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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ENCONTROS PARA A HISTÓRIA

 


1. “Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o seu nome seja usado para matar e aterrorizar as pessoas”.

 

Quando li este passo no “Documento sobre a Fraternidade Humana” a favor da paz mundial e da convivência humana, assinado no início desta semana em Abu Dhabi, pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al Azhar, Ahmed al-Tayeb, lembrei-me da mesma afirmação que há anos ouvi ao então Bispo de Nampula e que transcrevi na abertura do livro que coordenei, “D. Manuel Vieira Pinto. Cristianismo: Política e Mística”:  “Porque é que Você, que é Bispo, quando vem falar comigo, nunca me fala de Deus e da religião, mas do povo, da defesa dos seus direitos e da sua dignidade?”, perguntou o Presidente Samora Machel a D. Manuel Vieira Pinto. “Porque um deus que precisasse da minha defesa seria um deus que não é Deus. Deus não precisa que O defendam. O Homem sim.”, respondeu D. Manuel.

 

Este é um princípio decisivo para quem queira estar na religião/religiões com dignidade: Deus não precisa que O defendam; as pessoas sim. Porque é isso que Deus quer, o seu único interesse são as pessoas. Já Santo Ireneu o disse: “Gloria Dei homo vivens”: a glória de Deus é o homem vivo, realizado, pleno, feliz. Quantas vezes a pretensa defesa de Deus e da sua glória levou à humilhação, ao espezinhamento, à brutalidade sobre outros homens, a guerras, a terrorismos... Em nome de Deus!

 

2. De 3 a 5 deste mês de Fevereiro, quando se celebram os 800 anos do encontro entre Francisco de Assis e o sultão Al-Malik, o Papa Francisco, recebido com as maiores honras de Estado pelo príncipe herdeiro de Abu Dhabi, esteve nos Emiratos Árabes Unidos para uma visita que também fica para a História. Dois acontecimentos fundamentais ocuparam as 48 horas da visita: promover e fortalecer o diálogo inter-religioso, especialmente com os muçulmanos, e uma Missa para os católicos, que serão uns 900.000 no país.

 

2.1. É nos Emiratos Árabes Unidos, que o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, definiu como “uma ponte entre Oriente e Ocidente bem como uma terra multicultural, multiétnica e multirreligiosa”, que tem a sua sede o Conselho Muçulmano de Anciãos ou Conselho de Sábios Muçulmanos, um grupo internacional que visa combater o fanatismo religioso e que é presidido pelo Grande Imã da Mesquita e Universidade islâmica do Cairo Al Azhar. Foi a seu convite que se realizou o encontro inter-religioso sob a designação de “Fraternidade Humana”.

 

Francisco, que já na vídeo-mensagem enviada ao povo dos Emiratos advogara o “respeito pela diversidade”, foi contundente no seu discurso programático durante o encontro inter-religioso: “Ou construímos o futuro juntos ou não haverá futuro”. Onde se fundamenta a fraternidade? Claro: no Deus criador, que “quer que vivamos como irmãos e irmãs, habitando na casa comum da criação que Ele nos deu”; portanto, “temos todos a mesma dignidade” e “ninguém pode ser senhor ou escravo dos outros”. A fraternidade implica igualdade e diferença e, assim, ao mesmo tempo que elogiou “a coragem da alteridade” lembrou o pressuposto da “identidade própria”: identidade e alteridade co-implicam-se, exigindo o reconhecimento do outro como igual e diferente, com direitos fundamentais, entre os quais, o da liberdade religiosa, que “se não limita só à liberdade de culto,  pois vê no outro um verdadeiro irmão, um filho da minha própria humanidade que Deus deixa livre e que, portanto, nenhuma instituição humana pode forçar, nem sequer em seu nome”. “A coragem da alteridade é a alma do diálogo”, que tem também a sua base na oração: “feita com o coração, a oração é regeneradora de fraternidade”; com elas —oração e fraternidade —, construiremos o futuro juntos.

 

O símbolo da viagem papal era a pomba com o ramo de oliveira, símbolo bíblico da paz. Por isso, disse que, sendo a tarefa das religiões construir pontes, elas precisam, como a pomba, de duas asas para voar: a educação e a justiça. A educação, para “formar identidades abertas”, em ordem a afastar o ódio, dialogar e “defender os direitos dos outros com o mesmo vigor com que se defende os seus”. A outra asa é a justiça, justiça universal. “Que as religiões sejam a voz dos últimos, que não são estatísticas mas irmãos, e estejam do lado dos pobres.”

 

Francisco elogiou o país que o acolheu como exemplo de inclusão, que quereria ver reproduzido “em toda a amada e nevrálgica região do Médio Oriente”, para a qual pediu “oportunidades concretas de encontro”: “uma sociedade onde pessoas de diferentes religiões tenham o mesmo direito de cidadania”. Suplicou a “desmilitarização do coração”, porque “a guerra só sabe criar miséria e as armas nada mais do que a morte”. Citou o Iémen, a Síria, o Iraque, a Líbia. Concluiu, convidando à não rendição perante “os dilúvios da violência e da desertificação do altruísmo”. “Deus está com o homem que procura a paz. E do Céu abençoa cada passo que, neste caminho, se realiza na Terra.”

 

Foi também neste encontro que foi publicado o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, já referido. Uma Declaração verdadeiramente histórica, elaborada ao longo de um ano de diálogos e debates entre Al Azhar e o Vaticano até alcançar a sua redacção final. “Em nome de Deus, Al Azhar al-Sharif, com os muçulmanos de Oriente e Ocidente, e a Igreja Católica, com os católicos de Oriente e Ocidente, declaram assumir a cultura do diálogo como caminho, a colaboração comum como conduta, o conhecimento recíproco como método e critério”. “Pedimos a nós mesmos e aos líderes do mundo, aos artífices da política internacional e da economia mundial, que nos comprometamos seriamente para difundir a cultura da tolerância, da convivência e da paz, intervir o mais depressa possível para parar o derramamento de sangue inocente e pôr fim às guerras, aos conflitos, à degradação ambiental e à decadência cultural e moral que o mundo vive actualmente.” De facto, “entre as causas mais importantes da crise do mundo actual estão uma consciência humana anestesiada e um afastamento dos valores religiosos, a que se junta o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas”. Para a explicação das raízes do terrorismo niilista, o Documento insiste na “deterioração da ética, que afecta a acção internacional, e na debilitação dos valores espirituais e do sentido da responsabilidade”, elementos que favorecem a frustração e o desespero, “levando muitos a cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico ou no fundamentalismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego”.

 

De modo mais concreto, declara-se veementemente que “as religiões por si nunca incitam à guerra, à violência ou derramamento de sangue. Estas desgraças são fruto do desvio dos ensinamentos religiosos, da utilização política das religiões e também das interpretações de grupos religiosos que abusaram do sentimento religioso nos corações dos homens para levá-los a realizar algo que não tem nada a ver com a verdade da religião, mas com alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes.” Exige-se, portanto, uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados. As outras condições em ordem à paz entre as religiões e os povos são o respeito pelos direitos humanos, entre os quais sobressai o da liberdade religiosa e a cidadania plena: “A liberdade é um direito de toda a pessoa: todos gozam da liberdade de crença, de pensamento, de expressão e de acção. O pluralismo e a diversidade de religião, cor, sexo, raça e língua são expressão de uma sábia vontade divina.” “O conceito de cidadania plena baseia-se na igualdade de direitos e deveres sob cuja protecção todos desfrutam da justiça. Por isso, é necessário comprometermo-nos em estabelecer na nossa sociedade o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório da palavra minorias, que arrasta consigo as sementes de sentir-se isolado e inferior, prepara o terreno para a hostilidade e a discórdia e retira os direitos religiosos e civis de alguns cidadãos, ao discriminá-los.”

 

Al Azhar e a Igreja Católica consideram de tal importância esta Declaração que “exigem que este Documento seja objecto de investigação e reflexão em todas as escolas, universidades e institutos de educação e formação”, esperando que se transforme num “símbolo do abraço entre Oriente e Ocidente, entre o Norte e o Sul.”

 

3. Como já referido, há nos Emiratos cerca de 900.000 cristãos, sendo a quase totalidade constituída por imigrantes (filipinos, indianos, paquistaneses, do Sri Lanka, Bangladesh e outras nacionalidades), que vieram para trabalhar. Assim, outro acontecimento histórico foi a celebração da Missa no estádio Zayed, na qual participaram, dentro e fora do estádio, 150.000 pessoas de 45 nacionalidades, incluindo 5.000 muçulmanos. Vários bispos concelebraram, entre eles os Patriarcas do Oriente, nomeadamente o do Líbano e o do Iraque — este, cardeal L. R. Sako, lembrou que “houve um tempo em que éramos 20% da população, mas o número desceu repentinamente e hoje somos à volta de 2%”, esperando que esta visita do Papa ajude também a situação dos cristãos iraquianos.

 

Foram horas de indescritível entusiasmo e de recolhimento e profunda oração. O Evangelho foi o das Bem-aventuranças. E ficaram estas palavras da homilia papal: “Não é fácil viver longe de casa. Mas o Senhor está perto e caminha ao nosso lado.” “Olhemos para Jesus: não deixou nada escrito, não construiu nada imponente. E, quando nos disse como devemos viver, não nos pediu que ergamos grandes obras ou que nos destaquemos pela realização de façanhas extraordinárias. Pediu-nos que levemos a cabo uma só obra de arte, ao alcance de todos: a obra de arte da nossa vida”. No final da celebração, saudou cordialmente todos os participantes: “fiéis caldeus, coptas, greco-católicos, greco-melquitas, latinos, maronitas, sírio-católicos, siro-malabares, siro-malankares”. E, como sempre: “Não vos esqueçais de rezar por mim”.

 

4. Há quem acuse Francisco de se deixar manipular pelo mundo islâmico. Será assim? É claro que a Igreja Católica não está no mesmo nível que Al Azhar nem o Papa no mesmo nível que o Grande Imã. O diálogo não pode ser unidireccional. É verdade que, apesar de toda a cordialidade indesmentível da recepção, mesmo os Emiratos Árabes Unidos são um Estado no qual o islão é religião oficial; ora, sem laicidade, não se evitará a “capitis diminutio”, isto é, a não cidadania plena dos cidadãos que não têm aquela religião. E também é verdade que se denuncia mais a islamofobia do que a cristianofobia, embora o cristianismo seja hoje a religião mais perseguida...

 

Mas o que é facto é que foi a primeira vez que um Papa visitou um país da Península Arábica, berço do islão, e que celebrou a primeira Missa pública na história da Península. Francisco ousou denunciar os horrores da guerra do Iémen na qual os Emiratos  também estão implicados e fez apelos aos líderes políticos islâmicos a favor do respeito pelos direitos fundamentais de todos e, nomeadamente, o da liberdade religiosa. E é indizível a alegria dos cristãos que puderam encontrá-lo. E deu-se mais um passo para a paz e para a tolerância entre as pessoas.

 

Pequeno? Mas um passo, que todos os beneficiários agradecerão e que Deus abençoa.

 


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 9 FEV 2019

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   As meças de forças da Ordem do Templo com o poder político - e não só - foram-se sucedendo, acompanhando o crescimento daquela milícia religiosa, e do seu próprio poder financeiro e militar, aliás traduzido em praças fortes e territórios ocupados e governados por ela. Se, em 1147, o papa Eugénio III se desloca pessoalmente a Paris para assistir ao primeiro capítulo geral da Ordem, cujos cavaleiros partirão, como guarda especial do rei Luís VII de França na 2º cruzada, para a Terra Santa - expedição que foi um fracasso, obrigando o rei a colocar-se, ainda mais, sob a proteção  dos Templários - já em 1153, para proteger Jerusalém, onde reinava o jovem Balduíno III, com este participam na conquista da praça turca de Ascalão e, por terem sido quarenta dos seus cavaleiros os primeiros a nela entrar, o mestre Bernardo de Trémolay guardou-a para o Templo, o que foi mal percebido... Aliás, de nada lhes valeu, antes mal lhes veio, pois acabaram por ser massacrados pelos turcos, que a ocuparam até à sua reconquista, pouco depois, por Balduíno. O sucessor deste, o rei Amaury de Jerusalém, aliado ao imperador bizantino, irá romper a aliança do reino franco com o Egipto, em 1168. Tal expedição conta com a participação dos cavaleiros do Hospital, mas Bertrand de Blanquefort, mestre do Templo, recusa a dos seus monges guerreiros... E com razão, como reconhece o cronista Guilherme de Tyr: O mestre do Templo e seus frades nunca quiseram intervir em tal operação e disseram que não acompanhariam o rei nessa guerra. Pode bem ser que se tivessem apercebido de que o rei não tinha boa razão para guerrear os egípcios, violando as convenções garantidas pelo seu juramento. Logo depois, o advento de Saladino marcará o início da decadência e queda final do reino cristão na Palestina. Mas ainda levará algum tempo, posto que, antes da morte de Saladino, em 1193, perturbações entre muçulmanos os enfraquecerão e permitirão que S. João de Acre seja reconquistada por Filipe Augusto de França e Ricardo Coração de Leão, com notório apoio dos Templários, cujo Grão Mestre era Roberto de Sablé, nobre vassalo do rei inglês e seu amigo pessoal.

 

   Penso, Princesa, aqui neste sossego dos campos a que a aproximação do Inverno vai retirando os tons de oiro e fogo com que o Outono os cobrira, que - como tão bem o explanou Ibn Khaldun, de quem várias vezes te falei - o percurso histórico de reinos e instituições é, à imagem da mãe natureza, um surto e florescimento, um apogeu de frutos, ceifas e colheitas, um esplendor decadentista, já glorioso como um canto de cisne moribundo, e finalmente um esquecimento silencioso, onde apenas os olhos do coração vêem o invisível...

 

   Para a Ordem do Templo, a dos Pobres Cavaleiros de Cristo, a secreta fecundidade do Inverno deu-lhes nova vida nos reinos ibéricos, ainda a braços com o fim da Reconquista e a ameaça costeira de piratas mouros, já tentados por aventuras africanas e, ainda, pelo rodeio do aperto islâmico através da circunvalação de África e o acesso ao riquíssimo comércio do Oriente longínquo. Assim se transformaram, em Portugal, os Templários em cavaleiros só de Cristo, e a Ordem desempenhou o papel de sustento, até financeiro, das Descobertas.

 

   Já não me recordo da data em que te escrevi as linhas acima, nem sequer se foi no Outono passado ou noutro anterior. Mas lá falo da aproximação do Inverno... Hoje, ocorreu-me vir recuperá-las, lembro-me ainda de que iniciavam uma carta que era sequência de outras que te enviara. Assim sucede agora, por ter lido, no Figaro Littéraire deste 6 de dezembro, a resenha de um livro da professora italiana Simonetta Cerrini, agora traduzido para francês, com o título Le Dernier Jugement des Templiers (Flammarion, 2018). Tal obra vem ao encontro do que há muito penso e já em parte te dissera: houve (e há) mais fantasia e muito gosto de fábulas misteriosas - do que trabalho aturado e sério de investigação - em muito do que por aí se tem contado dos Templários. O livro da historiadora Simonetta Cerrini, doutorada pela Universidade Católica de Milão, deve certamente ser obra fundamentada e documentada, até porque a autora há muito se dedica ao estudo da Ordem do Templo. Não resisto a deixar-te aqui um trecho longo e elucidativo da resenha feita, no Figaro, por Paul-François Paoli. Traduzo:

 

   Ela retraça a história do que acha que constitui o primeiro grande processo político da história de França, enquanto nos vai propondo uma leitura dos documentos da época. Designadamente, a decifração de uma bula do papa Clemente V, Vox in excelso, datada de 22 de março de 1312, e da qual encontrou várias cópias. Nela o papa aprovava a dissolução da Ordem dos Templários, sem contudo se solidarizar com os métodos de terror utilizados por Filipe o Belo, que acusava os cavaleiros de todos os pecados do mundo...   ... As acusações que Filipe o Belo levantava contra esses briosos que haviam feito voto de pobreza e castidade, e cuja missão era, na origem, proteger os peregrinos que partiam para as cruzadas [melhor dito, penso eu : para a Terra Santa] eram as piores que se podiam fazer. A mais grave era a heresia e a blasfémia, sem esquecer a avareza, a acumulação de riquezas, a sodomia, etc. Para a historiadora, que recorda que Dante, no Purgatório, acusa Filipe o Belo de cupidez e crueldade, não há qualquer dúvida de que o grande culpado de todo este caso é o próprio rei, que quer deitar mão às riquezas de uma Ordem cujos membros se pensa estarem ao serviço dos pobres. Não é que os Templários nada tivessem de censurável, pois até Jacques de Molay, seu derradeiro grão mestre, desejava reformar essa contestada Ordem. Mas o que surge patente, ao correr das páginas, é o carácter monstruoso da maquinação de Filipe o Belo, cujos métodos parecem prefigurar os piores processos por bruxaria dos estados totalitários...

 

    Quase a fechar esta, vou a palavras da própria Simonetta Cerrini, onde encontrarás lembranças de apontamentos feitos nas minhas cartas sobre Templários, escritas após uma visita especial ao Convento de Cristo, em Tomar, onde o nosso guia povoou o cenário de fantasmas. O que me traz escritos e datas à memória: são nove (9!) cartas que te escrevi, publicadas depois pelo blogue do CNC entre 23 de outubro e 27 novembro de 2016. Escreve a professora Cerrini no seu último livro:

 

   Nenhum soberano seguirá o rei de França nessa cruzada contra o Templo...   ... Quando o papa Clemente alargou o seu inquérito a todos os países que albergavam casas templárias, deve ter-se apercebido, ainda que demasiado tarde, de que Filipe o Belo tinha criado, não só uma bolha financeira, mas também uma bolha místico-mediática destinada a apoiar um "Estado totalitário", sobre cujo altar os guardiães do Templo de Salomão deviam ser sacrificados.

 

   Tardia embora, a "revisão" papal todavia permitiu a "conversão" da Ordem do Templo noutras novas ordens. Em Portugal, como sabemos, na de Cristo, por vontade também, e militante, d´El-Rei Dom Diniz, o Lavrador. Este monarca foi muito ativo em política de consolidação da soberania portuguesa e reforço do poder régio. O que explica como, durante o seu reinado, as relações com o papado tivessem sido muito marcadas por questões relacionadas com as ordens religiosas militares. Assim, é nessa época que os cavaleiros portugueses da Ordem de Santiago passam a eleger, direta e separadamente de Castela, o seu mestre. E, após a extinção papal da Ordem do Templo, Dom Diniz opõe-se à entrega dos seus pertinentes bens à Ordem do Hospital, e à própria Igreja, colocando-os sob a alçada da coroa. Finalmente, consegue, em 1319, que o papa João XXII institua, pela bula Ad ea ex quibus, a Ordem de Cristo, bem portuguesa, recetora de todos os bens dos nossos Templários.

 

    Assim te voltei a falar dos Templários, cumprindo, Princesa de mim, o desejo que formularas, e sorrindo amareladamente à lembrança de que já em tempos idos - sem tweeters, televisões, rádios, revistas e jornais - os autores políticos criavam histórias e lançavam caçadas a possíveis bruxas, em busca de um conveniente desenho de bodes expiatórios que vocacionassem iras... Hoje, democraticamente, tal panorama alastrou e quotidianamente vai tentando preencher os nossos horizontes. Os debates de ideias e projetos vão cedendo espaço à multiplicidade dos ataques ad hominem, a promiscuidade do aparelho judicial com o mediático vai gerando borradas confusões, juízes e processos em justiça tornam-se actores e cenários de outras guerras e disputas. O celebrado, consagrado princípio da separação de poderes (o executivo - e o moderador - o legislativo e o judicial) cada vez mais dificilmente consegue afirmar a independência judicial, quer por não se conseguir libertar este poder da contínua conspiração política em que vivemos, quer por demagogicamente o substituírem pela chamada comunicação de massas (pelas redes públicas e pelas ditas sociais). Um dos mais graves problemas a resolver nas democracias hodiernas tem, precisamente a ver com a afirmação, estruturação, disciplina e independência erga omnes do poder judicial e seus aparelhos.

 

    Não será esta carta para ti, Princesa de mim, o foro curial para uma reflexão sobre tão complexa questão política, jurídica e comunitária. Mas todavia  -  quiçá por tanto me enjoar o meu desgosto das comuns intrusões na privacidade alheia, dos processos de intenções, das sistemáticas violações do direito ao bom nome e ao juízo justo (ter-nos-emos esquecido desse ensinamento que nos deram quando crianças - do próximo, ou bem ou nada - ?), sim, Princesa, talvez por isso, não resisto a falar-te do último livro da historiadora britânica da cultura, Tiffany Watt Smith: Schadenfreude: The Joy of Another´s Misfortune, Little, Brown Spark, 2018). Este título recorre à união de dois termos germânicos (Schaden, prejuízo, pena, e Freude, alegria) para exprimir o sentimento mesquinho que é a satisfação pelo mal infligido ou acontecido a outrem. Não te contarei aqui as várias teorias que a autora refere para explicação de vício humano tão antigo. Até os gregos já o denunciavam, designadamente por palavra atribuída a Aristóteles: epichairekakia. Mas pretendo salientar a observação que Tiffany Watt Smith faz de que os tempos hodiernos são a idade de ouro da alegria malévola (ou do gozo malevolente). As redes sociais, ao abrirem-nos múltiplas oportunidades para nos maldizermos uns aos outros, lisonjeiam os nossos instintos mais baixos e proporcionam-nos algumas miseráveis delícias.

 

   Perante tão afligente panorama, mais intensamente pensossinto a necessidade imperiosa de um pacto do regime democrático que veicule a construção política de um sistema de justiça que possa cumprir, tanto quanto possível, a sua finalidade, isto é, dar a cada um o seu direito: jus suum cuique tribuendi, dizia Ulpiano, que tanto gosto de citar. Tal aparelho terá, provavelmente, de ser concebido fora da lengalenga habitual da limitada imaginação política reinante, de forma a assegurar a sua imprescindível independência e a necessária transparência dos seus procedimentos. E para nos ir ajudando a acabar com essa praga de "processos públicos", tão tristemente marcados por intenções persecutórias e sanhas ou, ainda, em contradição, por habilidades e manobras dilatórias e encobridoras... Até chego a perguntar-me se, ao fim e ao cabo, não andarão por aí muitos mais culpados em liberdade (mesmo que relativa, vigiada ou condicionada), do que menos culpados em prisões.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na sua biografia de Pio V (sim, esse, o papa de Lepanto) - Saint Pie V, le pape intempestif (Le Cerf, 2018) - frei Philippe Verdin, também dominicano, entusiasma-se com o facto de três personalidades tão distintas (Pio V, Carlos Borromeo, Filipe Néri, todos aliás posteriormente canonizados) se terem conjugado para desenvolver a reforma católica da Igreja pós tridentina. Vale a pena traduzir-te um trecho saboroso e esclarecedor, em que o biógrafo coteja Pio com Filipe, ambos eles amigos e veneradores de Carlos, que lhes retribuía na mesma moeda:

 

   Pio V não o compreende (a Filipe Néri). O papa inquieta-se com a sua doutrina e amizades com judeus e ciganos. Não gosta dessa loucura saltitante, a raiar o desrespeito, daquelas pantominas. Convoca-o e põe-no em sentido. Mas Filipe é edificante pela submissão e humildade. E Carlos intervém para lembrar os frutos do ministério oratoriano - [Filipe é fundador da Congregação do Oratório, à qual, mais tarde, pertencerão os nossos Bartolomeu do Quental, Manuel Bernardes e Luís António Verney] - e diz ao papa: «Filipe e vós combateis o mesmo combate, Santo Padre. Tendes a mesma paixão pela liturgia, os mesmos mestres teatinos, o mesmo zelo pela Igreja. Nunca Vossa Santidade ouvirá o Filipe criticar a autoridade pontifícia, nem pôr em causa uma só vírgula das vossas bulas. Todavia, vós agis em conformidade com o vosso papel e à vossa maneira, com autoridade, enquanto que ele o faz pela influência.»  A título de curiosidade, Princesa de mim, lembro-te de que Sto. Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, conheceu pessoalmente S. Filipe Néri e admirava a bonomia da sua pastoral. S. Pio V, todavia, não se agradava com a sua aparente leviandade de maneiras, mas tolerava-as, pensando que ele era um santo, e aos santos tudo se perdoa. Escreve frei Filipe Verdin que o seu biografado diria para consigo: Ele é um amigo de Deus e há muitas moradas na casa comum, muitos membros diferentes no Corpo de Cristo. Esta diversidade é espantosa, mas inconfortável.

 

   E o dominicano francês continua: Tal incompreensão lembra-me os dois dominicanos mais famosos ao tempo da minha entrada na Ordem, e dos quais terei a sorte de me tornar amigo: Christof Schönborn, cardeal arcebispo de Viena e autor do Catecismo Católico, tal como Pio V; Timothy Radcliffe, inglês fantasista e cheio de humor, Mestre Geral da Ordem. Esses dois homens respeitavam-se, mas não se compreendiam. Timothy, de jeans rasgados e cabelo em desordem, irritava Christof, um clássico, amigo de Bento XVI. Eis o equilíbrio precário, que encontramos em cada época da Igreja, necessário à vida dela, entre a retenção hierárquica e o impulso carismático.

 

   Vem esta carta falar-te dessa misteriosa coexistência, debaixo do mesmo tecto - como também há milénios ensina o Tianxiá chinês, e podemos nós, cristãos de muitos e diversos tempos e berços, repetir, talvez chamando-lhe, não já céu, mas manto de misericórdia - de todos os homens de boa vontade que, na mensagem cristã, são a glória de Deus. Tal coexistência não é apenas simultaneidade, mas convívio e cooperação. E traz-me à memória aquela sentença de Paul Claudel: Um católico não tem aliados, só pode ter irmãos.

 

   Un catholique n´a pas d´alliés - eis o título de uma coletânea da correspondência epistolar de Jacques Maritain com Paul Claudel, Georges Bernanos e François Mauriac, todos franceses do século XX, e católicos, o primeiro  sendo um filósofo oriundo de família protestante e republicana,  os outros três grandes escritores, dois deles, aliás, consagrados pelo Nobel e membros da Académie Française.[Só Bernanos ficou fora das honras oficiais, por opção própria, tendo recusado três vezes a Légion d´Honneur - considerando que só a soldados era devida - e chegado a dizer, bem ao seu jeito, acerca da Academia: Je ne voudrais empêcher personne de s´habiller d´une manière ridicule, mais il y a des vérités qu´on ne saurait dire, ni même écrire, en habit de carnaval.] O professor Henri Quantin, organizador desta edição (Éditions du Cerf, 2018), a dado passo da sua introdução, escreve: As cartas aqui reunidas testemunham que pode haver correspondência epistolar sem «correspondência de ideias e de gostos», porque o Evangelho é uma boa nova para anunciar, não uma ideologia para triunfar. A Igreja não é um partido político cujos membros tenham de, ou seguir uma linha eleitoral ou, então, bater com a porta, mas uma família cujas reuniões podem exaltar-se, vez sim, vez não, sem que os irmãos deixem por isso de ter o mesmo Pai. Eis palavras de uma das últimas cartas de Claudel a Maritain: «Espero que tenha esquecido os nossos pequenos desentendimentos, que pessoalmente nunca me impediram de reconhecer em si um irmão com quem tenho orgulho de partilhar uma fé comum». Aquando desses «pequenos desentendimentos», Claudel até chegara a chamar imbecil a Maritain, mas trata-se, afinal, de um adjetivo muitas vezes utilizado entre irmãos... 

 

   Explica Quantrain queTal fraternidade conflitual explica a ordem escolhida para este volume: começar por Mauriac, continuar com Claudel e acabar com Bernanos é uma maneira de submeter a caridade e a paciência dos Maritain a provas de dificuldade crescente. É certo que os irmãos não são aliados, mas certas alianças feitas por um irmão podem tornar mais difícil a vida em fraternidade. A defesa de Drumont por Bernanos será, por exemplo, difícil de aceitar pelo autor de L´impossible antisémitisme. De maneira geral, na ordem das ideias políticas em sentido lato, Claudel e Bernanos afastam-se muitas vezes de Mauriac, ficando este mais próximo das posições de Maritain. Note-se que esses papéis não estão estabelecidos para sempre: se a oposição a Maurras junta, pelo menos de 1927 a 1932, Maritain, Mauriac e Claudel contra Bernanos, a guerra de Espanha, pelo contrário, vê uma frente Maritain-Mauriac-Bernanos opor-se a um Claudel fervente defensor da Igreja espanhola e dos nacionalistas. O sabor dessas trocas deve, aliás, muito aos dramas históricos que lhes são, simultaneamente, pano de fundo e campo de batalha.

 

   Na minha mocidade, li muito estes quatro autores de que te falo agora, com gosto especial por Mauriac romancista e Bernanos escritor de combate, que devorava. E essas leituras feitas entre os catorze e os dezassete anos marcaram-me muito: hoje ainda, quando penso em honestidade intelectual e frontalidade profética, recordo Les grands cimetières sous la lune, La France et les robots, La grande peur des biens pensants; e para falar de língua francesa lindamente escrita, vou buscar trechos de Mauriac para ilustração... tal como me abismo nas suas visões de negruras e alvuras das almas. 

 

   Aliás, para partilhar essas experiências contigo, traduzo-te um passo do Bloc-notes de François Mauriac, com data de Domingo, 6 de novembro de 1960, registando o velório a Raïssa Maritain [Ocorreu-me este trecho várias vezes, neste mês e meio, ao meditar na morte recente de dois muito queridos amigos, ambos embaixadores, João de Deus Bramão Ramos e Nuno da Cunha e Távora Silveira e Lorena. Amizades com mais, ou muito mais, de seis décadas, apesar de as vidas vagabundas de todos três nos terem, com frequência, geograficamente afastado, sem todavia quebrar diálogos e partilhas]:

 

   Ajoelhado ao lado de Jacques Maritain, no quarto em que Raïssa Maritain descansa, contemplo avidamente essa bela fronte, donde se retirou o pensamento, e que todavia dele conserva a irradiação. O corpo tornado coisa deveria ser igual às coisas (que é no que se torna um bicho morto). Podem dizer que não acreditam na alma: ela nunca me parece tão visível como quando já lá não está: o rosto dessa mulher duas vezes inspirada, pois que vivia de Deus e era poeta, esse rosto, no momento de se desfazer e voltar a ser pó, de não ser nada, guarda o estigma de um pensamento para sempre ausente, mas é infinitamente mais do que um pensamento. 

 

   O original está num francês muito bonito, mas reflete bem essa sensibilidade da alma, tão feminina, que levava François Mauriac a tão bem escrever sobre as mulheres, como nesse romance do claro-escuro de uma vida humana que é Thérèse Desqueyroux. E já que te falo desta, também te digo como entre o filósofo tomista, de origem republicana e protestante, e o escritor burguês, de origem conservadora e católica, se foi desenvolvendo - até pelos processos de conversão próprios a cada um deles - um profundo entendimento espiritual (apesar da embirração de Mauriac com o tomismo). Este trecho de Maritain, que de seguida te traduzo - tirado da Réponse à Jean Cocteau, que a Librairie Stock publicou, em maio de 1926, simultaneamente com a Lettre à Jacques Maritain, do mesmo Cocteau - mostra bem, como diz Michel Bressolette, um ponto de encontro Maritain-Mauriac muito íntimo. Qualquer leitor de Thérèse Desqueyroux, por exemplo, o notará:

 

   Entre o mundo da poesia e o da santidade há uma relação de analogia, e tomo esta palavra com toda a força que lhe dão os metafísicos, com tudo o que ela significa, para eles, de parentesco e de distância.

 

   Mesmo para com o pecado, a arte ainda imita a graça. Quem não conhece as regiões do mal pouco entende desse universo. O artista também conhece as rugas do coração, e visita os lugares inferiores.

 

   Quiçá outro jeito de confirmar esta afirmação de Jacques Maritain seja a troca de incompreensões mútuas e contrições sentidas entre o filósofo e Georges Bernanos. Este, quando panfletário, deixava-se cair em tentações de grandiloquência feroz, daquelas que, tantas vezes assediam os corações proféticos. Nalgumas delas terá sido, foi mesmo, injusto, acintoso até, para com Jacques Maritain, por tabela magoando muito Raissa. Não vou agora, Princesa de mim, contar-te histórias dessas, muito menos comentá-las. Espero que sejam suficientemente elucidativos - e servindo o propósito desta minha carta - os trechos dos próprios protagonistas, que seguidamente traduzo. São bilhetes e cartas:

  

           De Raissa Maritain a Georges Bernanos, a 4 de abril de 1930:

 

                      Excelentíssimo Senhor:

   Se o bilhete que lhe enviei, na ausência de Jacques, lhe causou mágoa, lamento imenso. Mas como podia eu pensar que o senhor quisesse mesmo comunicar a sua dor a alguém que publicamente acusou de ensinar aos amigos «a ciência e as delícias do pecado mortal»? O meu primeiro impulso foi escrever-lhe, mas disse para comigo que alguém que não cessa de desentender as intenções do Jacques só poderia acolher mal um testemunho de amizade da nossa parte...   ... Se hoje lhe escrevo é porque, no fim de uma carta dura, pede todavia ao Jacques que reze por si. E isso toca-me profundamente. Creia, senhor, que perdemos um amigo que nunca deixámos de amar, e que toda a pena é nossa.

 

          De G. B. para Jacques Maritain, a 30 de agosto de 1930:

 

                     Meu Caro Maritain:

 ...Perdoe-me não lhe ter agradecido as suas duas cartas, estive muito doente. Parece-me que me conhece mal. Mas dizemos isso sempre! Ao fim e ao cabo, nem tenho bem a certeza de saber mais do que V. acerca do mesmo assunto. Assim sendo, creio que será melhor aturarmo-nos tal qual somos, pacientemente, ou mesmo alegremente (ambos temos lados cómicos!), esperando que a meiga piedade de Deus nos cubra.

   As minhas melhores e especiais homenagens à Senhora Maritain, com a minha afetuosa mágoa de, por vezes, lhe causar pena. E pense em mim diante de Deus.

 

          De R. M. a G. B., a 24 de maio de 1931

 

                   Caro Amigo:

 ...Toca-me, mais do que sei dizer, a amizade que V. me testemunha. Sensibilizo-me, admirada, porque não a mereço.  Mas é desse mais acima dos meus méritos que verdadeiramente preciso, porque só o dom opera a salvação.

   Procuro, à luz dessa amizade, situar o mal tão gravoso que V. disse do Jacques, e compreendo que V. só possa pensá-lo quando entra nessa região, a certos títulos não-humana, da polémica cujo objetivo não é a verdade mas a batalha por uma causa à qual julgamos tudo poder sacrificar, mesmo a amizade e a justiça, porque milagrosamente parece em si conter tudo isso, e sobre tudo o mais prevalecer.

   É nessa região da polémica que também incluo o seu livro sobre Drumont. [Raïssa refere-se a La Grande peur des bien pensants, onde, na verdade, se encontram textos suspeitosamente inspirados de algum antissemitismo].

   O amor apaixonado da França, o conhecimento concreto, vital, da pessoa e da sua história são como labaredas a percorrer todas essas páginas, e ali tudo serve para alimentar esse fogo e propagar esse incêndio. Mas como poderei levar-lho a mal? Pois se, quando a palha de certos argumentos tiver ardido, ficará o rasto imortal de um coração que muito amou.

   Tampouco é o antissemitismo que me magoa no seu livro. Na verdade, pouco lugar lhe deu. E não tenho o menor desejo de defender as «potências do dinheiro», mesmo que sejam judias. Aliás, pessoalmente, não conheço judeus ricos. Na minha família, sempre fomos pobres, e talvez por isso eu tivesse tido, pelo Mendiant Ingrat, amor à primeira vista. [Referência, aqui, a Léon Bloy, de quem já te falei, admirado por Bernanos, padrinho de batismo dos Maritain, que ele próprio apoiara no caminho da conversão. Como verás, Princesa de mim, Bernanos, na resposta, terminará a carta recordando a memória do "velho padrinho, na meiga piedade de Deus, que um dia nos reunirá"]

 

             De G.B. para R. M., a 28 de março de 1933

 

                                   Querida Senhora e Amiga:

 ... há por vezes uma espécie de florinha no terreno vago ao qual, apesar de tudo, não posso chamar jardim nem vida minha. Eis aqui uma que colhi para si: fui muito estúpido, outrora, ao magoá-la, e peço-lhe perdão por isso. Com muito afeto, na memória do vosso velho padrinho e na meiga piedade de Deus, que certamente um dia nos reunirá.

 

                       De R. M. para G. B., a 31 de março de 1933

 

                    Caro Amigo:

   Essa florinha que me envia não pode ter sido colhida num «terreno vago», vem direitinha do jardim da caridade.

   Dizer: magoei-a, peço-lhe perdão, é de uma simplicidade rara, é algo raro e puro como a boa vontade.

   Considerava a questão resolvida entre nós; a sua carta é, pois, um belo excesso, pelo qual vos fico infinitamente reconhecida.

 

   Afinal, sobre a relação, por vezes difícil, entre Bernanos e os Maritain sempre planou a lição de Léon Bloy, o «mendigo ingrato»: a busca de Deus como caminho de reconciliação. Em fevereiro da 1947, ano e meio antes de morrer Georges Bernanos escrevia, num texto intitulado Dans l´amitié de Léon Bloy: O nosso Bloy, o nosso velho Bloy, que de acordo com a predição do senhor seu pai, terá falhado tudo, não nos falhou a nós, a nós seus amigos, e até seus discípulos, pelo menos seus afilhados ao mesmo título que Maritain e Van der Meer.

   Esses livros, recentemente ou agora publicados, de que te falo, levam-me a revisitar a biblioteca de meus pais - da qual pouco me sobra, à parte edições antigas do Eça e do Camilo, em português, e outras mais esparsas de autores franceses et alia... Estes são sobretudo católicos militantes, dos que minha Mãe lia na Universidade de Lovaina, quando por lá andava. Até conservo uma tese de doutoramento, escrita em francês, por um português, sobre a nossa Constituição de 1933... Interessante, nunca encontrei nada parecido em Portugal. Curiosamente, antes de assinar esta carta, surge-me a imagem de minha Mãe, comodamente sentada na sua sala de estar, de óculos postos, a ler Maritain; e a de meu Pai, mais sonora, já deitado no quarto onde lhe ia dar as boas noites, rindo com gosto em divertida leitura de A Relíquia ou do Tintin en Amérique. Por acaso, ainda tenho os mesmos exemplares (hoje dizem cópias) de ambos... E dou graças a Deus pela minha vida ter tido tantos momentos de Graça com graça.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Tinhas razão ao dizer-me que aguardarias a continuação da minha carta acerca da entrevista do Peter Atkins, feita pelo Carlos Piolhais e divulgada pelo jornal Público a 19 deste novembro. Escrevendo-a de corrida, reagia - como, aliás, candidamente o disse - à sobranceria de um professor universitário de química, tão estouvada, que o levou a afirmações impertinentes e marginais ao seu próprio trabalho de investigação. Não lhe guardo, todavia, qualquer inimizade, antes lhe faço o pedido de, esquecendo qualquer auto suficiência, atender e escutar melhor outras vozes. Não minimizo - e muito menos contesto - o seu trabalho científico, que está, evidentemente, fora da minha competência, só lhe peço que considere a possibilidade de outras achegas, de ordem filosófica, lógica ou metafísica, e espiritual, ascética ou mística, não sejam varridas para debaixo do tapete que a condição humana pisa. 

 

   Que ele seja ateu, por conclusão ou convicção sua, e o declare, não me merece, nem tem de merecer, qualquer reparo: é uma posição pessoal e livre, que respeito, tal como sempre respeitei a profissão de ateísmo ou de agnosticismo de muitos dos meus melhores e mais fiéis amigos. De comum acordo, aliás, e com ânimo, frequentemente temos debatido as questões da origem e destino do Universo, da existência necessária ou desnecessária de um Criador  -  as quais, mesmo com ajuda das ciências ditas positivas, não deixam de ser temas filosóficos, no sentido próprio de gostar e querer saber, isto é, procurar e encontrar respostas  -  tal como também nos debruçamos sobre a experiência, ou a ausência, da fé, questão bem pessoal, eminentemente  subjetiva, que, nas nossas conversas, se aborda pelos testemunhos, mais ou menos íntimos e abertos, ou comunicativos, de cada um. Nesses momentos, por vezes assaz difíceis, mas generosamente amigos, creio que conseguimos coincidir na humanidade inata dos nossos anseios, das nossas perplexidades, das nossas interrogações e dúvidas, das nossas esperanças... e partilhar as nossas possíveis certezas, ainda que não comunguemos todos nas mesmas... [Curiosamente, tal experiência inspirou as minhas Cartas a José Saramago, que o CNC editou no seu blogue, e que, depois, vieram à conversa com alguns daqueles meus amigos, designadamente o João de Deus Bramão Ramos, meu amigo de sete décadas, recentemente falecido e com quem, apesar disso, ainda falo "às escondidas"... Diplomata de profissão e tradição, herdara de D. Vasco Bramão, seu avô materno, um certo gosto do rigor matemático e entregava-se com gosto a deambulações da física quântica. Agnóstico, procurava sempre um ponto de encontro comigo, uma plataforma de debate, a que chamava "o couto da espiritualidade". Isso também o levava a ler criticamente escritos meus, sobre os quais conscienciosamente se pronunciava, o que sempre me foi muito gratificante. Todavia, nunca lhe ouvi uma palavra sobre os meus Sonetos de amor mordido, nem qualquer outro texto mais "poético". O lirismo ficou sempre de fora dos nossos registos. Sem prejuízo da elegância do trato do João para o que eu escrevesse. 

 

   O desconforto que me provocam várias afirmações de Atkins não difere muito, nas raízes da minha consciência, do que decorre da teimosia, ou arrogante suficiência, de certos dogmáticos religiosos, que insistem em formulações que já não apelam a mentes científicas hodiernas, avessas a "verdades" impostas. Muitos dos espíritos acríticos que hoje insistem, por exemplo, no que chamam "as irrefutáveis cinco provas da existência de Deus" de São Tomás de Aquino, não se dão conta de que, para mentes treinadas na experimentação científica como prova, a questão de saber como é que do nada surgiu algo, não tem resposta satisfatória por qualquer afirmação metafísica ou raciocínio lógico. [E não te refiro os casos em que se confunde teologia com catecismo de seminário e este com dogma.] Mas também me parece, por isso mesmo, que o discurso científico anda de contingência em contingência, e que os seus autores estacionam onde não há um contingente que "explique" os outros. Aí, terão de discorrer, ou que já não sabem mais mas talvez lá cheguem, ou que talvez possam mudar de método daí em diante. Todavia, o que não poderão honestamente (cientificamente?) afirmar é que não há outras hipóteses possíveis. O exercício filosófico pode ser metafísico - e, enquanto tal, também é legítimo, ainda que não isento do risco de errar e, concomitantemente, da possibilidade de ser criticado. Mas igualmente suscetível de erro ou engano próprio é qualquer processo científico, nem preciso de te lembrar inúmeras conclusões de teorias científicas ultrapassadas, nem as suspeitas ou dúvidas que pairam ou são levantadas pelas críticas a muitas delas. Experimental ou metafísico, qualquer labor para a descoberta ou inteligência da realidade é, aliás, passível de sobre ele se exercer uma crítica epistemológica.

 

   A questão de Deus ou, neste caso, a interrogação sobre a origem do Universo, pelo simples facto de tanta gente, e por tantos e diversos métodos e achegas, continuar e tentar dar-lhe resposta é, inegavelmente, uma questão em aberto. Porque há seres humanos que a sofrem, ninguém tem o direito de impor soluções pretensamente universais com certezas ou verdades propriamente apenas suas.

 

   Já eu, que tenho devoção especial pelo Doutor Angélico, acredito que, mesmo depois de ter concluído que Deus é causa primeira do Universo, pois que todas as criaturas (ou as realidades que experimentamos) são contingentes e só o Ser Necessário - anterior ao espaço-tempo, isto é, à contingência  -  pode ter criado, ou seja, feito do nada (ex nihilo), sem recurso a qualquer extensão de si próprio (assim é transcendente) nem a algo de outro (ex aliquo),  se daria conta de que, como narra uma biografia, de Deus não sabia nada, e teria confessado que era palha tudo o que ele, frei Tomás, escrevera (ou ditara) : o Ser Que É escapa ao nosso entendimento, mesmo quando o nosso pensarsentir nos diz que Ele está connosco. Mas tampouco essa nossa ignorância poderá roubar o encontro místico que marca uma vida. A fé move-nos, vive-se e testemunha-se pelo amor e suas obras, que são o seu emblema.  Nada justifica, em Atkins ou qualquer outro cientista, afirmar que a hipótese de Deus Criador é fácil e descartável. Muito menos antes de terem conseguido, pela experimentação, como pretendem, demonstrar como algo surgiu do nada. Nem lhes peço que me digam que nada era esse, pois que necessariamente estaria antes ou fora do espaço/tempo - não obedecendo portanto a qualquer lei natural investigável... Assim não me ofende a negação da verificabilidade de Deus pela ciência no seu estádio atual, nem a negação de uma fé em Deus por essa razão (que não partilho mas respeito): mas já acho deselegante que se recuse a outros a simples hipótese do Ser de Deus. Até porque, cientificamente, não provaram o contrário. 


   No século XIII, Tomás, frade mendicante, dominicano contra vontade de seus pais, que preferiam tê-lo feito abastado abade feudal, dedicou toda a sua vida a tentar responder, com os recursos intelectuais e científicos do seu tempo, a questões presentes, então e agora, mas de imemorável surto, sobre a origem do Universo e a existência do ser humano, este sendo a própria alvorada de uma consciência que se surpreende como da sein e se interroga sobre si, a sua circunstância, e o destino de tudo. 

 

   No século XXI, um professor emérito da Universidade de Oxford acha que esse "facilitista", e muitos outros, deram respostas etéreas ou fingidas a perguntas incontornáveis, a que ele próprio não sabe responder, a não ser dizendo, como cientista que se preza : «Espera só um pouco, havemos de lá chegar.» (sic, na entrevista). 

 

   Nesse contexto, busco compreender melhor a razão da resposta de Atkins à pergunta de Fiolhais ("O que acha da posição do seu colega de Oxford, Richard Dawkins, que pretende lutar contra a religião em nome da ciência? Mesmo aceitando a sua ideia de incompatibilidade, acha que deve haver uma guerra, uma espécie de cruzada?"):

 

   Deixe-me responder cuidadosamente. Consigo perceber que, no final da vida, alguém com pouca educação e que tenha tido uma vida dura reconheça o conforto que a religião oferece, a ideia de que teremos uma vida feliz para além da morte pode ser reconfortante e útil. Mas não gosto que a religião penetre no ambiente das pessoas quando elas são novas, porque destrói o seu. "Destrói" é um termo um pouco exagerado, diminui o prazer da vida com a ideia de que, se se portarem bem nesta vida, vão encontrar uma vida feliz depois.

 

   Em primeiro lugar, reparo nesse sentimento de superioridade (será desdém?), manifesto em expressões como "alguém com pouca educação", ou no tom professoral (não digo científico, porque a frase começa com o subjetivo Mas não gosto)... não gosto que a religião penetre no ambiente das pessoas quando são novas. A exemplo, ou por provocação, de qualquer ignorante ou fanático, o professor Peter Atkins diz saber muito bem o que é bom e é mau para os outros, sejam velhos pouco educados ou jovens por educar. Mas já parece ser mais razoável, como qualquer cristão que se inspire na alegria pascal do Evangelho, quando aponta o malefício do medo como motor de vida e afirma: Devemos aproveitar a vida... Os antigos diziam carpe diem, isto é, "aproveita o dia".

 

   Tal máxima latina - que, literalmente, traduziria por "agarra o dia!", como quem diz não deixes fugir a oportunidade - surge nas Odes de Horácio: carpe diem quam mínimum credula postero, isto é, agarra este dia, não te fies no amanhã... Ou, como mais claramente a foram interpretando sucessivas gerações, goza bem o que hoje te é oferecido, não esperes pelo porvir. Até parece que serviu de exortação a meninas virgens, para que logo trocassem a sua flor de laranjeira pelas delícias do amor erótico. Na sua fábula Le Loup et le Renard, La Fontaine, avisadamente, recorda-nos: Et chacun croit fort aisément / Ce qu´il craint et ce qu´il désire. E é bem verdade que demasiado facilmente usamos a nossa liberdade, o nosso possível arbítrio, para acreditarmos no nosso receio ou no nosso desejo. Assim tantas vezes nos confundimos e perdemos o sentido das coisas. Abreviando caminho e discurso, procuro dizer que o entendimento evangélico da vida cristã não é uma obsessão com a recusa de uma felicidade pecadora, para, à custa de tantos sacrifícios, ou do cumprimento rigoroso de um código de conduta, se conquistar a Boaventura eterna. A velha história do cristão que virou budista para não ter de continuar a submeter-se ao sofrimento que o conduziria ao Céu, inspira-se numa versão deformada, sadomasoquista, do desafio cristão. Este, na verdade, propõe-nos misericórdia em vez de sacrifício, alegria em vez de sofrimento (deixem os mortos enterrar os mortos e sigam-me!), conversão em vez de castigo. E a conversão é o caminho de um olhar novo, cuja fé e cuja esperança são apenas razões e alicerces de amor. O cristianismo não é um processo judicial, nem sequer o temor dele. É uma vocação da alegria de Deus. Esta não é demonstrável pelas "leis naturais" (seja isso o que for), é sempre misteriosa, mesmo quando se revela no sorriso solar que ilumina os olhos de pessoas que todos os dias entregam as suas vidas ao serviço de pobres, doentes e moribundos. Que lei natural sabe explicar o Evangelii Gaudium de Teresa de Calcutá e das suas irmãzinhas?

 

Camilo Maria   

Camilo Martins de Oliveira

O NATAL DE JESUS E A DIGNIDADE HUMANA

     

        

Ernst Bloch, um dos maiores filósofos do século XX, ao mesmo tempo ateu (não acreditava no Deus pessoal) e religioso (estava religado à divina Natureza), quando era professor na Universidade de Leipzig, na antiga República Democrática Alemã, na última aula antes das férias de Natal desejava a todos os estudantes boas-festas, falando-lhes do significado do Natal e terminava, dizendo: “É sempre Advento”, querendo desse modo apelar para a esperança: o mundo e a humanidade continuam grávidos de ânsias e de possibilidades, e a esperança está viva e há razões objectivas para esperar. Apesar do Natal, ainda é Advento, porque a plenitude ainda não chegou.

 

Foi em Tubinga que o conheci, pois Ernst Bloch, embora se confessasse marxista e ateu, acabou por ter  de deixar Leipzig e a República Democrática Alemã: as autoridades comunistas acusavam-no de misticismo religioso. Ele defendia-se, sublinhando o carácter único, na história das religiões, do judeo-cristianismo e do seu livro, a Bíblia. Para ele, “a Bíblia é o livro mais significativo da literatura mundial”, pois responde à pergunta decisiva do ser humano, que é a questão do fim, do sentido e finalidade do mundo e da existência. Ir ao encontro da Bíblia “não pode prejudicar” nenhum ser humano que queira bem à Humanidade e a si próprio. Concretamente, não é possível compreender o Homem europeu e as suas obras literárias e artísticas, sem um conhecimento aprofundado da Bíblia. Os nazis, por exemplo, ao rejeitar a Bíblia como algo estranho que não devia ser estudado, não só não puderam compreender a cultura alemã como caíram na barbárie.

 

Sem a mitologia grega, não podemos entender a Antiguidade clássica. Assim também, sem o conhecimento da Bíblia, não podemos compreender as catedrais, o gótico, a Idade Média, Dante, Rembrandt, Händel, Bach, Beethoven, os Requiem, “absolutamente nada”, escrevia Ernst Bloch. Impõe-se pôr termo ao desconhecimento da Bíblia, porque este desconhecimento constitui uma “situação insustentável”, pois produz bárbaros que, por exemplo, perante a “Paixão segundo São Mateus” ou o “Messias” de Händel, ficam como bois a olhar para palácios.

 

Está aí o Natal. E o Natal, mesmo que alguns já não se lembrem disso — li há dias que um terço dos norte-americanos não sabem que o Natal se refere a Jesus — e haja até quem menospreze a data, é o aniversário natalício de Jesus Cristo. Sobre ele deixou escrito Ernst Bloch: Jesus agiu como um homem “pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido”. Anunciou o Deus próximo, de amor, o Deus da misericórdia, um Deus amoroso e amável, e o seu Reino: o Reino de Deus, reino da liberdade — “onde está o espírito de Cristo aí está a liberdade”, proclamou São Paulo —, reino da justiça, do amor, da fraternidade, da paz, da igualdade radical de todos perante Deus e perante os outros seres humanos, o reino da realização plena de toda a esperança.

 

Sobre Jesus, Mahatma Ghandi também deixou estas palavras: Jesus “foi um dos maiores mestres da Humanidade”. “Não sei de ninguém que tenha feito mais pela Humanidade do que Jesus. De facto, nada há de mau no cristianismo”. Mas acrescentou: “O problema está em vós, os cristãos, pois não viveis em conformidade com o que ensinais”. E tem razão.

 

Para quem está atento e não tem preconceitos é claro que um dos fundamentos da Europa é o cristianismo. É necessário confessar os erros, fragilidades e crimes do cristianismo histórico, mas é indubitável que da compreensão dos direitos humanos e da democracia, da tomada de consciência da dignidade inviolável do ser humano — de todo o ser humano —, da ideia de história e do progresso, da separação da Igreja e do Estado, portanto, da laicidade, de tal modo que crentes e ateus têm os mesmos direitos, faz parte inalienável a mensagem originária do cristianismo.     

 

Lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A figura histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Ele conclui que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas, continua, também sabemos que, “depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a ‘ressurreição’”: aquele que tinha morrido realmente apareceu como “pessoa viva, mas transformada”. “Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso”. Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a História. Grande parte da Humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta.

 

A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem que mudou a História.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 22 DEZ 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Dizem os jornais que um professor de química na Universidade de Oxford, Peter Atkins, de 78 anos, participou numa conferência-debate no Oceanário de Lisboa sobre "Ver o Universo com os olhos da química". E o diário Público (19/11/2018), referindo-se ao último livro de divulgação científica de Peter Atkins, Como Surgiu o Universo, diz-nos que o mesmo aborda a questão de saber porque existe alguma coisa em vez do nada. Não respondendo inteiramente à questão, afirma que a criação ou Big Bang não foi afinal nada de extraordinário, que foi até uma coisa muito natural. Recusa categoricamente a ideia de Deus: «O funcionamento do mundo foi por alguns atribuído a um Criador espantosamente metediço, mas incorpóreo, a guiar ativamente cada eletrão, quark e fotão até aos respetivos destinos. As minhas entranhas revolvem-se perante esta visão extravagante do funcionamento do mundo e a minha cabeça segue o mesmo caminho das entranhas

 

   Leio tais transcrições do meritíssimo oxfordiano com a certeza de que, para já, aprendi qualquer coisa: nós, os humanos, não pensamos só com a cabeça, ou com a cabeça e o coração. Nem tampouco - como já ouvi dizer - só com os pés: também há quem pense com intestinos turbulentos. E quem candidamente o reconheça e confesse, para que fiquemos bem cientes de que a expressão do seu pensamento - inclusive sobre questões tão antigas, revistas e revisitadas em miríades de pensarsentires humanos, como a pungente interrogação sobre Deus - não é fruto de qualquer preconceito negacionista ou apologético, mas apenas resulta de um longo e estudioso processo gastrenterólogo. Mas nem todos conseguimos «Ver o Universo com os olhos da química» (ou só com eles, por muitos que a química tenha), nem tampouco logramos pensar apenas com os nossos intestinais neurónios (apesar de sabermos que os temos).

 

   O entusiasmante professor ousadamente prossegue, na entrevista ao jornal Público, com a explanação das suas inauditas preocupações e ideias: Creio que existem várias questões sobre a origem do Universo. Uma delas é: como começou? O que iniciou o Universo?

 

   Pasmamos então com a novidade profunda da questão levantada e, para tentar acompanhar o discorrer tremendo do distinto mestre, perguntamos também: «Não foi Deus?» E assim ganhamos a pérola de uma resposta que não poderia ser mais científica, nem quimicamente mais pura, nem mais objetiva, nem mais rigorosa: Gostaria de pensar que não foi. [Deixa-me dizer-te, Princesa de mim - e não mo leves a mal -, que a esmagadora objetividade científica de tal afirmação me lembra aquele clérigo cultural, muito na moda, escrevendo umas pieguices pretensamente poéticas, que sempre me fazem supor que ele também «Gostaria de pensar que o céu nunca é azul nem cinzento, mas é sempre cor de rosa»...] Mas continuemos a acompanhar os gostos científicos de Peter Atkins:

 

   Gostaria de pensar que a ciência, um dia, chegará ao ponto de poder dizer: "Sabemos como tudo começou." E será muito empolgante. Mas creio que há certos aspetos sobre o início do Universo que a ciência já está em posição de perceber e explicar. Acho que as leis naturais são um desses aspetos. O meu objetivo era ver se, ao focar-me num dos aspetos da origem do Universo, se podia atingir um ponto de entendimento que mostrasse que o início foi, na verdade, muito simples. Acho que a ciência simplifica as questões - não simplifica demasiado, apenas simplifica, mas não de uma forma perigosa.

 

   Assim nos livramos do mal, já que a ciência nos libertou do perigo das explicações simplistas, posto que, como repete o nosso eminente professor, ao focar-me nas leis naturais, achei que conseguia simplificar um dos aspetos da criação. Vejo-me, Princesa, esmagado pela abundância científica, o rigor lógico, a química irrefutabilidade desta poderosa argumentação. Pelo que só me resta, como diria o francês, passar-me de comentários... Será melhor e mais esclarecedor ir continuando a reproduzir aqui alguns passos e pontos de apoio das convicções científicas do nosso professor:

 

   O que a ciência tem feito é recuar de forma experimental e teórica até às primeiras frações de segundo após o nascimento do Universo. Mas continuamos sem poder esclarecer nada sobre o que se passou imediatamente antes do início... Algumas pessoas fazem batota, ao dizer que houve uma flutuação quântica, e que o Universo explodiu espontaneamente. Mas isso já pressupõe a existência de algo, para poder haver uma flutuação quântica. Para mim é batota... Creio que a verdadeira questão que a ciência deve abordar é se de absolutamente nada - sem espaço, sem tempo - de absolutamente nada... O que temos realmente de dizer é: a partir de absolutamente nada, existe alguma forma de algo poder emergir?

 

   Mas, pergunto eu, pobre leigo que apenas sabe e pode interrogar, não haverá nestas declarações uma confusão de questões a meu ver bem distintas? Na verdade, uma coisa é seguir para montante as leis da natureza como quem sobe um rio até à nascente - neste caso para tentar entender os começos do Universo no tempo e no espaço - outra coisa é achar uma resposta à interrogação de Leibniz: O que é que faz que o mundo exista aqui e agora, o que é que o prende ao ser, e por que é que há algo em vez de nada?

 

   Quer-me parecer que tal confusão, no espírito de Atkins, resulta, por um lado, da sua oposição preconceituosa, visceral ("as minhas entranhas revolvem-se... e a minha cabeça segue o mesmo caminho das entranhas") à ideia de Deus ou, mais simplesmente, à de transcendência, e, por outro lado, de um alheamento, quiçá voluntarista, ou talvez apenas carente de estudo e informação adequada, do que são a filosofia e a teologia. Para alguém com mediana cultura, a afirmação de que A filosofia e a teologia são ambas formas corruptas de entender o mundo não tem pés nem cabeça. E a ignorância do que é qualquer delas, como exercício intelectual, manifesta-se noutras declarações do autor de divulgação científica, que chegam a ser confrangedoras. Comentá-las-ei, entre [ ], a par e passo. Repara nestas, Princesa de mim:

 

   Deixe-me considerar teologia e filosofia separadamente. Acho que a teologia se limita a fingir uma explicação ao decretar que existe um deus que criou tudo, e algumas pessoas ficam satisfeitas com essa explicação. Mas é totalmente vazia porque, em primeiro lugar, não existe qualquer prova da existência de um deus; e, em segundo lugar, como pode um deus criar coisas, como pode um deus criar o Universo. Essa perspetiva é demasiado fácil. Os teólogos apresentam respostas fáceis, enquanto os cientistas precisam de muito trabalho para compreender e explicar.

 

   [A teologia não pretende provar a existência de Deus, esta é, para qualquer teólogo, um dado da Revelação. Etimologicamente, teologia significa discurso ou tratado de (ou acerca de) Deus. É inteligência da fé (intellectus fidei). Por outras palavras, não há teologia sem revelação divina e fé nela. Creio que já Santo Anselmo falava em fides quaerens intellectum, que poderíamos traduzir quer por "a fé interrogando a inteligência", quer por "a fé em busca de inteligibilidade".

 

   A própria palavra teologia é, não só de etimologia grega, mas surge pela primeira vez  -  tanto quanto me recordo, já me falha por vezes a memória - na República de Platão, posta na boca de Sócrates, significando o tratado dos deuses pelos poetas... Terá sido Aristóteles a tirá-la do domínio da mitologia para a "racionalizar" (se assim me posso exprimir) e a pôr a caminho dos tratamentos que, posteriormente, o cristianismo lhe foi dando, ficando, todavia, sempre bem clara a sua função de esforço de inteligibilidade crescente da fé. Nas circunstâncias de tempos idos, foi incidentalmente "misturada" com o exercício filosófico, até pelo facto de este ser frequentemente desenvolvido por teólogos, ou vice versa. As célebres "provas" da existência de Deus, construídas por São Tomás de Aquino, devem surgir-nos nessa perspetiva, sem, contudo, nos fazerem esquecer que são um exercício racional destinado a sustentar a fé. Um cristão, um judeu, um muçulmano não acredita em Deus por lhe ter sido provada a sua existência, mas, tal como se lê nos Atos dos Apóstolos (17, 28), porque

 

   Em Deus encontra a vida, o movimento e o ser. Tal encontro não resulta de uma demonstração experimental ou racional, mas de uma descoberta ou revelação interior. A própria formulação monoteísta do Ser Deus escapa a qualquer esclarecimento: EU SOU AQUELE QUE É... E a confrontação com ele, mesmo podendo ser manifestada ou proclamada objectivamente, é sempre inalienável, pessoal e subjetiva. Por isso falamos em dar testemunho da fé, nunca em demonstrá-la.

 

   Repara, Princesa de mim, no que físicos, cientistas e filósofos hodiernos não hesitam em afirmar (cito Thierry Magnin, cientista nessa área e teólogo): A origem de "o que é", como tão bem mostra a física quântica, escapa precisamente ao científico. Do mesmo modo, o filósofo observará que o Universo que descreve poderia não existir, porque, em larga medida, o aleatório preside ao seu começo e à sua evolução. Ora o que assim é contingente não pode ter em si mesmo a sua causa ou razão de ser. ]

 

   Pensossinto que não devo deixar de reconhecer como, a dados passos desta minha carta, fui algo irónico, mesmo cáustico, com Peter Atkins em suas afirmações. Temperamentalmente, reajo assim de quando em vez, quiçá levado por uma certa irritação com que me aflige a sobranceria de certas pessoas cuja fúria militante afinal obnubila a clareza necessária ao diálogo. Para te deixar entender o que acabo de dizer, Princesa, não me vou embrulhar em explicações e desculpas, prefiro entregar-te dois trechos de Stephen Hawking, que eu apelido de "astrónomo do cosmos e da metafísica", ateu declarado, falecido em março deste ano:

 

 1. Numerosas pessoas, que não conhecem a ciência, recorrem às tranquilizadoras explicações religiosas... O meu trabalho não prova nem desmente a existência de Deus. Consiste, tão somente, em procurar uma maneira racional de compreender o Universo. [Este, para Hawking, é regido por leis acessíveis pela ciência, enquanto que as antigas narrativas da criação já não são nem pertinentes, nem credíveis. ]

2. Vivi coisas extraordinárias neste planeta, e simultaneamente viajei pelo Universo em pensamento, por meio do meu cérebro e das leis da física. Atingi os confins da galáxia, mergulhado num buraco negro e regressei às origens do tempo. Na Terra, tive altos e baixos, conheci o êxito e o sofrimento, em grande forma e deficiente. O meu maior privilégio foi contribuir para a nossa compreensão do Universo. Mas tal Universo seria muito vazio sem as pessoas que amo e me amam. Sem elas, todas aquelas maravilhas se esvairiam.

 

   Sobre este discurso nada tenho a dizer, além do profundo respeito e da comunhão humana que me inspira. Estamos muito próximos um do outro, ele ateu, eu crente. Ao viver a fé, deixo-a interrogar-me e também a interrogo. Como todos nós, seres humanos, nunca vi Deus. Mas acredito que ainda o hei de ver, e procuro fazer da minha vida um caminho de procura da visão final. Tal caminho só se percorre neste Universo, que seria muito vazio sem as pessoas que amo e me amam. Sem elas, todas as maravilhas se esvairiam. Para já, o rosto de Deus antevê-se no amor das pessoas. Este é a casa de Deus na Terra, onde todos temos altos e baixos, êxito e sofrimento.

 

   Mas, já que foi a entrevista a Peter Atkins - e a projeção que lhe foi dada em Portugal - o assunto desta carta, permite-me, Princesa de mim, que aqui transcreva mais umas das insignificâncias que ele proferiu:

 

   Mas a filosofia é outra coisa. Está algures entre a teologia e a ciência. [Isto até parece a tese comtiana dos três estádios, mas sem perspetiva histórica...] A diferença entre filósofos e cientistas é que os filósofos são pessimistas, ao passo que os cientistas são otimistas. Os filósofos dizem: "Nunca compreenderás, está para lá da compreensão humana" Enquanto que os cientistas dizem: "Espera um pouco, havemos de lá chegar."...   ... A ciência e a religião são totalmente incompatíveis. Basicamente, a religião diz: "O teu cérebro é demasiado insignificante para compreender, nunca compreenderás. Há apenas a possibilidade de poderes perceber depois de morreres." Eu prefiro o conhecimento deste lado do túmulo.

 

   O entrevistador sendo o doutor Carlos Fiolhais, professor de Física na Universidade de Coimbra - e que, em meu entender, tem capacidade para trazer ao Público algo muito mais consistente do que as banalidades de Atkins - arrisca, ainda assim, na sequência dessa declaração sobre ciência e religião, uma pergunta: «Mas há exemplos em contrário. Por exemplo, no século passado, o padre católico Georges Lemaître investigou cosmologia, tendo sido ele a propor a ideia de Big Bang. Acreditava em Deus, ao mesmo tempo que produzia trabalho científico de qualidade.» Resposta: Sem dúvida. Isso significa que estava a produzir trabalho científico de qualidade, mas não significa que a teologia dele estivesse correta.

 

   Ora aí está! Eis a chave de oiro para encerrar esta carta: além de Química, e de leis naturais (terá ele consultado um filósofo epistemólogo para saber a que chamamos leis naturais?), o professor Atkins sabe dizer-nos, sem hesitação, quando é que qualquer teologia está correta ou errada. E ao defunto auto da fé substitui ele o auto da química. Brilhante!  

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

GLOBALIZAÇÃO E ÉTICA GLOBAL

 

1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é: 1. inevitável, 2. ambivalente (com ganhadores e perdedores), 3. não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também — e isto é o mais importante — dirigível”. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de “metafísica do mercado” e de uma sociedade de mercado total.

 

2. Neste sentido, em Setembro de 1993, teve lugar em Chicago o Parlamento das Religiões, com a presença de uns 6500 participantes e onde 150 pessoas qualificadas, representando as diferentes religiões e movimentos de tipo religioso do mundo inteiro assinaram o Manifesto ou Declaração de Princípios para uma Ética Mundial. O texto fora preparado essencialmente por Hans Küng.

 

Ainda no contexto das celebrações dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, vale a pena retornar a esses princípios. Como escreveu Küng, não se trata de uma duplicação da Declaração dos Direitos Humanos nem de uma declaração política nem de uma prédica casuística nem de um tratado filosófico nem de uma idealização religiosa ou da busca de uma religião universal unitária. Trata-se exactamente desse consenso de base, mínimo, referente a valores vinculantes, a critérios e normas inamovíveis e a atitudes morais fundamentais. Supõe-se que estes mínimos éticos, que assentam na constatação de uma convergência já existente nas tradições religiosas, podem ser assumidos por todos os seres humanos, independentemente da sua relação com a religião.

 

Neste consenso mínimo de base, a exigência fundamental é: todo o ser humano deve ser tratado humanamente, de modo humano. Porquê? Porque todo o ser humano, sem distinção de sexo, idade, raça, classe, cor, língua, religião, ideias políticas, condição social, possui dignidade inviolável e inalienável.

 

Por outro lado, para agir de forma verdadeiramente humana, vale, antes de mais, a regra de ouro: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” (formulada positivamente: faz aos outros o que queres que te façam a ti). “Esta deveria ser a norma incondicionada, absoluta, para todas as esferas da vida, para a família e para as comunidades, para raças, nações e religiões”. Esta regra de ouro concretiza-se em quatro directrizes ou orientações antiquíssimas e inalteráveis: comprometimento com uma cultura da não-violência e do respeito pela vida (não matarás: respeita toda a vida); comprometimento com uma cultura da solidariedade e com uma ordem económica justa (não roubarás: age com justiça); comprometimento com uma cultura da tolerância e uma vida vivida com veracidade (não mentirás: fala e age com verdade); comprometimento com uma cultura da igualdade de direitos e com uma irmandade entre homem e mulher (não prostituirás nem te prostituirás, não abusarás da sexualidade: respeitai-vos e amai-vos mutuamente).

 

Trata-se de uma Declaração assinada por “pessoas religiosas”, que têm a convicção de que “o mundo empírico dado não é a realidade e a verdade última, suprema”, que, portanto, fundamentam o seu viver na Realidade última e dela extraem, em atitude de confiança, na oração e na meditação, na palavra e no silêncio, a sua força espiritual e a sua esperança. Na presente crise de valores, “estamos convencidos de que são precisamente as religiões que, apesar de todos os abusos e frequentes fracassos históricos, podem assumir a responsabilidade de que as esperanças, objectivos, ideais e critérios de que a Humanidade precisa para a convivência na paz sejam mantidos, fundamentados e vividos”.

 

3. Estou profundamente convencido de que é neste espírito que o Papa Francisco viajará em Fevereiro próximo (3-5) para Abu Dhabi, capital dos Emiratos Árabes. A finalidade da visita, correspondendo a um convite do príncipe herdeiro, Mohammed bin Zayed, e da Igreja, é precisamente participar num encontro inter-religioso internacional sobre a “Irmandade humana”, na convicção de que o diálogo inter-religioso é essencial para evitar a violência e abrir caminho para a paz.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 15 DEZ 2018

MANDELA: A LIBERDADE E O PERDÃO

 

Em mais uma homenagem da Academia das Ciências a Nelson Mandela, no passado dia 20 de Novembro, também participei com uma comunicação, de que fica aí o essencial.

 

1. Há uma experiência de fundo: o ser humano não é objecto, coisa. Olhamos para as coisas como um “isso”, mas olhamos para os seres humanos como um “alguém”. Alguém que é um “tu” como eu e, ao mesmo tempo, um tu que não sou eu: outro eu e um eu outro, formando um “nós”. O outro, no seu rosto e olhar, impõe-se-me como um “alguém corporal”, a visibilidade de uma interioridade inacessível que se mostra e impõe.

 

A experiência radical de não se ser coisa dá-se na consciência da liberdade. Cada um, cada uma, faz a experiência originária de ser dado, dada, a si mesmo, a si mesma, experiência que se explicita na consciência de autoposse. Somos senhores e donos de nós. Muito cedo, a criança é capaz de dizer ao pai ou à mãe: não és minha dona, meu dono. Pertenço, antes de mais, a mim próprio, a mim própria.

 

Claro que a liberdade não é demonstrável. Aliás, se o fosse, não seria liberdade, mas coisa. A liberdade apresenta-se nesta experiência de autoposse e, consequentemente, na experiência de responsabilidade: respondo por mim e pelo que faço. Dada a neotenia — vimos ao mundo por fazer —, temos pela frente a tarefa essencial, constitutiva: fazermo-nos a nós mesmos, uns com os outros, no mundo. Poder-se-ia acrescentar que a experiência da liberdade é uma experiência transcendental: a liberdade afirma-se, mesmo na sua negação. De facto, se tudo estivesse sob o determinismo, não seria possível colocar a questão da liberdade e do determinismo enquanto tal.

 

A liberdade é o fundamento da dignidade humana. Perante alguém livre, impõe-se o respeito (de respicere: ver e ser visto no mútuo reconhecimento). Cá está: o ser humano não é coisa, não é meio; por isso, não tem preço, reflectiu Kant. Embora a liberdade humana seja finita e sempre em situação, a pessoa pertence ao reino dos fins. A dignidade co-implica direitos fundamentais, que se impõe reconhecer: não se trata de concedê-los, mas de reconhecê-los.

 

Uma vez que o ser humano se tem de fazer a si mesmo — fazendo tudo o que faz, está a fazer-se a si próprio, de tal modo que o resultado pode ser uma obra de arte ou um monstro —, está sempre sob a sua responsabilidade última. Daqui deriva a angústia que sempre nos acompanha. De tal modo que, como bem viu Dostoievsky, na lenda do Grande Inquisidor, em Os Irmãos Karamazov, há uma dialéctica fundamental entre a liberdade e a segurança, estando muitos — a maior parte? — na disposição de entregar o fardo da liberdade a quem queira ficar com ele, aproveitando-se disso. Entre a liberdade e a segurança, muitos preferem a segurança: a segurança da norma, do não risco, do não ousar.

 

Em síntese, a liberdade significa autoposse, de tal modo que cada um, cada uma, pode e tem de tomar decisões no quadro da realização-de-si-no-mundo-com-os-outros. A liberdade, mesmo se condicionada e em situação, implica, portanto, não sujeição total aos determinismos físicos, genéticos, psicológicos ou sócio-culturais. De facto, depois de todos os condicionamentos físicos, genéticos, culturais, ainda podemos perguntar: o que vou eu fazer de mim com tudo isso? Também não é liberdade a pura espontaneidade ou a arbitrariedade — não é liberdade, por exemplo, fazer pura e simplesmente o que apetece: paradoxalmente, isso é necessidade —, pois o que a “define” é a auto-determinação segundo razões, a tomada de decisões racionais, tendo por critério último a plena realização humana de todos os seres humanos. Assim, a liberdade é ao mesmo tempo liberdade de: liberdade de determinismos e constrangimentos que impedem a sua realização, e liberdade para: liberdade para a realização de valores nos vários níveis, a começar pelo reconhecimento da liberdade dos outros, pois a liberdade verdadeira quer liberdades. A liberdade não se limita à experiência da sua realidade transcendental e interior, pois exige condições de possibilidade da sua realização concreta nos diferentes domínios: condições económicas, culturais, políticas...

 

2. Estive várias vezes na África do Sul, ainda no tempo do apartheid, da segregação racial. Ainda vi escrita, por exemplo, em bancos de jardim, ou indicação de praia, nas carruagens dos comboios, a ordem: “Whites only” (só para brancos). Se pude visitar o Soweto, foi porque o afável bispo católico de Joanesburgo, que não era racista, pediu ao pároco negro que me acompanhasse. E fui bem recebido. Mas a segregação estava sempre presente: nasciam em hospitais para negros, viviam em bairros exclusivamente de negros, iam à escola só para negros, levavam-nos a casa em autocarros exclusivamente para negros...

 

Muitas vezes me perguntei como é que aquela ignomínia iria acabar. Seria possível, sem um banho de sangue? Porque, ali, era o intolerável. A pessoa era ferida no mais profundo do seu ser: na sua in-finita dignidade de ser livre e auto-determinar-se.

 

Foi possível. Pacificamente, abriu-se o caminho para negociações em ordem à democracia no quadro da coexistência racial e do diálogo. Isso deveu-se certamente também à inteligência política e humana do presidente De Klerk, no novo contexto político e geoestratégico criado pela queda do muro de Berlim. Mas, para evitar a tragédia, o espírito e a acção de Mandela foram determinantes.

 

3. Está tudo na sua autobiografia: Long Walk to Freedom. Mandela não teve nenhuma “iluminação” ou “aparição”, mas a acumulação de ofensas, de indignidades, despertou nele “ira e rebeldia” e o desejo de combater o sistema que oprimia o seu povo. “Não houve um dia concreto em que dissesse: a partir de agora dedicarei as minhas energias à libertação do meu povo, dei por mim a fazê-lo simplesmente e não podia agir de outro modo”.

 

Objectivo da luta? Como se dizia na “Constituição pela Liberdade”, abolição da discriminação racial e a igualdade de direitos para todos. Era preciso destruir o apartheid, “a própria encarnação da injustiça”. Acabou “convertido, por lei, num criminoso”, mas não tinha a menor dúvida de que a posteridade reivindicaria a sua inocência.

 

Nestas situações, é legítima a violência até à luta armada? Os teólogos têm colocado a questão da guerra justa e a licitude do derrube do governo tirânico. Mandela confessava-se um homem não violento e explicava que não dependia dos negros renunciar à violência, mas do Governo; o seu propósito era atacar objectivos militares, não as pessoas. Apenas procurava a igualdade política e o princípio de “uma pessoa, um voto”, num Estado unitário sem homelands.

 

Depois de 27 anos de cárcere, viu Mandela finalmente a liberdade. E o “milagre” aconteceu. Quis despedir-se dos guardas, agradecendo-lhes “as suas atenções um a um”. Fora-se convencendo de que, afinal, mesmo aqueles que o tinham mantido na prisão durante vinte e sete anos e meio “eram essencialmente humanos”. Mandela confessava-se convictamente cristão. Esta sua condição terá sido decisiva para evitar o ódio e o ressentimento — as “paixões tristes”, como escreveu Espinosa. “Queria que toda a África do Sul visse que amava os meus inimigos, embora odiasse o sistema que nos tinha enfrentado.” Manteve a liberdade maior: o domínio de si. Afinal, tudo está naquele gesto de apertar a mão aos carcereiros e convidá-los para o banquete de inauguração da nova presidência da "nação arco-íris".

 

Mandela percebera que os seus carcereiros eram seres humanos habitados pelo medo. Ora, o medo é do pior que há. O medo tolhe a razão e a capacidade de pensar. É preciso ter medo de quem tem medo, de tal modo que a primeira libertação tem de ser a libertação do medo. Também e sobretudo no universo da religião. Aterrados pelo medo de Deus, homens e mulheres que se julgam religiosos caminham fatalmente para desgraças tenebrosas. Por isso, a Bíblia é atravessada pela compreensão histórica lenta, que culmina em Jesus, através da sua experiência, palavras e acções, de que a única tentativa de "definir" Deus é (está em São João): Ho theós agapê estín (Deus é amor incondicional, Deus é Força infinita de criar e só sabe amar).

 

Como era cristão, Mandela sabia que se deve perdoar aos inimigos. Pelo Evangelho, também sabia que os romanos enquanto potência de ocupação podiam obrigar um judeu a transportar a bagagem na distância de uma milha, sendo neste contexto que se percebe o que Jesus diz: "Faz uma segunda milha de livre vontade." Talvez o romano começasse a conversar, e quem sabe se não acabariam por beber um copo juntos? A reconciliação, a solução pacífica dos conflitos é preferível à violência e à guerra. E Jesus, do alto da cruz, rezou: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.

 

De qualquer modo, o perdão é um milagre, também em política. Jürgen Habermas, agnóstico, talvez o maior filósofo vivo e o mais influente, que quereria uma filosofia que herdasse, num processo de secularização mediante a razão comunicativa, os conteúdos semânticos da religião e a sua força, reconheceu que há um resto na religião não herdável pela simples razão. Disse-o num discurso famoso, por ocasião da recepção do prémio da paz dos livreiros alemães e já depois dos acontecimentos trágicos do 11 de Setembro de 2001. Esse resto tem a ver nomeadamente com o drama do perdão.

 

O perdão, em última análise, já não pertence à ordem do jurídico nem do político. No perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade do cálculo que é superada, pois nem o algoz tem direito ao perdão nem a vítima é obrigada a perdoar. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste ‘desejo’ ou deste ‘pensamento’ do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso."

 

4. Como escreveu Lídia Jorge, “Não há livro de instruções para salvar a vida. Só a literatura se aproxima desse imenso livro.” Isto significa que a liberdade leva consigo uma luta e uma história sem fim de libertação. Como insiste São Paulo, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. Na presente situação do mundo, esta luta tem três exigências essenciais. Uma é a da libertação interior: conquistar-se a si próprio, naquele processo que as religiões chamam de conversão ao melhor de si e ao amor. Depois, como sublinha o teólogo Hans Küng, “não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões”, o que implica a urgência do diálogo inter-religioso e intercultural, colocando no centro o interesse da realização plena de todos os homens e mulheres enquanto pessoas. Para lá de outros pilares, este diálogo implica a leitura histórico-crítica dos textos sagrados, o Estado laico, separando Igreja e Estado como garantia da liberdade religiosa (a laicidade, que não se confunde com o laicismo, é uma conquista histórica da Humanidade) e um projecto de ética mundial. Num mundo globalizado, impõe-se terminar com a cisão entre, por um lado, os chamados mercados, poderes fácticos globais, e, por outro, a política, da ordem do dever-ser, ainda local ou, quando muito, regional. Algo que se aproxime de uma “governança” global, com instâncias políticas globais, para uma ordem económico-financeira justa e equitativa, é essencial, se se quiser evitar o abismo e a catástrofe.

 

5. É neste contexto que há muito propugno algo de parecido com um Plano Marshall para a África. Sob a protecção de “São” Nelson Mandela, porque, como diz o Professor Adriano Moreira, Mandela não é um santo canonizado pela Igreja, mas é um santo da Humanidade.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 1 DEZ 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Hoje, já me interrogo sobre se o sentimento de superioridade do vulgo português será uma sensação de pertença a uma raça eleita (seja o que for que isso signifique), ou antes a convicção de uma insuperabilidade pessoal, isto é, de quem - Zé Povinho ou Urraca Antiga - se sente sempre comparativamente melhor, atendendo aos critérios a que ocasionalmente vá submetendo os cotejos consentidos. A minha nação poderá estar cheiinha de defeitos, os meus compatriotas poderão ser todos, ou quase, uma cambada de gente pouco recomendável, mas eu inda serei um trunfo fora do baralho, pouco ou nada tenho a aprender com os outros, tudo faço como me der na bola... Esta segunda hipótese oferece quiçá a vantagem de veicular a conciliação da autoconsciência da própria superioridade com a tão complexa subconsciência da sua receada inferioridade. Mas, infelizmente para os próprios e para quem os queira orientar, é tremenda caixa de pandora de traumas e problemas essa tal subconsciência da própria alteza. Tenho, para comigo, que, ao abri-la, se libertam e revelam carências de convívio e cultura, ou uma qualquer medrosa incapacidade de diálogo. Por isso mesmo tanta gente só se descontrai e respira quando se sente em sintonia inata no ambiente do seu grupo, onde reinam concordâncias recíprocas e preconceitos comuns, e facilmente surge uma agressividade fautora de processos de intenção relativamente às outras espécies, aos de fora! A cena política portuguesa e a sua circunstância, muitos artigos de opinião e - arrepiantemente - os comentários de leitores "on line" a notícias publicadas (sejam falsas ou não) dão triste testemunho dessa realidade. E, mais tristemente ainda, da falta de objetividade e liberdade interior - ou seja, da ausência de espírito crítico - do português vulgar.

 

 [Relembro, Princesa de mim, que o espírito crítico, contrariamente ao leviano, procura ser bem informado e rigoroso - é culto, no sentido de que se lavra - não é boateiro, nem a montante, nem a jusante; e não é clubista.]

 

    Resulta da leviandade reinante - da pressa de se tirarem (de factos ocorridos ou meros rumores, de ditos mal avisados ou mal contextualizados) projeções mediáticas ou vantagens concorrenciais - não serem as questões nacionais postas em contexto de diálogo construtivo, nem os factos, os actos e os ditos objetivamente analisados... Tudo, insistentemente, se coloca em perspetivas parciais, preconceituosas, facciosas, "marketingosas". Os debates públicos tendem mais a ser processos de intenções do que exercícios conjuntos de esclarecimento mútuo e busca de compreensões e soluções para serviço do bem comum. Ou, quando se fala de si mais do que se acusa o outro, reclamam-se glórias e baratinam-se promessas. O resultado de tudo isto é o descrédito e a desconfiança ambientes. Só quando, em verdade, nos dispusermos a trabalhar pelo aperfeiçoamento geral - e, por isso mesmo, procurarmos ser mais perfeitos e ajudarmos os outros (próximos, achegados ou divergentes) a querer sê-lo também - é que estaremos consonantes com Jesus (Lucas, 6, 45, tradução de Frederico Lourenço): A pessoa boa tira do bom tesouro do seu coração o que é bom; e a pessoa má, do mau tesouro tira o que é mau; pois é a partir da abundância do coração que a boca fala. A boataria maledicente ou insidiosamente suspeitosa, a indigitação apriorística de bodes expiatórios, os incessantes ataques "ad hominem", a arrogância de quem sempre se julga com razão (até porque os outros, doutro clube, partido ou cor, são invariavelmente incompetentes, ignorantes, mentecaptos ou tudo isso ao mesmo tempo) vão quotidianamente enevoando o ambiente, tornando-o caótico e incompreensível, quando não o envenenam, tornando-o irrespirável e detestável.

 

   Assim, também eu - que tanta gente por aí classifica como homem de direita - não conheço qualquer direita portuguesa, enquanto fundamentação e organização de ideias, ou proposta de programas. Aquilo a que por aí se chama direita é uma mistura líquida de pensarsentires que vêm de antigos regimes e vão até fantasias liberais (e ultraliberais) ou levam a posições conciliadoras de eleitores mais ao jeito da social-democracia. País de população maioritariamente católica, nunca Portugal registou com força um partido da chamada democracia cristã. Curiosamente, o programa político de 1933 (Estado Novo) foi o que, teoricamente embora, mais incluiu apropriações de princípios coincidentes ou decorrentes dos defendidos pela encíclica Rerum Novarum do papa Leão XIII. Noutros países europeus, monarquias e repúblicas, de maioria católica ou protestante, traços, ora marcantes, ora mais ténues, durante décadas foram distinguindo, mutatis mutandis, conservadores dos liberais, ambos dos socialistas, e todos estes dos democratas cristãos. Mas a várias vicissitudes históricas, mais ou menos traumatizantes (guerras, descolonizações, envelhecimento das populações autóctones), juntaram-se outros fatores de mudança (imigração massiva, crises de identidade e dos regimes políticos e socioeconómicos). E a decorrente confusão demográfica, cultural e social propicia surtos de incertezas, incompreensões e receios, cujo alastramento - até por falta de convicção e de reação clara das estruturas políticas existentes - abre alas à entrada crescente de propostas populistas, mais inspiradas por ressentimento, raiva ou descontentamento do que pela procura serena e justa de soluções democráticas e construtivas de futuro comum. Dividem-se, cada vez mais, os povos e as gentes, em bons e maus, "nossos" e do reviralho, ao ritmo do volume crescente da gritaria desgarrada geral: reivindica-se, exige-se, desespera-se, mas pensa-se pouco e, com calma, nada. Esquecemos que é indispensável acertar o tempo e o modo necessários à viabilização de qualquer projeto, uma revolução sendo, por definição, o regresso ao ponto de partida, à estaca zero. Mais os prejuízos e as oportunidades perdidas entretanto. E vamos olvidando os pobres, os mais pequenos, porque os brados indignados que hoje ouvimos são, cada vez mais, os das classes sociais que foram tendo acesso ao consumo que comanda o desejo e o lucro. Aliás, aqueles que foram sendo retirados da subterra humana da pobreza, em todos os países do mundo, são os que mais teimarão em superar a herança do que foram, são os que quererão possuir mais. A erradicação da insuportável pobreza não é questão resolúvel sem uma política voluntarista de inspiração ética humanista. Já pensaste, Princesa de mim, em quantas populações foram privadas dos seus ecossistemas, ou remetidas à sordidez de desterros suburbanos? Tudo isto dá, e muito, para pensarsentir...

 

    Pois também é claro que as ideias e os programas, como os interesses e os objetivos, vão evoluindo e mudando, como as próprias pessoas. Mas, da medida do rigor racional na formulação de juízos críticos, isto é, da liberdade cultivada do espírito crítico, irá sempre depender a animação dos grupos cívicos que pretendam propor ideias e práticas ao exercício político da governação. O que será sempre melhor do que nos entretermos, cada um a seu jeito, com diferenciar-nos entre bons e maus, desde certas "esquerdas" que apelidam de "direitas fascistas ou fascizantes" um ramalhete de partidos - cujas flores podem, além do CDS e do PSD, eventualmente incluir a rosa socialista - a "irónicos"  autoproclamados "direitistas" que se acham o "máximo, pecébe?" quando só apontam disparates às "esquerdas encostadas".

 

   A própria ideia de esquerda e direita pressupõe a visão clara dos posicionamentos relativos de uma e de outra... Mas, na atualidade, com a raríssima exceção de certa esquerda ou direita passadista, todos dançam o vira da confusão em torno de um ponto que a todos faz girar: a caça ao voto, a busca da popularidade necessária a um lugar ao sol.

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

SOBRE SARAMAGO E DEUS

 

O Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal de Coimbra organizaram nos passados dias 8, 9 e 10 de Outubro, no Convento de São Francisco de Coimbra, um Congresso Internacional: “José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”. Carlos Reis e Ana Peixinho pediram-me uma intervenção sobre Saramago e Deus. O que aí fica é uma breve síntese da minha fala nesse Congresso.

 

1. Numa entrevista dada a João Céu e Silva, uma das últimas, se não a última, Saramago referiu-se-me com admiração por ter lido e gostado do seu livro Caim. “Até fiquei surpreendido quando ouvi um teólogo — uma coisa é um teólogo e outra um padre — Anselmo Borges, dizer que tinha gostado do livro”. Mas na Net também se diz, e é verdade, que fui crítico por causa de alguma unilateralidade com que Saramago leu a Bíblia. Assim, a minha intervenção quer ser essencialmente um esclarecimento sobre essa minha dupla visão.

 

2. Saramago foi à Academia Sueca dizer, no dia 7 de Dezembro de 1998, logo na primeira frase: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”.

 

Quando me expresso sobre o diálogo inter-religioso, digo sempre, com escândalo de alguns, que desse diálogo também fazem parte os ateus, os ateus que sabem o que isso quer dizer — os crentes também só o são verdadeiramente, se souberem o que isso quer dizer. Fazem parte, porque são eles que, estando de fora, mais facilmente vêem as superstições, as inumanidades e até as barbaridades que tantas vezes infectam as religiões. Assim, à maneira de Saramago, também digo: foi com dois ateus que aprendi do melhor da Teologia: Ernst Bloch e o nosso homenageado, José Saramago. Mais com Bloch, porque, dada a situação da Teologia na Universidade alemã — em todas as Universidades, há duas Faculdades de Teologia, uma católica e outra protestante —, ele tinha profundos conhecimentos bíblicos. Neste enquadramento, refiro três pontos.

 

2.1. Também sou ateu em relação ao deus denunciado por eles. Porque é isso que se deve ser, se se quiser manter a dignidade humana face a um deus brutal, irresponsável, ciumento, mesquinho, tirânico, cruel, sádico, sanguinário... Neste sentido, estou de acordo com Ernst Bloch, quando escreveu que “só um bom ateu pode ser um bom cristão, só um bom cristão pode ser um bom ateu”.

 

Previno que a boa exegese mostra que nem sempre está no texto bíblico aquilo que o puseram a dizer e que passou à tradição. Por exemplo, o caso de Isaac, cujo significado é o contrário daquilo que frequentemente se ensinou: ao aparecer o cordeiro, Deus está a proclamar que não quer o sacrifício de seres humanos. Mas, de facto,  muitas vezes foi a outra tradição que passou, aquela a que se referiu o prestigiado biblista católico do século XX, Norbert Lohfink, quando constatou que a Bíblia judaica é “um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial”.

 

Como aceitar um deus que castigasse a Humanidade inteira por causa de os primeiros pais terem comido uma maçã? De qualquer modo, no quadro da evolução, quem foram os primeiros e como é que poderiam ter um acto de liberdade tal que arrastasse consigo todos os males do mundo, incluindo a morte? Que sentido pode ter um pecado original herdado, de tal modo que todas as crianças seriam geradas em pecado, do qual só o baptismo pode libertar?

 

E Jesus não foi enviado por Deus para ser morto e com a sua morte pagar a dívida infinita da Humanidade para com Deus e Deus aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade. Que pai decente imporia isso ao seu filho querido, condenando-o à morte?

 

Caim, segundo Saramago, vai, castigado, pelo mundo, não sem perguntar a deus porque é que o não impediu de matar o irmão, Abel. Deus é, pois, co-responsável por esse acto...

 

Trata-se de um deus arbitrário, irresponsável, ciumento, pior do que nós.  

 

Ficamos arrepiados, quando lemos que Deus exigiu de Abraão que matasse o seu filho Isaac. O próprio filósofo Sören Kierkegaard, que propunha Abraão como modelo da fé incondicional, viu o horror da situação e diz que o miúdo voltou para casa e deixou de acreditar em deus e Abraão nunca disse uma palavra a Sara sobre o acontecido.

 

Sodoma e Gomorra. Lá também havia crianças inocentes. E deus não se lembrou delas?

 

Babel. Deus, em vez de castigar os homens pelo seu feito, deveria honrar-se com o êxito das suas criaturas. É ciumento, invejoso.

 

Também no Dilúvio, deus não teve compaixão para com os inocentes. A mesma acusação vale para a situação dos filhos primogénitos dos egípcios.

 

Ah, e, aquando do nascimento de Jesus, houve a matança dos inocentes e José não se preocupou. No regresso do Egipto nem sequer perguntou às mães pela sua dor...

 

Do pior: as guerras religiosas, pois é deus contra deus, e as vítimas são os homens e as mulheres e as crianças... Como é possível deus mandar matar, haver guerras em nome de deus?

 

2.2. Ernst Bloch foi mais longe. Sabendo Teologia e exegese, distinguiu muito bem duas camadas na Bíblia: a do deus dos senhores, do deus dominador, tirânico, imoral e opressor e a do Deus da libertação e dignificação de todos. Em conexão, viu também dois tipos de Igreja: a Igreja dos senhores, a Igreja do poder inquisitorial, opressora, e a Igreja dos pobres, do bem, da justiça, da paz. Para Bloch, há um duplo fio condutor na Bíblia: o sacerdotal, em que domina o deus opressor, dos senhores, e o profético-messiânico-apocalíptico, que anuncia o Reino de Deus, a herdar meta-religiosamente como Reino do Homem: “Esta vida no horizonte do futuro veio ao mundo pela Bíblia.”

 

Jesus agiu como um homem bom, escreve Bloch, “algo que ainda não tinha acontecido”. Ele personifica a bondade e o amor e nele exprime-se e realiza-se o melhor da esperança, o ainda não do que a Humanidade pode e deve ser. Ele não foi morto por Deus seu Pai, mas pelo religião do Templo, a religião dos sacerdotes, que viviam da exploração dos crentes.

 

O que devemos ao cristianismo? O próprio conceito de pessoa foi dentro dos debates à volta da tentativa de compreender Jesus Cristo que surgiu. Sabemos que nenhum homem pode ser “tratado como gado”: foi através de Jesus que o sabemos, porque nele, por ele e com ele, se proclama a dignidade infinita de todo o ser humano.

 

Onde é que nasceu a Declaração dos Direitos Humanos? Foi na China? Na Arábia?

 

Jürgen Habermas, o filósofo mais influente da actualidade, agnóstico, escreveu que a democracia não é senão a tradução para a política da ideia cristã de que cada homem e cada mulher são filhos de Deus. Isso, politicamente traduzido, dá um homem um voto, uma mulher um voto.

 

Não haveria o horror da pedofilia, também na Igreja, se se ouvisse a maior proclamação de sempre feita por Jesus sobre a dignidade das crianças: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus”, acrescentando logo a seguir: “Ai de quem escandalizar uma criança: mais valia atar-lhe uma mó de moinho ao pescoço e ser lançado ao mar”.

 

Tudo isto para repetir o que disse logo no início da minha fala: estou grato, muito grato, a Saramago, mas não aceito a sua afirmação: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”. A sua leitura foi unilateral.

 

3. O que é ser ateu? Quando se diz que se é ateu, é preciso começar por perguntar o que se entende por isso e concretamente em relação a que Deus se é ateu.

 

Há dois modos de negação de Deus: a negação real e a negação determinada.

 

Por negação determinada entende-se a negação de um determinado deus, de uma certa imagem de deus. Foi o que Saramago fez. Como podia ele ou alguém intelectualmente honesto aceitar um deus cruel e sanguinário? Daí a inversão da oração de Cristo na Cruz, no Evangelho segundo Jesus Cristo.  Onde no Evangelho se diz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”, lê-se em Saramago: “Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez”.

 

A negação determinada não significa negação real. A pergunta é, portanto, se Saramago negou realmente Deus ou se, pelo contrário, na negação do deus arbitrário e sanguinário, não está dialecticamente presente o clamor pelo único Deus verdadeiro, o do amor incondicional, o do Anti-mal.

 

De qualquer modo, segundo Saramago, “Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. “Esta definição de Saramago é a mais bela que alguma vez li ou ouvi”, escreveu o teólogo Juan José Tamayo. “Essa definição está mais perto de um místico do que de um ateu”.

 

4. No final da minha intervenção, a viúva de Saramago, Pilar del Río, aproximou-se, agradeceu e disse-me: Sabe qual foi o contexto desse diálogo entre o meu marido e Tamayo? Íamos os três pela Plaza de la Giralda, em Sevilha, e os sinos da catedral repicaram, e Saramago: “Os sinos tocam porque está um teólogo a passar”. E Tamayo retorquiu: “Não, os sinos repicam porque um ateu está prestes a converter-se ao cristianismo”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 24 NOV 2018