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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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MANDELA: A LIBERDADE E O PERDÃO

 

Em mais uma homenagem da Academia das Ciências a Nelson Mandela, no passado dia 20 de Novembro, também participei com uma comunicação, de que fica aí o essencial.

 

1. Há uma experiência de fundo: o ser humano não é objecto, coisa. Olhamos para as coisas como um “isso”, mas olhamos para os seres humanos como um “alguém”. Alguém que é um “tu” como eu e, ao mesmo tempo, um tu que não sou eu: outro eu e um eu outro, formando um “nós”. O outro, no seu rosto e olhar, impõe-se-me como um “alguém corporal”, a visibilidade de uma interioridade inacessível que se mostra e impõe.

 

A experiência radical de não se ser coisa dá-se na consciência da liberdade. Cada um, cada uma, faz a experiência originária de ser dado, dada, a si mesmo, a si mesma, experiência que se explicita na consciência de autoposse. Somos senhores e donos de nós. Muito cedo, a criança é capaz de dizer ao pai ou à mãe: não és minha dona, meu dono. Pertenço, antes de mais, a mim próprio, a mim própria.

 

Claro que a liberdade não é demonstrável. Aliás, se o fosse, não seria liberdade, mas coisa. A liberdade apresenta-se nesta experiência de autoposse e, consequentemente, na experiência de responsabilidade: respondo por mim e pelo que faço. Dada a neotenia — vimos ao mundo por fazer —, temos pela frente a tarefa essencial, constitutiva: fazermo-nos a nós mesmos, uns com os outros, no mundo. Poder-se-ia acrescentar que a experiência da liberdade é uma experiência transcendental: a liberdade afirma-se, mesmo na sua negação. De facto, se tudo estivesse sob o determinismo, não seria possível colocar a questão da liberdade e do determinismo enquanto tal.

 

A liberdade é o fundamento da dignidade humana. Perante alguém livre, impõe-se o respeito (de respicere: ver e ser visto no mútuo reconhecimento). Cá está: o ser humano não é coisa, não é meio; por isso, não tem preço, reflectiu Kant. Embora a liberdade humana seja finita e sempre em situação, a pessoa pertence ao reino dos fins. A dignidade co-implica direitos fundamentais, que se impõe reconhecer: não se trata de concedê-los, mas de reconhecê-los.

 

Uma vez que o ser humano se tem de fazer a si mesmo — fazendo tudo o que faz, está a fazer-se a si próprio, de tal modo que o resultado pode ser uma obra de arte ou um monstro —, está sempre sob a sua responsabilidade última. Daqui deriva a angústia que sempre nos acompanha. De tal modo que, como bem viu Dostoievsky, na lenda do Grande Inquisidor, em Os Irmãos Karamazov, há uma dialéctica fundamental entre a liberdade e a segurança, estando muitos — a maior parte? — na disposição de entregar o fardo da liberdade a quem queira ficar com ele, aproveitando-se disso. Entre a liberdade e a segurança, muitos preferem a segurança: a segurança da norma, do não risco, do não ousar.

 

Em síntese, a liberdade significa autoposse, de tal modo que cada um, cada uma, pode e tem de tomar decisões no quadro da realização-de-si-no-mundo-com-os-outros. A liberdade, mesmo se condicionada e em situação, implica, portanto, não sujeição total aos determinismos físicos, genéticos, psicológicos ou sócio-culturais. De facto, depois de todos os condicionamentos físicos, genéticos, culturais, ainda podemos perguntar: o que vou eu fazer de mim com tudo isso? Também não é liberdade a pura espontaneidade ou a arbitrariedade — não é liberdade, por exemplo, fazer pura e simplesmente o que apetece: paradoxalmente, isso é necessidade —, pois o que a “define” é a auto-determinação segundo razões, a tomada de decisões racionais, tendo por critério último a plena realização humana de todos os seres humanos. Assim, a liberdade é ao mesmo tempo liberdade de: liberdade de determinismos e constrangimentos que impedem a sua realização, e liberdade para: liberdade para a realização de valores nos vários níveis, a começar pelo reconhecimento da liberdade dos outros, pois a liberdade verdadeira quer liberdades. A liberdade não se limita à experiência da sua realidade transcendental e interior, pois exige condições de possibilidade da sua realização concreta nos diferentes domínios: condições económicas, culturais, políticas...

 

2. Estive várias vezes na África do Sul, ainda no tempo do apartheid, da segregação racial. Ainda vi escrita, por exemplo, em bancos de jardim, ou indicação de praia, nas carruagens dos comboios, a ordem: “Whites only” (só para brancos). Se pude visitar o Soweto, foi porque o afável bispo católico de Joanesburgo, que não era racista, pediu ao pároco negro que me acompanhasse. E fui bem recebido. Mas a segregação estava sempre presente: nasciam em hospitais para negros, viviam em bairros exclusivamente de negros, iam à escola só para negros, levavam-nos a casa em autocarros exclusivamente para negros...

 

Muitas vezes me perguntei como é que aquela ignomínia iria acabar. Seria possível, sem um banho de sangue? Porque, ali, era o intolerável. A pessoa era ferida no mais profundo do seu ser: na sua in-finita dignidade de ser livre e auto-determinar-se.

 

Foi possível. Pacificamente, abriu-se o caminho para negociações em ordem à democracia no quadro da coexistência racial e do diálogo. Isso deveu-se certamente também à inteligência política e humana do presidente De Klerk, no novo contexto político e geoestratégico criado pela queda do muro de Berlim. Mas, para evitar a tragédia, o espírito e a acção de Mandela foram determinantes.

 

3. Está tudo na sua autobiografia: Long Walk to Freedom. Mandela não teve nenhuma “iluminação” ou “aparição”, mas a acumulação de ofensas, de indignidades, despertou nele “ira e rebeldia” e o desejo de combater o sistema que oprimia o seu povo. “Não houve um dia concreto em que dissesse: a partir de agora dedicarei as minhas energias à libertação do meu povo, dei por mim a fazê-lo simplesmente e não podia agir de outro modo”.

 

Objectivo da luta? Como se dizia na “Constituição pela Liberdade”, abolição da discriminação racial e a igualdade de direitos para todos. Era preciso destruir o apartheid, “a própria encarnação da injustiça”. Acabou “convertido, por lei, num criminoso”, mas não tinha a menor dúvida de que a posteridade reivindicaria a sua inocência.

 

Nestas situações, é legítima a violência até à luta armada? Os teólogos têm colocado a questão da guerra justa e a licitude do derrube do governo tirânico. Mandela confessava-se um homem não violento e explicava que não dependia dos negros renunciar à violência, mas do Governo; o seu propósito era atacar objectivos militares, não as pessoas. Apenas procurava a igualdade política e o princípio de “uma pessoa, um voto”, num Estado unitário sem homelands.

 

Depois de 27 anos de cárcere, viu Mandela finalmente a liberdade. E o “milagre” aconteceu. Quis despedir-se dos guardas, agradecendo-lhes “as suas atenções um a um”. Fora-se convencendo de que, afinal, mesmo aqueles que o tinham mantido na prisão durante vinte e sete anos e meio “eram essencialmente humanos”. Mandela confessava-se convictamente cristão. Esta sua condição terá sido decisiva para evitar o ódio e o ressentimento — as “paixões tristes”, como escreveu Espinosa. “Queria que toda a África do Sul visse que amava os meus inimigos, embora odiasse o sistema que nos tinha enfrentado.” Manteve a liberdade maior: o domínio de si. Afinal, tudo está naquele gesto de apertar a mão aos carcereiros e convidá-los para o banquete de inauguração da nova presidência da "nação arco-íris".

 

Mandela percebera que os seus carcereiros eram seres humanos habitados pelo medo. Ora, o medo é do pior que há. O medo tolhe a razão e a capacidade de pensar. É preciso ter medo de quem tem medo, de tal modo que a primeira libertação tem de ser a libertação do medo. Também e sobretudo no universo da religião. Aterrados pelo medo de Deus, homens e mulheres que se julgam religiosos caminham fatalmente para desgraças tenebrosas. Por isso, a Bíblia é atravessada pela compreensão histórica lenta, que culmina em Jesus, através da sua experiência, palavras e acções, de que a única tentativa de "definir" Deus é (está em São João): Ho theós agapê estín (Deus é amor incondicional, Deus é Força infinita de criar e só sabe amar).

 

Como era cristão, Mandela sabia que se deve perdoar aos inimigos. Pelo Evangelho, também sabia que os romanos enquanto potência de ocupação podiam obrigar um judeu a transportar a bagagem na distância de uma milha, sendo neste contexto que se percebe o que Jesus diz: "Faz uma segunda milha de livre vontade." Talvez o romano começasse a conversar, e quem sabe se não acabariam por beber um copo juntos? A reconciliação, a solução pacífica dos conflitos é preferível à violência e à guerra. E Jesus, do alto da cruz, rezou: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.

 

De qualquer modo, o perdão é um milagre, também em política. Jürgen Habermas, agnóstico, talvez o maior filósofo vivo e o mais influente, que quereria uma filosofia que herdasse, num processo de secularização mediante a razão comunicativa, os conteúdos semânticos da religião e a sua força, reconheceu que há um resto na religião não herdável pela simples razão. Disse-o num discurso famoso, por ocasião da recepção do prémio da paz dos livreiros alemães e já depois dos acontecimentos trágicos do 11 de Setembro de 2001. Esse resto tem a ver nomeadamente com o drama do perdão.

 

O perdão, em última análise, já não pertence à ordem do jurídico nem do político. No perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade do cálculo que é superada, pois nem o algoz tem direito ao perdão nem a vítima é obrigada a perdoar. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste ‘desejo’ ou deste ‘pensamento’ do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso."

 

4. Como escreveu Lídia Jorge, “Não há livro de instruções para salvar a vida. Só a literatura se aproxima desse imenso livro.” Isto significa que a liberdade leva consigo uma luta e uma história sem fim de libertação. Como insiste São Paulo, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. Na presente situação do mundo, esta luta tem três exigências essenciais. Uma é a da libertação interior: conquistar-se a si próprio, naquele processo que as religiões chamam de conversão ao melhor de si e ao amor. Depois, como sublinha o teólogo Hans Küng, “não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões”, o que implica a urgência do diálogo inter-religioso e intercultural, colocando no centro o interesse da realização plena de todos os homens e mulheres enquanto pessoas. Para lá de outros pilares, este diálogo implica a leitura histórico-crítica dos textos sagrados, o Estado laico, separando Igreja e Estado como garantia da liberdade religiosa (a laicidade, que não se confunde com o laicismo, é uma conquista histórica da Humanidade) e um projecto de ética mundial. Num mundo globalizado, impõe-se terminar com a cisão entre, por um lado, os chamados mercados, poderes fácticos globais, e, por outro, a política, da ordem do dever-ser, ainda local ou, quando muito, regional. Algo que se aproxime de uma “governança” global, com instâncias políticas globais, para uma ordem económico-financeira justa e equitativa, é essencial, se se quiser evitar o abismo e a catástrofe.

 

5. É neste contexto que há muito propugno algo de parecido com um Plano Marshall para a África. Sob a protecção de “São” Nelson Mandela, porque, como diz o Professor Adriano Moreira, Mandela não é um santo canonizado pela Igreja, mas é um santo da Humanidade.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 1 DEZ 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Hoje, já me interrogo sobre se o sentimento de superioridade do vulgo português será uma sensação de pertença a uma raça eleita (seja o que for que isso signifique), ou antes a convicção de uma insuperabilidade pessoal, isto é, de quem - Zé Povinho ou Urraca Antiga - se sente sempre comparativamente melhor, atendendo aos critérios a que ocasionalmente vá submetendo os cotejos consentidos. A minha nação poderá estar cheiinha de defeitos, os meus compatriotas poderão ser todos, ou quase, uma cambada de gente pouco recomendável, mas eu inda serei um trunfo fora do baralho, pouco ou nada tenho a aprender com os outros, tudo faço como me der na bola... Esta segunda hipótese oferece quiçá a vantagem de veicular a conciliação da autoconsciência da própria superioridade com a tão complexa subconsciência da sua receada inferioridade. Mas, infelizmente para os próprios e para quem os queira orientar, é tremenda caixa de pandora de traumas e problemas essa tal subconsciência da própria alteza. Tenho, para comigo, que, ao abri-la, se libertam e revelam carências de convívio e cultura, ou uma qualquer medrosa incapacidade de diálogo. Por isso mesmo tanta gente só se descontrai e respira quando se sente em sintonia inata no ambiente do seu grupo, onde reinam concordâncias recíprocas e preconceitos comuns, e facilmente surge uma agressividade fautora de processos de intenção relativamente às outras espécies, aos de fora! A cena política portuguesa e a sua circunstância, muitos artigos de opinião e - arrepiantemente - os comentários de leitores "on line" a notícias publicadas (sejam falsas ou não) dão triste testemunho dessa realidade. E, mais tristemente ainda, da falta de objetividade e liberdade interior - ou seja, da ausência de espírito crítico - do português vulgar.

 

 [Relembro, Princesa de mim, que o espírito crítico, contrariamente ao leviano, procura ser bem informado e rigoroso - é culto, no sentido de que se lavra - não é boateiro, nem a montante, nem a jusante; e não é clubista.]

 

    Resulta da leviandade reinante - da pressa de se tirarem (de factos ocorridos ou meros rumores, de ditos mal avisados ou mal contextualizados) projeções mediáticas ou vantagens concorrenciais - não serem as questões nacionais postas em contexto de diálogo construtivo, nem os factos, os actos e os ditos objetivamente analisados... Tudo, insistentemente, se coloca em perspetivas parciais, preconceituosas, facciosas, "marketingosas". Os debates públicos tendem mais a ser processos de intenções do que exercícios conjuntos de esclarecimento mútuo e busca de compreensões e soluções para serviço do bem comum. Ou, quando se fala de si mais do que se acusa o outro, reclamam-se glórias e baratinam-se promessas. O resultado de tudo isto é o descrédito e a desconfiança ambientes. Só quando, em verdade, nos dispusermos a trabalhar pelo aperfeiçoamento geral - e, por isso mesmo, procurarmos ser mais perfeitos e ajudarmos os outros (próximos, achegados ou divergentes) a querer sê-lo também - é que estaremos consonantes com Jesus (Lucas, 6, 45, tradução de Frederico Lourenço): A pessoa boa tira do bom tesouro do seu coração o que é bom; e a pessoa má, do mau tesouro tira o que é mau; pois é a partir da abundância do coração que a boca fala. A boataria maledicente ou insidiosamente suspeitosa, a indigitação apriorística de bodes expiatórios, os incessantes ataques "ad hominem", a arrogância de quem sempre se julga com razão (até porque os outros, doutro clube, partido ou cor, são invariavelmente incompetentes, ignorantes, mentecaptos ou tudo isso ao mesmo tempo) vão quotidianamente enevoando o ambiente, tornando-o caótico e incompreensível, quando não o envenenam, tornando-o irrespirável e detestável.

 

   Assim, também eu - que tanta gente por aí classifica como homem de direita - não conheço qualquer direita portuguesa, enquanto fundamentação e organização de ideias, ou proposta de programas. Aquilo a que por aí se chama direita é uma mistura líquida de pensarsentires que vêm de antigos regimes e vão até fantasias liberais (e ultraliberais) ou levam a posições conciliadoras de eleitores mais ao jeito da social-democracia. País de população maioritariamente católica, nunca Portugal registou com força um partido da chamada democracia cristã. Curiosamente, o programa político de 1933 (Estado Novo) foi o que, teoricamente embora, mais incluiu apropriações de princípios coincidentes ou decorrentes dos defendidos pela encíclica Rerum Novarum do papa Leão XIII. Noutros países europeus, monarquias e repúblicas, de maioria católica ou protestante, traços, ora marcantes, ora mais ténues, durante décadas foram distinguindo, mutatis mutandis, conservadores dos liberais, ambos dos socialistas, e todos estes dos democratas cristãos. Mas a várias vicissitudes históricas, mais ou menos traumatizantes (guerras, descolonizações, envelhecimento das populações autóctones), juntaram-se outros fatores de mudança (imigração massiva, crises de identidade e dos regimes políticos e socioeconómicos). E a decorrente confusão demográfica, cultural e social propicia surtos de incertezas, incompreensões e receios, cujo alastramento - até por falta de convicção e de reação clara das estruturas políticas existentes - abre alas à entrada crescente de propostas populistas, mais inspiradas por ressentimento, raiva ou descontentamento do que pela procura serena e justa de soluções democráticas e construtivas de futuro comum. Dividem-se, cada vez mais, os povos e as gentes, em bons e maus, "nossos" e do reviralho, ao ritmo do volume crescente da gritaria desgarrada geral: reivindica-se, exige-se, desespera-se, mas pensa-se pouco e, com calma, nada. Esquecemos que é indispensável acertar o tempo e o modo necessários à viabilização de qualquer projeto, uma revolução sendo, por definição, o regresso ao ponto de partida, à estaca zero. Mais os prejuízos e as oportunidades perdidas entretanto. E vamos olvidando os pobres, os mais pequenos, porque os brados indignados que hoje ouvimos são, cada vez mais, os das classes sociais que foram tendo acesso ao consumo que comanda o desejo e o lucro. Aliás, aqueles que foram sendo retirados da subterra humana da pobreza, em todos os países do mundo, são os que mais teimarão em superar a herança do que foram, são os que quererão possuir mais. A erradicação da insuportável pobreza não é questão resolúvel sem uma política voluntarista de inspiração ética humanista. Já pensaste, Princesa de mim, em quantas populações foram privadas dos seus ecossistemas, ou remetidas à sordidez de desterros suburbanos? Tudo isto dá, e muito, para pensarsentir...

 

    Pois também é claro que as ideias e os programas, como os interesses e os objetivos, vão evoluindo e mudando, como as próprias pessoas. Mas, da medida do rigor racional na formulação de juízos críticos, isto é, da liberdade cultivada do espírito crítico, irá sempre depender a animação dos grupos cívicos que pretendam propor ideias e práticas ao exercício político da governação. O que será sempre melhor do que nos entretermos, cada um a seu jeito, com diferenciar-nos entre bons e maus, desde certas "esquerdas" que apelidam de "direitas fascistas ou fascizantes" um ramalhete de partidos - cujas flores podem, além do CDS e do PSD, eventualmente incluir a rosa socialista - a "irónicos"  autoproclamados "direitistas" que se acham o "máximo, pecébe?" quando só apontam disparates às "esquerdas encostadas".

 

   A própria ideia de esquerda e direita pressupõe a visão clara dos posicionamentos relativos de uma e de outra... Mas, na atualidade, com a raríssima exceção de certa esquerda ou direita passadista, todos dançam o vira da confusão em torno de um ponto que a todos faz girar: a caça ao voto, a busca da popularidade necessária a um lugar ao sol.

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

SOBRE SARAMAGO E DEUS

 

O Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal de Coimbra organizaram nos passados dias 8, 9 e 10 de Outubro, no Convento de São Francisco de Coimbra, um Congresso Internacional: “José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”. Carlos Reis e Ana Peixinho pediram-me uma intervenção sobre Saramago e Deus. O que aí fica é uma breve síntese da minha fala nesse Congresso.

 

1. Numa entrevista dada a João Céu e Silva, uma das últimas, se não a última, Saramago referiu-se-me com admiração por ter lido e gostado do seu livro Caim. “Até fiquei surpreendido quando ouvi um teólogo — uma coisa é um teólogo e outra um padre — Anselmo Borges, dizer que tinha gostado do livro”. Mas na Net também se diz, e é verdade, que fui crítico por causa de alguma unilateralidade com que Saramago leu a Bíblia. Assim, a minha intervenção quer ser essencialmente um esclarecimento sobre essa minha dupla visão.

 

2. Saramago foi à Academia Sueca dizer, no dia 7 de Dezembro de 1998, logo na primeira frase: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”.

 

Quando me expresso sobre o diálogo inter-religioso, digo sempre, com escândalo de alguns, que desse diálogo também fazem parte os ateus, os ateus que sabem o que isso quer dizer — os crentes também só o são verdadeiramente, se souberem o que isso quer dizer. Fazem parte, porque são eles que, estando de fora, mais facilmente vêem as superstições, as inumanidades e até as barbaridades que tantas vezes infectam as religiões. Assim, à maneira de Saramago, também digo: foi com dois ateus que aprendi do melhor da Teologia: Ernst Bloch e o nosso homenageado, José Saramago. Mais com Bloch, porque, dada a situação da Teologia na Universidade alemã — em todas as Universidades, há duas Faculdades de Teologia, uma católica e outra protestante —, ele tinha profundos conhecimentos bíblicos. Neste enquadramento, refiro três pontos.

 

2.1. Também sou ateu em relação ao deus denunciado por eles. Porque é isso que se deve ser, se se quiser manter a dignidade humana face a um deus brutal, irresponsável, ciumento, mesquinho, tirânico, cruel, sádico, sanguinário... Neste sentido, estou de acordo com Ernst Bloch, quando escreveu que “só um bom ateu pode ser um bom cristão, só um bom cristão pode ser um bom ateu”.

 

Previno que a boa exegese mostra que nem sempre está no texto bíblico aquilo que o puseram a dizer e que passou à tradição. Por exemplo, o caso de Isaac, cujo significado é o contrário daquilo que frequentemente se ensinou: ao aparecer o cordeiro, Deus está a proclamar que não quer o sacrifício de seres humanos. Mas, de facto,  muitas vezes foi a outra tradição que passou, aquela a que se referiu o prestigiado biblista católico do século XX, Norbert Lohfink, quando constatou que a Bíblia judaica é “um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial”.

 

Como aceitar um deus que castigasse a Humanidade inteira por causa de os primeiros pais terem comido uma maçã? De qualquer modo, no quadro da evolução, quem foram os primeiros e como é que poderiam ter um acto de liberdade tal que arrastasse consigo todos os males do mundo, incluindo a morte? Que sentido pode ter um pecado original herdado, de tal modo que todas as crianças seriam geradas em pecado, do qual só o baptismo pode libertar?

 

E Jesus não foi enviado por Deus para ser morto e com a sua morte pagar a dívida infinita da Humanidade para com Deus e Deus aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade. Que pai decente imporia isso ao seu filho querido, condenando-o à morte?

 

Caim, segundo Saramago, vai, castigado, pelo mundo, não sem perguntar a deus porque é que o não impediu de matar o irmão, Abel. Deus é, pois, co-responsável por esse acto...

 

Trata-se de um deus arbitrário, irresponsável, ciumento, pior do que nós.  

 

Ficamos arrepiados, quando lemos que Deus exigiu de Abraão que matasse o seu filho Isaac. O próprio filósofo Sören Kierkegaard, que propunha Abraão como modelo da fé incondicional, viu o horror da situação e diz que o miúdo voltou para casa e deixou de acreditar em deus e Abraão nunca disse uma palavra a Sara sobre o acontecido.

 

Sodoma e Gomorra. Lá também havia crianças inocentes. E deus não se lembrou delas?

 

Babel. Deus, em vez de castigar os homens pelo seu feito, deveria honrar-se com o êxito das suas criaturas. É ciumento, invejoso.

 

Também no Dilúvio, deus não teve compaixão para com os inocentes. A mesma acusação vale para a situação dos filhos primogénitos dos egípcios.

 

Ah, e, aquando do nascimento de Jesus, houve a matança dos inocentes e José não se preocupou. No regresso do Egipto nem sequer perguntou às mães pela sua dor...

 

Do pior: as guerras religiosas, pois é deus contra deus, e as vítimas são os homens e as mulheres e as crianças... Como é possível deus mandar matar, haver guerras em nome de deus?

 

2.2. Ernst Bloch foi mais longe. Sabendo Teologia e exegese, distinguiu muito bem duas camadas na Bíblia: a do deus dos senhores, do deus dominador, tirânico, imoral e opressor e a do Deus da libertação e dignificação de todos. Em conexão, viu também dois tipos de Igreja: a Igreja dos senhores, a Igreja do poder inquisitorial, opressora, e a Igreja dos pobres, do bem, da justiça, da paz. Para Bloch, há um duplo fio condutor na Bíblia: o sacerdotal, em que domina o deus opressor, dos senhores, e o profético-messiânico-apocalíptico, que anuncia o Reino de Deus, a herdar meta-religiosamente como Reino do Homem: “Esta vida no horizonte do futuro veio ao mundo pela Bíblia.”

 

Jesus agiu como um homem bom, escreve Bloch, “algo que ainda não tinha acontecido”. Ele personifica a bondade e o amor e nele exprime-se e realiza-se o melhor da esperança, o ainda não do que a Humanidade pode e deve ser. Ele não foi morto por Deus seu Pai, mas pelo religião do Templo, a religião dos sacerdotes, que viviam da exploração dos crentes.

 

O que devemos ao cristianismo? O próprio conceito de pessoa foi dentro dos debates à volta da tentativa de compreender Jesus Cristo que surgiu. Sabemos que nenhum homem pode ser “tratado como gado”: foi através de Jesus que o sabemos, porque nele, por ele e com ele, se proclama a dignidade infinita de todo o ser humano.

 

Onde é que nasceu a Declaração dos Direitos Humanos? Foi na China? Na Arábia?

 

Jürgen Habermas, o filósofo mais influente da actualidade, agnóstico, escreveu que a democracia não é senão a tradução para a política da ideia cristã de que cada homem e cada mulher são filhos de Deus. Isso, politicamente traduzido, dá um homem um voto, uma mulher um voto.

 

Não haveria o horror da pedofilia, também na Igreja, se se ouvisse a maior proclamação de sempre feita por Jesus sobre a dignidade das crianças: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus”, acrescentando logo a seguir: “Ai de quem escandalizar uma criança: mais valia atar-lhe uma mó de moinho ao pescoço e ser lançado ao mar”.

 

Tudo isto para repetir o que disse logo no início da minha fala: estou grato, muito grato, a Saramago, mas não aceito a sua afirmação: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”. A sua leitura foi unilateral.

 

3. O que é ser ateu? Quando se diz que se é ateu, é preciso começar por perguntar o que se entende por isso e concretamente em relação a que Deus se é ateu.

 

Há dois modos de negação de Deus: a negação real e a negação determinada.

 

Por negação determinada entende-se a negação de um determinado deus, de uma certa imagem de deus. Foi o que Saramago fez. Como podia ele ou alguém intelectualmente honesto aceitar um deus cruel e sanguinário? Daí a inversão da oração de Cristo na Cruz, no Evangelho segundo Jesus Cristo.  Onde no Evangelho se diz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”, lê-se em Saramago: “Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez”.

 

A negação determinada não significa negação real. A pergunta é, portanto, se Saramago negou realmente Deus ou se, pelo contrário, na negação do deus arbitrário e sanguinário, não está dialecticamente presente o clamor pelo único Deus verdadeiro, o do amor incondicional, o do Anti-mal.

 

De qualquer modo, segundo Saramago, “Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. “Esta definição de Saramago é a mais bela que alguma vez li ou ouvi”, escreveu o teólogo Juan José Tamayo. “Essa definição está mais perto de um místico do que de um ateu”.

 

4. No final da minha intervenção, a viúva de Saramago, Pilar del Río, aproximou-se, agradeceu e disse-me: Sabe qual foi o contexto desse diálogo entre o meu marido e Tamayo? Íamos os três pela Plaza de la Giralda, em Sevilha, e os sinos da catedral repicaram, e Saramago: “Os sinos tocam porque está um teólogo a passar”. E Tamayo retorquiu: “Não, os sinos repicam porque um ateu está prestes a converter-se ao cristianismo”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 24 NOV 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Neste dia mais alegre do novembro deste ano, a luz animando os campos que daqui avisto já nos aconchega mais - corpo e alma que, dizia S. Tomás de Aquino, fazem uma só pessoa - do que a cinza monótona que nos vinha pintando o ar em Outono chuvoso e sombrio. Hoje, como em dia de festa, das minhas janelas descubro manchas claras de luz, quinhões de amarelo e verde pálido ali, e outros, acolá, já da cor de fogo que nos anuncia lareiras e a mim recorda passeios antigos em longínquas paragens, desde o upper-state New York ao Kyomizudera, em Kyoto, quando as árvores outonais (como os momiji) bacantemente nos oferecem ramos com chamas de oiro e vinho. Menos melancólico, volto à leitura abandonada de vários jornais empilhados; reparo em duas entrevistas que, talvez por terem sido feitas a duas pessoas heterodoxas, eu emparelhei no meu ruminante pensarsentir. Duma delas tiro para aqui apenas duas declarações, ambas curtas, mas incisivas: à pergunta Acha que os portugueses têm sentimento de superioridade?  -  Vasco Pulido Valente responde Têm! Com certeza que sim!; e à Como é que vê a direita portuguesa hoje? - contesta: A direita portuguesa hoje não existe. Existem pessoas de direita, não existe direita. [Cf. Público de 21 de outubro]. Da outra, respigo uma resposta mais longa, de Romain Gary a Jacques Chancel, em junho de 1975, no programa da France Inter intitulado Radioscopies, uma espécie de confessionário mediático e laico para escritores, artistas, filósofos, etc., que eu costumava ouvir quando morava em Paris e Bruxelas. As Éditions du sous-sol publicam agora uma antologia escrita dessas conversas. À pergunta Você parece ter muito interesse pelo tema mulheres, que, em sua opinião, não são suficientemente consideradas. Mesmo na hora presente, em que tanto se fala nelas... Resposta: Mesmo sem nos metermos pelo domínio do feminismo propriamente dito, há uma assustadora ausência de feminilidade na nossa civilização. Não quero entrar por propósitos religiosos, até porque sou incréu, mas se olharmos para a palavra de Cristo, ela é essencialmente feminina. A voz de Cristo era uma voz de mulher, pelo menos no sentido tradicional desse termo. Ternura, piedade, amor, bondade, perdão. Mas essas virtudes estão totalmente ausentes de dois mil anos da nossa civilização. Além da igualdade homens-mulheres, que é evidente, é necessária uma transformação dos valores ditos «masculinos» em valores femininos. É por isso que não compreendo os movimentos feministas que se reclamam duma espécie de masculinidade, em partes iguais com os homens. Deviam, pelo contrário, entrincheirar-se cada vez mais, e elaborar valores femininos para com eles fecundar a nossa civilização. Mas talvez seja uma visão demasiado idealista das coisas...

 

   Como sabes, Princesa de mim, também vivo de sonhos e gosto de utopias. E as utopias que alimento sustentam este meu fado de estar dentro e além do mundo, insatisfeito no insatisfatório. Sentir-me em busca de um consolador eterno feminino é mais do que desejar a doçura da condição regressada de ser "maternado" (que, aliás, inspira o sentimento japonês do amae, essa saudade do leito materno): é procurar a mulher como futuro do homem (evocando Aragon), aspirar ao amor da criação inicial, como condição e estrela da vida... Nada há de machista nisto, uma mulher também poderá falar do homem como seu futuro, sem feminismo. Refiro-me ao livro, recentemente publicado, da autoapelidada intelectual católica de esquerda, escritora e jornalista, chefe da redação de Témoignage Chrétien, Christine Pedotti de seu nome. Com o sugestivo título de Jésus, l´homme qui préférait les femmes, retrata - cito a autora - um homem vertical, sábio, pregando a boa nova; descobri-o debruçado, atento, à escuta. Via-o seguro do que dizia, sage e severo, enunciando afirmações poderosas; espantava-me achá-lo perturbado, emocionado, admirativo, mas sabendo também brincar com humor, cheio de piada e de prontas respostas... E a mulher que sou, lenta e seguramente, deixava seduzir-se pelo trintão galileu. Dei-me conta de que, até então, tinha "amado" Jesus projetando sobre ele uma falsa imagem ; via-o com os olhos dos homens que me tinham precedido ao longo dos séculos. Ao fim dessa primeira experiência, soube que era preciso voltar aos textos evangélicos, de modo a prestar particular atenção ao que se passa entre Jesus e as mulheres.

 

   A primeira descoberta da sua nova leitura dos evangelhos, segundo a própria Christinne Pedotti, surge pelo seguinte trecho do de São Lucas (13, 10-17), aqui na tradução de Frederico Lourenço: Jesus estava a ensinar numa das sinagogas. E eis uma mulher com um espírito de cansaço havia dezoito anos; andava curvada e não conseguia endireitar-se completamente. Vendo-a, Jesus chamou-a e disse-lhe: «Mulher, foste liberta do teu cansaço.» E impôs-lhe as mãos. No mesmo instante, ela endireitou-se e começou a dar glória a Deus. Reagindo, o chefe da sinagoga, indignado por ver que Jesus fazia uma cura ao sábado, disse à multidão: «Seis dias há durante os quais se deve trabalhar. Pois nesses dias vinde para serdes curados - e não em dia de sábado.» O Senhor, respondendo-lhe, disse: «Hipócritas, não solta cada um de vós, ao sábado, o seu boi ou o seu burro da manjedoura e o leva a beber? E esta mulher, sendo filha de Abraão, presa por Satanás há dezoito anos, não deveria ser libertada dessa prisão a um sábado?» Dizendo isto, envergonhavam-se todos os seus adversários e a multidão alegrava-se com todas as maravilhas que ele realizava.

 

   O comentário da escritora francesa vai pertinentemente revelar a singularidade deste passo da Boa Nova: A maior parte dos comentários falam da relação de Jesus com o sábado e, portanto, com a Lei. E ninguém repara no nome que Jesus dá a esta mulher: «Filha de Abraão». Ora, ao investigar um pouco mais, descubro que nunca tal expressão antes foi empregada em todo o texto bíblico. Até ali, só havia «FILHOS» de Abraão. Só os homens pareciam abrangidos pela promessa feita ao patriarca, só eles recebiam na própria carne a circuncisão como sinal de aliança. Ora Jesus faz dessa mulher endireitada uma filha de Abraão. Faz parte da aliança em nome próprio e não como filha de seu pai ou esposa de seu marido. Como é possível que ninguém tenha jamais reparado nisso?

 

   E eu, que tampouco me dera conta de tão revelador pormenor, devo reconhecer o sentido e a razão do remate daquele comentário de uma cristã atenta: É a própria personalidade de Jesus que surge sob novo dia. A par e passo da leitura, torna-se claro que nunca Jesus remete as mulheres a papéis reservados ao seu sexo. As mulheres não são virgens, nem mãe, nem esposa por «natureza». Antes pelo contrário, elas são discípulas, parceiras de conversa, por vezes profetas, nunca submissas nem silenciosas. Talvez fossem precisos olhos de mulher para o descobrir. Mas era também necessário que esse olhar fosse o de uma mulher que beneficiara de várias décadas de combates das mulheres pela liberdade e a emancipação.

 

   Historicamente, sem dúvida, tratou-se, tem-se tratado, de uma luta pela emancipação. E hoje ainda, um pouco por todo o mundo e muito em certas zonas dele, há ainda muito a fazer pela libertação das mulheres, sujeitas a jugos absurdos. Mas, sempre focado na busca da essência das coisas em cada um de nós, prefiro chamar-lhe reconhecimento. Não só no sentido de regressarmos ao conhecimento fundamental da nossa unidade ontológica - até no sentido claudeliano de connaissance= co-naissance ou "nascimento com" - mas como atualidade de nos vermos num espelho.

 

   [Há dias, lendo diagonalmente uma entrevista dada pelo superior nacional de uma congregação religiosa, deparo com uma tremenda justificação do facto de limpezas, arrumos e demais serviços domésticos das residências dos seus numerários masculinos serem funções atribuídas a numerárias femininas, por Deus ter dado às mulheres a graça e o dom de tratar da casa... Só me ocorreu, na altura, enviar ao senhor padre superior um lembrete daquele passo do evangelho em que Jesus responde a Marta que, ocupada em lides domésticas, lhe pede para admoestar Maria que, quieta e silente, o escuta ensinar : "Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada"...

 

   Sempre defendi, e defendo, que a distinção social entre homem e mulher é eminentemente cultural: no seu tempo e no seu modo, cada cultura atribui, na sua circunstância, estatutos femininos e masculinos, define e estatui valores próprios a cada sexo e género. Assim, só aceito que a voz de Cristo, enquanto expressão de "ternura, piedade, amor, bondade, perdão" (diz R. Gary) seja uma voz feminina, no "sentido tradicional desse termo". Masculino ou feminino, o nosso ser é originalmente humano, o próprio Eros é o amor em busca da união inicial (lembra-te de L´érotisme do Georges Bataille).

 

   Até a narrativa bíblica do Génesis consagra tal união ontológica em ambos os relatos da criação do ser humano: num, o segundo, mais imaginativo, diz que Deus adormeceu o homem para lhe retirar uma costela da qual fez a mulher; no outro, o primeiro, mais assertivo, limita-se a afirmar que Deus criou o ser humano, criou-o homem e mulher. Naquele, o ser humano resulta da argila que recebe um sopro de Deus, que lhe dá vida própria, muito embora o retire da mesma terra. No primeiro relato, todavia, o ser humano, na unidade inicial do casal, é o ser vivo criado à semelhança e imagem de Deus. Indivisivelmente: Deus criou o humano à sua imagem / à imagem de Deus o criou / homem e mulher os criou... E, neste presente contexto, ao evocar a Bíblia, não o faço invocando um texto religioso. Apenas recordo que, milénios atrás, já prosa de humanos registava essa consciência da unidade ontológica dos géneros.

 

   Sobre o alegado sentimento de superioridade (machista ou não) do português comum e da inexistência de uma direita política em Portugal - que Vasco Pulido Valente referia - falaremos em próxima carta.

 

    Até lá, Princesa.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

COM O CADÁVER DA ESPERANÇA ÀS COSTAS

 

Ainda sobre os dias 1 e 2 de Novembro:

Dois dias para a morte e o sentido

 

Por mais arrogante que se seja e se padeça do complexo da omnipotência, ninguém, a não ser que pense suicidar-se antes, pode dizer: Até amanhã, se eu quiser. Dada a constituição corpórea do ser humano e a sua consciência antecipadora, toda a pessoa adulta e consciente, que reflecte, sabe, embora com um saber paradoxal, pois ninguém se pode conceber a si mesmo morto, que é mortal e que a morte é o limite inultrapassável. Ninguém rouba a morte a ninguém, cada um morrerá na sua vez. E as sabedorias ancestrais e as religiões e as filosofias lembraram sempre a cada um: “lembra-te de que és mortal”; aos generais romanos vitoriosos, na corrida para a celebração do triunfo, havia um escravo que lhes ia sussurrando ao ouvido o dito, em latim: “memento mori” (lembra-te de que és mortal); “sic transit gloria mundi” (assim passa a glória mundana): lembrava ao papa na sua coroação o mestre de cerimónias enquanto queimava uma mecha de estopa; os gregos definiam os humanos frente aos deuses, imortais, como “os mortais”.

 

A consciência da morte caracteriza o ser humano e, confrontando-o com a ameaça do nada — aquele “nunca-mais-para-sempre” neste mundo, escreveu Vladimir Jankélévitch —, revela-o a si mesmo na sua fundura ético-metafísica.  Aí, sabe que é um eu, único, enfrentando perguntas de abismo sem fundo, inevitáveis: O que sou e quem sou? O que quero e devo fazer?

 

Na consciência antecipadora da morte, cada um é dado a si mesmo como totalidade, ainda que incompleta, pois ninguém sabe o que é morrer nem o que quer dizer exactamente estar morto. De qualquer modo, nessa antecipação, a pergunta decisiva é: Qual o sentido da vida, da existência, da História, de tudo? Vamos realizando sentidos, mas, perante a morte, impõe-se a pergunta essencial, final: Qual o sentido de todos os sentidos, o Sentido último? Para quê? Porque, se tudo se afunda na morte: bem, mal, dignidade, indignidade, justiça, injustiça..., então tudo é equivalente, vale tudo o mesmo e foi tudo para nada.

 

 Mas é tão natural o homem saber da sua morte como esperar para lá dela. A pessoa é constitutivamente esperante, assim: por mais que concretize e realize da sua esperança, ela nunca está plena e adequadamente concretizada nem realizada, pois há sempre um abismo entre o desejado e o alcançado, e, por isso, sempre um mais além, de tal modo que  nenhum homem, nenhuma mulher morre satisfeito, satisfeita (de satis-factus, satis-facta: feito, feita suficientemente). Todos morrem em aberto, o que leva à conclusão de que a realização plena só pode vir de Outro, de Deus; só a religião pode garantir a esperança total. Assim, a própria Escola de Frankfurt vivia atenazada. Por exemplo, Max Horkheimer, um dos seus fundadores, por um lado,  não acreditava, mas, por outro, ansiava pelo totalmente Outro: “Sem Deus, é inútil pretender salvar um sentido incondicional. (...) A morte de Deus é também a morte da verdade eterna”. “O anelo pelo totalmente Outro é um anelo que une os homens, de tal modo que os factos atrozes, as injustiças da história passada não sejam o destino último, definitivo, das vítimas”. Por isso, pensava que a moral assenta em última instância na teologia, significando teologia “a consciência de que este mundo é um fenómeno, que não é a verdade absoluta, que não é a ultimidade. Teologia é – exprimo-me conscientemente com grande cautela – a esperança de que a injustiça que atravessa o mundo não seja a ultimidade, que não tenha a última palavra (...) expressão de um anelo de que o verdugo não triunfe sobre a vítima inocente”. Theodor Adorno, outro fundador, escreveu que “o pensamento que se não decapita desemboca na transcendência; a sua meta seria a ideia de uma constituição do mundo na qual não só ficasse erradicado o sofrimento existente, mas também revogado o irrevogavelmente passado”. Também Jürgen Habermas se refere a toda esta problemática, concretamente a das vítimas inocentes e da dívida da História para com elas, trazendo à colação este texto de J. Glebe-Möller: “Se desejarmos manter a solidariedade com todos os outros, incluindo os mortos, então temos que reclamar uma realidade que esteja para lá do aqui e do agora e que possa vincular-nos a nós também para lá da nossa morte com aqueles que, apesar da sua inocência, foram destruídos antes de nós. E a esta realidade a tradição cristã chama-a Deus”.

 

Claro que ninguém se pode gloriar, diz I. Kant, de saber que Deus existe e que haverá uma vida futura: se alguém o souber, escreveu, “esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele”. Mas é razoável acreditar em Deus e esperar para lá da morte. Na sua obra Was ich glaube (O Que Eu Creio), resultado de uma série de lições, aos 80 anos, na Universidade de Tubinga, a cada uma das quais  assistiram mil pessoas, pergunta, com razão, o célebre teólogo Hans Küng: ”O ateísmo explica melhor o mundo? A sua grandeza e a sua miséria? Como se também a razão descrente não encontrasse o seu limite no sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido!”

 

A curto, a médio, a longo prazo todos iremos estando mortos. A nossa vida e a realidade do mundo estão em processo e a História lê-se do fim para o princípio. Só no fim se poderá saber, mas, sem Deus, nunca poderíamos sequer saber quem somos nem o que pretendia a realidade e a História, porque não estaríamos lá e tudo teria sido para nada.  Lá, no final, só há, portanto, uma alternativa.

 

Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu L’homme nu: “Ao homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada.”

 

A Bíblia, no seu último livro, Apocalipse, que quer  dizer revelação, conclui assim: “Vi então um novo céu e uma nova terra. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.”

 

É preciso relembrar esta alternativa final, concretamente neste tempo de inesperança em que, ao contrário de todas as aparências de euforia, se avança, citando um poeta galego, “com o cadáver da esperança às costas”.

 

Aqui chegados, alguém poderá objectar que a esperança no Além é alienante, porque retira força ao compromisso com a luta por um mundo mais humano no aquém. Mas, se se pensar mais fundo, é o contrário. A inesperança está a infectar a vida, porque se ama pouco. O amor autêntico quer eternidade e é o combate comprometido com um mundo mais justo, mais humano e mais feliz que reforça a esperança no Além. Como disse Immanuel  Kant de forma lapidar: “A praxis tem de ser tal que se não possa pensar que não existe um Além”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 3 NOV 2018

FRANCISCO EM PEQUIM?

 

1. A perseguição aos cristãos foi particularmente feroz durante a Revolução Cultural no tempo de Mao. Mas a situação está a mudar de modo rápido e surpreendente. Desde 1976, com a morte de Mao, as igrejas começaram a reabrir e há quem pense que a China poderá tornar-se mais rapidamente do que se julgava não só a primeira potência económica mundial mas também o país com maior número de cristãos. “Segundo os meus cálculos, a China está destinada a tornar-se muito rapidamente o maior país cristão do mundo”, disse Fenggang Yang, professor na Universidade de Purdue (Indiana, Estados Unidos) e autor do livro Religion in China. Survival and Revival under Communist Rule (Religião na China. Sobrevivência e Renascimento sob o Regime Comunista). Isso “vai acontecer em menos de uma geração. Não há muitas pessoas preparadas para esta mudança assombrosa”.

 

Cresce sobretudo a comunidade protestante. De facto, a China tinha apenas um milhão de protestantes. Em 2010, já tinha mais  de 58 milhões. Segundo Yang, esse número aumentará para cerca de 160 milhões em 2025, o que faria com que a China ficasse à frente dos Estados Unidos. Em 2030, a população cristã total da China, incluindo os católicos, superará os 247 milhões, acima do México, Brasil e Estados Unidos. “Mao pensava que poderia acabar com a religião. E julgava ter conseguido”, diz Yang. “É irónico pensar que o que fizeram foi fracassar completamente.”

 

A situação parece preocupar as autoridades chinesas, que, por outro lado, não quererão 70 milhões de cristãos como inimigos.

 

2. Os católicos serão uns 12 milhões. Desde 1951 que a China não tem relações diplomáticas com o Vaticano. Mas o Governo chinês felicitou Bergoglio a seguir à sua eleição como novo Papa e exprimiu o desejo de que, sob o pontificado de Francisco, o Vaticano “elimine os obstáculos”, para uma aproximação. Francisco declarou por várias vezes não só o seu apreço pelo povo chinês como o seu desejo de visitar Pequim. Por exemplo, disse aos jornalistas: “Estamos próximos da China. Enviei uma carta ao Presidente Xi Jinping quando foi eleito, três dias depois de mim. E ele respondeu-me. Há contactos. É um grande povo do qual gosto muito.” E que está à espera de um sinal para uma visita.

 

O que é facto é que, aquando das viagens de Francisco à Ásia, a China, pela primeira vez, abriu o espaço aéreo para que um Papa pudesse sobrevoá-la. Não se pode esquecer que Francisco é jesuíta e que o jesuíta Matteo Ricci, cujos conhecimentos científicos deixaram o imperador deslumbrado, juntamente com Marco Polo são os dois estrangeiros recordados por Pequim entre os grandes vultos da China. Aliás, a inculturação do cristianismo na cultura e religião chinesas poderia ter-se dado nos séculos XVI-XVII, por influência precisamente do génio de Ricci, não fora a cegueira do Vaticano, que interveio desgraçadamente, impedindo essa síntese entre o Evangelho e a cultura milenar chinesa.

 

3. Francisco é um jesuíta da estirpe de Ricci, que admira: o processo da sua beatificação avança e a frase “venho dos confins do mundo” será citação de Ricci, que dizia ter passado a vida nos “confins do mundo”. Francisco é também considerado um “animal político”, que sabe de geoestratégia, acompanhado pelo secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, um diplomata de primeira água, como disse o Papa, no regresso da sua viagem aos países bálticos, respondendo às perguntas dos jornalistas sobre o acordo assinado dias antes entre o Vaticano e Pequim: “o Secretário de Estado que é um homem muito devoto, o cardeal Parolin, que tem também uma especial devoção pela observação. Estuda todos os documentos, até nos pontos, nas vírgulas e acentos. Isto dá-me uma segurança muito grande.” Foi um acordo que durou anos de negociações e é sabido que, acrescentou o Papa, “quando se faz um acordo de paz ou uma negociação, as duas partes perdem alguma coisa. Esta é a lei. As duas partes, e continua-se. E isto continuou. Dois passos para a frente, um para trás, dois para a frente, um para trás. Depois, passaram meses sem falarmos e depois chegou o tempo de falar, à maneira do tempo chinês, lentamente. Esta é a sabedoria, a sabedoria dos chineses.” Não houve improvisação, mas um caminho que durou a percorrer “mais de dez anos”.

 

Francisco fez questão de sublinhar que assumiu a total responsabilidade pelo que se passou: “Fui eu que assinei o acordo.” Em que consiste esse acordo de 22 de Setembro passado? Antes, havia a Igreja Patriótica, com bispos nomeados pelo Governo, e a Igreja clandestina, com bispos nomeados e fiéis ao Papa. Agora, “há um diálogo sobre eventuais candidatos. A coisa faz-se em diálogo, mas quem nomeia é Roma, o Papa. Isto é claro.” Há uma consulta entre os fiéis para o candidato a bispo, o Governo aprova, mas o Papa tem o direito de veto, havendo neste caso a necessidade de encontrar outro candidato.

 

Sucede, pois, que o Papa reconheceu sete bispos da Igreja Patriótica, que ficaram, em igualdade com os outros, em comunhão com o Papa. É compreensível que alguns bispos e muitos católicos que foram perseguidos e tiveram de viver na clandestinidade se tenham sentido um pouco traídos e sofram. Para esses Francisco teve também uma palavra: “Penso na resistência, nos católicos que sofreram. É certo, e sofrerão, num acordo, há sempre sofrimento, mas eles têm uma fé grande, e escrevem, fazem chegar mensagens. Sim, a fé martirial desta gente avança. São grandes.” E, numa alusão a Viganó, que o acusou na célebre carta bem conhecida, Francisco contou: “Quando saiu aquele famoso comunicado de um ex-núncio, os episcopados do mundo inteiro escreveram-me, dizendo de modo claro que se sentiam próximos, que rezavam por mim... Os fiéis chineses também escreveram e a assinatura desse escrito era do bispo, digamos, da Igreja tradicional católica e do bispo da Igreja Patriótica, os dois juntos e os fiéis juntos com eles. Para mim foi um sinal de Deus. Rezamos pelos sofrimentos de alguns que não entendem ou que têm às suas costas muitos anos de clandestinidade.”

 

O primeiro resultado visível deste acordo provisório é a presença no Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a decorrer em Roma, de dois bispos da República Popular da China: um da Igreja tradicional e outro da Igreja Patriótica. Na Missa de abertura do Sínodo, ao referir os seus nomes, um nomeado por Bento XVI e outro que pertencia à Igreja Patriótica, Francisco comoveu-se: “Hoje, pela primeira vez, estão também aqui connosco dois irmãos bispos da China continental. Demos-lhes as nossas afectuosas boas vindas: graças à sua presença, a comunhão de todo o episcopado com o Sucessor de Pedro é ainda mais visível.”

 

4. Poderia Francisco culminar o seu pontificado com uma visita à China? No quadro da reconfiguração geoestratégica daquela região — pense-se nos encontros entre o Presidente Donald Trump e o Presidente Kim Jong-un, no convite deste ao Papa para uma viagem à Coreia do Norte, nas próximas viagens de Kim a Seul e a Moscovo, na visita próxima do Presidente da China, Xi Jinping a Pyongyang... — e da importância deste acordo sobre um tema que era a principal razão de conflito entre Pequim e o Vaticano, não se pode excluir essa possibilidade ou até, diz-se, probabilidade.

 

Mas haverá ainda outro longo caminho a percorrer. O bispo de Hong Kong, Michael Yeung, apoiou — “Eu disse: Santo Padre, avance, não tenha medo, mas seja cauteloso” — e apoia este acordo com a China, mas adverte: “Não creio que a assinatura deste acordo provisório signifique a solução de tudo. É preciso tempo, um par de anos, para ver.” Acrescentou que “um acordo provisório não poderia ter parado a opressão” dos católicos chineses por parte do regime comunista nem tão-pouco “ter evitado que as igrejas sejam destruídas” ou que “os jovens sejam proibidos de ir à Missa”. “Estas coisas exigirão tempo para serem resolvidas”. De qualquer forma, pede que daqui em diante o Vaticano vele especialmente por duas coisas: os clérigos “clandestinos” encarcerados por Pequim e a liberdade religiosa.

 

Uma questão maior. Como é sabido, para o estabelecimento de relações diplomáticas, a República Popular da China pressiona todos os Estados para que cortem relações com Taiwan. Ora, a Santa Sé continua a reconhecer Taiwan e o Vaticano é mesmo o único aliado que Taiwan tem na Europa. John Hung Shan-chuan, arcebispo de Taipé, declarou em relação ao acordo: “Estamos felizes pelo progresso das relações, fomos informados antes”, e acrescentou: “O que vemos é que pela primeira vez o partido comunista está a abanar. Eles dizem que não querem que poderes estrangeiros se metam no seu país, mas desta vez permitiram-no. E isso é um bom sinal, embora não saibamos quais serão as consequências no futuro. Mas não estamos preocupados, porque o Papa disse-nos que não nos ia abandonar nem prejudicar Taiwan. Pedimos-lhe isso e sabemos que como bom pastor não nos vai abandonar”.

 

Neste enquadramento, a Presidente de Taiwan convidou oficialmente o Papa a visitar a ilha, que tem 300.000 católicos, aproximadamente 1, 5% da população. E os dois bispos chineses que estiveram no Sínodo — foi a primeira vez — convidaram o Papa a visitar o seu país, a República Popular da China. Para que a visita se concretize, será necessário um convite formal de Pequim.

 

Imediatamente a seguir, neste passado dia 18, o Papa Francisco recebeu, como previsto e como escrevi aqui na semana passada, o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, que lhe transmitiu oralmente, a pedido de Kim Jong-un, o convite para visitar a Coreia do Norte.  Depois do encontro, o porta-voz presidencial sul-coreano, Yoon Young-chan, declarou que “o Papa disse: ‘Darei uma resposta incondicional, se me chegar um convite oficial e puder ir’”. Já em relação ao convite para visitar Taiwan, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, confirmou, no mesmo dia, o convite, mas “posso afirmar que essa visita do Santo Padre não está a ser estudada”, disse.

 

Questões da diplomacia, imensas e complexas.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 20 OUT 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A dado passo (página 72) do meu Fomos em Busca do Japão, escrevi: Já referi Shusaku Endo, e com ele nos interrogámos sobre o porquê do cristianismo surgir, aos japoneses, como estrangeiro. E verificámos, com o professor Suzuki Norihisa, como o cristianismo progrediu no Japão em tempos de mutação social e subversão de valores, mas esses são, simultaneamente, períodos em que também se faz sentir uma maior necessidade de coesão nacional. Esta manhã, relendo este trecho e outros que adiante citarei, ocorreu-me ainda um passo do An 1000 An 2000 - Sur les Traces de nos Peurs, de Georges Duby (Textuel, Paris, 1995), livro que comprei e li em Tokyo, comparando a Europa medieval (aqui no século XIII) à presente: Também temos uma visão clara da evolução das mentalidades. Nesse período de forte crescimento, como atualmente, os filhos não pensavam como os pais. Apesar dessa sociedade muito hierarquizada cultivar de modo fundamental o respeito dos antigos. Qualquer súbito e novo modo de pensar é sinal, não só de mudança da circunstância económica, social, política e referencial (ou cultural), mas de um sequente salto para a frente de uma nova geração, seus modos de pensar e artifícios. O tempo e o modo: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

 

   O tempo e o modo do Japão - escrevia eu então - à hora da chegada dos portugueses, será a circunstância em que se desenvolverá o chamado século cristão, com o progresso rápido da evangelização e, depois, com as perseguições, até ao martírio de muitos (sobretudo japoneses) e à expulsão de todos os missionários e dos portugueses mercadores. As rivalidades entre senhores feudais, a sua própria concorrência ao batismo cristão para obterem armas de fogo e o benefício do comércio dos portugueses (sobretudo este, posto que, quanto a mosquetes, depressa os japoneses os fabricaram em Sakai); o movimento de unificação conduzido pelos senhores da guerra Nobunaga, Hideyoshi e Yeasu, este vindo a ser o iniciador do shogunato Tokugawa; a influência política das seitas e mosteiros budistas (e falarei dos kenmon); a desconfiança dos bakufu, aliás alimentada por adventícios holandeses e ingleses, de que a evangelização católica visava objetivos de cruzada e conquista política... Tudo isto pesou no destino do cristianismo e dos portugueses no Japão! Diga-se, a talho de fouce, que a tal ideia de cruzada não era apenas pura invenção protestante: os próprios Xavier, Valignano e outros jesuítas tiveram muitas vezes de enfrentar pessoas e conceitos firmados nas cortes portuguesa e espanhola, que defendiam que o Japão deveria ser outro Peru, como terra de conquista espiritual e temporal!

 

   Claro fique que os concorrentes holandeses e ingleses exploraram quanto possível o receio semeado, servindo-se da sua qualidade de cristãos protestantes e adversários dos católicos ibéricos. Não esqueças, Princesa, que aquilo a que hoje se chama a primeira globalização - e foi a expansão, primeiro ibérica, logo europeia, pelos cantos do mundo - a toda a parte levou essa mistura política, traduzida em guerras, de rivalidades económicas, concorrências comerciais, e confrontos religiosos fratricidas. Aliás, lutas entre irmãos, e intrigas, não foram apanágio exclusivo de reformados contra tridentinos e vice-versa: no Japão, por exemplo, a partir do momento em que se relaxou o Padroado Português e, pela rota de Manila, foram chegando missionários de outras ordens religiosas, também os católicos entre si se foram pregando umas partidinhas... Não quero fazer alarde de investigação histórica (nem sequer historiador sou, muito menos investigador) e procuro não te dar aulas, mas tão somente propor-te uma leitura descontraída de coisas passadas. Portanto, passo a ilustrar o período de que te falo com textos respigados do The Christian Century in Japan (1549-1650) de Charles Boxer (University of Califórnia Press, 1951). Traduzo-te alguns:

 

   Um dos lugares comuns da história é que não há confrontações mais amargas do que as engendradas pelo odium theologicum, que parece inseparável de qualquer disputa doutrinal e, mais ainda, em religiões como o Cristianismo e o Budismo que teoricamente deixam tal tensão à paz e boa vontade. O registo da Igreja Cristã a este respeito até é mais negro do que o dos sequazes do Iluminado, e a calúnia mútua a que as ordens católicas romanas chegaram no Extremo Oriente foi uma das principais causas do relativo falhanço das suas missões na China e no Japão. Como observou o Professor Murdoch [cf. Murdoch, James, e Isso, Yamagata, A History of Japan during the Century of Early Foreign Intercourse, 1542-1651, Kobe, 1903], a simples verdade dos factos é que, entre 1564 e 1614, pelo menos, entre jesuítas e franciscanos, no Japão, se chegou quase à guerra à facada, tal como sucederia no Paraguai, poucos anos depois. Não há historiações da Igreja que cheguem para esconder tal verdade a quem queira dar-se ao trabalho de gastar algum tempo a analisar as cartas que as missões daquelas Ordem e Companhia enviaram às respetivas sedes.

 

   Não tenho bem a certeza de em quem é que o Professor Murdoch pensava quando empregou o termo "historiações da Igreja" [Church historianizing], visto que os coevos participantes em tão pouco edificantes disputas não tentaram esconder o que tinham por verdade histórica, nem tampouco o fizeram os protagonistas Jesuítas e Dominicanos da igualmente amarga querela acerca dos ritos chineses, que convulsionou a Igreja Católica no século seguinte. Pelo contrário, a franqueza e chã linguagem dos seus respetivos porta-vozes não deixam a mínima dúvida da sua sinceridade, pense-se o que se pensar dos motivos (muitas vezes irrisórios quanto baste) que inspiraram essas erupções de inveja, ódio, malícia e falta de caridade. Frailes idiotas era um termo de opróbio usado pelos jesuítas muito antes de se tornar num grito de guerra dos anticlericais espanhóis no século XIX.

 

   [Ainda que não te escreva esta para te falar de história, aproveito-lhe a oportunidade de abrir um trecho só para te dizer que, na circunstância do Padroado Português do Oriente, em que se incluíam China e Japão, e apesar da sede do paralelo Patronazgo Espanhol estar nas Filipinas, a norma estabelecida pela coroa dos Áustria espanhóis, que submetia a si os dois reinos (Espanha e Portugal) e seus impérios, ordenava que a administração ultramarina de cada um fosse independente da do outro, bem como separadas as respetivas áreas de missionação. Desse modo, a presença e atividade das missões espanholas de outras ordens religiosas no Japão era ilegal, visto que, desde Dom João III, o Padroado fora confiado aos cuidados da Companhia de Jesus. Mas não te será difícil entender como o mui lucrativo comércio triangular (luso-nipo-chinês) era naturalmente cobiçado pelos mercadores espanhóis estabelecidos em Manila, onde arribavam pela rota do Pacífico, vindos do Peru... E a ganância pode muito.]

 

   Fechado o parêntese, volto ao tema da distorção de outrem e do próprio, por força, não tanto de divergências ou de propostas alternativas, em si mesmas, mas da concorrência entre rivais e das consequentes ganas de cada qual ser superior aos outros. É interessante verificar como a ideia das virtudes da concorrência como indispensáveis fatores de progresso e, finalmente, de justiça, não só fez dela a palavra de ordem para a viabilização de qualquer sociedade política e económica verdadeiramente liberal e democrática, como até canonizaram a agressividade como virtude heroica, e a ambição de dinheiro e poder como causa efetiva de saúde social e fim último do esforço individual.

 

  Concomitantemente se esquecem os efeitos colaterais ou secundários decorrentes da degenerescência da competição em tirania concorrencial. Ou, se assim melhor entenderes, Princesa de mim, se olvida a parábola do barranco de cegos. Tal como os missionários cristãos, no Japão do século XVI/XVII, não aprenderam com a lembrança de que uma das razões do seu êxito inicial na conversão de japoneses estar precisamente na incerteza que os nipónicos experimentavam com a divisão e a concorrência agressiva das seitas budistas entre si, tal acontecendo, diria o professor Norihisa, em período de necessidade de coesão nacional. Assim também hoje, muito se fala de crise das democracias liberais, ameaçadas por populismos, nacionalismos estremes ou, ainda, por agressões de fundamentalismos islâmicos e sabotagens russas e chinesas... Mas pouco se faz uma nossa introspeção -  exercício que talvez nos conduzisse à perceção de revisões necessárias da nossa cultura e comportamentos. Ao correr da pena epistolográfica - que, neste caso, é um teclado de computador portátil - vou então desafiar-te a recordares comigo alguns exemplos das nossas correntes contradições e perplexidades. Não seguirei qualquer ordem preestabelecida, vai tudo ao jeito do Vitorino Nemésio, isto é, do meu se bem me lembro... E assim irá por etapas, isto é, por cartas várias.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

FRANCISCO EM PYONGYANG?

 

A notícia chegou completamente inesperada e surpreendente: o Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, será portador de um convite formal do Presidente Kim Jong-un ao Papa Francisco para que visite o seu país, a Coreia do Norte. E está preparado para recebê-lo em Pyongyang “com entusiasmo”.

 

A Coreia do Norte ocupa hoje o primeiro lugar na lista dos países onde os cristãos são mais perseguidos. Nos princípios do século XX, a capital, Pyongyang, foi chamada “a Jerusalém do Oriente” ou “a Jerusalém da Ásia”. Na Coreia do Norte,  em 1950 viviam ainda mais de 55.000 católicos, com 57 igrejas construídas, com missionários, escolas católicas e actividades pastorais florescentes. A perseguição tinha começado antes, mas acentuou-se com a guerra da Coreia e o brutal regime instalado: as igrejas foram arrasadas, os cristãos, católicos e protestantes, mortos ou enviados para campos de concentração, num processo de eliminação de qualquer presença religiosa. As comunidades católicas tornaram-se verdadeiramente a “Igreja do silêncio”. Hoje existe apenas uma igreja católica, construída em 1988, mas sem padre nem religiosos nem baptismos. Na capital, os católicos  serão uns 800 e, dispersos por toda a Coreia do Norte, uns 2 ou três mil; no entanto, é convicção de padres do Sul, que estiveram no Norte, que o número pode ser muito superior: haverá muitos homens e mulheres que continuam a viver a sua fé em Cristo de modo  íntimo, sem possibilidade de exprimi-la publicamente. O regime é ateu, mas, a partir de 1989, com a queda do bloco comunista, reconheceu uma “Associação Católica” e uma “Federação Cristã”, que são duramente enquadradas e controladas pelo Governo. Alguns contactos informais têm tido lugar em Roma entre representantes norte-coreanos e diplomatas do Vaticano, revela o jornal La Croix, que também escreve que em 2017 um diplomata norte-coreano declarou expressamente a um seu enviado especial à Coreia do Norte que “as organizações humanitárias católicas faziam um trabalho muito bom na Coreia do Norte; são sérias, eficazes e nós confiamos, pois são mais honestas e sinceras do que outras grandes organizações laicas que nos enviam espiões”.

 

Como reagirá o Papa Francisco ao convite? Ele vai receber no próximo dia 18 o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, um católico fervoroso, que lhe entregará o convite oficial do líder norte-coreano. Nesse dia, o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, um diplomata reconhecido e prestigiado internacionalmente, celebrará uma Missa na Basílica de São Pedro pela “Paz na península coreana”, na qual participará o presidente Moon.

 

Possivelmente o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, é o grande artífice da presente situação cada vez mais distendida na península coreana, no quadro de uma nova ordem, que poderia estar inclusivamente a caminho de uma união entre as duas Coreias; para um dos encontros inter-coreanos convidou também o presidente da Conferência Episcopal Coreana, que esteve presente. O convite do líder norte-coreano ao Papa surge no contexto dessa reconfiguração geoestratégica, estando previsto que Kim Jong-un visite Seul, visitando também proximamente Moscovo, ao mesmo tempo que se espera uma visita do presidente chinês,  Xi-Jinping, a Pyongyang, e outro encontro entre Kim e Donald Trump poderá acontecer em breve. Por outro lado, Kim, que é sabido ser um ditador cruel e que poderia correr o risco de uma sublevação por parte da população esfomeada, quererá mudar a sua imagem, agora uma imagem de homem pacífico; e que solução melhor para isso do que o convite a Francisco, líder político-moral global e símbolo do combate a favor do diálogo e da paz?

 

E se Francisco fosse visto em Pyongyang? Ele visitou a Coreia do Sul em Agosto de 2014. Aquando da cimeira histórica entre Trump e Kim a 12 de Junho passado em Singapura repetiu os  vários apelos que tem feito a favor da paz entre as duas Coreias.  O cardeal Andrew Yeom Soo-Jung, arcebispo de Seul, declarou a propósito do convite: “Dá-me satisfação e conforta-me saber que, durante a sua visita ao Vaticano na próxima semana, o Presidente Moon Jae-in levará consigo a mensagem do líder norte-coreano Kim Jong-un, que deseja convidar o Papa Francisco para Pyongyang. O Santo Padre preocupou-se sempre e preocupa-se com a paz na península coreana e incluiu nas suas orações os coreanos sempre que houve acontecimentos importantes na história recente. Espero que estes esforços ajudem a construir uma paz genuína na península da Coreia. Sobretudo como administrador apostólico de Pyongyang, rezo sinceramente para que em breve possamos enviar sacerdotes e religiosos e religiosas para o Norte e celebrar juntos os Sacramentos.”

 

Francisco tem a convicção de que o futuro do cristianismo se joga em grande parte na Ásia. Está prevista uma viagem sua ao Japão no próximo ano e não se deverá esquecer que este convite vem também na sequência do acordo de 22 de Setembro passado entre o Vaticano e Pequim sobre a nomeação em conjunto dos bispos da República Popular da China. Este acordo será o tema da minha próxima crónica.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 13 OUT 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

    Não te falo agora, Princesa de mim, de um problema da consciência pessoal de cada um de nós, mas antes me preocupa a inspiração de uma atitude eclesial, isto é, o olhar da caridade sobre o justo e o injusto. E terei de te falar de uma questão insidiosa: a confusão corrente, que se pensa ser a da Igreja "oficial", entre crime e pecado. E, claro está, do embrulho mental e sentimental em que nos meteu tudo isso, pela  insistência em se manter uma intervenção jurisdicional da Igreja sobre o comportamento das pessoas, e em quase todos os aspectos das suas vidas. Entre amigos, como bem sabes, Princesa de mim, costumo dizer que a Igreja padece de um excesso de moralismo canónico e duma correspondente carência de esperança evangélica na acção do Espírito Santo... E esse moralismo começa assim que se considera qualquer ato mais importante do que a inspiração donde decorre ( A.-N. Bertrand, citado em A. Lalande: Vocabulaire technique et critique de la philosophie, 8ª edição, Paris, 1960). Caímos assim no domínio objetivo do direito positivo, a lei de Deus passa a ser lida mais como um código de conduta, com infrações textualmente identificadas, concretamente verificáveis por factos reconhecidos ou pelo reconhecimento, em confissão, dos seus próprios autores. Ora, parece-me que, em sentido ou espírito evangélico, o mandamento novo antes é uma vocação à santidade, um caminho de perfeição cujo prémio é a alegria da semelhança ao Pai (os nossos Padres até lhe chamavam regras de vida santa) do que uma regra totalitária que incessantemente nos ameaça com o inferno. O jugo de Jesus Cristo é suave, dá à nossa liberdade a oportunidade sempre renovada de cooperarmos com o Senhor Deus. Gosto muito daquela definição que o dominicano frei Jean Cardonnel dá do pecado: Le péché c'est la passion de nos limites. Na verdade, o pecado é essencialmente a desmesura do nosso contentamento com a nossa mesquinhez. É como querer fechar-se em casa, cerrando portas e janelas, em dia de sol e brisa mansa.

 

   A realidade do pecado não é catalogável, do mesmo modo em que o é, e tem de ser, pelo direito positivo, qualquer crime, com suas atenuantes e agravantes, como ato que é facto punível por pena objetivamente estipulada. Por isso mesmo, todos os crimes cometidos por gentes da Igreja - e a Igreja somos todos nós - devem ser devidamente denunciados e entregues ao juízo e sentença da justiça civil, pois que até a reparação possível de qualquer infração da lei e da violência sofrida por vítimas, ou da simples violação dos seus direitos, não pode ser isenta da norma que, por fundamento e definição, é, e deve sempre ser, equitativa, isto é, igual para todos.

 

   Outrossim, a Igreja não é um tribunal, nem humano nem divino. É, entre nós, a comunidade da misericórdia de Deus na terra dos homens. O seu serviço não é o de ameaçar ou punir, é o de nos chamarmos, uns aos outros, ao cumprimento da regra do amor, que conduz à visão de Deus. Pelo acolhimento na fé e pela esperança no amor misericordioso de Deus, pelo labor de lançar a ponte sobre esse abismo a que o diplomata e grande poeta francês Alexis Leger (conhecido como Saint-John Perse) assim se referia no discurso que proferiu quando lhe foi entregue o prémio Nobel, em 1960: O verdadeiro drama deste século está na distância que temos deixado crescer entre o homem temporal e o homem intemporal.

 

   E é certo:  a vocação, o risco e o compromisso da - chamemos-lhe assim - "aventura evangélica" de cada um não são sempre iguais, já São Paulo explicava bem como, no corpo da comunhão em Cristo, são muitas e diversas as funções, consoante os dons e o carisma, os serviços e as capacidades. E se a todos nos é pedido seguir Jesus na amoris laetitia, nem a todos é feita a mesma chamada a uma resposta absoluta, ou quase, que é renúncia a família e amigos, a bens e arbitrariedades... Por isso mesmo, a Igreja dos Apóstolos não exigia o celibato aos seus ministros, e o próprio São Paulo aconselhava a escolha dos bispos de entre homens casados e considerados bons pais de família. E o beato Bartolomeu dos Mártires, frade mendicante e dominicano (voluntariamente comprometido com os três votos: pobreza, castidade e obediência) enquanto arcebispo de Braga defendeu, no Concílio de Trento, que não se impusesse a obrigatoriedade do celibato aos padres católicos, pensando na dura vida dos seus párocos em serranias de Barroso.   

 

   A Igreja, hoje tão perplexa pelos escândalos de pedofilia no seu seio - sobretudo pelo envolvimento direto ou encobrimento dos mesmos por muitas das suas "Altas Patentes" (é minha a ironia da designação) - só tem todavia, como repetidamente disse, uma forma de tolerância zero para com os crimes cometidos: entregá-los ao poder judicial da sociedade civil, para que sejam julgados conformemente à lei comum. Aliás, tal gesto talvez inspire outros grupos sociais, confessionais ou laicos, todos, como a Igreja Católica, aí simplesmente cívicos, a diligenciarem o mesmo - pois sabemos bem quantos mais abusos de menores e sevícias sexuais, domésticas e não só, também fora da Igreja se vão cometendo... Esta deverá concentrar-se no exercício da misericórdia cristã para com todos os que, mesmo criminosos, para ela devem ser apenas pecadores. Evitando o disparate de pensar que, com absolvições e promessas de boas intenções se corrigem problemas deste gabarito. A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Lembra-te, Princesa de mim, da palavra de Jesus que bem distingue crime e pecado: quem consentiu no desejo ou vontade de o fazer, já cometeu pecado no seu coração. Aos olhos do deus cristão, o pecado não está nos factos, mas sim no mal que deixarmos habitar o nosso pensarsentir. Os feitos dos homens são certamente passíveis de chamadas de atenção e correção fraterna, sem prejuízo da sua ponderação pelo poder judicial civil, ou consideração pelas medicinas humanas. Mas a consciência, a casa do pecado, essa responde perante Deus, e a Igreja apenas deve abrir-lhe sempre a porta da conversão e reconciliação. A catalogação dos pecados, suas penitências e indulgências, até tem servido para que catecismos não tenham reparado que não se fala, por exemplo, de sexo, nas bem aventuranças, nem no Juízo Final. O que, neste, nos será perguntado é se acudimos e acolhemos quem precisava, que esperava. Revejam-se os catecismos e, já agora, debatam-se em sínodos mais participados questões como  a contracepção e o divórcio que, não sendo crime perante a lei civil, nem sempre serão pecado aos olhos justos de Deus... Para terminar esta carta - em que podia ter-te dito ainda muito mais - deixo-te um parágrafo dum artigo do teólogo americano Stanley Hauerwas, significativamente intitulado The Demands of a Truthful Story: Ethics and the Patoral Task , e publicado na revista Chicago Studies (nº21, 1982). Traduzo:

 

   A primeira tarefa da ética cristã implica uma tentativa de nos ajudar a ver. Porque apenas poderemos agir no mundo que pudermos ver, e só poderemos ver bem o mundo se formos treinados para ver. Não conseguiremos ver só a olhar, mas sim através de habilitações disciplinadas, que se desenvolvem pela iniciação a uma narrativa.

 

   O conceituado professor de teologia no King´s College, em Londres, Alister McGrath, diz (cf. Heresy, Society for Promoting Christian Knowledge, London, 2009) que aquele teólogo americano é um dos muitos escritores contemporâneos a enfatizar que tratar o Cristianismo simplesmente como uma colecção de doutrinas ou declarações de fé leva a uma grave distorção do seu carácter. Antes e mais, ele deve ser visto como diferente caminho de vida, tornado possível pela ação da graça do Espírito Santo, que orienta os seus fiéis para o Pai através de Jesus Cristo.

 

   Sobretudo em sociedades onde o clero se constitui em classe ordenada e "consagrada" pela segregação (com mais fundamentação canónica ou pseudoteológica do que evangélica), e é maioritariamente instruído pela aprendizagem de catecismos, mais do que por formação intelectual adequada a questões teológicas e pastorais, o clima necessário à meditação e reflexão entre a fé e o mundo parece ausente. E, todavia, o caminho da Igreja no mundo deve ser percorrido pela comunhão dos crentes, essa fé que interpela o mundo e deixa o mundo interpelá-la. 

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

PENSANTES E NÃO PENSANTES

 

Imersos numa crise sem precedentes da Igreja Católica, que está longe de terminar, retomo, na substância e com a devida vénia, um texto que escrevi para o livro “Portugal Católico. A beleza na diversidade”.

 

1. Quando cheguei à Universidade, admirava-me com o espanto de estudantes e até de professores por causa do meu pensar interrogativo no que se refere à religião. No entanto, I. Kant tinha razão ao escrever que a religião, apesar da sua majestade, não pode ficar imune à crítica. Só uma Igreja autocrítica e que acolhe a crítica da sua realidade tantas vezes tenebrosa pode criticar as infâmias do mundo.

 

Julgo que continua em Portugal a ideia de que o católico na Igreja está infectado por uma fé dogmática, imóvel e incapaz de pensamento aberto e crítico. A pergunta é: Quem assim pensa estará enganado? Infelizmente, parece-me que não. De facto, quando se pensa nas feridas deixadas pela Inquisição, que tolheu a abertura do pensar, e num clero frequentemente inculto, que se deixou ultrapassar pelo mundo moderno — ouça-se as homilias de grande parte dos padres, impreparadas, inúteis ou mesmo prejudiciais —, fica-se com a convicção de que a Igreja se imobilizou num mundo do dogma repetitivo de uma doutrina que já não é aliciante para a vida e que, pelo contrário, transformou o Evangelho, notícia boa e felicitante, em Disangelho, notícia infeliz e de desgraça, para utilizar a palavra de Nietzsche. Drama maior: a modernidade acabou por ter de impor à Igreja oficial o que é património e herança do Evangelho: os direitos humanos, a liberdade, a igualdade, a separação da Igreja e do Estado.

 

No entanto, a Primeira Carta de Pedro manda “dar a razão da fé e da esperança”. E é M. Heidegger que tinha razão, ao dizer que “o perguntar é a piedade do pensamento”. Job — está na Bíblia — atreveu-se a fazer perguntas de protesto a Deus e Deus louvou-o por isso. Jesus morreu a rezar, com uma pergunta que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?” E é preciso aceitar que há perguntas sem resposta ou para as quais o crente não tem resposta, como reconhece o Papa Francisco. 

 

O ser humano é constitutivamente o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, chega ao infinito, perguntando ao Infinito pelo Infinito, isto é, por Deus. É aqui que encontra fundamento a dignidade humana. Finitos e mortais, levamos connosco a capacidade de perguntar ao Infinito pelo Infinito e a sua existência, independentemente da resposta que se dê à pergunta. Isso significa que temos algo de infinito em nós, precisamente essa capacidade. Finitos, somos da ordem do infinito. Por isso, temos dignidade e somos fim e não meio, como é próprio do infinito: para lá do infinito não há mais nada. Lá está Ernst Bloch, o ateu religioso, na sua pedra tumular: “Denken heisst überschreiten” — “Pensar significa transcender”.

 

2. O Evangelho explicita os dois princípios que devem presidir à reforma que se impõe na Igreja, ao “definir” Deus como Agapê, Amor incondicional, e, logo no início do Evangelho segundo São João, ao dizer que no princípio era o Logos (Verbo, Palavra, Razão, Sentido), o Logos estava em Deus e o Logos era Deus e tudo foi criado pelo Logos. Os dois princípios que têm de animar os católicos, começando por aqueles a quem foi entregue a missão de presidir à Igreja, comunidade de comunidades espalhadas pelo mundo todo, são, portanto: o Amor, a Bondade, e a Razão, a Inteligência. A bondade sem inteligência não abre caminhos novos e pode causar imensos estragos irreparáveis; a inteligência sem a bondade pode tornar-se cruel e fazer um sem número de vítimas.

 

É neste fundo que se percebe claramente a urgência impreterível da renovação da teologia. O jesuíta Jorge Costadoat chamou a atenção para esta necessidade, ao constatar que talvez nunca como hoje, desde os inícios do cristianismo, a Igreja precise tanto de se pensar a si própria teologicamente no seu respectivo mundo. Uma tarefa gigantesca. De facto, o que acontece é que a teologia não tem ajudado a Igreja na sua entrada numa nova época, o que deriva também das sucessivas condenações de teólogos, de tal modo que a teologia que os ambientes eclesiásticos consideram a melhor é realmente “muitas vezes a pior”. Daí, o fosso entre a Igreja “oficial” e o mundo e mesmo o comum dos baptizados, a ponto de “não se saber exactamente quem tem real autoridade para orientar os outros”: o poder formal sabe-se quem o tem, mas o problema é a autoridade, inexistente, para orientar. “O que se constata é que a distância da Igreja em relação à cultura — a cultura predominante e as diversas culturas —, é crescente. A actual configuração histórica e cultural da Igreja não suporta tantas e tão aceleradas mudanças. Este foi já o diagnóstico do Concílio Vaticano II há 50 anos. Hoje, a tensão é muito maior”.

 

Uma coisa sabemos: primeiro, é a necessidade da conversão ao Deus de Jesus, ao amor e à misericórdia, que o Papa Francisco encarna. Esta é a direcção correcta e o rumo certo e necessário. “Mas, continua Costadoat, a caridade cristã acerta verdadeiramente quando exige e depende de uma articulação da fé e da razão. Uma caridade infantil e piedosa nunca deve ser menosprezada, mas também não deve ser mistificada. A caridade de que hoje precisamos requer ser pensada e reflectida em todos os planos da vida humana, e a nível político e planetário”. E isso exige uma teologia que não seja mera teologia de teologia, isto é, comentário de comentários, no quadro de uma ortodoxia empacotada e repetida ad nauseam de modo caduco, estéril e, por isso, prejudicial. Impõe-se a necessidade de uma teologia viva e que “tenha a coragem que tem o próprio Francisco de tentar e de equivocar-se”. A teologia com uma tarefa pendente tem de ser “teologia que se confronta com hipóteses e interpretações de uma realidade cada vez mais difícil de compreender; que se situe historicamente e pense a sua missão numa cultura em transformação variada, muitas vezes disparatada, e incessante. O que se requer é uma conversão teológica de 180 graus. A teologia ocupou-se da revelação de Deus no passado; a teologia de que agora se precisa deveria concentrar-se na fala de Cristo no presente. Sem uma teologia deste tipo, que atenda também à pluralidade cultural, a proposta evangelizadora está a naufragar”.

 

O Papa Francisco tem dado o exemplo. Não só não condenou teólogos como pede pensamento teológico novo na liberdade de pensar e de expressão, tendo ele próprio avançado com dois textos essenciais, que farão história: a Laudato si’ sobre a salvaguarda da criação, a humanidade no cosmos, e a Amoris laetitia, uma visão nova sobre a sexualidade, o casamento e a família.

 

3. A Igreja tem de dialogar com humildade e sem medo com as ciências, com todos, incluindo os agnósticos e os ateus. Diálogo, como diz a etimologia, é o logos comunicante, a razão comunicativa. Homem de diálogo, o cardeal jesuíta Carlo Martini, que dizia que a Igreja anda atrasada duzentos anos, criou em Milão a Cátedra dos Não-Crentes e, reportando-se a um pensamento de Norberto Bobbio, dizia: “o que me interessa é a diferença entre pensantes e não pensantes. Quero que todos vós sejais pensantes. Depois, escutarei as razões de quem crê e as de quem não crê”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 6 OUT 2018