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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

PEDRO TAMEN (1934-2021)

 

Nascido em 1934, Pedro Tamen é um dos poetas mais reconhecidos na sua geração. Jurista de formação, encontra na Faculdade de Direito Nuno Bragança, um dos nomes referenciais do romance moderno. Em 1954, funda «Anteu», cadernos de cultura, e em 1957 é chefe de redação de «Encontro», influente órgão da Juventude Universitária Católica (JUC), tendo sido um dos fundadores de um influente cineclube – o Centro Cultural de Cinema (CCC). O primeiro livro de poemas é desse período: «Poema para todos os dias» (1956). Com António Alçada Baptista e João Bénard da Costa participa no projeto da Livraria Morais, de grande significado cultural, que culminará na fundação da revista «O Tempo e o Modo» (1963), correspondente aos «Cuadernos para el Dialogo» de Joaquim Ruiz Gimenez, com que mantém contactos estreitos. Além de ser autor do título da revista, funda e dirige a coleção «Círculo de Poesia», onde publica «O Sangue, a Água e o Vinho» (1958). Em 1960 dá à estampa «O Primeiro Livro de Lapinova». É subdiretor da revista de atualidades «Flama» (1961). Publica: «Poemas a Isto» (1963), «Daniel na Cova dos Leões» (1971), «Escrito de Memória» (1973), «Os Quarenta e Dois Sonetos» (1973). É diretor literário da Livraria Moraes (até 1975), membro da primeira direção da Associação Portuguesa de Escritores, sendo eleito Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian (exercendo funções de 1975 a 2000). Prossegue fecunda atividade de publicação: «Agora, Estar» (1975), «20 Anos da Coleção Círculo de Poesia. 20 Anos de Poesia Portuguesa» (1977), «Aparelho Circulatório» (1978), «Horácio e Curiácio» (1981) – Prémio D. Diniz (1982), «Princípio do Sol» (1982), «Antologia Provisória» (1983), «Allegria del Silenzio» (tradução italiana, 1985), «Delfos, opus 12» (1987). É eleito Presidente do Pen Club Português (1988-1991). Recebe o Prémio português de tradução e é finalista do Prémio Europeu de Tradução, com «A Vida Modo de Usar», de Georges Perec (1990). Em 1991 sai a poesia reunida em «Tábua de Matérias» (Prémio da Crítica e Grande Prémio Inapa de Poesia) e é de novo finalista do Prémio Europeu de Tradução, com «Bouvard et Pécuchet, de Flaubert. Publica «Caracóis», com Júlio Pomar (1994), «Depois de Ver», com Fernando Azevedo (1995), e «Guião de Caronte» – Prémio Nicola de Poesia (1997). Em 1997 sai a lume a Antologia em língua magiar e em 1998 a Antologia em língua francesa «Maître ès-sanglots», com tradução de Patrick Quillier. Em 1999 são publicadas a Antologia em língua búlgara e o disco-antologia «Escrita Redita» (com Luís Lucas). Reformado da Fundação Gulbenkian, continua a publicar: «Memória Indescritível (Gótica) – Prémio Bordalo e Pen Clube -, realizando a tradução da integralidade de «Em Busca do Tempo Perdido», de Marcel Proust (2003-2005). Em 2001, sai em Inglaterra «Honey and Poison – Selected Poems», com tradução de Richard Zenith. No mesmo ano, publica «Retábulo de Matérias – Poesia 1956-2001» – onde está reunida toda a obra poética até esse momento. Em 2002 é publicado em Espanha «Caronte y Memoria», com tradução de Miguel Viqueira (Huerga y Fierro, Madrid, coleção «La Rama Dorada»). A obra sairá no Brasil, «Caronte e Memória», com prefácio de Carlos Nejar (2004), e em tradução búlgara (2005). Assinalando os 50 anos da vida literária, é publicado «Analogia e Dedos» – Prémios Luís Miguel Nava e Inês de Castro (2006). Seguem-se «O Livro do Sapateiro» (2010) e «Um Teatro às Escuras» (2011). Obtém o prémio Correntes de Escritas do Casino da Póvoa de Varzim e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores por «O Livro do Sapateiro». Em 2013 dá à estampa «Rua de Nenhures». Membro muito relevante do Centro Nacional de Cultura, em Pedro Tamen encontramos um poeta com grande maturidade artística, com excecional domínio da língua e uma vocação temática universalista, sendo hoje um símbolo vivo da grande qualidade da poesia contemporânea. Homenageamos a memória de Pedro Tamen e todo o seu apoio, enviando sentidas condolências à família, em especial à sua filha Teresa.

LÍDIA JORGE: O LIVRO DAS TRÉGUAS, OU QUANDO A POESIA AGUARDA UM FILME DE SABERES, LUGARES E TEMPOS

 

Lá no apartamento em Jerusalém numa janela aberta para a rua os olhos do Poeta refletem a ambição de segurar nas mãos Nova Iorque ou Alexandria. Quase zangado, quase desesperado, quer dizer da saudade com as fotografias nas mãos, e nada o contenta das palavras que a definem. Afinal a saudade é um lugar de desejo, de perseguição, de punição e pede-se a Faulkner que feche a cortina ao de leve e que se deite o Poeta por entre os lençóis da cama que lhe fazem sentir um habitar Jerusalém, na cama da sua meretriz, ou Muro, que impele a sua partida dali. E fecha os olhos o Poeta, com as faces rosas de sangue que lhe recordam a cor das bochechas do filho, nascido livre, e agora outra noite, filha do livro-mãe, filha da conclusão e da pergunta com nome de destino, com nome de veleiro.

 

O filme começou assim, exprimindo um rosto com tudo o que deve exprimir antes que seja tarde, antes que os enigmas de cansem de ser perguntados e que o Poeta jure por Deus que não descodificou o perfume.

 

E o filme mostra o frasco de cristal ricamente trabalhado e de tampa de cortiça, pousado na mesinha de cabeceira: o Poeta adormece, um tanto, só um tanto, pois que as flores desbotadas que o frasco contém, embrulham o porvir, as proporções das novas estradas, placentas informatizadas que já tinham trocado o mundo do simulacro pelo Mundo da vida, e assim, mergulhadas no mar amniótico do frasco, a elas devia estar atento o Poeta.

 

No dia seguinte, o Poeta desce a encosta das videiras, acaricia os cachos de uvas, e súbito, pressente o perigo não cruxificado de poder partir apenas na altura que ele conhece não haver caminho, e pergunta:

 

- Qual a razão para que ninguém me diga de frente que só o perfil pode agir nas noticias do amor; naquelas que se aceitam em nós e nós por elas cheios de atualidade, a sabermos que podemos partir do Médio oriente seguros do que Arquimedes nos ensinou: falo da alavanca, esta que vos mostro na qualidade de vedor e que torço como se torcesse o umbigo do mundo.

 

O écran, surge agora com a cor e a forma de uma laranja, os gomos parecem-se a músculos iniciáticos que oferecem sumo a todos os que rodeiam o Poeta, e que ele domina afinal com o saber das coisas escondidas dando de beber e sorrindo, sereno.

 

E surge um forno, uma lareira, um lume que inunda os olhos de todos e que o Poeta explica tratar-se apenas de uma existência muito viva, e que antes do seu salto olímpico e mortal, arde para que todos conheçam o benefício da dúvida que as flores da música de Mozart sugerem. A casa de Mozart está toda pintada pela mão dos impressionistas. Todos, sejam quem sejam todos, pois que entrem neste noivado consumado e cuja chave é uma fábula. Uma fábula de poder. A fábula de poder dos Poetas. Sentam-se então todos numa montanha, na bainha de uma montanha, à procura de um outro início. A bainha parece igual à dos cortinados de Jerusalém. As linhas enroladas são similares a batalhas que o Poeta regista no seu caderno de apontamentos e recorda-se que isto é o significado de mesmíssimo. O essencial inalterado, afinal. O céu da tarde lança ao Poeta um cabo e ele desce por ele até fitar o que o perturba. O Poeta é sempre a conjunção do cerne dos elementos do mundo, e olhando as aguas empurra-as para o beijo, até que o lápis descreva de um outro modo a tez morena das mulheres com sarongs coloridos.

 

E surge a casa a tal iluminada pela candeia do Poeta: a tal do coração e da espada, do cavalo e do segredo de o montar, e lá longe de tão perto, a noção de que só do não conhecido é o futuro. Big-Bang ou a primeira batalha, a tal que não conhece a bandeira branca. O Poeta, ingénuo do poder, não julga. O Poeta continua a crer no ato limite que exponha a poesia, finalmente como solução, nem que seja por sinais de mímica, mas que a deixe a cobrir como uma pele, o mundo velho dos deuses e lhes diga que coragem é ir por onde perigoso é o norte.

 

Eis a Grécia!

 

O Poeta tem à cintura pássaros vivos e livres que assim desejam estar. É sua a vontade deste modo se acomodarem; esse o édito das suas manhãs. E o Poeta escreve que se não desliga dos incêndios das verdades, nem que lhe citem Roland Barthes. Se necessário arrendam-se as nuvens sem contrato e as suas águas transformam as florestas em verde para que todos as interpretem e ele, sozinho, arda nos factos irrelevantes que mataram os dias: nada de novo, afinal. De nada novo a não ser a estrela que se solta sem ser vista e lá do céu explica os factos todos.

 

Os dromedários transportavam gentes e sal pelo deserto. O tuaregue do filme «Um chá no deserto», voltou a adormecer nas dunas, olhando a mulher estranha às origens da sua cor. E sim, correu água sobre a areia no deserto durante três dias como diz o Poeta Lídia Jorge ou o amor nu, em cada canto não tivesse sido descoberto.

 

Em muitas circunstâncias e tempos se faz o caderno dos apontamentos do Poeta. Até o cocheiro atento ou não à maioridade da rapariga, aceitava o seu corpo doado e ainda não amado, ainda não noivado, ou, ainda era o Poeta demasiado jovem para entender aquele estado? Eu mãe-Poeta digo:

 

- Ó minha filha não fales alto, ninguém tem de saber que ainda estás no comboio dos nadas e que só depois da lucidez te repetirás e com ela entenderás os preceitos.

 

O comboio seguia junto ao mar porque ali o rio parecia o mar. O Poeta pela janela olhava o horizonte e aqui e ali presumia as cavernas nas rochas, aquelas que guardavam as sabedorias que não correspondiam à verdade. Enfim, era a viagem. Era a suspeita aqui e ali de que o livro procurado se faz ao Poeta ladrando como um cão que o arreda da esperança de entrar no carreiro da montanha. Esse carreiro, como nos mostra o filme, é um pedaço de terra que serpenteia até ao céu. E para quê? Para nos demonstrar que só estamos acompanhados de nós. Mas há futuro dizia Rui, o Belo.

 

Num vasto campo de milho, o Poeta utiliza a natureza por decifração e abre uma especial carola que guarda o correio que lhe é destinado. Depois de tantos anos chegar à primeira desilusão, é duro, e é duro, partir daí. O bosque que o Poeta já foi, ilumina-se só com uma arvore e lhe não basta: aquela. Parece-lhe ver uma terra de infâncias no meio daquele milho, no meio daquele acontecimento que se inicia também com pedras, pedras das montanhas, pedras com formato de condição humana, fosse o que viesse a ser essa condição em Jerusalém.

 

Assim, li este extraordinário livro de poesia de Lídia Jorge. Deste modo sugeri o filme: a flor de lymo que poderia dizer melhor do Poeta, quando do fim do périplo ao ponto inicial do pôr à prova, dali mesmo partiu ele, sorrindo, com o seu frasco de desbotadas flores na mão, e acredita-se que se fez de novo à expectativa.

 

 

Teresa Bracinha Vieira

JUAN MANUEL ROCA II


Poeta, critico, ensaista, um dos mais importantes colunistas do nosso tempo, recebeu o Poeta colombiano Roca, inúmeros prémios, e a propósito dos mesmos escutei em Barcelona que Roca se lhes referia dizendo em voz alta o seu próprio poema


Arte do Tempo

O tempo permanece

Apanhado entre os livros.

Por este prodigio de apreensão,

Heraclito continua a banhar-se

No mesmo rio,

Na mesma página.

Tu continuarás para sempre

Nua no meu poema.

Enfim, Roca exorciza como resistência espiritual, o tempo que os homens lhe dão em possíveis tempos de o medir, mas nunca se asila numa tranquilidade. E Roca entende eventualmente a imensidão de prémios como se duvidasse e aceitasse a distância, ambas aldeias perdidas que mudam a canção para visitar outro país. Assim entendi.

Nuno Júdice referindo-se a Roca, afirma que a sua literatura quando fala do individuo fala sempre de ninguém e ninguém é o personagem eterno da literatura. Diz o senhor Nabokov que a literatura não nasceu quando uma criança de um vale de Neandertal chegou a gritar: Um lobo! Um lobo!, e atrás dele, as quatro patas no ar, um lobo cinzento brandia a sua língua estralejante. Diz, melhor, que a literatura nasceu quando uma criança de um vale do Neandertal chegou a gritar: Um lobo! Um lobo!, e atrás dela não vinha ninguém.

Desde então, ninguém é um personagem eterno, um fantasma nos vales dos poemas de Roca. Ninguém é o que falta, o que foi e o que será. Deste ninguém surge a obra, diria. Surge de novo Nabokov, reflectindo que entre o lobo da floresta e o da história existe um meio-termo e por esse prisma habita a arte da literatura.

Um dia jantava eu num restaurante virado ao mar em plena noite de verão. Entre mim e o mar apenas a silhueta de uma tocadora de harpa. A música untada de infinito regressou-me a Bogotá nas ruas de Paris que Juan Manuel Roca já habitava, e naquela hora em que me deslizavam sonhos


ORAClÓN AL SEÑOR DE LA DUDA
 

Más que fe, dame un equipaje de dudas.

Ellas son mi puente, mi afluente, mi oleaje.

Venga a nos el Reino de lo Incierto.

Mantén en vilo mis verdades,

Concebidas, muertas y sepultadas

En los telares del olvido. Llévame

Por las arenas movedizas,

Dame a comer el pan de la derrota,

A beber el agua del silencio.

No hay timos ni trucajes:

Estoy herido y soy mi camillero.

Sean las certezas palacios de nieve

A los que alguien asedia con el fuego.

Señor de la duda, si existieras,

Escucha la oración del descreído

 
Surgiu-me ainda aquela pequenina bíblia:
 

Lugar de aparições (Inicio)

          A mulher que amei converteu-se
          em fantasma.
          Eu sou o lugar das aparições
.

                    JUAN JOSÉ ARREOLA


A grande reflexão sobre a liberdade, caminho de vida de Roca, leva o poeta Germán Espinosa a dizer que Roca tinha em si a primavera perpétua de todo o criador. E nunca lhe foi estranho Rimbaud, entre outros, o Romantismo Alemão, a sua capacidade imensurável para escrever liricamente a realidade. Curioso que a sua única novela publicada em 2003 se intitula “Esa maldita costumbre de morir”

 

Repito que num livro de Juan Manuel Roca, a claridade tem este rosto

 

El silencio es una lengua muerta. Sólo algunos pocos lo conocen.

 

E quando falo de ti, falo sempre do lado de cá do nascimento: só a sentir.



Teresa Bracinha Vieira
Junho 2016

 

JUAN MANUEL ROCA


MANO


Una mano traza la palabra pájaro, la otra escribe su jaula.
[“Parábola de las manos”, en Cantar de lejanía.]

 

Quando em Barcelona vi vários jovens com livros de Roca na mão, pensei na minha fidelidade a este poeta que também eu considero o mais importante da literatura colombiana. Agradece-se sempre que Nuno Júdice e Roca ofereçam uma tarde de leitura de poesia. Como diz o Embaixador da Colômbia em Portugal, Germán Barragán «Portugal é a literatura, e o seu idioma é talvez a língua da Terra onde melhor soa a lírica da poesia. Portugal (…) e nas ruas de Lisboa, a poesia está presente em cada antiga livraria (…) na roupa estendida ao colorido do sol das janelas (…) e o fantasma de Pessoa, respira-se na sua perfeita morada para existir». Congratula-se Germán Barragán que Roca tenha chegado ao português pela tradução de Nuno Júdice para quem Roca se não parece com ninguém. É talvez o poeta que não reflectindo nada se parece com o universo. E assim o senti e sinto.

 

Juan Manuel Roca vive em Bogotá onde o procurei. Sentei-me por lá em muretes e jardins a reler “Bíblia dos Pobres”, livro de 2009. Muitas vezes foram, as que equacionei a tradução da poesia, ainda que pela proximidade de visões e pela maturidade do conhecer colombiano, Júdice tenha sido a relação mais perfeita na tradução de Roca pois bem sabe o quanto a poesia é pergunta e o poeta seu tradutor.

 

Sempre me senti enfeitiçada pela poesia de Roca. A sua insubmissão e o seu rigor com os prismas de cristais das palavras utilizadas na literatura, sempre me lembraram que Sá de Miranda, Gil Vicente, entre outros, escreveram em espanhol com a mesma teia de seda fina, como que a prever que, a relação entre a Colômbia e a nossa língua, não nos chegaria pelos poetas brasileiros mas sim através dos portugueses. E tudo isto era um espelho para mim que me fazia sentir muito honrada por ter lido Memoria del agua (1973) que me chegara através do Padre Jesuíno da Capela do Rato.

 

“A poesia é a saúde da linguagem” como disse Roca quando, juntamente com Nuno Júdice estiveram juntos no Hay Festival, de Cartagena das Índias, e aí conviveram com o Jornal Expresso, cuja entrevista agitou.

 

E como não sugerir estas contidas e totais palavras de Juan Manuel Roca?

 

Con coronas de nieve bajo el sol cruzan los reyes.

 "País Secreto", Bogotá, 1987.

 

Ou

 

ATEOS
Hemos llegado al extremo de querer erigir la iglesia de los que no tenemos religión.
(Diario de la noche, cuaderno inédito.)

 

E sempre

DESAMOR
Dice el proverbio chino que no es posible atrapar un gato negro en un cuarto oscuro, sobre todo si el gato no está en él. Por eso mismo, quizá, es que no logro hallarte en mi corazón.
(
Diario de la noche, cuaderno inédito.)

 

Ainda este poema
 

PARÁBOLA DA SOLIDÃO

Quando se desdobrava a solidão,
Quando descia a sua máscara de proa,
Convidava-a para um passeio na praia.
Muitas vezes
Levei a solidão aos bailes
Ou ao grande concílio de solidões
Que se agride nos estádios.
Para não a ver maltratada
Uma vez levei-a ao alfaiate
No meio de fatos vazios.
O costureiro
Com a boca cheia de alfinetes
Como um boneco vudu,
Desdobrou na sua mesa um pano negro.
Tirou as medidas à arisca solidão
E traçou a giz o seu molde.
Tinha a mesma medida da minha sombra.
 

Já que a lucidez de Roca é também assim:
 

TRUEQUE
Mujer, te ofrezco mi soledad, dame tu compañía.
[Diario de la noche, cuaderno inédito.]
 

Afirmo eu agora e aqui o quanto gostava de ter aberto em dois um qualquer mar e parecer que lá moro desde sempre por ter lido e ler Juan Manuel Roca, e de continuar a escrever os meus poemas numa anarquia de sonhos provocados pelo dia em que visitei a lonjura. Assim mereça deitar pão às pombas na companhia silenciosa deste poeta.

 


Teresa Bracinha Vieira
Junho 2016

POSTAL A ÁNGEL CRESPO

 Postal.jpg

 

Ángel:

 

Para te dizer que julgo que ninguém sabe ainda o que está quase a mudar. Nada do que nos rodeia é como um texto que avança em conjunto, ou como um poema que não nega nem afirma o destino. Não compreendo a maioria das palavras que escuto. Sei apenas que são de um tempo obscuro e velho como o tempo a que pertencem. A luz já nos espreitou em muitos interpretares, e como me disseste

 

     Era el regalo de um reino

     E tu já tinhas escrito 

     Que un fruto de injusticia, aunque se llame

     don de lo alto, debe

     ser rechazado por la misma mano

     que lo hizo madurar?

 

Uma espécie de percepção tremenda do que se passa entre os homens. Uma evidência que já se não chama pelo nome. Mas Ángel, o meu poema continua assim:

 

     (…) Y acariciase al mundo como al lomo

     de um animal herido, por la noche.

 

E para te dizer que ninguém sabe ainda - repito -  o que está quase a mudar.
Esse aroma muito doce da falta de amor? Essa vocação?

 

Teresa

  

 

Teresa Bracinha Vieira

Cohen: Dance Me to the End of Love

 

Incontornável cantor e poeta judaico-canadiano Leonard Cohen, a felicidade, o objectivo de vida, o amor, a velhice e a morte.
 

Um perpétuo regresso ao reunir ambas as partes da alma, digo.
 

Sempre que pude estive nos seus concertos por uma e outra razão também ligadas à beleza e ao consolo, termos que quase nunca utiliza e deles fala continuamente.
 

Troca-se o desejo pela paz sabendo que Ain’t No Cure for Love, e se saiba só pelo olhar que I’m Your Man seja so close to everything we’ve lost que ninguém pode sair ileso afinal depois de aceitar a proposta: Take This Waltz.


Aceitei-a sim, para a dançar na orla da floresta onde, só a minha ave me aguardava.


E diz Leonard Cohen: « Embora as pessoas mudem, o cabelo fica grisalho e caia, o seu corpo se degrade e morra, acho, ainda assim, que há algo que permanece imutável:o amor intacto, esse é o incurável.»

 

A unidade total é impossível se ambos os parceiros não partilharem a mesma atitude espiritual, afirma também Cohen com tranquilidade e melancolia.

 

Em 2011 é-lhe atribuído o prémio Principe das Astúrias das Letras. Um príncipe que à sua princesa disse:

sei que estás cansada da tua beleza e esta noite não quero que carregues esse injusto peso. Como podes carregar tanto, até mesmo o que os nossos olhos não merecem?, e do que tu sabes eu não sei. E o carrego é teu?, minha paixão, meu vocabulário religioso. Por favor pousa a tua mão no meu papel. Descansa.

 

Leonard, um segredo exposto de Agosto, uma base de trabalho ideal. Um homem de evoluções inquietas a uma poderosa força interior pois sempre soube que
 

First we take Manhattan


e o desmaio em 2009 de Leonard Cohen durante um show na Hungria, foi orlado por uma estrela a anos-luz de distância, também conhecida por visita-retribuição.
 

 

TERESA VIEIRA
Agosto 2013