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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

 

(III) SANTO ANTÓNIO DE LISBOA

 

Na cristandade talvez não haja outro santo mais popular. Se é preciso encontrar algo perdido temos um responso, se queremos uma boa noiva recorremos à sua misericórdia. E o nosso Padre Vieira perguntou um dia que se deveria fazer à terra que não se deixa salgar. E falou da galharda e gloriosa decisão que nenhum outro santo tomaria de falar aos peixes para que os homens avessos se deixassem convencer. Fernando Martins, também conhecido como Fernando de Bulhões, nasceu em Lisboa, onde iniciou a sua formação com os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Convento de S. Vicente de Fora, partindo depois para Santa Cruz de Coimbra. Fazia-se sentir a decisiva influência do primeiro Prior, S. Teotónio, braço direito do nosso conhecido primeiro rei. O prestígio académico de Coimbra precedeu, assim, o Estudo Geral, podendo dizer-se que a sabedoria reconhecida ao futuro santo português demonstra a grande qualidade do ensino ministrado. Está bem presente a Regra de Santo Agostinho e os seus princípios: obediência, humildade e caridade. E Fernando aproxima-se da força inovadora das novas ordens mendicantes, através de uma mística centrada na pobreza, o que o levará de Santa Cruz até ao eremitério dos Olivais, ainda em Coimbra, sob a influência do «Poverello» e da memória dos mártires de Marrocos, adotando o nome de Santo Antão. E assim encontramos a vasta cultura agostiniana transmutada no ideal franciscano, o que leva frei António até Itália. Quando S. Francisco de Assis conhece o português apercebe-se do seu carisma e da solidez dos seus conhecimentos e incumbe-o do ensino da Teologia aos frades menores. Daí os textos impregnados de citações bíblicas e de um conhecimento exaustivo das Escrituras mercê de uma memória prodigiosa e invulgar. E a lista de autores confirma a solidez da fundamentação: Santo Agostinho, S. Bernardo, S. Hugo, Ricardo de S. Vítor, além de Orígenes e Gregório de Nissa. É a edificação das Almas que está em causa, destacam-se o sentido da humildade, a discrição, a sublevação e a alienação, bem como o tema do voo da alma, a transmutação dos sentidos espirituais, o significado do «oculus cordis» (o olhar do coração), e sobretudo a articulação mística da nuvem, da treva e da noite, num sentido que aproxima Santo António da mística peninsular de Santa Teresa de Jesus e de S. João da Cruz. Diz-nos: «o ferreiro, assim chamado por fazer ferro, é o pregador da Santa Igreja, que fabrica armas espirituais. Tem de sentar-se junto da bigorna, que é o estudo e o exercício da Sagrada Escritura, a fim de se exercitar naquilo que prega… Também os pregadores devem primeiro exercitar-se no ar da contemplação com o desejo da felicidade celeste, para depois mais avidamente serem capazes de alimentar-se a si e aos outros com o pão da palavra de Deus». O método de Frei António surge definido: «Que alegria maior pode existir no espírito do homem do que estar diante d’Ele, pelo qual e no qual tudo o que existe verdadeiramente existe, sem o qual tudo o que parece existir nada é, e tudo o que abunda é pobreza?». Aqui encontramos a chave da originalidade franciscana – a procura da dignidade pessoal, no sentido da fraternidade, da troca de dons, da vivência espiritual da pobreza, na compreensão do outro, na procura de tudo o que a irmã Natureza tem para nos dar… Mas os Sermões de Santo António, longe da abstração, contêm um voz severa e crítica contra os falsos profetas, os hipócritas, os padres avarentos, os prepotentes, os ladrões, os luxuriosos, os bispos indignos, os monges que fazem do deserto um palácio, do claustro um castelo, da solidão uma corte real – e ainda os leigos presos de todos os vícios… Sem eufemismos, Frei António põe cada um perante as suas responsabilidades, exigindo aos cristãos que saibam dar o exemplo… 

 

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30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL


(II) AFONSO HENRIQUES

 

Depois de vistas as origens míticas de Portugal, descritas tardiamente no século XV, cinco anos depois da conquista de Ceuta e, mais tarde, durante a dinastia filipina, importa centrarmo-nos na personalidade do artífice da independência pátria. Lendo a biografia de José Mattoso de D. Afonso Henriques (c. 1110-1185), percebemos a força da sua liderança estratégica construindo o poder condal à imagem e semelhança de um verdadeiro reino. Há três datas significativas que correspondem a esse caminho: 24 de junho de 1128, a batalha de S. Mamede (a primeira tarde portuguesa); 25 de julho de 1139, a batalha de Ourique; e 5 de outubro de 1143, o Tratado de Zamora. Centrado na reconquista a Sul da Galiza, sem entrar nos conflitos de poder do Reino de Leão e das ambições teocráticas do Arcebispo Diego Gelmires de Santiago de Compostela, Afonso Henriques articula a posição dos barões portucalenses com a lógica moçárabe do condado de Coimbra e com a aliança aos municípios meridionais. Enquanto D. Teresa alimenta o sonho da influência em Leão, com a aristocracia galega, concorrendo com D. Urraca e a posição de Afonso Raimundes (futuro Afonso VII) – Afonso de Portugal, como seu pai, o Conde D. Henrique, privilegia a aposta estratégica que se revelará de sucesso: mais do que o domínio militar importaria dar estabilidade à população moçárabe em termos sociais e económicos, com os privilégios foraleiros, o que realmente aconteceu. Daí o avanço significativo para Sul e a afirmação inequívoca do poder real, em aliança com os municípios, em contraponto ao alto clero e à alta nobreza. É assim importante a afirmação cultural dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, os crúzios de Coimbra, cabendo um papel preponderante a S. Teotónio, mas também dos beneditinos, designadamente em Alcobaça, numa ação decisiva de povoamento. O caso português pode ser referenciado como pioneiro numa longa e fecunda gestação — a emancipação de D. Afonso Henriques, a fronteira de D. Dinis, a adoção do romance galaico‑português como língua oficial, a revolução de 1383-85, a afirmação do Estado moderno com D. João II, o império universal português, a decadência e a Restauração, a Regeneração liberal, o Republicanismo, a democracia… De facto, este pioneirismo fez-se a partir de um Estado que precedeu a Nação (como afirmou Herculano) — realizando-se a construção da identidade a partir do século XII, pela convergência entre a Reconquista e a decadência e fragmentação dos reinos taifas, mediada pela influência moçárabe e pela persistente ânsia de autonomia e de regeneração. A verdade, porém, é que com o andar do tempo houve interações simbólicas e materiais entre a comunidade e o Estado. Como ter afirmado Manuel Villaverde Cabral, o caso português ilustra a ideia de “meio – caminho” entre as conceções instrumental e primordial da identidade nacional. Em lugar do primado ontológico da Nação, tivemos uma interação entre o Estado e a Nação, na qual o primeiro teve um papel orientador insubstituível. José Mattoso defendeu, por isso, uma ideia que se demarca do essencialismo identitário — apesar de se interrogar sobre se não seriam já portugueses os habitantes do futuro Portugal. Sem haver uma etnia, mas sim várias (ou apenas duas), a verdade é que a identidade foi sendo moldada pelo Estado e por uma vontade — a partir de um melting-pot, do diálogo e da tensão, soberbamente abordadas por Orlando Ribeiro entre o Atlântico e o Mediterrâneo ou entre o Litoral Norte, o Interior Norte e o Sul. Em suma, Afonso Henriques não foi, contudo, apenas um chefe militar, foi um administrador, um político e um condutor de homens experimentado, que merece ser conhecido à luz da História… Só um grande medievalista, como José Mattoso, com provas dadas, poderia demonstrar, como fez, tanta segurança no uso das fontes e dos elementos relevantes disponíveis. E assim podemos contar com a superação das referências puramente míticas ou imaginárias, para passar a dispor de dados que permitem entender melhor a época em que a independência portuguesa se concretizou.

 

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30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL


(I) HERÓIS DO MAR, QUINAS, CASTELOS…

 

Começo, lembrando o que Garrett diz quase no início das suas “Viagens na Minha Terra”, partindo numa viagem até Santarém, ao encontro do seu amigo Passos Manuel. Emblematicamente a invocação lembra que essa Viagem constitui um belo exemplo para explicar Portugal… «Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crónica».

 

Nas boas razões para Portugal, falemos de símbolos pátrios: “Heróis do Mar, Nobre Povo, Nação valente, Imortal”, do hino de Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, escrito em 1890, nos ecos do Ultimato inglês, e o escudo português, constituído por quinas e castelos, com raiz nos nossos primeiros reis. Pode afirmar-se que a referência ao Mar é essencial. Como disse “A Menina do Mar”, a nossa terra é o mar. Se bem virmos, a razão da independência e a naturalidade dela devem-se à costa marítima – bela, agreste, difícil, mas desafiadora. E quando os pescadores, as viúvas e os órfãos da Póvoa pediam um abrigo, defendiam o seu ganha-pão, mas também a riqueza unificadora do Mar. A vontade e o mar explicam a perenidade da nossa pátria antiga. E os heróis são os que desafiam a incerteza e cultivam a aventura. O astrolábio e a vela triangular das caravelas permitiram o domínio do Atlântico. E o Infante D. Henrique foi até ao Algarve para encontrar um melhor e mais seguro ponto de partida para o Mar Oceano. Quantas vezes se pergunta: porque nasceu Portugal? Porque persiste? Porque se projeta globalmente em vontade, em língua e como nação valente?  A resposta está no carácter marítimo em complemento da continentalidade hispânica…

 

É na “Crónica de Portugal” de 1419, presumivelmente de Fernão Lopes, que surge narrado pela primeira vez o milagre fundador do aparecimento de Cristo em Ourique. Referindo uma batalha que terá tido lugar no dia de S. Tiago (25 julho) de 1139 contra vários reis "mouros", o texto dá particular atenção às vésperas do combate. É nessa altura que surge um ermitão face ao futuro rei Afonso Henriques, dizendo: "Ele manda por mim dizer que quando ouvires tanger esta campainha que em esta ermida está que tu saias fora e Ele te aparecerá no Céu...!". Depois regista-se o milagre, como o do Imperador Constantino na Batalha de Ponte Mílvia em 312: “e ele saiu-se fora da sua tenda, e, assi como ele disse e deu testemunho em sua história, viu Nosso Senhor Jesus Cristo em a Cruz pela guisa que o ermitão lhe dissera e adorou-O com grande prazer e lágrimas...". E o milagre é transposto no próprio símbolo da bandeira do futuro reino, "...por se lembrar da mercê que Deus naquele dia fizera, pôs sobre as armas brancas que ele trazia uma cruz toda azul, e pelos cinco reis que lhe Deus fizera vencer departiu a cruz em cinco escudos...”. Esta referência simbólica vai tornar-se forte no período da monarquia dual do período filipino, entre os textos de Duarte Nunes do Leão e a “Monarquia Lusitana”, matriz de um novo mito nacional. Leia-se a história alcobacense da Monarquia Lusitana, da autoria de Frei António Brandão. Este texto inicia-se com a descrição de D. Afonso Henriques, quase místico, lendo a Bíblia, nela encontrando sinais de vitória na batalha que se aproxima. Segue-se um sonho, no qual o futuro rei vê "um velho venerável", bem como a anunciada aparição do "Salvador do mundo". Acordará, depois, e, entre a realidade e o sonho, depara com o velho que lhe prenuncia o milagre. São as quinas referências desta invocação do primeiro rei em Ourique e os castelos em fundo púrpura as armas de D. Afonso III, o Bolonhês…

 

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30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL


Iniciaremos a 1 de agosto o folhetim de Verão que intitulámos “30 Boas Razões para Portugal”. Mas, ao delinear a escrita, verificámos que há muito mais do que 30 boas razões para uma Lusitana Paixão. Contudo, porque os dias com que vamos contar são 30, mais coisa menos coisa, vamos fazer uma ginástica especial, para encontrarmos trinta motivos fundamentais que signifiquem boas razões… E o leitor dileto perguntará se só vemos boas razões. Não. Mas o motivo fundamental deste folhetim são as razões que nos levam a ter saudades de Portugal quando estamos longe, e a procurarmos o que nos liga a uma identidade tão especial, que morre e estiola quando se fecha e que tem tanto a ver com a abertura e o cosmopolitismo. E a língua que falamos expandiu-se mundo afora. De facto, temos mil defeitos, cultivamos o escárnio e o maldizer, temos a tendência para a boa anedota e o picaresco, mas temos características que conhecer, para podermos ser melhores. Eduardo Lourenço, num tom sério, fala de “maravilhosa imperfeição”, António Tabucchi elegeu, um dia, para escândalo de alguns, Maria Parda como símbolo bem português, e ainda Mestre Gil dá-nos em Todo o Mundo e Ninguém no Auto da Lusitânia, o retrato bem português do nosso carácter complexo (Almada desenhou-os como gémeos), Diogo do Couto, no “Soldado Prático”, lembrou o mau administrador lusitano como aquele que na ânsia de pôr a impressão digital na história, nada constrói, e Rafael Bordalo Pinheiro tornou-nos Zé Povinho e Maria Paciência. Todos têm razão. A imperfeição é uma marca de responsabilidade. E este sentido crítico é fundamental, até porque, muitos se admiram quando os nossos compatriotas dão cartas nas suas andanças pelo mundo. Fizemos coisas extraordinárias, não em nome do improviso, mas com base no trabalho e na persistência. Somos um país de nove séculos porque persistimos e não pelo que desistimos. Mas não somos um povo eleito, apesar de termos razões para nos gostarmos. Não somos nem melhores nem piores que outros. Temos muito para fazer, para construir. Veja-se, quando encontramos, em toda a parte, um português, viajante do mundo. E percebemos logo que tem a ver connosco, mesmo que seja muito diferente de nós. Alexandre O’Neill bem disse que somos tanto melhores se não nos levarmos a sério. Mas somos remorso de todos nós. Os nossos melhores exemplos têm a ver com essa capacidade de ser exigentes e críticos. Almada Negreiros nos painéis da Rocha do Conde de Óbidos descreveu-nos magistralmente, na elegância das varinas, na criatividade dos saltimbancos e no humor dos Robertos. Será possível entendermo-nos sem colocar lado a lado os painéis de Nuno Gonçalves e os de Almada Negreiros? D. Fuas Roupinho completa o Infante D. Henrique, a “Nau Catrineta” prepara-nos para não sermos traídos pela falsa glória das promessas demoníacas. Fernão Mendes Pinto da “Peregrinação” é a personificação do português do mundo andarilho, enquanto o nosso vizinho D. Quixote vive o drama de querer deixar de ser um mito, para ser apenas Alonso Quijano, que Sancho recusa. De facto, somos contraditórios por definição. Alternamos entre julgarmo-nos melhores e ser piores, entre ser “heróis do mar” e herdeiros do milagre de Ourique e cair nas ruas da amargura. Jorge Dias fala-nos do Português como misto de sonhador e de homem da ação, combinação de muitos elementos. E encontra quatro pilares no génio criador português: Os Lusíadas, os Jerónimos, o políptico de Nuno Gonçalves e os Tentos na criação musical de Manuel Coelho… Outras referências poderiam ser feitas, nos diversos domínios. Importa, porém, entender “um povo paradoxal e difícil de governar. Os seus defeitos podem ser as suas virtudes e as suas virtudes os seus defeitos, conforme a égide do momento”.   

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

18. O ENIGMA IBÉRICO
IMPRESSÕES DE UM BRASILEIRO EM PORTUGAL (I)

 

1. No livro Portugal, o Enigma Ibérico (Quidnovi, 2005), de Wilson Solon1, argumenta o autor que nenhum especialista, turista ou ciência pode interpretar Portugal, uma vez mover-se numa lógica única, nem sempre expondo na matéria os enigmas do seu espírito, sendo incompreensível a olho nu, num “tempo lusitano” paralisado em rituais de autoflagelação e vitimização.

 

Tem por irrealista que a pequenez territorial seja decisiva, refutada pela antiga determinação de um punhado de naus nas mãos decididas dos portugueses, sendo irreal supor que as grandes decisões surgirão de uma estreiteza mental à medida dos limites geográficos, o que também não justifica a ausência de autoestima. 

 

Na “velha Europa dos 15” (à data), é ridículo que tal dimensão possa ser usada para a falta de iniciativa dos seus habitantes, o que não sucede na Holanda, Bélgica, Suíça, Áustria, Irlanda, Dinamarca, Luxemburgo, de territórios mais pequenos, que tem como nações mais conhecidas e respeitadas.

 

Alegando que o comodismo paralisa a História, conclui que o nosso complexo de inferioridade pela retração do império, não pode ser disfarçado como se de modéstia ou humildade se tratasse, defendendo que o excesso de vaidade da alma lusa pode ter sido causa desse marasmo, findo o estatuto de nação imperial.   

 

Ao desperdício de energias da atitude pessimista dos portugueses em Portugal, contrapõe o empreendedorismo dos que emigram desconhecendo, em geral, casos mal sucedidos, ficando estes libertos das fronteiras psicologicamente opressoras da nacionalidade.

 

Os portugueses parecem sentir-se permanentemente culpados pelo que têm de melhor, têm um desprendimento pela sua língua, a saudade tem um lado passadista e ausente, ao invés do lado saudável no Brasil, de onde Portugal é visto como a memória de um passado comum entretanto obscurecido, onde muito turista usual ou pontual não o inclui nos seus roteiros, por indiferença ou ser tão parecido que nem vale a pena conhecê-lo.   

 

Após lamentar que os portugueses preferissem livrar-se (ou despojar-se) da sua monarquia, diz serem os mais fervorosos consumidores de audiovisuais brasileiros, sem vontade de construírem um pensamento cultural próprio para a televisão, o que se traduz num neocolonialismo cultural de uma antiga colónia: “Um caso singular no mundo, de um domínio que nem sequer fora imposto e sim, curiosamente, desejado pelo antigo colonizador!”, acrescentando: “Se tudo isso já soaria estranho para um português, não o fora menos para um brasileiro que optou por viver em Portugal.”2

 

Apesar destas distâncias e incompreensões, “(…) o português segue sendo o mais admirável fator de coesão nacional e união internacional no âmbito da lusofonia”3, ao invés de Espanha, de disputas linguísticas localizadas, embora Portugal e Brasil não se deem conta desse enorme património comum e unificador. Ambas as nacionalidades irmãs têm um traço comum: não acreditarem no vigor histórico da lusofonia. 

 

2. Ao falar das motivações originais das colonizações predominantes nas Américas, defende que os anglo-saxónicos e os hispânicos traziam a vontade de matar, ao contrário dos portugueses, diferenciando a arrogância anglo-saxónica da flexibilidade do espírito lusitano, exemplificando-o com o Brasil.   

 

No Brasil - caso único mundial - as referências raciais originais não têm cor, “(…) dado que quando adquiriu a sua identidade nacional, já lá estávamos todos - pretos, brancos, índios e mestiços (…). O próprio sentimento nacional na sua origem inclui as diversas raças. (…) Não há o de “fora” como informação visual”,4 sendo das nações “mescladas” a menos racista. 

 

Acrescenta que no Brasil “(…) subconscientemente, os nossos pretos não são “afros”. São brasileiros”5, razão pela qual a questão africana aí terá uma interpretação inversa à  europeia, para a qual prevalece a “visão superior” do colonizador, o que explica que a miscigenação racial seja algo de impensável a curto prazo em Portugal. 

 

Portugal tem de se reconciliar com a sua imagem, com um património inexplorado que sobrevive, como metrópole de um grande império de novos e velhos ideais, pelo que “Cabe perguntar: por que não usar este património a favor de um capitalismo espiritualista?”.     

 

Vendo que a maioria dos emigrantes no nosso país têm no português a sua língua materna, pergunta: “Suportarão, enfim, os portugueses uma aproximação com africanos e brasileiros sem que haja pelo menos um oceano pelo meio?6 

 

A integração lusófona tem de ser aceite como um facto consumado, libertando os portugueses das fronteiras que os aprisionam, começando pelas geográficas “(…) que os fazem experimentar a sensação de uma pequenez que a rigor é apenas mental; das ilusórias fronteiras europeias que, ao contrário, os convenceram de uma falsa grandeza que na prática pouco souberam aproveitar; e, por sinal, também das fronteiras virtuais de um capitalismo de ocasião que a rigor nem fronteiras possui.” 7   

 

Portugal terá de se expandir em todos os sentidos, cruzando de novo o Atlântico em todas as direções e transformando as barreiras que o separam de Espanha em reaproximação, pondo de lado a eterna “paranoia espanhola”. 

 

Analisaremos, nos próximos textos, os merecimentos e críticas que nos merecem estes olhares e impressões de um brasileiro que viveu alguns anos em Portugal. 

 

20.09.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

 

[1] Realizou trabalhos televisivos e assinou séries de ficção, como Jornalistas e O  Processo dos Távoras.
[2] Obra citada, p. 309.
[3] idem, p. 24.
[4] Idem, p. 108.
[5] Idem, p. 113.
[6] Idem, p. 119.
[7] Idem,p. 120.

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

23. UMA HISTÓRIA DE ASSOMBRO: PORTUGAL-JAPÃO, SÉCULOS XVI-XX

 

A exposição patente no Palácio da Ajuda, em Lisboa (até 26.03.2019), pretende mostrar as várias fases da relação estabelecida entre Portugal e o Japão há quase 500 anos, marcadas pelo assombro, deslumbramento e maravilhamento inicial, a que se seguiu uma desconfiança e tensão crescente que terminaria com o martírio e expulsão de missionários e comerciantes portugueses, o que não impediu uma influência recíproca entre ambas as culturas.   

 

A existência de um país para lá da China era conhecida, mesmo antes de Marco Polo lhe ter chamado Cipango ou Zipango, ou Tomé Pires o referir como Japun ou Japang, mas nada se sabia quanto à sua localização exata, modo de viver, costumes e população. Foi com a cartografia portuguesa que se soube do seu posicionamento geográfico, com a carta que surgiu no Atlas de Diogo Homem (1550 a 1558?), onde aparecem as três ilhas principais do arquipélago japonês, mais pormenorizado e melhor representado, em 1561, no planisfério de Bartolomeu Velho.

 

Todavia, foi com a Nau do Trato, conhecida no Japão como kurofune ou navio negro, que se concretizou o principal elo de ligação entre os territórios asiáticos de presença portuguesa e a Europa, a bordo da qual era levada carga de bens de várias latitudes, a par de uma tripulação de gentes variadas, despertando o interesse de grandes senhores da ilha de Kyushu, que após contactos junto dos portugueses e missionários, doaram Nagasáqui aos jesuítas em 1580, que além de porto seguro, foi centro de propagação do cristianismo e de comércio com o exterior, tornando-se um dos centros urbanos e mercantis mais cosmopolitas e relevantes do Japão.

 

O assombro começa, assim, com a chegada de um navio de grandes dimensões, até então nunca visto, com profusão de velas, mastros e homens diferentes, de nariz comprido, em que a tripulação salta de mastro em mastro, lembrando macacos, como tão bem são retratados nos biombos nanban. Nanban, diz a exposição, são obras artísticas que representam nanbanjin ou bárbaros do sul. Não foi apenas o aspeto físico, modo de falar e comportamento que assombrou os japoneses, dado que entre as coisas desconhecidas e raras levadas pelos portugueses estava um objeto estranho, uma espécie de cano comprido, a arma de fogo, que de imediato copiaram e utilizaram. Bem como  objetos redondos à frente dos olhos, os óculos, que absorveram. 

 

Tendo como espanto, do lado europeu, o conhecimento e importação do biombo (do japonês byobu), imediatamente absorvido e adaptado pelas elites europeias, servindo para proteção de interiores das correntes de ar e conservação ou resguardo do calor das lareiras, até à divisão de espaços, sem esquecer a sua função decorativa e artística (arte nanban). Também as armaduras, os sabres e os cavalos dos Samurais, na sua beleza e funcionalidade de técnicas sofisticadas usadas, se tornaram objetos de arte apreciados pelos ocidentais, de que é belo testemunho o conjunto exposto de armadura do Samurai, sela, arreios e armadura de cavalo que foi presente diplomático do Japão ao nosso rei D. Luís, aquando do reatamento dos laços quebrados com a expulsão dos missionários, em 1614, e com a saída forçada de todos os portugueses, no final da década de 1630.

 

Encontraram, porém, os portugueses (e europeus que se lhe seguiram) uma sociedade cultural e socialmente forte, com caligrafia e valores próprios, que não abdicava do seu poder, razão pela qual os jesuítas foram perseguidos e expulsos quando foram tidos como um contrapoder, incluindo os cristãos, com inerentes consequências aos portugueses em geral, nomeadamente comerciantes.

 

Em nome da reunificação do Japão, o cristianismo é tido como um contrapeso subversivo, havendo que o destruir, pondo fim aos contactos que os japoneses tivessem com o exterior. Os missionários são expulsos, muitos castigados publicamente, os cristãos do Japão obrigados a renegar a sua fé cristã. As execuções eram tidas como martírios, os executados crucificados ou queimados na fogueira apelidados de mártires, os seus corpos resgatados para relíquias, havendo na exposição reproduções digitalizadas de gravuras e documentos que o atestam. Martírios que não eram diferentes das punições feitas pela inquisição na Europa. O filme Silêncio, de Martin Scorsese, testemunha-o.   

 

A que acresce, em 1903, o estabelecimento da Legação de Portugal em Tóquio, vindo a ter como nota dominante o espanto dos nossos diplomatas com o esforço japonês de modernização à luz das normas civilizacionais ocidentais, espantando-se em simultâneo “(…) com o empenho nipónico em valorizar o passado histórico comum entre Portugal e o Japão. Por todas essas razões, insistem numa política que consolide e aproxime o reencontro”.   

 

Referirei, a propósito, que é normal falar-se de Portugal no Japão, desde logo pelo facto de os portugueses terem sido os primeiros ocidentais europeus a aí chegar e terem introduzido a arma de fogo, num encontro que mudou a história do país, o mesmo não sucedendo entre nós.

 

A exposição, apesar do seu inegável mérito, e falar do Atlas de Fernão Vaz Dourado, de João Rodrigues (jesuíta do primeiro dicionário de português-japonês), São Francisco Xavier, Santo Inácio de Loyla, Sequeira de Sousa, é omissa quanto a portugueses que foram decisivos neste encontro e reencontro. Como os primeiros que pisaram solo japonês (Fernão Mendes Pinto, Francisco Zeimoto, Cristóvão Borralho, a que são também associados os de António da Mota, Diogo Zeimoto e António Peixoto), Luís Frois (autor da História de Japam, tida como fundamental por investigadores portugueses e nipónicos), Luís de Almeida (médico criador de uma escola de cirurgia para alunos japoneses, que no Japão tem um hospital, monumentos e homenagens em  seu nome), Cristóvão Ferreira (que permaneceu no Japão, após abandonar o catolicismo, cuja obra Segredos da Cirurgia Portuguesa foi a base para futuras obras em japonês), Wenceslau de Morais (com uma obra notável sobre o Japão, onde passou a residir em permanência e morreu). Sem esquecer o Museu e o Festival da Espingarda, em Nishinoomote, na ilha de Tanegashima, onde arribaram os primeiros portugueses, homenageando-os. São alguns exemplos do muito que urge valorizar e não negligenciar.                             

 

22.01.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A VIDA DOS LIVROS

De 22 a 28 de outubro de 2018

 

«Os Factores Democráticos na Formação de Portugal» de Jaime Cortesão (Livros Horizonte, 1964), com Prefácio de Vitorino Magalhães Godinho é um clássico da literatura portuguesa do século XX.

 

 

PENSAR NAS RAÍZES DE PORTUGAL
É da origem de Portugal e do seu desenvolvimento que trata, falando das raízes do que designamos como liberdade e como patriotismo. Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos? A democracia é um conceito moderno com bases antigas. E é de um patriotismo prospetivo que aqui se trata! Leia-se, assim, este livro com olhos de futuro. Manuel Braga da Cruz no Relatório de Investigação sobre Nacionalismo e Patriotismo na sociedade portuguesa atual publicado em 1988 pelo Instituto de Defesa Nacional, afirma que «Portugal parece ter saído do processo de descolonização sem particulares problemas de identidade nacional, e parece ter entrado no processo de europeização e de regionalização com uma consistente adesão à soberania nacional e com uma equilibrada e solidária consciência cívica e nacional. Não só a representação da identidade, a vontade de soberania e a consciência cívica dos portugueses não estão em crise, como surpreendem os elevados índices de adesão que suscitam e pelo equilíbrio que manifestam quando analisados comparativamente. O que revela porventura algum ‘paroquialismo’ e um estado pouco ‘cosmopolita’ do desenvolvimento social e político, mas indica, também, e sobretudo, que são profundas e antigas as raízes e as razões do nacionalismo e do patriotismo português». Partimos daqui para a consideração dos fatores de coesão social, que normalmente são apontados como característicos da realidade portuguesa, articulando-os com as limitações existentes no tocante à vida das instituições da sociedade civil e à respetiva mediação, capaz de favorecer a mobilização cívica em torno da participação cívica, da representação e da responsabilidade cidadã. E aqui há fatores contraditórios a considerar – que relacionam os aspetos positivos referenciados e as fragilidades patentes na participação eleitoral até à inexistência de uma forte mobilização de instituições da sociedade civil. Assim, continuando a citar o coordenador do estudo: “quanto à temática da soberania nacional, os fatores de adesão e de distanciamento parecem não ser tão uniformes nem unidirecionais”. A regionalização (entretanto suspensa por um referendo não vinculativo) e a europeização não deixam, contudo, de levantar receios relativamente à ideia de soberania nacional. E aí os níveis de instrução e de integração social apresentavam influências antagónicas na perceção de riscos de integridade e de meios de defesa nacional. Com efeito, a sociedade portuguesa apresenta, desde muito cedo, elementos caracterizadores de configuração complexa que nem sempre são bem compreendidos.

 

ENTRE O ATLÂNTICO E O MEDITERRÂNEO
De que falamos? De uma homogeneidade identitária e linguística e da persistência de uma independência politica, caracterizada pela preeminência do Estado perante a Nação, pela força agregadora da costa marítima (por contraponto à continentalidade de Espanha, sobretudo depois de 1492), pela complementaridade entre o Atlântico e o Mediterrâneo, pela simultaneidade da construção da nacionalidade através de dois movimentos: um de Norte para Sul, característico da reconquista cristã, e outro de Sul para Norte, mercê da consolidação da influência moçárabe e moura (na expressão tradicional), o que fica bem patente na precoce consolidação do português como língua nacional e na confluência entre os falares do norte e do sul, sem a emergência de dialetos (já que o mirandês é uma língua, que resulta da influência do asturo-leonês. A decisão de D. Dinis ao adotar o português como língua oficial e dos tabeliães e ao criar o Estudo Geral revelar-se-á decisiva para a consolidação tão cedo do português como fator de unidade nacional – o que se soma às migrações internas devidas a uma distribuição irregular da população ao longo do território. Conhecemos o entendimento de Alexandre Herculano, segundo o qual a nação possuiria uma índole democrática (usando a expressão de Cortesão, que é algo anacrónica para o Mestre de “Eurico”), a qual proviria da organização municipal que durante a Idade Média se estendeu, favorecida pelas concessões dos monarcas, a todo o território nacional. No entanto, o historiador nunca terminaria esse estudo, faltando a demonstração das origens do nosso poder local no município romano e das continuidades nos impérios visigótico e árabe. Isto, enquanto diversas pistas eram seguidas e associadas à pergunta sobre as origens municipalistas, descentralizadas de Portugal.

 

AS CLASSES POPULARES E A NAÇÃO
Afinal, para Jaime Cortesão “o acesso das classes populares à administração local e pública e a sua ingerência na política da nação não representam herança ou doação, mas sim conquista revolucionária. Ao lado do carácter universalista que marca a Nação desde as origens, vamos encontrar na base das suas liberdades públicas e da própria independência nacional, a vivificá-las, a renovação das condições de trabalho e um espírito de autonomia em luta e oposição permanente contra o estrangeiro”. Esta ideia de conquista deve-se a uma evolução da economia e do funcionamento da sociedade, que obriga a assumir responsabilidades pelos novos agentes económicos, mercadores e mesteirais. Há o nascimento de uma aliança, na qual o reino de Portugal se baseia, entre o poder real e os municípios, numa lógica de reconhecimento da liberdade, que coexiste com o centralismo político do monarca. E S. Tomás de Aquino proclama que o atributo essencial da soberania “é o poder de fazer as leis, e este pertence a toda a multidão ou àquele que a representa. Num bom governo é necessário que todos tomem a sua parte”… Ora, com uma adequação da população ao território, como a organização do governo, com a definição dos poderes locais e com o surgimento das bases do Estado moderno são lançadas as bases do que Cortesão designa como “caboucos da democracia em Portugal”. Estamos perante os prolegómenos de uma legitimidade nova – e esses fundamentos não descem às profundidades da administração romana. As tendências universalistas foram desenvolvidas durante a Idade Média e eclodiram e triunfaram, em Portugal, durante a revolução que levou ao trono o Mestre de Avis, determinando a formação social predominante, a missão histórica e o carácter ideal da Nação. E é este humanismo universalista de raiz franciscana, também próximo de Joaquim de Flora, que Cortesão considera entre as razões do sucesso da independência portuguesa, das instituições, da mediação e do respeito pelas diferenças. E assim pode superar as profecias do Bandarra – proclamando, como o fará o Padre António Vieira, que o “Desejado” não é um morto e que o futuro português não é puro sonho. O “Desejado” era um vivo e existia, era D. João IV e as saudades do futuro exigiam a reconstrução audaciosa do País… E sem idealizações abstratas o que Cortesão faz, num caminho crítico, é dizer que estão no código genético de Portugal a exigência da liberdade e de uma articulação de esforços no sentido de um projeto de futuro, seriamente planeado e não sujeito ao improviso.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLIII - “A LÍNGUA PORTUGUESA EM NÓS”

 

Quer funcionando como a primeira pessoa no plural, quer no sentido da medida de navegação ligada ao movimento e à velocidade, quer significando o entrelaçamento de cordas, cordões, fios, linhas ou algo mais, a palavra “nós” possibilita múltiplas interpretações assumindo, pelo menos, um triplo sentido de leituras, como metaforicamente o pretende simbolizar a exposição “A Língua Portuguesa em Nós”, na Central Tejo, em Lisboa, entre 6 e 21 de outubro de 2018.

 

Sem fausto, deslumbramento, pompa e circunstância, esta exposição, de raiz brasileira, pretende informar, historiando ao sabor dos tempos e resumidamente, a história do nosso idioma, aí atualmente quantificado em 270 milhões de falantes. 

 

Na sua simplicidade, economia de espaço e meios, fala-nos da grande viagem, de viajantes, promotores e divulgadores da língua portuguesa, desde as navegações marítimas portuguesas e correspondente expansão pelo mar, até aos dias de hoje, com especial enfoque no contributo do Brasil, ou não fosse ela uma iniciativa brasileira, uma espécie de miniatura ou pequena amostra do Museu de Língua Portuguesa, de São Paulo, em recuperação, após o incêndio de 2015 (em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, a Fundação Roberto Marinho, o Instituto da Língua Portuguesa, a Fundação EDP e o Instituto Camões). 

 

Por entre painéis, livros, vídeos, era digital, há uma espécie de puzzle onde sobressaem música, textos, culinária e a Cápsula, tendo esta a particularidade de recolher testemunhos individuais da fala, de cidadãos comuns, convidados a falar e gravar depoimentos em vídeo, expondo a sua relação com o nosso idioma, para integrar uma coleta de falares que farão parte do acervo permanente do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, Brasil.

 

Há a literatura, essa linguagem trabalhada, com frases, textos, referências a Camões, Vieira, Pessoa, Vergílio Ferreira, Sophia, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Drummond, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Oswaldo de Andrade. 

 

E há a música do Brasil que se internacionalizou e tanto universalizou a língua portuguesa, a quem esta tanto deve, vindo-me à memória uma guia italiana, em Veneza, sem ligações lusófonas, que me surpreendeu pelo seu português tão bem falado, cujo porquê indaguei, respondendo-me que o aprendeu graças à música brasileira, que sempre amou, desde Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto, Jorge Ben, Betânia, Gal Costa, Elis Regina, Vinícius de Moraes, entre outros, como Mariza Monte, Dorival Caymmi, Paulinho da Viola, nomes que vamos reconhecendo no decurso da exposição.

 

Fala-se também de Agostinho da Silva, a propósito da canção de Caetano “Minha pátria é minha língua”, dando eco a uma nova cultura que emergiria dos falantes de português no Brasil e na África, que a Praça da Língua intenta difundir e promover.

 

Da culinária e do samba, naquele português com açúcar do Brasil, da fruta e sotaque doce, a que acresce a eterna viola e o violão. 

 

Reconhecendo ser o nosso idioma uma das línguas mais faladas no mundo, dando-lhe o estatuto de língua global, aparecendo entre as seis primeiras (por vezes em quarto ou quinto lugar, consoante as fontes), estranha-se que a população da Guiné Equatorial seja contabilizada para efeitos do número de falantes do português, decerto por arrastamento, dado ser um país membro da CPLP (sendo mera retórica, até agora, ser tido como um país que tem como língua oficial a portuguesa, embora  um pressuposto necessário para integrar a CPLP).

 

Na sua modéstia e contenção de custos, vale a pena a visita, embora merecesse voos mais altos, pelo valor estratégico que a língua portuguesa tem, sem esquecer as ameaças globais que a rodeiam, mesmo a nível interno e lusófono, não obstante uma língua global e a este nível ser enfatizada, em défice com a condição de língua ainda dominada a vários níveis institucionais (e não só), factualidade de que a exposição é omissa.    

 

14.10.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

Diário de Agosto * Número Extra 

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  TU CÁ TU LÁ

  COM O PATRIMÓNIO 

 

Escrevo ainda de Vila Nogueira de Azeitão, junto de meus Manes e Penates. Há uma leve brisa, mas o calor ainda se não desvaneceu, apesar de estarmos a caminhar para o Equinócio de Outono. Ao fim de trinta e três postais e de outras tantas citações de poemas ou textos de referência, escolhi agora para terminar a série este coelho atrevido de Amadeo de Souza-Cardoso. Acompanha-me há muito. É o símbolo de um entendimento do património cultural em que os tempos se associam e dialogam – ligando sempre o antanho e a contemporaneidade. Procurei, ao longo deste tempo, dizer que o património cultural, começa nos nossos genes que se transmitem pelas gerações, continua no que somos e fazemos, dando vida ao que recebemos e transmitimos e termina na nossa vida do dia a dia. Ontem quando caminhava pela minha querida Arrábida, dei-me a dialogar com Frei Bernardino, cujo espírito está bem presente por aqui. E recitei intimamente um poema de meu padrinho e homónimo Frei Agostinho da Cruz. Mas quando cheguei a casa corri a reler Pedro Tamen e algumas recordações de João Bénard da Costa… Com deleite ali fiquei. Que é a vida da cultura senão esta possibilidade de gozar a paisagem, de percorrer os caminhos ancestrais, de dialogar com os espíritos e de regressar à terra, aos nossos dias. Antes de entrar em casa tive dois dedos de conversa com um vizinho simpático, preocupado com a mudança da hora que me disse ser a ignorância muito atrevida: “Venham aqui para o campo às nove da manhã com noite fechada no inverno e digam-me se isso está bem?”…  Dei-lhe uma nota do meu amigo Rui Agostinho a dizer que tinha toda a razão – e acabámos a falar do tempo em que era o relógio de sol que marcava o tempo… Hoje, aqui estou com um bom pão caseiro como já só encontro aqui, boa compota de marmelo, um queijinho delicioso e um moscatel… Folheio papeis antigos e dou-me com o meu querido Padre António Vieira, que é a melhor maneira de ver com olhos de ver o que nos rodeia…

 

«E quando os homens são de tal condição, que cada um quer tudo para si, com aquilo com que se pudera contentar a quatro, é força que fiquem descontentes três. O mesmo nos sucede. Nunca tantas mercês se fizeram em Portugal, como neste tempo; e são mais os queixosos, que os contentes. Porquê? Porque cada um quer tudo. Nos outros reinos com uma mercê ganha-se um homem; em Portugal com uma mercê, perdem-se muitos. Se Cleofas fora português, mais se havia de ofender da a metade do pão que Cristo deu ao companheiro, do que se havia de obrigar da outra metade, que lhe deu a ele. Porque como cada um presume que se lhe deve tudo, qualquer cousa que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba. Verdadeiramente, que não há mais dificultosa coroa que a dos reis de Portugal: por isto mais, do que por nenhum outro empenho.
(...) Em nenhuns reis do mundo se vê isto mais claramente que nos de Portugal. Conquistar a terra das três partes do mundo a nações estranhas, foi empresa que os reis de Portugal conseguiram muito fácil e muito felizmente; mas repartir três palmos de terra em Portugal aos vassalos com satisfação deles, foi impossível, que nenhum rei pôde acomodar, nem com facilidade, nem com felicidade jamais. Mais fácil era antigamente conquistar dez reinos na Índia, que repartir duas comendas em Portugal. Isto foi, e isto há de ser sempre: e esta, na minha opinião, é a maior dificuldade que tem o governo do nosso reino».

 

  Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O Modernismo em Portugal (Parte III)

 

Os anos 50, prolongam as questões dos anos 40, transforma-nas e completam-nas. Nos anos 60 instaura-se a urgência das novas vanguardas.

 

No final dos anos 50, Almada dedica-se à abstração geométrica. Pomar abandona o realismo social e envereda por uma pintura de pincelada e gestos cada vez mais livres. Cesariny e Cruzeiro Seixas enveredam pela abstração lírica assim como Fernando Azevedo e Marcelino Vespeira, a partir de 1952. O estado perde a iniciativa cultural-artística que mantivera desde os anos 30: os artistas radicalizam-se, perdidas as pontes alimentadas por António Ferro, que é afastado da direção do SNI.

 

As exposições Artistas de Hoje (1956), o I Salão de Arte Moderna (1958), ou 50 Artistas Independentes (1959), sempre na SNBA, opõem-se fortemente ao regime e demonstram a viragem de rutura. É a escultura, precisamente, que inicia este processo através da fusão de diferentes contributos: surrealismo, neo-realismo e abstração. Jorge Vieira, sob influência de Henry Moore, estabelece associações abstratas. 

 

Outro campo de renovação é o da fotografia. Por um lado, apresenta um campo de registo real com conteúdo social: Vitor Palla e Gérard Castello-Lopes. Por outro, verifica-se a existência de um recurso a atividade plástica surrealista com Fernando Lemos. 

 

Entretanto, como se disse, Vieira da Silva e Arpad Szenes integraram a segunda Escola de Paris e até então a única relação do meio artístico português com a arte internacional. As obras de ambos cruzavam aspetos expressionistas com pesquisas cubistas do espaço e da luz. Influenciaram, aliás, obras de portugueses como D'Assumpção, Menez, Vespeira e Azevedo. Estes estabelecem a ponte para os anos 60. É necessário sublinhar que Menez Ribeiro da Fonseca trouxe à pintura portuguesa uma dimensão impressionista nova e inesperada, pela sensibilidade luminosa das suas atmosferas envolventes e intimistas.

 

Nos anos 50, Nikias Skapinakis é o pintor de uma Lisboa vazia e triste em cenário de colorido artificial e de retratos melancólicos e irreais de intelectuais.

 

Manuel Baptista apareceu no Salão Moderno da SNBA em 1958, com pesquisas formais envolvendo originalmente colagens de elementos materiais de suporte pintados, em variados jogos de cor, da monocromia à mais elaborada transparência tonal, com um grafismo interveniente.

 

Jorge Martins instalou-se em 1961 em Paris e durante trinta anos aí viveu. A sua pintura inclui variadas pesquisas, geralmente no domínio abstratizante, com invenções de signos de relação científica ou mágica (FRANÇA, José-Augusto).

 

Dá-se nos últimos anos da década de 50, ainda, uma vaga de emigração artística: Lourdes Castro, René Bertholo, Costa Pinheiro, José Escada. Entre Paris e Munique, estes últimos, criaram o já citado grupo KWY (letras ausentes do alfabeto português: 'Ká Wamos Yindo') que se prolongou, nos anos 60, com uma revista. Era um grupo que queria atingir a liberdade na aplicação do material e no gesto. Lourdes Castro aborda a ausência do objeto, pela marcação dos vazios limitados por contornos objetuais exteriores. 

 

Os anos 60, formaram assim uma nova estratégia artística. Pulverizam-se nomes e tendências, ações e gestos. Abre-se caminho a um novo tipo de iniciativas: 

 

- Individual (através da imigração massiva de artistas para Europa);

- Sócio-profissional (através da conquista, pelos modernos, da SNBA)

- Comercial (através da abertura ou continuidade que galerias de Lisboa); - Institucional privada (através do início das atividades da Fundação Calouste Gulbenkian - FCG).

 

A imigração até meados de 70, realizou-se como uma revolta estética, uma rutura política e é apoiada pelas bolsas da Gulbenkian. Confirmam-se destinos não parisienses, com contribuições contínuas no processo de investigação plástica. Quase todos os nomes mais significativos da década integram-se no espírito do tempo atual, aceitando influências inglesas, francesas, italianas, espanholas e americanas (como no gestualismo).

 

Em Londres, desde os anos 50, Paula Rego desempenha um papel prestigiante para a vida artística portuguesa com evidente reconhecimento internacional. A sua obra conjuga memórias infantis e cultura popular portuguesa. Nos anos 60, explícita realidades políticas e delira através de formas organicamente dispostas. Paula Rego, Joaquim Rodrigo, João Cutileiro, significaram, em 1961 (no âmbito da II Exposição de Artes Plásticas da FCG), um momento de abertura para novos horizontes.

 

Por Inglaterra passaram também Cutileiro, Bartolomeu Cid, Ângelo de Sousa, Alberto Carneiro, Eduardo Batarda, António Areal, Rolando Sá Nogueira, Mário Cesariny e Menez.

 

Uma linha de rutura, estabelecida dentro do panorama nacional é protagonizada por António Areal, Álvaro Lapa, Joaquim Bravo. António Areal escolhe o gestualismo como ponto de partida para abraçar o registo figurativo. Álvaro Lapa fascinado por Motherwell realiza uma investigação 'de radicação surrealista, numa prática inocentemente fantasmada, em requintada elegância de desleixo, como se a pintura, em vez de procurada, viesse ter às mãos do pintor, em grafismos automáticos de longínqua origem, como um eco algo doloroso por sua doce e inamovível angústia.' (FRANÇA, José-Augusto) Bravo implanta imagens sintéticas seriadas.

 

Sendo assim, os anos 60 generalizaram a existência de contribuições individuais cada vez mais diversas, dispersas e complexas e viria a terminar já nos anos 70 pela mudança determinada pela Revolução de Abril.

 

Ana Ruepp