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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MIGUEL CARDOSO 

  


O mundo, portanto


O mundo, portanto.
O que nos manuseia.
Convoca: esta é uma outra maneira
de dizê-lo.
Será esse o seu propósito
(chamemos-lhe assim) e a razão
dos seus acasos, necessidades,
dos inacabados engenhos,
das suas discretas insistências
e dos nossos risos
(chamemos-lhes assim) ruidosos por entre
o que há de incumprido nos lugares.
Mas depois disso?
Não adianta alegar inocência.
Já ninguém acredita.
E depois pouco interessa.
Há quem tenha rabiscado
em guardanapos ou lançado
gestos. Assim,
sem mais.
Como se fossem
imprevistos.
Quem tenha feito aperfeiçoado
o crrchtctchhtt
das fitas encravadas
ao lembrar-se. E assim
por diante, sem que andasse assim
tão longe da verdade. Quem tenha furiosamente
esquecido o tempo e o espaço, ou dobrado
um no outro, bem devagar, enquanto
esperava, simplesmente, que passasse
por ali um sopro. Ou seja, que fosse
visto pelos outros igualmente assim
cambaleantes. Que as dores
não amansassem o tempo,
o mundo, e tudo o resto.
Há quem tenha sido exaltadamente
retráctil, como uma mão
na água fria. Quem tenha guardado
uns berlindes num saco de renda,
numa gaveta junto aos bonecos
de dar à corda. Naturalmente.
(Pensem por exemplo
no som que uns e outros)
Há quem tenha chegado um pouco tarde
porque parou, muito parado um bom bocado,
para desentorpecer o andar. Uma espécie
de esgravatar da rotina
por uma desordem, quase sossegada.
Uma desordem quase, uma desordem quase.
Há quem tenha feito uma ideia súbita durar
anos, usando-a ferozmente, só de vez em quando.
Quem tenha lido tão espantadamente
os voos e as vísceras desgovernadas do banal.
Há quem tenha deixado de vez
de anunciar cortes
nos paradigmas e emprestado a faca
a criaturas mais soltas.
Quem se tenha deixado ficar
muito aconchegado para ouvir melhor
e praticar o ranger de dentes.
Quem tenha de tanto andar digamos
por aí roubado a arquitectura aos arquitectos.
Quem tenha demorado uma vida a chegar
às ditas grandes questões. E as tenha desfeito
às três pancadas (e não uma de cada vez).
Quem tenha trazido as palavras de volta
ao esforço. Quem tenha passado muito
tempo em zonas em que a lei é omissa.
Quem tenha perguntado muito rindo
de como encolhem os ombros
os que choram. Pois não há resposta.
Quem tenha sido obstinado na hesitação,
mas porque acreditava como ninguém
nas virtudes do mergulho incalculado.
Há quem não tenha esperado nunca
por nada senão talvez um certo dia
pelo fim de tudo e por isso tenha andado
tão entregue a princípios. E andado tanto,
entretanto (o que não impede o exercício
por exemplo da cartografia mas atrapalha
as competências um pouco mais lentas da lupa).
Quem tenha portanto ido e vindo
e nisso visto um pouco o mundo.
Há quem tenha achado que era pouco, isso.
Quem tenha desencadeado. Isso sim,
seja lá como. Quem tenha sido pouco
minucioso a pontapear os inimigos circundantes.
(Ainda assim, tão exacto quanto possível)
Quem tenha feito uma coisa parecida com extinguir-se.
Que tenha espatifado uma coisa parecida consigo próprio.
Quem se tenha encadeado, a olhar para o chão.
Quem nunca tenha clarificado muito bem as suas claridades.
Até quem não as tenha tido, para evitar distracções.
E quem tenha sido objectivamente
impreciso (para lá da óbvia necessidade).
Quem tenha rasurado mais do que escrito.
Há quem tenha prematuramente anunciado
o fim. Nem que fosse de mais um cigarro
(porque mesmo um fim assim, tão fraco
de cinza e assobio e luz que se esboroa
é tão doce como um bom prenúncio).
Há quem tenha dito: talvez quando amanhecer.
Quem tenha apagado a luz e rondado
as explosões de maçãs muito quietas.
Quem tenha vivido sem que se desse por isso.
Quem tenha achado lindo um sábado
em que já não havia nada mesmo nada a fazer.
Quem se tenha agachado a rir.
Quem tenha esfaqueado a pedra
como se tivesse alguma coisa dentro.
Quem tenha dançado tão mal
e tão espantosamente entre cadeiras
num bar, já depois de fechado.
Quem tenha relido tudo, agora mais devagar.
Quem tenha sobretudo rasgado. Ou enfim
dançado. Quem tenha sido tão sossegado,
e no entanto. Quem se tenha divertido a mexer
as mãos em frente a projectores. E no entanto.
Quem tenha acendido o ecrã simplesmente
para ver o pó contorcer-se.
Quem tenha escavado esconderijos
e engendrado evasões.
Quem tenha amplificado os sons
mais murmurados, inventado cartuchos ainda
mais oleados e bandas tão mais magnéticas
para isso. Pigmentos novos, pestanas mais
estremecidas, facas mais aguçadas, vozes
ainda mais roucas, palavras mais impensadas,
morais mais soltas, vidas mais desfeitas,
futuros mais espalhados, amores mais
o que seja que os amores mais ficam.
Ou quem tenha desamado tudo
com uma seriedade louca e entre risos
por acaso auscultado os tais engenhos.
Não é mau, como princípio.
Tudo isto, diga-se, quase sempre com rigor feroz
e subtileza sempre quase rítmica e sôfrega.
Isto interessa-nos.
Tudo isto,
ainda que por outra razões,
ou com outros fins
– ainda incertos.
Daremos outro uso aos instrumentos
Às subtilezas, e aos modos de desabar.
É disso que se trata.
Falta tudo o resto.


in Que se diga que vi como a faca corta, 2010


The world, therefore


The world, therefore.
That which handles us.
Summons us: in another manner
of speaking.
Will this be its endeavour
(let’s call it that way) and the reason
for its chances, needs,
its unfinished devices,
its discrete insistences
and our laughing
(let’s call it that way) loudly amongst
that which is left unfulfilled in places.
And then what?
It’s no use invoking innocence.
No one believes in it any longer.
Nor is it very interesting.
There were some who scribbled
on paper napkins or hurled
gestures. Just
like that.
As if they were
unexpected.
Those who have perfected
the crrchtctchhtt
of stuck film strips
as they remembered. And so
forth, not so far
from the truth. Those who have furiously
forgotten time and space, or folded them
up together, very slowly, while simply
waiting for some breeze to come by. That is,
to be seen by others just as
unsteady. As if pain
didn’t appease time,
the world, and all the rest of it.
There are those who have been exultingly
retractable, like a hand
in cold water. Who have stashed away
some marbles in a laced bag,
inside a draw together with the
wind-up toys. Naturally.
(Think for instance
of the sounds they generate)
There are those who arrived a little late
because they stopped, very still for quite a while,
to stretch their legs: a sort of
routine scratching
by an almost peaceful unrest.
Almost an unrest, an unrest almost.
There are those who have made a sudden idea last
for years, as they used it ferociously and sparsely.
Those who have so sloppily read
the unruly flights and entrails of banality.
There are those who ceased for good
to announce cuts
in paradigms and lent the knife
to more relaxed creatures.
Those who have stayed
well snuggled to better listen
and practice the gnashing of teeth.
Those who have wandered round, shall we say,
so randomly, stealing architecture from the architects.
Those who have taken their whole life to grasp
the so called great questions only to destroy them
carelessly (and not one at a time).
Those who have brought words back
into effort. Who have spent a long
time in lawless places.
Who have questioned a great deal, smiling
at the shoulder shrugging of those
who weep. For there are no answers.
Those who have been hesitatingly obstinate,
due only to their unique belief
in the virtues of non-calculated dives.
Those who have never expected
anything except perhaps once for the end
of everything and have therefore walked
totally devoted to principles. And they took such long strides,
in the meantime (which doesn’t for example prevent
exertions on cartography but muddles up
the much slower abilities of the magnifying glass).
Those who have therefore gone to and fro
and thus seen a little of the world.
There are those who thought this wasn’t enough.
Those who have broken ground. It doesn’t really
matter how. Those who weren’t
very precise when kicking their surrounding enemies.
(Well, not as exact as they might have been)
Those who undertook something such as becoming extinct.
Who have annihilated something resembling their own selves.
Those who got entangled looking downwards.
Those who didn’t quite clarify their clarity.
And those who didn’t even see the clarity so to avoid distraction.
Who have been objectively
inaccurate (beyond the necessarily obvious).
Those who have erased instead of writing.
Those who prematurely announced
the end. Even the end of yet another cigarette
(since such a crumbling end, so spare
in ash, light and whistling breath,
is as sweet as any good omen).
Those who have said: maybe in the morning.
Those who switched off the light and haunted
the explosion of very still apples.
Those who have lived without anyone noticing.
Those who have admired a saturday
when there was nothing, but truly nothing, left to do.
Those who have squatted, laughing.
Those who have knifed the stone
as if there was something inside.
Those who have danced so clumsily
and so amazingly among the chairs
of a closed bar.
Those who, now at length, have read it all again.
Those who have mainly torn it all up. Or danced
at last. Those who have been so quiet
and yet. Those who have enjoyed waving
their hands in front of film projectors. And yet.
Those who have lit up the screen
only to see the writhing dust.
Those who have dug holes to hide
and worked up escapes.
Those who have amplified the most whispered
sounds, inventing even oilier
cartridges and so much more magnetic tapes
to this end. New pigments, more fluttered
eyelashes, sharper knives, still coarser
voices, more thoughtless words,
looser morals, more wrecked lives,
more wide-spread futures, more of whatever
can further happen to love.
Or those who have unloved everything
with a mad seriousness and smiling
listened randomly to such exploits.
Not bad, as a principle.
And all this, it must be said, always with a fierce rigour
and almost permanent, rhythmical and eager subtlety.
This is of interest to us.
All of this,
even if for other reasons
or to other aims
– still uncertain.
We’ll provide other usages for tools,
subtleties and manners of collapsing.
It’s what this is all about.
Everything else is amiss.


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARIA TERESA HORTA 

  


Português


Se a língua ganha
a dimensão da escrita
E a escrita toma
a dimensão do mundo
Descer é preciso até ao fundo
na busca das raízes da saliva
que na boca vão misturar tudo
Mas há ainda a pressa do papel
que no tacto navega a brusca seda
Se a sede se disfarça sob a pele
descendo pela escrita essa vereda
E já se inventa
Enlaça
Ou se insinua
Se entrelaça a roca e o bordado
que as palavras tecendo
lado a lado
querem do país a alma nua
Aí podes parar
e retornar à boca
Esse espaço de beijo e de cinzel
Onde a fala retoma a língua toda
trocando a ternura
por fel
Um lado após o outro
a dimensão está dita
O tempo a confundir qualquer abraço
entre o visto e o escrito
Espelho e aço
Nesta fundura boa
e mar profundo
Para depois subir a pulso
O mundo


in Inquietude, 2006


Portuguese


If the tongue gains
the dimension of writing
and writing takes on
the dimensions of the world
We must go deep
searching saliva’s roots
in the mouth where all is mixed
And there’s still the paper’s haste
its touch steering rough silk
Even if under the skin the disguised thirst
streams through the trail of words
And already it creates
Envelops
Insinuates
Interlaces the spindle with the stitch
as the words weave
along the line
wanting the country’s naked soul
There you can halt
and return to the mouth
That space for the kiss and the chisel
Where the voice reclaims the whole language
exchanging tenderness
for bile
First one side then the other
the scale is settled
Time fusing the embrace
between what is seen and written
Mirror and steel
In this pleasing depth
the sea unfolds
Then with effort lifts up
The world


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA 


Ficou vazio…

À Avó

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.
No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.


in Poesia Reunida, 2012


Your place at the table…

To my Grandmother

Your place at the table was empty. Somebody came to tell us
you wouldn’t be back, no one can be back from so far.
And since then our wounds are as deep
as your silence, our visits only feel welcoming
at other tables. The rug remains shriveled
underneath your chair just as you left it.
It will probably stay so forever.
Last Christmas when the house was full just for the children
and one of us sat at the head of the table,
I never found out
if the reason for this was to make our gathering less painful
or to feel again the warmth of your lap.


© Translated by Ana Hudson with Gabriel Gbadamosi, 2012
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARIA ANDRESEN 

  


Costa Oeste


Ouvia o mar – quando o sono demorava – espalhando-se
em humidade salgada em todo o ar da casa, até aos lençóis da cama:
como em tudo na casa, há mar na cama
De manhã auscultarei a bruma, a promessa do sol
auscultarei as vagas, o seu porte, porque eu amo o poder do mar
Atravessaremos o pinhal, o forte cheiro das raízes molhadas, a áspera
proximidade da vegetação de duna – chorão, camarinhas, lírios de areia
e as suas gotículas de água
Iremos comprar pão à Serra, tomar café e ler o jornal entre moscardos
Ah mas ao fim da tarde, ao pôr do sol, é que o cheiro da duna rescendia
de uma tal vida… ! Depois das travessias do sol e das nortadas
O que eu não sabia…
(meu Deus eu não sabia nada)


in Lugares, 2010


West Coast


I could hear the sea – when sleep took its time – spreading
in salty humidity all over the house, even onto the bed sheets:
as with everything else in the house, there’s sea in the bed
In the morning I’ll see about the mist, the promise of sun
I’ll check out the waves, their height, for I love the power of the sea
We’ll walk across the pinewood, strong smell of wet roots, rugged
nearness of the dune’s vegetation – weeping willow, bear berry shrubs,
sand lilies, their droplets of water
We’ll buy bread up on the Serra, have coffee and read the paper with the flies
Ah, but when afternoon ends, when the sun sets and the dune’s scent springs
into such life…! After striding the sun and the north wind
So much I didn’t know…
(Good God I knew nothing)


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARGARIDA VALE DE GATO 

  


Condições Mínimas


Esta sarça é interdita a matilhas;
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas
semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha
e que só uso eu; a nós vontade
basta – e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,
aceitas? compreendes? aguentas?
no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro.


In Relâmpago magazine nº26, 2010


Minimum Conditions


Wolf packs are barred entrance to this bush;
a change of skin must precede the eating
of fire. With this I am not boasting
of particular talents or hush-
ed-up wonders, semi-flawless flattery:
a to-do list, utter loneliness, bristle
cigarette lighter flint, a pistol,
a gadget almost out of battery
for my exclusive use. Willingness
suffices us – and light, hopefully bright,
although not outshining blind surrender
willl you accept? understand? take it in?
pierce the dark nerve of this denseness
but only if you’re able to hold tight
and wholly contain me while I fall asunder.


© Translation by Margarida Vale de Gato and Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
SOPHIA: MEMÓRIA – 2 DE JULHO DE 2004


1 - 
Começa a ser sina. De cada vez que me afasto, em peregrinações minhas longamente preparadas, toca o telemóvel com uma notícia terrível. Munique, agosto de 2002, Cumes, maio de 2003, Génova, julho de 2004. Mortes ou outras coisas que sabemos. Sabia que iam acontecer. Esperava-as. Mas não ali, onde parecem tão súbitas, tão sozinhas, tão desamparadas como se eu não fizesse falta nenhuma. "Por isso eu escrevi" - escreveu-me Sophia há mais de sete anos - "Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo." E esse poema continua: "Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e nos separa." É isso que faz mais medo: a mentira, a separação. Já não vale a batota das palavras.


2 - 
Era o dia - aqui o recordei - em que passaram cem anos sobre a morte de Tchekov. A seguir a um almoço muito tardio numa fruste esplanada de madeira, subi e desci ruas quentes e íngremes até uma igrejinha românica (fundada no século VII, reconstruída no século XII) chamada Santa Maria di Castello. Lá, num claustro evanescente, está pintado um fresco representando a Anunciação. Data de 1451 e é obra de um tal Justo da Alemanha (sic) de quem nunca ouvira falar. Sob ogivas, um grande arco de volta inteira cobre o Pai e o Espírito Santo, no tecto de um espaçoso quarto. A Virgem, de pé, de manto azulíssimo e mãos cruzadas sobre o peito, está à direita, submissíssima. À esquerda, o arcanjo, dourado e muito mais volumoso, dá-lhe o Avé. Mas reparei que, ao fundo, do lado de Maria, existe um lava-louças. Da torneira salta um peixe. No fundo da bacia, meia de água, jaz outro peixe, morto. A simbologia crística do peixe é conhecida. Mas nunca a tinha visto figurada assim, em recapitulação tão elíptica e tão envolvente. 


Não havia mais ninguém. Mas, quando me vinha embora, apareceu um padre. Perguntei-lhe se não haveria reproduções. Disse-me que sim e pedi-lhe duas, uma para mim e outra para oferecer. Deu-mas e recusou qualquer pagamento. Da igreja desci até ao Vico dei Giustiniani. Virei à direita, depois à esquerda e cheguei ao Duomo, consagrado a São Lourenço, que, segundo a lenda, teria sido assado vivo naquele local ("Virem-me do outro lado, que eu deste já estou assado"). A fachada, construída entre os séculos XIII e XV, em mármore policromado, é magnífica. O interior, muito modificado, bastante mais pesado. Depois, desci para o bairro medieval e para o porto. Ao fim da tarde, o calor horrível começou a abrandar e perdi-me nas ruas estreitíssimas e de casas altíssimas, onde só havia sombra. Foi nelas que, pela primeira vez, me lembrei conscientemente de Sophia e daquele poema (do "Mar Novo") que se chama "Marinheiro sem Mar", e que é sempre um dos meus favoritos dela. "Todas as cidades são navios / Carregados de cães uivando à lua / Carregados de anões e mortos frios." E mais adiante (deve ser um dos poemas mais longos de Sophia, que, em toda a história da literatura portuguesa, ninguém excedeu no verso curto): "E sobe por escadas escondidas / E vira por ruas sem nome / Pela própria escuridão conduzido / Com pupilas transparentes e de vidro / Vai nos contínuos corredores / Onde os polvos da sombra o estrangulam / E as luzes como peixes voadores / O alucinam." Foi a pensar em Sophia que cheguei, já começava a entardecer, à Piazza San Matteo, a mais bela e perfeita praça de Génova, onde as casas de Branca Doria ("'lo credo' diss'io lui, 'che tu m'inganni; ché Branca Doria non mori unquanche/ e mangia e bee e dorme e veste panni'", disse Dante ao irmão Alberigo no Canto XXXIII do "Inferno", antes de amaldiçoar os genoveses, "uomini diversi") de Lamba Doria (vencedor da batalha de Curzola) e de Domenicaccio Doria abrem alas de rosa e branco para o verde pálido da Igreja de San Matteo e dos mosaicos da fachada dela. "Como é estranho não saber", disse Sophia no último verso dos nove "Poemas de um Livro Destruído", poemas que Sophia conservou inéditos por mais de vinte anos. Ali, sentado no chão, nos degraus da casa de Lamba Doria, em frente da igreja (já fechada) eu julgava saber alguma coisa. Suadíssimo, descamisadíssimo, sentia uma grande paz e não havia vivalma ao meu redor. Por isso, apanhei um susto quando o telefone tocou (esqueço-me sempre de o desligar). Uma espécie de mau presságio. Mas era um banal recado da Cinemateca, pormenores de programação. Estranhei não me irritar com a interrupção e, enquanto olhava, (olhava sempre) mantive uma longa conversa, com instruções para mudar o filme A para o dia Z e o filme Z para o dia B. Tudo muito calmo, muito quotidiano, como se estivesse à secretária da Barata Salgueiro. Depois de desligar, deixei-me ainda ficar muito tempo por ali, muito longe de maldizer os genoveses ou de pensar no Cócito. Nenhuma vontade de fazer mal a alguém por cortesia. Se houvesse na praça um restaurante, tinha jantado por ali, para ver como a noite lhe ficava. Não havia e por isso dei ordem às pernas para o que lhes queria: regressar ao hotel, tomar um bom banho, mudar de roupa e voltar a sair para jantar bem.


3 -
 Foi quando cheguei ao hotel, bastante esfalfado, já tinha na mão a chave do quarto, que o telefone voltou a tocar. Desta vez, nenhum sobressalto nem nenhuma surpresa. Era o meu genro Pedro. Demorei uns segundos a reparar no tom grave da voz. A Maria, filha da Sophia, tinha telefonado a pedir que me avisassem, que eu gostava de saber. 
Desisti dos meus planos e fiquei no hotel, numa grande casa de jantar quase deserta. Tentei falar com a Maria ou com os irmãos, mas não consegui. Também não consegui falar com a pessoa em quem mais pensava. Começaram, sim, a falar gentes dos jornais, a pedir comentários, "depoimentos" (o que eu odeio os jornalistas nessas alturas!). Inevitavelmente, pensei no poema de que toda a gente se lembrou quando ela foi morta. E ouvi-a distintamente, como no velho disco de 45 rotações que havia lá em casa, dizer: "Outros amarão as coisas que eu amei." Estúpida vaidade, ou o contrário disso, pensei que, naquela tarde em Génova, 2 de julho de 2004, eu teria sido um dos primeiros desses outros, pois que certamente Sophia amou, ou teria amado, o fresco do claustro de Santa Maria di Castello ou a Piazza San Matteo, se acaso os viu, se acaso os visse.


4 -
 Mas será verdade, como Sophia tão fundamente acreditou, que tudo continuará "como se eu não estivesse morta"? "Será o mesmo brilho, a mesma festa / Será o mesmo jardim à minha porta"? Vezes sem conta discuti isso com Sophia. Para ela, "sempre a poesia foi uma perseguição do real". Quando recordou a "maçã enorme e vermelha" "poisada em cima de uma mesa", "num quarto em frente do mar" (e era a coisa mais antiga de que ela se lembrava), não recordou "nada de fantástico" "nada de imaginário". "Era a própria presença do real que eu descobria." Por isso, cem vezes ou mais, na sua poesia, associada à morte, surge essa crença na continuidade do real, independentemente dela ou de qualquer humano. "Também morre o florir de mil pomares / E se quebram as ondas no oceano." Ou: "Um dia quebrarei todas as pontes / Que ligam o meu ser, vivo e total / À agitação do mundo do irreal / E calma subirei até às fontes." Cito ao acaso, de memória. Podia citar mil poemas em que ela diz o mesmo. Mas para mim (e a questão é filosófica e tão velha como os primeiros filósofos) esse radical realismo é-me estranho. Sophia ou Génova, para não sair do tema desta crónica, só são ou foram reais quando e enquanto me foram aparições. "Quando o meu corpo apodrecer e eu for morto" não estou nada certo que Sophia e Génova continuem como continuam hoje, porque eu estou vivo e eu me lembro delas. Um amigo observou-me um dia, a propósito de uma destas crónicas do PÚBLICO sobre Itália (era sobre Lecce), que eu não escrevia sobre Lecce escrevia sobre mim, como se, perdido eu, Lecce deixasse de poder ser vista como eu a vira. Tem toda a razão. Foi assim e é assim. Sem mim, não sei de eu. Isto não significa - muito ao contrário - que eu não acredite na comunhão dos santos, na ressurreição da carne, na vida eterna, amém. Esta crónica, bem lida, é um dos múltiplos sinais. Mas só a fé que tenho em não desaparecer me faz acreditar que ninguém ou nada do que amei desaparecerá também. Se eu fosse ateu, poderia repetir, sem remorso ou vacilação, o "après moi le déluge". Não concebo qualquer real independente de mim. Como não concebo que o Kouros do Egeu seja para mais alguém, como foi para Sophia, "Sorriso sem costura / Inocência de caule / Retrato nu do liso." É verdade? É. Tão, tão verdade. Mas ninguém nunca mais inventará esses seis substantivos ligados por um único adjectivo. O mais longe que vou é ao que Sophia escreveu no mágico poema chamado "Veneza", do livro "Ilhas".


"Dentro deste quarto um outro quarto 
Como um Carpaccio nas ruas de Veneza 
Segunda imagem sussurro de surpresa 
E um pouco assim são as ruas de Veneza  
Em fundo glauco de laguna ou vidro  
E um pouco assim em nossa vida o duplo  
Espelho sem perdão do não vivido  
Caminha destinado a ser perdido


5 -
 Acima falei dos nove "Poemas de um Livro Destruído", que, escritos entre "Coral" e "No Tempo Dividido" (ou seja, entre 1950 e 1954, tinha Sophia trinta e poucos anos) só foram inseridos em 1985 na segunda edição do último desses livros. 
Sophia falou-me deles em 1969 ou em 1970 e disse-me que lhe faziam um medo enorme, porque lhe pareciam alheios, sendo dela como se não fossem dela. Pedi-lhe que me escrevesse aquele que começa com "Não procures verdade no que sabes" e, desde esse dia, guardo esse poema ao lado das imagens mais minhas, como o retrato dela em Agrigento que o Alberto lhe tirou. Em Génova, naquela noite, ouvia a voz dela, ouvia os poemas dela ditos por ela, e via-a a ela e à poesia dela. Tudo tão real quanto fantástico. Como ela o foi, como ela o é. Mesmo quando nada restar da poesia dela, mais do que um verso ou um fragmento. Não foi só isso que nos ficou de tantos poetas da Grécia antiga? Mas, porque outros os amaram como alguns amaram Sophia, esse resto é quanto basta. Porque "a arte é filha da memória". Sophia, eu lembro-me.

 

João Bénard da Costa
6 de agosto 2004 in Público

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MANUEL DE FREITAS 

  


Num livro de Dylan Thomas


Passados seis anos, pouco mais serás
do que isto: o marcador
que assinaste, subitamente descoberto,
uma frase que poderia ser um verso
(«nunca consegui amar nunca»)
a meio de um livro e da minha vida.
Esqueçamos, por esta vez, os desencontros,
a sombra magoada com que
os teus lábios pousaram sobre papel
de arroz – e arderam (o mesmo livro
me contou que não te serviu de filtro
o bilhete para o Seixal, 12 SET. 1996).
A outrem perguntaria se a arte pode ser razão
da arte, enquanto o ciúme (crescendo
no escuro) fulmina talvez as melhores páginas.
Ou nem isso faria: a manhã é lá fora
renovada promessa de abandono
e acabei agora mesmo de ver Mamma
Roma – mais um filme, a vida toda,
a separar-nos.
Quando afinal nada,
deste nada, ficará, «as I sail out to die»
com a última memória do teu nome.


in Blues for Mary Jane, 2004


In a book by Dylan Thomas


In six years time, you’ll be
little more than this: the bookmark
you signed, suddenly found again,
a sentence that could be a line
(‘I’ve never been able to love never’)
half way through a book and my life.
Let’s for once forget the misunderstandings,
the hurt wounded way
your lips touched the roll-up
paper – and got burnt (that same book
told me that the Sept 12, 1996 coach ticket
to Seixal didn’t make it as filter).
I’d turn elsewhere to ask if art can be the reason
for art, while jealousy (growing
in the dark) may perhaps strike the best pages.
Or I wouldn’t even do that: the morning outside
is a renewed promise of forsakenness
and I’ve just watched Mamma
Roma – another film, a whole life,
keeping us apart.
When, after all, nothing
of this nothing remains ‘as I sail out to die’
with the last memory of your name.


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MANUEL ANTÓNIO PINA 

  


As coisas


Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”,
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.
Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós um dia tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.


in Como se desenha uma casa, 2011


Things


In everything there’s a more-than-thing
staring at us as if saying: ‘It’s me’,
something that’s no longer there or was lost
prior to the thing, and that loss is the thing.
In certain high, absolute afternoons
when at last the world welcomes us
as if we too were the world,
our own absence is a thing.
Then the house awakens and the books imagine us
on the scale of their own loneliness.
Once we too had a name
but, if ever we heard it, we did not recognise it.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE LUÍS QUINTAIS 

  


6 (An Italy of the mind)


Na Itália da mente
não sabemos
se é de noite
ou se é de dia.
Na Itália da mente
nada se sabe
e tudo é matéria
de crença.
Na Itália da mente
a beleza
ainda é possível,
mesmo sob
cendrados céus
e talvez por isso.


inédito


6 (An Italy of the mind)


In the Italy of the mind
we don’t know
whether it’s night
or day.
In the Italy of the mind
nothing is known
and everything is the subject
of belief.
In the Italy of the mind
beauty
is still possible,
even under
the ashened skies
and that’s perhaps why.


© Translated by Ana Hudson, 2013 unpublished
in Poems from the Portuguese