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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Tinhas razão ao dizer-me que aguardarias a continuação da minha carta acerca da entrevista do Peter Atkins, feita pelo Carlos Piolhais e divulgada pelo jornal Público a 19 deste novembro. Escrevendo-a de corrida, reagia - como, aliás, candidamente o disse - à sobranceria de um professor universitário de química, tão estouvada, que o levou a afirmações impertinentes e marginais ao seu próprio trabalho de investigação. Não lhe guardo, todavia, qualquer inimizade, antes lhe faço o pedido de, esquecendo qualquer auto suficiência, atender e escutar melhor outras vozes. Não minimizo - e muito menos contesto - o seu trabalho científico, que está, evidentemente, fora da minha competência, só lhe peço que considere a possibilidade de outras achegas, de ordem filosófica, lógica ou metafísica, e espiritual, ascética ou mística, não sejam varridas para debaixo do tapete que a condição humana pisa. 

 

   Que ele seja ateu, por conclusão ou convicção sua, e o declare, não me merece, nem tem de merecer, qualquer reparo: é uma posição pessoal e livre, que respeito, tal como sempre respeitei a profissão de ateísmo ou de agnosticismo de muitos dos meus melhores e mais fiéis amigos. De comum acordo, aliás, e com ânimo, frequentemente temos debatido as questões da origem e destino do Universo, da existência necessária ou desnecessária de um Criador  -  as quais, mesmo com ajuda das ciências ditas positivas, não deixam de ser temas filosóficos, no sentido próprio de gostar e querer saber, isto é, procurar e encontrar respostas  -  tal como também nos debruçamos sobre a experiência, ou a ausência, da fé, questão bem pessoal, eminentemente  subjetiva, que, nas nossas conversas, se aborda pelos testemunhos, mais ou menos íntimos e abertos, ou comunicativos, de cada um. Nesses momentos, por vezes assaz difíceis, mas generosamente amigos, creio que conseguimos coincidir na humanidade inata dos nossos anseios, das nossas perplexidades, das nossas interrogações e dúvidas, das nossas esperanças... e partilhar as nossas possíveis certezas, ainda que não comunguemos todos nas mesmas... [Curiosamente, tal experiência inspirou as minhas Cartas a José Saramago, que o CNC editou no seu blogue, e que, depois, vieram à conversa com alguns daqueles meus amigos, designadamente o João de Deus Bramão Ramos, meu amigo de sete décadas, recentemente falecido e com quem, apesar disso, ainda falo "às escondidas"... Diplomata de profissão e tradição, herdara de D. Vasco Bramão, seu avô materno, um certo gosto do rigor matemático e entregava-se com gosto a deambulações da física quântica. Agnóstico, procurava sempre um ponto de encontro comigo, uma plataforma de debate, a que chamava "o couto da espiritualidade". Isso também o levava a ler criticamente escritos meus, sobre os quais conscienciosamente se pronunciava, o que sempre me foi muito gratificante. Todavia, nunca lhe ouvi uma palavra sobre os meus Sonetos de amor mordido, nem qualquer outro texto mais "poético". O lirismo ficou sempre de fora dos nossos registos. Sem prejuízo da elegância do trato do João para o que eu escrevesse. 

 

   O desconforto que me provocam várias afirmações de Atkins não difere muito, nas raízes da minha consciência, do que decorre da teimosia, ou arrogante suficiência, de certos dogmáticos religiosos, que insistem em formulações que já não apelam a mentes científicas hodiernas, avessas a "verdades" impostas. Muitos dos espíritos acríticos que hoje insistem, por exemplo, no que chamam "as irrefutáveis cinco provas da existência de Deus" de São Tomás de Aquino, não se dão conta de que, para mentes treinadas na experimentação científica como prova, a questão de saber como é que do nada surgiu algo, não tem resposta satisfatória por qualquer afirmação metafísica ou raciocínio lógico. [E não te refiro os casos em que se confunde teologia com catecismo de seminário e este com dogma.] Mas também me parece, por isso mesmo, que o discurso científico anda de contingência em contingência, e que os seus autores estacionam onde não há um contingente que "explique" os outros. Aí, terão de discorrer, ou que já não sabem mais mas talvez lá cheguem, ou que talvez possam mudar de método daí em diante. Todavia, o que não poderão honestamente (cientificamente?) afirmar é que não há outras hipóteses possíveis. O exercício filosófico pode ser metafísico - e, enquanto tal, também é legítimo, ainda que não isento do risco de errar e, concomitantemente, da possibilidade de ser criticado. Mas igualmente suscetível de erro ou engano próprio é qualquer processo científico, nem preciso de te lembrar inúmeras conclusões de teorias científicas ultrapassadas, nem as suspeitas ou dúvidas que pairam ou são levantadas pelas críticas a muitas delas. Experimental ou metafísico, qualquer labor para a descoberta ou inteligência da realidade é, aliás, passível de sobre ele se exercer uma crítica epistemológica.

 

   A questão de Deus ou, neste caso, a interrogação sobre a origem do Universo, pelo simples facto de tanta gente, e por tantos e diversos métodos e achegas, continuar e tentar dar-lhe resposta é, inegavelmente, uma questão em aberto. Porque há seres humanos que a sofrem, ninguém tem o direito de impor soluções pretensamente universais com certezas ou verdades propriamente apenas suas.

 

   Já eu, que tenho devoção especial pelo Doutor Angélico, acredito que, mesmo depois de ter concluído que Deus é causa primeira do Universo, pois que todas as criaturas (ou as realidades que experimentamos) são contingentes e só o Ser Necessário - anterior ao espaço-tempo, isto é, à contingência  -  pode ter criado, ou seja, feito do nada (ex nihilo), sem recurso a qualquer extensão de si próprio (assim é transcendente) nem a algo de outro (ex aliquo),  se daria conta de que, como narra uma biografia, de Deus não sabia nada, e teria confessado que era palha tudo o que ele, frei Tomás, escrevera (ou ditara) : o Ser Que É escapa ao nosso entendimento, mesmo quando o nosso pensarsentir nos diz que Ele está connosco. Mas tampouco essa nossa ignorância poderá roubar o encontro místico que marca uma vida. A fé move-nos, vive-se e testemunha-se pelo amor e suas obras, que são o seu emblema.  Nada justifica, em Atkins ou qualquer outro cientista, afirmar que a hipótese de Deus Criador é fácil e descartável. Muito menos antes de terem conseguido, pela experimentação, como pretendem, demonstrar como algo surgiu do nada. Nem lhes peço que me digam que nada era esse, pois que necessariamente estaria antes ou fora do espaço/tempo - não obedecendo portanto a qualquer lei natural investigável... Assim não me ofende a negação da verificabilidade de Deus pela ciência no seu estádio atual, nem a negação de uma fé em Deus por essa razão (que não partilho mas respeito): mas já acho deselegante que se recuse a outros a simples hipótese do Ser de Deus. Até porque, cientificamente, não provaram o contrário. 


   No século XIII, Tomás, frade mendicante, dominicano contra vontade de seus pais, que preferiam tê-lo feito abastado abade feudal, dedicou toda a sua vida a tentar responder, com os recursos intelectuais e científicos do seu tempo, a questões presentes, então e agora, mas de imemorável surto, sobre a origem do Universo e a existência do ser humano, este sendo a própria alvorada de uma consciência que se surpreende como da sein e se interroga sobre si, a sua circunstância, e o destino de tudo. 

 

   No século XXI, um professor emérito da Universidade de Oxford acha que esse "facilitista", e muitos outros, deram respostas etéreas ou fingidas a perguntas incontornáveis, a que ele próprio não sabe responder, a não ser dizendo, como cientista que se preza : «Espera só um pouco, havemos de lá chegar.» (sic, na entrevista). 

 

   Nesse contexto, busco compreender melhor a razão da resposta de Atkins à pergunta de Fiolhais ("O que acha da posição do seu colega de Oxford, Richard Dawkins, que pretende lutar contra a religião em nome da ciência? Mesmo aceitando a sua ideia de incompatibilidade, acha que deve haver uma guerra, uma espécie de cruzada?"):

 

   Deixe-me responder cuidadosamente. Consigo perceber que, no final da vida, alguém com pouca educação e que tenha tido uma vida dura reconheça o conforto que a religião oferece, a ideia de que teremos uma vida feliz para além da morte pode ser reconfortante e útil. Mas não gosto que a religião penetre no ambiente das pessoas quando elas são novas, porque destrói o seu. "Destrói" é um termo um pouco exagerado, diminui o prazer da vida com a ideia de que, se se portarem bem nesta vida, vão encontrar uma vida feliz depois.

 

   Em primeiro lugar, reparo nesse sentimento de superioridade (será desdém?), manifesto em expressões como "alguém com pouca educação", ou no tom professoral (não digo científico, porque a frase começa com o subjetivo Mas não gosto)... não gosto que a religião penetre no ambiente das pessoas quando são novas. A exemplo, ou por provocação, de qualquer ignorante ou fanático, o professor Peter Atkins diz saber muito bem o que é bom e é mau para os outros, sejam velhos pouco educados ou jovens por educar. Mas já parece ser mais razoável, como qualquer cristão que se inspire na alegria pascal do Evangelho, quando aponta o malefício do medo como motor de vida e afirma: Devemos aproveitar a vida... Os antigos diziam carpe diem, isto é, "aproveita o dia".

 

   Tal máxima latina - que, literalmente, traduziria por "agarra o dia!", como quem diz não deixes fugir a oportunidade - surge nas Odes de Horácio: carpe diem quam mínimum credula postero, isto é, agarra este dia, não te fies no amanhã... Ou, como mais claramente a foram interpretando sucessivas gerações, goza bem o que hoje te é oferecido, não esperes pelo porvir. Até parece que serviu de exortação a meninas virgens, para que logo trocassem a sua flor de laranjeira pelas delícias do amor erótico. Na sua fábula Le Loup et le Renard, La Fontaine, avisadamente, recorda-nos: Et chacun croit fort aisément / Ce qu´il craint et ce qu´il désire. E é bem verdade que demasiado facilmente usamos a nossa liberdade, o nosso possível arbítrio, para acreditarmos no nosso receio ou no nosso desejo. Assim tantas vezes nos confundimos e perdemos o sentido das coisas. Abreviando caminho e discurso, procuro dizer que o entendimento evangélico da vida cristã não é uma obsessão com a recusa de uma felicidade pecadora, para, à custa de tantos sacrifícios, ou do cumprimento rigoroso de um código de conduta, se conquistar a Boaventura eterna. A velha história do cristão que virou budista para não ter de continuar a submeter-se ao sofrimento que o conduziria ao Céu, inspira-se numa versão deformada, sadomasoquista, do desafio cristão. Este, na verdade, propõe-nos misericórdia em vez de sacrifício, alegria em vez de sofrimento (deixem os mortos enterrar os mortos e sigam-me!), conversão em vez de castigo. E a conversão é o caminho de um olhar novo, cuja fé e cuja esperança são apenas razões e alicerces de amor. O cristianismo não é um processo judicial, nem sequer o temor dele. É uma vocação da alegria de Deus. Esta não é demonstrável pelas "leis naturais" (seja isso o que for), é sempre misteriosa, mesmo quando se revela no sorriso solar que ilumina os olhos de pessoas que todos os dias entregam as suas vidas ao serviço de pobres, doentes e moribundos. Que lei natural sabe explicar o Evangelii Gaudium de Teresa de Calcutá e das suas irmãzinhas?

 

Camilo Maria   

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Dizem os jornais que um professor de química na Universidade de Oxford, Peter Atkins, de 78 anos, participou numa conferência-debate no Oceanário de Lisboa sobre "Ver o Universo com os olhos da química". E o diário Público (19/11/2018), referindo-se ao último livro de divulgação científica de Peter Atkins, Como Surgiu o Universo, diz-nos que o mesmo aborda a questão de saber porque existe alguma coisa em vez do nada. Não respondendo inteiramente à questão, afirma que a criação ou Big Bang não foi afinal nada de extraordinário, que foi até uma coisa muito natural. Recusa categoricamente a ideia de Deus: «O funcionamento do mundo foi por alguns atribuído a um Criador espantosamente metediço, mas incorpóreo, a guiar ativamente cada eletrão, quark e fotão até aos respetivos destinos. As minhas entranhas revolvem-se perante esta visão extravagante do funcionamento do mundo e a minha cabeça segue o mesmo caminho das entranhas

 

   Leio tais transcrições do meritíssimo oxfordiano com a certeza de que, para já, aprendi qualquer coisa: nós, os humanos, não pensamos só com a cabeça, ou com a cabeça e o coração. Nem tampouco - como já ouvi dizer - só com os pés: também há quem pense com intestinos turbulentos. E quem candidamente o reconheça e confesse, para que fiquemos bem cientes de que a expressão do seu pensamento - inclusive sobre questões tão antigas, revistas e revisitadas em miríades de pensarsentires humanos, como a pungente interrogação sobre Deus - não é fruto de qualquer preconceito negacionista ou apologético, mas apenas resulta de um longo e estudioso processo gastrenterólogo. Mas nem todos conseguimos «Ver o Universo com os olhos da química» (ou só com eles, por muitos que a química tenha), nem tampouco logramos pensar apenas com os nossos intestinais neurónios (apesar de sabermos que os temos).

 

   O entusiasmante professor ousadamente prossegue, na entrevista ao jornal Público, com a explanação das suas inauditas preocupações e ideias: Creio que existem várias questões sobre a origem do Universo. Uma delas é: como começou? O que iniciou o Universo?

 

   Pasmamos então com a novidade profunda da questão levantada e, para tentar acompanhar o discorrer tremendo do distinto mestre, perguntamos também: «Não foi Deus?» E assim ganhamos a pérola de uma resposta que não poderia ser mais científica, nem quimicamente mais pura, nem mais objetiva, nem mais rigorosa: Gostaria de pensar que não foi. [Deixa-me dizer-te, Princesa de mim - e não mo leves a mal -, que a esmagadora objetividade científica de tal afirmação me lembra aquele clérigo cultural, muito na moda, escrevendo umas pieguices pretensamente poéticas, que sempre me fazem supor que ele também «Gostaria de pensar que o céu nunca é azul nem cinzento, mas é sempre cor de rosa»...] Mas continuemos a acompanhar os gostos científicos de Peter Atkins:

 

   Gostaria de pensar que a ciência, um dia, chegará ao ponto de poder dizer: "Sabemos como tudo começou." E será muito empolgante. Mas creio que há certos aspetos sobre o início do Universo que a ciência já está em posição de perceber e explicar. Acho que as leis naturais são um desses aspetos. O meu objetivo era ver se, ao focar-me num dos aspetos da origem do Universo, se podia atingir um ponto de entendimento que mostrasse que o início foi, na verdade, muito simples. Acho que a ciência simplifica as questões - não simplifica demasiado, apenas simplifica, mas não de uma forma perigosa.

 

   Assim nos livramos do mal, já que a ciência nos libertou do perigo das explicações simplistas, posto que, como repete o nosso eminente professor, ao focar-me nas leis naturais, achei que conseguia simplificar um dos aspetos da criação. Vejo-me, Princesa, esmagado pela abundância científica, o rigor lógico, a química irrefutabilidade desta poderosa argumentação. Pelo que só me resta, como diria o francês, passar-me de comentários... Será melhor e mais esclarecedor ir continuando a reproduzir aqui alguns passos e pontos de apoio das convicções científicas do nosso professor:

 

   O que a ciência tem feito é recuar de forma experimental e teórica até às primeiras frações de segundo após o nascimento do Universo. Mas continuamos sem poder esclarecer nada sobre o que se passou imediatamente antes do início... Algumas pessoas fazem batota, ao dizer que houve uma flutuação quântica, e que o Universo explodiu espontaneamente. Mas isso já pressupõe a existência de algo, para poder haver uma flutuação quântica. Para mim é batota... Creio que a verdadeira questão que a ciência deve abordar é se de absolutamente nada - sem espaço, sem tempo - de absolutamente nada... O que temos realmente de dizer é: a partir de absolutamente nada, existe alguma forma de algo poder emergir?

 

   Mas, pergunto eu, pobre leigo que apenas sabe e pode interrogar, não haverá nestas declarações uma confusão de questões a meu ver bem distintas? Na verdade, uma coisa é seguir para montante as leis da natureza como quem sobe um rio até à nascente - neste caso para tentar entender os começos do Universo no tempo e no espaço - outra coisa é achar uma resposta à interrogação de Leibniz: O que é que faz que o mundo exista aqui e agora, o que é que o prende ao ser, e por que é que há algo em vez de nada?

 

   Quer-me parecer que tal confusão, no espírito de Atkins, resulta, por um lado, da sua oposição preconceituosa, visceral ("as minhas entranhas revolvem-se... e a minha cabeça segue o mesmo caminho das entranhas") à ideia de Deus ou, mais simplesmente, à de transcendência, e, por outro lado, de um alheamento, quiçá voluntarista, ou talvez apenas carente de estudo e informação adequada, do que são a filosofia e a teologia. Para alguém com mediana cultura, a afirmação de que A filosofia e a teologia são ambas formas corruptas de entender o mundo não tem pés nem cabeça. E a ignorância do que é qualquer delas, como exercício intelectual, manifesta-se noutras declarações do autor de divulgação científica, que chegam a ser confrangedoras. Comentá-las-ei, entre [ ], a par e passo. Repara nestas, Princesa de mim:

 

   Deixe-me considerar teologia e filosofia separadamente. Acho que a teologia se limita a fingir uma explicação ao decretar que existe um deus que criou tudo, e algumas pessoas ficam satisfeitas com essa explicação. Mas é totalmente vazia porque, em primeiro lugar, não existe qualquer prova da existência de um deus; e, em segundo lugar, como pode um deus criar coisas, como pode um deus criar o Universo. Essa perspetiva é demasiado fácil. Os teólogos apresentam respostas fáceis, enquanto os cientistas precisam de muito trabalho para compreender e explicar.

 

   [A teologia não pretende provar a existência de Deus, esta é, para qualquer teólogo, um dado da Revelação. Etimologicamente, teologia significa discurso ou tratado de (ou acerca de) Deus. É inteligência da fé (intellectus fidei). Por outras palavras, não há teologia sem revelação divina e fé nela. Creio que já Santo Anselmo falava em fides quaerens intellectum, que poderíamos traduzir quer por "a fé interrogando a inteligência", quer por "a fé em busca de inteligibilidade".

 

   A própria palavra teologia é, não só de etimologia grega, mas surge pela primeira vez  -  tanto quanto me recordo, já me falha por vezes a memória - na República de Platão, posta na boca de Sócrates, significando o tratado dos deuses pelos poetas... Terá sido Aristóteles a tirá-la do domínio da mitologia para a "racionalizar" (se assim me posso exprimir) e a pôr a caminho dos tratamentos que, posteriormente, o cristianismo lhe foi dando, ficando, todavia, sempre bem clara a sua função de esforço de inteligibilidade crescente da fé. Nas circunstâncias de tempos idos, foi incidentalmente "misturada" com o exercício filosófico, até pelo facto de este ser frequentemente desenvolvido por teólogos, ou vice versa. As célebres "provas" da existência de Deus, construídas por São Tomás de Aquino, devem surgir-nos nessa perspetiva, sem, contudo, nos fazerem esquecer que são um exercício racional destinado a sustentar a fé. Um cristão, um judeu, um muçulmano não acredita em Deus por lhe ter sido provada a sua existência, mas, tal como se lê nos Atos dos Apóstolos (17, 28), porque

 

   Em Deus encontra a vida, o movimento e o ser. Tal encontro não resulta de uma demonstração experimental ou racional, mas de uma descoberta ou revelação interior. A própria formulação monoteísta do Ser Deus escapa a qualquer esclarecimento: EU SOU AQUELE QUE É... E a confrontação com ele, mesmo podendo ser manifestada ou proclamada objectivamente, é sempre inalienável, pessoal e subjetiva. Por isso falamos em dar testemunho da fé, nunca em demonstrá-la.

 

   Repara, Princesa de mim, no que físicos, cientistas e filósofos hodiernos não hesitam em afirmar (cito Thierry Magnin, cientista nessa área e teólogo): A origem de "o que é", como tão bem mostra a física quântica, escapa precisamente ao científico. Do mesmo modo, o filósofo observará que o Universo que descreve poderia não existir, porque, em larga medida, o aleatório preside ao seu começo e à sua evolução. Ora o que assim é contingente não pode ter em si mesmo a sua causa ou razão de ser. ]

 

   Pensossinto que não devo deixar de reconhecer como, a dados passos desta minha carta, fui algo irónico, mesmo cáustico, com Peter Atkins em suas afirmações. Temperamentalmente, reajo assim de quando em vez, quiçá levado por uma certa irritação com que me aflige a sobranceria de certas pessoas cuja fúria militante afinal obnubila a clareza necessária ao diálogo. Para te deixar entender o que acabo de dizer, Princesa, não me vou embrulhar em explicações e desculpas, prefiro entregar-te dois trechos de Stephen Hawking, que eu apelido de "astrónomo do cosmos e da metafísica", ateu declarado, falecido em março deste ano:

 

 1. Numerosas pessoas, que não conhecem a ciência, recorrem às tranquilizadoras explicações religiosas... O meu trabalho não prova nem desmente a existência de Deus. Consiste, tão somente, em procurar uma maneira racional de compreender o Universo. [Este, para Hawking, é regido por leis acessíveis pela ciência, enquanto que as antigas narrativas da criação já não são nem pertinentes, nem credíveis. ]

2. Vivi coisas extraordinárias neste planeta, e simultaneamente viajei pelo Universo em pensamento, por meio do meu cérebro e das leis da física. Atingi os confins da galáxia, mergulhado num buraco negro e regressei às origens do tempo. Na Terra, tive altos e baixos, conheci o êxito e o sofrimento, em grande forma e deficiente. O meu maior privilégio foi contribuir para a nossa compreensão do Universo. Mas tal Universo seria muito vazio sem as pessoas que amo e me amam. Sem elas, todas aquelas maravilhas se esvairiam.

 

   Sobre este discurso nada tenho a dizer, além do profundo respeito e da comunhão humana que me inspira. Estamos muito próximos um do outro, ele ateu, eu crente. Ao viver a fé, deixo-a interrogar-me e também a interrogo. Como todos nós, seres humanos, nunca vi Deus. Mas acredito que ainda o hei de ver, e procuro fazer da minha vida um caminho de procura da visão final. Tal caminho só se percorre neste Universo, que seria muito vazio sem as pessoas que amo e me amam. Sem elas, todas as maravilhas se esvairiam. Para já, o rosto de Deus antevê-se no amor das pessoas. Este é a casa de Deus na Terra, onde todos temos altos e baixos, êxito e sofrimento.

 

   Mas, já que foi a entrevista a Peter Atkins - e a projeção que lhe foi dada em Portugal - o assunto desta carta, permite-me, Princesa de mim, que aqui transcreva mais umas das insignificâncias que ele proferiu:

 

   Mas a filosofia é outra coisa. Está algures entre a teologia e a ciência. [Isto até parece a tese comtiana dos três estádios, mas sem perspetiva histórica...] A diferença entre filósofos e cientistas é que os filósofos são pessimistas, ao passo que os cientistas são otimistas. Os filósofos dizem: "Nunca compreenderás, está para lá da compreensão humana" Enquanto que os cientistas dizem: "Espera um pouco, havemos de lá chegar."...   ... A ciência e a religião são totalmente incompatíveis. Basicamente, a religião diz: "O teu cérebro é demasiado insignificante para compreender, nunca compreenderás. Há apenas a possibilidade de poderes perceber depois de morreres." Eu prefiro o conhecimento deste lado do túmulo.

 

   O entrevistador sendo o doutor Carlos Fiolhais, professor de Física na Universidade de Coimbra - e que, em meu entender, tem capacidade para trazer ao Público algo muito mais consistente do que as banalidades de Atkins - arrisca, ainda assim, na sequência dessa declaração sobre ciência e religião, uma pergunta: «Mas há exemplos em contrário. Por exemplo, no século passado, o padre católico Georges Lemaître investigou cosmologia, tendo sido ele a propor a ideia de Big Bang. Acreditava em Deus, ao mesmo tempo que produzia trabalho científico de qualidade.» Resposta: Sem dúvida. Isso significa que estava a produzir trabalho científico de qualidade, mas não significa que a teologia dele estivesse correta.

 

   Ora aí está! Eis a chave de oiro para encerrar esta carta: além de Química, e de leis naturais (terá ele consultado um filósofo epistemólogo para saber a que chamamos leis naturais?), o professor Atkins sabe dizer-nos, sem hesitação, quando é que qualquer teologia está correta ou errada. E ao defunto auto da fé substitui ele o auto da química. Brilhante!  

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira