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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE HELGA MOREIRA

  

 

Um facto é apenas um facto


Um facto é apenas um facto se se entende?
É estar de novo entre o passado e o presente?
Que coisas são os mortos da união?
O que foi ter vivido e já não?


Coisas que antecedem outras, por vezes
se outro rumo houver, outra razão,
não serei já tanto o que quiseres
a mim, a tudo, ponho em questão


até ao facto de aqui sentada
na avenida Brasil ensolarada
ao céu aberta, aberta ao mar


entre gente vulgar sou a desastrada
a que cuida e cuida só do olhar
para lado nenhum, qualquer lugar


in Tumulto, 2003


Is a fact just a fact


Is a fact just a fact if understood?
Is it stood again between past and present?
What are these dead who unite us?
What was it to have lived and live no longer?


Things that precede other things, sometimes
if there’s another route, another reason,
I may not be all you wanted of me,
I question everything, myself


even the fact I’m sitting here
in this sunlit Brazil Avenue
open to the sky, the sea


I’m the awkward one amongst ordinary people,
the one who cares and cares only to look
nowhere, anywhere


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE GOLGONA ANGHEL

  


Na sala de leitura da insónia


Na sala de leitura da insónia,
quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.


No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.


Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.


Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida,
- olhai –
sou o novo modelo para o fracasso.


in Vim porque me pagavam, 2011


In insomnia’s reading room


In insomnia’s reading room,
when the rubbish truck is
the only answer to silence
and each instant is a lover
we kill in an opening and closing of legs,
I follow as an echo, down to the station,
the hurried step of the cleaning ladies.
For them, there’s no hell. They just
avoid dreaming.
For us, the 837 bus destination will always be Calvary,
even if I pay for my ticket.


In the slow but sure horizon of an utopia-light,
I spend my days selling my third world
in international conferences and talks.
I show everybody my golden canine tooth,
my giraffe skin,
the bibliography in French.


I write the word empty
after the word waiting.


I lay my hands on my tired knees.
Clean
but badly dressed,
– look –
I’m the new model for failure.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE GASTÃO CRUZ

  


Cidade no Verão


A cidade é igual a uma casa
com os quartos abertos ao calor
do meio-dia, cada corredor
conduz ao mar em brasa, ruas praças
que no ar como salas a luz traça


in A Moeda do Tempo, 2006


City in Summer


The city is like a house
its rooms all open to the heat
of noon, its hallways leading
to the red-hot sea, while in the air light
delineates like rooms its streets, its squares.


© Translated by Alexis Levitin, 2010
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE DIOGO VAZ PINTO


Lisboa –


Janeiro de dois mil e onze –, este
teu céu e dos meses frios parece
embriagar as aves derramando-se
lentamente. A vagarosa luz de tanque
morto devolve-nos o rosto
em cada um dos teus recantos de cansaço
e ângulos feridos onde ainda me acho
acumulando resíduos de uma idade
fabulosa. Os teus náufragos
à superfície destes jardins ácidos
de sombras, sombras que afiam o bico
nas lápides e os espiam, distraídos:
o olhar nesse gozo de ir pelo abandono
sob a asa do fim da tarde.


Cidade entre todas irreal, teu colo
firme resiste, sismo a sismo,
enquanto o sono nos inclina, e vagueio
como por um triste sonho de que
me cansei de acordar. Caminhos
onde teimam flores obscenas, pequenas
flores nauseabundas entre as raízes da chuva
e surdos sons, sorvendo essa luz esquecida
de que sobra um resto e vem separar-me
duas pulsações.


Nos teus cafés ardem, calmos, bebedores
de silêncio / emigrados doutros mundos,
sentados a estas mesas endoidecidas
onde entalharam pássaros, breves
compêndios e rotas que nos levaram
tão longe só para te sentirmos a falta.


Velhos rádios louvam sem descanso
a tua memória, ruínas de melodias,
notas que nos enchem o sangue, a voz,
só sublinhando este terrível encanto,
ecos e presenças deste teu belíssimo
mosaico d’escombros.
Tão perto das palavras, esse frágil
pulso: versos brancos à espera
de tudo. Ânsias, um bater d’asas,
algo que acenda o rastilho destas febres
etílicas, azias geniais.


Um puto desses de que mais gostas
tem uma navalha nas mãos e risca
casulos, retira-lhes a larva que aguardava
a beatitude do voo, e atravessa-as num fio,
ensinando-nos mais qualquer coisa
sobre isso da desilusão.


Vejo coisas, vejo-as mexer pelas tuas ruas
nestes ritmos de súplica, a doce humilhação
de figuras devorando-se umas nas outras
como em espelhos. A menina e moça,
está um pouco velha, mas o seu corpo
ainda é doce, uma leitura demorada
que chega e só fala a estranhos,
ou cala-se, cerra os olhos e, quieta,
parece dançar sozinha. Rara,
cada pequeno gesto quase histórico,
estende o seu fio de Ariadne entre
os teus bairros depredados. Este gosto
a declínio, a fim de império.
Esta hora em que todo o ocidente
receberá de um dos teus loucos
a extrema-unção.


Unpublished, 2011
© Diogo Vaz Pinto


Lisbon –


January twenty eleven – this
sky of yours and of the cold months seems
to inebriate the birds and spread out
at length. The slow light of the dead
pool hands its face back to us
at each of your tired corners and
wounded angles, in which I still find
myself gathering the residues of
a fabulous age. Your castaways
float on the surface of these acid
gardens of shadows, shadows sharpening
their beaks on tombstones, distractedly preying:
gaze that enjoys the abandonment
under the wing of late afternoon.


Unreal city among all, your firm
berth subsists from seism to seism,
while sleep leans on us, and I wander
through a sad dream
from which I’m tired of waking. Paths
where obscene flowers insistently grow, small
stinking flowers among roots of rain and
deaf sounds, sucking in the forlorn light
whose remains live between
two heartbeats.


In your cafés, drinkers of silence / 
emigrants from other worlds
serenely burn, sitting
at crazy tables engraved with birds, brief
compendia and routes that took
us so far only to make us miss you.


Old radios incessantly praise
your memory, melodies in ruins,
notes that fill up our blood, our voice,
just to impress on us your terrifying charm,
echoes and presences of your most beautiful
mosaic of debris.
So close to words, that fragile
pulse: blank verses waiting for
everything.  Yearnings, a flap of wings,
something to set fire to the fuse of these
ethylic fevers, genial indigestions.


One of those kids you most favour
holds a knife and slices
cocoons, pierces the larvae that hoped
for the beatitude of flight, and hangs them
on a string, teaching us something else
about that desillusion stuff.


I see things, I see them move about your streets
in rhythms of supplication, sweet humiliation
of self devouring figures
like in mirrors.  The maiden
has aged but her body
is still sweet, a reading that takes time
and when it arrives speaks only to strangers
or stays silent, closes her eyes and, standing still,
seems to dance alone. She’s rare,
each of her gestures is almost historic
and she pulls her Ariadne’s thread through
your plundered quarters. This taste of
decline, of end of empire.
This hour when all the west
will be given its last rites
by one of your fools.

 

© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE DAVID TELES PEREIRA


Rua Adamczewski


Na distante memória, a estreita rua Adamczewski
contorna o olhar até se abrir em direcção ao cemitério
que fica no cimo da colina, onde as crianças brincam
aos castelos numa árvore sem pássaros.


Aqui a sombra da morte é tão presente quanto a do fim de tarde;
felizmente ainda mal passámos do meio-dia e os velhos
bebem aguardente de ervas no café à espera de quase tudo,
menos do grito de uma flor que aguarda um destino.
Mas eis que ele soa e o nosso tempo altera-se,


como se de ouvido encostado ao chão pudéssemos
associar o triunfo das formigas ao dos nossos antepassados
a caminhar lado a lado pela Rua Adamczewski acima
em direcção ao cemitério, de braços dados, enquanto cantam
Se não são os mortos que nos guardam,
porque é que os deitamos aqui em cima?


In Criatura nº 4, 2009


Adamczewski Street


In a distant memory, narrow Adamczewski Street
goes round our eyes until it opens into
the graveyard on top of the hill, where children play
king of the castle in a birdless tree.


Here the shadow of death is as present as that of the afternoon;
luckily it’s barely past midday and the old folks
drink herb brandy at the café expecting almost anything
but the scream of a flower that hopes for a destiny.
But we hear it and our time is changed,


as if we were able, ear to the ground,
to associate the triumph of the ants with that of our ancestors
as they walked side by side, arm in arm up Adamczewski Street
towards the graveyard, singing
If it isn’t the dead who guard us,
why do we lay them there?


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE DANIEL JONAS

  


Opacidade


Estúpido outono

a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.


E estas árvores são também

impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.


Estúpidas árvores: cada copa

um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.


Ou este outono é só

uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!


in Os fantasmas inquilinos, 2005


Opaqueness


Stupid autumn

imposing its rust on everything,
arthrosis conquering the hinges
and the spirals from
giddy screws
like in an old hardware warehouse.


And also these trees are

impossible: trees
like vans with their flying
canvas covers, grinding
the great pain
of change.


Stupid trees: each top

an entanglement of wires,
a public electric installation
out of Calcutta, smelting
the sky, fraying
its canopy.


Or this autumn is just

a concrete mixer
regurgitating its dizzy slime.
Stupid autumn. And
what a misconstruction
to take my eyes for
a building plot!


© Translated by Ana Hudson, 2010

in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE BERNARDO PINTO DE ALMEIDA

  


Teoria Estética

Se pouso a mão sobre a tua pele,
imediatos acidentes acontecem: flores
brotam, inesperadas, terramotos,
incêndios, talvez revoluções,
vertiginosas mudanças do clima, atrasos
nos horários dos transportes, gente
urgente de beijar-se nas ruas. Isso
já vimos: o explodir solar das coisas
certas, a estrada abrir-se ao coração
de tudo no princípio. Isso é a tua pele,
que a mão apenas pousa sente táctil
de paisagem de carne jamais vistas. Por elas
são os teus olhos que regressam, dois
lagos fundos, dois faróis febris
cortando a noite, por muito que Adorno
tenha dito que a poesia lírica já não cabe
no mundo. Se Adorno, ele mesmo,
tivesse tocado na tua pele, desceria
da funda convicção e pediria aos poetas
que dissessem uma outra vez o mundo
tal qual nela recomeça. Árvores nascendo
do milagre tímido do seu estremecer,
rios que correm da fonte assim
teus olhos se levantam. A imensidão
tangente ao mar quando te moves
lenta, ou hesitas, distraída do teu passo. E
uma lua a erguer-se quando falas,
um pouco mais de noite quando partes. Se
pudesse habitar-te, como no declive
de um monte se erguem casas,
ou junto a uma praia sossegada,
um pescador absorto observa o mar,
se soubesse cingir-te tal o orvalho à flor,
pela manhã, ou ao fruto a mão
de uma criança, eu iria por caminhos
apressados, e fazia de ti o meu país. A
terra prometida onde voltar e onde
erguer com tempo a minha casa. Mas
eu olho. Olho em volta e vejo
que não estás. Tudo era só sonhar-te
e despertar é compreender em mim
abrupta a ilusão da fantasia. Levanto
a mão inconvicta para o lado, à procura
na estante sempre fixa da Teoria
Estética. E folheio-a distraído
no mais lírico desgosto de existir.


in Negócios em Ítaca, 2011


Aesthetic Theory

If my hand touches your skin,
instant accidents happen: unexpected
flowers bloom, earthquakes,
fires, revolutions perhaps,
sudden climate changes, delays
in train times, people
urgently kissing in the streets. We’ve
witnessed it: the solar explosion
of precise things, the road opening to the heart
of all beginnings. This is your skin
where my hand, barely touching
it, will feel unknown landscapes of flesh and
from where your eyes come back, two deep
lakes, two restless headlights slicing
the night, regardless of how often Adorno
may have said that lyrical poetry no longer
befits the world. If Adorno himself
had ever touched your skin, he would have climbed down
from his entrenched conviction and asked poets
to tell, once again, the world
that begins in your skin. Trees grow close
to the timid miracle of its tremor,
rivers run from a spring
as you lift your eyes. An immensity
so like the sea when you slowly move, or
when you hesitate, distracted in your pacing. A
moon rises when you speak, and the night
slightly darkens when you leave. If I could
inhabit you like a house perched
on a mountain slope or like a thoughtful
fisherman watching the sea from a quiet shore,
if I knew how to keep you in the morning, as
the flower keeps the dew, or hold you
as a fruit is held in a child’s hand, I would
set off through the hurried ways and settle
in you as in my homeland. The promised
land to which I could return, and where
at length I’d build my house. But I
look. I look around and see
you are not there. It was only the dream of you
and, waking, I realise the abrupt
illusion of fantasy. I raise
my unconvinced hand towards the ever-
lasting bookcase looking for Aesthetic
Theory. I leaf through it, distractedly,
feeling the most lyrical sorrow of being.


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE BÉNÉDICTE HOUART

  


já penélope não sou

já penélope não sou
nem ulisses regressa
mudo de nome noite
a noite ao sabor da saliva
dos meus amantes
de dia troco lençóis
coso bainhas
descanso os olhos
dantes tecia para
enganar a corte que
me servia de prisão
agora chamo-me eu
não tenho estado civil e
na cela que me tem cativa
tornei-me finalmente livre


Unpublished, July 2010
© Bénédicte Houart


I am penelope no more

I am penelope no more
nor does ulysses return
my name changes night
by night to the taste
of my lovers’ tongues
in the day I change bed sheets
I sew seams
I rest my eyes
long ago I used to weave
to deceive the circle
that imprisoned me
now my name is I
I have no civil rights
in the cell that locks me up
I became free at last


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE BEATRIZ HIERRO LOPES

  


OLHOS

Falar tão baixo que ninguém ouça, escrever tão pequeno que ninguém leia, esvaziar tanto os ouvidos e os olhos que me achem sumida no chão que piso. Meu eu ausente, comprando casas de porcelana para minha mãe. Coleccionamos casas, pássaros nas molduras e budas mendicantes, que nos olham além da ternura bojuda de um candeeiro em latão dourado a que a mãe passa o lustre todas as segundas. Não temos casas nem asas. Cristo menino é perneta e dorme na almofadinha de veludo rosado que lhe deram para fazer conjunto na vez das palhas. Não repousa, olha-nos de olhos bem abertos de vidro pintado; nunca pude ter berlindes, pois os adultos tinham medo que os engolisse; mas eu não engoliria os olhos do menino magoado. Embate na noite a minha alma e é possível que a tenha trocado por olhos vidrados a um cristo de duas pernas. Gemer tão baixo que todos ouçam, falar tão silenciosamente que ninguém possa dormir, respirar tão pausadamente que até santos acordem e anjos se evadam dos céus. Que outra forma tenho eu de recriar a tua solidão na minha?


in É quase noite, 2013


EYES

To speak so low no one can hear, to write so small no one can read, to empty my ears and my eyes so that I’ll be found gone into the ground I walk on. My absent self, buying porcelain houses for my mother. We collect houses, framed-up birds and begging buddhas who contemplate us beyond the bulging tenderness of a brass lamp polished by mother every Monday. We have neither houses nor wings. The infant Christ only has one leg and sleeps on the little pink velvet cushion he was given instead of straw. He’s not resting, he’s staring at us through his wide open, painted glass eyes; I was never allowed glass marbles for fear of my swallowing them; but I would never swallow the eyes of the injured infant. My soul hits the night and it’s only possible that I might have swapped it for some vitreous eyes and a two legged Christ. To cry so low everyone can hear, to speak so silently no one can sleep, to breathe so slowly even saints can wake up and angels can escape the skies. Which other way do I have to recreate your loneliness in mine?


© Translated by Ana Hudson, 2015
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ARMANDO SILVA CARVALHO

  


VAZIO NO MEIO DO MAR


Quem ama o tempo como eu nesta manhã de ruídos

que se afastam de mim e me fazem sentir
vazio no meio do mar?
Quem devora este ar tão benfazejo à boca
e ao replicar das ondas
nos ouvidos como sinos de água?


Um tempo que se curva,

com o início nos joelhos dobrados na infância,
na mãe obsessiva,
e vem,
como de onda em onda,
transportando as dores, até este rochedo
que me suga os anos
e morde, devagar, a memória
da vida.


in De Amore, 2012


EMPTY AT SEA


Who loves time like I do this clamouring morning

that moves away and makes me feel
empty at sea?
Who devours this breath of air so mouth soothing,
so wave-like,
water bells to my ears?


A bowing time,

childhood bent knees,
before the obsessive mother,
unfolding,
wave after wave,
carrying sorrow up to this rock
that sucks in my years
and bites, slowly, the memory
of life.


© Translated by Ana Hudson, 2014

in Poems from the Portuguese