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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRENTES E ATEUS: A FÉ E A RAZÃO


1. “Ele (Deus) permitiu que trevas densíssimas se abatessem sobre a minha alma e que o pensamento do Céu, que desde o tempo da minha meninice era para mim tão felicitante, se tornasse um objecto de luta e de tormentos. A duração desta provação não se limitou a alguns dias ou semanas. Há já meses que sofro e ainda aguardo pela hora da minha libertação. Quereria poder exprimir o que sinto, mas é impossível. É necessário ter passado pelo túnel escuro, para captar a sua escuridão...


Para tranquilizar o meu coração, pois está cansado por causa das trevas que o envolvem, tento fortalecê-lo com o pensamento de uma vida futura e eterna. Mas então a minha tortura duplica-se. É como se as trevas assumissem a voz dos incrédulos, escarnecessem de mim e me dissessem: ‘Tu sonhas com a luz..., tu crês poder fugir à treva em que desfaleces! Avança! Avança! Alegra-te com a morte, que não te dará o que esperas, mas uma noite ainda mais profunda: a noite do nada!’"


Quem iria supor que estas palavras são da carmelita Therèse Martin (conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus) em 1897, quando tinha apenas vinte e quatro anos, vindo a morrer em Setembro desse ano?


Foi uma irmã de sangue, também ela carmelita, que manteve em segredo o original manuscrito da História de uma Alma, vendendo ao mundo a imagem de uma Santa Teresinha açucarada. Mas, como escreveu o teólogo Hubertus Halbfas, a verdadeira história da alma de Teresa é o destino de uma jovem que dentro dos muros frios do convento não perdeu apenas a saúde, mas também "toda a certeza da fé": "Se ao menos sentíssemos Jesus! Mas não, ele parece estar a milhares de léguas de distância. Estamos sós connosco mesmos.", são palavras de Santa Teresinha. E o teólogo acrescenta que se deve à mesma irmã a impressão de que a santa não viveu "a noite da incredulidade", mas "a noite mística", como a de São João da Cruz, no século XVI. Ora, se este místico passou pelos sofrimentos indescritíveis da "noche oscura", "o seu deserto não foi a perda da fé". Teresa, pelo contrário, apesar do gueto católico em que viveu, "assumiu em si", através dos muros do claustro, "como que por osmose", "o niilismo do século XIX". Quando, em face da morte, a irmã Marie lhe disse que em breve estaria com Jesus e os anjos, respondeu: "Todas essas imagens não me dizem nada. Apenas posso alimentar-me da verdade. Por isso, também nunca pedi visões. Prefiro aguardar pelo depois da morte". Esta resposta não é ateia, mas há aqui algo de novo, conclui o teólogo: "a confissão corajosa da incerteza sobre as coisas últimas", que constitui "a situação religiosa genuina da maior parte das pessoas no século XX" e, digo eu, também do século XXI.


A fé não é, ao contrário do que frequentemente se pensa, ópio e consolação, mas luta e combate no meio das trevas e da dor. No domínio da fé, o perigo não vem do ateísmo que sabe o que isso quer dizer, mas da indiferença.


2. Também o ateísmo é uma crença. Tem-se frequentemente a ideia de que, à partida, o ateu, quando nega a existência de Deus ou quando afirma que, com a morte, acaba tudo, tem do seu lado a razão, ficando o crente sob a suspeita de não-racional, de tal modo que é a ele apenas que compete ter de apresentar razões da sua fé.


As coisas não são assim, de modo nenhum. Por paradoxal que pareça, também o ateu assenta a sua negação da existência de Deus ou da vida depois da morte num acto de fé, melhor, numa crença. "Em qualquer das suas formas, o ateísmo é uma crença e não uma evidência, escreveu o filósofo Pedro Laín Entralgo, um 'creio que Deus não existe' e não um 'sei que Deus não existe'".


O crente e o ateu encontram-se exactamente no mesmo plano: o crente não pode demonstrar a existência de Deus nem a vida eternal — aliás um Deus demonstrável não seria Deus, mas um ídolo, que a razão constrói e destrói —, exactamente como o ateu não pode demonstrar que Deus não existe ou que a morte é o termo definitivo da existência da pessoa. No que se refere a Deus ou à vida depois da morte, as posições do crente, do agnóstico ou do ateu assentam na crença.


Evidentemente, sendo humanos e, portanto, seres racionais, todos - o crente, o agnóstico, o ateu - têm de apresentar razões para a sua crença, pois esta, se quiser ser verdadeiramente humana, não pode ser cega. Sublinhe-se, porém, que se trata, para todos, de um acto de fé, certamente com razões, mas sempre de um acto de fé, e não da conclusão de uma demonstração.


Assim, o crente, o agnóstico, o ateu, em vez de se excluírem, devem encontrar-se e enriquecer-se mutuamente num conflito dialógico de razões, e, por paradoxal que pareça, num diálogo sincero e aberto, concluirão que há entre eles muito mais sintonias do que poderiam supor à primeira vista. Quantos crentes, por exemplo, não ficarão surpreendidos ao ler em São Tomás de Aquino que o saber da fé, não podendo ser evidente, convive com a dúvida, a opinião, a suspeita...


Fé religiosa e dúvida não se excluem. Pelo contrário, a fé está sempre acompanhada de perguntas. Estas perguntas humanizam a religião, pois impedem todo o tipo de fundamentalismo, abrem ao diálogo não só com os crentes de outras religiões mas também com os ateus e agnósticos, obrigando a uma reformulação constante das fórmulas doutrinais, que ao mesmo tempo que tentam dizer o Mistério também o ocultam.


Por outro lado, é bem possível que também ateus e agnósticos aceitem que há um Mistério inominável que a todos envolve...

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 de outubro de 2021

UM MUNDO DE CONTRADIÇÕES


Juntamente com Espinosa, terá sido Hegel que levou mais longe o racionalismo: "o que é racional é real e o que é real é racional", escreveu. Mas Ernst Bloch objectou que o processo do mundo não pode desenrolar-se a partir do logos puro. Na raiz do mundo tem de estar um intensivo da ordem do querer. Bloch, como também Nietzsche e Freud, foi beber a Schopenhauer. Este foi um filósofo que sublinhou do modo mais intenso que, na sua ultimidade, a realidade não é racional, pois há uma força que tem o predomínio sobre os planos e juízos da razão: a vontade.


Aí está um dos motivos fundamentais por que, na tentativa da explicação dos fenómenos humanos, a nível individual e social, temos sempre a sensação de que há uma falha no encadeamento das razões. É que no ser humano há o lógico e a pulsão, o cálculo e a emoção, a razão e o impulso.


O próprio cérebro, que forma certamente um todo holístico, tem três níveis. Paul MacLean fala dos três cérebros integrados num, mas também em conflito: o paleocéfalo, reptiliano; o mesocéfalo, o cérebro da afectividade; o córtex com o neo-córtex em conexão com as capacidades lógicas. A luz racional é afinal apenas uma ponta num imenso oceano inconsciente, impulsivo e também tenebroso.


Por isso, não só não conseguimos uma harmonia permanente como é necessário estar de sobreaviso contra a ameaça de descalabros e catástrofes mortais. A nível individual, familiar, colectivo... Também não se pode esquecer que a política, local, nacional, regional, internacional, é conduzida por seres humanos que vivem estas tensões...


Por outro lado, porque o ser humano não é redutível à lógica computacional, é capaz de criações artísticas divinas, do amor gratuito, do luxo generoso, da música — a música, “arte ‘pura’ por excelêcnia”, “a mais ‘mística’, a mais ‘espiritual’ das artes é talvez simplesmente a mais corporal”, como escreveu Pierre Bourdieu, e que não é preciso compreender para se ficar emocionado e extasiado.


O ser humano é pela sua própria constituição um ser paradoxal, em tensão. Ele é essa mistura enigmática de finito e infinito, de impulso e razão, e  o impulso pode transtornar a razão e dominá-la.    


Assim, também não há sociedades completamente harmónicas, pois inevitavelmente são atravessadas pelo conflito. As tensões, os conflitos e até as contradições variam, mas estão sempre presentes.


A título de exemplo, algumas tensões e conflitos na nossa sociedade.


Trata-se, por um lado, de uma sociedade altamente competitiva, que exige enorme preparação científica e técnica, educação esmerada, com trabalho aturado, permanente e competente, mas que, por outro, está impregnada de consumismo, propaga o hedonismo, valoriza em extremo o prazer. Esta tensão torna complexa a educação, não favorecendo de modo nenhum a harmonia pessoal. Tanto mais quanto, num tempo em que é preciso lutar duramente para arranjar um lugar ao sol, programas alarves de televisão e concursos rasteiros dão fama rápida e quantias fabulosas.


A nossa sociedade não quis ter filhos, e evidentemente estava no seu direito. Mas, agora, somos fatalmente confrontados com a inversão na pirâmide das idades, com todas as consequências daí advenientes, por exemplo, no domínio da segurança social. Por outro lado, teremos de importar mão-de-obra estrangeira, o que pode trazer benefícios sem conta; ao mesmo tempo será, porém, necessário estarmos preparados para conflitos que inevitavelmente surgirão. Pergunta-se: que politica tem sido feita a favor da família?


A medicina, felizmente, foi prolongando a esperança de vida das pessoas. Mas, por outro lado, que preparação existe para lidar com a velhice dos outros e com a velhice própria? Chega-se a este paradoxo: a mesma medicina que fez aumentar a média etária vai ser solicitada para ajudar na eutanásia, matar.


Nunca o indivíduo quis auto-afirmar-se com tanta força, mas ao mesmo tempo talvez nunca como hoje se tenha sentido que se vive num processo sem sujeito. Nunca a velocidade foi tão veloz, mas a partir de um certo limiar tomamos consciência de que se vai cada vez mais devagar: o desespero do trânsito nas cidades. Nunca houve tantos meios de comunicação, e tanta solidão!; e não há também a angústia do afogamento em tanta informação? Aí está mais de meio mundo a “dedar” e onde está o espírito crítico?   


Reclama-se os direitos individuais, mas esbateram-se as fronteiras entre o privado e o público, quase desapareceu a intimidade, e, a pretexto da segurança, rendemo-nos à vigilância do Big Brother, que não é só o da televisão, mas o de Orwell. Quando olhamos para a rapidez dos transportes, para tanta tecnologia comunicativa e outra que devia facilitar a vida, aparentemente devíamos nadar em tempo livre; de facto toda a gente desespera com a falta de tempo e nunca o stress terá sido tanto.


O conflito maior é o dos pobres, milhares de milhões. Quando nos países ricos se come de mais e se sofre de obesidade e se queima ou deita comida ao mar em ordem à manutenção dos preços, sabe-se que há hoje no mundo mais de 800 milhões de pessoas com fome.


Depois, é  a guerra, guerras espalhadas por todo o mundo.


Há três impulsos fundamentais com os quais é preciso aprender a viver, como disse Kant: o prazer, o ter e o poder. Afinal, a contradição é fundamentalmente sempre a mesma: tornarmo-nos escravos do prazer, do ter e do poder, esquecendo-nos do ser e de ser. Aí estão os Pandora Papers, etc.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 9 de outubro de 2021