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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

‘Pregnant Landscape’ de Phoebe Unwin.

 

‘Sentada no jardim vejo o crepúsculo.’, Fiama Hasse Pais Brandão em ‘Cantos do Canto’

 

 A pintura de Phoebe Unwin (aqui) pretende materializar uma ideia que é fecunda, que gera vida e que sobretudo tem a capacidade de ser sentida com o corpo todo.

 

No texto, que acompanhou a exposição ‘Pregnant Landscape’, na Galeria Amanda Wilkinson (Londres) no passado mês de maio, lê-se que Phoebe Unwin não trabalha através de imagens pré-existentes ou através de fotografias – a cultura contemporânea das imagens, que excessivamente circulam diariamente diante dos nossos olhos não tem, propositadamente, nenhuma influência sobre o trabalho que realiza. Unwin faz pinturas – no sentido mais completo de ser uma pintura (um objeto que transporta e expõe uma subjetividade muito pessoal e única).

 

‘Tudo aquilo que está a ser olhado arruma-se no verso com a ordem que coloca os seres em relação recíproca provável mas de evidência falsa.’, Fiama Hasse Pais Brandão em ‘Cantos do Canto’

 

As pinturas criadas em ‘Pregnant Landscape’, são superfície, são matéria e são sugestíveis, mas funcionam sempre como o reverso da abstração (a abstração normalmente é entendida como sendo uma fuga à realidade ou como um purificar do concreto). Ora, nas pinturas de Unwin é o abstrato que desencadeia o figurativo. A pintura é assim tida como uma coisa em si que tem a capacidade de surpreender, de seduzir e de se relacionar individualmente com aquele que frui (e que a partir daí consegue criar um novo conteúdo e um significado único). Unwin sente, por isso, uma grande afinidade com o campo de visão imaginado, com o ponto de vista subjetivo, evitando sempre metáforas, referências diretas ou narrativas. A artista insiste sempre na ativa participação do observador para gerar sentido e significado. Cada pintura é uma transformação de algo abstrato em algo concreto. Cada pintura consegue aglutinar/fundir irrepetivelmente cor, matéria, forma, a marca e o tema.

 

Para Unwin só a pintura consegue a ligação mais completa entre o mundo mais profundo e particular com aquilo que é imediatamente comunicável. É um objeto físico que envolve, em simultâneo, memória, imaginação, escala e corpo.

 

‘Só o meu verde absoluto da paisagem não se move em nenhuma direcção, é o labirinto imóvel alcançado ao meditar na Forma sem o olhar.’, Fiama Hasse Pais Brandão em ‘Cantos do Canto’

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

PhoebeUnwin.JPG

Phoebe Unwin, do impressivo singular ao universal intemporal.
 

‘Estávamos sempre próximos da nossa sombra

e assim nos juntávamos ao poente,

delineados em linhas suaves oblíquas.’

(Fiama Hasse Pais Brandão, ‘Cenas Vivas’, 2000)
 

Phoebe Unwin (Cambridge, 1979) explora diversas camadas de tempo e espaço através do simples acto de pintar. A ideia e a comunicação clara dessa ideia são levadas ao limite, na pintura que executa. É muito importante para o seu trabalho, comunicar através da matéria, da justaposição de camadas e da intensidade da pincelada. Phoebe Unwin trabalha um tempo particular (o tempo das suas experiências e memórias) de maneira a se tornar intemporal e universal – compreensível e perceptível a todos. São acções, sensações e situações experienciadas pelo próprio sujeito e que estendidas/projectadas para a tela, com uma intenção material muito específica, são transformadas em acções, sensações e situações que todos experienciamos de alguma maneira.

‘O momento

é um monumento.’

(Adília Lopes, ‘Poemas Novos’, 2004)
 

O particular e o único tornam-se assim universais. Unwin declara que deseja descrever algo acerca de uma sensação ou situação específica e que poderá ser aplicada a muitos lugares – estar na praia e tirar os óculos escuros, ir ao parque e fazer um picnic, reconhecer na mesa posta uma refeição, uma sala de cinema às escuras, a luz que entra pelas persianas, as cortinas que abrem e que fecham. A ideia concretizada torna-se intemporal. Não se trata só de um momento ou espaço particular, mas da possibilidade desse momento ser comunicado e passar a pertencer a quem vê.

A pintura de Unwin é igualmente física e material – as superfícies das suas pinturas têm muitas camadas intencionais e experimentais. A sua pintura abre-se a verdades simples, que se concretizam através de uma densidade, que advém de uma aturada exploração física e material (da cor, da tinta, do pincel, do spray e do papel.) As camadas vão revelando, a pouco e pouco, uma verdade maior. A superfície permite ao observador avistar-se e reconhecer-se.

No seu processo de trabalho, confirmam-se dois momentos distintos: um mais experimental e imediato que se materializa num diário gráfico e outro mais racional e demorado que se actualiza no acto de pintar. O diário informa e trás as ideias mais relevantes e já filtradas para a pintura. O registo do diário é intencionalmente rápido, livre, depurado e essencial. Unwin revela que, o aspecto mais importante deste processo, é o de que este meio lhe permite ser muito delicada com as suas ideias. Estas páginas são quase um conjunto de notas visuais e muitas páginas apresentam o âmago e a ossatura de algumas das suas pinturas. E Unwin revela ainda que o começo deste processo pode ser também muito físico – através da eleição de uma cor ou superfície (papéis padronizados) ou ainda de diferentes tipos de tinta (acrílico, óleo, carvão, ou uma tinta metalizada). E por isso o seu diário é o meio que mais aproxima a matéria às ideias.

Todos os trabalhos de Unwin revelam sempre um elemento de figuração, que funciona como uma restrição conceptual – o que provoca sempre uma certa tensão, porque deste modo existe uma relação directa entre o elemento que está ali presente e que é real com os materiais, com as cores e com a escala da pintura. E é esta tensão/relação que direcciona o seu trabalho e que determina até onde a pintura pode ir.

As suas pinturas evocam todos os sentidos – as marcas são institivas mas intencionais. É matéria sensorial experimentada. Unwin afirma que trabalha o tempo em camadas e que tenta revelar e explicar todos os processos que utiliza na superfície da tela. O opaco, o transparente, o brilhante, o mate, a pincelada rápida, a pincelada longa convivem todos no mesmo plano – não podendo ser descrição aturada, nem a própria realidade, tudo existe para ser sentido. Unwin prefere a lentidão, a delicadeza, o assombro dos pequenos gestos e elege acontecimentos quotidianos reconhecíveis. Mas há sempre a procura pelo novo e por isso essa busca transporta a sua pintura para a frente do seu tempo. Os temas das suas pinturas aceitam a grandeza da menoridade, do gesto mais simples e do movimento mais arcaico – como se verifica na pintura ‘Girl’ (2005) que representa uma rapariga de perfil, cujos ombros estão em tensão e o rabo-de-cavalo é completamente sólido.

Unwin aborda um tempo que passou e que foi experimentado mas esse tempo continuará a passar ao ser reconhecido pelo fruidor. É uma pintura aliada à memória mas que preserva e reinventa o essencial – e talvez por isso Unwin se recusa a recorrer ao uso da fotografia – para a fazer perdurar no fruidor que se revê nessa memória, também no fundo sua. Existem assim avanços universais vindos de recuos (memórias, experiências e momentos) muito singulares.

É uma pintura que abraça a questão do novo através de uma suave complexidade e densidade, no sentido em que convida a um olhar lento para que nos possamos sentir encadeados na praia a olhar para o rapaz que inclinado deixa cair os óculos escuros (‘Falling Glasses’, 2007) ou para que nos possamos sentir fazer parte de um piquenique e assim rodearmo-nos pela relva e pelas árvores que se desenham vazias no fundo cinzento (‘Grey Picnic’, 2008).

São, enfim, pinturas que avivam memórias acerca de gestos e situações simples, vindas da vida e de algum modo experienciadas. Tentam ser fiéis a esse momento específico, revelando o que for necessário para o poder descrever. A intenção é muito definida e levada ao limite – porque o que é importante é a comunicação clara de uma ideia concreta. O sujeito que cria, ao eleger e experimentar, gera várias camadas de matéria. E por isso, Unwin dá a ver o que vê de modo a ser entendido por todos e assim pertencer a todos.

 

Ana Ruepp