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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Eufemisticamente falando, não deixa de ser curioso que a Igreja Católica, contando ainda hoje - estatística e oficialmente - com mil e duzentos milhões de fiéis neste mundo terrenal, pareça mergulhada, aqui e ali, numa espiral descendente da sua afluência, precisamente no decurso de um pontificado (no sentido de fazedor de pontes) que lhe trouxe uma aragem de evangelho e a promessa de cara lavada... Ao escrever-te esta palavra afluência, pergunto-me se, afinal, tal decréscimo - também atribuível, no seio da própria Igreja, a sectores erradamente designados por conservadores ou fundamentalistas (pois não me parece que o que pretendem conservar seja propriamente o espírito evangélico ou o novo mandamento do amor fundador da comunhão eclesial) - não será atribuível à infeliz propensão histórica de uma instituição clerical para tentar assegurar, e garantir, uma praxis temporal do seu dogma, deixando a assembleia dos crentes sem ares do Espírito Santo, da vocação evangélica, da boa nova cuja transmissão Jesus Cristo confiou, precisamente, à confissão fiel dos seus discípulos... O escândalo dramático do abuso sexual de menores, sobretudo pela flagrante injustiça que tem sido a proteção sistemática de clérigos criminosos - cuja contrapartida é, sem atenuante possível, a negação de qualquer reparação devida às vítimas inocentes - não só tem minado a confiança de crentes e incréus na instituição eclesiástica, como, pior ainda, não tem gerado maior diligência na renovação, em espírito evangélico, da Igreja dos fiéis de Jesus Cristo. Pois não basta, nem me parece eficiente, procurar apenas restaurar a "imagem da Igreja", mesmo sem recear tomar as mais drásticas medidas punitivas e também dissuasoras de tal criminalidade... Na verdade, ninguém dotado de lucidez negará que esses casos não se tratam com confissões secretas e absolvições, mas deverão ser acompanhados por clínicos devidamente qualificados (na verdade, deparamos com séries de reincidências maníacas, não com quedas súbitas em tentações exaltantes), nem tampouco que os mesmos e os seus encobridores ou absolvidores devam ser sujeitos à lei penal comum. Repito: qualquer crime de pedofilia, nas igrejas ou fora delas, como qualquer outro abuso ou assédio sexual, ou violência doméstica, é prioritariamente matéria para tratamento médico e psiquiátrico e, também, para ser submetido à jurisdição dos tribunais competentes. Num Estado de direito, não é, não pode ser considerado, primeiro, objeto de qualquer processo canónico, e o seu eventual socorro sacramental nem sequer pode antepor-se ou derrogar a prioritária aplicação do direito positivo da sociedade civil.

 

   É evidente que, nem a fé cristã e seus mandamentos, nem a comunhão dos seus fiéis (que é a Igreja), podem ser responsabilizados por crimes cometidos no seu seio, ainda que os seus agentes e encobridores sejam seus ministros. Mas todos estes, mais os pastores encarregados da vigilância da sua disciplina, não podem ser sujeitos isentos das medidas sanitária e legalmente previstas para tais casos, na sociedade civil, jurídica e politicamente organizada, em que vivem. A Deus o que é de Deus, mas sempre, e em tempo oportuno, a César o que é de César. Cumprida a obrigação para com César, terá então a Igreja tempo e disponibilidade, caridade, para procurar restaurar-se (no sentido de refazer forças) e seguir o caminho da sua vocação. E quiçá encontre muito em que meditar e muito para restaurar (no sentido de repor a pujança original). E não bastará sacudir o pó e acomodar-se.

 

   Outrossim me parece urgente um regresso da inspiração cristã aos ensinamentos elementares de Jesus e ao espírito do Pentecostes que animou a constituição das primeiras comunidades e igrejas cristãs. A Igreja Católica que hoje nos é dado ver é a instituição resultante de uma longa evolução histórica, em que atuaram circunstâncias e fatores demográficos, culturais, económicos, políticos e teológicos, variadíssimos e até contraditórios. Simplificando, Princesa de mim, posso arriscar dizer-te que, basicamente, ela terá tido duas tipologias : 1.- A das igrejas locais, nascidas em comunidades judaicas da Palestina e da diáspora, tal como em populações gentias convertidas no mundo helénico; as tais que, por habitarem o Império Romano, no seio do mesmo comunicavam entre si, ganhando assim uma comum identidade, que a frequência de sínodos e de concílios ia solidificando (pois essas reuniões de epíscopos representantes iam definindo expressões comungantes da fé), tendo naturalmente concordado na primazia do bispo de Roma como sinal de união católica de todas elas. 2.- E, mais tardiamente, vai-se impondo, quer pelo fim das perseguições, quer pela conversão dos imperadores e a proclamação do cristianismo como religião do Império (até em modo de substituição do culto divino do imperador) um modelo mais marcadamente centralizado - e, por isso mesmo, gerador de autoritarismo e de hierarquia, seguindo o exemplo político do próprio Império Romano, sobretudo quando o desmoronar dessa entidade, pelas invasões bárbaras, abriu à Igreja Romana um espaço novo de afirmação. E foi fazendo dela uma instituição "política" e administrativamente organizada, formatada por um padrão que hoje ainda prevalece, a tal ponto que muitas vezes nos esquecemos de que Jesus Cristo não fundou qualquer instituição...

 

   No jeito informal que me permite a nossa comunicação epistolar, e tão somente com o mero propósito de refletirmos conversando, em próximas cartas procurarei descobrir pistas para uma Igreja mais evangélica nos tempos que corremos.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

OS INIMIGOS DO PAPA FRANCISCO

 

1. No meio desta tragédia da pedofilia do clero, que coloca a Igreja Católica numa crise sem precedentes, e quando se pode erguer a suspeita de que ela é um antro de anormais e pedófilos, parece-me justo esclarecer que, no mundo dos pedófilos, a percentagem dos padres é mínima.

 

Sinceramente, esta constatação não é para mim de modo algum motivo de consolação. Pelo contrário. De facto, este dado só vem confirmar que o número de crianças que sofreram e que sofrem é muitíssimo mais vasto do que aquilo que se poderia imaginar.

 

Depois, os abusos de menores e adultos fragilizados por parte do clero têm uma agravante terrível: as pessoas confiavam, diria que de modo incondicional, nos padres e na Igreja, e foi essa confiança que foi traída. Uma traição que envergonha  os católicos. E a agravar ainda mais a situação: responsáveis, incluindo bispos e cardeais e a Cúria Romana, ocultaram e encobriram estes horrores, porque pensaram que o mais importante era defender e salvaguardar a honra e o prestígio da Igreja enquanto instituição. Evitar a todo o custo o escândalo era a palavra de ordem. Deste modo, o Evangelho foi ferido de modo brutal no seu núcleo, que é colocar a pessoa e a sua dignidade no centro, sobretudo quando se trata de vítimas inocentes. Uma catástrofe moral.

 

Sobre as crianças, há duas palavras essenciais de Jesus no Evangelho, que é necessário continuamente relembrar. A primeira: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus. Quem quiser entrar no Reino de Deus deve ser como elas.” Elas são simples e não discriminam... A outra palavra de Jesus é terrível: “Ai de quem escandalizar uma criança, ai de quem fizer mal a uma criança. Era melhor atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao mar.”

 

2. Causas para este colapso moral são muitas. Mas o Papa Francisco apresenta como principal o clericalismo e, consequentemente, o carreirismo, que ele, desde o princípio, diz que constituem “a peste da Igreja”, sempre em conexão com a Cúria Romana, a corte, de que ele diz que é “a lepra do papado”. Neste contexto, Francisco associa “abusos sexuais, de poder e consciência”. Disse, há uns meses, ao episcopado chileno: “Há uma ferida aberta, dolorosa, e até agora foi tratada com um remédio que, longe de curar, parece tê-la aprofundado mais na sua espessura e dor. Os problemas que hoje se vivem dentro da comunidade eclesial não se solucionam apenas abordando os casos concretos e removendo pessoas. Constituiria grave omissão da nossa parte não aprofundar nas raízes. Essa psicologia de elite ou elitista acaba por gerar dinâmicas de divisão, separação, círculos fechados, que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias nas quais, em vez de evangelizar, o importante é sentir-se especial, diferente dos outros, pondo assim em evidência que nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. Messianismos, elitismos, clericalismos, são todos sinónimos de perversão no ser eclesial.”

 

No seu comentário, Ramón Alario caracteriza estas palavras como “duras, corajosas, clarividentes”, pois mostram que é preciso ir à raiz deste tsunami da pederastia do clero e atacá-la enquanto “problema estrutural”, portanto, para lá da responsabilidade das pessoas concretas. Evidentemente, o celibato imposto tem de ser considerado, mas como parte de uma estrutura clerical muito mais ampla e um dos seus pilares. Alguns dos elementos que fazem parte desta estrutura: “concentração do poder nas mãos da clerezia”, poder hierarquizado e assente na contraposição clérigos/leigos; um poder patriarcal e machista, que exclui as mulheres; a carreira e ascensão no poder fazem-se mediante dois mecanismos complementares: “a obediência e/ou a hipocrisia”; “uma concepção e prática dualista e maniqueia” concretamente em relação à sexualidade; “sobrevalorização do celibatário”, considerado mais perfeito do que o casado, porque mais próximo de Deus; o celibato obrigatório é “uma imposição legal” para poder pertencer a esta classe superior; o clero está à frente de “comunidades reduzidas a lugares de culto e serviço religioso à volta do padre, sem voz nem voto nas decisões de base: convertidas em grupos menores de idade...”.

 

Depois, pode dar isto, segundo aquela diatribe dura e melancólica de Nietzsche contra os padres, prevenindo contra a infelicidade, que traz consigo sempre mais infelicidade: “Até entre eles há heróis. Muitos deles sofreram demasiado: por isso, querem fazer sofrer os outros”. Nietzsche, que proclamou a morte de Deus, também deixou escrito, na mesma obra, Assim Falava Zaratustra: “Eu só acreditaria num deus que soubesse dançar”.

 

3. Francisco quer renovar a Igreja, refontalizá-la, levando-a às origens, com o Evangelho de Jesus. Tolerância zero para a pedofilia. Transparência nas contas do Banco do Vaticano. Reforma profunda da Cúria. Uma Igreja fraterna, pobre, em saída para as periferias geográficas e existenciais. Uma igreja viva, que não é museu. Sem clericalismo, capaz de se aproximar dos divorciados recasados, dos homossexuais, que são católicos como os outros (o problema não é ser homossexual, o problema é “o lóbi gay”, diz). Francisco também está próximo dos mais desfavorecidos e critica o capitalismo desenfreado, escreveu uma encíclica, a Laudato Sí, apelando à necessidade de salvaguardar a Terra, criação de Deus e nossa casa comum, e também à necessidade de humanitariedade para com os migrantes e refugiados...

 

Evidentemente, os rigoristas fariseus e os lóbis económicos não gostam e atacam-no ferozmente, acusando-o inclusivamente de heresia.

 

Recentemente, o arcebispo Carlo Maria Viganò, num golpe cobarde e vil, pretendeu acusá-lo de cumplicidade e encobridor. Francisco, naquela sabedoria só dele, disse aos jornalistas que fossem profissionais e cumprissem o seu dever de investigação, e eles cumpriram e a imprensa internacional desmascarou o ex-Núncio Viganó e os seus apaniguados, envolvidos em mentiras e contradições. E a Igreja universal, que queriam ver desunida, tem vindo massivamente a manifestar o seu apoio incondicional a Francisco. Também a Conferência Episcopal Portuguesa o fez.  Para lá dos eclesiásticos, é longa a lista de políticos (incluindo Trump) e figuras públicas que vieram em defesa de Francisco.

 

Quem já anunciava que dentro de semanas ou meses teríamos a renúncia de Francisco e um Papa conservador a suceder-lhe devia saber que ele já preveniu que não sai a pontapé. Como tenho vindo a repetir, estou convicto de que Francisco, nesse encontro admirável de franciscano e jesuíta, não se demite nem se deprime. E não se ficará só com pedidos de perdão e exigência de justiça, incluindo a justiça civil. Até porque é preciso ir mais longe e fundo. Pode vir aí um Sínodo — Francisco está continuamente a falar da sinodalidade da Igreja, que quer dizer necessidade de caminhar juntos e em comum —, um Sínodo enquanto reunião universal de toda a Igreja, com representação de bispos, mas também de padres, de religiosos e de religiosas, da Cúria, de leigos e de leigas, portanto, eles e elas, na devida proporção, sob a presidência do Papa. Para debater esta e muitas outras questões. A que se deve esta tragédia? Como caminhar para estruturas mais democráticas na Igreja? Que novo tipo de padre? Ordenar homens casados? Pôr fim à lei do celibato? Qual o papel das mulheres na Igreja? É legítimo continuar a discriminá-las, contra a vontade de Jesus? O que é que as impede de poderem presidir à celebração da Eucaristia? Que moral sexual? O que é que a Igreja pensa de si mesma, da sua identidade e missão? Como é que deve ir ao encontro da Humanidade actual, com os seus novos problemas, questões de bioética, questões que têm a ver com o transhumanismo e o pós-humanismo, a justiça social, os direitos humanos, o diálogo ecuménico e inter-religioso, a paz num mundo globalizado...

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 8 SET 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   A questão do celibato voluntário tem sido obnubilada pela obsessão com a obrigatoriedade do celibato eclesiástico. Esta padece, pela sua própria natureza obcecante, de falta de racionalidade nas aproximações opostas, ou contrárias, de que é objeto: há quem defenda o princípio brandindo pretensas fundamentações bíblicas, teológicas, históricas ou, simplesmente, pragmáticas (maior liberdade e independência na dedicação ao ministério religioso), como há os que se insurgem contra a imposição de um mandamento contra natura e as fatais consequências (pedofilia, etc.) de tal aberração.

 

   Já várias vezes te escrevi, Princesa de mim, que não considero pertinentes os argumentos de uns, nem me parece que a pretensa indignação de outros assente em aceitáveis razões erga omnes. Isto é: não encontro justificação plausível para o carácter coercivo do celibato de quem exerça ou pretenda exercer um ministério eclesial, como tampouco creio que o abuso de menores, o desvio de mulheres casadas, ou a frequentação de bordéis sejam o resultado necessário e exclusivo de falta de alívio conjugal. Por um lado, sei de um número crescente de pastores casados -  e de pastoras! - cuja generosa devoção ao serviço das suas igrejas é admirável, tal como, por outro lado, infelizmente sei de pessoas casadas que violam menores, e, sendo quer homo quer hétero sexuais, se viciam em "aventuras" extraconjugais ou se comprazem em encontros remunerados e em "partouses"...

 

   É precisamente porque somos livres que somos responsáveis, isto é, que necessariamente devemos responder pelos motivos e consequências dos nossos atos. Não é por alguém ter nascido homossexual que será incontrolavelmente pederasta ou esteticamente narciso; nem por ser hétero galifão que deverá imparavelmente "iniciar" meninas ou "consolar" senhoras mal desposadas por outrem. Antigo conselho do bom senso comum continua a recordar: "Haja juízo!"

 

   Ou, como prefiro dizer, evocando a definição agostiniano-tomista de prudência: procuremos sempre o amor sagaz. Este deverá inspirar a revisão de conceitos obsessivos e decorrentes modos normativos que a Igreja Católica ainda hoje mantém relativamente à sexualidade. Pretender que "abstinência sexual é exigida pela lei de Cristo" não só revela fraco convívio com a mensagem evangélica, como desconhecimento do plano bíblico do Criador, além de poder indiciar temores insanos das próprias e naturalíssimas pulsões sexuais. Dito isto, repito o que tantas vezes te confidenciei: acredito que haja vocações para a castidade como estado de vida, tais sendo, todavia, aspirações a uma forma muito própria de maior liberdade interior, cuja realização, na tradição cristã, se inicia com os primeiros cenobitas. E volto a recordar-te que, em todos os apelos de Jesus registados nos evangelhos, a quem quiser segui-lo totalmente, não surge qualquer referência ao celibato ou à abstinência sexual, mas sempre se refere o abandono dos bens materiais e terrenos, a pobreza, esta, sim, evidentemente constitutiva de liberdade interior. Para evitar repisar discursos meus, inscritos em cartas anteriores  -  e, sobretudo, para te trazer uma excelente análise desta questão do celibato feita pelo filósofo ateu e homossexual francês Michel Foucault (1926-1984), cujo conhecimento dos escritos patrísticos cristãos surpreende pela vastidão e profundidade  -  traduzo seguidamente alguns trechos do capítulo Virginité et Connaissance de Soi, do 4º volume, postumamente editado este ano apenas, com o título Les aveux de la chair, da sua obra Histoire de la Sexualité (Bibliothèque des Histoires, Gallimard, Paris, 2018). Trata-se de um longo comentário dos capítulos que João Cassiano (século IV), nas suas Instituições e nas Conferências dedica às questões da pureza na existência monástica. No mundo hodierno que é o nosso, todo esse discurso poderá soar estranho. Todavia, refletindo, talvez nele encontremos um ar cheio de frescura, bem diferente do ambiente sórdido com que, bem-pensantes, moralmente corretos ou libertinos envolvem qualquer debate sobre assuntos de sexo. Haja arejo!

 

   Cassiano raramente emprega a palavra virgindade. Surge duas vezes nas "Conferências" e, em ambos os casos, em oposição ao casamento. A propósito de Elias e Jeremias que «não querendo servir-se do casamento, preferiram perseverar na virgindade». E a respeito das virgens loucas e das virgens prudentes, umas e outras ditas virgens por não terem esposo, mas as primeiras apenas praticando a virgindade do corpo. É o termo castidade - castitas - que em Cassiano cobre a maioria das questões ou dos temas que Gregório de Nissa, Basílio de Ancira, Crisóstomo ou, de um modo geral os Padres gregos referiam à prática da virgindade e às regras interiores a esse estado.

 

   Tal como os seus predecessores haviam procedido quanto à virgindade, Cassiano diferencia a continência da castidade. Nas "Instituições", assenta essa distinção no uso tradicional das palavras gregas e, simultaneamente, marca a hierarquia de valores entre os dois termos: «Não negamos que, nas comunidades, também se encontram homens continentes, e reconhecemos que tal pode facilmente acontecer. Na verdade, trata-se de duas coisas diferentes ser continente - isto é "enkratés" - e ser casto, passando assim a esse estado de integridade ou de incorrupção a que chamamos "hagnos", virtude que só é concedida àqueles que permanecem virgens na sua carne e no seu espírito, como foram Jeremias e Daniel.» Entre as duas noções há a diferença do negativo para o positivo. De um lado, abstenção exterior de sexo; do outro, um movimento interior do coração. «A incorrupção da carne reside menos na privação de mulher do que na integridade do coração que guarda sem corrupção a sua santidade por temor a Deus ou amor da castidade»...

 

   ... Para se chegar à castidade, diz Cassiano num texto notável, «deve cada qual inflamar-se com o mesmo desejo e o mesmo amor que encontramos no avarento devorado pela cupidez, no ambicioso que labora a sede de honrarias, no homem arrebatado pela violência intolerável da sua paixão por uma beldade feminina, quando, no ardor de excessiva impaciência, querem saciar o seu desejo.»

 

   Apesar de bastantes pontos em comum com os grandes teóricos da virgindade no século IV, a distinção que Cassiano estabelece entre continência e castidade revela, de facto, uma paisagem muito diferente, dominada pelas noções de pureza de coração e combate espiritual que ganham sentido na especificidade da vida monástica, em que se inspira.

 

   Vocação singular de um projeto especial de vida, aliás de origem oriental, como testemunham hinduístas e budistas, ou também, no judaísmo do tempo de Jesus, a comunidade de Qumran. Ainda que se diferenciem entre eles por outros fatores próprios a cada um dos universos ascéticos ou religiosos. A designação "monaquismo", como a de "monge", deriva do grego "monachos", que indica quem escolhe a solidão, ou a separação do "mundo" para se consagrar à oração e exercícios espirituais e ascéticos que o aproximem do imaterial, do invisível, do Nirvana, de Deus. No ocidente europeu, os monges surgem na 2ª metade do século IV, vindo, entre outros, no sul de França, Jean Cassien (360-430), ou João Cassiano, a instigar, na Provença, em Leiris e Marselha, a formação de comunidades ascéticas e a escrever textos muito influentes sobre a espiritualidade cristã: as Instituições Cenobíticas e as Conferências. Nestas duas obras se encontram tratados os temas que, de acordo com Nicole Lemaître, professora na Sorbonne e no Institut Catholique de Paris, constituirão, durante séculos, os arquétipos fundamentais do monaquismo: forma perfeita da vida cristã, na senda de Cristo, pelo qual o monge a tudo renuncia. Num mundo onde as perseguições violentas se tinham tornado raras [o cristianismo já era religião do Império Romano] a vida monástica será o substituto do martírio sangrento dos primeiros séculos, na medida em que implicava mortificação do corpo e da consciência, luta contra os demónios e suas tentações, perseverança até à vitória final.

 

   Já a instituição do chamado sacerdócio católico, tal como hoje a conhecemos, é bem mais tardia, remonta ao século XII, com a fixação do direito canónico que faz do padre - e volto a citar Nicole Lemaître - aquele que recebeu o sacramento da ordem, pelo qual lhe foi remetido, por Deus e pela Igreja, o poder de batizar, abençoar, celebrar, e absolver os pecados. Doravante, e por muito tempo, esse estatuto permitiu-lhe dispor de privilégios, em especial o do foro eclesiástico que o protegia das justiças seculares. O padre torna-se celibatário, e modelo do cristão, a partir do século XI. Toda uma defesa ideológica da sua perfeição pessoal acompanhará a sua excecionalidade... na promoção eclesial de uma sociedade perfeita.

 

   Foi-se então buscar à exceção que sempre fora a vocação monástica um elemento normativo da condição de servidor do ministério eclesial. Ora, no primeiro milénio, as coisas eram bem diferentes: na origem da Igreja, o enquadramento das comunidades era assegurado por diversos ministros, e o ministro encarregado dos serviços materiais e da assistência (diácono), servidor de todos (Mateus, 10, 42) exercia um autêntico apostolado, não era, de modo algum, um separado, uma exceção. Mas as primeiras comunidades também são hierárquicas: têm anciãos (presbíteros) à cabeça (Atos, 14,23). São eles que vigiam cada Igreja e têm por missão velar pelo rebanho de Deus (Atos, 20, 28; I Pedro, 5, 4). Passadas as primeiras gerações, estabelece-se uma hierarquia a três níveis: um bispo (epíscopo), pastor e presidente da comunidade, rodeado de presbíteros assistidos por diáconos. Não é necessário percorrer todas as etapas [isto é: não há carreiras eclesiásticas] - São Cipriano tornou-se bispo sem ter sido padre nem diácono. Na verdade, o ministério põe-os a todos ao serviço do sacerdócio de Cristo e, como sucessores dos Apóstolos, qualifica-os para serem intendentes de Deus. Recebem a imposição das mãos, mas prosseguem a sua vida normal, casam-se e exercem uma profissão.

 

    Estarás lembrada, Princesa de mim, de que, em carta talvez já distante, eu te falava de conselhos de São Paulo, no sentido de serem os ministros escolhidos de preferência entre bons pais de família, pois estes já deram provas de saber guiar um "rebanho". Revogar a obrigatoriedade do celibato eclesiástico parece-me ser questão do foro do bom senso, tal como a ordenação de mulheres deve ser encarada no contexto cultural das nossas sociedades hodiernas. Além de que já passou o tempo em que, cautelarmente, se escolhiam entre eunucos os bons servidores. Sem prejuízo de continuar a haver quem possa escolher um caminho que o próprio Jesus Cristo enunciou, avisando logo que seria radical e que poucos compreenderiam agora o que é ser eunuco por amor de Deus. Todavia quem responde a uma vocação à vida monástica ou religiosa, não o fará por contemptatio mundi, mas porque tal separação o leva, no seu próprio sacrifício pessoal, à misteriosa presença de Deus. Enquanto que os ministros do culto, da palavra, dos sacramentos, homens ou mulheres, são servidores escolhidos entre aqueles que permanecem vivendo no mundo humano.

 

   Referindo-se a São Cipriano (século III), que acima te recordo, frei Yves Congar escreve: Para o cristianismo antigo, a realidade primeira é a ecclesia. Ora, esta palavra, diferentemente da palavra "Igreja" tal como hoje a usamos, significa a comunidade cristã, a assembleia ou unidade dos cristãos. São Cipriano diz: a Igreja é o povo unido ao seu pontífice e o rebanho que permanece junto ao seu pastor. Por aí deveis compreender que o bispo está na Igreja e a Igreja no bispo.

 

   É essa ecclesia toda inteira que exerce a maternidade espiritual, pela sua caridade, pela sua unidade, pela sua oração, pela sua penitência; é ela mesmo que é o autêntico e adequado sujeito das ações santas e santificantes. E eis que encontramos esta mesma compreensão da ecclesia nos textos litúrgicos, expressão da Tradição: a ecclesia é assembleia de irmãos realizada por um ato do Senhor e pela sua presença entre eles. A liturgia antiga não conhece um eu separado do nós comunitário: o celebrante, isto é, o presidente da assembleia e chefe da comunidade, fala ali em nome de todos e a todos estando unido. [Cf. Yves Congar, o.p., L´Église e Pour une Église Servante et Pauvre, Les Éditions du Cerf, Paris, 1963].

 

   Deixo-te aqui, Princesa de mim, estas reflexões sobre a Igreja para que, meditando-as, possamos juntar mais uma achega circunstancial ao debate, tantas vezes descontextualizado, acerca da pedofilia e celibato eclesiástico, etc., etc. ... Até arrisco um olhar diferente: tal como não parece provado (longe disso!) que a Igreja Católica tenha, no seu seio, o exclusivo ou sequer a maioria dos casos de abuso de menores, também não creio que se possa estabelecer uma relação direta de causa a efeito entre celibato e violência sexual. Na verdade, nas notícias ou revelações de abusos que têm vindo a lume, o pecado ou responsabilidade da instituição eclesial descobre-se e encontra-se sobretudo no seu encobrimento e na recusa ou reticência de entrega às autoridades judiciais competentes (falando claramente, sem rodeios e sem prejuízo das medidas canónicas, isto é, do foro eclesiástico, que também devam ser tomadas), autoridades essas legitimamente constituídas pelo poder civil dos Estados de direito em que vivemos. Que as "hierarquias" religiosas metam bem nas suas cabeças que qualquer crime deve ser denunciado e entregue ao processo inalienável e sem exceções dos tribunais dependentes do poder judicial do Estado.

 

   Por outro lado, já será tempo de nós, católicos, revermos alguns dos preconceitos que guardamos quanto à função clerical ou, mesmo, à natureza da própria instituição. Os trechos de testemunhos e reflexões que te deixei acima podem ajudar-nos a perguntar se, abreviando, o padre é mesmo uma exceção consagrada, e se, até por isso, deverá ser assexuado e renunciar a constituir uma família, tal como o podem fazer magistrados, médicos, professores, militares, missionários leigos... E já agora, não poderão ser mulheres, como tantas há nessoutras profissões e missões pelo bem comum?

 

   Creio que é no 2º volume da sua Histoire de la sexualité (L´ Usage des Plaisirs) que Michel Foucault escreve estas seguintes linhas que eu próprio, que sempre quis ser filósofo, repito pensando que filósofos, afinal, com alguma curiosidade e esforço, todos podemos ser:

   Mas, aliás, o que é a filosofia - quero dizer a atividade filosófica - se não o trabalho crítico do pensamento sobre si mesmo? E se, afinal, não consistirá, em vez de legitimação do que já sabemos, no empreendimento de saber como e até onde poderemos pensar de outro modo?

 

  Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   Nunca entendi bem como funciona esta minha teimosia em procurar salvar-me de sentidos pensamentos que me afligem, partindo em busca das respetivas raízes, ou do solo em que medram. Como se o antídoto de qualquer mal fosse ir ao seu encontro, ao fundo do seu porquê. Mas tampouco é vício masoquista, quem como tu me conhece bem sabe que je suis plutôt bon vivant ou, como tantas vezes me disse, rindo muito, a nossa tia Bertha Eugenia: Camilo, tu es un jouisseur! Vejo-a agora, quase trinta anos depois, a vir comigo a uns five o´clock tea, no Plaza, em Manhattan, ao som de violinos que ressuscitavam música vienense que lhe encantara a mocidade. Viera visitar-nos, ao nosso posto estadunidense, airosa e contente, elegante e esperta, flor de oitenta e dois anos, viajando, viúva sozinha, desde Bruxelas. Viria a morrer dez anos mais tarde, aos noventa e dois, em Gerardsbergen, onde ainda a visitei muitas vezes, quando fazia escala em Bruxelas em viagens do Japão a Portugal. Apesar do ou por causa do seu fervoroso catolicismo, aquela Senhora tinha, como sua irmã mais velha, minha Mãe, uma alegria contagiosa e um otimismo que inspirava confiança... era de boa companhia.


   Voltando às minhas interrogações, aquela citação final da Hannah Arendt na minha carta anterior (Sempre acreditei que somos o que vivemos) foi-me soprada pela leitura de um livro que te recomendo: Trois femmes dans de sombres temps (Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil), três filósofas judias, duas alemãs e uma francesa de origem alsaciana, meditadas por outra filósofa (francesa), Sylvie Courtine-Denamy, na Bibliothèque de l´Évolution de l´Humanité (Albin Michel, Paris, 1997). Logo no prólogo, a autora, além da citada frase da carta de Arendt a Mary McCarthy, lembra-nos que a designação "os tempos sombrios" (1933-1943) se deve a Bertold Brecht, num poema onde, dirigindo-se «aos que nascerão depois de nós», lhes implorava indulgência para com esta geração que não tinha sabido «preparar o terreno para um mundo de amizade». Têm-me surgido, como fantasmas, tentações de referência, de factos e acontecimentos hodiernos, a situações de tensão, afrontamentos e reviravoltas, daqueles tempos, nesses anos em que a confusão dos espíritos foi levando a melhor sobre o amor do próximo... Desde a Guerra de Espanha, em que até padres católicos se odiaram uns aos outros, até à França de Vichy que, vencida pelo invasor nazi, se defendia dizendo "Hitler plutôt que le Front Populaire!", ou do pacto germano-soviético à conferência de Yalta... Traduzo um trecho de Les Grands Cimetières sous la lune, de Georges Bernanos:

 

   Parece-vos natural que Deus não tenha abençoado a sageza do mundo, a tal que confere honras, fortuna, riquezas. Esqueceis que, no decurso dos séculos, os homens consideraram a conquista desses bens, fosse pela força, pela injustiça ou pela manha, como legítima, sendo a posse assim obtida um favor do Altíssimo. A maioria dos grandes reis de Israel, a começar por Salomão, tinham do poder uma ideia comparável à que presentemente tem o Dr. Rosenberg. Será, aliás, precisamente por isso que os povos totalitários eliminarão fatalmente os seus judeus, já que cada um deles acredita que é eleito, e não há, no mundo, lugar para dois povos eleitos. Um facto, um simples facto, deveria abrir-vos os olhos: o sacrifício do fraco, do inocente, por muito tempo foi tido como o mais agradável a Deus. Por toda a parte, em qualquer idade, por milhares de séculos, a ideia de oração, de graça, de purificação, de perdão, esteve ligada à imagem repugnante de animais degolados por padres fumegando sangue lustral...

 

   [O Dr. Alfredo Rosenberg (1893-1946), autor de O Mito do século XX, foi um dos principais teorizadores do nazismo, ficando ainda famoso por ter organizado, durante a 2ª Grande Guerra, o saque de museus, bibliotecas e coleções privadas nos países ocupados. Mas talvez tenha escrito a sua mais negra folha de serviços enquanto Ministro dos Territórios de Leste, em 1941, ordenando execuções e deportações em massa, com o fito de germanizar a Ucrânia. Aprisionado em 1945, foi julgado em Nuremberga e executado em 1946.] 

 

   Seguindo o fio duma meada que, desde há algum tempo, trago na cabeça (terei começado pelo conceito de Tianxiá, e talvez lá regresse), retomo reflexões de Trois femmes dans de sombres temps, em que a autora vai analisando pensamentos de Hannah Arendt : Do carácter decididamente planetário e sem precedentes dos acontecimentos contemporâneos, Étienne Gilson [que foi meu professor], no seu Les Métamorphoses de la Cité de Dieu [Lovaina, 1952], conclui pelo necessário estabelecimento duma «sociedade universal», o que pressupõe a adesão de todas as nações a um princípio que a todas transcenderia. Não estaremos, assim, pergunta Hannah Arendt, a condenar-nos à alternativa do domínio global do totalitarismo ou à sociedade universal promovida pelo cristianismo? Em ambos os casos se ameaça a liberdade política, que só é possível no exercício de uma pluralidade de «princípios de vida e de pensamento» [Cahiers de Philosophie]. Não estaremos confrontados com a hipótese que ela encara em O que é a política? para demonstrar a perda irreparável de mundo que uma guerra total determinaria : «Se tivesse de acontecer que, na sequência de uma enorme catástrofe, só um povo sobrevivesse no mundo, e se tivesse de acontecer que todos os seus membros percebessem e compreendessem o mundo a partir duma única perspetiva, vivendo em consenso pleno, o mundo, no sentido histórico-político, caminharia para a sua perda, e esses homens privados de mundo, e que seriam os únicos sobreviventes sobre a terra , não teriam mais afinidades connosco do que essas tribos privadas de mundo e de relações que a humanidade europeia encontrou quando descobriu novos continentes, e que foram reconquistadas pelo mundo dos homens ou exterminadas sem que se desse conta de que pertenciam igualmente à humanidade».

 

   Certo é que, em tempo de invasiva globalização (pensei esta expressão e dou-me bem com ela), ninguém escapa à interrogação do destino do mundo, caminho de todos e de cada um, e acerca de se isso poderá ter governo e como. Esse epifenómeno da egocultura americana, vulgarmente chamada "american dream", que dá pelo nome de Donald Trump, poderá julgar que a grandeza dos EUA, como potência superior, quiçá hegemónica, será a chave do fado e da ordem mundial. Mas, não só a confusão das gentes que compõem o seu eleitorado, e cujo único denominador comum é uma pungente debilidade das respetivas visões do mundo, é incapaz de ultrapassar critérios sectários desfasados do tempo hodierno, como tampouco saberá produzir um discurso compreensível, racional e sentidamente aceitável pelos restantes cidadãos estadunidenses e outras muitas e variegadas gentes. E não será assim tão só em resultado de pouca instrução e fraca cultura do espírito, nem apenas pela exposição quotidiana de mentes sem educação do espírito crítico às ilusões mediáticas de notícias ou anúncios falsos, sejam esses de motivação política, publicitária ou outra. Pois também a falta de mais propostas livres e promotoras de consciência humanista é fruto do "quero, posso e mando" dos grandes interesses político-económicos, da omnipresença quase omnipotente do seu "marketing" nas orientações dos comportamentos dos indivíduos. Mesmo aqueles que se tomam por independentes, modernos, informados e cultos, são certamente enformados nas suas opções de dietas, passeios, leituras e lazeres, para já não entrarmos por questões políticas e outras de fora da sua vida estritamente privada. Basta falar com qualquer quarentão ou cinquentão (a média idade nas sociedades de "afluência"), para encontrar gente bem convencida de si e suas artes, mas que, afinal, tal como logo recorre à informação imediatamente disponível no computador ou no iphone, também não tem tempo nem esforço para refletir e exercitar espírito crítico. Menos ainda para sequer entender a força humanizante da contemplação. Seja de que lado estiverem quanto ao aquecimento global, às fontes de energia ou à alimentação sadia. Uns e outros vão beber às respetivas fontes, ou seja, ali onde se acham intelectualmente corretos. Eça de Queiroz dizia que a cultura, em Portugal, se importava de França, pelo paquete. No mercado contemporâneo, além do pronto a vestir e do take away, compra-se, na tv ou na net, o pronto a pensar, a opinar, a ter razão, a nos orientarmos pelo melhor, desde a ideia política ao passeio de domingo... mas o individualista sentimento de si é tão marcante que cada qual vê o mundo e os outros a girar à sua volta - por vezes quase como automobilista a identificar-se com a potência do seu carro - e se perde íntima comunhão com o mistério ontológico de tudo, essa oração essencial, tal como, infelizmente, se vai fugindo dessoutra força centrípeta que é a solidariedade humana.  

 

   Voltando atrás, Princesa de mim, reencontro essa ideia de povo eleito ou, mais simples e assustadoramente (evocando o conceito "arendtiano" de banalidade do mal), esse sentimento de superioridade atribuível à raça, à religião, à linhagem, à instrução, etc... Quem assim se reclama de direitos especiais, incluindo o de governar os outros, até se esquece dessa profecia de Pablo Neruda (cito de cor, a ideia está certa, a fórmula, creio, próxima) de que "podemos ser livres nas escolhas, mas seremos sempre escravos das consequências delas"... Mas, pergunto, não estaremos nós a enveredar, cada vez mais, pela senda da liberdade condicionada? [ou, desde já, da robotização?]

 

   Aliás, esse dito do Neruda (que, mais do que comunista, foi poeta), também qualquer filósofo o poderá relembrar ao debater a crise atual da democracia nas sociedades em regime liberal-capitalista. Na verdade, a justíssima opção da livre concorrência como garantia da igualdade das oportunidades, da melhoria da qualidade dos bens e dos serviços, da distribuição da riqueza criada por critérios de justiça e mérito, acabou por ser geradora da sua própria Némesis : o esquecimento ou laxismo da responsabilidade política de devidamente assegurar as condições necessárias a uma economia humanista (quem se lembra ainda do movimento Économie et Humanisme do padre Lebret, dominicano francês, que em Portugal só teve algum acolhimento pela geração hoje conhecida como "os vencidos do catolicismo", na roda da Moraes Editores do António Alçada Baptista?). Para resguardarmos a nossa humanidade, não será necessário aprendermos a limitar os excessos de acumulação, anonimização e intervenção política e social do capital (designadamente nos meios de informação) , tal como a submeter a promoção e publicidade das ofertas de bens, serviços e lucros financeiros a critérios de transparência e de responsabilização ativa, célere e rigorosíssima dos infratores? Infelizmente, desembocamos em praças onde inconfidências e desastres podem trazer a público enganos magoados e fados mais tristes de famílias espoliadas pela ganância de "empresários" e "financeiros", estes mesmos continuando a safar-se. Mais e pior: sem pejo, por aí continuam a acenar com ilusões.   

 

   Quanto ao concerto das nações, nesta etapa da globalização, também vai espreitando, em busca da recuperação do sonho russo (tzarista e soviético) de ser primeiro entre os seus pares, Vladimir Putin. Aposta, como o colega Trump, no reforço de um poderio financeiro assente em empreendimentos só viáveis pela acumulação de capital, pela concentração de poucos comandantes dos demais agentes económicos. E, externamente, vai fazendo apostas... Muitas vezes me mói o toutiço a questão de como Hannah Arendt tão bem percebeu a essência totalitária partilhada pelo nazismo e pelo estalinismo - que tanto escândalo bem pensante provocou - sem que outros tivessem depois entendido como, mutatis mutandis, o sonho capitalista americano e o economicismo estatal soviético, no campo do exercício político, respondiam à mesma  vontade de poder... hoje tão aproveitada pela nova velha China que, não só mas também, por via de um prosseguido vanguardismo tecnológico, se vai aproximando da meta de maior potência económica e financeira. É assim compreensível a reserva de muitos analistas políticos e filósofos relativamente à reactualização do conceito de Tianxiá: harmonia de todos os que estão debaixo do mesmo Céu, ou - além disso, mas também, parafraseando Orwell e evocando a antiga designação de Celeste Império - sendo uns mais celestes do que os outros?

 

   Pois, na verdade, tal como o sonho americano desenhou o direito universal ao enriquecimento dos indivíduos, também a dado passo acordou para a necessidade (como fator e como fatalidade) de assegurar externamente as condições políticas e militares da sua prepotência económica. Os poderosos regimes ditos comunistas, inversamente, concluíram que um possível proeminente lugar no mundo não poderia ser-lhes garantido apenas por forças armadas, repressão de povos, controlo das vidas, desde a natalidade até ao usufruto de bens e ao livre exercício do pensarsentir. Pareceu-lhes, assim, imprescindível a criação de músculo económico e financeiro e a procura de novos modos de imposição do poder estatal, incluindo as formas mais subtis, por via, privilegiadamente, da informática... estaremos todos destinados a ser robôs? 

 

   Se releres passadas cartas minhas, Princesa, perceberás porque me comoveu profundamente a notícia de recentes reencontros de membros sulistas e nortenhos de famílias coreanas, e me valeu o recolhimento de umas horas a da morte do israelita Uri Avnery, num hospital de Telavive, aos 94 anos. Quando só contava 10 de vida, refugiara-se na Palestina sob administração britânica, acompanhando seus pais, escapando à perseguição nazi. Era então alemão, chamava-se Helmut Ostermann, e aos 15 já era membro do movimento sionista Irgun, que mais tarde abandonaria, para se tornar num defensor intransigente da paz, do reconhecimento de dois estados palestinos (um dos quais judeu). Até hoje, lutou sempre contra a ocupação ilegítima de territórios por Israel e, pouco antes de morrer, ainda se pronunciava contra a lei que quer impor o conceito de Israel como pátria histórica do povo judeu.

 

   E, neste último domingo de agosto, é de coração sentido que dizemos a Deus a John McCain, herói de guerra, ferido e feito prisioneiro no Vietnam, político humanista, defensor da dignidade humana, que não se cansava de lembrar que, apesar das torturas sofridas, a guerra lhe tinha ensinado a amar e procurar a paz... Serão pois bem sinceras as condolências do seu guarda de cárcere vietnamita, ao dizer hoje como chora a sua morte.

 

   A dedicação de tanta outra gente a causas e serviços de solidariedade humana, a causas de justiça e de paz, de proteção e exaltação da natureza e da vida, de recuperação de doentes, de superação de desvantagens físicas ou mentais, de reinserção social e consciencialização da sua própria dignidade humana de presos e marginalizados, é o espelho maior em que a nossa humanidade se deveria rever... Então, porque será que, a toda a hora e momento, nos envolvem em notícias torpes, acusações e ataques ad hominem, ou ilusões de luxo e de luxúria?

 

   Talvez se ganhe mais esperança em comungar no batimento incessante do coração de gente sempre viva. Sobretudo se, nos sinais dos tempos, além de maus agouros, soubermos encontrar, e amar mais, sinais das promessas de Deus.

 

   Camilo Maria

   

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Liu An, autor desse ensaio ou seleta de inspiração taoista designado por Huainan zi, terá nascido em 179 a.C. e ofereceu o seu manuscrito ao imperador Wu (141-87 a.C.), seu sobrinho. O mesmo Liu An era neto do fundador da dinastia Han, Liu Bang (206-196 a.C.), e, desde os seus quinze anos, príncipe de Huainan. Do texto introdutório de Charles Le Blanc e Rémi Mathieu à edição do Huainan zi, na sua tradução francesa, pela Bibliothèque de La Pléiade (Gallimard, Paris, 2003), respigo dois trechos que me parecem necessários a uma nossa (tua e minha) ocidental leitura. Perceberás porquê, tal como eu vou continuando a tentar compreender muitos desses textos que traduzo:

 

   1. Curiosamente, a filosofia do Huainan zi não invoca a noção ocidental de causalidade, certamente em razão da sua conceção substancial (e não acidental) da mudança. Os «dez mil seres» fazem parte de uma só estrutura, cuja parte mais ínfima, «o bater de asas de uma borboleta», modifica a configuração do conjunto da rede. Mas eis aí um olhar «extrinsecista»; o Huainan zi antes privilegia um olhar «intrinsecista» ou «imanentista», segundo o qual cada ser percebe a mudança como ressonância (ganying), por «afinidade eletiva» da sua própria essência com os outros seres e o universo inteiro. [Estou em crer, Princesa de mim, que esta observação deve ser repetida e meditada, a fim de melhor nos ajudar a penetrar numa intuição e num ecossistema de pensamento (de pensarsentir) alheios ao nosso discurso próprio.]

 

   2. O Huainan zi propõe um projeto de sociedade ideal assente em disposições interiores de homens sages e perfeitos, isto é, numa certa forma de santidade. Define-se esta pela união ao dao, fonte de uma sageza e de uma criatividade que ultrapassam a comum medida humana e se actualizam como "não-conhecer" e "não-agir". De essência taoista, não exclui achegas confucionistas e legistas. É sua marca original maior não comportar qualquer referência a um deus pessoal transcendente. A santidade é simplesmente a plena realização da ordem natural e humana. Se dela decorre uma necessidade mais pressionante para os soberanos e os funcionários do Estado, é em razão das maiores responsabilidades destes relativamente ao bem comum. [Quando acima digo sages sageza em vez de sábios e sabedoria, não o faço só pelo gosto de me servir de palavras que, na língua portuguesa, foram autorizadas já por Fernão Lopes, mas para vincar ainda mais que, nesta filosofia chinesa, além de uma intuição talvez mais mística do que metafísica, mais comungante do que objetiva, uma mais contemplação do mundo do que a sua arrumação lógico-discursiva, também se privilegia a prudência na sabedoria, ou seja, a antiga virtude da sageza.]    Eis-me tentado a recordar o Novalis que disse quanto mais poético mais verdadeiro, ao deparar com intuições ou revelações poéticas do real absoluto. Como, a dado passo, se canta, no Huainan zi, o Yuandao, ou dao inicial:

 

   Nada debaixo do céu é mais flexível e fraco do que a água.

   E todavia o seu tamanho ultrapassa qualquer medida

   e é insondável a sua profundidade;

   alaga-se até ao infinito,

   e perde-se lá longe no ilimitado.

   Quer cresça quer se esgote, aumente ou diminua,

   ela participa do incomensurável.

   Subindo ao céu, torna-se chuva e orvalho

   e, caindo, humecta e rega a terra.

   Sem ela os dez mil seres não nasceriam

   nem seriam terminados os cem afazeres.

   Envolvendo largamente a multidão dos seres,

   não se atém a qualquer preferência.

   Os seus benefícios estendem-se aos insetos e aos vermes,

   sem esperança de qualquer recompensa.

   Com sua virtude cumula os cem nomes, sem prodigalidade.

   O seu fluxo ora se enche sem limites,

   ora se torna tão ténue que fica fugidio.

   Podem bater-lhe e não sofrerá esquimoses,

   chicoteá-la e não ficará ferida,

   cortá-la sem conseguir seccioná-la,

   e nem pelo fogo será consumida.

   Dócil e acomodatícia, corre desposando múltiplos contornos

   e ramifica-se em rede múltipla, sem por isso se dispersar. 

   A sua finura penetra a pedra e o metal

   e a sua força carrega o mundo.

   Move-se no território do sem-forma

   que se ergue em espiral para além do indistinto.

   Ora serpenteia pelos vales,

   ora desagua na planície inculta dos grandes confins.

   Segundo a sua sobreabundância ou a sua insuficiência,

   ela vai buscar-se e volta a dar-se ao céu e à terra.

   Abastece os dez mil seres sem ordem de precedência

   e para si não tem domínio privado nem público.

   Fervente e transbordante,

   forma uma grande união com o céu e a terra.

   Sem reconhecer direita nem esquerda,

   ramifica-se e serpenteia

   acompanhando os dez mil seres do princípio até ao fim.

   Por isso lhe chamam virtude perfeita.

   E sendo dócil, acomodatícia e penetrante,

   a água chega à perfeição da sua virtude no mundo...

 

   ...O sem-forma é o grande antepassado dos seres

   e o sem-ruído é a grande origem dos sons.

   O filho deles é a luz, o neto a água.

   Todos nasceram do sem-forma.

   A luz é visível mas não se pode agarrar;

   a água é palpável mas indestrutível.

   Assim, entre os seres que têm forma,

   nenhum é mais estimável do que a água.

 

   Do nascimento até à morte, o homem vacilando entre o que é e o que não é, afunda-se na mediocridade. Assim, a perfeição da virtude reside na pureza e na serenidade, a quintessência do dao, na flexibilidade e na fraqueza, e a eficiência dos dez mil seres na calma e contentamento decorrentes do vácuo. Assim, ao responder com diligência aos incitamentos e ao retornar resolutamente à raiz, os seres se imergem no sem-forma.

 

   O que chamo «sem-forma» significa o Uno. O que chamo «o Uno» é o que não tem qualquer contrapartida debaixo do céu. Sublime, ergue-se independente; desligado, permanece sozinho. No alto, o Uno penetra os nove céus, em baixo atravessa os nove campos. A sua circularidade não se desenha com compasso, nem a sua quadratura com esquadro. O Uno forma um todo confuso, comparável a folhas que proliferam sem raiz. Envolve o céu e a terra, e serve de fecho ao dao. Secreto e esconso, preserva intacta a sua virtude. Podemos espalhá-lo sem o esgotar e utilizá-lo sem o enfraquecer. E também podemos procura-lo com os olhos e não ver a sua forma; prestar-lhe ouvidos e não ouvir a sua voz; querer palpá-lo e não conseguir tocar-lhe. Dele nascem o sem-forma e o com-forma. Inaudível, faz tocar as cinco notas; insípido, harmoniza os cinco sabores; incolor, forma as cinco cores. Assim, o ser nasce do não ser, e a plenitude emerge do vácuo. 

 

   Escrevo-te, Princesa, esta carta, recolhido na relativa frescura do meu gabinete, em manhã de intransigente canícula, ao som do Gloria de François Poulenc, interpretado pela orquestra e coro da Fundação Calouste Gulbenkian, sob direção de Michel Corboz, sendo solista a soprano Brigitte Fournier. A gravação, feita ao vivo, em Lisboa, a 4,5 e 6 de junho de 1993, conjuntamente com a da Messa da Gloria de Puccini, é de produção francesa, para a Aria Music-Fnac. Poulenc, alto burguês rico (da família dos patrões da Rhône-Poulenc), homem dividido por amores de vária natureza (a que chamava a sua sexualité parisienne), sujeito a períodos de depressão (por desgostos de amores) que constratavam com o seu modo malicioso e jovial de estar em sociedade, católico crente e mordido pelas interrogações da e à fé, sobretudo pelos seus confusos amores,  compositor de música de câmara de que muito gosto, mas também de música burlesca como Les Mamelles de Tirésia, ou ainda dessa magnífica profissão de fé e de esperança nascida do martírio que são os Dialogues des Carmélites (libreto de Georges Bernanos)como desse belo "de profundis" de uma solidão abandonada que dá pelo título de La Voix Humaine, sobre texto de Jean CocteauGloria que ora escutei foi composto em 1959, pouco depois dos Dialogues, não é uma peça litúrgica, mas, nas palavras do próprio compositor, uma grande sinfonia coral. A segunda parte deu escândalo, nem sei porquê, pensei simplesmente, ao escrevê-la, nesses frescos de Gozzoli em que os anjos deitam a língua de fora, e também naqueles beneditinos de ar grave que eu vi a jogar futebol...

 

   Por que atalho cheguei à escolha da escuta deste Gloria cantante, jovial e jubilante, ao ler filosófica poesia taoista em manhã canicular? Quiçá antes pudesse ter desembocado num coliseu de lamentações e invetivas, contestações e confrontos sobre, por ou contra, as chamadas alterações climáticas, entre as visões circunscritas pelo imediatismo de ganâncias e aquelas que se debatem no meio de formulações rigorosas e prudentes, de utopias generosas e sonhadoras, ou de panoramas de sustos e desastres apocalípticos... Por estranho que te pareça, Princesa de mim, esta quietude quente, quase totalitária, de um ar mais de abafar do que de respirar, traz-me mais um modo de comungar o mundo, um pouco como numa minha experiência antiga do calor húmido de um Verão japonês quando, em cabana perdida nas montanhas, vivi a alegria suave do sossego duma transpiração que me libertava da tirania dos ares condicionados de Tokyo e me abandonava ao modo universal de ser da terra, como James Joyce, creio, um dia terá dito. [As minhas memórias nem sempre batem certo, talvez me tenha ocorrido o Joyce pela sua ambiguidade entre o sagrado e o profano.] Assim te "explico"(?) este momento de mim, aqui submisso ao calor dos astros, ainda que protegido pela sombra com que enchi a casa e também pertence à luz dos nossos dias e cobre troços do nosso caminho espiritual. Descubro agora em mim o surto de uma nascente a jorrar essa tal alegria mansa, que vai crescendo e alagando tudo, água da vida universal do dao ou pirotecnia dos sons strawinskianos do Laudamus te do Gloria do Poulenc...

 

Laudato sì... Louvado sejas, meu Senhor, pela grandeza da humildade partilhada, pela comunhão no mistério único da vida.

 

   Já está noite cerrada, dá para abrir cortinados e janelas, e sento-me no escuro mais fresco, iluminado só pela televisão acesa sobre o inferno dantesco que ameaça a vila de Monchique e atemoriza suas gentes... Quedo-me a partilhar visões de labaredas e aflições de almas, dói-me como queimadura a cena, pesa-me, perturba-me, é-me quase insuportável a pena de outros que, apenas por sua aparição aqui, se vai tornando minha. Fui hoje submisso ao calor do dia, procurando comungar na sua natureza, sem o combater e sem deixá-lo esmagar-me. Afinal, terei querido aprender com ele algo mais do nosso fugidio-sempre-presente que é o inacessível mistério de tudo. Como um zen japonês a contemplar o efémero como sacramento, qual impermanente permanência.  Agora, na solidão silenciosa (apaguei o som da TV) desta sala, frente ao horror consumidor do fogo, fico perplexo perante uma comunhão impossível. Terá havido erros e curto alcance humano, poder-se-ão mudar condições circunstanciais, mas permanecerá ainda o inesperado, o imprevisível, muitos factos e entendimentos fora do nosso alcance. E talvez nem haja reza ou sacrifício propiciatório que, para o efeito, nos valham. O mistério, como ignoto, conserva o seu domínio. Ao contemplá-lo assim, neste momento de comunhão rompida, já nem sei se tenho saudade daquele louvor de ação de graças que me trazia paz e fazia feliz. Estou perplexo. E é então que a minha comunhão deixa de ser um dado adquirido para se transformar em esperança. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã esperança...

 

   Já pela manhã seguinte, antes de fechar esta carta, reparo que, nesta 2ª feira, dia 6 de agosto, se celebra a transfiguração de Jesus, que é como que uma festa da revelação do invisível pelo visível, um sacramento, um mistério. No relato evangélico de São Marcos, depois da transfiguração de Jesus numa figura de resplandecente alvura, os discípulos que o acompanhavam estavam cheios de medo e não sabiam que dizer. E esse trecho prossegue assim: De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o filho do homem não ressuscitasse dos mortos. Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos. Assim também medito que a fé é a substância das coisas que hão de vir, nem sempre sabendo bem se ela é só mãe, ou filha também, da esperança. E sorrio-me a pensar que não me culpo de não saber tudo. 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nesta manhã chuvosa, em finais já de um julho marcado por um anticiclone fora de casa, e que teima em nos afugentar o Verão, recolho-me neste meu gabinete aberto sobre campos verdes que o céu vai mansamente regando... Acompanham-me, na religião desta hora, lieder de Martinho Lutero, postos em música por variadíssimos compositores, desde finais do século XVI até aos nossos dias. Entre eles, nomes grandes, como Johann Sebastian Bach, Heinrich Schütz, Michael Praetorius, Dieterich Buxtehude, Félix Mendelssohn Bartholdy ou, ainda, Max Reger. A interpretação que vou escutando, em edição comemorativa dos 500 anos da Reforma (Carus-Verlag, Deutschlandradio Kultur, e Edition Chrismon, 2017) é da Athesinus Consort Berlin, e do Kammerchor Stuttgart, com solistas de que destaco a mezzo Sophie Harmsen, Matthias Ank ao órgão, e Arno Schneider no contínuo. A maioria dos trinta e seis lieder tem uma duração de três a seis minutos, sobressaindo dessa média apenas dois dos musicados por Mendelssohn: Ach Gott, vom Himmel sieh darein (11m.34s.) e Aus tiefer Not schrei ich zu dir (11m.58s.).

 

   Este, o mais longo, com praticamente doze minutos de lírica de Lutero e música de Mendelssohn, canta-nos um poema muito bebido, ou quase só, no salmo 130, que a vulgata latina nos deu a conhecer como o De Profundis: De profundis clamavi ad te Domine... Na inspirada lírica de Lutero, o poema religioso ganha uma dimensão teológica nova, como se a Palavra de Deus, o Verbo, renascesse no pensarsentir de cada ser humano, porque o Espírito sopra onde quer, e não impõe intermediários. Lembra-te, Princesa de mim, de que o então frade agostinho vivia em plena contestação do poder clerical romano que, para financiar a construção de sumptuosos edifícios materiais e terrenos até cobrava o aluguer de mais uns dias promissores de descanso celestial às almas que, adiantadamente, pagassem as correspondentes indulgências... [Curiosamente, tais contratos-promessa de compra e venda que, já naquela época, poderiam ter sido considerados crimes de simonia, isto é, transação monetária de bens religiosos (e até eram conhecidos, ao tempo, por "comércio sagrado"), parece terem passado pelas malhas de muitos teólogos e bastas autoridades eclesiais, ao ponto de, ainda há pouco, recentemente, aquando da visita do papa Francisco a Fátima, a reitoria desse destino de peregrinações ter posto à venda umas indulgenciazinhas...]. Mas não te escrevo para polemizar. Não vale a pena. O que nos merece é, antes de tudo o mais, o esforço que fizermos no sentido da escuta. Sobretudo, aprendermos a ouvir esse grito do fundo de nós, que qualquer um poderá lançar sem destino, ou pretender que não tem destinatário possível, ou sentir que sim, que sabe para Quem fala, porque bem sabemos que, quando em desespero suplicamos, nenhum de nós sabe, exactamente, a Quem pedir ajuda. Só nos ocorre gritar: da profundeza da minha miséria a ti clamo. Ou seja, no alemão de Lutero: Aus tiefer not schrei ich zu dir... para logo continuar, como homem de fé: ...Herr Gott, erhör mein rufen, / Dein gnädig ohren kehr zu mir / und meiner bitt sir öffen... "ouve, Senhor Deus, o meu grito, vira para mim o teu ouvido, abre a tua graça à minha súplica. // Porque se só quiseres olhar para o tanto que pequei, quem serei eu para poder enfrentar-te...   ... E portanto quero esperar em Deus, abandonar-lhe o meu coração, aguardar a sua palavra. // Mesmo sendo pela noite dentro / e de novo até à manhã, / não se aflija o meu coração / nem duvide da força de Deus. // Se há em nós muitos pecados / em Deus se encontra muito maior graça.

 

   Assim, parecem-me acertadas as palavras com que o pastor e homem de cultura literária Johann Hinrich Claussen, a dado passo da sua introdução aos poemas desta antologia de lieder, nos fala de Martinho Lutero (traduzo): ... Quem leia seus versos fica habilitado a olhá-lo de modo diferente do habitual: não como intrépido reformador, incansável autor teológico, enérgico fundador de uma confissão, combatente político ou excessivo agitador verbal, mas como pessoa que passa tempo em silêncio, reza muitas horas por dia, lê e relê textos antigos escolhidos e então escreve versos numa folha de papel. Tem versos que emergem de um concentrado silêncio, perseverante oração, quotidiano contacto com os Salmos do Antigo Testamento e hinos da Igreja primitiva.

 

   A chamada cultura católica portuguesa ostracizou a figura de Lutero, entre nós mais badalado como herege sectário, padre e monge infiel e amancebado, do que como homem de fé, teólogo merecedor de atenção e análise, alma tantas vezes sofredora de angústias clamando por mais sentido evangélico no caminho humano da Igreja. Uma das ecuménicas exceções a essa regra foi o Lutero - Palavra e Fé (Editorial Presença, Lisboa, 2014) - de frei Joaquim Carreira das Neves, franciscano e professor jubilado da Faculdade de Teologia da UCP - quiçá a primeira obra sobre o "grande iniciador da Reforma" publicada por um autor português em quinhentos anos. Mais recentemente, a revista jesuíta Brotéria publicou um interessante artigo do teólogo dominicano frei Bento Domingues sobre como portugueses têm olhado para Lutero desde o século XVI. Recomendo-te, Princesa de mim, estas leituras, mais abrangente a do doutor Carreira das Neves, o que lhe permite também debruçar-se sobre a humanidade torturada de Lutero e o seu percurso de frade agostinho a pastor protestante. Cito-te agora um trecho da biografia escrita pelo franciscano português, que nos conduz a outro autor, de que já muitas vezes te falei, e ao qual voltarei adiante: Nunca esquecerei o impacto que recebi ao ler em1975 o que o grande teólogo católico Pe. Yves Congar escreveu sobre Lutero: «Lutero é um dos maiores génios religiosos de toda a história. coloco-o no mesmo plano que Santo Agostinho, São Tomás de Aquino ou Pascal. Posso afirmar que ainda é maior. Ele repensou todo o cristianismo. Ofereceu-nos uma nova síntese, uma nova interpretação». (Une Vie pour la Vérité. Jean Puyo Interroge le P. Congar, Paris, 1975). Frei Yves Congar, dominicano francês, quiçá o maior eclesiólogo católico do nosso tempo, figura marcante do Concílio Vaticano II, mais tarde feito cardeal por João Paulo II, é autor de um livro que guardo há décadas: Martin Luther - Sa Foi, Sa Réforme - Études de théologie historique (Les Éditions du Cerf, Paris, 1983). Dele vou respigar o longo trecho que seguidamente traduzo, porque me parece o mais esclarecedor comentário ao lied "Aus tiefer Not schrei ich zu dir" que hoje tão sentidamente tenho escutado, ainda que se refira primeiramente ao salmo 31, à interpretação que Lutero faz de uma certa justiça de Deus. Escreve frei Ivo Congar:

 

   Lutero entrou no convento a 17 de julho de 1505. Em Erfurt e, depois, em Wittenberg, conheceu, durante vários anos, uma angústia espiritual tenente a uma consciência aguda da impossibilidade de sermos o que de nós reclama a santidade de Deus.:

 

Como poderei ter um Deus favorável, um Deus de graça? Como serei agradável diante de Deus, aos seus olhos, «coram Deo»? A justiça de Deus era temível e assustava Lutero. Acerca disso muitas vezes citou quer um versículo de S. Paulo (Rom. 1, 17) «nele (no Evangelho) se revela a justiça de Deus», quer um dos Salmos (31, 2) «Em tua justiça me libertarás, me farás livre». Na sua angústia, de que nem esforços, ascese ou práticas de observância o tiravam, Lutero bem tinha recebido essas palavras de consolação. Um frade mais velho dissera-lhe para ter esperança: a nossa salvação reside na fé em Deus. Será o mesmo? Um ancião orientara o seu pensamento para «creio na remissão dos pecados». Staupitz, seu superior e amigo, tinha-lhe aberto a inteligência para a verdadeira natureza da penitência, no sentido da metanoia (conversão radical do coração).

 

   Lutero precisava de uma solução radical. Encontrou-a na descoberta pessoal do sentido de justitia Dei: não a justiça do juiz que castiga os pecadores, mas a misericórdia de Deus que me traz perdão e justiça em Cristo. Eis o Evangelho: pela fé, Cristo em mim, minha salvação, minha justiça. Bastará entregar-me a ele, renunciando a qualquer apoio no que somos ou podemos fazer. Daí que seja Cristo a minha justiça, graças à fé: justiça que não vem de mim, e que, com esse sentido, Lutero diz que é «extranea, non domestica» (estrangeira, não de nossa casa). Eis a descoberta que comandará todo o resto. Lutero expõe-na admiravelmente nos conselhos que, em 8 de abril de 1516, dá ao seu amigo SpenleinAprende, pois, meu doce irmão, Cristo, e Cristo crucificado; aprende a cantar-lhe e, desesperando de ti, a dizer-lhe: Tu, Senhor Jesus, tu és a minha justiça e eu sou o teu pecado, tomaste-me o que era meu e deste-me o que era teu; assumiste o que não eras e deste-me o que eu não era. Cuida em jamais aspirares a uma pureza tal que não quererias mais considerar-te pecador ou, antes, sê-lo. Porque Cristo só nos pecadores habita. Apenas desceu do Céu, onde habitava os justos, para vir habitar pecadores. Assim, só nele, e nele apenas, e por um desespero de ti mesmo e das tuas obras, cheio de confiança, encontrarás a paz (per fiducialem desperationem tui et operum tuorum). Aprende com ele que, tal como te tomou e fez seus os teus pecados, assim também fez tua a sua justiça.

 

   A salvação não se adquire por preço algum, seja em dinheiro, em cumprimento de ritos ou sacrifícios. Ela é essencialmente um encontro que se acolhe na alegria amorosa da fé. Esta sendo, simplesmente, a conversão de uma pretensa autojustificação de mim, por feitos meus ou renúncias minhas, a uma confiança íntima e exclusiva na justiça do amor de Deus. E se lermos com atenção os evangelhos - das parábolas sobre o que é o Reino de Deus (ou dos Céus) às respostas de Jesus a quem lhe pede que assegure ou interfira e garanta um bom assento no Céu -, perceberemos melhor como a metanoia da fé é o abandono de nós próprios e do que está, ou pode estar, nas nossas mãos, à misericórdia de Deus. E tal humildade íntima em nada diminui a razão da nossa responsabilidade ética, não é laxismo. Pois já o mais antigo magistério da Igreja ensinava a diferença entre as três virtudes teologais ou fundadoras (fé, esperança e caridade) de todas as outras. A verdade da fé não tem razões científicas, filosóficas, nem morais. A verdade da fé é ontológica, está muito além do alcance dos nossos meios.

 

Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

A VIDA DOS LIVROS

 

De 30 de julho a 5 de agosto de 2018

 

O «Elogio da Sede» do Padre José Tolentino Mendonça (Quetzal, 2018) reúne os textos das meditações sobre a Quaresma de 2018 feitas em Roma pelo autor, a convite do Papa Francisco no seu retiro espiritual.

 

 

A PASTORAL DA CULTURA

No momento em que o Poeta José Tolentino Mendonça assume as funções de Arquivista e Bibliotecário da Santa Sé e é investido como Arcebispo de Suava, importa lembrar a ação que desenvolveu nos meios culturais como poeta consagrado, que tem procurado abrir horizontes de diálogo com os meios intelectuais numa perspetiva de troca de ideias, de enriquecimento mútuo e de um melhor conhecimento das preocupações espirituais do mundo contemporâneo, a partir da laicidade, da liberdade religiosa, numa sociedade aberta e pluralista. Simbolicamente o novo Arcebispo adotou como lema a frase “Olhai os lírios do campo” (Mt., 6, 28) e escolheu como símbolos os lírios, um elefante, e o Alfa e o Ómega da mensagem bíblica do Filho do Homem. O elefante representa a velha e mítica ligação dos portugueses a Roma, de que a célebre embaixada do Rei D. Manuel ao Papa Leão X em 1514 é uma indelével referência, enquanto os lírios representam a simplicidade da vida. A leitura de «Elogio da Sede» permite-nos compreender melhor a alegria e a disponibilidade pessoal com base no entendimento da sede como “bem-aventurança que nos salva”. «Não é fácil reconhecer que se tem sede. Porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós, por detrás das nossas habituais narrativas defensivas, asséticas ou idealizadas; é uma dor antiga que sem percebermos bem como encontramos reavivada, e tememos que nos enfraqueça; são feridas que nos custa encarar, quanto mais aceitar na confiança». Eis por que razão, o poeta nos põe de sobreaviso contra a indiferença, contra o encolher de ombros do relativismo. A liberdade religiosa e o encontro entre convicções obrigam a estarmos disponíveis para ouvir e para caminhar juntos, sendo capazes de nos colocarmos no lugar dos outros. Não pode haver diálogo na ignorância ou na suposição de que temos certezas acabadas e fechadas. Ao percorrermos as meditações, seguimos os capítulos, significativamente intitulados – Aprendizes do espanto, a ciência da sede, o perceber que se está sedento, a sede de nada que nos adoece, a sede de Jesus, as lágrimas que contam uma sede, o beber da própria sede, as formas do desejo, a escuta da sede das periferias, e a bem-aventurança da sede. Cada palavra, cada passo devem ser considerados, cultivando o tempo, a reflexão e a atenção. E se alguns põem em causa o facto de o Papa Francisco apelar às periferias, como se estivesse a esquecer as centralidades, a verdade é que a centralidade da dignidade humana só pode ser compreendida se entendermos os limites, as dificuldades, as angústias. Quantas vezes nos sentimos perdidos e abandonados – são esses os momentos fundamentais para que temos de nos prevenir perante o risco de cairmos e de estarmos fortes para nos levantarmos. Mas se estamos demasiado seguros e certos, há qualquer coisa que falta na fé e na esperança e que empobrece o amor.

 

QUE É A MISERICÓRDIA?
Oiçamos. «Perguntamo-nos muitas vezes o que é a misericórdia. E a misericórdia não cabe numa definição. Não se pode dizer: “A misericórdia é isto”. Precisamos de espelhos para compreender a misericórdia. Ela tem de encarnar-se para que a possamos tocar. Misericórdia é compaixão, misericórdia é bondade, misericórdia é perdão, misericórdia é colocar-se no lugar do outro, misericórdia é levar o outro aos ombros, misericórdia é reconciliação profunda. É tudo isso. Mas é isso realizado também com um determinado estilo, que é o estilo do pai da parábola de Jesus. Não há misericórdia sem dádiva, sem doação. Aquele filho trazia tantas feridas, manifestas e escondidas, e precisava de ser curado com o bálsamo da misericórdia». E se falamos de dádiva, temos de ter presente a ideia de troca – dou e dás, encontramo-nos afinal na generosidade. No fundo, “Deus ama a vida e não desiste dela”. De que vida nos fala? Do quotidiano inesperado, em que podemos descobrir o outro que nos procura. Nos caminhos insondáveis temos de ser aprendizes do espanto. “O que nos salva é um excesso de amor, uma dádiva que vai para lá de todas as medidas”. Não, não estamos saciados – estamos sim cientes de uma sede que não se satisfaz imediatamente na nossa condição. Através do amor, do respeito e da dignidade vamo-nos saciando. Mas é a consciência dos limites que nos leva a entender que não estamos sós e que temos de estar atentos a quem nos chama, mesmo em silêncio… S. Paulo di-lo melhor que ninguém. A fé e a esperança passam. O amor e o cuidado ficam – e assim a sede é o desejo e o caminho para esse dia em que poderemos finalmente ver face a face… “Porque Deus não desiste de dizer a toda a vida – à nossa vida – que ela é querida e bem-aventurada. Essa é a sede de Deus”.

 

O MORALISMO FALSEIA O ENCONTRO
Um dia José Tolentino disse a Anabela Mota Ribeiro: «Detesto o moralismo. Penso que o moralismo falseia o encontro connosco próprios e com a humanidade. O que acontece aos outros acontece a cada um de nós. Dizia o cristianíssimo Dostoievski: “Somos responsáveis por tudo perante todos”. (…) A experiência do mal atravessa todas as vidas. Todos precisamos de ser salvos. (…) Somos mesquinhos, banais, egóticos, ressentidos. Se não tomamos consciência disso não conseguimos a transformação. A primeira condição da transformação é a nudez. Ser capaz de contar a sua verdade. Gosto muito da Flannery O’Connor (dizia o poeta), que é para mim, ao lado do Pasolini, uma mestra espiritual. Ela mostra um mundo que se diria monstruoso. De assassinos em série. De gente capaz de tudo. “Esse mundo somos nós”. Até que acontece o encontro com a graça. É esse encontro que transforma a nossa vida. Penso que não se pode dividir [a humanidade] entre homens bons e homens maus. (…) Há a experiência do mal, que é comum a todos, que nos atravessa, corrói, domina em tantos momentos». Quem somos afinal? Quem são os sedentos que se encontram connosco na dúvida e na incerteza? O filho pródigo e o seu irmão ressentido somos nós. S. Pedro a negar três vezes somos, de facto, nós. S. Tomé incrédulo ainda somos nós, muito mais vezes do que julgamos. Graham Greene quando se converteu escolheu o nome de Tomé, exatamente porque sabia que a fé e a incerteza se completam – enquanto paradoxalmente Mauriac num grito algo provocatório lembrava às avessas do Salmo 22: “Meu Deus, meu Deus porque não me abandonaste”. E Santa Teresa de Jesus alertava para a ingenuidade de supor que “as almas às quais Nosso Senhor se comunica, de uma maneira que se julgaria privilegiada, estejam contudo, asseguradas nisso de tal modo que nunca mais tenham necessidade de temer ou de chorar os seus pecados».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Começo esta, reproduzindo dois versos de Angelus Silesius, citados e traduzidos noutra carta:

 

              Sem querer saber de si

              nem vontade de ser vista

 

   O que, afinal, aí fica dito é, segundo François Cheng, que o porquê de uma rosa sendo ser plenamente uma rosa, o instante da sua plenitude de ser coincide com o próprio Ser. Dito de outro modo: o desejo da beleza absorve-se na beleza e esta já não tem que se justificar. E, agora, com o poeta-filósofo sino-francês recordo o que ele disse das três aceções da palavra sentido: sensação, direção, significado, aqui pela rosa enumeradas como sendo três estados essenciais do Ser. Mas presta atenção, Princesa: a sensação não poderá limitar-se ao seu nível sensorial, e a beleza é mesmo essa potencialidade e essa virtualidade para que tende qualquer ser. Eis que, quase inevitavelmente ainda, deslizamos da palavra portuguesa «sentido» (du mot français «sens», no texto original de Cheng) para um caracter chinês que lhe é equivalente, talvez mais rico, o caracter yi.

 

   Vou falar-te muito dele, levar-nos-á longe -  esmo até à tianxiá - só tenho pena de não poder (saber) reproduzi-lo, para ti, na escrita deste computador, pois tal nos ajudaria a acertar o passo com um discurso bem chinês. Confio, contudo, a François Cheng, a explicação do respetivo desenho (13 traços) ou significado, cada caracter sínico sendo, não uma letra, nem necessariamente uma palavra, mas, sim, a representação gráfica da formação de um conceito:

 

   Basicamente, o ideograma yi designa o que vem da profundeza de um ser, o impulso, o desejo, a intenção, a inclinação; o conjunto desses sentidos pode ser aproximadamente englobado pela ideia de «intencionalidade». Combinado com outros caracteres, dá uma série de palavras compostas e de variados sentidos, mas tendo entre elas laços orgânicos: grosso modo, podemos arrumá-las em duas categorias. A das que relevam do espírito: ideia, consciência, desígnio, vontade, orientação, significação. E a das que pertencem à alma: encanto, saber, desejo, sentimento, aspiração, impulso do coração. Finalmente, a encimá-las todas, a expressão yi-jing, «estado superior do espírito, dimensão suprema da alma».

 

   Essa noção, yi-jing, deve ser sublinhada. Tornou-se, para os chineses, no critério mais importante para ajuizar o valor duma obra poética ou pictórica. Pela sua definição, vemos que ela se atém tanto ao espírito como à alma. Quer aos do artista que cria a obra, mas igualmente aos do universo vivo, um universo que se faz, que se cria, que a língua designa por Zao-wu, «Criação», ou ainda Zao-wu-zhe, «Criador». Dum modo geral, diz-se muitas vezes que o pensamento chinês não teve a ideia da «Criação», no sentido bíblico do termo. É verdade que esse pensamento não foi assombrado pela ideia dum Deus pessoal; mas em contrapartida tem eminentemente o sentido da proveniência e da geração, como atestam as afirmações de Laozi: «O que há provém do que não há»; «O Tao original gera o Um, o Um gera o Dois, o Dois gera o Três, o Três gera os Dez mil seres». [Terá sido ao Taoísmo que o António Victorino d´Almeida foi buscar aquela, bem achada, do nascimento da música? «O dó conheceu o ré, e simpatizaram; dessa simpatia nasceu o mi, e assim se fez música»... Ele tinha graça, a explicar isto ao piano!]

 

   Ora a escrita sínica e o seu pensamento desenvolve-se precisamente por processo de encontro e geração. Procurando não te dar sono nem, menos ainda!, aborrecimento, explicarei o que quero dizer através da génese e constituição de um caracter chinês. Antes, e a título de apontamento sugestivo, lembro-te de que, quando se aprende a caligrafar tais caracteres, se começa pelos primeiros: um traço horizontal para escrever um, outro horizontal abaixo dele e ambos nos dizem dois, e o terceiro, debaixo desses vem anunciar três. E se evocarmos o Tao original, perceberemos o modo linear e simplíssimo como se inicia a ordem do universo todo, já que do três se parte para a geração dos Dez mil seres. Leio nos Sinais Celestes (Tianwen) do Huainan zi, uma "Summa" taoista com mais de dois mil anos: O Dao começou pelo Um. O Um não engendrou, mas, dividindo-se gerou o yin e o yang. O yin e o yang uniram-se harmoniosamente e assim foram engendrados os dez mil seres. Por isso dizemos: Um engendrou dois, dois engendrou três, três engendrou os dez mil seres. [[Dita assim, ou assim traduzida, como faz François Cheng na citação acima, esta última frase reproduz a de Laodan ou Laozi no Daode jing (século IV a.C.)]] O um representa assim a unidade primordial, e é o primeiro radical de todos os outros caracteres. Nesta função, se for traçado no topo de um composto, por exemplo, sobre os três traços que dizem homem, tal nova composição significará o céu, tian, isto é, o espaço infinito que está acima do ser humano, que é a mais alta das criaturas, e o governa. Mas se for traçado por baixo do caracter que designa o dia, ou o sol, irá compor o ideograma que diz madrugada, o princípio do dia... Espero ter conseguido dar-te uma ideia aproximada da formação de um discurso de perceção e representação, pegando num caracter primitivo e acenando o seu papel de radical, embora não entrando por qualquer possível (e real) função fonética.

 

   Nota bem que os caracteres sínicos existentes são aos milhares, o aumento do seu número, aliás, tendo acontecido por impulso ou necessidade de expressão... Só as autoridades e as escolas, afinal, foram impondo limitações canónicas. Indo a regras de facto, desde 1716 (dicionário de Kang-hsi), contam-se 40 mil caracteres, dos quais 4 mil são de uso corrente, 2 mil para nomes próprios ou raros, e 34 mil sem utilidade. E, se a arte da caligrafia pode permitir liberdades de estilo, há regras obrigatórias, tal como as que ordenam a sequência e a direção de cada traço : de cima para baixo; da esquerda para a direita; quando um vertical e um horizontal se cruzam, este risca-se primeiro, embora haja exceções; três verticais na mesma linha traçam-se ao centro, logo à esquerda, depois à direita; mas o traço que corte um central é o último; e os diagonais da direita para a esquerda (a partir de cima) precedem os da esquerda para a direita. Estas foram as regras que primeiro aprendi, tentando entender um método de ligação do pensarsentir com a mão que desenha e a representação traçada. Neste instante, conversando contigo, Princesa, olho para o caracter yi - que François Cheng diz designar o que vem da profundeza de um ser, impulso, desejo, intenção, inclinação, podendo o conjunto destes sentidos ser aproximada e globalmente definido pela ideia de «intencionalidade» - e nele encontro três caracteresjá meus conhecidosque o compõem : em cima está, como leio pelo meu dicionário japonês de 1850 kanji essenciais, ritsu (5 traços), que quer dizer levantar, erguer, estar de pé ; no centro, nichi, jitsu ou hi (4 traços), isto é, o dia, o sol; em baixo, shin (4 traços), a dizer espírito, coração, mente. Posso assim sentir que yi designa a ascensão ou o erguer do espírito esclarecido, iluminado. Ou, seguindo a ideia de «intencionalidade», pensá-lo como esse íntimo impulso do espírito humano com destino às coisas superiores, algo quase como essa definição do grego Plotino (270aC): A inteligência é o pensamento que se desvia das coisas inferiores, para elevar a alma ao que é superior.

 

   A escrita chinesa é só ideográfica, nem sequer dispõe de silabários fonéticos, como os hiragana katakana com que o japonês socorre as próprias carências, visto que os kanji (caracteres chineses, com que começou a ser escrito) não o traduziam totalmente enquanto língua falada, que já era. De facto, o chinês falado ou, se assim preferires, Princesa, o chinês fonético vive em diversos dialetos, dos quais são mais conhecidos o mandarim e o cantonês, sendo o primeiro praticado nas escolas, com o objetivo de normalizar uma fonética oficial que também cimente a união de vastíssimo e populosíssimo império. O chinês escrito, ou literário, é como que uma língua à parte, só se escreve e lê, por isso tem uma autonomia que lhe permite ser utilizado por várias línguas e dialetos.

 

   Cada sinal, ou caracter, é uma palavra, um ideograma traduzindo um conceito linguístico. Durante a escolaridade elementar, as crianças já devem memorizar centenas de caracteres e, no decurso das suas vidas, os chineses (e, noutra medida, os japoneses) irão estudando e aprendendo, pelo menos, mais um ou dois milhares. Ser letrado, na cultura sínica, mais do que erudito, é ser sempre aprendiz. Assim podemos afirmar que a consciência de devir inspira e informa o ser chinês, o yi é isso mesmo, como vimos, o yi-jing sendo o estado superior da alma. Conto-te tudo isto, Princesa de mim, para pensarsentires como o "aprender a ler e a escrever" é, no caso do Império do Meio, simultaneamente a construção de um caminho e de uma identidade em que as pessoas e a nação estão intimamente ligadas pela inspiração e pela formação.

 

   Não sou antropólogo nem linguista, e tenho mais curiosidade e apreço pelas culturas do Extremo Oriente - sobretudo numa época em que ressurge e se vai afirmando, já não como império recluso cuja capital é cidade interdita, mas no concerto internacional, uma China gigantesca, progressista e aberta ao mundo todo - do que conhecimento profundo delas. Mas gosto de ir aprendendo e partilhando contigo, Princesa. Pouco mais posso ou sei fazer, na minha idade. Não te ensino nada. Apenas partilho contigo, repito, a minha própria aprendizagem, com os seus-meus erros e percalços, mas também com os horizontes que se me abrem ao olhar da alma e me ajudam a ver e rever o mundo.

 

   Podia ter-te falado do Um, não só como imagem do Todo inicial, do Dao que não é a causa primeira em sentido aristotélico, nem o Deus pessoal e criador das três religiões monoteístas, o Deus de Abraão, mas do sem forma definida, cuja natureza é dada a tudo o que existe, que é o Céu e o conhecimento perfeito, o onde habita o homem verdadeiro, qua aí tem o coração ligado, e onde serão reconduzidas todas as dez mil diferenças. O Yuandao, ou Dao original, diz-nos, logo no começo, o Huainan zi, o Dao ...

               

cobre o Céu e carrega a Terra.
Estende-se pelas quatro direções e abre-se até às oito extremidades.
A sua altura é inacessível, insondável a sua profundeza; abraça o Céu e a Terra e, do
sem forma, faz advir os seres.
Nascente jorrando do côncavo, a pouco e pouco tudo enche; fluxo lamacento e turvo, a pouco e pouco se aclara. 
Erguido, enche o espaço entre o Céu e a Terra, vertido cobre os quatro mares.
Posto a laborar, nunca se esgota, nem conhece aurora nem crepúsculo.

 

Desenrolado, envolve as seis conjunções do mundo, enrolado nem chega a encher a cova da mão.
Concentrado, pode desdobrar-se; obscuro, pode brilhar; fraco, pode ser vigoroso; flexível, pode ser rígido.
Estende as quatro amarras e contém o yin e o yang; coordena o espaço-tempo e faz luzir as três luminárias. 

 

Ora lamacento e lodoso, ora fino e subtil! 
Por ele se elevam as montanhas, e os abismos se cavam,
os quadrúpedes correm e as aves voam,
brilham o sol e a lua,
seguem sua rota planetas e estrelas,
pulam os licórnios e planam as fénixes.

 

   Traduzo-te este poema inicial do Huainan zi, da versão francesa de Charles Le Blanc, publicada na Bibliothèque de la Pléiade (Gallimard, Paris, 2003). Em cartas por seguir te envio outras traduções de trechos desse, tão belo como antigo, texto poético e místico do Império do Meio.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   A Foreign Affairs publicou um artigo assinado por Jeremy Shapiro, com elucidativo título: WHY TRUMP CAN SAFELY IGNORE EUROPE: Its Leaders Readily Condemn But Never Act.

 

   Talvez tenha vindo a ser assim há tempo de mais. Proximamente - depois da retirada americana do acordo com o Irão (sobretudo tendo em vista as ameaças de penalização, pelos EUA, das empresas europeias que mantenham os seus negócios persas) e da extemporânea e provocatória mudança da sua embaixada para Jerusalém - veremos se e como, parafraseando jargão jurídico, a UE e cada um dos seus membros irão continuar a "promulgar" os "decretos" estadunidenses, ou optarão por "derrogá-los" ou, mesmo, "revogá-los", isto é, como continuarão a seguir as orientações americanas : se total, parcialmente, ou de modo nenhum. Ou ainda, e melhor seria, se ousarão enfrentar desafios diretos lançados pelos EUA, tais como esta última decisão unilateral de agravamento de direitos aduaneiros americanos sobre produtos europeus. Wait and see... 

 

   Tal dilema, é difícil resolvê-lo já e só por via diplomática, sabendo nós que os negociadores europeus estão fraturados (p. ex.: quatro países membros estiveram na "festa" da embaixada em Jerusalém; a Itália, um dos fundadores da CE - com a França, a RFA e os três do BENELUX - é hoje uma interrogação a juntar ao Brexit), além de que, na verdade secreta dos factos e relações económicas, o poder que finalmente delineia, determina e decide, reside mais nos próprios agentes financeiros do que nas instituições e órgãos do poder político. Esta última questão, aliás, é doravante crucial em qualquer projeção do que poderá ser uma democracia no futuro, já que a concentração crescente da riqueza e do poder financeiro anda de mãos dadas com a sua infraestrutura tecnológica e a oferta de bens e serviços básicos, desde a energia à informática e comunicações; e também não tem pátria, nem população a quem prestar contas, além dos seus próprios donos ou acionistas. Cansado de noticiários recitados por "jornalistas" que pouco ou nada sabem do que dizem - e, tantas vezes, até mal conhecem o significado das palavras que usam -, farto de fake news e de mentiras de trumps, putins e quejandos, lembrado do Bernanos que, há tantas décadas já, ergueu a voz contra a robotização dos espíritos, chamo, Princesa, a tua atenção para um livro do alemão Richard David Precht, recentemente publicado: Jäger, Hirten, Kritiker - Eine Utopie für die digitale Gesellschaft (Goldmann, 2018). Traduzo o título: «Caçadores, Pastores, Críticos - Uma Utopia para a Sociedade digital». Numa entrevista à revista Der Spiegel (o espelho), o autor afirma que a Silicon Valley vê no ser humano um organismo que funciona segundo reflexos mecânicos, como um rato de laboratório... Uma minha sucinta interpretação do que diz o próprio livro é que o projeto de sociedade digital ali analisado padece de uma vocação totalitária mais coadunável com um regime iliberal do que com aquilo a que chamamos democracia liberal (no sentido político de sociedade em liberdade de consciência e participação nas decisões coletivas). No fundo, está bem longe dos ideais humanistas da Renascença e da racionalidade das Luzes... Acrescento que nada tem, certamente, a ver com essa espiritualidade a que Romano Guardini tão bem chamou O Valor Divino do Humano (livro que li bem jovem, e ainda guardo)...

 

   Mas, ficando pelo universo internacional, passam por aí veleidades e prenúncios de recomposições, precárias ou, quiçá, mais duradouras, de entendimentos e alianças: a busca de um entendimento de europeus com russos (que são não só, mas também, um pouco europeus) sobre a salvaguarda do acordo nuclear com o Irão, é disso exemplo, como de nova arrumação do xadrez diplomático, visto que outros parceiros aparecem, incluindo uma potência maior (a China). E também surgem desafios à periclitante centralidade ou superioridade dos ocidentais, não só vindos dum qualquer misterioso "oriente" - que a nossa corrente vox populi teima em considerar exótico, já que só acha normal e normativo, sempre, evidentemente, o "ocidente" - mas de outras zonas do planeta, como a América Latina, colonizada, larga e continuamente povoada por imigrantes europeus. Lembro, para nossa ilustração, Princesa de mim, um livro recente do colombiano Arturo Escobar, para o qual fui inicialmente atraído pela primeira palavra do título, vocábulo que eu só conhecia, sob a forma pensarsentir, da minha própria escrita: Sentipensar con la tierra. Nuevas lecturas sobre desarrollo, território y diferencia. Basta traduzir-te uma frase desse conhecido militante e antropólogo colombiano, para também perceberes o despertar de uma nova consciência da dignidade dos povos: Nós somos diferentes de vós, Ocidentais, porque beneficiamos de outro modo de sentirpensar com a Terra, porque lutamos contra o individualismo, e temos uma cosmologia muito mais rica e relacional do que a vossa. E assim também volto a pensar no tianxiá.  Sorrindo pelo jeito com que as duas Coreias e a China, falando entre si, lá conseguiram voltar a sentar o presidente Trump à mesa...dando-lhe, presumo, as necessárias garantias de graxa com renovado brilho. Ou, em contrapartida da "compreensão" americana para com a ZTE (empresa chinesa que tem violado os limites impostos pelos EUA para negócios com o Irão e a Coreia do Norte), oferecendo mais reconhecimento de marcas comerciais, e proteção das mesmas, à sua filha Ivanka que, como sabemos, além de empresária, trabalha na Casa Branca e, ocasionalmente, representa o senhor seu pai, como aconteceu na cerimónia de inauguração da embaixada americana em Jerusalém...

 

   A política de Obama não era perfeita, mas tinha o mérito indiscutível de considerar como sua premissa a realidade do atual advento de um mundo plural para o fomento e a prática de uma cultura da paz e do respeito democrático. Os slogans trumpistas de America first! Make America great again!, como o seu comportamento errático-oportunista em todas as negociações e disputas internacionais onde se mete (incluindo as de matéria ou consequências económicas e comerciais), deixam-nos temer, Princesa de mim, um mundo de conflitos cujos manipuladores nem sempre serão só os que deixam os rabos de fora... Poderia escrever-te agora muitos parágrafos acerca do modo aparentemente caprichoso como a política externa americana tem sido "conduzida", desde a obsessão de Trump com o seu "estrelato" (uma quase olímpica primazia) ao seu receio de ser menosprezado ou desconsiderado, tudo isso refletido naquele seu tique de que tudo estava e continua mal, mas será, brevemente, por ele, o Magno Donald, totalmente banido, destruído, ou, então, revisto, corrigido e bem melhorado. Não faz política enquanto ciência e prudência, vontade de consenso e bem querer, mas apenas busca que surjam ou possam surgir -   há que aproveitá-las! - oportunidades de "brilhar" ou afirmar primazia. É, assumidamente, um "business man".

 

   Mas desde há muito que te vou dizendo como, na raiz profunda de tanta confusão - ao ponto de, por vezes, nem sabermos bem quem somos, onde nos situamos ou devemos situar - está uma cultura em crise. A explosiva disseminação de notícias e semânticas novas por meios ditos de "comunicação social", com a consequente superficialização das perceções e variação dos sentimentos, vai minando a nossa capacidade de ponderação e reflexão, isto é, vai fazendo de nós baratas tontas. O que já foi pensarsentir, uma construção mental e espiritual do nosso ser humano na sua circunstância, tende progressivamente a tornar-se numa mera reprodução mimética de fantasmas que nos são propostos ou impostos de fora. Aliás, os casos mais alarmantes de autismo adventício que hoje vão surgindo entre tantos jovens, que se fecham nos seus quartos com um ecrã e um computador, são "vidas virtuais" de seres humanos cuja circunstância real é feita de fantasias.

 

   Por enquanto, todavia, a consequência mais imediatamente gritante desta presente cultura da banalidade e superficialidade, com o seu rodopio de imediatismos proponentes de gozos e usufrutos logo esgotados e substituídos, é esse pulular estulto de idolatrias: desde as dietas adelgaçadoras ao melhor champô, do melhor jogador do mundo ao ator mais sexy, ou à modelo mais glamour; do meu clube que só pode ser campeão, ao meu partido que tem sempre razão, ao líder que tudo sabe e conduz o modelo económico sempre gerador de riqueza, etc... etc... Tal criação de riqueza servindo, obviamente, para me assegurar, na estabilidade garantida pelo tal líder, tranquilo usufruto do maior número possível de bens e serviços adquiríveis.  Num mundo que a chamada globalização progressivamente concentra (o que também quer dizer que vai tornando as suas nações e culturas cada vez mais centrais e menos periféricas), um "ocidente" descuidado e incauto, se não arrogante e distraído, delicia-se, por exemplo, a importar terapias físicas e psíquicas de qualquer arquétipo "oriental", como novidades a juntar à sua panóplia de consumos disponíveis... - mas queda-se sem a inteligência e a vontade (diria mesmo a prudência, esse amor sagaz) necessárias ao entendimento e convívio com novos vultos e outros protagonistas da cena internacional. Isto é: o "ocidente" teima em pensarsentir que o seu modelo económico, o seu regime político, a sua ética de êxito materialista, são o que há de melhor, são incontornáveis e impõem-se universalmente. Desejamos doidamente enriquecermo-nos; mas a riqueza por que ansiamos pouco ou nada tem a ver com a alma, a mente e o coração dos humanos, com essa única perfeição possível pela nossa condição existencial que é o amor na relação de uns com os outros, a busca da utopia das bem aventuranças.

 

   Finalmente, ou seja, para acabar esta carta - que, como todas as outras, é mera conversa entre nós, Princesa, para puxar a cabeça um ao outro - deixa-me referir-te que a França das luzes tem andado a olhar bastante para uma Itália politicamente caótica (que vai, paradoxalmente, assustando e, a talho de fouce, alertando e despertando a Europa). Parece-me, pelas traduções do italiano que em francês se vão sucedendo, que a Gália, também inquieta com a sua própria crise de identidade e valores, procura ali encontrar memórias, razões e motivos para voltar a beber mais das águas que regaram as nossas greco-latinas raízes culturais. Sabes como, pessoalmente, penso que o abandono, no ensino liceal, de letras clássicas, por retirar etimologia ao aprender da nossa própria língua, e fechar outro acesso à literatura e à filosofia, foi um erro de "casting"(autorizas-me esta modernice?) dos curricula escolares. Sobretudo - e compreendê-lo-ás melhor quando te falar da escrita chinesa na própria estruturação do discurso intelectual -  a medida em que nos prejudicou a base de construção verbal e escrita dos nossos modos de discorrer. Hoje, direi, caricaturando, já nem neologismos há. O que por aí se ouve é um chorrilho de ditos na moda, cujo próprio significado os seus mesmos emissores não tiveram tempo de compreender. Não faz mal, pensarão alguns: amanhã teremos mais novidades. Traduzo uns trechos do professor Lucien d´Azay (escritor e tradutor, ensina francês no liceu Marco Polo, em Veneza) respigados de um artigo publicado no Figaro Littéraire de 24 de maio p.p., em que fazia a resenha de duas obras vertidas do italiano para francês: La Langue Géniale - 9 bonnes raisons d´aimer le Grec, de Andrea Marcolongo (Les Belles Lettres, Paris) e Vive le Latin - Histoires et Beauté d´une Langue Inutile, de Nicola Gardini (Éditions de Fallois):

 

   Porque nos chegam de Itália estes dois livros? Porque esse país, diferentemente da França, nunca duvidou da sua herança clássica, nem do estudo, desde o liceu, do que outrora se chamava «humanidades greco-latinas». Na Itália, o filão mais prestigiado do segundo ciclo do ensino secundário permaneceu o liceu dito «classico», cujas matérias principais, durante cinco anos (dois anos de «ginnasio» e três de «liceo» propriamente dito), são precisamente o latim e o grego antigo. Deve-se atribuir a essa escolha o sentido da urbanidade, o bom humor e a alegria de viver que qualquer cidade italiana testemunha? É certo que o clima e a beleza do cenário para tal muito contribuem. Mas o gosto da civilização clássica participa do mesmo espírito, da mesma graça.

 

   Seria curioso que uma sociedade como a nossa, que tão ostensivamente aspira ao hedonismo e à beleza, quisesse sacrificar o imenso prazer providenciado pela aprendizagem e a prática das línguas antigas, com o pretexto de que elas já não servem para uma cultura sujeita à atualidade, às mercadorias e à tecnologia. Na Renascença, o latim e o grego galvanizavam aqueles homens universais, modelos de humanitas, como foram Aldo Manuce e Ange Policiano. Inspiremo-nos neles. Gaudeamus igitur!

 

   Apesar de ser um "bota de elástico", não estou a propor que se restaure, em Portugal, a escolástica! Mas parece-me razoável poder, pelo menos, esperar mais cultura na educação da fala, da leitura e da escrita. Quanto mais não seja, para que a gente não fale por falar e como ouviu soar, mas para procurar exprimir algo que faça sentido. E deixo o sentido do yi chinês para a próxima carta.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Na sua segunda meditação sobre a beleza (cf. Cinq méditations sur la beauté, Albin Michel, Paris 2008), François Cheng, um dos meus companheiros espirituais, exclui qualquer utilização de beleza como instrumento de engano ou dominação, pois tal seria a própria feieza (os dicionários dizem fealdade, mas eu, ao dizer beleza, não digo beldade...). E explica que sim, deve sempre evitar-se a confusão entre a essência de uma coisa e o uso que lhe possamos dar. E como isto é verdade quanto à beleza! Cito-te esta afirmação agora, porque me recorda a reflexão medieva - e os debates! - sobre estética, que Umberto Eco tão metodicamente analisou, ele que se conta entre os grandes estudiosos do pensamento medieval europeu e, neste capítulo, da filosofia estética de Tomás de Aquino. Iremos lá depois, noutra carta. Por enquanto, deixa-me recitar François Cheng: a beleza é algo virtualmente aí, desde sempre aí, um desejo que jorra do interior dos seres, ou do Ser, qual inesgotável fonte que, mais do que figura anónima e isolada, se manifesta como presença radiante e religante, que incita ao consenso, à interação, à transfiguração. Relevando do ser e não do ter, a verdadeira beleza não poderá ser definida como meio ou instrumento. Por essência, é uma maneira de ser, um estado de existência. Observemo-la através de um dos símbolos da beleza: a rosa.

 

   Curiosamente, correndo o risco de entrar em banalização, o filósofo-poeta colhe a flor, lembrando-me aquela lindíssima ária de Il trionfo del Tempo e del Disingano do Haendel, em que Piacere (o Prazer) tenta converter a si a Beleza, contra a razão do Tempo e do Desengano, personagens que sobre o Prazer triunfarão, neste primeiro oratório de Georg Friedrich Händel, ainda nos seus vinte anos, com libreto do cardeal Benedetto Pamphili, já com cinquenta e quatro de idade (em carta por te enviar falo mais dessa obra e seus autores): Lascia la spina, / cogli la rosa; / tu vai cercando / il tuo dolor... Traduzo a ária toda: "Deixa o espinho, colhe a rosa ; estás buscando a tua dor. Encanecida geada furtivamente te cobrirá, quando menos a espera o coração". Mas, já no oratório de Händel, sairá derrotado o prazer, pois o efémero escolherá a eternidade. Pensossinto, ó de mim Princesa, que sempre, a contemplação do efémero é uma cancela sobre dois caminhos: o da complacência no imediato da beldade, ou o da sublimação até à essência da beleza. Tal como diz Paul Claudel numa das suas intimíssimas Cent Phrases pour Éventails, inspiradas por haiku japoneses: Seule la Rose / est assez fragile / por exprimer / l´Éternité - pois sentimo-la, como diz Claudel ainda, e eu traduzo, um certo perfume / que só cheiramos / fechando os olhos... e... Fechamos os olhos / e a Rosa diz / Sou eu!  François Cheng vai buscar a Angelus Silesius, poeta germânico setecentista, que se filia na tradição mística renano-flamenga -que também tenho como muito minha, sobretudo por Mestre Eckhart, dominicano do século XIII, de quem já muito te falei - estes versos que livremente te traduzo:

 

               A rosa é sem porquê,

               floresce por florescer,

               sem ter de olhar para si,

               sem desejo de ser vista.

 

   Da atualidade da rosa, te posso lembrar, Princesa, traduzindo-te a abertura da primeira meditação de Cheng sobre a beleza: Nestes tempos de misérias omnipresentes, de violências cegas, de catástrofes naturais ou ecológicas, falar da beleza poderá parecer incongruente, inconveniente, quiçá provocador. Quase um escândalo. Mas precisamente em razão disso, vemos que, no oposto ao mal, se situa a beleza, mesmo na outra ponta de uma realidade que temos de enfrentar. Estou persuadido de que temos a tarefa urgente, e permanente, de encarar esses dois mistérios que constituem as extremidades do universo vivo: de um lado, o mal; do outro, a beleza. E prossegue dizendo que o mal é sobretudo aquele que o homem inflige ao homem, a beleza sendo como que uma enigmática evidência que nos espanta: o universo não tem obrigação de ser belo mas é, contudo, belo... E interroga-se sobre o que significa então a beleza para a nossa existência, procurando entender o que significa a frase de Dostoïevsky no Idiota: A beleza salvará o mundo. Chega assim a esse inescapável sentimento íntimo - que já tantas vezes nos desafiou nestas cartas - de que o mal e a beleza são antagónicos mas inseparáveis, na medida em que nesta se tende a encaixar aquele, a fazer dela uma máscara enganadora do maligno... Eis como me leva a reencontrar essa preocupação da nossa tradição greco-cristã acerca de uma qualquer hipotética dissociabilidade do vero-bom-belo. Mas não voltarei agora, Princesa de mim, ao meu outro mestre, Tomás de Aquino, que tanto se interrogou sobre a estética como fundamento da independência artística, musical e poética - se assim posso, ao jeito hodierno, exprimir-me. Nem tampouco abordarei o tema da iconofilia e da iconoclastia, nas tradições monoteístas, judia, cristã e muçulmana. Fico-me, com o nosso tão amigo François Cheng, pela meditação, em modo talvez taoista - mas tão próximo da mística e da arte cristãs que mais venero -, dessa surpresa sempre inesperada na sua permanência, talvez o laço que mais firme e fielmente nos una ao universo que é nossa morada: a beleza como raiz e devir de tudo. Aprendi muito com a minha cerejeira do Japão, que todos os anos floresce porque floresce, e não dá frutos, e cujas flores sem saber de si me encantam e me levam para muito longe quando fogem com o vento, talvez então muito mais próximas de mim comigo, porque não as tenho e apenas sou com elas, simplesmente. O efémero torna-se assim num sacramento de eternidade.

 

   Regresso por aí à meditação de François Cheng sobre a beleza e a rosa, escolho um trecho que me ocorrera ao ler um bilhete  de uma amiga minha, pintora, mulher, mãe e avó, completada pela família e pelo campo onde vive em natureza, e pelo ateliê, onde nem todos os dias são tranquilos ou gloriosos, porque até nas coisas que mais gostamos de fazer, ou que maiores alegrias nos dão, pode insinuar-se a perplexidade, um quase desânimo, talvez mesmo a tentação maléfica (?) de desistir, de destruir até. O mal detesta a beleza, tentará aniquilá-la, mas a beleza não se livra do mal pela violência de um apagão, tal não é próprio dela. Ela é positiva, criadora, não é negativa. Lembras-te, Princesa, de que já nas aulas de física, no liceu, sabíamos que um corpo frio não pode acender outro, mas um corpo quente sempre transmite o seu calor? Diz então o poeta sino-francês:

 

   Na verdade, a rosa é sem porquê, como todos os viventes, como todos nós. Se todavia um observador ingénuo quisesse acrescentar algo, poderia dizer isto: ser plenamente uma rosa, na sua unicidade, e nada mais, eis o que já constitui suficiente razão de ser. Tal exige da rosa que ela ponha em combate toda a energia vital de que está carregada. Desde o instante em que emerge do solo, o seu esteio irá crescendo como que movido por inabalável vontade. Através dele se fixa uma linha de força que se cristaliza num botão. A partir desse botão, as folhas e depois as pétalas ir-se-ão formando e dispondo, seguindo esta curva, aquela sinuosidade, optando por este tom, aquele aroma. Doravante nada a poderá impedir de aceder à sua assinatura, ao seu desejo de cumprimento, alimentando-se da substância vinda do chão, mas também do vento, do orvalho, dos raios do sol. Tudo isto com vista à plenitude do seu ser, uma plenitude posta já no seu germe, já num muito longínquo começo, podemos até dizer que desde toda a eternidade.

 

   Eis enfim a rosa que se manifesta em todo o brilho da sua presença, propagando as suas ondas rítmicas para aquilo a que aspira, o puro espaço sem limites. Nesta tarde tão cinzenta e mansamente chuvosa, estou, tolhido de dores físicas que me desafiam, conseguem irritar, mas fugirão assim que eu me cale e olhe para os campos que avisto, verdes e agradecidos à grisalha húmida que os cobre, na quietação do meu gabinete, há meia hora acompanhando o lento deslizar de um caracol que, do lado de fora, percorre vários vidros da janela que me alumia. Ao vê-lo solto da casa que transporta, esticado, mas creio que ondulante sobre a superfície lisa e transparente - que me deixa vê-lo por debaixo e, à luz pálida do dia silente, me revela o seu corpo translúcido - recordo uma do católico Claudel no seu Connaissance de l´Est, que François Cheng cita (et pour cause!):

 

      Mas o que é o Tao? ... Por debaixo de todas as formas, o que não tem forma, o que vê sem olhos, o que guia sem saber, a ignorância que é o supremo conhecimento. Seria errado chamar Mãe a esse suco, a esse sabor secreto das coisas, a esse gosto de Causa, a esse estremecimento de autenticidade, a esse leite que nos ensina a Nascente? Ah!, estamos no meio da natureza como ninhada de leitões que mamam numa cerda morta! Que nos diz Lao Tseu, se não que cerremos os olhos e ponhamos a boca na própria fonte da Criação? E fecho esta carta acentuando a sua nota intimista, com uma citação de São Bernardo de Claraval (Sermones in Cantica256): Pulchrum interius speciosus est omni ornatu extrínseco, omni etiam regio cultu... Ou seja, Princesa: A Beleza mais íntima brilha melhor do que qualquer ornamento extrínseco, bem mais, até, do que qualquer paramento régio.

 

   Mas como, em dias de penumbra pluviosa, sempre me acodem, inesperadamente, lembranças que vêm mesmo a calhar para me ilustrar o pensarsentir, deixo-te mais uma que ora me socorreu. É do filme La Strada, do Fellini (1954), quando o equilibrista louco (Il Matto) diz a Gelsomina (representada pela inesquecível Giulietta Masina): Se eu soubesse para que serve este calhau, seria Deus, que tudo sabe. Quando nasces. E também quando morres. Este calhau serve com certeza para qualquer coisa. Se for inútil, tudo o mais será inútil, mesmo as estrelas. E também tu, com essa cara de alcachofra, para alguma coisa hás de servir.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira