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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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TAO YUANMING: O POETA DA RECLUSÃO ENTRE O TEMPO E AS COISAS

 

A minha gratidão a Manuel Afonso Costa por mais esta tradução que me permitiu ir a este caminho de passado procurar regressos e futuros.

 

Sabe-se que Tao Yuanming (365-427) é o alicerce fundamental dos grandes clássicos da literatura chinesa e um dos maiores poetas chineses. Pela mão de um amigo francês, chegou-me a leitura deste escritor sagrado. Agora, lendo em português, por tradução de um poeta, melhor se entende o quanto a poesia é uma receção única ao entendimento das realidades, graças, sobretudo, à sempre nova e singular luz que aporta à verdade.

 

Lê-se que Tao Yuanming nasceu numa família aristocrática empobrecida, cresceu e envelheceu pobre, sempre pobre, ainda que nunca tenha descuidado a afirmação:

 

«Não voltarei as costas aos meus princípios por cinco alqueires de grão.»

 

Por esta razão preferiu viver como agricultor e passar fome, do que seguir uma carreira de funcionário, repelindo assim a corrupção generalizada. Retirado com a sua família para uma aldeia, numa pulsão pelo campo, nela escreveu poesia e prosa e cultivou os crisântemos inseparáveis dos seus versos. Os crisântemos representam o Outono quando as outras flores já murcharam e representam igualmente um comportamento ético do homem livre que se distingue na honra. Um comportamento que assenta na natureza e não se compromete com o ilusório.

 

O vinho também foi caminho que o não perdeu, antes jeito de intransigência e de serena solidão, jeito mesmo de compreender um desfrutar das manhãs às quais as pessoas vulgares não agradecem de tão confusamente viverem.

 

Tao Yuanming soube como refletir sobre a passagem do tempo, o seu significado, a transitoriedade da existência, a morte, e afinal o conhecer do saber valorizar o tempo que passa, ou a vida depressa não caminhasse para o nada.

 

Já tinha lido e ficado maravilhada com as palavras de Tao

(…)

eu por mim consagro-me a viver em solidão
já faz quarenta anos que a isso me dedico
com devoção e de acordo com a sábia natureza
o meu corpo envelheceu há muito tempo
mas os meus sentimentos continuam intactos,
por isso nada tenho a lamentar.

 

A verdade é que este poeta maior atravessa a vida pedindo comida emprestada para sua mulher, seus filhos e para si enquanto escreve

 

(…) o lugar onde moro (…)
onde tenho uma casita com aposentos vários
(…) no coração da casa nem uma nódoa
não cabem tumultos onde o silêncio mobila os quartos
tanto tempo estive em cativeiro
que alegria por voltar ao campo
(…) durante o dia o portão fica fechado
e na sala vazia o mundo vazio não entra

 

(…) O grande oleiro não concede favores particulares
dentro do complexo mundo das coisas,
cada uma por si só cresce e se distingue
se o homem prospera, entre céu e terra

 

(…) Se o frio e o calor se sucedem sem parar,
o mesmo acontece com a fortuna dos homens
tudo isto me parece óbvio,
por isso sabiamente se retira
aquele que para a vida despertou.

 

Creio que é pouco dizer que com este livro se reencontra o espanto. E é pouco realmente porque julgo que se encontram muitíssimas realidades que nos levam a não nos atrevermos a procurar o caminho de modo “banal”, como muitos que viajam, viajam, viajam de modos vários para procurar verdadeiramente o quê? E se a esta pergunta se atrevem, nela reside a coragem de sobreviver à resposta com dignidade, a dignidade de continuarmos inteiros na pobreza de cada um, e isto também nos propõe Tao Yuanming.

 

Depois, depois, diria:

 

Sei que o lume da lareira vai apagar-se não tarda nada e de fontes de flores ainda só conheço a dos plátanos.


Teresa Bracinha Vieira

 

Obs. Este livro pela Assírio & Alvim, na coleção Gato Maltês, 2019 - Poesia e Prosa de Tao Yuanming

 

CINCO POEMAS - E

 

1

Se se pensa nas razões da vida ela a morte é cabeça velha que labuta
Num ofício em que o tempo finda de rompante
Ou ela não gostasse de se interpor às conversas e impor-se só querendo falar daquilo que chama
Daquilo que está escondido atras da sua língua linha reta que todos cumprem
Quer sejam os do berço do início ou do fim quer sejam os que olharam o mar
Ou os que não conheceram caravelas ou voo ou glote de sal
Alarga-se sim forçosamente o diálogo à morte e ao dirigir-lhe palavra alguém passou a ser outra voz como a daquele verso que Exaurido da cova cantou
Ó morte não mataste tu da vida um lugar de mães nem o poeta no vivo audível nem
O amor que foi único nome de si

 

2

Houve um tempo vivido por detrás das janelas
Houve um tempo aplanado que de tão plano se convertia
Na rampa da fuga quando se sabia que os peixes ajudariam
Ao lance do mar e onde se esperava o barco como uma espécie de salvação
A primeira de muitas que implicariam ofícios vagos e muito sofridos e de novo
O carteiro junto ao portão de ferro entregava a carta por entre as grades
E sorria como uma armadilha ou não soubesse que o remetente
Era uma paisagem aparente nem benigna nem mortal

 

3

Também chega o tempo de cuidar das memórias e das gerações
Que nos ensinaram as cantigas que descobriam o segredo dos ovos nos folares
Quando tudo era tépido antes do meio-dia
E eis que um dia uma flor se suicidou atando cuidadosamente
O caule à corda e ali se deixou estar de olhos abertos à casa
Cheia de luzes presas sob empenas que sustinham estonteadas esperanças
Tateando a nossa pele na vigília ao centro das infidelidades
Mãe minha que não sei se falo de magias ou inocência

 

4

Também se levam nos braços muitos filhos desconhecidos
Infindamente vai-se dizendo com a suavidade do embalo
Que eles devem sonhar com o mar
Com aquele mar sem princípio nem fim e que mesmo quando vento é mar
No sonho e no caminho e até tem pinhal de pinhas e pinhões que adivinham
A hora em que a vida dos afetos que nos dão é bela e pobre
E pedra-insónia feita de cordão umbilical

 

5

Às vezes parece um muro imenso que avança e tapa a estrada
Caminha-nos para o contrário das nascentes e dos comprimidos que nos retiram a dor
Enfrenta-nos com o seu corpo pardo e duro e inclemente e logo te abraço
Amor meu pois que morra eu e te deixe à guarda de um palácio que te fiz
Com mantas de plumas de pássaros daqueles que em ti sempre festejarão
As núpcias por te terem visto nos seus casamentos e tanto bastou
Para criarem aquela canção-périplo que mesmo adormecida ou já não aqui
Eu para ti ela e tu

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - D

 

1

Tudo se cingia àquela estrada solitária numa terra
Inocentemente guardada entre montes por onde caminhei
Com meus pés muito autênticos até ao túnel que nunca me barrou
Antes me ajudava a subir para o comboio da infância
Quando a direção era rumo aos nascentes e o brincar com o que não era eterno
Não ocupava espaço nem dor nem gritos sendo as aves da viagem
Harmonias que nunca se referiam à primeira morte e pelos olhos
À janela o único poeta procriava para a terra a relação dos seres com o aconchego
Nada em mim se desunia e naquele estou aqui não entendi a oscilação

 

2

Pânicos e paz noturnos também se juntam puxados pelo íman
Que une os contrários sem explicar o que está no meio e é borboleta-eu
Numa luta em pleno cosmos em que da metamorfose sou vítima e carrasco
Que aguarda de mim para mim o sinal de que não se resiste ou não tivesse pisado
As minhas próprias asas sem receio de não voltar a recordar o voo
Embora já se desassemelhasse do pulso-ideia que se atreveu em seu dia
De modo nítido e supérfluo máxima diferença de tudo o que se copia
Escrevendo em nome da arte que a Natureza não pôde resistir e infiel ao princípio
Engendrou um invisível fruto-criação

 

3

Ali na savana montou-se a tenda e abriu-se o fogo ruidoso
Aquele fogo que espanta vultos de bichos de tipos vários e trovoadas secas
E vi-me a olhar o lume com luxúria sentindo as chamas carnais
A alertarem-me quando pegaste na minha mão e eu pedi uma verdade
Para toda a vida escavada naquele momento crepuscular
Ainda hoje fecho os olhos e reconheço o tempo e o cheiro e o tato quando convida
Parece que um sonho foi preparado naquela noite como se a vida fosse só uma e una
Pela manhã o poema entregou-se à mesma sorte de sempre
Embrulhado no raiar do dia entregou-se às paredes de todas as portas

 

4

Por fim um poço propício a receber as tristezas maiores
Um poço sem fundo cuja volúpia desmedida era a de sugar todas as lágrimas
Um poço mudo e nu cujo corpo só lhe conhece a terra
Um poço absurdo de tanta perdição e glória e até poder
Um poço-osso presságio de um nada não descodificado e contudo um balde
Descia-lhe pesado e subia-lhe depois assolado de livros que vinham dos livros
Que recebera em diversas formas e ele poço
Arqueólogo do pouco e do mínimo e do maior era todo uma gargalhada de andorinha

 

5

Nas viagens conhecem-se muitas saudades para além do ir do vir e do estar
Procuram-se palavras que se prendam definitivamente às memórias do que se viveu
E as não traia como se tivéssemos estado em locais apenas retratados aptos
A serem moldados com o rolar dos tempos por outras analogias possíveis
Os viajeiros somam e seguem eras em espaços que não têm e ordenam as saudades
Em imagens dizem que esta e aquela atravessou-lhes o tórax ao verem a pedra Vermelha da Austrália mas o macadame das viagens é um amante muito solitário que nos esquece os passos e os viajeiros só estiveram no começo
Sempre num outubro impiedoso os morcegos das memórias roubam-lhes o beijo transumante

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - C

 

1

Também se conhece uma nociva doença do que é verde
Uma doença que ataca até as terras no pousio
Ataca o próprio sal trazido nas ondas do mar
E cinde mistérios até os levar à morte
Antes que as estações dos anos da vida expliquem a necessidade
De se progredir por entre sulcos e vultos de temporais
Por várias razões debruçadas na claridade
Entre as quais o coração se perder em muitas alturas
Por entre arados e leveduras e realidades de vidas falseadas
Quando afinal os barcos suplicavam o embarque urgente
E só o nosso aceno fora de aço

 

2

O chão dos olhos inundou-se pela forte bátega
Quando do horizonte constelado veio a tua mão fechada
O teu ombro vago a estriar-se na tua fala que exortava vésperas cadentes
Afinal o lugar de ambos um reboco um talhão de obra a soro
A nossa casa devoluta e transferida e segura
Tão só por uma ossatura vagamente viva
Trave mestra em que sempre acreditei e sob a qual tanto mas tanto
Me tens amado

 

3

É preciso infinita coragem para procurar no poema
O testamento da alma e expô-lo aos olhos que o visitam
Atravessando-o por onde eclode excessivo quando envolto em si
Sem freio já nem pode recolher repouso ou medo ou debulho
Deixando-se sim possuir e consumir qual miradouro que se despenha solícito
Ao fascínio de quem lê a viva solidão entre coisas e parte delas
Já defronte e misturadas não turvas mas definidas
Saídas de muito dentro de um tempo que sobrevoa
A rocha escavada desmesura morada do poema

 

4

De onde procedem as asas ascendentes incandescentes
Que no ar de tudo sustêm terra e curvo céu abaixando-se sobre a leira
Das mulheres que aceitam suas sementes jubilando de alegria
Dormindo posteriormente sem receios sob todas as noites
Em que até mesmo os lobos as visitam e se escutam os ossos a latir
E elas as asas e as mulheres vívidas ante tudo
Já brincam agora com as crianças aos lumes que colidiram juntos na mesma luz
Depois do cheiro acre de um parto de forças e deuses
Em bandos

 

5

Agora a glosa é enorme é um outro livro uma outra distância
Onde se implanta uma outra emergência de entendimento
Do posto e do lugar por onde espreita o pássaro
Agora as palavras da glosa são comentadas num pulmão de verso
Oposto à prosa ou à provação desta poder ser tão ampla
Que uma anotação a descreve arvore não rítmica e essa compreensão
Existe como expressão narrativa de uma carta
Despida folha que afinal em mensagem te enviei
Desenhando para ti te um favo que por harpa te oferecia
Toda a música dos ventos

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - B

 

1

Nenhuma mão foi central
Ao ritmo das noites quando necessitadas
De pontes que as libertassem das cicatrizes
E dos sismos nos peitos em peso de afogamento
Descobriu-se sim e lentamente
A corola da lua com o sol por baixo
O ar sensitivo a insinuar-se 
As coisas a cederem sob uma causa maior
E encurvada eu no exercício da palavra-respiração
Lavrei pão e armas e pássaros enquanto uma diferente paz
Chegou sem manto nem lenço
Ferida tanto quanto suturada
Envolta numa viseira que dava à costa levantada
Sem demandar porto


2

Também evoco falecidos nos cercos dos sítios
Em que viveram e nos amaram e magoaram
Utilizando nós feitos para os recordar para os acolher
Na memória das lutas com chifres e adereços de amor
Tudo em sentires de fuso ou jeito de o usar
Recordando em crónica aqui e ali o mudar da vida
Dos mortos agora sem trono mas chorados e vestidos com mantos
Roupa na qual crescemos e a eles nos igualamos
Em demasia para depois de exumados
Nossa lembrança escarlata


3

Eram doze cavalos muito altos a correrem vinte e quatro corridas
E mais seriam se fossem mortais e expostas as múltiplas feridas
Do chicote inimigo ou ais que em palmas ásperas lhes explodisse o coração
Mas agora não que era verde o destino destes imortais animais
Velozes e dispostos a dar trono não ao sol mas a quem o nomeia
Não aos mudos mas a quem calado escuta
Não ao poema mas a quem o parisse morto e dele a vida soltasse
Quando os doze cavalos muito altos corressem as vinte e quatro corridas
E chegassem ao tempo que não finda
Lá onde e aonde só uma pedra aguarda

 

4

Aquela ilha eventual lugar secreto de encadeados
É uma ilha de leitos fundos que saem da barriga do chão
Regada de muitos nevoeiros para que os estares dos segredos
Sejam protegidos das perspicácias alheias e o lodo se possa fechar
Como quem fecha um rio em barragem para que o pulmão só consigo respire
Aquela ilha é simultaneamente operária de mágoas e raiz de fomes proibidas
Aquela ilha tem o mais perfeito e sinuoso peso de cada um
Que supostamente a separa da vida indivisível
Mesmíssimos passos na tábua que pisa
Reveladores de que o muito dentro da neblina afinal
É uno e condição

 

5

O rosto mostra muito de um choro predisposto
Ao íntimo do amor
Jogo
Tão ansioso que alimenta cio e crosta
Assegurando coragem e desafio num estreito
De beijos cor de evasão do desejo
Deleite que traz tempos infindos tecidos por nós
Numa variedade de vigílias de senso profundo e dúctil
Como pode depois o mesmo rio fazer veios nas correntes
Das dúvidas que nem as guerras atenuam
Ou sequer os bois têm força para lavrar

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - A

 

1

Se hoje amamos é porque muito amámos ontem com e sem razões
Só porque se o amor não for isto de amar mais
De cada vez que se amou
Então o amor não seria esse imenso saber amar
A cada dia que mais não é do que aprender
O quanto amar ontem hoje e sempre
É amar no amor o núcleo lá onde ele
É a pele da alma que nos envolve
Num ar bordado a felicidade e a dor
Permeável e afinal múltiplo de tão fixo
E alimento em nós sua espessura tanta
Qual seara
Nela tu meu tempo
Sempre

 

2

Procuro dentro do que nome não tem
Uma linguagem que me não deixe perdida
Ao atravessar o espaço que conheço e sinto
Não como aparência
Antes realidade a toda a volta de mim e dentro
De uma oficinal consciência que volve nela para se oferecer ao meu canto
Naquele recanto que se nomeia cheio de uma voz
Que sabe que o poema existe lá
Tão impossível quanto coerente de não ser de ninguém
Mas me persegue sem hiato numa infatigável
Alegria

 

3

Se o mais desconcertante for o peso da memória
Que o voo carrega
É sem esforço que o apanho nos braços
Habitando-o num género novo de mistério maior
Que visto e logo permuto roupagens de oiro por aves doridas
Sem berço de mãe nem essências a confluir no piar
Ou o entender do fantástico visceral me não coubesse
No embrião das palavras que principiam e são
Afinal virgens e úberes
No vai-vem de um ângulo

 

4

A noite que digere a noite
Tem uma língua de água com a qual corta
Os muros num sinal anfíbio
De tão bem conhecer mares e pontos cardeais
Tudo tão verosímil como o rio que se inclina
De dentro da ânfora e me submerge com espessura de mar
Nascida escada até onde o ar me colhe
Óvulo é certo
Obsessão afluente
Seguramente
Que não resume tamanho nem conflito

 

5

Sobre o dorso de um sentimento
Eu quero dizer plátanos vitríolos
Quero dizer que nada é sítio e que o dia também nem sempre
É diurno
Ou a ausência não fosse um glóbulo incapaz de se levantar
E quero dizer contorno
Gineceu da flor
Época
Das pedras que sabem contemplar
A morte num estar
No hálito dos poemas não lidos

 

Teresa Bracinha Vieira

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JOSÉ BENTO (1932-2019)

 

O Centro Nacional de Cultura homenageia o grande tradutor e poeta e envia sentidas condolências à família.

 

José Bento foi um grande tradutor de poesia e um grande poeta. Não é possível traduzir poesia com a qualidade com que o fazia sem se ter o dom da medida certa na palavra e no ritmo. Ao lado de Pedro Tamen, António Osório e Ruy Belo, seus companheiros de geração, é uma referência da poesia portuguesa contemporânea. Deixou-nos há poucos dias e devemos lembrá-lo. Colaborou em revistas como “Árvore”, “Cassiopeia” e “Cadernos do Meio-Dia”. Trabalhou na redação de “O Tempo e o Modo”, e por isso foi muito cá de casa…, do mesmo modo que colaborou ativamente na revista da Gulbenkian “Colóquio-Letras”. É impressionante a lista das obras que traduziu: começou por “Platero e Eu” de Juan Ramón Jiménez – e apaixonou-se pelas línguas ibéricas. Organizou antologias de Pablo Neruda e Vicente Aleixandre para a Inova e cultivou uma genuína ligação entre os idiomas e as culturas peninsular. A memória do hispanista leva-nos a compreender melhor a complementaridade ibérica. Ouvimos Jorge Marique, através de José Bento e sentimos o impulso intenso de Frei Luís de Léon; Garcilaso de la Vega, S. João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, Francisco de Quevedo, Rafael Alberti. Leia-se a monumental “Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea” (1985) – que marca o contributo decisivo do nosso grande autor. Está lá tudo de essencial. Além da poesia, José Bento é um grande tradutor da prosa – como no caso de “D. Quixote de la Mancha”, mas também de Javier Marías, Miguel de Unamuno, Ortega y Gasset, Maria Zambrano e Jorge Luís Borges, com um grande reconhecimento pela extraordinária qualidade e clareza dos textos. José Bento venceu os prémios D. Dinis e Pen (1960) com “Silabário” e prosseguiu a ação sistemática, com a antologia do “Siglo d’oro”, “Lírica espanhola de tipo tradicional”. José Bento foi um grande homem de cultura, capaz de mobilizar energias e favorecer a comunicação entre culturas e entre pessoas, como fator de paz. Os livros ”Um Sossegado Silêncio” (2002, Asa) e “Alguns Motetos” (Assírio e Alvim, 2003) marcam a qualidade do autor e o seu entendimento de que tudo depende da capacidade de compreender e transmitir sentimentos…

 

Agostinho de Morais 

A VIDA DOS LIVROS

De 7 a 13 de outubro de 2019

 

«Os Sonetos – Uma Antologia» de Manuel Alegre (D. Quixote, 2019) é uma reunião de poemas que permite uma visão global sobre a obra do poeta.

 

 

A PROCURA DAS RAÍZES
Se há poeta português para quem as raízes culturais são fundamentais, é Manuel Alegre. “Haverá sempre em mim o rio Águeda / Meu ritmo é seu fluir e seu buscar / Quem sabe se outro longe ou se Pasárgada / Haverá sempre um rio para o mar”. As raízes não podem ser esquecidas, e há um amor especial que o poeta nunca esquece, que é o da língua-pátria e da pátria-língua. Sempre um patriotismo prospetivo, como quis António Sérgio, sempre as lições no presente de uma longa história. E Águeda é um símbolo bom, a lembrar a “soberania do povo” e um especial culto ancestral da liberdade (e não esqueço outro amigo dessas paragens, Manuel José Homem de Melo, cuja memória está bem presente). Quando sobre Alfarrobeira e o Infante D. Pedro se lê: “Com D. Pedro outra vez saber ser contra. / Na hora amarga e vil e traiçoeira / ousar ainda a honra e a nobreza / sair em armas e lavar a afronta / com D. Pedro de novo em Alfarrobeira…” – não é um episódio passado que se rememora, é um apelo presente e ético que se proclama. Do mesmo modo, em “amor de fixação”, de “Coisa Amar” (1976), a lembrança de Duarte Pacheco Pereira é a da experiência madre das cousas, que se projeta nos dias de hoje: “naus a voltar no meu gostar de ti; / levai-me ao velho pinho do meu lar / eu vi o longe e nele me perdi”. No fundo, importa tirar lições para o futuro… “Vai-se a vida e cantar é um destino…”  

 

FORMA LÍRICA POR EXCELÊNCIA
Maria Helena da Rocha Pereira escreveu sobre “Sonetos do Obscuro Quê” (1993): “há muito que ele espreitava entre os poemas de Manuel Alegre: a forma lírica por excelência, o soneto”. A afirmação tem de ser lembrada, no momento em que é publicada a Antologia de “Sonetos” (D. Quixote, 2019), que nos permite recordar alguns dos mais belos momentos da criação do poeta. “Desata-se-me o verso no primeiro / no segundo de vento vai vestido / no terceiro de mar e marinheiro / no quarto está perdido está perdido”… A grande professora, que tanta saudade nos deixa, lembrava a sombra de Dante “entre outros nomes tutelares da poesia ocidental” e o “stil nuovo”, que inspirou o nosso Sá de Miranda, fez questão de lembrar a ligação entre amor e reflexão – e uma melodia própria, a exigir “um domínio da forma e dos sons que poucos possuem; e bem assim a concentração num conceito final, que surge como uma conclusão natural, ou então como uma farpa aguda, a apontar noutra direção. Ora, todas estas capacidades estavam presentes há muito na arte deste poeta”. Nada melhor do que estas palavras para elogiar o poeta, na sua originalidade, do domínio da palavra, no ritmo e no estilo, mas sobretudo na expressão originalíssima, que caracteriza um poeta de exceção. O grande poeta é quem é capaz de ligar o rigor à originalidade, tornando-se inconfundível. “De novo a via clara a via obscura / ligar a doce rima e a rima dura / da Provença e Toscana a luz e a rosa”.

 

LEMBRAR A POESIA
O poeta Manuel Alegre vai ser a figura homenageada este ano no festival literário “Escritaria”, que vai decorrer de 21 a 27 de outubro, em Penafiel, como sabemos, o festival “é o único que se dedica a homenagear um escritor vivo de língua portuguesa”, com a cidade a transformar-se, “por uns dias, na sua própria cidade”. É uma justa homenagem a um dos autores mais importantes das culturas de língua portuguesa. De facto, Manuel Alegre tem, ao longo de uma obra, muito vasta e rica, seguido, com grande coerência a linhagem muito antiga da nossa língua, que tem as suas bases na poesia trovadoresca. Desde “Praça da Canção” (1965) e “O Canto e as Armas” (1967) que encontramos na escrita de Manuel Alegre ressonâncias de aventura e de liberdade, que o ligam de modo indelével a uma antiga poesia de resistência, que nos conduz aos maiores nomes das letras portuguesas, que usaram essencialmente a matéria-prima da liberdade. Por isso citou Afonso Lopes Vieira quando recebeu o Prémio Camões (2017): “Diria que não seriam dignos do épico os poetas portugueses que não passassem pelas prisões. Eu sinto-me herdeiro dessa tradição. Acredito na força mágica e libertadora da palavra poética”. E em “Resistência”, lembra: “Desinfeção: metáfora da Europa. / Resistir sem piedade e sem tardança. / ‘Terrífico é o momento que nos toca’. / Com René Char as sílabas de França”… Lembramos ainda o que omautor disse quando recebeu o Prémio D. Dinis, na Casa de Mateus (2008) – exprimindo o grande contentamento por receber uma distinção com o nome do nosso Rei-poeta: «As naus são sempre as doze naus da imaginação (o prémio referia-se ao livro “Doze Naus”). As de Ulisses. Mas também a da poesia portuguesa. Recordo Miguel Torga: "Todos os caminhos transversais de Portugal vão ter ao mar. Verificá-lo é avivar na consciência a nossa razão de ser. Nascemos para embarcar. Ou de imediato ou na lembrança ou na imaginação." E já o poeta Afonso Duarte (1884-1958) tinha dito: "Há só mar no meu país". É verdade que somos hoje um "país pequeno e pobre", com "muito passado e muita história e cada vez menos memória, país que por vezes já não sabe quem é quem, país de muito mar e pouca viagem". Mas somos também o país em que em português o vento vem do mar. País do Mar Absoluto. País em que, por vezes, "há um navio fantasma sem ninguém ao leme". País em que sobre o mar visível haverá sempre o invisível, o mar de dentro. E é nesse que todos nós continuaremos sempre a navegar». É significativa esta passagem, uma vez que estamos no cerne da identidade cultural, que Manuel Alegre tem cultivado, com abertura e independência. “Gramática de sal e maresia / na minha língua há um marulhar contínuo // Há nela o som do sul o tom da viagem. / O azul. O fogo-de-santelmo e a tromba / de água. E também sol. E também sombra”… Contra a ideia de identidade fechada e egoísta, contra um conceito burocrático de patriotismo ou de comunidade, o autor com agudo sentido crítico, rebela-se contra sermos um país com “cada vez menos memória”. Apenas se cultiva e aprofunda a memória, cuidando do sentido crítico, da independência, do apego à liberdade. E é isso que tem caracterizado a voz inquieta e sempre atenta de Manuel Alegre – seguindo os passos de Camões, Bernardim, Sá de Miranda, Bocage, Garrett e Herculano, Antero de Quental, Cesário, Camilo Pessanha, Pascoaes, Pessoa e Torga de Sophia. Como esquecer: “E o seu poema é quase como casa / e a casa é o outro espaço onde Sophia / reparte à sua mesa o pão e os versos”? O conjunto dos sonetos dá voz ao poeta que não esquece que a cultura e a língua portuguesas resultam de uma rica encruzilhada de influências, que se enriquecem no diálogo e na recetividade de novos elementos e fatores. Daí a necessidade de atenção crítica e de capacidade para responder aos desafios do inesperado e do incerto: “Eu sou o renitente o inconformado / Por isso me deitaram mau-olhado / e por isso persisto e canto e falo” – assim diz o décimo soneto do português errante; depois de ter afirmado: “Eu sou o solitário o estrangeirado / o que tem uma pátria que já foi / e a que não é. Eu sou o exilado / de um país que não há e que me dói”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

SE SEI VIVER SÓ

 

Se sei viver só?

Quem sabe?

Nessa imagem revelada pelas montras

Passeia-se a rua interior

De mão dada com cada um

Ou não fossemos a primeira e última

Trincheira

Unida a outra e a mais outra

Corredores sem fim e labirínticos

Por entre as mensagens como flechas

Chegadas ao nosso, meu coração rebentado.

Se sei viver só?

Quem sabe?

Cada um compõe a alegria obrigando-se a voltar

Eu a ti e às tuas pálpebras regresso

Para que me ampares o terror experimentado

Na aberta realidade aquela que arboriza a solidão

Sem água

Rosa dos muros, cama das poeiras, orçamento que vela

O nada escrito no pleno dos vazios

Quando se renova a procura de nós

E a rota que turista se passeou à nossa janela

Quando o amor e só ele era o acreditar.

E de novo

Se sei viver só?

Quem sabe?

O parapeito é sempre cais

De onde os sonhos quantas vezes partem confundidos

Por histórias banais que nos ficam na memória

Entrada nela por navios e a ti neles regresso

E afinal a inocência é muita

E por ela a morte passa

Na preocupação de fechar segredos.

E eu quero tanto aquele morango, aquela cereja

Porque a minha obra, se o for tem um fundo vermelho

De sangue e flor futura e cega

E foi minha a andorinha e os xailes esgaçados de tão rotos.

Se sei viver só?

Quem sabe?

A semente é feita de carne humana

Poeta, não grites, não!

Poeta, não deixes fugir as pombas

Ou escuta os astros

E por lá deixa teus olhos

Definitivamente muito definitivamente.

E de todos

Ai anjo que de nós foge

E que me procura há quanto?

Pasmo, quebro-me e vou-me dando

Só paro em deltas

Abraçada ao teu olhar

Porque assim os oceanos

Embrulham-me num musgo, naquele mesmo que foi

Manta de alma enquanto vivi

Enquanto espreito

 

Se sei viver só? 

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

De 22 a 28 de julho de 2019

 

Quando a Antologia Poética (Oro, 2018) de Manuel dos Santos Serra (1926-2018) me chegou às mãos já ele não pôde apor a sua assinatura no livro, nem a mim foi possível cumprir o desígnio há muito prometido de apresentar consigo esta obra.

 

 

CIDADÃO IRREPREENSÍVEL
Devo dizer que é com um gosto muito especial que escrevo não apenas sobre o livro, mas também sobre a amizade que me ligava ao seu autor. Li, por isso, pausadamente e com emoção esta escolha de poemas, ao longo de quase quinhentas páginas. E em cada linha recordei quem conheci sempre, como amigo de meus pais, como médico de família, mas, muito mais do que isso, como um cidadão exemplar, um democrata a toda a prova. O poeta conheci-o mais tarde, mas em boa hora. Tudo na vida nos foi aproximando em múltiplos domínios, o da confiança e da cumplicidade humana, que não pode deixar de existir quando se trata de um médico próximo e atento, mas também o da cidadania e da paixão política, da cultura e da arte e do amor da natureza e da justiça. De facto, falámos de tudo ao longo da vida, apesar de ser uma pessoa de palavras essenciais. Nas consultas com meus avós, que o adoravam, havia a atenção máxima, o cuidado extremo, mas não fazia comentários e no fim havia sobretudo conselhos e amizade… A descrição de Albufeira é familiar: “Branca / Tão alva como as mulheres / Nórdicas do frio // Quente / Do sol de latitudes fugidias / Que te deram nome / Com palavras de barro / Refundido em ferro / E cobre reluzente, / Tão antigas como o esquecimento // Esta terra que nós temos / Que nos tem, / Impenitentes argonautas neste cais de pedra / Por magia do elixir do sol e mar salgado / Eterna fonte do instante novo / Que te vai renovando o rosto / A rolar a vida, / Sempre a mesma vida ondulada e nova (…) / Branca / Quente / Terra que nós temos / Que nos tem, / És de todo o mundo / És de ninguém!” (pp. 154-155). Albufeira é isso mesmo, um lugar de muitas magias, onde o Doutor Serra fez a sua vida, a sua profissão e o seu incansável magistério cívico. E ao invocar no final do poema o “Auto da Lusitânia” de mestre Gil é o gosto da gente comum que aí exprime. Texto após texto, deparamos com uma atitude sempre inconformista, mas sempre compreensiva sobre o diálogo entre as raízes e as mudanças. E como sinal desse respeito sagrado pelas origens, temos o belo poema que serve de pórtico a este livro: “Meus pais e meus avós / Para minha liberdade / Abriram fenda na muralha / Que os detinha prisioneiros! / Percorri longos caminhos / Guiado pelas sombras, / Pitonisas, / Adivinhos. / Na prisão sonho que os retinha / Contemplavam, ao longe, / O esforço penitente / A que eles me condenaram / Por amor! // Deslumbrados, / Ao verem-me descer / E a subir / Foram morrendo, em paz, / Atrás das grades / A sorrir!” (p. 7). De facto, é também uma autêntica saga que aqui se encontra, de quem saiu muito cedo de Penela (Coimbra) (“Acrópole antiga / Com aroma grego”) e veio para o Algarve, num caminho de liberdade delineado pelos seus maiores. E não esqueço sempre essa fidelidade à persistente capacidade de fazer da experiência vida. Quando o meu irmão Francisco iniciou as suas lides médicas, nos tempos heroicos das periferias, foi com o Doutor Serra que deu passos decisivos, conhecendo o modo de arar a terra, que o mesmo é dizer, na profissão clínica, lidar com as pessoas concretas e a sua vida irrepetível. E foi esse o seu ensinamento maior – não há doenças, mas doentes, não há horas, há pessoas que se conhecem olhos nos olhos.

 

UMA OBRA RICA E PLURAL
A Antologia percorre a obra do poeta: Romance Residual (1991), A Desordem na Harmonia (1992), Mosaico de Palavras Oblíquas (1996), Sobreposições (2001), A Sombra do Silêncio (2005), Olhar das Palavras (2007), Labirinto de Memórias (2009), Pomar de Pedras (2011), Miradouro do Tempo (2013), Arquipélago de Vozes (2015) e As Margens dos Rios de Horas (2017). Os temas são diversos e recorrentes, numa renovação permanente: a natureza, as pessoas, o mar, o mundo, a cidade, o amor, Coimbra, o Algarve, Albufeira, os amigos, as palavras, a saudade, a liberdade, o sonho, a História. E em fundo: “A praia, / Fímbria de seda / Borda-lhe o rosto, / A pulular de voluptuosas ninfas / A fazer inveja / À Ilha dos Amores” (p. 241). E lembro-me de ver o movimento sincronizado dos pescadores, com as suas vozes compassadas (como Raul Brandão descreveu) a arrumar os barcos, com os grandes olhos fenícios a ver-nos. As vozes dos pregões e das lotas tornavam-se ali seguras e comandos de alerta. E o cheiro a maresia misturava-se com o do alcatrão que calafetava o fundo das embarcações. “Que terra é esta / Que o sol nos elegeu / Para deslumbrar / As férias curtas / Que a morte / Dá à vida?” (p. 383). E, ao ler o Diário de Miguel Torga vislumbro anónima, aqui e acolá, a presença discreta do médico-poeta, como em 8 de agosto de 1987: “Algumas horas de aconchego amigo no deserto afetivo em que o Algarve se transformou. Os dias de praia são provisórios e, por isso, fúteis e desatentos, Quem vem, vem para repousar das suas responsabilidades humanas”. Mas acrescentava que as “Almas sensíveis e solidárias (…) nunca estão em férias da vida” (vol. XV).

 

AH TERRA BEM-AMADA
Não esqueço o que Torga escreveu sobre o Algarve: “… Ah terra bem amada! / Bênção da natureza / Caiada / De pureza / E nimbada de saudade. / Algarve. Liberdade…” (Diário, vol. XIV, 27.7.1982). Foi através de Santos Serra que conheci pessoalmente Miguel Torga, e nunca esquecerei esse momento único – num dia em que falámos de Portugal e da História, desde D. Dinis e de D. Pedro das Sete Partidas até ao reencontro com a liberdade, no 25 de abril. E oiço agora o poeta de Arquipélago de Vozes a falar do seu amigo Miguel Torga: “Lembro-me de O ver / Em Santa Eulália praia / A divagar sobre homens feitos / E homens por fazer // Alto, magro de olhos fundos, / A voz tinha o timbre dos profetas / O discurso a profundeza dos mistérios / E a magia encantatória dos poetas” (p. 346). E eu talvez fosse, nesse tempo já distante, um dos jovens aprendizes que bebiam “as palavras poliédricas / De consoantes duras e límpidas vogais”. E lembro-me ainda dos ecos de Fogo Preso (1976), em que Torga dizia que “a desgraça é que na maioria dos casos, a abnegação é uma pura perda”. E invocava os exemplos de Herculano, Antero e Oliveira Martins… Para o autor de Antologia: “a poesia é o mundo ficcionado pela imaginação com raízes nas emoções continuamente destiladas em sonhos acordados”. Assim amou o Algarve, terra onde o mar abraça a terra. “A navegação foi a grande / Invenção do Homem / Para poder andar de pé sobre as ondas do mar” (p. 456). Por isso, o Infante para aqui veio. É certo que o sonhador, o cidadão exemplar que conheci foi endurecido pelas injustiças do mundo – mas continuou sempre a recusar a “arte manhosa / De administrar a cidade / Em proveito de alguns tiranos” (p. 454)… Não esquecerei a sua lição e imagino-me a seu lado, silenciosamente, num dia de Levante: “Ali diante do mar / Respiro fundo o ar quente / Do Suão do oriente / Sopro de contos mistério” (p. 471).

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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