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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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POEMA


Eu tenho um anjo de água que me desfaz os poemas-dor

 

Este meu anjo de água reescreve-me as lágrimas

A contra-coração

 

E quando sou medo logo vou ao ponto onde o sei

 

E na torrente que sempre me propõe

 

As cores balsâmicas

São as forças

Que me ateiam

 

Vindas do meu anjo de água-esmeralda

Meu anjo impalpável

 

No horizonte-tempo

Que me torna nítida

 

No exato momento em que o poema

Age

 

Ou amar não fosse

Desde tão antigamente

 

Disseste, olhando-me

 

 

Teresa Bracinha Vieira

2020

 

Esgotado o barco
Deixa-se de costas para a noite

Não anseia a maré
E todos receiam que não navegue
Sob o terror de ser livre

O fumo preto
É sinal que se toldou

O seu corpo
Tem o formato de uma boca descalça
As roupas
Do exílio

Descompasso

A realidade terrena é um prazo
Que acaba  

 

 

Mas os meus olhos resgatarão os teus
Amor

Imagina-me como quem não existe
Unicamente para estar contigo

Meu eleito após o mundo

Ocasião
Ocasião

De nos salvarmos

Longe e aqui

 

 

Teresa Bracinha Vieira

PORQUE TE AMO

 

Se beijar o infinito

Loucura fosse

Nunca poderia dizer que tenho em mim

Quando te abraço

Toda a beleza que não vi criada

 

E ambos chamamos luz à luz

Como as crianças

 

E semeamos

Que diferente até o amor será

Na espera de já não sermos

Os vagabundos dos sonhos

 

Agora

Enlaçamo-nos

Nas horas que em nós

São a lida

Incansável

 

Asa transparente

Afinal

Aço

 

E

Se o vento mau te levar

Restarás comigo

 

Sempre                  

                  

 

Teresa Bracinha Vieira  

O VÍRUS

 

Sim
Está por todo o lado
Debaixo dos pés das pessoas
Nos bolsos dos automóveis
Nos refúgios do ar da velhice


Sim
É uma fúria dissecante
Às crianças afoga-lhes os céus
Cola-se aos mármores dos cemitérios
Dessegura as miragens


Sim
Delira na gargalhada
Que rasga as artes ao meio
E semeia-se
Num qualquer vento


Usando as metamorfoses 
Para assediar o medo
Que greta a vida
Mas não sabe


Que um livro fechado
Já se abriu de novo
Soltando as letras
Convocadas


E ao nosso tempo breve e débil
Ordenaram
Dias futuros
Razão por fim


Onde as minhas-nossas


Mãos


Rezam

 

Teresa Bracinha Vieira

SE SEI VIVER SÓ

 

Se sei viver só?

Quem sabe?

Nessa imagem revelada pelas montras

Passeia-se a rua interior

De mão dada com cada um

Ou não fossemos a primeira e última

Trincheira

Unida a outra e a mais outra

Corredores sem fim e labirínticos

Por entre as mensagens como flechas

Chegadas ao nosso, meu coração rebentado.

Se sei viver só?

Quem sabe?

Cada um compõe a alegria obrigando-se a voltar

Eu a ti e às tuas pálpebras regresso

Para que me ampares o terror experimentado

Na aberta realidade aquela que arboriza a solidão

Sem água

Rosa dos muros, cama das poeiras, orçamento que vela

O nada escrito no pleno dos vazios

Quando se renova a procura de nós

E a rota que turista se passeou à nossa janela

Quando o amor e só ele era o acreditar.

E de novo

Se sei viver só?

Quem sabe?

O parapeito é sempre cais

De onde os sonhos quantas vezes partem confundidos

Por histórias banais que nos ficam na memória

Entrada nela por navios e a ti neles regresso

E afinal a inocência é muita

E por ela a morte passa

Na preocupação de fechar segredos.

E eu quero tanto aquele morango, aquela cereja

Porque a minha obra, se o for tem um fundo vermelho

De sangue e flor futura e cega

E foi minha a andorinha e os xailes esgaçados de tão rotos.

Se sei viver só?

Quem sabe?

A semente é feita de carne humana

Poeta, não grites, não!

Poeta, não deixes fugir as pombas

Ou escuta os astros

E por lá deixa teus olhos

Definitivamente muito definitivamente.

E de todos

Ai anjo que de nós foge

E que me procura há quanto?

Pasmo, quebro-me e vou-me dando

Só paro em deltas

Abraçada ao teu olhar

Porque assim os oceanos

Embrulham-me num musgo, naquele mesmo que foi

Manta de alma enquanto vivi

Enquanto espreito

 

Se sei viver só? 

 

Teresa Bracinha Vieira

NINGUÉM É INOCENTE

 

Oriundos de El Salvador!
Oscar e Valéria unidos
Pelo corpo e pela alma e por uma camisola
Que a ambos abraçava

 

Assim chegaram às correntes bravas do rio
Que lhes permitiria a aproximação ao justo sonho
À vida que seria sorriso, ouro, prata e verde

 

El Salvador? Que escuridão?!
Deixa-nos
Que vamos voar!

 

Então as flores deram-se as mãos em perfeita robustez
Pois o voo estava a ser um pássaro que não parte

 

E chamou-se nomes à dor, ao branco, ao amarelo-torrado das águas
E em pranto desesperado, encalhado, no acesso ao salvador
Mordido, sangrado, não asa, desfizeram-se as forças

 

Pai e filha
Doces ramos, definitivamente partidos, destruídos
Por um mundo todo que está morto
Enquanto o sol tomba
Em espanto ilimitado

 

Por nos ver, a nós, tão instantâneos, tão sem destino, tão sem memória

 

Tão terminados.

 

Teresa Bracinha Vieira

POEMA

 

E foi quando tomei os elementos por garante que logo arrefeceu súbito o ar nas minhas mãos. O frio das primeiras neves-alaúdes do saber provocaram um aperto absoluto, como sempre que os sonhos se repetem, e nos abandonam lisos, ensaiando à frente dos nossos olhos o ritual da morte do eterno.

 

Não sei se é esse o tempo dos desastres sem fantasmas, porque afinal o sangue se tornou cíclico, e eu, de vez, o entendi. Também não sei se me conciliei com a natureza por método nu, chegada que fui à sua morada de panos sobrepostos. Não sei, tão pouco, a que horas pedi servo ou serva, a fim de testemunharem que fui eu mais aquela que não posso controlar, que de concreto sempre falou da vida e no mar fez casa, sótão, cave e subcave, onde guardei poemas de universo. Poemas daqueles aos quais me fiz sem quebrar qualquer aliança com a realidade.

 

Devo dizer que reconheço a minha vida.

 

A espuma do mar foi meu telhado; sob ele, a beleza do poema que não procura estética, a força do passado em gruta de luz mutável, a fragilidade do amor numa coragem plena de morte frontal, e ainda as abelhas-biblioteca, tão nítidas, tão feras. Mergulho, mergulhei nos esboços rigorosos com os quais tentei entender o exatamente dito, escrito, acontecido, espreitado, sentido, vivido, quando e sempre atenta para dentro e para fora da vida e, enfim, para o equilíbrio, para aquele que limpa os olhos quando é sinal de verdade, sendo esta a beleza do poema quando poema.

 

Sou e tenho sido uma antena nas velas de um moinho que roda ao ar e por ele traz pão.

 

Escolhi desse pão para a minha casa e, ou a casa não foi minha, ou o pão mal se ouvia à chegada. Foi o excesso de violetas – disse-me à memória o meu avô - e, sim, elas decifram ressurreições e habitam-nos, foi quanto chorei pelas paredes a tua partida. Até hoje. Mútua curiosidade de mim para mim?, ou sei eu que quem parte foi quem deixou os segredos pelo chão?, ou quem partiu fui eu que hibernei fora do tempo? Não sei. Não me peças piedade nos beijos em simultâneo com os meus olhos nos teus, ela não existe para quem hesitou. Atenta igualmente que ela pode ir à frente de mim com outro nome, aquele que define que de ti, hoje e amanhã, o meu passo sempre procurou um voo conjunto.

 

Sei que através de ti muitas vezes, muitas, muitas, fui amor inteiro e tu em mim celeiro em secreta festa de tanto espanto, tanto segredo, que a construção possível do futuro se fazia em veias celebradas na paixão em êxtase, rosas, auréolas de seios, canela, jasmim, madeiras quentes, orientes, tudo teima a progredir para a luz e afinal dançámos, dançámos para nos entendermos em permanecer.

 

Obstinada recomeço-me em cada coisa.

 

Os meus pés escutam o chão do mundo e uso um vestido de fidelidade às pedras, à luz, a todos os bichos homens e bichos mulheres e bichos por autenticidade, para também buscar um deus que atravesse a vida ao contrário: da morte para o embrião.

 

Que instante!

 

Da liberdade, digo, celebro a chegada, adiantando-me ao luar-poente. Do barco lunar, salto para terra, seguida dos beijos do estrangeiro que um dia se aninhará em mim; eu sinto-o, exatamente durante o período que suspende qualquer separação, imediatamente depois de surgir aquele ramo de bétulas tão frágeis quanto os meus pulsos, quais talos frescos que ele tanto suga e parte. O tempo, o tempo reunido fora devorador. Ainda assim hoje o estrangeiro lê ponto por ponto o decifrar da fórmula e enfim, tu ao meu lado.

 

Voltei ao amor esse das limitações e das não eternas eternidades à proa e ao vento de todos os navios expostos às setas das luzes mais brancas e enfim se guiam.

 

E regresso à cidade e aos campos e às gentes e às estátuas e aos rios e às arvores e às sombras e a Hiroxima donde se levantam sementes de outros mitos que conheço de me questionarem o não-sentido do conjunto.

 

Bem sei que o jogo trilha intersecções que filtro algum detém, avultando-se além da morte.

 

Olho o poema e de novo lhe imploro que não me dê uma luz tão minha se acaso ela opaca já me enganou mais do que uma vez. Se assim for, emaranho-me num ponto de cruz, e por entre ele, insisto no rumo ao conhecer, mesmo que em paradoxo se explique e se povoe lá onde se acoita em mim indecidível, leve, funesto e infinito, o projeto do meu músculo-coração, tendo ele força para me afastar do que suprime a morte da ideia, ou o palácio, afinal, não tivesse sido a juventude do tempo, distante ainda da solidão, ignorante dos deuses vencidos, das horas iniciais e limpas,

 

da hora em que iniciei o meu longo exílio.

 

 

* “Speaking Through Walls" exposição na Tyburn Gallery em Londres.

 

Teresa Bracinha Vieira

O MUNDO DOS BRINQUEDOS…

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 29

 

As duas imagens que hoje se apresentam correspondem à lembrança da infância de há cinquenta anos… pouco dirá aos nossos jovens, mas conheço alguns que sentem prazer em ouvir dos avós estórias de outros tempos.

 

Na primeira imagem, a Zé procura com um binóculo avistar o castelo misterioso do cimo da montanha. Eles encontraram-se no Casal de Kirrin, como habitualmente nas férias grandes, e a partir daí desenrolaram-se mil aventuras e mil peripécias. Eles são, além da Zé, a Ana, o Júlio, o David e o inseparável Tim (no original: Georgina, Anne, Julian, Dick e Timmy). Em Portugal eram esses os nomes dos heróis mais célebres de Enid Blyton (1897-1968). Era apaixonante ler cada uma das cerca de 120 páginas da coleção da Editorial Notícias, sendo o primeiro “Os Cinco na Ilha do Tesouro”. Mas havia também o programa semanal da Emissora Um, “Meia Hora de Recreio”, que apresentava capítulos dos Famosos Cinco, sob a direção de Maria Madalena Patacho (1903-1993) e com a inconfundível voz de Ruy Ferrão (1918-2010)…

 

Nesse tempo, a nossa Mãe preparava-nos o lanche em volta do imponente aparelho de rádio, gigantesco, com um som forte e irrepreensível – café com leite, pão com manteiga, queques e bolos de arroz. E ouvíamos deliciados as descrições das opíparas merendas que a Mãe da Zé preparava para os pequenos: ovos com bacon, compotas variadas, sumos - e juro-vos que o nosso lanche mais corriqueiro sabia exatamente às descrições de Enid Blyton. A sugestão era tudo, e sobretudo havia todo o suspense dessas aventuras fantásticas. Cada geração tem os seus heróis - e a minha, que era a do “Cavaleiro Andante”, era naturalmente irmã dos Cinco… Eu sei que houve os Sete, o Noddy, a Gémeas do Colégio de Santa Clara, mas apenas os Cinco nos interessaram verdadeiramente, como antecâmara das Biografias da Civilização e dos clássicos da Sá da Costa…

 

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A segunda imagem de hoje remete para a coleção dos Dinky Toys, fabricados pela Meccano de boa memória. Importa lembrar que a Meccano (fundada em 1908 por Frank Hornby) começou por produzir peças para montar elevadores, gruas, tratores, automóveis. Uma grua como devia ser demorava mais de um dia a ser produzida, reunindo centenas de peças e muitos parafusos. Era um brinquedo fabuloso. Começámos com a caixa número cinco e acabámos com a número 10, capaz de realizar autênticas obras de alta engenharia… Mas regressemos às miniaturas. A fábrica inglesa da Meccano produziu miniaturas de fundição injetada entre 1935 e 1979. Não esqueço um Connaught Fórmula 1 de cor verde, que foi pilotado por Stirling Moss, que eu vi correr em carne e osso em Monsanto no último ano em que essa marca concorreu, 1959. Depois vieram um Land Rover, um Morris Minor, um Austin, uma camioneta Dodge… Em simultâneo começaram a surgir os Corgi Toys, com molas e com portas e capots a abrir e fechar… Os Dinky e os Corgi associavam-se facilmente pois tinham a mesma escala… Vários dos meus modelos chegaram mesmo a estar expostos no Museu do Brinquedo… A fábrica da Dinky em Binns Road, Liverpool, fecharia em 1979, em virtude da concorrência de produtos feitos no Oriente em série mais baratos mas de menor qualidade, e a Corgi Toys ainda duraria até 1983, mas conheceria o mesmo destino. A Matchbox viria até 2000 a produzir sob a marca Dinky modelos que tinham ganho notoriedade. Hoje a produção de miniaturas mudou radicalmente, prevalecendo os modelos de pequena dimensão ou de escala superior às dos clássicos Dinky e Corgi Toys…  Foi um outro tempo – e agora essa nostalgia é responsável por preços astronómicos alcançados em leilões pelos pequenos modelos originais…  

 

Sobre a nostalgia dos brinquedos da infância oiçamos hoje Cecília Meireles:

 

«O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

 

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
– de tudo o que aparecer.

 

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

 

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

 

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)»

 

   Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

DEVES ORAR POR UMA VIAGEM LONGA…

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 26

 

Konstantinos Kavafis (1863-1933) escreveu sobre Itaca um dos poemas mais célebres da cultura moderna. A metáfora da viagem surge como a representação da própria existência. A procura e a descoberta, a atenção e experiência – tudo nos surge como uma procura permanente de sentido. “Que sejam muitas as manhãs de Verão, quando, com que prazer, com que deleite, entrares em portos jamais antes vistos!”. A versão que aqui apresentamos é da autoria de Jorge de Sena e constitui uma peça fundamental da poesia portuguesa. Só um grande poeta pode ser tão fiel ao espírito de Kavafis. E é o Mediterrâneo que aqui se encontra bem presente. Naturalmente, lembramo-nos perante este poema da amizade fecunda entre Sophia e Sena. Mais do que uma amizade, há uma fidelidade muito funda às raízes comuns da nossa cultura – encruzilhada de influências, Oriente e Ocidente, Sul e Norte, céu e mar… Ulisses é um símbolo que nos une – a paixão temperada pela medida. Ah! Importa reler ininterruptamente este poema. Todos vamos regressando a Ítaca. E o tema não pode ser mais português. Temos o gene de Ulisses dentro de nós… E não esqueço o especial afeto que o Alberto Vaz da Silva tinha para com este poema…

 

«Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria- nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!

 

Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:

 

coral e madrepérola, âmbar e marfim,

 

e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,

 

para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito,

 

que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,

 

rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora,
senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca».

 

   Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
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MADE IN PORTUGAL…

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 24

 

José de Guimarães intitulou esta sua obra como “D. Sebastião e Camões”. São dois símbolos que devem ser lidos, como nos ensinou Eduardo Lourenço, com perspetiva crítica. São duas faces da nossa existência coletiva que devem constituir desafios de exigência e rigor. António Sérgio e Jaime Cortesão refletiram sobre a necessidade de darmos sequência positiva ao melhor do que temos feito. Como? Pela fixação, pela criação de riqueza, menos pela lógica exclusiva do transporte. Contra a ideia de improviso e as curtas vistas – importa aproveitar nas melhores condições as nossas qualidades.

 

Hoje o “Made in Portugal” começa a ser, no mundo, exemplo de qualidade – na moda, no vestuário, na alimentação, nos vinhos, na investigação científica, nas novas tecnologias, nos serviços, no turismo. Poderemos dar muitos exemplos – mas o culto do rigor, da exigência e do planeamento não podem ser esquecidos. É bom preferir o que produzimos, se isso for sinal de maturidade e de qualidade – não se for protecionismo. Há um longo caminho a percorrer, com trabalho, planeamento, educação, ciência e cultura…

 

Um dia, António Alçada disse-me que ninguém definiu melhor a pátria do que Alexandre O’Neill no seu poema “País Relativo”. Leia-se verso por verso e veja-se como o poeta de “Feira Cabisbaixa” tem toda a razão. Portugal merece o nosso muito especial afeto pelo que tem de relativo, de imperfeito, mas capaz de ser melhor… António Tabucchi compreendeu-o também ao citar o “Pranto de Maria Parda” e ao chamar a atenção para o picaresco, ao lado do épico e do lírico. Nem melhores nem piores, nem heróis do mar nem lixo – apenas nós, capazes de sermos melhores, com capacidade de nos rirmos de nós mesmos…

 

«País por conhecer, por escrever, por ler...
País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.
País do cibinho mastigado
devagarinho.
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.
Já sabemos, país, que és um homenzinho...
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.
E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!
Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.
País desconfiado a reolhar para cima
dum ombro que, com razão duvida.
Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.
Nhurro país que nunca se desdiz.
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.
Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.
Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!
A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.
País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.
Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!
País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.
De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...
Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!
Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.
Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.
Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!»

(Feira Cabisbaixa 1965).

 

   Agostinho de Morais

 

 

 

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