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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE VASCO GATO 

  


Repara nos velhos


Repara nos velhos.

Dementes, doridos, restos de casas.
Vivem agora a lepra
de todos nós.
Não lhes chegamos.
Tresandam.
Esquecem.
Apoderam-se do nada.
E nós, capitosos,
brindamos com o vinho
que também eles
sorveram,
desdenhando a morte
que, amarga como
a nossa indiferença,
haveremos
de provar.


in Napule, 2011


See the old


See the old.

Sore, demented, derelict.
They live for now
the leprosy of us all.
We don’t touch them.
They stink.
They forget.
They grab nothingness.
And we, big-headed,
toast with the wine
they once
sipped,
scorning death
which, as bitter
as our indifference,
we shall
taste.


© Translated by Ana Hudson, 2012

in Poems from the Portuguese 

 

A VIDA DOS LIVROS

  
De 15 a 21 de julho de 2024


Fortuna, Caso, Tempo e Sorte – Biografia de Luís Vaz de Camões (Contraponto, 2024) da autoria de Isabel Rio Novo permite-nos compreender o carácter rico e multifacetado da vida do maior poeta da língua portuguesa.


EXCECIONAL FORMAÇÃO
António José Saraiva teve razão ao afirmar que a grande prova da excecional formação de Camões em Coimbra se encontra na sua obra, que ostenta notáveis extensão, profundidade e solidez de conhecimentos. Os primeiros biógrafos e comentadores foram unânimes em reconhecê-lo e quase quinhentos anos de exegeses sobre a obra camoniana permitem que lhes demos razão. De facto, Luís de Camões conhecia bem os textos bíblicos do mesmo modo que os autores latinos e gregos – Virgílio, Horácio, Cícero, Plínio, o Antigo, ou Ovídio. E aí encontrou o paradigma do poeta desterrado, que ilustraria o seu percurso biográfico, marcado por partidas, viagens e ausências. Por exemplo, em Os Lusíadas, o poeta serve-se, com segurança, de todos os epítetos atribuídos à deusa Vénus e, querendo comparar os portugueses modernos aos heróis da Antiguidade, encontra termos clássicos que demonstram a superioridade dos seus conterrâneos. Por cada varão português encontra um semelhante clássico, colhido entre os heróis gregos, romanos e de outros povos celebrados pelos historiadores antigos. De facto, Camões possuía um saber erudito, que abarcava vários domínios do conhecimento, da geografia à botânica, da cosmologia à astronomia, adquirido através não só de leituras diretas de clássicos, mas também das vulgatas disponíveis. A qualidade do seu estilo e o domínio rigoroso da sintaxe, o emprego adequado do vocabulário, decorrem de longas e profícuas leituras, e da convivência desde tenra idade com o latim, que era suposto ser usado no diálogo dentro das portas da escola. Camões conhecia ainda as crónicas históricas portuguesas, sendo amigo do grande cronista Diogo do Couto, tendo ainda o conhecimento de escritores modernos, italianos, castelhanos e portugueses, como Dante e Petrarca, Pietro Bembo, Garcilaso de la Vega, Ariosto, Tasso, André de Resende e Bernardim Ribeiro. Eis por que razão a discussão sobre se Camões fez ou não estudos superiores se torna irrelevante para a fruição da sua obra.


HONESTO ESTUDO COM EXPERIÊNCIA MISTURADO
Fortuna, Caso, Tempo e Sorte – Biografia de Luís Vaz de Camões (Contraponto, 2024) da autoria de Isabel Rio Novo permite-nos compreender o carácter rico e multifacetado do maior poeta da língua portuguesa. E o certo é que, apesar da voracidade com que procurava aceder aos livros, a principal biblioteca do épico deverá ter sido a sua memória extraordinária, assente em aturadas leituras – que o levará a dizer “Nem me falta na vida honesto estudo, / Com longa experiência misturado, / Nem engenho que aqui vereis presente…” (Os Lusíadas, Canto X, 154). E como a autora refere, mercê de um trabalho sério e exaustivo, além da quantidade impressionante de referências eruditas e da extraordinária memória, Camões também guardava lendas populares, provérbios, adágios e rifões. E assim vemo-lo influenciado pela tradição lírica galaico-portuguesa e pela poesia provençal, que deixaram marcas em muitas composições escritas na medida velha, isto é, em versos de cinco e sete sílabas, quer nas cantigas de amigo, em que fala a dona, quer nas cantigas de amor em que o poeta toma a palavra em nome do amor cortês. No conhecido vilancete, a partir do mote, “Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura”, encontramos as pastorelas medievais, que ficcionam o diálogo entre o cavaleiro e a camponesa, junto de uma fonte, ainda que nas redondilhas camonianas a rapariga “formosa e não segura” se limite a ser contemplada… No vilancete “Deus te salve, Vasco amigo”, Camões combina a feição bucólica da poesia rural com a retórica petrarquista, substância da medida nova, apresentando o pastor que se sentia fora de si, porque tinha na amada “a alma e a vida”. Contudo Camões surge-nos como um homem da sua época, que pensava e vivia com os valores e preconceitos dos seus contemporâneos, na ciência e nas limitações.


Da criteriosa investigação de Isabel Rio Novo, encontramos detalhes que nos apresentam a personagem com toda a sua riqueza, literato e destemido, reflexivo e aventuroso. Atente-se ao livro de matrículas da Casa da Índia, se bem que o biógrafo Manuel Correia julgue que o poeta teria nascido em 1517, Faria e Sousa descobre o registo de 1550 relativo a uma viagem que não chegou a realizar-se em que se apresenta Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Ana de Sá, moradores em Lisboa na Mouraria, escudeiro de 25 anos, barbirruivo, que trazia por fiador seu pai, devendo partir na nave de S. Pedro dos Burgaleses. Ora, se em 1550 Camões tinha 25 anos só poderia ter nascido em 1524 ou 1525, como hoje se julga… Embarcaria, noutra ocasião, para o Oriente como homem de armas, precisando de combater, pois só assim receberia o soldo, podendo acumular certidões de serviço com que poderia, mais tarde, requerer um provimento. Por isso, apesar de o poeta não apresentar provas de mais expedições militares após a guerra ao rei da Pimenta e o embarque na armada do Norte, o certo é que deverá ter participado em várias expedições militares, como pressupõem os biógrafos seiscentistas, que o colocam “servindo a pátria, no verão, com as armas em o mar; no inverno, com a pena em terra”. Para Manuel Correia, Camões foi muito tempo soldado na Índia, dizendo as pessoas de crédito que o conheceram que foi homem de espírito e que em todas as ocasiões de guerra em que se achou deu boa conta de si.


ERROS MEUS, MÁ FORTUNA
Quando fala de “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, a verdade é que todos esses fatores se conjugaram para o perder. Os erros e a má fortuna sobejaram, mas o amor fora o suficiente. Os exemplos das heroínas abundam, mas escondidas, porventura para proteger as identidades verdadeiras, nos anagramas Aónia para Joana; Belisa ou Sibela para Isabel; Natércia para Catarina; Nise para Inês. Porém, os vários nomes femininos que se encontram na lírica, além das encomendas, muitos são convencionais, tirados da Bíblia, dos autores clássicos ou dos cancioneiros: Dinamene, Elisa, Amarílis, Silvana, Sílvia… E encontramos uma procura rigorosa, em lugar da tradição mítica ou de fantasiosa integração de lacunas. Reúne-se, assim, um conjunto de elementos dos melhores analistas, procurando Isabel Rio Novo encontrar não respostas definitivas e fechadas, mas hipóteses de trabalho sérias, coerentes e verosímeis. Não se trata, pois, de dispor de um Camões completo e perfeito, mas de reunir informações que permitem, em busca da verdade, irmo-nos aproximando da vera efígie, na certeza de que nunca a atingiremos plenamente, por incapacidade nossa e falta de evidências suficientes. Contudo, devemos a Camões “o justo peso das sílabas, o justo espaço do silêncio, a articulação justa”, na expressão de Sophia de Mello Breyner ou “o canto de fúlgida beleza formal, rítmica e melódica, e de espantosa densidade semântica em que se exprime, como nunca na poesia portuguesa, e só voltaria a acontecer algumas vezes na poesia do século XX, a grandeza e a miséria da condição humana”, como disse Vítor Aguiar e Silva. E a 5 de fevereiro de 1585, um alvará concederia à mãe do poeta (Ana de Sá e Macedo) quinze mil réis anuais de tença, havendo respeito aos serviços do pai Simão Vaz e aos de seu filho Luís de Camões, cavaleiro da casa de Filipe I, ficando a dúvida sobre se o poeta, mais tendo vivido, poderia ter evitado a angústia dos últimos dias…     


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE TIAGO PATRÍCIO 

  


conhecemos alguém


que nos dirigiu a palavra de outra mesa
e nos estendeu a mão
depois de enrolar o cabelo
preso acima da nuca

nos breves segundos a que temos direito
fazemos um esforço por nos
reconhecermos num livro comum
ou na marca de uma cerveja

pode ser também nalguma citação
ou nome de cidade onde estivemos para ir

trocamos os números de telefone
e outros endereços com o nosso nome
e combinamos escrever em tempo útil

meio ano depois recebemos uma carta
a pedir um poema nosso para ser publicado
numa revista estrangeira

enviamos um poema à confiança
que será encaminhado para uma tradutora oficial
e voltamos a encontrar-nos no lançamento dessa revista
para nunca mais discutirmos poesia ao vivo

da próxima vez serei eu a saldar a dívida
e a fazer o convite para uma colectânea
posso até participar na tradução
para tornar o poema aceitável na antologia
mas numa próxima oportunidade
irei repetir a encomenda

é preciso ganhar créditos
no mercado dos favores literários
por isso coloco sempre uma citação
e uma dedicatória em cada poema
duas cunhas valem sempre mais
do que um pseudónimo certificado


Inédito


you come across someone


who addressed you from another table
and shook your hand
after having tied up her hair
above the neck

in the brief moments we could manage
we make an effort to acquaint
ourselves in a shared book
or in the brand of a beer

or perhaps some quote
or the name of a city we nearly went to

we exchange phone numbers
and other named means of contact
and agree to write in due course

half a year later you get a letter
requesting a poem to be published
in a foreign magazine

you send a poem in good faith
which is to be directed to an official translator
and once more we meet at that magazine’s launch
never to discuss poetry in person again

I pay my debt and in turn
invite her to take part in an anthology
I can even play a part in the translation
but in a future opportunity
I’ll commission her again

it’s necessary to gain credits
in the market of literary favours
and so I write a quote
and a dedication in each poem
pulling two strings is always worth more
than a certified pseudonym


© Translated by Ana Hudson, 2012 Unpublished
in Poems from the Portuguese 

 

O ENTUSIASMO DE ADÉLIA PRADO

  


Acaba de ser atribuído o Prémio Camões, neste ano emblemático de 2024, a Adélia Prado, poeta brasileira, natural de Minas Gerais, como Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, formada em filosofia, professora, mãe de família, como uma obra notável.  E, com inteira justiça, Adélia também receberá por estes dias o Prémio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Na Antologia Tudo o que existe louvará, prefaciada por José Tolentino Mendonça e Miguel Cabedo e Vasconcelos (Assírio e Alvim, 2016), diz-se, sintomaticamente: «O religioso sem corpo é triste, incompreensível e anímico, porque é com o corpo que se ama a Deus. O corpo é que nos abre, como janela, para a transcendência: Deus só é experimentável a partir do corpo e na relação com o corpo». Ouvimo-la, com entusiasmo: «Tudo o que existe louvará. /Quem tocar vai louvar, /quem cantar vai louvar, /o que pegar a ponta de sua saia /e fizer uma pirueta, vai louvar. /Os meninos, os cachorros, / os gatos desesquivados, / os ressuscitados, /o que sob o céu mover e andar». Aqui se demonstra plenamente o que um dia disse a nossa Leonor Xavier: “Em verso e prosa, Adélia descobriu a mistura entre as pequenas tarefas de casa, as pessoas que a rodeiam, as coisas e os bichos, o sentir e o pensar, o silêncio da dúvida, a presença de Deus imediata e consciente, na inteireza da sua história de mulher”. Para Drummond: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo”. Quem a conhece considera-a desconcertante, plena de ironia, ousada, iconoclasta, seríssima no entendimento das coisas essenciais. Nela o comum e o banal encontram-se, a cada passo, com o transcendente. Como disse Pedro Mexia, «os seus textos, que evocam com frequência um meio provinciano e pobre, têm (…) algumas afinidades com o Sul profundo da ficção de Flannery O’Connor, mas enquanto a americana era violenta e sofrida, a brasileira é vitalista e sensual. Poeta de Deus e do corpo, Adélia é também poeta do corpo divinizado e do Deus encarnado». 


Esta atitude aberta e generosa permite-me lembrar que nestes últimos dias celebrámos em Lisboa o 12º “Disquiet” com escritores e intelectuais norte-americanos, promovido pela editora independente Dzanc Books e o Centro Nacional de Cultura, em memória do poeta Alberto Lacerda. Disquiet, evoca o “Desassossego” de Bernardo Soares / Fernando Pessoa. Se associo o novo Prémio Camões a este encontro é porque a abertura de espírito de Adélia Prado tem tudo a ver com esta iniciativa. Jeff Parker e Scott Laughlin, com Teresa Tamen, são a alma do projeto e fazem do diálogo entre literaturas uma festa do espírito. E este ano Katherine Vaz, habitual presença no certame, lançou o romance Linha do Sal, passado na Madeira na década de 1840, sobre a separação e o encontro de duas famílias imigrantes nos Estados Unidos, entre atribulações religiosas, mas em que se sente a “alegre melancolia que é a fonte de calor da alma portuguesa”. 


GOM

A VIDA DOS LIVROS

  
De 8 a 14 de julho de 2024


A publicação de “Camões Uma Antologia” de Frederico Lourenço (Quetzal, 2024) constitui um acontecimento importante na celebração dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, aproximando o grande poeta do grande público e de todos os estudiosos.


Uma Antologia reunindo as passagens mais importantes de Os Lusíadas e da poesia lírica camoniana, envolvendo sonetos, canções, éclogas e demais obras significativas é uma necessidade quando celebramos o quinto centenário do mais importante poeta da língua portuguesa. Daí a importância da obra de Frederico Lourenço Camões Uma Antologia (Quetzal. 2024), que pretende responder à pergunta feita por muitos: Por onde começar a ler Camões de modo a poder apreender o significado e o lugar de uma obra fundamental, também para a cultura contemporânea? E ninguém melhor que um classicista para nos ajudar nessa diligência. Daí a importância da matriz latina na poesia de Camões, único na afirmação de um idioma falado em todos os continentes, o primeiro do hemisfério sul, com capacidade de atração multifacetada que ultrapassa em muito a dimensão textual. E importa lembrar que a origem do português está na herança dos trovadores, que um rei poeta tornou língua oficial e que a maturidade do idioma comum foi atingida por um poeta genial, que se tornou símbolo da pátria, não apenas ao cantar as glórias do passado, mas assumindo a erudição e a expressão popular enquanto marcas de uma cultura e contributos de civilização.


O CONTACTO COM A DOCTRINA
Virgílio e Horácio estão bem presentes na poesia camoniana e “o que impressiona acima de tudo na poesia de Camões é a profundidade da sua cultura e das suas leituras: daquilo a que os romanos chamariam a sua doctrina”. E Frederico Lourenço insiste em que “se há poeta doctus na história da literatura que possa ser posto ao lado de Virgílio e de Horácio, esse é Camões”. E se não há prova documental da frequência do poeta da Universidade, o certo é que parece evidente o contacto com o ambiente académico através de seu tio D. Bento de Camões, cancelário da Universidade e prior dos frades de Santa Cruz de Coimbra. Além disso, Camões pode ter seguido lições do humanista André de Resende, a quem se deve a criação do neologismo Lusíadas, típico da preocupação neoclássica de encontrar raízes antigas contemporâneas da civilização romana. A verdade é que o épico teve acesso a bibliotecas, ligando intensamente a leitura e a memória. E nas Rimas revela-se um profundo conhecedor de Petrarca e dos seus seguidores em Itália e Espanha. E Os Lusíadas, desde as primeiras palavras, revelam um conhecimento profundo da Eneida e dos principais clássicos latinos. Do mesmo passo, as redondilhas das Rimas pressupõem um conhecimento seguro do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende e a dramaturgia do Autos de Filodemo, dos Anfitriões e d’El-Rei Seleuco evidencia o conhecimento certo dos modelos italianos e ibéricos. E se não encontramos em Camões nem Beatriz, nem Laura, como fixações individualizadas, há as raízes trovadorescas das cantigas de amor e de amigo, na medida velha, enriquecidas com a medida nova, trazida por Sá de Miranda. Mas, seguindo a boa lição de Jorge de Sena, a melhor atitude na leitura camoniana é a recusa da tentação biografista, apesar das “puras verdades já por mim passadas”. E quando lemos “Transforma-se o amador na cousa amada / por virtude do muito imaginar” é a inspiração de Petrarca que se nota – “l’amante nell’amato si transforme”… Há, pois, a relevância da poesia como processo criativo próprio, com reminiscências pessoais, quer para proteção da intimidade, quer como afirmação pública do valor próprio. E se há afirmação autobiográfica, ela não se encontra escondida, mas está claramente afirmada em Os Lusíadas, no Canto décimo: “Nem me falta na vida honesto estudo / Com longa experiência misturado” (154).


LIDAR COM UMA OBRA-PRIMA
O genial poeta encontra-se, porém, envolto em mistério no caso mais evidente da publicação da sua obra-prima. De facto, não estamos perante uma figura ignorada ou subalterna. Camões não foi um poeta maldito. O período em que morreu, esse sim, foi de angústias e tensões. A publicação do célebre poema obteve um parecer favorável da Inquisição, o que pode surpreender, em contraste com as desconfianças depois encontradas, designadamente no comentário de Faria e Sousa, em 1640. Mas o rei Filipe I de Portugal não escondeu admiração (quiçá política) por quem sabia ser um símbolo de Portugal, em respeito com as decisões de 1581 das Cortes de Tomar… Mas é a história de um pelicano que nos fixa as atenções. Subsistem cerca de 50 exemplares da edição de 1572, iguais em quatro erros, com algumas particularidades, devidas à complexa organização dos vários cadernos que os constituem, avultando a posição do pelicano no frontispício e a diferença na expressão “E entre gente remota edificaram” e “Entre gente remota edificaram”. Deve-se hoje a K. David Jackson, Vítor Aguiar e Silva e Rita Marnoto a demonstração de que a realidade da edição de 1572 é muito mais complexa do que as simplificações que se foram repetindo. E merece atenção o exemplar que se encontra em Austin, na Universidade do Texas, com anotações do padre católico, um indiano convertido, que testemunhou a morte de Camões e que anotou no referido exemplar que o poeta faleceu no hospital sem um manto para se cobrir… Mas, como ler nos dias de hoje a obra de Camões? Ninguém duvida (…) que o seu mundo era profundamente diferente do nosso. Contudo, Os Lusíadas à semelhança da Eneida contém a semente do seu próprio contraditório. Como não encontrar em Virgílio e em Camões nas entrelinhas das obras outras vozes, distantes da lógica imperial, capazes de reconhecer uma lógica emancipadora, decorrente do significado humano da literatura? De facto, também Camões quis que ouvíssemos outra voz, além da triunfalista. “Quis que soasse no seu poema uma voz a transmitir a consciência pesarosa da limitação humana”. E aí está o Velho do Restelo, como voz crítica, com o saber de experiências feito, pondo-nos de sobreaviso para a glória de mandar e a vã cobiça. Daí o alerta do canto nono: “E ponde na cobiça um freio duro / e na ambição também, que indignamente / Tomais mil vezes, e no torpe e escuro / Vício da tirania infame”…      


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE TIAGO ARAÚJO 

  


os números


este é o livro da minha descendência:
adelino gerou armindo que gerou adão que gerou
tiago que gerou três. dois deles correm agora pela sala em
perseguições alternadas. o terceiro cresce sem que o
vejamos ainda. somos cada vez mais, embora insuficientes
para substituir os mortos que coleccionamos em álbuns de
família, e por motivos práticos vivemos quase isolados na nossa
felicidade domestica, um sentimento mal recebido pela crítica.
durante a infância ninguém morreu. os corpos
eram retirados do olhar das crianças de forma subtil e
eficaz. chegou por fim o momento de consultar
a conta-corrente, de avaliar os ganhos e as perdas.
um nome por cada nome, numa família em que o
que passou é quase tão desconhecido como o futuro.
fomos trazidos até aqui por uma paixão
quase constante entre os sexos, ao longo de séculos.
e agora, na idade adulta, é a cada dia
que nos vamos aproximando do passado.
pode ter sido muito diferente em outras épocas, mas
hoje é saturno que é devorado pelos filhos enquanto vê
televisão, numa tarde de sábado.


in Respirar debaixo de água, 2013


the numbers


this is the book of my lineage:
adelino begot armindo who begot adão who begot
tiago who begot three. of these, two are now running around the room
chasing each other. the third is growing
still unseen. we are numerous, though not enough
to replace the dead we collect in family photo
albums and, due to practical reasons, we live almost in isolation within
our domestic bliss, a feeling which is not well received by the critics.
no one died during our childhood. corpses
used to be averted from children’s eyes in subtle and effective
ways. the time has now come to look into
the current account, to assess losses and gains.
name by name of a family in which the past
is about as unknown as the future.
we have been brought here by almost constant passion
between the sexes throughout the centuries.
and now, in adulthood, each day
gets us closer to the past.
it may well have been different in previous times but
today it is saturn who is devoured by his children while
watching television on a saturday afternoon.


© Translated by Ana Hudson, 2014
in Poems from the Portuguese 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE TATIANA FAIA 

  


restart the heart


homens bêbados
cantavam nas ruas
a primavera um deus
mais jovem teve o seu começo
no entrançado dos cabelos negros
no empedrado dessa ruela
agarrou-te pelos pulsos
magnético vingativo
tu giraste sobre o centro
o braço primeiro hesitante
a mão contra as costas
depois puxando-te
subindo pelas coxas

acrescenta agora
nunca saberei de quantas
formas te destruí te recomecei
para a flor que alastra
nos cabelos mais tarde
esquecida nas mãos

o seu maior medo
era o silêncio e foi
a arma que escolheu

no fim daquela
tarde regressou
ao quarto na baía
em naxos o quarto
pobre velho e sujo
com o senhorio
maldoso e indiscreto

o gato escapuliu-se
rasteiro pela porta
e correste atrás dele
pousando o cinzeiro
na estante da entrada

lembro-me sempre disto
e recomeço
e é só por isto que recomeço


in teatro de rua, 2013


restart the heart


drunken men
singing in the streets
spring a younger
god his beginnings
in the plaiting of dark hair
grabbed you by the wrists
on that cobbled narrow street
vengeful magnetic
you swung round on yourself
hesitant arm at first
hand against your back
then pulled you in
searching your thighs

now factor in
I’ll never know in how many
ways I destroyed you revived you
for the flower that spreads
through the hair later
forgotten in the hands

his deepest fear
was silence and this was
the weapon he chose

at the end of that
afternoon he went back
to the room in the bay
of naxos the poor
old dirty room
its malicious
and indiscreet landlord

the cat crept out
through the door
and you ran after it
putting the ashtray
down on the side

I always remember this
and start again
and that’s the only reason I do start again


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese 

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


181. REFLEXÕES POÉTICAS


Escrever, em geral, é uma atividade solitária, que pode ou não ser recompensada pela leitura e leitores, se os houver. 


Escrever poesia, em particular, é uma atividade ainda mais solitária, onde a solidão do autor é menos recompensada pela leitura, sendo usualmente mais exíguos, nulos ou quase nenhuns os ledores.


Indagar a profissão de alguém e ter, como resposta, entre nós, ser poeta, é misterioso, audacioso e ousado, por um lado, delirante, despistado, despassarado e inútil, por outro.


Os poetas, como formação específica, têm as suas poesias, as quais, com sorte, são conhecidas, cantadas ou lidas, o que não significa poderem viver da poesia.   


Há quem nunca se apresente profissionalmente como poeta. Há quem o tenha um privilégio, pela positiva: “Fiquei conhecido como poeta desde muito novo. Quando voltei do exílio, o funcionário que me fez o bilhete de identidade, no lugar de profissão, sem me perguntar, escreveu “poeta”. É assim que me tratam. Considero uma honra. Às vezes vêm ter comigo e dizem: posso cumprimentar o nosso poeta? É a melhor homenagem que me podem prestar. Não creio que essa circunstância prejudique a outra parte da escrita”. Acrescentando, de seguida: “A prosa só tem a ganhar em ser escrita por um poeta”, elevando-se a poesia para um patamar superior ao da prosa (Manuel Alegre, JL n.º 1368, março 23).   


Nos tempos que correm, dominados pelas leis do mercado, converter a poesia em dinheiro é tarefa hegemonicamente inglória, não utilitária. Daí a poesia ser “invendável”, exceção à norma e, como tal, uma singularidade preciosa, uma relíquia. 


Um privilégio permanente e persistente, corroborado pelo enigma de os poetas, ao que consta, serem proporcionalmente em maior número que os leitores de poesia, em que um público minoritário tem ao seu dispor um pomposo aparelho de divulgação poética (festivais, fundações, academias, centros e institutos culturais).   


E se a poesia sofre com a ausência de reconhecimento no espaço público, muitas vezes são os seus criadores que reivindicam para ela a missão de viver em oposição radical à sociedade, declarando-se rebeldes a qualquer poder, ficando ao lado do pensamento crítico que, em certo sentido, faz falta e é bem-vindo, mas que, noutra interpretação, deslegitima os seus defensores de se queixarem da indiferença face à suas obras.     


Mesmo se a poesia é, para muitos, elitista, inútil e supérflua, sempre abalou o poder pela sua insubmissão, de que foram vítimas, no limite, sob a tirania estalinista, Anna Akhmátova e Osip Mandelstam. O último, quando vivo, segundo a viúva, ironizou: “Não te podes queixar, em mais nenhum lugar há tanto respeito pela poesia, até se mata por causa dela”. Um poema, dedicado a Estaline, custou-lhe a vida, e nele há a arte do essencial e indispensável, essencialidade que também subsiste ao comemorarmos, entre nós, o nosso dia, no dia de Camões, um poeta.


28.06.24
Joaquim M. M. Patrício

ADÉLIA PRADO - PRÉMIO CAMÕES 2024


Em todos os seus poemas a evidente corporalidade espiritual da sua escrita é transposta como quando a água faz figuras.

Nítida, a sua atenção ao pormenor, é um modo de doer a fluir como um bálsamo que também dói, e também faz parte da alegria.

Bem-haja Adélia Prado!


Casamento

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

Ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como “este foi difícil”

“prateou no ar dando rabanadas”

e fez o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

Somos noivo e noiva.

 


Teresa Bracinha Vieira

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE SÉRGIO GODINHO 

  


Os órgãos vitais


Eu tenho que contar com tudo o que há de dentro –
pulmões e suspiros e cérebro e desilusões
intestinos funcionais no sentido lato do termo
rins e fígado à espera de amor breve
bebida a mais muito depressa
consumo mínimo para então conforto máximo

E todos eles velados pelo irascível
(mas paciente) coração
rei do sopro da vida
e da ventania dos amores
o que julgando que em todos manda
de todos sofre o resultado –
seja aos amores baqueando
seja importando problemas
das outras resoluções do corpo

Até que uma tarde, manhã, noite
por impulso e por vingança
(aquela que se serve fria)
arrefece e deixa de bater
sem dar tempo aos outros de o chorarem:
eles que em breve estarão
a chorar por conta própria
cada qual para seu lado
renegados e pouco a pouco
sem pavor desaparecidos.

O que foi tido por inesperado e imprevisível
talvez seja apenas à maneira de um todo
se descentrar
fugir à tarefa
insanamente por nós mesmos exigida
à nossa pequena parte, já manchada de sangue, sangue
por rectas e curvas de coerência.
O sangue por um fio.


in O sangue por um fio, 2009


Vital organs


I have to count on everything that’s inside –
lungs and sighs and brain and disappointment
functional intestines broadly speaking
kidneys and liver waiting for brief love
too much drink too quickly drunk
minimum consumption for maximum comfort.

And all of them watched by the irascible
(but patient) heart
king of the breath of life
and of the wild winds of love
believing it is in charge
while it suffers, surrounded –
whether pounding for all loves
or importing all the troubles
of the body’s other pledges.

Till one afternoon, a morning, a night
by impulse and by revenge
(that which is served cold)
it cools off and it stops beating
no time for others to rally round:
they who soon will
cry for their own sorrows
each one by itself
disowned and by and by
gone without fear or fright.

What’s taken for unexpected and unforeseen
may perhaps be the way for a whole
to be un-centred
to escape the insane task
that we ourselves demand
from our small share, already stained by blood, blood
along the coherence of straight and curved lines.
Blood by a thread.


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese