Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 12 a 18 de novembro de 2018.

 

Os seis ensaios que constituem a obra «As Artes do Sentido» de George Steiner (Relógio d’Água, 2017) põem-nos perante o tema do confronto e da ligação ente Humanidades e as Ciências, o que constitui questão crucial quando se fala da noção ampla de património cultural que comemoramos este ano de 2018.

 

 

MAIS DO QUE UM ACERVO DO PASSADO
O Ano Europeu do Património Cultural não celebra apenas um acervo europeu, uma identidade europeia ou um passado exclusivo. Falar de Património Cultural é falar de uma noção comum, universal, capaz de unir a humanidade e de criar condições para uma verdadeira cultura de paz, que a UNESCO tem proclamado. Estamos no centro do culto saudável das Humanidades. Este Ano Europeu situa-se na linha do que defende a Convenção de Faro, sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (2005). Não se está a tratar de uma identidade europeia, fechada sobre si mesma, sucedâneo de identidades nacionais. O undamental é a referência ao Património Cultural, como realidade dinâmica e humanista. Recorde-se o que diz a Convenção de Faro: «O património cultural constitui um conjunto de recursos herdados do passado que as pessoas identificam, independentemente do regime de propriedade dos bens, como um reflexo e expressão dos seus valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução inclui todos os aspetos do meio ambiente resultantes da interação entre as pessoas e os lugares através do tempo» (artigo 2º, alínea a). E não esquecemos entre os objetivos deste instrumento do Conselho da Europa: “a preservação do património cultural e a sua utilização sustentável”, tendo por objetivo “o desenvolvimento humano e a qualidade de vida” (artigo 1º, alínea c), bem como a adoção das “medidas necessárias à aplicação do disposto na presente Convenção, no que se refere ao papel do património cultural na edificação de uma sociedade pacífica e democrática, bem como no processo de desenvolvimento sustentável e de promoção da diversidade cultural” (alínea d). É a prioridade à Cultura que está em causa, compreendendo-se esta ligada à Educação e à Ciência. Falamos do mundo da vida, das raízes, das aspirações, das atitudes e dos valores – do que recebemos e do que legamos. Eis por que razão quando Palmira foi destruída parcialmente na guerra da Síria, quando o diretor do centro arqueológico foi assassinado, ou quando qualquer parcela da humanidade e da sua cultura são atingidos é do património cultural no seu todo que está em causa. Não são os produtos do passado que devem ser repetidos – importa, sim, que o passado constitua uma base para compreender melhor o presente e para lançar as bases do futuro. E não esquecemos a lição de John Dewey quando falava da educação e da escola como realidades que pressupunham um “processo vivo”, um enriquecimento permanente pela experiência, uma sociedade aberta à inovação e à diversidade, uma democracia cooperativa. Neste sentido o cuidado do património cultural tem de ter um lugar especial na educação e na escola, na informação e na troca de saberes.

 

IDENTIDADE E PATRIMÓNIO
Longe da tentação de ver o património cultural como uma marca exclusiva ou própria de uma comunidade só, temos de estar conscientes de que as identidades e o património cultural só se enriquecem abrindo-se à diferença e à alteridade. Só assim poderemos enriquecer o que é próprio, dando-lhe dimensão humanista e universalista, em lugar da tentação uniformizadora e indiferente ou de simplificações folclóricas e de uma cultura de bricabraque. Nesse sentido, neste Ano Europeu, propus logo de início, e foi aceite, o reconhecimento da necessidade de dar às escolas, às comunidades educativas e às famílias um papel especial – de modo a lançar sementes para o futuro e como exigência de não deixar o património cultural ao abandono, compreendendo-se simultaneamente que um monumento e uma tradição que estão próximos, têm de fazer lembrar as referências culturais e patrimoniais que estão mais distantes. Por isso, os concursos que lançámos nas escolas tiveram sempre presente a escolha de um elemento próximo e de um outro exemplo europeu – de modo a entender que há uma dimensão de abertura à diversidade que não pode estar ausente, e que torna mais valiosa e aberta a nossa identidade, como fator de troca, de respeito e de enriquecimento mútuo. O património cultural tem múltiplas componentes: monumentos, museus, edifícios históricos, arquivos, referências artísticas e arqueológicas – o património material -, tradições, costumes, línguas e dialetos, romanceiros, artesanato, música e danças, relações interculturais – o património imaterial -, mas ainda o património natural, o meio ambiente, as paisagens, o património digital, e a criação contemporânea… esta enumeração abre inúmeras pistas que nos obrigam a uma especial atenção relativamente à criatividade humana.

 

ENTENDER A COMPLEXIDADE
Como tem ensinado Edgar Morin, importa compreender que a complexidade tem de ser entendida como chave do saber. Impõe-se que a informação de que dispomos se transforme em conhecimento e que o conhecimento se torne sabedoria. E que é a evolução das sociedades humanas senão uma sucessão de metamorfoses como as ciências naturais nos ensinam? Não é possível entender a importância das Humanidades sem ligar as culturas literária e científica, as artes e a matemática (como no-lo ensinou Almada Negreiros) – Sophia de Mello Breyner alertou-nos, deste modo, para que ler uma pauta de música ou distinguir um alexandrino ou uma redondilha obrigava a cuidar da numeracia. E se nos preocupamos com a relação com a natureza, temos de considerar a Ecologia, os recursos naturais em risco, as emissões poluidoras, o aquecimento global, do mesmo modo que os códigos genéticos, a ética suscitada pelo progresso científico e tecnológico como exigentes desafios para a Humanidade. E, se se fala da 4ª revolução industrial, temos de lembrar não apenas a microinformática ou as tecnologias de informação, mas também as novas fontes de energia e os progressos no domínio da saúde, como a imunologia e a evolução celular… O património cultural envolve, assim, um mundo fascinante, mas incerto e complexo. A cultura não é um luxo nem uma realidade supérflua, não é o último capítulo de um programa político, nem a cereja no cimo de um bolo – é uma prioridade absoluta e um tema transversal, que envolve a aprendizagem como fator decisivo do desenvolvimento humano, que reclama o espírito científico. A razão e os sentimentos estão intimamente associados, como nos ensina António Damásio, numa tradição antiga que encontramos desde os pré-socráticos até Montaigne ou Leibniz e à modernidade. A arte e a ciência reclamam o espírito criador e a necessidade de compreender como são incindíveis a continuidade e a inovação. A crise financeira que ainda sofremos desvalorizou a capacidade criadora e limitou-se à ilusão das economias de casino. A valorização do património cultural abre veredas atentas á dignidade humana. É a democracia que está em causa. Precisamos de instituições mediadoras nas quais os cidadãos estejam e se sintam representados, e em que participem. O património cultural liga-nos às gerações que nos antecederam e tornam-nos responsáveis pelo valor que formos capazes de criar, melhorando o que legarmos a quem nos vai suceder…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

JÁ CEM ANOS…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Especial. 11 de novembro de 2018

 

A imagem do vagão no Bosque de Compiègne em que o Marechal Foch encara o General alemão Maxime Weygand, representante alemão, fica na retina. A memória dos povos é curta, mas faz-se de grandes acontecimentos e de grandes tragédias. A primeira guerra mundial, que terminou com a assinatura do armistício, há exatamente cem anos, foi um desses acontecimentos marcantes, ainda que a esperança que então existiu depressa se tenha desvanecido pelo graves erros cometidos na Conferência de Versalhes, de que resultou a humilhação dos vencidos, em especial do Império Alemão, com as consequências conhecidas. Vinte anos depois a guerra regressaria mais mortífera que nunca. Os vinte milhões de mortos registados entre 1914 e 1918 não serviram de lição. Até 1945 tivemos, na continuação, uma tremenda Guerra dos Trinta Anos. E a segunda guerra registaria mais de sessenta milhões de mortos. A História da Europa e do mundo contemporânea foi marcada por esses acontecimentos, que agora se recordam. Porém, não basta a invocação formal. A União Europeia vive momentos de perplexidade e incerteza. Quando o Presidente Macron e a Senhora May aparecem a homenagear os soldados mortos há a estranha sensação de estarmos num filme de ficção, com o Brexit em fundo a marcar uma fragmentação perigosa. Depois, há outros elementos perturbadores. O Presidente Trump é a instabilidade em pessoa, a Itália demonstra uma evidente falta de coesão, a Hungria e a Polónia agem como crianças irrequietas numa loja de porcelanas, A Rússia convence-se mal de que não é mais do que uma potência regional, capaz de perturbar o cenário mundial, mas pouco mais… A China está num compasso de espera, ciente de que se tem de preparar para uma influência global. Os fatores somam-se terrivelmente. E a Senhora Merkel? Dir-se-ia que a Europa precisa mais do que nunca da ligação efetiva entre o Eixo Franco-Alemão e a Entente Cordiale! O Reino Unido é indispensável à Europa. E se é preciso fazer um acordo para o Brexit criem-se condições para que a defesa e a segurança sejam garantidos e que o tema das fronteiras não semeie um conflito imprevisível. Nesta celebração do Armistício de 1918 lembremo-nos de tudo isto. Não basta celebrar. É preciso tirar lições!

 

As papoilas de papel ou os pequenos capacetes militares da minha infância estão bem presentes para a minha geração. Mas a memória esvai-se e o horizonte do desastre pode reaparecer… Leia-se o poema do médico canadiano que tornou a papoila símbolo da memória da guerra. John Mc Crae (1872-1918) escreveu que as papoilas cresciam nos campos da Flandres entre as cruzes dos mortos:

 

In Flanders' fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place: and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.

We are the dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie
In Flanders' fields.

Take up our quarrel with the foe;
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high,
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow  
In Flanders' Fields.

 

Agostinho de Morais

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

LEMBRAR A CONVIVIALIDADE…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Nova série. 30.10.2018

 

Um dia destes fui dar com um velho texto e uma fotografia jovial entre um conjunto de papeis amarelecidos no fundo de uma gaveta. Li e achei que havia interesse em regressar ao tema… Nos tempos da "Raiz e Utopia" da saudosa Helena Vaz da Silva, um dos autores mais citados era Ivan Illich. Era um pensador rebelde. As suas obras podem ser lidas  com redobrado interesse, uma vez que foi dos primeiros a pôr o dedo na ferida aberta pelo consumismo e por aquilo que hoje designamos como fundamentalismo de mercado. Disse-nos, com veemência, que o crescimento material é enganador, sobretudo se visto na ótica da destruição da natureza e da insaciabilidade por novos bens e novas riquezas, ainda que esses se adquiram à custa da miséria e da exclusão. Há uma semana invocávamos o conceito de justiça de Rawls, hoje falamos do inconformismo de alguém que acreditava sinceramente em que era possível inverter a tendência para que as instituições se tornassem fatores de limitação e de bloqueamento da sociedade humana. Illich acreditava na "convivialidade", porque via tudo a partir das pessoas e da necessidade de ir ao seu encontro. Questionou, por isso, a escola, a saúde, as administrações e a organização económica de uma industrialização predadora. "A solução da crise obriga a um volte-face radical: só mudando a estrutura profunda que regula a relação do homem e do instrumento poderemos dar-nos instrumentos justos" - dizia. "O instrumento justo deverá, porém, obedecer a três exigências - deve ser gerador de eficiência sem degradar a autonomia pessoal, não deve criar nem escravos nem mestres, deve, no fundo, alargar o raio de ação das pessoas". Para Illich, do que precisamos é de instrumentos com que trabalhar, e não de instrumentos que trabalhem em vez de nós. Afinal, necessitamos de uma tecnologia que tire o melhor partido da energia e da imaginação pessoais, não de uma tecnologia que nos torne servis e programados… Compreende-se bem que Illich, ao longo da sua vida, tudo tenha procurado fazer para conciliar raízes e utopia, lutando para que esta não se tornasse escravizadora. Numa vida muito rica (1926-2002), desde Viena, onde nasceu, a Cuernavaca (México), onde animou o CIDOC (Centro Intercultural de Documentação), passando por Florença, Roma, Nova Iorque e Porto Rico, Illich procurou ser sempre fiel à defesa intransigente da dignidade das pessoas e da força de uma cultura humana. Tudo para que os "mecanismos de usura não ameacem o direito das pessoas à sua tradição, o recurso ao que nos precede, através da língua, do mito e do ritual". Que valerá a utopia sem fidelidade às raízes?

 

E assim recordo “Os pássaros de Londres” de Cesariny!

 

«Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada…»(«Poemas de Londres»).

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

UM OUTONO FLORIDO…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 23.10.2018

 

Poderá parecer estranho, mas um dia destes, caminhando pela cidade, eu que sou campestre, descobri algo que já conhecia, mas não com a exuberância deste ano. Já escrevi algures que as árvores têm memória – e que os jacarandás, originários da América do Sul, nos surpreendem no Outono com uma estranha e inesperada floração. Do que se trata é da lembrança de que a Primavera brasileira ocorre agora e que a exuberância floral é deste tempo. Pois bem, todos os anos dou-me ao cuidado de descobrir uma leve floração nos meus queridos jacarandás. Mas este ano a surpresa ultrapassou o que eu alguma vez supusera. Com os calores inusitados do início do nosso Outono encontrei casos de floração autêntica e exuberante, como se estivéssemos na verdadeira Primavera… Nunca tinha presenciado este fulgor, esta força… Serão talvez efeitos do aquecimento global… O certo, porém, é que os jacarandás deram neste Outono um ar especial da sua graça, confirmando a etimologia da palavra – há dias recordada por José Tolentino Mendonça – como um tempo criador, em que os frutos exprimem em si a força própria da natureza.

 

Caem as folhas, é certo, mas a natureza assume uma metamorfose criadora. Fiquei deveras feliz ao sentir a vitalidade do património genético. E corro ao meu jardim onde as romãs me chamavam. Começaram a abrir lentamente, o que significa que estão maduras… Depois da alegria dos jacarandás, é a força dos frutos do jardim… E em bom rigor compreendi, como antes e sempre, que esta é a estação da maturidade, que é o corolário de tudo o que foi o ano… Dentro em breve começará a invernia. A natureza entrará em letargia, para ganhar novas forças. Os ursos hibernarão com toda a natureza, e o seu ritmo cardíaco reduzir-se-á para que as energias se não percam… Ah! Quão bela é esta natureza… E quão acolhedor é o jardim quando recupera forças…

 

E tomo em mãos a obra de António Ramos Rosa. É, de facto, a verdade que está em causa… É “o sopro, a falha e a sombra fascinante”…

 

A verdade é semelhante a uma adolescente
vibrante, flexível, em radiosa sombra.
Quando fala é a noite translúcida no mar
e a esfera germinal e os anéis da água.
Um apelo suave obstinado se adivinha.

Ela dorme tão perfeitamente despertada
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira
à cegueira, ao eclipse, à travessia
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe
que o muro está em si. Ela é a sede

e o sopro, a falha e a sombra fascinante.
Ela funda uma arquitetura volante
em suspensas superfícies ondulantes.
Ela é a que solicita e separa, delimita
e dissemina as sílabas solidárias.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

 

LITERATURA VIVA!

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 19.10.2018

 

Esta semana lembrei-me de ir a um maço, guardado num lugar recôndito da biblioteca,  onde estão números antigos da “presença – folha de arte e crítica” e dei-me a recordar referências antigas. Fiquei no início de tudo, em março de 1927, no texto emblemático de José Régio sobre “Literatura Viva”. Com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, tratou-se de, sob a inspiração dos modernistas de “Orpheu”, iniciar um novo tempo que demoraria a afirmar-se. E se digo que demoraria a afirmar-se é porque os jovens presencistas não foram os iconoclastas de 1915. O que fizeram, sim, foi proclamar o reconhecimento do contributo decisivo de Fernando Pessoa e dos seus. E se em determinado momento houve uma especial irritação com Eduardo Lourenço por ele ter estabelecido a distância entre o “Orpheu” e a “presença”, usando a palavra “contra-revolução”, a verdade é que o ensaísta de “Pessoa Revisitado” não usou a expressão com sentido político, mas com jaez metafórico. Os doze anos que separavam as duas revistas tinham muito que se lhes dissesse. Houve um compasso de espera de uma terrível guerra que durou trinta anos – e o presencismo tomou as devidas cautelas, não embarcando em qualquer unilateralismo. À Literatura o que era da literatura, sendo que a liberdade criadora, deveria ser posta em lugar cimeiro. Aqui completavam a geração de “Orpheu”, pondo mesmo a liberdade na ordem dia, sem ambiguidades que os modernistas alimentaram no fascínio mussolinesco. Fernando Pessoa desdobrou-se nos registos diferentes dos heterónimos e tornou-se progressivamente cada vez mais interessante, para além de um certo nacionalismo, que era moda do tempo. A “presença” admirava o cultor e os cultores da literatura viva, demarcando-se da mera função social da arte… Punham a tónica na palavra, na expressão artística, na liberdade criadora. Em arte seria vivo tudo o que era original. E a esta luz li o primeiro editorial da revista e tudo o que isso significava, de liberdade e autonomia – a começar pelo reconhecimento do génio de Pessoa e dos seus, sem preconceito nem limitação… Era, no fundo, a originalidade que admiravam.

 

Eis a célebre prosa Regiana:     

 

«Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos mais, (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro... Eis como é falsa toda a originalidade calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas - mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre estas qualidades, o produto desses temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afetadas, semelhantes qualidades não passarão dum truque literário.


Pretendo aludir nestas linhas a dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhes esse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade. A falta de originalidade da nossa literatura contemporânea está documentada pelos nomes que mais aceitação pública gozam. É triste - mas é verdade. Em Portugal, raro uma obra é um documento humano, superiormente pessoal ao ponto de ser coletivo. O exagerado gosto da retórica (e diga-se: da mais sediça) morde os próprios temperamentos vivos; e se a obra dum moço traz probabilidades de prolongamento evolutivo, raro esses germes de literatura viva se desenvolvem. O pedantismo de fazer literatura corrompe as nascentes. Substitui-se a personalidade pelo estilo. Mas criar um estilo já é ter uma personalidade. E quem não tem personalidade só pode ter um estilo feito, burocrata, erudito, amassado de reminiscências literárias, de auto-plágios, e de pobres farrapos sobreviventes ao naufrágio. Assim se substitui a arte viva pela literatura profissional. E é curioso: Só então os críticos portugueses começam a reparar em tal e tal obra: Quando ela exibe a sua velhice precoce e paramentada. Regra geral, os nossos críticos são amadores de antiguidades. Em vez de lhes alargar o gosto, a erudição amarelenta-lhes a alma... Mas esta é outra questão, bem digna de ser tratada menos acidentalmente. Volto ao meu assunto, e suponho agora um exemplo talvez mais consolador: O escritor português tem e mantém uma personalidade. Pergunto: É essa personalidade suficientemente rica para que produza uma obra rica de conteúdo e de continente, de substância e de forma? É regra geral - presto homenagem às exceções - os nossos artistas terem uma mentalidade insuficiente; uma sensibilidade por vezes intensa, mas reduzida; e uma visão unilateral da vida. Esgotados em dois ou três livros, repetem-se confrangedoramente. E o seu progresso é puramente linguístico, superficial e negativo, porque breve a língua deixa de ser um meio vivo de expressão artística. É um instrumento quase inútil, que se aperfeiçoa segundo este ou aquele preconceito». (Presença, número 1, 1927)

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

PEGA AZUL OU CHARNECO – UM BOM SÍMBOLO


TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 9.10.2018

 

Em Loulé, no sábado passado, o meu amigo Arquiteto Fernando Pessoa fez uma sugestão algo revolucionária. Falou-nos de uma pequena ave comum no Algarve e no sul português, mas também no distante Japão – a pega azul, rabilongo ou charneco (cyanopica cyanus). Ora, considerando que a dita avezinha apenas persiste, depois de mil vicissitudes, em territórios tão distantes geograficamente entre si, no extremo ocidental e no extremo asiático mas tão próximos no diálogo histórico e cultural, é caso para perguntar se não poderia tornar-se um símbolo do património natural e da paisagem… Afinal, acompanhou a nossa projeção global – e D. João II enalteceu-o.  Se o património cultural não deve ser fechado, mas disponível e aberto, eis um bom exemplo de ligação natural entre o que é próprio e diferente… Esta pega azul bem pode tornar-se um símbolo. Vejo-a correr em busca de novidades. E que é o património senão essa curiosidade permanente perante o que é vivo?

Nas minhas deambulações percebo bem a sugestão do Arquiteto. Também tendo a adotar um símbolo. Para já fiquemos com ele… E oiçamos o poeta de Alte.

 

Cheios de paz e cheios de doçura,

Dão-me os teus olhos tanta claridade

Que a minha tormentosa noite escura

Se rasga em Vias-lácteas de bondade!

 

E vou na trajetória da ventura,

E sigo a linha reta da verdade,

Por ti guiado, oh frágil criatura,

Tão forte em tua simples humildade!

 

Que o amor vos traga aonde o amor me trouxe,

Cegos que enveredastes pelo mal,

Pois nesta estrada chã, direita e doce,

 

A morte ajoelhará quando vier,

Ante a Vida, que a Vida é imortal,

Reflorindo num seio de mulher!

(Cândido Guerreiro)

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

UMA CARTA OPORTUNA

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 2.10.2018

 

Meus Caros leitores, passeando eu há pouco na volta do Duche a caminho do Palácio da Vila de Sintra, lembrei-me por momentos do entusiasmo e da revolta de Jorge de Sena em torno dos temas da justiça e da cidadania. Todos vivemos preocupados por tantas incertezas. Há dias a Assembleia Geral das Nações Unidos trouxe-nos novas angústias – e o secretário geral alertou o mundo para os mil perigos que nos ameaçam… Nada melhor hoje do que remeter para o poema de Sena.

Ele nos diz tudo, em nome de uma verdadeira educação cívica! 

 

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA 

 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. 
É possível, porque tudo é possível, que ele seja 
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, 
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém 
de nada haver que não seja simples e natural. 
Um mundo em que tudo seja permitido, 
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, 
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. 
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto 
o que vos interesse para viver. Tudo é possível, 
ainda quando lutemos, como devemos lutar, 
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, 
ou mais que qualquer delas uma fiel 
dedicação à honra de estar vivo.
 

(...)

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém 
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. 
É isto o que mais importa - essa alegria. 
Acreditai que a dignidade em que hão de falar-vos tanto 
não é senão essa alegria que vem 
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez 
alguém está menos vivo ou sofre ou morre 
para que um só de vós resista um pouco mais 
à morte que é de todos e virá. 
Que tudo isto sabereis serenamente, 
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, 
e sobretudo sem desapego ou indiferença, 
ardentemente espero. Tanto sangue, 
tanta dor, tanta angústia, um dia

- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -

não hão de ser em vão. Confesso que 
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos 
de opressão e crueldade, hesito por momentos 
e uma amargura me submerge inconsolável. 
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, 
quem ressuscita esses milhões, quem restitui 
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? 
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes 
aquele instante que não viveram, aquele objeto 
que não fruíram, aquele gesto 
de amor, que fariam «amanhã». 
E, por isso, o mesmo mundo que criemos 
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa 
que não é nossa, que nos é cedida 
para a guardarmos respeitosamente 
em memória do sangue que nos corre nas veias, 
da nossa carne que foi outra, do amor que 
outros não amaram porque lho roubaram.

(Jorge de Sena)

 

Leio e não esqueço!

 

Agostinho de Morais

 

 

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

 

RESPOSTA AOS CURIOSOS…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 25.9.2018

 

Já falei dos meus passeios entre Vila Nogueira e Aldeia de Irmãos, já vos lembrei um poeta árabe do século 11 que viveu em terra de saloios, e devo recordar a série de 32 postais sobre diversas formas de encarar o património cultural. Recebo, porém, no meio do correio, três cartas intrigantes. Os meus leitores A. Silva (será António, Arnaldo, Asdrúbal?), J. Eustáquio (será José, João) e a Mariana B. Lopes perguntam-me quem sou. Julgo que é o que menos importa, mas não me escondo. Dir-vos-ei sumariamente a minha identidade… O meu nome, já o sabem, é Agostinho de Morais. Meus pais foram económicos. Sou afilhado de Frei Agostinho da Cruz graças a uma licença especial e de uma tia Maria Olímpia, de antigos pergaminhos. Sou um vetusto interessado por muitas coisas. Fiz jornalismo económico no velho “Jornal do Comércio”, como comentador da conjuntura, com base nas publicações mensais da Estatística. Todos os meses, tinha à minha porta um paquete do jornal, para que eu pudesse debruçar-me sobre fastidiosos quadros que tinha de comparar com os meses anteriores e os anos transatos, cabendo-me escolher ainda um número em cada publicação, para que se compreendesse um pouco o que mudava e o que ficava na realidade económica. Previ muitos disparates, mas enganei-me às vezes (quem não se engana? Talvez os tontos?). As várias bolhas que foram surgindo eram detetáveis (do imobiliário à informática) – e não esqueço aquelas duas caricaturas de um grande jornal de Wall Street – em 1929, viam-se vários capitalistas, gordos e de charuto a atirarem-se das janelas dos arranha-céus de Nova Iorque; enquanto em 2008, os tais capitalistas de charuto estavam à janela, impávidos, a ver os pobres corretores e empregados a saltarem para a morte, agarrados aos seus parcos haveres, como os do Lehman Brothers, depois de terem sonhado enriquecer rapidamente… O certo é que há muito esqueci esse tempo em que usava mangas de alpaca, literalmente. E não foi há tanto tempo assim. Agora dedico-me ao meu jardim, às minhas rosas, que têm segredos inconfessáveis, que tenho estudado aturadamente. Há mesmo uma rosa-chá que leva o nome Morais e está devidamente registada. O cultivar o jardim é o ponto em que concordo com o “Cândide”, já que detesto a imagem do Dr. Pangloss, que as más línguas dizem ser o Leibniz… Não pode ser. Todos os dias leio um pouco de Leibniz, e em cada dia mais me convenço de que foi um dos maiores génios da humanidade de sempre… Adoro matemática, e tantas vezes dedico-me a fazer a análise matemática dos poemas de Camões – de facto, todos os grandes poetas e músicos têm a matemática dentro de si… A biblioteca é o meu refúgio favorito. Que mais vos posso dizer? Jogo xadrez com os amigos, mediocremente, porque sou distraído quando quero. Sou arqueólogo nas horas vagas – procurando afanosamente a chave da nossa misteriosa escrita do Sudoeste. Por isso tenho estudado a escrita fenícia. E tenho esperança de que avancemos proximamente para a descoberta da chave. Não sou solitário nem misantropo. Tenho uma família razoável e gosto da animação. Eis quem sou, não há muito mais a dizer. O relógio marca os meus passos. Sou um maníaco dos horários e fico desesperado quando há atrasos injustificados! O relógio que trago comigo é um Longines histórico de várias gerações que se mantém fiel à certeza e ao rigor. Parece mesmo ter havido um antepassado meu que teve como função manter os relógios certos no Paço Real… Sinto na minha ancestralidade algo que anima meus passos.

 

E, como habitualmente, cito um poema.

Desta feita da autoria de Pedro Tamen.

“A Luz vem das Pedras” de 1975:

 

«A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra, 
tu a colhes, mulher, a distribuis 
tão generosa e à janela do mundo. 
O sal do mar percorre a tua língua; 
não são de mais em ti as coisas mais. 
Melhor que tudo, o voo dos insetos, 
o ritmo noturno do girar dos bichos, 
a chave do momento em que começa o canto 
da ave ou da cigarra 
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere 
a corda do que em ti faz acordar 
os olhos densos de cada dia um só. 
Quem está salvando nesta respiração 
boca a boca real com o universo?» (Agora, Estar).

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

PARA LÁ DAS PORTAS DE BENFICA…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número Extra 3

 

Não sou do tempo da Porcalhota, mas a minha idade permite-me ter ouvido e lido muitas histórias sobre os passeios lisboetas às hortas, para ir comer o famoso coelho à caçadora… E bebi muita água de Caneças. Para lá das portas de Benfica era outro mundo. As portas separavam as duas zonas de Benfica (dentro e extramuros). Foram posto da guarda fiscal, herdeira dos guarda-barreiras, até 1892. Por lá passavam os aguadeiros, os pastores, os comerciantes, os ferro-velhos, as lavadeiras com os seus róis (é assim mesmo o plural de rol) de roupa, lençóis, fronhas, guardanapos, toalhas… E havia os figos de capa-rota, as maçãs de roer, a fruta da época e os pregões. A-ú, para a água, Azeitonas a 30 réis, petroline, fava rica, quem quer figos quem quer almoçar, quem tem trapos e garrafas para vender, esticadores para os colarinhos… Caneças, Venda Seca, Assafora, Belas – tudo nomes bem conhecidos, com águas puríssimas e lugares de grandes convívios e comezainas. E havia ainda os célebres burros, com cangalhas, albardas e gorpelhas… A Porcalhota tornou-se Amadora em 1907 por solicitação dos fregueses da terra, em nome da dignidade do lugar e para pôr fim a um velho rol de chistes. E em 1919 aí se instalou a Esquadrilha de Aviação República. Vasco Porcalho, herói de Aljubarrota, está na origem da designação primitiva… Oiçamos, no entanto, Raul Proença no seu “Guia de Portugal” falar-nos dos saloios: “Quando D. Afonso Henriques tomou posse de Lisboa consentiu-se ao mouro que refluísse para os subúrbios da cidade, e ele aí se estabeleceu, entregue ao cultivo das hortas, com a água a escorrer da nora gemedora. É desta população consentida, mourisca e subalterna, que deriva o mais da gente que habita os contornos de Lisboa – o saloio de tez morena, pele tisnada, olhos e cabelos negros ou castanhos, membros secos, tipo sem finuras de raça e beleza plástica de linhas, tão afastado em verdade da gente bela e robusta do Norte, como um berbere dum dos melhores rebentos de gente circassiana. Psicologicamente, caracteriza-o o espírito de rotina, a curteza de vistas, a avareza levada à sordidez, e essa sistemática atitude de desconfiança, que, sob o nome esperteza saloia, tomou foros de proverbial e foi filão aproveitado por muita veia cómica nos teatros de Lisboa”. O falar castiço vai-se perdendo, mas ainda é lembrado… Os berberes são os bárbaros do sul, a etimologia é a mesma. Çaloio ou Çalaio era o tributo que os mouros pagavam para comerciar em Lisboa. Daí talvez a designação desses habitantes dos arrabaldes de Lisboa… Proença exagera. Os moçárabes têm características várias e o certo é que todo o povoamento do sul e o municipalismo contaram muito com eles. Há dias, olhando um boneco de Leal da Câmara recordei-me disto tudo, mas quando passo pela floresta de cimento dos arredores de Lisboa sinto que tudo mudou. E quando lemos Ramalho a falar dos passeios às hortas ou das conversas dos saloios, sentimos que tudo é diferente. Os casais saloios foram demolidos, os burros foram-se, os pastores e os seus rebanhos ou os perus do Natal desapareceram… Mas se tivermos olhos de ver, descobriremos pequenos apontamentos – e se bem insistirmos na descoberta reencontramos uma boa e inesperada receita de coelho à caçadora, em que os saloios eram exímios ou uma pequena romaria que os jovens teimam em não deixar morrer… Os moinhos são raros, as noras desvaneceram-se, mas não podemos esquecer um genuíno poeta árabe estudado nas escolas marroquinas e que é muito nosso…  

 

Ibn Mucana (século XI), o poeta árabe de Alcabideche, dá-nos o tom e a lembrança – onde os moinhos, as noras e os engenhos agrícolas têm uma presença essencial. Ah, mas onde estão eles?

«Ó tu que vives em Alcabideche, oxalá nunca te faltem

nem grãos para semear, nem cebolas nem abóboras
Se és homem decidido precisas de um moinho
que trabalhe com as nuvens sem dependeres dos regatos.
Quando o ano é bom a terra de Alcabideche
não vai além das vinte cargas de cereais.
Se rende mais, então sucedem-se,
ininterruptamente e em grupos compactos,
os javalis dos descampados.
Alcabideche pouco tem do que é bom e útil.
como eu próprio quase surdo como sabes.
Deixei os reis cobertos com os seus mantos
e renunciei a acompanhá-los nos cortejos…
Eis-me em Alcabideche colhendo silvas com uma podoa ágil e cortante.
Se te disserem: gostas deste trabalho?, responde; sim.
O amor da liberdade é o timbre de um carácter nobre.
Tão bem me governam o amor e os
benefícios de Abu Bacre Almofadar
que parti para um campo primaveril."

 

Agostinho de Morais

 

AEPC.jpg


A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

CALCORREANDO VILA FRESCA…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número Extra 2

 

Calcorreando pachorrentamente por Vila Fresca, gozo este fim de Verão, em que os dias se alternam entre o calor e a brisa enevoada. Um velho amigo encontrou-me e, inesperadamente, perguntou-me pelo meu velho “carocha”. Surpreendeu-me a questão. Parece-me que inventaria antiguidades… Disse-lhe que estava de boa saúde, bem guardado e em funcionamento. É das coisas em que tenho mais orgulho, uma vez que é um original raro, com o óculo traseiro ainda dividido e com matrícula das séries antigas, que já poucos identificam, anterior a 1955, portanto identificável pelo número central. É um verdadeiro clássico, com um motor muito simples e fiável, apesar da dor de cabeça que sempre me deu a bateria, por ser muito fraca… Ligo-o sempre que posso e dou uma volta para gáudio de todos. E como quis preservar o original, mantive esse velho defeito de origem, ou seja, a bateria pindérica… No fim da guerra foram os ingleses que deram um impulso decisivo à popularidade desse pequeno automóvel. Hitler inventou-o, mas não lhe deu condições de persistência. E é mesmo de património cultural que falamos. Quantos de nós, da minha geração, pudemos gozar as vantagens desse carro modesto, mas de indiscutível qualidade… Devo, porém, dizer que é raríssimo o modelo que tenho de cor original preta… O meu amigo ficou contente por ter boas notícias desse caso mítico na história do automóvel, e combinámos, um dia destes, ir à minha garagem de Vila Nogueira, visitar e dialogar com o meu “carocha”, que faço questão de manter brunido e impecável, como nos tempos em que me foi vendido pela velha Guérin. Mas também esclareci que ao lado dele está um Morris 8 de 1948, igualmente como veio de origem, com uma vaquinha por símbolo. Esse era um carrinho nervoso, mas bom amigo, que me pregou sustos na serra de Sintra por causa dos travões, mas no qual aprendi sobretudo que o melhor auxiliar de um bom condutor é a caixa de velocidades, que me permitiu sempre sair-me bem (diabo seja surdo…) de várias atrapalhações. Abençoada caixa de três velocidades… Nestas crónicas, já vos falei das inesquecíveis jornadas das corridas de Monsanto, em que vi em carne e osso Stirling Moss, Jack Brabham, Jim Clark e o nosso Nicha Cabral. Já não vi cá Juan Manuel Fangio, que veio dois anos antes de eu ter ido a Montes Claros pela primeira vez. As corridas de automóveis eram fantásticas, sobretudo num tempo em que não podíamos ver as transmissões televisivas e tínhamos de ir aos locais para gozar o prazer do movimento e do ruído ensurdecedor das máquinas. Sim, o património cultural material e imaterial faz-se também de recordações da tecnologia, do desporto, dos heróis e das tragédias. . E ficámos os dois ali esquecidos do tempo, a recordar. Meu amigo lembrou-me ainda um primo meu e homónimo. Quantas recordações? E voltamos a falar do «joaninha» de outro familiar nosso, com que seguia a temporada espanhola dos touros. Onde estará esse Renault – dito joaninha? Na sucata por certo. Quanta coisa fica esquecida pelo caminho? E que importa? Conversa de velhos. E falar dessas coisas e pessoas é melhor do que nos atermos às maleitas e às doenças, que é o verdadeiro tédio. Despedimo-nos – Até ver!

E continuo a andar, pelas ruas de Vila Fresca sem destino certo. A andar para ir lembrando e para pensar com meus botões.

Já se notam os dias mais curtos. O sol desce no horizonte.

Como é bom percorrer as ruas e olhar em volta e gozar o tempo antigo da serra.

E dou-me de súbito a recitar intimamente.

Como gostaria de encontrar agora o meu amigo António.

E cito, cito sem hesitação:

 

ALDEIA DE IRMÃOS (de António Osório):

 

Ao pé dos eucaliptos,

Do lavadouro, as casas.

Capela fechada, oficiantes ratos,

E cães, patos, galos

Na rua e a dormir dentro,

Individuais, subreptício.

E doentes, cavadores, crianças

sonhando com ninhos destruídos.

Longe, na paróquia o cemitério.

Em torno vinhas, olivais,

Irmãos uns dos outros

Como tijolos dentro da parede.

E no Inverno o canto

Da lenha exorbitando na lareira,

A queimar, a queimar a cinza por debaixo.

  

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg


A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture