Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
viste que os dias não passavam disto, e viste bem. desse lado do céu, tens o melhor miradouro sobre a madrugada. se encontrares o pintainho que sepultámos, em segredo e lágrimas, no quintal das tias, pede-lhe o arco da sua asa nas noites de lua nova. remete-me, quando puderes, pacotes de chuva miúda, gosto de a ver decalcar a terra, fundir-se com as sementes de milho no canto da achadinha.
entretanto, vou montando o telescópio, com as instruções que me deste. põe-te à vista e combinamos um gelado a meio caminho, à hora da infância.
in Avulsos por causa, 2010
letter to A.
you saw the days were little more than this, and you saw right. on that side of the sky, you have a better view on the dawn. if you ever find the little chick we buried in secret and tears, in auntie’s garden, ask for the bow of his wings on moonless nights. send me, when you can, packets of rain drizzle, I like seeing it paste the earth, dissolve with the corn seeds at the far end of achadinha.
meanwhile, i’ll carry on assembling the telescope, with the instructions you left me. you go where i can see you and we’ll arrange an ice cream halfway, in the hour of childhood.
Quem nunca hesitou na paragem do 28 e pensou: ali vai a metáfora da minha vida. E nem por pensá-lo escapou ao açude de mandar parar tanta gente só por si. Não é possível ser feliz com tanta correspondência e entre nós que vamos em itinerários românticos a cruz na porta da tabacaria é tão-só o aviso para lavar a cabeça contra o pessimismo. Se não te aconchega o lumaréu de estar vivo não te aflijas quando predizem a meteorologia uma estação no inferno será sempre o destino.
Who hasn’t ever hesitated at the 28 bus stop and thought: there goes my life’s metaphor? and not even for thinking this, do you manage to escape the weir that alone stops so many people. It’s not possible to be happy with so much correspondence and between ourselves who set off on romantic itineraries the cross over the tobacconist’s is but the notice to have your hair washed against pessimism. If the little fire of being alive doesn’t cosy you up don’t fret about the weather forecast a station in hell will always be your destiny.
E ao fim do meu dia a matéria de que se faz a minha vida de novo abandonada de novo de novo abandonada pergunta-me silenciosa se ao apagar da luz a vida terá princípio.
in O Livro do Sapateiro, 2010
23.
And at the end of my day the matter of which my life is made again abandoned yet again and again abandoned asks me in silence if at the going out of light life will have a beginning.
A atribuição do Prémio Camões a Ana Paula Tavares constitui um facto especialmente importante, uma vez que reconhece a relevância da língua portuguesa no mundo, e em especial para a poeta, historiadora e antropóloga na cultura dos trópicos. Estamos perante o caminho nómada de um idioma, enriquecido pela riqueza da permanência e da passagem. Ler e ouvir Ana Paula Tavares é compreender a diversidade de experiências que a escritora foi testemunhando. “Os contadores de histórias do meu país (ouvimo-la) sabem como usar as suas línguas maternas para realizarem as tarefas de Deus, a transmutação do corpo em voz, e uma vez voz, repetir o murmúrio da tradição que assim se fortalece e se transforma em pedra de tanto durar. (…) Assim se acumulam notícias e cresce o espanto, que a língua tem dessas armadilhas: amortece a queda, cuida dos viventes, ensinando a conviver com a notícias deste danado tempo dos anos da peste”.
Nascida no planalto da Huíla, Paula Tavares deixou-se fascinar pela região e pela sua vida. Aí foi a sua primeira casa a dois mil metros de altitude, onde o olhar se perdia na distância do horizonte, limitado pela serra. A sua poesia liga-se aos ciclos da vida, à terra, às flores, aos frutos, e está cheia de oralidade, perante o mistério e a diversidade das línguas locais. O ritmo dos poemas é dominado pela cadência dos relatos mais antigos dos comerciantes de gado, que iam e vinham. E o mundo das mulheres fascinava-a. Elas compreendiam bem a vida autêntica. “Filha da savana / A árvore fêmea / Oferece os frutos / Na estação seca / Comida de onça / Remédio de gente / Serve de goma / Ao bairro das oleiras”. Cada poema encerra o entendimento de que as pessoas e a natureza se casam naturalmente. E todos os segredos se revelam aí. “Os livros, as estações do ano, as chuvas e as palavras jazem esquecidas nos baús da memória (diz-nos ainda). Ninguém sabe como ou porquê tal fenómeno acontece e dele só damos conta quando de repente, assim de manso, um acontecimento, uma moda, um ato de vontade, traz à superfície de muito turvas águas a palavra, o cheiro da terra molhada, as goiabas penetrando os poros, saturadas de cheiro, o silêncio breve de uma igreja vazia, o doce calor de uma vela acesa. As línguas francas, próprias ou alugadas, estão cheias desses enigmáticos recursos e engordam à custa de vocábulos repescados, esquecidos, retomados outra vez”. E, lembrando Mia Couto, Ana Paula diz-nos, no fundo de si: “Há que celebrar a viagem a empreender dentro de nós”.
Neste ainda ano do centenário do nascimento de Camões, a escritora faz da nossa língua comum o arado que vai permitir que a terra nos dê o fruto da palavra, que entra no coração da gente. É, pois, com emoção que recordamos o exemplo de Ana Paula Tavares, e que ouvimos as suas palavras, de mulher, lutadora da liberdade, amante da escrita, da língua e da generosidade dos povos que nos unem e fazem compreender as diferenças, sentindo-a como um elo forte que liga as várias margens do Atlântico. E ao lembrar há dias o exemplo da autora de “Sangue da Buganvília” com os confrades da Academia Brasileira de Letras quis exprimir como a língua portuguesa se expande nos quatro cantos do mundo exigindo-nos uma vontade comum de continuar o caminho ao encontro da liberdade e da diferença.
Deus podes ser silêncio mas eu uso palavras faço amor contigo com advérbios e às vezes violento-te com as frases que me sussurravas antes da tua seiva manhã quando te encosto a mim e tu água e crias outra e outra língua
in biofagia, 2003
God you may be silence…
God you may be silence but i use words i make love to you with adverbs and at times mistreat you with sentences you used to whisper to me before your risen morning when i lean you against me and you are water you create another and yet another language
Este poema começa por te comparar com as constelações, com os seus nomes mágicos e desenhos precisos, e depois um jogo de palavras indica que sem ti a astronomia é uma ciência infeliz. Em seguida, duas metáforas introduzem o tema da luz e dos contrastes petrarquistas que existem na mulher amada, no refúgio triste da imaginação.
A segunda estrofe sugere que a diversidade de seres vivos prova a existência de Deus e a tua, ao mesmo tempo que toma um por um os atributos que participam da tua natureza e do espaço criador do teu silêncio.
Uma hipérbole, finalmente, diz que me fazes muita falta.
in Menos por Menos – Poemas Escolhidos, 2011
Paraphrase
This poem begins by comparing you to the constellations, with their magical names and precise drawings, and afterwards a jeu de mots signals that without you astronomy is an unfortunate science. Two metaphors follow introducing the theme of light and of the beloved’s Petrarchan contrasts, in the sad safe haven of imagination.
The second stanza suggests that the diversity of human beings is proof of both God’s and your own existence as it evokes one by one the attributes that partake in your nature and in the space that creates your silence.
A hyperbole, at the end, declares that I miss you immensely.
«Nuno Júdice – O Prazer das Imagens» é uma exposição que tem lugar no Museu de Portimão com curadoria de José Gameiro, Manuela Júdice e Filipa Leal e evoca a relação entre o poeta os Museus e as grandes obras de arte. A mostra foi inaugurada no sábado dia 20 com a presença de Guilherme d’Oliveira Martins.
Graça Morais, Júlio Pomar, Jorge Martins, Rui Chafes, Manuel Amado, Duarte Belo e os franceses Bernard Cornu, Colette Deblé e Julie Ganzin, são alguns dos artistas presentes nesta exposição, que inclui poemas inéditos de Nuno Júdice e depoimentos do ator e encenador Luís Miguel Cintra ou de Donatien Grau, Conselheiro da Presidência do Museu do Louvre, para os programas contemporâneos. Igualmente serão exibidos os filmes - documentários “Eco, Nuno Júdice”, de Rita Féria e Teresa Júdice da Costa e “Nuno Júdice, 3”, do Arquivo-RTP, gravado no Programa “Com Todas as Letras”, de agosto de 1975 coordenado por Eduardo Prado Coelho, Manuel Alberto Valente e Manuel Costa Silva.
Ao regressar de Portimão de um encontro fugaz com tantos amigos, recordo o poema “Estrelas”, publicado em Pedro Lembrando Inês, que exprime um sentimento de gratidão para com o Algarve, a saudosa terra que Nuno definia como o lugar que afirma as pequenas marcas do seu carácter único. “Desfaço nas mãos, os figos / fugazes de setembro, enquanto o seu leite / escorre pelas folhas verdes que / os envolvem. Esses figos, que me traziam / em cestos de vime, eram mel na boca / que os saboreava. Secos iam parar / aos frascos fechados para o inverno, de onde / os tirava para meter no bolso, / antes de sair. ‘O que tens aí?’, perguntavas-me. E /eu passava-te para a mão um desses figos, e via / como o abrias, chupando os seus grânulos, / e passeando na boca a amêndoa que / o recheava. Onde estarás ?, pergunto. Poderia / ainda hoje partilhar, contigo, um / desses figos do inverno? Ou o seu leite secou, / nos cantos dos lábios, roubando-te / as palavras, e o húmido murmúrio / do amor?”. Num tema aparentemente tão simples, está toda a grandeza do poeta e da sua atenção. Nuno Júdice seguiu o melhor lirismo, que vem dos trovadores, que se desenvolve nos grandes cancioneiros e culmina na herança inesgotável de Camões e em tudo quanto se lhe seguiu. Um pormenor do quotidiano, o figo, maduro e seco, e o diálogo da amizade e do amor são ingredientes indispensáveis à compreensão da vida. António Carlos Cortez publicou Um Canto na Espessura dos Textos – Leituras da Poesia de Nuno Júdice (D. Quixote, 2024). Encontramos aí a expressão viva, do que para o poeta é mais do que um balanço ou do que uma homenagem. Trata-se da demonstração da relevância de uma figura maior da nossa literatura, em confronto com os nossos maiores. Afinal, a justa projeção internacional que Nuno Júdice alcançou corresponde a muito mais do que uma afirmação individual, tratando-se de uma fecunda manifestação da cultura da língua portuguesa além-fronteiras.
UMA POESIA BEM VIVA! Ouvimos o discurso direto do poeta: “Quando começo um poema nunca sei para onde estou a ser conduzido. Há muitas formas de encontrar linha de desenvolvimento, umas vezes lógica, outras mais contraditória ou paradoxal, mas o que é comum é o modo como o poema se fecha a si próprio, quase sempre de uma forma inesperada que surpreende através de várias formas, desde a ironia até esse encontro como o que posso chamar uma transcendência que obriga a ler o poema e a reinterpretá-lo. O que importa é a surpresa no final, que subverte ou transforma o que vinha antes”. De facto, para o autor não pode haver Poesia sem passado e sem memória. Todavia, a memória não vem apenas da experiência pessoal, mas de uma poesia perene, dos poemas lidos, das situações próprias, mas também da partilha de experiências. E então a memória reinventa-se, como na genial lição de Eduardo Lourenço, na revisitação de Fernando Pessoa sobre a falsa influência de Walt Whitman na “Ode Triunfal” e a verdadeira repercussão do americano em Caeiro, numa inversão de termos, que reinventa a unidade da criação poética de Pessoa…
“O título é a última coisa que aparece quando estou a compor um livro (diz ainda Nuno). Tem de conter em simultâneo uma síntese, mas também a forma como vou distinguir um livro de outro, encontrando essa ‘personalidade’ que o distingue”. E se falamos de passado e de memória, importa enfatizar o necessário diálogo com as diversas artes. As experiências de Berna e de Paris, presentes nesta mostra, permitiram ao poeta desenvolver uma relação forte com a pintura, os museus, os artistas com quem conviveu, os livros de arte que escreveu, de Manuel Amado a Graça Morais, de Jorge Martins a Júlio Pomar, que conferiram à poesia de Nuno Júdice um lado visual, que se tornou paradigmático. Como disse ainda: “Não há poesia sem imagem, tal como não há poesia sem ideia (embora no meu caso a filosofia seja algo mais interrogativo do que explicativo)”. No fundo, para Eduardo Prado Coelho, estamos perante um poeta da imaginação, não se considerando neorromântico nem surrealizante. É verdade que há, sem dúvida, a imaginação, mas também “uma razão que inscreve essa imaginação não num plano delirante (…), mas numa dimensão que vai buscar uma lógica nem sempre previsível no início do poema para criar uma surpresa e uma transformação na forma de ver a realidade”.
O CULTO DA PALAVRA POÉTICA “Desde o início que o poema longo faz parte da minha poesia. Isso deve-se à leitura de Campos, de Caeiro, de um Eliot ou de um Pound, mas também de poetas franceses como Saint-John Perse. E resulta de uma necessidade que, nesses anos 60, senti de transformar a escrita poética numa forma de narrativa, ou conto (o Jorge Luís Borges é essencial nesse processo)”. Há aí, assim, a rejeição da poesia formalista, que se empobrece e esgota no processo da sua invenção… Nesse ponto Antero de Quental e Fernando Pessoa têm um papel fundamental. Antero reconcilia-o com o soneto, e reforça a força da ideia e do pensamento que sempre atraiu Nuno Júdice. Pessoa transforma a poesia em ficção e o final de Antero corresponde a uma transformação ficcional “naquele banco onde se suicida de uma forma perfeitamente encenada”. Deste modo, “memória, imaginação e ficção são partes essenciais da criação poética, mas se na sua origem não se encontra uma experiência, uma relação próxima com a realidade, o poema soa a vazio, a falso”. E o certo é que a poesia se torna não só uma forma de resistência, mas também de sobrevivência. E Nuno Júdice considera-se beneficiário de um privilégio – “nasci em Portugal e o país pese a essa tendência masoquista da nossa ‘inteligência’ para nos autodestruir, é uma exceção que permite respirar um pouco melhor quando olhamos o mundo. E tem uma grande história literária e paisagens e espaços únicos”… Essa é a natureza viva que constitui matéria-prima de um autor de exceção, cuja descoberta é ainda inesgotável.
E de novo este céu desenrola a sua matéria de outono. Com a precisão do vindimador, agarro as suas vides e corto os cachos de névoa que caem sobre a terra. Ponho-os no carro do poema, e levo-os para a adega abandonada do sonho para os transformar num vinho de palavras feitas com as sílabas mais líquidas, as que se podem beber pela taça da estrofe. E um fumo da antiga inspiração evola-se da cuba dos mistérios. As raparigas descalças, com os seus aventais de sol, sobem para o lagar e pisam as uvas. O cheiro do sumo sobe até ao fundo da sua cabeça, e antes que fiquem tontas começam a contar as memórias perecíveis, as que nasceram de uma fuga nocturna pelos campos impunes do estio. Espero que acabem o seu trabalho, e vejo-as sair com as pernas roxas até aos joelhos, e as saias subidas até às coxas. Os seus olhos rodam como as velas de um moinho ébrio de vento; e abrem os braços à luz, como se desejassem que ela limpasse os seus corpos da espuma que os envolve. E canto esses corpos, como se elas me pedissem que transformasse o mosto dos seus lábios no vermelho puro da madrugada. Assim, uma levada de versos recitados nos rituais da origem inunda os seus seios e restitui-lhes a brancura inicial, enquanto me obrigam a beber os líquidos que os seus pés destilaram. E apenas lhes peço, quando vestem as suas túnicas de nuvem, que atravessem de novo as videiras decepadas e abracem os vindimadores, beijando-os, para que eles provem o vinho novo dos seus lábios.
in A Convergência dos Ventos, 2015
The grape harvest of Eros
And again this sky unfolds its autumn matter. With the precision of a vintager, I grasp the vine branches and cut bunches of mist pouring over the earth. I load them on to the poem’s wagon and drive them to the abandoned cellar of dreams to turn them into a wine of words made from the most liquid syllables, those which can be drunk from the cup of the stanza. A smoke of ancient inspiration rises from the vat of mysteries. Barefooted girls wearing aprons of sun climb on to the press and tread the grapes. Juicy smells reach their heads, and before they get too tipsy they tell of perishable memories born from nocturnal escapades through unpunished fields of summer. I wait for their work to be done and watch them leave, their legs purple to the knee, their skirts lifted to the thigh. Their eyes whirl like wind-inebriated sails; and they open their arms to the light, wanting it to rid their bodies of clinging foam. And I sing those bodies, as if they had asked me to transform the must of their lips into the pure red of dawn. Thus, a wave of lines uttered during the rituals of origin spreads over their breasts, bestowing primeval whiteness, and making me drink the liquid distilled by their feet. I can only beg them, as they dress in their gowns of cloud, to go again through the severed vines and embrace the vintagers, kissing them, so they may taste the new wine on their lips.