Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

PESCADORES DE ÍRIS

 

Pescávamos com búzios à beira do mar

Acedendo à festa dos mistérios das ilhas

Seguros de que aquele animal tutelar

Viria a nós ressurgir e libertar

 

À noite recolhíamos o cabo

Que nos segurava o espirito

E escutávamos o regresso sem dano

De uma visita às origens

 

E os búzios espias

Contavam dos espelhos

Superfícies polidas onde as sereias

Se comparavam na ideia de si

 

Com a que acreditavam que delas tivessem

E logo vaidoso

Cnossos – palácio cretense

Expunha-se ao nosso olhar de dentro e de fora

 

Abrindo as portas do seu labirinto

Expondo saídas, vocalizando tensões

 

E nós

Pescadores

 

Que nenhum ângulo queríamos perder

Acasalávamos ondulando no céu

Como se o desejo nos subtraísse ao peso

Prisioneiros de quem assim se ofereceu

 

Mas era demais 

 

A grande borboleta hipnótica do escutar

- semi-deusa grega que o era de sempre

Saciou-se de nós pescadores

 

Que julgávamos saber pensar os limites

Nimbados do impensável

Nós que só estávamos na história

De corpo e arco a ceder

 

Então libertamos os búzios

E ao largá-los aflorámos seu feitiço

Enquanto a vida breve se eternizava

Ao abrigo do tempo

Ao lado das coisas 

 

E ainda assim

Projeto 

 

Delicado e difícil

 

 

Teresa Bracinha Vieira

LIBERDADE

 

E não é um sonho

Ter-te assim

Meu peixe de ouro

A indicar-me caminhos

Por um cordão umbilical

 

Vem, vem mais perto

E fala comigo

Da liberdade que te leva

Ao teu ninho seguro

 

E possa eu celebrar um mundo

Aquele pelo qual espero

Distinto, matinal, envolto

 

No meu peito peregrino

Com força de luta

Sem medo e sem dúvida

 

De que o jamais

É

 

Afinal uma alegria

União de tetos

Onde

Só tu, só tu, minha obra fantástica

 

Minha companhia

 

Que por ti

Recordarei o dia

Que mal nascia

Quando te perguntei

 

E antes já te vi?

E eu estava aqui?

Há passado e há futuro?

Perdeu-se algo durante a noite?

 

E não é um sonho meu peixe de oiro

Esta passagem na minha vida

Calvário de entendimentos

A história e os atores?

 

E tu?

 

Sempre que a semente rompe a terra

E o glaciar chora

Derretes

 

Pois que aqui nos vês os mesmos

Entre o ser e o nada

 

E ainda assim

 

A vigilância. 

 

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CONDIÇÃO

 

Também amor

 

São folhas que se soltam das saias

Acesas e no meio de muitas memórias

Palavras completas como oceanos

 

Também amor

 

É o que atravessa o amor

É o que existe ao cimo

É o leme amor dentro

 

Também amor

 

É uma vida de cegueira

Uma alegria furibunda

Pureza de mundo só

 

Também amor

 

É o que se desdobra da alma apertada

Pela dor da seta fragmentada

Coração uno de uma dor inexplicável

 

Também amor

 

É limite recriado

Truculento principiante

De canto contra o muro humano

 

Também amor

 

É uma selvajaria celeste

É ator, verdade e cenário

Janela, bocado de estrela

Divagação de maçã

Holofote de grandeza

Casa louca, ninho verde

Magnólia essência de oficina

Afinal poema

 

Condição

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Enviei a amigos a minha tradução, a partir da versão francesa publicada pela Bibliothèque de la Pléiade, do belo poema do dao original que canta a água e que, extraído do Huainan zi, inseri na minha-tua última carta. Apreciado por muitos, despertou especial curiosidade entre alguns, como o João Paiva Boléo. Vou então desvendar parte do meu esforço suplementar de aproximação ao original chinês, apesar de só ser capaz de traduzir a partir de versões em línguas europeias, dada a minha ignorância da língua sínica. Faço-o com simpatia pelo interesse manifestado - e pela diferença que as minhas versões de textos originalmente chineses têm relativamente às que ouso fazer do japonês (de que já te descrevi o processo, com recurso ao dicionário universal de japonês-português do meu velho amigo padre Jaime Cepeda Coelho (jesuíta transmontano, atrevido cidadão luso-nipónico) e a compêndios de transcrição fonética e caligrafia sino-japónica, além das transcrições em romaji (caracteres latinos), iniciada pelos jesuítas portugueses no século XVI). Da língua chinesa, nem sequer conheço os sons de leitura dos caracteres (apesar dos muitos kanji que posso ler e entender por via nipónica), o que me obriga a, quando possível, recorrer ao precioso auxílio do meu mestre (nunca o vi em pessoa, mas li-o muito) François Cheng, como mostro no exemplo exercitado abaixo. Antes, porém, e para te ajudar a melhor me compreenderes, do mesmo Cheng te deixo um pequeno trecho do seu L´écriture poétique chinoise (Seuil, Paris, 1996):

 

   Independente do som e invariável, formando em si uma unidade, cada signo fica com a oportunidade de permanecer soberano e, como tal, durar. Eis, desde a origem, uma escrita que se recusa a ser simples suporte da língua falada: o seu desenvolvimento é uma longa luta pela autonomia, e pela liberdade de combinação. (Em cartas passadas, Princesa, também procurei explicar-te estes "achados"]. Revela-se desde a origem esta relação contraditória, dialética, entre os sons representados e a presença física a tender para o movimento gestual, entre a exigência da linearidade e o desejo de uma evasão espacial. Poder-se-á falar de "insensato desafio" por parte dos chineses em manter tal "contradição", isto durante quase quarenta séculos? Trata-se, em qualquer caso, de espantosíssima aventura: pode dizer-se que, pela sua escrita, os chineses ganharam uma aposta singular, de que os maiores beneficiários foram os poetas.

 

   Na verdade, graças a essa escrita, foi-nos transmitido um canto ininterrupto há mais de três mil anos. [O Shi-jing ou Livro da Poesia, primeira seleta de cantos a inaugurar a literatura chinesa, contém peças datadas do primeiro milenário a.C.]. Esse canto, no início intimamente ligado à dança sacra e aos trabalhos do campo ritmados pelas estações, conheceu mais tarde muitas metamorfoses. Na nascente destas está precisamente essa mesmíssima escrita que engendrou uma linguagem poética profundamente original. Toda a poesia dos Tang é um cântico escrito, tanto quanto uma escrita cantada. Através dos sinais, obedecendo sempre a um ritmo primordial, uma palavra explodiu e extravasou por todo lado o seu ato de significância. Cercar primeiro a realidade desses signos, o que são os ideogramas chineses, a sua natureza específica, os seus laços com outras práticas significantes é realçar traços essenciais da poesia chinesa.

 

   Como não tenho - e assim tal qual te lo disse em cartas passadas, sobretudo quanto a traduções ou análises de textos japoneses - possibilidade de escrever aqui outros caracteres além dos nossos latinos, passo à demonstração da versão de um poema de Wang Bo para francês, feita por François Cheng, escamoteando o texto original em caracteres sínicos, mas mantendo a literal tradução do mesmo, paralelamente à versão literária final, em língua francesa, pelo mesmo autor. O título

do poema é, em qualquer língua, O Vento. Logo de seguida, apresento a minha versão portuguesa, composta a partir das duas de François Cheng, a sino-francesa, literal, e a francesa livre, literária:

 

 

Su-su / fraîches ombres naître
Accroître en moi / bois-vallon pureté
Chassant fumée / chercher torrent logis 
Roulant brume / franchir montagne piliers
Aller-venir / toujours sans trace       
Se mouvoir-s´arrêter / comme y avoir sentiment     
Soleil couchant / mont-fleuve calme  
Pour vous / susciter pins bruissement.      
Susurre le vent: ombres, fraîcheurs
Purifiant pour moi vallons et bois
Il fouille, près du torrent, la fumée d´un logis
Et porte la brume hors des piliers de montagne
Allant, venant, sans jamais laisser de traces
S´élève, s´apaise, comme mû par un désir
Face au couchant, fleuve et mont se calment:
Pour vous il éveille le chant des pins.

                                                                                                             

Num sussurro o vento faz nascer frescas sombras

e crescer em mim a pureza de bosques e vales.

Enrola em bruma o fumo dum lar ribeirinho 

e sopra-o para além dos montes próximos.

E assim num vai-vem, sem nunca deixar rasto,

ora agita ora amaina, sentindo apenas.

E ao sol poente sossega os montes e os rios,

para ti despertando o murmúrio dos pinhais...

 

 



   Eis um poema Tang no modo Lü Shi, isto é, de poesia regrada, aqui em oitavas. Em português, só pelo que gostei nessas palavras até capazes de falar caladas, em jeito de meditação silenciosa que, tal como o vento do poema chinês, nele tão só procura uma comunhão no sentimento. Traduzo, isto é, trago-te o que e o como senti.

 

Camilo Maria 

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   A dinastia Tang (618-907) acolheu uma era de ouro da arte poética chinesa. Logo no seu período inicial (618-712) se destacam os poetas conhecidos como "Os Quatro Talentos", entre eles o "nosso" Wang Bo (650-676), de que, em carta anterior te enviei O Vento... Confesso jamais ter pensado que algum dia me apaixonaria pela poesia antiga do Celeste Império que, aliás, me invadiu, pelo gosto literário, a minha busca da imanência de Deus, no sentido da presença mística do uno inicial. Já nos meus dezassete anos traduzia, para português, Teilhard de Chardin, que em mim deixou raízes. E, na poesia solar de Sophia de Mello Breyner, cedo percebi aquilo que, curiosamente, numa entrevista, que hoje li, do jornal Público ao comunista editor da Caminho, Zeferino Coelho, este filósofo de formação afirmava: O modo como ela  [a Sophia] entende a poesia e as preocupações que estão por detrás da elaboração poética; e, sobretudo, uma tradição muito alemã, que arranca com o Novalis e que é, no fundo, a morte de Deus depois do Iluminismo, a impossibilidade de acreditar em Deus, o sentimento de perda que isso acarreta a quem isso acontece e a tentativa de, através da poesia, restabelecer essa unidade com o mundo. Ela teoriza isso. Há quase toda uma teologia na obra de Sophia.- Sendo ela católica. - Exacto , com uma contradição enorme. Uma vez atrevi-me a dizer-lhe que havia uma contradição nela. Católica e seriamente católica, acredita num deus católico, que é um deus transcendente, que cria o mundo mas está fora dele , e toda a sua poesia é a exaltação do divino como inerente ao mundo material; o divino é a perfeição da curva da onda, a elegância da haste do trigo. Na natureza e no construído pelo homem, como as colunas de Sunion. Uma das filhas dela ouviu-me dizer isso e não gostou. Mas isto está muito por descobrir e a poesia dela não é valorizada.

 

   Para me ater apenas a Teilhard e Sophia, digo-te, Princesa de mim, que, seis décadas atrás, intuí com o primeiro o que, para me servir das palavras de Zeferino Coelho, a poesia da segunda anuncia enquanto exaltação do divino como inerente ao mundo material. E posso ainda invocar S. Francisco de Assis e o seu Laudato sì, ou, do lado de lá do planeta e da nossa cultura, o François Cheng que, precisamente em Assis, percebeu essa síntese da intimidade do dao e do universo com a transcendência imanente do Deus a quem Jesus chama Pai. Em muitas cartas te falo disso, como da Estranha Ordem das Coisas do António Damásio, ou da fé como substância das coisas que hão de vir... Vejo muito maior contradição entre a visão de um Deus transcendente que, todavia, pode ir intervindo a curar maleitas, arranjar empregos ou ganhar guerras, e a ideia evangélica de que a única parte do Reino que é deste mundo é a presença de Deus no mistério inicial de tudo e na nossa comunhão com o universo, bem como no amor que soubermos partilhar.

 

  Voltando aos grandes poetas da era Tang, e em resposta a perguntas tuas, deixo-te apenas breves notas. A par de Li Bo (ou Li Bai) considera-se Du Fu, seu contemporâneo e amigo, o outro maior. Mas enquanto o primeiro, no dizer de François Cheng, era um apaixonado pela liberdade taoista, o segundo aplicava-se a empenhar a sua conduta conformemente ao ideal confucionista, o que fez dele o grande mestre do lu-shi, ou poesia regrada, complementarmente ao primeiro, que se sentia mais à vontade no gu-ti ou poesia castiça, à moda antiga. Este Li Bo, reza a lenda, gostava da boémia e bebia melhor do que gostava de provar. Talvez por isso tenha, em noite etílica, morrido afogado por ter querido agarrar a lua espelhada nas águas do rio por onde navegava. Sobre a lua e o luar nas artes e letras da China e do Japão talvez um dia te escreva uma carta. Por hoje, deixo-te tão só uma maravilhosa "quadra" de Li Bai, que livremente traduzi: 

 

               Aos pés da cama se deitou o luar,

               como fria geada a cobrir o chão.

               Ergo os olhos e vejo o esplendor da lua.

               Baixo-os e encontro a terra de meus pais.                                                      

 


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

SEGREDO ABERTO

 

Olhei e vi

O que não gostei

E de mim não perdoei

O que noutros

Encontrei

Igual

 

Todos julgam

Julgar o que não julgam

Julgando

 

Apartam-se do similar ou diverso

Como se a diferença

Em profundidade

Existisse

 

Pobres somos

Pois todos tão perto

Do lago

Onde morreremos

Num afogamento

Trôpego e heroico e nada

Só agua

 

Que enfim é mesmo

Uma realidade

Verdade da natureza

Daquela que tudo sabe

 

E nós

Nem do amor

Fábula

Máscara

Conhecemos caminho

 

Tu

Só tu

Só eu

Só lágrimas unidas

Um dia

 

Quando a bater

O coração parou

Na direção

Da estrada esperançada

Que ainda não nos

Reconheceu

 

E ainda assim 

 

Bate, bate na minha alma

Um nascimento

 

Poesia

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2018

AGOSTINHO DA SILVA

 

Muito me reprovo e o aprovo tanto quanto outrora aprovei o que hoje me reprovo.

Agostinho da Silva

 

Já várias vezes tentei escrever nesta página acerca da minha admiração profunda pela cultura de Agostinho da Silva. Nunca sei se o que escrevo é o que senti de o ler, de o ouvir e o ter conhecido um pouquinho – orgulho meu – por com ele ter estado duas vezes após conferências a conversar um nadinha, ao meu sentir, um nadinha grande, ou, se o que escrevo dele, agarra-se sempre ao fascínio que em determinada altura senti pelo estudo dos milenarismos e por aí o segui, ou o final dos tempos não trouxesse um novo mundo de paz e felicidade e não fosse esse motivo bastante para lhe perguntar o quanto a vinda do Messias interrompia esta esperança; o quanto um reino com duração de mil anos é reino indefinido e curto para mudanças.

 

Depois (antes?) não sei, procurei-lhe nas palavras aquela liberdade única a que se referia com excelência como sendo a mais importante qualidade do ser humano e sendo que só através dela se mudaria a sociedade. 

 

Um dia, numa conferência, com o Mário Soares na mesa, começou Agostinho a falar de protocolo, afirmando nada saber a respeito, e durante mais de uma hora, deixou-nos extasiados com o seu poder de explicar o protocolo num imenso mundo de o saber como sendo um tema que o ligaria ao ser-estrangeiro, numa inteireza acordada de gestos e sinais em comunhão de escuta e de encontro com a «norma», a fim de se poder ser-se reconhecido num determinado papel de influência de grupo. E por aí adiante. E quando se sentou dando por terminada a intervenção, ficámos todos- diria assim - numa expectativa de identificação com um lugar que, ao menos com a clareza que o explicou, nunca o tínhamos visitado.

 

Sempre na luta desafiando melhores dias, também Agostinho da Silva escrevia poemas fortificados como este

 

Queria que os Portugueses

Queria que os portugueses 
tivessem senso de humor 
e não vissem como génio 
todo aquele que é doutor 

sobretudo se é o próprio 
que se afirma como tal 
só porque sabendo ler 
o que lê entende mal 

todos os que são formados 
deviam ter que fazer 
exame de analfabeto 
para provar que sem ler 

teriam sido capazes 
de constituir cultura 
por tudo que a vida ensina 
e mais do que livro dura 

e tem certeza de sol 
mesmo que a noite se instale 
visto que ser-se o que se é 
muito mais que saber vale 

até para aproveitar-se 
das dúvidas da razão 
que a si própria se devia 
olhar pura opinião 

que hoje é uma manhã outra 
e talvez depois terceira 
sendo que o mundo sucede 
sempre de nova maneira 

alfabetizar cuidado 
não me ponham tudo em culto 
dos que não citar francês 
consideram puro insulto 

se a nação analfabeta 
derrubou filosofia 
e no jeito aristotélico 
o que certo parecia 

deixem-na ser o que seja 
em todo o tempo futuro 
talvez encontre sozinha 
o mais além que procuro. 

Agostinho da Silva, in 'Poemas' 

 

Saudade tenho de o saber entre nós. Saudade terei sempre de o ouvir a convidar-nos a não ter medo.

 

Teresa Bracinha Vieira

Novembro 2017

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Entre muitos poemas e outros temas, a grande poeta Izumi Shikibu (970-1020?), por cuidar que ia morrer, compôs dois tanka: descobri um deles na antologia Goshuishu, o outro na Shuishu. Esta compilação, que abrange mais poetas, é de 997, anterior à outra, que data de 1086, mas os poemas a que me refiro foram provavelmente escritos na ordem inversa. O mais antigo, por ordem cronológica de publicação, na Shuishu, reza assim:

 

          Kuraki yori

          Kuraki michi ni zo

          Irinubeki

          Haruka ni terase

          Yama no ha no tsuki

 

   Na noite escura / por caminho de negrura / devo agora entrar / alumia-me de longe /  lua da franja do monte! - traduzo eu...

 

   O primeiro, por ordem cronológica de composição, mais tarde inserido na Goshuishu, lamenta-se assim:

 

          Arazaramu

          Kono yo no hoka no

          Omoide ni

          Ima hito tabi no

          Au koto mo gana

 

   Ao cuidar que morro / e me aparto deste mundo / quero levar a lembrança / da derradeira visita / que o meu amor me fizer...

 - será, mais ou menos, isto, no sentimento do ocidental que sou.

 

   Se me perguntasses, não saberia responder-te se, na verdade, me ocorreram estes dois tanka pela ideia da morte ou se pela do amor, pelo rasgão da despedida ou pelo vazio que o nirvana pode ser. Ambos, todavia, me remetem para aquele haiku do Kobayashi Issa, quase nove séculos depois, a falar-nos de tempo de despedida, que te enviei em carta anterior. O mesmo haiku, tê-lo-ia, mais literalmente, traduzido assim: É tempo de orvalho / e o tempo de orvalho corre / corre todavia...E ambas as versões portuguesas me dizem o mesmo...

 

   A era Heian, quando Heiankyo designava ainda a capital que se chamaria Kyoto, será certamente aquela em que as mulheres mais se revelaram como escritoras, talvez por lhes ser censurada a escrita sínica, e ainda, de outro ponto de vista, por lhes ser negada a possibilidade de exercerem cargos políticos ou administrativos, mesmo quando eram herdeiras ricas e os maridos vinham habitar a casa da família delas... É interessante observar como o regime sócio económico da nobreza procurava conservar pelas mulheres a fortuna familiar, mas atribuir exclusivamente aos homens o direito e a obrigação de subir, pela carreira política ou administrativa, na escala social. Assim se completavam ambas as contribuições para um matrimónio bem sucedido... O clã dos Fujiwara, que longamente dominou o governo durante a era Heian, conseguiu ir casando as suas filhas com membros da linhagem imperial, e ir assim assegurando a colocação dos varões da família, parentes próximos de imperatrizes, mulheres e mães de imperadores, em postos chave da administração do estado. Contrariamente a um caso narrado em Os Contos de Genji, que fala dos aposentos de três mulheres na mansão do marido comum, não há qualquer documento histórico que permita afirmar que, com exceção do imperador (esse sim, habitava o seu palácio, com seu harém), tal fosse possível: mais ortodoxamente, era na casa da primeira mulher que o noivo residiria, sem que tal o impedisse de tentar seduzir damas da companhia dela ou suas criadas. Mas também podia acontecer que a mulher cometesse adultério que, aliás, poderia não ser punido ou, quanto muito, ser apenas invocado como razão de divórcio. Na sociedade aristocrática de Heian, era corrente a endogamia, sendo os matrimónios celebrados por acordos entre famílias e servindo os seus interesses económicos, sociais e políticos. As normas de prevenção do incesto definiam-no apenas entre ascendentes e descendentes diretos, ou irmãos e meio irmãos. Perguntar-me-ás, Princesa de mim, o que terá este parêntese "socio familiar" a ver com a poesia de que vimos falando. Para além da influência directa do ambiente, costumes e regras de uma corte sobre a requintada cultura das letras e das artes (inclusive as decorativas), vemos que vai progredindo o desenvolvimento de uma literatura nipónica, que se emancipa da chinesa. É à Kokin waka shu, antologia antiga, publicada como volume 8º do Nihon koten bungaku taikei (compêndio de literatura clássica japonesa), de Saeki Umetomo (Tokyo, Iwanami shoten, 1959) que The Cambridge History of Japan (volume 2, Heian Japan, Cambridge University Press, 1999) vai buscar os elementos de informação do texto que seguidamente dela te traduzo, por me parecer esclarecedor:

 

  O waka começou a reaparecer em público por volta de meados do século IX. O seu regresso surge associado a outros desenvolvimentos, entre os quais a revitalização e aperfeiçoamento de interesses e valores tradicionais; o ressurgir do princípio hereditário, que diminuiu a utilidade de uma educação chinesa; o aperfeiçoamento dos kana; e a propensão crescente das grandes famílias à procura do poder através das suas representantes femininas no harém imperial, cada uma das quais era a potencial mãe de um manipulável infante soberano. Em especial, os edifícios em que as consortes viviam, coletivamente chamados o palácio traseiro (kokyu), iam-se tornando em centros de atividade musical, artística e literária. Parece que foi a partir desses apartamentos luxuosamente mobilados que os biombos decorados com a caligrafia de poemas japoneses se foram espalhando por outras partes do palácio (por volta de 850-900), tal como o gosto dessas senhoras por elegantes compitas (lembras-te, Princesa, dos "jogos florais" da nossa juventude?) que mais contribuiu para o aparecimento dos concursos de poesia, um dos maiores fenómenos culturais da era Heian. Houve vivo incremento da procura de waka formais durante os últimos quinze anos do século IX. Os poemas japoneses em biombos (byobu uta) ganharam exposição e fama, multiplicaram-se os concursos de poesia, e os waka começaram a suplantar os kanshi em banquetes e outras funções oficiais. Poetas quase profissionais, dos quais Tsurayuki terá sido o mais estimado, surgiram das filas da nobreza menor, servindo-se dos seus talentos poéticos para forjarem laços com os grandes, e obrando para elevar o estatuto do verso nativo. Bem cedo, no século X, tal atividade culminou na compilação da primeira antologia de waka, a Kokin [waka] shu, editada por Tsurayuki e mais três poetas, burocratas menores, e submetida ao trono por volta de 905.

 

 

   Esta antologia de poesia japonesa, a primeira compilada por ordem de um imperador, encerra 1111 poemas, quase todos waka, e acabará por ser inspiradora e modelo da lírica nipónica por mil anos... O prefácio, ou apresentação, por Ki no Tsurayuki, começa assim: A poesia japonesa tem por semente o coração humano e cresce por numerosas folhas de palavras. Nesta vida, muitas coisas tocam os homens:  tentam então exprimir os seus sentimentos por imagens desenhadas pelo que veem e ouvem. Que homem não irá compor poesia, ao ouvir o canto do rouxinol entre as flores, ou o grito da rã na água? A poesia é algo que, sem esforço, move o céu e a terra e leva à piedade os invisíveis demónios e deuses; que torna doces os laços entre homens e mulheres; e que pode confortar os corações de briosos guerreiros.  Depois, Tsurayuki tenta esboçar as circunstâncias inspiradoras dos poetas selecionados, muitos deles anónimos : quando olhavam para os rebentos florais espalhados pela manhã primaveril; quando em noite outonal escutavam a queda das folhas; quando suspiravam sobre a neve e as ondas que em cada ano se sucediam; quando mergulhavam em pensamentos sobre a brevidade da vida, ao ver o orvalho na relva do chão ou a espuma na água do mar; quando, se ontem eram altivos e esplêndidos,  hoje caíram da fortuna na solidão; ou quando, depois de ternamente amados, foram esquecidos.  

 

   Estes temas são incessantemente retomados na poesia e na pintura japonesa: têm intrinsecamente a ver com o sentimento e o entendimento da vida e das almas das pessoas pela contemplação das estações do ano, movimento do mundo, da efemeridade da aparência, e de um nirvana que é, paradoxalmente, vazio e esperança. Certas exigências de tal contemplação acentuar-se-ão pela influência Zen, que muitos autores estimam que acelerou a evolução do haikai no renga, que o próprio Basho praticou até nos seus derradeiros anos, para o mais sintético haiku, que aquele mestre ainda chamava simplesmente haikai, do qual dizia: o haikai é apenas o que tenho a frente dos meus olhos... Um instantâneo: naquele caminho / a malva p´lo meu cavalo / foi assim comida. Ou ainda essoutro, famoso: nesta velha charca / a súbita rã mergulha / só um som de água... E aquele que dizem ter composto antes de morrer: viajo doente / e meus sonhos pelos campos / soltos se aventuram...

 

   Basho é alcunha que ao poeta foi posta, desde que decidiu viver, pelos seus 36 anos, num eremitério chamado Basho-na, ou seja, ermida da bananeira. O seu nome era Matsuo Munefusa, sendo estes Matsuo uma família de bushi (guerreiros) e diz-se que Matsuo Yozaemon, pai de Kinsaku (tal era o nome de infância de Munefusa) era um musokunin de Iga. Jiro Taniguchi faz dele uma personagem fugaz do seu romance épico Kaze no Sho (O Livro do Vento), com enredo e texto de Kan Furuyama, que nos conta a história lendária de Yagyu Jubei, grande mestre da esgrima japonesa. O pequeno Kinsaku, então com 7 anos apenas, depois de assistir à morte de seu pai, a caminho de um encontro com Jubei, para lhe transmitir informações secretas, percorre sozinho uns bons quilómetros, sobre a neve fria, e ele mesmo dará a informação ao samurai. Assim se espalhou a lenda de que o livro de Basho, O Caminho Estreito para o Interior, teria sido inspirado por uma missão secreta. O título da obra, em japonês, é Oku no Hosomichi, literalmente "caminho (michi) estreito (hoso) do interior (oku)", sendo que o kanji oku, com doze traços, tanto pode dizer o interior de uma região ou país, como as profundezas, ou o íntimo do nosso coração. O mais provável, todavia, é que a obra se refira a uma viagem do poeta, acompanhado, pelo seu discípulo Sora, a distritos da ilha de Honshu, situados a norte de Tokyo. A edição com o título Oku no Hosomichi será a última de uma obra do autor, em vida deste. Vale a pena deixar-te aqui um trecho desse livro de viagem: Os meses e os dias são os viajantes da eternidade. Os anos que vêm e vão também são viageiros. Aqueles que embarcam suas vidas flutuantes ou criam velhos cavalos que os conduzem estão para sempre em jornada, e as suas casas são onde os levarem as suas viagens. Muitos dos homens de idade morrem pelo caminho, e eu mesmo, em passados anos, fui incitado, pela visão de uma nuvem solitária ao sabor do vento, a incessantes cismas de vagabundagem... Passei o último ano a cismar ao longo da costa marítima. No Outono voltei à minha casinha sobre o rio e limpei as minhas teias de aranha. Devagarinho, o ano chegou ao fim. Quando a Primavera chegou e havia cacimbo no ar, lembrei-me de atravessar a Barreira de Shirakawa, até Oku...- Esta Barreira, situada hoje no Shirakawa Seki no Mori Koen (Parque Natural da Floresta da Barreira de Shirakawa), a noroeste e não muito longe de Tokyo, de fácil acesso pelo comboio Shinkansen, fora fortificação em tempos idos levantada para impedir infiltrações, para sul, de bárbaros do norte da ilha de Honshu. Estas minhas cartas não sendo compêndios de coisa alguma, mas apenas confidências de lazeres ocupados, indolentemente te confesso que a leitura, ontem de manhã, desse passo do Caminho Estreito me trouxe à lembrança a abertura do Florbela Espanca, da Agustina: Os sábios experimentados da ciência da morte sabem que os moribundos têm de ser mantidos despertos e em plena consciência dos sintomas do seu fim. Doutro modo, eles não poderiam reconhecer a Luz Fundamental na sua realidade.  A vida dos poetas assemelha-se a esse estado de confrontação em que o espírito se equilibra como uma agulha sobre um delgado fio; movida pelo sopro dos desejos egoístas e a força do eu, a agulha cai e a vida é arrastada de novo para a sua roda de padecimentos. Bardo significa entre dois estados, quer dizer, situação crepuscular e incerta que oscila entre a morte e o renascimento. Os lamas chamam bardo ao estado imediato à morte; o corpo bárdico começa então a usar as suas faculdades supranormais e pode atingir diversos graus de uma nova existência. O bardo celta, ligado à função sacerdotal, manifestava-se pela poesia lírica ou heroica e provavelmente teve origem na escola búdica, que ensina que tudo o que o homem pode aprender pode crer também. As imagens semeadas no seu pensamento durante a vida são fecundas no espírito que o acompanha na morte. Esta observação, escrita há mais de quarenta anos, traz-me, hoje ainda, insuspeitamente, o brilho da inesperada argúcia de Agustina Bessa-Luís. Pode servir de chave para a leitura de alguns dos poemas nipónicos que tenho vindo a referir-te... Reparo em que nunca mais me calo, parecem infindáveis as minhas cartas: sem o talento nem a graça do Nemésio (se bem me lembro), desfio, melhor, deixo desfilarem em mim memórias, pensandossentindo que, se tudo o que o homem pode aprender pode crer também, também em tudo aquilo de que me posso lembrar me posso encontrar. Como contigo, Princesa, porque te conto. E com todos esses, homens, livros ou poetas, de que falo ou cito, só porque me aparecem sem que eu os tenha mandado vir... Talvez seja isso uma velhice feliz. Com muita companhia.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

ANTECÂMARA

 

Envolvia a ânfora e seu segredo

Fonte oculta em que mergulhava

A minha mão

A minha vida

Agora visitante ao mausoléu

Onde a tua

Para não trair o ritmo transbordante do nosso coração

Núbia e ardente se encontrava com a minha

E ambas decifravam forças, saberes insuspeitados

Espaços-encruzilhadas

Danação

Incompletude 

 

Teresa Bracinha Vieira

NO SOPÉ DO MUNDO

 

No sopé do mundo

Contaram-me uma noite

Uma fábula verdadeira

Vinha ela dos afagos de uma alma

E de uma mão minha laçada à entrada de um deserto.

Disse-me o estrangeiro:

O teu início

Aquele que errou pelo meu peito durante toda a noite

Descobriu-me entre duas guerras:

A que me impediu que a respiração se unisse enquanto sonho

E a outra que em mim tu cantaste e em ti me quis

Solitário

Exposto à chegada de todos os exércitos

Antecipando a época

Da grande viuvez.

 

E eis-me assim e agora

A lavar com leite

As faces escarpadas

Dos recifes

Sem te aprisionar

Em mapa algum

 

Mas procurando-te 

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017