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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ABECEDÁRIO DA CULTURA DA LÍNGUA PORTUGUESA

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X.   XAVIER (S. FRANCISCO) E “PEREGRINAÇÃO”

 

Francisco de Xavier sentiu-se abalado pela conquista do Reino de Navarra por Castela. Então o rei de Portugal D. João III pediu ao Papa Paulo III para que este lhe enviasse missionários para os territórios da Índia. D. João III é aconselhado pelo diretor do Colégio de Santa Bárbara, Diogo de Gouveia, a chamar para os Reino de Portugal jovens da Companhia de Jesus. Inácio de Loyola escolhe Simão Rodrigues e Nicolau Bobadilla para essa missão, mas este adoece e Francisco é nomeado seu substituto, chegando a Portugal em 1540. Parte no ano seguinte, a 7 de abril, a bordo da nau S. Diogo, a nau capitânia das cinco naus da frota comandada por Martim Afonso de Sousa, que ia que tomar posse do cargo de governador na Índia.

Em agosto ancoraram na ilha de Moçambique e depois em Melinde. Durante a viagem, muito atribulada pela difusão do escorbuto na tripulação, as qualidades e o carisma de Francisco Xavier foram evidentes. A nau Santiago chegou a Goa a 6 de maio de 1542. O trabalho de Francisco de Xavier inauguraria mudanças na Indonésia, tendo-se tornado conhecido como o “Apóstolo das Índias” quando, entre 1546 e 1547, trabalhou nas Molucas. Depois de partir da região já havia entre 50 e 60 mil católicos. Em dezembro de 1547, em Malaca, Francisco de Xavier conhece Fernão Mendes Pinto, que regressava do Japão e trazia consigo um nobre japonês de nome Angiró que ouvira falar de Francisco em 1545 e viajara de Cagoxima para Malaca com o propósito de o conhecer. Angiró, acusado de um crime, fugira do Japão. Abriu o seu coração a Francisco, confessando-lhe a vida que levara até ali, mas também os costumes e cultura da sua terra natal. Angiró foi batizado por Francisco Xavier e adotou o nome português de Paulo de Santa Fé. Como antigo samurai, tornar-se-ia um valiosíssimo mediador e tradutor na missão ao Japão. Francisco teve um forte impacto no Japão, tendo sido o primeiro jesuíta nesse encargo. Os japoneses não se revelaram ouvintes fáceis. Muitos eram budistas e Francisco Xavier teve dificuldade em explicar-lhes o conceito de Deus criador de tudo o que existe e o mesmo relativamente ao inferno. Apesar das diferenças religiosas, Francisco Xavier terá sentido que os japoneses eram um povo bom, como os povos europeus, e que por isso poderiam ser convertidos. Morreu em Sanchoão (1552) às portas da China. Homem santo de três religiões – cristã, hindu e muçulmana – o seu corpo é venerado na Basílica do Bom Jesus de Goa, constituindo caso único na história das religiões.

A “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583) põe-nos diante uma verdadeira personagem romanesca, que assume diferentes acontecimentos e personalidades, e que descreve de um modo notabilíssimo, o que era a vida de um português no Oriente – criado de fidalgo, soldado, escravo, agente de negócios, pirata dos mares da China, mercador, médico ocasional do rei do Bongo, vagabundo e embaixador -, a verdade é que isso simboliza o português do mundo. Os estudiosos sobre esse tempo são os primeiros a considerar que não é possível compreender o que João de Barros ou Diogo do Couto nos relataram sem ler Fernão Mendes Pinto. Este é a personagem completa, que não precisa de convencer ninguém que deixa de ser quem sempre foi. O próprio título com que a obra foi publicada dá-nos a expressão plena da riqueza do relato. “Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus”. Ao ler a obra, houve entre os contemporâneos quem duvidasse dos relatos, respeitantes aos vinte e um anos em que andou pela Ásia, tendo sido, na sua própria expressão, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. A escrita começou logo em 1557, com a memória bem fresca, só sendo publicada trinta e um anos depois da sua morte (1614), por Pedro Craesbeek, com tardia autorização do Santo Ofício. Aos que duvidaram da veracidade dos relatos, o autor respondeu significativamente: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”.

É memorável o encontro de Fernão Mendes Pinto com António de Faria, o célebre corsário, numa situação, em que quiseram saber novidades de Liampó, “porque se soava então pela terra que era lá ida uma armada de quatrocentos juncos em que iam cem mil homens por mandado de El-Rei da China a prender os nossos que lá iam de assento, a queimar-lhes as naus e as povoações, porque os não queria em sua terra, por ser informado novamente que não eram eles gente tão fiel e pacífica como antes lhes tinham dito”, mas afinal era engano, pois essa armada tinha ido, afinal, socorrer um Sultão nas ilhas de Goto. É inesquecível a perseguição ao corsário mouro Coja Acém, que se dizia “derramador e bebedor do sangue português” e a quem Faria jurara vingança, por lhe ter roubado as fazendas e morto os companheiros na batalha mais violenta da “Peregrinação”. “E arremetendo com este fervor e zelo da fé ao Coja Acém como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu, com uma espada que trazia, de ambas as mãos, uma tão grande cutilada pela cabeça que, cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão…”. E lembre-se o episódio da vinda do Embaixador do Rei dos Batas. Pero de Faria fê-lo «agasalhar o mais honradamente que então foi possível». E assim «o despediu bem despachado, e satisfeito do que viera buscar, porque lhe deu ainda algumas cousas além das que lhas pedira, como foram cem panelas de pólvora, e rocas, e bombas de fogo, com que se partiu tão contente desta fortaleza, que chorando de prazer, um dia perante todos os que estavam no tabuleiro da igreja, virando-se para a porta principal dela, com as mãos levantadas, como quem falava com Deus, disse publicamente. Prometo em nome de meu Rei a ti Senhor poderoso, que com descanso e grande alegria vives assentado no tesouro das tuas riquezas que são os espíritos formados da tua vontade, que se te praz dar-nos vitória contra este tirano de Achem (…). E assim te prometo e juro com toda a firmeza de bom e leal, que meu Rei não tenha nunca outro Rei se não este grande português, que agora é senhor de Malaca». Fernão Mendes construiu, deste modo, no dizer de António José Saraiva, «um Oriente espantosamente humano, que tem o seu estilo próprio. Um Oriente que não é feito só de cidades, templos e esculturas, mas também do estilo falado, de etiquetas humanas, de sentimentos típicos». E assim a nossa cultura é inesgotavelmente peregrina!

 

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 28 de novembro a 4 de dezembro de 2022


A “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, adaptada em Banda Desenhada por José Ruy (Âncora Editores) é uma das obras-primas da 9ª Arte em Portugal. Recordamo-la. no momento em que o grande ilustrador nos deixa com 92 anos de idade.


UMA REFERÊNCIA DA CULTURA PORTUGUESA
Se a obra de Fernão Mendes Pinto é uma das maiores referências da cultura da língua portuguesa, esta adaptação feita por José Ruy (1930-2022) e publicada pela primeira vez em continuados no “Cavaleiro Andante”, entre 14 de dezembro de 1957 e 6 de junho de 1959, constitui uma magnífica adaptação gráfica, na qual o público leitor pode ter acesso a uma síntese servida pela mestria de um dos mais importantes mestres das histórias de quadradinhos (HQ), ao lado de Eduardo Teixeira Coelho (ETC), José Garcês ou Fernando Bento. Quando lemos a adaptação de “Peregrinação” percebemos o porquê de Fernão Mendes ter respondido aos que duvidaram da veracidade dos seus relatos do seguinte modo: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”. É memorável, por exemplo, o encontro de Fernão Mendes Pinto com António de Faria, o célebre corsário (não se sabe se alter ego do autor), numa situação, em que quiseram saber novidades de Liampó, “porque se soava então pela terra que era lá ida uma armada de quatrocentos juncos em que iam cem mil homens por mandado de El-Rei da China a prender os nossos que lá iam de assento, a queimar-lhes as naus e as povoações, porque os não queria em sua terra, por ser informado novamente que não eram eles gente tão fiel e pacífica como antes lhes tinham dito”. Afinal era engano, pois essa armada tinha ido, afinal, socorrer um Sultão nas ilhas de Goto.


O DOMÍNIO DO MOVIMENTO
E é inesquecível a perseguição ao corsário mouro Coja Acém, que se dizia “derramador e bebedor do sangue português”, a quem Faria jurara vingança, por lhe ter roubado as fazendas e morto os companheiros na batalha mais violenta da “Peregrinação”. “E arremetendo com este fervor e zelo da fé ao Coja Acém como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu, com uma espada que trazia, de ambas as mãos, uma tão grande cutilada pela cabeça que, cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão…” As ilustrações de José Ruy são exemplares e constituem referências para os melhores especialistas internacionais da Banda Desenhada. Hoje sabemos da verosimilhança de tudo quanto está relatado na “Peregrinação”, que constitui um texto pioneiro na literatura europeia, ao lado da obra imortal de Cervantes sobre o Cavaleiro da Triste Figura. Pode até ter acontecido que não fosse Mendes Pinto o real protagonista de tudo o que é relatado, mas percebemos que cada episódio pôde ocorrer de facto, até porque os estudiosos desse tempo são os primeiros a considerar que não é possível compreender o que João de Barros ou Diogo do Couto nos relatam sem ler Fernão Mendes Pinto. E José Ruy com o seu traço inconfundível e o perfeito domínio do movimento interpretou a mole imensa de acontecimentos de modo exemplar. Dir-se-á que, como acontece na literatura moderna, o autor, como o romancista, compõe a visão dos acontecimentos artisticamente, a partir da matéria-prima dos acontecimentos que de facto viveu.


José Ruy, que aqui homenageamos, nasceu na Amadora em maio de 1930, tendo sido aluno e cursado na Escola António Arroio, que sempre tanto elogiou, onde foi discípulo de Rodrigues Alves, Falcão Trigoso e Júlio Santos. Iniciou-se como desenhador e argumentista com apenas 14 anos em “O Papagaio” de Adolfo Simões Müller, tendo tido uma especial preocupação no aperfeiçoamento das técnicas de desenho, ilustração e gravura. É o autor português com maior número de obras publicadas na sua especialidade, mais de 80 álbuns, sendo cinco dezenas de Banda Desenhada (ou de histórias de quadradinhos, como preferia dizer) com destaque para as viagens de Porto Bomvento, bem como para as biografias de Almeida Garrett, João de Deus, Bernardo Santareno, Pero da Covilhã, Pedro Álvares Cabral, Aristides de Sousa Mendes, Leonardo Coimbra, Humberto Delgado, Charlie Chaplin ou Carolina Beatriz Ângelo. Graças ao encontro com um saudoso amigo comum, Amadeu Ferreira, ilustrou a história da língua e do povo mirandês. Com a publicação de “Os Lusíadas” foi o primeiro autor a publicar um álbum sobre um poema épico. O rigor e a qualidade do seu trabalho têm sido reconhecidos tanto em Portugal como no estrangeiro, estando a sua obra publicada em 11 línguas. Foi o primeiro autor a ser galardoado com a Medalha de Honra do Festival de Banda Desenhada da Amadora, tendo ainda recebido a Medalha Municipal de Ouro de Mérito e Dedicação da Cidade da Amadora. O CNC não esquece a extraordinária lição que nos deu sobre os segredos do artista no tempo em que a gravura era trabalhada diretamente na base metálica, até ao mais ínfimo pormenor. Não podemos deixar que o silêncio possa cair sobre a memória de um artista como José Ruy. A sua obra corresponde a um caso único de qualidade e exigência. Enviamos, por isso, a sua família e amigos a expressão dos nossos sentimentos e uma homenagem profunda ao seu humanismo de sempre.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO

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XVI. SEMPRE FERNÃO MENDES PINTO

 

É inesgotável a leitura da «Peregrinação». E ainda há muito caminho a fazer para compreendermos a importância desta obra única. Este é o fantasma com quem mais gosto de lidar. É um espírito autêntico, daqueles que a história nos reserva e podemos encontrar onde menos se espera. Ele, de facto, deixou toda a sua vida bem marcada no tempo e se houve quem duvidasse da sua existência e da sua verdade, fica-nos a certeza de que a personagem de António Faria é mesmo meio pessoa meio fantasma, por ser uma espécie de alter ego de Fernão Mendes. No seu caso nunca saberemos a verdade absoluta, mas sabemos, de ciência certa, que tudo o que ele passou foi algo que não deixou de acontecer, qualquer que seja o protagonista… Fernão Mendes Pinto construiu, no dizer de António José Saraiva, «um Oriente espantosamente humano, com estilo próprio. Um Oriente que não é feito só de cidades, templos e esculturas, mas também do estilo falado, de etiquetas humanas, de sentimentos típicos». Eis uma vantagem fantástica. Hoje sabemos da verosimilhança de tudo quanto nos relatou. Pode até ter acontecido que não sendo ele, Fernão Mendes, o real protagonista de tudo, facilmente entendemos que tudo ocorreu de facto. E os estudiosos desse período são os primeiros a considerar que não é possível compreender o que João de Barros ou Diogo do Couto nos disseram sem ler Fernão Mendes Pinto. Enquanto as personagens dos cronistas talvez tenham feito o que dizem, as da “Peregrinação” marcaram mesmo a sociedade em que viveram e ainda hoje são relevantes…

 

O Padre Adelino Ascenso, missionário experimentado e culto com larga experiência no Japão, tem tido oportunidade de explicar urbi et orbi o difícil romance de um profundo entendido nas relações com os portugueses Shusaku Endo “Silêncio” (que Martin Scorsese levou à teka), sobre a apostasia de um jesuíta português no século XVII: “O Senhor não ficará em silêncio. Mesmo admitindo que Ele se mantenha calado, toda a minha vida até hoje falará d’Ele para todo o sempre”. Estava em causa a barreira de cultura entre uma religião estrangeira e a cultura japonesa. No entanto, o cristianismo no Japão é heterogéneo e surpreendente – há os mártires e os cristãos escondidos, os que deram testemunho e os outros, que preferiram mergulhar na vida japonesa, dilacerados entre a fidelidade do gesto e a fidelidade do princípio, tendo como fundo o silêncio dramático da dúvida e do remorso. “Podes pisar-me!” – parecia dizer Cristo representado no “fumie” usado para consumar a negação. Afinal, há o mistério do silêncio – ausência de palavras, audição do universo e fidelidade íntima. A distância cultural é mais forte do que os julgamentos precipitados. Fernão Mendes deve ser lembrado (como António Alçada gostava de fazer), sobre uma célebre conversa do Mestre Belchior com o rei japonês do Bungo: «o padre lhe tornou que muito satisfeito estava de seu bom propósito, mas que se lembrasse que a vida não estava nas mãos dos homens, pois todos eram mortais, e se ele acertasse de morrer antes (de se batizar), onde iria a sua alma? Ao que ele, sorrindo-se, disse: - Deus o sabe…».

Agostinho de Morais

 

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PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO

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XV. RELENDO A “PEREGRINAÇÃO”

 

O caderno de capa vermelha de que já vos falei não só tinha notas sobre o itinerário de Maltese, mas também sobre a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, a obra fundamental sobre a presença dos portugueses no mundo. E João Bénard da Costa ajuda-me, ao citar Jean-Louis Shefer, quando nos fala da “doce loucura de falar com fantasmas na metade da vida”. Assim me sinto neste folhetim, onde a memória significa lidarmos constantemente com aqueles que já cá não estão, estando. E isso é um fantástico motivo para vivermos a eternidade. Atenhamo-nos à "Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus". Houve quem duvidasse da verdade dos relatos, respeitantes aos vinte e um anos de viagens, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. A escrita começou logo em 1557, com a memória bem fresca. A publicação ocorreu trinta e um anos depois da sua morte (1614), por Pedro Craesbeek, com tardia autorização do Santo Ofício. Aos que duvidaram, o autor respondeu: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”. É memorável o encontro de Fernão Mendes Pinto com António de Faria, o célebre corsário, para saber novidades de Liampó, "porque se soava então pela terra que era lá ida uma armada de quatrocentos juncos em que iam cem mil homens por mandado de El-Rei da China a prender os nossos que lá iam de assento, a queimar-lhes as naus e as povoações, porque os não queria em sua terra, por ser informado novamente que não eram eles gente tão fiel e pacífica como antes lhes tinham dito", mas afinal era engano, pois a armada tinha ido, afinal, socorrer um Sultão nas ilhas de Goto. É inesquecível a perseguição ao corsário mouro Coja Acém, que se dizia "derramador e bebedor do sangue português" e a quem Faria jurara vingança, por lhe ter roubado as fazendas e morto os companheiros na batalha mais violenta da “Peregrinação”. "E arremetendo com este fervor e zelo da fé ao Coja Acém como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu, com uma espada que trazia, de ambas as mãos, uma tão grande cutilada pela cabeça que, cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão...”. E lembre-se o episódio da vinda do Embaixador do Rei dos Batas. Foi agasalhado «o mais honradamente que então foi possível». E assim «o despediu bem despachado, e satisfeito do que viera buscar, porque lhe deu ainda algumas cousas além das que lhas pedira, como foram cem panelas de pólvora, e rocas, e bombas de fogo, com que se partiu tão contente desta fortaleza, que chorando de prazer, um dia perante todos os que estavam no tabuleiro da igreja, virando-se para a porta principal dela, com as mãos levantadas, como quem falava com Deus, disse publicamente. Prometo em nome de meu Rei a ti Senhor poderoso, que com descanso e grande alegria vives assentado no tesouro das tuas riquezas que são os espíritos formados da tua vontade, que se te praz dar-nos vitória contra este tirano de Achem (…). E assim te prometo e juro com toda a firmeza de bom e leal, que meu Rei não tenha nunca outro Rei se não este grande Português, que agora é senhor de Malaca»…

Agostinho de Morais

 

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FRANCISCO NO CANADÁ EM "PEREGRINAÇÃO DE PENITÊNCIA"

  


1. Não tenho dúvidas em afirmar que Jesus trouxe ao mundo por palavras e obras a melhor notícia que a Humanidade ouviu e viu. Por isso se chama Evangelho, que vem do grego (notícia boa e felicitante): Deus é bom, Pai/Mãe de todos. Jesus morreu para dar testemunho disso: da Verdade e do Amor.


Esta mensagem deu frutos através dos séculos. Cito Antonio Piñero, agnóstico, grande especialista em cristianismo primitivo. Depois de declarar que Jesus afirmou a igualdade de todos enquanto filhos de Deus, escreve que, a partir deste fermento, “se esperava que mais tarde chegasse a igualdade social. Se compararmos o cristianismo com todas as outras religiões do mundo, vemos que essa igualdade substancial de todos é o que tornou possível que com o tempo se chegasse ao Renascimento, à Revolução Francesa, ao Iluminismo e aos direitos humanos. Isto quer dizer: o Evangelho guarda, em potência, a semente dessa igualdade, que não podia ser realidade na sociedade do século I. O cristianismo está, à maneira de fermento, por trás de todos os movimentos igualitários e feministas que houve na História, embora agora não o vejamos claramente, porque o cristianismo evoluiu para humanismo. Mas esse humanismo não se vê em religiões que não sejam cristãs. Ou porventura o budismo, por si, chegou ao Iluminismo? O xintoísmo? O islão? Os poucos movimentos feministas que há nas religiões estão inspirados na cultura ocidental. E a cultura ocidental tem como sustento a cultura cristã. Embora se trate de uma cultura cristã descrida, desclericalizada e agnóstica, culturalmente cristã.” O mesmo dizem muitos outros filósofos e historiadores, incluindo agnósticos e ateus. Não se pode duvidar de que o cristianismo foi e é fermento de bondade, de alegria, de fraternidade, de tomada de consciênicia da dignidade infinita de ser ser humano, de esperança e sentido, Sentido último.


Mas há aquela máxima: “corruptio optimi pessima”, que, infelizmente, também se aplica à Igreja: “a corrupção do melhor é o pior”. Isso acontece quando se esquece o serviço e se procura o poder enquanto domínio. É que o poder é o maior afrodisíaco, disse-o quem sabe: Henry Kissinger. Aí está o clericalismo, a peste da Igreja, como não se cansa de repetir o Papa Francisco. E, aqui, pode ajudar a bela síntese do teólogo José I. González Faus: é fundamental saber que a palavra grega kleros não significa clero, mas sorte, parte de uma herança. É assim que a usa o Novo Testamento referida a todos os cristãos. Quando a Igreja cresceu, precisou de estruturar-se; indo acriticamente ao Antigo Testamento, aplicou aos servidores ecclesiásticos a palavra sacerdote, que o Novo Testamento nunca lhes tinha aplicado, porque é título de grande dignidade que só pode dar-se a Cristo. Deste modo, o ministério ecclesiástico sacralizou-se, revestiu-se de grande dignidade e aplicou-se-lhe em exclusivo a palavra kleros, como se fossem os únicos participantes dessa herança divina. “O clericalismo designa assim uma situação de dignidade e de superioridade, merecedora de todos os privilégios. Boa parte dos dramas de abusos parece ter derivado daqui.”


Então, é preciso percorrer o círculo para voltar à fonte. E aí estão, por exemplo, os que o filósofo Paul Ricoeur chamou “os mestres da suspeita”:  Karl Marx, Nietzsche e Freud. Foi Nietzsche que se apercebeu do perigo de transformar o Evangelho em Disangelho, uma notícia desgraçada, contra o Evangelho, contra a vida.


2. O Papa Francisco estará de 24 a 30 de julho, no Canadá. Numa “peregrinação penitencial”, como ele próprio disse, pois o objectivo, ao percorrer 19.246 quilómetros, é manifestar “indignação e vergonha” e pedir perdão e reconciliação aos povos indígenas: Primeiras Nações, Métis (mestiços), Inuit, pelos horrores sofridos em 139 internatos, as chamadas “escolas residenciais”, ao longo de 150 anos (meados do século XIX até ao final do século XX). Por essas escolas, financiadas pelo governo canadiano, mas geridas pelas Igrejas cristãs, portanto, também por ordens religiosas católicas, passaram 150.000  crianças, que eram tiradas às famílias e  “educadas” e “instruídas” com duras disciplinas e dentro de um plano sistemático de autêntico “genocídio cultural” (não podiam falar a sua língua nem viver segundo a sua cultura e costumes), como mostra o relatório da Comissão para a Verdade e a Reconciliação, constituída pelo Governo e com a participação de indígenas, escutando mais de 7.000 testemunhos de sobreviventes, que relataram os maus tratos e abusos de vária ordem. Umas 6.000 crianças desapareceram e o seu destino poderá ter sido o de valas comuns.


O primeiro-ministro do Canadá, J. Trudeau, falou da situação como “dolorosa lembrança” de um “capítulo vergonhoso da história do nosso país”, e pediu que a Igreja Católica “assuma as susa responsabilidades”. É isso que Francisco quer fazer, correspondendo também à exigência que a citada Comissão fez em 2015: que fosse pessoalmente pedir desculpa.


Observação
. O Papa Francisco é uma bênção para a Igreja e para o mundo. Um dos seus combates mais duros é contra o clericalismo e, para isso, voltou ao Concílio Vaticano II, que é preciso aprofundar, pois muitos dos seus adversários e inimigos “só se lembram do Concílio de Trento”. Em Outubro próximo, celebra-se o sexagésimo, e não o quadragésimo aniversário da sua abertura, como, numa desatenção imperdoável, escrevi no Sábado passado. Peço imensa desculpa.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 23 de julho de 2022

A VIDA DOS LIVROS

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  De 1 a 7 de novembro de 2021

 

2021 – Ano Santo Jacobeu. - Na cultura europeia, os caminhos de Peregrinação têm uma importância significativa, originalmente em virtude da cristianização medieval, que permitiu a atualização de muitas tradições pagãs, utilizadas como fatores de diálogo entre populações diferentes, no âmbito de uma rede que tinha como centro a cidade de Roma, como sede pontifícia e símbolo da unidade e universalidade do catolicismo.

 

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UM CULTO ESPECIAL IBÉRICO

O Império Romano do Ocidente deu lugar à Respublica Christiana, marcada por diversos caminhos de Peregrinação, considerando que “todos os caminhos vão dar a Roma”. Na Península Ibérica, a partir do século VIII, a ocupação islâmica determinou o movimento de Reconquista cristã, iniciado nas Astúrias e no sul de França, com a vitória de Poitiers (732). A importância da peregrinação de Santiago de Compostela relaciona-se com este movimento. Em finais do século VIII difunde-se no noroeste peninsular a lenda de que aí estaria o corpo de Santiago Maior. Cerca de 812 um eremita de nome Pelágio teria avistado uma estrela pousada no Bosque de Libredón. Tal facto foi comunicado ao Bispo de Iria Flávia, Teodomiro, que se deslocou ao local e identificou o lugar no qual se encontraria o corpo decapitado do apóstolo nos restos de uma antiga capela de um cemitério romano. A esta referência se associou a chegada à região de uma população moçárabe, que assim passou a ter condições para a práticar da religião cristã. A designação Compostela constituiria uma derivação do latim “Campus Stellae”, a evocar a descoberta revelada a Teodomiro. Nesse local haveria uma antiga festa pagã ligada ao culto do Sol em Finisterra. O tempo viria a tornar a festividade de Santiago Apóstolo de grande importância, a partir da forte ligação às tradições dos trovadores da Provença e do Languedoc, no sul de França, confirmando a ligação de todo o norte peninsular às raízes culturais comuns e às necessárias condições de segurança, perante a influência muçulmana. Em 1075, o Bispo Diego Páez iniciou a construção da Catedral românica dedicada a Santiago, graças aos recursos financeiros gerados pelo sucesso da presença de peregrinos europeus. Deste modo, Compostela ganhou evidente peso político no novo Reino de Leão. Em 1120, o arcebispo Diego Gelmirez obteve do Papa Calisto II a transferência da Sé Metropolitana de Mérida para a igreja compostelana, em detrimento do primaciado dos Arcebispos de Braga. E o Prelado de Santiago de Compostela ganhou jurisdição eclesiática sobre a maioria das dioceses das Astúrias e de Leão, além de possuir um rico domínio feudal até ao Atlântico. Em 1102, o poderoso arcebispo Gelmirez levou de Braga, pela calada da noite, num verdadeiro assalto, as relíquias do bispo bracarense S. Frutuoso e dos mártires S. Silvestre, S. Cucufate e Santa Susana. Tal atitude, algo comum no período medieval, teve como justificação a necessidade de dar às relíquias devida adoração em Santiago de Compostela. O episódio conhecido como “pio latrocínio” foi origem de um longo conflito entre Braga e Compostela, apenas reparado em 1966 e 1993, quando as relíquias regressaram a Braga.

 

Se há uma ligação evidente na cultura galaico-portuguesa a Santiago de Compostela, há consequências políticas deste último conflito, com peso indiscutível nas reivindicações independentistas dos barões de Entre Douro e Minho, ciosos das prerrogativas de Braga e do Porto. Se as tentativas de Diego Gelmirez de criação de uma teocracia, que ameaçava também o Reino de Leão, não tiveram sucesso, a verdade é que viria a ser o futuro Reino de Portugal beneficiário da autonomia cultural e linguística do polo de Compostela, pela adoção por D. Dinis do galaico-português como língua oficial. O desenvolvimento cultural suscitado pela influência trovadoresca e pela ligação europeia de galaico-portugueses e provençais, ao longo do Caminho de Santiago, viria a reforçar a autonomia estratégica do ocidente marítimo peninsular, autêntico herdeiro da tradição jacobeia. A relação galaico-portuguesa permitiu a aproximação ibérica de que falava Miguel de Unamuno, compreendendo a diversidade histórica e considerando que há caminhos diferentes que visam um património comum, cultural e linguístico, além de se inserir num mundo complexo das culturas múltiplas geradas nesta língua comum de peregrinos e trovadores. Lembramos Martim Codax, Afonso X, o Sábio, Meendinho (da ermida de S. Simão da ria de Vigo), mas também Rosalia de Castro, Curros Enriquez, Eduardo Pondal ou o Padre Feijó – e deste modo encontramos raízes antigas que nos projetam no futuro. E a língua portuguesa conduz-nos a várias culturas que se desenvolvem e enriquecem mutuamente. No tempo em que o multilinguísmo está na ordem do dia e deve ser desenvolvido, a afirmação da língua e das literaturas provindas do galaico-português exige mais conhecimento mútuo e vontade comum. E quando Fernando Pessoa fala da pátria como língua, o que reclama é o dever de comunicação e a responsabilidade de uma “memória criadora”.

 

AS REDES EUROPEIAS DE CAMINHOS

Falar do Caminho de Peregrinação de Santiago é considerar também a tradição do galaico-português, e lembrar as origens da língua em que nos exprimimos, e recordar uma história cultural que nos leva a raízes muito antigas na Europa, desde a reconquista até à modernidade, o que nos conduz a um diálogo com os povos peninsulares, desde o império romano aos berberes e árabes até à cultura moçárabe, passando pelo cadinho que nos caracteriza. E é extraordinário ver como a língua do ocidente peninsular se tornou universal. As raízes históricas dos caminhos de peregrinação (“per agros”) superaram em muito as tradições antigas – as origens religiosas, reforçaram-se pelas práticas culturais e hoje o conceito moderno de património cultural conduz-nos à importância crescente dos roteiros além-fronteiras e às redes de cooperação cultural, educativa, científica, ambiental e turística. O caso das Peregrinações de Santiago liga-se a uma rede muito diversificada que se desenvolveu na Europa, e hoje se projeta mundialmente, o que constitui decisivo fator de uma Cultura de Paz, que tem sido defendida na UNESCO, mas também no Conselho da Europa, segundo o espírito da Carta das Nações Unidas e os objetivos do Desenvolvimento Sustentável. O Ano Santo Jacobeu ocorre sempre que o respetivo dia 25 de julho corresponder a um Domingo, o que acontece em 2021. Contudo, em virtude da Pandemia Covid-19, o Papa Francisco autorizou que as festividades se prologuem em 2022.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

Peregrinacao de Fernao Mendes Pinto.jpg

 

(XXX) PEREGRINAÇÃO

Chegamos ao capítulo XXX deste folhetim. Dileto leitor, ainda haverá um epílogo, uma espécie de “pot pourri” com algumas notas dispersas, já que há muito mais do que trinta boas razões para Portugal.

Como começámos com Garrett e a sua viagem à volta do seu quarto, importa dizer que hesitámos entre dedicar o último capítulo à língua portuguesa ou ao livro da nossa língua que maior projeção mundial tem. E preferimos a última opção, fieis ao nosso querido e saudoso amigo António Alçada Baptista, que tantas vezes me citou de cor passagens inteiras dessa obra-prima. De facto, é uma obra pioneira na literatura mundial. Mais do que um livro de viagens, trata-se de um modo inteiramente novo e original de fazer uma narrativa. Com mil aventuras e mil personagens, estamos diante de uma mudança completa no mundo da literatura.

“Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583) põe-nos diante uma verdadeira personagem romanesca, como antes não existiu, que assume diferentes acontecimentos e até personalidades, e que descreve de um modo notabilíssimo, o que era a vida de um português no Oriente – criado de fidalgo, soldado, escravo, agente de negócios, pirata dos mares da China, mercador, médico ocasional do rei do Bongo, vagabundo e embaixador -, a verdade é que isso simboliza o português do mundo. Os estudiosos sobre esse tempo são os primeiros a considerar que não é possível compreender o que João de Barros ou Diogo do Couto nos relataram sem ler Fernão Mendes Pinto. Se Alonso Quijano, de Cervantes, se rebela contra a personagem de D. Quixote, Fernão Mendes é a personagem completa, que não precisa de convencer ninguém que deixa de ser quem sempre foi. O próprio título com que a obra foi publicada dá-nos a expressão plena da riqueza e complexidade do relato.

"Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus".

Ao ler a obra, houve entre os contemporâneos quem duvidasse da verdade dos relatos, respeitantes aos vinte e um anos em que andou pela Ásia, tendo sido, na sua própria expressão, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. Mas sentimos, a cada passo, a força da verdade. A escrita começou logo uma vez regressado o autor a Portugal, em 1557, com a memória bem fresca, só sendo publicada trinta e um anos depois da sua morte (1614), por Pedro Craesbeek, com tardia autorização do Santo Ofício. Aos que duvidaram da veracidade dos relatos, o autor respondeu significativamente: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”.

É memorável, a título de exemplo, o encontro de Fernão Mendes Pinto com António de Faria, o célebre corsário, numa situação, em que quiseram saber novidades de Liampó, "porque se soava então pela terra que era lá ida uma armada de quatrocentos juncos em que iam cem mil homens por mandado de El-Rei da China a prender os nossos que lá iam de assento, a queimar-lhes as naus e as povoações, porque os não queria em sua terra, por ser informado novamente que não eram eles gente tão fiel e pacífica como antes lhes tinham dito", mas afinal era engano, pois essa armada tinha ido, afinal, socorrer um Sultão nas ilhas de Goto. É inesquecível a perseguição ao corsário mouro Coja Acém, que se dizia "derramador e bebedor do sangue português" e a quem Faria jurara vingança, por lhe ter roubado as fazendas e morto os companheiros na batalha mais violenta da “Peregrinação”. "E arremetendo com este fervor e zelo da fé ao Coja Acém como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu, com uma espada que trazia, de ambas as mãos, uma tão grande cutilada pela cabeça que, cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão...”. E lembre-se o episódio da vinda do Embaixador do Rei dos Batas. Pero de Faria fê-lo «agasalhar o mais honradamente que então foi possível». E assim «o despediu bem despachado, e satisfeito do que viera buscar, porque lhe deu ainda algumas cousas além das que lhas pedira, como foram cem panelas de pólvora, e rocas, e bombas de fogo, com que se partiu tão contente desta fortaleza, que chorando de prazer, um dia perante todos os que estavam no tabuleiro da igreja, virando-se para a porta principal dela, com as mãos levantadas, como quem falava com Deus, disse publicamente. Prometo em nome de meu Rei a ti Senhor poderoso, que com descanso e grande alegria vives assentado no tesouro das tuas riquezas que são os espíritos formados da tua vontade, que se te praz dar-nos vitória contra este tirano de Achem (…). E assim te prometo e juro com toda a firmeza de bom e leal, que meu Rei não tenha nunca outro Rei se não este grande Português, que agora é senhor de Malaca».

Fernão Mendes construiu, deste modo, no dizer de António José Saraiva, «um Oriente espantosamente humano, que tem o seu estilo próprio. Um Oriente que não é feito só de cidades, templos e esculturas, mas também do estilo falado, de etiquetas humanas, de sentimentos típicos». Hoje sabemos da verosimilhança de tudo quanto nos relatou. Pode até ter acontecido que não fora ele o real protagonista de tudo, mas percebemos que tudo ocorreu de facto. E assim a nossa cultura é inesgotavelmente peregrina!

GOM

 

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TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"PEREGRINAÇÃO", FERNÃO MENDES PINTO (XIV)

 

Estamos perante uma obra pioneira na literatura mundial e europeia. Mais do que um livro de viagens, trata-se de um modo inteiramente novo e original de fazer uma narrativa. Como se disse relativamente a Cervantes, pode afirmar-se que, noutro registo, a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583) põe-nos perante uma verdadeira personagem romanesca, que assume diferentes acontecimentos e até personalidades, mas que descreve de um modo notabilíssimo, o que era a vida de um português no Oriente – mercador, missionário, soldado, corsário, marinheiro... O próprio título com que a obra foi publicada dá-nos bem conta da riqueza e complexidade do relato. "Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus". Ao ler a obra, houve quem duvidasse da verdade dos relatos, respeitantes aos vinte e um anos em que andou pela Ásia, tendo sido, na sua própria expressão, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. A escrita começou uma vez regressado o autor a Portugal, em 1557, só sendo publicada trinta e um anos depois da sua morte (1614), por Pedro Craesbeek, com tardia autorização do Santo Ofício. Aos que duvidaram da veracidade dos relatos, o autor respondeu significativamente: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”. É memorável, por exemplo, o encontro de Fernão Mendes Pinto com António de Faria, o célebre corsário, numa situação, em que quiseram saber novidades de Liampó, "porque se soava então pela terra que era lá ida uma armada de quatrocentos juncos em que iam cem mil homens por mandado de El-Rei da China a prender os nossos que lá iam de assento, a queimar-lhes as naus e as povoações, porque os não queria em sua terra, por ser informado novamente que não eram eles gente tão fiel e pacífica como antes lhes tinham dito", mas afinal era engano, pois essa armada tinha ido, afinal, socorrer um Sultão nas ilhas de Goto. É inesquecível a perseguição ao corsário mouro Coja Acém, que se dizia "derramador e bebedor do sangue português" e a quem Faria jurara vingança, por lhe ter roubado as fazendas e morto os companheiros na batalha mais violenta da “Peregrinação”. "E arremetendo com este fervor e zelo da fé ao Coja Acém como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu, com uma espada que trazia, de ambas as mãos, uma tão grande cutilada pela cabeça que, cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão...” Hoje sabemos da verosimilhança de tudo quanto nos relatou. Pode até ter acontecido que não fora ele o real protagonista de tudo, mas percebemos que tudo ocorreu de facto. E os estudiosos desse tempo são os primeiros a considerar que não é possível compreender o que João de Barros ou Diogo do Couto nos relatam sem ler Fernão Mendes Pinto.

 

Agostinho de Morais

A VIDA DOS LIVROS

De 12 a 18 de agosto de 2019

 

“Muitas e muito estranhas que viu e ouviu” (Biblioteca Nacional de Portugal, 2016) de João José Alves Dias é o guia da exposição sobre o primeiro século de edições da “Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”.


UM SUCESSO EXCECIONAL
Falamos de um caso excecional de sucesso internacional de um livro português. Trata-se da “Peregrinação”. Pode afirmar-se que a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583) põe-nos perante uma narrativa moderna e uma verdadeira personagem romanesca, que assume diferentes acontecimentos e até personalidades, mas que descreve de um modo notabilíssimo, o que era a vida de um português no Oriente – mercador, missionário, soldado, corsário, marinheiro, diplomata... O próprio título com que a obra foi publicada dá-nos bem a evidência da riqueza e complexidade do relato. "Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus". Ao ler a obra, houve quem duvidasse da verdade dos relatos, respeitantes aos vinte e um anos em que andou pela Ásia, tendo sido, na sua própria expressão, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. A escrita começou uma vez regressado o autor a Portugal, em 1557, só sendo publicada trinta e um anos depois da sua morte (1614), por Pedro Craesbeek, com tardia autorização do Santo Ofício. Aos que duvidaram da veracidade dos relatos, o autor respondeu significativamente: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”. João Alves Dias apresentou numa mostra memorável na Biblioteca Nacional de Portugal em 2016 que deve ser recordada.


UMA GRANDE CURIOSIDADE
A “Peregrinação” conheceu logo após a publicação um assinalável êxito. Se o poema “Os Lusíadas” (1572) de Luís de Camões foi traduzido para castelhano (1580), latim (1622), inglês (1655) e italiano (1658), a obra de Fernão Mendes Pinto (1614) foi-o para castelhano (1620), francês (1625), holandês (1652), inglês (1653) e alemão (1671), em edições que conheceram diferentes impressões e edições, tendo algumas delas apresentadas pela primeira vez na mostra da Biblioteca. É fácil de verificar a grande curiosidade gerada pelo livro, mas também o extraordinário interesse suscitado pela vivacidade do enredo e pelo modo atraente como é tratado. Na primeira edição portuguesa, registe-se que o autor é identificado diversamente nas duas dedicatórias ao rei Filipe II, como “nobre e criado dos reis” na primeira impressão, e como “homem de vivo engenho e feliz memória”, na segunda. Também numa é dado como natural de Almada e na outra de Montemor-o-Velho. Na segunda edição (1678), registe-se o comentário do grande bibliógrafo Inocêncio Francisco da Silva: “edição incomparavelmente de mérito menor que a primeira, pois não só lhe tiraram a dedicatória, mas alteraram a ortografia, e o texto, cortando palavras, mudando frases e desfigurando consideravelmente a obra. Anote-se que decorre um ano entre as primeiras licenças, a impressão e a taxa final, de novembro a novembro de 1677 e 1678. A terceira edição (1711) integrará o curioso discurso sobre a conquista do reino de Pegu e eleição de capitão Salvador Ribeiro de Sousa como seu rei no ano de 1600, publicado inicialmente em castelhano em 1617. Encontramos nas diferentes edições um conjunto muito rico de curiosidades que merecem uma atenção muito especial – a começar na edição castelhana da “História Oriental de las Peregrinaciones de Fernan Mendez Pinto português…” (1620). Trata-se da tradução do cónego Francisco Herrera Maldonado, um dos grandes defensores do escritor português, tendo sido um dos exemplares expostos na Biblioteca Nacional de uma edição dedicada a Manuel Severim de Faria. A segunda edição castelhana do mesmo ano é dedicada a D. Duarte de Bragança, marquês de Flechilla e Malágon. A primeira edição em língua francesa (1628) é significativamente dedicada ao Cardeal Richelieu e traduzida por Bernard Figuier (Bernardo Figueira?), Gentil-homme Portugais e apresenta a tradução da já nossa conhecida Apologia feita pelo cónego Herrera Maldonado da obra de Fernão Mendes Pinto. Não será por acaso a dedicatória a Richelieu. O poderoso governante e prelado será, como bem sabemos, doze anos depois um defensor ativo da causa da Restauração portuguesa… A tradução holandesa de 1652 é da autoria de Jan Hendrik Glazemaker, feita em Amesterdão. Houve grandes cortes de texto nessa versão, em especial nas partes onde se aludia a Companhia de Jesus, devendo o autor ter tido como base a versão francesa. Tem sete gravuras com temas alusivos à presença europeia no oriente. A primeira edição em língua alemã também foi impressa em Amesterdão (1671), tem onze gravuras, seis das quais são cópias ou adaptações da edição holandesa, sendo qua algumas foram aguareladas. A primeira edição em língua inglesa (1653) é da autoria de Henry Cogan e dedicada a William Wentworth, 2nd Earl of Strafford, publica a Apologia do cónego Herrera Maldonado e suprime algumas partes relacionada com os jesuítas e S. Francisco Xavier. Saliente-se, porém, que em 1625 fora publicado em língua inglesa numa miscelânea de viagens um resumo da obra sob o título “Obseruations of China, Tartaria and other Easterne parts of the World, taken out of Fernam Mendez Pinto his Peregrination”.


A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Ao compararmos a riqueza das diferentes edições da “Peregrinação” nos primeiros cem anos depois da sua publicação, fica-nos a demonstração evidente da importância do livro escrito e impresso. É a memória viva que se transmite, e no caso de Fernão Mendes Pinto (e até de António Faria, que Aquilino Ribeiro considerou ser um outro lado do autor) podemos perceber como o testemunho direto completa o relato formal dos cronistas oficiais. A riqueza dos textos de Diogo do Couto, por exemplo, apenas pode ser inteiramente apreendida e compreendida se tivermos presente a extraordinária riqueza, a imaginação, o trágico e o picaresco explanados brilhantemente pelo mestre do Pragal.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 30 de outubro a 5 de novembro de 2017.

 

O filme Peregrinação de João Botelho sobre a obra imortal de Fernão Mendes Pinto é um projeto literário, um filme de aventuras e uma epopeia musical. Segundo o cineasta, tratou-se de transmitir o encantamento da Peregrinação, através de uma ideia de descoberta e de diáspora, de encontro com os outros, que podem ser animais fabulosos ou pessoas diferentes.

 

UMA TAREFA DIFÍCIL
Foi uma tarefa necessariamente difícil que não estaria ao alcance de qualquer um. A experiência de João Botelho e a sua sensibilidade cultural e histórica permitiram-lhe fazer uma obra que corresponde ao que dela se exigiria, abrindo para o grande público a oportunidade de tomar contacto com uma das obras mais importante da literatura mundial – pioneira no que respeita à narrativa. O autor não caiu, porém, na tentação de nos dar um relato exaustivo de uma obra longa, cheia de episódios relevantes e impossível de sintetizar num filme de hora e meia. Estamos, assim, perante uma verdadeira introdução à leitura e à compreensão desta obra-prima da nossa literatura, com uma encenação que recorre à experiência operática, com um coro (à maneira grega), que pontua momentos fundamentais, a cantar Fausto em Por Este Rio Acima. Recorde-se que este trabalho de Fausto, de 1982, integra a trilogia “Lusitana Diáspora” e baseia-se nos textos de Mendes Pinto, sendo considerado muito justamente um dos melhores álbuns de música popular portuguesa. Como não poderia deixar de ser, para alguém com experiência e ciente das limitações de uma tão difícil empresa, foram escolhidos alguns quadros fundamentais do livro, que são significativos, para a compreensão da presença dos portugueses no mundo.

 

PERCURSO DRAMÁTICO E VENTUROSO
A Peregrinação relata um longo percurso, ora dramático ora venturoso, de vinte e um anos pelo Índico e Ásia, sendo o autor soldado, negociante, pedinte, embaixador, cortesão, jesuíta e pirata, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia feliz, China, Tartária, Macassar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago, dos confins da Ásia, a que os escritores Chins, Siameses, Gueos, Eléquios nomeiam nas suas geografias por pestana do mundo…”. Eis a saga de um português do século XVI, que pôde chegar às nossas mãos graças a uma narrativa talentosa, que nos permite hoje ter uma ideia do que foram as dificuldades históricas dos portugueses além-mar, mas também perceber como a Peregrinação se tornou uma obra de referência a partir do momento em que foi publicada, como verdadeira matriz para quantos desejassem aprender a viajar e a descobrir o mundo. Hoje, a moderna historiografia deu verosimilhança ao livro publicado postumamente em 1614, ficando claro que na literatura mundial é um texto pioneiro, em diversos domínios, ombreando com a obra de Miguel de Cervantes no abrir de novos caminhos para toda a literatura. Longe vão, felizmente, os tempos em que havia quem achasse que a Peregrinação era um livro de fantasias. Pelo contrário, estamos perante uma narrativa bastante próxima da realidade – sem cujo conhecimento não podemos completar e entender o que consta nas obras de cronistas como João de Barros e Diogo do Couto. Como afirmou Adolfo Casais Monteiro, “a ficção como género literário, tanto se cria à base de verdade como de invenção”. O interesse romanesco e a componente pícara desta obra são evidentes, e o filme dá essa tónica com especial felicidade. Nem falta um malaio, que conhece as várias línguas, e que se assemelha a Sancho Pança… A diversidade de personagens, a própria capacidade de “desdobramento” de Fernão Mendes Pinto não é tanto sinal de imaginação fértil, mas sim de uma capacidade singular de entender a complexidade e a diversidade da presença portuguesa na Ásia – onde os soldados e os missionários estavam ombro a ombro com os mercadores, corsários e mercenários, e as intervenções da Coroa e da Igreja Católica coexistiam com as iniciativas privadas dos comerciantes, dos arrivistas e dos piratas…

 

ESCRUPULOSO RESPEITO PELO AUTOR
O cineasta esteve bem consciente de todas as dificuldades que se lhe colocavam – desde as vicissitudes históricas à extensão e complexidade do livro e dos seus relatos. Daí ter respeitado a orientação do autor quanto ao fulcro das diferentes partes da obra. A presença de António Faria é bem ilustrativa disso mesmo. Contando com o desempenho do mesmo ator (Cláudio da Silva), João Botelho e Fernão Mendes assistem aos acontecimentos que envolvem o temível corsário, irrascível e violento, apagando-se e ficando de fora ele mesmo, ou seja, o autor-narrador. Aliás, havendo um flashback na construção da narrativa do filme, percebe-se que, sendo o ator o mesmo, as personalidades que representa são diferentes. Como Aquilino Ribeiro e Donald Fergusson disseram, e está assumido por Botelho, “imaginamos que Mendes Pinto e António Faria são uma e a mesma pessoa. Mendes Pinto teve pejo de se exibir antigo capitão de corsários e pôs a máscara”. António Faria, o vencedor de Coja Acém, é provavelmente uma invenção de Fernão Mendes, até porque dificilmente encontramos essa figura na vida real, correspondendo, por certo, a uma composição, em que o real não pode deixar de ter importância, mas em que prevalece a prevenção do autor relativamente a eventuais represálias. Com efeito, não se sabe até que ponto a pendência da candidatura à tença d’el Rei não pesou aqui, protegendo-se o autor, com receio de perder a benesse. Note-se que no livro e no filme António Faria desaparece misteriosamente, sem grandes pormenores. Se no início da obra não há dúvidas sobre quem protagoniza os acontecimentos, o “eu, pobre de mim”, o mesmo ocorre depois do desaparecimento de António Faria. Fernão Mendes Pinto regressa em pleno à ribalta. Os primeiros europeus chegam ao Japão, a introdução da espingarda causa espanto e drama, há o encontro com S. Francisco Xavier, o padre Belchior considera Fernão Mendes bem-aventurado. Temos em pano de fundo a agitação do continente asiático, e João Botelho aproveita para nos apresentar belas imagens colhidas no misterioso continente – num inteligente equilíbrio na apresentação da diversidade de situações. Se há muitas imagens recolhidas em Portugal, a equipa esteve em sete cidades chinesas (como Leshan), em Macau, na Índia, no Japão, na Indonésia, na Malásia e no Vietname. Julgo que João Botelho conseguiu um dos objetivos que se propôs: “encontrar uma empatia emocional e verdadeira com as pessoas a que o filme se destina”. De facto, ao trazer para o grande público, através do cinema, uma obra máxima da literatura portuguesa, alcança o desiderato de nos pôr perante o belo e difícil projeto de compreender os portugueses ao encontro da sua história. É um filme com indiscutível valor artístico, nítida exigência quanto ao texto e ao bom uso da língua, sentido pedagógico, na continuidade de um percurso muito rigoroso do cineasta em matéria de valorização das culturas da língua portuguesa…     

 

 Guilherme d'Oliveira Martins
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