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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ARMANDO SILVA CARVALHO

  


VAZIO NO MEIO DO MAR


Quem ama o tempo como eu nesta manhã de ruídos

que se afastam de mim e me fazem sentir
vazio no meio do mar?
Quem devora este ar tão benfazejo à boca
e ao replicar das ondas
nos ouvidos como sinos de água?


Um tempo que se curva,

com o início nos joelhos dobrados na infância,
na mãe obsessiva,
e vem,
como de onda em onda,
transportando as dores, até este rochedo
que me suga os anos
e morde, devagar, a memória
da vida.


in De Amore, 2012


EMPTY AT SEA


Who loves time like I do this clamouring morning

that moves away and makes me feel
empty at sea?
Who devours this breath of air so mouth soothing,
so wave-like,
water bells to my ears?


A bowing time,

childhood bent knees,
before the obsessive mother,
unfolding,
wave after wave,
carrying sorrow up to this rock
that sucks in my years
and bites, slowly, the memory
of life.


© Translated by Ana Hudson, 2014

in Poems from the Portuguese

 

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
SOPHIA: MEMÓRIA – 2 DE JULHO DE 2004


1 - 
Começa a ser sina. De cada vez que me afasto, em peregrinações minhas longamente preparadas, toca o telemóvel com uma notícia terrível. Munique, agosto de 2002, Cumes, maio de 2003, Génova, julho de 2004. Mortes ou outras coisas que sabemos. Sabia que iam acontecer. Esperava-as. Mas não ali, onde parecem tão súbitas, tão sozinhas, tão desamparadas como se eu não fizesse falta nenhuma. "Por isso eu escrevi" - escreveu-me Sophia há mais de sete anos - "Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo." E esse poema continua: "Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e nos separa." É isso que faz mais medo: a mentira, a separação. Já não vale a batota das palavras.


2 - 
Era o dia - aqui o recordei - em que passaram cem anos sobre a morte de Tchekov. A seguir a um almoço muito tardio numa fruste esplanada de madeira, subi e desci ruas quentes e íngremes até uma igrejinha românica (fundada no século VII, reconstruída no século XII) chamada Santa Maria di Castello. Lá, num claustro evanescente, está pintado um fresco representando a Anunciação. Data de 1451 e é obra de um tal Justo da Alemanha (sic) de quem nunca ouvira falar. Sob ogivas, um grande arco de volta inteira cobre o Pai e o Espírito Santo, no tecto de um espaçoso quarto. A Virgem, de pé, de manto azulíssimo e mãos cruzadas sobre o peito, está à direita, submissíssima. À esquerda, o arcanjo, dourado e muito mais volumoso, dá-lhe o Avé. Mas reparei que, ao fundo, do lado de Maria, existe um lava-louças. Da torneira salta um peixe. No fundo da bacia, meia de água, jaz outro peixe, morto. A simbologia crística do peixe é conhecida. Mas nunca a tinha visto figurada assim, em recapitulação tão elíptica e tão envolvente. 


Não havia mais ninguém. Mas, quando me vinha embora, apareceu um padre. Perguntei-lhe se não haveria reproduções. Disse-me que sim e pedi-lhe duas, uma para mim e outra para oferecer. Deu-mas e recusou qualquer pagamento. Da igreja desci até ao Vico dei Giustiniani. Virei à direita, depois à esquerda e cheguei ao Duomo, consagrado a São Lourenço, que, segundo a lenda, teria sido assado vivo naquele local ("Virem-me do outro lado, que eu deste já estou assado"). A fachada, construída entre os séculos XIII e XV, em mármore policromado, é magnífica. O interior, muito modificado, bastante mais pesado. Depois, desci para o bairro medieval e para o porto. Ao fim da tarde, o calor horrível começou a abrandar e perdi-me nas ruas estreitíssimas e de casas altíssimas, onde só havia sombra. Foi nelas que, pela primeira vez, me lembrei conscientemente de Sophia e daquele poema (do "Mar Novo") que se chama "Marinheiro sem Mar", e que é sempre um dos meus favoritos dela. "Todas as cidades são navios / Carregados de cães uivando à lua / Carregados de anões e mortos frios." E mais adiante (deve ser um dos poemas mais longos de Sophia, que, em toda a história da literatura portuguesa, ninguém excedeu no verso curto): "E sobe por escadas escondidas / E vira por ruas sem nome / Pela própria escuridão conduzido / Com pupilas transparentes e de vidro / Vai nos contínuos corredores / Onde os polvos da sombra o estrangulam / E as luzes como peixes voadores / O alucinam." Foi a pensar em Sophia que cheguei, já começava a entardecer, à Piazza San Matteo, a mais bela e perfeita praça de Génova, onde as casas de Branca Doria ("'lo credo' diss'io lui, 'che tu m'inganni; ché Branca Doria non mori unquanche/ e mangia e bee e dorme e veste panni'", disse Dante ao irmão Alberigo no Canto XXXIII do "Inferno", antes de amaldiçoar os genoveses, "uomini diversi") de Lamba Doria (vencedor da batalha de Curzola) e de Domenicaccio Doria abrem alas de rosa e branco para o verde pálido da Igreja de San Matteo e dos mosaicos da fachada dela. "Como é estranho não saber", disse Sophia no último verso dos nove "Poemas de um Livro Destruído", poemas que Sophia conservou inéditos por mais de vinte anos. Ali, sentado no chão, nos degraus da casa de Lamba Doria, em frente da igreja (já fechada) eu julgava saber alguma coisa. Suadíssimo, descamisadíssimo, sentia uma grande paz e não havia vivalma ao meu redor. Por isso, apanhei um susto quando o telefone tocou (esqueço-me sempre de o desligar). Uma espécie de mau presságio. Mas era um banal recado da Cinemateca, pormenores de programação. Estranhei não me irritar com a interrupção e, enquanto olhava, (olhava sempre) mantive uma longa conversa, com instruções para mudar o filme A para o dia Z e o filme Z para o dia B. Tudo muito calmo, muito quotidiano, como se estivesse à secretária da Barata Salgueiro. Depois de desligar, deixei-me ainda ficar muito tempo por ali, muito longe de maldizer os genoveses ou de pensar no Cócito. Nenhuma vontade de fazer mal a alguém por cortesia. Se houvesse na praça um restaurante, tinha jantado por ali, para ver como a noite lhe ficava. Não havia e por isso dei ordem às pernas para o que lhes queria: regressar ao hotel, tomar um bom banho, mudar de roupa e voltar a sair para jantar bem.


3 -
 Foi quando cheguei ao hotel, bastante esfalfado, já tinha na mão a chave do quarto, que o telefone voltou a tocar. Desta vez, nenhum sobressalto nem nenhuma surpresa. Era o meu genro Pedro. Demorei uns segundos a reparar no tom grave da voz. A Maria, filha da Sophia, tinha telefonado a pedir que me avisassem, que eu gostava de saber. 
Desisti dos meus planos e fiquei no hotel, numa grande casa de jantar quase deserta. Tentei falar com a Maria ou com os irmãos, mas não consegui. Também não consegui falar com a pessoa em quem mais pensava. Começaram, sim, a falar gentes dos jornais, a pedir comentários, "depoimentos" (o que eu odeio os jornalistas nessas alturas!). Inevitavelmente, pensei no poema de que toda a gente se lembrou quando ela foi morta. E ouvi-a distintamente, como no velho disco de 45 rotações que havia lá em casa, dizer: "Outros amarão as coisas que eu amei." Estúpida vaidade, ou o contrário disso, pensei que, naquela tarde em Génova, 2 de julho de 2004, eu teria sido um dos primeiros desses outros, pois que certamente Sophia amou, ou teria amado, o fresco do claustro de Santa Maria di Castello ou a Piazza San Matteo, se acaso os viu, se acaso os visse.


4 -
 Mas será verdade, como Sophia tão fundamente acreditou, que tudo continuará "como se eu não estivesse morta"? "Será o mesmo brilho, a mesma festa / Será o mesmo jardim à minha porta"? Vezes sem conta discuti isso com Sophia. Para ela, "sempre a poesia foi uma perseguição do real". Quando recordou a "maçã enorme e vermelha" "poisada em cima de uma mesa", "num quarto em frente do mar" (e era a coisa mais antiga de que ela se lembrava), não recordou "nada de fantástico" "nada de imaginário". "Era a própria presença do real que eu descobria." Por isso, cem vezes ou mais, na sua poesia, associada à morte, surge essa crença na continuidade do real, independentemente dela ou de qualquer humano. "Também morre o florir de mil pomares / E se quebram as ondas no oceano." Ou: "Um dia quebrarei todas as pontes / Que ligam o meu ser, vivo e total / À agitação do mundo do irreal / E calma subirei até às fontes." Cito ao acaso, de memória. Podia citar mil poemas em que ela diz o mesmo. Mas para mim (e a questão é filosófica e tão velha como os primeiros filósofos) esse radical realismo é-me estranho. Sophia ou Génova, para não sair do tema desta crónica, só são ou foram reais quando e enquanto me foram aparições. "Quando o meu corpo apodrecer e eu for morto" não estou nada certo que Sophia e Génova continuem como continuam hoje, porque eu estou vivo e eu me lembro delas. Um amigo observou-me um dia, a propósito de uma destas crónicas do PÚBLICO sobre Itália (era sobre Lecce), que eu não escrevia sobre Lecce escrevia sobre mim, como se, perdido eu, Lecce deixasse de poder ser vista como eu a vira. Tem toda a razão. Foi assim e é assim. Sem mim, não sei de eu. Isto não significa - muito ao contrário - que eu não acredite na comunhão dos santos, na ressurreição da carne, na vida eterna, amém. Esta crónica, bem lida, é um dos múltiplos sinais. Mas só a fé que tenho em não desaparecer me faz acreditar que ninguém ou nada do que amei desaparecerá também. Se eu fosse ateu, poderia repetir, sem remorso ou vacilação, o "après moi le déluge". Não concebo qualquer real independente de mim. Como não concebo que o Kouros do Egeu seja para mais alguém, como foi para Sophia, "Sorriso sem costura / Inocência de caule / Retrato nu do liso." É verdade? É. Tão, tão verdade. Mas ninguém nunca mais inventará esses seis substantivos ligados por um único adjectivo. O mais longe que vou é ao que Sophia escreveu no mágico poema chamado "Veneza", do livro "Ilhas".


"Dentro deste quarto um outro quarto 
Como um Carpaccio nas ruas de Veneza 
Segunda imagem sussurro de surpresa 
E um pouco assim são as ruas de Veneza  
Em fundo glauco de laguna ou vidro  
E um pouco assim em nossa vida o duplo  
Espelho sem perdão do não vivido  
Caminha destinado a ser perdido


5 -
 Acima falei dos nove "Poemas de um Livro Destruído", que, escritos entre "Coral" e "No Tempo Dividido" (ou seja, entre 1950 e 1954, tinha Sophia trinta e poucos anos) só foram inseridos em 1985 na segunda edição do último desses livros. 
Sophia falou-me deles em 1969 ou em 1970 e disse-me que lhe faziam um medo enorme, porque lhe pareciam alheios, sendo dela como se não fossem dela. Pedi-lhe que me escrevesse aquele que começa com "Não procures verdade no que sabes" e, desde esse dia, guardo esse poema ao lado das imagens mais minhas, como o retrato dela em Agrigento que o Alberto lhe tirou. Em Génova, naquela noite, ouvia a voz dela, ouvia os poemas dela ditos por ela, e via-a a ela e à poesia dela. Tudo tão real quanto fantástico. Como ela o foi, como ela o é. Mesmo quando nada restar da poesia dela, mais do que um verso ou um fragmento. Não foi só isso que nos ficou de tantos poetas da Grécia antiga? Mas, porque outros os amaram como alguns amaram Sophia, esse resto é quanto basta. Porque "a arte é filha da memória". Sophia, eu lembro-me.

 

João Bénard da Costa
6 de agosto 2004 in Público

A VIDA DOS LIVROS

  

De 27 de junho a 3 de julho de 2022.


«O Concerto Interior – Evocações de Um Poeta», de António Osório (Assírio e Alvim, 2012) reafirma um grande artífice da palavra que continua bem presente na cultura portuguesa.


O AMOR VOTADO ÀS PALAVRAS
«O amor que votavas às palavras, sabias introduzi-las, setas vibrantes num alvo. Usavas a toga com dignidade: escolhias sempre o melhor lado, o menos frágil dos litigantes. Ad vocatus, o que é chamado em auxílio, isso realmente foste. Incapaz de cobrar dinheiro por uma consulta. Meu pai enfurecia-se quando se tratava – altura embaraçosa – de apresentarem conta aos clientes: arranjavas sempre um pretexto para sair. Era a tua premeditação de respeitar os outros, na entrega complacente que merecem e, justamente, esperam de nós, que vestimos à semelhança dos padres e conhecemos, melhor que eles, os jogos lacerantes dos interesses e o curso desvendado das paixões». Nesta dedicatória ao tio Henrique, o poeta António Osório confessa a essência da sua escrita e do seu ofício. Um serviço, uma entrega, uma fidelidade – eis o que um mundo de palavras revela e ao mesmo tempo esconde. Quando lemos esse texto, percebemos que a oficina das palavras do autor de Ignorância da Morte começou por ser a do avô, escrivão da Boa Hora. “A clareza equilíbrio de um oleiro cingido às leis, boas e más do seu barro” constitui a matriz que articula os dois mundos que António Osório procura ligar e distinguir, mas que se completam necessariamente. Inventários, questionários, especificações, mapas de partilhas, mas “em poesia não há causa que se possa ganhar, nem transação a fazer consigo mesmo”.


IGNORÂNCIA DA MORTE
Como afirma Eduardo Lourenço, “a temática central da poesia de António Osório, a da ignorância da morte, graça ou prémio duramente concedido aos que vencem ‘a guerra do tempo’, não ignorando-a, mas fazendo-se semelhantes à criança anterior à morte que todos fomos”. E assim, o ensaísta salienta “o poeta do amor incarnado, sensualizado até à alma”. O amor, a morte e a vida entrelaçam-se. Sem ceder à tentação do rio do esquecimento, torna presentes, “sob a morte e a ruína, (…) a vida e a casa que nela se desfazem”. E Vasco Graça Moura salientou, e bem, como “primeira singularidade da poesia de António Osório”, a vivência de uma “poesia em que a questionação do real decorre da sua própria e plena afirmação”. Uma ilustração? Indubitavelmente “Aldeia de Irmãos”, onde se encontram todos os ingredientes que estão na sua oficina de oleiro: “Ao pé dos eucaliptos, / do lavadouro, as casas. / Capela fechada, oficiantes ratos, / e cães, patos, galos / na rua e a dormir dentro, individuais sub-reptícios. // E doentes, cavadores, crianças / sonhando com ninhos destruídos. / Longe, na paróquia o cemitério. // Em torno vinhas, olivais / irmãos uns dos outros / como tijolos dentro da parede. / E no inverno o canto / da lenha exorbitando na lareira, / a queimar, a queimar a cinza por debaixo”. A realidade e uma ponta de humor, a dura existência humana contraditória, a natureza e o fraterno calor de um encontro. “A teu lado estou / sorrindo a chamar-te, / espero que regresses a casa, / ansiosamente corro para a porta”. Eis, num “in memoriam”, a chave do sentido poético. A memória supera limites e permite compreender como a realidade é bem mais rica do que o presente palpável.  «O ofício de advogado levou-me a ser discreto como poeta. As pessoas preferem, naturalmente, bons profissionais do foro a excelentes poetas» - confessou-se assim a Ana Marques Gastão em entrevista ao DN (24.3.2001). A pequena frase diz-nos tudo sobre o que foi. Exímio cultor do seu ofício, viveu a poesia como respirava o ar que nos faz existir. E a sua exemplar poesia foi o modo de exprimir a riqueza do espírito. Com orgulho lembro-o como meu Bastonário, exemplo numa profissão tão vulnerável e exigente. E não me cansarei de dizer que, como advogado, foi dos melhores e que a sua memória tem de ser muito lembrada – pelo saber, pelo espírito de justiça, pela compreensão do Direito e da lei como sinais de humanidade e da dignidade do ser.


LONGAS CONVERSAS… 
Em longas conversas inesquecíveis, recordava a sua infância, com mãe italiana e pai português: “todos os dias, minha mãe lia-me os seus livros cuidadosamente arrumados”. “Ilíada” e “Odisseia”, sempre em italiano. A seguir passou para Dante. “Explicava-me aquelas estâncias, contava-me as histórias florentinas, as perseguições que sofrera esse poeta que não era herói inferior a Ulisses…”. Do pai, ouvia os Contos e as Histórias Maravilhosas da tradição popular, recolhidas pela tia Ana de Castro Osório. E a belíssima toada florentina era completada pela melhor língua portuguesa – Camões, Cesário Verde, Camilo Pessanha. E devo a essas charlas, ditadas pela amizade a invocação circunstanciada, com emoção especial, das raízes familiares. Ele, ainda menino, chorando inconsolável a derrota de Heitor perante Aquiles; a presença do tio Henrique; Maria Valupi e a “Felicidade da Pintura” com Miguel Ângelo Lupi; o exemplo de Ana de Castro Osório, cidadã corajosa e pioneira, que permitiu a revelação de Camilo Pessanha e da “Clepsydra” (que, sem ela, teriam ficado no esquecimento); as afinidades eletivas da Arrábida e de Setúbal dos nossos avós, que me recordou logo que nos conhecemos. “Aqui, junto a estas árvores / cresceste como a sua melhor sombra, / a mais alta, solícita” (como disse de Sebastião da Gama. Um dia fui em peregrinação ao túmulo de seu avô, aos pés de San Miniato al Monte, na mágica Florença, cidade natal de sua mãe. Nunca esquecerei tão intensas lembranças de quem “gostaria de ser visto como alguém que encontrou as suas raízes primordiais na Grécia, emigrou para a Sicília quando da Magna Grécia, sente por Roma uma funda admiração, e pertence a uma geração de uma tradição cultural mediterrânica e atlântica, universalista, que abarca o italiano, o francês, o espanhol e o português”. E o universalismo era uma marca muito séria. E encontramos ecos de Bashô e da espiritualidade oriental. “Não sigo o caminho dos antigos, busco o que eles buscaram”. Era emocionante um encontro com o poeta, que preferia o puro culto da amizade e da memória, como na lembrança de seu pai (e de sua mãe): “Assim te amo agora sem lágrimas, / Que deste modo teus netos / um dia se recordem de mim, / na tua, minha e deles pura ignorância da morte”. De facto, nunca ignorou que a poesia é sempre um mistério e uma aproximação ao sagrado, como aliás a música. Daí a relação com a morte, como luta contra a obscuridade. E os mortos, na sua memória querida, ajudam na procura de outra serenidade, como modo de purificação. Assim, João Gaspar Simões leu o poeta “com uma efusão de alívio, o alívio que se sente quando, num quarto muito abafado, alguém abre de súbito uma janela”. E Eugénio Lisboa, leitor atento e premonitório de A. Osório, salienta a surpresa da absoluta claridade, da frescura primordial e da objetividade de Cesário. E assim se entende que “Com os anos / a pouco e pouco / a raiz afetuosa / penetrou / no fundo da terra / até chegar / ao mais pequeno / e mais antigo / veio de lágrimas”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

  


Vi Roma a arder

Vi Roma a arder, e neros vários
bronzeados à luz da califórnia
guardar em naftalina nos armários
timidamente, a lira babilónia;
as capitais da terra, uma a uma,
desfeitas em nuvem e negra espuma,
atingidas de noite no seu centro;
mas nunca vi paris contigo dentro.
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava «a morte»;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.


I saw Rome burning

I saw Rome burning, and several neros
tanned by the californian light
timidly stashing away in closets
mothballs and babylonian lyres;
the world's capitals, one by one,
darkened into froth and cloud,
crushed in their core at night;
but i never saw paris with you inside.
And this is the missing image
in my fate-allotted photo album
like a cinema showing certain ‘death’;
solemn emperor, opening the shroud
in which I hid my anger and my plight,
I’ve yet to see paris with you inside.


© Translated by Ana Hudson, 2013
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ANTÓNIO CARLOS CORTEZ

  


A palavra eu acredito nela…


A palavra eu acredito nela
Na sua pedra rugosa na sua superfície
De astro inominável como o fogo
A palavra eu acredito na sua sombra
Na sua medida singular
Na sua circunferência exacta quando arde
Na vida com seus animais urbanos
Evolando-se os animais no verbo escuro
Acreditar no infinitivo lodo do seu jogo
E não permanecer na sua cegueira incerta
A poesia quando se rende ao real literal
Ausente da vida que a perfura
A palavra eu acredito nela e na sua luz secreta
Entre o seu fazer e o ser dita na leitura


in A Sombra no Limite, 2004


I believe in the word...


I believe in the word
Its rugged stone its surface
Star as unnamable as fire
I believe in its shadow
Its singular measure
Its exact circumference as it burns
In life with its urban animals
Animals vanishing in the verb’s darkness
To believe in the infinite swamp of its sport
And not dwell in uncertain blindness
Poetry surrendering to literal reality
Absent from the piercing life
I believe the word, its secret light
Between its making and its telling as it is read


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ANA MARQUES GASTÃO

  


«Sê lenha»


Enquanto a faca corta o alimento,
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.


Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.


in Adornos, 2011


«Be firewood»


While the knife cuts the food
the mouth delays the cut, the taste,
the chance, the child devours what you’ve got
and your will demands: ‘be firewood’.
Go on, carry your body with wound
scar or name, you are wild bone
flesh and hunger, a tolling bell
that deafens and flattens you.


From the sea, the earth, from the earth the water,
from the fire, the air, only the internal is external
dissolving into an iodine solution,
stifling you in the metallic smoke and shaping
a shadow, the shoulder, the hand. But look,
see, listen to the impatient sound of the firewood
sunk into salt, tell the story,
tell again the only story that makes you live.


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ANA LUÍSA AMARAL

  


Uma botânica da paz: visitação


Tenho uma flor
de que não sei o nome


Na varanda,

em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima


Mas estes são prodígios

para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
assombramento,
minúsculas e leves


Não a ameaçam bombas

nem românticos ventos,
nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz


E o céu azul de Outono

a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água que lhe dou


Deve ser isto

uma espécie de paz:


um segredo botânico

da luz


in Entre Dois Rios e Outras Noites, 2007


Botanics of peace: visitation


I have a flower

whose name I don’t know


On the balcony,

its scent blends
with other smells:
hibiscus, rose,
a sprig of verbena


But they will be prodigies

of another morning:
for this flower
has bred leaves of astonishing
green,
minute and subtle


Bombs do not threaten it

nor do romantic winds,
missiles or tornados,
neither does it know, although so near,
of the jeopardy the salt
sea air will bring


And the blue autumn sky

disguised as summer
gives it such blessing,
as does the little water that I pour


And this must be

a sort of peace:


a botanical secret

of light


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese 

 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ANA HATHERLY

  


CASAMENTO DO CÉU E DA GUERRA


Não, meu caro Blake

Esta não é, como a tua
Uma guerra mental
Para as cósmicas acrobacias
Que atravessam o fogo
Das tuas fantasias


A acção heróica

Que outrora seduzia
Agora é um puro teste
E o campo de batalha
Visto de longe
de cima
de muito alto
É pura geometria
No rectângulo do scanner


As novas armas que cruzam nossos céus

Caem sobre a terra
Distraidamente
Errando o alvo
Enquanto os corpos desencarnam
À sombra das destruídas pontes da lembrança


Que queres de nós, Doctor Clash?

Que nos dizes lá do alto?


Um cruel pai nos entrega a este conúbio

Atirando a bola
Para o campo do adversário
Onde o árbitro já foi despedido
E vestido de preto
É uma mosquinha
No imenso campo
Verde
Porque a teimosa relva
Continua a crescer
para ser pisada
para ser esmagada
Porque esse é o seu cruel programa


Do céu

Donde sempre nos veio
O fogo e a água
Continua a vir
O sustento da morte


in Itinerários, 2003


MARRIAGE OF HEAVEN AND WAR


No, my dear Blake

This is not, as yours was,
A mental war leading
To the cosmic acrobatics
Crossing the fire
Of your imagination


The heroic deed

So seductive of yore
Has become a pure test
And the battle field
Seen from afar
from above
from way up
Is pure geometry
In the screen of the scanner


The new weapons that cross our skies

Fall upon us
Absent-mindedly
Missing the target
While the bodies disembody
Under the shadowy bridges of remembrance


What do you want from us, Doctor Clash?

What say you to us from up there?


A cruel father delivers us to this wedding

Kicking the ball
To the field of the enemy
Where the referee having been fired
Dressed in black
Looks like a tiny fly
In the huge field
Green
Because the stubborn grass
Continues to grow
to be trampled on
to be squashed
Because that is its cruel program


From the sky

Whence fire and water
Were always bestowed upon us
Keeps coming
The sustenance of death

 

© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese 

 

CRÓNICA DA CULTURA

VINTE POEMAS (IV)

  


XVI

Outros séculos virão
Outras grades impedirão as aves
Do grito
Mas no ouvido concreto
O apelo
Às vidas de pé
Será consciência pura
De uma vitória


XVII

Somos gotas
E pouco mais

Às vezes gotas de água
Outras
Hálito

Amanhã
No buxo de um qualquer lodo
Indiferenciadas
As nossas pegadas

Só as glicínias
Têm memória

Só as abelhas
Zumbem

Só as crianças
De colina em colina


XVIII

Em cinzas
Depois do grande salto
Dirigimos as cartas
À existência que nunca se viveu


XIX

Ao princípio a guerra e a paz
Dividem-se pela fenda
Depois
Identificam
O atalho


XX

Que uma locomotiva
Transporte um cordeiro
Que a rama branca resgate
A nossa paz
E que tudo isto aconteça enquanto viajamos

Habitantes do humano

 

Teresa Bracinha Vieira

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ALBERTO PIMENTA

  


tornei a sonhar com o homem

tornei a sonhar com o homem
que se debruça sobre ti
mete as mãos 
na tua vagina
tacteia empurra segue sobe
chega ao teu coração
arranca-o com as unhas
trá-lo para fora com um fio de pesca
embrulha-o num pano
afasta-se com ele
o sangue não pára
tu ficas a ponto de morrer
com muito estertor
mas não morres

tens razão
eu não conseguiria
satisfazer-te tão intensamente
como o homem dos teus sonhos


again i dreamt of the man

again i dreamt of the man
who bends over you
his hands
in your vagina
he touches pushes presses on upwards
reaches your heart
with his nails rips it out
pulls it with a fishing line
wraps it in a cloth
takes it away
the blood doesn’t stop
you are nearly dead
gasping
but you don’t die

you are right
i wouldn’t be able
to satisfy you as intensely
as the man of your dreams

 


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese