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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CADA ROCA COM SEU FUSO…


Três poetas, três poemas e a recordação deste tempo, mesmo cheio de incertezas.

Vasco Graça Moura, José Régio e Vinícius de Moraes escrevem para lembrar.
É a memória das tradições e de tantas presenças que agora regressam que merecem lembrança…

«Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados!»
 

Agostinho de Morais


AQUELA FAVA

espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos...
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.

Vasco Graça Moura


NATAL

Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu novo nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, — do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos — não uma vez, mas cada —
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos:
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob escárnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infame.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos
A nossa corrupção.

Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comércio, a tua túnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.

Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, — e te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa Tudo que lhe ofereces?

Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos cala a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!

José Régio


POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes

 

NESTA HORA

 

 

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exilio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

 

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

 

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

 

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

 

Não basta gritar povo
É preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

 

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

 

Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção -

 

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen | "O nome das coisas", 1977  

 

 

ANA HATHERLY: A ROMÃ. DE FRENTE E ASSIM DE DENTRO, AS TISANAS.

 

Poderia haver uma outra solução que não fosse a de abrir a romã. Poderia existir uma maneira melhor de sair do impasse sem que acreditasse que dentro da romã estava a resposta que procurava? Sentou-se à mesa.

 

Pensativamente continuava a olhar para a romã como uma possibilidade. Afinal existiam letras e algarismos nas sementes das romãs: existia aquela cor inconfundível do líquido-sangue que vertia.

 

Um dia, no tabliê de um táxi estava pousada uma romã:

 

- A romã não cai porquê?

 

- Tem adesivo – disse, secamente o motorista.

 

- Mas sabe que a romã é uma peça do mistério da vida?

 

- Ó amigo, estou a ver que o amigo é das religiões do porque tira e do porque deixa, e mais isto e aquilo, e os pecadores e a salvação? Desculpe lá, não acredito em coisas do além.

 

- Não, não. Eu falei do mistério da romã porque se eu fosse crente era a altura de rezar ou não andasse indeciso cá numa coisa importante. Contudo não sou crente, e por isso limito-me a ter medo, medo que dentro das romãs esteja um destino que se atire a mim se as abrir. É estranho isto que digo, eu sei. Esqueça. Não devia ter falado.

 

- Sabe amigo, não percebo nada do que diz, mas coloquei adesivo na romã para ela não cair pois por superstição quero que a romã ande comigo uns tempos, mas assim fechadinha, por dentro são um bocado complicadas, de facto: muitas circulares e muitos entroncamentos…percebe? Até sangue…é estranho é…

 

- E não receia que ela apodreça e já não o possa proteger?

 

- Não, não receio. Sabe, eu nunca vi uma romã podre. Já as vi secas, mas não podres. Elas vão mudando de cor, acastanham, depois atrofiam e de repente parece que já não estão lá: como se dentro delas, ninguém! É giro, parece que entram em metamorfose lá como os bichinhos da seda que o meu filho tem. O casulo fica abandonado, vazio.

 

Voltou-lhe à memória aquela fotografia em que segurava na mão uma romã. Aquela idade fora cúmplice dos segredos das romãs e das razões pelas quais se lhe ofereciam, muito de repente, as decifrações. Para tanto, bastara-lhe a autópsia que fizera a uma romã que tinha na sua mão, e logo, a outra sua mão escrevente, derramara a tinta bem vermelha logogrifos sobre o papel. Agora confirmava que fora como se acontecesse algo aquém do Jogo. Escreveu então que a romã, insinuara-lhe a fragmentação de tudo e de todos, e ele não a entendera. Chegava enfim o momento de ter a coragem de abrir uma romã qualquer apenas para se certificar se poderia chamar literatura às notas esparsas.

 

Lera As Tisanas de Ana Hatherly as tais que constituem uma espécie de cidade-estado construída pela escrita criadora (…) as tais que também são o excelente filtro da vida através da pintura. Lera As Tisanas e ficara numa experiência íntima tão forte que, receava bem não possuir o saber de a gerir como desejava.

 

Estou triste e só. Ligo o rádio. Oiço duas das últimas Canções de Strauss. Sinto de uma maneira profunda a sua fluidez cromática, a sua riqueza orquestral. Os metais soam como vibrantes florestas. A voz da cantora é a de uma grande ave solitária. Sinto-me um lobo sem alcateia. Quando se está muito só o gemido transforma-se em uivo.

 

(Tisana 387 do livro 463 tisanas que em 2006 conteve o conjunto destes poemas, publicado por Quimera Editore)

 

E perguntava-se agora se poderia ainda haver uma outra solução que não fosse a de abrir a romã?, qual a razão de não a deixar assim na sua metamorfose secreta, e, intuir, solitariamente, as lições que lhe iriam decidir a Sorte?, aquela mesma que ilude até tiranos, aquela que julga só saber coisas pelos seus olhos.

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - E

 

1

Se se pensa nas razões da vida ela a morte é cabeça velha que labuta
Num ofício em que o tempo finda de rompante
Ou ela não gostasse de se interpor às conversas e impor-se só querendo falar daquilo que chama
Daquilo que está escondido atras da sua língua linha reta que todos cumprem
Quer sejam os do berço do início ou do fim quer sejam os que olharam o mar
Ou os que não conheceram caravelas ou voo ou glote de sal
Alarga-se sim forçosamente o diálogo à morte e ao dirigir-lhe palavra alguém passou a ser outra voz como a daquele verso que Exaurido da cova cantou
Ó morte não mataste tu da vida um lugar de mães nem o poeta no vivo audível nem
O amor que foi único nome de si

 

2

Houve um tempo vivido por detrás das janelas
Houve um tempo aplanado que de tão plano se convertia
Na rampa da fuga quando se sabia que os peixes ajudariam
Ao lance do mar e onde se esperava o barco como uma espécie de salvação
A primeira de muitas que implicariam ofícios vagos e muito sofridos e de novo
O carteiro junto ao portão de ferro entregava a carta por entre as grades
E sorria como uma armadilha ou não soubesse que o remetente
Era uma paisagem aparente nem benigna nem mortal

 

3

Também chega o tempo de cuidar das memórias e das gerações
Que nos ensinaram as cantigas que descobriam o segredo dos ovos nos folares
Quando tudo era tépido antes do meio-dia
E eis que um dia uma flor se suicidou atando cuidadosamente
O caule à corda e ali se deixou estar de olhos abertos à casa
Cheia de luzes presas sob empenas que sustinham estonteadas esperanças
Tateando a nossa pele na vigília ao centro das infidelidades
Mãe minha que não sei se falo de magias ou inocência

 

4

Também se levam nos braços muitos filhos desconhecidos
Infindamente vai-se dizendo com a suavidade do embalo
Que eles devem sonhar com o mar
Com aquele mar sem princípio nem fim e que mesmo quando vento é mar
No sonho e no caminho e até tem pinhal de pinhas e pinhões que adivinham
A hora em que a vida dos afetos que nos dão é bela e pobre
E pedra-insónia feita de cordão umbilical

 

5

Às vezes parece um muro imenso que avança e tapa a estrada
Caminha-nos para o contrário das nascentes e dos comprimidos que nos retiram a dor
Enfrenta-nos com o seu corpo pardo e duro e inclemente e logo te abraço
Amor meu pois que morra eu e te deixe à guarda de um palácio que te fiz
Com mantas de plumas de pássaros daqueles que em ti sempre festejarão
As núpcias por te terem visto nos seus casamentos e tanto bastou
Para criarem aquela canção-périplo que mesmo adormecida ou já não aqui
Eu para ti ela e tu

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - D

 

1

Tudo se cingia àquela estrada solitária numa terra
Inocentemente guardada entre montes por onde caminhei
Com meus pés muito autênticos até ao túnel que nunca me barrou
Antes me ajudava a subir para o comboio da infância
Quando a direção era rumo aos nascentes e o brincar com o que não era eterno
Não ocupava espaço nem dor nem gritos sendo as aves da viagem
Harmonias que nunca se referiam à primeira morte e pelos olhos
À janela o único poeta procriava para a terra a relação dos seres com o aconchego
Nada em mim se desunia e naquele estou aqui não entendi a oscilação

 

2

Pânicos e paz noturnos também se juntam puxados pelo íman
Que une os contrários sem explicar o que está no meio e é borboleta-eu
Numa luta em pleno cosmos em que da metamorfose sou vítima e carrasco
Que aguarda de mim para mim o sinal de que não se resiste ou não tivesse pisado
As minhas próprias asas sem receio de não voltar a recordar o voo
Embora já se desassemelhasse do pulso-ideia que se atreveu em seu dia
De modo nítido e supérfluo máxima diferença de tudo o que se copia
Escrevendo em nome da arte que a Natureza não pôde resistir e infiel ao princípio
Engendrou um invisível fruto-criação

 

3

Ali na savana montou-se a tenda e abriu-se o fogo ruidoso
Aquele fogo que espanta vultos de bichos de tipos vários e trovoadas secas
E vi-me a olhar o lume com luxúria sentindo as chamas carnais
A alertarem-me quando pegaste na minha mão e eu pedi uma verdade
Para toda a vida escavada naquele momento crepuscular
Ainda hoje fecho os olhos e reconheço o tempo e o cheiro e o tato quando convida
Parece que um sonho foi preparado naquela noite como se a vida fosse só uma e una
Pela manhã o poema entregou-se à mesma sorte de sempre
Embrulhado no raiar do dia entregou-se às paredes de todas as portas

 

4

Por fim um poço propício a receber as tristezas maiores
Um poço sem fundo cuja volúpia desmedida era a de sugar todas as lágrimas
Um poço mudo e nu cujo corpo só lhe conhece a terra
Um poço absurdo de tanta perdição e glória e até poder
Um poço-osso presságio de um nada não descodificado e contudo um balde
Descia-lhe pesado e subia-lhe depois assolado de livros que vinham dos livros
Que recebera em diversas formas e ele poço
Arqueólogo do pouco e do mínimo e do maior era todo uma gargalhada de andorinha

 

5

Nas viagens conhecem-se muitas saudades para além do ir do vir e do estar
Procuram-se palavras que se prendam definitivamente às memórias do que se viveu
E as não traia como se tivéssemos estado em locais apenas retratados aptos
A serem moldados com o rolar dos tempos por outras analogias possíveis
Os viajeiros somam e seguem eras em espaços que não têm e ordenam as saudades
Em imagens dizem que esta e aquela atravessou-lhes o tórax ao verem a pedra Vermelha da Austrália mas o macadame das viagens é um amante muito solitário que nos esquece os passos e os viajeiros só estiveram no começo
Sempre num outubro impiedoso os morcegos das memórias roubam-lhes o beijo transumante

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - C

 

1

Também se conhece uma nociva doença do que é verde
Uma doença que ataca até as terras no pousio
Ataca o próprio sal trazido nas ondas do mar
E cinde mistérios até os levar à morte
Antes que as estações dos anos da vida expliquem a necessidade
De se progredir por entre sulcos e vultos de temporais
Por várias razões debruçadas na claridade
Entre as quais o coração se perder em muitas alturas
Por entre arados e leveduras e realidades de vidas falseadas
Quando afinal os barcos suplicavam o embarque urgente
E só o nosso aceno fora de aço

 

2

O chão dos olhos inundou-se pela forte bátega
Quando do horizonte constelado veio a tua mão fechada
O teu ombro vago a estriar-se na tua fala que exortava vésperas cadentes
Afinal o lugar de ambos um reboco um talhão de obra a soro
A nossa casa devoluta e transferida e segura
Tão só por uma ossatura vagamente viva
Trave mestra em que sempre acreditei e sob a qual tanto mas tanto
Me tens amado

 

3

É preciso infinita coragem para procurar no poema
O testamento da alma e expô-lo aos olhos que o visitam
Atravessando-o por onde eclode excessivo quando envolto em si
Sem freio já nem pode recolher repouso ou medo ou debulho
Deixando-se sim possuir e consumir qual miradouro que se despenha solícito
Ao fascínio de quem lê a viva solidão entre coisas e parte delas
Já defronte e misturadas não turvas mas definidas
Saídas de muito dentro de um tempo que sobrevoa
A rocha escavada desmesura morada do poema

 

4

De onde procedem as asas ascendentes incandescentes
Que no ar de tudo sustêm terra e curvo céu abaixando-se sobre a leira
Das mulheres que aceitam suas sementes jubilando de alegria
Dormindo posteriormente sem receios sob todas as noites
Em que até mesmo os lobos as visitam e se escutam os ossos a latir
E elas as asas e as mulheres vívidas ante tudo
Já brincam agora com as crianças aos lumes que colidiram juntos na mesma luz
Depois do cheiro acre de um parto de forças e deuses
Em bandos

 

5

Agora a glosa é enorme é um outro livro uma outra distância
Onde se implanta uma outra emergência de entendimento
Do posto e do lugar por onde espreita o pássaro
Agora as palavras da glosa são comentadas num pulmão de verso
Oposto à prosa ou à provação desta poder ser tão ampla
Que uma anotação a descreve arvore não rítmica e essa compreensão
Existe como expressão narrativa de uma carta
Despida folha que afinal em mensagem te enviei
Desenhando para ti te um favo que por harpa te oferecia
Toda a música dos ventos

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - B

 

1

Nenhuma mão foi central
Ao ritmo das noites quando necessitadas
De pontes que as libertassem das cicatrizes
E dos sismos nos peitos em peso de afogamento
Descobriu-se sim e lentamente
A corola da lua com o sol por baixo
O ar sensitivo a insinuar-se 
As coisas a cederem sob uma causa maior
E encurvada eu no exercício da palavra-respiração
Lavrei pão e armas e pássaros enquanto uma diferente paz
Chegou sem manto nem lenço
Ferida tanto quanto suturada
Envolta numa viseira que dava à costa levantada
Sem demandar porto


2

Também evoco falecidos nos cercos dos sítios
Em que viveram e nos amaram e magoaram
Utilizando nós feitos para os recordar para os acolher
Na memória das lutas com chifres e adereços de amor
Tudo em sentires de fuso ou jeito de o usar
Recordando em crónica aqui e ali o mudar da vida
Dos mortos agora sem trono mas chorados e vestidos com mantos
Roupa na qual crescemos e a eles nos igualamos
Em demasia para depois de exumados
Nossa lembrança escarlata


3

Eram doze cavalos muito altos a correrem vinte e quatro corridas
E mais seriam se fossem mortais e expostas as múltiplas feridas
Do chicote inimigo ou ais que em palmas ásperas lhes explodisse o coração
Mas agora não que era verde o destino destes imortais animais
Velozes e dispostos a dar trono não ao sol mas a quem o nomeia
Não aos mudos mas a quem calado escuta
Não ao poema mas a quem o parisse morto e dele a vida soltasse
Quando os doze cavalos muito altos corressem as vinte e quatro corridas
E chegassem ao tempo que não finda
Lá onde e aonde só uma pedra aguarda

 

4

Aquela ilha eventual lugar secreto de encadeados
É uma ilha de leitos fundos que saem da barriga do chão
Regada de muitos nevoeiros para que os estares dos segredos
Sejam protegidos das perspicácias alheias e o lodo se possa fechar
Como quem fecha um rio em barragem para que o pulmão só consigo respire
Aquela ilha é simultaneamente operária de mágoas e raiz de fomes proibidas
Aquela ilha tem o mais perfeito e sinuoso peso de cada um
Que supostamente a separa da vida indivisível
Mesmíssimos passos na tábua que pisa
Reveladores de que o muito dentro da neblina afinal
É uno e condição

 

5

O rosto mostra muito de um choro predisposto
Ao íntimo do amor
Jogo
Tão ansioso que alimenta cio e crosta
Assegurando coragem e desafio num estreito
De beijos cor de evasão do desejo
Deleite que traz tempos infindos tecidos por nós
Numa variedade de vigílias de senso profundo e dúctil
Como pode depois o mesmo rio fazer veios nas correntes
Das dúvidas que nem as guerras atenuam
Ou sequer os bois têm força para lavrar

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - A

 

1

Se hoje amamos é porque muito amámos ontem com e sem razões
Só porque se o amor não for isto de amar mais
De cada vez que se amou
Então o amor não seria esse imenso saber amar
A cada dia que mais não é do que aprender
O quanto amar ontem hoje e sempre
É amar no amor o núcleo lá onde ele
É a pele da alma que nos envolve
Num ar bordado a felicidade e a dor
Permeável e afinal múltiplo de tão fixo
E alimento em nós sua espessura tanta
Qual seara
Nela tu meu tempo
Sempre

 

2

Procuro dentro do que nome não tem
Uma linguagem que me não deixe perdida
Ao atravessar o espaço que conheço e sinto
Não como aparência
Antes realidade a toda a volta de mim e dentro
De uma oficinal consciência que volve nela para se oferecer ao meu canto
Naquele recanto que se nomeia cheio de uma voz
Que sabe que o poema existe lá
Tão impossível quanto coerente de não ser de ninguém
Mas me persegue sem hiato numa infatigável
Alegria

 

3

Se o mais desconcertante for o peso da memória
Que o voo carrega
É sem esforço que o apanho nos braços
Habitando-o num género novo de mistério maior
Que visto e logo permuto roupagens de oiro por aves doridas
Sem berço de mãe nem essências a confluir no piar
Ou o entender do fantástico visceral me não coubesse
No embrião das palavras que principiam e são
Afinal virgens e úberes
No vai-vem de um ângulo

 

4

A noite que digere a noite
Tem uma língua de água com a qual corta
Os muros num sinal anfíbio
De tão bem conhecer mares e pontos cardeais
Tudo tão verosímil como o rio que se inclina
De dentro da ânfora e me submerge com espessura de mar
Nascida escada até onde o ar me colhe
Óvulo é certo
Obsessão afluente
Seguramente
Que não resume tamanho nem conflito

 

5

Sobre o dorso de um sentimento
Eu quero dizer plátanos vitríolos
Quero dizer que nada é sítio e que o dia também nem sempre
É diurno
Ou a ausência não fosse um glóbulo incapaz de se levantar
E quero dizer contorno
Gineceu da flor
Época
Das pedras que sabem contemplar
A morte num estar
No hálito dos poemas não lidos

 

Teresa Bracinha Vieira

PESCADORES DE ÍRIS

 

Pescávamos com búzios à beira do mar

Acedendo à festa dos mistérios das ilhas

Seguros de que aquele animal tutelar

Viria a nós ressurgir e libertar

 

À noite recolhíamos o cabo

Que nos segurava o espirito

E escutávamos o regresso sem dano

De uma visita às origens

 

E os búzios espias

Contavam dos espelhos

Superfícies polidas onde as sereias

Se comparavam na ideia de si

 

Com a que acreditavam que delas tivessem

E logo vaidoso

Cnossos – palácio cretense

Expunha-se ao nosso olhar de dentro e de fora

 

Abrindo as portas do seu labirinto

Expondo saídas, vocalizando tensões

 

E nós

Pescadores

 

Que nenhum ângulo queríamos perder

Acasalávamos ondulando no céu

Como se o desejo nos subtraísse ao peso

Prisioneiros de quem assim se ofereceu

 

Mas era demais 

 

A grande borboleta hipnótica do escutar

- semi-deusa grega que o era de sempre

Saciou-se de nós pescadores

 

Que julgávamos saber pensar os limites

Nimbados do impensável

Nós que só estávamos na história

De corpo e arco a ceder

 

Então libertamos os búzios

E ao largá-los aflorámos seu feitiço

Enquanto a vida breve se eternizava

Ao abrigo do tempo

Ao lado das coisas 

 

E ainda assim

Projeto 

 

Delicado e difícil

 

 

Teresa Bracinha Vieira

LIBERDADE

 

E não é um sonho

Ter-te assim

Meu peixe de ouro

A indicar-me caminhos

Por um cordão umbilical

 

Vem, vem mais perto

E fala comigo

Da liberdade que te leva

Ao teu ninho seguro

 

E possa eu celebrar um mundo

Aquele pelo qual espero

Distinto, matinal, envolto

 

No meu peito peregrino

Com força de luta

Sem medo e sem dúvida

 

De que o jamais

É

 

Afinal uma alegria

União de tetos

Onde

Só tu, só tu, minha obra fantástica

 

Minha companhia

 

Que por ti

Recordarei o dia

Que mal nascia

Quando te perguntei

 

E antes já te vi?

E eu estava aqui?

Há passado e há futuro?

Perdeu-se algo durante a noite?

 

E não é um sonho meu peixe de oiro

Esta passagem na minha vida

Calvário de entendimentos

A história e os atores?

 

E tu?

 

Sempre que a semente rompe a terra

E o glaciar chora

Derretes

 

Pois que aqui nos vês os mesmos

Entre o ser e o nada

 

E ainda assim

 

A vigilância. 

 

 

 

Teresa Bracinha Vieira