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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

VINTE POEMAS (IV)

  


XVI

Outros séculos virão
Outras grades impedirão as aves
Do grito
Mas no ouvido concreto
O apelo
Às vidas de pé
Será consciência pura
De uma vitória


XVII

Somos gotas
E pouco mais

Às vezes gotas de água
Outras
Hálito

Amanhã
No buxo de um qualquer lodo
Indiferenciadas
As nossas pegadas

Só as glicínias
Têm memória

Só as abelhas
Zumbem

Só as crianças
De colina em colina


XVIII

Em cinzas
Depois do grande salto
Dirigimos as cartas
À existência que nunca se viveu


XIX

Ao princípio a guerra e a paz
Dividem-se pela fenda
Depois
Identificam
O atalho


XX

Que uma locomotiva
Transporte um cordeiro
Que a rama branca resgate
A nossa paz
E que tudo isto aconteça enquanto viajamos

Habitantes do humano

 

Teresa Bracinha Vieira

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ALBERTO PIMENTA

  


tornei a sonhar com o homem

tornei a sonhar com o homem
que se debruça sobre ti
mete as mãos 
na tua vagina
tacteia empurra segue sobe
chega ao teu coração
arranca-o com as unhas
trá-lo para fora com um fio de pesca
embrulha-o num pano
afasta-se com ele
o sangue não pára
tu ficas a ponto de morrer
com muito estertor
mas não morres

tens razão
eu não conseguiria
satisfazer-te tão intensamente
como o homem dos teus sonhos


again i dreamt of the man

again i dreamt of the man
who bends over you
his hands
in your vagina
he touches pushes presses on upwards
reaches your heart
with his nails rips it out
pulls it with a fishing line
wraps it in a cloth
takes it away
the blood doesn’t stop
you are nearly dead
gasping
but you don’t die

you are right
i wouldn’t be able
to satisfy you as intensely
as the man of your dreams

 


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese 

 

CRÓNICA DA CULTURA

VINTE POEMAS (III)

  


XI

Ó gente
A vida também tem pálpebras
Sob as quais se pode acostar

Lá, por onde o veado passa


XII

E
Todavia 
As letais partículas 

Flutuam no sudário 

De um poema


XIII
 

Há um abeto que cresce
Para cada um de nós
Enquanto oramos ao Deus

E cresce ele num soalho misterioso

Que indica o imo
Que nos levará a um encontro

Ó Mãe


XIV
 

Quando um corpo cai na vala
Só o amor
Nunca o deixa só


XV
 

Prova
Mas prova que está viva em ti
A raiz
Do sentido

Alegria

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

VINTE POEMAS (II)

  


VI

Que os livros se encontrem
Todos abertos
Pois mesmo que as sirenes alertem
Neles
Braços e beijos

Mais é
Que expõem o transforme das palavras

Entendimentos

Mãos
A voltarem da escola


VII

E quanta vitalidade
Teremos depois da nossa morte
Nós
Mártires

Não submissos


VIII

Quero tanto as trepadeiras do tempo
Enquanto sob alpendres
Todos juntos

A mesa


IX

Estou ao alcance das armas
Nelas me olho e não me procuro
Pouco falta

Para o desconhecido

Em que eu perco


X

Conheço um pomo
Que segura um piar de vida

Enquanto a guerra
Faz mira
Ao que não posso

Nos olhos
Uma medula de paz
Pica o lixo ao lado das galinhas
E ordena-se segundo

A Criação

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

VINTE POEMAS (I)

  


I

Os caminhantes lúcidos
Não são refugiados de nada
Antes
Intimidade de mundo
Em derradeiro esforço


II
 

E os povos também são poeira
Desfalecimento
Finitude

Coragem

Quando se entregam
À cor das arvores


III

As crianças
Que nascem nas orlas das guerras
No exato instante
Em que são paridas
O xaile do precipício
Enrola-as


IV

Mas a paz
Ah a paz
Soçobra
Dentro da canoa
Que no pântano
Não navega


V

Não, não digo adeus
Nunca direi adeus
Conheço bem as lágrimas do ranho
Para que possa dizer adeus

No horizonte

Estará sempre
O chão e o sol

                                             

Teresa Bracinha Vieira

TEORIA DA REALIDADE

HAI-KAI


E digo à flor que se abstenha
De murchar
Que se coíba de morrer

Faria tudo para que me obedecesse


HUMILDADE

O coração não se sabe localizar
Quando tudo é sofrimento
Numa mão ainda aberta, ainda quente
E decepada
Sua razão é regressar
Numa baga de água redonda
E rolar, rolar      


AO POEMA

Um dia terei dimensão
Para ser a hospitalidade inteira
Um dia, naquele dia
Em que ninguém mais receará
Ser abandonado

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

  

De 11 a 17 de abril de 2022.


«Os Poemas» de Gastão Cruz (Assírio & Alvim) põe-nos em contacto com um dos grandes poetas contemporâneos de língua portuguesa.

 

 

“Palavras não existem / fora da nossa voz as / palavras não assistem / palavras somos nós”
Gastão Cruz, A Doença, 1963.


Um poeta que nos deixa, e ficamos mais sós no mundo. Há um poema de Gastão Cruz a que gosto sempre de regressar, uma vez que me recorda o Algarve que sempre conheci, de minha mãe e de meus avós, e de tantos amigos, muitos que já partiram. Quando percorro as ruas de Faro, não só lembro a “Gente Singular” de Manuel Teixeira Gomes, mas também, há muitos, muitos anos, o meu avô a dizer-me que ali encontrava o poeta Cândido Guerreiro. O título, “Faro, 1952”, tem a marca do ano em que nasci, mas lembra-me recordações de que ouvi falar ou que presenciei, ao longo dos tempos. Quando homenageámos em Querença Gastão Cruz no FLIQ, essas mesmas palavras soaram com especial intensidade e brilho: “O café, do outro lado a livraria / essa a meta / da tarde / quando esfria a pele / sem que / frio fique o dia, / as linguagens regressam às cúpulas / de folhas / e os treze noturnos ainda nos esperam…”. Quantas lembranças? E por isso este poema ainda ganha para mim maior sentido, já que é essa memória que aqui se recorda. “… Percorremos a rua / até onde entra nela a aragem da ria / e o café dum lado, do / outro a livraria, / à porta o chapéu largo e a barba / branca / dum poeta do passado”… Assim se ilustra bem a afirmação de Gastão Cruz sobre ser “poeta do real”, singularíssimo, na boa companhia de outros poetas como Sophia, Sena, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão, Armando Silva Carvalho, Fernando Assis Pacheco, Luiza Neto Jorge… De facto, cada um imprime na realidade que nos cerca uma marca especial de crítica e de confronto.


LEMBRAR A POESIA 61
Hoje podemos entender melhor a importância de “Poesia 61”. Não foi um cânone ou uma orientação, mas um encontro, em que houve uma procura de radicalidade por diversos caminhos. Luiza Neto Jorge disse ao “Diário de Lisboa”, em maio de 1961: “Parece-me que entre nós o surrealismo ainda terá razão de ser – como total destruição de cânones bafientos, como reação a um ambiente social rígido”. Sim, há rutura com um certo “discursivismo”, como disse Gastão. E se há prenúncios relativamente a essa atitude, temos de referir os casos de António Ramos Rosa, espécie de padrinho do grupo de 1961, em Faro, com “O tempo concreto” e “O boi da paciência” (em “O Grito Claro”) e do “Poema podendo servir de posfácio” de Mário Cesariny, que encerra “O discurso sobre a reabilitação do real quotidiano”. 1961 foi um ano especial. Os acontecimentos nacionais sofreram aceleração, em virtude da guerra de África. Nada seria como dantes. É verdade que 1958 tinha anunciado esse movimento uniformemente acelerado no sentido da democracia – a candidatura de Humberto Delgado, sob o impulso de António Sérgio, a tomada de posição do Bispo do Porto, o seu afastamento do país, mas também a publicação de “Mar Novo” de Sophia, como grito de alerta, perante a injusta e absurda desclassificação do projeto de João Andresen, Júlio Resende e Barata Feyo vencedor do concurso para homenagear o Infante e as Navegações, em Sagres. E muitos esquecem esse episódio fundamental. Lembro-me de ter sugerido a alguém que relesse o livro de Sophia de 1958, à luz desse impulso de uma genuína revolta. E o meu interlocutor não teve dúvidas. Se relermos a correspondência de Sophia com Jorge de Sena lá está tudo. Reuniram-se então os fatores que tornavam inexorável a liberdade. E era Sagres, e era o Algarve, e era a consciência da democracia que estavam em causa. E era a paisagem algarvia dominada pelo mar, que revelava a personalidade fantástica que domina o filme de João César Monteiro “Sophia de Mello Breyner Andresen” (1969). Frederico Lourenço tem razão quando afirma que é no Algarve que se inicia a Grécia de Sophia.


FORÇA DOS CORPOS E DO DESEJO
Quando lemos “A Morte Percutiva” de Gastão Cruz, ou quando encontramos Fiama, Luíza Neto Jorge, Maria Teresa Horta e Casimiro de Brito, nos textos de 1961, compreendemos o movimento comum, marcado pela energia resultante “do embate entre o corpo que aspira à sua plenitude e um país cercado, onde todos os movimentos são vigiados ou proibidos”. Percebe-se uma visão pessimista, a consciência de uma doença de repressão e de guerra, ligada a uma circunstância pessoal de luto. Contudo, subjacente a esse embate, a esperança tornava-se uma coisa física, como “força dos corpos e do desejo”. E Gastão Cruz em “A Doença” precisa: “A este sítio há de o amor / ainda amor chegar / agora vamos ambos / pelos campos à espera duma dor de que viver”. Eis por que razão o curso do tempo foi revelando nessa atitude não uma escolástica, mas o reconhecimento da coexistência de caminhos múltiplos. “Uma revolta de palavras, apelando a um novo discurso” (para Luíza Neto Jorge).


A LUZ AMADURECE AS PEDRAS E OS FIGOS
Volto a lembrar tudo, deambulo com o estio, ao som da música das cigarras e das palavras de Gastão Cruz (“Os Poemas”, Assírio e Alvim, 2009): “A luz amadurece as / pedras e os figos nos lados dos caminhos / adoça as alfarrobas fende a casca / cinzenta das / amêndoas e desprende-as / varejamos / as que ficam presas de leve / aos ramos; / no armazém da casa amontoadas / descascar as / amêndoas o verão”. Mas também lembro o ritmo antigo, junto de quem conheci e amei: “Na horta atrás da casa laranjeiras / figueiras e uma / romãzeira junto à nora / Às vezes vagarosa a mula com antolhos / rodava toda a tarde / fazendo os alcatruzes despejar / incessantemente água”. É quase perturbador como tudo se assemelha. Estou a ver tudo como se fosse agora. Este Mediterrâneo banhado pelo Atlântico leva-nos muito longe, aos fenícios e aos cartagineses, aos gregos e aos romanos, aos misteriosos povos da língua do Sudoeste. E vêm à lembrança Manuel Viegas Guerreiro, com especial atenção, às tradições e costumes, à memória imaterial, mas também Miguel Torga, sentado em Albufeira, num círculo de amigos, com o doutor Serra, a comentar a política, a gozar o fim da tarde e o luminoso pôr-do-Sol. Quando recordei com Clara Rocha esse tempo, reluziram-lhe os olhos com as recordações.


E volto a Gastão Cruz, a lembrar Sophia e Ruy Belo em “Repercussão” (2004) numa Esplanada do Campo Pequeno (“Não achas que a esplanada é uma pequena pátria a que fomos fiéis?”): “o autor entrara e a presença / dele tinha tornado mais longa a hesitação / entre o sentido e o som ou suprimira-a? / É pouco fotográfica a memória / sonora e uma noite em casa de Sophia / (Que fica dos teus passos dados e perdidos?) / mais do que cada frase, cada pausa / do voo do tempo fizera a suspensão / seria primavera novamente / era talvez em tempo de tormenta / janeiro de 70 mês de febre / um dia só que na memória sobra / (o resto vem do Ruy Belo / Ruy Belo é o poeta vivo que me interessa mais / e é talvez hoje o tempo de tormenta”. Quantas memórias neste regresso às ruas de Faro e ao rincão algarvio, povoados por velhos amigos? E assim ficamos mais sós. Mas as palavras acompanham-nos. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CADA ROCA COM SEU FUSO…


Três poetas, três poemas e a recordação deste tempo, mesmo cheio de incertezas.

Vasco Graça Moura, José Régio e Vinícius de Moraes escrevem para lembrar.
É a memória das tradições e de tantas presenças que agora regressam que merecem lembrança…

«Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados!»
 

Agostinho de Morais


AQUELA FAVA

espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos...
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.

Vasco Graça Moura


NATAL

Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu novo nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, — do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos — não uma vez, mas cada —
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos:
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob escárnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infame.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos
A nossa corrupção.

Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comércio, a tua túnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.

Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, — e te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa Tudo que lhe ofereces?

Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos cala a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!

José Régio


POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes

 

NESTA HORA

 

 

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exilio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

 

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

 

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

 

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

 

Não basta gritar povo
É preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

 

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

 

Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção -

 

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen | "O nome das coisas", 1977  

 

 

ANA HATHERLY: A ROMÃ. DE FRENTE E ASSIM DE DENTRO, AS TISANAS.

 

Poderia haver uma outra solução que não fosse a de abrir a romã. Poderia existir uma maneira melhor de sair do impasse sem que acreditasse que dentro da romã estava a resposta que procurava? Sentou-se à mesa.

 

Pensativamente continuava a olhar para a romã como uma possibilidade. Afinal existiam letras e algarismos nas sementes das romãs: existia aquela cor inconfundível do líquido-sangue que vertia.

 

Um dia, no tabliê de um táxi estava pousada uma romã:

 

- A romã não cai porquê?

 

- Tem adesivo – disse, secamente o motorista.

 

- Mas sabe que a romã é uma peça do mistério da vida?

 

- Ó amigo, estou a ver que o amigo é das religiões do porque tira e do porque deixa, e mais isto e aquilo, e os pecadores e a salvação? Desculpe lá, não acredito em coisas do além.

 

- Não, não. Eu falei do mistério da romã porque se eu fosse crente era a altura de rezar ou não andasse indeciso cá numa coisa importante. Contudo não sou crente, e por isso limito-me a ter medo, medo que dentro das romãs esteja um destino que se atire a mim se as abrir. É estranho isto que digo, eu sei. Esqueça. Não devia ter falado.

 

- Sabe amigo, não percebo nada do que diz, mas coloquei adesivo na romã para ela não cair pois por superstição quero que a romã ande comigo uns tempos, mas assim fechadinha, por dentro são um bocado complicadas, de facto: muitas circulares e muitos entroncamentos…percebe? Até sangue…é estranho é…

 

- E não receia que ela apodreça e já não o possa proteger?

 

- Não, não receio. Sabe, eu nunca vi uma romã podre. Já as vi secas, mas não podres. Elas vão mudando de cor, acastanham, depois atrofiam e de repente parece que já não estão lá: como se dentro delas, ninguém! É giro, parece que entram em metamorfose lá como os bichinhos da seda que o meu filho tem. O casulo fica abandonado, vazio.

 

Voltou-lhe à memória aquela fotografia em que segurava na mão uma romã. Aquela idade fora cúmplice dos segredos das romãs e das razões pelas quais se lhe ofereciam, muito de repente, as decifrações. Para tanto, bastara-lhe a autópsia que fizera a uma romã que tinha na sua mão, e logo, a outra sua mão escrevente, derramara a tinta bem vermelha logogrifos sobre o papel. Agora confirmava que fora como se acontecesse algo aquém do Jogo. Escreveu então que a romã, insinuara-lhe a fragmentação de tudo e de todos, e ele não a entendera. Chegava enfim o momento de ter a coragem de abrir uma romã qualquer apenas para se certificar se poderia chamar literatura às notas esparsas.

 

Lera As Tisanas de Ana Hatherly as tais que constituem uma espécie de cidade-estado construída pela escrita criadora (…) as tais que também são o excelente filtro da vida através da pintura. Lera As Tisanas e ficara numa experiência íntima tão forte que, receava bem não possuir o saber de a gerir como desejava.

 

Estou triste e só. Ligo o rádio. Oiço duas das últimas Canções de Strauss. Sinto de uma maneira profunda a sua fluidez cromática, a sua riqueza orquestral. Os metais soam como vibrantes florestas. A voz da cantora é a de uma grande ave solitária. Sinto-me um lobo sem alcateia. Quando se está muito só o gemido transforma-se em uivo.

 

(Tisana 387 do livro 463 tisanas que em 2006 conteve o conjunto destes poemas, publicado por Quimera Editore)

 

E perguntava-se agora se poderia ainda haver uma outra solução que não fosse a de abrir a romã?, qual a razão de não a deixar assim na sua metamorfose secreta, e, intuir, solitariamente, as lições que lhe iriam decidir a Sorte?, aquela mesma que ilude até tiranos, aquela que julga só saber coisas pelos seus olhos.

 

Teresa Bracinha Vieira