Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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No início do novo ano, recordamos Pascal (1623-1662), grande filósofo francês e europeu, cuja reflexão enriquece os dias de hoje e o pensamento contemporâneo.
Como lembra Jean Guitton, numa das edições que coordenou de “Pensées” (“Pensamentos”) de Pascal, o pensador disse um dia: “Não sei quem me pôs no mundo, nem o que é este mundo, nem mesmo quem sou eu; estou numa ignorância terrível sobre todas as coisas; não sei o que é o meu corpo, o que são os meus sentimentos, o que é a minha alma ou o que é esta pequena parte de mim que pensa o que digo, que faz a reflexão sobre tudo e sobre ela mesma, e que se desconhece como aliás acontece com tudo o resto”. Ora, o certo é que a vida de Pascal é uma tentativa desesperada, até à morte, para procurar compreender. Blaise Pascal nasceu em Clermont-Ferrand no dia 19 de junho de 1623. Órfão de mãe, teve a sua educação entregue aos cuidados do pai. Cedo se manifestaram nele qualidades de um prodígio, em especial para as ciências físicas, o que levou a família a partir para Paris, onde o jovem se dedicou ao estudo da matemática. Com apenas 16 anos, Pascal escreveu “Ensaio Sobre as Cónicas” (1640). Depois, acompanhou o pai para Rouen, onde realizou as primeiras pesquisas no campo da física. Inventou então uma pequena máquina de calcular, a primeira calculadora manual conhecida, que hoje se encontra no Conservatório de Artes e Medidas de Paris. Tem nessa altura os primeiros contactos com os jansenistas, grupo cristão que aceitava a predestinação e ensinava que a graça divina seria a chave da salvação, em lugar da realização de grandes obras. Em Paris, concretiza experiências sobre a pressão atmosférica, escreveu um tratado sobre o vácuo e inventou a prensa hidráulica. Formula e desenvolve a "Teoria da Probabilidade" e o “Tratado do Triângulo Aritmético" (1654). Em 23 de novembro de 1653 conhece um êxtase místico. Depois de quase morrer em um acidente de carruagem, Pascal decide consagrar-se a Deus e à religião. Recolhe-se à abadia de Port-Royal des Champs, centro do jansenismo e elabora os princípios de uma doutrina filosófica, centrada na contraposição dos dois elementos básicos, não excludentes entre si: a razão com suas mediações que tendem ao exato, ao lógico e ao discursivo (espírito geométrico), e a emoção, ou o coração, que transcende o mundo exterior, sendo intuitiva e capaz de aprender o inefável, o religioso e o moral (espírito de finesse).
Assim, Pascal resume o seu pensamento filosófico na frase "o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Na base dessa divisão está a oposição entre a natureza divina do espírito e a natureza humana da matéria. Publica então “Les Provinciales” (1656-1657), um conjunto de 18 cartas escritas para defender o jansenista, Antoine Arnauld, oponente dos jesuítas, que estava em julgamento pelos teólogos de Paris, mas também dá a lume “Pensées” (1670), enquanto tratado sobre a espiritualidade cristã. Então surgem as primeiras evidências de que o pensador começava a afastar-se do jansenismo, voltando-se para uma visão antropocêntrica da Graça. Ao lermos as suas reflexões, sempre preocupadas com a clareza e a utilidade, usa um estilo elegante, breve e conciso que o torna o primeiro grande prosador da literatura francesa. A “condição humana” constitui uma preocupação contante na sua obra e assim o teólogo e o escritor tornam-se mais influentes do que sua contribuição para a ciência. Deste modo, torna-se uma referência no pensamento dos séculos seguintes, desde os românticos até ao próprio Nietzsche e aos católicos modernos. Considera como fundamental o conceito de aposta. Como refere ainda Jean Guitton: “Pascal sabe que a fé é um dom de Deus e que ela se manifesta através do amor: não podemos provocar a fé por um mero cálculo. Mas Pascal conhece razoavelmente o coração humano, o coração descrente, para saber que o descrente não se convence com apelos, com pensamento, ou até com razões, a não ser que esteja disposto a crer; se renunciou a levar uma vida terrestre, só de prazer e de interesse. Há um círculo verdadeiramente mortal: apenas podemos crer se renunciamos aos falsos prazeres da vida; mas apenas renunciamos aos seus prazeres, se cremos”. Pascal desejava romper esse círculo. Se renunciamos aos falsos prazeres, não perderemos nada. Mas nessa aposta se pudermos ganhar (sendo verdadeira a religião de Jesus Cristo), ganharemos tudo. E Pascal conclui, quem não ousará ceder nada, para ganhar tudo? E deste modo o pensador considera a experiência da fé como uma atitude que suscita por si o despertar da própria fé. Por outro lado, devemos distinguir três tipos de ideal: a ordem da carne, a ordem do espírito e a ordem da caridade, representadas por Alexandre, o Grande; Arquimedes, o geómetra; e Jesus, o Santo de Deus. O destino humano relaciona as três dimensões, mesmo que a compreensão entre elas seja difícil ou impossível, no entanto, como pôde testemunhar o próprio Pascal na relação intima entre todas, encontramos a humidade e o amor, que permitem uma vida capaz de nos compreendermos melhor. E aqui encontramos os dois infinitos, em cuja encruzilhada nos encontramos: “Quando considero o tempo curto que é a nossa vida, vemo-lo absorvido na eternidade precedente e na eternidade seguinte, o tempo que nos antecedeu e o que vai seguir-se. O pequeno espaço que preencho está, assim, rodeado por dois infinitos. “Quantos reinos nos ignoram! O silêncio eterno desses espaços infinitos perturba-me”.
Pascal entregou-se totalmente a Deus e doou os seus bens aos pobres. Em 1654 teve uma experiência extraordinária, mística, com o Deus vivo, de tal modo marcante que a descreveu e guardou escrita em segredo cosida no forro do casaco, tendo sido descoberta depois da morte por um criado. É o famoso Memorial:
"Ano da graça de 1654, Segunda-Feira, 23 de Novembro, dia de São Clemente, papa e mártir, e de outros no martirológio. Véspera de São Crisógono, mártir, e outros. Das dez horas e meia da noite, mais ou menos, até mais ou menos meia-noite e meia. FOGO. Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob, não dos filósofos e dos sábios. Certeza. Certeza. Sentimento. Alegria. Paz. DEUS de Jesus Cristo. Deum meum et Deum vestrum (Meu Deus e vosso Deus). "O teu Deus será o meu Deus". Esquecimento do mundo e de tudo, menos de Deus. Ele não se encontra senão pelas vias ensinadas no Evangelho. Grandeza da alma humana. "Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu conheci-te". Alegria, alegria, alegria, lágrimas de alegria. Separei-me dele. Dereliquerunt me fontem aquae vivae. Meu Deus, abandonar-me-eis? Que eu não me separe de ti eternamente. Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo. Jesus Cristo, Jesus Cristo. Eu separei-me dele, fugi dele, reneguei-o, crucifiquei-o. Que eu nunca me separe dele. Ele só se conserva pelas vias ensinadas no Evangelho: Renúncia total e doce. Submissão total a Jesus Cristo e ao meu director. Alegria eterna por um dia de exercício na terra. Non obliviscar sermones tuos. Ámen."
Pascal foi sempre crente, mas entendendo cada vez mais profundamente que só em Deus, no Deus vivo, o Deus de Jesus, o homem encontra a resposta para a sua tensão constitutiva e a verdade e o sentido pleno para a existência.
Foi uma experiência mística. Mas a fé tem de ser acompanhada pela razão, como diz em muitos textos. "Conhecemos a verdade não só pela razão, mas também pelo coração. "Miséria do homem sem Deus. Felicidade do homem com Deus." "Os homens têm desprezo pela Religião. Têm-lhe ódio e temem que seja verdadeira; para curar isso, é preciso começar por mostrar que a Religião não é contrária à razão, mas venerável, e digna de respeito. Torná-la em seguida amável." "Submissão e uso da razão: é nisso que consiste o verdadeiro cristianismo." "Se tudo submetermos à razão, a nossa religião nada terá de misterioso e de sobrenatural. Se contrariarmos os princípios da razão, a nossa religião será absurda e ridícula." "Há poucos cristãos verdadeiros. Digo o mesmo na questão da fé. Há muitos que crêem, mas por superstição. Há muitos que não crêem, mas por libertinagem, há poucos entre uns e outros. "A piedade é diferente da superstição."
Pensando concretamente nos libertinos, deixou o famoso pari (aposta). Como reza a aposta pascaliana em termos simples? Cito.
"Deus existe ou não existe. Para que lado nos inclinaremos? A razão não o pode determinar: há um caos infinito que nos separa. Na extremidade dessa distância infinita, joga-se um jogo em que há-de sair cruz ou coroa. Em que apostareis? É preciso apostar. Não é coisa que dependa da vontade. Já estais embarcados. Que escolha fareis? Já que é preciso escolher, vejamos o que menos vos interessa. Tendes duas coisas a perder: a verdade e o bem; e duas coisas a empenhar: a vossa razão e a vossa vontade, o vosso conhecimento e a vossa bem-aventurança; e a vossa natureza tem de evitar duas coisas: o erro e a miséria. A vossa razão não será mais lesada por escolherdes uma coisa de preferência à outra, pois é forçoso escolher. Eis um ponto assente. Mas a vossa felicidade eterna? Ponderemos o ganho e a perda, escolhendo a cruz que é Deus. Ponderemos estes dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai, pois, que Deus existe, sem hesitação. Há uma eternidade de vida e de felicidade. Há nisto uma infinidade de vida inteiramente feliz a ganhar, uma probabilidade de ganhar contra um número finito de probabilidades de perder, e o que jogais é finito. A nossa proposição tem por si uma força infinita, quando há o finito a arriscar num jogo onde há iguais probabilidades de ganho ou perda, e o infinito a ganhar. Que mal vos poderá acontecer tomando tal partido?" Mesmo em relação a esta vida terrena, o que perdereis? Nada. Pelo contrário, ganhais. Porquê? "Sereis fiel, honesto, humilde, reconhecido, benfazejo, amigo, homem de bem, sincero, amigo de verdade. Com efeito, não ficareis no meio dos prazeres empestados, com a glória, com as delícias, mas não tereis outras delícias? Digo-vos que ganhareis até nesta vida, e que, a cada passo que derdes neste caminho, vereis tanta certeza de ganho, e tanta nulidade naquilo que arriscais, que reconhecereis, por fim, ter apostado numa coisa certa, infinita, pela qual nada haveis dado."
"Oh! Este raciocínio transporta-me, arrebata-me, etc. " "Se vos agrada e vos parece forte, sabei que ele é feito por um homem que se pôs de joelhos antes e depois, para pedir ao Ser infinito e sem partes, ao qual submete tudo o que é seu, que submeta também o que é vosso para vosso próprio bem e para a sua glória, e que assim a força se concilie com essa baixeza" (de ajoelhar).
A sua última oração, antes de morrer: "Que Deus nunca me abandone!"
Pascal, o matemático, um dos maiores de sempre, e também um dos mais profundos cristãos de sempre, observou, nos Pensamentos: “Jesus estará em agonia até ao fim do mundo; é preciso não dormir durante esse tempo.”
Sim, a Paixão de Cristo continua e é preciso estar acordado e atento. Na Paixão de Cristo estamos todos.
1. Com uma vida a anunciar, por palavras e obras, o Deus que é Amor incondicional, Pai e Mãe, cujo único interesse é a realização plena de todos os seus filhos, a alegria e a felicidade de todos, a começar pelos mais pobres, humildes, abandonados, oprimidos, o que o colocava em confronto com os poderes opressores, religiosos, económicos, políticos..., Jesus, sabendo o que o esperava, ofereceu uma ceia, a Última Ceia, dizendo: “Isto é o meu Corpo, isto é o meu Sangue, a minha vida entregue por vós”. Aquele pão e aquele vinho são a sua pessoa entregue para dar testemunho da Verdade e do Amor. Quando se reunissem, deveriam fazer isso em sua memória, lembrando o que ele fez e é.
2. A religião sacrificial e ritual do Templo teve papel decisivo neste enfrentamento. Quem primeiro o condenou foi a religião oficial, cujos sacerdotes não toleravam ver os seus privilégios postos em causa: “Ide aprender o que isto quer dizer: eu não quero sacrifícios, mas justiça e misericórdia”, diz Deus. Do mais indigno que há: viver de e para uma religião que humilha e oprime em nome de Deus.
3. No Getsémani, Jesus entrou em pavor e angústia, “pôs-se a rezar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra”. Deus não atendeu a sua súplica e até os discípulos mais íntimos adormeceram. “Porque dormis? Levantai-vos e orai, para que não entreis na tentação.” Todos passámos ou passaremos, de um modo ou outro, por horas de dúvidas, de horror e de solidão atroz.
4. Judas era discípulo de Jesus, mas incorreu num equívoco: esperava um Messias político, que Jesus não era. Assim, não o entregou com a intenção de traí-lo e obter dinheiro. Estava era convicto de que Jesus, no confronto directo com os poderes vigentes, iria ele próprio tomar o poder, para libertar o povo. Por isso, quando viu o sucedido, foi, desesperado, entregar as moedas de prata. No meio do seu desespero, ninguém o compreendeu nem ajudou: “Isso é lá contigo”, disseram os sacerdotes. E ele enforcou-se. Ninguém lhe deu a mão.
5. Com medo de que a relação com os romanos se agravasse por causa da actuação de Jesus, o sumo sacerdote Caifás dera este conselho: “Interessa que morra um só homem pelo povo”. Aí está a presença de tantos inocentes que ao longo dos séculos foram vítimas da razão de Estado.
6. Pedro era um homem bom, amigo e generoso. Tinha prometido ir com Jesus fosse para onde fosse e nunca o abandonar. Mas bastou uma criada dar a entender, por causa da fala de galileu, que ele também devia ser um discípulo, para logo negar. Acobardou-se e negou o Mestre três vezes. Depois, o galo cantou, e ele lembrou-se das palavras de Jesus: “Antes de o galo cantar, negar-me-ás três vezes.” “E, vindo para fora chorou amargamente.” Até onde chega a nossa amizade e a nossa cobardia? São Pedro foi o primeiro Papa, mas ainda hoje a torre das igrejas católicas é encimada por um galo, a lembrar como a Igreja, assente na fé de Pedro, está sempre ameaçada por perigos sem conta e traições.
7. O conselho dos anciãos do povo, sumos sacerdotes e escribas julgaram e condenaram Jesus, mas não tinham poder para executá-lo. Entregaram-no, portanto, a Pilatos, representante do Império. Ele ter-se-á apercebido da inocência de Jesus, mas também teve medo de perder o poder, pois o povo clamava e podiam acusá-lo ao imperador. Então, lavou as mãos e mandou que Jesus fosse crucificado. Pilatos: outra vítima da cobardia. E sempre por causa do poder. O seu nome é dos nomes mais pronunciados ao longo da História, por causa do Credo: “crucificado sob Pôncio Pilatos”. Mas ainda hoje, para referir alguém que está num lugar que não é o seu, se diz: “Está ali como Pilatos no Credo.”
8. Ao tomar conhecimento de que Jesus era galileu, Pilatos remeteu-o para Herodes, que naqueles dias também se encontrava em Jerusalém. Jesus, tratado com desprezo, não respondeu a nenhuma das suas perguntas. Nesse dia, “Herodes e Pilatos ficaram amigos, pois eram inimigos um do outro.” Em política ou sempre que se trata de poder, seja ele qual for, é o que mais se tem visto: interesses comuns, políticos, económicos, de geoestratégia, tanto podem levar ao corte de relações como à amizade. Evidentemente, amizade hipócrita, interesseira.
9. As multidões não são fiáveis, são volúveis, com facilidade se submetem à manipulação. No julgamento de Jesus, a multidão gritava: “Crucifica-o, crucifica-o”. Os mesmos que no Domingo de Ramos o tinham aclamado triunfalmente: “Hossana, hossana ao filho de David!”
10. Um tal Simão de Cirene foi obrigado a carregar com a cruz de Jesus. O seu nome está associado a tantos cireneus que vamos encontrando na vida. No meio da dor, da incompreensão, da cruz, pode haver um cireneu que chega e apoia. Talvez forçado, mas apoia.
11. Os soldados riam-se, troçavam, fizeram chacota. Afinal, eles próprios não tinham uma vida feliz. Já alguém se lembrou de perguntar a um terrorista se alguma vez se sentiu amado?
12. Só as mulheres não fugiram, mantendo-se sem medo junto à cruz. Talvez percebam mais da vida e das suas dores e também amem mais.
13. Mesmo no final da existência e no supremo sofrimento, os comportamentos das pessoas não são necessariamente iguais. Com Jesus, foram crucificados dois malfeitores, talvez dois terroristas. Um continuou a blasfemar enquanto o outro reflectiu e pediu a Jesus que se lembrasse dele no seu Reino. O centurião deu glória a Deus: “Verdadeiramente este Jesus era um justo”.
14. Quem preside no Calvário, no meio do abandono total, é Jesus, que perdoou a quem o matava e que gritou, do alto da cruz, perguntando, aquela oração que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?” Deus não respondeu, mas Jesus continuou a confiar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”
15. Jesus morreu crucificado, a morte que os romanos davam aos rebeldes e aos escravos. Aparentemente, foi o fim. O enigma histórico do cristianismo é que, pouco tempo depois, os discípulos voltaram a reunir-se e foram anunciar ao mundo que aquele Jesus crucificado é realmente o Messias, o Salvador. Fizeram a experiência avassaladora de fé, a começar por Maria Madalena, de que esse Jesus crucificado está vivo em Deus para sempre, como desafio e esperança para todos, e acreditaram porque Deus é Amor, e deram a vida por essa fé, que chegou até nós. Mas, na expressão de George Steiner, é em Sábado que vivemos: entre o horror da Sexta-Feira Santa e a esperança do Domingo da Páscoa da ressurreição.
A fé é um combate, como dá testemunho também o teólogo rebelde Hans Küng, a aproximar-se do seu próprio fim. Confessou recentemente que uma das suas irmãs lhe perguntou com toda a seriedade: «Acreditas realmente na vida depois da morte?» E ele: «Sim, respondi com convicção. Não porque tenha demonstrado racionalmente essa vida depois da morte, mas porque mantive a confiança racional em Deus e porque na confiança no Deus eterno também posso confiar na minha própria vida eterna. Devo ou não ter esperança em algo que seja a ultimidade de tudo? Uma vida eterna, um descanso eterno, uma felicidade eterna? Isso é problema da confiança, mas de modo nenhum de uma maneira irracional, mas de uma confiança responsável. É irracional a confiança em Deus? Não. A mim parece-me a coisa mais racional de tudo quanto o ser humano pode ser capaz. O que me parece absurdo é pensar que o ser humano morre para o nada. A passagem à morte e a própria morte são apenas estações a que se segue um novo futuro. A vida é mais forte do que a morte e o ser humano morre entrando na Realidade primeira e última, inconcebível e inabarcável, que não é o nada, mas sim a Realidade mais real. Vita mutatur, non tollitur: a vida transforma-se, não acaba. Eu defendo uma fé cristã em Deus e na vida eterna. Sem Deus, a fé na vida eterna não teria razões, careceria de fundamento. E vice-versa: a fé em Deus sem fé na vida eterna careceria de consequências, não teria um objectivo».
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado o no DN | 14 ABR 2019
Constitui a consciência uma instância de apelo quando as certezas se inquietam?
Ainda que assim seja este apelo parece frágil se o confrontarmos com a evocação da Lei como sendo a melhor saída em sede de Moral.
Creio ser de nos debruçarmos sobre uma polémica que no séc. XVII opôs Pascal e os jansenitas – que tão só conheço como movimento teológico distinto dentro da Igreja Católica e que surgiu postumamente do holandês Cornelius Jansen - a um enorme número de católicos.
Não esqueço que na Igreja católica a Lei infalivelmente transmitida será e foi sempre a que levou à estrada da vida moral autêntica.
Contudo, parece poder-se afirmar que o que visa uma moral recta, num regime de uma sociedade, é o que leva ao recurso da instância da consciência, sem se poder admitir que não existem flutuações afetadas pelo relativismo pois que o recurso à fé não é o único pelo qual se optou, e, nem mesmo a fé, é sempre vivida como montanha de infraestruturas inabaláveis.
Gostava de chegar a tratar este tema com a profundidade que merece. Inquieta-me não saber ainda explicar com segurança e clareza o quanto sinto que as tradições não constituem já base de decisão, mas sim, devemos procurar dentro da articulação tão difícil da Ética e da Moral o compromisso que nos acuda, assente em consciências, que, afinal são em si, situações culturais e por onde cada um pode encontrar carreiro sensato.
Herdámos uma coexistência de sistemas morais. Cabe-nos fazer deles uma força e entendê-los nos seus paradoxos e nas nossas fraquezas.
Que todos nos saibamos submeter à prova de expor sem medo as regras da cidade de cada um, o que supõe um trabalho de discernimento de valores e seus opostos que irão ditar a nossa decisão face ao nosso projeto de vida, decidindo ou não recorrer à consciência como instância.