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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 24 a 30 de agosto de 2020 

 

200 Anos do Constitucionalismo - 24 de agosto de 1820

 

Celebramos duzentos anos da Revolução constitucional do Porto. Quando lemos de Manuel Fernandes Tomás os “Escritos Políticos e Discursos Parlamentares (1820 - 1822)” publicados por José Luís Cardoso (Imprensa de Ciências Sociais, 2020) percebemos que é na Revolução de 24 de Agosto de 1820 que se encontra a matriz perene de uma cultura de cidadania, de liberdade e de salvaguarda dos direitos fundamentais.

 

CNC - 200 Anos do Constitucionalismo – 24 de ago

 

Acontecimentos

No dia 24 de agosto de 1820, na cidade do Porto, grupos militares dirigiram-se pacificamente para o Campo de Santo Ovídio (atual Praça da República) e, depois de uma missa campal, proclamaram solenemente o Manifesto aos portugueses, exigindo a convocação de Cortes para elaborar uma Constituição, na qual se consagrassem a autoridade régia e os direitos dos portugueses. Pedia-se ainda o imediato retorno da Corte, como forma de restaurar a dignidade da antiga Metrópole, além da restauração dos antigos direitos de comércio. Constituiu-se então a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, presidida pelo Brigadeiro António Silveira Pinto da Fonseca, e constituída entre outros pelo Coronel Sebastião Drago Brito Cabreira, pelo Coronel Bernardo Correia de Castro e Sepúlveda, por Frei Francisco de S. Luís, Fernandes Tomás, Ferreira Borges e Silva Carvalho. Em 15 de Setembro o movimento proclamar-se-ia em Lisboa, criando no final do mês a Junta Provisional do Supremo Governo do Reino.

Assembleia Constituinte

As Cortes reuniram-se solenemente em janeiro de 1821 para elaborar a Constituição. Enquanto a Magna Carta estava a ser redigida vigorou uma Lei Fundamental provisória que seguia o modelo espanhol da Constituição de Cádis. No decurso de 1821 a Corte retornou a Portugal, com exceção de D. Pedro de Alcântara, que permaneceu no Brasil como Príncipe Regente, já que persistia, desde 1815, o Reino Unido de Portugal, Brasil e dos Algarves.

Causas da Revolução

Os antecedentes que influíram no movimento de 1820 foram: o rescaldo das invasões francesas; a ausência da Corte no Rio de Janeiro e o sentimento de orfandade política existente; o domínio dos militares ingleses na Regência do Reino (sob o comando de Beresford), agravado pelo sacrifício dos mártires da Pátria em 1817, em especial o enforcamento humilhante de Gomes Freire; os ecos da Revolução espanhola de Cádis de 1812; o movimento sedicioso de Pernambuco de 1817 e a revolta liberal espanhola de janeiro de 1820 que forçou, sem sucesso o juramento da Constituição por Fernando VII.

Constituição de Cádis de 1812

Foi aprovada pelas Cortes extraordinárias em Cádis no dia 18 de março de 1812 e promulgada no dia seguinte (dia de S. José, daí a designação de “Pepa”, diminutivo familiar de Josefina). Foi a primeira Constituição aprovada na Península Ibérica e das primeiras do mundo ocidental, apenas precedida pelas Constituições da Córsega de 1755, dos Estados Unidos da América de 1787 e francesa de 1791.

Constituição de 1822

O mais antigo texto constitucional português iniciou o fim do Antigo Regime e do absolutismo, apesar de uma vigência fugaz, de setembro de 1822 a maio de 1823. Previa a soberania popular, a legitimidade dinástica, a separação de poderes, a independência dos juízes e a inviolabilidade dos deputados da nação no exercício das suas funções. A fragilidade do texto deveu-se à limitação dos poderes reais (tal como a de Cádis), pela ausência dos monarcas no momento da feitura das Constituições.

 

Cortes Gerais da Nação
Em 1824 com a Abrilada e a influência absolutista de D. Miguel verificou-se o regresso das instituições do Antigo Regime, contra a promessa de D. João VI em 1823.

Fernandes Tomás (Manuel) – (1771-1822)
Foi o mais influente dos promotores da Revolução. Magistrado judicial de prestígio, foi o autor do Manifesto aos Portugueses de 1820. Designado como o “primeiro dos regeneradores” é o orador representado na Sala das Sessões do Parlamento.

Ferreira Borges (José) – (1786-1838)
Membro ativo do Sinédrio, jurisconsulto prestigiado. Autor do Código Comercial de 1833

Gomes Freire de Andrade – (1757-1817)
Como comandante militar serviu nos exércitos português, prussiano e francês. Comandou o regimento de Infantaria 4. Participou na Legião Portuguesa de Napoleão na Campanha da Rússia. Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano. Condenado à morte na tentativa de golpe liberal de 1817, foi enforcado em S. Julião da Barra, quando um oficial general, se condenado, apenas poderia ser fuzilado.

D. João VI - (1762-1826)
Vindo do Brasil em 1821, jurou a Constituição de 1822, mas suspendeu a sua vigência em 1823. Apoiou na prática seu filho D. Pedro na independência do Brasil, garantindo a unidade do País.

D. Miguel – (1801-1866)
Combateu o novo regime constitucional, restaurando o Antigo Regime. Foi derrotado na Guerra Civil que o opôs a seu irmão D. Pedro, sendo banido do Reino pela Convenção de Évora Monte (1834).

D. Pedro IV – (1799-1834)
Imperador do Brasil, proclamou a independência (1822). Outorgou a Carta Constitucional de 1826. Durante a Guerra Civil foi regente do Reino (1828-1834) em nome de sua filha D. Maria da Glória.

Porto
Cidade onde teve lugar a Revolução de 1820, base da ação e da vitória das forças liberais de D. Pedro, depois do desembarque dos bravos do Mindelo (julho de 1832). Na Igreja da Lapa da cidade encontra-se o coração do Rei, doado ao povo da cidade invicta.

S. Luís (Frei Francisco de) – (1766-1845)
Religioso beneditino, reitor da Universidade de Coimbra, futuro Cardeal Patriarca de Lisboa, conhecido como Cardeal Saraiva. Nasceu em Ponte de Lima e teve papel diplomático decisivo na causa liberal, representando uma corrente moderada.

Silva Carvalho (José da) – (1782-1856)
Membro influente do Sinédrio e da Revolução. Foi o primeiro Presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Perseguido pelos absolutistas sucederia a Mouzinho da Silveira como ministro da Fazenda de D. Pedro.

Sinédrio
Criado no Porto a 22 de janeiro de 1818 por Fernandes Tomás, Ferreira Borges e Silva Carvalho, entre outros, foi a associação que preparou a Revolução de 1820 e a defesa dos ideais liberais.

Vilafrancada e Abrilada
Em maio de 1823, as forças fieis a D. Miguel e ao Antigo Regime aproveitaram a imposição em Espanha pelas forças da Santa Aliança de Fernando VII como rei absoluto para pressionar D. João VI no sentido da suspensão da vigência da Constituição liberal de 1822. Tal aconteceu, apesar do rei prometer uma Carta Constitucional. No ano seguinte em abril de 1824 os absolutistas imporiam, porém, condições para o regresso absolutista.

Guilherme d’Oliveira Martins

O CENTENÁRIO DO TEATRO DE SÃO JOÃO DO PORTO

 

Novamente abordamos o Teatro São João do Porto, agora no quadro das comemorações do centenário assinaladas para o próximo mês. Justificam-se pois as novas referências, que nos propomos fazer, desde logo a partir da questão prévia, que aliás já tivemos ensejo de aqui lembrar.

 

É que em rigor o Teatro São João, com este ou outros nomes, vinha do século XVIII. 

 

Efetivamente, e tal como temos evocado, cantou-se ópera no Porto desde 1762, no então chamado Teatro do Corpo da Guarda, o qual se situava mais ou menos no local onde foi inaugurado, em 13 de maio de 1798, um Teatro D. João inspirado no Teatro de São Carlos.

 

O São Carlos, como sabemos, foi contruído em 6 meses e inaugurado em 13 de junho de 1793 com a ópera “La Ballerina Amante” de Cimarosa. E vale a pena lembrar também que o Teatro de São Carlos é inspirado diretamente no São Carlos de Nápoles, e deve-se ao arquiteto José da Costa e Silva.

 

O Teatro D. João ou São João do Porto é inaugurado então em 13 de maio de 1798 na sequência de um projeto do cenógrafo italiano Vicente Manzoneschi, com pano de boca pintado por Domingos António de Sequeira.

 

A iniciativa deveu-se a João de Almada e Mello e ao seu filho Francisco. Eram parentes do Marquês de Pombal.

 

Em qualquer caso, uma lei datada de 7 de abril de 1838 concede subsídios a dois teatros: o Teatro da Rua dos Condes, em Lisboa, e o Teatro São João do Porto.

 

 E em 30 de janeiro de1846, um Decreto reconhece como “Teatros de Primeira Ordem” o Teatro D. Maria II, o Teatro de São Carlos e o Teatro São João do Porto.

 

E quanto a este, já tivemos ocasião de citar Camilo Castelo Branco, que descreve em “A Sereia” (1865) o funcionamento do Teatro e o público constituído sobretudo por “grupos de pedestres burgueses” e pela “fina flor da aristocracia e a burguesia aristocratizada”...

 

No início do século XX o Teatro assumia a designação de Real Theatro S. João. Uma gravura da época refere a realização de um espetáculo de ópera realizado em 22 de fevereiro de 1906.

 

 Dizia  o cartaz:

 

“Récita gentilmente oferecida pela Empresa em favor do cofre de pensões da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto com o obsequioso concurso dos célebres artistas Sig. Parsi-Pettinelli e Sig. J. Biel   - A ópera em 4 atos do maestro Verdi -  AIDA”.

 

Isto, repita-se, no início do século XX.

 

E veremos em mais textos a evolução do Teatro Nacional de S. João.

 

DUARTE IVO CRUZ

OS 88 ANOS DO CINETEATRO RIVOLI

 

A imprensa divulgou o programa comemorativo dos oitenta e oito anos do Teatro e Cinema Rivoli do Porto. Já tivemos ocasião de aqui referir por mais de uma vez a atividade desta notável sala de espetáculos, que, como diversos cinemas e teatros que sobreviveram em atividade, alternam a produção de espetáculos, ao longo dos tempos.

 

No livro “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) fazemos referência a esta sala de espetáculos, desse sempre assinalável também no ponto de visita histórico e arquitetónico.

 

Tal como então escrevemos, o Rivoli teve a antecedê-lo, no mesmo local, um então designado Teatro Nacional, que foi inaugurado em 1913 com uma opereta denominada “O 31”, da autoria dos compositores Tomás del Negro e Alves Coelho, sobre textos de Luís Galhardo, Pereira Coelho e Alberto Barbosa.

 

Este Rivoli iniciou a construção em 1928 segundo projeto arquitetónico de José Júlio de Brito. A certa altura passa a alternar espetáculos de teatro com a projeção de filmes, sendo nesse aspeto percursor de toda uma geração de salas no Porto e não só: como temos visto, muitos Teatros desta época foram sendo adaptados à exploração como cinemas:  e alguns encerram portas nessa fase de transição.

 

Felizmente, o Teatro sobreviveu como tal, não obstante os períodos de encerramento e os períodos, por vezes dominantes, de maior projeção cinematográfica.  Aliás, temos visto como essa adaptação a cinema é frequente nos teatros do início do século passado, um pouco por todo o país: coincide em muitos casos com o que temos denominado geração dos cineteatros, em salas adaptadas ou exclusivas do espetáculo cinematográfico.

 

Em qualquer caso, é sempre de realçar e recuperação e conservação destes grandes edifícios de vocação teatral/cinematográfica.

 

E a esse respeito, escrevemos também no já citado livro, que é de destacar, nas obras de renovação/adaptação a instalação, de um baixo-relevo alusivo às artes de espetáculo, da autoria do escultor Henrique Moreira, devidamente referido por Rute Figueiredo em “Portugal Património” (vol. I).

 

 E para ele voltamos a remeter.

 

DUARTE IVO CRUZ

NOVA REFERÊNCIA AO TEATRO SÃO JOÃO DO PORTO

 

Em janeiro de 2015 fizemos uma referência desenvolvida ao Teatro São João do Porto, destacando sobretudo a tradição e situação urbana idêntica de espaços de espetáculo que vinha do século XVIII, a saber: o chamado então Teatro do Corpo da Guarda e dois Teatros São João ou D. João, que, dissemos nesse texto, antecedem no mesmo local o São João de hoje. E mais recordamos que o primeiro Teatro São João foi inaugurado em 1764 e não deixou grande memória: mas já o segundo São João erguido segundo a traça do cenógrafo italiano Vicent Manzoneschi, seguiu a traça do Teatro de São Carlos e valorizou-se com um pano de boca de Domingos António Sequeira.

 

Destes sucessivos Teatros São João ficou alguma documentação. Designadamente, por Decreto de 30 de janeiro de 1838, este Teatro São João considerado, juntamente com o Teatro de São Carlos, como o que na altura se chamou “Teatro de Primeira Ordem”, seja lá o que isso na época significava.

 

Em qualquer caso, uma Lei datada de 7 de abril de 1838 concede subsídios ao Teatro da Rua dos Condes em Lisboa e ao Teatro São João do Porto. E mais: em 1846, ano da inauguração do Teatro de D. Maria em Lisboa, o Governo reconhece como “teatros de primeira ordem”, assim mesmo, o D. Maria, o São Carlos e o São João.

 

Mas o Teatro São João ardeu em 1908, e só seria reinaugurado 12 anos decorridos, portanto em 1920, agora segundo projeto do arquiteto Marques da Silva. Valorizou-o os gessos e baixos relevos de Diogo de Macedo, Sousa Caldas e Henrique Moreira.

 

Foi adquirido pelo Estado em 1992, recuperado pelo arquiteto João Carreira, e classificado como Teatro Nacional.

 

Ora bem: na semana em que se escreve este texto, Pedro Sobrado, Presidente do Conselho de Administração do Teatro São João, apresentou um denominado Programa do Centenário do Teatro Nacional São João a desenvolver de 7 de março de 2020 a 7 de março de 2021.  Aspeto de relevo que merece destaque será desde logo a descentralização da atividade da companhia, abarcando pelo menos todo o Norte e Centro do País.  

 

E simultaneamente, será criada uma companhia que garanta não só a atividade sequencial do Teatro em si, como ainda, segundo foi referido,  toda uma atividade teatral/cultural para  assinalar de forma eficaz este centenário que, em rigor,  representa a tradição de espetáculo cultural da cidade.

 

Vamos ver como será!...

DUARTE IVO CRUZ

 

EVOCAÇÃO DE UM TEATRO OITOCENTISTA EFÉMERO

 

Nesta alternância entre teatros “históricos” e salas de espetáculo contemporâneas, aí incluindo nas duas categorias a referência à respetiva permanência e atividade, evocamos hoje um Teatro oitocentista efémero, mas nem por isso menos relevante na época em que existiu e funcionou.

 

A tragédia que o destruiu foi aliás recentemente assinalada, pelo que mais se justifica esta referência.

 

Trata-se do Teatro Baquet do Porto, cujas obras de construção se iniciaram concretamente em 12 de fevereiro de 1858, foi solenemente inaugurado em 16 de julho do mesmo ano, mas que desapareceu, devido a incêndio, na noite de 20 de março de 1888, em plena atividade e durante um espetáculo. Resultou algo como 120 vítimas mortais, entre espetadores, artistas e demais pessoal.

 

 A designação do Teatro surge-nos hoje algo insólita, mas afinal decorre do nome do próprio responsável pela iniciativa e pela construção do edifício, o luso-francês António Pereira Baquet, alfaiate no Porto. Tinha loja em terrenos situados na mesma localização do edifício do Teatro. E terá contratado a companhia do Teatro do Ginásio de Lisboa para o espetáculo inaugural, a cargo do ator e dramaturgo José Carlos Santos, nome ilustre na época, da geração que marcou a atividade cénica a partir do então já muito relevante Teatro de D. Maria II.


E nesse sentido, podemos aqui evocar a própria estrutura do Teatro Baquet. No exterior, a gravura mostra a fachada muito da época, no conjunto de estátuas evocativas da comédia, da pintura e das artes em geral, sobre a grande varanda do que seria o foyer, como então (por vezes ainda hoje...) se denominava a sala de acesso e convívio do público.

 

Tudo isto desapareceu na noite de 20 de março de 1888, perante uma sala cheia que assistia a espetáculo de beneficio e homenagem a um ator. Mas não houve espetáculo. A orquestra suspendeu a execução, Segundo descrições da época, o público de início não percebeu o que se passava. E só com o fogo já praticamente incontrolado se deu uma debandada que não evitou a centena de mortes, entre espetadores, artistas e técnicos de palco.

 

Do Teatro Baquet do Porto resta a memória do desastre e a gravura, que Sousa Bastos incluiu em 1908 no “Diccionário do Theatro Português”, que temos citado e que aliás surgiu recentemente a propósito da evocação da tragédia...

 

DUARTE IVO CRUZ  

Um estudo sobre o Coliseu do Porto nos 75 anos de atividade

 

Assinala-se a publicação de um conjunto de volumes evocativos da fundação do Coliseu do Porto, precisamente intitulado “O Coliseu e a Cidade: 75 Anos de História” (2018).

 

Trata-se efetivamente de uma evocação histórica em si mesma do edifício mas mais do que isso: o conjunto de publicações, editadas pelo próprio Coliseu, envolvem um vasto referencial de documentação de uma das mais relevantes casas de espetáculo da cidade, na perspetiva abrangente de arquitetura, urbanismo, atividade cultural e também de valores adjacentes no âmbito, insiste-se, da cultura e do espetáculo em si.

 

Porque  de tudo isso historia  e documenta o conjunto das publicações, a saber, um volume de introdução com 7 textos da autoria de  Rui Moreira  na qualidade de Presidente da CMP, e de Eduardo Paz Barroso na qualidade de Presidente do Coliseu do Porto, de Henrique Cayate-Designer, Luis Cabral- Bibliotecário, Miguel Guedes - Músico, Álvaro Costa – Comunicador e Bernardo Pinto de Almeida – Poeta e Ensaísta: as designações são do próprio livro, mas servem aqui para documentar com toda a justiça a amplidão do conjunto dos estudos.

 

Mas mais do que isso: independentemente da larga qualidade e abrangência dos aspetos analisados, há que valorizar a documentação gráfica e fotográfica, passe a redundância que aqui é propositada, em dezenas de fotografias devidamente legendadas e documentadas, e que, no conjunto, constituem uma vasta referência do edifício e da sua atividade cultural ao longo destas dezenas de anos.

 

E curiosamente, o livro de imagens abre com uma reprodução fotográfica do requerimento, em papel selado como então se impunha, redigido numa linguagem que em tudo documenta o ambiente político, administrativo e cultural da época:

 

“Exma. Câmara Municipal do Porto:

A Empresa Artística S.A.R.L. com sede na rua de Passos Manoel, Jardim Passos Manoel, desejando reconstruir no seu terreno, uma nova casa de espetáculos, conforme o projeto junto, de forma a que esta seja inaugurada oficialmente durante as Festas do Duplo Centenário , contribuindo assim na medida do que lhe é possível, para o brilho e esplendor das mesmas nesta Cidade, aguarda que a Ex.ma Câmara do Porto, animada do mesmo desejo, faça a sua aprovação o mais rapidamente possível e autorize o inicio das obras imediatamente. Assim, contribuiremos todos para o prestígio do Estado Novo e mostrar-nos-emos atentos ao apelo de Sua Exa o Sr. Presidente o Conselho”.

 

O requerimento é datado de 1 de março de 1939. A linguagem e o ambiente político mostram-no bem!... E ainda mais, se tivermos presente que a ideia de contruir um edifício destinado a espetáculos vinha já de 1937 e passou por vários projetos e arquitetos. Acaba por prevalecer um projeto de Cassiano Branco.

 

E depois de variadíssimos episódios, será inaugurado em 19 de dezembro de 1941 com um concerto da Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco tendo como solistas a pianista Helena Moreira de Sá e Costa e a cantora Maria Amélia Duarte de Almeida.

 

O Coliseu do Porto sofreu alterações e esteve a certa altura para ser encerrado e demolido, Mas reabriu em Novembro de 1998 com uma récita da “Carmen” de Bizet. E até hoje se impõe numa heterogeneidade da espetáculos, como o livro acima citado amplamente descreve.

 

E em boa hora conserva a estrutura e ambiência do edifício e da grande sala principal.

 

DUARTE IVO CRUZ 

OS DOIS TEATROS SÁ DA BANDEIRA

 

É interessante constatar e existência de dois Teatros homónimos, separados por dezenas de anos e centenas de quilómetros, e ambos evocando um nome que não é propriamente uma grande referencia atual às artes cénicas. Referimo-nos aos Teatros Sá da Bandeira do Porto e de Santarém.

 

Realmente, não se diga que o nome de Sá da Bandeira contem hoje um significado especifico nas artes do teatro. E no entanto, os dois Teatros Sá da Bandeira que hoje aqui evocamos assumem função de relevo local e nacional.

 

O Teatro Sá da Bandeira do Porto é o herdeiro de sucessivas salas de espetáculo que, primeiro com o nome de Teatro(s) do Príncipe Real, marcaram a atividade cénica da cidade e mesmo, pode-se dizer, do país. Sousa Bastos, escrevendo em 1908, regista a existência, no local, de três sucessivos Teatros denominados do Príncipe Real: entende-se que a partir de 1910 a designação mudou. Mas em qualquer caso, estamos perante a mesma sala, ou melhor, perante a localização e a tradição de sucessivas salas de teatro, música e artes circenses, que no mesmo local marcam a vida sócio-cultural do Porto.

 

A primeira dessas salas não passava de um barracão de madeira vocacionado para o circo. Resistiu alguns anos, mas foi substituído por um edifício agora “de pedra e cal”, com 21 camarotes e 2 frisas. Este já servia alternadamente para companhias dramáticas, equestres e ginásticas. Passados anos foi de novo demolido para se fazer o que hoje existe” diz-nos então Sousa Bastos em 1908. Escusado será de referir que mudaria em breve de designação… 

 

E é com o nome de Teatro Sá da Bandeira que esta sala referencial do Porto mantem atividade tendo aliás beneficiado de sucessivas alterações e melhorias no interior.

 

Mais moderno é o Teatro Sá da Bandeira de Santarém, este inaugurado em 1924 e construído sobre as ruínas de um antigo hospital denominado João Afonso. A fachada ostentava um arco que fazia lembrar, dizem as crónicas, o politeama de Ventura Terra, esse inaugurado cerca de 10 anos antes. Vocacionado desde a origem para espetáculos de teatro e cinema, o Sá da Bandeira de Santarém funcionou numa primeira fase até cerca de 1977.

 

A Câmara Municipal adquire-o e a partir de 2000 inicia um vasto projeto de restauro orientado pelo arquiteto Alberto Mendonça Gamito.  E tem interesse assinalar que o interior sofre uma total remodelação. Pelo contrário, a fachada conserva muito da estrutura original, em arcos sucessivos encimados por uma varanda com elementos de art-deco.

 

Hoje o Teatro Sá da Bandeira de Santarém ostenta uma lotação de cerca de 200 lugares e, tal como já escrevemos, além da sala de espetáculos propriamente dita, alberga uma sala estúdio, um piano-bar, uma galeria e uma sala de convívio. Foi instalado um teto em gesso e a sala revestida por painéis de madeira. A teia foi aumentada, designadamente pela integração de um edifício contíguo.

 

Mas mais interessante: o Teatro recuperou vestígios do claustro do antigo hospital.

 

E tudo isto valoriza a cidade de Santarém.

 DUARTE IVO CRUZ

TEATRO CARLOS ALBERTO DO PORTO: FUNDAÇÃO, RECONSTRUÇÃO

 

Em 1897, Manuel da Silva Neves, empresário no Porto, toma a iniciativa de edificar o primeiro Teatro Carlos Alberto, inaugurado em 14 de outubro daquele ano com a opereta, hoje esquecida, denominada “O Diabo”. O Teatro tinha na época 252 lugares de plateia, 299 lugares de geral e ainda mais 500 lugares do que na altura se denominava galeria, isto, além de 32 camarotes, numa lotação total de mais de 1200 espetadores, o que é assinalável.

 

Não identificamos os autores da opereta, mas é de registar a iniciativa em si mesma, expressão de uma renovação do urbanismo de espetáculo, à época marcante em todo o país, e por maioria de razão numa cidade como o Porto.

 

Estaria ainda presente a lembrança do incêndio que, em 20 de março de 1888, destruiu o portuense Teatro Baquet, também durante um espetáculo de opereta, provocando algo como 120 mortos. Daí que este primeiro Carlos Alberto fosse construído ainda na memória da tragédia, mas também homenageando o Rei Carlos Alberto do Piemonte, que morreu exilado no Porto.

 

Este primeiro Teatro Carlos Alberto seria o que na época se denominava Teatro-Circo, com palco à italiana, como na época (e em rigor ainda hoje) se dizia, portanto preparado para espetáculos de teatro declamado, mas também com a versatilidade de transformação da plateia em pista de circo, o que desde logo eliminava o declive da sala.

 

Importa entretanto frisar que os sucessivos Teatros Carlos Alberto, que entretanto foram reconstruídos no local, mantêm a implantação e a estrutura do edifício, com alterações do interior e da fachada, mas sem grande mudanças da sala de espetáculos propriamente dita. Ainda assim, é de assinalar as alterações decorrentes da elevação da zona do palco e a reforma do átrio, bilheteiras e áreas de acesso do público. Mais relevante foi a supressão dos camarotes, ocorrida nos anos 30 do século passado, para maior adaptação ao cinema que, durante décadas dominou e exploração do Carlos Alberto: e bem sabemos que não foi o único…

 

Nesse sentido, assinalam-se duas grandes fases de transformação, ambas decorrentes da municipalização do então Cine-Teatro Carlos Alberto, ocorrida em 1993.

 

Desde logo a “transformação” em Auditório Municipal Carlos Alberto, assumindo uma mais vasta polivalência cultural.

 

Mas mais relevante terão sido as transformações e alterações decorrentes dos  investimentos e programas  no âmbito da celebração do “Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura”. O Teatro Carlos Alberto reabre então e retoma atividade como Teatro Nacional. Beneficia de obras de restauro e modernização, da autoria do Arquiteto Nuno Lacerda Lopes.

 

Assim, procede-se à renovação do foyer aberto, no sentido de uma maior ligação do público com a sala de espetáculos em si mesma. Procurou-se reforçar a complementaridade arquitetónica com a sala, através da utilização do vidro para maior acessibilidade das imagens vindas do palco. A sala ganhou também uma maior convertibilidade aos formatos de arena ou à italiana. O equipamento foi modernizado: e sobretudo, aumentou-se a rentabilização do interior do Teatro em função da potencialidade do espetáculo em si.

 

E procedeu-se a outras alterações significativas, sem com isso desvirtuar a tradição oitocentista do edifício.  A zona de produção é modernizada. A sala foi “transformada” em dois auditórios: o chamado Grande Auditório, com 374 lugares, e o chamado Pequeno Auditório, com 150 lugares. E mais: criou-se um anfiteatro ao ar livre, uma sala de exposições e uma chamada teatroteca.

 

E assim se “edificou” um Teatro Carlos Alberto bem moderno, sem destruir o Teatro Carlos Alberto que vem da tradição do século XIX! 

DUARTE IVO CRUZ 

O TEATRO RIVOLI DO PORTO

 

Expressão da Arquitetura de Espetáculo

 

Em 2004, o Instituto Português de Património Arquitetónico – IPAR publicou um vasto e detalhado estudo, programaticamente denominado “Arquitetura Moderna Portuguesa 1920-1970”. Com coordenação científica de Ana Tostões, procede-se ao levantamento, descrição e análise de centenas de expressões de modernidade arquitetónica, e entre elas, um conjunto de teatros e cineteatros.

 

Aí se diz que “se em 1929 o projeto do Cineteatro Capitólio Lisboa marcava a rutura, a verdade é que ao longo dos anos 30 e 40 a campanha de construção de diversos cinemas e cine-teatros por todo o país constituiu processo de atualização alterando programas e vivências” E exemplifica: “Desde o Teatro Rivoli ao Salão Eborense ou ao Cinearte com a experimentação do sistema de vigas belgas a produção do primeiro modernismo define-se entre um gosto «Déco», e um purismo racionalista.”(ob. cit. pag. 351).

 

Precisamente: o Teatro Rivoli do Porto, através de um conjunto de documentos e fotografias, é um expressivo exemplo de modernismo.

 

Mas atenção: tal como aliás referimos em “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) o Rivoli prolonga uma larga tradição de espetáculo no Porto. Antes da sua construção e inauguração, funcionou no local um chamado Teatro Nacional, que vinha do início do século XX. Mais concretamente, foi inaugurado em 1913 com um espetáculo que na altura fez-se notar: a opereta “O 31”, de Luis Galhardo, Pereira Coelho e Alberto Barbosa, música de Tomás del Negro e Alves Coelho, que nesse mesmo ano de 1913 – ano relevante para o teatro em Portugal! –  tinha já sido apresentado no espetáculo de estreia do Teatro Eden de Lisboa, e sucessivamente reposto, um pouco por todo o país.

 

Temos pois que no local do velho Teatro Nacional do Porto é inaugurado, em janeiro de 1932, o Rivoli, projeto do arquiteto José Júlio de Brito, que dirigiu as obras a partir de 1928. Vocacionado para espetáculos de teatro e música, logo no final do mesmo ano é instalado um sistema de projeção cinematográfica, e como tal funcionou preferencialmente, dirigido por Maria Borges, que aliás procedeu a obras vastas de renovação do edifício, ainda concebidas e orientadas, numa primeira fase, pelo referido arquiteto José Júlio de Brito.

 

E vem dessa época a construção e instalação do baixo-relevo alusivo às artes do espetáculo, da autoria do escultor Henrique Moreira, ligado ao Rivoli pelo menos desde 1935. (cfr. Rute Figueiredo in “Portugal Património” vol. I, ed. Circulo de Leitores 2006 pags. 362/363).

 

A entrada em gaveto marca assim a estrutura do Cinema e Teatro. Aliás, é oportuno lembrar que o Rivoli foi durante anos quase exclusivamente cinema.

 

Mas agora, no âmbito da Câmara Municipal do Porto, prossegue uma programação vasta e variada, de cariz e qualidade expressivamente cultural.

 

DUARTE IVO CRUZ

A VIDA DOS LIVROS

  

De 7 a 13 de novembro de 2016.

Miguel Veiga em «Os Poemas da Minha Vida» (Público, 2004) lembra Wislawa Szimborska: «na língua da poesia, em que cada palavra é cuidadosamente pesada, nunca nada é vulgar nem normal (…) E sobretudo nem uma qualquer existência neste mundo».

 

UMA PERSONALIDADE ESPECIAL
«Menino e moço cedo me levaram os meus pais a ler poesia» - assim começa a apresentação de «Os Poemas da Minha Vida» de Miguel Veiga. Falo de uma personalidade especial. É um paradigma do que há de melhor no Porto – a cidade livre, que acolheu D. Pedro de braços abertos, como sua casa constitucional. Um dia o Miguel disse: «não passo de um buscador do mundo. O segredo da busca é que não se encontra. Nunca se encontra. Acho-me um obstinado errante». Assim, foi sempre fascinante encontra-lo, contar com a sua palavra, com a sua inteligência. Acontece isso comigo há mais de quarenta anos. O seu infinito foi sempre a curiosidade das coisas. Vi-o sempre desperto para compreender o lado misterioso das coisas, mas com uma clareza de espírito digna do nosso Sá de Miranda – de «antes quebrar que torcer». Para ele, política sem ética é uma vergonha. E tem razão. Por isso, pensou sempre por si e agiu segundo a sua consciência. Foi sempre incómodo, Sendo a política a mais nobre das atividades cívicas, tem de ser exercida com independência. E Miguel Veiga sempre me ensinou que temos de estar permanentemente em condições de dizer não., com todas as consequências – sem dependências ou receios. A ética da responsabilidade é a natural contrapartida da ética da convicção. E, sendo um homem de valores, liga o bem, o belo, o bom, o justo e o verdadeiro. O culto da estética é a consequência de uma ética enraizada na vida. Tem a ver com as pessoas de carne e osso, como dizia Unamuno. Daí a compreensão do pluralismo e das diferenças – na linha de Popper e de Isaiah Berlin. Filho de mãe francesa e de pai beirão soube sempre ligar o requinte e a subtileza da cultura parisiense ás antigas raízes do Portugal inconformista e cioso das suas liberdades, que Garrett e Herculano defenderam de armas na mão e também pela escrita e pelo estudo. Em casa de Miguel Veiga, na sua infância, dir-se-ia que coexistiam Descartes e o lirismo lusitano. «Busque Amor novas artes, novo engenho, / Para matar-me, e novas esquivanças; / Que não pode tirar-me as esperanças, / Que mal me tirará o que não tenho…». Quantas vezes ouvimos o Vasco Graça Moura a repetir a supremacia de Camões… E não podemos esquecer como Miguel não esquecia o seu tio Pedro, homem do Movimento de Renovação Democrática (com Domingos Monteiro, Delfim Santos ou Eduardo Salgueiro…) e dos combates pelas liberdades públicas – cujos traços de personalidade tantas vezes se encontram em Miguel.

 

MARCAS DE UMA PERSONALIDADE
Liberdade e independência eram as marcas da sua personalidade e da sua ação. Com Francisco Sá Carneiro e Artur Santos Silva participou ativamente na fundação em maio de 1974 do PPD. Então o conheci e iniciámos uma relação muito boa, até aos dias de hoje – em que as afinidades eletivas da cultura portuguesa e de um necessário cosmopolitismo têm sido constantes. As idas ao Porto (cidade de algumas das minhas raízes, que representei com muita honra no Parlamento durante década e meia) eram sempre motivo de uma imersão total no fervilhar das ideias. E, como disse já, Vasco Graça Moura fez parte desde muito cedo desse Porto de encontro, acolhedor e hospitaleiro. No Campo Alegre estavam bem presentes Sophia e seu primo Ruben A., mas havia ainda o magistério intelectual do Bispo do Porto D. António. Na Foz, os passeios a usufruir do sol e do mar eram inesquecíveis. «As gaivotas. Vão e vêm. Entram / pela pupila. / Devagar, também os barcos entram. / Por fim o mar. / Não tardará a fadiga da alma. / De tanto olhar, tanto / olhar» - com disse Eugénio de Andrade. Foi assim pela vida fora, designadamente com um amigo comum, o Mário Melo Rocha, muito jovem, de quem tenho muitas saudades… Não esqueço uma memorável noite com Gonzalo Torrente Ballester. Foi um banquete de puro espírito, no sentido do humor e do prazer de encontrar um grande escritor e uma personalidade fascinante, que nos lembrou a génese de «Filomeno, a mi pesar», com todas as suas peripécia galaico-portuguesas, e com quem rimos com gosto sobre a «Crónica del rey pasmado»… As amizades constroem-se pela riqueza das experiências, não pela superficialidade dos chistes.

 

DIÁLOGO SEMPRE ENRIQUECEDOR
Miguel Veiga é uma referência, cujo diálogo é sempre enriquecedor. Já tive oportunidade de recordar como foram importantes o Francisco Sá Carneiro, o Artur Santos Silva, o António Leite de Castro – e ainda o grupo de Coimbra, o António Barbosa de Melo, o Mota Pinto, o Figueiredo Dias, o Costa Andrade. Ao lermos a declaração de voto sobre a Constituição da autoria de Barbosa de Melo compreendemos como o compromisso de 1976 pôde tornar-se duradouro e enriquecer-se em 82, em 89 etc. Assim se pensava o futuro como uma sementeira de ideias. Sinto haver nesta tradição de liberdade, personificada por Miguel Veiga, algo da causa de D. Pedro de autonomia e solidariedade. E o Miguel gosta de falar de «decência» - como seriedade, trabalho competente, higiene de espírito, hombridade… Tem razão. Eu sei que hoje se acha pessimista, mas não esqueço que para os mais novos (como eu era em 74), o Miguel Veiga apontava-nos o caminho da cidadania ativa e empenhada. Ele é do Camus e do Raymond Aron – e continua a ser. Ele é da «Heterodoxia» do Eduardo Lourenço. Miguel Veiga é um exemplo de independência, de liberdade, de horizontes claros e abertos…

 

UMA NOTA FINAL SOBRE O PORTO
Nos últimos anos, a minha relação com o Porto foi marcada pelo encontro com Paulo Cunha e Silva. Antes de o conhecer pessoalmente li os seus textos e amigos comuns fizeram-me chegar as melhores referências. Sendo mais novo que eu dez anos, era alguém que marcou desde muito cedo os campos em que agiu. Era mais um exemplo de um médico que se sentia bem no mundo das artes e da cultura. Quando o encontrei pessoalmente, tudo o que me tinham dito dele foi amplamente excedido. Era um homem culto, atento, disponível, inteligente, multifacetado, desperto para o que de mais importante ia acontecendo e ciente do que uma cidade europeia como o Porto precisaria. Nas primeiras conversas que tivemos revelou-se uma personalidade com sentido prático, sem tempo a perder em aspetos laterais ou em superficialidades. Tinha ideias claras, sabia que o importante era poder obter consequências positivas na valorização da cidade do Porto. Deixou-nos, porém, inesperadamente. Poucos dias antes teve a amabilidade de ir a uma iniciativa em que eu participava. Foi sempre de uma grande generosidade na partilha de ideias e de projetos. O Porto deve-lhe muito. Ainda agora, quando Paulo Cunha e Silva já não está entre nós, o seu impulso e o seu exemplo continuam a fazer-se sentir. A melhor homenagem que pode fazer-se a um homem de ação é reconhecer-se que o seu trabalho e a sua orientação continuam a influenciar o campo de ação!

 


Guilherme d’Oliveira Martins

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