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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRENTES E ATEUS: A FÉ E A RAZÃO


1. “Ele (Deus) permitiu que trevas densíssimas se abatessem sobre a minha alma e que o pensamento do Céu, que desde o tempo da minha meninice era para mim tão felicitante, se tornasse um objecto de luta e de tormentos. A duração desta provação não se limitou a alguns dias ou semanas. Há já meses que sofro e ainda aguardo pela hora da minha libertação. Quereria poder exprimir o que sinto, mas é impossível. É necessário ter passado pelo túnel escuro, para captar a sua escuridão...


Para tranquilizar o meu coração, pois está cansado por causa das trevas que o envolvem, tento fortalecê-lo com o pensamento de uma vida futura e eterna. Mas então a minha tortura duplica-se. É como se as trevas assumissem a voz dos incrédulos, escarnecessem de mim e me dissessem: ‘Tu sonhas com a luz..., tu crês poder fugir à treva em que desfaleces! Avança! Avança! Alegra-te com a morte, que não te dará o que esperas, mas uma noite ainda mais profunda: a noite do nada!’"


Quem iria supor que estas palavras são da carmelita Therèse Martin (conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus) em 1897, quando tinha apenas vinte e quatro anos, vindo a morrer em Setembro desse ano?


Foi uma irmã de sangue, também ela carmelita, que manteve em segredo o original manuscrito da História de uma Alma, vendendo ao mundo a imagem de uma Santa Teresinha açucarada. Mas, como escreveu o teólogo Hubertus Halbfas, a verdadeira história da alma de Teresa é o destino de uma jovem que dentro dos muros frios do convento não perdeu apenas a saúde, mas também "toda a certeza da fé": "Se ao menos sentíssemos Jesus! Mas não, ele parece estar a milhares de léguas de distância. Estamos sós connosco mesmos.", são palavras de Santa Teresinha. E o teólogo acrescenta que se deve à mesma irmã a impressão de que a santa não viveu "a noite da incredulidade", mas "a noite mística", como a de São João da Cruz, no século XVI. Ora, se este místico passou pelos sofrimentos indescritíveis da "noche oscura", "o seu deserto não foi a perda da fé". Teresa, pelo contrário, apesar do gueto católico em que viveu, "assumiu em si", através dos muros do claustro, "como que por osmose", "o niilismo do século XIX". Quando, em face da morte, a irmã Marie lhe disse que em breve estaria com Jesus e os anjos, respondeu: "Todas essas imagens não me dizem nada. Apenas posso alimentar-me da verdade. Por isso, também nunca pedi visões. Prefiro aguardar pelo depois da morte". Esta resposta não é ateia, mas há aqui algo de novo, conclui o teólogo: "a confissão corajosa da incerteza sobre as coisas últimas", que constitui "a situação religiosa genuina da maior parte das pessoas no século XX" e, digo eu, também do século XXI.


A fé não é, ao contrário do que frequentemente se pensa, ópio e consolação, mas luta e combate no meio das trevas e da dor. No domínio da fé, o perigo não vem do ateísmo que sabe o que isso quer dizer, mas da indiferença.


2. Também o ateísmo é uma crença. Tem-se frequentemente a ideia de que, à partida, o ateu, quando nega a existência de Deus ou quando afirma que, com a morte, acaba tudo, tem do seu lado a razão, ficando o crente sob a suspeita de não-racional, de tal modo que é a ele apenas que compete ter de apresentar razões da sua fé.


As coisas não são assim, de modo nenhum. Por paradoxal que pareça, também o ateu assenta a sua negação da existência de Deus ou da vida depois da morte num acto de fé, melhor, numa crença. "Em qualquer das suas formas, o ateísmo é uma crença e não uma evidência, escreveu o filósofo Pedro Laín Entralgo, um 'creio que Deus não existe' e não um 'sei que Deus não existe'".


O crente e o ateu encontram-se exactamente no mesmo plano: o crente não pode demonstrar a existência de Deus nem a vida eternal — aliás um Deus demonstrável não seria Deus, mas um ídolo, que a razão constrói e destrói —, exactamente como o ateu não pode demonstrar que Deus não existe ou que a morte é o termo definitivo da existência da pessoa. No que se refere a Deus ou à vida depois da morte, as posições do crente, do agnóstico ou do ateu assentam na crença.


Evidentemente, sendo humanos e, portanto, seres racionais, todos - o crente, o agnóstico, o ateu - têm de apresentar razões para a sua crença, pois esta, se quiser ser verdadeiramente humana, não pode ser cega. Sublinhe-se, porém, que se trata, para todos, de um acto de fé, certamente com razões, mas sempre de um acto de fé, e não da conclusão de uma demonstração.


Assim, o crente, o agnóstico, o ateu, em vez de se excluírem, devem encontrar-se e enriquecer-se mutuamente num conflito dialógico de razões, e, por paradoxal que pareça, num diálogo sincero e aberto, concluirão que há entre eles muito mais sintonias do que poderiam supor à primeira vista. Quantos crentes, por exemplo, não ficarão surpreendidos ao ler em São Tomás de Aquino que o saber da fé, não podendo ser evidente, convive com a dúvida, a opinião, a suspeita...


Fé religiosa e dúvida não se excluem. Pelo contrário, a fé está sempre acompanhada de perguntas. Estas perguntas humanizam a religião, pois impedem todo o tipo de fundamentalismo, abrem ao diálogo não só com os crentes de outras religiões mas também com os ateus e agnósticos, obrigando a uma reformulação constante das fórmulas doutrinais, que ao mesmo tempo que tentam dizer o Mistério também o ocultam.


Por outro lado, é bem possível que também ateus e agnósticos aceitem que há um Mistério inominável que a todos envolve...

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 de outubro de 2021

SEMANA MUNDIAL DA HARMONIA INTER-RELIGIOSA

 

Foi em 2010, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Antes de iniciar a sua conferência, Jorge Sampaio chamou-me. Para me pedir que não me esquecesse de escrever um texto sobre a Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa.


Também para relembrar o  empenho de Jorge Sampaio no diálogo das civilizações, das culturas, das religiões, retomo o texto de então com pequenas alterações.


Era a primeira vez que se celebrava, de 1 a 7 de Fevereiro (2011), a Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa, na sequência de uma Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, tomada por unanimidade no dia 20 de Outubro de 2010 e proclamando a primeira semana de Fevereiro de cada ano a "World Interfaith Harmony Week" (Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa), semana da harmonia entre todas as religiões, fés e crenças.


A Assembleia Geral fê-lo, lembrando várias resoluções e declarações suas anteriores, todas no sentido da promoção de uma cultura da paz e não-violência, compreensão, harmonia e cooperação inter-religiosa e intercultural, diálogo entre as civilizações, eliminação de todas as formas de intolerância e discriminação com base na religião ou na crença, louvando múltiplas iniciativas a nível global, regional e local para a mútua compreensão e harmonia inter-religiosa, e reconhecendo, por um lado, a necessidade imperiosa do diálogo entre os diferentes credos e religiões em ordem a uma maior compreensão mútua, harmonia e cooperação entre os povos, e, por outro, que os imperativos morais de todas as religiões, convicções e credos fazem apelo à paz, à tolerância e ao mútuo entendimento.


A Assembleia Geral reafirma que a compreensão mútua e o diálogo inter-religioso "constituem dimensões importantes de uma cultura de paz" e encoraja todos os Estados a apoiar a difusão da mensagem da harmonia e boa vontade inter-religiosa em todas as igrejas, mesquitas, sinagogas, templos e outros lugares de culto durante esta semana, "fundada no amor de Deus e do amor ao próximo ou no amor do bem e do próximo, cada um segundo as suas próprias tradições ou convicções religiosas".


Na sua mensagem de 1 de Dezembro de 2010 sobre esta Semana, Jorge Sampaio, alto-representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, depois de declarar que a Aliança procura reduzir tensões criadas por divisões culturais que ameaçam a estabilidade e a paz das e entre as comunidades e sociedades, e, por conseguinte, apoiar os esforços dos Estados, da sociedade civil e de outros actores na construção de bases de confiança e respeito entre as diversas comunidades, incluindo as religiões, saudou com entusiasmo esta Resolução das Nações Unidas. "O seu objectivo é abrangente e inclusivo, vinculando as pessoas de todas as religiões, fés e crenças." Por isso, convidava os membros da Aliança das Civilizações, as organizações da sociedade civil, comunidades religiosas, escolas, universidades a informar-se sobre a iniciativa e a promovê-la.


Penso que o diálogo inter-religioso tem, como aqui tenho sublinhado, vários pressupostos. O primeiro diz que, antes de sermos religiosos ou não, somos seres humanos: une-nos a humanidade comum. Outro pressuposto essencial tem a ver com a laicidade —separação da(s) Igreja(s) e do Estado — e o fim da leitura literal dos textos sagrados das religiões.


Os pilares desse diálogo poderiam sintetizar-se assim: 1. Embora não sejam igualmente verdadeiras, todas as religiões são “reveladas” e contêm verdade. 2. Nenhuma tem a verdade toda, pois todas estão referidas ao Absoluto, mas nenhuma o possui. 3. O fundamentalismo é fruto da ignorância ou da ânsia pelo poder totalitário. De facto, quem é o ser humano, finito, para ter a pretensão de possuir o Fundamento? 4. O diálogo inter-religioso impõe-se pela própria dinâmica religiosa: se nenhuma religião possui a verdade toda, devem todas dialogar e exercer a autocrítica. 5. Os ateus que sabem o que isso quer dizer podem dar um contributo fundamental, já que mais facilmente se apercebem da superstição e inumanidade que as religiões podem transportar.


Há muito tempo que o famoso teólogo Hans Küng tinha prevenido: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos (atitude ética) global, um ethos mundial.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 2 de outubro de 2021

CARTAS PARA A OUTRA MARGEM


Minha Princesa de Além:

 

   Na minha última carta terei deixado claro não ser meu propósito esclarecer (nem tampouco investigar) as circunstâncias, as causas próximas e as propostas de soluções da atual crise afegã, muito embora possa ainda vir a adiantar algumas sugestões de análise e de pistas praticáveis. Por outro lado, continuo a insistir - como ao longo da última década - na fundamental importância de um melhor conhecimento de outros povos, culturas e civilizações para a construção de pontes e entendimentos indispensáveis a uma convivência pacífica e enriquecedora... em vez de continuarmos a ver tudo pela perspetiva do choque de civilizações ou das possíveis hegemonias das grandes potências.

   Na primeira das suas Cartas de Inglaterra, Eça de Queirós escreve sobre duas invasões do Afeganistão pelo poderoso e pesadamente armado exército britânico: a de 1847 e a de 1880. Destaco um trecho: Numa manhã avista-se Candaar ou Gasnat; - e num momento é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exército afegão, com as suas cimitarras de melodrama e as suas colubrinas, do modelo das que outrora fizeram fogo em Diu. Gasnat está livre! Candaar está livre! Hurra! - Faz-se imediatamente disto uma canção patriótica; e a façanha é por toda a Inglaterra popularizada numa estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com veemência, no primeiro plano, entre cavalos empinados e granadeiros belos como Apolos, que expiram em atitude nobre! Foi assim em 1847; há-de ser assim em 1880.

   No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a pátria ou morriam pela "fronteira científica", lá ficam, pasto de corvos - o que não é, no Afeganistão, uma respeitável imagem retórica: aí, são os corvos que fazem a limpeza das ruas - comendo as imundícies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas. 

   E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónica... Consoladora filosofia das guerras!

   No entanto a Inglaterra goza por algum tempo a «grande vitória do Afeganistão» - com a certeza de ter de recomeçar, daqui a dez anos ou quinze anos...

   O que mais me faz refletir nesta história é o sentimento de superioridade e força que facilmente se apodera das grandes potências, levando-as a ignorar os outros povos e suas culturas, posto que estes vão sempre sendo considerados passivos ou instrumentos disponíveis e utilizáveis, ou, obsessivamente, inimigos, obstáculos ou nocividades a eliminar... No caso do Afeganistão, por exemplo, depois de russos e ingleses, vieram mais russos e soviéticos, norte americanos e NATO, al Qaeda e talibã... Mas neste caso, como em vários outros - apesar de algumas analogias com eventos já passados, e da essencial megalomania dos potentados-- mais preocupante será a opaca ignorância dos outros e suas culturas, bem como a cegueira da própria consciência de si, com a alienação das verdadeiras causas dos seus próprios atos e consequências. Explico...  

  Hoje mesmo, percorrendo jornais e revistas respeitáveis e influentes, sobretudo no universo anglo-americano, deparo com essa jeremíada interrogação sobre se a aparente derrota no Afeganistão será verdadeiramente o canto do cisne do poderio americano como polícia do mundo. Repara, minha Princesa do além de mim, que falo de derrota aparente, e também me interrogo sobre o que será um poder e o seu respetivo desastre. Afinal, e humildemente, porque não sei; ou antes será por não me parecer interessante a pergunta, nem a resposta. Aflige-me a endémica mania das grandes potências se servirem de, ou subsidiarem, mais pequenos, frágeis ou iludíveis, para custearem a prossecução dos seus interesses próximos. Se repararmos bem, os EUA apoiaram, militar e financeiramente os talibã contra os soviéticos, em tempos de guerra fria, tal com são garantes da aliança israelo-saudita, no jogo das potências regionais do médio oriente, ao ponto de parecerem ter esquecido que a Al Qaeda, autora dos atentados de 11 de Setembro de 2001 - cujo 20º aniversário agora decorre - é de raíz wahabita e saudita, e por essa facção islâmica - e o reino que a aconchega - sustentada.

   Não seria mais avisado, sobretudo em tempos de renovação energética, ir-se abandonando a extrema dependência petrolífera do médio oriente arábico, e conduzir uma política de encontros entre culturas e religiões? Hipótese que, aliás, ganha nova força se pensarmos que, por um lado, a maioria dos estados muçulmanos são hoje repúblicas laicas e seculares, e que a renovação do pensamento religioso, ou teológico, islâmico conta, em todo o mundo, com um número crescente de escolas e seguidores? Ainda muito recentemente, o sociólogo do Islão Reda Benkirane defendia que o apregoado regresso da religião muçulmana é, na realidade, uma saída do Islão da política, mantendo-se a sua invocação apenas como instrumento de legitimação do poder, de forma a produzir a ilusão da transcendência deste...

   Num mundo que consideramos crescentemente global, insisto, o conhecimento e respeito mútuo das culturas e religiões, das diferentes comunidades humanas é o passo pioneiro no longo caminho para uma paz consciente. Em futuras cartas, minha sempre princesa do Além, falaremos dos movimentos ecuménicos que foram despertando - e até dando frutos - ao longo da nossa atribulada história, bem como das místicas que os sustentaram. Por hoje, quero tão somente transcrever um trecho da biografia de frei Sérgio de Laugier de Beaurecueil, escrita pelo seu confrade dominicano frei Jean-Jacques Pérennès (Passion Kaboul, Le Cerf, Paris, 2014):

   Único padre católico - ou quase - no Afeganistão, ele vive com a questão do «mistério do Islão», tal como Jorge Anawati [este, dominicano egípcio, co-fundador, com Beaurecueil, do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo]. Ambos não escondiam a sua admiração pelo franciscano marroquino Jean-Mohamed Abd el-Jalil, cuja conversão ao cristianismo não tinha alterado a estima pela religião dos seus pais. No seu belíssimo livro «Aspects Intérieurs de l´Islam», Abd el-Jalil esforça-se por apresentar o interior da religião em que nascera, a fim de lhe revelar a profundidade espiritual. Religioso cristão completamente imerso no mundo muçulmano, Serge de Beaurecueil era, ele também, sensível ao caminho espiritual percorrido por vários muçulmanos com que lhe era dado encontrar-se.  

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

"AS MULHERES SEJAM SUBMISSAS AOS MARIDOS"

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Sobre o sexo, as mulheres, as religiões e a Igreja já escrevi aqui muitas vezes. Também em livros que publiquei, incluindo o próximo, O Mundo e a Igreja. Que Futuro?, que espero esteja nas livrarias em finais de Outubro. Retomo hoje o tema muito rapidamente, por causa do “alarido” que houve nos média provocado por uma leitura na Eucaristia de um Domingo passado, transmitida pela televisão pública. Algum esclarecimento é devido.

 

1.  O que se passou é que foi feita uma leitura bíblica a dizer: “As mulheres sejam submissas aos maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o Chefe da Igreja”.

Previno que o texto é da Carta aos Efésios, atribuída a São Paulo, mas a autoria realmente não lhe pertence. Aliás, é preciso dizer que, no cristianismo, com Jesus, que escandalosamente tinha discípulos e discípulas, São Paulo deu um contributo decisivo para a emancipação feminina: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus”, escreveu na Carta aos Gálatas; e na Carta aos Romanos descreve Júnia como ilustre entre os Apóstolos.

 

2.  Todas as religiões se entendem a si mesmas como reveladas. A pergunta é: como sabem os crentes que Deus falou?

A religião tem sempre na sua base uma interpretação humana da realidade, da única realidade que há, comum a crentes e a não crentes, e que é ambígua. Para o crente, a realidade mesma, para a sua compreensão adequada, aparece-lhe como incluindo uma Presença que não se vê em si mesma, mas implicada no que se vê. Mediante certas características - a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido último -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença divina como seu fundamento e sentido últimos. Assim, como escreve A. Torres Queiruga, na estrutura íntima do processo religioso, “não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum”.

A fé, no seu nível próprio, tem razões, de tal modo que está sujeita à verificação.  Aí, o agnóstico dirá que não vê razões para poder decidir-se. O ateu julga que as razões contrárias são mais fortes e, por isso, não crê. Para o crente, a “hipótese religiosa” é a que melhor esclarece as experiências e questões radicais postas pela realidade e pela existência: a contingência, as perguntas últimas pela vida e pela morte, a esperança, a exigência ética, o sentido da existência e da História.

 

3.  A partir de uma experiência religiosa de fundo por parte do profeta ou do fundador religioso, desencadeia-se um processo vivo que dá origem a tradições religiosas ou religiões que acabam por sedimentar ou cristalizar em livros sagrados, considerados “revelados”. Os novos crentes não aceitam a verdade da fé por via autoritativa. Eles próprios podem comprová-la. A. Torres Queiruga, o teólogo que de modo mais penetrante tentou esclarecer esta questão, chamou a esta compreensão “maiêutica histórica”. Na verdade religiosa, há os profetas e os fundadores das religiões, que foram os primeiros a tomar consciência da verdade. Mas, após essa descoberta, ouvindo-os e acompanhando-os, outros se podem dar conta por si mesmos da mesma verdade.

A partir daqui, compreende-se que Deus se manifesta, mas nunca directamente, sempre e só indirectamente. Jamais alguém viu ou falou directamente com Deus. Por isso, os livros sagrados não são um ditado divino – são Palavra de Deus em palavras humanas. Os seus autores escreveram e os seus leitores lêem com uma pré-compreensão, isto é, no quadro de pressupostos históricos e culturais, interesses e expectativas. Portanto, a sua leitura nunca pode ser literal, pois implica sempre uma interpretação.

Torna-se, pois, claro que os livros sagrados – a Bíblia, o Alcorão e todos os outros – não são ditados divinos e precisam, por isso, de uma interpretação histórico-crítica e de uma mediação hermenêutica, não podendo de modo nenhum ser engolidos na sua totalidade de modo acrítico. É preciso lê-los, atendendo à língua original, ao género literário, aos destinatários, ao contexto...

A verdade de qualquer livro sagrado só pode acontecer na compreensão de que o seu horizonte é a salvação. Eles são livros religiosos voltados para a oferta de libertação, dignificação, salvação.

Se toda a religião tem como ponto de partida e “definição” a pergunta essencial: o quê ou quem traz libertação e salvação?, então a libertação-salvação total é que constitui o fio hermenêutico decisivo para a interpretação correcta dos livros sagrados na sua verdade final. Só a esta luz é que eles são verdadeiros. A sua leitura nunca pode ser fragmentada, já que só no seu todo é que se reclamam da verdade. Em tudo quanto neles se encontra de menos humano ou até de desumano revela-se o que Deus não é.

À luz da libertação final, que implica uma antropologia e uma teologia negativas, os livros sagrados são também a história da tomada de consciência por parte dos humanos do que Deus, o Sagrado, não é e do que eles, para se tornarem verdadeiramente humanos, não devem ser.

 

4.  Conclusão: O alarido todo não pode ser atribuído à “talibona” que fez a leitura na Eucaristia. A culpa não é dela, mas dos responsáveis que deveriam, embora continuando na Bíblia, retirar esse texto da celebração litúrgica.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 4 de setembro de 2021

FÉRIAS: TEMPO FESTIVO

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1. O ser humano tem como uma das suas características ser laborans (trabalhador). Não apenas para ganhar a vida — uma expressão extraordinária, embora dura: a vida foi-nos dada e, depois, é preciso ganhá-la, e uma das coisas que me têm sido ensinadas pela experiência é que quem nada tem que fazer para ganhar a vida, trabalhando, porque tudo lhe é oferecido, nunca atinge uma adultidade madura —, mas também para se realizar autenticamente em humanidade. De facto, é transformando o mundo que a pessoa se transforma e faz. Isso é dito no étimo de duas palavras: a palavra trabalho vem do latim, tripalium, um instrumento de tortura (trabalhar não é duro?), mas também dizemos de alguém que realizou uma obra e que se vai publicar as obras de alguém (do latim, opera) — em inglês, trabalhar diz-se to work, e, em alemão, Werk é uma obra, sendo o seu étimo érgon, em grego. Ai de quem, à sua maneira, não realiza uma obra, a obra primeira que é a sua própria existência autêntica! Fazendo o que fazemos, o que é que andamos no mundo a fazer? A fazer-nos, e, no final, seria magnífico que o resultado fosse uma obra de arte.

Logo no princípio, Deus disse que o Homem tem de trabalhar. É próprio do Homem trabalhar, pois ele é constitutivamente relação com o mundo. Esta relação com o mundo é mais do que uma relação de trabalho para a produção de bens em ordem à subsistência: o trabalho é também realização própria, social e histórica: construindo o mundo, a Humanidade ergue a sua história de fazer-se.

Jesus também trabalhou, e trabalhou no duro. Normalmente, diz-se que era caprinteiro, mas o grego — os Evangelhos foram escritos em grego — diz que era um téktôn (donde vem arquitecto), isto é, o que antigamente se chamava um “faz-tudo”: era capaz de ajudar a erguer uma casa e preparar instrumentos agrícolas. Foi nessa relação dura com o trabalho, e foi a trabalhar que passou a maior parte da sua vida, que percebeu melhor a vida e, por exemplo, as relações entre quem tem muito dinheiro e os outros... Estou convencido de que, se o clero tivesse mais experiência do trabalho duro, haveria outra compreensão da Igreja na sua missão no mundo... A vida é exaltante, mas também é dura, esmagadora por vezes. Isso diz-se nos rituais dos mortos, quando se reza: “Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso... Descansa em paz. Amén.” Tantas são as canseiras da vida!...

 

2. Mas Deus também estabeleceu um dia de descanso e Jesus, diz o Evangelho, também descansou. É necesssário sublinhar que a Bíblia faz questão de dizer que Deus deu o mandamento de um dia feriado semanal, santo, sem trabalho, para que o Homem fizesse a experiência de que não é uma besta de carga, mas um ser festivo. Tem de trabalhar — e duro —, mas não é besta de carga. E aí está o Domingo ou o luxo de um feriado aqui e ali. Aí estão as férias.

E as palavras não são arbitrárias. A palavra latina feria, no plural feriae, tinha o sentido de "descanso, repouso, paz, dias de festa". No século III, a Igreja assumiu os dias da semana como dias de "comemoração festiva", enumerando-os como feria prima, feria secunda, tertia, quarta, quinta, sexta, ou, invertendo a ordem das palavras: prima feria, secunda feria, tertia feria, quarta feria, quinta feria, sexta feria. Daí, ao contrário de outras línguas, como o espanhol, o italiano, o francês, etc., que adoptaram a classificação romana baseada na divinização de um planeta: Lunes, Martes, Lundi, Mardi, etc., o português ter seguido a designação eclesiástica: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, etc. Que feira enquanto mercado esteja igualmente associada a feria deriva do facto de os comerciantes aproveitarem os dias festivos para vender as suas mercadorias.

O importante é sublinhar, até do ponto de vista histórico e etimológico, o carácter festivo associado às férias. Assim, em espanhol férias diz-se vacaciones e em francês vacances. Ora, vacaciones e vacances têm o seu étimo no latim vacatio, com o significado de isenção, dispensa de serviço. Os ingleses em férias dizem que estão on holidays, e isso quer dizer em dias santos. Os alemães, esses têm Ferien ou Urlaub. Ora, a raiz de Urlaub é Erlaubnis, com o sentido de dias livres de serviço e trabalho.

Se pensarmos bem, as férias não têm como finalidade  serem apenas um intervalo no trabalho, para repor as forças em ordem a trabalhar outra vez e mais. As férias têm o seu fim em si mesmas: a experiência de que o ser humano é um ser festivo. É preciso apanhar sol na praia, no campo, na montanha, ler a grande literatura, ouvir música, que nos remete para origens imemoriais e para a transcendência utópica toda. É preciso reaprender a ver o sol a nascer e a pôr-se, e a exaltar-se com a lua enorme — cheia — ou pequenina que nem um fio, e com o alfobre das estrelas: isso que na cidade não se vê. É preciso voltar às alegrias simples: contemplar uma simples folha de erva, acolher o perfume de uma “rosa sem porquê”, como dizia Angelus Silesius, o inútil do ponto de vista da produção — "o fascinante esplendor do inútil", escreveu George Steiner —, exaltar-se com o enigma de um rosto, o mistério do ser e de ser. É preciso ter tempo para a Família, para os amigos, para ouvir o Silêncio onde se acendem as palavras que iluminam. É preciso ter tempo para a beleza: não é a beleza que redime o mundo, como disse Dostoiévski? Tempo para o melhor: ouvir Deus, dialogar com o Infinito. Rezar.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 21 AGOSTO 2021

    

DEUS MORREU? TESTEMUNHOS

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Há quase 150 anos (1882), Nietzsche proclamou a morte de Deus. Desde então, o mundo não é o mesmo. É certo que para Nietzsche o cristianismo é que é propriamente uma religião niilista, de tal modo que, com a proclamação da morte de Deus, é o mar infindo das novas possibilidades do sim à vida que se abre. “Quem o matou fomos todos nós, vós mesmos e eu!” “Nunca existiu acto mais grandioso.” No entanto, à morte de Deus não se seguiria a morte do Homem e do sentido último de toda a realidade? Nietzsche tem consciência aguda do que se segue: “Para onde vamos nós, agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para a frente, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?”

Segundo Gilles Lipovetsky, "Deus morreu, as grandes finalidades extinguem-se, mas toda a gente se está a lixar para isso. O vazio do sentido, a derrocada dos ideais não levou, como se poderia esperar, a mais angústia, a mais absurdo, a mais pessimismo": isto escreveu ele em A era do vazio. Os espíritos mais atentos acham, porém, que é necessário dar antes razão a L. Kolakowski, o filósofo polaco agnóstico, quando afirmou que, desde a proclamação da morte de Deus por Nietzsche, nunca mais houve ateus serenos: "Com a segurança da fé desfez-se também a segurança da incredulidade. Ao contrário de um mundo familiar, protegido por uma natureza benéfica e benigna, como era proposto pelo ateísmo iluminista, o mundo sem Deus dos nossos dias é sentido como um caos opressor, eterno. É um mundo privado de todo o sentido, de qualquer orientação, sinal de direcção, estrutura. De há cem anos a esta parte, praticamente nunca mais vimos ateus serenos. A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre aberta do espírito europeu, por maior que tenha sido o esforço feito para esquecê-la, recorrendo a toda a espécie de narcóticos." De qualquer forma, no seu livro posterior, A Sociedade da Decepção, o próprio Lipovetsky, reconehcendo “a reafirmação do religioso”, veio dizer que, “privados de sistemas de sentido englobante, numerosos indivíduos encontram uma tábua de salvação no reinvestimento de antigas e novas espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um sentido, referências, uma integração comunitária: é do que o Homem necessita para combater a angústia do caos, a incerteza e o vazio.”

Como escreveu o filósofo Eusebi Colomer, a própria expressão "morte de Deus" não é unívoca, pois pode ter e tem múltiplos sentidos. Pode significar que Deus realmente nunca existiu, embora só recentemente tenhamos feito essa descoberta. Pode querer dizer que talvez Deus exista, mas os seres humanos, que outrora se lhe dirigiram pela fé e pela invocação, hoje já não acreditam nele. Talvez queiramos apenas exprimir a experiência de ausência e aparente silêncio de Deus, própria do nosso tempo. Talvez estejamos apenas a referir-nos à necesssidade de transcender constantemente as nossas ideias acerca de Deus, e, neste sentido, a "morte de Deus" significa a morte dos ídolos fabricados por nós. Afinal, que Deus era esse que morreu? Se o Deus verdadeiro é o Deus sempre maior, que transcende sempre tudo quanto possamos pensar ou afirmar dele, então os deuses enquanto ídolos têm que morrer, para ser possível a fé no Deus verdadeiro...

Neste domínio, a pergunta essencial consiste em saber se é possível ser Homem sem colocar honestamente a questão de Deus. É que ser Homem é a abertura ao Infinito, e, assim, a questão do Homem é a questão de Deus precisamente enquanto questão. Neste contexto, afirmar Deus não é então também um modo de expressar a confiança no Sentido último, como sugeriu o filósofo L. Wittgenstein?

De facto, como disse Marion Gräfin Dönhoff, co-editora do conhecido semanário alemão “Die Zeit”, "o fixar-se exclusivamente no aquém, que corta o Homem das suas fontes metafísicas, e o positivismo total, que se ocupa apenas com a superfície das coisas, não podem dar aos seres humanos um sentido duradouro e estável, e, por isso, levam à frustração".

Isto tudo não prova, evidentemente, a existência de Deus. Significa apenas que o Homem se não compreende cabalmente sem colocar a questão de Deus. Aliás, a relação de cada um com Deus é um mistério para si próprio. Para ficar na actualidade, lembro que o insigne psiquaiatra Daniel Sampaio, com quem tive o privilégio de debater uma vez na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto a questão do sentido da vida e o suicídio, declarou, depois da luta pessoal duríssima que travou com a covid-19, que durante a doença chegou a lembrar-se de Deus e agradeceu a quem por ele rezou a um Deus que ele, não crendo, respeita.

Continuando na actualidade, investigações científicas recentes — uma da prestiagiada Universidade Católica de América, em Washington, a outra, publicada na conhecida revista MedNext —, concluíram, respectivamente, que “as pessoas que se mostram activas nas comunidades religiosas tendem a ter níveis mais altos de bem-estar, tendo sido este o caso durante a pandemia”, e que há uma “relação salutar entre a espiritualdiade e o sistema imunitário”.

Por fim, o nadador norteamericano Caeleb Dressel, que se afirma profundamente cristão e que trouxe dos Jogos Olímpicos em Tóquio cinco medalhas de ouro, declarou que Jesus é mais importante do que as medalhas de ouro: “a minha felicidade está em Deus”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 AGOSTO 2021

O CRISTO PENSADOR

 

Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX, deixou escapar um dia, numa aula, uma daquelas observações que nunca mais se esquecem: na Igreja católica, é obrigatório confessar os pecados graves e mortais, mas ele não estava a ver que algum bispo ou padre ou superior religioso, ministro ou professor católico se tenha alguma vez confessado do pecado grave e, frequentemente, mortal, da ignorância culpada, da incompetência fatal, da inteligência irresponsavelmente menorizada.


Em geral, nas igrejas, faz-se pouco apelo à razão, à reflexão crítica, à pergunta. Como se a fé não tivesse de conviver com a inteligência, com a dúvida e com a pergunta. Os cristãos – mas isso acontece em todas as religiões – parece que ficam tolhidos na sua capacidade de perguntar. No entanto, Jesus morreu a rezar esta pergunta infinita que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, e o filósofo Martin Heidegger, um dos maiores  do século XX, escreveu que “a pergunta é a piedade do pensamento”.


Na catequese e nas pregações da Igreja, parte-se, desgraçadamente,  de um Cristo definido dogmaticamente e concebido à maneira de um robô, que chegou a este mundo já pré-programado e que não fez senão cumprir esse programa. Por isso, não precisou de pensar, não teve hesitações, não passou por tentações, não teve de decidir ele mesmo o que devia fazer para realizar a vontade de Deus, a quem chamava com ternura Abbá, querido Papá.


Na Igreja, valoriza-se a obediência, referindo constantemente aquele passo de São Paulo: “Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz”. Mas quase nunca se explica o que é a obediência de Cristo, ocultando que, para obedecer a Deus e ao que Deus quer – dignidade, futuro, fraternidade, liberdade para todos --, teve de desobedecer aos opressores, nomeadamente a uma religião que, em vez de libertar, oprimia.


Tanto entre os crentes como entre os ateus e os sem religião, não faltam os que julgam saber, com saber certo, sem qualquer dúvida nem hesitação, o que Deus é, em que consiste a vontade divina para cada pessoa, qual é o sentido da História e do mundo. Entronizados no poder, definem dogmas, estabelecem normas e mandam com soberania inquestionável.


Os seres humanos são, por natureza, frágeis, carentes e, por isso, é quase inevitável que, entre a liberdade e a segurança, a maioria não hesite em escolher a segurança, como já aqui expliquei, referindo o diálogo entre o Grande Inquisidor e Cristo em Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. O Grande Inquisidor disse a Cristo num calabouço do Santo Ofício, onde O tinha mandado prender: que O queima na fogueira como o pior dos hereges, e a razão é que a liberdade de fé tinha sido para Ele a coisa mais preciosa. Não foi Ele que disse tantas vezes: “Quero tornar-vos livres?” Cristo não percebeu que “o Homem não tem preocupação mais torturante do que encontrar alguém em quem possa delegar o mais depressa possível a dádiva da sua liberdade.”


“Em vez de Te apoderares da liberdade das pessoas, acrescentaste ainda mais à sua liberdade!”, diz-lhe o Inquisidor. Por isso, os hierarcas eclesiásticos corrigiram a façanha de Cristo, baseando-a em milagre e autoridade. Agora, todos sabem em que hão-de acreditar e o que devem fazer, sem terem de perguntar porquê nem de escolher. “E as pessoas ficaram contentes por serem de novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos seus corações a dádiva terrível que tanto sofrimento lhes causava.” Daí, a ordem do velho cardeal inquisidor: “Cristo, vai-te embora e não voltes mais... não voltes... nunca, nunca!”


Perguntar vem do latim percontari, que, por sua vez, terá na sua base contus, vara comprida. Então, perguntar, etimologicamente, quer dizer examinar o fundo de um rio ou de um tanque com um bastão e, portanto, sondar o interior da pessoa e da realidade.


Só o Homem pensa e pergunta. Lá está “O pensador” de Rodin. Um animal com a mão encostada à face ou a face entre as mãos, a cabeça inclinada e absorto, é um homem que pensa: tenta ver o seu interior e o mais fundo de tudo. Nenhum outro animal pensa nem se examina nem examina as consequências dos seus actos nem pergunta. O Homem pergunta, e a sua pergunta não tem limites. E é assim que, nesse seu perguntar, pode surgir a questão da transcendência e de Deus. Como escreveu Theodor Adorno, da Escola Crítica de Frankfurt, “o pensamento que se não decapita desemboca na transcendência”.


Por tudo isto, é uma surpresa boa encontrar em Vilnius algo típico da Lituânia, talvez porque é um povo que sofreu demasiado: umas pequenas estátuas de Cristo a pensar -- o Cristo pensador. Estive uma vez em Vinius e a recordação que trouxe e que se encontra presente na minha mesinha de cabeceira é uma dessas pequenas estátuas.


Pensar vem do latim pensare, com o significado de ponderar, examinar, pesar argumentos e razões. Pensar pode ter também o significado de aplicar o curativo, os remédios necessários. E é assim que, em português, pesar também quer dizer solidariedade com a tristeza de alguém que sofre.


Neste contexto, quero prevenir que me parece que se pensa pouco, mas que, se todos os dias se dedicasse um pouco mais de tempo a pensar, muitos desastres pessoais e familiares teriam sido evitados. Também seriam evitados a nível colectivo, se os políticos se dedicassem a pensar verdadeiramente no bem comum e não ficassem confinados no mero pensar astucioso para ganhar eleições.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 7 AGOSTO 2021

REENCARNAÇÃO?

 

A doutrina da reencarnação é partilhada por mais de mil milhões de seres humanos. Basta pensar que ela é património das religiões de origem indiana: hinduísmo, budismo, etc. Embora se discuta a influência indiana sobre os primeiros pensadores gregos, é um facto que não só os órficos e Pitágoras mas também Platão e os neoplatónicos seguiram essa doutrina, bem como algumas seitas da Idade Média. Entre os seus sequazes contam-se inclusivamente grandes espíritos do classicismo e romantismo alemão. Segundo a investigação de Hans Küng, "poetas e filósofos como Kant, Lessing, Lichtenberg, Lavater, Herder, Goethe e Schopenhauer seguiram, pelo menos durante algum tempo, a doutrina da reencarnação". Embora reinterptretando-a, também o filósofo Ernst Bloch começou por defender a metempsicose. Hoje, tanto na Europa como na América, a reencarnação é a crença de enorme número de pessoas, nomeadamente entre os adeptos do espiritismo, teosofia e antroposofia. Quase um quinto dos europeus adultos, incluindo católicos, diz acreditar nela: 21%, segundo uma sondagem em vários países da Europa ocidental.


O que com a doutrina da reencarnação se quer explicar é essencialmente o mal, as desigualdades entre os seres humanos, o seu destino trágico e incompreeensível, responder, portanto, à problemática moral do mundo, à questão da justiça. Porque é que Mozart manifestava o seu génio já aos cinco anos, porque é que há a criança que nasce mongólica ou cega e outra é superdotada? Na doutrina da reencarnação, isso explica-se como consequência das acções das existências anteriores: um deve pagar pelas suas faltas e purificar-se, outro é beneficiado pelas suas obras boas. As acções produzem um resultado -- bom ou mau--, e há uma lei cósmica de causa-efeito e de retribuição quase automática e mecânica dos nossos actos -- o "karma", segundo o hinduísmo.


A presente situação é, pois, consequência de vidas anteriores. Deste modo, pretende-se solucionar o problema da teodiceia -- justificação de Deus --, pois explicar-se-ia o que parece totalmente injusto: que aos maus a vida corra bem e aos bons tantas vezes corra mal -- o mal dos bons é por causa de culpas anteriores e o bem dos maus por causa de boas acções. A reencarnação purifica de erros e crimes de vidas precedentes e é um apelo à responsabilidade moral. Por outro lado, vai-se fazendo um percurso para melhorar a existência, o que não é possível numa só vida.


A doutrina da reencarnação não é, porém, imune à crítica. Pergunta-se, por exemplo: se a actual situação do Homem é consequência da existência anterior, esta, por sua vez, não deve ser explicada por outra que a precedeu, e assim sucessivamente, num regresso sem fim de reencarnações, de tal modo que o mal que se queria explicar fica inexplicado? E de que serve o recurso a vidas anteriores, se tudo foi esquecido, ficando, portanto, destruída a identidade pessoal exigida para explicar a situação de felicidade ou miséria em que cada um se encontra? É certo que há pessoas que afirmam, em determinadas circunstâncias e perante factos concretos, o sentimento do já visto ou já vivido, e há até as experiências dos comatosos, incluindo a sensação de extracorporalidade, descritas na obra de grande sensação A vida depois da vida, do Dr. Moody. Mas é claro, quanto a estes, que, "se regressaram" à vida é porque na realidade não tinham morrido, e o outro tipo de experiências com pretensas lembranças de vidas anteriores encontra explicação ao nível da parapsicologia, da telepatia, da memória colectiva e do inconsciente. De qualquer modo, como escreve o teólogo Hans Küng, é preciso reconhecer que, neste domínio, não há, apesar dos inúmeros relatos, factos cientificamente estabelecidos e universalmente aceites.


Aliás, deve-se também perguntar: no ciclo das reencarnações, como é que se explicaria o crescimento da população mundial?


A fraqueza maior da doutrina da reencarnação provém do seu pressuposto teórico essencial: a concepção dualista do Homem, que seria um composto de alma e corpo. Na morte, sobrevive a alma, que pode reencarnar noutro corpo humano, num animal ou até num vegetal. Ora, é precisamente esta concepção dualista de Homem que é inaceitável. O corpo não é o túmulo da alma nem simples instrumento seu. Somos hoje cépticos frente à afirmação de uma alma pré-existente ao corpo ou de uma alma separada do corpo após a morte. Aliás, já Santo Tomás de Aquino vira que a alma separada não é a pessoa: “a minha alma não sou eu”. Como admitir o dualismo, se, quando pergunto porque é que eu sou eu, porque é que sou como sou, tenho de responder que o meu corpo faz parte da minha identidade? Nascido de outros pais, com outra herança genética, com outra educação, é evidente que não seria eu.


Há na reencarnação a ideia de que o Homem pelo seu esforço constantemente repetido em vidas sucessivas pode alcançar a plenitude da sua realização. Isso não dá conta da realidade humana.  O Homem permanecerá sempre finito, sem poder dar por si o salto para o Infinito.


É preciso reconhecer que a vida em plenitude, sem a qual a existência humana não encontra sentido adequado, só pode ser acolhida como dom gratuito de Deus. Na perspectiva cristã, o Homem realiza a sua salvação respondendo activamente à oferta graciosa que Deus lhe faz, bastando uma vida. "Em vez da lei cruel da causalidade do karma", na expressão de Hans Küng, o cristianismo anuncia "o Deus misericordioso e magnânimo", que ressuscita os mortos.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 31 JULHO 2021

À MARGEM DE CARTAS ANTIGAS


Recordo-me de que várias das minhas cartas à Princesa de mim, nos interrogavam acerca da fé. Duas delas me ocorreram mais profunda e assiduamente no decurso da minha presente caminhada pela areia fugidia de um deserto desconhecido, ardente talvez, todavia silencioso. Até por dentro me queima, a tal ponto que já nem gritar sei. E com silêncio, como num desafio, à minha mudez responde. Seco de recursos, só a mim pergunto o que tantas vezes implorei em versos velhinhos, como estes que compõem um dos meus Sonetos de Amor Mordido que enviei em carta à Princesa de mim, e o blogue do Centro Nacional de Cultura publicou em agosto de 2013. Rezava a carta: O amor humano é procura e sinal. Como no Cântico dos Cânticos, poderia dizer-te o grito que lanço a Deus:    


No deserto cresce o meu desejo
    
por ti tantas vezes destemido:
     
és a minha fome e o meu pedido
 
de ver-te, Senhor, a Quem não vejo...

Minha sede é seres, e só procuro    
a fonte da sede que me dás;
 
no desejo de ti vivo e duro 
   
com sede da sede que me traz
    

este deserto em que sou despojo,       
lixo de ser, graça do teu nojo...
Esqueleto ebúrneo me levanto,  

branco de areia, de morte e de espanto,  
e de ti te grito a minha fome.

E sei que te chamo pelo teu nome!
 


Ao evocar a definição de fé na epístola aos Hebreus (11, 1), automaticamente ela me ocorre na versão latina da Vulgata: Fides est substantia sperandarum rerum. Traduzo empiricamente: "A fé é a substância das coisas que devemos esperar". Tradução ambígua, significação ambivalente, já que substantia é o que está por baixo, ou seja, o assento ou sustentáculo, o apoio; mas também é o que constitui, isto é, aquilo de que algo é feito. Mas não será a fé isso tudo? Na respetiva tradução direta do grego, o cónego José Falcão escreve: "A fé é o sustentáculo das coisas que se esperam". O professor Frederico Lourenço, por seu turno em tradução direta do grego: "Fé é garantia de coisas que se esperam", versão próxima da francesa de Bible de Jérusalem: "Or la foi est la garantie des biens que l´on espère... Assim sendo, pode pois concluir-se que sem fé não há esperança, da qual ela é, necessariamente, a base, o sustentáculo. Mas a fé surge também enquanto garantia de bens por vir, como se, não havendo ou faltando fé, esses futuríveis não se realizassem. A partir daqui, fará pleno sentido a afirmação latina constante da Vulgata, que traduzi por "a fé é a substância das coisas que devemos esperar", ou seja, que ela é mais do que sustentáculo e sustento, sendo afinal a própria essência delas, a sua realidade atual.


Para qualquer leitor assíduo do Novo Testamento - isto é, da Bíblia propriamente cristã -, tal como para qualquer observador atento da história e escritos dos primitivos cristãos, ressalta a evidência de que a sua fé se vota e devota fundamentalmente à pessoa de Jesus Cristo. A fé cristã é, assim, a confiança posta na pessoa do Verbo feito carne, com o qual, e pelo qual, todos nos tornamos filhos de Deus. Acreditamos na palavra do Senhor Jesus, e por ela sabemos que o bem que devemos esperar, o Reino, já está dentro de nós : Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, Jesus respondeu-lhes : «O Reino de Deus não vem de maneira observável. As pessoas não afirmarão "Ei-lo aqui" ou "Ei-lo ali". Pois o Reino de Deus está dentro de vós». (Lucas, 17, 20-21). A nós cabe fazê-lo crescer, somos parte integrante da sua vinda.


Quando vier o Filho da Humanidade na sua glória...   ...dirá o rei àqueles que estão à sua direita: «Vinde, benditos do meu Pai, e herdai o reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Eu tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, eu era estrangeiro e acolhestes-me, estava nu e vestistes-me, estava doente e visitastes-me, estava na prisão e viestes até mim».
(Mateus, 25, 34-36)


E dizia ainda: «Bem aventurados os mendigos, porque vosso é o Reino de Deus. Bem aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem aventurados os que chorais agora, porque rireis». (Lucas, 6, 20-21)


Vale a pena citar aqui a tradução, por Frederico Lourenço, dos versículos 1 a 10 do capítulo 5 do evangelho segundo Mateus: 


Vendo as multidões, Jesus subiu até à montanha e, sentando-se, vieram ter com ele os seus discípulos. E abrindo a sua boca, ensinou-os, dizendo: 


   «Bem aventurados os mendigos pelo espírito,
   porque deles é o reino dos céus.
   Bem aventurados os que estão de luto,
   porque eles serão reconfortados.
   Bem aventurados os gentis,
   porque eles herdarão a terra.
   Bem aventurados os esfomeados e os sedentos de justiça,
   porque eles serão saciados.
   Bem aventurados os misericordiosos,
   porque eles serão alvo de misericórdia.
   Bem aventurados os puros pelo coração,
   porque eles verão Deus.
   Bem aventurados os que fazem a paz,
   porque eles serão chamados filhos de Deus.
   Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça,
   porque deles é o reino dos céus.


O Reino de Deus está dentro de nós: o luto ou saudade dorida, a gentileza ou mansidão, a sede de justiça e a misericórdia, a pureza de intenções e o amor da paz, a perseverança no bem, tudo isso, com sua paixão, nasce connosco, é parte integrante da nossa contraditória condição humana. E é essencialmente a nossa fé, desde já substância do bem que um dia nos será dado. O Reino, ensina-nos Jesus, não está fora de nós, antes em nós cresce, se o procurarmos. As suas bem-aventuranças são-nos dadas, como potencialidade e chamamento. A religião cristã é simples, no sentido em que não exige grandes especulações metafísicas ou teológicas, mas tão somente a humanidade benevolente de escutarmos e nos inspirarmos nas palavras misericordiosas de Jesus. E será pelo amor aos outros que nos reconhecerão.


Escrevia estas linhas, quando um telefonema de um hospital de Torres Vedras me anunciou a morte da Isabel Maria, minha Mulher há mais de 55 anos. Na dor que me enche o coração, encontro ainda a alegria de ter assistido, durante esses anos todos, à bondade cristã de uma mulher que amava e procurava a concórdia e a paz, a justiça e a misericórdia, a visão de Deus no coração da humanidade. Foi sempre construindo um pedacinho do Reino de Deus, atenta aos sinais temporais dos bens que devemos esperar, e sempre disponível para o acolhimento, a consolação e a partilha.


Regresso agora das exéquias fúnebres e retomo a escrita. Para acrescentar apenas que escolhi a versão portuguesa de Frederico Lourenço para citar o sermão da montanha, porque gosto das expressões mendigos pelo espírito e puros pelo  coração, já que me sugerem a ação do espírito e a do coração por ele movido. Essa é a lembrança que guardo da Isabel Maria, bem perto da fonte da nossa religião.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

O SÉTIMO MANDAMENTO: CONTRA OS LADRÕES

 

1. Há um mandamento da lei de Deus (quem é que ainda se lembra que os mandamentos são dez?) — o sétimo — que diz: “Não roubarás.”


Antes de mais, é preciso esclarecer que os mandamentos da lei de Deus — o Decálogo — são dados em nome do Deus libertador do povo escravizaddo no Egipto. Todo o Antigo Testamento tem como eixo essa experiência essencial da libertação da escravidão. Assim, por paradoxal que pareça, os mandamentos, em última análise, resumem-se nesta ordem: sois livres, não escravizeis ninguém, não vos deixeis escravizar por nada nem por ninguém, não sejais escravos de vós próprios.


Por isso, ao contrário do que se julga, este sétimo mandamento não está imediatamente referido à propriedade e ao roubo da propriedade, mas ao roubo do Homem, isto é, ao roubo daquilo que faz do Homem ser humano: a liberdade. Mas,  por outro lado, também se percebe que este mandamento — não roubarás —, embora se não refira directamente à propriedade, inclui a propriedade, pois, como disse o teólogo Heinz Zahrnt, há um vínculo estreito entre propriedade e liberdade: “a propriedade garante a liberdade e torna autoconsciente”. Em certa medida, o que o Homem “é” também depende do que ele “tem”. Isso é dito até na palavra “posses” (teres), do latim “posse” (poder): ela refere o que o Homem possui e também o que ele pode ou não: comer, vestir-se, dar a si memso ou a alguém uma alegria, construir uma casa, ter acesso à cultura, ajudar um necessitado ou um amigo. Por outro lado, não é só o ter, não é a quantidade do que se possui que determina por si só o grau de liberdade. A propriedade proporciona liberdade, mas também pode levar à não liberdade, pois pode conduzir à loucura de confundir a existência com a posse de bens e à escravização de outros seres humanos.


Assim, este mandamento “determina a relação entre propriedade e liberdade num duplo sentido: previne contra o perigo de perder a liberdade própria”, na medida em que alguém se deixa escravizar pelo ter; previne contra o perigo do roubo da liberdade dos outros, “na medida em que, apropriando-nos da sua propriedade, nos apropriamos também da sua liberdade”. Ora, “quem se apropria de homens torna-os mercadoria” e dispõe deles como meio. Cá está o crime da exploração do trabalho infantil, tomada de reféns, recrutamento forçado de trabalhadores, comércio de carne branca para a prostituição, salários injustos... “Que pode haver verdadeira liberdade sem propriedade cada um pode dizê-lo a si próprio, mas não pode exigi-lo aos outros.”


O roubo começa e está presente das maneiras mais diversas, até na vida quotidiana: viajar nos transportes públicos sem bilhete, não chegar a horas ao trabalho, evasões fiscais, estragar a Natureza, construções sem garantia, declarações falsas de doença, fogo posto, má condução nas estradas, incompetência no desempenho das diferentes tarefas e funções, tráfico de drogas, branqueamento de capitais, danificar a propriedade pública e privada, irresponsabilidade no uso e aplicação dos dinheiros públicos, corrupção activa e passiva, falsificações alimentares, tirar aos outrso o seu tempo precioso...


Depois, há os grandes e os pequenos roubos, com uma diferença, a que já Martinho Lutero se referia há quinhentos anos, com estas palavras (tradução um pouco livre): “Quando olhamos para o mundo hoje através de todas as camadas sociais, constatamos que não passa de um grande, enorme, covil cheio de grandes ladrões... Aqui, seria necessário calar quanto aos pequenos ladrões particulares, para atacar os grandes e violentos, que diariamente roubam não uma ou duas cidades, mas a Alemanha inteira... Assim vai o mundo: quem pode roubar pública e notoriamente vai em paz e liv“re e recebe aplausos. Em contraposição, os pequenos ladrões, se são apanhados, têm de carregar com a culpa, o castigo e a vergonha. Os grandes ladrões públicos devem, porém, saber que perante Deus são isso mesmo: os grandes ladrões.”


O que Lutero disse há quinhentos anos referindo-se à Alemanha continua válido hoje, talvez mais do que nunca, em Portugal. E então entende-se: assim, por mais milhões, milhões, milhares de milhões de apoios da Europa, continuamos na cauda...


2. A globalização arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. O teólogo Hans Küng procurou contribuir também para este debate, que assenta, segundo ele, em quatro teses: a globalização é: “1. inevitável, 2. ambivalente (com ganhadores e perdedores), 3. não calculável (pode levar ao milagre económico para todos ou ao descalabro), 4. mas também — e isto é o mais importante — é dirigível”. Isto significa que precisamente a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global.


É claro que, se quiser ter futuro, a Humanidade se tem de tornar sujeito comum da responsabilidade pela vida. Ou a Humanidade como todo se torna sujeito do seu futuro e da responsabilidade pela vida em geral ou pura e simplesmente não haverá futuro para ninguém. Em termos simples e cínicos, se se quiser: se não quisermos ser solidários por razões de ética e humanidade, sejamo-lo ao menos por razões de egoísmo esclarecido.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 24 JULHO 2021