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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

…POEMA


 e os humanos não cegaram na expectativa dos massacres.

Os humanos precisam de os testemunhar para que a visão da carniça seja sinal de que por nada mais terão de se incomodar, por ora.

Trancados no sem nada, os humanos, espreitarão os vídeos cujos registos abarcarão os gritos excruciantes do sangue expulso da vida.

A mortandade é geral: crianças, bichos por superioridade, plantas e água, de nada se faz apartação.

Destes cemitérios não há morte por excesso.

A morte aqui não indigesta.

 Os humanos, só aguardam a notícia de que foram quase todos, definitivamente mortos, e os restantes humilhados - pedernalmente - para que prefiram sempre a pedra à folha.

 Para os humanos estas mortes nunca vêm para um só morto, mas antes para uma classe de maioria, a mesma que é sempre recrutada de onde ninguém a viu voltar.

 Os humanos não dizem, mas aguardam que posteriormente aos seus extremos, a sua ossatura fique mais forte que o esqueleto comum das suas almas.

Assiste-lhes a razão.

Depois, os humanos, de tão completos e complexos, realizam-se nos cemitérios gerais da estatística do tanto por tanto, humanizando-se em mortos de cifra e assim obedecendo ao dono.

 Mas um dia alguém não dorme como se não fosse com ele.

 Um dia, quero crer, a consistência rala dos humanos, irá expor um olhar inédito que não é algo vestido de branco nem de um deus.

É amor.

Um dia que não absolverá nem quem o pensa, nascerá num outro lugar

e será

então

um dia

 

Teresa Bracinha Vieira

UCRÂNIAS

  

 

Nunca perde o dia
Quem passou pelo ponto exato
Da vida


Nunca perde a liberdade
Quem a vive na mesma aldeia
De um tempo


A espera é longa
Presentes
As infinitudes de coragem
Em noites de sangue pastoso


Quando as agonias
São gente em morte
Que nos entra pelas órbitas
E nos açoita


Irmão:


Sou um pequeno cascalho
Mas ainda veículo


Ao teu lado
Aceita-me


Basta-me até tu


Minha maravilha

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Iam os ventos muito grandes em demanda

Das coisas deste mundo e era dezembro

 

Apressem-se, apressem-se – ouvia-se

Tendes vós pouco tempo para o nascer encontrar

E só ele vos dará o favor do deus para os poemas

Favorecidos pelo sonho que sois

Mânticos e núbios à aproximação da luz

 

Diz o Ouvinte:

 

Concedo-vos argila e oleiro

Moldai a ideia nova e se faça ela tão perto

De tão perto e tão humana

Que não haja casa nem rua

 

Onde não penetre

 

E de onde

Se não invada

 

Mão.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


EXERCÍCIO

 

Vencida pela força do meu dano

Nadei no manso rio

Onde as ninfas de todos os desenganos

Nos chegam transparentes como as águas

Disse-lhes:

Não estou exausta, enquanto tiver vida

A minha força será sempre

Pedida

Pelo rigor do desvio do mundo

Pelo cioso fogo do dia

Em que vencida pela força do meu dano

Nade, pois, no manso rio

E de tanto me levedar

Desate assim a laçada estreita

Do código das águas de destino próspero

E sejam elas o banho da rosa encarnada

Na maravilha dos teus olhos

Amor

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs. Reposição

À MARGEM DE ANTIGAS CARTAS


SÓ PERGUNTO AONDE VAIS?
 


Persigo sobre a areia só
   
e é fugaz e fugidia
a deste deserto   
nas vagas impressões
  
dos teus muito frágeis passos
 


São de outrora, de depois ou só
 
de porvir
   
conformes a tempos e modos
de sentir  
porém de ti sempre


Porque como teus só
  
os reconheço

ou talvez por mim
os adivinhe 
e me transformem


Já tanto de ti só
  
no coração de Deus existe
e eu estou fora ainda 
por pegadas de vento buscando

na saudade o teu caminho


   Quando um de nós se perde na demência, só num deserto estranho o outro o pode encontrar. Eis como a comunicação possível se torna monólogo e se inventa outra existência. Perdeu-se alguém, de tão brutal maneira que a própria ausência é impossível de se conceber. No fundo de mim, terei de criar uma presença nova e fazê-la comunicar, por um caminho do espírito que em si só, no seu mistério, guarda o seu segredo.


   Quem morreu, sabemos que não está aqui, imaginamo-lo algures ou nenhures, mas sem nunca o ver, e a sua própria incomunicabilidade pertence à ordem natural das coisas. Não lhe pertence. Tortura maior é, sim, procurar quem vemos mas não nos fala, tentar escutar no silêncio o bater de outro coração, desvendar num segredo inacessível essa presença amorosa qe Deus nos esconde. Porquê? Saberás tu responder-me, ouvir-me-ás perguntar-te aonde vais?


   Como escrevi, em carta com mais de sete anos, no passado domingo republicada pelo blogue do CNC, "o silêncio interroga o silêncio. E é mais sentida a ferida".

 

Camilo Maria     

 

Camilo Martins de Oliveira

POEMA


Eu tenho um anjo de água que me desfaz os poemas-dor

 

Este meu anjo de água reescreve-me as lágrimas

A contra-coração

 

E quando sou medo logo vou ao ponto onde o sei

 

E na torrente que sempre me propõe

 

As cores balsâmicas

São as forças

Que me ateiam

 

Vindas do meu anjo de água-esmeralda

Meu anjo impalpável

 

No horizonte-tempo

Que me torna nítida

 

No exato momento em que o poema

Age

 

Ou amar não fosse

Desde tão antigamente

 

Disseste, olhando-me

 

 

Teresa Bracinha Vieira

2020

 

Esgotado o barco
Deixa-se de costas para a noite

Não anseia a maré
E todos receiam que não navegue
Sob o terror de ser livre

O fumo preto
É sinal que se toldou

O seu corpo
Tem o formato de uma boca descalça
As roupas
Do exílio

Descompasso

A realidade terrena é um prazo
Que acaba  

 

 

Mas os meus olhos resgatarão os teus
Amor

Imagina-me como quem não existe
Unicamente para estar contigo

Meu eleito após o mundo

Ocasião
Ocasião

De nos salvarmos

Longe e aqui

 

 

Teresa Bracinha Vieira

PORQUE TE AMO

 

Se beijar o infinito

Loucura fosse

Nunca poderia dizer que tenho em mim

Quando te abraço

Toda a beleza que não vi criada

 

E ambos chamamos luz à luz

Como as crianças

 

E semeamos

Que diferente até o amor será

Na espera de já não sermos

Os vagabundos dos sonhos

 

Agora

Enlaçamo-nos

Nas horas que em nós

São a lida

Incansável

 

Asa transparente

Afinal

Aço

 

E

Se o vento mau te levar

Restarás comigo

 

Sempre                  

                  

 

Teresa Bracinha Vieira  

O VÍRUS

 

Sim
Está por todo o lado
Debaixo dos pés das pessoas
Nos bolsos dos automóveis
Nos refúgios do ar da velhice


Sim
É uma fúria dissecante
Às crianças afoga-lhes os céus
Cola-se aos mármores dos cemitérios
Dessegura as miragens


Sim
Delira na gargalhada
Que rasga as artes ao meio
E semeia-se
Num qualquer vento


Usando as metamorfoses 
Para assediar o medo
Que greta a vida
Mas não sabe


Que um livro fechado
Já se abriu de novo
Soltando as letras
Convocadas


E ao nosso tempo breve e débil
Ordenaram
Dias futuros
Razão por fim


Onde as minhas-nossas


Mãos


Rezam

 

Teresa Bracinha Vieira