Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Apesar de todas as diferenças e precisamente nelas, todos — homens e mulheres, brancos, pretos, peles vermelhas, amarelos, mulatos, altos, baixos, pequenos, ricos, pobres, esbeltos, feios, inteligentes, inadaptados, génios, analfabetos — vivemos todos no mesmo mundo. Precisamente a sua realidade não é transparente. O mundo é ambíguo: tem sentido e também parece sem sentido, há vida e há morte, dor e alegria, violência, ódio e também amor e generosidade, destruição e criatividade. Assim, a realidade mostra-se, mas ao mesmo tempo esconde-se. Desse desvelar-se e velar-se nascem inevitavelmente perguntas: a realidade, incluídos nós próprios, é inevitavelmente perguntável.
Ressalta, portanto, a contingência, mas, como escreveu Raimon Panikkar, assim: "tocamos (tangere) os nossos limites" e "o ilimitado toca-nos (cum-tangere) tangencialmente". De pergunta em pergunta e de resposta em resposta, é inevitável a pergunta pelo Fundamento último e pelo Sentido último deste mundo comum na sua ambiguidade. Assim, tanto o crente como o ateu arrancam de perguntas humanas radicais a partir do mundo comum, e as suas respectivas respostas de fé ou descrença representam interpretações da realidade, mas nestes precisos termos, como escreveu o filósofo da religião Andrés Torres Queiruga: "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a descrença aparecem aos respectivos sujeitos como o modo melhor de interpretar o mundo comum". Deste modo, também no domínio da fé há uma "verificação": se o crente dá a sua adesão à fé é porque comprova que a "hipótese religiosa" é a que melhor ilumina as questões últimas da vida e da morte, a realidade do mundo e da história; o agnóstico confessará que não acha razões suficientes para decidir-se; o ateu apoia-se na convicção de que têm mais peso as razões contra a existência de Deus.
Como se não cansava de repetir Pedro Laín Entralgo, só o penúltimo é certo, o último é e não pode não ser incerto. O crente, na sua interpretação da realidade mundana e humana, apoia-se numa Presença que não se mostra nem se vê directamente, mas que se encontra co-implicada em tudo o que se mostra e vê. Nessa Presença a que chama Deus, a realidade na sua totalidade revela-se-lhe plena de sentido.
Não há resposta definitiva constringente para o que é a realidade na sua ultimidade. É no próprio acto de fé que o crente experiencia o carácter razoável da sua adesão confiante livre, o que mostra o vínculo entre verdade e liberdade.
Por outro lado, se o que une os seres humanos é a pergunta ilimitada pelo Infinito, não há lugar para as guerras de religião — as religiões são inevitavelmente respostas finitas — nem para nenhuma forma de fundamentalismo — ninguém é senhor do Fundamento. Antes das religiões, há a humanidade, de tal modo que um critério hermenêutico decisivo da verdade de uma religião é, negativamente, não ser contra a humanidade do ser humano e, positivamente, contribuir para a sua realização. Uma religião contra o ser humano, humilhando-o, diminuindo-o, fazendo apelo à violência, ou é uma religião falsa ou os seus fiéis interpretam-na mal.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado 8 de Novembro 2025
Do pior que há são os repetidores, os que não ousam pensar o novo e o diferente, os que, no fundo, não passam de ruminantes na vida intelectual.
Pedro Laín Entralgo, com quem tive o privilégio de falar várias vezes e que morreu em 2001, considerado um dos pensadores maiores da Espanha do século XX, cientista, filósofo, humanista cristão, não teve medo de pensar de modo novo, ir mais longe, confrontar-se com as dúvidas, questionar. Fê-lo concretamente no domínio da antropologia. Depois de rejeitar tanto o monismo materialista como o dualismo corpo-alma, para pensar o Homem na sua singularidade procurou um terceiro caminho, que deu lugar ao que chamou uma "antropologia integradora", "cosmológica, dinâmica e evolutiva", que viu a sua expressão brilhante, intensamente original e acessível no livro que escreveu aos 90 anos, dois anos antes da morte, síntese madura de uma extensa obra e aturada e longa reflexão, traduzido para português: O que é o Homem. Evolução e sentido da vida. Como crente sincero e intelectual honesto e exigente, quer, sem precisar de uma alma espiritual nem de uma intervenção divina especial, mostrar a compatibilidade entre as duas afirmações cristãs essenciais sobre o Homem -- criado à imagem e semelhança de Deus e titular de uma vida que não morre com a morte -- e a concepção actual das ciências: o Homem como resultado da evolução do cosmos.
Recusa o dualismo. De facto, se o Homem fosse um composto de corpo e alma, seria preciso perguntar, por exemplo, se os pais, que apenas teriam dado origem ao corpo -- a alma viria "de fora" --, ainda são verdadeiramente pais dos seus filhos. Dada a realidade dos gémeos monozigóticos, que se formam pela divisão de um embrião, seria preciso perguntar se uma "alma" se divide em duas. Há ainda uma pergunta fundamental e decisiva: como é que um espírito finito pode agir sobre a matéria e vice-versa?
A recusa do dualismo não significa, porém, queda no materialismo vulgar. De facto, o monismo materialista, concretamente tal como foi entendido no século XIX, não dá conta da dignidade humana. Quem reduz o espírito humano e o eu a processos físicos e químicos no cérebro terá de responder à seguinte pergunta: como é que processos objectivos na terceira pessoa se transformam numa experiência subjectiva de um eu pessoal que se vive interiormente como único, como pessoa e não como coisa? Se a vida espiritual se identificasse com processos físicos e químicos, então seriam eles a decidir as minhas acções, de tal modo que se deveria concluir que não sou responsável pelo que faço. Isto significa que, apesar do valor das investigações neurobiológicas e dos avanços progressivos neste domínio, não será exagerado afirmar que a autoconsciência e o eu manterão uma reserva de insondável e incompreensível para a ciência objectivante.
Segundo Pedro Laín Entralgo, Deus cria através do dinamismo cósmico evolutivo. O dinamismo radical evolutivo em que o Cosmos consiste vai-se actualizando e configurando progressivamente em estruturas materiais cada vez mais complexas, de tal modo que surgem propriedades estruturais ou sistemáticas emergentes autenticamente novas, inéditas, que não eram previsíveis e que são irredutíveis. O Homem na sua singularidade é dinamismo cósmico humanamente estruturado, e nele o Todo do Cosmos enquanto natura naturans (natureza naturante) toma consciência de si, nada impedindo pensar que haja noutras paragens do Universo outros seres pensantes e conscientes e que o próprio homem actual possa ser o predecessor do Homo supersapiens.
Característica constitutiva do ser humano no processo de realizar-se é a esperança. Segundo Laín Entralgo, a esperança tem dois modos complementares: a esperança do concreto (o hábito de confiar que os projectos parciais se irão realizando bem) e a esperança do fundamental (o hábito de confiar — a confiança não é certeza — que a realização da existência pessoal será exitosa). Por sua vez, esta esperança do fundamental, que é a “esperança genuína”, assume dois modos, que não se excluem: a esperança terrena e histórica e a esperança meta-terrena e trans-histórica. Esta é própria dos crentes numa religião que afirma confiadamente a vida em Deus. Aí encontrará finalmente, como viu Santo Agostinho, aquela plenitude por que aspira na tensão constitutiva entre a sua radical finitude — não esquecer a constatação que já aqui transcrevi: “inter faeces et urinam nascimur”: nascemos entre as fezes e a urina — e a ânsia de Infinito: “o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti, ó Deus”.
É claro que, na concepção do Homem segundo Laín, torna-se mais enigmática a imortalidade pessoal, pois a estrutura pessoal humana não pode sobreviver naturalmente à desagregação das subestruturas nela incorporadas. Por isso, alguns crêem que na morte o Homem se desfaz na aniquilação. A fé cristã, ao contrário — e Laín acreditava — , convida a esperar, num acto de confiança radical racional, que a morte é a passagem, por dom misterioso e gratuito de Deus, a um modo de existência absolutamente inimaginável e insondável, para lá do espaço e do tempo cósmicos. O grande filósofo jesuíta José Gómez Caffarena perguntava com honradez intelectual: "em qualquer concepção, não terá que ser inimaginável e misteriosa a resposta com que o crente, na peculiar certeza da sua fé, se atreve a ir para lá do Cosmos?"
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 5 de outubro de 2024