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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RENATA CORREIA BOTELHO 

  


carta para A.


viste que os dias não passavam
disto, e viste bem. desse lado
do céu, tens o melhor miradouro
sobre a madrugada. se encontrares
o pintainho que sepultámos,
em segredo e lágrimas, no
quintal das tias, pede-lhe o
arco da sua asa nas noites de lua nova.
remete-me, quando puderes,
pacotes de chuva miúda, gosto
de a ver decalcar a terra, fundir-se
com as sementes de milho
no canto da achadinha.

entretanto, vou montando o
telescópio, com as instruções
que me deste. põe-te à vista
e combinamos um gelado a
meio caminho,
à hora da infância.


in Avulsos por causa, 2010


letter to A.


you saw the days were little more
than this, and you saw right. on that side
of the sky, you have a better view
on the dawn. if you ever find
the little chick we buried
in secret and tears, in auntie’s
garden, ask for the
bow of his wings on moonless nights.
send me, when you can,
packets of rain drizzle, I like seeing
it paste the earth, dissolve
with the corn seeds
at the far end of achadinha.

meanwhile, i’ll carry on assembling
the telescope, with the instructions
you left me. you go where i can see you
and we’ll arrange an ice cream
halfway,
in the hour of childhood.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

 

CRÓNICA DA CULTURA

Lembro-me do medo e da felicidade 

  


1.

Também se deita a mão a um galho de água.

De dentro do destino,

e quando já não fazem parte de nós

as lembranças dos dentes de leite,

expõem-se as nossas bagagens de refugiados

que, vento por vento,

dizem da nossa vida


2.

E chegada a altura,

é sempre ela, a nossa força consigo mesma,

rasgando espaços para outras vias, outras inconstâncias,

outras fronteiras, outros rouxinóis atravessando aniversários,

e no que à nossa morte respeita,

o silêncio em todas as extremidades,

o adestrar dos pássaros


3.

Depois nós,

ora assustados, ora confortados,

enfrentamos abismos, saudades e ceifas

que estavam escritas nos livros de culinária que aconteceriam depois das claras em castelo bem firmes,

para que reinasse a paz nas nossas casas, para que a descrevêssemos com as mãos.

Mas o cantor das feridas questionava:

e se nos escapou o principal

brunido pela sua passagem?


4.

De regresso, de regresso atravessamos o Inverno e o esquecimento

e mais tarde

atamos uma corda ao ar

para chamarmos a razão de sermos aves migratórias,

tornando-nos no voo,

lentamente

pó, vertigem

e amor.


5.

E nós, nós de novo agarrados ao galho de água,

mais prontos.

Eis:

eu, passarinho pequenino, pequenino,

no meu lugar forrado com penugem,

porque me olho do lá, do muito fundo,

da escola,

daquele sítio único de onde se veem nascer

os dias grandes


Teresa Bracinha Vieira

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RAQUEL NOBRE GUERRA 

  


Quem nunca hesitou na paragem do 28


Quem nunca hesitou na paragem do 28
e pensou: ali vai a metáfora da minha vida.
E nem por pensá-lo escapou ao açude
de mandar parar tanta gente só por si.
Não é possível ser feliz com tanta correspondência
e entre nós que vamos em itinerários românticos
a cruz na porta da tabacaria é tão-só o aviso
para lavar a cabeça contra o pessimismo.
Se não te aconchega o lumaréu de estar vivo
não te aflijas quando predizem a meteorologia
uma estação no inferno será sempre o destino.


2016, Senhor Roubado
Douda Correria
© Raquel Nobre Guerra


Who hasn’t ever hesitated at the 28 bus stop


Who hasn’t ever hesitated at the 28 bus stop
and thought: there goes my life’s metaphor?
and not even for thinking this, do you manage to escape
the weir that alone stops so many people.
It’s not possible to be happy with so much correspondence
and between ourselves who set off on romantic itineraries
the cross over the tobacconist’s is but the notice
to have your hair washed against pessimism.
If the little fire of being alive doesn’t cosy you up
don’t fret about the weather forecast
a station in hell will always be your destiny.


© Translated by Ana Hudson, 2020
in Poems from the Portuguese

 

CRÓNICA DA CULTURA

Soltos


1
.

Também nos chega o momento em que há que descansar

dos homens. O lume descansa no fogo e a água na água.

Criador e criação dormem

2.

E saibamos entender aquela força calma

de quem escreve um texto e o deixa abandonado

naquela página,

sem o voltar a ler, sem o enviar a nenhum lado.

Eis um lar

quando assim é toda a vida

3.

A solidão conhece bem os sentires dos sem porquê

e as razões de se dizer que ela, descalça,

sem entrar nem sair,

está

4.

Talvez sejamos pouco mais do que areias movediças.

A vida vai-se convertendo,

os deuses

acabam por entrar na fila

5.

E dizer tudo de um outro modo:

dizer um novo nome e semeá-lo

num oásis.

Depois,

colher os brinquedos, despir o bibe

e ser totalmente criança


Teresa Bracinha Vieira

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE PEDRO TAMEN 


23.

E ao fim do meu dia
a matéria de que se faz a minha vida
de novo abandonada
de novo de novo abandonada
pergunta-me silenciosa
se ao apagar da luz
a vida terá princípio.


in O Livro do Sapateiro, 2010


23.

And at the end of my day
the matter of which my life is made
again abandoned
yet again and again abandoned
asks me in silence
if at the going out of light
life will have a beginning.


© Translated by Ana Hudson, 2010

in Poems from the Portuguese 

 

ANA PAULA TAVARES


    Fotografia: Camões Berlim 


A atribuição do Prémio Camões a Ana Paula Tavares constitui um facto especialmente importante, uma vez que reconhece a relevância da língua portuguesa no mundo, e em especial para a poeta, historiadora e antropóloga na cultura dos trópicos. Estamos perante o caminho nómada de um idioma, enriquecido pela riqueza da permanência e da passagem. Ler e ouvir Ana Paula Tavares é compreender a diversidade de experiências que a escritora foi testemunhando. “Os contadores de histórias do meu país (ouvimo-la) sabem como usar as suas línguas maternas para realizarem as tarefas de Deus, a transmutação do corpo em voz, e uma vez voz, repetir o murmúrio da tradição que assim se fortalece e se transforma em pedra de tanto durar. (…) Assim se acumulam notícias e cresce o espanto, que a língua tem dessas armadilhas: amortece a queda, cuida dos viventes, ensinando a conviver com a notícias deste danado tempo dos anos da peste”.

Nascida no planalto da Huíla, Paula Tavares deixou-se fascinar pela região e pela sua vida. Aí foi a sua primeira casa a dois mil metros de altitude, onde o olhar se perdia na distância do horizonte, limitado pela serra. A sua poesia liga-se aos ciclos da vida, à terra, às flores, aos frutos, e está cheia de oralidade, perante o mistério e a diversidade das línguas locais. O ritmo dos poemas é dominado pela cadência dos relatos mais antigos dos comerciantes de gado, que iam e vinham. E o mundo das mulheres fascinava-a. Elas compreendiam bem a vida autêntica. “Filha da savana / A árvore fêmea / Oferece os frutos / Na estação seca / Comida de onça / Remédio de gente / Serve de goma / Ao bairro das oleiras”. Cada poema encerra o entendimento de que as pessoas e a natureza se casam naturalmente. E todos os segredos se revelam aí. “Os livros, as estações do ano, as chuvas e as palavras jazem esquecidas nos baús da memória (diz-nos ainda). Ninguém sabe como ou porquê tal fenómeno acontece e dele só damos conta quando de repente, assim de manso, um acontecimento, uma moda, um ato de vontade, traz à superfície de muito turvas águas a palavra, o cheiro da terra molhada, as goiabas penetrando os poros, saturadas de cheiro, o silêncio breve de uma igreja vazia, o doce calor de uma vela acesa. As línguas francas, próprias ou alugadas, estão cheias desses enigmáticos recursos e engordam à custa de vocábulos repescados, esquecidos, retomados outra vez”. E, lembrando Mia Couto, Ana Paula diz-nos, no fundo de si: “Há que celebrar a viagem a empreender dentro de nós”.

Neste ainda ano do centenário do nascimento de Camões, a escritora faz da nossa língua comum o arado que vai permitir que a terra nos dê o fruto da palavra, que entra no coração da gente. É, pois, com emoção que recordamos o exemplo de Ana Paula Tavares, e que ouvimos as suas palavras, de mulher, lutadora da liberdade, amante da escrita, da língua e da generosidade dos povos que nos unem e fazem compreender as diferenças, sentindo-a como um elo forte que liga as várias margens do Atlântico. E ao lembrar há dias o exemplo da autora de “Sangue da Buganvília” com os confrades da Academia Brasileira de Letras quis exprimir como a língua portuguesa se expande nos quatro cantos do mundo exigindo-nos uma vontade comum de continuar o caminho ao encontro da liberdade e da diferença.


GOM

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE PEDRO SENA-LINO 

  


Deus podes ser silêncio…


Deus podes ser silêncio mas eu uso palavras
faço amor contigo com advérbios
e às vezes violento-te com as frases
que me sussurravas antes
da tua seiva manhã
quando te encosto a mim e tu água
e crias outra e outra língua


in biofagia, 2003


God you may be silence…


God you may be silence but i use words
i make love to you with adverbs
and at times mistreat you with sentences
you used to whisper to me before
your risen morning
when i lean you against me and you are water
you create another and yet another language


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE PEDRO MEXIA  

  


Paráfrase


Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.


in Menos por Menos – Poemas Escolhidos, 2011


Paraphrase


This poem begins by comparing you
to the constellations,
with their magical names
and precise drawings,
and afterwards
a jeu de mots signals
that without you astronomy
is an unfortunate science.
Two metaphors follow
introducing the theme
of light and of the beloved’s
Petrarchan contrasts,
in the sad safe haven
of imagination.

The second stanza suggests
that the diversity of human beings
is proof of both God’s
and your own existence
as it evokes
one by one
the attributes
that partake in your nature
and in the space that creates
your silence.

A hyperbole, at the end,
declares that I miss you immensely.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese 

 

A VIDA DOS LIVROS

  
    De 22 a 28 de setembro de 2024


«Nuno Júdice – O Prazer das Imagens» é uma exposição que tem lugar no Museu de Portimão com curadoria de José Gameiro, Manuela Júdice e Filipa Leal e evoca a relação entre o poeta os Museus e as grandes obras de arte. A mostra foi inaugurada no sábado dia 20 com a presença de Guilherme d’Oliveira Martins.


© Luísa Ferreira


Graça Morais, Júlio Pomar, Jorge Martins, Rui Chafes, Manuel Amado, Duarte Belo e os franceses Bernard Cornu, Colette Deblé e Julie Ganzin, são alguns dos artistas presentes nesta exposição, que inclui poemas inéditos de Nuno Júdice e depoimentos do ator e encenador Luís Miguel Cintra ou de Donatien Grau, Conselheiro da Presidência do Museu do Louvre, para os programas contemporâneos. Igualmente serão exibidos os filmes - documentários “Eco, Nuno Júdice”, de Rita Féria e Teresa Júdice da Costa e “Nuno Júdice, 3”, do Arquivo-RTP, gravado no Programa “Com Todas as Letras”, de agosto de 1975 coordenado por Eduardo Prado Coelho, Manuel Alberto Valente e Manuel Costa Silva.


Ao regressar de Portimão de um encontro fugaz com tantos amigos, recordo o poema “Estrelas”, publicado em Pedro Lembrando Inês, que exprime um sentimento de gratidão para com o Algarve, a saudosa terra que Nuno definia como o lugar que afirma as pequenas marcas do seu carácter único. “Desfaço nas mãos, os figos / fugazes de setembro, enquanto o seu leite / escorre pelas folhas verdes que / os envolvem. Esses figos, que me traziam / em cestos de vime, eram mel na boca / que os saboreava. Secos iam parar / aos frascos fechados para o inverno, de onde / os tirava para meter no bolso, / antes de sair. ‘O que tens aí?’, perguntavas-me. E /eu passava-te para a mão um desses figos, e via / como o abrias, chupando os seus grânulos, / e passeando na boca a amêndoa que / o recheava. Onde estarás ?, pergunto. Poderia / ainda hoje partilhar, contigo, um / desses figos do inverno? Ou o seu leite secou, / nos cantos dos lábios, roubando-te / as palavras, e o húmido murmúrio / do amor?”. Num tema aparentemente tão simples, está toda a grandeza do poeta e da sua atenção. Nuno Júdice seguiu o melhor lirismo, que vem dos trovadores, que se desenvolve nos grandes cancioneiros e culmina na herança inesgotável de Camões e em tudo quanto se lhe seguiu. Um pormenor do quotidiano, o figo, maduro e seco, e o diálogo da amizade e do amor são ingredientes indispensáveis à compreensão da vida. António Carlos Cortez publicou Um Canto na Espessura dos Textos – Leituras da Poesia de Nuno Júdice (D. Quixote, 2024). Encontramos aí a expressão viva, do que para o poeta é mais do que um balanço ou do que uma homenagem. Trata-se da demonstração da relevância de uma figura maior da nossa literatura, em confronto com os nossos maiores. Afinal, a justa projeção internacional que Nuno Júdice alcançou corresponde a muito mais do que uma afirmação individual, tratando-se de uma fecunda manifestação da cultura da língua portuguesa além-fronteiras.


UMA POESIA BEM VIVA! 
Ouvimos o discurso direto do poeta: “Quando começo um poema nunca sei para onde estou a ser conduzido. Há muitas formas de encontrar linha de desenvolvimento, umas vezes lógica, outras mais contraditória ou paradoxal, mas o que é comum é o modo como o poema se fecha a si próprio, quase sempre de uma forma inesperada que surpreende através de várias formas, desde a ironia até esse encontro como o que posso chamar uma transcendência que obriga a ler o poema e a reinterpretá-lo. O que importa é a surpresa no final, que subverte ou transforma o que vinha antes”. De facto, para o autor não pode haver Poesia sem passado e sem memória. Todavia, a memória não vem apenas da experiência pessoal, mas de uma poesia perene, dos poemas lidos, das situações próprias, mas também da partilha de experiências. E então a memória reinventa-se, como na genial lição de Eduardo Lourenço, na revisitação de Fernando Pessoa sobre a falsa influência de Walt Whitman na “Ode Triunfal” e a verdadeira repercussão do americano em Caeiro, numa inversão de termos, que reinventa a unidade da criação poética de Pessoa…


“O título é a última coisa que aparece quando estou a compor um livro (diz ainda Nuno). Tem de conter em simultâneo uma síntese, mas também a forma como vou distinguir um livro de outro, encontrando essa ‘personalidade’ que o distingue”. E se falamos de passado e de memória, importa enfatizar o necessário diálogo com as diversas artes. As experiências de Berna e de Paris, presentes nesta mostra, permitiram ao poeta desenvolver uma relação forte com a pintura, os museus, os artistas com quem conviveu, os livros de arte que escreveu, de Manuel Amado a Graça Morais, de Jorge Martins a Júlio Pomar, que conferiram à poesia de Nuno Júdice um lado visual, que se tornou paradigmático. Como disse ainda: “Não há poesia sem imagem, tal como não há poesia sem ideia (embora no meu caso a filosofia seja algo mais interrogativo do que explicativo)”. No fundo, para Eduardo Prado Coelho, estamos perante um poeta da imaginação, não se considerando neorromântico nem surrealizante. É verdade que há, sem dúvida, a imaginação, mas também “uma razão que inscreve essa imaginação não num plano delirante (…), mas numa dimensão que vai buscar uma lógica nem sempre previsível no início do poema para criar uma surpresa e uma transformação na forma de ver a realidade”.


O CULTO DA PALAVRA POÉTICA
“Desde o início que o poema longo faz parte da minha poesia. Isso deve-se à leitura de Campos, de Caeiro, de um Eliot ou de um Pound, mas também de poetas franceses como Saint-John Perse. E resulta de uma necessidade que, nesses anos 60, senti de transformar a escrita poética numa forma de narrativa, ou conto (o Jorge Luís Borges é essencial nesse processo)”. Há aí, assim, a rejeição da poesia formalista, que se empobrece e esgota no processo da sua invenção…  Nesse ponto Antero de Quental e Fernando Pessoa têm um papel fundamental. Antero reconcilia-o com o soneto, e reforça a força da ideia e do pensamento que sempre atraiu Nuno Júdice.  Pessoa transforma a poesia em ficção e o final de Antero corresponde a uma transformação ficcional “naquele banco onde se suicida de uma forma perfeitamente encenada”. Deste modo, “memória, imaginação e ficção são partes essenciais da criação poética, mas se na sua origem não se encontra uma experiência, uma relação próxima com a realidade, o poema soa a vazio, a falso”. E o certo é que a poesia se torna não só uma forma de resistência, mas também de sobrevivência. E Nuno Júdice considera-se beneficiário de um privilégio – “nasci em Portugal e o país pese a essa tendência masoquista da nossa ‘inteligência’ para nos autodestruir, é uma exceção que permite respirar um pouco melhor quando olhamos o mundo. E tem uma grande história literária e paisagens e espaços únicos”… Essa é a natureza viva que constitui matéria-prima de um autor de exceção, cuja descoberta é ainda inesgotável.  


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE NUNO JÚDICE 

  


A vindima de Eros


E de novo este céu desenrola a sua matéria
de outono. Com a precisão do vindimador, agarro
as suas vides e corto os cachos de névoa que
caem sobre a terra. Ponho-os no carro do poema,
e levo-os para a adega abandonada do sonho
para os transformar num vinho de palavras
feitas com as sílabas mais líquidas, as que se
podem beber pela taça da estrofe. E um fumo
da antiga inspiração evola-se da cuba
dos mistérios. As raparigas descalças, com
os seus aventais de sol, sobem para o lagar
e pisam as uvas. O cheiro do sumo sobe
até ao fundo da sua cabeça, e antes que fiquem
tontas começam a contar as memórias perecíveis,
as que nasceram de uma fuga nocturna
pelos campos impunes do estio. Espero
que acabem o seu trabalho, e vejo-as sair com
as pernas roxas até aos joelhos, e as saias subidas
até às coxas. Os seus olhos rodam como
as velas de um moinho ébrio de vento; e
abrem os braços à luz, como se desejassem
que ela limpasse os seus corpos da espuma
que os envolve. E canto esses corpos, como
se elas me pedissem que transformasse
o mosto dos seus lábios no vermelho puro
da madrugada. Assim, uma levada de versos
recitados nos rituais da origem inunda
os seus seios e restitui-lhes a brancura inicial,
enquanto me obrigam a beber os líquidos
que os seus pés destilaram. E apenas lhes peço,
quando vestem as suas túnicas de nuvem,
que atravessem de novo as videiras decepadas
e abracem os vindimadores, beijando-os,
para que eles provem o vinho novo dos seus lábios.


in A Convergência dos Ventos, 2015


The grape harvest of Eros


And again this sky unfolds its autumn
matter. With the precision of a vintager, I grasp
the vine branches and cut bunches of mist pouring
over the earth. I load them on to the poem’s wagon
and drive them to the abandoned cellar of dreams
to turn them into a wine of words
made from the most liquid syllables, those which
can be drunk from the cup of the stanza. A smoke
of ancient inspiration rises from the vat
of mysteries. Barefooted girls wearing
aprons of sun climb on to the press
and tread the grapes. Juicy smells reach
their heads, and before they get too
tipsy they tell of perishable memories
born from nocturnal escapades
through unpunished fields of summer. I wait
for their work to be done and watch them leave,
their legs purple to the knee, their skirts lifted
to the thigh. Their eyes whirl like
wind-inebriated sails; and they open
their arms to the light, wanting it
to rid their bodies of clinging foam.
And I sing those bodies, as
if they had asked me to transform
the must of their lips into the pure red
of dawn. Thus, a wave of lines
uttered during the rituals of origin spreads over
their breasts, bestowing primeval whiteness,
and making me drink the liquid
distilled by their feet. I can only beg them,
as they dress in their gowns of cloud,
to go again through the severed vines
and embrace the vintagers, kissing them,
so they may taste the new wine on their lips.


© Translated by Ana Hudson, 2015
in Poems from the Portuguese