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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    Auguste Comte


205. CIENTISMO, PROGRESSO E AMORALIDADE


Numerosas descobertas e inventos podem fazer acreditar que todo o progresso está intimamente ligado ao desenvolvimento científico.       

Desenvolveu-se uma corrente de pensamento, segundo a qual a resposta a todas as questões colocadas pelo ser humano está na ciência.   

Este cientismo, raiando a idolatria, viveu um período de euforia criadora, com reflexos na vida intelectual, com enormes avanços nas ciências exatas (matemática, física, química) e doutrinas filosóficas (positivismo, marxismo, entre outras) que viriam a legitimar uma visão científica do mundo.   

O cientismo acreditava que o progresso material traria consigo o progresso moral: “quanto mais se avançar no futuro, mais as ideias pacíficas progredirão” (Émile de Girardin). Eis um princípio, um postulado, um refúgio humanista tranquilizador.

Infelizmente, por muito que nos custe aceitá-lo, o progresso científico e técnico não traz consigo, necessariamente, o progresso moral, como o exemplificam a barbárie, a crueldade e o terrorismo, desde o início dos tempos à atualidade.

Poderia pensar-se que apenas pessoas com distúrbios mentais, com problemas ou uma deformação na formação da personalidade se poderiam envolver em tais atos, o que se chegou a acreditar, crença que foi desmentida por terroristas detidos cujos atos eram e são deliberados, voluntários e racionais, movidos por fins ideológicos e políticos, tendo como legítimo qualquer uso de violência para os atingir.     

A teoria da desvinculação moral (Albert Bandura) analisa os mecanismos psicológicos que regulam indivíduos que justificam as suas condutas desumanas, cruéis e violentas sem sentimentos de autocondenação, censura e reprovação. 

Nos processos de desvinculação moral prima a desumanização e a atribuição de culpa.

Na desumanização tratam-se certas pessoas como inferiores a seres humanos, retirando-lhes a sua dignidade, sem empatia, sem emoções e sem quaisquer sentimentos, porque tidas como menos do que humanas, não identificadas com a tribo, sendo o ato mais extremo do tratamento imoral contra o outro.     

Na atribuição de culpa exclui-se a autocondenação culpando as vítimas e justificando a conduta violenta como uma necessidade derivada de uma alegada provocação (em vez de uma decisão pessoal), tida como uma reação moralmente defensiva e justificada. 

No cerne desta violência há o fanatismo, o ressentimento e o ódio, seja de origem ideológica, étnica, tribal, racial ou religiosa, que o nosso tempo amplifica sem entrave à vista, dado que o progresso moral (e ético) não é crescentemente proporcional ao técnico e científico, mesmo que cheguemos a outros planetas, estrelas e galáxias, em que não é de excluir conflitos com civilizações extraterrestres, por uma questão de poder ou sobrevivência, fazendo uso, se necessário, de interesses amorais. 


21.03.25
Joaquim M. M. Patrício

O PRINCÍPIO DE ALBERTINA

  
   Designed by Freepik


Em “Na aula de trabalhos femininos”, de autor anónimo, descreve-se uma discussão entre duas alunas e uma professora. A primeira aluna, “muito tímida e modesta,” gosta de arroz-doce e sabe fazer arroz doce. A segunda, Albertina, gárrula e imodesta, exprime predilecção por ovos moles. A professora interrompe-a: “E também sabes fazê-los?” “Albertina ouviu, ficou embaraçada, e disse que ainda não sabia muito bem.” A professora conclui secamente: “Pois é bom saberes.”

A professora manifesta uma opinião muito comum. Segundo essa opinião, gostar de uma coisa que não se sabe fazer é uma forma reprovável de gostar dessa coisa; e por isso é bom saber fazer as coisas de que se gosta. Exemplos de actividades reprováveis são: gostar da natureza e não gostar de sair de casa;  gostar de violino e não saber tocar violino;  gostar de romances e não ter a menor ideia de como se escrevem; gostar de política e não ter qualquer intenção de abraçar a carreira; e comer ovos moles feitos por terceiros. No meu caso sou culpado de cinco destes seis erros.

É verdade que numerosos progressos sociais e tecnológicos erradicaram o risco de não se conseguir fazer aquilo de que se gosta. Uma certa familiaridade com o violino pode ser conseguida sem dificuldade em cursos de doze lições, mesmo em cidades pequenas. No caso dos romances há sinais de que nem sequer são precisas lições. Ao contrário de Albertina, é assim concebível que se venha a chegar a uma situação em que as pessoas passem a gostar apenas das coisas que sabem fazer.

O princípio de Albertina faz apelo a emoções, sentimentos ou qualidades em vias de extinção. Entre estes conta-se a admiração por coisas que não sabemos fazer, por causa de não as sabermos fazer; e a admiração por pessoas que sabem fazer aquilo de que nunca seremos capazes. O princípio não equivale apenas à ideia de que há pessoas diferentes de nós, que na maior parte dos casos só é invocada para sugerir que ser diferente é indiferente. Equivale a outra ideia, muito menos comum: a de que muito possivelmente haverá pessoas melhores que nós.

Não é verdade que todos os consumidores passivos de ovos moles se limitem, como insinua a  professora, a viver à custa de quem os faz. Afinal de contas não admiramos aqueles à custa de quem vivemos por causa de nos deixarem viver à sua custa. A admiração e o respeito por quem é capaz de fazer certas coisas só podem ser suscitados em quem percebe que existe uma diferença importante entre aquilo que se admira e aquilo de que se é capaz. Perceber essa diferença é perceber que o mundo não começa nem acaba em nós. O princípio de Albertina parece-me por isso um princípio moral importante.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
   Escola de Atenas de Rafael


195. DE TUDO QUANTO MUDA, O QUE MENOS MUDA É O SER HUMANO


Quem acreditou e acredita que o progresso material e tecnológico traria e traz consigo toda a panóplia de progressos, entre os quais o moral e ético, e que quanto mais se avançar no futuro as ideias pacíficas progredirão, facilmente conclui que não, se fizer uma viagem minuciosa pelo passado de todas as civilizações.   

A condição, o conteúdo e a natureza intrínseca do ser humano permanecem, nem é previsível que se alterem enquanto existirmos, uma vez que os nossos instintos ou sentimentos de ambição, poder, ódio, amor, posse, propriedade, sobrevivência, de defesa, entre outros, sempre existiram e permanecerão. 

Podem modificar-se os modos exteriores da sua expressão, os motivos imediatos e métodos usados, adaptando-os e flexibilizando-os consoante as circunstâncias, mas a dimensão específica e essencial do ser humano permanece.     

Enquanto o progresso científico e técnico é portador de uma evolução gradativa, progressiva e sucessiva de avanço e inovação, o mesmo não sucede com o tempo cumulativo do desenvolvimento das relações humanas, podendo ser progressivo, regressivo ou repetitivo.   

O sermos mais avançados científica e tecnologicamente não nos garante sermos humanamente mais pacíficos e “civilizados”, sendo mais um culto prestado à ciência e à nossa capacidade de invenção e inovação, que não se compadece com realidades permanentes como a guerra, instintos como o ódio, o fanatismo e a luta pelo poder a qualquer preço, a mando de psicopatas, narcisistas, megalomaníacos e maquiavélicos. Que fazer? Desistir? A resposta, por nós, deve ser negativa.

Aceitando que o género humano é imperfeito por natureza, com caraterísticas boas e más (invariáveis ao longo do tempo), há que priorizar as suas qualidades, cultivando-as em prol do bem comum e da dignidade da pessoa humana, dado sermos perfectíveis, apesar da nossa imperfeição, mesmo que cientes de que de tudo quanto muda, somos nós o que menos muda. 


10.01.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


167. INTERROGAÇÕES SOBRE A LÓGICA DO PROGRESSO


Se no mundo técnico e científico o progresso é marcado por uma evolução gradual, linear e de permanente inovação, o mesmo não se verifica nas relações dos humanos uns com os outros.


Não há troca de eletrodomésticos, computadores, telemóveis, máquinas ou meios de transporte tecnologicamente mais eficientes e confortáveis por outros mais antigos, desadequados, desatualizados, ultrapassados e ineficientes.   


As coisas, os objetos, o dinamismo dos utensílios e do saber encaminham-se para a sua perfeição, melhorando continuamente, numa tendência universal que atravessa todas as latitudes e longitudes, independentemente das determinações étnicas de uma comunidade, grupo social ou cultura.


Indicia-se não haver regressão no progresso técnico e científico, na dinâmica inteligível dos utensílios e das coisas, que se intui como crescente e irreversível, ao invés das várias formas de relacionamento humano, como no universo político e simbólico, tidas como repetitivas, progressivas, regressivas, com avanços e recuos, onde se indicia existirem problemas insolúveis, reversíveis, subjetivos e geradores de incerteza. 


Intui-se que o tempo cumulativo do desenvolvimento científico e técnico é portador de uma evolução e inovação progressivamente contínua. 


Intui-se que o tempo cumulativo do desenvolvimento das relações das pessoas umas com as outras não melhora permanentemente, pode ser progressivo ou regressivo, pode trocar-se uma democracia por uma ditadura e o inverso, abolir-se ou instituir-se a pena de morte e a prisão perpétua, trocar-se uma religião humanista por uma inquisitorial e sanguinária, por mais que se tente absolutizar e universalizar os direitos humanos, de génese meramente ocidental, para muitos. 


E se o computador é um progresso irrefutável, um sem número de vezes superior, em relação ao ábaco e à sua calculadora, não se pode dizer que Gandhi, Luther King ou Mandela são personalidades morais superiores a Buda, Jesus Cristo ou Maomé. Que filósofos contemporâneos são mais “profundos” que os da antiguidade como Sócrates, Aristóteles e Platão. Que Jackson Pollock e Andy Warhol superam Caravaggio e Leonardo da Vinci, que as obras de Shakespeare ultrapassam a Ilíada e a Odisseia, de Homero.       


Indicia-se que a noção de progresso é menos aceitável e mais questionável, senão mesmo inviável, na ordem afetiva, intelectual, psicológica, política e simbólica das relações humanas, dada a sua natureza e condição, como o provam os clássicos na sua intemporalidade, pois “está lá tudo”, desde que há escrita, como é usual dizer-se, pelo que, nesta perspetiva, a guerra, por exemplo, tem caraterísticas de permanência na História da humanidade, o que não exclui tentar expurgá-la, a todo o tempo e em qualquer circunstância.


22.03.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

62. ESQUEMAS DE PROGRESSO, REGRESSÃO E DE PODER

 

O drama da queda do Império Romano sugere que a civilização não progride em linha reta e sempre em direção a mais prosperidade, lei, ordem, tecnologia, segurança, tolerância e unidade na diversidade.   

O progresso linear e ascendente em linha reta não é um dado adquirido e permanente em termos civilizacionais.   

A antiguidade greco-latina mostra-nos feitos incríveis alcançados por gregos e romanos que se perderam. 

A imperatriz de Roma, Eudóxia, foi escravizada por um bárbaro, Genserico, líder de uma tribo germânica, os Vândalos.

Com a queda de Roma a Europa fragmenta-se e ficará dividida durante 1500 anos.  Ficará fragmentada e habitada por bárbaros, para os romanos, em paralelo com os bárbaros que adjetivamos hoje de fundamentalistas e terroristas, tal como éramos e eram os germanos, gauleses, lusitanos, etc, no tempo dos romanos, para estes. 

Com a desagregação do império romano, anglos e saxões vão para a Grã-Bretanha.

Francos, vão para a França atual, a que deram o nome. 


Visigodos para a Península Ibérica. 

Há vikings no norte da Europa.

Árabes no sul: Córdoba era uma cidade tolerante, de judeus, cristãos, muçulmanos, estimulando a ciência e as artes em geral, destoando da idade das trevas europeia e da imagem atual que temos, ocidentais, de várias sociedades árabes.

Aquando da primeira guerra mundial, falava-se em “grande guerra”, porque se acreditava ser a última (guerra), devido às luzes da tecnologia, da ciência positivista, segundo a qual as luzes derrotariam as trevas.

Há os que são coerentes quanto àquilo que defendem e fazem (moral da convicção) e os que dizem que os fins justificam os meios (moral da responsabilidade).

São Tomás de Aquino defendeu o tirocínio (morte do tirano), o que, na realidade, para muitos, é um ato terrorista.

A revolução contém estruturalmente terrorismo e violência.

Se é ganha, os ganhadores são heróis.   

Se se perde, os perdedores são terroristas.

Quando se conquista ou ganha, deixa-se de ser mau  /terrorista, para se ser bom/herói.  Há a história dos vencedores e vencidos, conquistadores e perdedores, colonizadores e colonizados, a que a própria natureza, per si, também não é alheia.

Para quando uma civilização humana e humanista?   

 

23.10.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício