Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

EM REBUSCA DO JAPÃO II

 

  Retomo - tal como prometera em carta à Princesa de mim - o fio da meada que nos tem levado a percorrer caminhos e atalhos da cultura japonesa, ou daquilo que, tantas vezes (!), nos possa parecer, e talvez seja, reflexo simétrico do nosso próprio pensarsentir, será também sempre um adquirido. Posto que, na verdade, há momentos da vida em que nos surpreendemos estranhos, "bárbaros" à míngua de outras aprendizagens...

 

   Volto ao esclarecedor texto de Mutsuo Takahashi, isto é, ao iniciar de uma análise da estética e da poética do haiku, neologismo inventado, em finais do século XIX, por Masaoka Shiki (1867-1902), esse poeta que, entre muitos outros, nos deixou estes versos tão primaveris:

  

          ergue-se no ar uma cotovia
          respiro a bruma
          caminho sobre nuvens

 

   Traduzo agora este terceto, só para nos chamar a atenção para que qualquer surto poético não tem de (nem que) ser explicado. Basta respirá-lo, sobretudo quando, como na poesia japonesa, tal respiração nos traz, pelo toque fugidio da evanescência, a contemplação da permanência essencial das coisas. Aliás, para além de qualquer forma métrica, sintática ou rítmica, ou de rimas e sonoridades, a poesia vive sempre nas formas idiomáticas em que foi composta - e que são muito dificilmente traduzíveis - nas quais, afinal, iremos procurar encontrar o tal "não sei o quê e quase nada" que a torna universalmente nossa íntima. Aliviando esta conversa, pergunto como se pode traduzir, do português para japonês (por exemplo), esta quadra de Luís Vaz de Camões, enviada a D. António, senhor de Cascais, que tendo-lhe prometido seis galinhas recheadas, por uma copla que lhe fizera, lhe mandou por princípio da paga meia galinha recheada:

  

          Cinco galinhas e meia
          deve o senhor de Cascais;
          e a meia vinha cheia
          de apetite pera as mais.

 

   Pormenorizadamente explicadinha, talvez a quadra ache graça em ouvidos estrangeiros, e até poderá acordar algum sabor a pilhéria... Mas faltar-lhe-á a espontaneidade do riso, a surpresa imediata de um entendimento espontâneo. No tocante a literatura japonesa, creio que será talvez maior a distância para chegarmos ao seu alcance, não só pela nossa própria estranheza à cultura que a informa, como por ser bem real - e pude pessoalmente verificá-lo em inúmeros encontros e reuniões - que a comunicação entre japoneses acontece, como dizem os antropólogos, em alto contexto.

 

   Kotaro Takamura (1883-1956), escultor e poeta surgido no tempo e ação de aproximação da cultura japonesa à ocidental, familiarizado com a obra de Rodin, Cézanne, Verlaine e Baudelaire, que divulgou e traduziu no Japão, é o autor de um poema em verso livre, intitulado Ore no Shi, cuja versão francesa (Mes Vers)  por Jeanne Sigée (Anthologie de poésie japonaise contemporaine. Paris, Gallimard, 1986) aqui verto para português. Fala melhor do que eu:

 

          Os meus versos não procedem da poesia ocidental
          Dois círculos se traçam mutuamente uma tangente mas
          No termo não se sobrepõem idealmente.
         Sendo eu apaixonado pelo mundo poético ocidental contudo
         Os meus versos próprios não podem negar que assentam noutras fundações.
         O céu de Atenas, a subterrânea nascente do cristianismo
         Geraram língua e pensamento da poesia ocidental.
         Tal mundo entrou-me no íntimo infinitamente belo infinitamente forte contudo
         Essa fisiologia de trigo de manteiga e de entrecosto
         Mantém à distância as necessidades do meu japonês.
         Os meus versos emergem das minhas vísceras, das minhas entranhas.
         Nascido no fim do Extremo Oriente, com arroz criado
         Com a minha alma alimentada de fermento de saké, de soja, de carne de peixe
         Com reminiscências do antigo Gândara todavia pregadas ao corpo
         A minha alma que se alumia mais da cultura amarela do imenso continente
         Que se purifica mergulhada na corrente sussurrante dos clássicos japoneses
         Ei-la repentinamente embasbacada pela energia atómica.
         Os meus versos não têm mais recurso para além do meu corpo,
         O meu próprio corpo é, sem dúvida, o de um escultor do Extremo Oriente.
         A meu ver, embora o universo tenha os anais das estruturas
         São os versos que lhes recitam o contraponto.
         A poesia ocidental é uma vizinha muito querida contudo
         Cumpre-se numa órbita diferente.

 

   Quanto mais me familiarizo com tanta poesia vinda de mundos, línguas e culturas distintas das minhas, tanto melhor entendo como nem tudo se desvenda, ou sequer abre, por conceitos: a proximidade, como, por maioria de razão, o aconchego, vai-se alcançando por escuta presente, silenciosa e humilde. Talvez por isso, quem traduz poderá sempre encontrar novas expressões da descoberta de um encontro, quiçá porque, como árvore, em si também vai crescendo a emoção qualquer que o feriu primeiro. A poesia comove-nos, move-nos com ela.

 

   Procurando outra imagem, vislumbro a minha mão em busca de outra, até que com suas costas se aflorem, como dois círculos se traçam mutuamente uma tangente, na bela expressão de Kotaro Takamura.

  

Camilo Martins de Oliveira

LUIS CERNUDA (I)

Queria fazer poemas que não gerassem linguagem mas que a suprimissem.

 

Quando do meu ângulo abro as portas de um livro e dentro dele passo a viver com um anseio sem nome, aguardo anos que ele me escute e compreenda, e encontre eu a razão que por fim me dirá se nele terei vivido quanto.

 

Depois, o que importa, é que claramente o recordo e a ele recorro, e, então, é como a casa sempre que me dá a mão.

 

 

Assim e por dívida inexcedível a José Bento poeta e tradutor maior, eis esta Antologia Poética de Luis Cernuda, para quem, a poesia foi a única realidade que, como poucos no seu tempo alcançou. Assim se pode ler no prólogo, igualmente escrito pelo tradutor desta livro em edição bilingue, oportuna chancela da Cotovia.

Um ponto de partida para a compreensão da obra de Cernuda era o desejo da proximidade da por si chamada poesia pura.

Desde logo a Mozart as palavras cenurdianas surgiram como gente, sangue e meta: 

A sua música dava forma ao mundo, dava ordem, justiça, nobreza e formusura. Escreveu.

 

Luis Cernuda habitante do mundo mítico da Andaluzia nasceu em Sevilha em 1902. Incorpora-se na famosa Geração de 27, que constituiu um específico período, durante o qual as artes eram tratadas num profundo estilo vanguardista, e deste ciclo veio a ser um dos poetas mais significativos.

 

No seu exílio de Espanha e de muitos caminhos de uma infância profundamente solitária e difícil, conheceu a Inglaterra e os E.U.A. onde foi professor na Universidade de Mount Holyok, tendo vindo a falecer no México em 1963.

 

Muito influenciado por Gustavo Adolfo Bécquer e Pedro Salinas, Baudelaire, Rimbaud, Hölderlin, Mallarmé, Gide, Garcilaso, entre muitos outros, Cernuda, no seu livro, “Ocnos”, produziu dos mais admiráveis poemas em prosa.

 

Um mundo diferente também o despertou quando em 1925, terminado o seu curso de Direito, e vendo-se sem trabalho para viver, o cinema e o jazz entusiasmam-no, enquanto trabalhava nalguns suplementos de revistas, numa profunda antipatia pelo conformismo.

 

A obra de Luis Ceruda, entendo-a como uma razão, à qual sou, e serei a visitante que por ela caminha, a visitante que leva vida na ambição de se aproximar da insubornável busca de Luis Ceruda de uma linguagem que não existe, quer para tratar afetos que não podem ou não sabem ser ditos e que por assim ser - esta e outras realidades - a própria linguagem artística é ultrapassada pelo seu interior metalinguístico.

 

Hay poetas que deslumbran y poetas que alumbran. Li.

 

Para nós a força de acender está com Ceruda: um dos mais solitários escritores espanhóis que incessantemente transportou dentro de si uma multidão que, enfim, o tornou alma tão triste, tão água, fogo, terra, ar, e beijo, aquele mesmo que unge lutador e moribundo, o despido e o comprometido.

 

Na afirmação da sua verdade, o mesmo pensamento que produziu os mais arrebatadores poemas de amor -

 

 “Libertad no conozco sino la libertad de estar preso en alguien
cuyo nombre no puedo oír sin escalofrío”

 

- produziu também os mais desamparados.

 

“Morir parece fácil,
La vida es lo difícil:
Ya no sé sino usarla
En ti, con este inútil
Trabajo de quererte

que tú no necesitas”

 

Ou ainda o tão eloquentemente objetivado poema “País” traduzido por José Bento:

 

Somos uma sociedade atrasada
que somente se põe em dia nos
símbolos externos. 

 

E palpo respeitar a senha dos livros de Luis Ceruda, que numa trajetória de vida nada superficial, reconheceu que nem sempre soube ou sequer pôde criar a distância entre o poeta criador e o homem que sofre.

Destino?, ou a mais alta verdade?

De novo, apenas me aproximo.

E ávida volto ao poeta que afirma entender melhor os homens que na lenda estão mortos -

(…) quem vai do manancial latente

Ao rio que sem alento desagua.

- qual desencanto, ou antecipação da desolação das quimeras, seu último livro de poemas.

                                                         

Teresa Bracinha Vieira

NESTA HORA

 

 

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exilio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

 

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

 

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

 

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

 

Não basta gritar povo
É preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

 

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

 

Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção -

 

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen | "O nome das coisas", 1977  

 

 

A VIDA DOS LIVROS

De 20 a 26 de abril de 2020

 

Poucos dias antes de nos deixar, Maria de Sousa (1939-2020) escreveu o poema “Carta de Amor numa Pandemia Vírica”, que aqui reproduzimos integralmente na invocação de uma cientista que amava as artes, a poesia, a literatura, a filosofia, a música e a cultura.

 

 

A CIÊNCIA E A CULTURA DE MÃOS DADAS
Maria de Sousa foi uma médica, bióloga e mulher de cultura e de ciência de exceção, que nos deixou vítima do terrível vírus que nos assola. Lembramo-nos do seu livro “Meu Dito, Meu Escrito” (Gradiva, 2014), onde se encontra a força e a alegria da sua personalidade única. Era Professora Emérita da Universidade do Porto e fez um brilhante percurso internacional no Reino Unido (onde foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian) e nos Estados Unidos. Encontrei sempre em Maria de Sousa, que conheci em 1985, o genuíno entusiasmo de quem procura em cada momento o modo de chegar à dignidade humana pela vida, pelas ideias, pelo entendimento da complexidade, pela compreensão de que a descoberta corresponde ao sentido crítico e ao permanente inconformismo. Daí dar tanta importância ao desassossego, que nos leva ao exemplo, à aprendizagem e à experiência. Em 1966 tornou-se notada ao publicar no “Journal of Experimental Medicine” e na “Nature” dois artigos relatando descobertas fundamentais em imunologia na sequência de estudos realizados nos laboratórios do “Experimental Biology do Imperial Cancer Research Fund” em Mill Hill (Londres). Numa notável entrevista a Anabela Mota Ribeiro, explicou, com uma grande simplicidade, o que fez nesse tempo: «Creio que todos saberão que temos linfócitos a circular. O que muitos não saberão é que os linfócitos não são uma população homogénea, com a mesma pátria. Uns nasceram no timo e saíram para a circulação no período a seguir à nascença, outros fora do timo, na medula óssea. Essa distinção não era clara em 1964. Ainda se pensava que talvez viessem todos do timo. O meu trabalho consistiu na observação de lâminas de cortes de órgãos linfáticos periféricos de ratinhos que tinham tido o timo removido no período neonatal. As minhas observações demonstravam que esses animais timectomizados à nascença ainda tinham linfócitos. E mais, os espaços vazios de linfócitos eram distintos dos espaços onde havia linfócitos, o que significava que as células pareciam saber para onde ir. Isso foi posteriormente demonstrado como uma técnica importante, a autoradiografia, que permitia seguir células marcadas. As do timo iam para o território a que chamámos área dependente do timo (tda) e que hoje é conhecida por Área T. E achei esse fenómeno de as células saberem para onde vão tão importante que lhe dei (em 1971) um nome: Ecotaxis».

 

REGRESSADA A PORTUGAL
Quando regressou a Portugal, desempenhou um papel fundamental na Universidade do Porto, no Instituto Abel Salazar, mas também, ao lado de José Mariano Gago no lançamento da política científica nacional. Como afirmou Manuel Valsassina Heitor: «Foi com a Maria de Sousa, com Fernando Lopes da Silva, que aprendemos a ser sujeitos em Portugal a avaliação científica independente, quando José Mariano Gago era presidente da JNICT no final dos anos 1980. Inicialmente testada para as ciências da vida sob a liderança da Maria, esta prática que hoje nos parece tão óbvia, só viria a ser alargada a todas as outras áreas científicas há 25 anos, com a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia». Não por acaso, Maria de Sousa citava muitas vezes o grande Garcia de Orta: «O que sabemos é a mais pequena parte do que ignoramos». E entendamos que se trata de um verdadeiro programa de vida e de conhecimento. Só essa atitude nos permite compreender como o espírito científico é uma busca permanente, de insatisfação, de persistência, de tentativa e erro, de regresso constante ao que podemos saber mais. Quando morreu o nosso comum amigo José Mariano, a Maria de Sousa, grande leitora e amante de poesia e de arte, escreveu: «Há os que passam e os que ficam / Há os que ficam onde os seus restos mortais ficarem ou cinzas forem dispersas / Há os que ficam nos que lhes são mais próximos: amores, filhos, mãe, amigos, mulher, etc. / Há os que ficam em muitos outros desconhecidos / Há em geral espaços em que todos ficamos mortos / Mas no tempo, na transformação do tempo / Só um ou outro raro e belíssimos no fazer e no fazer-se / Ficará. / Como este assim / Que será sempre encontrado no tempo todo / Na história da ciência na Europa / E neste nosso país / Transformando o nosso tempo/ Transformando-nos pelo seu Fazer / No Seu Fazer-se». E podemos dizer que nestas belíssimas palavras, encontramos facilmente também a sua autora, uma vez que, de facto, entendeu “o tempo todo”, compreendendo que nos transformamos pelo que fez no sentido do que fazemos.

 

SABIA MUITO E EXPLICAVA BEM
Francisco Pinto Balsemão recordou, aliás, no “Expresso”, as extraordinárias qualidades de quem “sabia e sabia muito e explicava bem” e sobretudo que não havia domínio da cultura que lhe fosse estranho. Sou testemunha pessoal disso mesmo. E se era uma pessoa de esperança, era-o de fino humor, mas sobretudo de querer e de esperança, como fica bem evidente no último poema que escreveu:

«Carta de amor numa pandemia vírica.

Gaitas-de-fole tocadas na Escócia / Tenores cantam das varandas em Itália / Os mortos não os ouvirão / E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio / Quem pretendem animar? / As crianças? / Mas as crianças também estão a morrer / Na minha circunstância / Posso morrer / Perguntando-me se vos irei ver de novo / Mas antes de morrer / Quero que saibam / O quanto gosto de vós / O quanto me preocupo convosco / O quanto recordo os momentos partilhados e queridos/ Momentos então / Eternidades agora / Poesia / Riso / O sol-pôr / no mar / A pena que a gaivota levou à nossa mesa / Pequeno-almoço / Botões de punho de oiro / A magnólia / O hospital / Meias pijamas e outras coisas acauteladas / Tudo momentos então / Eternidades agora / Porque posso morrer e vós tereis de viver / Na vossa vida a esperança da minha duração.

3 de abril de 2020».

Onze dias depois, apenas, deixou-nos, recordando a plena vitalidade e o apego à vida que se comunica em permanência. E assim a sua memória está bem viva, como exemplo e como apelo a que a educação e a ciência de mãos dadas possam criar vias de esperança, sobretudo neste momento de incerteza e perplexidade. Como disse Sófocles: “Inúmeras são no mundo as maravilhas, mas nenhuma que ao homem se compare. É o ser dos recursos infindáveis”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Hoje, apenas te mando um imaginário bilhete postal, com as ilustrações que nele descobrires.

 

   Pela madrugada, entrou-me pela varanda do quarto uma luz leitosa e acordei cercado por cerrado nevoeiro. Foi-se desvanecendo com o espreguiçar do sol, mas logo voltou a fechar-se. Talvez fosse uma saudade da noite a chamar à paisagem uma penumbra de silêncio. Afinal, já erguido e remoçado, o astro rei limpou os ares e fez-se luz. E ocorreu-me este haiku, penso que de Masaoka Shiki, poeta da era Meiji, na viragem do século XIX para o XX:

 

                      Haru no hi ya
                      hito nanimo senu
                      komura kana

 

   Três versos com cinco, sete e cinco sílabas. Que, livremente, o meu pensarsentir traduz assim:

 

                     Dia de Primavera:
                     neste lugar isolado
                     ninguém faz nada

 

   Desço ao rés do chão sobre os campos, e com eles me confundo em ação de graças pela solidão que o sol aquece.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

ANA HATHERLY: A ROMÃ. DE FRENTE E ASSIM DE DENTRO, AS TISANAS.

 

Poderia haver uma outra solução que não fosse a de abrir a romã. Poderia existir uma maneira melhor de sair do impasse sem que acreditasse que dentro da romã estava a resposta que procurava? Sentou-se à mesa.

 

Pensativamente continuava a olhar para a romã como uma possibilidade. Afinal existiam letras e algarismos nas sementes das romãs: existia aquela cor inconfundível do líquido-sangue que vertia.

 

Um dia, no tabliê de um táxi estava pousada uma romã:

 

- A romã não cai porquê?

 

- Tem adesivo – disse, secamente o motorista.

 

- Mas sabe que a romã é uma peça do mistério da vida?

 

- Ó amigo, estou a ver que o amigo é das religiões do porque tira e do porque deixa, e mais isto e aquilo, e os pecadores e a salvação? Desculpe lá, não acredito em coisas do além.

 

- Não, não. Eu falei do mistério da romã porque se eu fosse crente era a altura de rezar ou não andasse indeciso cá numa coisa importante. Contudo não sou crente, e por isso limito-me a ter medo, medo que dentro das romãs esteja um destino que se atire a mim se as abrir. É estranho isto que digo, eu sei. Esqueça. Não devia ter falado.

 

- Sabe amigo, não percebo nada do que diz, mas coloquei adesivo na romã para ela não cair pois por superstição quero que a romã ande comigo uns tempos, mas assim fechadinha, por dentro são um bocado complicadas, de facto: muitas circulares e muitos entroncamentos…percebe? Até sangue…é estranho é…

 

- E não receia que ela apodreça e já não o possa proteger?

 

- Não, não receio. Sabe, eu nunca vi uma romã podre. Já as vi secas, mas não podres. Elas vão mudando de cor, acastanham, depois atrofiam e de repente parece que já não estão lá: como se dentro delas, ninguém! É giro, parece que entram em metamorfose lá como os bichinhos da seda que o meu filho tem. O casulo fica abandonado, vazio.

 

Voltou-lhe à memória aquela fotografia em que segurava na mão uma romã. Aquela idade fora cúmplice dos segredos das romãs e das razões pelas quais se lhe ofereciam, muito de repente, as decifrações. Para tanto, bastara-lhe a autópsia que fizera a uma romã que tinha na sua mão, e logo, a outra sua mão escrevente, derramara a tinta bem vermelha logogrifos sobre o papel. Agora confirmava que fora como se acontecesse algo aquém do Jogo. Escreveu então que a romã, insinuara-lhe a fragmentação de tudo e de todos, e ele não a entendera. Chegava enfim o momento de ter a coragem de abrir uma romã qualquer apenas para se certificar se poderia chamar literatura às notas esparsas.

 

Lera As Tisanas de Ana Hatherly as tais que constituem uma espécie de cidade-estado construída pela escrita criadora (…) as tais que também são o excelente filtro da vida através da pintura. Lera As Tisanas e ficara numa experiência íntima tão forte que, receava bem não possuir o saber de a gerir como desejava.

 

Estou triste e só. Ligo o rádio. Oiço duas das últimas Canções de Strauss. Sinto de uma maneira profunda a sua fluidez cromática, a sua riqueza orquestral. Os metais soam como vibrantes florestas. A voz da cantora é a de uma grande ave solitária. Sinto-me um lobo sem alcateia. Quando se está muito só o gemido transforma-se em uivo.

 

(Tisana 387 do livro 463 tisanas que em 2006 conteve o conjunto destes poemas, publicado por Quimera Editore)

 

E perguntava-se agora se poderia ainda haver uma outra solução que não fosse a de abrir a romã?, qual a razão de não a deixar assim na sua metamorfose secreta, e, intuir, solitariamente, as lições que lhe iriam decidir a Sorte?, aquela mesma que ilude até tiranos, aquela que julga só saber coisas pelos seus olhos.

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de março de 2020

 

A «Lírica» de Luís de Camões é imortal. O Dia Mundial da Poesia deste ano não pôde ser assinalado como habitualmente. Estava prevista a celebração com a poesia de Amália. O nosso texto de hoje invoca Camões e lembra essa homenagem devida. «Lianor» é o belo mote de que partimos.

 

 

«VOLTAS» IMORTAIS…
«Descalça vai para a fonte / Lianor pela verdura; / Vai formosa, e não segura. / Leva na cabeça o pote, / O testo nas mãos de prata, / Cinta de fina, escarlata, / Sainho de chamalote: / Traz a vasquinha de cote, / Mais branca que a neve pura; / Vai formosa, e não segura, / Descobre a touca, a garganta, / Cabelos de ouro entrançado, / Fita de cor de encarnado, / Tão linda que o Mundo espanta: / Chove nela graça tanta, / Que dá graça à formosura; / Vai formosa, e não segura!». Trata-se de uma das célebres voltas que Camões nos deixou com a melhor arte da palavra – como em “Verdes são os campos / De cor de limão; / Assi são os olhos / Do meu coração” ou como, em tom jocoso: “Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha”… E às vezes quase nos esquecemos de que “testo” é uma vasilha, “chamalote” um tecido de lã e seda e “vasquinha de cote” um “casaquinho justo usado no dia-a-dia”… A língua é-nos familiar e Camões nosso contemporâneo. Amália teve o génio de trazer para os dias de hoje uma poesia que nos aproxima das raízes sem perdermos a sua clara compreensão… Mas não esquecemos como Alain Oulman compreendeu, melhor que ninguém como um texto do século XVI estava bem vivo. E quem melhor do que Amália para dar as suas voltinhas, àquilo que o poeta no íntimo quis imprimir de originalidade e força às suas palavras amorosas. E Camões foi ligado naturalmente ao Cancioneiro Geral, a David Mourão-Ferreira, a Alexandre O’Neill ou a Pedro Homem de Melo. O melhor fundo lírico juntou o seu sentido a uma voz inconfundível que afirmou e fortaleceu o Fado, fazendo-o encontrar as suas múltiplas raízes de arte e movimento, de lembrança e desejo, numa palavra, refundando-o.

 

UM CÉLEBRE DISCURSO
Camilo Pessanha lembrou num célebre discurso proferido no dia 10 de junho de 1924 o debate sobre “a questão de se Camões residiu ou não em Macau, se esteve ou não preso no tronco da cidade, se ali desempenhou ou pôde ter desempenhado as apagadas funções de provedor dos defuntos e ausentes. A polémica há de decerto renascer mais animada algum dia e provável é que o problema venha a decidir-se finalmente pela negativa. É a sorte de todas as tradições consagradas. A crítica histórica, a história-ciência, positiva e experimental, vem sendo tábua rasa de quanto é anedótico e pessoal das atitudes esculturais, dos gestos dramáticos, das frases eloquentemente concisas, em que tradições lentamente evoluídas haviam definido, em termos quase sempre de inexcedível beleza, um carácter, um acontecimento ou uma época. (…) Mas discussões são essas de carácter puramente académico, só interessando a investigação. Se as tradições estão bem arreigadas e vivas não será a demonstração de sua inexatidão histórica que as poderá destruir. É que não foi nas dissertações dos sábios que elas germinaram e medraram, nem é delas, mas do sentimento popular, que tiram a seiva. (…) A vitalidade das tradições lendárias ou quase lendárias depende essencialmente de dois requisitos. É necessário que o objeto a que se referem se imponha na sua grandeza à admiração contemplativa de todos os tempos. É-o igualmente que a própria tradição nos diversos fatores que a constituem, seja adequada a esse objeto. (…) É a Gruta de Camões com o seu cenário irremediavelmente mesquinho (…) esse lugar, sobre todos prestigioso, dedicado ao culto de Camões que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extinguir-se enquanto houver portugueses; e enquanto não se extinguem há de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau, aqui tendo composto em grande parte o seu poema imortal e que o local predileto aos devaneios do seu espírito solitário era essa colina então erma sobre o porto interior, junto das penhas com aparência de dólmen em cujo vão foi colocado há anos o seu busto, de proporções reduzidas, fundido em bronze». Numa palavra, Camilo Pessanha vem-nos dizer, que independentemente de qualquer confirmação histórica, Camões está naquele lugar pela força da sua memória, muito superior em importância a qualquer justificação formal. O mesmo se diga da presença do poeta em toda a extensão das manifestações das culturas da língua portuguesa. E diga-se que aqui o plural é propositado, uma vez que como símbolo da língua e do seu culto, Camões se afirma como elo indiscutível de uma realidade que é partilhada universalmente e que se projeta no futuro como expressão de diversos povos e culturas, numa lógica de emancipação que só o futuro poderá fazer compreender.

 

O CASO DE CONSTÂNCIA
Quando nos referimos a Constância, a antiga Punhete, estamos também a falar de Camões, de uma memória que não pode confundir-se com qualquer exclusivismo ou demonstração histórica, mas sim de uma partilha natural e exigente relativamente a uma importância histórica que nos remete para o patriotismo prospetivo que tem a ver com a ligação ao que nos define e afirma culturalmente. Mais do que orgulho, trata-se de pertença; mais do que ambição, é memória. A língua-pátria ama-se como é, pelo que faz em nós, definindo-nos como somos, sem tentação de ir além desse afeto, como nos nacionalismos. E Camões é um símbolo, e como todos os símbolos, é o que une (ao contrário do diábolo, que divide). E neste ponto não esqueço o entusiamo militante de Manuela de Azevedo sobre a Casa-Memória de Camões de Constância. Por isso, faz sentido lembrar o discurso de Camilo Pessanha. De facto, é de memória que falamos na aceção mais fecunda e rica. Por isso, lembramos Amália Rodrigues e Alain Oulman, e todos os poetas que ombrearam com Camões. A memória viva, matéria-prima do património cultural, obriga a encontrarmos todas as referências relevantes, reais ou míticas, relativamente às culturas da língua. Lianor, poderemos encontra-la no mais improvável e inesperado dos lugares, como Camões, o seu genial retratista. E deixem que fale da ligação íntima entre arte, memória, e educação. Quando lemos os nossos poetas, quando sentimos a musicalidade das suas palavras, quando transmitimos às novas gerações, nas escolas, o conhecimento das palavras e a sua sabedoria, estamos a realizar a mais rica cidadania, comunicando do melhor modo a força do espírito. Essa mesma força que torna viva a presença dos nossos maiores.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

TAO YUANMING: O POETA DA RECLUSÃO ENTRE O TEMPO E AS COISAS

 

A minha gratidão a Manuel Afonso Costa por mais esta tradução que me permitiu ir a este caminho de passado procurar regressos e futuros.

 

Sabe-se que Tao Yuanming (365-427) é o alicerce fundamental dos grandes clássicos da literatura chinesa e um dos maiores poetas chineses. Pela mão de um amigo francês, chegou-me a leitura deste escritor sagrado. Agora, lendo em português, por tradução de um poeta, melhor se entende o quanto a poesia é uma receção única ao entendimento das realidades, graças, sobretudo, à sempre nova e singular luz que aporta à verdade.

 

Lê-se que Tao Yuanming nasceu numa família aristocrática empobrecida, cresceu e envelheceu pobre, sempre pobre, ainda que nunca tenha descuidado a afirmação:

 

«Não voltarei as costas aos meus princípios por cinco alqueires de grão.»

 

Por esta razão preferiu viver como agricultor e passar fome, do que seguir uma carreira de funcionário, repelindo assim a corrupção generalizada. Retirado com a sua família para uma aldeia, numa pulsão pelo campo, nela escreveu poesia e prosa e cultivou os crisântemos inseparáveis dos seus versos. Os crisântemos representam o Outono quando as outras flores já murcharam e representam igualmente um comportamento ético do homem livre que se distingue na honra. Um comportamento que assenta na natureza e não se compromete com o ilusório.

 

O vinho também foi caminho que o não perdeu, antes jeito de intransigência e de serena solidão, jeito mesmo de compreender um desfrutar das manhãs às quais as pessoas vulgares não agradecem de tão confusamente viverem.

 

Tao Yuanming soube como refletir sobre a passagem do tempo, o seu significado, a transitoriedade da existência, a morte, e afinal o conhecer do saber valorizar o tempo que passa, ou a vida depressa não caminhasse para o nada.

 

Já tinha lido e ficado maravilhada com as palavras de Tao

(…)

eu por mim consagro-me a viver em solidão
já faz quarenta anos que a isso me dedico
com devoção e de acordo com a sábia natureza
o meu corpo envelheceu há muito tempo
mas os meus sentimentos continuam intactos,
por isso nada tenho a lamentar.

 

A verdade é que este poeta maior atravessa a vida pedindo comida emprestada para sua mulher, seus filhos e para si enquanto escreve

 

(…) o lugar onde moro (…)
onde tenho uma casita com aposentos vários
(…) no coração da casa nem uma nódoa
não cabem tumultos onde o silêncio mobila os quartos
tanto tempo estive em cativeiro
que alegria por voltar ao campo
(…) durante o dia o portão fica fechado
e na sala vazia o mundo vazio não entra

 

(…) O grande oleiro não concede favores particulares
dentro do complexo mundo das coisas,
cada uma por si só cresce e se distingue
se o homem prospera, entre céu e terra

 

(…) Se o frio e o calor se sucedem sem parar,
o mesmo acontece com a fortuna dos homens
tudo isto me parece óbvio,
por isso sabiamente se retira
aquele que para a vida despertou.

 

Creio que é pouco dizer que com este livro se reencontra o espanto. E é pouco realmente porque julgo que se encontram muitíssimas realidades que nos levam a não nos atrevermos a procurar o caminho de modo “banal”, como muitos que viajam, viajam, viajam de modos vários para procurar verdadeiramente o quê? E se a esta pergunta se atrevem, nela reside a coragem de sobreviver à resposta com dignidade, a dignidade de continuarmos inteiros na pobreza de cada um, e isto também nos propõe Tao Yuanming.

 

Depois, depois, diria:

 

Sei que o lume da lareira vai apagar-se não tarda nada e de fontes de flores ainda só conheço a dos plátanos.


Teresa Bracinha Vieira

 

Obs. Este livro pela Assírio & Alvim, na coleção Gato Maltês, 2019 - Poesia e Prosa de Tao Yuanming

 

CINCO POEMAS - E

 

1

Se se pensa nas razões da vida ela a morte é cabeça velha que labuta
Num ofício em que o tempo finda de rompante
Ou ela não gostasse de se interpor às conversas e impor-se só querendo falar daquilo que chama
Daquilo que está escondido atras da sua língua linha reta que todos cumprem
Quer sejam os do berço do início ou do fim quer sejam os que olharam o mar
Ou os que não conheceram caravelas ou voo ou glote de sal
Alarga-se sim forçosamente o diálogo à morte e ao dirigir-lhe palavra alguém passou a ser outra voz como a daquele verso que Exaurido da cova cantou
Ó morte não mataste tu da vida um lugar de mães nem o poeta no vivo audível nem
O amor que foi único nome de si

 

2

Houve um tempo vivido por detrás das janelas
Houve um tempo aplanado que de tão plano se convertia
Na rampa da fuga quando se sabia que os peixes ajudariam
Ao lance do mar e onde se esperava o barco como uma espécie de salvação
A primeira de muitas que implicariam ofícios vagos e muito sofridos e de novo
O carteiro junto ao portão de ferro entregava a carta por entre as grades
E sorria como uma armadilha ou não soubesse que o remetente
Era uma paisagem aparente nem benigna nem mortal

 

3

Também chega o tempo de cuidar das memórias e das gerações
Que nos ensinaram as cantigas que descobriam o segredo dos ovos nos folares
Quando tudo era tépido antes do meio-dia
E eis que um dia uma flor se suicidou atando cuidadosamente
O caule à corda e ali se deixou estar de olhos abertos à casa
Cheia de luzes presas sob empenas que sustinham estonteadas esperanças
Tateando a nossa pele na vigília ao centro das infidelidades
Mãe minha que não sei se falo de magias ou inocência

 

4

Também se levam nos braços muitos filhos desconhecidos
Infindamente vai-se dizendo com a suavidade do embalo
Que eles devem sonhar com o mar
Com aquele mar sem princípio nem fim e que mesmo quando vento é mar
No sonho e no caminho e até tem pinhal de pinhas e pinhões que adivinham
A hora em que a vida dos afetos que nos dão é bela e pobre
E pedra-insónia feita de cordão umbilical

 

5

Às vezes parece um muro imenso que avança e tapa a estrada
Caminha-nos para o contrário das nascentes e dos comprimidos que nos retiram a dor
Enfrenta-nos com o seu corpo pardo e duro e inclemente e logo te abraço
Amor meu pois que morra eu e te deixe à guarda de um palácio que te fiz
Com mantas de plumas de pássaros daqueles que em ti sempre festejarão
As núpcias por te terem visto nos seus casamentos e tanto bastou
Para criarem aquela canção-périplo que mesmo adormecida ou já não aqui
Eu para ti ela e tu

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - D

 

1

Tudo se cingia àquela estrada solitária numa terra
Inocentemente guardada entre montes por onde caminhei
Com meus pés muito autênticos até ao túnel que nunca me barrou
Antes me ajudava a subir para o comboio da infância
Quando a direção era rumo aos nascentes e o brincar com o que não era eterno
Não ocupava espaço nem dor nem gritos sendo as aves da viagem
Harmonias que nunca se referiam à primeira morte e pelos olhos
À janela o único poeta procriava para a terra a relação dos seres com o aconchego
Nada em mim se desunia e naquele estou aqui não entendi a oscilação

 

2

Pânicos e paz noturnos também se juntam puxados pelo íman
Que une os contrários sem explicar o que está no meio e é borboleta-eu
Numa luta em pleno cosmos em que da metamorfose sou vítima e carrasco
Que aguarda de mim para mim o sinal de que não se resiste ou não tivesse pisado
As minhas próprias asas sem receio de não voltar a recordar o voo
Embora já se desassemelhasse do pulso-ideia que se atreveu em seu dia
De modo nítido e supérfluo máxima diferença de tudo o que se copia
Escrevendo em nome da arte que a Natureza não pôde resistir e infiel ao princípio
Engendrou um invisível fruto-criação

 

3

Ali na savana montou-se a tenda e abriu-se o fogo ruidoso
Aquele fogo que espanta vultos de bichos de tipos vários e trovoadas secas
E vi-me a olhar o lume com luxúria sentindo as chamas carnais
A alertarem-me quando pegaste na minha mão e eu pedi uma verdade
Para toda a vida escavada naquele momento crepuscular
Ainda hoje fecho os olhos e reconheço o tempo e o cheiro e o tato quando convida
Parece que um sonho foi preparado naquela noite como se a vida fosse só uma e una
Pela manhã o poema entregou-se à mesma sorte de sempre
Embrulhado no raiar do dia entregou-se às paredes de todas as portas

 

4

Por fim um poço propício a receber as tristezas maiores
Um poço sem fundo cuja volúpia desmedida era a de sugar todas as lágrimas
Um poço mudo e nu cujo corpo só lhe conhece a terra
Um poço absurdo de tanta perdição e glória e até poder
Um poço-osso presságio de um nada não descodificado e contudo um balde
Descia-lhe pesado e subia-lhe depois assolado de livros que vinham dos livros
Que recebera em diversas formas e ele poço
Arqueólogo do pouco e do mínimo e do maior era todo uma gargalhada de andorinha

 

5

Nas viagens conhecem-se muitas saudades para além do ir do vir e do estar
Procuram-se palavras que se prendam definitivamente às memórias do que se viveu
E as não traia como se tivéssemos estado em locais apenas retratados aptos
A serem moldados com o rolar dos tempos por outras analogias possíveis
Os viajeiros somam e seguem eras em espaços que não têm e ordenam as saudades
Em imagens dizem que esta e aquela atravessou-lhes o tórax ao verem a pedra Vermelha da Austrália mas o macadame das viagens é um amante muito solitário que nos esquece os passos e os viajeiros só estiveram no começo
Sempre num outubro impiedoso os morcegos das memórias roubam-lhes o beijo transumante

 

Teresa Bracinha Vieira