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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

PRIMAVERA
Uma Vida No Nosso Planeta

  


Pensar que a primavera será sempre uma forma de rebelião das cores, um modo de recombinar resistências, é algo que nos conduz a sermos pedrinhas que começando a rolar, iniciam uma avalancha.

Transformar a habitação em edifícios sustentáveis, nomeadamente utilizando fontes renováveis de energia e possibilitando os benefícios dos moradores face às resistências térmicas apuradas, constitui a capacidade de entender o ambiente como um conjunto de flores, cujo significado está contido dentro de tudo o que é vida.

A degradação ambiental patente nos nossos dias, também tem lugar porque ninguém protegeu o desconhecido por razões desconhecidas.

Os hábitos humanos não priorizaram a proteção ambiental e o consumo sustentável.

O homem faz parte integrante da natureza e destruiu-a e destrói-a a ritmos nunca vistos.

A pandemia covid-19 lembrou-nos bem como natureza e humanidade estão ligados.

Também David Attenborough, nos alertou como nos estávamos a tornar cada vez mais tóxicos para o nosso planeta, e hoje, procuramos aqui e além, um manual de sobrevivência que, afinal, só pode residir na lança da proposição “we need to rewild the world”.

Que nos seja retirado o poder de impedir as primaveras e que toda a natureza possa retomar a sua vida.

O futuro radioso terá início na oportunidade que nos dermos enquanto espécie e parte de todas as espécies.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

56. “FOREVER YOUNG”
“ETERNAMENTE JOVEM” OU “JOVEM PARA SEMPRE”

Um hino à primavera solar que aparenta fazer de nós imortais. 

 

Um ícone à juventude que ficciona fazer de nós jovens para sempre.

 

“Forever Young”, da banda teutónica Alphaville, é uma exaltação e louvação de quem era jovem, na década de 80, do século XX.   

 

Este original e interpretação de 1984, é um grito épico e nostálgico de um tempo que  presencialmente se vive e está a acabar, se viveu e perdeu, como que em busca de um tempo perdido, com interrogações e súplicas para que se reencontre ou permaneça imutável e imortal.   

 

A vida é curta, a juventude uma breve viagem dentro de outra rápida jornada que é a nossa peregrinação. 

 

Há que usar, fruir e gozar bem aquilo que temos, sabendo que a juventude dura pouco, o que aprendemos com a idade e maturidade, mesmo que tarde para ser proveitosa.

 

Em plena época da guerra fria, eis que surge uma canção angustiante, solar e sombria, desobediente, inconformista e insubmissa. 

 

Uma canção ciente de que todos os jovens “sooner or later they will be gone”, desaparecendo e desfolhando-se na agonia lenta da sua juvenilidade, da sua passageira e precária imortalidade.   

 

Proclamando acaloradamente, de modo agudo e doloroso, a injustiça de não sermos eternamente jovens.

 

Canto sofredor, ávido de glória e revolta, num clamor lancinante que se quer ouvido, guardado e temido.  

 

“Let us die young or let us live forever” (Deixem-nos morrer jovens ou deixem-nos viver eternamente), lançando a bomba ou não, desejando o melhor e esperando o pior (“hoping for the best, but expecting the worst”).   

 

É o querermos ser eternamente jovens para sempre, diamantes eternos ao sol, numa entoação e grito coletivo de “forever young”, onde por confronto nos interrogamos se queremos mesmo viver para sempre (“Do you really want to live forever?”).

 

Existem outras versões cantadas e musicadas sobre o mesmo tema, uma de Bob Dylan (de 1973, igualmente bela e sugestiva), muito popularizada pela voz cristalina, melodiosa e potente de Joan Baez, mas é a dos Alphaville que, em minha opinião, glosa e agarra mais de perto a mensagem, retratando melhor a energia e irreverência juvenil, a começar pela idade dos autores.   

 

Este desejo humano e finito de desafiar o infinito, esta ânsia de defrontar a imortalidade sempre existiu, assim como hoje há gente poderosa de Silicon Valley, por vezes fanática, de uma fé cega, científica e tecnológica, ingerindo no dia a dia pílulas para nunca morrer e praticando a criogenia para reviver.   

 

Porque nos penhoramos e hipotecamos tanto em sobreviver, procurando obsessivamente a dieta imortal, desejando ser eternos, à nossa maneira, e não nos deixamos morrer naturalmente?    

 

Nos nossos limites humanos tentamos uma utopia que recrie o tempo que passou, passa e passará, o epílogo dos tempos, querendo ser imortais, eternos, jovens para sempre, sendo mortais, viajantes de passagem e transitórios, mesmo que mentalmente nos imaginemos eternamente e preferencialmente jovens, quando nem sequer temos uma evidência palpável da nossa vivência além-túmulo.

 

Há uma revolta e luta entre a natureza e o homem, em que este quer ser o Homo Deus, mas não é, como o exemplifica a atual pandemia do coronavírus (da COVID19), em que se aguarda, a todo o tempo, que a ciência descubra a vacina redentora e que a medicina vá evitando demasiadas mortes.

 

Obrigado, Alphaville, pelas belas memórias e eterna canção, com aquela sinfonia final celebrando um esplendor na relva que não volta.

 

Com os meus calorosos prolfaças a alguém muito especial, em véspera de celebração, não de rebusca de um tempo ido, mas de um resplendor ainda presente.    

 

19.06.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

Portugal e a Primavera

 

Se alguma casa se inicia pelo teto é a das estações do ano, agora, a da primavera. Chega um céu azul de oiro e as árvores e as flores e os cheiros ganham uma urgência própria. É o princípio da realidade com outras verdades, chegam e fazem de todos nós, portugueses e estrangeiros, alunos de primeira vez.

 

Portugal cobiçado por estas rotas que abre porta ao verão, faz-se país de destino fingidamente surpreendido pelas múltiplas explanadas que despontaram no tempo certo e onde o sol, ele mesmo, é sempre uma alegria que se junta à conversa. Às vezes a primavera não chega a horas. Dá-se por distraída a perscrutar o mistério do tempo. Portugal, então, oferece-lhe um relógio com corda de filósofo e não é que felicidade e liberdade deixam de se sonhar? É no fundo um momento fantasista em que os poetas daqui se impulsionam, não obstante não perderem a claridade de todos os sentires.

 

Escrevem então que Portugal também gosta de se fazer chegar atrasado, várias vezes, que mais não seja, cinco minutos, apenas para o miradouro do seu espaço geográfico lhe dizer: oh! eu! Não estarei já na eternidade?

 

Portugal responde-lhe: sinto do lado do coração um atraso e uma pressa, uma espécie de vontade de ser adiantário por perceção que tenho do tempo, e retardatário para que em soma de esforços ofereça o melhor.

 

Um dia a avó disse-me que Portugal acordava de noite por bem conhecer todo o tempo decorrido desde que nascera e precisar dos pedaços da noite para melhor representar o futuro pelas manhãs.

 

Portugal trabalha tanto quanto a primavera, perguntei? E também se rega Portugal?, acresci.

 

Neta minha, se todos o regarem como fazes com o teu vaso, ele ousa tornar-se o que é e a resistência e o jogo das estações, tudo junto com a incerteza, semearão a esperança! Sim, sei que já dormes, por isso posso acrescentar que desse modo a ciência vai juntar-se à metafisica e tudo se passa como se fossemos feitos para outra coisa.

 

A primavera essa permanecerá um mistério absoluto. Portugal, um arrepio de amendoeira em flor, do lado das coisas melhores

 

Teresa Bracinha Vieira