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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MIGUEL MARTINS


Parece


Parece
que não vale a pena
Parece
que já não vale a pena
Parece
que já nada vale a pena
Parece
que AQUI já nada vale a pena.


It seems


It seems
it isn't worth it
It seems
it isn't worth it any longer
It seems
nothing is worth it any longer
It seems
nothing HERE is worth it any longer.


© Translated by Ana Hudson, 2013
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MIGUEL CARDOSO


Do início, outra vez


I

Foi esta portanto a furtiva impureza que herdámos
sem saber como, este espaço, este canto assim vago,
estes espasmos desmaiados, este tempo, este mundo,
estas arestas, estes pedaços de terra, estes dramas
de inércia e dentes pouco aguçados, os mesmos
rostos rasos ao chão, estes remorsos, estes cafés
onde nos recompomos das derrotas, este modo
de despejar os cinzeiros, estas tardes, este aclarar
da garganta para nada e os rebuçados amarelos
e doces para a tosse, a lucidez, os oscilantes sons
das campainhas, a satisfação ardente dos líquidos
raros, a gradação de intensidade das lâmpadas,
a acidez dos risos, os envelopes bem dobrados,
e os dias sempre os dias outra vez os dias.


II

Certas flores, as mais esfarrapadas.
O vento também. Ou já o disse?
E coisas que ainda não têm nome.


Aquela impressão quando os olhos fecham.
Arriscaria dizer que é de sempre
Este tumulto no pestanejar.


Um dia terei feito as contas à vida.
Mas julgo que muito se passou atrás das costas.


III

Não nos lembramos bem das canções.
Mas fizemos nosso o seu sussurro obscuro


- será pouco mais que a nossa obrigação.


Em tempos a questão era desmurmurar
os sentimentos, enroscar bem a língua
para saborear todo o amargo e o dormente
e o lento e o cuspo e o abrasivo e o asco.
As gengivas em sangue de tanto remoer.
Chega de tanto.


IV

Tanto mais que nos coube
também a metrologia de coisas instáveis
e de utilidade discutível.


Por exemplo, as nesgas, a palidez granulada da alvorada,
os vários modos de encostar o rosto à almofada e assim
sobreviver ao exílio de vez em quando rindo,
os ímans – ou, mais exactamente, o ponto
indiscernível em que a atracção dos pólos
sossega, por instantes, ou melhor,
em que se fixa no equilíbrio dos contrários
– o recorte dos panos atravessados pela luz
ou as saídas necessariamente de emergência
de um certo quarto onde ouvimos os passos
e nos juntámos à multidão. Os gemidos.


Pois coube-nos a observação das multidões,
também a densidade das esponjas ou o chocalhar
luminoso da face enamorada. Outros elementos,
divisões, categorias.


O verbo que descreve
a antecipação do andamento
que se segue, esse


deslizante verbo


V

A nós coube-nos a desmesura, e as coisas
que nela aprenderemos a incomensurar.


Mais uma razão para termos nos dedos
pontas tão estreitas e tão pouco sábias,
e pálpebras assim, efervescentes.
E tudo isto está ainda por estudar.


VI

Este entrever, este antegosto,
este rosto assim
amachucado entre tantos,
risos até, súbitos
súbitos tambores e sustos,
estes estrondos extenuados
de tão pouco.


Que se fodam os densos mistérios
que a razão nos foi deixando
sobre inumeráveis secretárias.


Temos muito com que nos entreter,
outras penumbras.


VII

Ou nem isso.


Lá se escovam os triunfos anteriores,
Meio desbotados, e se reviram os olhos
a custo. Lá se abrem as gavetas
E se colam as visões a cuspo.


Foram-se amontoando futuros.


O que se poderia talvez traduzir


Há zonas de indistinção onde tudo
se joga em mecanismos
de rigor murmurado e eriçado ânimo.
Dobras, vincos.


VIII

Mas talvez nisto haja subtileza a mais.


E que tal assim:
Eis o mundo.
Eis-nos.
Não chegámos a dizer ao que vínhamos.


Somos muitos e por enquanto dispersos.


Antes de mais
e antes do resto.


IX

Coube-nos começar, mas não do princípio.
Coube-nos amarfanhar todos os mapas
(Ainda que os tenhamos desenhado
a canivete, ao de leve, na palma das mãos).


Pelo que o cicatrizar nem sempre ajuda.
Há nisto uma certa poesia, não muito subtil.
E sempre dá algum estremecimento aos apertos de mão.


É mais ranger de dentes que outra coisa,
lançamento de guitas, cordas, fitas
de toda espécie e alguns ganchos em metal
(de que não se conhece bem o propósito)
para sítios um pouco escuros e adversos.


Quem é que se lembra ainda
para que servem por exemplo os ponteiros
desencontrados nesta armadura de latão?
E por aí fora.


X

Convirá acentuar o quanto isto é ainda o início.
Um início: a par do riso, a mais discreta,
A mais comum das utopias.


in Que se diga que vi como a faca corta, 2010


All over again


I

So this was it, this sly impurity unknowingly
inherited, this space, this vague song,
these fainted spasms, these times, this world,
this edginess, these bits of earth, this dramatic
inertia, these not so sharpened teeth, these same
faces, flat against the ground, this remorse, these cafés
in which we recover from defeat, this emptying
of ashtrays , these afternoons, this throat
cleared for nothing and the yellow and sweet
cough lozenges, the lucidity, the oscillating sound
of bells, the burning satisfaction of rare
liquids, the adjustable light of bulb dimmers,
the acidity of laughter, the neatly folded envelopes,
and the days, always the days, yet again the days.


II

Certain flowers, the most ragged.
And the wind too. Have I said it already?
And things still unnamed.


The feeling as the eyes close.
I’d venture to say this tumultuous blinking.
has been forever with me.


One day I’ll have looked back at my life.
But I believe a lot of it went on behind my back.


III

We can’t quite remember the songs.
But we made their obscure humming our own


– no doubt a little more than our duty.


The matter was once the un-whispering
of feelings, the right tongue twisting for
tasting all the bitterness and the numbness and
the slowness and the spit and the abrasive and the revulsion:
bleeding gums due to so much grinding.
Enough is enough.


IV

So much so that we were also
lumbered with the metrology of unstable things
whose usefulness is arguable.


For instance, the gaps, the grained paleness of dawn,
the many ways the face cuddles up to the pillow and thus
the survival from exile with an occasional smile,
magnets – or, more precisely the undeterminable
spot in which pole attraction
eases up, for an instant, or rather,
in which it grasps the balance between opposites
– the edge shaped cloths against the light
or the inevitable emergency of exits
from a certain room where we heard steps
and joined the crowd. The moaning.


For our share was to observe the crowds,
and also the density of sponges or the luminous
jingle of the enamoured countenances. Other elements,
divisions, categories.


The verb describing
the anticipation of the movement
that follows, this


gliding verb.


V

Our share was the excess and the stuff
we learn to un-measure with it.


One more reason to have such narrow
and little-wised fingertips,
and eyelids with such effervescence.
And all this is yet to be studied.


VI

This glimpsing, this foretasting,
this face so
marred among so many others,
even laughter, sudden
sudden drums and frights,
these bangings so exhausted
from so little.


Fuck the dense mysteries
left to us by reason
on countless desks.


We’ve got a lot to entertain us,
other twilights.


VII

Or not even those.


One may brush up previous achievements,
half discoloured, and roll up one’s eyes
with effort. One may open draws
and just about glue up one’s visions.


Futures kept piling up.


Which could probably be translated
as follows:


There are areas of indistinctness where all
bets are placed on mechanisms
of rumoured rigor and bristled encouragement.
Folds, wrinkles.


VIII

But perhaps there’s too much subtlety in all this.


And how about:
Here’s the world.
Here we are.
We didn’t get to say what we were here for.


There are many of us and so far we’re scattered.


Before everything else
and before what’s left.


IX

Our share was to start, but not from the beginning.
Our share was to rumple all maps
(Though we drew them lightly
with a pen knife, on the palm of our hands).


Therefore, healing isn’t always helpful.
There’s a certain but not very subtle poetry in all this.
But it does bring some excitement to handshakes.


It’s a teeth grinding exercise more than anything else,
a throwing of strings, ribbons, ropes
of all kinds and some metal pins
(whose purpose is not quite clear)
into somewhat dark and adverse places.


Who can still remember
what are unsynchronised
hands for, inside this tin frame?
And so on.


X

It’s convenient to stress how much all this is still the beginning.
A beginning: together with laughter, the most discreet,
the most common of utopias.


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese

 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARIA TERESA HORTA

  


PAIXÃO


Com a paixão faço
e armo
a construir-me no excesso


Apunhalo o coração
enveneno
o peito aberto


A paixão é meu
destino
meu final e meu começo


Morrer de amor
e de amar
é a morte que eu mereço


PASSION


With passion I do
I battle
I undertake my excesses


I stab my heart
I poison
my widely open chest


Passion is my
certain fate
my end and my beginning


To die of love
and of loving
is a death that I deserve

 

© Translated by Ana Hudson, 2013
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

  


Nesse verão...


Nesse verão, o vento despenteou os campos e os barcos
andaram aos gritos sobre as ondas. A beleza excessiva
das crianças arrombou os espelhos; e as raparigas,
surpreendendo a intimidade dos pais, enlouqueceram
nos corredores e foram perder-se, também elas,
na volúpia dos dias. Nas árvores centenárias


rebentaram frutos que inflamavam a concha das mãos
e escorregavam para a boca com a pressa dos nomes
proibidos. O sol queimou as páginas do livro
interrompido na violência de um poema e revirou
os cantos do único retrato que resistira à moldura
do tempo. De noite, os rapazes deitaram-se às baías


atrás das estrelas; e os amantes, incomodados
com a exiguidade dos quartos, foram fazer amor
nos balneários frios da praia e acordaram nas vozes
um do outro. Já não sei o que disse e o que disseste:


o verão desarruma os sentimentos.


in Poesia Reunida, 2012


That summer...


That summer, the wind dishevelled the fields and the boats
yelled over the waves. The excessive beauty
of children burst the mirrors; and the girls,
coming upon the intimacies of their parents, went mad
in the passage ways and sought perdition
in the voluptuousness of days. On the centenary trees


there was a bursting of fruit which inflamed the palms of the hands
and slid towards mouths with the hastiness of forbidden
names. The sun burned the pages of the book
that was halted by the violence of a poem, and bent
the corners of the only portrait that had resisted the frame
of time. At night, the boys dived into the bays


in pursuit of stars; and the lovers, disturbed
by the plainness of their bedrooms, set off to make love
in the cold of the beach huts and woke up
inside each others' voices. I can’t remember what I said or what you said:


summer unsettles the feelings.


© Translated by Ana Hudson with Gabriel Gbadamosi, 2012
in Poems from the Portuguese

 

CRÓNICA DA CULTURA

PORVENTURA VERSOS

5.

  


Não me fugi de ti nem de mim

Senhor
que de tantas graças me confundiste a paz
e isso sei, bem sei, e dessa realidade em mim confusa
me culpei e sem carrego que merecesse, enfim,
fui aos teus braços um dia
para saber de mim.


Estavas tu tão só
e tão sonhador


que falhei
mal vi a tua feliz dor.


Fiz-me então a um caminho
Senhor
àquele que se traçaste para mim, não fora
ainda assim
minha vida percorrê-lo e aqui te digo
que, sem dele ter sabido, afinal ou conhecido
o ardume, ardume
um muito ardume naquele barco de vela areento
e nós nele. 


Tu, tu em mim qual boda paciente
tão comungada 
tão ar-do-vento.


Eu em ti, tão longe.


Nós.


6.

  


E tu
tu no mundo por Deus
pouco ou nada entendeste
filho de quem sabias ser -
qual mostra de vitória - 
e logo te deste

e sim


fugindo para um jugo
mal pressentido
a troco de turva e estranha glória.


Agora amor
a segurança de nós invicta


quebrou-se.


Ao quinto dia ninguém se espera
eis
que o reino da ausência subiu tão alto
que bandeira, essa, sim, dele, tua


é vencedora. 


Teresa Bracinha Vieira


Obs: Revisitação do publicado em 2015

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARIA ANDRESEN


VERÃO ANTIGO


há um odor, um cheiro
entre ti e tojo - figueira


cigarra amendoeira
o passo amedrontado o sol


um cão sentado a mão
um gato leve lento


o crescimento
o mover da tarde


tão álacre o mundo
a espantada fome
a mão


o caminho do farol
pela poeira


in Lugares, 2010


LONG GONE SUMMER


there is a smell, a scent
between the gorse and you - the fig tree


almond cicadas
the sun’s uncertain step


a sitting dog a hand
a cat light and slow 


growing up
the  advancing afternoon  


so eager the world
astonished hunger
the hand


the way to the lighthouse
through the dusty earth


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

 

POEMA DE MARGARIDA FERRA

 

margarida ferra.jpg

 

Escreve sempre que precisares
 
Escreve sempre que precisares de me dizer 
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico. 
Os legumes que trouxe ontem 
não sobrevivem a mais do que uma geada, 
muito menos nós.
 
Escreve sempre que precisares, podes 
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos 
se somos nós ou se somos aquelas 
quatro pessoas que vão à rua agora, 
encontraram a porta certa.
 
 
Escreve sempre que precisares, faz 
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste 
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares 
de mais um postal com selo e carimbo. 
Escreve sempre que riscares 
na tua agenda mais uma morada.
 
Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua, 
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos, 
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar, 
as frases podem desviar deixas decoradas, 
repetidas como as mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.
 
Escreve em vez de costurares. 
Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,
arranhaste sem possibilidade de cura os joelhos, 
os cotovelos e as canelas 
(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).
Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,
os meus soluços nessas curvas 
a mais que não fazes na letra d:
as tuas linhas são rectas, verticais e justas,
as minhas letras são apenas caracteres.
 
Escreve sempre que puderes
só em vez de apenas,
recursos humanos em vez de 
resíduos urbanos. Talvez sejamos mais 
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.
 
Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas, 
nunca trago chaves comigo.
 
in Curso Intensivo de Jardinagem, 2010
 
 
Write whenever you need
 
Write whenever you need to let me know
there is ice on your hands and on the inside of the fridge.
The vegetables I brought yesterday
won’t survive more than one frost,
and neither will we.
 
Write whenever you need to, you may
tell me again that winter never came,
that this year there won’t be any summer,
that we are and are not here because we don’t know
whether we are us or those
four people who are going out now,
having found the right door.
 
 
Write whenever you need, make
a shopping list, a wish list,
note down all the requests you left
in unfinished poems.
Write whenever you need
another postcard with a dated stamp.
Write whenever you strike
yet another address from your diary.
 
Whenever I need it, you’ll write back
in a far-fetched hand which isn’t yours,
much too rounded on the letter d.
Those writings no longer exist,
only I and the postman ever learned to decipher them
(and everybody knows even this isn’t true).
Keep writing.  Whenever I need
sentences that can avoid expressions learned by heart,
repeated like lies,
too worn out to be innocuous.
 
Write instead of sewing.
Even if you knew how, you couldn’t do enough mending,
your knees, elbows and ankles
torn beyond repair
(dancing has always been a remedy out of your reach).
Write that I see your falls in mine,
my sobbing in that excessive
roundness of the letter d:
your lines are straight, vertical and just,
my letters are only characters.
 
Whenever you can,
write lonely instead of only,
human resources instead of
urban residuals.  We are perhaps more
than just people, we are different sizes
and do not fit into our designated places.
 
Write whenever you need a door
through which you can fit,
I never carry any keys.
 
 
© Translated by Ana Hudson, 2013
in Poems from the Portuguese

 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARGARIDA VALE DE GATO

  


Mulher ao Mar


MAYDAY lanço, porque a guerra dura
e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
suga a fissura, uma falta - não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, fará a onda em ponto
lento um manto sobre o afogamento.


in Mulher ao Mar, 2010


Woman Overboard


MAYDAY I break out: the hard war endures;
empty is the vessel from which I part -
it slacks in the deep, bored by the sway,
a leaking slit, a lack - not in the least
a cork pail with pores made to drift.
I specify: it's terracotta, it cracks
and I am sparse in dense fluidity.
Too late, I know, help will come, if ever
so feebly I flash in obscurity
and the writing does not stay on water;
here I lie: hardly an erasure, less
than a seam the wave will slowly stitch
a slumbering quilt over where I sink.


© Translated by Margarida Vale de Gato, 2010
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MANUEL DE FREITAS

  


QUINTA DA REGALEIRA


Por amor, pode-se. Ou quando
se traz no bolso do casaco
um envelope lilás dirigido
a um amigo que não queremos perder.


Por amor - ou por amizade -
pode-se, enfim, descer pela
primeira vez o Poço Iniciático,


sofrer em pleno dia a noite
dos túneis que nos devolverão à luz;
esse chão pisado por americanos
nédios e europeus sem graça.


Mas dispensem-me de razões
e argumentos. O medo foi
o que de mais precioso tive esta manhã.
Ou durante toda a minha vida.


in Cólofon, 2012


'QUINTA DA REGALEIRA'


For love, you could. Or when
you carry in your pocket
a lilac envelope addressed
to a friend you don’t want to lose.


For love – or for friendship –
you will at last, for the first time,
go down the Initiatory Well,


suffer by day the night of tunnels
which will take us back into the light;
this ground walked on by sleek
Americans and dull Europeans.


But spare me reasons
and arguments. Fear was
the most precious thing I had this morning.
Or throughout my whole life.


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MANUEL ANTÓNIO PINA

  


Os livros


É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu” entre nós e nós?


in Como se desenha uma casa, 2011


Books


Is this then a book,

this, how shall I say? murmur,
this face turned to the inside
of something dark that doesn’t yet exist,
that if touched
by a suddenly innocent hand
opens helplessly
like a mouth
speaking in our own voice?
Is this a book,
this kind of heart (our heart)
saying ‘I’ between we and us?


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese