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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

'The Bath' de Pierre Bonnard

 

'White Reclining Nude' (1956) de William Scott é propositadamente baseada na pintura 'The Bath' (1925) de Pierre Bonnard.

 

Para William Scott, as subtis divisões horizontais de cor e de matéria afirmam uma forte afinidade desta pintura de Bonnard com as pinturas de Rothko.

 

A figura submersa, de Bonnard desfaz-se na água e no plano. Esticado e parado, o corpo, numa só linha, abrange toda da tela. Os pés não aparecem, a cabeça não está completa. Tal como numa paisagem, a horizontalidade é dominante. Figura e fundo, fundem-se. Devolve-se o corpo ao seu tempo. 

 

Bonnard escolheu ser o pintor do sentimento, isto é, o pintor que abraça a ideia de que a cor é um meio de expressão independente, e que além de conseguir representar o tema, comunica o pensamento e a intenção.

 

'What color do you see that tree? Is it green? Then use green, the finest green on your palette. And that shadow? It's blue, if anything? Don't be afraid to paint it as blue as you possibly can.', Maurice Denis

 

A verdadeira descoberta de Bonnard em relação à cor, atualiza-se no entendimento de que a resolução do conflito entre sombra e cor plana dá-se pela luz. A pintura é, assim para Bonnard o registo da cor, através das sensações e envolvidas pela luz. A superfície da tela transforma-se, por isso, numa membrana preenchida de luz, tal como um painel de mosaicos bizantino. Bonnard acredita no poder da cor para gerar luz. Luz, para Bonnard é vida, esperança, memória, calor e tudo o que pode ser sentido no mundo concreto.

 

'Our God is light. A day will come when you will understand what that means.', Pierre Bonnard

 

A pequena casa de banho coberta de azulejos, em Le Bousquet, passou a ser, desde 1927, o espaço por excelência onde metamorfose do corpo se dá pela luz. 

 

E a pintura 'The Bath' mostra que Bonnard se preocupa continuamente com a fluidez, a transitoriedade, o silêncio, a sombra, o reflexo e com o ultrapassar do tempo, do espaço e do corpo através do poder transformador da luz. 

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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O mundo plano e flutuante de Bonnard

 

'Painting has to get back to its original goal, examining the inner lives of human beings.', Pierre Bonnard

 

Pierre Bonnard (1867-1947), desde muito cedo, sentiu o impacto de duas grandes influências: a pintura de Gauguin e a gravura japonesa, que prosperou entre o séc. XVII e XIX. 

 

No livro 'Bonnard' de Timothy Hyman, lê-se que, ambas as influências apontam para uma necessidade de planicidade e de síntese. 

 

Paul Gauguin repudiava o puro naturalismo positivista que dominava a arte francesa, no final do séc. XIX. Acreditava que a pintura deveria regressar ao seu propósito original e por isso, ser o reflexo do mundo interior do homem. Desejava unir o mundo interior ao exterior, através do uso de cores planas e fortes, formas recortadas e bem definidas e linhas enfáticas. Gauguin acentuava uma visão profunda e sugestiva, que se presta mais à evocação do que à descrição.

 

De todos os Nabis, Bonnard era o mais profano e mundano, o menos receptivo à aura do revivalismo arcaico. Não esqueçamos, que os Nabis (Bonnard, Denis, Ibels, Lacombe, Maillol, Ranson, Rippl-Ronnaï, Roussel, Sérusier, Vallotton, Verkade, Vuillard) eram um grupo unido em torno das possibilidades da síntese (primária, original, verdadeira e evocativa) iniciada por Gauguin.

 

Ora, a negação do espaço de Gauguin foi considerada, pela maioria dos nabis, como uma maneira de transcender o mundo quotidiano. Para Maurice Denis, importante era a independência da cor e da linha, em relação à sua função representativa - isto porque uma pintura é essencialmente uma superfície plana coberta de cores, dispostas de acordo uma determinada ordem. Já para Bonnard, a planicidade, existia como um meio para compreender o mundo com ainda mais firmeza. 

 

Foi em 1890, que Bonnard descobriu a gravura japonesa: 'I covered the walls of my room... To me Gauguin and Sérusier alluded to the past. But what I had in front of me was something tremendously alive.' 

 

O tema dos gravadores japoneses é centrado no mundo flutuante, da experiência efémera e fugitiva, da burguesia no bairro do prazer em Edo (hoje Tóquio). Tal como as gravuras japonesas, a pintura de Bonnard anseia por fixar momentos fugazes através de formas bem definidas e essenciais. Bonnard também trabalhou com a gravura em madeira, o que lhe permitiu desenvolver uma nova sensibilidade no que diz respeito ao uso da cor: 'I realized that colour could express everything... That it was possible to translate light and shapes and character by colour alone.'

 

A pintura de Bonnard 'La Partie de Croquet' (1892) revela a interiorização da 'Visão depois do Sermão' (Gauguin, 1888), secularizada e padronizada pela gravura japonesa e deseja sobretudo, descobrir uma forma essencial, sintética, descarnada e incompleta capaz de alongar infinitamente um momento efémero do quotidiano.

 

'Our generation always sought to link art with life.', Bonnard

 

 

Ana Ruepp