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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

38. IGUALDADE E PODER

 

Temos, por um lado, o princípio da igualdade, um direito individual e essencial do ser humano, que diz respeito a cada pessoa enquanto ente físico e espiritual. 

 

Em matéria de dignidade e em direitos, não há seres humanos diferentes por natureza e em espécie. 

 

Todos os seres humanos são iguais, razão pela qual têm o dever, intrínseco à sua própria condição, de respeitar e tratar os outros por igual, independentemente das suas diferenças físicas, psíquicas, religiosas, sociais ou outras que os separem. 

 

Temos, por outro lado, o poder.   

 

O poder é afrodisíaco, fazendo vir à superfície, se ilimitado ou não escrutinado, o que temos de pior.

 

Porque não há poder sem autoridade, sendo o exercício coativo de uma tutela sobre alguém.   

 

Todavia, na prática e no nosso dia a dia, temos de aceitar que existam, por razões organizacionais, de bem-estar e de segurança, seres humanos que assumam e exerçam funções de autoridade e de orientação de outros.   

 

Justifica-se, assim, que o princípio da igualdade se tem de afirmar como sendo um limite inequívoco ao exercício abusivo do poder ou com caraterísticas discriminatórias. Daqui decorre que é com este sentido de limitação do exercício do poder que também deve ser entendido o princípio da igualdade.

 

14.02.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A ARTE NEM PODE, NEM ANTÍPODE

 

A fúria com que, em “Red River”, Montgomery Clift e John Wayne esmurram as ventas um do outro não é de esquerda nem de direita. Os murros deles não são políticos. Nem é político o rabo de Marilyn Monroe, que em curtas cenas de 20 segundos, desreprimiu o recalcado baixo-ventre do cinema, a cores em “Gentlemen Prefer Blondes” e a preto e branco em “Some Like It Hot”, por obra e graça do bom olho de Hawks e de Wilder.

 

Filmes, poemas, romances, pintura, mesmo a do comunista Picasso, não são políticos. Não me venham dizer que a poesia é anti-poder ou pró-poder. O poeta pode ser fascista ou comunista. Maiakovski ou o dúbio Aragon eram comunistas, Ezra Pound era fascista e T. S. Eliot talvez andasse lá perto; o pluralíssimo Pessoa, se alguma coisa fosse, era de direita, e o queixinhas Ginsberg uivava parvamente à realidade. Mas se ainda os lemos como poetas é porque a poesia deles continua a transfigurar a modesta realidade política que na vida os entretinha.

 

Camões cantou o Gama em “Os Lusíadas”, mas um só olho de Camões criou em dez cantos um herói que o real e cruel Vasco da Gama, ocupado com a canela e a pimenta, não reconheceria. Como não reconheceria o Gama que Robert De Niro teria sido se algum desmiolado estúdio americano tivesse decidido pagar a Samuel Fuller o filme com que o cineasta americano queria incensar o navegador português.

 

Poemas, filmes e romances seriam muito pequeninos se reduzidos à deslavada ideia de serem anti-poder. Nem há mal intrínseco em haver poder, afinal uma humaníssima e necessária realidade. E os males que escorram do exercício do poder são para se lavar na cama real da política. Mas as traições e as conspirações de Shakespeare, as bruxas de Macbeth e o fantasma de Hamlet, o arrebatado discurso de Marlon Brando com o cadáver de Júlio César aos seus pés, já são da matéria dos sonhos.

 

A beleza de poemas e filmes, de canções e pintura está na sua esplendorosa inutilidade. A grandeza das artes está na individualíssima convulsão que precisam de nos provocar se quiserem ser arte: uma convulsão íntima, vergonhosamente espiritual e libidinosa. Os nossos melhores cantores de intervenção, no PREC, quiseram servir uma forma dita utópica de poder. “E se eles ganharem?” perguntou um amigo meu a um desses cantautores, que era genuíno e grande. “Bom – disse ele –, temos de ser os primeiros a fugir.”

 

A Winchester de John Wayne, a voz e a guitarra da canção não são armas de serventia. Seja do poder, seja do antipoder.

 

Manuel S. Fonseca