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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de maio de 2021

 

“Portugal – Ser e Representação” de Miguel Real (Difel, 1998) constitui uma reflexão crucial, no conjunto de uma obra que atinge os quarenta anos de persistente labor intelectual.

 

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PERMANENTE INTERROGAÇÃO

Os quarenta anos de Escrita de Miguel Real correspondem a uma permanente interrogação sobre o tema dos mitos e da essência da cultura. Eis por que razão a sua obra tem de ser analisada a partir do seu sentido crítico e não apenas através de uma identificação simplificadora das glosas que tem desenvolvido, por exemplo, a partir de Teixeira de Pascoaes, Jorge Dias, António José Saraiva e Eduardo Lourenço. De facto, o elemento dominante encontrado pelo ensaísta no homem português de “ser o que não é”, leva-nos à compreensão de que a riqueza do pensamento de Miguel Real é a sua capacidade de pôr em causa os lugares comuns e de assumir a complexidade. Tal como refere José Gil, sobre o “ensaísmo trágico”, relativamente a Eduardo Lourenço, Miguel Real não segue os dois caminhos tradicionais do pensamento filosófico – ora partindo dos grandes conceitos, com o horizonte reconfortante e estável das sínteses, como em Kant e Hegel; ora exercendo a análise pura e direta da decomposição das noções. Miguel Real prefere os conceitos, encarados como “figuras simbólicas”, a partir da função ontológica do mito. Com efeito, aceita que há dois tipos de existência – a empírica e a mítica, mas é a segunda que estrutura a primeira e fá-la consistente. A mitificação do empírico conduz-nos ao primado do sentido crítico, não havendo confusão entre a invocação dos mitos, o seu efeito, e a respetiva aceitação. Eis por que são importantes os mitos que a sociedade produz, assumindo a dupla dimensão de integração e renovação. De facto, o mito evolui e adapta-se à realidade e, simultaneamente, contribui para fazer alterar a própria realidade. Não por acaso, M. Real faz da crítica literária o seu terreno de eleição, a fim de compreender melhor a capacidade criadora. É a busca da complexidade hermeneutica, ontológica e histórico-sociológica que o preocupa. O “imaginário português” é, assim, o campo de ação do analista, como fator de liberdade, de independência e de diversidade. Ao aventurar-se no lugar dos outros e no campo do ser o que não se é,  depara-se, tantas vezes, com uma menor compreensão daquilo que verdadeiramente põe em causa. Pode, assim, aplicar-se-lhe o que Eduardo Lourenço afirma em “Heterodoxia – I”: “o homem é livre de aceder a uma visão geral da vida através duma reflexão incondicionada, cuja essência consiste na possibilidade de recusar ou discutir toda a espécie de postulados”. Por isso a distância em relação à ideia de sistema, e a evidente preferência pelo método ensaístico, tal como preconizado por Sílvio Lima. E assim eis-nos perante a interrogação exigente sobre o modo como somos e como imaginaríamos ou deveríamos ser. Daí uma especial coerência em recusar os temas circunstanciais ou as ilusões da moralidade – o que se evidencia nas incursões romanescas, com evidente sucesso, em que a singularidade dialoga com a comunidade, sem pretensão de uma qualquer conclusão edificante.

 

QUALIDADES E DEFEITOS…

Portugal é visto com qualidades e defeitos, com avanços e recuos, com características próprias, as mais das vezes contraditórias: a Providência e o anti-clericalismo; a unidade e a diversidade; o conformismo e o inconformismo; o lirismo e o picaresco, a tragédia e a ilusão. Afinal, urge denunciar o “irrealismo prodigioso da imagem que os portugueses fazem de si mesmos”, como lemos no autor de “O Labirinto da Saudade”. Longe da placidez das explicações unívocas, encontramos no caminho da nossa História: os gestos traumáticos da independência nacional; a longa hesitação do Mestre de Avis; o desastre de Alfarrobeira; a tragédia do Infante Santo; a morte da esperança do Principe Perfeito; a loucura de D. Sebastião; a ambiguidade do Quinto Império; o efeito do Ouro do Brasil; a partida da Corte para o Brasil; a humilhação do Ultimato inglês; o colonialismo; a neutralidade colaborante do Estado Novo… Tudo se projeta na vida coletiva, na gestação e desenvolvimento dos mitos. “Os Lusíadas” são uma genial ficção, em que Camões segue os passos de Virgílio e põe-nos na linhagem de Eneias e dos heróis de Tróia. É uma ficção grandiosa que não esconde a excecionalidade de uma evolução dificilmente explicável de uma “existência crepuscular”. De facto, só a crítica, do mito e pelo mito, pode tentar encontrar uma chave para esse encontro com o destino difícil de explicar.

 

EUROPA E LUSOFONIA

Os mitos da Europa e da lusofonia obrigam, no fundo, à interrogação paradoxal sobre o velho continente e as relações ancestrais ambíguas que o tempo tem procurado resolver: depois de a Europa nos ter feito e de nós termos feito a Europa é tempo de assumir criticamente um sonho, apesar do desencantamento que resulta do confronto com a realidade. Afinal, Portugal e a Europa fazem-se mutuamente, designadamente através de uma relação ibérica inteiramente nova e absolutamente necessária… É de uma reconciliação connosco próprios que falamos, deixando de nos sentirmos marginais ou sós – com uma garantia de segurança e liberdade. De facto temos “Duas Europas”: uma, a nossa (em conjunto com a Espanha), castiça, do sul, arrastada pela má consciência de termos sido grandes; e a outra nórdica, avançada e acelerada… Já a “lusofonia” corresponderá a um espaço de língua, que não significa espaço de cultura unívoca. Tratar-se-á sempre de uma ligação de geometria variável, em que as complementaridades e as imperfeições serão muito mais importantes do que qualquer falso sucedâneo imperial. E Miguel Real diz-nos que, como nó central do imaginário português, o sebastianismo é um ativo cultural gerado pela consciência popular. Fernando Gil diz ser a alucinação um operador natural da evidência. O que obriga a que a crítica do mito se torne aguilhão de maior exigência futura. Prova póstuma de existência e desafio à lucidez. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

                                         

A VIDA DOS LIVROS

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   De 11 a 17 de janeiro de 2021

 

“Flores de España, Excelência de Portugal” (1631) e “Ulissipo - Poema Heroico” (1640) de António de Sousa de Macedo são duas obras em que o seu autor enaltece as virtualidades de Lisboa e dos portugueses nas vésperas da Restauração da Independência. No entanto, a celebridade do autor não se ficou a dever a talento literário, mas sim ao modo como defendeu a legitimidade do rei João IV e da independência de Portugal.

 

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UM POLÍTICO INFLUENTE

O Doutor António de Sousa de Macedo (1606-1682) que dá o nome ao largo em que se inicia em Lisboa a Calçada do Combro está longe de ser um desconhecido. É verdade que não foi a literatura que o celebrizou e que “Ulissipo – Poema Heroico” (1640) é uma obra mitológica sua que hoje quase passa despercebida. Não foi assim como poeta ou escritor que se singularizou. Alberto Manguel, novo munícipe naquele Largo, conta que perguntou quem conhecia o literato, mas ninguém soube responder. Há alguns anos esclareci, aliás, uma confusão entre este António de Sousa de Macedo, do século XVII, e um seu descendente que foi Ministro da Instrução Pública, o primeiro, num Governo do Marechal Saldanha em 1870, conhecido como D. António da Costa. É bom encontrar alguém que se interrogue sobre quem merece ser imortalizado numa rua. Esta honra toponímica não veio, porém, da escrita, mas do facto de se tratar de um dos mais célebres diplomatas, em momento decisivo da história pátria. Quando em 1640 inicia a sua obra épica sobre a fundação de Lisboa, Sousa de Macedo vai buscar a referência homérica da “Odisseia”, enaltecendo as virtudes do grande herói da Guerra de Troia e inserindo a origem dos portugueses na mais antiga tradição greco-romana. E tal como Camões, mas seguindo caminho diverso, vai à inspiração de Virgílio, podendo dizer-se que estamos perante um verdadeiro reportório da cultura e da mitologia da Grécia. «Canto ao varão que por fatal governo / da Grécia à Lusitânia peregrino / fundou ilustre muro e nome eterno; / onde o mar torna o Tejo cristalino / muito obrou e sofreu; em vão o Inferno / se quis opor contra o poder Divino, / que o guardou para autor, naquela idade, /de muitos reinos numa só cidade». Temos, de facto, de inserir esta obra na preocupação fundamental de assegurar culturalmente a criação de uma legitimidade cultural, que hoje designaríamos como identitária. Se António Sousa de Macedo não esteve na primeira linha da conspiração de 1640, assume-se claramente como restauracionista na preocupação que preside a esta obra. Enquanto Francisco Rodrigues Lobo põe a nu em “A Corte na Aldeia” a situação de um povo grande que se vê submetido a uma situação de subalternidade, substituindo o tema do império pela discussão de campanário de aldeia, o autor de Ulissipo projeta na Antiguidade Clássica a legitima ambição de uma nação que aspira à liberdade, como afirmará em “Lusitania Liberata”, cujo título integral é “Lusitânia libertada do domínio injusto dos espanhóis e devolvida ao rei D. João IV, com materiais históricos e jurídicos e todo o conhecimento de Portugal, para a terra da nação, o seu poder e os acontecimentos mais dignos de nota desde a criação do mundo, no qual o leitor verá o seu valor na história, na literatura, no direito, na política e na teologia” (de 1645).  

 

UMA VIDA DE SERVIÇO PÚBLICO

Nascido no Porto em 1606, veio para Lisboa pelas funções do Pai, Desembargador na Casa da Suplicação, seguindo para Madrid. De novo em Lisboa, frequentou o Colégio de Santo Antão (1619-1623), depois do que rumou a Coimbra, para frequentar Direito Civil. Voltou a Madrid com seu pai e então escreveu “Flores de España, Excelência de Portugal” (1631), onde elogiou Lisboa e enalteceu os espanhóis, o melhor dos povos, à exceção dos portugueses. Nesta obra, sente-se a dupla preocupação de defender as qualidades excecionais dos portugueses e de Portugal, sem pôr em causa uma boa relação formal com o povo de Espanha. Nota-se, contudo, uma preocupação, que se evidenciará mais tarde em garantir uma defesa eficaz dos interesses portugueses. Regressado a Portugal obteve o grau de Doutor em Leis (1632), sendo enaltecida por Barbosa Machado a qualidade das suas prestações académicas - a merecer “inveja e veneração dos Catedráticos daquela insigne Atenas”. Num momento triste da família, o Pai foi destituído de funções. O jovem casa-se com Maria Lemercier, de ascendência holandesa, mas vê recusado o seu nome para Contador-mor. Era secretário do Conselho de Portugal Miguel de Vasconcelos, e houve razões pessoais e políticas para esta recusa. Pouco depois dá-se o golpe de 1640, no qual não participa diretamente mas que apoia com entusiasmo. Então é nomeado secretário da Embaixada em Londres com Antão Vaz de Almada, sucedendo-lhe como representante, e é essencial a sua ação, quer no reconhecimento da Restauração quer ao conseguir a nomeação de um prestigiado Embaixador britânico para Lisboa, Henri Compton, o que foi essencial para a legitimação de D. João IV. Mercê de um elevado sentido pragmático, mas também de uma relação humana muito afável e de uma cultura rica, relaciona-se com Carlos I, num momento muito difícil da vida política britânica, que levaria à implantação da República de Cromwell – o que lhe permitirá ser muito admirado pelo futuro rei Carlos II, que virá a casar-se com a Princesa portuguesa Catarina de Bragança.

 

UMA MEMÓRIA IMPORTANTE

Volta a Lisboa como Desembargador da Casa da Suplicação e em 1648 é Juiz das Justificações do Reino. Em 1651 é Embaixador nos Países Baixos, onde não concorda com o Padre António Vieira. Com a subida ao trono de D. Afonso VI é nomeado Secretário de Estado, ao lado de Castelo Melhor. Mas quando o rei é afastado cai em desgraça e é exilado a 30 léguas da Corte, para a Vila de Penela (1667). O certo é que foi um importante político, diplomata e influente membro do Conselho da Fazenda. Conheço bem o Largo (antes designado do Poço Novo), nele foi-me possível usufruir da hospitalidade extraordinária de Helena e Alberto Vaz da Silva, queridos amigos. Helena era descendente de Sousa de Macedo, por via materna, ainda que a casa onde nasceu e viveu não fosse a do seu antepassado, mas no Palácio Cabral, em frente, prédio do século XVII, largamente beneficiado depois do Terramoto, e recentemente alvo de revelações históricas importantes. Eis esclarecida a questão.

 

 Guilherme d’Oliveira Martins

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30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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(XXXI) UM ESTRANHO EPÍLOGO

 

Chegamos ao fim do folhetim. Muitas coisas ficaram por dizer.

Finalizo, como comecei, com palavras de Garrett, a terminar “Viagens na Minha Terra”:

«Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra. Se assim o pensares, leitor benévolo, quem sabe? pode ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e vá peregrinando por esse Portugal fora, em busca de histórias para te contar. Nos caminhos-de-ferro dos barões é que eu juro não andar. Escusada é a jura porém. Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal! Que tenha o Governo juízo, que as faça de pedra, que pode, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra»...

E completando o folhetim, imagino-me, beneficiando da hospitalidade do meu Amigo Pedro Canavarro, na sua casa de Santarém. Aí reencontrei diletos viajantes que me disseram ter sido tratados nesta viagem com excesso de simpatia. E quem foram eles? Garrett, naturalmente, maravilhado com os benefícios que a cidade escalabitana foi sofrendo. Herculano e o seu amigo dedicado Raimundo Bulhão Pato, agradados com o sucesso do seu azeite e dos seguidores do senhor Jerónimo Martins – e animados com a conversação afável de Manuel da Silva Passos, o extraordinário proprietário da casa, sobre a procura necessária destas boas razões para Portugal, em nome de uma boa instrução pública.

E calculem que descobri nessa cavaqueira de bons e aprazíveis companheiros, a paixão de Almeida Garrett pelas histórias de quadradinhos e pelo facto de, nas aventuras de Tintin, Oliveira da Figueira ser o símbolo do português. Garrett percebeu bem a importância da ilustração, Bulhão Pato também manifestou curiosidade e interesse – e até o velho Herculano, com algum ceticismo, manifestou atenção, sabedor que as suas lendas e narrativas têm sido boa matéria para todos os principais ilustradores. Com a ajuda de Pedro Canavarro lá explicámos quem era este Oliveira da Figueira que conheciam mal…

A sua primeira aparição foi em 1932, como personagem de «Os Charutos do Faraó», num episódio em que Tintin é atirado ao Mar Vermelho, por engano, num sarcófago egípcio. Salvo «in extremis», o jornalista encontrou-o na embarcação que milagrosamente o recolheu e Oliveira da Figueira pôs-se-lhe à inteira disposição: «se puder ajudá-lo, posso fornecer-lhe a preços competitivos qualquer artigo de que necessite». Começou então por um conjunto flamante de gravatas, às riscas, às bolas ou com figuras exóticas. Seguiu-se um lote de magníficos sabres, com lâminas de Toledo, mil outras bijuterias, além dos brindes: um despertador, escova de dentes etc… Tintin saiu literalmente carregado, com um balde, um regador, uma gaiola com papagaio, uns esquis, tacos de golfe, uma casota e uma coleira de cão, além do inevitável despertador – confessando: «Ainda bem que não me deixei levar pela conversa dele. A tipos como este acabamos sempre por comprar uma série de coisas inúteis». Na costa árabe, Oliveira da Figueira demonstrará a sua extraordinária arte de convencer. Chamam-lhe «o-branco-que-vende-tudo»… E diz orgulhoso: «Então que tal? Chama-se a isto eficiência! E o melhor é que os meus clientes voltarão». Apesar de tudo aparece alguém a protestar porque parece ter ingerido um naco de sabão, que lhe produz o óbvio mal-estar originado pelas bolas que o atormentam - «Antes da Lua Nova, o meu Senhor, o Xeque Patrash Pacha, ter-te-á castigado»…

Depois a rotunda personagem é encontrada no «País do Ouro Negro», obra iniciada em 1939, interrompida pela guerra e recomeçada em 1948. E ajuda Tintin a encontrar os segredos do temível Dr. Müller, descobrindo um sagaz subterfúgio. Mascarado de sobrinho do comerciante, sob o nome de Álvaro, quase invisual com uma estória de contornos mirabolantes. É extraordinária a capacidade fabulatória de Oliveira da Figueira. Inventa que o sobrinho é filho de um criador de caracóis, vítima de uma trama terrível que envolve uma mulher rica que morre de desgosto aos noventa e sete anos e a influência de duas imortais palavras, ditas em português, «Oh! Oh!», cujo sentido nunca chegamos a conhecer…

Depois, em «Carvão no Porão» («Coke en Stock», publicado no «Cavaleiro Andante», em 1959 e 1960, sob o título «Mercadores de Ébano»), Tintin e o Capitão Haddock, pedem apoio e hospitalidade em Wadesdah. Oliveira da Figueira recebe surpreendido e assustado a visita noturna de Tintin, com a cidade em estado de sítio, cheia de cartazes a pedir a sua captura. «Que faz aqui, desgraçado? Não sabe que tem a cabeça a prémio?». O português conta o que se passa. Há agitação e um conflito entre a Arabair e o Emir… Tintin diz que precisa absolutamente de ajudar o Emir e Oliveira da Figueira informa que teve de fugir para casa de Patrash Pacha. Tintin e Haddock treinam desesperadamente o equilíbrio das bilhas à cabeça, para que possam não dar nas vistas, mascarados de mulheres árabes com as suas burkas. O resultado do treino é desastroso. Os estragos são enormes e os cacos enchem o armazém do comerciante, que se vê na obrigação de dizer às clientes que as bilhas estão esgotadas. No momento da verdade, tudo parece salvo, mas eis escandalizada. O desastre anuncia-se, mas tudo se arranja, graças ao apoio providencial de Oliveira da Figueira.

A charla continuou e os convivas assinalaram temas que poderiam ter sido acrescentados aos célebres 30. Bulhão Pato foi o mais loquaz – falou da gastronomia que poderia ser acrescentada, elogiou o Mestre João da Matta, falou de Paulo Plantier, e assinalou as maravilhas do Queijo da Serra e do seu sucedâneo de Azeitão (com a ajuda de Periquita, boa pomada) e saudou o esclarecimento da confusão das ameijoas, que nunca ele cozinhou, mas com que se deleitou no Central… Garrett, atentíssimo ao espírito do tempo, falou, imaginem lá!, dos desportos e dos ídolos, e deu nota que lá no assento etéreo onde se encontra se apercebeu dos sucessos desde Eusébio a Cristiano. Uma cultura popular faz-se dessa ligação aos ídolos e aos efémeros sucessos. Herculano, circunspecto, preferiu chamar a atenção para a necessidade de uma visita ao Convento de Tomar, charola, janela manuelina, memória de Gualdim Pais, rio Nabão e à importância do monumento como património vivo. Achou justa a referência a Camilo e a Júlio Dinis. E lembrou ainda a Biblioteca Joanina de Coimbra, a inesgotável Livraria da Ajuda, que ele conhece como as suas próprias mãos, a Torre do Tombo e a Portugaliae Monumenta Historica… Pato e Garrett falaram de música, lembraram os “Tentos” de Frei Manuel Correia, mas também José António Carlos Seixas e o tempo joanino, Luísa Todi na corte de Catarina da Rússia… Garrett insistiu especialmente em João Domingos Bontempo, seu amigo e colega de lides na formação musical do Conservatório Nacional. Bulhão Pato, especialmente loquaz, falou da importância das peregrinações, antigas e modernas – e lembrou o Almirante D. Fuas Roupinho e o milagre da Nazaré. Afinal a língua galaico-portuguesa nasceu em campo de peregrinação a Santiago de Compostela. E Pedro Canavarro, concordando com o que era dito, lembrou a importância da XVII Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura (1983), sob os auspícios do Conselho da Europa e de tão boa memória, onde imperavam as boas razões para Portugal, e lembrou ainda os caminhos de Fátima e a fundação do Centro Nacional de Cultura no ano de 1945, oito dias depois do fim da guerra no continente europeu – bem como o projeto cultural moderno dos “Caminhos de Fátima”, idealizado por Gonçalo Ribeiro Telles e Helena Vaz da Silva.

As rotas do Património nasceram, assim, dos caminhos de peregrinação, per agros, pelos campos… Hoje o peregrino é o que cuida de ir ao encontro do património cultural, material e imaterial, natural e paisagístico, tecnológico e digital, sem esquecer a contemporaneidade e a sua criação.  

E nessa tarde imaginária à vista do Tejo, Bulhão Pato, pegou num livro e leu-nos pausadamente: «Houve tempo em que a velha catedral conimbricense, hoje abandonada de seus bispos, era formosa; houve tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos anos, eram ainda pálidas, como as margens areentas do Mondego. Então, o luar, batendo nos lanços dos seus muros, dava um reflexo de luz suavíssima, mais rica de saudade que os próprios raios daquele planeta guardador dos segredos de tantas almas, que creem existir nele, e só nele, uma inteligência que as perceba»… E assim Herculano despediu-se e foi até à sua quinta, acompanhado de Pato – e Garrett como Passos Manuel foram discretear um pouco, olhando o belo Vale de Santarém.

GOM

 


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(XXX) PEREGRINAÇÃO

Chegamos ao capítulo XXX deste folhetim. Dileto leitor, ainda haverá um epílogo, uma espécie de “pot pourri” com algumas notas dispersas, já que há muito mais do que trinta boas razões para Portugal.

Como começámos com Garrett e a sua viagem à volta do seu quarto, importa dizer que hesitámos entre dedicar o último capítulo à língua portuguesa ou ao livro da nossa língua que maior projeção mundial tem. E preferimos a última opção, fieis ao nosso querido e saudoso amigo António Alçada Baptista, que tantas vezes me citou de cor passagens inteiras dessa obra-prima. De facto, é uma obra pioneira na literatura mundial. Mais do que um livro de viagens, trata-se de um modo inteiramente novo e original de fazer uma narrativa. Com mil aventuras e mil personagens, estamos diante de uma mudança completa no mundo da literatura.

“Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583) põe-nos diante uma verdadeira personagem romanesca, como antes não existiu, que assume diferentes acontecimentos e até personalidades, e que descreve de um modo notabilíssimo, o que era a vida de um português no Oriente – criado de fidalgo, soldado, escravo, agente de negócios, pirata dos mares da China, mercador, médico ocasional do rei do Bongo, vagabundo e embaixador -, a verdade é que isso simboliza o português do mundo. Os estudiosos sobre esse tempo são os primeiros a considerar que não é possível compreender o que João de Barros ou Diogo do Couto nos relataram sem ler Fernão Mendes Pinto. Se Alonso Quijano, de Cervantes, se rebela contra a personagem de D. Quixote, Fernão Mendes é a personagem completa, que não precisa de convencer ninguém que deixa de ser quem sempre foi. O próprio título com que a obra foi publicada dá-nos a expressão plena da riqueza e complexidade do relato.

"Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus".

Ao ler a obra, houve entre os contemporâneos quem duvidasse da verdade dos relatos, respeitantes aos vinte e um anos em que andou pela Ásia, tendo sido, na sua própria expressão, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. Mas sentimos, a cada passo, a força da verdade. A escrita começou logo uma vez regressado o autor a Portugal, em 1557, com a memória bem fresca, só sendo publicada trinta e um anos depois da sua morte (1614), por Pedro Craesbeek, com tardia autorização do Santo Ofício. Aos que duvidaram da veracidade dos relatos, o autor respondeu significativamente: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”.

É memorável, a título de exemplo, o encontro de Fernão Mendes Pinto com António de Faria, o célebre corsário, numa situação, em que quiseram saber novidades de Liampó, "porque se soava então pela terra que era lá ida uma armada de quatrocentos juncos em que iam cem mil homens por mandado de El-Rei da China a prender os nossos que lá iam de assento, a queimar-lhes as naus e as povoações, porque os não queria em sua terra, por ser informado novamente que não eram eles gente tão fiel e pacífica como antes lhes tinham dito", mas afinal era engano, pois essa armada tinha ido, afinal, socorrer um Sultão nas ilhas de Goto. É inesquecível a perseguição ao corsário mouro Coja Acém, que se dizia "derramador e bebedor do sangue português" e a quem Faria jurara vingança, por lhe ter roubado as fazendas e morto os companheiros na batalha mais violenta da “Peregrinação”. "E arremetendo com este fervor e zelo da fé ao Coja Acém como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu, com uma espada que trazia, de ambas as mãos, uma tão grande cutilada pela cabeça que, cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão...”. E lembre-se o episódio da vinda do Embaixador do Rei dos Batas. Pero de Faria fê-lo «agasalhar o mais honradamente que então foi possível». E assim «o despediu bem despachado, e satisfeito do que viera buscar, porque lhe deu ainda algumas cousas além das que lhas pedira, como foram cem panelas de pólvora, e rocas, e bombas de fogo, com que se partiu tão contente desta fortaleza, que chorando de prazer, um dia perante todos os que estavam no tabuleiro da igreja, virando-se para a porta principal dela, com as mãos levantadas, como quem falava com Deus, disse publicamente. Prometo em nome de meu Rei a ti Senhor poderoso, que com descanso e grande alegria vives assentado no tesouro das tuas riquezas que são os espíritos formados da tua vontade, que se te praz dar-nos vitória contra este tirano de Achem (…). E assim te prometo e juro com toda a firmeza de bom e leal, que meu Rei não tenha nunca outro Rei se não este grande Português, que agora é senhor de Malaca».

Fernão Mendes construiu, deste modo, no dizer de António José Saraiva, «um Oriente espantosamente humano, que tem o seu estilo próprio. Um Oriente que não é feito só de cidades, templos e esculturas, mas também do estilo falado, de etiquetas humanas, de sentimentos típicos». Hoje sabemos da verosimilhança de tudo quanto nos relatou. Pode até ter acontecido que não fora ele o real protagonista de tudo, mas percebemos que tudo ocorreu de facto. E assim a nossa cultura é inesgotavelmente peregrina!

GOM

 

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30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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(XXIX) O LABIRINTO DA SAUDADE

“O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português” de Eduardo Lourenço (1978) é uma das obras fundamentais do século XX sobre a nossa identidade. O ensaio principal foi escrito para a revista “Raiz e Utopia” (5-6, 1978).

O ensaísta é um cultor de paradoxos, ciente de que a cultura se enriquece pela capacidade de ver o mundo do avesso e de olhar para além das aparências. «É a vida mesma que nos biografa – por isso é a nossa vida – e escrevendo-se em nós nos autobiografa sem que a ninguém, salvo essa vertiginosa musa, possamos imputar tão extraordinária façanha». Com um dom de usar as palavras para melhor as adequar ao mundo da vida, o escritor não esconde que a essência do género que cultiva, tem a ver com a confissão na primeira pessoa do singular. «Nisso quem está a menos, somos nós, e a vida tão excessivamente a mais que só a conhecemos por nossa nos intervalos em que a temos como se de outro fosse. Só os outros nos tiram retratos e só a coleção aleatória destas vistas ocasionais dos outros sobre nós ocasionalmente arquivadas, se isso valesse a pena, para termos mais tarde e acabada a vida que não nos tem, seria então um “autorretrato”».

Um grafólogo identificou na escrita do ensaísta «uma excessiva necessidade de outros», e o próprio comparou-se a Judas que precisava desesperadamente de Jesus Cristo. E aqui se sente o heterodoxo, incapaz de se deixar ficar ora na leitura racional e positiva dos acontecimentos, ora na tentação mítica ou ilusória das explicações das pessoas e do mundo. Em S. Pedro de Rio Seco está a origem dessa atitude de dúvida e de espanto. «Tenho consciência de que tudo me é pretexto para não falar de mim. Ou seja: para falar incessantemente de mim. É por isso que a minha escrita é lírica e passional» (JL, 6.12.86).

A saída da aldeia “foi a saída para o mundo exterior, a saída sem regresso». E a Guarda, primeiro destino, tornou-se como se fora Nova Iorque, o sinónimo do mundo – esse mundo que Thomas Mann representou na «Montanha Mágica» e que encontramos em Vergílio Ferreira. E essa adolescência vivida com naturalidade pôde assemelhar-se ao sublime. Afinal, «a interioridade é também um mito porque estávamos sempre no exterior de nós próprios» («25 Portugueses», 1999). Depois, vieram Lisboa e o Colégio Militar. Lisboa era o sítio ideal para acreditar que as caravelas continuavam a existir. E Eduardo Lourenço fez dessa experiência singular um modo de olhar a vida. Como em tudo, tira a boa lição, define distâncias, e avança para Coimbra cheio das ilusões dos dezassete anos. Na biblioteca, encontra Nietzsche, continua com Kierkegaard, entusiasma-se com Hegel e estuda Husserl. Joaquim de Carvalho e Sílvio Lima tornam-se referências que o marcam pelas ideias, pela atitude, pelo sentido crítico. Eugénio de Andrade encontra-o e lembra-o com Carlos de Oliveira («foi o Carlos que me apresentou o Eduardo»).

É o tempo do neorrealismo, que Eduardo Lourenço procura compreender, ressalvando a distância crítica. Há, no entanto, manifesta ambiguidade em quem se preocupa com a descoberta dos outros. O episódio da passagem da «Vértice» para o grupo neorrealista é ilustrativa da candura, e da confiança pessoal genuína em Carlos de Oliveira e Rui Feijó. E, nessa demarcação de território, «Heterodoxia» surge como algo de natural. Vitorino Nemésio dirá tratar-se de um livro «juvenil e ardente, concatenado com saber e amor da exatidão, e escrito com um nervo e uma elegância que farão inveja a muitos prosadores brevetados» (Diário Popular, 28.6.50). As reações foram contraditórias – houve quem lesse com entusiasmo e quem julgasse tratar-se de uma traição (mesmo sem profissão de fé anterior)… O curso histórico confirma a clarividência.

Em 1953 parte, mas recusa a condição de exilado. É apenas emigrado. «Como é que um homem nascido em S. Pedro de Rio Seco pode ser outra coisa que não português?» (JL, 6.12.86). Não aceita ser estrangeirado - «Não, não aceito. Fico furioso. Fico desesperado» (Ibidem). De facto, o seu método é o de olhar de dentro, mesmo estando de fora. «Exílio verdadeiro, o autor destas reflexões só o conheceu no interior do seu país». Paris, Hamburgo, Heidelberg, Montpellier, Salvador da Bahia. «Gostei muito de estar na Alemanha. Sobretudo em Heidelberg. Mais tarde arrependi-me de não ter aí ficado…» (Expresso, 23.9.95). Depois, Grenoble, Nice, Vence. Mas continua atentíssimo ao que se passa em Portugal.

São fundamentais os seus textos em «O Tempo e o Modo». Sentem-se, sobretudo após 1958, 1961 e 1968, os sinais da transição, lenta e com sintomas contraditórios. «O fascismo existiu e com uma perfeição quase absoluta. Mas não existiu nunca como a maioria da oposição democrática o pensou antes do 25 de Abril, e a ela continua a referir-se uma parte da classe política triunfante, simplificando-o com a espécie de violência infantil que se reserva aos papões que deixaram de meter medo». Eduardo Lourenço procura compreender Portugal quando a liberdade chega com o fim do império. Escreve não para recuperar o país, que não perdeu, mas para o «pensar» com a mesma paixão e sangue-frio intelectual com que pensava quando «teve a felicidade melancólica de viver nele como prisioneiro de alma».

Em «O Labirinto da Saudade», conclui que a imagem ideal de nós mesmos era desadequada da realidade, sendo chegada «a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá-fora ou lá-longe a solução que, como no apólogo célebre, está enterrada no nosso exíguo quintal. Não estamos sós no mundo, nunca o estivemos». A conversão cultural necessária passa por um olhar crítico sobre o que somos e fazemos. Portugal, Europa, mundo obrigam a repensar o destino como vontade, seguindo a lição perene de Antero e dos seus… O ensaísta tem no seu código genético a marca fundamental de uma síntese fantástica que liga o grito de Antero e dos jovens de Coimbra e do Casino Lisbonense ao impulso futurista de Pessoa e do “Orpheu”, menos no imediato, mais no largo prazo, de quem procurou ligar a razão e o mito, o idealismo e o sentimento trágico da vida. Pensa Portugal como vontade e como comunidade plural de destinos e valores, pondo em diálogo os mitos e a razão e procurando afastar a maldição do atraso.

O enigma português, em suma, não pode ser respondido ou encontrado através de qualquer simplificação – ora idealista, ora sentimentalista, ora materialista. Sá de Miranda e Herculano representam que mais vale quebrar que torcer. Camões a força criadora. Garrett a imaginação lírica. Fernão Mendes Pinto simboliza a fértil aventura ao encontro do mundo. O Padre António Vieira interroga a Deus e invetiva-o. Camilo e Eça retratam as diversas faces contraditórias da pátria. E a utopia torna-se horizonte de crítica e de exigência, e nunca fuga à realidade.

Artífice de uma heterodoxia fecunda, Eduardo Lourenço é hoje uma das consciências culturais, morais e cívicas da Europa contemporânea, ao lado de Edgar Morin, de Claudio Magris ou de Jürgen Habermas. Só a heterodoxia permite entender o nosso melting-pot, indo ao encontro do cadinho da miscigenação, ligando a razão e a emoção, percebendo a alternância cíclica do otimismo e do pessimismo. É a «maravilhosa imperfeição» como marca de complexidade e diversidade.

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(XXVIII) MAFRA E JOSÉ SARAMAGO

 

Prémio Nobel da Literatura de língua portuguesa, José Saramago (1922-2010) tornou-se uma referência essencial dos estudiosos e cultores das literaturas da nossa língua comum, encontrando na sua obra razões fortes para desejarem conhecer melhor Portugal.

«Memorial do Convento» foi publicado em 1982 e constituiu um sucesso literário, pelo tratamento do tema, pela vivacidade e ritmo da escrita, pelo domínio da língua portuguesa. É o retrato do rei D. João V e da sua magnificência, num tempo dominado pela riqueza do ouro do Brasil no reino, numa rica convergência de elementos contraditórios, bem evidenciados na complexidade das personagens escolhidas. Para Saramago a personagem fundamental, em torno da qual tudo se desenvolve, é o magnífico Convento de Mafra (com órgãos únicos no mundo, carrilhões insuperáveis, livraria extraordinária, património invejável). «Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento de Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido»...

A riqueza do ouro, transportado em arcas, contrasta com os vários operários anónimos que contribuem para a magnífica construção. E entre eles, está Baltasar Mateus, que tem a alcunha de “Sete-Sóis” porque vive atraído pela luz, tendo perdido a mão esquerda na guerra da sucessão de Espanha. Baltazar ama Blimunda Jesus, chamada de “Sete-Luas”, porque consegue ver no escuro e por dentro das pessoas. Esta, ao ter esta capacidade, consegue recolher as vontades de cada um, como nuvens abertas ou nuvens fechadas. Os dois conhecem um clérigo visionário, o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, “o voador”, marcado pelo espírito científico e pela heterodoxia religiosa, que inicia a construção de um aparelho voador, a Passarola, com o objetivo de subir em direção ao Sol, em lugares a que só Cristo e os santos tinham chegado. A concretização deste sonho torna-se uma obsessão e leva-o a viajar primeiro para a Holanda, em busca do segredo, que permitiria a Passarola voar, e depois para Coimbra, onde se doutorou. É ele, aliás, quem realiza o batismo e a comunhão de Sete-Luas e Sete-Sóis: «o padre virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e declarou: Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem batizada estava, que o batismo foi de padre, não alcunha de qualquer um». Após um dos voos da Passarola, Bartolomeu foge para Espanha, perseguido pela Inquisição, enquanto Blimunda e Baltasar tratam de esconder o aparelho entre os arbustos da serra e de fazer a sua manutenção. Não podemos esquecer a figura do músico Domenico Scarlatti que, a convite do Padre Bartolomeu, participa no projeto da Passarola, como testemunha silenciosa. Então une-se a ciência e a arte, como reveladoras de um espírito de inovação e de abertura ao progresso. Scarlatti instala secretamente o seu cravo na Quinta do Duque de Aveiro, onde toca a sua música e inspira a construção da Passarola, símbolo dos novos tempos das luzes. E quando Blimunda fica com a estranha doença do esgotamento na recolha das vontades, a arte do músico provoca uma cura completa. Um dia, Baltasar ficou preso à passarola, enquanto fazia a sua manutenção, e os cabos que a impediam de se elevar nos céus rebentaram, tendo sido levado pelos ares. A aeronave então despenha-se e Baltasar é capturado pela Inquisição, acusado de bruxaria. Blimunda recolhe, no epílogo do romance, a vontade de Baltasar, enquanto este morre, condenado à fogueira. E quem é Baltazar? Um homem simples, rudimentar, resignado, terno e fiel, que ama Blimunda, a qual compensa a mão que lhe falta, mas que lhe permite compreender para além do que vê, aceitando o que a vida lhe oferece. E no final é Blimunda quem sobrevive, ela que aprendera tudo o que sabia ainda no seio de sua mãe, onde estivera de olhos abertos.

Se o Memorial é referência essencial, importa lembrar a sombra de Fernando Pessoa e de Ricardo Reis, médico e latinista, nascido em 19 de setembro de 1887. É um homem solitário, que gosta de almoçar em pequenos restaurantes. E pede aos empregados que ponham o lugar à sua frente para um companheiro imaginário. E imagina histórias sobre hóspedes que frequentam o hotel. Cria familiaridade com o gerente, Senhor Salvador, e com Pimenta que lhe carrega as malas, mas também com Lídia, a empregada que lhe limpa o quarto, onde lhe serve o pequeno-almoço. Mas não deixa de chamar a atenção da polícia política, que se interroga sobre a verdadeira razão da sua vinda do Brasil. As notícias que lê todos os dias nos jornais desenham uma pátria pacífica, um oásis num mundo agitado. É “onde o mar acaba e a terra principia, chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas do barro, há cheia nas lezírias” … Reis chega no dia 29 de dezembro de 1935. Os periódicos, em geral, pintam um retrato idílico do país em que Salazar faz o seu caminho. No fim do interrogatório, a que não escapa, na PVDE sente à saída da António Maria Cardoso um fedor a cebola que exalava Victor, o inevitável informador. E o certo é que noutros momentos esse cheiro característico rondava por perto. Ricardo Reis encontra-se com País que deixara anos antes por fidelidade às suas ideias monárquicas… Mas, com Fernando Pessoa, com a revolta dos marinheiros de setembro de 1936 em fundo, vai desvanecer-se no alto de Santa Catarina sem que alguém desse por isso… “O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui onde o mar se acabou e a terra espera”...

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(XXVII) SOPHIA E OS POETAS

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) é uma das grandes referências da poesia contemporânea e da cultura portuguesa. Clássica e moderna, encontra e prolonga Fernando Pessoa por um caminho próprio e diferente. E Eduardo Lourenço afirmou que “desde os tempos de Pascoaes, a poesia portuguesa esforçava-se por conciliar Apolo e a sua mítica expressão solar da vida com Cristo, sombra sob tanto excesso de sol, deus morto para que a morte não fosse confundida com a vida digna desse nome. Se essa conciliação teve lugar em algum lugar foi na poesia de Sophia”. Sentimos a coexistência de Atenas e Jerusalém. Daí ter nascido “precocemente clássica”, talvez fora de uma modernidade, por definição em crise, mas ciente da importância dos novos caminhos em busca da dignidade do Ser. E assim Sophia chega a Nietzsche e à ligação dionisíaca, através de um “Cristo Cigano” – que não espera que o crucifiquem e que se oferece nu ao esplendor da vida que misericordiosamente o assassina – “mas a sua morte despe-o da sua aparência solar e esculpe-o em redentora agonia onde o rosto do Ausente se revela”. E sentimos a sede de justiça, que leva a não fechar os olhos ao “espantoso sofrimento do mundo”. Francisco de Sousa Tavares disse, na melhor fórmula, que Sophia "tinha sinais do seu Deus na confusão dos homens". Eduardo Lourenço diagnosticou "uma espécie de milagre, de raro e quase incrível privilégio" que deve "ter preservado cedo a jovem Sophia, católica e portuguesa, daquela obsessão culpabilizante que encharca por dentro a lírica nacional". Vemos, ouvimos e lemos – não podemos ignorar.

Contra a ambiguidade, “sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem”. E lembremo-nos do entusiasmo posto por Sophia na tradução de «Anunciação a Maria» de Paul Claudel. Sente-se a proximidade relativamente ao artista de «Arte Poética». «Esta é a noite / Densa dos chacais / Pesada de amargura / Este é o tempo em que os homens renunciam».

Longe da exclusiva busca de doçura, o que há, sim, é a permanente demanda de uma vida de drama, de dúvida e de contradição. Tomé e Pedro estão sempre presentes, antes e depois de pôr a mão na ferida aberta ou de ouvir o galo cantar, sempre perante o medo terrível que leva Mara ao ato de desespero perante Violaine. «Aquele que partiu / Precedendo os próprios passos como um jovem morto / Deixou-nos a esperança». É aqui que a poética de Sophia se aproxima e se afasta de Claudel. Aproxima-se porque há a procura silenciosa da esperança no equilíbrio da palavra e da justiça, nunca a confusão com qualquer certeza intolerante. Mas distancia-se, uma vez que não pode haver ambiguidade na luta agónica. Violaine é símbolo, a um tempo, da incerteza e da força, num gesto inusitado e necessário do beijo ostensivo ao leproso.

Cidadã de reflexão e talento, foi deputada à Assembleia Constituinte, sendo marcante o discurso que fez sobre as liberdades de criação cultural e de aprender e ensinar. “A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução é exatamente porque é capaz de criar a cultura” (Sessão de 2 de Setembro de 1975). A luta fundamental não deveria ser por uma “liberdade especializada”, mas pela liberdade do povo – liberdade de expressão e de cultura. E, a propósito, invocava o terrível grito pronunciado no paraninfo da Universidade de Salamanca perante Unamuno: “Morra a Inteligência!”, para que nunca mais fosse possível ouvi-lo. “Queremos uma relação limpa e saudável entre a cultura e a política. Não queremos opressão cultural. Também não queremos dirigismo cultural. A política sempre que dirigir a cultura engana-se. Pois o dirigismo é uma forma de anti cultura e toda a anti cultura é reacionária”.

João Bénard da Costa disse que devemos ter cuidado ao falar de Portugal como País de Poetas. Nem sempre foi assim, apesar do fundo poético da língua portuguesa nascida do galaico-português língua dos trovadores. No entanto, o século XX é uma exceção. Pessoa, Sá-Carneiro e “Orpheu”, Pascoaes, Torga, a geração da ”Presença”, os “Cadernos de Poesia” (Cinatti, Blanc de Portugal, Tomaz Kim), Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, Herberto Helder, Ruy Belo, David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Pedro Tamen, Manuel Alegre, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice… Não somos exaustivos, para não ser injustos.

No Centro Nacional de Cultura, Sophia teve um papel fundamental, sobretudo depois de 1965 e do fecho da Sociedade Portuguesa de Escritores. Aí se juntaram os mais jovens poetas, como se juntaram também com Fernando Amado os novos atores, que fizeram o novo teatro e o novo cinema.

Sophia é exemplo de um verdadeiro “momento de poetas”.

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(XXVI) OS PAINÉIS DE S. VICENTE

 

Foi a 20 de Julho de 1895 que Ramalho Ortigão, Joaquim de Vasconcelos, José Queiroz e o Arcebispo de Mitilene D. Manuel Baptista da Cunha, numa visita a S. Vicente de Fora, descobriram as tábuas que constituem o políptico de S. Vicente atribuído a Nuno Gonçalves, pintor régio de D. Afonso V.

A face do Infante D. Henrique permitiu uma importante identificação por Vasconcelos, por exata semelhança com a que se encontra na “Crónica dos Feitos da Guiné” de Zurara na Biblioteca Nacional de Paris. As tábuas teriam sido reencontradas em 1882 por Columbano, acompanhado por sua irmã Maria Augusta Bordalo Pinheiro (que teria chamado a atenção para as pinturas) e pelo Monsenhor Elviro dos Santos, estando aparentemente esquecidas entre os materiais das obras que aí decorriam.

No verão de 1895 Joaquim de Vasconcelos escreveu dois artigos no “Comércio do Porto” sobre os painéis nos quais exprimia admiração pela força expressiva da pintura constituída por figuras que representariam diversos estratos sociais, convergindo numa figura central duplamente figurada. Joaquim de Vasconcelos chamava a atenção da opinião pública para a necessidade de as tábuas serem removidas para um lugar mais seguro, com vista a uma melhoria das condições de conservação. Dizia Joaquim de Vasconcelos: “Nas quatro taboas não há vestígios de paisagem ou de arquitetura. Todo o espaço era pouco para tantas figuras de tamanho quase natural. Nada há de acanhado, de soi-disant gótico no desenho; panejamentos esplendidos, sentindo-se a anatomia sempre por debaixo. A pintura é sempre a óleo, o desenho de uma firmeza exemplar, a perspetiva bem estudada e até atrevida. O pintor caracteriza segundo os pre­ceitos do grande Van Eyck, e poderia muito bem ser um dos muitos portugueses que acompanharam a duquesa de Borgonha à Flandres, e lá estudaram a fundo a arte”.

Francisco de Holanda (1517-1585) tem referências ao altar de S. Vicente na Sé Catedral, o que tem servido de ajuda no estudo dos mistérios dos painéis.

Em 1909 e mercê dos muitos esforços feitos desde 1905, o historiador José de Figueiredo e futuro fundador do Museu de Arte Antiga, assiste, em sessão da Comissão Executiva da Academia Real de Belas-Artes, à apresentação da dis­posição do Conde dos Olivais e Penha Longa para custear os trabalhos relativos à conservação das tábuas. Luciano Freire foi nomeado como responsável pelo trabalho de tratamento e integração das pinturas, com a autorização do Cardeal Patriarca D. António Mendes Belo e despacho do Ministro da Fazenda. Numa oficina do Convento de S. Francisco, Lu­ciano Freire levou a cabo a tarefa essencial de restauro, concluída na Primavera de 1910. E logo que os quadros ficaram libertos das repinturas sucessivas e de enegrecidos vernizes, verificou-se que se tratava de dois trípticos. Apare­ceu então a obra de arte no seu esplendor inicial de conjunto.

Os Painéis apresentam-nos um agrupamento de 58 personagens em torno da dupla figuração de S. Vicente, solene e monumental assembleia representativa da Corte e de vários estados da sociedade portuguesa da época, com destaque para a Cavalaria e para a Igreja nas suas diversas hierarquias, em ato de veneração a S. Vicente, patrono e inspirador da expansão militar quatrocentista no Magreb. Tais personagens, poderosamente caracterizadas pela concentração expressiva dos rostos e atitudes e pela requintada definição pictórica dos trajes e seus adereços, aliam, nesta encenação cerimonial, a intenção de uma evocação narrativa a uma visão contemplativa.

Embora permaneça envolta em mistério esta representação, na ausência de testemunhos claros relativamente à sua criação, intenção e significado da obra, ela está associada a uma dupla função, votiva e evocativa, provavelmente respeitante aos triunfos militares da dinastia de Avis no norte de África. É um singular “retrato coletivo” na história da pintura europeia, e uma obra de grande importância simbólica na cultura portuguesa. Daí os desafios interpretativos, quase policiais e com efeitos por vezes trágicos, que tem suscitado nomeadamente no domínio das identificações iconográficas, exercício mais ou menos imaginativo que tem alimentado uma polémica secular e até ao momento inconclusiva. Temos assim: os painéis: dos frades, dos pescadores, do Infante, do Arcebispo, dos Cavaleiros e da Relíquia – sobre os quais há basta literatura e muita especulação.

Conhecemos o facto de três dos nossos modernistas, Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso e Santa Rita Pintor terem afirmado a sua própria militância artística em frente aos Painéis – bem como a circunstância de a ordenação e apresentação da obra corresponder à proposta de Almada Negreiros considerando as linhas apresentadas no chão da pintura. A obra não estará, no entanto, completa. Estamos, porém, perante uma das grandes referências da cultura portuguesa, com projeção universal.

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(XXV) FADO E AMÁLIA

 

Até ao início do século XIX não encontramos referências musicais ou literárias ao termo Fado, como género artístico. Até então apenas se atribuía à palavra o sentido de destino (do latim fatum). Só nessa aceção encontramos a palavra na poesia, desde Camões a Bocage – sem falar da antiga tradição lírica dos trovadores.

Nas fontes documentais portuguesas, é apenas por volta de 1830 que nos surgem as primeiras referências ao termo com significado musical. O Dicionário de António Morais e Silva apenas refere o Fado como género poético-musical a partir de 1878. Quando no início do século XIX o Fado surge referido por diversos autores é-o sobretudo relativamente ao Brasil, como uma dança cantada, executada por pares, com contacto físico e movimentos regulares ligados ao ritmo. A vinda da Corte do Brasil traz assim esta prática. Inicialmente este Fado era praticado sobretudo por negros e mestiços como dança de terreiro, de influência africana… é descrita como voluptuosa, imoral e indecorosa…

Desde a década de 1830, o Fado é referido como canção e dança – ligado à boémia, às tabernas, aos prostíbulos e à tauromaquia. Há, pois, uma matriz original afro-brasileira do Fado. Figuras célebres da Alta Nobreza, em particular as mais ligadas à atividade tauromáquica, como o marquês de Castelo Melhor ou o Conde de Vimioso, promovem nos seus palácios apresentações de Fado. Este último titular ficará célebre pela ligação amorosa, por volta de 1840, a uma prostituta lisboeta, celebrada fadista, nascida na Madragoa, na hoje Rua Vicente Borga, que viveu na Mouraria – Maria Severa Onofriana, que nas décadas subsequentes à sua morte, ocorrida em 1846, com cerca de 26 anos de idade, se tornaria alvo de uma aura mítica, cada vez mais fantasiosa, transformando-se no primeiro ícone simbólico da afirmação do género fadista.

A ligação entre estes diferentes elementos irá dar lugar à afirmação do Fado assente em elementos complexos e diversos – a dança musicada, documentada em representações do Lundum nas tascas dos bairros típicos (Madragoa, Alfama e Mouraria), as festas ligadas aos touros e às touradas, o acesso às salas dos palácios dos melhores “cantadores de fado”, o uso da guitarra portuguesa e da guitarra clássica. São contraditórias as reações ao Fado, uns recordam sobretudo a origem popular de má fama enquanto, outros começam a fazer ligação às tradições líricas aristocráticas. Em Coimbra, Hilário lançará outra tradição.

O século XX mudaria tudo. As razões que levaram Alfredo Pimenta a combater os efeitos deletérios do Fado vão desvanecer-se e se há alguém que contribuiu para essa mudança radical foi quem acompanhou Amália Rodrigues, a partir dos anos quarenta e cinquenta. E além de Amália temos grandes poetas que compreenderam a importância de ligar a sua escrita ao Fado – Pedro Homem de Melo, David Mourão-Ferreira, Manuel Alegre e, com alguma surpresa, um poeta de origens surrealistas, como Alexandre O’Neill. Mas será Alain Oulman, da família dos editores Calmain-Levy, a contribuir para um enriquecimento cultural e artístico do Fado. Assim, Amália vai dar ao Fado um cunho novo, ligado ao fundo lírico português – as suas raízes familiares são, aliás, beirãs, e esse facto dá versatilidade ao Fado, para além dos limites tradicionais.

E olhemos a galeria dos grandes da renovação do Fado: além de Amália, Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos, Hermínia Silva, Maria Teresa de Noronha, Vicente da Câmara, Carlos do Carmo, mas ainda Argentina Santos, Maria da Fé, Rodrigo, Camané e Mariza. Não podemos ser exaustivos. E quando ouvimos Cristina Branco (tornada símbolo da República por Júlio Pomar), Carminho, Kátia Guerreiro ou Aldina Duarte compreendemos que houve uma grande evolução, na qualidade e na exigência. E no domínio instrumental, Carlos Paredes é uma referência que em bom rigor ultrapassa as fronteiras estritas do Fado. E não podemos compreender a riqueza do género sem a qualidade de grandes instrumentistas, como Raul Nery, Júlio Gomes, Fontes Rocha ou Joel Pina – e sem a afirmação autónoma de músicos como Mestre António Chainho, Ricardo Rocha ou Mário Pacheco.

Ao escrever “As sílabas de Amália”, Manuel Alegre recorda o talento da grande artista, ao compreender a exigência da mudança. O Fado ganha com Amália uma outra dimensão. Ela confessará que em Paris nos concertos do Olympia se cantasse apenas o Fado tradicional não motivaria o público. Cedência à popularidade? Não. Preocupação em levar mais longe o fundo lírico da nossa cultura. Essa a importância de dar uma nova vida a Camões. Daí a homenagem a Alain Oulman que teve o grande instinto para o que da poesia era ao mesmo tempo culto e popular. E o tributo a Amália deve-se ao facto de ter dado uma outra dimensão ao Fado, tornando-o mais nacional e mais universal. E Manuel Alegre concorda com Hernâni Cidade, para quem Camões foi o mais fadista dos poetas portugueses… Leonel Moura associa, assim, e muito bem Amália à cultura portuguesa.

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(XXIV) FERNANDO PESSOA, ALMADA E AMADEO

 

Fernando Pessoa representa o seu tempo de um modo singularíssimo, ligando a leitura do universo à circunstância de ser português – esse curioso casamento entre a história de um povo que o escritor procura interpretar e uma reflexão cosmopolita e universalista, que assume com todas as consequências, é uma característica única, que torna fascinante a leitura de uma obra caleidoscópica, que não pode ater-se a uma cultura particular. Como disse Eduardo Lourenço no fecho do seu imprescindível «Pessoa Revisitado», o poeta «foi uma espécie de aparição fulgurante descida das brumas culturais alheias ao nosso desterro azul, para nele inscrever em portuguesa língua o mais insubornável poema jamais erguido à condição exilada dos homens na sua própria pátria, o universo inteiro». Estamos em Pessoa perante uma totalidade fragmentada. A relação entre o ortónimo pessoano e os principais heterónimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o semi-heterónimo Bernardo Soares do “Livro do Desassossego”) corresponde a uma curiosa representação da pluralidade do universo.

«Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade» - afirmou Pessoa. Compreende-se que os amigos presencistas de Pessoa tenham lamentado a publicação da «Mensagem» antes do outro manancial poético do autor. O poeta não deixou de concordar junto de Adolfo Casais Monteiro, mas preferiu falar de um momento crítico de «modelação do subconsciente nacional». Mas será Eduardo Lourenço quem melhor articulará a necessidade crítica da consideração dos mitos pessoanos com a interrogação de Antero de Quental sobre «as causas da decadência dos povos peninsulares», com a obrigação crítica da Geração de 1870 e em especial de Oliveira Martins, com a vontade de renascimento de «A Águia» e com o ensaísmo seareiro. Pessoa disse sobre «Orpheu» a Cortes-Rodrigues que tinha como objetivo «agir sobre o psiquismo nacional», trabalhando-o por «novas correntes de ideias e emoções», sendo uma espécie de «ponte por onde a nossa Alma passa para o futuro». Há um pequeno texto de Fernando Pessoa, em «Sobre Portugal», que trata do provincianismo. Muitas vezes tem sido referido e citado, talvez como um juízo definitivo, que não é. Do que se trata é da definição de uma atitude crítica contrária do conformismo. «O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e a admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade da ironia». É fundamental sermos capazes de nos vermos projetados no espelho da crítica. A poesia encarrega-se de perscrutar diversos caminhos. Mais do que encontrar soluções, que não cabem à arte, trata-se de iluminar e de ajudar a ver.

E Almada Negreiros? Eduardo Lourenço fala dele como o “único autêntico modernista em sentido estrito de sintonizado com o vanguardismo (ou sucessivos vanguardismos) da época”. Se virmos o percurso de Almada compreendemos que esse gosto absoluto da novidade o leva a crer, menos na lógica dos sistemas, e mais na força da criação. Nesse sentido, quis ser ele mesmo, permanentemente interrogante, ávido da busca. “Os sistemas e os programas servem para conduzir e jamais para criar”. “A Arte não pode viver antes de criar a sua própria autoridade de autonomia dentro da coletividade”. Dêem-se dois exemplos: os painéis da Gare da Rocha do Conde de Óbidos (1945-48) e “Começar” na Fundação Gulbenkian (1968-69). Estamos perante duas abordagens que representam facetas complementares da mesma atitude. A verdade é que estamos diante de obras-primas da pintura portuguesa de sempre, que Almada considerou como as mais próximas da sua própria capacidade criadora, “pinturas da nossa solidão”. Na composição “Começar” temos uma verdadeira síntese de vida e de incessante pesquisa, dando continuidade à tapeçaria “O Número” executada para o Tribunal de Contas (1958). A obra pretende demonstrar que “a arte precede a ciência, a perfeição precede a exatidão”. Afinal, “a perfeição contém e corrige a exatidão”. A paixão de Almada pelo teatro invoca ainda a preocupação do encenador, designadamente quando dispõe as figuras nos painéis, como o da Rocha do Conde de Óbidos. É a sociedade heterogénea, multifacetada e inconformista que se manifesta. José-Augusto França fez a síntese adequada: “Almada situa-se na história da arte portuguesa contemporânea como uma figura única, no seu valor estético tanto quanto no valor referencial da sua mensagem poética”. A expressão “português sem mestre” caracteriza plenamente o artista completo que procurou abrir caminhos novos – “chegar a cada instante pela primeira vez”.

E Amadeo? Se os heterónimos de Pessoa dão a multiplicação de uma personalidade criadora, que interpretou como ninguém os novos tempos de uma modernidade contraditória e inesgotável, foi a capacidade de Amadeo de Souza-Cardoso dar um sentido universal a uma perspetiva multifacetada, produzida num tempo relativamente curto, impressiva e assente em raízes fecundas, que revelam uma espécie de recriação ou reconstrução da realidade e do mundo. Na revista «Portugal Futurista», Álvaro de Campos coincide com Amadeo - «só tem direito a exprimir o que sente em arte, o indivíduo que sente por vários». Almada Negreiros disse que Amadeo «é a primeira descoberta de Portugal na Europa do século XX» - e, maravilhado, deu nota de como partiu de uma identidade próxima para a tornar global - «toda a arte reflete o seu rincão natal. E nunca é o rincão natal o que o pintor retrata. O seu rincão natal são as próprias cores. Foram estas cores que teve para começar a sua mensagem de poeta».

GOM

 

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