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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Yasushi Inoue (1906-1991) do século  terá sido um dos mais populares romancistas japoneses do século XX, conhecido sobretudo pelas suas novelas históricas, muitas delas situadas nos tempos atribulados da reunificação do Japão nos anos de 1500/600. Em O Mestre do Chá (ou, no original, Honkaku Bo Ibun, isto é, O Diário de Honkaku Bo), debruça-se sobre o mistério do suicídio ritual de Mestre Rikyu, em obediência ao Taiko Toyotomi Hideyoshi. Na minha leitura de hoje, aí redescobri o poema que se afixara à vista dos participantes numa cerimónia do chá que Rikyu celebrara por ocasião da despedida para o exílio de outra personagem, uma tal condenada pelo Taiko. Traduzo:

 

               As folhas abandonam os ramos,
               o fim do Outono é frio e puro.
               Neste instante, os laureados
               saem do mosteiro zen:
               Parti para onde quiserdes
               e se descobrirdes um lugar deserto
               voltai depressa
               para nos confiardes
               o fundo do vosso coração.

 

   Por estes dias receosos de obscuro medo - que, afinal de contas, quiçá mais não sejam do que a recusa de vivermos com reconhecimento consciente de dúvidas, interrogações e temores, que nos vão povoando a tenebrosa, vaga e silente inconsciência em que teimamos justificar as distrações e drogas com que procuramos afastar fantasmas - sabe-me bem meditar nesses cinco versos que nos incitam a partir para onde quisermos e a confiar a outros, quando encontrarmos um lugar deserto, o fundo do nosso coração...

 

   Qualquer deserto tem, para nós, sobretudo uma existência imaginária, é a utopia  da nossa solidão. Esta - tê-lo hás também tu descoberto, Princesa de mim - será sempre, para qualquer um, mais um sentimento de si do que a sua própria condição.

 

   Muitas vezes, nestes dias de quarentena, dou comigo a pensarsentir como a ascese mística vai conduzindo quem a pratica à intimidade da presença do solitário absoluto, daquele cujo nome é Eu, o Eu sou Quem sou. Mestre Eckhart diz que Deus é - com exclusão de todo o não-ser, de qualquer carência. E tal como o mouro Avicena, diz ainda que Deus não tem outra essência para além da sua existência. É, pois, uma presença pura, essa a que se dá o nome de Ser. E imagina-o como uma efervescência, a esse Ser infinito que em si mesmo se move, fervura borbulhante ou parturiente, sempre fervente em si, e que em si se liquefaz e entra em ebulição: bullitio sive parturitio...   ...fervens...   ...in se fervens et in se ipso  et in se ipsum liquescens et bulliens...  

 

   Nestes dias em que vejo menos gente, converso menos, sinto-me, como tantos outros, tentado a comprazer-me no meu isolamento, como se encerrar-me fosse decisão minha e subitamente me tornasse senhor do meu ser em relação, como naquela canção do dentista cansado da amante e da família e sonha poder existir só em si, por si e para si: I, Me and Myself... E quiçá gostaria de me esquecer dessa pura presença do Ser Absoluto e sem carência, do Quem é tudo em todos.

 

Mas eis que essa presença ferve sempre, em mim e nos outros, lembra-me que só o encontro da relatividade de cada um de nós nos poderá, como quem abraça, conduzir ao Ser.

 

   E assim me pensossinto mais próximo de todos esses profissionais de saúde, de limpeza e higiene, de produção e distribuição de bens essenciais, de segurança e transporte, de organização e logística - que nos vão permitindo usufruir de um descanso relativo, que certamente lhes é negado pela necessidade e dever de serem, nestas horas difíceis, a parte de nós que está alerta e funcional.

 

   Assim se me torna claro o pensarsentir a alteridade, não como estranha, mas antes como minha, nossa de cada um. Diz bem frei Bento Domingues, no Público do passado domingo, dia 22, que a ética samaritana, sem qualquer invocação religiosa, obriga-nos a todos, ontem e hoje. O que significa que ninguém está dispensado de procurar aprender a descobrir novos modos de responder à pergunta fundamental da condição humana: em que posso e como posso ajudar? O pregador dominicano será, penso eu, uma das poucas vozes genuinamente evangélicas da Igreja portuguesa, cuja nomenclatura clerical continua com forte propensão a privilegiar a prática de rituais com fezadas milagrosas e a discursar em jeito meloso, banalizador e pretensiosamente poético, sobre benefícios "espirituais" de ensimesmamentos religiosos.

 

   Leio frei Bento: Este período de quarentena - a quaresma inesperada - não pode servir para criar em nós uma religião intimista, uma mística de olhos fechados para as carências múltiplas das pessoas, sobretudo das mais sofredoras e isoladas.

 

Na verdade, não nos devemos esquecer de que o período difícil que atravessamos será, quando confrontado com situações similares noutras épocas da história humana, menos aflitivo e angustiante. Desde já, não porque haja termo próximo ou cura imediata à vista, mas por que os meios técnicos e logísticos nos permitem e facultam, apesar do imprescindível isolamento, condições de proximidade, contacto e assistência, muito melhores. [Imaginemos ainda o que poderá acontecer nos casos de propagação da pandemia por áreas do mundo habitado em que as infraestruturas, a disponibilidade e acessibilidade de cuidados, não possam agora ser tão bem asseguradas].

 

   Saibamos pois aproveitar as graças de que beneficiamos por via dos aparelhos técnicos ao nosso dispor para sermos a presença do próximo junto dos que estão mais sós e abandonados. E que desses contactos, por telefone, "sms" ou correio eletrónico, nasça também uma consciência nova da nossa humanidade comum, que Quem fará fervilhar em novas ideias e iniciativas pela desejável justiça e paz do nosso mundo novo. Concordas, Princesa?

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CORONAVÍRUS COVID-19: SAÚDE, CIÊNCIA, RELIGIÃO, UM RETIRO

 

Ao contrário do que normalmente se pensa, não controlamos totalmente a nossa vida. Uma pequena prova disso está neste texto: eu tinha prometido continuar a crónica da semana passada, mas solicitaram-me um texto urgente sobre o coronavírus covid-19, adiando o prometido para mais tarde. E é o que vou tentar, com alguns apontamentos.

 

1. Para nós, vivendo na normalidade, tudo nos parece claro e evidente. Só quando perdemos algo ou estamos na ameaça de perdê-lo é que damos pela sua importância, que pode ser decisiva, essencial.

 

É o que acontece com a saúde. Haverá bem maior, mais importante do que a saúde? Reparo que em todas as línguas que conheço, quando as pessoas se encontram ou, sobretudo, se reencontram, se cumprimentam perguntando pela saúde: “Como estás?, Como vais?, Como tens passado?” E, na despedida: “Passa bem, cuida de ti e dos teus. Passai bem”. E “saudamo-nos” (saudar: vem do latim: salutem dare, dar saúde, desejar saúde) e temos “saudades”, com o mesmo étimo, e escrevemos a alguém, terminando: “Saudades”.

 

Vale!”: esta era a saudação romana, com o sentido de “passa bem”, e, por outra via, reencontramos de novo a saúde. É de “vale” que vem “valor e valores”. E qual é o valor da saúde?  Valor essencial, porque com saúde vamos para a vida e com esforço faremos algo, conquistaremos a nossa vida e a nossa realização com outros. Porque a saúde não é só física, implica também uma dimensão psicológica (se não me der bem comigo, sinto-me mal, sem saúde), a relação com o outro, dar-se bem com o outro (se eu só de ver alguém com quem não posso fico doente, é prova   de que não estou com boa saúde), uma boa relação com a natureza, uma relação boa com a transcendência...

 

E quando caímos doentes? Procuramos a ajuda de um clínico (palavra que vem do grego: klinein, com o sentido de inclinar-se para e sobre alguém que precisa de ajuda) ou junto de um médico (quem diria que moderação, meditação e medicina têm a mesma etimologia: mederi — a raiz é med: pensar, medir, julgar, tratar um doente —, que significa cuidar de, tratar, medicar, curar?) e vamos para uma clínica ou para um hospital, palavra que vem do latim: hospes, hospitis, com o significado de hóspede.

 

Agora que chegou esta calamidade global que estamos a viver, apercebemo-nos, de forma intensa e tenebrosa, do valor da saúde e, por outro lado, da nossa interdependência, positiva e negativa: somos iguais, podemos infectar-nos uns aos outros, temos de cuidar uns dos outros, apoiar-nos mutuamente de todos os modos, porque apenas colaborando todos, cada um à sua maneira e segundo as suas competências e possibilidades, venceremos esta guerra.

 

2. Quando era ainda muito jovem, esta estória bem conhecida impressionou-me em extremo. Mais ou menos assim: Havia um sábio modesto que ofereceu a um rei um tabuleiro de xadrez. O rei ficou tão exaltado que lhe pediu que dissesse como podia recompensá-lo. Perante a insistência do rei, o sábio apenas pediu que lhe desse 1 grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro e que fosse duplicando os grãos até concluir as 64 casas: 1 pela primeira, 2 pela segunda, 4 pela terceira, 8 pela quarta, 16 pela quinta e assim sucessivamente: 32, 64, 128, 256, 512, 1024... O rei achou o pedido modesto e os servos começaram a trazer sacos de trigo e, lentamente, os matemáticos do reino foram concluindo que o número era tão colossal que não havia trigo suficiente, mesmo socorrendo-se dos celeiros de reserva, para satisfazer o pedido.

 

Serve esta lenda para trazer um pouco de luz ao modo como o covid-19 estava e está a contaminar as populações do mundo inteiro. E era urgentíssimo tomar medidas drásticas para conter o pior. E foi o que fizeram e estão a fazer os governos, também o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o governo português, em colaboração de uns com os outros. É preciso ceder bens menores a favor do bem maior, a saúde e a vida. Sacrificamo-nos todos, com o sentido do bem comum. Sem alarmismos, mas com racionalidade e urgência.

 

E, entre nós, mesmo admitindo que houve e há medidas que chegaram e chegam tarde — e é sempre melhor, como diz a sabedoria ancestral, prevenir do que  remediar —, as coisas vão funcionando razoavelmente. As pessoas são prudentes, o pessoal sanitário trabalha incansavelmente e por vezes até com falta de meios — faço minhas as palavras do Papa Francisco aos médicos, enfermeiros, voluntários: “admiro-vos, ensinam-me como comprometer-me e agradeço-vos o testemunho; muitos não são crentes, outros são agnósticos ou levam uma vida de fé à sua maneira, mas no testemunho... vês a sua capacidade de ‘jogar’ a vida pelo outro, mesmo que entre eles haja mortos” —, o pessoal sanitário, sim, mas também todos quantos realizam o necessário para que a vida continue: há supermercados, há luz, há água, há farmácias, há transportes, há bombas de gasolina, há correio, há bancos, há teletrabalho, há bombeiros, há jornais, há notícias, há aulas online, há governo, há polícia... Ponho-me a pensar: é em circunstâncias como estas, quando há restrições, que a gente toma consciência do que é preciso e de quanta gente é necessária para que um país funcione, e os países, e o mundo humano todo... Normalmente, damos tudo por evidente.

 

Naturalmente, os cientistas investigam arduamente para encontrar uma vacina que estanque esta dor, esta tristeza e noite... Mas lá está a incerteza: Quando é que ela aparecerá? E quanto tempo vai durar esta calamidade até que possamos reencontrar-nos todos, vivos, numa  exaltação exultante, que ainda não tem nome? E a crise económica e social brutal a caminho?

 

3. Entretanto..., a vida, com todas as suas restrições e limitações, continua.

 

E a religião e a Igreja? Não se pode esquecer como Jesus se manifestou sempre preocupado, atento e cuidadoso com a saúde de todos e como curava. Assim, a favor da saúde e do bem comum, a Igreja, como não podia deixar de ser, suspendeu a celebração comunitária pública das Missas. Também no Vaticano, cujas praças estão desertas. E é em streaming que se vai celebrando e comunicando.

 

Que pode fazer mais? Vai depender também da imaginação criadora. O Papa Francisco já disse que, na falta de padres, os fiéis (a linguagem atraiçoa-nos sempre: cá está, como se os padres não fossem fiéis!...) se confessem “directamente” a Deus. E, numa entrevista ao La Stampa, procurou dar ânimo e esperança e, confiando que desta “guerra” da pandemia sairá uma sociedade melhor, pediu: “Não tenham medo!”. “Estamos todos a sofrer. Só poderemos sair desta situação juntos, como Humanidade inteira. Temos que pensar que será um pouco como depois de uma guerra. Já não estará ‘o outro’, mas, sim, estaremos ‘nós’”. A Penitenciária Apostólica decretou a “absolvição colectiva” para todos os doentes de coronavírus, os seus cuidadores e o pessoal sanitário. E eu pergunto: Se não fosse o carreirismo e o clericalismo em que os católicos foram formados, não poderiam as famílias, agora confinadas em casa, celebrar validamente a Eucaristia? “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estarei lá, no meio deles”, disse Jesus. E não é a família uma “Igreja doméstica”, como sempre se  afirmou, sobretudo no princípio do cristianismo?

 

É tarefa primeira da Igreja continuar a dar ânimo, esperança e confiança. Fé quer dizer isso: confiança. As paróquias deveriam pensar num atendimento telefónico, para escutar, consolar, dar ânimo... É preciso advertir que a solidão também mata. Agora, que até os funerais têm de ser reduzidos e rápidos, é missão pastoral dos seus agentes mais próximos a promessa e o compromisso de, quando tiverem passado estes tempos de incerteza e de trevas, se dar a possibilidade de um serviço fúnebre comunitário no qual as pessoas possam relembrar os seus mortos e despedir-se deles, desabafando, chorando juntos lágrimas de saudade uns com os outros, já sem a angústia tenebrosa do contágio...

 

Rezar? Claro. Francisco deu o exemplo, num gesto simbólico de fé e de solidariedade com todos: foi em peregrinação à igreja de São Marcelo em Roma, e é impressionante aquela imagem dele, sozinho, distanciado dos outros, numa rua praticamente deserta, para, diante do Crucifixo milagroso, pedir solidariamente por todos.

 

Milagres no sentido estrito, o que significa uma intervenção de Deus para suspender as leis da natureza, não há, porque isso implica ateísmo, já que supõe que Deus está fora do mundo e, de vez em quando, e a favor de uns e não de outros, vem dentro. Ora, Deus está sempre infinitamente presente à sua criação e a todos nós.  Por isso, só creio nos milagres do amor, o que significa que somos remetidos por Deus, como concriadores, para tudo fazermos, cuidando de nós, dos outros, da natureza e dEle em nós.  Mas podemos e devemos rezar a pedir a nós para termos essa força de cuidar. E também temos o direito de rezar, falando com Deus, desabafando, fazendo-lhe perguntas, protestando com Ele (a Bíblia diz que Deus louvou Job porque lhe fez perguntas e protestou com Ele porque estamos arrasados pela dor e, aparentemente, Ele não faz nada), confiando...

 

4. E no “retiro” forçado, no confinamento da casa? Finalmente temos tempo para o essencial. Andamos habitualmente tão longe de nós, à superfície, perdendo-nos numa “agitação paralisante e numa paralisia agitante”, para utilizar a expressão do célebre bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Encontramos agora tempo para estar connosco, para um novo reencontro de cada um, de cada uma consigo, indo ao mais fundo de nós e lá deparar com o Mistério, o Sagrado, e com o milagre de ser e de existir. Tempo para pensar nas perguntas essenciais. Não pertence também à sabedoria do viver aprender a conviver saudavelmente com a morte? O que é que verdadeiramente vale? O que é que esperamos? O quê ou quem nos espera?

 

Confinados e com carências, tomamos consciência de que, afinal, podemos viver com menos. O que é que mais falta nos faz? Não nos definimos pelo ter, mas pelo ser. Ah! E pensávamos ser omnipotentes e chegou um vírus invisível que nos apavora e nos pode matar, e percebemos então que precisamos da humildade como verdade. Ah! E somos iguais, pela negativa e pela positiva, como já ficou dito: podemos contagiar-nos uns aos outros — todos: presidentes, embaixadores, doutores, celebridades, gente anónima, analfabetos, ministros, bispos, ricos, pobres (estes, apesar de tudo, mais, porque têm menos possibilidades, por exemplo, como se resguardam os sem-abrigo?) estamos expostos — e também só todos juntos nos poderemos salvar, nestes tempos plúmbeos e de noite. E há uma só Humanidade, num mundo global: este coronavírus corre pelo mundo todo e percebemos que é imprescindível a solidariedade universal, se quisermos ter futuro. Agora e quando tiver passado este tempo angustiante de temores, incertezas e um imenso sofrimento físico e moral.

 

E damo-nos conta também de que, afinal, numa sociedade individualista e egoísta, que tanto exalta e celebra o Eu, agora que temos de viver afastados, confinados, sem abraços nem beijos nem manifestações de afecto, nem festas, sentimos a falta que os outros nos fazem.

 

Temos tempo para a família. Agora, evidentemente, sem esquecer os amigos, poderemos entender melhor a força e o apoio da família. Mas, com as  crianças em espaços limitados e num tempo que se alonga sem novidades outras, será necessário fazer apelo à inventividade criativa. É preciso superar o tédio do mesmo e aprender a paciência, lembrando aquela palavra de Jesus: “com a vossa paciência salvareis as vossas vidas”. Será também necessário pedir ajuda para que, com o stress, a violência doméstica se não agrave. Disse anteontem a Marta Reis, do jornal i, Constantino Sakellarides, especialista em saúde pública: “A primeira regra é não embirrarmos uns com os outros”.

 

5. Para terminar, não posso deixar de agradecer tantas provas de amizade e cuidado comigo, vindas de tantas partes e de tantos amigos e nomeadamente de antigos alunos. Desejo a todos, a todas, de coração, saúde. E salvação. A palavra latina salus está na base de saúde e também de salvação.

 

E lembro os versos famosos de Friedrich Hölderlin, cujo 250.º aniversário do nascimento se celebrou anteontem, Sexta-Feira, 20 de Março: “Wo Gefahr ist, Da/ wächst das Rettende auch”: Onde está o perigo, aí cresce e aumenta também o que salva.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 22 MAR 2020

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Há males que vêm por bem... Sem me atrever a ser tão assertivo, direi apenas - e creio que tanto basta - serem quaisquer obstáculos, impedimentos ou, mesmo, desgraças sempre também oportunidades de revisão e conversão, aberturas novas à humana vocação de recriação do mundo. A pandemia universal que nos tem vindo a percorrer e abraçar é de tal bom exemplo.

 

   Antes do mais, na medida em que nos vai desenvolvendo a própria consciência da nossa humanidade comum e nos impõe um pensarsentir como a solidariedade é, e deve ser, mais nossa do que a indiferença e a excecionalidade, seja esta, ou possa ser, ostracismo do outro e privilégio nosso. Finalmente, compreenderemos como todos estamos na mesma Arca de Noé e só juntos, organizados e cooperantes, nos safaremos. Até a globalização da chamada quarentena nos vai recordando como, no mundo de hoje, já nada é resolúvel pelo isolamento de navios fundeados ao largo dos nossos portos: não mais se trata de pôr uns de castigo, mas de solicitar a todos que se restrinjam ao cuidado da cautela comum.

 

   Por outro lado, também nos surgem surpresas, tais como esta de agências científicas especializadas e atentas terem agora verificado que a restrição geral de movimentos e viagens nos trazerem os benefícios já sensíveis de maior pureza do ar que respiramos e de limpeza da terrível poluição atmosférica. Como se o surto do covid 19 e as barreiras que se lhe opõem fossem vozes proféticas a estimular-nos a um maior carinho e cuidado com Mãe Terra, a casa que todos habitamos.

 

   Esperemos ainda que esta renascida consciência da nossa comum humanidade e sua circunstância possa melhorar as relações políticas e diplomáticas, sobretudo depois do descrédito que sobre si mesmos lançaram (p. ex. no Brasil, Venezuela e EUA) políticos narcísicos. Fique bem claro que só no transparente e generoso intercâmbio de suspeitas, hipóteses, previsões e progressos na investigação científica encontraremos as soluções possíveis e as partilharemos em ação de graças, na eucaristia da nossa humanidade.

 

   No silêncio desta minha moradia, no meio de campos férteis, mas tão calados no Inverno que termina, escuto agora todos os quartetos de Mozart dedicados a Haydn. São, na linha deste, uma busca da harmonia, a recusa do caos. E vou lendo o último romance da escritora franco-marroquina Leila Slimani: Le Pays des Autres (Paris, Gallimard, 2020). Lê-se no texto da respetiva apresentação (traduzo): Todas as personagens deste romance vivem «no país dos outros»: [Melhor diria: «na terra dos outros»]. quer colonos quer indígenas, sejam soldados, camponeses ou exilados. As mulheres, sobretudo, vivem no país dos homens e devem incessantemente lutar pela sua emancipação.

 

    Que este período de quarentena e retiro nos dê, Princesa de mim, vagar e ânimo para refletirmos no Advento da Terra de Todos.

 

 Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

O SAGRADO E SUAS CONFIGURAÇÕES. 2

 

Dou continuação à crónica da semana passada.

 

A pessoa religiosa refere-se sempre ao Sagrado, à Ultimidade, que, pela sua própria definição, não pode alcançar, menos ainda, dominar ou possuir. Percebe-se, pois, que o Sagrado seja figurado e representado de múltiplas formas.  

 

1. Uma das figuras ou representações é a de o Ser supremo. Aparece, portanto, como o Deus celeste, criador e senhor das criaturas.

 

2. Quanto ao politeísmo (vários deuses e deusas), houve quem o interpretasse como uma degenerescência ou queda do monoteísmo. De facto, é preciso saber que o monoteísmo em sentido estrito é recente, mas isso não significa que haja religiões propriamente politeístas. Penso que o politeísmo é sobretudo a atribuição da Força divina originária a várias divindades, que aparecem como suas “personificações”. Atente-se, por exemplo, no politeísmo grego e romano, talvez os mais conhecidos.

 

3. No quadro de tentativas de compreensão do mal, surgiram representações dualistas – pense-se no mazdeísmo, gnosticismo e maniqueísmo. Mas dificilmente se poderá dizer que haja um verdadeiro dualismo no sentido de dois princípios simétricos e supremos. Pode é dar-se uma espécie de luta no interior do Uno, com expressão no mundo e na História, que seriam a continuação desse combate a caminho da reconciliação e da vitória do Bem. No fim, o Bem triunfará.

 

4. O monismo – pense-se em certas formas de hinduísmo e no budismo – acentua a unidade, o Uno, o Absoluto, Brahman. Este acento no Sagrado como absoluto leva a considerá-lo como realidade única, de que os outros seres, especialmente o ser humano, não são senão expressões e manifestações. Precisamente a plenitude do Absoluto tenderá, por um lado, a sublinhar a unidade, mas, por outro, corre o risco da diluição da dimensão pessoal.

 

5. O monoteísmo, enquanto figuração do Sagrado como um só Deus, transcendente, pessoal e criador, é, na história das religiões, bastante recente (séculos VII-VI a.C.), podendo afirmar-se que só alcançou expressão no tempo do exílio dos judeus na Babilónia e constitui a grande herança do judaísmo ao mundo. Como escreveu J. Gómez Caffarena, a experiência negativa de submissão ao Império babilónico, com a destruição (ano 587 a.C.) do templo de Salomão e a deportação para a Babilónia, “foi, paradoxalmente, positiva para o monoteísmo javista, que alcançou nesse tempo plena expressão (sobretudo nos escritores ‘deuteronomistas’ e no grande profeta do exílio que anunciou o regresso e cujos textos formam os capítulos 40-55 do livro de Isaías, pelo que se costuma chamar ‘segundo Isaías’). Foi chave para a abertura de um horizonte universal, exigida logicamente pela unicidade de Deus proclamada pelo monoteísmo, que implicava a superação (relativa) do particularismo etnicista inerente às ideias de eleição e ‘aliança’”.

 

Neste contexto, poderá dizer-se, a título de conclusão, que, no panorama da história das religiões, analisando a lógica da sua evolução e o que estruturalmente as une, desde a pré-história até ao presente, as duas opções religiosas fundamentais são, segundo a tese de K.-H. Ohlig, o monismo e o monoteísmo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 MAR 2020

O SAGRADO E SUAS CONFIGURAÇÕES. 1

 

Como ficou dito em crónicas anteriores, o Sagrado é o referente último de todas as religiões, o mistério da realidade na sua ultimidade. É o Sagrado ou o Mistério pura e simplesmente. É o Inominável, pois transcende sempre tudo quanto se possa pensar ou dizer dele. Nenhuma religião o possui nem mesmo as religiões todas juntas.

 

Na experiência do Sagrado, fonte de sentido último, salvação e felicidade, o Homem está sempre em presença de algo outro e superior, “o tremendo e fascinante”, o Absoluto, inabarcável, inacessível e inefável.

 

Esta superioridade do Sagrado manifesta-se em níveis diferentes: o ontológico – infinita riqueza de ser –, o axiológico – realidade sumamente valiosa. Assim, comporta “uma ruptura de nível que aponta para a plenitude de ser e realidade por excelência” (J. Sahagún Lucas).

 

Sendo o Inominável, procurou-se, ao longo da História, nomeá-lo. Numa obra recente, Después de Dios..., o teólogo José Ignacio González Faus apresentou várias tentativas, com muitos nomes. Os Upanishades referem-se a ele como “O Incondicionado”; as filosofias mais racionalistas designam-no como “O Absoluto”; Santo Tomás de Aquino disse que o seu melhor nome é precisamente “O Inominável”; Tierno Galván, “a partir do seu agnosticismo despreocupado pelo tema”, designa-o por vezes como “O Fundamento”; Karl Rahner, o maior teólogo católico do século XX, fala dele precisamente como “O Mistério”; Rudolf Otto, autor da obra famosa “Das Heilige”, fala dele precisamente como “O Santo”, “O Sagrado”; Platão referia-se a ele como “a ideia do Bem”, mas é necessário notar que Platão chama ideia à verdadeira realidade, contraposta às sombras, sendo assim o Sagrado o Sumo Bem; Aristóteles designou-o como “O Motor Imóvel”, com o sentido de que, no meio de todas as mudanças, é necessário algum “ponto de referência firme”; mesmo o famoso tetragrama hebraico YHVH, letras impronunciáveis, não é um nome próprio, mas “uma resposta evasiva a Moisés”: “sou o que serei”: confia e irás vendo; o Novo Testamento conclui, que “Deus é Amor”, que não é uma definição, pois não diz “Deus é O Amor”. O místico João da Cruz referiu-se-lhe como “a música calada que enamora”.

 

Que concluir? Deus é “esse Mistério indizível que nos envolve. Neste sentido, à pessoa que se sente ou se julga ‘muito religiosa’ é preciso pedir-lhe que renuncie um pouco a Deus, não para negá-lo, mas para deixar Deus ser Deus. Frequentemente, os que mais falam de Deus são os que de modo pior acreditam nEle.” É também neste contexto que deve entender-se o que uma vez ouvi a Jacques Lacan: “Os teólogos não acreditam em Deus, porque falam dele.” Talvez mais decisivo do que falar de Deus seja falar com Deus.

 

De qualquer forma, ao longo da História e sempre, o Sagrado, na medida em que o Homem precisa de nomeá-lo de alguma maneira, foi sendo apresentado de múltiplas formas e em várias configurações, desde o politeísmo ao monismo, passando pelo dualismo, o deísmo, o monoteísmo..., como veremos em próximas crónicas.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 23 FEV 2020

CARDEAL SARAH, PAPA EMÉRITO E FRANCISCO

 

1. Julgo que nunca no Vaticano a Cúria tinha ouvido tais denúncias como as que tem ouvido da parte do Papa Francisco. Que “a corte é a peste do Papado”, que sofre de doenças terríveis como “sentir-se imortal, indispensável”, “uma Cúria que não se autocritica, que não procura melhorar é um corpo doente”, “a fossilização mental e espiritual”, “Alzheimer espiritual”, “a rivalidade e a vanglória”, a doença da “esquizofrenia existencial”, que é a de “quem vive uma vida dupla”, a doença dos “rumores, mexericos, murmurações, má língua”, que pode levar ao “homicídio a sangue frio”, a doença de “divinizar os chefes”...

 

Estas foram as críticas elencadas logo na saudação natalícia de 2014. Têm-se sucedido ao longo dos anos. Neste Natal, Francisco avisou de modo frontal: “Hoje não somos os únicos que produzem cultura, nem os primeiros, nem os mais escutados”. Mais: “Já não estamos num regime de cristianismo, porque a fé, especialmente na Europa, mas inclusivamente em grande parte do Ocidente, já não constitui um pressuposto óbvio, e ela até é frequentemente negada, gozada, marginalizada e ridicularizada.” Por isso, concluiu, citando o cardeal Carlo Martini, outro jesuíta, que foi arcebispo de Milão: “A Igreja anda com duzentos anos de atraso. Porque não se mexe? Temos medo. Medo em vez de coragem? No entanto, o cimento da Igreja é a fé, a confiança, a coragem... Só o amor vence o cansaço.”

 

2. Mas a Cúria não está na disposição de mudar, tudo indica. A última bomba-escândalo girou e gira à volta de um livro do Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos, nascido na Guiné Conacri há 72 anos, que tentou associar como co-autor da obra o Papa emérito. Tem como título, no original francês, Des profondeurs de nos coeurs (Do fundo dos nossos corações), e na capa aparecem Bento XVI e o cardeal Robert Sarah como co-autores.

 

Diga-se, logo de entrada, que Bento XVI já não existe como Papa e veremos que também não há justificação nenhuma para se chamar Papa emérito. Pode, pois, compreender-se o imbróglio causado por esta publicação enganosa. Não é de modo nenhum vontade minha entrar aqui na descrição da confusão causada por este verdadeiro folhetim de péssimo gosto e com toques de ridículo, que envolveu avanços e recuos, afirmações e desmentidos, e que apenas tem por efeito causar ainda maior descredibilização da Igreja. O que parece claro é que, a pouca distância temporal da publicação da Exortação prometida pelo Papa Francisco após o Sínodo de Março passado sobre a Amazónia, que terá em atenção as conclusões por quase unanimidade da vontade sinodal de que o Papa autorize a ordenação de homens casados e que dê o devido lugar à mulher na Igreja, se quis influenciar negativamente Francisco para que trave o que o Sínodo claramente propôs. Aliás, desse modo, travar-se-ia também o caminho sinodal da Igreja Alemã, que vai no mesmo sentido.

 

Para terminar com a confusão, o secretário particular do Papa emérito, arcebispo Georg Gänswein, veio afirmar no passado dia 14 que este “não tinha aprovado nenhum projecto para um livro com dupla assinatura”, Bento XVI “não escreveu o livro a quatro mãos com o cardeal Sarah”.

 

3. O que é claro é que o objectivo do livro é opor-se tenazmente à ordenação de homens casados.

 

Não há dúvida de que Bento XVI se opõe a esta ordenação. Para ele, segundo os textos que continuam no livro de Sarah, há para o padre uma impossibilidade de um vínculo matrimonial, atendendo concretamente à celebração quotidiana da Eucaristia.

 

No entanto, Ratzinger nem sempre pensou assim, é bom lembrar. Em 1970, o então professor de Teologia escreveu um pequeno livro, Fé e futuro, resultado de uma série de palestras radiofónicas sobre como seria a Igreja do ano 2000, no qual se lê: “Certamente conhecerá também novas formas ministeriais e ordenará como sacerdotes cristãos provados, experimentados, que continuarão a exercer a sua profissão. Em muitas comunidades mais pequenas e em grupos sociais homogéneos, a pastoral será normalmente exercida deste modo. Juntamente com estas formas, continuará a ser indispensável o sacerdote dedicado plenamente ao exercício do ministério como até agora.”

 

O texto fatal é do cardeal Sarah: “Há um laço ontológico-sacramental entre o sacerdócio e o celibato. Qualquer enfraquecimento desse vínculo levaria a pôr em causa o magistério do concílio e dos Papas Paulo, João Paulo II e Bento XVI. Peço humildemente ao Papa Francisco que nos proteja definitivamente de tal possibilidade, vetando qualquer enfraquecimento da lei do celibato sacerdotal, mesmo limitado a uma ou outra região.”

 

Este é que é, no meu entender, o ponto essencial da tomada de posição do livro em defesa do celibato sacerdotal. Ora, esta afirmação é inadmissível, até do ponto de vista histórico: não é sabido que havia apóstolos casados, incluindo São Pedro? Não foi apenas no segundo milénio do cristianismo que se foi impondo a lei do celibato obrigatório? Mas, mesmo neste enquadramento, a lei não se estendeu à Igreja católica oriental, onde há padres casados, e Bento XVI decretou que os padres anglicanos que entrassem na Igreja católica continuariam com a sua família. A actual norma do celibato obrigatório não provém de Jesus, que não a impôs aos Apóstolos. São Paulo, estou a citar o teólogo José M. Castillo, afirmou que ele como os outros apóstolos tinham o direito de ir acompanhados por uma mulher cristã, lê-se na Primeira Carta aos Coríntios, e, nas Cartas a Timóteo e a Tito, diz-se que os candidatos aos ministérios eclesiais, incluindo o episcopado, devem ser homens casados com uma mulher, que saibam governar a família, porque “quem não sabe governar a sua própria casa, como vai cuidar da Igreja de Deus?”. Além disso, é sabido que no concílio ecuménico de Niceia, o bispo Pafnúcio, celibatário e venerado confessor da fé, gritou perante a assembleia conciliar “que não se devia impor aos homens consagrados esse jugo pesado, dizendo que é também digno de honra o acto matrimonial e imaculado o próprio casamento; e que não danificassem a Igreja exagerando a severidade.”

 

Onde se quer então fundamentar esse “vínculo ontológico-sacramental entre o sacerdócio e o celibato”? Ele não existe pura e simplesmente. É falsa a ideia de que através da ordenação o padre entraria e ficaria num grau superior de ser em relação aos outros fiéis, como é falsa, consequentemente, a ideia de que o fim do celibato retiraria ao padre esse lugar especial sagrado, que realmente não tem. De facto, o sacerdócio ministerial é apenas um serviço ao único sacerdócio real que é o de todos os baptizados: o padre ou o bispo não são mais cristãos do que os outros cristãos, têm apenas uma função de serviço diferente, e na Igreja há variedade de serviços.

 

Ainda há-de aparecer quem me mostre onde é que no Novo Testamento Jesus ordenou alguém “in sacris”. Mas foi e é este pseudo-carácter sagrado especial do padre e do bispo que esteve e está na base dessa calamidade que o Papa Francisco não se cansa de denunciar: o clericalismo, que reivindica duas classes na Igreja: o clero e o leigo, com estatuto ontológico e não meramente funcional diferente.

 

4. Estou convencido de que, desta vez, Ratzinger acabou por ser utilizado e até manipulado. Ninguém sabe até que ponto. De qualquer forma, todo este episódio vem chamar a atenção para o estatuto do que indevidamente se chama “Papa emérito”. De facto, nada justifica esse título. Pelo contrário. Significativamente, Francisco nunca se chamou a si mesmo Papa, mas simplesmente bispo de Roma. O Papa não é senão o bispo de Roma, e ao bispo de Roma está vinculada a missão da unidade da fé. Assim, Ratzinger é tão-só bispo emérito de Roma, mas não Papa emérito e, consequentemente, não deveria utilizar as vestimentas pontifícias, que só criam a confusão de se pensar que há dois Papas. Até o cardeal Gerhard Müller, um dos representantes da ala mais conservadora da Cúria, veio lembrar: “Que não haja confusões! Não temos dois Papas, existe apenas um, Francisco. Diz-se Papa emérito por cortesia, mas na realidade Bento XVI é bispo emérito”.

 

5. Já este texto estava terminado, quando se soube que tudo indica que o Papa publicará ainda esta semana a Exortação pós-Sínodo sobre a Amazónia.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 26 JAN 2020

A PESSOA E A DINÂMICA RELIGIOSA. 2

 

O Homem tem uma constituição paradoxal. Por vezes, constata que fez aquilo de que se espanta negativamente, erguendo, perplexo, a pergunta: como foi possível eu ter feito isso? – aí, não era eu. Há, pois, o “isso” em nós sem nós, de tal modo que fazemos a experiência do infra ou extra-pessoal em nós. Talvez fosse a isso que São Paulo se referia quando escreveu: “Que homem miserável sou eu! É que não faço o bem que eu quero, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico”. Por outro lado, o Homem dá consigo como sendo mais do que o que é: ainda não é o que quer e há-de ser. Ainda não sou o que serei. Uma das raízes da pergunta pelo Homem deriva precisamente desta experiência: eu sou eu, portanto, idêntico a mim, mas não completamente idêntico, porque ainda não sou totalmente eu. Então, o que sou?, o que somos?, o que é o Homem? O Homem não se contenta com o dado. Quer mais, ser mais, numa abertura sem fim. Exprimindo esta abertura ilimitada, há uma série de expressões famosas: citius, altius, fortius (mais rápido, mais alto, mais forte), o lema olímpico; o Homem é bestia cupidissima rerum novarum (animal ansiosíssimo por coisas novas), dizia Santo Agostinho; Max Scheler definiu-o como “o eterno Fausto”, e Nietzsche, como “o único animal que pode prometer”; Unamuno escreveu: “mais, mais e cada vez mais; quero ser eu e, sem deixar de sê-lo, ser também os outros.” Mesmo na morte, o homem não está acabado, pois é o animal do transcendimento e sempre inconcluído.

 

Precisamente a inconclusão mostra que a sua temporalidade e o seu ser têm uma estrutura essencialmente aberta. O Homem não pode não transcender, mesmo se, como escreveu o teólogo Leonardo Boff, há o bom e o mau transcender. Exemplos do mau transcender e má transcendência são a droga, o álcool em excesso, a religião enquanto superstição alienante. A vida é exaltante, mas também é terrível por vezes – traz exigências, dificuldades, opções que exigem algo de heróico. E há quem não aguente. E foge-se, alienado, para a droga, por exemplo, e “viaja-se”. Mas, quando se regressa da “viagem”, os problemas estão lá todos, com uma agravante: há menos força para enfrentá-los e superá-los, na alegria de crescer e transcender. No bom transcender – no amor, na produção, na investigação, na obra de arte, na contemplação da beleza, na generosidade frente à vida, na religião criadora –, o horizonte alarga-se, há mais vida partilhada, humanidade livre, justa e feliz, criação do novo, esperança que toca o Além.

 

Permanece, portanto, a pergunta iniludível: qual é o termo da força do transcendimento humano? Por outras palavras: qual é o Sentido último da existência? No limite, o autêntico ateísmo coerente seria “o ateísmo silencioso”, como escreve Georges Minois, aquele que não pusesse sequer a questão de Deus. Pergunta-se, porém, se precisamente a questão de Deus enquanto questão, independentemente da resposta positiva ou negativa que se lhe dê, e a questão do Sentido último, não são constitutivas do ser humano. Citando G. Gusdorf, G. Minois conclui a sua História do ateísmo “com um quadro implacável e lúcido” da Humanidade do ano 2000: “vive no Grande Interregno dos valores, condenada a uma travessia do deserto axiológico de que ninguém pode prever o fim”. Durante muito tempo perseguido, o ateu obteve o direito de cidadania no século XIX e acreditou mesmo poder proclamar a morte de Deus. Mas já no fim do século XX houve a tomada de consciência de que, “ao eclipsar-se, Deus levou consigo o sentido do mundo”. E continua: o futuro é imprevisível, porque o ateísmo e a fé enquanto compreensão global do mundo andaram sempre juntos. A ideia de Deus era um modo de apreender o universo na sua totalidade e dar-lhe, de forma teísta ou ateia, um sentido. Assim, a divisão hoje já não está tanto entre crentes e descrentes como entre “aqueles que afirmam a possibilidade de pensar globalmente o mundo, de modo divino ou ateu, e os que se limitam a uma visão fragmentária em que predomina o aqui e agora, o imediato localizado. Se esta segunda atitude prevalecer, isso significa que a Humanidade abdica da sua procura de sentido.”

 

É nesta segunda atitude de niilismo prático que presentemente nos encontramos. Ela caracteriza a época em que vivemos. A questão não é tanto não haver respostas, mas sim não colocar as perguntas essenciais, metafísico-religiosas, que constituem o Humanum, o humano. E aí estão a fragmentação e a desorientação geral, sem horizonte de sentido, Sentido último. Os nossos são, por isso, tempos de penúria e de noite, como anteviram Hölderlin e Martin Heidegger.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 JAN 2020

A PESSOA E A DINÂMICA RELIGIOSA. 1

   

O que é a religião? O que deve entender-se por pessoa religiosa? Onde se fundamenta a religião? Qual é o dinamismo que está na base das religiões? Porque há religião/religiões?

 

Toda a religião tem a ver com a ética e também com a estética. Hegel viu bem, quando afirmou que a arte, a religião e a filosofia estão referidas ao Absoluto. A pergunta é, como escreveu o filósofo J. Gómez Caffarena, se a ética, a estética e a filosofia acabarão por absorver a religião, como já insinuava Goethe: “quem tem arte (e moral e filosofia) tem religião; quem a não tem que tenha religião”.

 

Segundo Lucrécio, “o medo criou os deuses”. Desde então, isso tem sido repetido, acrescentando a ignorância e a impotência, de tal modo que, com o avanço da ciência e da técnica, a religião acabaria por ser superada e desaparecer. Será, porém, verdade que na génese da religião estão o medo, a ignorância e a impotência? Ninguém poderá negá-lo. A questão é saber se esses são os únicos e decisivos factores e de que modo actuam. De facto, não é a limitação enquanto tal que está na base da religião, mas a consciência da limitação. Na consciência da finitude, que tem a sua máxima expressão na consciência da mortalidade, o homem transcende o limite e articula um mundo simbólico de esperança de sentido último e salvação. Como disse Hegel, a verdade do finito encontra-se no Infinito, e Kant viu bem, ao referir a religião à esperança de um sentido final. Segundo ele, o interesse da filosofia pode reduzir-se às seguintes perguntas: “O que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? O que é o Homem? À primeira pergunta responde a metafísica, à segunda a moral, à terceira a religião e à quarta a antropologia”. Assim, é possível que a ciência e a técnica obscureçam a força do apelo religioso. Mas, permanecendo a finitude e a sua consciência, há-de erguer-se sempre a pergunta pelo Fundamento e Sentido últimos.

 

Como disse E. Ciorán, “tudo se pode sufocar no Homem, salvo a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos e mesmo ao desaparecimento da religião”. Na mesma linha, afirma L. Rougier: “A Igreja pode declinar. O sentimento religioso grávido de um impulso para o ideal, de uma sede do Absoluto, de uma necessidade de superar-se, que os teólogos chamam Transcendência, subsistirá.” O que, do ponto de vista biológico, une a Humanidade é a interfecundidade. Do ponto de vista espiritual, o que a une é a pergunta radical pela totalidade e o seu sentido.

 

O Homem é o animal que pergunta pelo seu ser e pelo ser. A razão humana não cria a partir do nada. Na base do ser humano, há uma “passividade originária”, como repetia o meu saudoso mestre Miguel Baptista Pereira: quando damos por nós, já lá estamos, ninguém foi consultado nem decidiu vir a este mundo e ser quem é; depois, um dia, a morte chega e leva-nos. A razão humana constrói, portanto, a partir do dado e, feito todo o seu percurso, sabe que acende a sua luz na noite do Mistério. Se pergunta, é porque ela própria é perguntada pela realidade, que é ambígua. Precisamente na sua ambiguidade, provocando, por isso, espanto positivo e negativo, a realidade e a existência convocam para a pergunta radical: o que é o Ser?, o que é o Homem? Quando, no processo evolutivo, se deu a passagem do animal ao homem, apareceu no mundo uma forma de vida inquieta que leva consigo constitutivamente a pergunta pelo Sentido de todos os sentidos, portanto, a pergunta pelo Sentido último. A dinâmica religiosa deriva da experiência de contingência radical e da esperança num sentido final. A mesma experiência tem um duplo pólo: a radical problematicidade do mundo e da existência e a referência em esperança a uma resposta de sentido último, plenitude, felicidade, orientação, identidade, salvação. Este domínio da busca de sentido aparece de modo tão central na vida humana que a História da Humanidade não se compreende sem a história da consciência religiosa, não sendo de esperar o fim da religião e das religiões. Neste contexto, não é ousado afirmar que todo o ser humano é religioso, na medida em que é confrontado com a pergunta pela Ultimidade. Só poderíamos falar de irreligiosidade, no caso de alguém se contentar com a imediatidade empírica, recusando todo e qualquer movimento de transcendimento, o que não é possível, pois isso é contraditório.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 JAN 2020

O ANJO DA HISTÓRIA

 

Terminados os festejos da passagem de ano e já no novo ano de 2020, é bom e mesmo urgentemente necessário parar para reflectir sobre o enigma maior do tempo. É, que queiramos ou não, com a passar do tempo, somos confrontados com aquela arrasadora constatação do historiador e filósofo R. Wittram na sua obra Das Interesse an der Geschichte: “A mim os grandes acontecimentos históricos do passado afiguram-se-me como cataratas geladas, imagens congeladas pelo gelo da vida que se foi e nos mantém à distância. Gelamos à vista dos grandes feitos: reinos caídos, culturas destruídas, paixões apagadas, cérebros mortos. Se tomamos isto a sério, podemos sentir que nós, historiadores, temos uma ocupação bem estranha: habitamos na cidade dos mortos, abraçamos as sombras, recenseamos os defuntos”.

 

Por isso, a questão do tempo é também a questão de Deus; por outras palavras, perguntar pelo tempo é perguntar por Deus. De facto, como questionava Theodor Adorno, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt, como se poderia falar de reconciliação à maneira do sonho marxista, por exemplo, se ela valesse apenas para os vindouros, numa sociedade realizada e sem conflitos? Nessa situação, o que seria de todas as vítimas da injustiça da História e de todos os mortos do passado? O tempo com final, na perspectiva bíblico-cristã, é o tempo da esperança na salvação de Deus para todos. Aquele Deus de quem o teólogo Karl Rahner disse que é “o Futuro Absoluto”, Futuro de todos os passados, Futuro de todos os presentes, Futuro de todos os futuros, na consumação e plenitude da existência de todos os homens e mulheres de todos os tempos.

 

Também o grande filósofo, Walter Benjamin, um marxista especial, de raiz judaica, perseguido pelo nazismo, se confrontou com o mesmo enigma. Na célebre tese 9 do seu ensaio Sobre o Conceito de História, escreveu: “Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da História deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas. Enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.”

 

Sim, o progresso faz vítimas e assenta sobre vítimas, como, numa entrevista recente a José Manuel Vidal, Director de Religión Digital, veio relembrar, a propósito do seu novo livro, El tiempo, tribunal de la historia,  o filósofo Manuel Reyes Mate, discípulo do filósofo e teólogo Johann Baptist Metz, que aqui referi recentemente, por ocasião do seu falecimento: “A História da Humanidade é uma história de progresso lento sobre muito sofrimento causado. O progresso mata e exige vítimas. Que sobre as vítimas se construiu a História sabemo-lo, mas tornámo-las invisíveis, no sentido de que não lhes demos importância.” E relembra também os tempos da sua juventude, com a esperança messiânica e dois messianismos. “O marxismo era um guia para muita gente. Hoje não é guia para quase ninguém, mas também não existe nada que o substitua, e há  um grande vazio. O que agora existe é uma grande inesperança/desesesperança. Na altura, havia futuro: era uma sociedade que, apesar dos problemas, tinha futuro e tinha projectos de longo alcance, simbolizados pelo cristianismo e pelo marxismo. Hoje, a sociedade vive na e da imediatidade, sem projectos.” Deste modo, percebe-se o estado em que se encontra a política. “A política não tem apenas de resolver o dia a dia; tem de oferecer um horizonte de esperança à Humanidade. Mas, para isso, não pode renunciar às grandes perguntas. E as grandes perguntas têm a ver com a morte, com o sofrimento e com a injustiça. Na medida em que a filosofia política  renuncia a essas perguntas, a política, como dizia outro marxista, Max Horkheimer, converte-se num negócio.”

 

E voltamos a Walter Benjamin, que não renunciou ao messianismo. Ele fala da teologia como “um anão feio e corcunda”, porque carrega com responsabilidades históricas, com erros e fracassos, mas ela não esquece as grandes perguntas. Precisamente por causa do sofrimento e das vítimas, se a injustiça não pode ter a última palavra sobre a História, é necessário fazer apelo à teologia, como reconheceram Max Horkheimer e Theodor Adorno, sendo, no entanto, Benjamin que insistiu em que a solidariedade com os mortos, concretamente com as vítimas inocentes, não permitia conceber a História “ateologicamente”, sem teologia.

 

A crise do nosso tempo manifesta-se essencialmente no esquecimento e obturação das grandes perguntas, decisivas, perguntas metafísico-religiosas. Assim, o que resta é uma cultura empobrecida e uma política reduzida a negócios, sem horizonte autenticamente humano. Depois, é o que se sabe, está à vista.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 JAN 2020

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   O blogue do CNC entendeu que e reedição da carta que segue anexa à presente - e foi escrita há uns anos, e por ele publicada a 2 de agosto de 2015, quando eu, feito heterónimo, redigia correspondência de um tio meu para outra Princesa, isto é, uma Princesa dele  -  poderia ser um complemento de leitura a uma crónica do Professor Anselmo Borges, publicada, no Diário de Notícias e no mesmo blogue, a 12 e 13 do corrente, intitulada A Pena de Morte e o Inferno.  

                                                               

   Acontece que deparei com os textos que acima refiro, em certo dia desta semana (2ª de novembro de 2019) que me dera umas horas para escutar o oratório The Dream of Gerontius, de Edward Elgar, magnífica peça musical composta para um texto escrito pelo cardeal John Henry Newman, lá para finais do século XIX. O registo de que disponho deve-se, além dos três solistas (a mezzo Catherine Wyn-Rogers, o tenor Andrew Staples e o barítono Thomas Hampson), ao Staatsopernchor Berlin e ao RIAS Kammerchor, todos com a Staatskapelle Berlin, sob a direção de Daniel Barenboim. Não sei porquê - o que, aliás, me sucede com frequência -, talvez pela força da música, penseissenti a peça inteira e todos os momentos em que me envolveu, como uma e poderosa mensagem, a dizer que o valor divino do humano nos leva a celebrar a nossa vida como inesgotável oportunidade de renovação, como contínuo convite a uma conversão que sempre nos surge a ser destino nosso.

 

   Por isso mesmo há tantas maneiras de afirmá-lo e, todavia, o que diz o japonês Kenzaburo Oe, o anglo católico cardeal Newman, o tio meu heterónimo e o douto filósofo Anselmo Borges me parece indivisível na sua própria simplicidade: a vida humana, ela própria, é a quintessência da sua dignidade que se consubstancia nessa mesma vida. Nos escritos vários que nestes meus textos vou referindo ou citando, a consideração da vida humana pressupõe sempre pensarsentir que, independentemente das fraquezas e faltas de cada um, do maior ou menor poder coercivo de qualquer circunstância, a dignidade divina dessa mesma vida lhe é inata e inalienável. No Sonho de Gerôncio, ela própria é colocada já numa circunstância post mortem, em que a sua alma canta a conversão final - a pura, misericordiosa graça - como destino finalmente cumprido. Deixo-te o original inglês da lírica de Newman, acompanhado de tradução minha, feita para esta carta, apenas com alguma preocupação com encontrar palavras que nos ajudassem a meditar na nossa língua... Talvez por me ter lembrado de que me ditar poderia querer significar dizer-me, a mim mesmo, as palavras que iluminam.

 

   O sonho de Gerôncio é uma experiência onírica às portas da morte, uma vida que se redescobre na outra margem da corrente de Caronte - como se morrer fosse acordar de novo e nenhuma outra esperança ou simples expectativa pudesse ter sentido, além do cumprimento da promessa inicial da vida como destino. Atentar contra uma vida humana, seja como for, é apenas soberba loucura. Qualquer vida está recolhida no segredo de Deus.

 

   A abrir a parte segunda do oratório, a alma de Gerôncio canta:   

 

I went to sleep and now I am refreshed,
A strange refreshment : for I feel in me 
An inexpressive lightness, and a sense
Of freedom, as I were at length myself
And never had been before. How still it is!
I hear no more the busy beat of time,
No, nor my fluttering breath, nor struggling pulse;
Nor does one moment differ from the next
This silence pours a solitariness
Into the very essence of my soul;
And the deep rest, so soothing and so sweet, 
Hath something too of sternness and of pain.

 
Another marvel: someone has me fast 
Within his ample palm; 
A uniform
And gentle pressure tells me I am not
Selfmoving, but borne forward on my way.
And hark! I hear a singing ; yet in sooth
I cannot of that music rightly say  
Whether I hear, or touch, or taste the tones.                         
Oh, what a heart subdoing melody!

 

Fui dormir, dormi, e fiquei fresco,
Com bem estranha frescura: pois então me senti
Tão indizivelmente leve e livre  
Que nem de me cuidar soía,

Como dantes. Mágico silêncio este!
Já não ouço o reincidente bater do tempo,
Nem o meu respirar vibrante  e agitado pulso;
Já nenhum momento é diferente do próximo.
Este silêncio derrama soledade
Na quintessência da minha alma.
E a repouso tão carinhoso e doce
Não falta severidade e pena.


Maravilha nova: alguém me agasalha

Na palma da sua mão;
Uma pressão
Uniforme e gentil diz-me que não vim por mim
Mas que, a caminho, me trouxeram para     aqui.
Escutai bem! Ouço cantar; mas, na verdade,
De tal música ao certo não sei dizer 
Se a ouço, toco ou provo os tons.
É só melodia que subjuga o coração!

 

   Tal como, tantas vezes, no decurso desta vida, nos vemos perdidos, assim talvez seja ao descobrirmo-nos do lado de lá. Mas algo nos dirá que não chegámos ali por nossa auto moção, e que uma qualquer música, inaudita ainda, nos encherá e guiará o coração.

 

Camilo Maria

                

PS.- Queres então abrir o texto que partilho?

 

Camilo Martins de Oliveira