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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 6 a 12 de setembro de 2021

 

Ao assinalar os cinquenta anos do nascimento de Daniel Faria, a Assírio e Alvim acaba de publicar “Sétimo Dia” (2021), resultado de incursões ao espólio recolhido no mosteiro de Singeverga, onde foi encontrado um conjunto de catorze folhas com textos inéditos.

 

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POETA MÍSTICO

Foi Eduardo Prado Coelho quem me chamou a atenção para a importância da poesia de Daniel Faria (1971-1999) e foi então que li, em 2002, os três primeiros livros, editados pela Fundação Manuel Leão, graças ao apoio do então Padre Carlos Moreira Azevedo, segundo o corpus definido pelo próprio poeta desaparecido: Explicação das Árvores e de outros Animais; Homens que são como Lugares mal situados e Dos Líquidos. É certo que este último volume foi publicado a título póstumo, mas foi deixado globalmente acabado, como obra de fecho desse conjunto. Ou seja, pouco depois da sua morte prematura e inesperada, pudémos dispor de uma prova concludente relativa ao valor do poeta e à importância da sua promessa. «Não sabemos como tencionaria Daniel Faria prosseguir o “Sétimo Dia” ou sequer se teria encarado em algum momento a hipótese de concluí-lo; interrogamo-nos, caso tivesse continuado, que lugar ocuparia cada homem nos dois dias em falta», escreveu Francisco Saraiva Fino no texto que abre o volume. Apenas sabemos da boca do próprio poeta que ele tinha a intenção de reconhecer Cristo como “lugar mal situado”, devendo ser compreendido pela humanidade, até pela dificuldade em encontrar um lugar onde “reclinar a cabeça”. No fundo, tratar-se-ia de fazer da arte poética uma procura do lugar de encontro entre a imanência e a transcendência. «Em “Sétimo dia”, cinco homens repartem perspetivas sobre a ideia de ocupação e coincidem no desejo de alcançar uma certa ideia de existência transcendente sem depor a medida humana». E cada voz é o anunciar de um degrau no caminho do reencontro com a palavra poética na expressão tendo em consideração a “fé inabalável no mistério que inclina / Os homens para dentro” e na representação das depurações da semente na difícil ascensão para a vida do espírito.»  Deste modo, o poeta caminha na busca de um lugar, não como certeza fechada, mas como: “Homens que são como casas saqueadas / Que são como sítios fora dos mapas / Como pedras fora do chão / Como crianças órfãs / Como homens sem fuso horário / Homens agitados sem bússola onde repousem (…) / Porque a sua força é para fora e a sua espera / É a fé inabalável no mistério que inclina / Os homens para dentro / Não os levantemos / Nem nos sentemos ao lado deles. Sentemo-nos / No lado oposto, onde eles podem vir para erguer-nos / A qualquer instante». Com efeito, há algo por desvendar, nesse texto incompleto agora divulgado. Apenas podemos reler o que o poeta nos deixou. Se, de facto, há um mistério que se manterá eternamente, podemos sentir a inquietação manifestada… «Agora, quando telefonar de novo (diz Daniel Faria), vou deixar no atendedor de chamadas uma passagem bíblica. Há aqui uma de que gosto por demais: “Ao descer da montanha, seguiam-no multidões numerosas, quando um leproso de repente se aproximou e se prostrou diante dele dizendo: ‘Senhor, se queres, tens poder para purificar-me’. Ele estendeu a mão e, tocando-o, disse: ‘Eu quero, sê purificado’ E imediatamente ele ficou curado.” E Jesus disse, “Eu quero”… Eu nunca ouvi nada com mais luz. Eu nem consigo imaginar, sem que me aumente a febre, esse homem a correr por entre a multidão, esse homem a dizer se queres e Jesus a dizer eu quero… Eu quero… eu quero… eu nunca tinha dito nada assim.»

 

UM PERCURSO MUITO FUGAZ

Daniel Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de abril de 1971. Frequentou no Porto o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa – onde se licenciou em 1996. No Seminário e na Faculdade de Teologia demonstrou uma forte inclinação poética, estabelecendo um diálogo com a criação contemporânea. Também se diplomou em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Simultaneamente com a sua fecunda criação artística, a opção monástica torna-se evidente. A partir de 1990, colabora com a paróquia de Santa Marinha de Fornos, Marco de Canaveses, onde demonstra uma capacidade excecional para a animação cultural e um grande potencial de sensibilidade para o teatro, encenando, com recursos limitados, As Artimanhas de Scapin de Molière e o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. Faleceu tragicamente a 9 de junho de 1999, quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga, em resultado de uma queda. Como lembra Alexandra Lucas Coelho, num texto fundamental, que corresponde a um retrato fiel de Daniel Faria: «Sophia de Mello Breyner Andresen foi, para ele, o princípio da poesia. E quando chegou a vez de Sophia o ler, disse: "Versos que põem o mistério a ressoar em redor de nós." Essa é a síntese, tudo o que importa. É da poesia que partimos, mesmo quando vamos de casa em casa, à volta da vida. Para saber um pouco mais, para voltar a não saber. Vale só por isto, a aproximação a uma biografia.

 

UM ROSTO QUE HÁ DE VIR

Quando lhe pediram um autorretrato, Daniel Faria escreveu que era "um rosto que há de vir". E assim será, para o leitor dos poemas. Acreditamos que na poesia portuguesa dos últimos 20 anos poucos tenham vindo à luz assim, com um impacto de pedra». Nesse testemunho recolhido no jornal Público. Um colega recorda: "O Daniel tinha sempre projetos fantásticos, queria ler as obras completas de Shakespeare... O Rilke, na tradução do Paulo Quintela, era fundamental para ele, como o Herberto. E depois Luiza Neto Jorge, Eugénio, Ramos Rosa, Sophia, Ruy Belo, Lorca. Foi com ele que conhecemos Drummond, Guimarães Rosa..." O poeta empenhou-se na ida de Eugénio de Andrade ao seminário. Foi um risco, mas o resultado foi muito bom: Daniel Faria "ficou exausto, havia oposições dentro do seminário, isso angustiou-o imenso. Depois correu muito bem, o Eugénio só não entrou na capela, lembro-me que se admirou por jogarmos futebol sem batina..." E Eugénio de Andrade resumiu essa inédita aventura como "uma tarde divertidíssima". (cf. Público, 14.6.2001). A memória de Daniel Faria foi-se consolidando com o andar do tempo. Mas o seu prematuro desaparecimento teve dois efeitos contraditórios: por um lado, atrasou o reconhecimento da importância da sua obra; e, por outro, permitiu que, finalmente, possamos encontrar a sua voz, como uma das mais significativas da contemporaneidade.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

MAIS 30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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  (XXIX) RUY BELO, HOMEM DE PALAVRA(S)

 

Para Ruy Belo (1933-1978), “a poesia não constitui um fenómeno isolado no contexto cultural. Poesia é fundamentalmente a linguagem, e a língua, sendo em si mesma um facto de cultura, permite a fixação e a transmissão de toda a cultura. A poesia enquadra-se na arte e distingue-se das outras artes quanto ao ‘meio’ (o termo aqui, embora, claramente insuficiente, é aplicado na sua aceção vulgar) de expressão”. E é esta circunstância que a autonomiza e distingue. De facto, o poeta compreende, melhor que ninguém, que cada palavra é um infinito, “que exerce o sortilégio que o poder mágico lhe permite”. E recordámos, de modo insuspeito, Alexandre O’Neill a dizer que é bom termos o infinito entre nós, sem quaisquer ilusões. E Ruy Belo, no seu permanente repensamento, foi suficientemente claro: “Não há bem mais humano do que a palavra, de tal maneira que ela até compromete na inteligência do homem toda ou quase toda a sua existência. Ela ajuda a criar, e participa da história do homem. Daí que pô-la em jogo seja movimentar o universo”. E se a palavra é humana, naturalmente que se torna social, comprometida, responsável. Abre diversas relações com outras palavras, mas sobretudo com pessoas. A poesia é o lugar “onde convivem umas com as outras as palavras”. Teresa Belo recordava, por isso, os exercícios intermináveis que o poeta dedicava aos encontros e desencontros de palavras. Mas “O Guardador de Rebanhos” veio de um só jacto. E foi na leitura de Homero que se educaram os atenienses, mas Platão preconizava a expulsão dos poetas da cidade pelo perigo que representavam. Hölderlin reconhecia a inocência da palavra, mas considerava-a o mais perigoso dos bens. “A vida não se compadece com ideologias vãs / a vida pede pouco mais que vida / Para sabedoria não existe idade / mas a felicidade existe um só momento…”  

A esta luz Ruy Belo pensou Portugal. Contra a ideia de fatalismo do insucesso ou do atraso, e sem dó nem piedade no sentido crítico, as gerações da “Vida Nova” e de “O Tempo e o Modo” assumiram plenamente a dureza da denúncia e a aventura das propostas audaciosas. O atraso recusa-se. E a leitura de “Portugal Futuro” obriga-nos a não baixar os braços e a renovar o ânimo crítico. Uma cultura acomodatícia ou conformista tende a tornar-se frágil. A clareza crítica contrapõe-se à cacofonia… Daí a necessidade de uma visão dialógica de diferentes culturas, não como amálgama em que ninguém se entende. Eis como é importante a tradição de D. Pedro das Sete Partidas, mas também de Pedro Nunes, Garcia de Orta, D. João de Castro – de Camões, de Fernão Mendes Pinto e de Vieira… E esse cosmopolitismo liga-se à diversidade das culturas da língua portuguesa – da saudade até à morabeza… Haverá melhor definição de património vivo? «O portugal futuro é um país / aonde o puro pássaro é possível / e sobre o leito negro do asfalto da estrada / as profundas crianças desenharão a giz /esse peixe da infância que vem na enxurrada / e me parece que se chama sável / Mas desenhem elas o que desenharem / é essa a forma do meu país / e chamem elas o que lhe chamarem / portugal será e lá serei feliz / Poderá ser pequeno como este / ter a oeste o mar e a espanha a leste / tudo nele será novo desde os ramos à raiz / À sombra dos plátanos as crianças dançarão / e na avenida que houver à beira-mar / pode o tempo mudar será verão / Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz / mas isso era o passado e podia ser duro /edificar sobre ele o portugal futuro» (in 'Homem de Palavra[s]').

GOM

 

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MAIS 30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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  (XXVI) A IRONIA DE ALEXANDRE O’NEILL

 

Alexandre O’Neill (1924-1986) foi entre nós um dos mais dotados artífices da escrita do português do último século. Em Caixadòclos definiu o seu autorretrato com especial culto da ironia. António Tabucchi salientava, aliás, a importância da cultura portuguesa do picaresco, do chiste e do anedótico, que teve no poeta expressão superlativa: «– Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim? / – Que és o esticalarica que se vê. / – Público em geral, acaso o meu nome... / – Vai mas é vender banha de cobra! / – Lisboa, meu berço, tu que me conheces... / – Este é dos que fala sozinho na rua... / – Campdòrique, então, não dizes nada? / – Ai tão silvatávares que ele vem hoje! / – Rua do Jasmim, anda, diz que sim! / – É o do terceiro, nunca tem dinheiro... / – Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você... / – Dos dois ou três nomes que o surrealismo... / – Ah, agora sim, fazem-me justiça! / – Olha o caixadòclos todo satisfeito / a ler as notícias...» (Feira Cabisbaixa, 1965)

Quando nas comemorações do dia 10 de Junho de 1990, António Alçada Baptista anunciou a publicação das “Poesias Completas – 1951-1986” (Imprensa Nacional) fê-lo com a consciência plena de que homenageava um poeta singular que ajudou (e muito) à introspeção nacional, que traduz bem do carácter português. Uma ironia forte e subtil, o uso do escárnio e maldizer, desde os trovadores a Nicolau Tolentino, com linguagem de hoje, concedem a O’Neill um lugar especial na literatura. “Há mar e mar, há ir e voltar” – criou a fórmula mágica, mas viu recusada outra, por ser rebarbativa: “Vá de Metro, Satanás”. Quanto ao encontro com o Grupo Surrealista de Lisboa (1947) apesar de saudações sentidas a Breton (“Deflagraste em nós na sempiterna circunstância: a pasmaceira”) e Éluard (“Cantaste a beleza proferiste a verdade / (…) Disseste o que devias dizer”), o poeta considerava essencial não se levar muito a sério, demarcou-se de escolas e cartilhas. E em 1951 rompeu formalmente com o surrealismo como escola, sem deixar o apego às marcas indeléveis dessa influência – “É tempo de acordar nas trevas do real / na desolada promessa / do dia verdadeiro” (Tempo de Fantasmas). A ironia será marca permanente. “No Reino da Dinamarca” (1958), vemo-lo seguir o próprio caminho – “Ó Cesário Verde como eu queria / Que estivesses aqui!”. Há humor e mágoa, rir e roer… “E se fossemos rir, / Rir de tudo tanto, / Que à força de rir / nos tornássemos pranto…”. E em “Abandono Vigiado” (1960): “Teima? Que topete! / Que se julga ele / Se um tigre acabou / nesta sala em tapete?”. Alexandre O’Neill perscruta sempre o quotidiano, não como realidade pacata, mas como reflexão, excesso e divertimento – como no jogo dos sinais ortográficos. A vírgula – “Quando estou mal disposta / (e estou-o muitas vezes) / mudo o sentido às frases, / complico tudo”. O ponto – “Que eu saiba / só em Éluard sou único e final”.

Eis-nos perante a libertação da arte e pela arte – este o seu programa, a que voltou sempre, conversando e desconversando, moendo e remoendo incessantemente as palavras, com recusa sistemática de uma Poesia com maiúscula, já que preferiu o retrato “à la minuta” do país em diminutivo. E na “Feira Cabisbaixa” desenha Portugal (“se fosses só três sílabas”), diferença a diferença para chegar até nós (“se fosses só o sal, o sol, o sul, / o ladino pardal, / o manso boi coloquial”…). Das doceiras de Amarante aos toureiros da Golegã, “não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço, / galo que cante a cores na minha prateleira”. Mas quem é, afinal, Portugal? “Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, / golpe até ao osso, fome sem entretém, / perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, / rocim engraxado, / feira cabisbaixa, / meu remorso, / meu remorso de todos nós”. Portugal magistralmente esboçado por um impressionista de génio. Como poderemos entender-nos sem ler o seu português castiço, que Tabucchi endeusava (como os sinais sonoros de Maria Parda). “País engravatado todo o ano / e a assoar-se na gravata por engano”. O’Neill impagável, olhar atento, para dentro de nós: “Subamos e desçamos a Avenida, / enquanto esperamos por uma outra / (ou pela outra) vida”…" E, em Um Adeus Português (1958), sente-se a força de uma cultura, que O’Neill entendeu como ninguém, onde lírica, tragédia e ironia se encontram sempre: “Nesta curva tão terna e lancinante / que vai ser que já é teu desaparecimento / digo-te adeus / e como um adolescente / tropeço de ternura / por ti». Do mesmo modo que a Peregrinação Interior de António Alçada tem Alexandre por marca: « - Quem? O infinito? / Diz-lhe que entre. / Faz bem ao infinito / Estar entre gente.» (Abandono Vigiado).

GOM

Oiçamos a voz do poeta!

 

 

 


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A VIDA DOS LIVROS

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  De 16 a 22 de agosto de 2021

 

Autor de “O Sangue, a Água e o Vinho” (1958) ou de “Retábulo de Matérias” (2018), Pedro Tamen é indiscutivelmente um dos grandes poetas e homens de cultura do último século.

 

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INFLUÊNCIA MARCANTE

Pedro Tamen representa no panorama cultural português da segunda metade do século XX um exemplo significativo de influência marcante nos diversos campos em que agiu. Ouvimo-lo: …“e às apalpadelas toco o rasto / do caminho que nunca percorri” (Rua de Nenhures, 2013). Logo a partir de 1958, proveniente da Juventude Universitária Católica e da revista “Encontro”, tornou-se, com António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, não apenas um jovem editor interveniente e dinâmico, mas alguém que teve consciência de que se preparava um novo tempo, que conduziria, mais tarde ou mais cedo, à democracia. E há nessa compreensão uma convergência de três fatores que se associam, com inevitáveis consequências: o abalo causado pela candidatura presidencial de Humberto Delgado e pela primeira divisão nas Forças Armadas, que eram um fundamento estrutural do chamado Estado Novo; o mal-estar causado pelo memorando enviado pelo Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, a Oliveira Salazar e que levaria ao exílio do prelado e à abertura de uma tensão com a Santa Sé, que não aceitou afastar o Bispo da titularidade da diocese, o que representou o primeiro sinal evidente de afastamento crítico por parte de uma figura relevante da Igreja Católica, outro apoio estrutural com que o regime contava, estava-se em vésperas do Concílio Vaticano II; por fim, no plano cultural a “aventura da Morais” e a preparação da revista “O Tempo e o Modo” representou a abertura de novos horizontes no meio intelectual, para além da forte influência neorrealista, sentida no pós-guerra. Abria-se caminho ao que Eduardo Lourenço designou como “heterodoxia”.

 

COERÊNCIA E SENTIDO PRÁTICO

Pedro Tamen envolveu-se com coerência e sentido prático nesse triplo desafio, que era, a um tempo, político, religioso e cultural. António Alçada Baptista transforma a Livraria Morais da Rua da Assunção num centro de renovação intelectual e religiosa. Tamen entrou como sócio, juntando-se uma equipa constituída por João Bénard da Costa, Nuno Bragança, Luís de Sousa Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva. Premonitoriamente, o que aconteceu com o nascimento do projeto da Morais teve projeção logo em 1959 em abaixo-assinados de fevereiro e março sobre “as relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos” e sobre os serviços de repressão do regime, cujos primeiros subscritores foram os Padres Abel Varzim e Adriano Botelho. Pedro Tamen apenas não assina por estar a prestar o serviço militar. Acresce que, em março de 1959, tem lugar a tentativa de Golpe da Sé, com a participação de elementos próximos da Morais, designadamente o Padre João Perestrelo de Vasconcelos, Manuel Serra, Francisco de Sousa Tavares, António Alçada Baptista e Jorge de Sena. A atividade editorial da Morais é intensa. Quando compulsamos os livros e autores publicados no Círculo de Poesia, verificamos como se trata de dar eco de um autêntico movimento de renovação da poesia portuguesa, num momento raro de confluência de grandes valores: Jorge de Sena, José Terra, Murilo Mendes, Cristovam Pavia, Vitorino Nemésio, João Maia, António Ramos Rosa, João Rui de Sousa, José Blanc de Portugal, José Cutileiro, Maria Alberta Meneres, E. M. de Melo e Castro, Alexandre O’Neill, Ruy Belo, Fernando Echevarria, Fernando Lemos, Salette Tavares, Ana Hatherly, Sophia de Mello Breyner… É impressionante a produção reunida, o que corresponde a uma ação persistente de Pedro Tamen, que não deixa, ele mesmo, de manter a sua própria produção poética. O cuidado extremo chega à parte gráfica e ao contributo decisivo de José Escada. Diz o testemunho de Pedro Tamen: «Não tenho a certeza, mas creio que o António Alçada já tinha pedido ao meu amigo, e dele, José Escada o lay-out das capas do futuro Círculo de Poesia.  Lembro-me, isso sim, de discutir com o Escada o tipo e qualidade da cartolina a usar, na qual seria colada a «etiqueta» com o belíssimo desenho do «sol» que se tornaria clássico.  As dificuldades relacionavam-se com o facto de a cartolina escolhida ser importada. (…) Mas tais dificuldades foram rapidamente ultrapassadas, rendidos que ficámos todos – o António, o Jorge de Sena e eu – à beleza indiscutível daquele projeto gráfico». Pedro Tamen prestará, porém, homenagem a António Alçada pelo facto de sempre ter acompanhado a coleção – que por razões diversas não pôde contar com Eugénio de Andrade, Herberto Helder, David Mourão-Ferreira, a Poesia-61 ou Mário Cesariny. Contudo, no essencial, estamos perante um verdadeiro panorama da poesia portuguesa da segunda metade do século, a que acresceram grandes nomes da poesia brasileira. Feitas as contas, até ao ano de 1975, sob a direção de Pedro Tamen, «o Círculo de Poesia publicou ao todo 70 livros novos, alguns dos quais reeditados uma e mais vezes, perfazendo até essa data a bonita soma de 75 edições de 36 autores».

 

EM PROL DA CULTURA

Pedro Tamen desdobrou-se em atividades em prol da cultura da língua portuguesa numa perspetiva de liberdade, culminando num quarto de século na Fundação Gulbenkian, nas áreas da Cultura e das Belas Artes, do Centro de Arte Moderna, do ACARTE e da Biblioteca de Arte. Consciente de que a democracia e a cidadania se constroem pelo reconhecimento do papel fundamental da cultura, da educação e da ciência, esteve sempre atento aos novos ventos no mundo do pensamento e das artes. Daí a sua relação, como artista e criador, com a memória. Não memória do passado, mas compreensão de um tempo que permanentemente se renova. Quando escolhe a epígrafe de Sá de Miranda, assume a dúvida e a contradição: “Alma, que fica por fazer desd’hoje / na vida mais, se é vã minha esperança, / que sempre sigo, que me sempre foge? / Já quanto a vista alcança, a não alcança”. O poeta procura esclarecer essa relação necessariamente imperfeita e contraditória. Não há memória que se complete a si mesma – ela será sempre indescritível, ao invés de uma “memória descritiva”. “Deixar correr o tempo sem memória/ entre memoriais de tudo quanto houve/ valendo-me assim do que os outros lembram/ para nada lembrar”. É, no fundo e sempre, a complexa relação com o tempo, que tanto perturbava Agostinho, o bispo de Hipona, que está em causa - a tripla dimensão do presente, articulando o agora, o passado e o devir, numa observação atenta e inesperada. Lembrança e esquecimento, eis o que tem estar sempre presente quando nos interrogamos sobre a existência. “Por sobre o ombro (dói!) lobrigo/ tantas confusas coisas, falo delas./.../o peso, o contrapeso, a palavra que digo. / Sufoco o medo a medo, e olho a esteira/ remudo e quedo, sentado na cadeira”. E não é um acaso a invocação de Sá de Miranda, já que nos remete ainda para o célebre poema: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Com a memória, é também essa perplexidade que se manifesta. É o mistério da palavra que o poeta persegue, sempre preocupado com o domínio do ser. E é essa liberdade que a memória indescritível nos exige, capaz de compreender o limite do não alcançar no que a vista alcança. "Disseste: o sol nasceu. / Foi verdadeiramente então que o sol nasceu / e que nos habituámos todos a dizer / que o sol nasceu. / Às vezes pensamos que acontece várias vezes / mas é uma ilusão de ótica que não nos deixa ver / o grande círculo azul em cujo centro / tu dizes eternamente: o sol nasceu". A ironia completa a realidade. A memória permite que a palavra esclareça os limites do existir… Eis o caminho indescritível que Pedro Tamen procurou trilhar em pensamento e ação. E assim se pode compreender ainda o extraordinário tradutor que foi, demonstrando como o poeta cultivou um grande artífice da palavra, capaz de fazer da leitura de autores e obras consagrados a expressão da melhor escrita. Aí se sente o grande prazer da decifração.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

MAIS 30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL


(X)
OS POETAS ÁRABES


Depois de termos viajado até à Galiza, deslocamo-nos para sul, uma vez que a nossa cultura comum se construiu neste fecundo diálogo que permitiu ao galaico-português enriquecer-se com o contributo dos poetas e pensadores de língua árabe. Em 1031, caiu o Califado de Córdoba e o Al-Andaluz fragmentou-se nos Reinos Taifas. Essa fragmentação permitiria um avanço da Reconquista cristã, operada sobretudo no século seguinte. O Garb do Al-Andaluz, ocidente do território da Andaluzia, decompôs-se em quatro taifas: um grande na zona mais a norte cuja capital era Batalyaws (Badajoz), que compreendia a região do Baixo Alentejo com capital em Mârtula (Mértola) e dois reinos no atual Algarve, de Xilb (Silves) e de Xantamarya Ibn Harun (Faro).


A corte de Al-Mu‘tamid (1040-1095) marca um período extraordinário na cultura peninsular pela qualidade e sensibilidade. É uma época de profunda renovação literária e poética, na qual o próprio rei participou ao cultivar o género “muwashshaha”, elemento do génio literário do Al-Andaluz que reflete uma síntese originalíssima. Al-Mu’tamid foi o terceiro e último dos reis Abádidas a governar a taifa de Sevilha. Nascido em Beja, relacionou-se, contra o parecer de seu pai, com Ibn Ammar (1031-1086), nascido em Estômbar ou S. Brás de Alportel, brilhante poeta do Garb na cidade de Silves. Quando Al-Mu’tamid sucedeu a seu pai como rei, nomeou Ibn Ammar vizir. Contudo o conflito entre os dois foi inevitável. Ibn Ammar era insinuante e belo. Além de grande poeta foi conhecido pela invencibilidade no xadrez. A sua vitória num jogo terá convencido Afonso VI de Leão e Castela a abandonar Sevilha. A sua grande ambição levou-o, porém, a concretizar a anexação de Múrcia ao reino de Sevilha, convencendo Al Mu’tamid a nomeá-lo governador. Depois proclamou-se rei e cortou com o seu protetor. Em resultado disso foi morto violentamente pelo próprio Al Mu’tamid.


Em 1085, Afonso VI conquistou Toledo, o que constituiu um golpe profundo nas ambições do rei-poeta. Este, em aliança com os Almorávidas, conseguiu uma importante vitória sobre o rei de Leão em Zalaca (1086). Todavia, quatro anos depois os cristãos recuperaram influência. Com a perda de relevância, Al-Mu’tamid caiu em desgraça sendo feito prisioneiro em Agmate, perto de Marraquexe, onde morreu. A sua campa ainda hoje é lugar de peregrinação de poetas. Enquanto mecenas, protegeu o desenvolvimento das ciências, da filosofia e da música, contribuindo para uma época sem igual na história medieval da Península. É célebre sua “Evocação de Silves”: «Saúda o Palácio das Varandas, / da parte de quem nunca o esqueceu, / morada de leões e de gazelas / salas e sombras onde eu / doce refúgio encontrava / entre ancas opulentas / e tão estreitas cinturas. / Moças níveas e morenas / atravessavam-me a alma / como brancas espadas / como lanças escuras. / Ai quantas noites fiquei, / lá no remanso do rio, / preso nos jogos do amor / com a da pulseira curva, / igual aos meandros da água, / enquanto o tempo passava… / ela me servia vinho: / o vinho do seu olhar, / às vezes o do seu copo, / e outras vezes o da boca. / Tangia-me o alaúde / e eis que eu estremecia / como se estivesse ouvindo / tendões de colos cortados. Mas se retirava as vestes / grácil detalhe mostrando, era ramo de salgueiro / que me abria o seu botão / para ostentar a flor».


Al Mu’tamid foi sem dúvida o mais célebre dos poetas árabes do Garb, mas outros encontramos como Ibn Badrun, natural de Silves, que é referenciado em 1211; Abd Allah Ibn Assid (1052-1127) gramático e poeta, nascido em Badajoz; Ibn Abdun (1050-1135), que morreu em Évora; as poetisas Mariam e Xilbia; além de Abu-l-Hasan Ibn Sali ash Shantamari, de Faro e Al-Cutair de Loulé. Não podemos esquecer ainda Ibn Mucana, nascido em Alcabideche em 1042 e falecido em data incerta, o grande poeta dos moinhos de vento. «Se és homem decidido precisas de um moinho / que trabalhe com as nuvens sem dependeres dos regatos. Quando o ano é bom na terra de Alcabideche / não vai além das vinte cargas de cereais. / Se rende mais, então sucedem-se / ininterruptamente e em grupos compactos / os javalis dos descampados. / (…) Se te disserem: gostas deste trabalho? Responde: sim. / O amor da liberdade é o timbre de um caráter nobre…»

GOM

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PEDRO TAMEN (1934/2021)

 

“Os poetas não fazem mais do que arranhar a crosta do mundo para encontrar o que está por baixo”, disse.

Distinguias o vento na paisagem e davas-lhe uma cor.

Pedro, o poeta para quem a tradução literária era um vício.

Pedro, o amigo que não esquecerei.

Partilhámos frinchas de interpretação do mundo e também silêncios, nosso modo de nitidez.

Até sempre!

A tua escrita? um desejo do mar.

                                                        

Teresa Bracinha Vieira

PEDRO TAMEN (1934-2021)

 

Nascido em 1934, Pedro Tamen é um dos poetas mais reconhecidos na sua geração. Jurista de formação, encontra na Faculdade de Direito Nuno Bragança, um dos nomes referenciais do romance moderno. Em 1954, funda «Anteu», cadernos de cultura, e em 1957 é chefe de redação de «Encontro», influente órgão da Juventude Universitária Católica (JUC), tendo sido um dos fundadores de um influente cineclube – o Centro Cultural de Cinema (CCC). O primeiro livro de poemas é desse período: «Poema para todos os dias» (1956). Com António Alçada Baptista e João Bénard da Costa participa no projeto da Livraria Morais, de grande significado cultural, que culminará na fundação da revista «O Tempo e o Modo» (1963), correspondente aos «Cuadernos para el Dialogo» de Joaquim Ruiz Gimenez, com que mantém contactos estreitos. Além de ser autor do título da revista, funda e dirige a coleção «Círculo de Poesia», onde publica «O Sangue, a Água e o Vinho» (1958). Em 1960 dá à estampa «O Primeiro Livro de Lapinova». É subdiretor da revista de atualidades «Flama» (1961). Publica: «Poemas a Isto» (1963), «Daniel na Cova dos Leões» (1971), «Escrito de Memória» (1973), «Os Quarenta e Dois Sonetos» (1973). É diretor literário da Livraria Moraes (até 1975), membro da primeira direção da Associação Portuguesa de Escritores, sendo eleito Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian (exercendo funções de 1975 a 2000). Prossegue fecunda atividade de publicação: «Agora, Estar» (1975), «20 Anos da Coleção Círculo de Poesia. 20 Anos de Poesia Portuguesa» (1977), «Aparelho Circulatório» (1978), «Horácio e Curiácio» (1981) – Prémio D. Diniz (1982), «Princípio do Sol» (1982), «Antologia Provisória» (1983), «Allegria del Silenzio» (tradução italiana, 1985), «Delfos, opus 12» (1987). É eleito Presidente do Pen Club Português (1988-1991). Recebe o Prémio português de tradução e é finalista do Prémio Europeu de Tradução, com «A Vida Modo de Usar», de Georges Perec (1990). Em 1991 sai a poesia reunida em «Tábua de Matérias» (Prémio da Crítica e Grande Prémio Inapa de Poesia) e é de novo finalista do Prémio Europeu de Tradução, com «Bouvard et Pécuchet, de Flaubert. Publica «Caracóis», com Júlio Pomar (1994), «Depois de Ver», com Fernando Azevedo (1995), e «Guião de Caronte» – Prémio Nicola de Poesia (1997). Em 1997 sai a lume a Antologia em língua magiar e em 1998 a Antologia em língua francesa «Maître ès-sanglots», com tradução de Patrick Quillier. Em 1999 são publicadas a Antologia em língua búlgara e o disco-antologia «Escrita Redita» (com Luís Lucas). Reformado da Fundação Gulbenkian, continua a publicar: «Memória Indescritível (Gótica) – Prémio Bordalo e Pen Clube -, realizando a tradução da integralidade de «Em Busca do Tempo Perdido», de Marcel Proust (2003-2005). Em 2001, sai em Inglaterra «Honey and Poison – Selected Poems», com tradução de Richard Zenith. No mesmo ano, publica «Retábulo de Matérias – Poesia 1956-2001» – onde está reunida toda a obra poética até esse momento. Em 2002 é publicado em Espanha «Caronte y Memoria», com tradução de Miguel Viqueira (Huerga y Fierro, Madrid, coleção «La Rama Dorada»). A obra sairá no Brasil, «Caronte e Memória», com prefácio de Carlos Nejar (2004), e em tradução búlgara (2005). Assinalando os 50 anos da vida literária, é publicado «Analogia e Dedos» – Prémios Luís Miguel Nava e Inês de Castro (2006). Seguem-se «O Livro do Sapateiro» (2010) e «Um Teatro às Escuras» (2011). Obtém o prémio Correntes de Escritas do Casino da Póvoa de Varzim e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores por «O Livro do Sapateiro». Em 2013 dá à estampa «Rua de Nenhures». Membro muito relevante do Centro Nacional de Cultura, em Pedro Tamen encontramos um poeta com grande maturidade artística, com excecional domínio da língua e uma vocação temática universalista, sendo hoje um símbolo vivo da grande qualidade da poesia contemporânea. Homenageamos a memória de Pedro Tamen e todo o seu apoio, enviando sentidas condolências à família, em especial à sua filha Teresa.

A VIDA DOS LIVROS

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  De 12 a 18 de julho de 2021

 

O conjunto de cinco plaquetes publicado em Faro sob uma capa comum como o título de “Poesia 61” (maio de 1961) representa, de algum modo, um retorno à tradição vanguardista que em termos emblemáticos “Orpheu” tinha representado. Celebramos gostosamente os 60 anos desse momento.

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UM ENCONTRO SINGULAR

“Poesia 61” reúne cinco autores diferentes, que seguiram caminhos próprios, embora, segundo Gastão Cruz, “a muitos parecesse que aquilo era o mesmo”. Contudo, o que há é um impulso comum, que merece atenção. E Eduardo Prado Coelho entendeu que esse encontro (e não movimento) “procurou defender uma conceção estrutural do poema. Em que cada elemento depende de todos os outros e apenas se define no espaço total e ilimitado do poema através de uma rede muito densa de relações” (in “A Jovem Poesia”, “Diário de Lisboa”, 4.7.1968). Casimiro de Brito (1938) com “Canto Adolescente”, Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007) com “Morfismos”, Gastão Cruz (1941) com “A Morte Percutiva”, Luíza Neto Jorge (1939-1989) com “Quarta Dimensão” e Maria Teresa Horta (1937) com “Tatuagem” protagonizaram essa iniciativa, publicando cinco textos, sob uma capa comum da autoria de Manuel Baptista. Óscar Lopes e António José Saraiva identificaram o grupo como predominantemente universitário e referiram a importância de  uma “evolução conjunta da poesia experimental em sentido tangente ao realismo social”. Segundo a análise de Gastão Cruz (algarvio, como Casimiro de Brito) houve uma preocupação comum, que correspondeu a uma demarcação relativamente à linguagem poética em vigor nos últimos anos 40 e princípios de 50. E as folhas de poesia “Árvore”, com quatro números publicados de 1951 a 1953, dirigidas por António Ramos Rosa, José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho e António Luís Moita, com vasta colaboração (Sophia, Eugénio de Andrade, Egito Gonçalves, Jorge de Sena, Cristóvam Pavia, David Mourão-Ferreira e tantos outros), constituíram o melhor repositório de uma interessante confluência entre as lições de Pessoa e de Casais Monteiro e as propostas neo-realistas e surrealistas. Como dirá Luíza Neto Jorge, o surrealismo tinha razão de ser como modo de pôr em causa cânones bafientos e como reação a um ambiente social fechado e rígido. Só a partir de um tal inconformismo seria possível constituir formas e ideias novas. Natália Correia incluirá, aliás, em “O Surrealismo na Poesia Portuguesa” (Europa-América, 1973) duas autoras da “Poesia 61” – Luíza Neto Jorge e Maria Teresa Horta.

 

UMA INFLUÊNCIA TRANSVERSAL

Mas é a influência indireta de António Ramos Rosa que está bem presente transversalmente em “Poesia 61”, quer na consideração da poesia “como diálogo com o universo”, quer na lógica de uma poesia social fraterna que não escondia a procura exigente de um estatuto de linguagem. Não esqueçamos a experiência dos “Cadernos do Meio Dia” (1958-1960), com A. Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira Ferreira e Hernâni de Lencastre, também impressa em Faro, na mesma tipografia Cacima, que antecipa os cadernos de 1961. Gastão Cruz  chamou, porém, sempre a atenção para a necessidade de evitar o “comodismo dos rótulos”, devendo  considerar-se  as “obras e os percursos individuais”, designadamente a sua própria fase de aprendizagem. Deste modo, há uma preocupação persistente na ligação entre o “poeta do real”, para quem a imagem é importante, e a grande relevância da palavra, “elemento nuclear do discurso poético”. Como dirá Fernando J. B. Martinho, importa ter presente em Gastão Cruz o movimento pendular entre “uma consciência agónica que diferentes temas de inegável ressonancia pessimista balizam e uma teimosa crença na vida e em valores correlativos…”. E esta preocupação de rigor, de sentido e de atenção à realidade e às raízes encontramo-la em Fiama Hasse Pais Brandão, e na distância relativamente a “vanguardas loucamente velozes e devoradoras”, preferindo a “metafísica humilde, sempre a dizer o mesmo, o mesmo, talvez por outras palavras e modos”. E Eduardo Prado Coelho dirá que o denominador comum para a geração de “Poesia-61” é a recusa de uma interpretação socio-lógica ou psico-lógica dos textos. Não se trata “de encontrar a tradução esteticamente adequada de uma vivência muito sincera do sujeito psicológico, nem de ir descobrir a mensagem social ou o programa ideológico que tal sujeito em poesia nos propõe. Trata-se de formular uma conceção topológica do texto, como lugar onde o sentido se produz” (in “A Palavra sobre a Palavra”, 1972). Deste modo, se cuidarmos de uma análise criteriosa e atenta dos percursos de todos os protagonistas de “Poesia 61”, encontramos preocupações comuns que definem uma identidade inconformista e reconstituinte, sem esquecer a necessidade de trilhar caminhos múltiplos e de articular a liberdade e a renovação com a escolha da palavra, numa atenção simultânea ao real e às metamorfoses que ligam permanentemente o passado e o futuro.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença
 

POEMA


Eu tenho um anjo de água que me desfaz os poemas-dor

 

Este meu anjo de água reescreve-me as lágrimas

A contra-coração

 

E quando sou medo logo vou ao ponto onde o sei

 

E na torrente que sempre me propõe

 

As cores balsâmicas

São as forças

Que me ateiam

 

Vindas do meu anjo de água-esmeralda

Meu anjo impalpável

 

No horizonte-tempo

Que me torna nítida

 

No exato momento em que o poema

Age

 

Ou amar não fosse

Desde tão antigamente

 

Disseste, olhando-me

 

 

Teresa Bracinha Vieira

ESCRITA ALQUÍMICA, A TUA POESIA


António, António Gamoneda, querido e doce amigo,


Como pensas que me esqueci de te escrever? Regresso a casa, como tu, atravessando a vida, e há sempre aquela erva cuyo nombre no se sabe; asi há sido mi vida por estes tempos. E por assim o saberes, te rogo que não julgues nada do meu silêncio. Recordo bem quando me deste a tua mão para entrar na neve e tinhas tanta razão! ou não é que se atravessa o inverno até chegarmos aos ossos humanos?


Querido António que a tua poesia é uma paz en mis ojos mesmo quando escuto o descrever da morte. E tudo cessa y cae Dios, um dia, naquele em que nada é verdade.


Escrevo-te também hoje por ser sábado, o primeiro de 2018. E tanto me lembro quando te conheci. Era sábado e senti que has llegado al gran sábado de la vida y amei as desaparições, sem receios.


Tudo o que me ensinaste seria redutor se o dissesse, até a escuridão dos teus paralelismos com as paisagens, pinturas, palavras, músicas, cores, nunca elas seriam tão escuras se não nos esclarecessem tanto a todos.


A descoberta da vida também é dolorosa e exige a descrição da mentira com uma precisão rara, e para isso é precisa a escuridão.


E quantas vezes encostei o meu ouvido à tua poesia e por ela tu prision en la melancolía, pois tudo na vida, durante algum tempo, é, el alimento por la esperanza.E só!


António, deixa que te lembre que atravessando


los aniversarios, a veces viajan las palomas ebrias
soy la ciudad y el viento, ah y los jardines! Estuve a punto de llorar hasta tu trono.


Juntos estamos e estaremos numa escrita rodeada de frutos. Os nossos livros algumas sementes!


Teresa, Teresa Bracinha Vieira


P.S. Não tenhas medo que eu também já sei que o amanhecer quando chega vem em pastilhas pardas. Peço-te: mira mis ojos en el instante de la nieve. Luego.


E recordo por entre as páginas que escrevemos:


(…) a inflexibilidade do destino grego, impede, por uma migalha, que os humanos sintam o mesmo, à mesma hora e pela mesma razão.

             Miro a mi amor, Luni.

Sim,

Es bueno ir por las calles y escutar tus passos

e ainda assim é bom de quando em vez pensar que quiero morrir en libertad como um caso de luz incorporada

o centro da luz que escuta o quanto não tens piedade do estrangeiro,

Ah António o universo e a criatura. Nada mais peças ou não tivesses sido um imenso ouvido

Es bueno ir por las calles y escutar tus passos

Luni, ah a pureza das facas abandonadas.

Sim, o zero e a completude são de uma claridade sem descanso.

Así las cosas.

Teresa Bracinha Vieira

 Obs: Solicitada a presente reposição.