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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 9 a 15 de julho de 2018

 

A Cimeira de Berlim do Património Cultural foi um momento culminante deste Ano Europeu. Se é verdade que há ainda muito para fazer, pode afirmar-se que o aprovado “Apelo de Berlim” constitui um documento fundamental que põe a tónica na defesa da Cultura, da Educação e da Ciência como fatores de desenvolvimento sustentável, de diversidade e de paz.

 

 

PATRIMÓNIO, LEMBRANÇA VIVA…
A vitalidade cultural de Berlim, nos últimos anos, desde a arquitetura e urbanização à presença da nova geração de artistas plásticos e cultores das diversas artes foi o melhor cenário para este extraordinário encontro. Ao caminharmos em “Unter den Linden”, entre tílias, em direção à Porta de Brandeburgo e ao novo Bundestag pudemos lembrar as gravuras antigas e as grandes referências da cultura alemã: os Museus, a Biblioteca, e a sombra de grandes espíritos, como Fichte e Humboldt. Que é o património cultura senão essa lembrança viva? O “Apelo de Berlim para a Ação” constitui um importante desafio para governos, instituições da sociedade civil e cidadãos, organizações internacionais e supranacionais, no sentido de considerar o património cultural como fator de superação do vazio de valores éticos, da indiferença, do medo dos outros – no sentido de uma “cultura de paz”, suscetível de pôr a tónica num culto comum da herança e da memória, do respeito mútuo e de uma verdadeira partilha de responsabilidades. Valores, culturas e memórias constituem a base de uma Europa que deve caracterizar-se pela “Unidade na Diversidade”, resistindo à fragmentação dos egoísmos e da intolerância. Fora da lógica das identidades fechadas, devemos construir realidades abertas e complexas, que não excluam ninguém. A pertença a uma comunidade local e o reconhecimento da importância da proximidade não podem ser contraditórios com a ideia de uma pertença múltipla e de uma solidariedade europeia e global. O património cultural liga gerações, suscita complementaridades, cruza influências e assenta na evolução histórica de encontros e desencontros – abrindo caminhos de diálogo e de cooperação entre comunidades na Europa, mas também com outras culturas do mundo. Trata-se de uma ponte entre o passado e o futuro, um processo contínuo de criatividade e inovação, que assenta as suas raízes na evolução histórica e suplanta-a em nome de uma cultura viva e de uma cidadania ativa e responsável. Mas, falar do tema, é referir ainda o desenvolvimento sustentável, uma sólida coesão social e o surgimento, direta e indiretamente, de condições para novas possibilidades de trabalho. O património cultural traz harmonia e beleza para o nosso meio ambiente, humano e natural, mas também permite desenvolver o bem-estar e a qualidade de vida. Neste Ano Europeu, quando celebramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, estamos em condições para ir além de meras declarações de princípios. E importa seguir destes para a ação, tornando os valores culturais como sentidos por todos – certos de que, deste modo, poderemos, a um tempo, respeitar as pertenças locais, regionais ou nacionais, compreendendo que estas só serão preservadas se não esquecermos as diferenças e a relação com os outos. E não se pense que é fácil este compromisso. Muitos pensam que fechando-se se protegem melhor, quando a história nos dá eloquentes exemplos que demonstram que cultura fechada é cultura ameaçada e morta. O valor universal da dignidade da pessoa humana defende-se com unidade e diversidade. A prevalência da hostilidade sobre a hospitalidade gera consequências dramáticas, que levam a conflitos desregulados, guerras sangrentas e à trágica espiral da violência. O desenvolvimento humano exige equilíbrio entre identidade e diferença, tradição e modernidade, liberdade e igualdade… Eis por que razão o Apelo de Berlim tem de ser considerado na sua dimensão política e democrática.

 

UM PLANO DE AÇÃO EUROPEU
De que falamos? De desenvolver o Plano de Ação Europeu para o Património Cultural; de reconhecer o Património como uma prioridade no âmbito das políticas europeias; de criar pontes entre as dimensões local, nacional e europeia; de preservar e transmitir o que é insubstituível; de investir na regeneração do Património com qualidade; de promover o melhor conhecimento, a compreensão aprofundada e de aproveitar a oportunidade que o momento atual nos reserva. Cada um destes pontos corresponde a uma responsabilidade concreta, que supera em muito a marginalidade de um tema secundário. É a sociedade no seu todo e o desenvolvimento humano que estão em causa. Só um ambicioso Plano de Ação Europeu pode obter resultados efetivos. A Nova Agenda Europeia para a Cultura não pode ficar nas boas intenções nem ser confundida com uma cornucópia de meios usados sem critério nem avaliação. Importa envolver promotores e beneficiários, do espaço público e da sociedade civil – articulando o investimento na cultura, educação e ciência com os objetivos de coesão social e de desenvolvimento regional, envolvendo cidades, campos, litoral, meio ambiente, turismo, sustentabilidade, mudança climática, investigação e inovação, política digital, educação, objetivos de qualidade e, naturalmente, juventude. Estamos a referir a obrigação de maior relevância da Europa e de coerência com a Convenção de Faro do Conselho da Europa, com a Estratégia Europeia para o Património no Século XXI e com a Agenda das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. Deste modo, as instituições europeias deverão reconhecer o património cultural como prioridade estratégica, com expressão no quadro financeiro plurianual (2021-2027). Isto contribuirá para o mais do que urgente investimento europeu para o capital humano e cultural e para a promoção dos valores europeus. Daí a importância da eleição do novo Parlamento Europeu em 2019 e da Comissão, para que haja compromissos concretos. Os diferentes níveis de governação têm de se coordenar para que o património cultural funcione como um verdadeiro recurso para a sociedade, economia, cultura e meio ambiente. O âmbito local, regional, nacional e europeu tem de definir planos articulados e coerentes, para serem eficientes, do mesmo modo que devem envolver organizações internacionais e sociedade civil. Não podemos esquecer ainda que o património cultural é único e insubstituível, vulnerável e sujeito a riscos – daí a necessidade de criar sinergias no tocante à investigação, à criação artística, às novas tecnologias, ao investimento económico, no sentido da preservação, salvaguarda e a um melhor conhecimento. Também a regeneração das cidades, arredores e meios rurais obriga à criatividade, inovação e adaptação, com critérios de elevada qualidade, de acordo com a Declaração de Davos. Ainda a ligação com as escolas e a educação, com a formação e mobilização de novos públicos, a começar nas crianças e jovens, revela-se de importância crucial, até para facilitar uma melhor compreensão, respeito e inclusão de novos habitantes na Europa. Ora, se tem sido possível concentrar esforços neste Ano Europeu, importa aproveitar o movimento para encontrar uma fórmula de ação adequada no sentido da criação de uma plataforma futura permanente para o melhor conhecimento e coordenação de ações na defesa do património cultural na Europa.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

INICIAMOS O ANO EUROPEU DO PATRIMÓNIO CULTURAL -2018!

 

O património cultural não se refere apenas ao passado, mas à permanência de valores comuns, à salvaguarda das diferenças e ao respeito do que é próprio, do que se refere aos outros e do que é herança comum. Como compreenderemos a Europa sem o diálogo entre a tradição e o progresso, sem o entendimento das raízes e sem a complementaridade entre judeus, cristãos e muçulmanos? Urge entender, afinal, que o que tem mais valor é o que não tem preço. A compreensão do património cultural que nos permite assumir uma cidadania civilizada. Desde a Torre dos Clérigos ou da charola do Convento de Cristo à custódia de Belém, passando pela pintura de Nuno Gonçalves, pela poesia trovadoresca, pela lírica e épica de Camões ou pelo Romanceiro de Garrett, estamos perante símbolos do caminho de um povo, que se afirmou e engrandeceu em contacto e no respeito dos outros.

 

O Comissário Europeu para a Educação e Cultura, Tibor Navracsics, ao abrir oficialmente o Ano Europeu do Património Cultural, recordou no Fórum Europeu da Cultura de Milão, não estarmos a falar «de literatura, arte, objetos, mas também de competências aprendidas, de histórias contadas, de alimentos que consumimos e de filmes que vemos». De facto, precisamos de preservar e apreciar o nosso património, como realidade dinâmica, para as gerações futuras. Compreender o passado, cultiva-lo, permite-nos preparar o futuro. Estamos a encetar um momento importante na vida da União Europeia. É tempo de não deixar o património ao abandono, de estudá-lo e compreendê-lo designadamente através de uma forte aposta na educação de qualidade para todos. Como poderemos compreender um monumento ou uma obra de arte se não soubermos de onde vem e qual o seu significado?

 

O conceito moderno de património cultural, definido na Convenção de Faro, valoriza a memória e considera-a fator de cidadania, de dignidade e de democracia. Quanto à atenção e ao cuidado, pensamos que vai haver muito mais pessoas despertas para o culto e a proteção do património.

 

Se é verdade que, segundo o Euro-barómetro, 8 em cada 10 europeus consideram o património cultural importante, não só para cada um, mas também para a comunidade, para o país e para a União no seu conjunto, importa compreender que estamos a falar de um fator crucial para podermos superar egoísmos, fechamentos e conflitos insanáveis. Mais de 7 em cada 10 europeus concordam com a necessidade da ligação entre património e qualidade de vida, em nome de um desenvolvimento humano. E 9 em cada 10 consideram que o despertar nas escolas para a defesa do património é fundamental. As políticas culturais têm de se centrar cada vez mais na atenção efetiva atribuída ao património cultural.

 

Não podemos esquecer o valor económico do património cultural como fonte de desenvolvimento – 7,8 milhões de postos de trabalho na União Europeia estão ligados indiretamente ao tema, como o turismo e tantos serviços conexos como a mobilidade, a segurança e o conhecimento. 300 mil pessoas estão diretamente ligadas ao património na União Europeia. Afinal no velho continente está cerca de metade dos sítios classificados (mais de 450) no âmbito do Património Mundial da UNESCO. Compreende-se que a decisão de declarar 2018 como o Ano do Património corresponda à afirmação de um desígnio ambicioso: baseado na necessidade de consagrar a mobilização de vontades em torno de uma herança comum, de um ideal europeu de respeito mútuo, de qualidade e de humanismo, certos de que não podemos deixar ao abandono o que nos legaram as gerações que nos antecederam, nem acomodar-nos à irrelevância e à mediocridade. Como poderemos preparar, de modo informado e conhecedor, o progresso futuro sem cuidar da continuidade e da mudança? Procura-se sensibilizar a sociedade e os cidadãos para a importância social e económica da cultura – com o objetivo de atingir um público tão vasto quanto possível, não numa lógica de espetáculo ou de superficialidade, mas ligando a aprendizagem da História e o rigor no uso e na defesa das línguas, articulando educação e ciência, numa perspetiva humanista.

 

CNC

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

O Convento de Cristo.

 

O Convento de Cristo, implantado numa das colinas sobranceiras à cidade de Tomar é um conjunto monumental que corresponde a seis séculos de construção. Do conjunto fazem parte o Castelo, o Convento e a Mata dos Sete Montes. A sua edificação iniciou-se em 1160 com o Castelo de Tomar e com a construção da Charola, oratório templário.


A construção do Castelo de Tomar fazia parte de uma estratégia militar, da qual a Ordem do Templo se encarregava, que protegia os territórios que iam sendo conquistados aos muçulmanos. O Castelo de Tomar é um dos mais avançados castelos medievais do século XII na Ibéria. À época da sua construção o castelo era um dos maiores redutos defensivos jamais construídos em Portugal. É constituído pela alcáçova, de planta subtriangular, dominada pela torre de menagem. e pela almedina, que acolhe a povoação.

 

A rotunda templária (Charola) do Convento de Cristo, construída entre 1160 e 1250, é uma das obras mais notáveis do românico português. É de planta centrada e a sua configuração original não é perfeitamente conhecida. É de estrutura cilíndrica e a parede exterior apresenta dezasseis panos reforçados por contrafortes. No interior, descreve-se um tambor central que tem planta octogonal. Entre o tambor e a parede exterior, define-se um amplo deambulatório anelar coberto por uma abóbada de canhão suportada por arcos torais de volta perfeita.

 

No século XVI, D. Manuel I, beneficiando das riquezas que os Descobrimentos proporcionaram e, assumindo o governo da Ordem de Cristo, transforma e amplia o Convento com novas construções. Deste modo, em 1510, encomenda a Diogo de Arruda (?-1531) a construção de uma igreja, coro e sacristia a poente da charola. A fisionomia da charola foi, então nesta altura, alterada – dois dos dezasseis panos exteriores foram eliminados e substituídos por um grande arco triunfal. Ao volume inicial foi acrescentado uma nave rectangular alta, alinhada a poente, para servir de coro, sacristia e tribuna. A charola passou assim, a funcionar como capela-mor e a antiga entrada, virada a nascente foi fechada. Por esta altura, o programa iconográfico da charola foi enriquecido com escultura, pintura sobre madeira e sobre couro, pintura mural e estuques. O novo volume da igreja em planta segue a proporção do Templo de Salomão, de dois para um, e apresenta uma carga decorativa dotada de um acentuado simbolismo mitográfico, com destaque para a fachada ocidental. Numa solução inédita, debaixo do pavimento do coro, situa-se a sacristia, hoje Sala do Capítulo. É nesta sala que se encontra a janela que é símbolo importante da arte deste período, que se abre na fachada ocidental e que ocupa uma posição cimeira sobre o Claustro de Santa Bárbara. A janela manuelina foi executada por Diogo de Arruda (1510-13), segundo um programa iconológico definido pelo próprio rei D. Manuel I, que se refere às experiências vividas pelos portugueses nas suas viagens ultramarinas. A janela descreve-se entre cordas, nós, cabos, corais, motivos da flora e da fauna exótica, esferas armilares e a cruz de Cristo. É encimada por um óculo ou rosácea côncava. E ao centro, em baixo encontra-se um homem de chapéu de abas e longa barba que sustenta aos ombros um tronco de carvalho, a Árvore da Vida.

 

A construção do Convento de Cristo é igualmente notável pela arquitectura do Renascimento que inclui. O conjunto renascentista de Tomar constituiu um importante estaleiro de formação de grande impacto futuro. O Convento foi ampliado por D. João III, a partir de 1531, após a reforma da Ordem de Cristo. João de Castilho foi o responsável pela construção deste novo programa para o convento e pela introdução de uma nova linguagem arquitectónica que conjugava a tradição tardo-gótica ‘plateresca’ e o gosto decorativo ‘ao romano’. Por encomenda régia o convento foi assim ampliado e às construções medievais e manuelinas foi acrescentada uma grande estrutura que obedecia a um conceito extremamente racional. Um grande quadrilátero organiza-se em torno de um corredor em cruz. De cada lado do corredor inscrevem-se quatro claustros: o Claustro Principal; o Claustro da Hospedaria; o Claustro dos Corvos; e o Claustro da Micha, a que se acrescentou o Claustro da Necessária. Um ainda quinto claustro preenche o espaço que restava entre o coro manuelino e a nova construção. Trata-se do Claustro de Santa Bárbara (como passou a ser designado desde finais do séc. XVIII). Toda esta nova estrutura foi organizada em andares de forma a aproveitar a diferença de cotas entre os edifícios existentes – a igreja e o coro – e os espaços livres a poente. Toda a heráldica manuelina foi escondida com o intuito de introduzir uma nova linguagem mais funcional, harmónica e racional. As superfícies são agora planas e recortadas com grande clareza volumétrica e os sistemas colunários e os capitéis são de inspiração clássica. Castilho adquire esta mestria linguística autodidacticamente através da leitura do livro de Vitrúvio e no ‘De Architectura’ de Leon Battista Alberti.

 

O Claustro Principal (1533-1545), iniciado por João de Castilho, foi durante a campanha de D. João III parcialmente demolido e substituído pelo actual, da autoria de Diogo de Torralva. A construção de Torralva (1555-1581) inspira-se em motivos do Livro de Serlio e corresponde ao segundo período do Renascimento italiano (o ‘cinquecento’). Torralva substituiu a ossatura exterior do claustro precedente e revela o domínio absoluto da linguagem clássica. Todas as entradas encontram-se decoradas com ornamentos tipicamente renascentistas (arcadas redondas, entablamentos rectos, colunas toscanas, simetria e matemática na organização do espaço). Duas ordens clássicas são adoptadas, segundo a disposição vitruviana: a dórica no piso térreo e a jónica no piso superior. O resultado é um corpo de galerias onde os valores de luz e sombra são acentuados, sobretudo através das escadas de acesso ao terraço, inscritas nos cantos cortados do claustro, dentro de cilindros. Os corrimãos espiralados desvendam-se entre as janelas que iluminam as escadas conferindo uma profundidade espacial a uma estrutura aparentemente funcional.

 

Também a Ermida da Nossa Senhora da Conceição (1551-1570) está situada no planalto ocupado pela cerca do Convento de Cristo e é avistada de vários pontos da cidade. Representa uma das jóias do Renascimento europeu, com uma linguagem madura de carácter internacional inspirando-se em modelos da tratadística italiana. A autoria está atribuída a João de Castilho, mas os acabamentos foram executados por Diogo de Torralva e Filipe Terzi concluiu o edifício no coroamento. A ermida é de planta rectangular e apresenta três naves e um transepto ligeiramente saliente. No exterior, a fachada principal tem um frontão triangular. A porta central é rectangular e encimada por uma pequena arquitrave e é ladeada por duas janelas rectangulares com capialço.

 

Sendo assim, ao longo dos vários períodos de construção o conjunto monumental do Convento de Cristo – castelo, charola, igreja, claustros do convento e ermida – correspondeu sempre a uma arquitectura de referência, símbolo do poder régio e religioso. O reconhecimento pela UNESCO, em 1983, do valor excepcional de todo o conjunto motivou a sua classificação como Património da Humanidade reforçando, a vocação universal deste lugar de excepção.

 

Ana Ruepp

 

 

O ALERTA DAS JORNADAS DO PATRIMÓNIO

Por Guilherme d’Oliveira Martins (*)

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Tenho pena que nos debates europeus sobre as saídas da crise se fale tão pouco de Cultura, de Educação e de Ciência. Muitos pensam falsamente que se trata de temas secundários, no entanto falamos do cerne da inovação e da criatividade, únicas respostas ao primado ilusório do imediatismo, da vulgaridade, da indiferença e da mediocridade que nos trouxe até onde nos encontramos. As Jornadas Europeias do Património de 2015 realizam-se com um pano de fundo dramático – o drama dos refugiados, a prevalência dos egoísmos nacionais, a incapacidade de encontrar respostas comuns que defendam a justiça e a humanidade, bem como as destruições absurdas de bens do património comum, como temos assistido em Palmyra. Como poderemos falar do Património Cultural e da sua defesa se não começarmos por cuidar das pessoas? Julien Green disse um dia que «ignorar o passado é encurtar o futuro» - e a verdade é que na tragédia humanitária a que assistimos falta consciência de passado e de presente. A noção dinâmica de Património Cultural obriga à tomada de consciência de que são as pessoas que estão em causa e que a Humanidade está ameaçada quer com as mortes dos refugiados, quer com as destruições das marcas dos nossos antepassados. Estamos perante a noção indivisível de dignidade humana. O nosso Alexandre Herculano dizia: «Nossos pais destruíram por ignorância e ainda mais por desleixo: destruíram, digamos assim, negativamente; nós destruímos por ideias, ou falsas ou exageradas. Destruímos ativamente, destruímos porque a destruição é uma vertigem desta época. Eu ficaria feliz se pudesse, ao menos, salvar uma pedra, só que fosse, das mãos dos modernos hunos». O programa era e é simples: não destruir ou deixar estragar o que existe, restaurar o que tem valor, divulgar, conservar, tornar acessível… Investir não é lançar dinheiro sobre os problemas – é escolher o que permite preservar com os meios disponíveis e da melhor maneira o que tem valor.

Nuno Bragança disse um dia: “A relação dos portugueses com Portugal é muito estranha. Estão todos de acordo em dizer mal de Portugal – e isto é uma constante que já vem de há muitos anos -, todos recusam um Portugal que obviamente existe porque eles são como são. As pessoas em Portugal têm a tendência para culpar os outros de defeitos que elas próprias também têm” («Raiz e Utopia», nº 3-4). E em “Direta” afirmava ainda: “O passado de uma nação é como o passado de uma pessoa; quanto mais remoto ele é, mais importante pode ser. Só quando uma pessoa – ou uma nação – se conhece a si própria, se pode assumir, e então escolher». Interessará, por isso, nessa relação entre passado, presente e futuro, segundo o escritor, “encontrar o passado que está presente no presente”. Falar de património cultural é isto mesmo: ter consciência de que a memória viva do que recebemos da História exige o respeito pela responsabilidade que temos de fazer da criatividade e da inovação o enriquecimento do que recebemos e legamos a quem nos sucede. A crise, cujos efeitos sofremos, deve-se ao predomínio da ilusão – em vez da capacidade de criar valor.

Identidade de várias identidades e de várias culturas, a Europa tem de recusar o egoísmo e a irrelevância que têm prevalecido. Por exemplo, «se, como é inquestionável, uma cultura nacional – ou regional – se exprime pela língua, é indispensável assegurar que as línguas serão protegidas e estimuladas através do ensino escolar desde o nível básico, da tradução, da edição, da legendagem, da dobragem, da produção audiovisual e multimédia» - como disse Helena Vaz da Silva. No entanto, para que a diversidade cultural seja preservada, é indispensável que o respeito pelas várias línguas seja garantido plenamente, sob pena de se criarem focos de tensão cultural e política. Estamos a falar de educação, de informação e de comunicação em todos os seus aspetos. Não se salvaguarda a cultura defendendo, por princípio, indiscriminadamente todas as culturas. Defende-se a cultura procurando definir medidas para cada situação e pondo-as em prática no tempo próprio. Torna-se necessário trabalhar em sólidas bases. A política do património cultural, centrada na integração, no conhecimento e na ação, deve ser articulada, como fator de coesão territorial, de integração social e de desenvolvimento sustentável, dentro das fronteiras e para além das fronteiras. E urge assumir um conceito dinâmico de fronteira, como um fator de aproximação e não de separação, como ensinava Jacek Wosniakowski. Daí a importância da criação de um quadro que permita a convergência dos ordenamentos jurídicos, de redes de bancos de dados, de sistemas de arquivos compatíveis, de catálogos partilhados, do uso de várias línguas, do desenvolvimento de itinerários culturais e da coprodução de multimédia sobre a história e o património partilhados. As Jornadas Europeias do Património põem a tónica na defesa e salvaguarda dos marcos da cultura, materiais e imateriais – os monumentos, os arquivos, as paisagens, os costumes, as tradições. Tudo obriga a deveres e responsabilidades dos cidadãos. Este ano o tema «Património Industrial e Técnico» das JEP leva-nos à consideração do diálogo entre a tradição e a modernidade, entre o artesanato e a tecnologia, numa perspetiva em que não basta a lógica da conservação, devendo entender-se a defesa do património cultural como fator ativo de desenvolvimento. A Convenção de Faro do Conselho da Europa (24.10.2005), cujos dez anos comemoraremos em breve na capital algarvia com a Universidade, abre caminhos que têm de ser seriamente desenvolvidos, articulando a defesa do património e a consideração inteligente da criação contemporânea – numa lógica de enriquecimento mútuo. Urge mobilizar recursos, realizar inventários fidedignos e estudos credíveis e envolver todos. Os Estados, a sociedade civil e a comunidade internacional têm de partilhar responsabilidades. Eis o alerta!

 

(*) Presidente do Centro Nacional de Cultura. O CNC teve a coordenação geral das Jornadas Europeias do Património, do Conselho da Europa, entre 2001 e 2005.

 

ALARME EM PALMYRA

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As notícias são tremendas. Acaba de ser dinamitado o templo de Baal em Palmyra.
Trata-se de um atentado inominável contra a memória humana. A cidade de Palmyra é das mais ricas do mundo em arquitetura clássico-romana, tendo sido classificada pela UNESCO como património da humanidade.
É preciso que as opiniões públicas exprimam condenação por este ato que se soma à catástrofe humanitária sem precedentes que se verifica com os refugiados da Síria.

Publicamos o apelo da UNESCO:
http://www.unesco.org/new/en/media-services/single-view/news/unesco_director_general_calls_for_immediate_cessation_of_hostilities_in_palmyra/#.Vdw80yVVikp

PATRIMÓNIO

Universidade Internacional Menendez y Pelayo

 

Fragmento da intervenção de GOM na Universidade Internacional Menendez y Pelayo a 14 de Julho de 2010 em Santander:

 

Os últimos anos têm sido caracterizados pela crescente importância da sustentabilidade ambiental e do equilíbrio ecológico – que exigem um maior envolvimento da sociedade e dos cidadãos através de uma tomada de consciência cívica e  de uma responsabilidade acrescida quanto ao conhecimento da evolução científica. Esta atitude contrasta com a consideração da conservação patrimonial como um fim em si. Conservação patrimonial liga-se cada vez mais à consciência ambiental e às responsabilidades da sociedade relativamente à qualidade de vida e ao desenvolvimento humano sustentável. Daí o seguimento de novos conceitos relevantes no âmbito patrimonial como: património comum, património imaterial, paisagens protegidas, património natural e cultural...

Por outro lado, a subsidiariedade e a descentralização tornaram-se referências cruciais para a compreensão e salvaguarda do património cultural (material e imaterial, construído, paisagístico e natural). O centralismo e o domínio tecnocrático ou burocrático têm de ceder lugar à proximidade dos cidadãos e das pessoas.

A subsidiariedade conduz à necessidade de descentralizar as decisões para os níveis adequados, evitando, a seu tempo, o domínio panificador (distante e pouco controlável) e a fragmentação dos interesses locais imediatos. De facto a subsidiariedade procura garantir que a descentralização evite simultaneamente o risco de um paternalismo conservacionista e da pressão dos interesses fragmentários. Insista-se  que o valor do património cultural para a sociedade contemporânea obriga a considerar a coesão territorial, a diversidade cultural, o desenvolvimento humano sustentável e a referência prioritária à dignidade da pessoa humana.

O valor do património para a sociedade obriga, pois, a garantir um equilíbrio entre proteger e conservar, de um lado, criar e inovar, de outro.

Os valores, os direitos, a identidade, a diversidade, a mobilidade e a inclusão tornaram-se referências não abstractas, mas com potencial mobilizador para os cidadãos. O bem, o bom, o belo, o justo e o verdadeiro não podem deixar-nos indiferentes.

Os direitos humanos pressupõem o reconhecimento universal da dignidade humana e o assumir de responsabilidades de acção e de salvaguarda. A identidade tem de ser vista como um factor de coesão e como um reconhecimento de diferenças, que mutuamente se enriquecem, em lugar de se excluírem. A diversidade é a consequência natural do pluralismo e da sociedade aberta – onde o intercâmbio, as trocas e os dons são elementos de confiança e de respeito. A mobilidade obriga a considerar a história como o reconhecimento da incerteza e do movimento enquanto criadores e transformadores. A inclusão obriga, por isso, a alargar os horizontes do respeito mútuo.

E se falamos de valores patrimoniais, temos de recordar que eles são próprios ou intrínsecos, mas mais do que isso: institucionais (ligados às responsabilidades sociais e às funções ligadas ao bem comum e à ideia de obra que permanece na vida social), instrumentais (que têm a ver com os meios que usamos para prosseguir  as finalidades e os objectivos que nos estão confiados, passando pela cooperação científica e académica) e económicos (relacionados com a actividade criadora, com o investimento, com o emprego ou com a sustentabilidade dos recursos materiais disponíveis).

Hoje, o património cultural, tal como se encontra referenciado na Convenção do Conselho da Europa, assinada em Faro a 27 de Outubro de 205, é considerado como um activo na promoção da coesão, da inclusão, mas também na participação cívica e na consideração da ética da responsabilidade. Daí que os valores intrínsecos e próprios da conservação e da protecção do património cultural tenham de se articular cada vez mais com os aspectos institucionais, instrumentais e económicos. A política cultural e a consideração do património cultural deixou de se reportar à dualidade entre património histórico e criação contemporânea. Património histórico e criação contemporânea são faces de uma mesma moeda. Não se trata de fazer aí escolhas prejudiciais ou de assumir dilemas de solução radical por uma ou outra das vias. Do que se trata é de criar mecanismos de “vai-e-vem” que permitam articular interesses e respeitar preocupações e prioridade. Veja-se a leitura de um monumento histórico paradigmático – uma catedral ou um templo de uma cultura distante. Facilmente perceberemos que as grandes referências civilizacionais correspondem a vários períodos e a diversas intervenções. As pedras mortas projectam necessariamente as pedras vivas. Afinal, em cada momento a história vai-se completando num movimento incessante. Resta saber como assumiremos essa opção difícil de conservar. Conservar não é restituir, uma vez que essa escolha obrigaria a parar no tempo, a definir um momento de paralisação. Daí a necessidade de ligar património, herança e memória. Impõe-se que as pedras mortas se liguem às pedras vivas e que o respeito histórico não traia o valor que a sociedade contemporânea está disponível a atribuir.

Na Convenção de Faro é por isso que “o património cultural constitui um conjunto de recursos herdados do passado que as pessoas identificam, independentemente do regime de propriedade dos bens, como um reflexo e expressão dos seus valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução. Inclui todos os aspectos do meio ambiente resultantes da interacção entre as pessoas e os lugares através do tempo”. Estamos, deste modo, perante “reflexo e expressão” de “valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução”. Daí a necessidade de assumirmos o método do “vai-e-vem” ou de uma “naveta” que tem de ir permanentemente à identidade e à diferença, à coerência e ao pluralismo, à ciência e à vida, à história e às pessoas. Daí que tenhamos de compreender a noção de comunidade patrimonial “composta por pessoas que valorizam determinados aspectos do Património cultural, que desejam através da iniciativa pública manter e transmitir à gerações futuras”. Esta noção de comunidade conduz-nos ao respeito mútuo, à complementaridade, à ligação da memória futura à memória passada – muito mais do que a lembrança (que na portuguesa “saudade” se une ao desejo).

Trata-se de ligar a cultura criadora que une as diversas gerações. E assim o Património comum abrange todas as formas de património cultural (...) que, no seu conjunto, constituam uma fonte partilhada de memória, compreensão, identidade, coesão e criatividade”, bem como “os ideais, princípios e valores resultantes da experiência adquirida com progressos e conflitos passados, que favoreçam o desenvolvimento de uma sociedade pacífica e estável, baseado no respeito dos direitos do homem, da democracia e do estado de direito”.

Em suma, a nova Convenção sobre o Património Cultural baseia-se, no fundo, na consideração do património cultural como um recurso que serve não só ao desenvolvimento humano e à promoção do diálogo entre culturas, mas também ao progresso económico e social, seguindo os princípios da utilização sustentável dos recursos disponíveis. Vai, assim, mais longe do que as Convenções anteriores (Granada, 1985; La Valetta, 1992 e Florença, 2000), uma vez que aborda igualmente os riscos do uso abusivo do património, que se traduz na deterioração dos bens ou numa má interpretação do património “como fonte duvidosa de conflito”, pondo igualmente a tónica, de forma inédita e inovadora, no conceito de património comum da Europa e na organização de uma responsabilidade partilhada, considerando a importância da participação dos cidadãos».

Guilherme d'Oliveira Martins

 

Convento de Cristo em Tomar - Petição Online


 

http://www.petitiononline.com/1cc1160/petition.html
 

O diploma legal que impõe desde Dezembro diferentes tutelas para o Castelo de Tomar e o Convento de Cristo é contestado por vários investigadores e cidadãos, que colocaram um abaixo-assinado na Internet.

O abaixo-assinado - - foi lançado por Rui Ferreira, que, em declarações à Lusa, afirmou pretender "chamar a atenção das pessoas para um problema que existe por desconhecimento das características do monumento". © 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

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