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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   A Foreign Affairs publicou um artigo assinado por Jeremy Shapiro, com elucidativo título: WHY TRUMP CAN SAFELY IGNORE EUROPE: Its Leaders Readily Condemn But Never Act.

 

   Talvez tenha vindo a ser assim há tempo de mais. Proximamente - depois da retirada americana do acordo com o Irão (sobretudo tendo em vista as ameaças de penalização, pelos EUA, das empresas europeias que mantenham os seus negócios persas) e da extemporânea e provocatória mudança da sua embaixada para Jerusalém - veremos se e como, parafraseando jargão jurídico, a UE e cada um dos seus membros irão continuar a "promulgar" os "decretos" estadunidenses, ou optarão por "derrogá-los" ou, mesmo, "revogá-los", isto é, como continuarão a seguir as orientações americanas : se total, parcialmente, ou de modo nenhum. Ou ainda, e melhor seria, se ousarão enfrentar desafios diretos lançados pelos EUA, tais como esta última decisão unilateral de agravamento de direitos aduaneiros americanos sobre produtos europeus. Wait and see... 

 

   Tal dilema, é difícil resolvê-lo já e só por via diplomática, sabendo nós que os negociadores europeus estão fraturados (p. ex.: quatro países membros estiveram na "festa" da embaixada em Jerusalém; a Itália, um dos fundadores da CE - com a França, a RFA e os três do BENELUX - é hoje uma interrogação a juntar ao Brexit), além de que, na verdade secreta dos factos e relações económicas, o poder que finalmente delineia, determina e decide, reside mais nos próprios agentes financeiros do que nas instituições e órgãos do poder político. Esta última questão, aliás, é doravante crucial em qualquer projeção do que poderá ser uma democracia no futuro, já que a concentração crescente da riqueza e do poder financeiro anda de mãos dadas com a sua infraestrutura tecnológica e a oferta de bens e serviços básicos, desde a energia à informática e comunicações; e também não tem pátria, nem população a quem prestar contas, além dos seus próprios donos ou acionistas. Cansado de noticiários recitados por "jornalistas" que pouco ou nada sabem do que dizem - e, tantas vezes, até mal conhecem o significado das palavras que usam -, farto de fake news e de mentiras de trumps, putins e quejandos, lembrado do Bernanos que, há tantas décadas já, ergueu a voz contra a robotização dos espíritos, chamo, Princesa, a tua atenção para um livro do alemão Richard David Precht, recentemente publicado: Jäger, Hirten, Kritiker - Eine Utopie für die digitale Gesellschaft (Goldmann, 2018). Traduzo o título: «Caçadores, Pastores, Críticos - Uma Utopia para a Sociedade digital». Numa entrevista à revista Der Spiegel (o espelho), o autor afirma que a Silicon Valley vê no ser humano um organismo que funciona segundo reflexos mecânicos, como um rato de laboratório... Uma minha sucinta interpretação do que diz o próprio livro é que o projeto de sociedade digital ali analisado padece de uma vocação totalitária mais coadunável com um regime iliberal do que com aquilo a que chamamos democracia liberal (no sentido político de sociedade em liberdade de consciência e participação nas decisões coletivas). No fundo, está bem longe dos ideais humanistas da Renascença e da racionalidade das Luzes... Acrescento que nada tem, certamente, a ver com essa espiritualidade a que Romano Guardini tão bem chamou O Valor Divino do Humano (livro que li bem jovem, e ainda guardo)...

 

   Mas, ficando pelo universo internacional, passam por aí veleidades e prenúncios de recomposições, precárias ou, quiçá, mais duradouras, de entendimentos e alianças: a busca de um entendimento de europeus com russos (que são não só, mas também, um pouco europeus) sobre a salvaguarda do acordo nuclear com o Irão, é disso exemplo, como de nova arrumação do xadrez diplomático, visto que outros parceiros aparecem, incluindo uma potência maior (a China). E também surgem desafios à periclitante centralidade ou superioridade dos ocidentais, não só vindos dum qualquer misterioso "oriente" - que a nossa corrente vox populi teima em considerar exótico, já que só acha normal e normativo, sempre, evidentemente, o "ocidente" - mas de outras zonas do planeta, como a América Latina, colonizada, larga e continuamente povoada por imigrantes europeus. Lembro, para nossa ilustração, Princesa de mim, um livro recente do colombiano Arturo Escobar, para o qual fui inicialmente atraído pela primeira palavra do título, vocábulo que eu só conhecia, sob a forma pensarsentir, da minha própria escrita: Sentipensar con la tierra. Nuevas lecturas sobre desarrollo, território y diferencia. Basta traduzir-te uma frase desse conhecido militante e antropólogo colombiano, para também perceberes o despertar de uma nova consciência da dignidade dos povos: Nós somos diferentes de vós, Ocidentais, porque beneficiamos de outro modo de sentirpensar com a Terra, porque lutamos contra o individualismo, e temos uma cosmologia muito mais rica e relacional do que a vossa. E assim também volto a pensar no tianxiá.  Sorrindo pelo jeito com que as duas Coreias e a China, falando entre si, lá conseguiram voltar a sentar o presidente Trump à mesa...dando-lhe, presumo, as necessárias garantias de graxa com renovado brilho. Ou, em contrapartida da "compreensão" americana para com a ZTE (empresa chinesa que tem violado os limites impostos pelos EUA para negócios com o Irão e a Coreia do Norte), oferecendo mais reconhecimento de marcas comerciais, e proteção das mesmas, à sua filha Ivanka que, como sabemos, além de empresária, trabalha na Casa Branca e, ocasionalmente, representa o senhor seu pai, como aconteceu na cerimónia de inauguração da embaixada americana em Jerusalém...

 

   A política de Obama não era perfeita, mas tinha o mérito indiscutível de considerar como sua premissa a realidade do atual advento de um mundo plural para o fomento e a prática de uma cultura da paz e do respeito democrático. Os slogans trumpistas de America first! Make America great again!, como o seu comportamento errático-oportunista em todas as negociações e disputas internacionais onde se mete (incluindo as de matéria ou consequências económicas e comerciais), deixam-nos temer, Princesa de mim, um mundo de conflitos cujos manipuladores nem sempre serão só os que deixam os rabos de fora... Poderia escrever-te agora muitos parágrafos acerca do modo aparentemente caprichoso como a política externa americana tem sido "conduzida", desde a obsessão de Trump com o seu "estrelato" (uma quase olímpica primazia) ao seu receio de ser menosprezado ou desconsiderado, tudo isso refletido naquele seu tique de que tudo estava e continua mal, mas será, brevemente, por ele, o Magno Donald, totalmente banido, destruído, ou, então, revisto, corrigido e bem melhorado. Não faz política enquanto ciência e prudência, vontade de consenso e bem querer, mas apenas busca que surjam ou possam surgir -   há que aproveitá-las! - oportunidades de "brilhar" ou afirmar primazia. É, assumidamente, um "business man".

 

   Mas desde há muito que te vou dizendo como, na raiz profunda de tanta confusão - ao ponto de, por vezes, nem sabermos bem quem somos, onde nos situamos ou devemos situar - está uma cultura em crise. A explosiva disseminação de notícias e semânticas novas por meios ditos de "comunicação social", com a consequente superficialização das perceções e variação dos sentimentos, vai minando a nossa capacidade de ponderação e reflexão, isto é, vai fazendo de nós baratas tontas. O que já foi pensarsentir, uma construção mental e espiritual do nosso ser humano na sua circunstância, tende progressivamente a tornar-se numa mera reprodução mimética de fantasmas que nos são propostos ou impostos de fora. Aliás, os casos mais alarmantes de autismo adventício que hoje vão surgindo entre tantos jovens, que se fecham nos seus quartos com um ecrã e um computador, são "vidas virtuais" de seres humanos cuja circunstância real é feita de fantasias.

 

   Por enquanto, todavia, a consequência mais imediatamente gritante desta presente cultura da banalidade e superficialidade, com o seu rodopio de imediatismos proponentes de gozos e usufrutos logo esgotados e substituídos, é esse pulular estulto de idolatrias: desde as dietas adelgaçadoras ao melhor champô, do melhor jogador do mundo ao ator mais sexy, ou à modelo mais glamour; do meu clube que só pode ser campeão, ao meu partido que tem sempre razão, ao líder que tudo sabe e conduz o modelo económico sempre gerador de riqueza, etc... etc... Tal criação de riqueza servindo, obviamente, para me assegurar, na estabilidade garantida pelo tal líder, tranquilo usufruto do maior número possível de bens e serviços adquiríveis.  Num mundo que a chamada globalização progressivamente concentra (o que também quer dizer que vai tornando as suas nações e culturas cada vez mais centrais e menos periféricas), um "ocidente" descuidado e incauto, se não arrogante e distraído, delicia-se, por exemplo, a importar terapias físicas e psíquicas de qualquer arquétipo "oriental", como novidades a juntar à sua panóplia de consumos disponíveis... - mas queda-se sem a inteligência e a vontade (diria mesmo a prudência, esse amor sagaz) necessárias ao entendimento e convívio com novos vultos e outros protagonistas da cena internacional. Isto é: o "ocidente" teima em pensarsentir que o seu modelo económico, o seu regime político, a sua ética de êxito materialista, são o que há de melhor, são incontornáveis e impõem-se universalmente. Desejamos doidamente enriquecermo-nos; mas a riqueza por que ansiamos pouco ou nada tem a ver com a alma, a mente e o coração dos humanos, com essa única perfeição possível pela nossa condição existencial que é o amor na relação de uns com os outros, a busca da utopia das bem aventuranças.

 

   Finalmente, ou seja, para acabar esta carta - que, como todas as outras, é mera conversa entre nós, Princesa, para puxar a cabeça um ao outro - deixa-me referir-te que a França das luzes tem andado a olhar bastante para uma Itália politicamente caótica (que vai, paradoxalmente, assustando e, a talho de fouce, alertando e despertando a Europa). Parece-me, pelas traduções do italiano que em francês se vão sucedendo, que a Gália, também inquieta com a sua própria crise de identidade e valores, procura ali encontrar memórias, razões e motivos para voltar a beber mais das águas que regaram as nossas greco-latinas raízes culturais. Sabes como, pessoalmente, penso que o abandono, no ensino liceal, de letras clássicas, por retirar etimologia ao aprender da nossa própria língua, e fechar outro acesso à literatura e à filosofia, foi um erro de "casting"(autorizas-me esta modernice?) dos curricula escolares. Sobretudo - e compreendê-lo-ás melhor quando te falar da escrita chinesa na própria estruturação do discurso intelectual -  a medida em que nos prejudicou a base de construção verbal e escrita dos nossos modos de discorrer. Hoje, direi, caricaturando, já nem neologismos há. O que por aí se ouve é um chorrilho de ditos na moda, cujo próprio significado os seus mesmos emissores não tiveram tempo de compreender. Não faz mal, pensarão alguns: amanhã teremos mais novidades. Traduzo uns trechos do professor Lucien d´Azay (escritor e tradutor, ensina francês no liceu Marco Polo, em Veneza) respigados de um artigo publicado no Figaro Littéraire de 24 de maio p.p., em que fazia a resenha de duas obras vertidas do italiano para francês: La Langue Géniale - 9 bonnes raisons d´aimer le Grec, de Andrea Marcolongo (Les Belles Lettres, Paris) e Vive le Latin - Histoires et Beauté d´une Langue Inutile, de Nicola Gardini (Éditions de Fallois):

 

   Porque nos chegam de Itália estes dois livros? Porque esse país, diferentemente da França, nunca duvidou da sua herança clássica, nem do estudo, desde o liceu, do que outrora se chamava «humanidades greco-latinas». Na Itália, o filão mais prestigiado do segundo ciclo do ensino secundário permaneceu o liceu dito «classico», cujas matérias principais, durante cinco anos (dois anos de «ginnasio» e três de «liceo» propriamente dito), são precisamente o latim e o grego antigo. Deve-se atribuir a essa escolha o sentido da urbanidade, o bom humor e a alegria de viver que qualquer cidade italiana testemunha? É certo que o clima e a beleza do cenário para tal muito contribuem. Mas o gosto da civilização clássica participa do mesmo espírito, da mesma graça.

 

   Seria curioso que uma sociedade como a nossa, que tão ostensivamente aspira ao hedonismo e à beleza, quisesse sacrificar o imenso prazer providenciado pela aprendizagem e a prática das línguas antigas, com o pretexto de que elas já não servem para uma cultura sujeita à atualidade, às mercadorias e à tecnologia. Na Renascença, o latim e o grego galvanizavam aqueles homens universais, modelos de humanitas, como foram Aldo Manuce e Ange Policiano. Inspiremo-nos neles. Gaudeamus igitur!

 

   Apesar de ser um "bota de elástico", não estou a propor que se restaure, em Portugal, a escolástica! Mas parece-me razoável poder, pelo menos, esperar mais cultura na educação da fala, da leitura e da escrita. Quanto mais não seja, para que a gente não fale por falar e como ouviu soar, mas para procurar exprimir algo que faça sentido. E deixo o sentido do yi chinês para a próxima carta.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Soube, cedo pela manhã, que o Fidesz de Viktor Orban terá obtido quase 50% dos votos nas legislativas húngaras, os quais lhe darão uma maioria absoluta (ou seja, de 2/3 dos lugares) no Parlamento. A sua campanha assentou fundamentalmente na política anti imigração, evocando razões de segurança interna e a preservação da identidade nacional.

 

   Mas, ao talho da fouce lúdico-grave com que temos cortado em efemérides e mitos, na nossa correspondência recente, Princesa, calha mais a jeito o "Viva!" gritado por um jovem apoiante do Fidesz, chamado Lehel: Orban é um visionário, o maior homem político da Europa. A sua política é que é a boa! Viva Trump, viva Putin e viva Orban!

 

   Uma política trindade, que dispensa comentários. Qualquer "populismo" é trágico-cómico, revela sobretudo, hoje, uma carência cultural - que nada ou pouco tem a ver com esses debates acerca da atribuição de subsídios a um universo vário de iniciativas "culturais" - mas é indigência de educação básica da descoberta das raízes e desenvolvimento da nossa natureza ou ecossistema espiritual, e de espírito crítico. Os providencialismos surgem quando já não sabemos bem intimamente quem somos, e deixámos de pensarsentir por nossa cabeça-coração.     

 

   De tanto te falar de curiosidades "imperatoriais", lembrei-me de um dos últimos títulos da série Lucky Luke, daquela em que o desenhador Morris, que inventara a personagem do cowboy solitário nos anos 40, teve como parceiro guionista o também inolvidável Goscinny, trabalhando juntos de 1955 a 1972. A história aos quadradinhos (ou quadrinhos) que ora te recordo é a de L´Empereur Smith (Dargaud, 1976), conto impagável, em que, aliás, também é posto em cena um colega e amigo dos dois autores, o desenhador Uderzo, brevemente anunciado, num baile da corte imperial de Smith, como Sua Excelência Giovanni Uderzo, Embaixador de Sua Majestade Vítor Manuel II, Rei de Itália!... O verdadeiro nome do Uderzo (desenhador de Asterix e Umpapá) era Alberto. Tudo aquilo é uma paródia de qualquer corte napoleónica, esta recriada numa imaginária cidade do Oeste americano, Grass Town. Não te digo mais, apenas te aconselho leitura muito divertida e... instrutiva!

 

  A ficção do conto, ainda por cima, tem raízes históricas. Citando os autores, traduzo: Por inverosímil que pareça, a aventura de Dean Smith, "imperador dos Estados Unidos" baseia-se em factos históricos.

 

   Na verdade, algumas personagens excêntricas sonharam transformar em monarquia a jovem e grande República americana. A mais célebre persona foi um tal Joshua A. Norton, nascido na Grã-Bretanha a 4 de fevereiro de 1819. Chegado a São Francisco em 1849, lançou-se logo a negócios. Inteligente e manhoso, fez rapidamente fortuna no imobiliário e na importação. Mas, alguns anos depois, Norton arruinou-se num infeliz negócio de cereais: esse desastre financeiro fê-lo perder a razão.

 

   Foi então que uma obsessão ganhou corpo no seu espírito doente: decidiu que era Norton I, imperador dos Estados Unidos. Já não tendo dinheiro, não pôde levantar um exército, comprar armamento e rodear-se de fasto. Assim, era perfeitamente inofensivo. Os habitantes de São Francisco acharam divertido esse homenzinho ridículo que se arrogara os títulos sonoros de imperador dos Estados Unidos e protetor do México. Em breve se tornou chalaça corrente enviarem-lhe telegramas assinados por chefes de Estado, tal como publicarem-se proclamações fantasiosas por ele assinadas. O imperador Norton depressa se tornou popular: era um homem bom e cortês, e quando morreu, a 8 de janeiro de 1880, mais de 10.000 pessoas assistiram ao funeral. Tinha entrado, à sua maneira, e de pleno direito, no panteão dos excêntricos que contribuíram para forjar a formidável lenda do Oeste.

 

   O génio da escrita de Goscinny e do desenho de Morris tornaram tal história numa sátira divertida em que, a par de um olhar benevolente e de humana estima sobre o de per si inofensivo louco Dean Smith, e de uma acertada, ainda que sempre hílare, reprimenda dos malevolentes oportunistas que, à sombra do imperador, procuram riqueza e poder, se nos oferece o "show" de uma burguesia inchada de nada pelo vício gostoso de títulos e honrarias do império. Babados. Quiçá em evocação dos exércitos napoleónicos, os soldados de Smith justificam-se: é bem melhor andar fardado e bem pago do que correr planícies atrás das vacas...como quando éramos apenas esforçados cowboys!

 

   Mas, em 2ª feira de primavera chuvosa - que, todavia, vai tornando, dia a dia, mais viçosa a minha cerejeira do Japão - volto, Princesa de mim, à notícia de abertura desta carta (a brincar ao telejornal): a oposição húngara (talvez excluindo a extremíssima direita, que conquistou quase 20% dos votos) está dividida, e um pouco perplexa, entre liberais e socialistas, mais ou menos europeístas. Na linha do que vamos, tu e eu, Princesa, conversando, deu-me gosto e gozo ler um artigo no meu "Réveil" do Courrier International desta manhã, intitulado: En Pologne, rire des hommes politiques plutôt que déprimer. É melhor rirmo-nos dos homens políticos do que entrarmos em depressão.

 

   Referem-se vários espetáculos, programas televisivos e ditos humorísticos, numa Polónia governada pelo PiS, Partido Direito e Justiça. Desde o espetáculo de cabaré Pozar w Burdelu ("Há Fogo no Bordel") ao televisivo Make Poland Great Again! (lembro-me de já ter ouvido algo parecido...) ou, ainda, uma adaptação da série americana Saturday Night Live. Tudo modos de rir dos poderes e das oposições, assim desdramatizando situações e conflitos, reduzindo megalomanias imperiais à dimensão, pequena mas humana, dos Smith sem providencialismos. Tentativas de chamar o bom senso à ribalta, através do riso que, em minha opinião, é, muitas vezes, o remédio dos sábios: abre portas à sageza, ao sentido de justa proporção, ao espírito livremente crítico, à alegria da responsabilidade.

 

   [Gosto muito, no discurso do papa Francisco, dessa insistência em tudo referir à alegria: a da boa nova, a do amor, a da aprendizagem e, já agora, digo eu, porque não?, à da responsabilidade, isto é, do dever em consciência cumprido.]

 

   [Ucha Prezesa ("O Ouvido do Presidente"), de que vi um episódio pelo YouTube, brinca com uma presidência diáfana e inefável, mas tentacularmente presente, e com os seus respetivos sequazes e opositores. Este Presidente não é o da República, Andrezj Duda, mas a eminência parda, Jaroslaw Kaczynski, líder do Partido Direito e Justiça. Todos acabam por não saber bem a quantas andam...]

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

    É claro, também, no palco político-diplomático do mundo, que os discursos se assemelham, cada potência se declarando alvo de perseguição pela outra, e vítima de conspirações sucessivas. Estamos em pleno teatro trágico-cómico, de que o episódio Skripal (ainda por cima o homem, ao que consta, era espião duplo...) é lamentável cartaz e nem sequer serviu cabalmente para escamotear os vários e graves problemas, que o Reino Unido tem com o Brexit, quer internamente (Escócia e Irlanda do Norte, entre outros; ou o da crescente percentagem de votantes "sim" que hoje se sente aldrabada no referendo), quer externamente (se os parceiros europeus do RU se sentem desagradados, o Brexit encontra dois aliados (promotores?) estranhos: EUA e Rússia). Além disso, quiçá tivesse sido mais prudente, e certamente mais inteligente, apontar-se sem formar culpas o gravíssimo incidente de tentativa de homicídio com arma internacionalmente proibida e reclamar-se a condenação internacional do mesmo, solicitando-se a organização de esforços convergentes de investigação de responsabilidades, que envolvessem todos os possíveis suspeitos. Mas preferiu-se a precipitação e o arremesso de culpas não substancialmente provadas (ainda por cima, ao que consta, o tal gás também já poderá ter sido fabricado no RU...). Bem estiveram o Presidente da República e o Governo de Portugal, tal com muitos pensadores independentes, como Jaime Nogueira Pinto, que se pronunciaram pela independência de juízo portuguesa. Não sou, nem quero ser, comentador político. Ao conversar epistolarmente contigo, Princesa de mim, falando destes temas, procuro apenas olhá-los caleidoscopicamente. Assim, sobre o caso Skripal em geral, e a posição até agora assumida pela diplomacia portuguesa. E não esquecendo que Theresa May talvez se tenha lembrado de Margaret Thatcher que, nos finais dos anos 70, para distrair a opinião pública da dureza da sua política relativamente aos mineiros grevistas, ressuscitou o caso Anthony Blunt, que chegara a ser conservador das coleções de arte da Coroa britânica e professor consagrado e condecorado, mas fora comunista na juventude, e não só, mesmo chegando a ser espião por conta da URSS, em tempo de guerra.... [Ele pertencia, tal como Kim Philby e Guy Burgess, ao célebre Grupo dos Cinco de Cambridge]. Tal como tenho memória fresca de notícias sobre a brutalidade com que Putin pode tratar oponentes e adversários...

 

   A chamada "Guerra Fria" sinalizava um clima de tensão entre duas grandes potências e seus respetivos aliados, cada grupo constituindo um bloco ideológico, político, económico e militar, em que, felizmente, a diplomacia ia tendo umas oportunidades de intervenção, sobretudo devido à memória amarga que, de um lado como do outro, os povos guardavam da barbárie da 2ª Grande Guerra, bem como à consciência generalizada de que qualquer conflito à escala global poderia implicar o recurso a armas nucleares, cujo poder de destruição, até essa altura, "apenas" fora testado em Nagazaki e Hiroshima, pelos americanos. Foi-se, pois, fazendo friamente a guerra, como quem joga num tabuleiro de damas ou xadrez, colocando agentes e conflitos em palcos alheios. E fazendo batota, claro, cada jogador dispondo redes de espionagem e procedendo a "execuções" cirúrgicas, independentemente de se ser ditadura ou democracia a dar ordens: entre muitos outros, incluindo franceses e israelitas, e não só, foram-se celebrizando KGB, CIA ou M15 e 16... A autêntica competição, todavia, situava-se sobretudo na corrida ao armamento e no desenvolvimento das tecnologias inerentes ao complexo militar e industrial, designadamente no domínio espacial. Em tudo isto, o que contava era o campeonato, as ideologias eram para esquecer. O problema maior, para cada concorrente, era o financiamento da aventura. Neste capítulo, o capitalismo liberal mostrou-se mais capaz de resultados do que o capitalismo estatal. E, para o que ao tema nos traz, Princesa de mim, não foi despicienda a participação de um maior número de democracias na globalização e incremento das trocas comerciais. A vitória "ocidental" deveu-se ao desafogo económico conseguido, que não só beneficiou os países participantes, como fomentou um mimetismo político-económico na zona comunista, assim levada a promover glasnost e perestroika...

 

   "Roma e Pavia não se fizeram num dia", tampouco se desfazem, de hoje para amanhã, mazelas e cicatrizes deixadas pela "guerra fria"... Mesmo no subconsciente popular vão ficando referências como "Europa de Leste", mais com carga ideológica e política, e até de sinónimo de barbárie, do que simplesmente apontando um posicionamento geográfico... Por essa e outras se vai mantendo um clima mental de guerra fria, apesar do fim do bloco soviético e do crescimento de relações a vários níveis e em muitos campos, desde a agricultura ao comércio, das infraestruturas aos combustíveis energéticos, artes e futebol. Curiosamente, aliás, os maiores investimentos financeiros em clubes de chuta a bola muito populares em países como o Reino Unido, a França, etc., têm acentuada origem em magnates árabes, chineses e...russos! E olhemos para as bandeiras nacionais dos países de leste, alguns dos quais hoje membros da UE, que ostentam símbolos heráldicos de passadas monarquias e impérios (reparaste, Princesa, nas cruzes e águias bicéfalas exibidas sobre edifícios públicos de Moscovo e S. Petersburgo?), e prestemos atenção às razões que levam alguns deles a eleger governos nacionalistas que, no "ocidente", seriam de direita-direita. Sofreram quase meio século de dependência e humilhação, não tiveram, depois, como a RDA, uma outra metade abastada no lado de lá (de cá, para nós) que os ajudasse a mais fácil integração num regime socioeconómico diferente. Ainda por cima, tiveram de passar por crises de confiança e identidade... As sociedades não se transformam por toques mágicos nem eletrónicos ou informáticos. Os povos, além de resistentes, são resilientes (qualificativo que, como bem sabes, Princesa de mim, é hoje empregue pelos nossos políticos com significação algo confusa...). O fim da "guerra fria", Princesa, permitiu e promoveu uma corrida aos  armamentos mais alargada, a emergência de mais potências regionais, algumas com tentações evidentes de interferência a nível global... A guerra mundial de hoje é, como foi na "guerra fria", uma semear de conflitos parciais, com a diferença de que as grandes potências - que sofreram revezes, como os EUA no Vietnam e a URSS no Afeganistão  -  têm agora de procurar fomentar alianças ou blocos regionais, retirando os seus próprios peões da liça : pensa, Princesa, no recente entendimento russo-turco-iraniano sobre a Síria, em simultaneidade com o anúncio de retirada de Trump.

 

   Mas também guardo, para carta por seguir, uma reflexão sobre a Europa e o que nela já foi, é hoje, e poderá ser ocidente e oriente, sem esquecer essa ideia inicialmente alemã da Mitteleuropa (título do livro do geógrafo Joseph Partsch, publicado em 1904), que até serviu para desenhar um espaço político a separar a Europa da Rússia, nação europeia, cujo estado ocupa o maior território nacional do mundo, quase todo na Ásia, de que a Europa apenas é uma península dela separada pelos Urais... 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Entendeste bem o significado das minhas duas últimas cartas sobre imperadores e providencialismos. Não busco ninguém em particular, apenas evoco exemplos de como as chamadas figuras importantes, sobretudo as que consideramos históricas, têm sempre duas existências: a real, aquela que foi ou ainda é facto, e a mitológica, essa que se fabricou, fabrica, e finalmente perdura no imaginário das pessoas. [Nota que isso pode acontecer com gente medíocre, como muitos que povoam a via láctea do empíreo político português]. A primeira é bastante desconhecida, ignota, secreta ou, melhor ainda, como diz o povo, só Deus a conhece. Nós, o vulgo, procuramos descobri-la pela recolha de informação ou por investigação histórica, mas dificilmente lá chegamos, ainda que possamos progredir numa compreensão mais objetiva e honesta de personagens e acontecimentos. Já a segunda, quando não é construção nossa, nem faz parte do nosso património cultural valorativo, pode ser livremente interpretada e (des)valorizada, mas não a controlamos: será mais um dado de facto, um fator condicionante dos eventos sociais que tentamos perspetivar e analisar. E, neste caso, a pessoa mitológica é realmente persona, isto é, muito mais ficção ou ator do que ser humano em carne e osso. Eis como a vida política é tão encenada.

 

   E, em política, constrói-se assim uma personagem muito complexa na sua aparente simplicidade de líder. No subconsciente dos grupos sociais obram desilusões e ressentimentos, nostalgias e recordações de perdas, que se tornarão em reclamações e desejos de desforra, em aspirações a grandezas imaginadas e reformas genéticas de passados por completar, se puderem incarnar-se na persona providencial e daí apelarem a todos os corações. Tal "ungido" de muitos procurará então valer-se das legitimidades necessárias à sua afirmação e ao seu percurso. Sobretudo à dos valores históricos e constitutivos de uma nação, incluindo a fidelidade religiosa. Casos claríssimos são o de Putin com a Igreja Ortodoxa Russa, o de Modi com uma versão hindu extrema e exclusiva do hinduísmo, ou de Erdogan, disfarçado de Ataturk (mas ao contrário), e outros vários líderes islâmicos, e o dos governantes ditos populistas em países europeus, incluindo os membros da UE situados no Leste europeu que constituem o grupo de Visegrad (Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria), apelando ao nacionalismo eurocético, às suas tradições étnicas e religiosas. É claro que o atual jogo russo não os deixa indiferentes, mas pensossinto, Princesa de mim, que se sentem um pouco órfãos: ali mesmo onde passava geograficamente a Cortina de Ferro, avolumam-se hoje promessas por cumprir, a par de sonhos de identidade a recuperar. [Talvez por isso o papa Francisco - que tão energicamente tem reclamado o acolhimento de migrantes pela Europa - tem sido bastante discreto a questionar estes países...]

 

   Mas, além dos exemplos apontados e alguns mais, não esqueçamos, Princesa, outros "populismos" por aí disseminados que, pouco indigitados, têm todavia o que se lhes diga em matéria eleitoralista e suas consequências, mesmo na política internacional. Curiosa ilustração é o movimento sionista ou messiânico cristão, nos EUA, do qual aliás te falei numa das minhas cartas sobre Jerusalém, quando referia um discurso do vice-presidente Pence. Já então deixei claro que tais cristãos milenaristas partilham, com os sionistas judeus, a crença de que, no fim dos tempos, a Terra Santa ficará totalmente na posse do Povo de Israel, pois que lhe está prometida na Bíblia, e então virá o Messias. Na cena final, as duas fés divergem quanto à questão de o Messias regressar ou vir finalmente pela primeira vez e, sobretudo, quanto a quem sofrerá a conversão final: se todos os judeus ao cristianismo, ou se os cristãos ao judaísmo. O certo é que os sionistas cristãos apoiam e financiam a ocupação da Palestina pelo estado de Israel, e exercem pressão influente sobre o presidente Trump quanto ao reconhecimento de Jerusalém como sua capital. Imagina, Princesa de mim, que até aludem à oxigenada poupa trumpista como evocação da cabeleira do rei David, descrita na Bíblia. Tudo isto nos faria rir imenso se, com John Bolton a Conselheiro da Segurança Nacional, depois do ex-CIA Mike Pompeo a Secretary of State, os EUA não estivessem tentados a ir para a guerra ao lado de Israel, até porque cada um dos grupos milenaristas acredita que será inevitável a destruição bélica do terceiro lugar mais sagrado do Islão, hoje sito onde, no longínquo outrora, estivera localizado o Templo de David e Salomão. 81% desses cristãos sionistas votaram em Donald Trump nas presidenciais americanas e são-lhe, no conjunto do Bible Belt, um trunfo eleitoral indispensável. 

 

   Já os valores que o atual presidente americano invoca para granjear apoios são populistas, populares com pouca transcendência, pretendendo sobretudo entusiasmar um sonho americano de superioridade mundial e nacionalista (America First), tudo ou muito projetado ao jeito de um empresário obcecado pelo regresso da sua empresa a indiscutível nº1 do mercado, e utilizando métodos semelhantes (vg. os sucessivos despedimentos e substituições de pessoal, sem outra razão que a do quero, posso e mando; ou, ainda, a chantagem negocial). Os seus apoios não são, por isso, institucionais nem históricos (até procura desdizer, maldizer ou destruir outras políticas nacionais recentes). São apostas oportunistas, tal como o trumpista fazer e desfazer de propostas internacionais. Donde os meios de comunicação on line que privilegia.

 

   No seu notável China - a New History (Harvard University Press, 1992), John King Fairbank tem um capítulo sobre o que chama Imperial Confucianism, sucintamente definido como uma amálgama de legalismo e confucianismo: O recurso à violência pelo governante permaneceu sua prerrogativa relativamente ao seu povo como aos seus funcionários. Mas não podia governar apenas pela força e precisava portanto da ajuda Confucionista para mostrar o seu constante propósito moral de benevolência e conduta apropriada. Sob orientação Confucionista, o imperador cada dia cumpria rituais e cerimónias que eram a sua específica função de Filho do Céu. (Today`s White House foto-ops and sound-bites would have seemed quite natural to him.) A ironia da frase final, que deixei propositadamente em inglês, sugere e disfarça uma semelhança e um abismo. Paradoxal simultaneidade, uma tendo a ver com os métodos de publicitação de atos políticos, o outro separando a durabilidade de tradições, ancoradas no subconsciente coletivo, da leviandade do mero "marketing" político. Reparaste já, Princesa de mim, nos grupos que rodeiam Trump, na Casa Branca, para as fotografias de promulgação de um decreto? No anúncio de medidas protecionistas, até estavam figurantes operários de várias etnias, incluindo hispânicos de tez e feições claramente meso americanas... A primeira grande diferença entre a RPC e os EUA, hoje em dia, é que a primeira tem consciência das opções de política interna necessárias e possíveis ao crescimento económico e ao desenvolvimento humano e social da China, e dispõe do poder político suficiente para as pôr em marcha. A segunda é que a própria noção dessa vantagem, enquanto ordenada pelo poder político, está inculturada no seu povo e é por essa mesma cultura popular disciplinada, sendo o "show off", o "marketing" político mais arte para o exterior, exposição de fachada. Mas com clara perceção do mundo hodierno, onde terão de investir, ser investidos, comprar e vender, pois há muito já entenderam que o declínio da potência chinesa começou quando a dinastia Ming desistiu da expansão... Esta atitude é mais uma vantagem competitiva sobre a trumpista política supremo-isolacionista. A China dos nossos dias sente-se preparada e pronta para entrar na globalização, muito à sua maneira, é certo, mas também com a força necessária para participar no concerto das nações. E um concerto, como bem sabes, Princesa, é um conjunto de instrumentos vários e frases musicais que se afrontam e desafiam, tendo por fim a harmonia. Em carta futura te falarei dum conceito chinês milenário, que dá pelo nome de tianxia, uma visão do mundo como um todo, onde se apaga o sentimento de estrangeiro ou de inimigo. Conceito hoje retomado pelo filósofo Zhao Tingyang, quiçá em vias de aproveitamento pelo poder político chinês, para afirmação universal do seu nacionalismo.

 

   A grande vantagem da China hodierna, pois, é a sua cultura milenária dispor um povo à obediência e dispensar excessos de "marketing" político para uso interno. E, curiosamente, esse profundo sentimento de identidade parece estar a dar-se muito bem com as perspetivas duma entrada mais descontraída nas cenas que estão em palco no mundo... Da música clássica ao futebol e à "loja do chinês", do turismo à filosofia. E mesmo, até, às relações com o Vaticano, que talvez redefinam uma nova forma de cristianismo parcialmente cesarista, a juntar, historicamente, à moda romana antiga, ou à bizantina, ou à ortodoxa russa... E, no caso específico da guerra comercial que os EUA iniciaram, a China aguentar-se-á bem melhor a prazo.

 

   Este último cesarismo ou tzarismo é o que Vladimir Putin, com alguma habilidade, e bastante violência ao jeito soviético, mas também com raízes na antiga autocracia imperial, procura ressuscitar numa Federação Russa economicamente esgotada e militarmente ultrapassada. Aliás, com recurso a métodos de fácil paralelismo com os trumpistas. Por exemplo - conta-nos o jornalista russo independente Mikhail Zygar (num livro publicado em francês pela Cherche Midi, intitulado Les Hommes du Kremlin) - que o homólogo de John Bolton é hoje um ex-chefe do FSB (ex-KGB), Nikolaï Patruchev, o novo Secretário Geral do Conselho Russo de Segurança, o principal falcão da Rússia, assim como ponta de lança do anti ocidentalismo e do anti americanismo no seio do poder russo. Curiosamente, Hélène Carrère d´Encausse, a franco-russa (georgiana como Estaline), que foi politicamente próxima de Jacques Chirac, deputada pelo RPR ao Parlamento Europeu, e é hoje Secretária Perpétua da Academia Francesa, autora de um livro que li há décadas e me abriu um olhar novo sobre a URSS (L’Empire Éclaté,  Flammarion, Paris,1978), pediu recentemente (3ª feira, 3 de Abril, na Salle Gaveau, em Paris) que se matizassem um pouco os juízos sobre Vladimir Putin, lembrando que, até 2004, ele fora homem de mão estendida ao Ocidente (cf. Le Figaro de 5/4/2018)...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

UM MINISTRO IMPOLUTO…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXVI) - 26 de agosto de 2017

  

No último Diário de Agosto («Acautelem-se os Anéis de Saturno») falava-se de um caso, bastante comum, infelizmente, de acusações difamatórias e da circunstância de tantas vezes os ministros da Fazenda serem acusados das mais torpes faltas ou intenções… só que também há a registar os casos edificantes, dignos de elogio.

 

Anselmo José Braancamp foi definido no «Álbum das Glórias» de Rafael Bordalo Pinheiro como «de vidro» - por ser macilento, com ar branco e doentio, mas sobretudo por ser transparente e seriíssimo.

 

Um dia, sendo Anselmo José ministro da Fazenda, o Tesouro foi chamado a pagar uma importante amortização da dívida pública, para que não havia disponibilidades de caixa. Perante tão séria dificuldade, envidaram-se os mais diversos procedimentos, mas sem sucesso. Como pagar? Então, o ministro solveu do seu próprio bolso a amortização em falta – no que correspondeu inteiramente à fama que tinha ganho de político impoluto e de cidadão exemplar…

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

ACAUTELEM-SE OS ANÉIS DE SATURNO…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXV) - 25 de agosto de 2017

 

A imprensa do século XIX era palco de severas, normalmente violentas, acusações pessoais, que andavam perto da difamação, quando não punham seriamente em causa a dignidade dos alvos do tiroteio político…O pior era ocupar a pasta da Fazenda. Quem fosse apanhado no lugar era certo e sabido que se tornava bombo de festa. O menos que os jornais da oposição diziam era que a vítima teria ido aos cofres do Estado...


Aconteceu que Mariano de Carvalho foi nomeado ministro da Fazenda. Emídio Navarro era um proeminente membro da oposição a esse governo e dirigia o jornal «Novidades», na altura particularmente verrinoso.


Mariano de Carvalho saiu de ministro da Fazenda e foi ocupar o lugar de Diretor do Observatório Astronómico. O Emídio Navarro deu assim a notícia no jornal: “O Senhor Mariano de Carvalho deixou a pasta das Fazenda e foi nomeado diretor do Observatório Astronómico. Lá vai ficar Saturno sem os anéis…”. 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

LONDON LETTERS

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So, what’s next? - June 2017

 

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What election! What result! And, what a mess! RH Theresa May MP forma um novo governo, minoritário em Westminster e com 20 Remainers + 7 Brexitters, após uma shocking election que deixa os Tories à beira de um ataque de nervos. Os Conservatives perdem a anterior maioria na House of Commons, ensaiam um acordo com o Democratic Unionist Party (o DUP que governa Northern Ireland) e deixam Comrade Jeremy Corbyn e o seu Labour Party aos portões de Downing Street num hung parliament. Na prática, e apesar da presente fortitude, a senhora mantém o top job mas perde autoridade. — Chérie. Il n'y a que le provisoire qui dure. A soma dos votos apresenta outro desfecho imprevisto, para além do êxito relativo dos trotskystas. Resolve problema interno maior. Os independentistas de Scotland igualmente perdem a hegemonia no plenário de Holyrood. — Well-Well-Well, indeed. Já Brussels e Berlin mantêm o calendário da Brexit. Além Atlantic, perdura a Trump soap. Washington rasga o Paris Climate Treaty. Meanwhile, o US President e o diretor do FBI que ele despediu, Mr James Comey, trocam galhardetes em Capitol Hill. O En Marche! do President Emmanuel Macron triunfa nas eleições parlamentares gaulesas, certificando o óbito dos partidos tradicionais da Ve République. Em Russia, as manifestações anti-Putin regressam às ruas e os protestantes às prisões.

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Sunny and hot, very hot, days at Central London
. A #2017 General Election deixa o reino atónito e muitas stony faces nos corredores de Whitehall. O esperado passeio da coroação thatcheriana de The Right Honourable Theresa Mary May MP simplesmente não acontece, apesar dos históricos 43% obtidos nas ballot boxes. Uma two horses race deixa o rival Labour Party com 40% e esfuma a força dos pequenos partidos. Ora, tudo se afigurava diferente a 25 April, quando The Gazette publica a proclamação de Her Majesty Elizabeth II “appointing Thursday the 8th day of June 2017 as the polling day for the general election of the next parliament.” Os Tories lideram nas sondagens por 20-22 pontos, face a uma Loyal Opposition ocupada a digladiar-se entre Corbynists e Blairites. Sobrevém o inesperado. Uma longa campanha de oito semanas pára duas vezes por causa de três sangrentos atentados jihadistas, em Manchester e em London, após caos generalizado no serviço nacional de saúde gerado por um ataque informático global. Os conservadores apresentam então infeliz e austeritário programa para a bolsa dos comuns. Sir Humphrey Appleby diria ser “a brave manifesto.” Neste contexto surge a receita populista para vencer sufrágios: energizar os fiéis ante a paralisação dos opositores, aumentar as expetativas dos adversários e prometer… utopia to the working class. Só no último dia das lides, para ganhar o voto jovem, e foram dois milhões de novos eleitores, o líder trabalhista perdoa as dívidas estudantis após hastear a bandeira das free tuition fees. Na noite eleitoral, todas as cidades universitárias votam vermelho. Se o secular azul de Canterbury cai, a cereja no empolado bolo de Red Jezza é ainda mais luzente. Seduzido por verbo revolucionário, o Royal Borough of Kensington elege um camarada. But, recordando os gloriosos Monty Python – He’s not The Messiah. He’s a very naughty boy.

 

A mais estranha campanha eleitoral de que há memória tem efeitos tanto no futuro incerto da PM e do partido no poder, como também na internamente contestada liderança do Labour Party, quanto, e sobretudo, no rumo das negociações da saída do UK da Eurpean Union. Os Remainers aproveitam a ocasião para reeditar pela enésima vez um estafado argumentário face a um já mais que agastado eleitorado. Nas urnas, porém, sumido o Ukip, até o arqui europeísta RH Nick Clegg perde o emprego como MP de Sheffield Hallam (South Yorkshire) pelos Liberal Democrats. Igual fim têm outros pesos pesados, desde logo entre os contrários escoceses, como RH Alex Salmond em Gordon (Aberdeenshire) ou RH Angus Robertson em Moray, nada menos que os ex líder e chefe da bancada do Scottish National Party em Wesminster. Com os 10 MPs de Northern Ireland na porta grande do Westminster system, por via do apoio governamental do Democratic Unionist Party, as Highlands têm agora uma nova referência: RH Ruth Davidson, a Tory MSP que conquista 12 postos aos independentistas. Não espanta que perante este complexo xadrez nacional, pela primeira vez na história parlamentar do reino, o Queen’s Speech anunciado para a proxima semana esteja sob risco de adiamento, o mesmo podendo acontecer à abertura dos tratos da Brexit agendados para 19th June.

 

Mrs May assegurou tréguas internas num partido em deep unhapiness e está de partida para Paris a fim de acalmar as águas continentais. Durante o fim de semana, enquanto o Labour Party se declara pronto a governar com equipa marxista e programa sul americano de renacionalizações, a new old PM reganha a iniciativa política. Forma um segundo Cabinet com maioria de Remainers à volta da mesa e assume responsabilidades pelo desastre eleitoral perante o poderoso Tory 1922 Committee: “I'm the person who got us into this mess, and I'm the one who will get us out of it.” Sustentada graças à cortesia dos Scott Conservatives e dos Irish Unionists (Needs must, of course), a posição da Prime Minister é delicada: se sinaliza razoabilidade nas euronegociações conduzidas pelo intacto trio dos Brexiters (RHs David Davis, Boris Johnson e Liam Fox), o porta voz do Number 10 rapidamente informa que “Government policy remains the same on Brexit, migration and the deficit.” Falhado o ensaio eleitoral do Red Torysm, em suma, num astonishing state of affaires, resta agora apurar quão fundo tem presente a sucessora de Baroness Margaret Thatcher em Downing Street uma imortal lição do fundador da Ve République Française: "No Nation has friends, only interests."

 

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Sob a memória do General Charles De Gaulle, a quem Lady Clementine um dia disse "General, you must not hate your friends more than you hate your enemies," chega às salas a mais recente versão cinematográfica de Churchill. O filme recua à darkest hour, quando o reino defronta as forças nazis que dominam o continente europeu. Estamos em 1944 e eis-nos catapultados para behind the war for freedom. O drama dirigido por Mr Jonathan Teplitzky cedo surpreende com incorreções históricas, começando nos peculiares fatos de Sir Winston, vestido de gala no encontro decisivo do High Command, mas acaba por atrair na incontornável dimensão épica. Estamos em 1944 e seguem-se as graves 96 horas que rumam ao D-Day de 3 June e ao discurso “We shall never surrender.” Tal como na Operation Neptune brilham os heróis das Normandy landings, salvam aqui as interpretações de Mr Brian Cox (W Churchill), Mrs Miranda Richardson (Clementine), Mr John Slattery (Gen. Dwight D. Eisenhower), Mr James Purefoy (Gen Bernard Montgomery) ou Mr Julian Wadham (King George VI). O guião é pobre, todavia. — Hmm. Let us all remember how Master Will in The Tempest portrait the quest for autonomy after dilemmatic Prospero’s decisions: — “As you from crimes would pardoned be, / Let your indulgence set me free."

 

 

St James, 12th June 2017
Very sincerely yours,
V.

 

 

LONDON LETTERS

 

An optimistic speech, 2016

O mínimo que se pode dizer das suas palavras na DePauw University, nos United States, é revelarem misto de fortitude, reserva e juízo fino. A heróica atitude marca também. É o primeiro discurso público de Sir David Cameron após abandonar o 10 Downing Street, na sequência da derrota no euroreferendo.

A incrível polarização que o ato revela e o populismo reativo que lhe custa a cadeira do poder, levam agora o antigo PM a apelar aos líderes políticos que corrijam a rota do West. — Chérie! Une bonne action n'est jamais perdue. De reforma fala justamente o Engenheiro António Guterres na posse como Secretary-General das United Nations. Ao lado, na New York Public Library, pedem-se “gatekeepers of sense” e ecoa atónita interrogação do Nobel Professor Paul Krugman: “What’s going on?” Entre o 23rd June e a Time’s Person of the Year, aquém e além Atlantic Ocean, vários ensaiam explicar os extraordinários eventos políticos de 2016 e os desafios do próximo futuro. Fio comum nas prédicas sobre o volátil estado do mundo é a kind of high class group think no desfiladeiro aberto entre a elite global e os locais comuns. — Hmm! Is yet a word to the wise enough? O Supreme Court prepara o Brexit verdict para January e Mrs Theresa May ocupa Westminster. Os Conservatives vencem a eleição em Sleaford & North Hykeham, secundados pelos ukippers e remetendo o Labour Party para terceiro lugar. O US President-elected DJ Trump envolve-se em nova controvérsia, desta feita com a CIA, ao desmentir a agência sobre alegada perturbação informática russa nas eleições. O Isis volta a atacar Palmyra, sendo repelido por aviões de Moscow, enquanto o governo sírio ultima a vitória militar em Aleppo. Europe e Italy esperam o novo governo de Mr Matteo Paolo Gentiloni.

Gently low cloud rains but still a cold London. A tradição convida a voto de a Christmas Eve with balmy snow. Daí a surpresa do novo elo à Christ-Mas (ler Midnight Mass Communion Service). A frase em volta é agora: Please, please, do not go on strike. It is Christmas. Nem menos! Ambos por excêntricas questões, os sindicatos do Post Office e do Southern Rail enveredam pelo grevismo e espargem deslocado infortúnio na vida de milhões. Se os ferroviários usam servir descontentamento no travão à modernização e a engenhosa empresa strongly advise os passageiros a não viajar durante a paralisação, é a greve de cinco dias nos privatizados correios que cá empalidece com a ideia de atraso nas cartas familiares e cartões de amizade. O desapontamento aqui, colhe acolá. Nove em cada 10 conservadores creem que a radical estratégia unionista do Labour de RH Jez Corbyn lhes concederá a maioria nas próximas eleições gerais no reino. A Tory hopefulness é ainda a nota dominante nas perspetivas globais traçadas nos States por discreto RH David Cameron… após defender a sua própria decisão de convocar o referendo britânico que tudo começa a mudar.

A palestra aos estudantes da Depauw University atrai atenções e segue passadas ilustres. Em Neal Fieldhouse, a 40 milhas de Indiana, discursam ao longo dos anos os honoráveis exs Mr Tony Blair, Mr Bill Clinton e Mr Mikhail Gorbachev. Rever Sir Cameron em público, tão igual e tão diferente, obriga a pensar na vertigem que sempre é a ascensão e queda do poder. Há apenas seis meses atrás, estimava o autoritativo residente no Number 10 gerir cuidada saída do Westminster castle até 2020. Um só voto popular lança-o para o percurso dos has been. Ei-lo na DePauw's Timothy and Sharon Ubben Lecture Series ainda em ensaio explicativo dos acontecimentos. O título do seu discurso, "The Historic Events of 2016 and Where We Go From Here," abre significativamente: "Obviously the first question that you ask in response to that is how on earth did we get here?" Por instantes toca o ex PM no essencial que motiva as gentes a abraçar o desconhecido quando já se sentem estrangeiros na sua terra. Aponta o “Euro turmoil” e o “movement of unhappiness” para se deter no "cultural phenomenon" que levanta os “political headwinds that shifted this year” entre as forças do populismo e do extremismo. Nos termos cameronianos:  "In some of our countries the pace of change has been too fast for people to keep up with.  People are concerned that the country that they're living in is not the country that they were born into, and they see that change as happening too quickly.” Daí o oxoniano apelar a elementar regresso aos valores ocidentais das democracias liberais, "values of democracy, values of market economics, values that have undoubtedly improved the world and our countries' place within it." Neste back to basics enfatiza o Tory man que, "as someone who is pro-globalization, pro-immigration, pro-market economics, […] we have to understand these two phenomenon and make a major course correction if we're going to keep on the path to a successful globalization from which we can all benefit."

 

Pelas ilhas quase tudo decorre já nas vestes epocais. Charles of Wales e a Duchess of Cornwal madrugam no envio de um caloroso cartão de boas festas, mas o Prince Andrew of York antes se ocupa com “a number of stories” que andarão por alguns reportes menores acerca dos Royal titles. O executivo passa na House of Commons categórico voto sobre The Government’s Plan for Brexit, com 448 Ayes e 75 Noes. Em nome da Prime Minister, o Sec of State RH David Davis ganha o dia sem especial esforço. RH Boris Johnson regressa às manchetes por denunciar as “proxy wars” financiadas por sauditas e iranianos, momentos antes de rumar para o Arabian Golf em missão de alta diplomacia. Para a eternidade parte nestes dias um jornalista maior: AA Gill (1954-2016), cuja última crónica no The Sunday Times reafirma que redigir com estilo e eloquência é intrínseco a quantos respiram a palavra e inspiram no mundo das ideias. Um outro gigante que impulsiona para cima o acompanha na viagem galática. Aos 95 morre o astronauta John Glenn, aquele mesmo que, em 1962 February 20, durante cinco memoráveis horas, pela primeira vez orbita a azul esfera terrestre e comunica “the beautiful view.” — Well. Remember also that great admirer of the skies as is ours Master Will, born in the same year of Messer Galileo, on the real worth of planets vs meteors in his Sonnet 14: — Not from the stars do I my judgement pluck, / And yet methinks I have astronomy. | But not to tell of good or evil luck, / Of plagues, of dearths, or season’s quality; / Nor can I fortune to brief minutes tell, / Or say with princes if it shall go well.

 


St James, 12th December 2016

Very sincerely yours,

V.

LONDON LETTERS

 

The Crown, 2016

 

I am a little bit confused! Ergue Cuba contra quem o desconhece, elimina quantos vê como obstáculo, mata quem lhe tenta fugir, tortura opositores e dissidentes, silencia jornalistas ousados.

Alguma direita toma-o como um icónico vilão e alguma esquerda com RH Comrade Jeremy Corbyn incensa-o como “a social justice hero.” Romantizado por uns e vilificado por outros, libertador ou tirano do seu povo, morre o último dos grandes revolucionários marxistas do 20th Century: El comandante Fidel de Castro (1826-2016). — Chérie! Le temp c’est le grand sculpteur. O Governor do Bank of England ultima planos para a reunião de 14-15 December do European Systemic Risk Board. Mr Mark Carney leva consigo propostas de arranjos comuns em torno da Brexit. — Well! In Peace: Goodwill. HM Government lança um Green Paper com medidas para cortar na corporate greed e reequilibrar o pay gap. O republicano Speaker da House of Representatives quer um tratado comercial USA-UK, contrastando com o obamiano back of the queue. Mr Paul Ryan soma ao President-elected Donald J Trump na abertura atlântica. Também Europe se move. A bandeira do free global trade triunfa em France, com Monsieur François Fillon nas primárias da direita, enquanto Italy treme com o referendo constitucional que ameaça o PM Matteo Renzi. A Netflix completa a série The Crown. No mais, call to Brussels: Tell me how much, please!?

 


Cold and bright days
at Central London. À luz da vaporosa consistência da ideological war que acompanha o passamento do Signor Fidel de Castro, do tipo o nosso tirano é melhor que o vosso, mesmo que em linha dinástica de um despotismo no poder, esquecido já o ideal da Sierra Maestra e talvez rumando para uma Cuba Libre lavrada por aleatórias forças em economia de mercado, quase se entenderá a sanha antidemocrática da triádica conjura: Deny, delay, subvert. A manobra de sabotagem do Brexiting está a céu aberto, com cavar das trincheiras. Em contraste com digno silêncio de Sir David Cameron, que na demissão do No. 10 extrai lição dos resultados do voto de 23rd June, surge o antigo PM RH John Major a secundar o ido sucessor RH Tony Blair em pedido de um segundo euroreferendo durante renovada chuva de fumegantes meteoritos estatísticos. Também de Brussels vem peculiar manobra. Mr Guy Verhofstadt, um dos EU Parliament's lead Brexit negotiators, quer que os Britons mantenham a cidadania europeia caso queiram e a paguem. A retórica envolvente é forte: acenam com tocquevilleana “tiranny of majority,” fustigam com a ignorância do eleitorado, acionam as roldanas de transmissão e constituem-se como abrigo para os “political homeless.” Vozes amigas dizem duas palavras a tais protagonismos tardios: “Edwina” e “Chilcot.” Receio, porém, que venha aí dilúvio eleitoral, a marear até a forma da House of Lords. Não dissertando sobre nova consulta escocesa, cabe recordar, com The Right Honourable Edmund Burke (1729-97), que “all that is necessary for the triumph of evil is that good men do nothing.”

 

Mas conversemos de coisas diferentes. Após atraso ditado por hectic days visiono The Crown. Com a certeza de Victoria na ITV mas ainda com o desapontamento da Royal Night Out na retina, eis cauto espectador imparcial face à série televisiva de 10 episódios produzida pela Left Bank Pictures para a Netflix. By the way, where is the BBC?! Criada e escrita por Mr Peter Morgan, o autor teatral de The Queen e The Audience, será nova dramatização sobre os Royals das vésperas da era elizabetheana até ao fecho nos dias do fim de Sir Winston S Churchill em Downing Street. O gelo fragmenta-se aos primeiros acordes de soberbo Herr Hans Florian Zimmer (Madison Gate Records). O senhor cria extasiante tema, quase um hino à Royal House of Windsor, que ressoa na filigrana da coroa como se contido crescendo abrir de mítica flor de lótus. Com ouvidos abertos, sucedem-se familiares tramas da providencial ascensão de HM Elizabeth II. A morte de George VI (Mr Jared Harris) e a sombra do Duke of Windsor (Alex Jennings) nunca perdoado da abdicação, os amores da Princess Margaret (Vanessa Kirby) e o jovem casal Lillibeth e Philip Mountbatten da House of Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg (Claire Foy e Matt Smith). O que se narra interessa ranto quanto aquilo que se apaga. No aprendizado da arte de reinar avulta a figura dominante do Last Lion, protagonizado por um Mr John Lithgow cuja estatura obriga a elevar a altura da porta do 10, mas sobretudo ecoam palavras da Queen Grandmother Elizabeth (Victoria Hamilton): “Monarchy is God's sacred mission to grace and dignify the earth. To give ordinary people an ideal to strive towards, an example of nobility and duty to raise them... Monarchy is a calling from God. That is why you are crowned in an abbey, not a government building. Why you are anointed, not appointed. It is an archbishop that puts the crown on your head, not a minister or public servant. Which means that you are answerable to God in your duty, not the public.”

Últimas palavras para a great party havida em London, na qual lamentavelmente não participei, em dia do mais recente marco no UK Independent Party. Se cabe um cheers a Mr Paul Nuttal como líder hoje eleito dos Ukipppers, sob bandeira da mobilidade social e em missão nortenha de caça ao voto Labour, atenção momentânea para a festa dos 25 anos do partido em pleno Ritz Hotel. RH Nigel Farage MEP é o anfitrião e os relatos são de viva diversão, entre Coronation chicken e English roast beef, regados com Sparkling wine dos vinhedos no Kent de Lord Ashcroft e ainda com Pol Roger – o champagne favorito de Sir Winston, logo guarnecido pelos seus cigars. Declara quem assiste que high spirits acompanham os hurrahs às vitórias do “No” referendário e de Mr DJ Trump nas presidenciais norte americanas… a par dos chocolates Ferrero Rocher. — Wow! Well declares Master Will in The Merry Wives Of Windsor: — Why, sir, for my part I say the gentleman had drunk himself out of his five senses.

 

St James, 28th November 2016

Very sincerely yours,

V.

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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   Minha Princesa de mim:

 

   A Regra que governava os Templários teve certamente forte influência de São Bernardo, o ritmo dos dias conventuais era marcado pelas horas canónicas ou ofícios divinos, as celas eram sóbrias, o silêncio era disciplina geral, só a dieta lhes permitia maior consumo de carne: afinal, se frades eram, guerreiros lhes cumpria ser, precisavam de forças... Será difícil para um espírito hodierno entender essa obsoleta figura de monge guerreiro, em que se confundem a vocação religiosa e a militar ou bélica.

 

   As cruzadas devem ser entendidas à luz das sociedades e dos sobressaltos da época: dois séculos depois da queda do Império Romano do Ocidente, ou latino, a Europa debate-se numa barbárie caótica, de que irá procurar sair, sobretudo por força da cristianização dos bárbaros e do labor civilizacional da Igreja. E o surto islâmico irá conquistar e ocupar, não só os territórios africanos e palestinos do Império, mesmo os que sobraram para Bizâncio, como muitos da Ásia Menor, tirados à já Constantinopla e aos Persas. E a Península Ibérica. Sabes, Princesa de mim, como nestes cenários em que a vontade política  - essa afirmação da força do poder temporal e bélico - sobreleva o gosto da paz, tão chão dos povos e dos seus soldados possíveis, e podem ser arrastadas, arrasadas e esquecidas afinidades e pertenças mútuas, amizades e fronteiras aceites de convívio e entendimento...

 

   As Cruzadas, a exemplo da Jihad, foram isso também, mas o que mais me chocou nessa saga foi o orgulhoso afrontamento entre cristãos latinos e gregos... Constantino, dando, em 330, a Bizâncio o nome de Constantinopla, fez dela uma nova Roma, capital do Império. Mas o Império, institucionalizado cristão, guardaria a saudade fundadora do martírio de Pedro na antiga capital-símbolo...

 

   Facto é que o Império Romano do Oriente sobreviveu ao do Ocidente, sendo assim o rei dos reis na terra, o depositário do poder divino da realeza, o imperador bizantino. Mas Pedro, o primeiro papa, instalara-se e fora martirizado em Roma, de que era bispo. Por isso o imperador lhe reconhecia o primado honorífico, e a dado passo chegou mesmo a recorrer à sua arbitragem, sobretudo quando não lhe agradavam ou convinham as sentenças do patriarca bizantino. Por outro lado, não te esqueças de que o próprio São Gregório Magno, grande reformador da Igreja e papa de 590 a 602, se reconhecia, no plano temporal, súbdito do imperador de Constantinopla. Esta circunstância de tensão e animosidade latente - em que a questão da afirmação do poder até no plano religioso, determinou excomunhões mútuas - acabaria por conduzir ao Grande Cismo e, em 1204, à conquista e saque de Constantinopla pelos cruzados do ocidente. 

 

   Todavia, muito embora a coroação, pelo papa de Roma, de Carlos Magno como Imperador tivesse escandalizado o Império Bizantino, este acabara por aceitar que tal dignidade fosse reconhecida aos Carolíngios e, mais tarde, aos Otonianos, ainda que mantivesse a convicção de que, tal como há só um Deus e um só lugar tenente, também o Império é indivisível, pelo que, mesmo tendo o título de Imperador, o do Ocidente não podia ser, como o de Constantinopla, Imperador dos Romanos... Como vês, é sempre a "política".

 

   No plano propriamente religioso, ambas as tradições - romana e bizantina, grega ou latina - professam o Credo dos Apóstolos e comungam no mesmo Corpo de Cristo. Podem divergir em interpretações, calendários e ensino, mas nenhuma é considerada herética pela outra; podem variar formas de culto, línguas e liturgias, mas não esqueças que, no seio da mesma Igreja romana, por exemplo, se celebravam os ofícios divinos de acordo com ritos tão diferentes como o próprio romano, o moçárabe ou o visigótico. Afinal, o cristianismo sempre se deu com aculturações, tal como nunca deixou de sofrer tentações de autoritarismo, de vocação totalitária. Estas explicam o porquê de inquisições e perseguições, sobretudo quando divergências doutrinais pareciam ameaçar determinados processos de consolidação social e política. Há muitas histórias de guelfos e gibelinos, a compita entre papado e império, poder religioso e político, Igreja e Estados foi mudando de forma para permanecer...

 

   O processo dos Templários, a extinção da Ordem pela bula papal Vox in Excelso, bem como a respetiva recuperação pela sucessão atribuída a outras - como a de Cristo em Portugal - é quase vinte anos posterior ao fim da ação dos cavaleiros na Terra Santa, que a perda de São João d´Acre, em 1291 assinala. Resulta da presença templária numa França onde Filipe o Belo afirma o poder real e não gosta da dependência financeira em que a coroa está: na verdade, a Ordem do Templo é então o banqueiro dela. Noutros reinos, como Aragão, Castela e Portugal, o confronto da Reconquista continua e a vizinhança dos muçulmanos magrebinos é um facto. É aí bem diferente a circunstância da milícia templária. 

   Mas tal história fica para próxima carta.

 

       Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira