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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A SIBILA: "PORQUE... PORQUE..."

 

Temo, sinceramente, que, aquando do falecimento de Agustina Bessa-Luís, muitos, que nunca leram nada dela, se tenham servido do seu nome apenas como escada para subir e se mostrarem e serem vistos.

 

De qualquer modo, o que é que ainda se poderá dizer de novo sobre A Sibila, algo que ainda não tenha sido dito e reflectido? Mesmo assim, voltei lá, a A Sibila, de Agustina Bessa-Luís, e ouso pensar que do que trata, em última análise e lá mais no fundo, é da condição humana, do mistério do que somos e de quem somos — mas não é disso que tratam todos os grandes romances? Não será por acaso que termina assim: “porque... porque...”.

 

Sirvo-me hoje dessa releitura, para uma homenagem a Agustina, mas sobretudo porque me parece uma preciosa ajuda para meditar nestes dias primeiros de Novembro. Numa sociedade que fez da morte tabu, ainda se permite que ela nos visite e dela se fale dois dias por ano: 1 e 2 de Novembro. Também a morte é, evidentemente, tema atento em A Sibilia. Porque a morte nos obriga a pensar e a distinguir bem entre o que verdadeiramente vale e o que não vale e, assim, abrir a uma consciência mais funda da liberdade e da ética. Cito A Sibila: No dia dos fiéis, no cemitério, “Quina orava, as mãos cruzadas sobre o ventre, diante da modesta morada de seu pai e de seu irmão Abílio. Uma lousa, os nomes gravados a branco já indistintos, um pedaço de terra mole onde a chuva empoçava, e era aquilo o maior agente moral do homem, do mundo — a morte. Maria debruçou-se para endireitar uma flor numa velha jarra esbeiçada que só servia na ocasião.” “O maior agente moral do homem, do mundo — a morte.”

 

E aquela oração, quando o velho morreu! “Quina aproximou-lhe a candeia do rosto, e viu, sob as suas pálpebras imóveis, duas lágrimas que escorriam como gotas de glicerina, vagarosas e desfeitas, no encalhe das rugas. Quando se chegaram para o amortalhar, Quina rezava diligentemente uma melopeia improvisada. Elevou a voz, que se tornou surda e pesada, com uma retumbância trágica e cheia de calor. “Aceita-o nos teus braços, ó meu Senhor, e que ele encontre tudo o que procurou aqui e não pôde achar; todo o tempo que já tinha vivido, com todas as coisas boas que ele, para tua glória, contém;  todas as coisas que por teu amor nascem e por teu amor morrem; tudo que por tua inspiração desejamos, e não tivemos forças para conseguir. Agora, ele está pobre e nu diante dos teus olhos divinos. Recebe-o. Esclarece-o agora, para que ele te diga por que pecou, e possa ser perdoado. Porque nós não sabemos por que erramos, só tu o sabes, Senhor, e é por isso que tu perdoas. Nós não compreendemos essa piedade, nós não compreendemos nada de nós, nem temos voz para explicar, nem olhos para ver no escuro, nem ouvidos para ouvir quando tudo parece calado. Mas tu estás do outro lado da noite. Agora, este que foi homem sabe porque veio de ti e voltou para ti, e já não nos pertence. Ajuda-o, porque agora deves guardá-lo — ele não está mais à nossa guarda. Na morte não há irmãos, ele já não é mais nosso...” Assim rezava Quina.

 

Lá vem também, sadio, aquele humor ácido anticlerical. O abade a Maria: “Reze três Ave-Marias como penitência. — Reze-as o senhor abade, que tem mais vagar do que eu. Era, aos noventa e quatro anos, um lucilar ainda do seu humor impávido e irreverente.” É também certo que, por vezes, a oração de Quina é interesseira, mas nunca abandona a elevação da beleza,  a dimensão evangélica e mística, a fé cheia de espiritualidade. “Abençoai os nossos campos, para que eles tenham água e nos dêem pão. Abençoai a nossa casa, o nosso gado, os nossos criados. Abençoai os nossos homens, os nossos frutos, que tudo aconteça para bem. Levai para longe a fome, a peste, a guerra e os amigos que mentem. Fazei-nos humildes na riqueza, orgulhosos na desgraça, sábios em desejar, corajosos em receber a ofensa, valentes em cumprir a vida e a morte. Abençoai também os nossos moinhos e os caseiros deles, que não pagam a renda há tanto tempo... Abençoai os nossos gostos, para que sejam nossos brinquedos e não cadeias. Abençoai as nossas dores, para que elas sejam experiência e não castigo...” 

 

Seja como for, e sobretudo, é este o comentário de Germa, que a conheceu bem: “Quina escondia as mãos sob o avental, e rezava. Quem poderia rir, quem a acharia grotesca, ou quem encontraria motivo de escândalo? Ela não dizia: “Eu estou a cumprir um momento excepcional e supremo da minha vida: cuido a minha alma, expurgo dela o que é terra, alimento-a na oração.” Não. Acontecia-lhe rezar, porque isso era uma inevitável função humana.”

 

A Sibila é, sem dúvida, uma obra profundamente marcada pela pergunta religiosa e metafísica. O seu fio condutor é um impulso inconformado de aspirações que arrasta a Humanidade na sua História. Há a mesquinhez nas relações humanas, a vaidade do poder e a sua busca ridícula, a pequenez estúpida, mas o que a todos une é querer compreender o que somos, e o que nos move, numa existência sempre ambígua, de grandezas e de cobardias, é uma transcendência inalcançada, mas sempre esperada.

 

“Sim, Quina foi apenas mais um punhado obscuro de aspirações que só despontaram ou mal floriram. É esta a mais grandiosa história dos homens (...). Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio, vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos, ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol, para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.”

 

“Eis Quina, exemplo de energias humanas que entre si se devoraram e se deram a vida. Vaidade e magnífico conteúdo espiritual foram os seus pólos; equilibrando-se entre eles, percorreu um extremo e outro da terra, venceu e foi vencida, sem que, porém, as suas aspirações mais inquietantes deixassem de ser, no seu íntimo, as mesmas formas incompletas, chave da transfiguração que os homens eternamente tentam moldar e se legam de mão em mão, como um segredo e como uma dúvida.”

 

E agora é Germa, que continua o esforço para realizar e compreender o ser humano e nos representa a todos. “Eis Germa, eis a sua vez agora e o tempo de traduzir a voz da sua sibila. Talvez, porém, o seu tempo seja improdutivo e nefasto, e ela fique de facto silenciosa, porque — quem é ela para ser um pouco mais do que Quina e esperar que os tempos novos sejam mais aptos a esclarecer o homem e a trazer-lhe a solução de si próprio? Talvez a sua história fique hermeticamente fechada no círculo de aspirações que não conseguiu detalhar e cumprir, porque aconteceu ser cedo ou ser tarde, porque não se compreende ou não se crê o bastante, porque se deseja demasiado, e isto é todo o destino, porque... porque...”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 3 NOV 2019

TRÊS GRANDES FERIDAS DO NOSSO TEMPO

 

1. Todas as épocas têm as suas características, as suas vantagens e os seus perigos e ameaças. O nosso tempo sofre de três grandes feridas que nos levam à inquietação e à incerteza, contribuindo para a solidão, não a solidão habitada, necessária para estar consigo e com os outros na profundidade, mas a solidão do abandono.

 

2. Essas feridas são, como explica José María Rodríguez Olaizola num belo livro, Bailar con la soledad, a que já aqui me referi e no qual me inspiro: a do amor, a da morte, a da fé.

 

2.1. A ferida do amor.

Hoje, vivemos num mundo no qual o amor na sua permanência se tornou efémero e inseguro. Quem diz hoje, de modo seguro: amor “para sempre”? Quando se olha para as estatísticas, não é antes o “enquanto durar” que está em vigor? Aconselhava-me há dias alguém, por ocasião da celebração dos 50 anos de casamento de uns amigos meus, a que presidi: por este andar, comece a celebrar os 10 anos, os 20 anos de casados das pessoas, porque isto das bodas de prata e de ouro, aos 25 e 50 anos, é cada vez mais raro e a acabar... Como é sabido, Portugal está na frente quanto à percentagem de divórcios (há um divórcio por hora em Portugal) e em Espanha os casamentos duram em média 16 anos...

 

Razões? Certamente, o aumento da esperança de vida é uma delas: o que antes eram 20 ou 30 anos de casamento agora poderão ser 50. Assim, porque não desfrutar de dois ou três casamentos mais? Por outro lado, numa cultura do descartável, da fuga ao sacrifico e à renúncia e do culto da superficialidade, o que fica é também a incapacidade do compromisso definitivo. Como escrevia uma jovem: “Queremos comprometer-nos um pouco, mas não cem por cento.” E o sociólogo Zygmunt Bauman, referindo-se ao “amor líquido”: Se estamos continuamente a deitar fora automóveis, computadores, telemóveis ainda em perfeito estado, para os trocarmos por novas versões melhoradas, “haverá porventura uma razão para que as relações de casal sejam uma excepção à regra?” Está aí o paradoxo, ouvi eu pessoalmente Bauman a dizer: Por um lado, na presente instabilidade, deseja-se profundamente um amor estável para toda a vida, mas isso é incompatível com a disponibilidade para a abertura a novas oportunidades que apareçam...

 

A pergunta é se as pessoas são mais felizes. O Papa Francisco, em A Alegria do Amor, fala de várias feridas do amor: o amor egoísta; a falta de tempo para o encontro, para o diálogo, para a escuta; a paternidade/maternidade egoísta ou negada; as expectativas demasiado altas, irrealistas e, consequentemente, defraudadas... O que daí se segue, citando o Sínodo sobre a Família: “Uma das maiores pobrezas da acultura actual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas e da fragilidade das relações.” Vale a pena bater-se por uma família estável, pois é esteio para uma vida feliz e é o melhor lugar para ter filhos e educá-los. A desestruturação da família é um dos perigos maiores para o nosso mundo.

 

2.2. A ferida da morte.

Muitas vezes tenho aqui sublinhado que uma característica essencial da nossa sociedade é a morte enquanto tabu. Disso não se fala. Não é de bom tom. Como aceitar falar da morte numa sociedade na qual o que se valoriza é o ter, o sucesso? Este é o paradoxo: por um lado, nada mais certo do que a morte; por outro, a sua ocultação. E aqui reside a pobreza da nossa sociedade: na obturação das perguntas essenciais e da verdade da vida, na tentação do auto-engano, perde-se a perspectiva da existência autêntica. Para ser o que é, vivendo na superficialidade, na corrupção, na vaidade oca e vazia, no esquecimento do essencial e do que verdadeiramente vale, esta sociedade tem de ignorar o pensamento da morte. De facto, confrontados com a morte, repentinamente tudo muda, as decisões são outras, porque aquilo que parecia decisivo aparece então a outra luz: banal e prescindível.

 

M. Rodríguez Olaizola refere uma experiência muito significativa. Pelo Natal de 2015, um conjunto de organizações quis fazer um estudo sobre percepções, prioridades e valores dos jovens madrilenos. Para isso, juntaram um grupo e foram perguntando, um a um, que prendas pensavam dar nesse Natal a uma pessoa muito significativa (na maioria dos casos, tinham indicado os pais). As respostas eram alegres, vulgares, mais ou menos originais. Mas, depois, seguia-se uma nova pergunta: E se soubesses que estas são as últimas prendas que vais oferecer, pois essa pessoa vai morrer, este é o último Natal que vais passar com ela? Aí, de repente, os rostos contraíam-se, o silêncio era todo, as palavras arrastavam-se, e as respostas surgiam cheias de profundidade, cuidado, emoção, intensidade. E a perspectiva do fim dava outra orientação às prendas, havia outra profundidade. Nesse cenário, as prendas estavam “carregadas de sentido, significado e ternura”. A consciência da morte dá outra sabedoria ao viver.

 

2.3. A ferida da fé.

Durante séculos, viveu-se no Ocidente numa sociedade crente. A fé era o que poderíamos dizer uma evidência social, de tal modo que o difícil era ser não crente, pois os não crentes eram estigmatizados e até perseguidos. Claro que havia o perigo de uma fé imposta, mas a cosmovisão comum era religiosa e, portanto, era mais fácil ser crente, aceitar a fé e praticá-la: as pessoas acreditavam, rezavam, celebravam naturalmente em conjunto.

 

Hoje, as coisas são diferentes, muito diferentes. A liberdade religiosa é — e ainda bem — um valor inquestionado. A fé e a religião estão submetidas à crítica, por vezes ácida, por parte da filosofia, da ciência e da opinião pública, também no contexto de um laicismo agressivo. As estatísticas mostram que a religião está em queda acentuada. Os valores são cada vez mais os da autonomia, do individualismo, do hedonismo, e talvez nunca como hoje se tenha afirmado tanto o valor desta vida terrena em contraposição com a vida eterna, desvalorizada. 

 

Como escrevia recentemente José Antonio Pagola, “depois de séculos de ‘imperialismo cristão’, os discípulos de Jesus têm de aprender a viver em minoria.” E o mais difícil é que, neste contexto, a própria fé pessoal dos crentes está submetida à ameaça de erosão. Porque é mais confrontada com dúvidas que podem ou querem apresentar-se com carácter científico: como acreditar na vida eterna, se a ciência não precisa do espírito para explicar o Homem?; onde está Deus, se o mundo se auto-explica?

 

Mais dramáticos serão os dilemas, as encruzilhadas e as perguntas que concretamente o mistério de um Deus silencioso coloca. Porque é que existe o mal? Perante o sofrimento cruel, a eterna pergunta: Porque é que Deus não intervém? Que amor é o seu, se é infinitamente bom e poderoso e nem sequer parece sensível ao sofrimento dos inocentes? A fé é hoje um combate mais duro, e, escreve J. M. Rodríguez Olaizola, “o crente tem que aprender a manter a sua fé um pouco contra a corrente. A eterna dúvida ou o abismo perante o silêncio de Deus é hoje um desafio enorme para os crentes, que vêem que outros parecem viver de modo estupendo sem necessidade de referir-se a nenhuma religião nem a nenhuma divindade.” Porque é que Deus não se manifesta de modo claro, parecendo, pelo contrário, por vezes, que nos abandona?

 

A situação não é cómoda, é muito mais exigente. Mas será preciso ver e aproveitar as suas vantagens, para despertar uma fé tantas vezes infantilizada e acomodada, inerte, numa Igreja que, aprisionada por um sistema clerical, corre o risco se tornar cada vez mais um museu de antiguidades. Caminharemos cada vez mais para uma Igreja de voluntários, na qual a fé convive com um combate  pessoal, numa entrega única e confiada ao mistério do Deus silencioso e salvador. Com razões e todas as consequências na vida, seguindo o exemplo de Jesus e rezando aquelas palavras do Evangelho: “Senhor, eu creio, aumenta a minha fé”. Neste processo, o crente autêntico concluirá e até talvez possa mostrar a outros que a fé é mais razoável do que não acreditar. E poderá ainda  aperceber-se de que Deus não é uma necessidade, mas “um luxo”, como me disse uma vez o grande teólogo Edward Schillebeeckx. Como uma rosa que se dá, sem porquê. Gratuitamente.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 OUT 2019

PROCURAR LONGE O QUE ESTÁ PERTO

 

1. Três estórias.

 

1.1. O grande filósofo Martin Buber, no seu livro Der Weg des Menschen (O caminho do Homem), retomou a estória de Eisik filho de Yékel, de Cracóvia.

 

Apesar da sua miséria, nunca deixou de confiar em Deus. Num sonho, foi-lhe ordenado que fosse a Praga “para procurar um tesouro debaixo da ponte que leva ao palácio real”. Quando o sonho se repetiu pela terceira vez, Eisik pôs-se a caminho de Praga, a pé. Mas não podia escavar no lugar indicado, porque a ponte era vigiada dia e noite pelas sentinelas. Voltava todas as manhãs, andando para trás e para a frente o dia todo. Por fim, o capitão da guarda, intrigado, aproximou-se amavelmente para se informar do que se passava, o que quereria Eisik: “tinha perdido alguma coisa ou estava à espera de alguém?” Aí, Eisik, dada a cordialidade do capitão, contou-lhe o seu sonho, e o capitão estoirou às gargalhadas: “E é para satisfazer um sonho que vieste de tão longe, gastando as solas no caminho? Ah! Ah! Meu velho, se fôssemos em sonhos, também eu deveria pôr-me a caminho por causa de um sonho que tive e ir a Cracóvia a casa de um judeu, um tal Eisik filho de Yékel, para procurar um tesouro debaixo do forno! Já viste? Nessa cidade, na qual metade dos judeus se chama Eisik e a outra Yékel, estou mesmo a ver-me a entrar, umas atrás das outras, nas casas todas!”

 

O capitão continuava a rir. Eisik inclinou-se numa saudação, voltou à sua casa em Cracóvia e desenterrou o tesouro que há tanto tempo o aguardava!

 

1.2. Também se conta que uma vez um peixinho muito jovem foi ter com outro peixinho, também jovem, para perguntar-lhe: “Onde é o oceano?”. Ele respondeu-lhe: “Também já fiz a mim mesmo a pergunta, mas não sei responder.” Foi então perguntar a um peixe mais velho, que soberanamente se movia no oceano: “Onde é o oceano? Ninguém me sabe responder.” E o mais velho: “Então tu nasceste no oceano, andas no oceano, vives no oceano e perguntas onde é o oceano?!”

 

1.3. A terceira estória é uma velha lenda hindu, retomada pelo teólogo Jean Vernette.

 

Houve um tempo em que todos os homens eram deuses, mas, tendo abusado da sua divindade, o senhor dos deuses, Brama, decidiu retirar-lhes o poder divino. O problema foi encontrar um lugar onde escondê-lo, de tal modo que fosse impossível o Homem reencontrá-lo. Os deuses menores foram convocados e aconselharam a meter a divindade do Homem na terra. Mas Brama respondeu que o Homem havia de escavar e encontrá-la. Então, lancemos a divindade ao mais profundo dos oceanos, replicaram os deuses. Mas Brama disse: “Não, pois, mais cedo ou mais tarde, o Homem há-de explorar os oceanos até às profundezas, encontrá-la-á e voltará com ela para a terra.” Os deuses menores não encontravam solução, concluindo: “Não sabemos onde escondê-la, já que não parece existir nem na terra nem no mar lugar que o Homem não possa um dia alcançar.” Então, Brama disse: “Eis o que faremos da divindade do Homem: vamos escondê-la no mais profundo dele mesmo, pois será o único lugar onde ele nem sequer pensará em procurar...”

 

E, desde então, como ensina o breve apólogo do Vedanta, o Homem deu a volta à terra, explorou, subiu, mergulhou e escavou... à procura — longe, muito longe dele —, à procura de algo que se encontra nele, no mais íntimo dele...

 

2. Agora, já não é uma estória, mas história. Cito o discurso célebre de São Paulo no Areópago. Em Atenas: “De pé, no meio do Areópago, Paulo disse então: ‘Atenienses, vejo que sois, em tudo, os mais religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido.’ Pois bem! Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio. O Deus que criou o mundo e tudo quanto nele se encontra. Ele, que é o Senhor do Céu e da Terra, não habita em santuários construídos pela mão do Homem nem é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, Ele, que a todos dá a vida. Que os homens procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo, mesmo tacteando, embora não se encontre longe de cada um de nós. É nEle, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos, como também o disseram alguns dos vossos poetas: ‘Pois nós somos também da sua estirpe’.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 OUT 2019

SOBRE PESSOAS E ANIMAIS QUEM DECIDE?

 

1. Eu sei que o tema é hoje muito sensível e complexo. Já aqui escrevi várias vezes sobre ele, mas volto a ele, sobretudo porque penso que é fundamental ter conceitos claros, contra a confusão que quer impor-se neste e noutros domínios. Dentro da confusão, é fácil perder-se quanto ao essencial.

 

Dou exemplos de confusionismo. Contou-me uma pessoa amiga que, durante uma volta a pé, ouviu uma senhora aflita a chamar: “Anda à mãe, anda à mãe.” Até se afligiu, pensando que uma criança se tinha perdido. Afinal, era um cãozinho. Outra pessoa contou-me que viu na televisão uma senhora grávida num supermercado com o cãozito num carrinho e, à pergunta para quando o nascimento do bebé, disse a data prevista na qual o cão iria ter um irmão. Segundo o Expresso, André Silva declarou: “Há mais características humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma”. E já se pede um SNS para cães e gatos. E há jardins públicos infrequentáveis por crianças, tanta é a porcaria largada por cães, com os donos regalados a observar o alívio dos bichos. E tem havido ataques graves de cães e perturbações sem conta por outros animais que destroem colheitas inteiras, mas nada acontece...

 

A afirmação acima está na continuidade da de Peter Singer, professor da Universidade de Princeton, que escreveu em Ética Prática: “Devemos rejeitar a doutrina que coloca a vida dos membros da nossa espécie acima da vida dos membros de outras espécies. Alguns membros de outras espécies são pessoas; alguns membros da nossa não o são. De modo que matar um chimpanzé, por exemplo, é pior do que matar um ser humano que, devido a uma deficiência mental congénita, não é capaz nem pode vir a ser pessoa.” Quem faz estas afirmações fá-lo baseado em que a desigualdade de tratamento que damos às pessoas humanas e aos outros animais deriva do chamado especismo, que consiste na preferência que damos aos seres humanos sem qualquer outra razão que não a pertença a uma espécie, no caso, a espécie humana.

 

2. Oponho-me veementemente a esta tese, que é a tese animalista, uma das teses mais deletérias e ameaçadoras contra o humanismo. E estou à-vontade, por várias razões. Na universidade, sempre falei aos estudantes da Animal Liberation (Libertação animal), de Peter Singer, e há muito que defendi que se deveria encontrar, do ponto de vista jurídico, uma denominação para os animais, que não são coisas. Aliás, isso encontra-se também num livro que coordenei juntamente com Alexandre Manuel, Desafios à Igreja de Bento XVI, no qual o constitucionalista J. Gomes Canotilho perguntava se precisamente um desses desafios não era desenvolver uma ecologia em que “as diferenças entre ‘algo e alguém’ não remetam para o domínio das coisas a problemática humana dos outros seres vivos da Terra.” E sempre fui a favor do valor da vida, do cuidado a dar à Criação e de que aos animais é devido tratamento adequado, recusando sofrimentos cruéis e inúteis.

 

Para mim, de qualquer forma, há uma distinção entre a pessoa humana e os outros animais — e quando se fala em animais, é preciso distinguir entre animais e animais: não é a mesma coisa falar de cães e gatos e falar de pulgas, piolhos, carraças, percevejos, vespa asiática... e, por outros motivos, de leões, tigres, crocodilos, hipopótamos...—, distinção que é não só de grau ou quantitativa, mas essencial, qualitativa, ontológica. Bastará estar atento às diferenças, de que dou apenas exemplos. Neste tema como noutros, o problema é o fundamentalismo e a falta de racionalidade.

 

Como escreveu Edgar Morin, “embora muito próximo dos chamados chimpanzés e gorilas, tendo 98% de genes idênticos, o ser humano traz uma novidade à animalidade”. Há, apesar de tudo, entre etólogos e antropólogos, convergência bastante no reconhecimento de que entre o animal e o homem se deu um salto qualitativo essencial. Esse salto manifesta-se, em termos gerais, na autoconsciência (consciência de que se é consciente), na autoposse de si mesmo como único e centro de identidade, na linguagem simbólica e reflexiva, na capacidade de abstrair e formar conceitos, na transcendência em relação ao espaço e ao tempo, na criação e assunção de valores éticos e estéticos, no pré-saber da morte própria vinculada às crenças religiosas e à angústia frente ao nada, na pergunta pelo ser e pelo seu ser...

 

O homem  não se encontra na simples continuidade da vida no sentido biológico. Como escreveu Max Scheler, o homem é “o asceta da vida”, pois é capaz de dizer não aos impulsos instintivos, vendo aí o célebre biólogo F. J. Ayala “a base biológica da conduta moral da espécie humana, nota essencialmente específica dela”. Porque é capaz de renunciar, abster-se, deliberar, optar, o homem é um animal livre e moral.

 

Os outros animais também comunicam, mas o homem tem linguagem duplamente articulada.  Aristóteles viu bem, ao definir o homem como animal que tem lógos (razão e linguagem), e, assim, político: “Só o homem, entre os animais, possui fala. A voz é uma indicação da dor e do prazer; por isso, têm-na também os outros animais. Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente bem como o justo e o injusto. E isto é o próprio dos humanos frente aos outros animais: possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações. A participação comunitária nestas funda a casa familiar e a pólis.”

 

O Pensador, de Rodin, diz-nos bem o que é o ensimesmamento: entrada dentro de si próprio, descida à sua intimidade única, à subjectividade pessoal: o ser humano vem a si mesmo como único, tem a experiência de eu enquanto própria e exclusiva, face ao outro, que é outro eu, outro como eu, mas simultaneamente um eu que não sou eu: um eu outro impenetrável. Disse o famoso psicanalista Jacques Lacan: “Possuir um Eu na sua representação: este poder eleva o homem infinitamente acima de todos os outros seres vivos sobre a Terra. Por isso, é uma pessoa”. Sabe que sabe, é autoconsciente, consciente de ser consciente.

 

O homem é um ser inquieto, nunca satisfeito (satis-factus: feito suficientemente), acabado. Por isso, é o ser do transcendimento, como escreveu Pascal, ao dizer que o homem mora algures entre “le néant et l’infini” (o nada e o infinito), aberto ao Infinito, à Transcendência. É o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, chega a perguntar ao infinito pelo Infinito, isto é, por Deus. Neste sentido, é constitutivamente metafísico e religioso. E tem dignidade, é fim e não meio, como defendeu Immanuel Kant, pois há nele algo de infinito, precisamente esta sua capacidade e necessidade de perguntar pelo Infinito, pelo Fundamento e pelo Sentido último.

 

E há o riso e o sorriso, a contemplação e a criação de beleza (quando é que um animal vai compor uma sinfonia?), o amor de autodoação, erguer edifícios jurídicos com o estabelecimento da lei e da igualdade de todos perante a lei, a sepultura, a esperança...

 

E, no final de tudo, se estas notas características e capacidades específicas e outras não convencessem, há uma que é definitiva: nesta questão de saber se a distinção entre os humanos e os outros animais é meramente de grau ou, pelo contrário, qualitativa,  essencial, quem é convocado é o homem.  É ele e só ele que debate. Alguém se lembra de convocar uma assembleia de outros animais para dirimir a questão?

 

É preciso tomar consciência do perigo da indiferenciação e da ameaça da animalização da sociedade.

 

3. Há uma pergunta inevitável. E os membros da nossa espécie que não podem de facto exercer essas capacidades, como os deficientes mentais profundos? Estou com a filósofa Adela Cortina: “Isso não os torna membros de outras espécies, mas pessoas que é preciso ajudar para poderem viver ao máximo essas capacidades, o que só conseguirão numa comunidade humana que cuide deles e os promova na medida do possível.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 29 SET 2019

SOBRE A CAMPANHA ELEITORAL

 

1. É evidente que estou contente com o crescimento económico, com as notas positivas das agências de rating, com a diminuição do desemprego... Significa esse meu contentamento que participo da aparente euforia nacional sobre a situação do país? Não, infelizmente, não. E vou tentar explicar.

 

Com a dívida pública que temos, com o endividamento privado para o consumo, dentro do fascínio causado pela percepção de que a situação económico-financeira está como nunca, com a recessão que se anuncia para a economia mundial (a Alemanha estagna, estão aí a “guerra” comercial entre os Estados Unidos e a China, o Brexit, a instabilidade na Itália...), e dado que vivemos internamente mais de uma situação conjuntural favorável do que de investimentos sólidos para um desenvolvimento estrutural sustentável, receio que o país venha a confrontar-se com percalços inesperados.

 

Tenho a sensação de que a aparente euforia tenha na sua fonte um manto de mentira e ilusão que se foi abatendo sobre o país. Porventura acabou a austeridade? Veja-se o preço dos combustíveis, a carga de impostos e taxas e mais taxas, não sem sublinhar os impostos indirectos, que são os mais injustos porque cegos. E as famosas cativações? A saúde está bem? Quem é que o pode dizer e garantir com verdade? A educação está bem? Sinceramente, com louváveis excepções até de excelência, não creio: falo com professores, autênticos e dedicados profissionais, e dizem-me que não; pessoalmente, temo que, com alguns novos métodos já superados noutros países, o permanente experimentalismo e o imenso facilitismo reinante, entre outras coisas, estejamos a contribuir para o apagamento do  pensamento crítico e o que o escritor Pérez-Reverte denunciou recentemente: “nunca o ser humano foi tão estúpido como agora”; em relação aos professores, veja-se a instabilidade em que vivem: há antigos alunos meus da Faculdade que andam há anos de escola em escola, percorrendo o país de norte a sul, dificilmente podendo constituir família ou ter filhos, e  instala-se a desmotivação; no ensino superior, reconheço manchas de excelência também, mas não sei se está, no seu todo, a contribuir para que o nível de conhecimento real e crítico se mantenha, e é necessário apoiar harmonicamente tanto as ciências ditas exactas e as tecnologias como as ciências humanas, pois, sem ética e humanismo, para onde pode levar-nos o progresso tecnológico? E ainda: em vez de se acabar com as propinas para todos, atribua-se bolsas aos mais frágeis economicamente, mas capazes.

 

Ainda neste domínio da educação, seja-me permitido um reparo a um recente despacho ministerial. Conheço casos dramáticos de transexuais que passaram e passam por imenso sofrimento. Por isso, é preciso, na educação, preparar para o respeito de todos. No entanto, por causa da orientação sexual, não se pode cair na desorientação de todos. Com o bom senso dos professores, o conselho de médicos e atendendo aos direitos dos pais no que à educação dos filhos se refere, as escolas são capazes de encontrar soluções adequadas para casos concretos,  sem a necessidade de despachos eivados de ideologia que só podem levar à confusão universal. Quem está interessado nessas e outras confusões?  

 

2. Está aí a campanha para novas eleições. Impõe-se que os Partidos sejam claros em pontos essenciais nos programas e nos debates. Por exemplo:

 

2.1. Recentemente, a anterior procuradora-geral da República afirmou que o Estado está “capturado” por redes de corrupção e compadrio. Joana Marques Vidal lamentou concretamente: “Se nós pensarmos um pouco naquilo que são as redes de corrupção e de compadrio, nas áreas da contratação pública, que se espalham às vezes por vários organismos de vários ministérios, autarquias e serviços directos ou indirectos do Estado, infelizmente nós estamos sempre a verificar isso.” Muita gente tem denunciado esta situação como um cancro. Pergunta-se: que compromisso assumem os Partidos neste domínio gravíssimo?

 

2.2. Contra o contexto do manto de mentira que desceu sobre o país, os Partidos devem assumir claramente as promessas que fazem, com datas claras de cumprimento e com que verbas. Tudo claro. Deixem-se, por favor, de arruadas e argumentem com números, pois, se lhes explicarem, os portugueses perceberão e poderão assumir escolhas racionais. Não se pode é continuar com promessas e mais promessas, algumas repetidas ao longo de anos e nunca cumpridas. Por exemplo, o que se vai fazer pela ferrovia — meu Deus, como foi possível chegar à presente situação? Por favor, não façam promessas que sabem que não vão cumprir, porque não podem. Vão fazer o quê pelo interior? Os que falam disso sabem o que é o interior?

 

2.3. Ponto decisivo: esclareçam o que pretendem fazer em relação à justiça, não só em relação à justiça social — há muita miséria ainda no país, nada de ilusões —, mas à justiça-poder judicial, órgão de soberania, independente. A justiça continua lenta e, por isso, pouco eficaz, e, se se ler e ouvir a opinião pública: que foi atingida pelo véu de alguma desconfiança. Lembro o Presidente da República referindo-se, no passado 10 de Junho, às “falências na justiça”: Portugal não pode “minimizar cansaço, corrupções, falências na justiça.”

 

2.4. Neste contexto, a Banca. Uma catástrofe! Há anos que o Estado, isto é, os contribuintes, andam a pagar, a tapar buracos com milhares de milhões de euros, e não há consequências para as más administrações e os desvios?... Neste país, é necessário repor setenta cêntimos ao fisco — e eu acho bem —, mas desaparecem milhares de milhões de euros, e não acontece nada? E os responsáveis maiores chamados a juízo... tornaram-se entretanto amnésicos?! Os Partidos devem dizer o que se propõem fazer para acabar com esta falta de vergonha.

 

2.5. O que vão fazer para que haja transparência na política e com os políticos? Sinceramente, atendendo às suas responsabilidades, penso que os políticos são mal pagos e até pergunto: será essa uma das razões por que para as tarefas políticas a maior parte das vezes não vão os melhores e estamos cheios de incompetentes? Mas, por outro lado, verifico que imensa gente se bate por, como diz o povo, “ir para lá” — para onde? Para o poder. Há muita sedução pelo poder, pois ele é “o maior afrodisíaco” (Henry Kissinger dixit). Mas também deve haver muitos privilégios que moram para essas bandas. Que haja, portanto, transparência. É preciso acabar com o exemplo inacreditável de deputados que faltam descaradamente às sessões do Parlamento. E donde vêm tantas regalias e privilégios auto-concedidos? Já não há vergonha em Portugal? Leio que subvenções vitalícias para políticos custam milhões de euros (mais de seis milhões este ano), que extras quase duplicam o salário dos deputados (milhões só para cobrir as viagens para casa ou em trabalho político no seu círculo), para não falar no caso dos deputados insulares... E a maior parte dos deputados não morrerão de cansaço, a trabalhar no e para o Parlamento, como Macário Correia denunciou numa entrevista recente: “Metade dos deputados no Parlamento não fazem nada de concreto ou sequer útil, anda lá só a ocupar o tempo.” E ficam sempre aberturas para contactos presentes e sobretudo futuros, numa ligação in-transparente de política e negócios...

 

Aí está a razão por que já falei aqui uma vez de uma proposta, embora sabendo que é irrealizável: que os votos em branco formassem o “partido da cadeira vazia” no Parlamento. Sinceramente, não acredito que, tirando dignas e honrosas excepções, a maior parte dos candidatos andem por aí, na campanha, lutando por todos os meios para serem eleitos, porque querem realmente servir o bem comum. Lamentável, pois considero a política uma das actividades humanas mais nobres e, do ponto de vista cristão, uma das formas mais altas de amor, de amor social.

 

2.6. A actual Presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, entre muitos outros cargos políticos, foi também Ministra da Família. Há muito que admiro que na Alemanha haja um Ministério da Família. Dado o tsunami demográfico de Portugal, quero que os Partidos digam claramente o que se propõem fazer a favor da natalidade e da família.

 

2.7. Na campanha, os Partidos são obrigados a dizer claramente aos cidadãos quais são as suas posições sobre a eutanásia (e digam-no sem eufemismos, porque “morte medicamente assistida” todos querem, eu incluído), sobre se pensam em legalizar drogas com fins recreativos, se têm em mente alargar os prazos para o aborto legal, e qual é a sua posição sobre a gravidez de substituição (vulgarmente conhecida como “barrigas de aluguer”); a propósito: porque quiseram os deputados enfrentar o Tribunal Constitucional na recente lei, face à qual ao Presidente da República não restava outra alternativa que não fosse a fiscalização preventiva desse Tribunal? Não venham, por favor, mais tarde, já no Parlamento, com surpresas quanto a estas questões. Seria inqualificável em matérias tão delicadas.

 

2.8. Também estudei filosofia política e, portanto, tenho obrigação de saber que a política não é uma ciência exacta (se o fosse, entregava-se a simples tecnocratas), é uma ciência prática, dificílima, talvez sobretudo uma arte, a arte do possível, com muito de lúdico, de espectáculo, no bom sentido, que tem de jogar com interesses muitas vezes contraditórios, com a complexidade do humano e as suas paixões e, hoje, na complexidade de um mundo globalizado e cada vez mais interdependente, o que faz com que, também no quadro da democracia com prazos curtos de governação, a política fique atenazada: é necessário decidir rapidamente e para um tempo curto o que pode ter consequências dramáticas no tempo longo... Também por isso é essencial a racionalidade política em ordem ao bem comum, bem para lá dos interesses próprios e partidários. E a competência. Aqui, é necessário pensar sempre mais longe e determinar um consenso mínimo nacional, com duração suficiente para a sua avaliação, sobre a educação, a justiça, a saúde, a segurança social. Numa hierarquia de valores, que anda muitas vezes, desgraçadamente, transtornada. Para evitar o sobressalto permanente. E com que geoestratégia?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 8 SET 2019

RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

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1. Não haja dúvidas. A religião, concretamente na Europa, também entre nós, está em queda. O número de agnósticos e ateus aumenta, para não falar na chamada “prática religiosa”, que desce a olhos vistos. O padre José Antonio Pagola escreveu recentemente um texto subordinado ao título: “Depois de séculos de ‘imperialismo cristão’, os discípulos de Jesus têm de aprender a viver em minoria.”

Significa isto o triunfo do materialismo crasso ou o que está em causa é mesmo a religião institucional, mas não a espiritualidade? O que é facto é que tenho encontrado cada vez mais grupos interessados na espiritualidade e no aprofundamento da vida interior. Multiplicam-se esses grupos e também a bibliografia sobre o tema. Por exemplo, com sucesso escreveu recentemente o teólogo Francesc Torralba uma obra: La interioridad habitada, onde se pode ler: “A educação da interioridade não é, em caso algum, um luxo nem uma questão menor, pois tem como objectivo final o cuidar de si mesmo, e, para isso, desenvolver todas as potencialidades latentes no ser humano, como a memória, a imaginação, a vontade, a inteligência e a emotividade, mas também o fundo último do seu ser: a espiritualidade, admitindo que esta pode adquirir formas, expressões e modos muito diversos em virtude dos contextos educativos e dos momentos históricos. No modelo da interioridade habitada reconhecem-se dois magistérios: o exercício do mestre humano que fala e actua a partir de fora e o do Mestre interior que habita lá no íntimo.”

 

2. Hoje, quero referir-me concretamente a Pablo D’Ors, padre e escritor. Numa recente entrevista a José Manuel Vidal, Director de Religión Digital, disse: “As formas tradicionais da Igreja não respondem à sensibilidade e à linguagem contemporâneas”. Numa outra entrevista, a “La Razón”, declarou: “Boa parte do descrédito da Igreja deve-se a ela sucumbir ao ritualismo”. Pablo D’Ors publicou um livro célebre do qual se venderam já mais de 150.000 exemplares, com o título Biografia do Silêncio. E é o fundador da associação “Amigos do Deserto”, que conta com uma rede de meditadores com mais de 500 membros, porque, como afirmou: “Há uma ânsia espiritual muito grande nesta sociedade secularizada.” Deixo aí, a partir destas duas entrevistas, pensamentos que julgo ser urgente meditar.

Porque é que o livro teve tanto sucesso? “Uma das razões do êxito é precisamente a sua oportunidade. Surgiu num momento em que aumentava claramente o interesse pela meditação. O seu prestígio construiu-se sobre o desprestígio da religião. O facto de muitas pessoas terem abandonado as formas religiosas não quer dizer que a sua sede espiritual esteja saciada ou se tenha anulado. Persiste e é preciso procurar novas formas de alimentá-la. A meditação é uma delas. Costumo dizer que a religião é o copo e a espiritualidade é o vinho, e o que nos sacia verdadeiramente é o vinho. A religião tem de estar ao serviço de suscitar a experiência espiritual, e nós, os cristãos, contentámo-nos com o copo. As formas, para ir ao fundo da questão, deixaram de ser formas para o conteúdo e encerraram-se em si mesmas. O mal não está no rito, mas no ritualismo. As pessoas não sentem que isso as alimente. A isto junta-se que a linguagem tanto verbal como gestual do cristianismo não responde à sensibilidade nem à cultura contemporâneas.” Não podemos esquecer que tão importantes como o património que recebemos, o Evangelho, são o homem e a mulher de hoje. Por isso, “a nossa fidelidade não é só ao Evangelho, é a este homem e a esta mulher de hoje. Se estivermos longe deles, dificilmente entramos em relação.” Impõe-se que se perceba que “as formas têm que estar ao serviço do fundo, e muitas vezes as formas perdem-nos, pois ficamos no formalismo e privamo-nos de ir ao núcleo da questão. Qual é a urgência fundamental para a Igreja de hoje? Uma renovação espiritual; que estejamos verdadeiramente no nosso centro.”

Para Pablo D’Ors, o silenciamento interior é uma necessidade de primeira ordem. “A meditação é uma prática de silenciamento e quietude. É um trabalho que se faz com o corpo e com a mente e cujo propósito fundamental é o autoconhecimento.” Quando muitas coisas exteriores se foram afundando, ele descobriu a aventura interior, que é um processo de higiene da mente e do coração: “Normalmente temos uma grande confusão intelectual e sentimental. Criámos uma cultura da exterioridade, representada fundamentalmente pelo telemóvel. Quanto maior conexão fora, menor conexão dentro. Perde-se a dimensão interior, porque a nossa cultura nos impulsiona e estimula para estar sempre fora.” Então, nas crises existenciais, as pessoas ficam desamparadas por dentro, pois nem sequer sabem se há “um dentro”. Por isso, “boa parte do êxito de muitas escolas de meditação radica nesta busca. Hoje, não falamos tanto de espiritualidade como de interioridade, que é o modo laico de dizer o mesmo.” 

Precisamos de arrumar o nosso interior, para que haja mais espaço, pois, desse modo, distinguimos melhor. É como quando numa casa repleta de coisas começas a tirar o não necessário e começas a ver. Daí surge, paradoxalmente, o segundo fruto: a humildade. “Saber quem és, ter uma visão realista de ti mesmo, essa humildade, esse saber qual é o teu lugar, isso é o que te dá a paz interior.”

Pergunta-se se não há o perigo de estas correntes de espiritualidade serem um pouco individualistas, egocêntricas, ignorando a transformação do mundo. Responde: “Creio que a meditação autêntica não se afasta de Deus. Mesmo que isso se não verbalize de maneira explícita. Quem verdadeiramente se conhece a si mesmo, mais cedo ou mais tarde, aponta para o mistério. Esse mistério poderá chamá-lo Deus ou não, mas Ele está lá. Em ti gerou-se uma atitude espiritual.” Quanto à denúncia e ao compromisso com a mudança das estruturas: Sim, há o perigo de grupos espirituais caírem num espiritualismo desencarnado, mas a questão é de prioridades: “A justiça social, a denúncia, tudo isso, vem por acréscimo, é o fruto de estarmos centrados. Primeiro, vamos transformando a nossa própria vida. A oração, o nosso próprio espírito transforma-nos e, simultaneamente, vai transformando a vida à nossa volta, a vida familiar, a vida social, a vida do bairro. A vida da Nação.”

Deve-se prescindir das religiões? De modo algum. “O ‘mindfulness’ não é puramente laico, mesmo que os termos e as práticas se apresentem numa linguagem puramente secular. Isto é o que, modestamente, os “Amigos do Deserto” e eu queremos fazer com o cristianismo. Que seja uma tradução secular, para o mundo de hoje, da mensagem cristã. Para o Ocidente, a figura de Cristo é muito mais próxima do que a de Buda, e por isso o salto cultural que é preciso dar para ser meditador cristão é muito menor. Julgo que prescindir das religiões é um suicídio, porque isso significaria prescindir do nosso passado. Ora, quem prescinde do seu passado não sabe qual é o seu presente.” Não, não há o perigo de obsessão pelo “aqui e agora”. Porque “o sublinhado no presente não deveria fazer-nos perder de vista a importância do passado e do futuro. Recordar é passar a história pelo coração e ajuda-nos a compreender quem somos. Uma árvore sem raiz não se aguenta, o passado é a nossa raiz e é preciso cuidar dela. O mesmo digo do futuro. O homem não é sem projecção e projecto de si. A espiritualidade cristã sempre sublinhou o futuro, o horizonte, e a budista, o presente. Penso que estamos num tempo de síntese.”

A propósito, como se relacionam em Pablo D’Ors “o ego do escritor e o ‘não-ego’ do meditador?” “Devo dizer que para mim silêncio e palavra são duas faces da mesma moeda. O segredo da palavra é o silêncio e o do silêncio, a palavra. Uma palavra nasce matinal no coração do leitor na medida em que foi preparada no silêncio. Para que a palavra seja fecunda, tem de nascer do silêncio. Com o tempo, fui descobrindo que a minha dupla vocação, sacerdotal e literária, é a mesma.”

Então, não existe realmente o perigo maior, que consiste em ficar encerrado em si mesmo, no egocentrismo? “O ego (o eu), que não é outra coisa senão a tendência para auto-afirmar-se, é necessário para viver. Não se trata de matar o ego, mas de colocá-lo no seu lugar.” Por isso, quanto a escutar-se a si mesmo ou escutar o outro, “é como perguntar o que é que é mais complicado: amar-se a si mesmo ou aos outros. É exactamente a mesma coisa. Por isso digo que a meditação é uma escola de escuta. Se aprenderes a escutar-te a ti mesmo poderás escutar os outros. Ninguém pode dar o que não tem.” Quanto ao egocentrismo: “Eu vejo-me agora a mim mesmo menos egocêntrico do que há uns anos. Mais magnânimo, com a alma maior. O critério para verificar que um caminho de meditação é autêntico é se te torna mais compassivo, mais justo e caritativo. Se o outro tem um papel mais importante na tua vida. A meditação corre o risco de perverter-te, se esquece a dimensão transcendente e se fica pela busca utilitarista de benefícios pessoais.”

O jornalista: “Chama-me a atenção que diga que é mais importante ser si mesmo do que alguém ‘bom’.” Pablo D’Ors: “Refiro-me a que o essencial é o indicativo da graça e não o imperativo moral. O decisivo para a construção de uma pessoa é experienciar o que é, e, na medida em que o fizer, comportar-se-á de uma maneira ou outra. Não temos de estar tão preocupados em ser bons, pela dimensão moral, como pela metafísica do ser. Sermos quem estamos chamados a ser. Se o formos, se na verdade fores tu, serás bom.” Objecção: “Haverá gente que seja ela mesma e seja egoísta.” Resposta: “Isso baseia-se numa visão do mundo, que é a minha, segundo a qual a luta entre a luz e a sombra não é paritária. O que há fundamentalmente é luz. Este ponto de partida não é subjectivo, é contrastável. Por exemplo, se contares quantos comboios descarrilaram hoje no mundo e quantos chegaram ao destino verás que a imensa maioria chegou bem. Se fizermos o mesmo com tudo, vemos que o bem é significativamente mais. O que acontece é que os meios de comunicação social fazem-nos crer que o que existe é o mal, quando é o contrário. É como o céu e as nuvens: as nuvens podem tapar o céu, mas o que na realidade há é um céu. Estamos bem feitos.” Neste contexto, sobre a sua vocação: “Aos 18 anos. É como quando alguém se enamora e sabe que é a pessoa adequada quando a conhece. Foi uma experiência de encontro com o mistério, com a graça de Jesus Cristo. É uma sedução, um fascínio, um sentir que é o eixo vertebrador da tua vida, que lhe dá sentido, força. Foi a experiência do entusiasmo. Estar habitado pelos deuses, pelo espírito. A experiência de que havia algo substancial que tudo sustenta. Dessa experiência, a mais decisiva da minha vida, nunca duvidei.”

Qual é então o sentido da vida? “Redimir o mundo. Colocar luz onde há trevas, amor onde há desamor, esperança onde há inesperança e desespero, claridade na dúvida. Na medida em que fizermos isso, estamos bem e semeamos o bem.

 

3. Está aí, bem à vista, a chave para entender a crise da religião e perceber a conversão de que a Igreja urgentemente precisa para ser o que Jesus quer. Ele passava noites na montanha a rezar e fez a experiência inexcedível do mistério de Deus como Abbá, Papá, querida Mamã. A consequência: amou a todos, por palavras e obras, a começar por aqueles e aquelas que ninguém ama, porque Deus é o sentido último da existência, não caminhamos para o nada, porque Deus é Amor. Tomás Muro disse-o, numa síntese perfeita: “O fundamento da religião é o medo. O fundamento do cristianismo é o amor”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 25 AGO 2019

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não sei ainda explicar por que deixei a tua companhia ou, melhor dizendo, porque deixei de te levar a companhia das minhas cartas. É certo que a morte sucessiva de vários e queridos amigos - e, sobretudo, a do meu último irmão, o Gaëtan - me abalou e destruiu paredes cujo convívio, à minha volta, me protegia. Assim fiquei, não sei se entre ruínas ou se apenas só e perdido num deserto que desconhecia. Mas até os desertos - ou eles mesmos mais ainda - abrigam, na aparente e infinita desolação, oásis onde renascem e desabrocham as flores de muitas amizades. E têm sido muitas as que carinhosamente me acolhem e dão sustento, sempre mais presentes e prontas na vida real do que miragens que, por aí, se lançam aos ventos. Muitas vezes pensossinto comigo que nunca perderei essa forma temporal e terrena da esperança, que creio ser a confiança visceral no valor divino do humano, enquanto for conseguindo enxergar tantos bons samaritanos pelos caminhos das nossas vidas.

 

   São esses santos, sempre, hierofanias, manifestações do sagrado, da presença de Deus connosco no quotidiano. Jesus diria que só gente de pouca fé pedirá outros sinais, milagres e aparições, ou mais ainda, por uma qualquer eficácia de gestos mágicos sacrificiais. Mas só o amor do próximo é como um raio do divino em qualquer coração da humanidade. Li hoje (17/9/19), no jornal em linha Sete Margens, um texto de Sara Jona Laisse, docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica (Moçambique), intitulado "Albino não morre, só desparece"E se fôssemos "bons samaritanos"?:

 

   ... Amar o próximo é um mandamento em qualquer tradição do mundo. Já o referi, neste espaço, quando comparei os mandamentos da "lei de Deus", de tradição católica, aos mandamentos da cultura e religião bantu, e acredito que nenhuma religião no mundo nos mande o contrário. Haverá, certamente, em cada canto deste mundo, um convite a sermos bons samaritanos.

 

   São Leão Magno, o Papa que enfrentou Átila, o Huno, diz, de modo muitíssimo melhor do que eu, o essencial dos meus textos intitulados COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS, já publicados no bloque do Centro Nacional de Cultura - e que também te enviarei, a ti e a mutos amigos - nos trechos do seu Sermão XII e da sua Carta XXVIII a Flaviano, aqui transcritos:

 

   É indubitável, caríssimos, que o Filho de Deus se uniu à natureza humana tão intimamente que não só nesse homem, que é o Primogénito de toda a criatura, mas também em todos os seus santos, está o mesmo Cristo. E como a Cabeça se não pode separar dos membros, também os membros se não podem separar da Cabeça.  

 

   E se é certo que não é próprio desta vida, mas da eterna, que Deus seja tudo em todos, também é verdade que, já desde agora, Ele habita inseparavelmente no seu templo, que é a Igreja, segundo a sua promessa: Eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos.

 

   Portanto, tudo o que o Filho de Deus fez e ensinou para a reconciliação do mundo, podemos reconhecê-lo não só na história do passado, mas senti-lo também na eficácia do que ele opera no presente.

 

... A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela eternidade. Para saldar a dívida da nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à nossa natureza passível, a fim de que, como convinha para nosso remédio, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, pudesse ser submetido à morte como homem e dela estivesse imune como Deus.

 

   Numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na sua humanidade. Por «nossa humanidade» queremos dizer a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que Ele assumiu para a renovar.

 

   E se, seja qual for a nossa religião, ou mesmo nenhuma, soubermos ouvir esse apelo do amor de Deus que atravessa a nossa humanidade, a de todos nós, não será só ela a renovar-se, mas toda a face da terra... O meu irmão Gaëtan será, como tanta outra gente que, por aí, vai aprendendo a olhar-se e aos outros, um exemplo de que o amor do próximo, ou seja, a atenção aos outros, não nos nega, não nos esconde, antes nos projeta e põe no nosso lugar: na «nossa humanidade», nessa natureza que o Criador desde o início formou em nós...

 

   Tal «natureza» que, de si mesmo, tão bem - e sempre tão perscrutadora e interrogativamente - foi desenhando nos seus autorretratos, procurou também, quiçá se como comunhão eucarística, nos rostos humanos que encontrava, ao longo de muitos anos, nas ceias de Natal com sem-abrigo, que servia e partilhava, de preferência a sentar-se à mesa mais rica (?) de familiares e amigos. Talvez lembrado do que Jesus dizia sobre quem era a sua família... Nunca lhe perguntei porquê. Hoje, quando já não posso ouvir qualquer resposta da sua boca, talvez escute, num murmúrio da alma, minha Princesa de mim, a história antiga de que ser humano é andar peregrinamente à procura.

 

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS – II

   

  Nicole Lemaître é professora de História Moderna na Universidade de Paris I-Panthéon-Sorbonne e, ainda, docente no Institut Catholique de Paris. Como comentário e aditamento ao meu texto anterior - cujo título e tema este agora presente retoma - traduzo passos do que ela escreveu sobre o tema do Padre. Será longa a citação, mas os trechos seguintes certamente nos ajudarão a ter uma visão mais abrangente da temática e problemática do sacerdócio na Igreja:

 

  O padre torna-se celibatário e modelo de cristão a partir do século XI. Toda uma defesa ideológica da sua perfeição pessoal acompanha periodicamente tal ser posto à parte, particularmente nos séculos XVI e XVII, quando a figura do padre se constrói por oposição aos pastores cismáticos e, posteriormente, entre 1800 e 1950, na peomoção eclesial duma sociedade perfeita. Mas no primeiro milénio as coisas não eram assim tão claras. Na origem, o enquadramento das comunidades era assegurado por ministros diversos, e o ministro encarregado dos serviços materiais e da assistência (diácono), servidor de todos, exercia um verdadeiro apostolado, e em caso algum era um «separado». Mas as primeiras comunidades também são hierárquicas: têm anciãos (presbíteros) à cabeça. São eles que guardam cada igreja e têm por missão apascentar o rebanho de Deus. Passadas as primeiras gerações, uma hierarquia a três filas é instalada: um bispo (epíscopo), pastor e presidente da comunidade, rodeado de presbíteros que os diáconos assistem. Mas não é necessário passar por todas essas etapas - São Cipriano tornou-se bispo sem nunca ter sido padre nem diácono: na verdade, o ministério põe-nos a todos ao serviço do sacerdócio de Cristo e, enquanto sucessores dos apóstolos, a todos qualifica para serem intendentes de Deus. Embora recebam a imposição das mãos, prosseguem todavia a sua vida normal, casam-se e exercem um ofício.

 

   Não é meu propósito comentar sequer aquela instituição de "separado" ou "posto à parte" que, por outras palavras, se pode dizer "sectário". Ou ainda, no seio da mesma sociedade, "pertencente a uma casta". Todos poderemos entender como, em sociedades maioritária ou crescentemente cristãs, que procuram reorganizar-se depois da queda do Império Romano, e no advento de um mundo de senhores feudais, se pretendesse assegurar a independência das comunidades e autoridades religiosas pela invocação de inspirações, princípios e normas que acentuassem o carácter eminentemente religioso e divino dos mandatos das autoridades eclesiásticas em circunstâncias fás ou nefas, como, em contextos bem diferentes, diria o Embaixador Franco Nogueira. Na preocupação com o reforço do poder espiritual ou eclesial face ao político, numa cristandade que evolui em tempos e modos novos, a maior legitimidade divina do primeiro é princípio que conveniente e evidentemente se impõe, até como justificação da sua independência própria. Assim, a afirmação de um estatuto sacerdotal distinto e marcado será fator de existência política. A par dos ritos de iniciação e ordenação, dos sinais sacramentais e paramentais desenvolvidos, a exigência do celibato (não simplesmente da castidade, que é coisa também própria das relações matrimoniais) torna-se constitutiva da pessoa e da classe sacerdotal.

 

   Paralelamente se irá desenvolvendo uma espiritualidade condizente, acentuadamente induzida pela ideia de vida consagrada ao serviço exclusivo das coisas de Deus. Tal sentido de serviço da caridade, incarnada em vidas como as do santo cura d’Ars - e tantas outras, ao longo de séculos e hoje ainda - ou em ficções tão profundamente inspiradas e tocantes, como Le Journal d´un Curé de Campagne, do Georges Bernanos, para falarmos só de casos de padres inseridos no drama das vidas quotidianas da gente comum (que todos nós somos), tal sentido do serviço evangélico e fraterno foi sendo a boia de salvação de uma Igreja que o clericalismo teimou entregar nas mãos da vaidade temporal e do autoritarismo soez. Recentemente, a canonização de frei Bartolomeu dos Mártires, o arcebispo peregrino das serranias nortenhas e suas gentes perdidas num Portugal esquecido, aviva-nos a memória da consciência cristã.

 

   Mas todas essas espirituais exceções também nos convidam a repensar as regras de que se distinguiram. Fica para outra conversa.

 

Camilo Martins de Oliveira

COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS

   

   O título deste texto é a tradução literal do que a professora da Sorbonne Marie-Françoise Baslez deu ao seu último livro, editado este ano pela Tallandier: Comment les Chrétiens sont devenus Catholiques (1er-5ème siècle), obra cuja leitura recomendo a quem se disponha a refletir, em tempos interrogadores, sobre o nascimento e o(s) desenvolvimento(s) da Igreja Católica e a consciência da sua identidade própria. A história, isto é, a vivência do cristianismo inicial descobre-se fundamentalmente nos escritos do Novo Testamento que constituem os textos das epístolas apostólicas e dessa crónica coeva a que chamamos Atos dos Apóstolos, existindo ainda outros testemunhos na correspondência trocada e conservada pelas várias igrejas ou assembleias daquele tempo, bem como nos registos de documentos administrativos e cronistas exteriores às comunidades cristãs. Muito de todo este acervo foi redigido em cima dos acontecimentos e em virtude deles, sendo, aliás, anterior à redação dos Evangelhos (canónicos e apócrifos) que são sobretudo memórias da vida e dos ensinamentos de Jesus, guardadas e transmitidas pelas tradições de diferentes pregões e movimentos do apostolado e das igrejas consequentes à mobilização do Pentecostes.

 

   Por mim, entusiasmo-me sempre com essas narrativas de uma vida espiritual e religiosa que é essencialmente social, comunitária, contos velhinhos da juventude do abraço de Deus à reunião dos homens no amor, pela intercessão redentora de Jesus e o sopro incessante e livre do Espírito Santo. Aí encontro uma porta aberta sobre o mistério criador do cristianismo - que não é uma doutrina, nem ideologia, nem qualquer código, mas uma mensagem apenas: amai-vos uns aos outros como Deus vos amou e ama, para que seja completa a vossa alegria. Na verdade, peça-se à volta deste mundo, seja onde for, uma definição do amor e tal terá sempre um denominador comum: Amor é o que dá sentido à vida. Nada mais. É edificante observarmos como a Igreja cristã não surge como instituição divina, pré formada e organizada por Cristo, como tantas vezes alguns pretendem fazer-nos crer. E é lapidar a análise da Prof.ª Baslez:

 

   Os textos fundadores do Novo Testamento não puderam servir sozinhos para fundamentos teológicos de qualquer modelo organizacional que seria suficiente repetir, pois de modo algum se interessam pela questão das estruturas eclesiais. No princípio, não há doutrina, mas uma mensagem, um «evangelho» que comunidades recebem e meditam desenvolvendo uma consciência eclesial prévia a qualquer institucionalização. A primeira Igreja de Jerusalém, figuradora da Igreja Universal e projetora da Jerusalém celeste está definida nos Actos dos Apóstolos como «comunidade do múltiplo» (plethos), sem mais nenhuma referência estruturante além da lei da maioria.

 

   Foram as assembleias das Igrejas o berço das Escrituras. Os relatos de batismos e de refeições circulavam, como demonstra Paulo quanto à «refeição do Senhor», em texto bem anterior aos evangelhos. [Cf. Coríntios I, 11, 23-25: Pois eu recebi do Senhor o que também vos ofereci: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão e, tendo dado graças partiu-o e disse : «Isto é o meu corpo que é para vós; isto fazei para a minha memória.» Do mesmo modo, também o cálice tomou depois da ceia, dizendo: «Este cálice é a nova aliança no meu sangue; isto fazei - quantas vezes o beberdes - para a minha memória.» Pois quantas vezes comerdes este pão e beberdes este cálice, a morte do Senhor anunciais, até que ele venha. Tradução do trecho paulino por Frederico Lourenço.]

 

   Naquele tempo, era comum, na diáspora judaica, as comunidades ou sinagogas reunirem-se, para a celebração de festas ou em dias de preceito, numa casa escolhida para o efeito, e juntarem aos ritos religiosos a participação dos fiéis num repasto comum. Tal prática, aliás, também se realizava entre outras assembleias, designadamente nas cristãs, onde a ação de graças, ou eucaristia, se fazia como memória da Ceia do Senhor, atualização sacramental da Nova Aliança, isto é, da reconciliação de Deus com a humanidade inteira, com Cristo, por Cristo, em Cristo. A partilha do pão e do vinho entre todos e por todos significava assim substancialmente o sacrifício redentor de Jesus e a presença contínua do Senhor Ressuscitado entre nós: "Sempre que estiverdes reunidos em meu nome, eu estarei no meio de vós". A comunhão eucarística surge assim como união dos batizados no Corpo de Cristo, em ação de graças e como resposta efetiva à vocação da humanidade para a construção da nova terra e dos novos céus.

 

   Pela propensão obsessiva a defender o "Santíssimo Sacramento" como presença real do Corpo de Jesus, no sentido de um gesto de magia sagrada ter fisicamente transformado pão e vinho em carne e sangue, muita pregação eclesial e devota também vai encobrindo a realidade mística - realidade, sim, em sentido pleno - do Corpo de Deus como sacramento do sublime sacrifício de Cristo, pelo qual toda a humanidade se encontra reconciliada em Deus e com Deus. Os primeiros cristãos, aqueles que testemunhavam a Palavra e reproduziam os gestos do Senhor, celebravam a eucaristia como momento comunitário, não dispunham de sacerdote algum para consagrar o pão e o vinho, essa consagração fazia-se pela união dos batizados em torno da memória de Jesus Cristo. Aliás, por alguma razão, nos escritos neotestamentários, "sacerdote" é termo exclusivamente referido apenas ao Povo de Deus, jamais a alguém em particular. O conceito atualmente corrente de "sacerdote" data apenas do 2º milénio do cristianismo, surge na Idade Média e fixa-se, com o direito canónico, no século XII, quando se regulamenta que sacerdote é quem recebeu o sacramento da ordem e, por este, o poder divino, transmitido pela Igreja hierárquica, de batizar, abençoar, celebrar a eucaristia e perdoar os pecados. Tal estatuto foi gerando muitos e vários privilégios, desde as imunidades do foro eclesiástico à atribuição de funções e competências para as quais nem todo clero estava evidentemente preparado. Está aí a raiz histórica do clericalismo - mal ainda hoje viral na Igreja - que, todavia, não tem qualquer fundamentação teológica aceitável mas, muito pelo contrário, encontra nos próprios textos evangélicos palavras de repúdio e condenação por parte de Jesus.

 

    Não sei se estamos hoje no limiar de um novo período de avanço das comunidades cristãs para a catolicidade, mas o dinamismo atual dos movimentos ecuménicos, bem como sinais de abertura e progresso por parte de vários sectores da hierarquia eclesial, deixam-me esperar que sim. Vejamos a notícia da eleição do novo superior provincial dos frades capuchinhos de Mid America (EUA), um irmão leigo (isto é, sem ordens sacras, mas professo, ou seja, tendo já pronunciado os votos de obediência, pobreza e castidade exigidos pelo regulamento da Ordem dos Frades Menores). Eleito pela maioria absoluta dos seus irmãos em São Francisco de Assis (que tampouco era "sacerdote") viu a validação desse ato rejeitada pela Congregação da Santa Sé para os Religiosos, no Vaticano, com o fundamento de não ser ordenado, conforme exigido pelo artº 129-1 do Código de Direito Canónico: "Quem recebeu a ordem sagrada é capaz, segundo as normas do direito, do poder de governo que, por instituição divina, existe na Igreja, e que também é chamado poder de jurisdição". Mesmo que o pretensiosismo soez e desajeitado deste preceito canónico, nos faça sorrir, não deixa o mesmo de ser revelador da pobreza intelectual do clericalismo e seus defensores, com alguma confusão entre disposições canónicas e instituições divinas... Mas os capuchinhos americanos recorreram para o Papa, que anulou o veto e promulgou a eleição. É bom que se vá lembrando à Igreja como todos somos filhos de Deus através da fé em Jesus Cristo. Todos os que fomos batizados para Cristo estamos vestidos de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem pessoa livre, não há macho e fêmea: todos nós somos um em Cristo Jesus. Se nós somos de Cristo, então somos semente de Abraão e herdeiros segundo uma promessa (S. Paulo aos Gálatas, 3, 26-29). Assim, já não somos estrangeiros nem estranhos, mas concidadãos dos santos e pessoas da casa de Deus, edificados sobre a fundação dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a pedra angular, na qual todo o edifício, bem ajustado, aumenta de modo a tornar-se templo sagrado no Senhor, no qual também nós somos edificados para habitação de Deus em espírito (aos Efésios, 2, 19-22). A instituição eclesial é a comunhão de todos em Cristo, os ministérios eclesiais são desempenhos de serviços dessa comunhão e não conferem a quem os exerce qualquer estatuto distinto ou acima dos outros comungantes. E porque Cristo é tudo em todos, chamamos católica à sua Igreja.

 

Camilo Martins de Oliveira

DEUS SEM MUNDO, MUNDO SEM DEUS

 

1. Segundo um estudo da Universidade de St. Mary de Londres (2014-2016), em 12 países europeus, a maioria dos jovens entre os 16 e os 29 anos admitem que não são crentes e que nunca ou quase nunca vão à igreja ou rezam. A República Checa é o país menos religioso da Europa: 91% dos jovens confessam não ter qualquer filiação religiosa. Seguem-se a Estónia, a Suécia, os Países Baixos, onde essa percentagem dos sem religião fica entre os 70% e os 80%. Também noutros países se nota a queda rápida da religião: na França, são 64% a admitir não serem crentes, na Espanha, 55% declaram que não confessam qualquer religião. Frente a estes dados, o responsável pelo estudo, Stephen Bullivant, afirmou que “a religião está moribunda” na Europa.

 

Na Alemanha e em Portugal, a percentagem de não crentes desce para 45% e 42%, respectivamente. Entre os países mais religiosos, estão a Polónia, onde só 17% se confessam não crentes, seguindo-se a Lituânia com 25%.

 

Também a prática religiosa está em crise. Só na Polónia, Portugal e Irlanda mais de 10% dos inquiridos admitiram que iam à Missa pelo menos uma vez por semana. Mas no Reino Unido, França, Bélgica e Espanha, entre 56% e 60% disseram que nunca iam à igreja e entre 63% e 66% que nunca rezam. Logicamente, na República Checa, 70% afirmam nunca ter ido a uma celebração religiosa e 80% nunca rezam.

 

2. Onde se encontram as razões para esta situação que caminha para uma Europa pós-cristã? As explicações são múltiplas. Mas chamo a atenção para a observação que o grande teólogo Yves Congar, primeiro condenado e, mais tarde, feito cardeal, teve já em 1935: “A uma religião sem mundo sucedeu um mundo sem religião.”

 

Outro grande teólogo, Philippe Roqueplo, demonstrou essa ausência do mundo na reflexão teológica e, consequentemente, na vivência da vida cristã. Fê-la no famoso e monumental Dictionnaire de Théologie Catholique, elaborado entre 1903 e 1950, em 22 volumes. Ele constatou que nesse Dicionário, que deveria abarcar “todas as questões que interessam ao teólogo”, havia ausências de temas fundamentais para a existência humana. Assim, quando se procura Amizade, o termo não consta; Arte: um longo artigo sobre a arte cristã; Beleza: nada; Ciência: um longo artigo sobre ciência sagrada, ciência de Deus, ciência dos anjos e das almas separadas, ciência de Cristo, mas sobre a ciência como a entendemos, nada; Economia: nada; Emprego: nada; Família: nada; História: nada; Leigo e laicado: nada; Mal: vinte colunas; Mulher: nada; Pessoa: remete para hipóstase; Poder: um artigo com cento e três colunas sobre o poder do Papa na ordem temporal; Política: nada; Profano: nada; Profissão: um artigo sobre profissão de fé; Técnica: nada; Trabalho: nada; Vida: um artigo sobre a vida eterna...

 

3. Não há dúvida: Deus tem a ver com o sentido último e a salvação. Como escreveu L. Wittgenstein, um dos maiores filósofos do século XX, “crer num Deus quer dizer compreender a questão do sentido da vida, ver que os factos do mundo não são, portanto, tudo. Crer em Deus quer dizer que a vida tem um sentido.” Foi neste contexto que Nietzsche, sete anos antes de enlouquecer, escreveu a Ida, a mulher do amigo F. Overbeck, pedindo-lhe que não abandonasse a ideia de Deus: “Eu abandonei-a, não posso nem quero voltar atrás, desmorono-me continuamente, mas isso não me importa.” Numa longa entrevista concedida ao jornal Le Monde, em 2017, Edgar Morin, constatando que a Humanidade se sente perdida, afirmou: “O mito da Europa é débil. O mito da globalização feliz está em zero. O mito da euforia do transhumanismo só está presente entre os tecnocratas. Encontramo-nos num vazio histórico cheio de incertezas e de angústias. Só um projecto de via salvífica poderia ressuscitar uma esperança que não seja ilusão.”

 

4. A pergunta é: onde e como encontrar essa via de salvação? Todos, incluindo a Igreja, e a Igreja de modo especial, são convocados para encontrar a resposta a esta pergunta decisiva.

 

Sobre a marginalização da Igreja, concretamente na Europa, escrevia recentemente o teólogo José M. Castillo: “A sociedade ‘descristianiza-se’ a uma velocidade e até a níveis que impressionam quem, pela idade e pelas recordações de família, tem a sensação de estar a viver numa sociedade que, há umas décadas, não podia imaginar”. Mas, afinal, porquê?, qual a razão? Não está a Igreja a ser marginalizada, porque ela própria vive à margem? Castillo acrescenta: “Uma Igreja, que vive à margem da sociedade, é uma Igreja que se não relaciona com a ‘realidade’, mas que se relaciona com a ‘representação da realidade’, que a própria Igreja elabora para si, segundo os seus interesses e conveniência. Se a Igreja se situou na “margem” da vida e da sociedade, pretendemos, a partir de fora da sociedade, influenciá-la?” “Se a Igreja não pôde assinar e fazer sua a Declaração dos Direitos Humanos, com que autoridade e com que credibilidade pode falar de amor à humanidade?”

 

5. Pensando nas relações entre Deus e o mundo, o mundo e Deus, o aquém e o Além, se se não quiser mentir a si próprio nem aos outros, é inevitável virem à ideia estas palavras célebres de Immanuel Kant: “A praxis deve ser tal que não se possa pensar que não existe um Além.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 JUN 2019