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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RUI LAGE 

  


Auto da horta destruída


Que triste, país, é a moral
da fábula campestre
que longos séculos nos deste
a ler – flautas e penhas,
rios e fragas, acaso
aproveitaste, pastor? Acaso,
velho, te acharás menino
a caminho da horta depois
de abertas as comportas?
Quem te virá demandar
cheiros para a panela?
Ficas viúvo, país, e até que falem
de novo os animais, o teu luto
dá pelo nome de turismo rural.
Fábulas contadas, sobra
a metade mais salgada
e pífia de Portugal:
a banhos vai, com espuma
e crescidas onda pela cinta avança
mas perde o pé, e às arrecuas
se firma no cómico areal,
veleiro roto, crustáceo,
heróico baixio, obesa
prancha ocidental.


in Corvo, 2008


Tale of the ruined vegetable patch


How sad, o country, is the morality
of that rural fable
you gave us to read throughout
the centuries – flutes and rocks,
ravines and rivers, did you, by any chance, shepherd,
reap any benefit? Will you, old man,
find, youthful, your way
to the vegetable garden
after the lifting of the sluice gates?
Who will come in search of
aromatic herbs for the pot?
You’ll be widowed, o country, and till
animals speak again, your mourning
is at eco-tourism’s beck and call.
All said and told, what is left
is the most salty and sorry half
of Portugal:
it heads for the seaside
and braves the waves
but, powerless to beat the current,
beats back to the sands in comical haste –
bottom-holed hulk, crustacean,
heroically sandbanked, bloated
Western surfing board.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RUI COSTA  

  


Os turistas


Estes são os turistas e vêm da Grécia
para me ver.
Não sabem que estou extinto
há um milhão de anos
e que me transplantei no vértice de uma
estrela perdida no futuro
luzindo à nossa imagem.
Eis os turistas, com suas rodas de fogo,
como eles chegam afoitos
e estacam diante das pedras
desta cidade que apodrece junto ao rio
porque não sabe distinta forma de amar.
São os turistas,
eles limpam as unhas às gaivotas
e comem pasta de atum
enquanto apertam as sandálias,
e olham para mim,
e levantam-se com o saco a tiracolo e
empunham o arpão
e perguntam se eu sou Herodes e eu
respondo-lhes que não,
nem Platão,
nem o seu vizinho acidental que
dominou a Lídia,
nem o cavalo que decidiu morrer para
ocultar a fuga do Mestre rumo a estâncias
balneares que não devem ser menosprezadas,
mas que posso carregar, sim,
no botão da máquina fotográfica,
e eu caminho os passos necessários e
diante dos séculos que o universo
não contempla
decepo-lhes a cabeça – e volto
para junto de mim
enquanto eles começam a escovar
o cabelo das gaivotas
e entrando num tubo que César
construiu caminham às cegas
para bem longe
da cidade que apodrece junto ao rio.


in Mike Tyson para Principiantes, 2012


The tourists


These are the tourists and they come from Greece
to look at me.
They don’t know I’ve been extinct
for a million years
and that I’ve set off on the point
of a star lost into the future
and twinkling in our own image.
See the tourists, with their wheels on fire,
how boldly they land
and halt in the face of the stones
of this city rotting by the river
ignorant of another way to love.
The tourists,
they clean the seagulls’ toenails
and eat tuna paste
while they buckle their sandals
and look at me,
they stand up with their shoulder bags and
hold harpoons
and ask me if I’m Herod and I
say I’m not,
I’m not Plato either,
nor his accidental neighbour who
conquered Lydia,
nor the horse that decided to die to
hide the Master’s flight towards some seaside
towns that should not be underrated,
but that yes, I can press
their camera button,
and I take the necessary steps and
before the centuries the universe
doesn’t contemplate
I cut off their heads – and return
to myself
while they start to brush
the seagulls’ hair
and walking into a tube built
by Caesar they blindly walk
far and away
from the city that rots by the river.


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RUI CÓIAS 

  


Hoje, à hora em que o sol descai…


Hoje, à hora em que o sol descai nas hastes secas dos ulmeiros,
william sentou-se comigo no paredão do cais.
Ajeitou os óculos, virou-se para o prolongamento da costa, mais
visível, do ponto em que estávamos, na direcção de rosses point, e falou:
“e se te disser que as amamos e elas não sabem?”
Deteve-se nos montes, na sua erva rasa que da escarpa acomete ao oceano,
e permaneceu a seguir-lhes as sombras, a completá-las com fantasias dóceis,
como nas manhãs em que, cabisbaixo, seguia os nevoeiros de drumcliff.
“E se te disser que não entregues o coração completamente;
aquele que todo o coração ofereceu tudo acabará por perder”.
Inclinou-se, a madeixa caiu-lhe na testa, tal a traçara o pai para o retrato,
e os seus vinte e poucos anos escoaram, o rosto desuniu-se, perdeu o ângulo
para revelar-se como o ventre ruinoso de uma casa sob a fachada colorida.
E à hora em que os quintais se abriam à vizinhança, em sligo,
onde por acaso só ao redor da baía o mar adensa as casas, de resto nítidas,
william confessou que nada descobrira, que em tudo se enganara e
tudo era um logro, por muito que nelas os suaves lábios o desmentissem.
Depois estendeu-me a mão e levantou-se. Pediu para caminhar com ele.
Levou-se à clareira onde na infância esgravatava a terra à procura das raízes
e sentira, sem ninguem ver, um empurrão nas costas, num domingo de tempestade.
Conheço quem todo o coração deu e perdeu tudo. Mas elas não sabem,
elas não sonham que de beijo em beijo se irão sempre consumindo.
Mais tarde, soube-o, partiu. Tal como ela havia partido, ao chegarem as
primeiras chuvas de setembro quando por um par de vezes passou no canal
e expulsou os quatro pássaros, os quatro beijos dos seus ombros.
Soube-o que jamais seguiu os muros de pedra e a arquitectura das torres,
contornou os afluentes e os fortins das ilhas devastadas,
sem por um dia deixar para trás, por entre as canções e os prenúncios,
os seus olhos bronzeadores dos ulmeiros, os seus pássaros nos ombros.
E william, que com os anos se foi tornando distintamente leve, harmonioso,
nas vésperas de flanquear a branca porta quadrada sob os gonzos, ao entardecer,
voltou a sentar-se comigo como à vinte e poucos anos na baía de sligo,
à hora em que do outro mundo de além mar, de sete em sete anos,
ela aparecia sob as ondas das ilhas fabulosas, nos areais da terra encantada,
e lhe entregava o coração para que nele poisassem os quatro pássaros
e os dois pudessem despedir-se com quatro beijos.


in A Função do Geógrafo, 2000


Today, at the hour the sun drips…


Today, at the hour the sun drips from the dry elm branches,
william sat next to me on the brakewater wall.
He adjusted his specs, turned towards the coastline, the most
visible from where we stood, in the direction of rosses point, and spoke:
‘what if I told you we love them and they don’t know?’
His gaze paused on the hills, their flat grasses leaning over the cliffs to the sea,
and followed their shadows, contemplating them in docile fantasy,
as on the mornings when, dispirited, he followed the drumcliffe mists.
‘What if I told you not to hand over your whole heart;
whoever offers his whole heart will end up with nothing’.
He bent slightly down, his hair covered his brow, just as it had been drawn by his father in the portrait,
his twenty something years slipped away, his face cracked, losing its angle
to reveal itself as the ruined entrails of a house with a colourful façade.
And at the time when the backyards were opened to the neighbours, in sligo,
where by chance the sea thickens the houses, nevertheless distinct, around the bay,
william confessed he had discovered nothing, he had mistaken everything and
all was a sham, no matter how often this was denied by soft lips.
Then he gave me his hand and stood up. He asked me to walk with him.
He took himself to the clearing where in his childhood he had scratched the earth for roots
and where on a stormy Sunday , while seeing no one, he had been pushed from behind.
I know who gave his whole heart and lost everything. But they don’t know,
they don’t imagine that from kiss to kiss they’ll be consumed.
Later, knowing, he left. Just as she had left, with the first
September rains when she went by the canal a couple of times,
shooed away the four birds, the four kisses from her shoulders.
He knew he had never followed the stone walls and the towering towers,
trailed the tributaries and the small forts of the devastated islands
without having left behind for a single day, among songs and presages,
her elm-tanning eyes, her birds on the shoulder.
And william who, as the years went by, became distinctly gentle, harmonious,
just days before he flanked the white square hinged door, as evening fell,
sat again with me like twenty odd years ago on the sligo bay,
at the time when from the other world across the sea, every seven years,
she would appear under the waves of the fabulous isles, on the sands of the enchanted land,
to hand over her heart so that the four birds could land on it
and they could kiss four times goodbye.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RICARDO TIAGO MOURA 


(medida)


contar palavras pérolas palavras
a serem verdade: vaidosas
quedas demoradas
sequências paradas
de passos que não mediu
todo o século
passado
é demasiado novo
para contar comigo
contigo comigo: alguém
que tropece na música
das esferas: silencioso
alguém que desligue
esta humanidade
de contar
cortar
acordar palavras pérolas palavras


2016, dispersos
© Ricardo Tiago Moura


(measure)


recounting words pearls words
if they are true: vain
lengthy falls
sequences of steps
that stalled unmeasured
by the whole of last
century
too young
to count me in
with you with me: someone
stumbling on the music
of the spheres: someone
silently disconnecting
this humanity
from recounting
cutting
awakening words pearls words


© Translated by Ana Hudson, 2020
in Poems from the Portuguese 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RICARDO MARQUES 

  


Parténon


Quando Elgin
chegou a Atenas
para defender
os gregos
de si próprios
e dos turcos

olhou para todo
aquele mármore
e pensou que
tinha de começar
por ali:

toda a barbárie
é afinal puro
pragmatismo.

2016, Ruinenlust


não (edições)
© Ricardo Marques


Parthenon


When Elgin
arrived in Athens
to defend
the Greeks
from themselves
and the Turks

he looked at all
that marble
and thought
he had to start
there:

in the end
all barbarism is pure
pragmatism.


© Translated by Ana Hudson, 2020
in Poems from the Portuguese 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RENATA CORREIA BOTELHO

  


o gato


o gato espia do telhado
a vida a partir
em cada comboio que passa,
o tempo que se arrasta
na dor metálica dos carris.

é feriado nas mãos,
trago uma canção triste
e o teu rosto no bolso.


in Um Circo no Nevoeiro, 2009


from the roof


from the roof the cat spies
life leaving
on every train that goes by,
time trailing
on the aching metallic rails.

i hold a holiday in my hands,
a sad tune and your face
in my pocket.


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RAQUEL NOBRE GUERRA

  


Sorrio aos mortos e enterro os vivos


Sorrio aos mortos e enterro os vivos
como um objecto escuro
por que rodaram mãos e jeitos de luz.

Vivo como se não estivesse aqui
roupa leve como na vida.
E vou da primeira à última batida
na respiração de um pulmão doido.

Lê assim

podia arder a uma pouca distância de ti
nessa praceta que é um poema teu
e as coisas voltariam a mim, meras,
como o ser transportada pelos dias
mas cairei por aqui.

Meu amor

Porta no trinco e nada nas mãos.
Há muito que é tudo o que resta.


2016, Senhor Roubado
Douda Correria
© Raquel Nobre Guerra


I smile at the dead and bury the living


I smile at the dead and bury the living
like a dark object
well handled in beams of light.

I live as if I weren’t here
lightly dressed for life.
I’m carried from the first to the last beat
in the breathing of a crazy lung.

You can read as follows

I might burn not very far from you
on the little square of one of your poems
and things would be returned to me, mere,
as if I were being carried by the days
but I’ll fall right here.

My love

The door on the latch and empty hands.
For quite a while that’s all I’ve been left.


© Translated by Ana Hudson, 2020
in Poems from the Portuguese

A VIDA DOS LIVROS

  
De 8 a 14 de abril de 2024


Nuno Júdice é, no panorama da literatura portuguesa, uma referência fundamental que o futuro se encarregará de valorizar cada vez mais.


LER POESIA – CELEBRAR A CULTURA
Na celebração do Dia Mundial da Poesia, que teve lugar no Centro Cultural de Belém, escolhi para a maratona da leitura, um poema de Nuno Júdice que recorda as origens algarvias, mas também lembrei a evocação dessas paragens da autoria de Miguel Torga, regressando ao dia já distante em que aí encontrei o Mestre. E, por um momento, vieram-me à memória os pioneiros, António Mega Ferreira e Vasco Graça Moura, que iniciaram esse hábito salutar de leitura, em nome do culto da Poesia. Li “Estrelas”, publicado em Pedro Lembrando Inês, e senti um sentimento de gratidão, pois o Algarve que ali está representado é a saudosa terra que a poeta definia como o lugar que afirma as pequenas marcas do seu carácter único. “Desfaço nas mãos, os figos / fugazes de setembro, enquanto o seu leite / escorre pelas folhas verdes que / os envolvem. Esses figos, que me traziam / em cestos de vime, eram mel na boca / que os saboreava. Secos iam parar / aos frascos fechados para o inverno, de onde / os tirava para meter no bolso, / antes de sair. ‘O que tens aí?’, perguntavas-me. E /eu passava-te para a mão um desses figos, e via / como o abrias, chupando os seus grânulos, / e passeando na boca a amêndoa que / o recheava. Onde estarás ?, pergunto. Poderia / ainda hoje partilhar, contigo, um / desses figos do inverno? Ou o seu leite secou, / nos cantos dos lábios, roubando-te / as palavras, e o húmido murmúrio / do amor?”.


Num tema aparentemente tão simples, está toda a grandeza do poeta e da sua atenção. Nuno Júdice seguiu o melhor lirismo, que vem dos trovadores, desenvolve-se nos grandes cancioneiros e culmina na herança inesgotável camoniana e em tudo quanto se lhe seguiu. Um pormenor do quotidiano, o figo, maduro e seco, e o diálogo da amizade e do amor, ingredientes indispensáveis à compreensão da vida. António Carlos Cortez acaba de publicar Um Canto na Espessura dos Textos – Leituras da Poesia de Nuno Júdice (D. Quixote, 2024). Em boa hora encontramos aí a expressão viva, do que para o poeta é mais do que um balanço ou do que uma homenagem. É a demonstração da relevância de uma figura maior da nossa literatura, em confronto com os nossos maiores. Afinal, a justa projeção internacional que Nuno Júdice alcançou corresponde a muito mais do que uma afirmação individual, para ser uma fecunda manifestação da cultura da língua portuguesa além-fronteiras.


UMA NATUREZA VIVA
E ouvimos o discurso direto do poeta: “Quando começo um poema nunca sei para onde estou a ser conduzido. Há muitas formas de encontrar linha de desenvolvimento, umas vezes lógica, outras mais contraditória ou paradoxal, mas o que é comum é o modo como o poema se fecha a si próprio, quase sempre de uma forma inesperada que surpreende através de várias formas, desde a ironia até esse encontro como o que posso chamar uma transcendência que obriga a ler o poema e a reinterpretá-lo. O que importa é a surpresa no final, que subverte ou transforma o que vinha antes”. De facto, para o autor não pode haver Poesia sem passado e sem memória. Todavia, a memória não vem apenas da experiência pessoal, mas de uma poesia perene, dos poemas lidos, das situações próprias, mas também da partilha de experiências. E então a memória reinventa-se, como na genial lição de Eduardo Lourenço, na revisitação de Fernando Pessoa sobre a falsa influência de Walt Whitman na “Ode Triunfal” e a verdadeira repercussão do americano em Caeiro, numa inversão de termos, que reinventa a unidade da criação poética de Pessoa…


“O título é a última coisa que aparece quando estou a compor um livro (confessava a António Carlos Cortez, num diálogo recente, de 2023). Tem de conter em simultâneo uma síntese, mas também a forma como vou distinguir um livro de outro, encontrando essa ‘personalidade’ que o distingue”. E se falamos de passado e de memória, importa enfatizar o necessário diálogo com as diversas artes. As experiências de Berna e depois de Paris permitiram ao poeta desenvolver uma relação forte com a pintura, os museus, os artistas com quem conviveu, os livros de arte que escreveu, de Manuel Amado a Graça Morais, de Jorge Martins a Júlio Pomar, que conferiram à poesia de Nuno Júdice um lado visual, que se tornou paradigmático. Como ele disse ainda: “Não há poesia sem imagem, tal como não há poesia sem ideia (embora no meu caso a filosofia seja algo mais interrogativo do que explicativo)”. No fundo, para Eduardo Prado Coelho, estávamos perante um poeta da imaginação, que esclarece, não se considerando neorromântico nem surrealizante. É verdade que há, sem dúvida, a imaginação, mas também “uma razão que inscreve essa imaginação não num plano delirante (…), mas numa dimensão que vai buscar uma lógica nem sempre previsível no início do poema para criar uma surpresa e uma transformação na forma de ver a realidade”.


O CULTO DA PALAVRA
“Desde o início (continuamos a ouvi-lo) que o poema longo faz parte da minha poesia. Isso deve-se à leitura de Campos, de Caeiro, de um Eliot ou de um Pound, mas também de poetas franceses como Saint-John Perse. E resulta de uma necessidade que, nesses anos 60, senti de transformar a escrita poética numa forma de narrativa, ou conto (o Jorge Luís Borges é essencial nesse processo)”. Há aí, assim, a rejeição da poesia formalista, que se empobrece e esgota no processo da sua invenção…  Nesse ponto Antero de Quental e Fernando Pessoa têm um papel fundamental. Antero reconcilia-o com o soneto, e reforça a força da ideia e do pensamento que sempre atraiu Nuno Júdice.  Pessoa transforma a poesia em ficção e o final de Antero corresponde a uma transformação ficcional “naquele banco onde se suicida de uma forma perfeitamente encenada”. Deste modo, “memória, imaginação e ficção são partes essenciais da criação poética, mas se na sua origem não se encontra uma experiência, uma relação próxima com a realidade, o poema soa a vazio, a falso”. E o certo é que a poesia se torna não só uma forma de resistência, mas também de sobrevivência. E no diálogo que temos vindo a seguir, Nuno Júdice considera-se beneficiário de um privilégio – “nasci em Portugal e o país pese a essa tendência masoquista da nossa ‘inteligência’ para nos autodestruir, é uma exceção que permite respirar um pouco melhor quando olhamos o mundo. E tem uma grande história literária e paisagens e espaços únicos”… Essa é a natureza viva que constitui matéria-prima de um autor de exceção, cuja descoberta é ainda inesgotável.   


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE PEDRO TAMEN


Lázaro


Que lhes direi agora?

Querem saber isto e mais aquilo
e eu, Amigo, embaraçado
– porque me deste a vida
mas a memória não.

Bem podem cirandar minhas irmãs,
falando alto, preparando o banquete,
mas não calam as perguntas
que não têm resposta.

Sinto-me sufocado:
que lhes direi agora,
se foi tão indiferente
entrar como sair?
Já nem sei afinal
se foi melhor assim.

Que lhes direi agora?


in Analogia e Dedos, 2006


Lazarus


What shall I tell them now?

They want to know this and that
and I, Friend, am embarrassed
– for you gave me life
but not the memory.

You may well bustle, my sisters,
talking loudly, preparing the banquet,
but unanswered questions
cannot be silenced.

I’m suffocating:
what shall I tell them now,
if it was so meaningless
to go in and to come out?
After all, I don’t even know
if it was all for the best.

What shall I tell them now?


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE PEDRO SENA-LINO 

  


podes levar os dias…


podes levar os dias que trouxeste
os pássaros soterraram agosto
e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue
podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois
daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada
donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido
não é tarde demais para uma manhã
que foi a enterrar em tantas noites
as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca
podes levar os dias que trouxeste


in zona de perda – livro de albas, 2006


you can take back…


you can take back the days you brought
birds buried august
and a rootless man through the window
blinds the sea he swears to have touched with blood
it could have been love if it hadn’t come
so straight from thirst
a double faced mistrust and arms
turned to deserts
the echo of death resounds in the skin
that makes me see your absence filling the streets
paper tears fall to the ground
and belatedness was never so late
from here where the deaf scream sets
alight the refusal of dawn
from where the skull crushes the heart
a man cuts through the window
his own certainty of having been
it’s not too late for a morning
that was buried in so many nights
the stairs died of thirst
the ground fell into never
you can take back the days you brought


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese