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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARIA TERESA HORTA

  


PAIXÃO


Com a paixão faço
e armo
a construir-me no excesso


Apunhalo o coração
enveneno
o peito aberto


A paixão é meu
destino
meu final e meu começo


Morrer de amor
e de amar
é a morte que eu mereço


PASSION


With passion I do
I battle
I undertake my excesses


I stab my heart
I poison
my widely open chest


Passion is my
certain fate
my end and my beginning


To die of love
and of loving
is a death that I deserve

 

© Translated by Ana Hudson, 2013
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

  filipa leal.png

    POEMA DE FILIPA LEAL

 

NOS DIAS TRISTES NÃO SE FALA DE AVES

 

Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.
 
Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.
 
Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.
 
in A Cidade Líquida e Outras Texturas, 2006
 
 
 

ON SAD DAYS YOU DON’T MENTION BIRDS

 

On sad days you don’t mention birds.
You ring up friends and they’re out
and then on the street
you ask for a light as if asking
for a brand new heart.
 
On sad days it’s winter
and you wander off in the cold, cigarette in hand,
burning away the wind and you say
 – good morning!
to the passers-by
after they’ve passed by
and you failed to notice.
 
On sad days you talk to yourself
and there’s always a bird sitting
at the top of things
instead of landing on your heart
and it doesn’t speak to you.
 
© Translated by Ana Hudson, 2011

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE FERNANDO PINTO DO AMARAL

 

fernando pinto do amaral.jpg

 

CARDIOLOGIA

 

Talvez na sua vida o maior estímulo
fosse a curiosidade.
 
Era o motor de tudo: aproximava-se
de todas as mulheres que conhecia,
mas só lhe interessavam os seus corações.
 
Cultivava com método essa obsessão
e tal como as crianças costumam fazer
aos brinquedos preferidos,
também ele queria vê-los por dentro,
saber ao certo como funcionavam,
desfibrar lentamente cada esperança,
dissecar com um rigor quase científico
cada angústia ou desejo inconfessável
até saborear o gosto sempre novo
de cada uma dessas células.
 
Após cada experiência, observava
aqueles corações já desmontados
e, por não conseguir juntar as peças,
guardava-as uma a uma no seu peito.
Era um lugar seguro
e com tantos pedaços de outras vidas
na sua pulsação descompassada
podia enfim acreditar
que tinha também ele um coração.
 
 
in Pena Suspensa, 2004
 

 

CARDIOLOGY

 

The greatest motivation in his life
was perhaps curiosity.
 
It drove him on: he approached
every woman he met,
but he was only interested in their hearts.
 
He methodically followed this obsession
and like a child 
with its favourite toy
he also wanted to see what was inside,
find out exactly how it worked,
to shred each hope in slow motion,
dissect with almost scientific rigour
each anguish, each unavowable desire,
till he felt the ever fresh taste
in each one of those cells.
 
After each experiment, he observed
the dismantled hearts
and, not being able to reassemble them,
he gathered them one by one into his breast.
It was a safe place
and holding so many pieces of other lives
pulsating out of step
he could at last believe
that he also had a heart.
 
 
© Translated by Ana Hudson, 2010

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE FERNANDO EDUARDO CARITA

fernando eduardo carita.png

 

Há no amor…

(Para Paulo e Lídia)

 

Há no amor uma qualquer força mortífera
Que põe os amantes um contra o outro,
Bastará que a libertem;
 
Há no amor uma qualquer força vital
Que põe os amantes a favor um do outro,
Bastará que a mantenham em cativeiro;
 
Há no amor uma qualquer força inumana
Que há-de preservar os amantes
De sucumbirem nas margens um do outro,
Bastará que a coloquem já onde o amor os não alcança.
 
in A casa , o caminho/ La maison, le chemin, 2008
 
 

There is in love...

(To Paulo and Lídia)

 

There is in love some deadly force
That sets lovers against each other,
All it takes is to unleash it;
 
There is in love some vital force
That brings lovers towards each other,
All it takes is to imprison it;
 
There is in love some non-human force
That will preserve lovers
From succumbing to each other’s limits,
All it takes is to place it right where love can no longer reach them.
 
 
© Translated by Ana Hudson, 2011