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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

NÃO HÁ TERRA 2…
19 de março de 2019

 

Continuo a dar-vos páginas do meu “Cavaleiro Andante” para meu e vosso deleite. Desta vez, recordo as aventuras de “Lolocas e Pompom”, no original “Modeste e Pompon”. Trata-se de uma criação de André Franquin (1924-1997) em 1955, para a revista Tintin, que também foi publicada fugazmente na revista “Spirou”. Os autores foram nomes consagradíssimos: Greg, Peyo, Tibet e mesmo Goscinny. Os desenhadores foram, além de Franquin, Dini Attannasio, Mittéi e Godard, Griffo, Bernard Duponr e Walli e Bom… Mas, por que razão me lembrei desta série? Não porque seja central na história da BD, mas porque me lembra a natureza, as traquinices, o ar livre…

 

É que esta semana, acompanhei do meu jardim com muito agrado os movimentos dos mais jovens na defesa do meio ambiente. Estou de alma e coração com o alerta lançado pela jovem sueca Greta Thunberg. Lembramo-nos do que disse em dezembro passado na reunião da COP 24 (24ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima):  “Só fala de crescimento econômico eterno verde quem  está com muito medo de ser impopular. Trata-se de seguir em frente com as mesmas ideias erradas que nos meteram nessa confusão, sobretudo quando a única coisa sensata a é puxar o travão de emergência. Isso está errado. Não se está maduro o suficiente para dizer como é. Mas não podemos tolerar que esse fardo seja deixado para a nossa geração”. A jovem Greta é descendente por parte do Pai de um Prémio Nobel da Química de 1903,  Svante Arrhenius, e lançou um alerta sério, que não pode ser visto como algo de passageiro ou formal. É um movimento de tipo novo, que obriga cidadãos e cientistas,  artistas e criadores de todas as idades a empenharem-se na adoção de medidas concretas, para que o ambiente não seja irremediavelmente destruído. Não temos uma Terra número Dois, não há Plano B para a destruição do Meio ambiente. Há cinquenta Anos em Estocolmo foi dado um grito de alerta que ninguém ouviu. Destruímos desde então mais do que tudo o que tínhamos destruído desde o início da humanidade. Esse movimento é mortal. Toda a humanidade está ameaçada. O apelo dos jovens, o alerta dado em todo o mundo tem de ser ouvido. Temos de dar-nos as mãos – cientistas e cidadãos, artistas e políticos!

 

E deixo-vos um poema de Pedro Tamen:

 

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões”.

 

Agostinho de Morais

RESPOSTA AOS CURIOSOS…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 25.9.2018

 

Já falei dos meus passeios entre Vila Nogueira e Aldeia de Irmãos, já vos lembrei um poeta árabe do século 11 que viveu em terra de saloios, e devo recordar a série de 32 postais sobre diversas formas de encarar o património cultural. Recebo, porém, no meio do correio, três cartas intrigantes. Os meus leitores A. Silva (será António, Arnaldo, Asdrúbal?), J. Eustáquio (será José, João) e a Mariana B. Lopes perguntam-me quem sou. Julgo que é o que menos importa, mas não me escondo. Dir-vos-ei sumariamente a minha identidade… O meu nome, já o sabem, é Agostinho de Morais. Meus pais foram económicos. Sou afilhado de Frei Agostinho da Cruz graças a uma licença especial e de uma tia Maria Olímpia, de antigos pergaminhos. Sou um vetusto interessado por muitas coisas. Fiz jornalismo económico no velho “Jornal do Comércio”, como comentador da conjuntura, com base nas publicações mensais da Estatística. Todos os meses, tinha à minha porta um paquete do jornal, para que eu pudesse debruçar-me sobre fastidiosos quadros que tinha de comparar com os meses anteriores e os anos transatos, cabendo-me escolher ainda um número em cada publicação, para que se compreendesse um pouco o que mudava e o que ficava na realidade económica. Previ muitos disparates, mas enganei-me às vezes (quem não se engana? Talvez os tontos?). As várias bolhas que foram surgindo eram detetáveis (do imobiliário à informática) – e não esqueço aquelas duas caricaturas de um grande jornal de Wall Street – em 1929, viam-se vários capitalistas, gordos e de charuto a atirarem-se das janelas dos arranha-céus de Nova Iorque; enquanto em 2008, os tais capitalistas de charuto estavam à janela, impávidos, a ver os pobres corretores e empregados a saltarem para a morte, agarrados aos seus parcos haveres, como os do Lehman Brothers, depois de terem sonhado enriquecer rapidamente… O certo é que há muito esqueci esse tempo em que usava mangas de alpaca, literalmente. E não foi há tanto tempo assim. Agora dedico-me ao meu jardim, às minhas rosas, que têm segredos inconfessáveis, que tenho estudado aturadamente. Há mesmo uma rosa-chá que leva o nome Morais e está devidamente registada. O cultivar o jardim é o ponto em que concordo com o “Cândide”, já que detesto a imagem do Dr. Pangloss, que as más línguas dizem ser o Leibniz… Não pode ser. Todos os dias leio um pouco de Leibniz, e em cada dia mais me convenço de que foi um dos maiores génios da humanidade de sempre… Adoro matemática, e tantas vezes dedico-me a fazer a análise matemática dos poemas de Camões – de facto, todos os grandes poetas e músicos têm a matemática dentro de si… A biblioteca é o meu refúgio favorito. Que mais vos posso dizer? Jogo xadrez com os amigos, mediocremente, porque sou distraído quando quero. Sou arqueólogo nas horas vagas – procurando afanosamente a chave da nossa misteriosa escrita do Sudoeste. Por isso tenho estudado a escrita fenícia. E tenho esperança de que avancemos proximamente para a descoberta da chave. Não sou solitário nem misantropo. Tenho uma família razoável e gosto da animação. Eis quem sou, não há muito mais a dizer. O relógio marca os meus passos. Sou um maníaco dos horários e fico desesperado quando há atrasos injustificados! O relógio que trago comigo é um Longines histórico de várias gerações que se mantém fiel à certeza e ao rigor. Parece mesmo ter havido um antepassado meu que teve como função manter os relógios certos no Paço Real… Sinto na minha ancestralidade algo que anima meus passos.

 

E, como habitualmente, cito um poema.

Desta feita da autoria de Pedro Tamen.

“A Luz vem das Pedras” de 1975:

 

«A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra, 
tu a colhes, mulher, a distribuis 
tão generosa e à janela do mundo. 
O sal do mar percorre a tua língua; 
não são de mais em ti as coisas mais. 
Melhor que tudo, o voo dos insetos, 
o ritmo noturno do girar dos bichos, 
a chave do momento em que começa o canto 
da ave ou da cigarra 
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere 
a corda do que em ti faz acordar 
os olhos densos de cada dia um só. 
Quem está salvando nesta respiração 
boca a boca real com o universo?» (Agora, Estar).

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de setembro de 2018

 

Retábulo das Matérias - 1956-2013” (INCM, 2018) de Pedro Tamen, na coleção Plural, permite a revisitação da obra de um grande poeta, compreendendo a importância e o significado de um percurso ricamente singular.

 

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ARTE DA MEMÓRIA

 

Teria sido Simónides de Cós (séc. V, a. C.) o primeiro cultor da Arte da Memória. Ele disse ser preferível a arte de esquecer que a de lembrar. E hoje quando se fala tanto da memória informática na parafernália dos computadores, é bom voltar a esse entendimento, segundo o qual a sabedoria se faz sempre de lembrança e de esquecimento, para que não se confunda com ressentimento e favoreça a experiência e a aprendizagem. Por isso, ao sair do campo de concentração Joseph Rovan disse que esqueceria a cara dos carcereiros, mas lembraria sempre que importava combater a barbárie, pelo respeito e não pela vingança, pela dignidade e não pela violência. Memória Indescritível de Pedro Tamen (2000) ilustra bem esse cuidado especial com a memória, e essa relação paradoxal entre viver e reviver. A epígrafe de Sá de Miranda é significativa dessa contradição fecunda, que alimenta a existência. “Alma, que fica por fazer desde hoje / na vida mais, se a vã minha esperança, / que sempre sigo, que me sempre foge / já quanto a vista alcança, a não alcança”. E o poeta procura esclarecer essa relação necessariamente imperfeita e contraditória. De facto, não há memória que se complete a si mesma – ela será sempre, por isso, indescritível: “Deixar correr o tempo sem memória/ entre memoriais de tudo quanto houve/ valendo-me assim do que os outros lembram/ para nada lembrar”. É, no fundo e sempre, a complexa relação com o tempo, que tanto perturbava o bispo de Hipona, que está em causa - a tripla dimensão do presente, articulando o agora, o passado e o devir, numa observação atenta e inesperada. “Por sobre o ombro (dói!) lobrigo/ tantas confusas coisas, falo delas./.../o peso, o contrapeso, a palavra que digo. Sufoco o medo a medo, e olho a esteira/ remudo e quedo, sentado na cadeira”. Daí a invocação de Sá de Miranda, que nos remete ainda para o célebre poema: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Com a memória é também essa perplexidade que se manifesta, entre o alcançar e não alcançar o que a alma diz.

 

 

LUCIDEZ CRÍTICA

 

Com uma lucidez crítica premonitória, e ainda numa fase precoce da produção poética do autor, António Ramos Rosa afirmou: “Vejo na poesia de Pedro Tamen uma das mais sérias tentativas para dar à atividade poética aquele sentido do sagrado, sem o qual não se pode atingir a verdadeira dimensão interior. Violentamente dramático, quase sempre, este poeta restabelece a circulação entre o humano e o elementar infundindo à linguagem poética uma energia e expressividade que superam a mera agressividade do bizarro, tantas vezes esterilmente ofensiva em alguns poetas surrealistas” (in Poesia Liberdade Livre, Ulmeiro, 1968). E o certo é que o tempo veio a confirmar este carácter sagrado e dramático – e um modo especial de lidar com as palavras, sem esquecer a ironia, a dúvida, a incerteza e a compreensão da realidade através do seu avesso. É verdade que o tempo trouxe muitas mudanças, mas Ramos Rosa não se enganou na linha fundamental revelada já nessa altura pelo poeta. Estamos perante um percurso coerente e seguro, de quem sempre aliou a ação e a reflexão: “Formado em direito e solidão, / às escuras te busco enquanto a chuva brilha. / É verdade que olhas, é verdade que dizes. / Que todos temos medo e água pura” (como disse em Escrito de Memória, 1973).

 

 

PRESENÇA DA PALAVRA

 

Na relação com as palavras, importa lembrar que, além de poeta seguro e talentoso, com indiscutíveis provas dadas, Pedro Tamen é um tradutor excecional, com larguíssima experiência com notáveis resultados. Além das traduções de final de sessenta, sob o pseudónimo M. Rodrigues Martins, temos um rol notável, desde Tomás Kêmpis (com Isabel Bénard da Costa) até Gustave Flaubert, Marcel Proust, Georges Perec, Pascal Quignard, Javier Marias ou Michel Houellebecq. Homem de cultura, Pedro Tamen tem um percurso ligado ao que António Alçada Baptista designou como a “Aventura da Moraes”. Vindo da revista “Anteu – cadernos de cultura” (1954), passaria pelo jornal “Encontro” da JUC, onde seria chefe de redação (1955-1957), dirigiu o Centro Cultural de Cinema (CCC) e publicou o primeiro livro Poema para todos os dias (1956). Terminado o curso de Direito, é incorporado no Exército uma primeira vez (1957), mas o ano de 1958 vai significar uma mudança – que se prende aos sobressaltos causados pela candidatura presidencial do General Humberto Delgado, pelo memorando do Bispo do Porto a Salazar, que levaria o prelado ao exílio, e ao início do pontificado de João XXIII. António Alçada Baptista transforma a Livraria Morais da Rua da Assunção num centro de renovação política e religiosa. Pedro Tamen entrou como seu sócio, aos quais se juntou uma equipa constituída por João Bénard da Costa, Nuno Bragança, Luís de Sousa Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva, E lança o Círculo da Poesia, com o inesquecível símbolo solar de José Escada, onde publica O Sangue, a Água e o Vinho. Anima as coleções Circulo do Humanismo Cristão e “O Tempo e o Modo” (que dará título à revista em 1963). Segundo António Alçada, havia a “poderosa força da inércia” e a “frágil força da mudança” e um grupo de jovens propunha-se agitar as águas no pensamento e na ação. Pedro Tamen formula o programa – simples e claro: “a ação começa na consciência. A consciência, pela ação, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influir no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo”. A Morais afirma-se como pioneira na reflexão dos grandes temas do Concílio Vaticano II e a revista concretiza-se em 29 de janeiro de 1963 – António Alçada Baptista era o proprietário e diretor, João Bénard da Costa, chefe de redação, Pedro Tamen, editor, além da participação ativa de Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira. Não era, porém, uma revista de católicos. Haveria de seguir os passos de Emmanuel Mounier, que fizera em 1932 da revista “Esprit” um lugar de abertura e diálogo com não católicos. Era preciso abrir espaços, havia outros católicos de um setor mais técnico, como Adérito Sedas Nunes e Alfredo de Sousa, mas havia também jovens estudantes da greve de 1962, como Jorge Sampaio, Jorge Santos, Manuel de Lucena e José Medeiros Ferreira, e havia ainda oposicionistas clássicos como Mário Soares e Francisco Salgado Zenha… Sobre a abertura aos não católicos, João Bénard recorda: “um de nós sugeriu que se rezasse uma Avé Maria para que o espírito nos iluminasse”. E a votação fez-se – cinco votos a favor, dois contra e a abertura foi decidida!

 

Como editor, como poeta, como escritor, como intelectual ativo, Pedro Tamen é uma personalidade das mais marcantes do nosso tempo. Os critérios que usou desde o “Círculo da Poesia” até à Gulbenkian, demonstram bem como pôde rodear-se dos melhores, num momento rico da nossa criação cultural. O seu talento foi um natural complemento da qualidade de escolha. Usando a expressão de Ruy Belo sobre a geração dos “vencidos do catolicismo”, a verdade é que estes, como os ancestrais de 1870, não foram vencidos no largo prazo, sendo símbolos vivos do que podemos designar como a “paixão crítica”. Quando foi inventada a expressão “vencidos da vida”, havia um misto de ironia e de revolta. Contra a ideia de fatalismo do insucesso ou do atraso, foi o sentido crítico que venceu nas duas gerações – a da “Vida Nova” e de “O Tempo e o Modo” com a dureza da denúncia e a aventura das propostas audaciosas.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Certa amiga minha - Senhora da minha geração, que à advocacia consagrou parte grande da sua vida - no intervalo de outras obras também se entretém, para animar o seu merecido retiro, a comentar atos e factos, ditos e escritos ou seja, a atualidade e as suas circunstâncias. Quando me lê ou escuta - e sou discreto e infrequente - morde-a sempre o alicate da contestação, em sentido próprio, não pejorativo, de resposta dialética. Concorde ou desacorde, fico-lhe sempre grato pela frontalidade, feliz pela gentileza, lisonjeado pelo apreço e contente com a ironia... Bem haja, Maria de Lourdes!

 

   Não engraçou com eu não ter achado graça à laracha do nome Taqui Tali Taculá:  acha que este define ludicamente o dom de ubiquidade do Senhor Presidente da República... Para a sossegar, reconfesso que tal piada não me provocou qualquer saudável hilariedade, quiçá mais por causa do que me parece falta de jeito ou tonta formulação de uma "inspiração", do que pela graça em si. Bem lida a frase onomástica, ficar-lhe-ia melhor graça chinesa do que japonesa: não só porque os nomes sínicos são em regra três, e os nipónicos apenas dois, mas também porque as consoantes líquidas os confundem em sentido foneticamente inverso: o chinês gosta de pronunciar sempre L, o japonês R. Caricaturando, sem malícia: se eu pedir a um chinês que repita laranja, ele dirá lalanja... Se assim desafiar um japonês, ele pronunciará raranja... Não creio que seja motivo de troça, todos os povos têm sotaques, e suas regiões também assim se distinguem, e até conheço muitos "orientais" que pronunciam "corretamente" palavras "ocidentais", tal como muitos europeus que nunca acertam com o u francês nem com o portuguesíssimo ão. Dá graça ao mundo, sobretudo se soubermos gostar das diferenças de pronúncia e devidamente apreciá-las... Embirro com chacota e, por paradoxal que pareça, sou todavia defensor do respeito escrupuloso de transcrições fonéticas com inteligível leitura acordada porque, embora nos deem mais trabalho, nos ajudam a entender e respeitar melhor as falas dos outros. Refiro-me, Princesa de mim, a transcrições fonéticas, não aos chamados acordos ortográficos... São coisas muito diferentes, embora, aliás, tal não pareça ter sido devidamente entendido pelos promotores de certos "acordos"... 


   Mas não te escrevo hoje para te falar disso. Nesta cultura de equívocos em que mergulhamos, é mais preocupante, creio eu, Princesa, a facilidade com que, na chamada "comunicação social", qualquer pessoa bem introduzida nos quiçá misteriosos (ou simpatizantes?) canais de acesso ao público, inclusive gente de espírito pouco culto, ou só ignorante e pretensiosa, ou talvez simplesmente obcecada ou facciosa ganha um espaço de "visibilidade" negado a outros. Há de tudo. Sobretudo muito "marketing" à mistura e também isso a que poderíamos chamar, parafraseando Kundera, a sustentável leveza da fama... Receio que - para além da infeliz ou nefasta divulgação de disparates e mentiras - tal vá paulatinamente minando a credibilidade dos chamados órgãos de comunicação social e, consequentemente, como temos visto, levando à proliferação de "tweeterismos" vários... Por isso também se vêm repetindo, graças a Deus, os apelos à reeducação do espírito crítico e a um renascimento dos "estudos gerais" e "humanidades". Haja bom senso!

 

   Surpreendeu-me o Ípsilon do Público de 2 de junho p.p. com quatro páginas dedicadas à recente edição de uma tradução da Epopeia de Gilgamesh pela Assírio & Alvim, intitulada Épico de Gilgames, por Francisco Luís Parreira. O autor da resenha crítica - para mim tão desconhecido como o tradutor - não poupa elogios à que considera (não sei com que autoridade) a única tradução fidedigna, que se tornará indispensável a todas as traduções ou edições futuras em português... E já antes peremtoriamente nos esclarecia de que: Luxuriantemente anotada e comentada (o corpo do poema ocupa uma centena de páginas, as restantes 150 sendo consagradas à minúcia exegética), valiosa e ostensivamente erudita, a tradução de Francisco Luís Parreira parte do "texto sinóptico transliterado da edição crítica" (trata-se da edição de 2003 do reputado assiriologista Andrew R. George) mas teve em conta "os contributos trazidos pelos achados recentes" (onze fragmentos novos identificados no Museu Britânico e um outro "resgatado, já em 2011, ao saque patrimonial em curso no Iraque e na Síria") e os "estudos assiriológicos posteriores". Presumo, Princesa de mim, que a fidedigna tradução de Parreira - a tal que "parte do texto sinóptico transliterado da edição crítica" - é afinal uma versão portuguesa da tradução para inglês, do original acádio, feita pelo professor Andrew George. Cheirou-me logo pelo título "Épico de Gilgames". Como sabes, Princesa, em língua latina, épico é um adjetivo que quer dizer heroico. Em português, continua a ser adjetivo, mas também, e só, substantivo quando se refere à pessoa ou autor do poema ou da narrativa: temos, assim, um poema épico, uma história épica... ou um épico, muito simplesmente, quando nos referimos a um poeta épico, Camões, por exemplo. A expressão inglesa The Epic of Gilgamesh, em versão portuguesa correta será A Epopeia de Gilgamesh... No texto original, apenas adivinhamos... Além disso, como poderia traduzir tanto texto acádio em escrita cuneiforme, levando pouco mais de um ano, alguém que, como o próprio Parreira reconhece, não tem a assiriologia como "campo académico"? Tenho aqui a edição da versão inglesa de Andrew R. George, publicada em 1999 na Penguin Classics. Ao acaso, abro o livro, detenho-me num passo, busco o mesmo no texto português de Parreira. Vê só, verso a verso: Surpassing all other kings, heroic in stature / supremo entre os reis, soberbo de estatura / brave scion of Ulruk, wild bull on the rampage! / bravo nativo de Ulruk, touro branco enristado! / Going at the fore he was the vanguard, / Marchando na dianteira, era ele o chefe, / going at the rear, on him comrades could trust! / ou, seguindo na retaguarda, arrimo dos camaradas! 

 

   A competência do professor inglês da Universidade de Londres é mundialmente reconhecida, e acho muito bem que, não havendo entre nós quem saiba de acádio ou escrita cuneiforme para se atirar a uma tradução direta do original, se recorra e uma versão inglesa daquela qualidade. Já mais dificilmente aceitarei que o tradutor de inglês para português possa afirmar, como o faz Francisco Luís Parreira na entrevista dada a Mário Santos, o seguinte: Ora, o panorama editorial internacional só registou, até agora, duas traduções integrais do poema que refletem, de raiz, as descobertas e os critérios de George; uma alemã, de Stefen Maul, já com integração de achados posteriores à edição crítica, que ele próprio decifrou, e a minha, que é a primeira a incorporar numa edição "harmónica" o texto do mais importante achado das últimas décadas, o do museu de Suleymaniah, só editado em 2014. É simples a razão da minha reserva: sabemos que a Epopeia de Gilgamesh, tal como muita outra literatura antiga, designadamente aquela que se vai descobrindo por achados arqueológicos, paulatinamente se revela, e ninguém sabe ainda dizer o que encerram textos inscritos no barro, mas ainda não decifrados, muito menos se e quando outras tabuinhas em escrita cuneiforme serão encontradas. Parreira apenas juntou, ao texto que Andrew George "transliterou" do original e ele posteriormente traduziu do inglês, as traduções - presumo que do inglês ainda ou doutra língua europeia - de placas com escrita cuneiforme recentemente descobertas... Daí a reclamar um inexistente protagonismo na tradução "integral" da epopeia arcádia... vai um passo algo exagerado, posto que, incapaz de ler os textos originais na respetiva língua e escrita, nem sequer tem autoridade para afirmar quais deles serão integrais... E ainda se esquece de referir que o professor doutor Manuel Bouzon, padre assiriólogo e biblista, da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro, antes de morrer, quase concluíra, em 2006 a tradução direta do original àquela altura conhecido, como tampouco refere os trabalhos de investigação e tradução do assiriologista francês Jean Bottéro, de que já te falei em cartas anteriores, aliás publicadas no blogue do CNC em 14 e 23 de março e 11 de abril de 2014 (com os títulos de Onde se fala do 7º príncipe de Condé, Como árvores andamos..., Entre cá e lá...).  Todavia, na bibliografia apensa às suas tradução e notas, inclui a menção de obras de Bottéro, incluindo a versão francesa, diretamente do original acádio àquela data já conhecido, de L´Épopée de Gilgames (Gallimard, Paris, 1992), que possuo e li. [A talho de fouce, lembro-me do meu saudoso amigo professor António Sousa Franco, que aconselhava aos seus alunos doutorandos a inclusão, nos anexos às respetivas "teses" ou dissertações, só da bibliografia que eles efetivamente tivessem lido ou consultado].

 

   Nada disso, todavia, retira interesse à publicação de Francisco Luís Parreira, que não deixa de ser uma trabalhosa divulgação de uma narrativa ou epopeia mítica que informou congéneres bíblicas e ainda hoje nos interroga sobre a nossa condição e os nossos anseios, e vai à questão do destino, da vida e da alma humanas. Mesmo que exaustivamente bebida na obra de Andrew George, traz esta edição portuguesa outro contributo ao conhecimento da Epopeia de Gilgamesh e da sua cultura e circunstância, precisamente pela abundância das notas coligidas. Mas não pode, nem deve, retirar mérito a outras obras e seus autores, muito menos diminuí-los. Nem esquecer que poderá haver quem prefira edições menos "eruditas", até por razões tão singelas como gostos de leitura: eu, por exemplo - que não sou nem pretendo ser um perito ou sequer simples estudioso da literatura sumério-babilónica - sinto mais agrado em ler o texto "prosaico" de Pedro Tamen, do que a rebuscada versificação de Parreira. Gostos, Princesa de mim, e desgostos: porque se há-de traduzir wild bull on the rampage! por touro branco enristado!? Também por isso me parecem escusadas e deslocadas, na entrevista conduzida por Mário Santos, e no artigo deste, as referências feitas a Nancy Sandars, Pedro Tamen e, ainda Frederico Lourenço (!). Passarei a explicar-me-te, Princesa de mim. Antes, porém, deixa-me dizer-te que, quando me interrogo sobre qual a autoridade com que fulano ou beltrana se pronunciam sobre dado tema, não procuro qualquer referência necessária a créditos ou títulos escolares,  mas antes me debruço sobre provas de esforçado trabalho ou investigação e, sobretudo, de honestidade intelectual, que mais não é do que essa humildade de que falava Sócrates: Só sei que nada sei... Pretender, como Mário Santos, que em português (de Portugal), e para além de fragmentos traduzidos no âmbito de ensaios ou estudos mais ou menos académicos, circulou nos últimos 40 uma esforçada versão prosaica (sic) feita pelo poeta Pedro Tamen a partir de uma estropiada versão inglesa, para justificar a afirmação de que a presente tradução de Francisco Luís Parreira vem suprir uma lacuna... trata-se, por inerência, de uma edição histórica... e é já um dos melhores "livros do ano"... deveria ser também um acontecimento literário... dispensa qualquer comentário direto. Será que ele quer dizer, com versão prosaica, versão em prosa?Não terá reparado em que Pedro Tamen se limita a traduzir do inglês a versão em prosa de Nancy Sandars, aliás publicada, pelo menos em 1960 e 1972, pela Asian Society e pela Penguin Classics, e elogiada por críticos e letrados assiriólogos? Na verdade, Nancy Sandars, nascida numa família da aristocracia militar britânica, falecida em 2015, aos 101 anos, na mansão familiar onde nascera, foi amplamente recordada, designadamente na imprensa inglesa ( v.g. The Times, The Daily Telegraph, etc.), por universitários e jornalistas, como competente arqueóloga e tradutora, ela que corajosamente tivera de superar uma doença tuberculosa que quase a cegara e por bastante tempo lhe impedira a leitura... Com que fundamento, na entrevista, o próprio Parreira afirma que o trabalho de Pedro Tamen é a tradução de uma prosa inglesa, redigida na década de 1950 por uma divulgadora chamada Nancy Sandars, que se limitou a transvazar materiais babilónicos heterogéneos então conhecidos em forma romanesca. O facto de na capa da edição portuguesa não constar sequer o nome da autora, permitindo a impressão errónea de que se trata do épico babilónio, sugere-me, entre outras, a reflexão de que trabalhos desse género são mais prejudiciais que benéficos. Fui verificar, à edição portuguesa que possuo: na capa apenas surge Gilgamesh; na página 4, em sítio devido, tal como em letras maiores, na página 5, informa-se que se trata da Versão de Pedro Tamen do texto inglês de N. K. Sandars. Na edição do "Épico" (em vez de Epopeia, como seria correto em qualquer língua latina) "de Gilgames", a capa apenas anuncia tradução, introdução e notas de Francisco Luís Parreira e, nas páginas 3, 4 e 5 assinala-se que se trata da versão Babilónia Padrão, a qual mais não é, esclarece-se na página 7, do que a rapsódia do material épico de Gilgames em doze tábuas ou capítulos, composta c. 1200 a. C. por um redator mesobabilónico... sem qualquer indicação da versão inglesa, essa sim, traduzida por Parreira, que não lê acádio nem caracteres cuneiformes. Na verdade, quando ele afirma, na introdução à sua tradução, que a matriz da presente tradução é o texto sinóptico transliterado da edição crítica - que em nota final diz ser a transliteração sinóptica do poema, sucessivamente atualizada por Andrew George - reconhece que o texto por ele vertido para português é a sinopse, em inglês, da transcrição para caracteres latinos da pertinente escrita cuneiforme, trabalho executado por aquele professor inglês. Daí me parecer algo extravagante a pergunta que Mário Santos lhe dirige na entrevista para o Público: Contrariando uma tendência de anos recentes, exemplificável com algumas traduções de Homero feitas por Frederico Lourenço, optou por uma tradução e por uma edição ostensivamente eruditas. Porquê? O jornalista talvez não soubesse que as traduções de Frederico Lourenço são feitas diretamente do grego clássico original, não são versões de versões, o que, de per si, as situa num plano de consideração onde ainda não podemos colocar o trabalho de Francisco Luís Parreira. Aliás, as notas "eruditas" também se traduzem mas, falando de Frederico Lourenço, as que ele junta, por exemplo, à sua tradução da Bíblia grega são de sua própria autoria, decorrem do seu próprio labor de entendimento direto do grego clássico.

 

   Aqui tens, Princesa, o que penso. Para concluir que a leitura do Gilgamesh de Pedro Tamen (tradução de The Epic of Gilgamesh de Nancy K. Sandars) é muito agradável, sem complicações rebuscadas, não sendo por isso menos fiel ao encanto da lenda e dos mitos com que a narrativa original e milenária ainda hoje nos leva a pensarsentir a misteriosa aventura humana e a sua circunstância. E para te confessar que a rebuscada versão portuguesa de Francisco Luís Parreira me torna mais pesada a leitura. Todavia, estando esse texto mais de acordo com o do Babilónia Padrão, e incluindo trechos traduzidos de achados arqueológicos mais recentes, servirá certamente melhor aqueles leitores que pretenderem aproximar-se de uma edição crítica mais completa e tenham qualquer dificuldade em dispor ou consultar diretamente as versões inglesas (e não só) das transliterações feitas por esses estudiosos estrangeiros.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira