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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE LUÍS FILIPE PARRADO

  


NATUREZA MORTA COM MAÇÃS


É triste
o espectáculo do amor
apodrecendo aos poucos,
na fruteira
as maçãs que te trouxe
têm agora a pele seca e enrugada.


in Entre a Carne e o Osso, 2012


STILL LIFE WITH APPLES


It’s sad
the display of love
rotting here and there,
in the fruit bowl
the apples I brought you
have now a dry and shriveled skin.


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE LUÍS FELÍCIO

  


a casa a água anda em volta


a casa a água anda em volta
alguém semeia uma pedra em cima da mesa
onde o pão derradeiramente floresce
alguém sabe que


todo o lugar se cria por desproporção elementar
dos seus elementos


uma paisagem que se nutre
da ausência mesma do seu próprio nome


(como o amor)


in o som e a casa, 2010


the house the surrounding water


the house the surrounding water
someone sows a stone on the table
where the bread ultimately blossoms
someone knows


every place is created by the elementary disproportion
of its elements


a landscape that feeds
on the very absence of its name


(like love)


© Translated by Ana Hudson, 2013
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

  


Uma canção debaixo do dilúvio


Ocupam-nos com a sua feroz solidão
e conhecemos o seu cheiro, o consumo difuso, o visível de ambos os lados

Diante deles não é possível dissimular
a ironia ou a piedade

Esperam por nós entre diversas combinações
à superfície e para além disso

Um amigo é uma “machine à habiter”
o vento pré-histórico das montanhas geladas

Talvez pertençam a outros mundos
pois nos abraçamos sempre como sobreviventes

Com eles podemos arrancar uma canção
debaixo do dilúvio


in Estação Central, 2012


A song under the storm


They keep us busy with their fierce loneliness
we know their smell, their consuming habits, transparent to each other

With them it is impossible to disguise
irony or pity

They look for us among superficial
arrangements and beyond that

A friend is a machine for inhabiting
the pre-historic wind of frozen mountains

They belong perhaps to other worlds
we always hug like survivors

With them we can dredge up a song
From under the storm


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE JOSÉ MIGUEL SILVA

  


Penélope escreve


É mais que certo: não sinto a tua falta.
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.


in Ulisses já não mora aqui, 2002


Penelope writes


It’s more than sure: I don’t miss you.
I spent the whole afternoon tiding up your papers,
reading again the five letters you managed to send
during the week that was wasted: you in the Alentejo,
and I under water. Then I watered the roses
you left in the garden. Always by myself and
not moaning about my lot (since I don’t miss you),
I put on the Chavela record you gave me for Christmas
and started to cook your favourite dish.
Cooking made me lose my appetite; and so
I opened a bottle of red and it’s not hard
to confess that I don’t miss you.
Around 10 pm, I made myself refuse
two invitations to go out (I gave androphobia as an excuse)
and right now I’m cutting out your image
(I don’t miss you) from the photos I own of both of us
in order to punish with the paper basket
the awkward idiot who let you go.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA


É a prata da minha amada


É a prata da minha amada.
Dir-lhe-ei docemente adeus,
e que não arranque os espinhos da primeira rosa,
subindo pela vida.
E quando eu caminhar pelo vale da sombra,
ela descerá ao pequeno porto, descalçando as sandálias,
mergulhando no mar,
repetindo os nomes de todos os que partiram,
de todos os que a amaram,
hesitando à entrada da taberna,
vendo o meu lugar vazio, o violino sobre a mesa, um
silêncio maior que a lentidão das praias,
e pensará em tudo, em cada som, em cada lágrima, em
nada.
Ela voltará as costas.
Nunca fomos deste mundo, dir-lhe-ei por fim, ao fechar
a última porta.


in Caminharei pelo Vale da Sombra, 2011


It is my beloved’s silver


It is my beloved’s silver.
I’ll gently say good-bye,
and tell her not to cut the thorns of the first
life-climbing rose.
And when I walk through the valley of the shadow,
she’ll come down to the small harbour, taking off her sandals,
dive into the sea,
repeating the names of all who left,
of all who loved her,
hesitating at the tavern door,
seeing my empty place, the violin on the table, a
silence greater than the slowness of the sea shores,
and she’ll consider everything, in each sound, in each tear, in
nothing.
She’ll turn her back.
We have never been of this world, I’ll finally tell her, as I close
the last door.


© Translated by Ana Hudson, 2014
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

  


Uma emergência de Outono


As cores da maçã assada aberta
pelo fim do verão antecipam no palato
uma emergência de outono.
Convida a ficar por casa
esta maçã que feri e salpiquei pelo torso
com cézannes de canela.
Sob a epiderme tisnada (cor
amarelo-pecado) é
perene o seu sabor. Vê só
como jazem nuas
suas vestes pelo prato
(qual roupa de rapariga desbragada
pelo chão).


in A Parte pelo Todo, 2009


An autumnal emergency


The colours of the baked open apple
in the last throes of summer anticipate in the palate
an autumnal emergency.
It’s an invitation for home
this apple I wounded and whose torso I sprinkled
with cézannes of cinnamon.
Underneath the tanned skin (its
colour a sinful-yellow) the
taste is perennial. See just
how naked they lie
the robes along the plate
(like the clothes of indecorous girls trailing
on the floor).


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ISABEL AGUIAR

  


O mar é para todos nós


O mar é para todos nós
O mar tem peixes místicos
O mar é o Firmamento
O mar é o Firmamento
O mar é o Firmamento
Só os peixes místicos sabem saltar para as redes
Só os peixes místicos sabem saltar para as redes
Só os peixe místicos sabem saltar para as redes
Só os peixes místicos sabem saltar para as redes
As redes São Todo o Firmamento a Luzir.


The sea is for us all


The sea is for us all
The sea has mystical fish
The sea is the Firmament
The sea is the Firmament
The sea is the Firmament
Only the mystical fish can jump into the nets
Only the mystical fish can jump into the nets
Only the mystical fish can jump into the nets
Only the mystical fish can jump into the nets
The nets Are the Entire Firmament Sparkling.


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese

 

CINCO POEMAS - E


1
Se se pensa nas razões da vida
Ela a morte é cabeça velha que labuta
Num ofício em que o tempo finda de rompante
Ou ela não gostasse de se interpor às conversas e impor-se só querendo falar

Daquilo que chama

Daquilo que está escondido atras da sua língua
Linha reta que todos cumprem
Quer sejam os do berço do início ou do fim
Quer sejam os que olharam o mar
Ou os que não conheceram caravelas ou voo ou glote de sal

Alarga-se
Sim
Forçosamente o diálogo à morte e ao dirigir-lhe palavra alguém passou a ser

Outra voz

Como a daquele verso que exaurido da cova cantou

Ó morte não mataste tu da vida um lugar de mães
Nem o poeta no vivo audível
Nem o amor que foi único nome de si


2
Houve um tempo vivido por detrás das janelas
Houve um tempo aplanado que de tão plano se convertia
Na rampa da fuga quando se sabia que os peixes ajudariam
Ao lance do mar e onde se esperava o barco- salvação
O primeiro de muitos que implicariam ofícios vagos e muito sofridos e de novo
O carteiro junto ao portão de ferro entregava a carta por entre as grades
E sorria como uma armadilha ou não soubesse que o remetente

Era uma paisagem aparente nem benigna nem mortal


3
Também chega o tempo de cuidar das memórias e das gerações
Que nos ensinaram as cantigas que descobriam o segredo dos ovos nos folares
Quando tudo era tépido antes do meio-dia
E eis

Que um dia uma flor se suicidou atando cuidadosamente
O caule à corda e ali se deixou estar de olhos abertos à casa
Cheia de luzes presas sob empenas que sustinham estonteadas esperanças
Tateando a nossa pele na vigília ao centro das infidelidades

Mãe minha
Que não sei se falo de magias ou inocência


4
Também se levam nos braços muitos filhos desconhecidos

Infindamente
Vai-se dizendo com a suavidade do embalo
Que eles devem sonhar com o mar
Com aquele mar sem princípio nem fim e que mesmo quando vento é mar
No sonho e no caminho
E até tem pinhal de pinhas e pinhões que adivinham
A hora

Em que a vida dos afetos que nos dão é bela e pobreE p

edra-insónia feita de cordão umbilical


5
Às vezes parece um muro imenso que avança e tapa a estrada
Caminha-nos para o contrário das nascentes e dos comprimidos que nos retiram a dor
Enfrenta-nos com o seu corpo pardo e duro e inclemente e logo te abraço
Amor meu
Pois que morra eu e te deixe à guarda de um palácio que te fiz
Com mantas de plumas de pássaros
Daqueles que em ti sempre festejarão
As núpcias por te terem visto nos seus casamentos e tanto bastou

Para criarem aquela canção-périplo que mesmo adormecida ou já não aqui

Eu para ti
Ela e tu

Teresa Bracinha Vieira

Obs. Poemas revisitados.

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE INÊS FONSECA SANTOS

  


As Coisas Lentas


Fumo demasiado depressa
o meu cigarro apagado.
Os cigarros fumam-se lentamente
ao espelho fixando um único dos nossos rostos.
Pois bem: na casa só nos cacos há reflexos. Os rostos suspendem-se
entre nós e nós, as letras das palavras. Os rostos aguardam-se,
observam-se, ao longe. E não há fumo que os evole.
Talvez por isso: nunca aprendi a acender um cigarro
por ser absolutamente desnecessário aprender a aprender a acender
um cigarro. Na casa onde tu fumavas
cada cigarro era uma letra. De cada vez que o filtro te tocava
os lábios eu perguntava: como te chamas? À superfície
do espelho, o teu vagar respondia-me
até ao esquecimento de nós.
Talvez por isso: tento acender um cigarro. Apago-o antes
que me chegue aos lábios.


Está frio neste lugar. A boca abre-se
como uma coisa lenta em forma de espanto.


in As Coisas, 2012


Slow things


I smoke my dead cigarette
in too much haste.
Cigarettes should be smoked in slow motion
next to the mirror, as we zoom in on just one of our faces.
As it is, in the house, reflections are only found on shards. Floating faces
between us and us, letters from words. Expectant faces
watching each other from afar. And no smoke can puff them off.
That’s probably why: I’ve never learnt to light a cigarette
because it’s utterly unnecessary to learn how to learn to light
a cigarette. In the house where you smoked,
each cigarette was a letter. Each time the filter touched
your lips I asked: what’s your name? On the surface
of the mirror, your vagueness answered me back
till we both drowned in oblivion.
That’s probably why: I try lighting up a cigarette. I put it out before
it reaches my lips.


This is a cold place. The mouth opens
sluggishly, rounded in bewilderment.


© Translated by Ana Hudson, 2013
in Poems from the Portuguese