos humanos não são iguais para todos”. O clamor de migrantes e refugiados é ensurdecedor. Cresce a  raiva das vítimas de racismo. As mulheres continuam a ver-se sem os seus direitos garantidos, e as condições de escravatura não acabaram. E continuam as guerras, os atentados, as perseguições, os muros..., e a solidão, os medos, as inseguranças. E “a terceira guerra mundial aos pedaços” é visível.


Será que aprendemos alguma coisa com esta crise dramática? É que não se pode ignorar que “o princípio ‘salve-se quem puder’ traduzir-se-á rapidamente no lema ‘todos contra todos’, e isso será pior que uma pandemia.”


3. Frente a este horizonte sombrio — excessivamente pessimista, dirão alguns —, a encíclica é um convite à esperança activa, com o samaritanismo. O exemplo é o bom Samaritano. Ele era um estrangeiro, mal visto pela ortodoxia, e também tinha os seus afazeres. Mas, à beira da estrada, jazia um desgraçado semi-morto, e ele parou, ajudou-o no que pôde, levou-o para a estalagem, pagou e que pagaria todas as despesas... Foi ele e não os dois religiosos (o sacerdote e o levita) o próximo daquele abandonado. “Vai e faz o mesmo.”


Para os cristãos, todos os seres humanos são irmãos e irmãs, porque há um Pai comum, Deus. Mas a fraternidade podemos ir bebê-la também, paradoxalmente, à mortalidade, como viu Herbert Marcuse, que não era crente. Já em vésperas de morrer, voltou-se para o amigo Jürgen Habermas: “Agora sei, Jürgen, em que é que se fundamentam os nossos juízos de valor mais elementares: na compaixão, no nosso sentimento pela dor dos outros. Somos mortais: logo, somos irmãos.” (Continua)

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 10 OUT 2020

O CONTÁGIO DA ESPERANÇA

 

1. Naquele fim de tarde escuro do passado dia 27 de Março, quando a chuva começava a cair, o Papa Francisco, sozinho, concentrado, em passos lentos, quase alquebrado como se transportasse aos ombros a cruz da Humanidade toda, atravessou, em silêncio, uma Praça de São Pedro deserta e subiu os degraus para uma plataforma fragilmente iluminada e rezou, sozinho. Uma imagem que fica na memória de todos quantos assistiram àquela caminhada lenta, uma das imagens marcantes desta catástrofe. A apontar para a solidariedade mundial de todos e para a esperança. E disse: “Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair da noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo de um silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem; pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos.” Aludindo à imagem do Evangelho, acrescentou: “Fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda”. Constatando que “nos demos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários”, continuou, sublinhando o que desde a deflagração da pandemia tem sido uma constante sua: “Somos todos chamados a remar juntos, todos carecidos de encorajamento mútuo.” “Estamos juntos neste barco”, ninguém poderá vencer a tempestade sozinho, “só conseguiremos todos juntos”. E incutiu esperança e abençoou o mundo: “Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como um abraço consolador, a bênção de Deus.”

 

De lá, do seu confinamento em Santa Marta no Vaticano, todos os dias está presente ao mundo, dando ânimo, esperança, apelando à co-responsabilidade mundial. Para que ninguém se sinta só. Na homilia do Domingo de Ramos, mais uma vez, apelou à solidariedade, lembrando concretamente os mais sós: “Quando nos sentimos encurralados, quando nos encontramos num beco sem saída, sem luz, quando parece que nem Deus responde, lembremo-nos de que não estamos sozinhos.” E foi ao essencial, quando a Humanidade no meio desta pandemia é obrigada a deixar o supérfluo: “O drama que estamos a atravessar impele-nos a levar a sério o que é sério, a não nos perdermos em coisas de pouco valor, a redescobrir que a vida não serve, se não for para servir. Porque a vida mede-se pelo amor.” Aos jovens deixou esta mensagem: “Queridos amigos: olhai para os verdadeiros heróis que vêm à luz nestes dias: não são aqueles que têm fama, dinheiro e sucesso, mas aqueles e aquelas que se oferecem para servir os outros. Senti-vos chamados a arriscar a vida.”

 

2. No Domingo de Páscoa, há 8 dias, deixou uma mensagem histórica, pensando já no que é preciso e urgente para o futuro próximo. Uma mensagem própria de um líder político-moral global, pronunciada excepcionalmente, como não acontecia desde 1947, a partir do interior da Basílica de São Pedro e não da varanda frente à Praça. Para a sua síntese, inspiro-me na exposição esquemática do jornal “La Croix”.

 

2.1. Dedicada em larga medida à crise causada pela Covid-19, incentivou o mundo, “oprimido pela pandemia, ao contágio da esperança.” A ressurreição de Cristo não é “uma fórmula mágica que faz desaparecer os problemas, mas a vitória do amor sobre a raiz do mal.” E lembrou em primeiro lugar as vítimas do coronavírus, “os doentes, os que morreram, e as famílias que choram o desaparecimento dos seus entes queridos, aos quais por vezes não puderam sequer dizer um último adeus”.

 

2.2. Pediu para não esquecer aqueles que esta pandemia torna ainda mais vulneráveis: “os idosos e as pessoas sós, os que trabalham nas casas de saúde, os que vivem nas casernas ou nas cadeias”. Uma palavra especial, “pedindo força e esperança” para os médicos e enfermeiros, auxiliares, todo o pessoal de saúde, “que em toda a parte oferecem ao próximo um testemunho de atenção e de amor até ao limite das suas forças e muitas vezes até ao sacrifício da sua própria saúde”. Exprimiu-lhes a sua “gratidão”, a eles e “aos que trabalham assiduamente para garantir os serviços essenciais”, e ainda aos polícias e militares que “contribuíram para aliviar as dificuldades e os sofrimentos da população.”

 

2.3. Encorajou os governos “a empenhar-se activamente a favor do bem comum dos cidadãos, fornecendo os instrumentos e os meios necessários para permitir a todos levar uma vida digna e para favorecer, quando as circunstâncias o permitirem, a retoma das actividades quotidianas habituais”.

 

Porque “este tempo não é o tempo da indiferença, todos devem estar unidos para enfrentar a pandemia”, e fazer o necessário para que não se agrave a situação dos que já carecem de alimentos, medicamentos e assistência de saúde.

 

E pediu um alívio das sanções internacionais, “que impedem os países que as sofrem de dar um apoio conveniente aos seus cidadãos” e a redução ou até pura e simplesmente o perdão da “dívida que pesa sobre os orçamentos dos mais pobres.”

 

2.4. Porque “este tempo não é o tempo dos egoísmos”, dirigiu uma palavra veemente sobre e para a União Europeia, que nestas últimas semanas não brilhou particularmente pela sua solidariedade. Sublinhando que “do desafio do momento actual dependerá não só o seu futuro, mas o do mundo inteiro”, lembrou “o espírito concreto de solidariedade que lhe permitiu ultrapassar as rivalidades do passado” a seguir à Segunda Guerra mundial, sendo imperioso que “estas rivalidades não ganhem novo vigor”. E preveniu: “A alternativa é o egoísmo dos interesses particulares e a tentação de um regresso ao passado, com o risco de expor a uma dura prova a coabitação pacífica e o desenvolvimento das próximas gerações”.

 

2.5. Porque “este tempo não é o tempo das divisões”, apelou a “um cessar fogo mundial e imediato em todas as regiões do mundo”, citando nomeadamente a Síria, o Iémen, o Iraque, o Líbano, a Terra Santa, a Ucrânia e os “ataques terroristas perpetrados contra tantas pessoas inocentes em diversos países de África”, e desejou que “os capitais enormes” para o armamento “sejam utilizados para cuidar das pessoas e da melhoria das suas existências”.

 

2.6. Porque “este não é o tempo do esquecimento”, fez votos “para que a crise que enfrentamos não nos faça esquecer outras emergências que trazem consigo o sofrimento de muitas pessoas”, citando as “graves crises alimentares” na Ásia e na África, mas também a situação dos migrantes “que vivem em condições insuportáveis, especialmente na Líbia e nas fronteiras entre a Grécia e a Turquia, a que juntou especificamente a ilha de Lesbos, e a Venezuela.

 

2.7. E concluiu: “Indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento não são propriamente as palavras que queremos ouvir neste tempo. Queremos bani-las para sempre!”.

 

3. A esperança não se pode confundir com wishfull thinking. Ela tem de ser pensada e activa, implicando uma estratégia correcta e eficaz. Assim, durante a semana, Francisco, convencido de que nos encontramos numa mudança de época, criou uma comissão de peritos, com cinco grupos, para estudar a crise económica, social e política global, já presente e que se agravará na sequência deste flagelo pandémico, e qual o contributo que a Igreja pode e deve dar a nível local e universal.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 ABR 2020

QUERIDA AMAZÓNIA

 

Na sequência do Sínodo sobre a Amazónia, que se realizou em Roma de 6 a 27 de Outubro do ano transacto, Francisco publicou, no passado dia 2 de Fevereiro, uma Exortação Apostólica Pós-Sinodal, a que deu o título “Querida Amazónia”.

 

Nela, formula quatro grandes sonhos: 1. O sonho de “uma Amazónia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e a sua dignidade promovida.” 2. O sonho de “uma Amazónia que preserve a riqueza cultural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana.” 3. O sonho de “uma Amazónia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas.” 4. O sonho de “comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazónia que dêem à Igreja rostos novos com traços amazónicos.”

 

E explicita e concretiza os sonhos:

 

1. Um sonho social. Impõe-se a indignação e um grito profético a favor dos mais pobres e explorados, contra os interesses colonizadores, antigos e presentes, que lucram “à custa da pobreza da maioria e da depredação sem escrúpulos das riquezas naturais da região” e dos seus povos. “Os povos nativos viram muitas vezes, impotentes, a destruição do ambiente natural que lhes permitia alimentar-se, curar-se, sobreviver e conservar um estilo de vida e uma cultura que lhes dava identidade e sentido.” Danificar a Amazónia, não respeitar o direito dos povos nativos ao território e à autodeterminação tem um nome: “injustiça e crime”.

 

2. Um sonho cultural. É preciso assumir e defender os direitos dos povos e das suas culturas. Não se pode destruir a cultura dos povos, pois ela faz parte da identidade. Destruí-la conduz à desintegração. Não se pode continuar a considerar esses povos como “selvagens não-civilizados”. Por isso, “o objectivo é promover a Amazónia; isto, porém, não implica colonizá-la culturalmente, mas fazer de modo que ela própria aproveite o melhor de si mesma.” Sentido da melhor obra educativa: “cultivar sem desenraizar, fazer crescer sem enfraquecer a identidade, promover sem invadir.”

 

3. Um sonho ecológico. Para entender melhor o pensamento de Francisco, valerá a pena ir ao étimo das palavras, pois ecologia, economia e ética estão em relação e interpenetram-se, em conexão com casa. Assim: ecologia tem o oikos grego que significa casa (portanto, tratado da casa), como economia, de oikos, casa, e nómos, lei (portanto, governo da casa) e ética, de êthos, morada (portanto, como devemos agir para habitarmos a nossa casa autêntica, sermos verdadeiramente nós).

 

Assim, percebe-se o conceito de “ecologia integral”: a ecologia da natureza exige uma ecologia humana e uma ecologia social. “Se o cuidado das pessoas e o cuidado dos ecossistemas são inseparáveis, isto torna-se particularmente significativo lá onde a floresta não é um recurso para explorar, é um ser ou vários seres com os quais se relacionar.” Daí, uma ética do cuidado pela Mãe Terra, pela casa comum, tanto mais quanto já compreendemos que, por exemplo, o que nós chamamos alterações climáticas para os mais pobres é fome: o clamor da natureza é ao mesmo tempo o clamor dos mais pobres. A conclusão só pode ser: se o equilíbrio da terra também depende da Amazónia, “o interesse de algumas empresas poderosas não deveria ser colocado acima do bem da Amazónia e da Humanidade inteira.” Os projectos económicos internacionais de indústrias extractivas, energéticas, madeireiras e outras que destroem e poluem não podem ignorar os seus efeitos ambientais deletérios. “Além disso, a água, que abunda na Amazónia, é um bem essencial para a sobrevivência humana.”

 

Impõe-se, pois, mudar de paradigma, o que significa também libertar-se do “paradigma tecnocrático e consumista que sufoca a natureza e nos deixa sem uma existência verdadeiramente digna.” Esta mudança exige, por sua vez, outro tipo de educação: “Não haverá uma ecologia sã e sustentável, capaz de transformar seja o que for, se não mudarem as pessoas, se não forem incentivadas a adoptar outro estilo de vida, menos voraz, mais sereno, mais respeitador, menos ansioso, mais fraterno.”

 

4. Um sonho eclesial. Muitas vezes me perguntei como seria visto e dito o cristianismo, se ele, nascido dentro da cultura bíblica, em vez de ter, imediatamente a seguir, passado para a cultura helenista, sendo nela sobretudo que a doutrina foi reflectida e dogmatizada, tivesse passado, por exemplo, para a Índia ou para a China. Seria certamente a mesma fé cristã, mas dita e reflectida noutra linguagem e com outros conceitos. Pergunte-se, por exemplo: quando hoje se confessa o Credo e se diz, referido a Jesus: “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, ou se diz: “creio na ressurreição da carne”, ou “desceu aos infernos”, em que pensarão as pessoas que já não vivem nem pensam no contexto helenista ou bíblico?

 

Isto, para dizer a importância da linguagem e da cultura e da necessidade da inculturação: a mesma fé precisa de ser vivida e dita dentro de culturas diferentes, o que implica também outros símbolos e rituais nas celebrações litúrgicas. Neste sentido, porque é que em todas as culturas se há-de celebrar a Eucaristia com pão e vinho e não com os elementos próprios das respectivas sociedades e culturas?

 

Francisco é muito sensível à inculturação e isso está claro no seu sonho eclesial: inculturação social e espiritual, inculturação da liturgia, inculturação do ministério.

 

4.1. A unanimidade no coro de louvores quanto aos três primeiros sonhos não se repetiu quanto ao sonho eclesial, pois ele foi para muitos uma decepção, afirmando-se mesmo que constituiu um erro, já que se perdeu uma oportunidade histórica. De facto, no documento final do Sínodo, ficaram, com a votação positiva de mais de dois terços, pedidos para que houvesse a possibilidade da ordenação de homens casados e do diaconado feminino. Contra todas as expectativas, esses dois temas foram ignorados na Exortação “Querida Amazónia”.

 

4.2. Jesus não pertencia à classe sacerdotal, não era sacerdote no sentido clerical. Não consta que tenha ordenado alguém sacerdote “in sacris”. Na Carta de São Pedro, lê-se que os cristãos são todos sacerdotes pelo baptismo, povo sacerdotal. Nas primeiras comunidades, houve inclusivamente mulheres que presidiram à celebração da Eucaristia...

 

Neste quadro, há teólogos que pensam, com razão, que, em caso de necessidade, uma vez que a Eucaristia é fonte e cume de toda a vida cristã como disse o Concílio Vaticano II, quando não há um padre ordenado — é esta a situação da Amazónia, onde as comunidades podem passar mais de um ano sem a presença de um padre —, as comunidades poderão celebrar validamente a Eucaristia, sem a presença do padre. Significativamente, o Concílio Vaticano II evitou a expressão, referida ao padre, de “alter Christus” (outro Cristo).

 

Ainda neste sentido, houve, em pleno Sínodo de Outubro, o testemunho de uma religiosa, a espanhola Alba Teresa Cediel — uma das 35 mulheres que participaram no Sínodo, com voz, embora sem poder votar —, a dizer que as mulheres “acompanhamos os indígenas nos diferentes eventos, quando o sacerdote não pode estar presente e se é preciso um baptismo, baptizamos, se alguém quer casar, nós estamos presentes e somos testemunhas desse amor, e muitas vezes acontece ouvir em confissão, mas não demos a absolvição, mas...”. Neste contexto, é teologicamente legítimo perguntar: porque é que não dão a absolvição? No Evangelho segundo São João está escrito que Jesus disse: “a quem perdoardes os pecados serão perdoados...” Disse a quem? Não foi aos Apóstolos, foi aos discípulos (oi mathetai).

 

De qualquer modo, nos números 87 e 88 da Exortação, Francisco veio lembrar que só o sacerdote, “mediante a Ordem sacra”, tem o poder, “que não se pode delegar”, de presidir à Eucaristia — só ele pode dizer: “Isto é o meu corpo” —, e “há outras palavras que só ele pode pronunciar: “Eu te absolvo dos teus pecados”. Evidentemente, nestas circunstâncias, uma vez que também reconhece, como não podia deixar de ser, que “a Eucaristia faz a Igreja” e “nenhuma comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na celebração da Santíssima Eucaristia”, acentua-se e ergue-se ainda mais gritante a pergunta: Porque é que Francisco não abriu a porta à ordenação de homens casados?

 

Outra pergunta decisiva: a última palavra está dita ou, pelo contrário, vem aí o que poderá ser o início da verdadeira revolução para Igreja, a partir de Francisco?

 

É o que vamos ver na crónica da próxima semana.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 MAR 2020