Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ALMAS VOADORAS

 

Era uma tarde de terça feira. Voltara de uma tarde de ensaios de guitarra.

Estava apreensiva, pois tinha conversado sobre a hipótese de ficarmos fechados em casa mais cedo do que poderíamos esperar.

Parei.

Pus os fones e decidi pôr uma playlist a que chamo "banda sonora da minha vida". Gosto bastante dela, pois ela tem o poder de me transportar para o papel de uma personagem principal de um daqueles filmes antigos intemporais.

Naquele momento, decidi, que durante aquele passeio costumeiro, interpretaria esta personagem que idealizei para mim mesma.

Sentei me na borda do passeio, a ver o pôr do sol que espreitava entre prédios.

Quando já não conseguia ver mais, pus-me de pé, e decidi ir pelo caminho mais longo.

Não tinha pressa.

A luz do ar era roxa.

Quando me recordo desta tarde, é a primeira coisa de que me recordo.

Ataques de sinestesia?

Olhando para trás, talvez estivesse assustada, e este pequeno teatro fosse uma forma de me abstrair de tudo em geral.

Lembro-me de quando cheguei a casa. Estava feliz, despreocupada.

Contrastava um pouco com o meu "eu" apreensivo no princípio do caminho.

Isto foi há 47 dias.

Todos os dias risco no calendário o dia anterior, para saber em que dia estou.

Durante a quarentena, costumo comparar-me a um ser um pouco adormecido, mas bastante pensativo.

Todos os dias parecem domingo (aquele dia em que toda a gente está um pouco deprimida, por no dia seguinte ser segunda feira).

Acho que dos "fios" que me "ligavam à terra", só restam aqueles que me conferem mais conforto, alegria e companhia.

Arte, amigos, música, livros, família...

Ao menos uma coisa boa trazida pela quarentena.

Aprendemos forçosamente a "filtrar" o que a nossa alma precisa para voar cada vez mais alto.

Pois, se o nosso corpo está preso, é urgente que as nossas almas voem mais alto do que alguma vez voaram.

Oxalá esta quarentena traga mais almas voadoras.

 

Teresa Souza d’Alte

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Há males que vêm por bem... Sem me atrever a ser tão assertivo, direi apenas - e creio que tanto basta - serem quaisquer obstáculos, impedimentos ou, mesmo, desgraças sempre também oportunidades de revisão e conversão, aberturas novas à humana vocação de recriação do mundo. A pandemia universal que nos tem vindo a percorrer e abraçar é de tal bom exemplo.

 

   Antes do mais, na medida em que nos vai desenvolvendo a própria consciência da nossa humanidade comum e nos impõe um pensarsentir como a solidariedade é, e deve ser, mais nossa do que a indiferença e a excecionalidade, seja esta, ou possa ser, ostracismo do outro e privilégio nosso. Finalmente, compreenderemos como todos estamos na mesma Arca de Noé e só juntos, organizados e cooperantes, nos safaremos. Até a globalização da chamada quarentena nos vai recordando como, no mundo de hoje, já nada é resolúvel pelo isolamento de navios fundeados ao largo dos nossos portos: não mais se trata de pôr uns de castigo, mas de solicitar a todos que se restrinjam ao cuidado da cautela comum.

 

   Por outro lado, também nos surgem surpresas, tais como esta de agências científicas especializadas e atentas terem agora verificado que a restrição geral de movimentos e viagens nos trazerem os benefícios já sensíveis de maior pureza do ar que respiramos e de limpeza da terrível poluição atmosférica. Como se o surto do covid 19 e as barreiras que se lhe opõem fossem vozes proféticas a estimular-nos a um maior carinho e cuidado com Mãe Terra, a casa que todos habitamos.

 

   Esperemos ainda que esta renascida consciência da nossa comum humanidade e sua circunstância possa melhorar as relações políticas e diplomáticas, sobretudo depois do descrédito que sobre si mesmos lançaram (p. ex. no Brasil, Venezuela e EUA) políticos narcísicos. Fique bem claro que só no transparente e generoso intercâmbio de suspeitas, hipóteses, previsões e progressos na investigação científica encontraremos as soluções possíveis e as partilharemos em ação de graças, na eucaristia da nossa humanidade.

 

   No silêncio desta minha moradia, no meio de campos férteis, mas tão calados no Inverno que termina, escuto agora todos os quartetos de Mozart dedicados a Haydn. São, na linha deste, uma busca da harmonia, a recusa do caos. E vou lendo o último romance da escritora franco-marroquina Leila Slimani: Le Pays des Autres (Paris, Gallimard, 2020). Lê-se no texto da respetiva apresentação (traduzo): Todas as personagens deste romance vivem «no país dos outros»: [Melhor diria: «na terra dos outros»]. quer colonos quer indígenas, sejam soldados, camponeses ou exilados. As mulheres, sobretudo, vivem no país dos homens e devem incessantemente lutar pela sua emancipação.

 

    Que este período de quarentena e retiro nos dê, Princesa de mim, vagar e ânimo para refletirmos no Advento da Terra de Todos.

 

 Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira