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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 7 a 13 de outubro de 2019

 

«Os Sonetos – Uma Antologia» de Manuel Alegre (D. Quixote, 2019) é uma reunião de poemas que permite uma visão global sobre a obra do poeta.

 

 

A PROCURA DAS RAÍZES
Se há poeta português para quem as raízes culturais são fundamentais, é Manuel Alegre. “Haverá sempre em mim o rio Águeda / Meu ritmo é seu fluir e seu buscar / Quem sabe se outro longe ou se Pasárgada / Haverá sempre um rio para o mar”. As raízes não podem ser esquecidas, e há um amor especial que o poeta nunca esquece, que é o da língua-pátria e da pátria-língua. Sempre um patriotismo prospetivo, como quis António Sérgio, sempre as lições no presente de uma longa história. E Águeda é um símbolo bom, a lembrar a “soberania do povo” e um especial culto ancestral da liberdade (e não esqueço outro amigo dessas paragens, Manuel José Homem de Melo, cuja memória está bem presente). Quando sobre Alfarrobeira e o Infante D. Pedro se lê: “Com D. Pedro outra vez saber ser contra. / Na hora amarga e vil e traiçoeira / ousar ainda a honra e a nobreza / sair em armas e lavar a afronta / com D. Pedro de novo em Alfarrobeira…” – não é um episódio passado que se rememora, é um apelo presente e ético que se proclama. Do mesmo modo, em “amor de fixação”, de “Coisa Amar” (1976), a lembrança de Duarte Pacheco Pereira é a da experiência madre das cousas, que se projeta nos dias de hoje: “naus a voltar no meu gostar de ti; / levai-me ao velho pinho do meu lar / eu vi o longe e nele me perdi”. No fundo, importa tirar lições para o futuro… “Vai-se a vida e cantar é um destino…”  

 

FORMA LÍRICA POR EXCELÊNCIA
Maria Helena da Rocha Pereira escreveu sobre “Sonetos do Obscuro Quê” (1993): “há muito que ele espreitava entre os poemas de Manuel Alegre: a forma lírica por excelência, o soneto”. A afirmação tem de ser lembrada, no momento em que é publicada a Antologia de “Sonetos” (D. Quixote, 2019), que nos permite recordar alguns dos mais belos momentos da criação do poeta. “Desata-se-me o verso no primeiro / no segundo de vento vai vestido / no terceiro de mar e marinheiro / no quarto está perdido está perdido”… A grande professora, que tanta saudade nos deixa, lembrava a sombra de Dante “entre outros nomes tutelares da poesia ocidental” e o “stil nuovo”, que inspirou o nosso Sá de Miranda, fez questão de lembrar a ligação entre amor e reflexão – e uma melodia própria, a exigir “um domínio da forma e dos sons que poucos possuem; e bem assim a concentração num conceito final, que surge como uma conclusão natural, ou então como uma farpa aguda, a apontar noutra direção. Ora, todas estas capacidades estavam presentes há muito na arte deste poeta”. Nada melhor do que estas palavras para elogiar o poeta, na sua originalidade, do domínio da palavra, no ritmo e no estilo, mas sobretudo na expressão originalíssima, que caracteriza um poeta de exceção. O grande poeta é quem é capaz de ligar o rigor à originalidade, tornando-se inconfundível. “De novo a via clara a via obscura / ligar a doce rima e a rima dura / da Provença e Toscana a luz e a rosa”.

 

LEMBRAR A POESIA
O poeta Manuel Alegre vai ser a figura homenageada este ano no festival literário “Escritaria”, que vai decorrer de 21 a 27 de outubro, em Penafiel, como sabemos, o festival “é o único que se dedica a homenagear um escritor vivo de língua portuguesa”, com a cidade a transformar-se, “por uns dias, na sua própria cidade”. É uma justa homenagem a um dos autores mais importantes das culturas de língua portuguesa. De facto, Manuel Alegre tem, ao longo de uma obra, muito vasta e rica, seguido, com grande coerência a linhagem muito antiga da nossa língua, que tem as suas bases na poesia trovadoresca. Desde “Praça da Canção” (1965) e “O Canto e as Armas” (1967) que encontramos na escrita de Manuel Alegre ressonâncias de aventura e de liberdade, que o ligam de modo indelével a uma antiga poesia de resistência, que nos conduz aos maiores nomes das letras portuguesas, que usaram essencialmente a matéria-prima da liberdade. Por isso citou Afonso Lopes Vieira quando recebeu o Prémio Camões (2017): “Diria que não seriam dignos do épico os poetas portugueses que não passassem pelas prisões. Eu sinto-me herdeiro dessa tradição. Acredito na força mágica e libertadora da palavra poética”. E em “Resistência”, lembra: “Desinfeção: metáfora da Europa. / Resistir sem piedade e sem tardança. / ‘Terrífico é o momento que nos toca’. / Com René Char as sílabas de França”… Lembramos ainda o que omautor disse quando recebeu o Prémio D. Dinis, na Casa de Mateus (2008) – exprimindo o grande contentamento por receber uma distinção com o nome do nosso Rei-poeta: «As naus são sempre as doze naus da imaginação (o prémio referia-se ao livro “Doze Naus”). As de Ulisses. Mas também a da poesia portuguesa. Recordo Miguel Torga: "Todos os caminhos transversais de Portugal vão ter ao mar. Verificá-lo é avivar na consciência a nossa razão de ser. Nascemos para embarcar. Ou de imediato ou na lembrança ou na imaginação." E já o poeta Afonso Duarte (1884-1958) tinha dito: "Há só mar no meu país". É verdade que somos hoje um "país pequeno e pobre", com "muito passado e muita história e cada vez menos memória, país que por vezes já não sabe quem é quem, país de muito mar e pouca viagem". Mas somos também o país em que em português o vento vem do mar. País do Mar Absoluto. País em que, por vezes, "há um navio fantasma sem ninguém ao leme". País em que sobre o mar visível haverá sempre o invisível, o mar de dentro. E é nesse que todos nós continuaremos sempre a navegar». É significativa esta passagem, uma vez que estamos no cerne da identidade cultural, que Manuel Alegre tem cultivado, com abertura e independência. “Gramática de sal e maresia / na minha língua há um marulhar contínuo // Há nela o som do sul o tom da viagem. / O azul. O fogo-de-santelmo e a tromba / de água. E também sol. E também sombra”… Contra a ideia de identidade fechada e egoísta, contra um conceito burocrático de patriotismo ou de comunidade, o autor com agudo sentido crítico, rebela-se contra sermos um país com “cada vez menos memória”. Apenas se cultiva e aprofunda a memória, cuidando do sentido crítico, da independência, do apego à liberdade. E é isso que tem caracterizado a voz inquieta e sempre atenta de Manuel Alegre – seguindo os passos de Camões, Bernardim, Sá de Miranda, Bocage, Garrett e Herculano, Antero de Quental, Cesário, Camilo Pessanha, Pascoaes, Pessoa e Torga de Sophia. Como esquecer: “E o seu poema é quase como casa / e a casa é o outro espaço onde Sophia / reparte à sua mesa o pão e os versos”? O conjunto dos sonetos dá voz ao poeta que não esquece que a cultura e a língua portuguesas resultam de uma rica encruzilhada de influências, que se enriquecem no diálogo e na recetividade de novos elementos e fatores. Daí a necessidade de atenção crítica e de capacidade para responder aos desafios do inesperado e do incerto: “Eu sou o renitente o inconformado / Por isso me deitaram mau-olhado / e por isso persisto e canto e falo” – assim diz o décimo soneto do português errante; depois de ter afirmado: “Eu sou o solitário o estrangeirado / o que tem uma pátria que já foi / e a que não é. Eu sou o exilado / de um país que não há e que me dói”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

SE SEI VIVER SÓ

 

Se sei viver só?

Quem sabe?

Nessa imagem revelada pelas montras

Passeia-se a rua interior

De mão dada com cada um

Ou não fossemos a primeira e última

Trincheira

Unida a outra e a mais outra

Corredores sem fim e labirínticos

Por entre as mensagens como flechas

Chegadas ao nosso, meu coração rebentado.

Se sei viver só?

Quem sabe?

Cada um compõe a alegria obrigando-se a voltar

Eu a ti e às tuas pálpebras regresso

Para que me ampares o terror experimentado

Na aberta realidade aquela que arboriza a solidão

Sem água

Rosa dos muros, cama das poeiras, orçamento que vela

O nada escrito no pleno dos vazios

Quando se renova a procura de nós

E a rota que turista se passeou à nossa janela

Quando o amor e só ele era o acreditar.

E de novo

Se sei viver só?

Quem sabe?

O parapeito é sempre cais

De onde os sonhos quantas vezes partem confundidos

Por histórias banais que nos ficam na memória

Entrada nela por navios e a ti neles regresso

E afinal a inocência é muita

E por ela a morte passa

Na preocupação de fechar segredos.

E eu quero tanto aquele morango, aquela cereja

Porque a minha obra, se o for tem um fundo vermelho

De sangue e flor futura e cega

E foi minha a andorinha e os xailes esgaçados de tão rotos.

Se sei viver só?

Quem sabe?

A semente é feita de carne humana

Poeta, não grites, não!

Poeta, não deixes fugir as pombas

Ou escuta os astros

E por lá deixa teus olhos

Definitivamente muito definitivamente.

E de todos

Ai anjo que de nós foge

E que me procura há quanto?

Pasmo, quebro-me e vou-me dando

Só paro em deltas

Abraçada ao teu olhar

Porque assim os oceanos

Embrulham-me num musgo, naquele mesmo que foi

Manta de alma enquanto vivi

Enquanto espreito

 

Se sei viver só? 

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

De 22 a 28 de julho de 2019

 

Quando a Antologia Poética (Oro, 2018) de Manuel dos Santos Serra (1926-2018) me chegou às mãos já ele não pôde apor a sua assinatura no livro, nem a mim foi possível cumprir o desígnio há muito prometido de apresentar consigo esta obra.

 

 

CIDADÃO IRREPREENSÍVEL
Devo dizer que é com um gosto muito especial que escrevo não apenas sobre o livro, mas também sobre a amizade que me ligava ao seu autor. Li, por isso, pausadamente e com emoção esta escolha de poemas, ao longo de quase quinhentas páginas. E em cada linha recordei quem conheci sempre, como amigo de meus pais, como médico de família, mas, muito mais do que isso, como um cidadão exemplar, um democrata a toda a prova. O poeta conheci-o mais tarde, mas em boa hora. Tudo na vida nos foi aproximando em múltiplos domínios, o da confiança e da cumplicidade humana, que não pode deixar de existir quando se trata de um médico próximo e atento, mas também o da cidadania e da paixão política, da cultura e da arte e do amor da natureza e da justiça. De facto, falámos de tudo ao longo da vida, apesar de ser uma pessoa de palavras essenciais. Nas consultas com meus avós, que o adoravam, havia a atenção máxima, o cuidado extremo, mas não fazia comentários e no fim havia sobretudo conselhos e amizade… A descrição de Albufeira é familiar: “Branca / Tão alva como as mulheres / Nórdicas do frio // Quente / Do sol de latitudes fugidias / Que te deram nome / Com palavras de barro / Refundido em ferro / E cobre reluzente, / Tão antigas como o esquecimento // Esta terra que nós temos / Que nos tem, / Impenitentes argonautas neste cais de pedra / Por magia do elixir do sol e mar salgado / Eterna fonte do instante novo / Que te vai renovando o rosto / A rolar a vida, / Sempre a mesma vida ondulada e nova (…) / Branca / Quente / Terra que nós temos / Que nos tem, / És de todo o mundo / És de ninguém!” (pp. 154-155). Albufeira é isso mesmo, um lugar de muitas magias, onde o Doutor Serra fez a sua vida, a sua profissão e o seu incansável magistério cívico. E ao invocar no final do poema o “Auto da Lusitânia” de mestre Gil é o gosto da gente comum que aí exprime. Texto após texto, deparamos com uma atitude sempre inconformista, mas sempre compreensiva sobre o diálogo entre as raízes e as mudanças. E como sinal desse respeito sagrado pelas origens, temos o belo poema que serve de pórtico a este livro: “Meus pais e meus avós / Para minha liberdade / Abriram fenda na muralha / Que os detinha prisioneiros! / Percorri longos caminhos / Guiado pelas sombras, / Pitonisas, / Adivinhos. / Na prisão sonho que os retinha / Contemplavam, ao longe, / O esforço penitente / A que eles me condenaram / Por amor! // Deslumbrados, / Ao verem-me descer / E a subir / Foram morrendo, em paz, / Atrás das grades / A sorrir!” (p. 7). De facto, é também uma autêntica saga que aqui se encontra, de quem saiu muito cedo de Penela (Coimbra) (“Acrópole antiga / Com aroma grego”) e veio para o Algarve, num caminho de liberdade delineado pelos seus maiores. E não esqueço sempre essa fidelidade à persistente capacidade de fazer da experiência vida. Quando o meu irmão Francisco iniciou as suas lides médicas, nos tempos heroicos das periferias, foi com o Doutor Serra que deu passos decisivos, conhecendo o modo de arar a terra, que o mesmo é dizer, na profissão clínica, lidar com as pessoas concretas e a sua vida irrepetível. E foi esse o seu ensinamento maior – não há doenças, mas doentes, não há horas, há pessoas que se conhecem olhos nos olhos.

 

UMA OBRA RICA E PLURAL
A Antologia percorre a obra do poeta: Romance Residual (1991), A Desordem na Harmonia (1992), Mosaico de Palavras Oblíquas (1996), Sobreposições (2001), A Sombra do Silêncio (2005), Olhar das Palavras (2007), Labirinto de Memórias (2009), Pomar de Pedras (2011), Miradouro do Tempo (2013), Arquipélago de Vozes (2015) e As Margens dos Rios de Horas (2017). Os temas são diversos e recorrentes, numa renovação permanente: a natureza, as pessoas, o mar, o mundo, a cidade, o amor, Coimbra, o Algarve, Albufeira, os amigos, as palavras, a saudade, a liberdade, o sonho, a História. E em fundo: “A praia, / Fímbria de seda / Borda-lhe o rosto, / A pulular de voluptuosas ninfas / A fazer inveja / À Ilha dos Amores” (p. 241). E lembro-me de ver o movimento sincronizado dos pescadores, com as suas vozes compassadas (como Raul Brandão descreveu) a arrumar os barcos, com os grandes olhos fenícios a ver-nos. As vozes dos pregões e das lotas tornavam-se ali seguras e comandos de alerta. E o cheiro a maresia misturava-se com o do alcatrão que calafetava o fundo das embarcações. “Que terra é esta / Que o sol nos elegeu / Para deslumbrar / As férias curtas / Que a morte / Dá à vida?” (p. 383). E, ao ler o Diário de Miguel Torga vislumbro anónima, aqui e acolá, a presença discreta do médico-poeta, como em 8 de agosto de 1987: “Algumas horas de aconchego amigo no deserto afetivo em que o Algarve se transformou. Os dias de praia são provisórios e, por isso, fúteis e desatentos, Quem vem, vem para repousar das suas responsabilidades humanas”. Mas acrescentava que as “Almas sensíveis e solidárias (…) nunca estão em férias da vida” (vol. XV).

 

AH TERRA BEM-AMADA
Não esqueço o que Torga escreveu sobre o Algarve: “… Ah terra bem amada! / Bênção da natureza / Caiada / De pureza / E nimbada de saudade. / Algarve. Liberdade…” (Diário, vol. XIV, 27.7.1982). Foi através de Santos Serra que conheci pessoalmente Miguel Torga, e nunca esquecerei esse momento único – num dia em que falámos de Portugal e da História, desde D. Dinis e de D. Pedro das Sete Partidas até ao reencontro com a liberdade, no 25 de abril. E oiço agora o poeta de Arquipélago de Vozes a falar do seu amigo Miguel Torga: “Lembro-me de O ver / Em Santa Eulália praia / A divagar sobre homens feitos / E homens por fazer // Alto, magro de olhos fundos, / A voz tinha o timbre dos profetas / O discurso a profundeza dos mistérios / E a magia encantatória dos poetas” (p. 346). E eu talvez fosse, nesse tempo já distante, um dos jovens aprendizes que bebiam “as palavras poliédricas / De consoantes duras e límpidas vogais”. E lembro-me ainda dos ecos de Fogo Preso (1976), em que Torga dizia que “a desgraça é que na maioria dos casos, a abnegação é uma pura perda”. E invocava os exemplos de Herculano, Antero e Oliveira Martins… Para o autor de Antologia: “a poesia é o mundo ficcionado pela imaginação com raízes nas emoções continuamente destiladas em sonhos acordados”. Assim amou o Algarve, terra onde o mar abraça a terra. “A navegação foi a grande / Invenção do Homem / Para poder andar de pé sobre as ondas do mar” (p. 456). Por isso, o Infante para aqui veio. É certo que o sonhador, o cidadão exemplar que conheci foi endurecido pelas injustiças do mundo – mas continuou sempre a recusar a “arte manhosa / De administrar a cidade / Em proveito de alguns tiranos” (p. 454)… Não esquecerei a sua lição e imagino-me a seu lado, silenciosamente, num dia de Levante: “Ali diante do mar / Respiro fundo o ar quente / Do Suão do oriente / Sopro de contos mistério” (p. 471).

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

30. PATERSON: ENTRE O TRIVIAL E A AUTOSSATISFAÇÃO POÉTICA

 

Paterson é motorista de autocarros e poeta.
Tem um trabalho que não dói, vida e afetos estáveis, uma domesticidade trivial.
A poesia é fundamental para Paterson, o autor, mas Paterson, a cidade, não é poética. Ele e a cidade de Paterson, New Jersey, nos Estados Unidos, partilham o mesmo nome.
Em casa tem livros de William Carlos Williams, entre os quais “Paterson”.

Ele e Laura amam-se e têm um buldogue inglês pacholas, ciumento e intruso.
A urbe que habitam é vulgar, trivial, apática, pouco cuidada.
Aparentemente não infunde poesia.
Mas a poesia está na rua e a rua na poesia. 
A poesia está em casa e em casa a poesia.
Em coisas triviais, como a rotina diária do chofer que a observa e vê passar pelo espelho retrovisor. Os versos dos poemas, sem rima e em prosa, são banais e modestamente poéticos, falando de caixas de fósforos, copos de cerveja, conversas de passadouro.

 

Em Poema de Amor, lê-se:

 

“Temos imensos fósforos em nossa casa. 
Mantemo-los sempre à mão.
   

Atualmente a nossa marca favorita é a Ohio Blue Tip (…)
Eles são excelentemente embalados, (…) com o texto em forma de megafone, (…) como que para dizer ainda mais alto ao mundo, “Eis o mais belo fósforo do mundo, (…) tão sóbrio e furioso e teimosamente pronto a explodir numa chama, acendendo, talvez, o cigarro da mulher que amas, pela primeira vez (…)”
.                                                      

 

Poema em que Laura figura como musa:      

 

“É isso que tu me deste, eu transformo-me no cigarro e tu no fósforo, ou eu no fósforo e tu no cigarro, resplandecendo em beijos que ardem em lume brando rumo ao paraíso”.  

 

Os poemas são minimais, frugais, despretensiosos, humildes e não eruditos, como a vida citadina, pessoal, social e espartana que vive e rodeia Paterson:

 

“Quando somos crianças aprendemos que existem três dimensões: altura, largura e profundidade.   Como uma caixa de sapatos. 


E mais tarde compreendemos que existe uma quarta dimensão: tempo.  Umm.
E há quem diga que podem ser cinco, seis, sete,…
Termino o trabalho, tomo uma cerveja no bar.
Olho para o copo e sinto-me contente”
.

Poemas de coisas concretas, materializando a matéria de que é feita a poesia:
“A água cai do céu singelo.      
Cai como cabelo, a cair dos ombros duma rapariga (…)”.    
“Estou em casa.     
Está agradável lá fora: quente.   
Sol na neve fria. 
Primeiro dia de primavera ou último de inverno”
.    
Poemas de pessoas em concreto, materializando o conteúdo de que é feita a poesia:
“Minha pequena abóbora,
às vezes gosto de pensar em outras raparigas,   
mas a verdade é     
se alguma vez me deixares 
arranco o meu coração
e nunca mais volto a pô-lo no lugar.   
Nunca existirá ninguém como tu. 
Que embaraçoso”
.      


Por que não publicar os poemas? Têm de ser publicados! Sugere e sentencia Laura.

Paterson diz que sim, num permanente adiar, não os divulgando, não querendo que os leiam, até ao dia em que Marvin, o buldogue, os mastiga e tritura: “O cão comeu-me o tpc, o trabalho de casa”. O que aceitou como um facto consumado, qual gesto de autossatisfação. Sem paixão? E perda de orgulho em si próprio, porque eram apenas palavras escritas na água? O protagonista nunca se assumiu como poeta, apenas como motorista.     


Paterson, filme do realizador japonês Jim Jarmusch, é um poema em prosa de aceitação da vida, onde pessoas boas, comuns, resignadas, cansadas, ensimesmadas, gabarolas, macambúzias e perdidas se confundem com a diversidade comum em uniformidade.


Onde a poesia é a sua imagem de marca por excelência, retratando e visando ultrapassar o trivial rumo a um equilíbrio de autossatisfação e de desejável felicidade, numa fusão de simplicidade e profundidade.   
E o nome de Laura, a amada de Paterson, é igual ao da amada de Petrarca…                                      

 

28.05.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

ÁNGEL CRESPO: UMA VERDADEIRA FESTA DA LEITURA

 

Volto de quando em quando a Ángel Crespo. Volto à sua doçura recorrendo à memória do seu passo pelas ruas de Lisboa. O meu regresso à poesia de Ángel supõe sempre o introduzir-me num espaço de aprendizagem de contínuos assombros e desde sempre os seus livros foram a tal festa da leitura para mim.

 

Foi num estado de maravilha em que fiquei quando adquiri este seu livro em Barcelona. Nesta antologia sobressai a contemporaneidade criativa que só ele soube construir, mantendo o pulso no realismo espanhol e devotando-se ao entendimento do consenso sobre a realidade. O seu livro La realidad entera que dá titulo a esta antologia, surpreende num itinerário que envolve a própria filosofia medieva, raridade de um intelectual numa sua criação muito peculiar na cultura espanhola, na segunda metade do seculo passado. Ángel, pensador e poeta de uma claríssima consciência atravessa transversalmente o espaço do conhecimento que, na bela expressão de José Lezama a traduz como sendo a grande amiga de todas as coisas. Julgamos que a palavra poética de Crespo é uma experiência vital para que a poesia resulte entre linguagem e mundo, desafiando a aventura crespiana um espaço do sagrado como forma de conhecimento e de presença de um enigma que possa fazer parte de uma carta, de um animal, de um símbolo, de um amigo e sempre veículo sem estridências que um passeio matinal não cure. Mas a sua obra em geral mesmo em registo que não de poesia, constitui o descobrir de uma escultura, de uma pintura, de uma viagem, do frio e do Nada. Tudo são passos necessários à concepção integral da poesia de Crespo. E, no mesmo processo se encadeia, as suas conferências, o seu professorado, os seus ensaios, as suas traduções. Ángel afirmou

 

Por supuesto, mi própria poesia fue da estimuladora y, en cierta manera, la iluminadora del resto de mi escritura(…) la poesía se ha convertido en objeto casi exclusivo de mis inquietudes intelectuales, tal vez por haber sido, tanto en las circunstancias propricias como en las adversas, mi más decisiva señal de identidad y, desde luego, la celadora constante de mi libertad.

 

Lembremo-nos que estas coordenadas são o centro, o ponto de convergência que converte, dito nas palavras de Borges, ao destino da ética secreta do homem.

 

Crespo mostra-se também muito interessado pelos poetas de cultura portuguesa no momento em que começa a traduzir Virgílio.

 

Afirma então

He procurado, pues, passar de lo intuitivo (o, si se quiere, no racional, pero tampoco irracional) de la consciencia colectiva a lo enigmático de la consciência superior.

 

A verdade é que nos resulta difícil fazer um relato dos caminhos de Crespo que exponham em profundidade a sua curiosidade intelectual insaciável. E chega à leitura de Dante em italiano, chega aos parnasianos - escola literária francesa dos poetas que cultivavam a arte pela arte e que defendiam a perfeição formal face a sentimentalismos excessivos do romantismo. Segundo a mitologia grega Parnaso é um monte onde habitaram as musas.Le Parnasse contemporain, recorde-se era o nome de uma revista francesa de poesia-, e simbolistas franceses em francês, a Baudelaire, à poesia hispano americana com Neruda, Rubén Darío entre outros e é um dos primeiros a reconhecer a alta qualidade de Juan Ramón Jiménez.

 

Mais tarde obtém na Suécia em 1973 o título de doutor em Filosofia e nesse mesmo ano traduz o inferno de Dante e a Antologia da poesia brasileira. O desejo de Crespo do conhecimento do homem através da obra do homem fá-lo viver o sentido do diálogo com o conhecimento sagrado da palavra poética num processo que se iniciou no início dos anos oitenta e em 1987 surge Lisboa y Las cenizas de la flor.

 

Por muito que falemos do percurso de Crespo, tudo é incompleto. Cremos plenamente que dentro do panorama espanhol ele é uma verdadeira exceção. É um poeta comprometido com uma conceção da poesia como conhecimento integrado na modernidade e colocando o sagrado numa situação de diálogo com os poetas que cruzam esse caminho, de Fernando Pessoa a Blake, a Mallarmé, entre outros.

 

Por profunda admiração, por não esquecermos o encontro com Crespo no Largo do Camões em Lisboa, por termos entendido nele uma ternura indizível, pelo orgulho por este grande poeta e em homenagem à sua linha de significação, o poema

 

«El INVISIBLE»

 

Yo sé que alguien me habla,

me habla con insistencia,

tercamente me dice cosas que debo saber,

pero ese alguien no usa mis palabras,

pero yo no conozco su lenguaje,

y los dos, frete a frente,

sin vernos, angustiados,

no podemos unir nuestros discursos.

 

A veces casi escucho su mensaje,

presiento cómo lucha junto a mí,

cómo trata de hablarme, de decirme,

cómo viene a mi libro, a mis papeles,

cómo se sienta al lado, invisible, en la silla

cómo hace a mi madre que diga cosas raras

que mi madre no querría decir,

para que yo le entienda.

 

También, cuando passeo,

a la cara me arroja hojas secas, y a veces

me hace tropezar en una brizna.

 

Pero yo no le entiendo,

yo no sé qué me quiere decir,

yo soy un tope incomprensivo, y sólo

sé abrir los ojos y exclamar con miedo:

Quién eres? Qué me quieres decir?

 

Pero se va

si nota mi impaciencia.

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

De 25 de fevereiro a 3 de março de 2019

 

 

«Antologia» de Fernando Echevarría (Afrontamento, 2010) permite-nos tomar contacto com a obra de um dos grandes poetas portugueses contemporâneos – num momento em que é muito justamente homenageado na passagem do seu 90º aniversário (26.2.1929).

 

INTERROGAR O QUOTIDIANO
“O Vinho e o centeio abrem a mesa / àquele peso de fulgor sagrado / que nos reúne. Quase sacramenta / como a luz do concerto no trabalho / que aqui trazemos. E depomos tensa / para que nutra, com tua graça, o hábito de nos sentarmos a receber da terra / o que demos à terra. E partilhamos. / Que deste pão o nosso olhar se acenda. / E o vinho atine a só nos alegrarmos / para o esforço difícil da tarefa / dar fruto de justiça a todos quantos / tão apartados e famintos dela, / faltam ao peso e ao fulgor dos anos” (Geórgicas, 1998). Fernando Echevarría é um poeta em quem o talento e a capacidade de sedução se aliam naturalmente. E no poema com que iniciamos este texto, sentimos intensamente a ligação natural entre o quotidiano e o sagrado. E essa naturalidade encontramos ao longo de uma obra intensamente sentida, em que a natureza está à nossa beira perante a fantástica capacidade de renovar a vida a cada instante. E recebemos o eco nítido: “Talvez o sonho seja fundamento / de assim ligeiras serem as cidades. / Andarmos ruas ao nosso pensamento / as leva a abrir maior assiduidade / aos passos que pousamos no momento / de a transparência negar a antiguidade. / Por isso nelas somente passa o vento / se a sonhá-lo passarmos na cidade…” (Introdução à Filosofia, 1981). Misteriosamente, dir-se-ia que a realidade e o sonho se entrecruzam, já que a poesia é vista como a chave para todas as perguntas. O poeta é português com raízes em Espanha. Autor de obra traduzida nas principais línguas europeias, como francês, castelhano, inglês ou romeno, nasceu em Cabezón de la Sal (Santander, Espanha) em 26 de fevereiro de 1929, filho de pai português — que se exilara no país vizinho na sequência do fracasso da Monarquia do Norte — e de mãe espanhola, veio com dois anos morar para Grijó, Vila Nova de Gaia. Em 1940, entrou no Colégio Cristo Rei (Redentoristas), que frequentou até 1946, seguindo de novo para Espanha onde concluiu os estudos de Filosofia e Teologia, no seminário de Astorga, após ter feito o noviciado em Nava del Rey (Valladolid). Em 1956, ano em que publicou “Entre Dois Anjos”, terminou o serviço militar em Coimbra, regressando ao Porto para dar aulas ao ensino secundário, no Colégio de Gaia. Em 1961, emigrou para Paris, onde participou nos círculos oposicionistas portugueses. Aderiu ao Movimento de Ação Revolucionária (MAR), próximo do “grupo de Argel” e de Humberto Delgado. E através de Delgado, adere à Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), e vai para Argélia em 1963, é um dos fundadores da LUAR  (Liga de Unidade e Ação Revolucionária) com Emídio Guerreiro e Hermínio da Palma Inácio. José Augusto Seabra, com quem estará mais tarde na “Nova Renascença”, é um dos seus próximos contactos intelectuais e políticos. Três anos depois, volta para Paris, onde permanece exilado até 1974. Depois de 25 de Abril, recusou lugares políticos e continua a trabalhar até aos anos oitenta como professor de Francês no Centro de Orientação Social para Refugiados. Depois regressa a Portugal e fixa-se no Porto.

 

UMA OBRA POLIFACETADA
Escreve em português, e só ocasionalmente nas línguas castelhana e francesa, e colaborou em diversas revistas como “Graal”, “Colóquio/Letras”, “Limiar” e “Nova Renascença”. Com extensa obra poética, após Entre Dois Anjos, seguem-se em edições de autor e pequenas editoras, as obras Tréguas para o Amor (1958), Sobre as Horas (1963), Ritmo Real (1971), um livro de arte, com gravuras de Flor Campino, A Base e o Timbre (1974), Media Vita (1979), Introdução à Filosofia (1981) e Fenomenologia (1984). Após o regresso a Portugal, inicia uma relação editorial com as Edições Afrontamento, onde publica Figuras (1987), Poesia (1956–1979) (1989) — reedição dos livros compreendidos entre aquelas duas datas  —, Sobre os Mortos (1991), Poesia 1980-1984 (1994), Uso de Penumbra (1995), Geórgicas (1998), Poesia 1987-1991 (2000), Introdução à Poesia (2001), Epifanias (2006), Obra Inacabada (2006), Lugar de Estudo (2009), Antologia (2010), In Terra Viventium (2011), Categorias e Outras Paisagens (2013) e Obra Inacabada (2 volumes, 2016). E ouvimo-o: “às vezes a velhice reconhece / o júbilo crescente de irmos indo. / Os passos, graves, contam. Mas só esse / esplendor vagaroso de caminho / que eleva o corpo a condição celeste / onde estremece o espírito” (Lugar de Estudo, 2009). Fernando Echevarría recebeu inúmeros prémios, avultando: em 1982, Prémio de Poesia do Pen Club por Introdução à Filosofia; em 1987, o Prémio Inasset por Figuras; em 1991, o Grande Prémio de Poesia da APE por Sobre os Mortos; em 1998, o Prémio Luís Miguel Nava por Geórgicas; também pela mesma obra, o Prémio António Ramos Rosa, na sua primeira edição, em 1999, da Câmara Municipal de Faro; e ainda por Geórgicas, de novo o Prémio de Poesia do Pen Club em 1999; em 2002 o Prémio Teixeira de Pascoais; em 2005, pelo conjunto da sua obra, foi distinguido como o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, instituído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura; em 2007, o Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen por Obra Inacabada; ainda em 2007, o Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus, por Epifanias; em 2010, de novo o Grande Prémio de Poesia da APE por Lugar de Estudo; e em 2015, recebe o Prémio Casino da Póvoa, nas Correntes d’Escritas, por Categorias e Outras Paisagens.

 

UM POETA QUE PROCURA…
Que busca, afinal, o poeta? “As cidades longínquas são felizes. / Cantam ao sol implícito do mármore. / E, diáfanas, vogam. Sem raízes, / mas ao ritmo das fontes pelas árvores. / Ou, lavada brancura, ruboriza / ao poente dos bosques consagrados / a deuses forasteiros, em que a brisa / acorda, antiga, as harpas e os fados. / Harpas e fados que o fundo da cidade / de si exuma, quando se ilumina / a inteligência que, por ela, se há de / iluminar, leitura repentina. / Que o que é feliz é o longe da cidade / errar tão branco ao fundo da retina” (Introdução à Filosofia, 1981). E que é afinal a poesia? Invocando Maria de Lourdes Belchior, em “Magnificat”, o poeta faz a definição irrepreensível: “Mas sabemos que quanto nos fez falta / deixou ao espaço um esplendor feliz, / dilatado a fronteiras de país / onde a dor nem se dói. Porque só é alta…” (Uso de Penumbra, 1995).

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 11 a 17 de fevereiro de 2019.

 

 

«Antologia Poética» de Natália Correia (D. Quixote, 2013) é um conjunto indispensável para compreendermos a escritora. A rica imaginação metafórica de Natália Correia (1923-1993) coloca-a num lugar especial na literatura portuguesa do século XX.

 

UMA VOZ REBELDE
Foi uma voz rebelde que construiu o seu percurso literário e cívico juntando o talento poético e a energia, orientados pelos valores da verdade e da justiça. A sua voz é singular e presente. Nunca se fechou numa torre de marfim. Trilhou sempre os caminhos da liberdade. A «Mátria» era, para si, a demonstração da força da mulher e do feminino, como marca de sensibilidade e de determinação. E sobre a missão da mulher era claríssima: «Acho que a missão da mulher é assombrar, espantar. Se a mulher não espanta... De resto, não é só a mulher, todos os seres humanos têm que deslumbrar os seus semelhantes para serem um acontecimento. Temos que ser um acontecimento uns para os outros. Então a pessoa tem que fazer o possível para deslumbrar o seu semelhante, para que a vida seja um motivo de deslumbramento. Se chama a isso sedução, cumpri aquilo que me era forçoso fazer. O meu primeiro contacto com as pessoas é de uma grande afabilidade. Quando as pessoas recusam essa afabilidade, então eu dou-lhes o que elas me pedem: irascibilidade. Volto-lhes as costas irascivelmente, mais nada. Se é isso mau génio, talvez seja» (Entrevista de 1983).

 

UMA MARCA DE ESPÍRITO E DE VONTADE
Conheci Natália, já não no período da sua aura mítica de sedução, mas no tempo da sua força, do seu entusiasmo, da fantástica capacidade de afrontar tudo e todos, em nome dos valores em que acreditava. Convidei-a muitas vezes para debates e reflexões e nunca se negava, desde que o combate valesse a pena. A cultura para a poeta e para a escritora significava, a um tempo, ter capacidade criadora, e poder comunicar a força íntima. Era uma açoriana de gema, que fazia das suas ilhas encantadas um sinal indómito de autonomia e força anímica. Acreditava, por isso, nas identidades abertas – e proclamava a açorianidade como uma marca indelével de espírito e de vontade. O culto do Espírito Santo sobre que a ouvi falar, em cumplicidade estreita com Agostinho da Silva ou Lima de Freitas, era um modo de afirmar a sua heterodoxia, salientando como essa forma de pensar era um modo de afirmar a vontade de ligar o primado das pessoas ao sonho de uma utopia onde não houvesse amos e súbditos, onde houvesse a partilha plena da riqueza e onde uma mulher pudesse ser coroada com a coroa do Espírito. Nesta linha, demarcava-se com clareza de qualquer fechamento provinciano ou de um qualquer protecionismo cultural. Dava-se muito mal com o egoísmo e com a hipocrisia. Tantas vezes usou a sua coragem para desafiar os poderes mais instalados e subservientes. No caso do amor de Snu Abecasis e Francisco Sá Carneiro, não dissimulou, desde o primeiro momento, a sua consideração positiva. O mesmo se diga de tantas outras atitudes poéticas, intelectuais, políticas e cívicas, mesmo contra as correntes dominantes. Nunca regateou esforços por uma boa causa em que acreditasse. E o seu tempo e a sua atitude foram percursores em muitos combates – entre os quais o direito inalienável à diferença.

 

VERVE E INTENSIDADE ÚNICAS
Dizia os poemas de Antero com uma verve e uma intensidade, como ninguém mais fazia. Compreendia Vitorino Nemésio, nas suas diversas facetas, ponto de encontro de desassossego e de inconformismo, como ninguém mais. Dialogava com Agostinho da Silva, de igual para igual, com o mesmo idealismo, mas sem esquecer a racionalidade. Recordava com saudade os tempos em que pôde usufruir da maiêutica de António Sérgio, em inesquecíveis tardes de sábado, com um chá gordo de ideias e de pensamento crítico. Eram épicos os serões no “Botequim”, onde tudo se debatia e de tudo se falava. David Mourão-Ferreira disse que ela foi a irmã que nunca teve. José-Augusto França considerou-a a “mais bonita mulher de Lisboa”. Mário Cesariny também se deslumbrava que a sua beleza que superava as melhores obras de Miguel Ângelo. Para Fernando Dacosta: “As causas, as pessoas do coração e do sonho, e da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação”. A sua indignação era inexorável e não podia deixar alguém indiferente…

 

O PODER DA METÁFORA
Um dia Natália, perante a acusação num tribunal plenário, propôs-se uma defesa intransigente e poética. O seu advogado pediu-lhe que não usasse o poema, uma vez que o mesmo lhe traria, por certo, dissabores, sendo, no mínimo, considerado ofensivo para o plenário. Hoje, lemo-lo como um verdadeiro manifesto pela liberdade. Sabemos que não foi dito, mas Natália tinha vontade e ânimo para o fazer. Ele representa, sobretudo nos dias de hoje, um alerta severo, contra as tentações que subalternizam a liberdade e que fazem regressar as formas mais subtis de condicionamento e de desenfreado populismo, que tendem a pôr a democracia entre parêntesis. A releitura do poema, publicado em “As Maçãs de Orestes” de 1970, fala por si e merece uma releitura permanente e atenta: «Senhores jurados sou um poeta / um multipétalo uivo um defeito / e ando com uma camisa de vento / ao contrário do esqueleto. / Sou um vestíbulo do impossível um lápis / de armazenado espanto e por fim / com a paciência dos versos / espero viver dentro de mim. / Sou em código o azul de todos / (curtido couro de cicatrizes) / uma avaria cantante / na maquineta dos felizes. / Senhores banqueiros sois a cidade / o vosso enfarte serei / não há cidade sem o parque / do sono que vos roubei. / Senhores professores que pusestes / a prémio minha rara edição / de raptar-me em crianças que salvo / do incêndio da vossa lição. / Senhores tiranos que do baralho / de em pó volverdes sois os reis / sou um poeta jogo-me aos dados / ganho as paisagens que não vereis. / Senhores heróis até aos dentes / puro exercício de ninguém / minha cobardia é esperar-vos / umas estrofes mais além. / Senhores três quatro cinco e sete / que medo vos pôs por ordem? /que pavor fechou o leque / da vossa diferença enquanto homem? / Senhores juízes que não molhais /a pena na tinta da natureza / não apedrejeis meu pássaro / sem que ele cante minha defesa. / Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever / ó subalimentados do sonho! /a poesia é para comer». Quando hoje voltamos ao poema, entendemos a dimensão singular de Natália Correia. E assim, podemos compreender não só a coragem de defender a liberdade criadora (que a levaria à condenação, com pena suspensa no caso da “Antologia de Poesia Erótica e Satírica”), mas também a determinação em não deixar por mãos alheias as causas cívicas em que genuinamente acreditava.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na minha já idosa discoteca, constituída passo a passo, escuta a escuta, ao longo de muitas décadas, ainda se arrumam discos em vinil (78, 45 e 33 rotações) e inúmeros cd. Quando, com alguma nostálgica paciência, a percorro como catálogo dos meus gostos e preferências musicais, e caleidoscópio de tantas e tão diversas emoções, consigo sempre desenhar mais um traço, feição ou expressão, de um retrato meu que a vida, com as suas fidelidades, mutações e caprichos, foi animando. Assim me surpreendo a olhar para facetas menos lembradas da minha complexidade, tal como me repouso no encontro com o que talvez seja o meu pensarsentir estrutural, aquele corpo-e-alma que, de múltiplas maneiras, mais revelado ou mais escondido, se terá vestido para um novo encontro. Aparências ou manifestações que a circunstância de mim foi e vai desvendando e o meu pudor agasalhando em mistérios musicais que são a forma universal de segredar e entender o indizível. Por isso também guardo diversas interpretações das mesmas obras que, como te dizia em carta passada, são sempre, no tempo e no modo de cada momento, aquilo que foi composto e o que se escuta. Diz Jankélévitch que a música de Debussy nos fala da solidariedade simultaneamente impossível e necessária do ser e do não-ser...   ...numa linguagem que jamais alguém tinha falado, nem nunca mais alguém falará. Mas qualquer música, em diversas interpretações, é sempre nova. Adiante voltarei a citar-te um luminoso texto do melómano filósofo francês.

 

   Por mim, pois, prefiro dizer que, por muito clara que seja a sua partitura, qualquer momento musical é irrepetível: nasce de uma inspiração e da sua escrita, cuja tradição é depois traduzida por quem lhe dá o som da sua reanimação. Ganha outra vida própria, partilha que desabrocha em ofertas, como no milagre da multiplicação dos pães (que aliás, curiosamente, tão "filosoficamente" comoveu José Saramago) ou na conversão humana de Valjean (em Les Misérables de Victor Hugo, "comprada" pelo clérigo que o deixou fugir com a prata que lhe roubara).

 

   Em cartas futuras voltarei a todos estes temas. Mas nesta apenas quero levar-te a um cantinho da minha discoteca, onde com alguma frequência me acontece conviver com música inglesa dos séculos XVI e XVII: Dowland, Purcell, Byrd, e tantos outros. Esta manhã, já radiosa e ainda fria, repetidamente escutei If music be the food of love, título e primeiro verso duma ária para voz solo e contínuo, de Purcell. Canta a soprano Catherine Bott, no registo editado pela Chandos. O poema é de Henry Heveningham, apolónio a alumiar uma sensualidade sufocada por condição cortesã, exaltando prazeres que nos invadam olhos e ouvidos e tenham transportes tão violentos que magoem... e a própria veemência da música paradoxalmente vem enaltecer um secreto erótico desejo: Certo é que morrerei pelos vossos encantos, a menos que os vossos braços me salvem...

 

   Aquele primeiro verso, que dá título, Se a música é o alimento do amor..., esse, e só esse, é de Shakespeare. Ao escrever discorrendo esta carta, ocorreu-me que a música, nesse verso, talvez seja alimento do amor pelo poder de confundir desejos apenas dizíveis pelo inefável, na expressão livre e sem alvo de um só Desejo. Certos místicos, com os quais não me identifico nem achego (não sou cantante judeu, inda que bíblico, como Salomão, nem alumbrado espanhol, como Teresa d´Ávila), vivem e testemunham, ou imaginam, transes em que desejos se confundem.  Como noutro soneto de Shakespeare (CXXXV, na edição da Cambridge University Press, 1966), que agora mesmo para ti traduzo:

 

Whoever hath her wish, thou hast thy will,  
And ´Will´ to boot , and ´Will´ in over plus,  
More than enough and I that vex thee still, 
To thy sweet will making addition thus. 


Wilt thou whose will is large and spacious, 
Not once vouchsafe to hide my will in thine?  
Shall will in others seem right gracious,  
And in my will no fair acceptance shine?   

 

The sea all water yet receives rain still,  
And in abundance addeth to his store
So thou be rich in will add to thy will     

 

One will of mine to make thy large will more
Let no unkind, no fair beseechers kill,
Think all but one, and me in that one ´Will´.


Uma qualquer faz votos, tu só desejo tens,
E Desejo de sobra, Desejo para esbanjar.
E mesmo sofrendo mais dos teus desdéns
Ao teu terno desejo me quero somar.

 

 Não irás tu, cujo desejo é vasto e espaçoso,
Deixar que o meu no teu se abrigue?
Se doutros o desejo tens por gracioso,
Porque lanças sobre o meu sombra que o castigue?

 

Se o mar que é todo água acolhe chuva ainda
P´ra que em abundância a si a acrescente,
Tu, tão rica de desejo, o teu desejo alinda

 

E acresce com um só desejo de mim...
Não deixes que o teu  desprezo nos ausente,
Deixa só que o meu seja teu  desejo enfim...

 

         

   Esta tradução não é nem literal nem literária. Foi momentânea, talvez fácil, certamente conveniente. Também teve opções: como a de traduzir wish - que quer dizer desejo, aspiração, mas também voto como desejo de bem - por este voto; e Will que significa vontade, capacidade de decisão (até um testamento se chama will), por Desejo, no sentido de vontade condicionada por outra, isto é, não coerciva. Para exprimir-te dois sentidos: 1- o de que o desejo humano só verdadeiramente o é se partilhado, pois que, não o sendo, ou será suspiro contínuo, ou ira e violência ; 2- e o de que só a música - que é linguagem que nada afirma nem representa - pode em boa verdade (que, como o pensarsentir, é sempre uma vitória sobre a tentação do dogma) pôr-nos na onda inefável do indizível, caminho para a realidade invisível que, diz-me o sentimento de mim, do amor humano e do desejo de Deus, é afinal, ela só, a verdade ontológica, sem formulações tentativas. Pode assim ser outro modo do misticismo. 

 

   Quiçá o que, afinal, Princesa de mim, eu hoje te quero dizer antes seja bem dito pelo grande Shakespeare, nestes versos de The Passionate Pilgrim:

 

    If music and sweet poetry agree,
    As they must needs, the sister and the brother, 
    Then must the love be great ´
twixt thee and me,
 
    Because thou lov´st the one, and I the other,
 
    Dowland to thee is dear, whose heavenly touch
   
    Upon the lute doth ravish human sense;
  
    Spenser to me, whose deep conceit is such
 
    As, passing all conceit, needs no defence.

 

   Gosto muito dessa referência a Dowland, tocador de alaúde e compositor, e a Edmund Spenser, poeta, ambos admirados por Shakespeare. Não te traduzo o poema, apenas recordo, por essencial ao tema de que te falo, que ´twixt é a abreviatura de betwixt, palavra de origem saxónica, já arcaísmo poético ao tempo de Shakespeare, para significar between. Assim, o verso em que surge diz, em português: deve então ser grande o amor entre ti e mim / porque tu amas um e eu o outro... Partindo da condição de que se a música e a doce poesia concordam, / como, necessariamente (as they must needs), irmão e irmã, / deve então ser grande o amor entre ti e mim, porque amas um e eu o outro (mais do que a ideia de troca está aqui a de completação, a comunhão pela diferença): o poeta traz a inspiração de Spenser, mais fecunda que outra qualquer, a sua amada traz Dowland, cujo divinal toque de alaúde rapta os humanos sentidos.

 

   Do amor erótico a qualquer mística, o desejo que se despoja e vive livre transforma-se de impulso a possuir em busca de comunhão. Para tanto, precisa sempre de parceiro. Tal como o Evangelho também não distingue o amor de Deus do amor ao próximo. Mas termino traduzindo o prometido trecho de La musique et l´ineffable de Vladimir Jankélévitch. Por ele começa o capítulo 3 (Le charme et l´alibi) do livro. Com o subtítulo de L´opération poétique:

 

   A obra de encantamento que é o espressivo inexpressivo não é um dito, mas um facto, e nisso se aparenta ao ato poético. Faz música, ordena o sonho a Sócrates, e não pares de operar. Fazer é de uma ordem totalmente diferente de dizer. Compor música, tocá-la interpretando-a, cantá-la ou mesmo escutá-la recriando-a não serão, afinal, três modos de operar, três atitudes bem mais drásticas do que gnósticas? O criador, o executante que é recriador ativo, o ouvinte que é recriador fictício, todos três participam numa espécie de operação mágica: o executante coopera com o primeiro operador fazendo com que a obra exista efetivamente no ar vibrante durante um certo lapso de tempo, e o ouvinte recriador terciário coopera pela imaginação ou por gestos adventícios...

 

   Nota, Princesa de mim, que a frase A obra de encantamento que é o expressivo inexpressivo não é um dito, mas um facto, e nisso se aparenta ao ato poético se inspira também na Poética musical de Igor Stravinsky. E não será isso ainda o que Shakespeare sugere ao juntar a evocação de Dowland à de Spenser?

 

Camilo Maria           

 

Camilo Martins de Oliveira

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

 

«A poesia (…) pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar.» 
Arte Poética – II

 

 

Pois te digo Sophia

 

Que sinto uma neve a embranquecer mais

Esclarecendo a vida mergulhada na vulnerabilidade

Onde e aonde expõe por fim toda a paisagem

Sempre que as exímias tuas palavras

Me levam pelos bosques para deles

Outra bainha outro sentir

 

E diria

Eis uma memória encontrada e coligada

A focos de luz boreais

De volta à nossa casa tão espessa quanto o coração

Tão revivida quanto o sinal mais inquietante com o qual dormi

Numa inesperada cadência que acreditei ir aclarando o coração dos homens

 

E tu sabes e eu 

Recordo-te

 

Sophia

 

Que nos olhamos por entre cortinas sobrepostas

Quanto te leio

E nos faço olhar as duas ao espelho

Àquele que é criatura de liberdade

Onde semeias/semeio

Os beijos

Cheios daquela vontade antiga e de agora

 

Tu

Ramificada pelo mundo

Nele a insinuares-te com contorno próprio

Entre a não liberdade da origem

E a vital presença

 

E sei que suscitas e suscitaste a surpresa

E sei que o lago me espera

 

Sophia

 

Tenho os teus poemas nas mãos

Vou com eles nadar de leve

 

A vida volta

 

Participámos já na grande festa da eclosão

Dos seres?

Ou a tarefa de sobreviver já nos iniciou na pequeníssima parte de um poema?

 

Ninguém pode compreender o que cada um é

 

Ninguém explica o não recordar-se

A chave é minúscula

Só quero saber evadir-me de um mundo a outro

E encontrar-te tão feliz

Como afirmaste sentir-te quando te sabias de partida

 

Sophia!

 

Talvez se possa partilhar um ir

Mas nada o explica

 

Cada um pode não ser mais do que aprendizagem

À procura de um ponto de encontro

Daquele mesmo

De onde voavas com o pássaro

 

Com aquele que se unia a si mesmo

E te fitava no voo e tu eras ele

Mais do que um cristal

Absolutamente límpido

Absolutamente lúdico

E tu, Sophia

 

Reconquistada

 

 

Teresa Bracinha Vieira
Janeiro 2019

JOÃO CABRAL DE MELO NETO: UM REINO MARAVILHOSO

 

“…E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.”
– João Cabral de Melo Neto, trecho de “Morte e Vida Severina”.

 

E relíamos “Morte e Vida Severina” na Igreja de Santa Isabel em evoluído diálogo com o nosso catequista e a orientadora da Profissão de Fé. Era um tempo em vários atos de verdadeira higiene ou conselho ao pensar possível na nossa idade, porque mais doce era aquele compreender em nós, orgulhosos de espreitarmos mundos de onde pouco ou nada escutáramos, cegos que eramos às mondas e às foices, e ao negro pardo ou hulha, ou ao carcereiro branco e o significado das vidas cangas em todos.

 

Um dia, saberão, diziam-nos

 

Morre-se um pouco ao ler, nasce-se um pouco ao entender

 

E olhávamos uns para os outros numa mímica de pergunta conformada pelo orgulho de estarmos a falar de quem sabia o que eram reinos maravilhosos, refreados, às vezes, pelos poderes que não conhecíamos bem ainda, mas que os não queriam por perto. Estranho! Atraente.

 

E lá me tocou a vez e disse o melhor que podia e alto: 

 

«De João Cabral de Melo Neto»

 

- Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
- Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso de tais partidas, 
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.

 

E a orientadora virou-se para mim e perguntou

 

De que achas que falaste?

 

Instaurou-se um silêncio que escutava entre a minha incredulidade pela pergunta e o meu medo de não ter entendido nada

 

Entreolhei todos os meus colegas em busca da ajuda que não veio. E lá me fiz à resposta:

 

Acho que é como em casa. Uns dias só podemos estar com os amigos um bocadinho e um dia os pais não nos proíbem de casar e lá vamos nós meninas, de vez, fazer uma outra vida e sem eles proibirem nada, e a gente até pode nem querer bem aquilo, a não ser o vestido branco e as flores.

 

Olha, olha, disse o Luís, não é nada disso. João Cabral de Melo Neto é um poeta muito famoso e muito bom, ele até analisa o mundo e diz-nos o quanto uns têm tudo e outros são pobres e ninguém se importa, e faz poemas especiais sobre a sede.

 

Muito bem, Luís. Muito bem acrescentou o catequista!

 

Hoje leio neste livro de João Cabral de Melo Neto com chancela da Global Editora, São Paulo 2010 e com seleção de poesia de Antonio Carlos Secchin, inúmeros poemas deste poeta, que, continua exemplar às letras do mundo de hoje, exemplar à conduta literária de vigilância e eu nele segura também como quem descobriu o guiar-se pela contenção e, ao menos, uma parte, através da dicção do mar.

 

Eis um exemplo de tudo do seu reino maravilhoso

 

Menino, o gume de uma cana
cortou-me ao quase cegar-me,
e uma cicatriz, que não guardo,
soube dentro de mim guardar-se.

 

Teresa Bracinha Vieira