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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS PARA A OUTRA MARGEM


Minha Princesa de Além:

 

   Na minha última carta terei deixado claro não ser meu propósito esclarecer (nem tampouco investigar) as circunstâncias, as causas próximas e as propostas de soluções da atual crise afegã, muito embora possa ainda vir a adiantar algumas sugestões de análise e de pistas praticáveis. Por outro lado, continuo a insistir - como ao longo da última década - na fundamental importância de um melhor conhecimento de outros povos, culturas e civilizações para a construção de pontes e entendimentos indispensáveis a uma convivência pacífica e enriquecedora... em vez de continuarmos a ver tudo pela perspetiva do choque de civilizações ou das possíveis hegemonias das grandes potências.

   Na primeira das suas Cartas de Inglaterra, Eça de Queirós escreve sobre duas invasões do Afeganistão pelo poderoso e pesadamente armado exército britânico: a de 1847 e a de 1880. Destaco um trecho: Numa manhã avista-se Candaar ou Gasnat; - e num momento é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exército afegão, com as suas cimitarras de melodrama e as suas colubrinas, do modelo das que outrora fizeram fogo em Diu. Gasnat está livre! Candaar está livre! Hurra! - Faz-se imediatamente disto uma canção patriótica; e a façanha é por toda a Inglaterra popularizada numa estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com veemência, no primeiro plano, entre cavalos empinados e granadeiros belos como Apolos, que expiram em atitude nobre! Foi assim em 1847; há-de ser assim em 1880.

   No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a pátria ou morriam pela "fronteira científica", lá ficam, pasto de corvos - o que não é, no Afeganistão, uma respeitável imagem retórica: aí, são os corvos que fazem a limpeza das ruas - comendo as imundícies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas. 

   E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónica... Consoladora filosofia das guerras!

   No entanto a Inglaterra goza por algum tempo a «grande vitória do Afeganistão» - com a certeza de ter de recomeçar, daqui a dez anos ou quinze anos...

   O que mais me faz refletir nesta história é o sentimento de superioridade e força que facilmente se apodera das grandes potências, levando-as a ignorar os outros povos e suas culturas, posto que estes vão sempre sendo considerados passivos ou instrumentos disponíveis e utilizáveis, ou, obsessivamente, inimigos, obstáculos ou nocividades a eliminar... No caso do Afeganistão, por exemplo, depois de russos e ingleses, vieram mais russos e soviéticos, norte americanos e NATO, al Qaeda e talibã... Mas neste caso, como em vários outros - apesar de algumas analogias com eventos já passados, e da essencial megalomania dos potentados-- mais preocupante será a opaca ignorância dos outros e suas culturas, bem como a cegueira da própria consciência de si, com a alienação das verdadeiras causas dos seus próprios atos e consequências. Explico...  

  Hoje mesmo, percorrendo jornais e revistas respeitáveis e influentes, sobretudo no universo anglo-americano, deparo com essa jeremíada interrogação sobre se a aparente derrota no Afeganistão será verdadeiramente o canto do cisne do poderio americano como polícia do mundo. Repara, minha Princesa do além de mim, que falo de derrota aparente, e também me interrogo sobre o que será um poder e o seu respetivo desastre. Afinal, e humildemente, porque não sei; ou antes será por não me parecer interessante a pergunta, nem a resposta. Aflige-me a endémica mania das grandes potências se servirem de, ou subsidiarem, mais pequenos, frágeis ou iludíveis, para custearem a prossecução dos seus interesses próximos. Se repararmos bem, os EUA apoiaram, militar e financeiramente os talibã contra os soviéticos, em tempos de guerra fria, tal com são garantes da aliança israelo-saudita, no jogo das potências regionais do médio oriente, ao ponto de parecerem ter esquecido que a Al Qaeda, autora dos atentados de 11 de Setembro de 2001 - cujo 20º aniversário agora decorre - é de raíz wahabita e saudita, e por essa facção islâmica - e o reino que a aconchega - sustentada.

   Não seria mais avisado, sobretudo em tempos de renovação energética, ir-se abandonando a extrema dependência petrolífera do médio oriente arábico, e conduzir uma política de encontros entre culturas e religiões? Hipótese que, aliás, ganha nova força se pensarmos que, por um lado, a maioria dos estados muçulmanos são hoje repúblicas laicas e seculares, e que a renovação do pensamento religioso, ou teológico, islâmico conta, em todo o mundo, com um número crescente de escolas e seguidores? Ainda muito recentemente, o sociólogo do Islão Reda Benkirane defendia que o apregoado regresso da religião muçulmana é, na realidade, uma saída do Islão da política, mantendo-se a sua invocação apenas como instrumento de legitimação do poder, de forma a produzir a ilusão da transcendência deste...

   Num mundo que consideramos crescentemente global, insisto, o conhecimento e respeito mútuo das culturas e religiões, das diferentes comunidades humanas é o passo pioneiro no longo caminho para uma paz consciente. Em futuras cartas, minha sempre princesa do Além, falaremos dos movimentos ecuménicos que foram despertando - e até dando frutos - ao longo da nossa atribulada história, bem como das místicas que os sustentaram. Por hoje, quero tão somente transcrever um trecho da biografia de frei Sérgio de Laugier de Beaurecueil, escrita pelo seu confrade dominicano frei Jean-Jacques Pérennès (Passion Kaboul, Le Cerf, Paris, 2014):

   Único padre católico - ou quase - no Afeganistão, ele vive com a questão do «mistério do Islão», tal como Jorge Anawati [este, dominicano egípcio, co-fundador, com Beaurecueil, do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo]. Ambos não escondiam a sua admiração pelo franciscano marroquino Jean-Mohamed Abd el-Jalil, cuja conversão ao cristianismo não tinha alterado a estima pela religião dos seus pais. No seu belíssimo livro «Aspects Intérieurs de l´Islam», Abd el-Jalil esforça-se por apresentar o interior da religião em que nascera, a fim de lhe revelar a profundidade espiritual. Religioso cristão completamente imerso no mundo muçulmano, Serge de Beaurecueil era, ele também, sensível ao caminho espiritual percorrido por vários muçulmanos com que lhe era dado encontrar-se.  

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

UM PLANO MARSHALL PARA ÁFRICA

 

1. Desde a década de oitenta do século passado que me tenho manifestado favorável a uma espécie de Plano Marshall para África. A última vez que me pronunciei foi no passado dia 13 de Agosto, na RTP 3, em conversa com a jornalista Sandra de Sousa, a partir de declarações do cardeal António Marto, a propósito das migrações.

 

Fica aí textualmente o que disse nessa conversa, no contexto da leitura dos jornais do dia.

 

Sim, nós estamos perante uma questão dramática, que, no meu entender, será cada vez mais dramática. Estamos a tratar das migrações, dos refugiados. E eu quereria chamar a atenção para dois ou três pontos.

 

Em primeiro lugar, é evidente que a Terra é de todos, o mundo é de todos e, por isso mesmo, há o direito de visita, de hospitalidade, de que já Kant falava. Mas a Europa, neste momento, está com este problema, que é um dos maiores problemas, o das migrações. Sobre isso gostava de chamar a atenção para os direitos humanos, e a defesa dos direitos humanos é qualquer coisa que está profundamente ligada à Europa - a Europa sempre se distinguiu por receber. Mas gostava de chamar também à colação que esta é uma questão da Europa enquanto União Europeia.

 

Em segundo lugar, julgo que é preciso entender que não podemos, para resolver um problema, criar problemas maiores, por exemplo, criar xenofobia, uma direita cada vez mais agressiva... Depois, é necessário também combater os traficantes ­ - é fundamental perceber isso. O próprio Papa Francisco tem dito que o Mediterrâneo não pode ser um cemitério. Estamos completamente de acordo. Mas, ultimamente, chamou a atenção para a prudência. Chamou a atenção para qualquer coisa que me parece fundamental.

 

Há a pequena política e a grande política. Se houver a grande política, vai-se perceber que, como a seguir à Segunda Guerra Mundial, houve o famoso Plano Marshall, que desenvolveu a Europa, que estava completamente destruída, e isso foi bom para a Europa e também para os Estados Unidos, algo parecido pode ser bom para África e para a Europa. Eu penso que é necessário, concretamente em relação a África, um Plano Marshall, isto é, desenvolver África lá. Lá. Com regras, evidentemente, pois sabemos que há governantes africanos que também não têm regras e apoderam-se dos dinheiros que chegam. Então, um Plano Marshall para África, para fixar as populações lá. Os africanos têm direito a viver bem e a desenvolver-se lá. Isso seria bom para África e isso seria bom para a Europa.

 

Sandra de Sousa observou: porque é que a Europa se tem regido pela pequena política? Porque tem pequenos líderes, não tem grandes estadistas?

 

Respondi: porque não há uma real união europeia. Eu penso que a Europa, sem união, sem estruturas minimamente federativas, com o tempo, torna-se insignificante no mundo. Veja: a Alemanha é um país grande, mas dentro da Europa; no quadro de um mundo cada vez mais globalizado, a própria Alemanha é pequena. Portanto, nós precisamos da grande política, no sentido de estadistas que criem uma União Europeia forte. Porque não é apenas a Europa, é o mundo que precisa da Europa. Porque os direitos humanos onde é que apareceram em primeiro lugar? Foi aqui, na Europa. Onde é que há segurança social? É na Europa.

 

Para que a Europa possa responder a esta questão gigantesca - o problema das migrações e dos refugiados é um problema gigantesco -, precisa de estadistas. Hoje, os africanos podem viver em condições difíceis e em lugares recônditos, mas em qualquer sítio há possibilidade de aceder através da internet à situação da Europa, e a Europa aparece como um paraíso e, portanto, vão querer vir. Depois, com a desertificação de África, vão aparecer milhões de africanos às portas da Europa, concretamente da Europa do Sul. Então, é necessária a grande política, e por isso é que eu, há muito tempo, sou defensor de um Plano Marshall para África. Para que se desenvolvam lá.

 

Sandra de Sousa: não se resolve com muros, com portas...

 

Respondi: não é possível, não é possível face a milhões de africanos que vão chegar...

 

2. Fiquei, pois, muito satisfeito, ao saber que a França e o Benelux, numa reunião recente no Luxemburgo, que juntou Emmanuel Macron e os primeiros-ministros luxemburguês, holandês e belga, querem que a Europa concretize esta ideia. "A União Europeia deve implementar uma versão do Plano Marshall em África, com uma ambição operacional concreta com os parceiros africanos", afirmou o belga Charles Michel.

 

3. Neste contexto, penso também que o clero africano tem um contributo fundamental a dar, desde que assuma as suas responsabilidades, ultrapassando as razões que sustentam críticas de missionários e de bispos. "O sacerdócio não pode ser um trampolim para sair de África porque é pobre", disse à Agência Fides o padre Donald Zagore, da Sociedade de Missões Africanas, citando Marcelin Yao Kouadio, bispo da diocese de Daloa. "As razões recorrentes (da emigração de pessoal eclesiástico) continuam a ser a procura de bens materiais e de prestígio." Além disso, "muitos africanos pensam que são superiores ao resto, particularmente nos círculos eclesiásticos, porque vivem, trabalham ou estudam na Europa. É dramático pensar que a essência de África chegue à sua realização quando goza do prestígio europeu". Em Maio de 2018, Ignace Bessi Dogbo, presidente da Conferência Episcopal da Costa do Marfim, também denunciou o fenómeno dos "sacerdotes errantes": sacerdotes que se negam a voltar a África depois de estudos ou de uma missão na Europa.

 

Seria lamentável que o clero africano, concretamente o mais bem preparado com especializações no estrangeiro, fugisse às suas responsabilidades e não desse o seu contributo imprescindível à promoção e ao desenvolvimento do seu continente e dos seus países.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 15 SET 2018

CRÓNICA DA CULTURA

 

A MORTALHA DA INDIFERENÇA: a separação dos destinos num único


Um vídeo divulgado pela agência Reuters mostra um bote ocupado por refugiados chegando à Playa de los Alemanes, em Andaluzia, na Espanha, (…) depois de cruzar o Estreito de Gibraltar. O bote com pelo menos 50 refugiados africanos chocou os banhistas da praia. Assim que a embarcação se aproximou da areia, os imigrantes saltaram e fugiram correndo. (10.08.17)

 

Escravos do nosso tempo, gente sem defesa, exposta à violência de todas as partes, alvejados pela indiferença dos banhistas que tanto incomodaram nas praias dos nossos dias.

 

Não sabem eles, nem o amortalhado mundo a que chegam, que, por aqui também o rasgão no diafragma da alma laqueou as artérias da compaixão e sob o calor, na praia, só o bronzeado é pista de vida. Os moribundos de roupas andrajosas fogem, arrastam-se fixa e silenciosamente da morte da partida e da morte da chegada.

 

Não existem médicos, nem medicamentos que atenuem a dor dos que sem clemência, debruçados no chão, vão suportando o olhar inquiridor que até exprime desdém ou ódio ou pasmo ou simplesmente lhe perscrutam a morte pois que com ela se iria embora um problema.

 

Não sabem as gentes que ao aceitarem diariamente a oferta em saldo, de imagens de horror, passam a agonizar em pasmo, sem qualquer surpresa, de que o próprio caminho seja o do abismo. Contudo quando lhes toca algo de mau, em vão tentam traduzir por palavras o seu silêncio: «Porquê eu? Porquê isto? E para onde agora?»

 

Não sei se se deram conta estes sortudos do lado de cá que só têm escolhido profundos ferimentos a seu cargo e semeado as terras de sementes hostis à abundância da fome. Agonizam pois numa viagem que celebram com champanhe. Então, imóveis, os abutres aguardam por óbvias razões que os festins lhes caiam aos pés como espectros de mortos ainda insepultos. Talvez a hora do que deveras deveriam ter feito se chame indiferença hipotecada a preço de sol roxo.

 

Um jornalista ainda pergunta aos persistentes banhistas: quanto tempo vai ficar assim? E por cá? E quando volta? Conte-nos de si dos seus desejos. Acha que politicamente partimos para um futuro sólido?

 

Com justa e impiedosa clareza o amor treme de frio. A indiferença traça a separação dos destinos num único. A revelação dramática da solidão usa protetor solar mascarando o lado atroz da guerra que o mundo enfrenta, sem vergonha de si, como se fosse brutalmente insuspeito.

 

Depois a velhice, a doença, a falta de afeto, as incompreensões, os abandonos, enfim todos os males, são culpa alheia. Fantástica cocaína!

 

Teresa Bracinha Vieira
11.08.17

LONDON LETTERS

 

This is Sportmanship, 2016

 

O momento é incrível e revela a sublime classe olímpica dos Brownlee Brothers. A descrição fica aquém da cena a todos ofertada pelos campeões do Rio. É o fim da 2016 Triathlon World Series no Mexico. Jonny

 lidera a corrida, seguido pelo old brother e um atleta sul africano. A escassos metros da meta o passo cambaleia-lhe com a desidratação. Os assistentes acodem a quem desfalece. Alastair ampara já o irmão, passa-lhe o braço por cima da cabeça, fala-lhe e ajuda-o a passar a linha final. Perde o ouro, mas ganha grata admiração de uma nação face ao spirit of The Team GB. — Chérie! Qui se ressemble s'assemble. A Prime Minister RH Theresa May está em New York para defesa do controlo das fronteiras no UN Summit for Refugees and Migrants. Um relatório do Foreign Affairs Committee censura fortemente RH David Cameron na House of Commons, pela guerra na Syria. — Well! A good deed is not without reward. A CDU de Frau Angela Merkel sofre nova derrota face à Alternative für Deutschland (AfD), agora na urbana Berlin, adensando as nuvens para as eleições federais de September 2017. Monsieur Alain Juppé marca nas primárias gaulesas da direita, com propostas integracionistas sobre o “Islam français.” Na White House Race, Mrs Hillary R Clinton e Mr Donald J Trump divergem entre a vigilância e a securização enquanto a atmosfera do terrorismo regressa a West Side e Manhattan na NYC. GB arrecada 147 medalhas, 64 em ouro, nos 2016 Rio Paralympics. Bavaria acolhe a Oktoberfest. A Countess of Wessex inicia uma corrida filantrópica de 445 milhas em bicicleta, entre os palácios de Holyrood e Buckingham, para recolha de fundos nos Duke of Edinburgh's Awards.

 

 

Mild temperature and a few showers within the thrive of Autumn colours at London. A cidade acorda com Parliament Square enlaçando a tragédia dos boat peoples no Mediterraneon Sea, com refugiados a clamarem por “urgente action” no meio de estridentes 2,500 salvavidas e cascata de negras estatísticas continentais. A United Nations estima que diariamente morreram 11 crianças, mulheres e homens a atravessar Europe em 2015. Seis anos após o deflagrar da guerra na Syria, com as fronteiras a erguerem muros e a passarem responsabilidades, a General Assembly suscita novas esperanças quanto a articulada resposta global capaz de melhor gerir a tormenta migratória. No weekend milhares de pessoas marcham por aqui em colorida manifestação de apoio. Ao ver e ouvir os cartazes, cânticos e outros sinais, sobretudo antiracistas, penso que a solução continuará distante enquanto despudoradamente se tentam ganhos alheios à questão, ao invés de avançar com uma abordagem pragmática, organizada, ancorada em estrita perspetiva humanitária ― full stop. No mais, como assinala a teoria walzeriana da justiça, "the good fences make the just societies". Os migrantes equivalem à população nestas ilhas. O voluntarismo de uns, a indiferença de muitos e o egoísmo de outros é que não vem ajudando quantos buscam melhor vida e para isso a arriscam. À partida para New York, Downing St deixa escapar tópicos do discurso primoministerial na UN. Mrs May apresentará “a three-point strategy to tackle the migrant crisis” com compassionate alert do sentido do tráfego: “the problem must be addressed to ensure public confidence in the economic benefits of legal and controlled migration."

 

No plano doméstico também o movimento ganha a cadência gravitacional da natureza das coisas. As oposições continuam a arrumar a casa em vésperas da outonal série de conferências partidárias. A disputa das lideranças apresenta os primeiros resultados. RH Diane James MEP conquista a chefia do (alegadamente misógino) Ukip. RH Nigel Farage cede o leme; e consigo desce o apelo populista aos blue collar do North e aos social conservatives do South. O desafio dos soberanistas é agora diluir a presente perceção de que terão esgotado o futuro com a vitória no euroreferendo, indo além do tradicional papel de guardiões de uma hard Brexit e assumirem-se como força eleitoral capaz de finalmente franquear a entrada em Westminster. O terreno está aberto, aliás, quer pelo colapso de LibDems e de Labourites, quer ainda pelas divisões latentes no new regime dos Tories. Ora, se os Liberal Democrats sob RH Tim Farron pegam sozinhos na bandeira azul da EU e podem capitalizar no voto eurófilo à esquerda e à direita, desde que credíveis, há que esperar pelo próximo Saturday para confirmar a vitória vermelha do RH Jeremy Corbyn no Labour Party. Será o desfecho de três meses de azeda batalha campal entre moderados, agnósticos e esquerdistas. As feridas são mais que muitas. Até a alusão ao imperativo de unir o partido suscita controvérsia, pelo hate against the Blairites. O honorável Comrade Jez quer entregar mais poder aos militantes. Segundo ele, democratiza a decisão; segundo os rebeldes, esvazia o Parliamentary Lab Party.

 

Já o Institut Montaigne debate "Great Britain, Europe and the world after Brexit" em Paris (Fr). Durante uma animada sessão presidida por Madame Dominique Moïsi, com a participação nativa de Mr Robin Niblett, director da Chatham House, e Mr Nick Butler, professor no King’s College, afloram contrastadas perspetivas sobre o futuro nas relações internacionais. Resultam quatro interessantes cenários em encontro onde também pontua o Churchillian dream em torno do concerto no velho continente: "(1) The UK will pursue its development on its own, while the EU will do the same on its side; (2) Brexit will in reality never come about because of its complexity and because of the administrative burden; (3) The EU will adopt radical changes by breaking austerity, by becoming more independent from the German leadership, and by renouncing to the membership; and, (4) The EU will change by integrating to the core with a truly efficient common parliament, a common defence policy and a more protectionist economic policy." Dos riscos comummente identificados está o efeito de potencial erosão na(s) parceria(s) transatlântica(s).

 

Que o oceano não está para marujos de água doce, é fácil observar. O ano de 2016 e a Brexiting inauguram uma sísmica mudança na paisagem política ocidental. Pesemos só os eventos maiores na agenda do triénio. Além das presidenciais nos USA e da incerteza quanto a quem será o próximo residente no Oval Office, haverá eleições gerais em France e em Germany a par do referendo constitucional italiano. Qualquer um dos unknows neste quadrilátero tende a trazer diferentes políticos e/ou políticas, para mais quanto as 

 vagas populares se inquietam nas equações nacionais. Se a geografia de cada qual é inescapável no mapa dos interesses, preocupante é a impreparação de desatentas casas das máquinas governamentais para gerir estrategicamente as oportunidades e os desafios que se esboçam no horizonte. Quem siga o debate pelos media ocidentais espantar-se-á até com a insustentável leveza do business as usual com que o Bratislava Summit aborda a nova situação na European Union. — Well! Remember Master Will and how the noble Mark Antony provides for the ambition, honour and friendship in Julius Caesar: — Friends, Romans, countrymen, lend me your ears: I come to bury Caesar, not to praise him.

 

 

St James, 19th September 2016
Very sincerely yours,
V.

 

 

PS: Parabéns a Dame Maggie Smith (Downton Abbey) e Mrs Susanne Bier (The Night Manager) pelos triunfos nos 2016 Emmys, em nova noite de Game of Thrones.