Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Entendeste bem o significado das minhas duas últimas cartas sobre imperadores e providencialismos. Não busco ninguém em particular, apenas evoco exemplos de como as chamadas figuras importantes, sobretudo as que consideramos históricas, têm sempre duas existências: a real, aquela que foi ou ainda é facto, e a mitológica, essa que se fabricou, fabrica, e finalmente perdura no imaginário das pessoas. [Nota que isso pode acontecer com gente medíocre, como muitos que povoam a via láctea do empíreo político português]. A primeira é bastante desconhecida, ignota, secreta ou, melhor ainda, como diz o povo, só Deus a conhece. Nós, o vulgo, procuramos descobri-la pela recolha de informação ou por investigação histórica, mas dificilmente lá chegamos, ainda que possamos progredir numa compreensão mais objetiva e honesta de personagens e acontecimentos. Já a segunda, quando não é construção nossa, nem faz parte do nosso património cultural valorativo, pode ser livremente interpretada e (des)valorizada, mas não a controlamos: será mais um dado de facto, um fator condicionante dos eventos sociais que tentamos perspetivar e analisar. E, neste caso, a pessoa mitológica é realmente persona, isto é, muito mais ficção ou ator do que ser humano em carne e osso. Eis como a vida política é tão encenada.

 

   E, em política, constrói-se assim uma personagem muito complexa na sua aparente simplicidade de líder. No subconsciente dos grupos sociais obram desilusões e ressentimentos, nostalgias e recordações de perdas, que se tornarão em reclamações e desejos de desforra, em aspirações a grandezas imaginadas e reformas genéticas de passados por completar, se puderem incarnar-se na persona providencial e daí apelarem a todos os corações. Tal "ungido" de muitos procurará então valer-se das legitimidades necessárias à sua afirmação e ao seu percurso. Sobretudo à dos valores históricos e constitutivos de uma nação, incluindo a fidelidade religiosa. Casos claríssimos são o de Putin com a Igreja Ortodoxa Russa, o de Modi com uma versão hindu extrema e exclusiva do hinduísmo, ou de Erdogan, disfarçado de Ataturk (mas ao contrário), e outros vários líderes islâmicos, e o dos governantes ditos populistas em países europeus, incluindo os membros da UE situados no Leste europeu que constituem o grupo de Visegrad (Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria), apelando ao nacionalismo eurocético, às suas tradições étnicas e religiosas. É claro que o atual jogo russo não os deixa indiferentes, mas pensossinto, Princesa de mim, que se sentem um pouco órfãos: ali mesmo onde passava geograficamente a Cortina de Ferro, avolumam-se hoje promessas por cumprir, a par de sonhos de identidade a recuperar. [Talvez por isso o papa Francisco - que tão energicamente tem reclamado o acolhimento de migrantes pela Europa - tem sido bastante discreto a questionar estes países...]

 

   Mas, além dos exemplos apontados e alguns mais, não esqueçamos, Princesa, outros "populismos" por aí disseminados que, pouco indigitados, têm todavia o que se lhes diga em matéria eleitoralista e suas consequências, mesmo na política internacional. Curiosa ilustração é o movimento sionista ou messiânico cristão, nos EUA, do qual aliás te falei numa das minhas cartas sobre Jerusalém, quando referia um discurso do vice-presidente Pence. Já então deixei claro que tais cristãos milenaristas partilham, com os sionistas judeus, a crença de que, no fim dos tempos, a Terra Santa ficará totalmente na posse do Povo de Israel, pois que lhe está prometida na Bíblia, e então virá o Messias. Na cena final, as duas fés divergem quanto à questão de o Messias regressar ou vir finalmente pela primeira vez e, sobretudo, quanto a quem sofrerá a conversão final: se todos os judeus ao cristianismo, ou se os cristãos ao judaísmo. O certo é que os sionistas cristãos apoiam e financiam a ocupação da Palestina pelo estado de Israel, e exercem pressão influente sobre o presidente Trump quanto ao reconhecimento de Jerusalém como sua capital. Imagina, Princesa de mim, que até aludem à oxigenada poupa trumpista como evocação da cabeleira do rei David, descrita na Bíblia. Tudo isto nos faria rir imenso se, com John Bolton a Conselheiro da Segurança Nacional, depois do ex-CIA Mike Pompeo a Secretary of State, os EUA não estivessem tentados a ir para a guerra ao lado de Israel, até porque cada um dos grupos milenaristas acredita que será inevitável a destruição bélica do terceiro lugar mais sagrado do Islão, hoje sito onde, no longínquo outrora, estivera localizado o Templo de David e Salomão. 81% desses cristãos sionistas votaram em Donald Trump nas presidenciais americanas e são-lhe, no conjunto do Bible Belt, um trunfo eleitoral indispensável. 

 

   Já os valores que o atual presidente americano invoca para granjear apoios são populistas, populares com pouca transcendência, pretendendo sobretudo entusiasmar um sonho americano de superioridade mundial e nacionalista (America First), tudo ou muito projetado ao jeito de um empresário obcecado pelo regresso da sua empresa a indiscutível nº1 do mercado, e utilizando métodos semelhantes (vg. os sucessivos despedimentos e substituições de pessoal, sem outra razão que a do quero, posso e mando; ou, ainda, a chantagem negocial). Os seus apoios não são, por isso, institucionais nem históricos (até procura desdizer, maldizer ou destruir outras políticas nacionais recentes). São apostas oportunistas, tal como o trumpista fazer e desfazer de propostas internacionais. Donde os meios de comunicação on line que privilegia.

 

   No seu notável China - a New History (Harvard University Press, 1992), John King Fairbank tem um capítulo sobre o que chama Imperial Confucianism, sucintamente definido como uma amálgama de legalismo e confucianismo: O recurso à violência pelo governante permaneceu sua prerrogativa relativamente ao seu povo como aos seus funcionários. Mas não podia governar apenas pela força e precisava portanto da ajuda Confucionista para mostrar o seu constante propósito moral de benevolência e conduta apropriada. Sob orientação Confucionista, o imperador cada dia cumpria rituais e cerimónias que eram a sua específica função de Filho do Céu. (Today`s White House foto-ops and sound-bites would have seemed quite natural to him.) A ironia da frase final, que deixei propositadamente em inglês, sugere e disfarça uma semelhança e um abismo. Paradoxal simultaneidade, uma tendo a ver com os métodos de publicitação de atos políticos, o outro separando a durabilidade de tradições, ancoradas no subconsciente coletivo, da leviandade do mero "marketing" político. Reparaste já, Princesa de mim, nos grupos que rodeiam Trump, na Casa Branca, para as fotografias de promulgação de um decreto? No anúncio de medidas protecionistas, até estavam figurantes operários de várias etnias, incluindo hispânicos de tez e feições claramente meso americanas... A primeira grande diferença entre a RPC e os EUA, hoje em dia, é que a primeira tem consciência das opções de política interna necessárias e possíveis ao crescimento económico e ao desenvolvimento humano e social da China, e dispõe do poder político suficiente para as pôr em marcha. A segunda é que a própria noção dessa vantagem, enquanto ordenada pelo poder político, está inculturada no seu povo e é por essa mesma cultura popular disciplinada, sendo o "show off", o "marketing" político mais arte para o exterior, exposição de fachada. Mas com clara perceção do mundo hodierno, onde terão de investir, ser investidos, comprar e vender, pois há muito já entenderam que o declínio da potência chinesa começou quando a dinastia Ming desistiu da expansão... Esta atitude é mais uma vantagem competitiva sobre a trumpista política supremo-isolacionista. A China dos nossos dias sente-se preparada e pronta para entrar na globalização, muito à sua maneira, é certo, mas também com a força necessária para participar no concerto das nações. E um concerto, como bem sabes, Princesa, é um conjunto de instrumentos vários e frases musicais que se afrontam e desafiam, tendo por fim a harmonia. Em carta futura te falarei dum conceito chinês milenário, que dá pelo nome de tianxia, uma visão do mundo como um todo, onde se apaga o sentimento de estrangeiro ou de inimigo. Conceito hoje retomado pelo filósofo Zhao Tingyang, quiçá em vias de aproveitamento pelo poder político chinês, para afirmação universal do seu nacionalismo.

 

   A grande vantagem da China hodierna, pois, é a sua cultura milenária dispor um povo à obediência e dispensar excessos de "marketing" político para uso interno. E, curiosamente, esse profundo sentimento de identidade parece estar a dar-se muito bem com as perspetivas duma entrada mais descontraída nas cenas que estão em palco no mundo... Da música clássica ao futebol e à "loja do chinês", do turismo à filosofia. E mesmo, até, às relações com o Vaticano, que talvez redefinam uma nova forma de cristianismo parcialmente cesarista, a juntar, historicamente, à moda romana antiga, ou à bizantina, ou à ortodoxa russa... E, no caso específico da guerra comercial que os EUA iniciaram, a China aguentar-se-á bem melhor a prazo.

 

   Este último cesarismo ou tzarismo é o que Vladimir Putin, com alguma habilidade, e bastante violência ao jeito soviético, mas também com raízes na antiga autocracia imperial, procura ressuscitar numa Federação Russa economicamente esgotada e militarmente ultrapassada. Aliás, com recurso a métodos de fácil paralelismo com os trumpistas. Por exemplo - conta-nos o jornalista russo independente Mikhail Zygar (num livro publicado em francês pela Cherche Midi, intitulado Les Hommes du Kremlin) - que o homólogo de John Bolton é hoje um ex-chefe do FSB (ex-KGB), Nikolaï Patruchev, o novo Secretário Geral do Conselho Russo de Segurança, o principal falcão da Rússia, assim como ponta de lança do anti ocidentalismo e do anti americanismo no seio do poder russo. Curiosamente, Hélène Carrère d´Encausse, a franco-russa (georgiana como Estaline), que foi politicamente próxima de Jacques Chirac, deputada pelo RPR ao Parlamento Europeu, e é hoje Secretária Perpétua da Academia Francesa, autora de um livro que li há décadas e me abriu um olhar novo sobre a URSS (L’Empire Éclaté,  Flammarion, Paris,1978), pediu recentemente (3ª feira, 3 de Abril, na Salle Gaveau, em Paris) que se matizassem um pouco os juízos sobre Vladimir Putin, lembrando que, até 2004, ele fora homem de mão estendida ao Ocidente (cf. Le Figaro de 5/4/2018)...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em carta a falar-te de imperadores, e a prometer-te falarmos de Putin (não do político tanto quanto do mítico), já te dizia que o Imperador Celeste é paradoxal, ente divino subjugado, homem também, como os outros, movido pelas suas paixões, ambições e fraquezas... No decurso deste divertido passeio por imperiais galerias de retratos, vamos deparando com essa curiosa condição do poderoso cuja teatral grandeza se vai reduzindo a mesquinhas ridicularias... Tal seria, todavia, risível apenas num palco de diversões; infelizmente tem muito menos graça e pode até ser maldição no seu contexto real, aí onde gera sofrimento e injustiça.

 

   Mas deixa-me ser lúdico agora e, antes de voltar a Vladimir Putin, servir-te, como aperitivo, episódios ilustres da pequenez do "grande" Napoleão Bonaparte. E não só. Recorro a Henri Guillemin, no seu Napoléon Tel Quel (Éditions de Trévise, Paris, 1969), uma biografia iconoclasta. Traduzo:

 

   Esses pobres Bourbons, coitaditos, iam para a província, a uma catedral subalterna, para serem ungidos por um arcebispo qualquer. Para «Napoleão», o eclesiástico de serviço não será um arcebispo, mas Sua Santidade o próprio papa. E «Nabou» ultrapassa mesmo Carlos Magno, a quem se refere por cima de séculos: Carlos Magno, na sua pequenez, tinha ido ter com o papa; para o "caïd" corso, será o papa que, chamado pelo apito, se deslocará. E desloca-se mesmo. E diz, em Notre-Dame: «Deus todo poderoso e eterno, Vós que haveis derramado a santa unção sobre as cabeças de Saúl e de David, derramai por minhas mãos o tesouro das Vossas graças e das Vossas bênçãos sobre o Vosso servo Napoleão que hoje sagramos Imperador em Vosso nome». E Napoleão, a retorquir: «Juro fazer respeitar as leis da Concordata, a igualdade de direitos, a liberdade cívica e política, e a irrevocabilidade da venda dos bens nacionais». Algo inesperada, esta alusão mercantil na boca do Ungido do Senhor, mas tranquilizadora e necessária à sua clientela de base, os abastados do Thermidor e os camponeses. Sua Santidade pelava-se por que lhe fossem devolvidas, pelo menos em parte, as províncias que o Ungido do Senhor lhe tinha roubado para as anexar ao seu reino de Itália. Mas o Ungido mandará que lhe respondam, rindo baixinho, que, «protetor de um Estado estrangeiro», ele não se reconhecia «o direito de lhe diminuir o território». E todavia nascera, na roda do papa, uma ideia considerada sedutora: a canonização de um tal Pedro Boaventura Bonaparte, que haveria maneira de fazer passar por antepassado do imperador. E, como dizia a Chancelaria romana, «uma canonização é sempre, da parte de Roma, um favor; não poderia ser melhor atribuída do que aqui». Vende-se o que se pode. Desapontamento. Por muito "sacro" que fosse, o imperador permanecerá insensível a esse projeto de promoção celeste na sua família. Pelo menos, decide-se em Roma que a 15 de agosto, doravante, o nascimento de Napoleão eclipsará a «gloriosa Assunção da Santíssima Virgem». O núncio achará a fórmula adequada, decretando que, «de pela autoridade apostólica, a festa da Assunção da Santíssima Virgem e a de São Napoleão [claro que se trata só de festas!] ficarão perpetuamente unidas». Perpetuamente! Em Roma não se poupa tempo, posto que se dispõe da eternidade. Mas não deu resultado. Não houve a mais pequena restituição territorial. O "caid" é um duro em negócios...

 

   Alguns aforismos do próprio imperador nos ajudarão a entender o seu elegante pensamento: Para governar é preciso ser militar: só se governa bem com botas e esporas!...   ... Não se trata de ser amado: importa ser-se temido!...   ... A França? Durmo com ela, e ela dá-me o seu sangue e os seus tesouros! Mas, para deixar Napoleão em passado histórico, volto ao seu aproveitamento da religião-igreja tradicional - para iluminar um olhar sobre Putin -, recorrendo ainda a Henri Michelin:

 

   Tem maçadas com o papa que pretendeu excomunga-lo depois da ocupação de Roma por tropas francesas; mas não desiste de o acalmar: quereria tê-lo em Paris, ali à mão, e tornar esse Bonzo-em-chefe, simultaneamente, capelão da Corte e uma espécie de arquichanceler para assuntos eclesiásticos. O «catecismo imperial» continua em vigor; o núncio Caprara declarou-o «conforme à doutrina católica», e todas as crianças de França devem saber de cor os artigos essenciais que eis aqui:

 

   «D. - Quais são os vossos deveres para com Napoleão I, nosso imperador?

   R. - Nós devemos a Napoleão I, nosso imperador, amor, respeito, obediência, serviço militar e os impostos determinados para a conservação e a defesa do Império e do trono.

   D. - Mas não há motivos especiais que devem vincular-nos mais estreitamente a Napoleão I, nosso imperador?

   R. - Há, sim, porque ele é aquele que Deus suscitou em circunstâncias difíceis para restabelecer a santa religião dos nossos pais e a proteger. E, pela sagração que recebeu do Santo Pontífice, tornou-se no Ungido do Senhor. Cumulando o nosso imperador com os seus dons, na paz como na guerra, Deus tornou-o ministro do seu poder e sua imagem na terra.

   D. - Que se deve pensar daqueles que faltariam aos seus deveres para com Napoleão I, nosso imperador?

   R. - Segundo o apóstolo São Paulo, aqueles que resistissem à ordem estabelecida por Deus tornar-se-iam passíveis de condenação eterna»...

 

   [Antes do esclarecedor cotejo do acima transcrito com factos relativos ao "tzar" Putin, abaixo relatados, deixa-me só, Princesa de mim, recordar-te este trecho de um bilhete do Cardeal Cerejeira ao Professor Salazar, datado de 13 de novembro de 1945: ... Nesta hora de tantas preocupações, desgostos e talvez dúvidas para ti, envio-te este trecho de uma carta da irmã Lúcia, a vidente de Fátima, que acabo de receber...  ... Escuso de dizer que isto que ela diz não o diz dela mesma, mas por indicação divina (segundo ela deixa entender)...   ... De uma carta de Lúcia, datada de Tui, 7-11-1945:

 

   «... o Salazar é a pessoa por Ele (Deus) escolhida para continuar a governar a nossa Pátria, a ele é que será concedida a luz e graça para conduzir o nosso povo pelos caminhos da paz e da prosperidade.»

 

   E já em carta a Oliveira Salazar, de 26 de maio de 1945, o Patriarca de Lisboa o declarava ungido por Deus.]

 

   Respondendo a jornalistas, pouco depois de conhecer os resultados avassaladores da sua reeleição presidencial, Vladimir Putin, finalmente, lá concordou com ser possível que refletisse e propusesse emendas da Constituição, no sentido de lhe possibilitar mais mandatos para além de só dois seguidos, como hoje estipulado. Até brincou com a ideia de ainda ser presidente aos cem anos... Ao que parece, tal será possível, aceitável e aclamável - para e pelo povo russo -, se Putin lhes surgir como uma incarnação da ortodoxia da Santa Rússia. Curiosamente, o episódio da inauguração da igreja do mosteiro Sretenski - que fui buscar a um artigo de Anaïs Llobet em Le Monde Diplomatique - passou-se ali ao lado da Lubianka, casa - traduzo do jornal francês - do Ministério do Interior soviético, símbolo da grande repressão dos anos 1930, sendo agora a igreja dedicada à «memória dos mártires da perseguição anti religiosa». A decisão de a consagrar no ano do centenário das revoluções de fevereiro e outubro de 1917 constitui um «símbolo importante», sublinhou o Sr. Putin, tomando a palavra no fim da cerimónia. «Sabemos até que ponto a paz civil é frágil. Nunca deveremos esquecer quão difícil é sarar as feridas nascidas de divisões. Eis a nossa responsabilidade comum: fazer todos os possíveis para preservar a unidade da nação russa!» Recorda-te aqui, Princesa de mim, de que os bolcheviques perseguiram violentamente a religião e os crentes ortodoxos russos, não só por razões ideológicas e em virtude da sua praxis política, mas também pela fortíssima ligação do clero à autocracia tzarista. Mas, como nos conta Anaïs Llobet, face à invasão das tropas alemãs, Joseph Stalin reabilita a Igreja para apoiar a mobilização geral, na longa tradição das guerras «sagradas» conduzidas pela Rússia contra as invasões bárbaras. «Irmãos e irmãs: um perigo mortal ameaça a nossa pátria!» lança ele a 3 de julho de 1941, numa mensagem que ficou célebre. O reconhecimento do clero em 1943 faz-se todavia sob apertada vigilância da polícia política e do Conselho para os assuntos da Igreja ortodoxa russa. Tolerada para assegurar discretamente o exercício do culto, a Igreja viu ser-lhe interdita qualquer intervenção na vida pública. Mais tarde, o desmoronamento da URSS levou um número crescente de cidadãos a voltar-se para Deus: só um terço dos russos se declaravam ortodoxos em 1991; eram já 74% em 2012...

 

   ... Nos seus dois primeiros mandatos de presidente (2000-2008), o Sr. Putin apresentava-se como um bom gestor sem ideologia. Tempera então as ambições da Igreja, recusando-lhe a criação dum imposto para financiar o culto e também um canal da televisão federal. Mas quando primeiro ministro, com o seu "faz tudo" Medvedev a presidente (em razão da tal impossibilidade constitucional de mais de dois mandatos seguidos), vai suavizando e progredindo na aproximação à Igreja, sobretudo depois da morte do patriarca Alexis II e da eleição do sucessor Cirilo, que lhe acena com o modelo de governação do imperador bizantino do século VI, Justiniano, a «sinfonia dos poderes», preconizando a cooperação e apoio mútuos do espiritual e do temporal. Para este, que é o político, o movimento é bem vindo. Como Llobet bem entende, no seu regresso à presidência, em março de 2012, Putin, contestado, decide mobilizar a população, já não em volta da sua pessoa, mas em volta de uma prioridade largamente aceite: a defesa dos valores russos tradicionais contra um Ocidente que, segundo Moscovo, procura cercar militarmente a Rússia e deitar abaixo os regimes que não corresponderem às suas permissivas disposições nem aos seus interesses geopolíticos. «Sem os padrões morais formados durante séculos, as gentes perderão inevitavelmente a sua dignidade humana», afirmará o presidente em 2013 e insistirá um ano depois: Para que a sociedade exista, convém sustentar o respeito das nossas tradições e das grandes religiões. E a jornalista lembra que o padre Smirnov, pope ortodoxo, se congratula com essa ofensiva presidencial: Como é que um Russo, um ortodoxo, pode aceitar o casamento homossexual? Não! A Rússia e a Igreja não podem aceitá-lo, tampouco o nosso presidente.

 

   E este teu antigo amigo Camilo-bota-de-elástico, Princesa, lembra-se agora do espetáculo de apresentação dos novos e poderosíssimos mísseis intercontinentais russos, por Vladimir Putin, em véspera de eleição: estou convencido de que qualquer especialista ocidental em tais questões bélico-estratégicas terá complacentemente sorrido. A recuperação do atraso económico e social soviético, iniciada com a glasnost e a perestroika, também aumentou a distância entre o poderio e o potencial militar russo e o americano. Este, "by the way", continua a ser o mais assustador do mundo. Mas o "show" putiniano não era para estrangeiro ver (ainda que possa ter influenciado alguns): era, e foi, para consumo interno. E pagou. Também não sei, não posso ter qualquer certeza, de que o assassínio de espiões no Reino Unido tivesse sido mesmo obra russa. Fosse ou não, disso estou seguro, pairará sempre, no Ocidente (curiosa designação que nos mantém em guerra fria), o fantasma e o receio. Talvez Jeremy Corbyn tenha razão em dizer que seria melhor aguardar por cabal esclarecimento dos factos. Que, presumo, nunca se verificará. Mas a espera traria o esquecimento: assim, na Rússia ninguém se sentiria atacado por mentiras ocidentais e talvez nós nos sentíssemos mais confortáveis com a ideia de que, afinal, não lhes fizemos mal algum, nem têm, portanto, mais razão de queixa. Claro que Theresa May, "à la Poutine", quis capitalizar votos para as eleições de maio próximo... Chacun governa-se...

 

   E na complicadíssima Europa que por aí se anda a elucubrar, ou fabricar, não sei bem, tenho reparado nas bandeiras históricas que reaparecem nos países de leste, algumas, até, de breves e extintas monarquias nacionais. Estar-se-á a levantar outra cortina de ferro? Para tua-nossa meditação, Princesa de mim, traduzo, do Courrier International, este trecho do sociólogo polaco Stawomir Sierakowski, publicado no Project Syndicate, de Praga: Em quinze países da Europa da Leste, os partidos populistas estão atualmente no poder em sete, pertencem à coligação governamental em dois, e representam a principal oposição em três. E se, em 2000, os partidos populistas apenas tinham conquistado 20% de votos em dois países de Leste, hoje já os conseguiram em dez. Sobre tudo isso, Princesa, e mais ainda sobre a China, te falarei em próxima carta.

 

Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nos dias de hoje, a própria Igreja Católica, em Portugal, acolhe - disseram-me - para o ministério das suas paróquias e sacramentos, padres vindos de leste, praticantes do rito bizantino, alguns deles casados. Também os cristãos ortodoxos, de obediência grega ou russa - e não romana - aceitam, tal como os anglicanos, os luteranos e muitos outros - que os seus pastores sejam homens casados, e com famílias constituídas. É condição humana natural, responde a uma vocação universal que, na Bíblia, se regista logo no livro do Génesis, ainda no paraíso: Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, criou-o homem e mulher. Deus abençoou-os e disse-lhes: «Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra»... Já noutras cartas, Princesa de mim, te dizia que não penso que a permissão de ordenação de homens casados ou de mulheres deva ser aprovada pelas autoridades eclesiásticas em razão da escassez de ministros da eucaristia e doutros sacramentos. Essa questão da falta de gente, a meu ver, levanta-se desde antes, da simples verificação, sobretudo nos países cristãos do ocidente, do assombroso decréscimo no número de batizados e, entre estes, dos chamados praticantes (frequentadores dos ofícios eclesiais e dos sacramentos). Faltam ministros porque são menos numerosos os fiéis ou, dito de outro modo, porque a Igreja se foi alienando do mundo em que vivemos, se fechou em dogmatismos doutrinais, rituais e sociais, que a afastam do convívio dialogante com as gentes hodiernas, as suas angústias e preocupações (ou leviandades), as suas condições de vida.

 

   Temos, pois, duas básicas questões bem distintas: uma, a conversão do magistério eclesiástico à pregação da Boa Nova, isto é, como infatigavelmente diz o papa Francisco, a uma saída para a rua, ao encontro dos outros; outra, a necessidade desse tal magistério entender que a mensagem que Cristo lhe confiou é sempre ela e a sua circunstância, pelo que a tradição da Igreja não pode ser a repetição de ensinamentos e práticas nascidas, criadas - aliás nem sempre com todo a justiça e discernimento - em circunstâncias passadas. Assim sendo, eu não quero que se ordenem mulheres ou homens casados, nem que tal seja proibido: apenas peço que qualquer decisão canónica a esse respeito não invoque fundamentos bíblicos ou teológicos que, mesmo tendo sido muito usados no passado, são, por um lado e pelo menos, discutíveis e, por outro, não encontram qualquer recetividade em sectores crescentes das nossas sociedades, nem qualquer entendimento favorável nas mentes contemporâneas. E ninguém me venha dizer que "isso é relativismo!", pois trata-se precisamente do contrário: muito mais relativismo é isso a que chamam fundamentalismo, pois este nega a possibilidade do entendimento universal de um princípio, de um valor, de uma mensagem noutro modo que não aquele - relativo como tudo o que é dito para ser ouvido - no qual se defende ou pretende ter sido formulado ou proferida. Ou então, como também já te disse, Princesa de mim, acordemos que Jesus Cristo foi o grande relativista. Tampouco quero que se "liberalize" (como sói dizer-se hoje) o divórcio canónico, ainda que um puxãozinho de orelha pudesse levar certas pessoas a refletirem mais objetivamente, e com maior espírito crítico, nas "declarações de nulidade" dos tribunais eclesiásticos. Na verdade, defendo o princípio da indissolubilidade, precisamente por ser princípio, e defrontar os possíveis nubentes com a necessidade de assumirem a sua responsabilidade.  O matrimónio não é um contrato comercial (com ironia penso: bem... há exceções!), desde logo envolve vidas presentes e quiçá por vir, sentimentos e aspirações, intimidades, sobretudo entregas de si em confiança mútua... Não é coisa para ser tratada com ligeireza e, por isso, até no plano institucional, religioso ou simplesmente civil, tem de ser encarado com respeito enormíssimo, com a prudência (o tal amor sagaz de que tanto já te falei, Princesa) necessária a precaver o seu melhor decurso possível, mas infelizmente, também as consequências da sua eventual derrocada. Encurtando a dissertação: o divórcio não é desejável, mas pode ser inevitável, quer para salvaguarda da saúde mental ou da própria vida dos cônjuges, quer ainda para evitar que filhos aprendam, no seio da sua própria família, a discórdia, a raiva, a agressão, a maldade. Fílon de Alexandria, filósofo judeu helenista, e Flávio José, historiador judeu romano, + ou - coevos de Jesus, testemunham que a prática corrente, naquele tempo, de permissão do divórcio - que só o marido podia solicitar - se fundamentava até em alegações tão simples quanto a de a mulher ter deixado comida queimar-se ao lume, argumento defendido por uma das grandes escolas de escribas, enquanto outra escola apenas o legitimava em caso de adultério. Mas, para Jesus, até o adultério merecia perdão, enquanto que o divórcio, como direito do marido estipulado na lei mosaica, fora reconhecido apenas em razão da dureza dos corações... E não separasse o homem o que Deus uniu! Outra interpretação desse passo do ensino de Jesus, para além do imperativo de uma lei erga omnes, isto é, de uma norma que nem sequer é derrogável, pode pois ser a de que o marido sozinho não possa desunir o que a mulher também não pode, e até talvez possa não querer.

 

   Tenho amigos e amigas divorciados, crentes e não crentes, uns ou umas aliviados e enfim felizes, outros e outras (muitas) com feridas que não saram ou levaram muito tempo a sarar. Nenhum deles, nem qualquer delas, alguma vez me disse que o seu divórcio tivesse sido simples felicidade, nem sequer desejo genuíno. Mesmo para quem, desde o início do processo de separação, ansiou pelo seu termo, ou até procurou o esquecimento de uma vida comum, a simples perspetiva de um afastamento necessário foi sempre traumática, mais ou menos dolorosa, a menorização da dor sendo, frequentemente, função da esperança numa vida melhor. Quando conseguiram esquecer e refazer uma família - que, aliás, em muitos casos, também acolheu filhos anteriores - redescobriram, reconhecendo-a como tal (os crentes) ou saboreando apenas o seu conforto (os não crentes), a misericórdia de Deus. Da qual cada cristão deve procurar ser sacramento. Abriu-se-lhes a porta da alegria para que Deus os criou. Homem e mulher, na sua integridade humana. Acabo, Princesa de mim, transcrevendo o parágrafo 152 da exortação apostólica pós sinodal do papa Francisco, a Amoris Laetitia:

 

   Assim, não podemos, de maneira alguma, entender a dimensão erótica do amor como um mal permitido ou como um peso tolerável para bem da família, mas como dom de Deus que embeleza o encontro dos esposos. Tratando-se de uma paixão sublimada pelo amor que admira a dignidade do outro torna-se «uma afirmação amorosa plena e cristalina» mostrando-nos de que maravilhas é capaz o coração humano, e assim, por um momento, «sente-se que a existência humana foi um sucesso». As citações feitas pelo Papa são respigadas de Über die Liebe (Sobre o Amor), de Josef Pieper (Munique, 2014).

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

    Nestes dias de início de Quaresma, tenho sido chamado a ler e reler as bem aventuranças, as obras de misericórdia e outros recados de Jesus acerca do bem e do mal, sobretudo dos atos em que se reconhece o amor, este sim, como a lei de Cristo. O Reino de Deus é dos pobres, dos que têm fome e sede de bem, dos que procuram construir a paz pela justiça, pela generosidade e pela misericórdia. No dies irae, os chamados serão os que socorreram, deram de comer e de beber, acolheram e abrigaram, visitaram e consolaram, percorreram caminhos difíceis em busca dos que se tinham perdido ou desviado, lembraram aos humanos a vocação do Pai, para que nenhum deles ficasse de fora da grande reunião... O perdão que, no Pai Nosso, a Deus pedimos tem como condição perdoarmos quem nos ofendeu... Já há tempos te escrevi, Princesa de mim, que sempre pensei na parábola do filho pródigo como se o próprio Deus, ao abraçar-me, pedisse perdão comigo. Mesmo no Antigo Testamento, os textos a que, em sentido lato, chamo proféticos falam-nos de aliança, faltas e reconciliação. E muito me lembro desse passo do evangelho de Mateus (6, 14), logo a seguir ao "não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal"... Diz assim: Sim, se desculpardes aos homens as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos desculpará; mas se não os desculpardes, tampouco o vosso Pai desculpará as vossas faltas. Como recordo S. Marcos (11, 25): E quando estiverdes de pé, em oração, se tiverdes algo contra o vosso irmão, desculpai-o, para que o vosso Pai que está nos céus vos desculpe também das vossas ofensas. A religião que Jesus prega é interior, vive no segredo dos corações. Os atos rituais visíveis são meras manifestações - por vezes podendo ser enganadoras, hipócritas - de uma pertença ou filiação religiosa. Por isso, a segunda condição da oração agradável a Deus, logo depois da sine qua non que é a disponibilidade para o perdão, é o retiro:  E quando rezardes, não façais como os hipócritas, que gostam de se exibir nas sinagogas e nas ruas, para serem vistos. Em verdade vos digo que receberam já a sua recompensa. Quanto a ti, quando rezares, retira-te no teu quarto, fecha a porta e reza a teu Pai em segredo. E teu Pai, que está no segredo e te vê, recompensar-te-á. Mas tal oração, que é como uma entrega à presença invisível do Pai, tem outra face, nascida desse silêncio e dessa comunhão: o amor do próximo. No seu Jesus (Piper-Verlag, München, 2012), Hans Küng escreve luminosamente, sob o título de Aquele que justamente precisa de mim: Jesus não se interessa muito pelo amor universal, teórico ou poético. Para ele, amar não é, em primeiro lugar, ter palavras, sensações, sentimentos. Para ele, amar é, antes de mais, agir com força e coragem. Exige um amor prático, logo concreto. À pergunta sobre o amor, torna-se-nos, desde logo, necessário dar uma segunda resposta, mais precisa: para Jesus, o amor não significa apenas o amor dos homens, mas essencialmente o amor do próximo...   ... É no amor do próximo que se verifica o amor de Deus. Mais ainda: o amor do próximo é a exata medida do amor de Deus. Só amo Deus pelo quanto amar o meu próximo

 

   Por todas estas - e outras - meditações, fui vivendo a minha fé cristã como vocação, isto é, como resposta a um misterioso apelo a ir descobrindo o Deus que se esconde e me chama desde o coração de tudo. Caminho no escuro, mas vou-me lembrando de que, afinal - como tantas vezes, Princesa, te repeti -  tudo é graça, sobretudo essa visão do rosto - quiçá imaginário em traços desenhados, mas tão humano e próximo do meu coração - do Deus que acredito incarnado em Jesus Cristo. Nem me canso de perseguir, por muitas leituras de escritores em várias línguas e de diversas confissões, os retratos múltiplos do chamado "Jesus histórico", eu que, desde muito novo, tanto me fixei na figura joanina do Verbo princípio de todas as coisas, que veio habitar connosco, para que, conhecendo-o, acreditássemos no Pai, aprendêssemos o amor, o vivêssemos, e assim fosse completa a nossa alegria. Várias vezes te confessei que, da muita literatura em diferentes línguas dos povos do mundo que fui lendo ao longo da vida, o prólogo do Evangelho de S. João é, muito provavelmente, o texto que mais intimamente me marcou: como se, em vez de ter ficado com um Z de Zorro na testa, ter o V, ferido pelo Verbo, no coração. Toda a minha religião se pode resumir nessa vocação que me deixou essa leitura e o desenvolvimento dela na primeira carta do mesmo João. Apesar do rigor ou maior veracidade de calendários, datas, personagens e ambientes da vida de Jesus, em cotejo com os relatos dos sinópticos, estes falam-nos mais do judeu que ele era, do ser humano, e serão, assim, campo mais propício à reconstituição do Jesus histórico como ser real. O Jesus Cristo de S. João, o "meu", é mais teológico e místico, menos terrenal, chama-me mais a compreender o mundo e a vida com um olhar novo, e assim também me ilumina a leitura dos sinópticos, onde muitos episódios, afinal, apontam para esse escândalo, para alguns, metanoia para muitos, que é a relativização da Lei e do Templo que Jesus, judeu piedoso, traz : a Lei não é um fim em si, nem encerra todas as vias para Deus, o sábado é feito para o homem, não o homem para o sábado; servir o homem, assisti-lo, tem prioridade sobre a observância da lei; a devoção ao templo, o culto, a liturgia, tudo isso vem depois da reconciliação com os outros e do serviço que lhes devemos.   

 

    Por outro lado, Princesa, quero ainda deixar-te claro que não me assusta nem indigna qualquer trabalho de investigação histórica, arqueológica, exegética, hermenêutica, acerca dos textos e circunstâncias da vida de Jesus e dos relatos dela, nem misturo trabalho sério e pesquisa científica com invenções de escritores sensacionalistas. Tal como não confundo a perspetiva da fé com a análise racional de factos e documentos. Surgem hoje, com frequência, publicações de trabalhos de pesquisa e teses várias acerca, por exemplo, de textos bíblicos, sua datação, identificação dos seus autores e redatores, circunscrição dos momentos e ambientes históricos e culturais em que foram escritos... Isto é: mesmo para um crente, o suporte material e a perspetivação cultural de qualquer texto pode e deve ser objeto de análise disciplinar objetiva e rigorosa. O que, pelo prisma da minha fé e exercício espiritual, Deus me diz passa-se noutra zona, nessa intimidade em que cada um de nós ouve e se pode abrir à aparição do desafio de Deus... Assim, o magistério da Igreja justifica-se enquanto lembrança, memória da vocação universal de Deus, pelo que, parece-me, deverá procurar que a boa nova da alegria do amor, com o que este implica de entendimento e compaixão, reciprocidade e dádiva, acolhimento e perdão, não seja esquecida e, menos ainda, encoberta por monolitismos dogmáticos e seus discursos. Sobretudo será aconselhável que os pertinentes pregadores entendam os sinais dos tempos, o movimento e mudança do mundo e das culturas, as circunstâncias diversas em que todos e cada um de nós nasce e medra, se interroga, hesita, erra e sofre, mas afinal sempre procura ser feliz.

 

   Comecei esta carta com outras ideias para te contar, mas termino aqui. Deixo para próximas umas reflexões: sobre o pensamento teológico como instrumento do entendimento religioso do mundo; sobre um direito canónico que teima em enquadrar e regular o presente e o futuro por normas datadas, talvez adaptadas a circunstâncias históricas e culturais já desvanecidas ; sobre o escândalo de uma excomunhão de divorciados recasados (tantas vezes vítimas de abandono, sevícias e injustiças perpetradas pelos seus (EX)-cônjuges canónicos) dos sacramentos administrados por uma igreja em que, todavia, muitos bispos têm consentido que permaneçam ou retomem serviço padres pedófilos renitentes, enquanto excluem do ministério eclesial padres que assumem, livre e cristãmente, a paternidade de filhos e suas responsabilidades familiares.

 

    Repara, Princesa de mim, que eu não contesto a opção da abstinência sexual como caminho de realização do amor. Conheço inúmeros exemplos de monges e monjas, freiras e frades de olhar claro e sorriso aberto que assim vão descobrindo a plenitude dos seus corações, e eu mesmo, quando tentei igual caminho, admirava até leigos casados, como Raïssa e Jacques Maritain, que, convertidos, acabaram por acordar que a sua metanoia também se manifestasse numa união tão só espiritual do seu casal. Só que - eis os factos - não somos todos assim, nem da mesma força. Quiçá por bem: deserto estaria o mundo se o prazer da carne não nos incitasse à reprodução da espécie, e nem sabemos até que ponto o "ódio ao sexo" não o terá, afinal, descontextualizado, atirando-o para fora da alegria responsável, para a zona do prazer "irresistível"... Basta vermos publicidades na TV e ouvirmos os curas falarem de contraceção.

 

   Já o Santo Papa João XXIII dizia - ouvi-o por relato fidedigno de testemunhas presenciais de um encontro em que estavam também portugueses: «Deixem a decisão sobre a pílula aos casais...» Na verdade, há sexo e sexo, há atos manifestos de amor, como os há de agressão e violência, há gozo pelo prazer e alegria pelo encontro. Jesus Cristo não fala de sexo, muito menos legislou sobre ele. A obsessão clerical com o tema, além de ter outras raízes obscuras, algumas certamente para serem olhadas psicanaliticamente, surge primeiro e num ambiente de ansiedade milenarista, logo já no século I, quando primitivas comunidades cristãs esperavam o fim deste mundo e a vinda do Reino de Deus. Mas esse reino não veio, nem no tempo da vida terrena de Jesus, nem depois dele... ...talvez porque tenha ainda de ser construído connosco como fermento que leveda, ou grão de mostarda que se enterra e virá ser uma grande árvore, à sombra da qual, sem distinção, virão descansar além das aves do céu, os pastores e as ovelhas tresmalhadas que eles incansavelmente vão procurar para que recolham à bênção do rebanho. A vocação cristã é a amoris laetitia, a alegria do encontro e da reconciliação. Está no oposto da exclusão, recusa-a.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Deixa-me voltar à história do povo hebraico, muito resumidamente, apenas como referência.  Datas e factos citados por opção minha, de preferência respigados de autores judeus, com confiança naqueles que procuram aproximar-se das "verdades" que a historiografia contemporânea vai apurando. Esqueço as polémicas e vou escolhendo uns "diz-se que". Tampouco hesito em saltar por cima de hiatos ou relatos pouco verificados. Simplifico tudo, serei telegráfico, não estou a dar aulas, muito menos sobre matérias em que sou muito mais curioso do que sabedor.

 

    Diz-se que, por volta de 1760 a.C., Abraão, patriarca e pai dos povos (árabe, por via do seu primogénito Ismael, filho de Agar, serva de Sara, sua mulher, e, claro está, no relato da Bíblia hebraica, de Isaac, donde descendem os hebreus, filho da própria Sara, anciã que concebe por milagre de Yahvé), terá saído da Suméria (Ur?) para Canaã, entre o rio Jordão e o Mediterrâneo. Por lá ficam os patriarcas sucessores, até que secas e fome os empurram para o Egipto. Poupo-te aqui os relatos sobre Isaac, seus filhos Esaú e Jacob, os doze filhos deste, que originam as tribos de Israel, ou a sua luta com o anjo, que lhe trará o nome de Israel ("Deus é forte", ou "forte contra Deus"). Lembro-te um deles, Judá, e outro ainda, cuja história, contada na Bíblia, merece leitura e atenção: é a história de José, undécimo filho de Jacob e, com Benjamim, um dos dois de Raquel, serrana bela, o início, ainda no livro do Génese, do Êxodo que de lá tirará os israelitas, dessa libertação que marca bem o princípio do que será Israel como nação, nem sempre, nem por sombras, constituída em Estado. A passagem do Egipto para Canaã, onde os israelitas se estabelecem (com ou sem conquista, discute-se), é marcada pela paragem no monte Sinai e a atribuição da Lei (Torá) por Moisés. Seguem-se quase três séculos de reinos ou governos tribais - há quem lhes chame democracias... -, até ao início do período monárquico (Samuel, Saúl, David e Salomão) em 1020 a.C. No final do reino de Salomão, este divide-se entre Judá e Israel, e inicia-se um período de independência política por excelência, com reis sucessivos e muitos profetas a avisá-los. Em 722 a. C., os assírios destroem Israel e, em 582, os babilónios ocupam Judá e exilam a população: Sôbolos rios que vão / por Babilónia me achei / onde sentado chorei / as lembranças de Sião… Regressa o povo, mais tarde virão as conquistas persa e helenística (Alexandre Magno), até 165 a.C. (recuperação de soberania com os príncipes asmónidas) e, finalmente, a conquista romana que, em 135 d.C., porá fim definitivo à independência possível de qualquer estado judeu. O Templo de Jerusalém fora arrasado, acentua-se, nos judeus restantes e nos inúmeros de uma Diáspora prosélita - que vai convertendo gente, tal com também albergará, nas suas sinagogas, reuniões do cristianismo nascente - uma consciência nacional israelita que é, como desde o início fora, eminentemente crença religiosa. 

 

   Sobre a língua hebraica, deixa-me dizer-te mais pouco do que sei que foi, foi sendo e hoje é. E também como terá sido, tal como o aramaico, língua bíblica mais por tradição oral do que escrita, ainda que qualquer daqueles dois idiomas palestinos tenha veiculado textos bíblicos redigidos, desde o século X a.C., como demonstram documentos entretanto descobertos. O hebraico antigo evoluiu de línguas faladas pelas populações de Canaã, já antes do estabelecimento dos israelitas, tais como o fenício, o moabita e o aramaico, todas pertencentes, como o árabe, ao ramo ocidental das línguas semitas, descendentes do acádio. O aramaico, numa região muito influenciada, culturalmente, pelos encontros entre vários povos nómadas, terá sido o idioma que mais se espalhou, e dele descenderia, parcial e diretamente, o hebraico antigo. Os textos dos diferentes livros da Bíblia judaica registaram, entre o século X a.C. e a nossa era, tradições orais, postas então por escrito, maioritariamente em hebraico, mas também em aramaico.

 

   Para o que aqui nos interessa, Princesa de mim, hebraico e aramaico eram falados pelos judeus palestinos desde meados do século IV a.C. até ao primeiro terço do século II da nossa era, já que depois de 135, ano da queda final do estado de Israel (que, aliás, muito antes, desde a tomada de Jerusalém por Pompeu, em 63 a.C., caíra sob o controlo e, depois, domínio romano, como sabes), o hebraico se foi apagando, mantendo-se como língua vernácula o aramaico e, na Diáspora como na própria Palestina, o grego. A importância do idioma helénico já se tornara notada pela tradução dos Setenta, na Alexandria da Diáspora. O texto grego, a partir do século II, com o acrescento do Novo Testamento, que, junto à Bíblia judia, formaria a cristã, torna-se então referência para muitas traduções (e, ainda agora, em Portugal, Frederico Lourenço vai publicando a sua versão lusíada do texto helénico).

 

   O hebraico permaneceu todavia a língua religiosa e litúrgica do judaísmo, bem como a dos sábios e teólogos judeus. Além disso, sobrevive sob outra forma, literária, a mishnaica, apelido derivado da antologia Mishná que, no século II, reuniu vários textos, sobretudo, creio, comentários à Lei, escritos num hebraico literário do tempo. Recolhe, este, vocábulos provenientes do aramaico, do persa, do grego, do latim, e sofre, por essas influências externas, variações semânticas e gramaticais estranhas à língua antiga. Não te contarei mais história do hebraico, que aliás conheço pouco e mal: olhando para um texto escrito nessa língua, tudo o que sei é que se lê na horizontal, e da direita para a esquerda, como o árabe. E disse. Mas traduzo-te passos dum artigo do professor V. Nikiprowatzky, do Collège de France, que nos ajudam, Princesa de mim, a entender melhor observações de David Grossman:

 

   O período moderno do hebraico começa na segunda metade do século XIX, com a predominância do estilo russo. O despertar da nação judia e a sua afirmação política transformam a língua forjada pelos grandes autores do judaísmo russo em vernáculo, isto é, no atual hebraico vivo, ou israelita.

 

   A necessidade de exprimir as realidades complexas da vida contemporânea tinha obrigado o hebraico dos autores russos a recorrer a todas as potencialidades do vocabulário hebraico, em vez de se restringirem ao léxico da Bíblia. Prolongando e sistematizando esse esforço de renovação linguística, E. Ben-Yehuda publica, na segunda década do século XX, um "Thesaurus totius hebraitatis" [acho curioso, Princesa, o título em latim], que tem um papel decisivo na formação do hebraico atualmente falado no novo estado nacional. Ben-Yehuda nem sequer hesita em preconizar empréstimos de certas línguas vivas, como o árabe. Voltando a ser língua quotidiana, o hebraico não pára, doravante, de enriquecer, como qualquer língua viva, o seu dicionário, ao sabor das contingências históricas...

 

   ... A pronúncia do hebraico moderno é conforme à dos judeus orientais, ou sefarditas. A pronúncia dos judeus da Europa, ou asquenazes, mantém-se por vezes na poesia...

 

   Pessoalmente, não só compreendo a necessidade de recriação duma língua nacional (se não, como se entenderiam os cidadãos israelitas provenientes de desvairadas partes?), como admiro o engenho, a persistência e a modernidade com que tem vindo a ser constituída e articulada. Por outro lado, devo reconhecer que tal também pertence ao génio judaico que a Diáspora, enquanto estar em mundos sem ser deles, incansavelmente foi alimentando. Lembra-te, Princesa de mim, do ídiche e do ladino.  

 

   Ídiche tem raiz alemã, vem de Jiddish que, evidentemente, que dizer Jüdisch (judeu). Terá surgido por volta do ano 1000, na Renânia alemã, e levado para a Europa Oriental (Polónia e Rússia, entre outros) a partir do século XIV. Pelo Leste europeu se foi espalhando como língua das comunidades judias e, a partir dos anos 20 do século XX, tornou-se mais língua nacional (da nação judaica na diáspora russa) do que língua religiosa. Calcula-se que, cerca de 1939, 12 milhões de europeus falariam ídiche.

 

   Já o ladino surge como língua litúrgica dos sefarditas, judeus da diáspora greco-turca, magrebina e ibérica, por ordem de deslocação histórica e geográfica e a mesma, mas inversa. O seu vernáculo, ou língua popular, será o judio-espanhol ou judio-português, sendo que todas estas designações são muitas vezes confundidas. Ao que parece (repito o que já li ou ouvi dizer), rabinos ibéricos terão traduzido a Bíblia hebraica para ladino, essa espécie de luso-castelhano hablar-falar, que as comunidades judias, que já não sabiam hebraico, usavam no seu seio. Claro que o «papiá judeu» - digo assim lembrado do «papiá cristiano» que descobri em Malaca e na Indonésia, curioso crioulo português -  também acolhera palavras do turco, do grego, do latim, etc.... O meu querido Espinosa também falou assim.

 

   Tudo isto, Princesa de mim, me leva a pensarsentir mais profundamente a profunda verdade universal daquele dito do nosso padre António Vieira, que abrevio: Para nascer, pouca terra, Portugal. Para morrer, o mundo inteiro. No sentido espiritual, no que a peregrinação nos é essencial, há muito de judeu em nós, Princesa.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Corri a abrir um livro que recebi por correio recente, ao deparar hoje com uma entrevista de David Grossman, escritor israelita que desconhecia, ao jornal Público. O tal livro, que eu já folheara no princípio da semana, é uma tradução, com longa introdução e abundantes notas, da Kabbala denudata de autoria ainda hoje discutida, mas atribuída a Christian Knorr von Rosenroth, datada de 1684, na sua edição em Frankfuhrt. O título original completo dessa obra setecentista, que traduzo para português, reza assim: Esboço da Kabala Cristã, isto é, Sincatabase Hebraica, ou Breve Aplicação da Doutrina Cabalística dos Hebreus aos Dogmas da Nova Aliança, para Formar uma Hipótese Útil à Conversão dos Judeus... Trata-se de um diálogo ou debate, em doze capítulos, entre um cabalista judeu e um filósofo cristão, de que voltarei a falar-te em próxima carta, bem lembrado de que uma certa evolução semântica fez a palavra cabala dizer-nos hoje algo mais próximo de sinistra conspiração do que de mística, seu significado original. Mas neste dia, não fui ao livro por pensar na cabala, mas para encontrar uma citação que o responsável pela edição francesa a que me refiro (Les Belles Lettres, Paris, 2018), o frade dominicano Jérôme Rousse-Lacordaire, usa para epígrafe da sua introdução intitulada À l´Ombre de la Kabbale. Trata-se de um passo de Max Jacob, tirado de Les Oeuvres burlesques et mystiques de Frère Matorel mort au couvent. Traduzo-o para ti, mas lembrado do meu amigo Marcello Mathias, que se sorri apelidando-me de místico excessivo... Aqui vai:

 

   Contudo, ó demasiado místico filósofo, eis-te inquieto, não estarás a insinuar que os ignorantes tomam os símbolos por realidades, e que os outros tomam as realidades por símbolos?

 

   E que tem isto tudo a ver com as cinco páginas que o suplemento Ypsilon do Público dedica a David Grossman, incluindo uma elogiosa resenha do seu último livro publicado em português (Um Cavalo Entra num Bar, tradução de Lúcia Liba Mucznik, D. Quixote)? Obra, aliás, também aconselhada por Francisco Louçã, nesta mesma 6ª feira, na sua habitual aparição no jornal da noite da SIC-Notícias, e que, pelo que me foi dado perceber, trata de modo estimulante, ainda que ficcional, o humor judeu. Não sei se tal humor se reproduz por clones em Israel e todas as várias reuniões da diáspora, mas o que conheço - dos filmes do Woody Allen e de muitos convívios pessoais com judeus em New York e não só -  leva-me a concordar com a apreciação feita por Isabel Lucas ao livro de Daniel Grossman: Rir ou não rir não é uma opção, há verdade na gargalhada, e Dovaleh [o protagonista, contador de piadas] sabe. Ele é um humorista porque conheceu cedo o riso dos outros, os que não riam com ele mas dele. Na infância e na adolescência ele era a piada má, e agora, adulto, quase velho, quer olhar-se de frente, pela primeira vez.

 

   E eu dou comigo, Princesa, a parafrasear Max Jacob: os sobreviventes tomam as piadas por realidades, ou tomarão estas por piadas? Isto é: não será o humor incansável um remédio cabalístico para aguentarmos o trágico? Mas pode ele ser universal, como a música que faz o belo milagre de nos harmonizar, de nos pôr -  e somos tão diferentes! - a comungar as mesmas emoções? No período do último Natal, meditei muito sobre o desentendimento, não tanto enquanto diferendos ou discórdias, mas muito mais enquanto ausência de comunhão humana. Ao longo da vida conheci, graças a Deus, muitas amizades, amores e famílias constituídas por pessoas que inicialmente nem falavam a mesma língua, vinham de povos e culturas, não só diferentes, mas ignorantes uns dos outros. Eram felizes, viviam em profunda comunhão humana, tinham sabido abrir a porta para o caminho da descoberta mútua contínua, que é a única via do amor. Mas, infelizmente, também todos os dias deparo com relações quebradas e corações rasgados entre gente de igual nascimento e criação, que se combate por ganância, por egoísmo ou por soberba, cuja forma mais vulgar, generalizada e insidiosa, é a das chamadas verdades e dos pretensos direitos inatos. Será talvez aí que se confundem, em nebulosas dos espíritos, a cabala mística e a conspirativa, e as nossas boas intenções são nubladas por crenças, preconceitos e ingenuidades. Lê, Princesa de mim, com atenção, os seguintes trechos das declarações de David Grossman a Isabel Lucas (transcrevo do jornal, não traduzo):

 

   Sou muitas vezes questionado se Dovaleh é uma metáfora de Israel. Não acho que uma pessoa possa ser a metáfora de um país, mas há uma ou duas coisas que são similares na vida de Dovaleh e a realidade aqui: primeiro, a contradição entre uma interioridade muito suave e um exterior muito duro; segundo, o sentimento trágico de sentir que se vive em paralelo com a vida que se poderia ter ou devíamos ter. Em 1967, quando Israel venceu a Guerra dos Seis Dias e ocupou todos estes territórios, a grande vitória militar revelou-se uma tragédia nacional: fez de nós ocupantes, criou de modo profundo em nós uma bebedeira de poder que nos trouxe à situação atual, em que há muito pouca esperança para o futuro, com israelitas e palestinianos numa espécie de bloqueio ou beco sem saída. Esta vertigem sem esperança nunca fica de facto vazia, porque há sempre elementos com uma agenda clara, fundamentalistas fanáticos, uma agenda fascista, racista, que está a pular, a ditar o nosso futuro e a sequestrar o nosso futuro e o dos nossos filhos. A situação parece bastante inoperante, sem saída.

 

   Já quando perguntado sobre «o que pensa da decisão de Trump reconhecer Jerusalém como capital política de Israel e mudar para aí a embaixada americana», começa por responder dizendo: Antes de mais, Jerusalém é a capital de Israel. Isto é histórico. Quanto a histórico, resposta mais correta seria dizer que Jerusalém foi a Cidade Santa, a do Templo da Aliança, a das Duas Pazes (terrenal e celestial), mais do que capital de qualquer reino judeu: foi conquistada pelo rei David, da tribo de Judá, em 997 a.C. (em tempos, aliás, para muitos historiadores, ainda não pertinentemente determinados, mas conforme consta dos relatos bíblicos). Depois te falarei, resumidamente, dessa ideia de estado ou reino antigo.

 

  Mais adiante, diz Grossman que no futuro, se avançarmos para negociações de paz entre nós e a Palestina, devemos trazer a questão de Jerusalém como parte de um equilíbrio complicado e devemos decidir que Jerusalém seja dividida a leste, o lado da Palestina, e a ocidente, o lado de Israel. E fazemos o acordo de como nos movimentarmos entre os dois lados, podendo ir rezar aos lugares sagrados das duas religiões. Isto terá de ser feito de forma muito lenta e com uma solução muito detalhada, e não por uma declaração «fast food» do senhor Trump. Este arrazoado, levando em conta apenas judeus e muçulmanos, escamoteando a forte presença de cristãos, muitos destes sendo palestinos ali instalados há séculos, tal como os judeus propriamente do sítio (não os adventícios ocupantes), reflete a influência da propaganda sionista, que insiste em apresentar um Israel "forte, fiel, façanhudo", todo judeu, hoje mais do que nunca guardião da fronteira avançada contra o pernicioso islão. Ignora a verdade histórica e, sobretudo, lamentavelmente, os exemplos passados de uma Cidade do Mundo que, ainda no fim do domínio otomano, conseguiu ser gerida em paz, na convivência e acordo de todas as suas comunidades étnicas e religiosas (donde os quatro bairros, ainda hoje existentes: judeu, cristão, muçulmano e arménio). Curiosamente, leva-me a recordar um vídeo, desses que circulam pela rede (ou teia?) chamada "internet", e que querida amiga me reencaminhou: aí, com ar científico e professoral, um PR (leia-se pi ar), além da treta de Jerusalém ser capital do estado de Israel há mais de 3000 anos, diz-nos que os muçulmanos rezam virados para Meca, e só os judeus para Jerusalém...

 

   Noutro trecho da entrevista, Grossman confirma que escreveu o livro em hebraico (aliás, o prémio Man Booker International 2017 foi-lhe atribuído e, simultaneamente, à sua tradutora inglesa), e diz: Sim, o hebraico é uma das línguas mais antigas. Parte da Bíblia é escrita em hebraico. O que mais é preciso para provar quão antiga e importante é esta língua para as religiões e cultura ocidentais e islâmica? O modo de narrar que está na Bíblia afetou tanto outras culturas e religiões! Para nós, em Israel, o hebraico é um milagre. Foi uma língua em dormência, não uma língua falada, durante quase dois mil anos. Renasceu no início do século XX quando quase ninguém a falava, era apenas a língua das orações, uma língua sagrada. E por causa da insistência e devoção de uma pessoa, Eliezer Ben-Yehuda (1858-1922). Ele reinventou a língua hebraica, baseando-se na Bíblia, no Talmude ou no Mishná. Ele beijou a bela adormecida e viu-a acordar para a vida, e hoje quase toda a gente em Israel fala hebraico, as pessoas fazem negócios em hebraico, apaixonam-se em hebraico, o Exército fala hebraico, as pessoas mais jovens fazem tudo em hebraico. E dá um prazer especial escrever em hebraico, porque se pode escrever numa língua cheia de identidade, de herança e jogar com as diferentes camadas dessa língua. - Continuam a inventar-se palavras? - Sempre! Por causa da anormalidade de uma língua muito antiga que quase se perdeu e que teve de ser reinventada, tiveram de se inventar palavras que faltavam. Por exemplo, Eliezer Ben-Yehuda teve de arranjar um nome para a palavra "tomate". Não havia tomate no tempo da Bíblia, nem gelados, e ele inventou-a. O nome que deu ao tomate foi o que em inglês corresponde a «flirtatious lady», porque ela cora nessa situação [«agvania» em transliteração]. É uma mulher ruborizada [risos]. Quando estou a escrever e chego a um momento em que me falta uma palavra em hebraico e ela não existe, então muitas vezes essa palavra surge numa forma que me parece clara, e imediatamente toda a gente sabe o seu significado, sabe o que quero dizer, como se ela fosse encaixar num lugar que lhe estava reservado.

 

   O linguista que não sou, um essoutro qualquer estudioso rigoroso, poderia dizer que, afinal, a exemplo dos mitos histórico-políticos que hoje se vão (re) inventando, o hebraico que ali se constrói é uma pretensão de língua sem historial de vox populi. Indubitavelmente uma tentativa de unidade linguística de populações provenientes de muitos lados da diáspora, transportadoras de culturas e linguagens diferentes, não sei se também escamoteadora das línguas antigas que muitas dessas comunidades falavam, como o ídiche ou o ladino. Tal como, no século XV, os Reis Católicos uniram reinos de Espanha, pela imposição da uniformidade religiosa. Não sendo cientista nem sábio, limito-me a recorrer a outras fontes de apreciação. Sem, todavia, resistir a remeter-nos primeiro, Princesa de mim, para a poética informação de que «agvania» afinal traduz «flirtatious lady», posto que o fruto tomate evoca o ruborizado rosto de uma dama em amorosos calores... Tanto quanto lembrar-me posso, tomate deriva do inca tomatl, assim se registou o nome desse fruto em castelhano, cerca de 1532, quando nos trouxeram a pertinente solanácea do Peru. Aliás, peru também chamamos nós a essa pobre ave, natalícia iguaria a que, pelo thanks giving, os americanos do norte chamam turkey (da Turquia, herança britânica), e os franceses insistem em tratar por dinde (da Índia, já que o maneirismo gaulês dá sempre prioridade às senhoras pelo que ao peru macho chamará dindon). Afinal, pergunto eu, que nem sobre animais sou sábio: donde veio o bicho? do Perú, da Turquia, da Índia? Mas, correndo o sério risco de ruborizar-te, Princesa, volto ao tomate, que os italianos tratam, bíblica e italicamente lembrados do pecado original, por pomo de ouro (pomodoro). Ou, como regista, sempre competentemente, António Houaiss, no seu Dicionário da Língua Portuguesa : Tomate já figura no dicionário de Bluteau (1721), que comenta: «Não aprova Ruellio o nome de "Poma Amoris", que alguns dão aos Tomates por serem fermosos à vista, porque todos os mais frutos, que tem esta excellencia, justamente pretenderiam este mesmo nome; & se nós lhes chamamos Tomates, dando a entender que a sua fermosura convida a gente, que os vê, a Tomallos, toda a mais fruta vistosa, &  agradável aos olhos se poderá com razão chamar Tomate. E noutra entrada regista que "tomates, substantivo masculino no plural, significa também (desde 1899?), testículos e, por extensão, o conjunto das qualidades viris: valentia, audácia, etc."...

 

   Com este pouco ou nada de riso pícaro, deixo-te, Princesa de mim, até próxima carta, a voltar ao assunto subjacente. Afinal, estas cartas mais não são do que uma conversa entre nós.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

Paul Valery

 

XX - CRISE E RUTURA DOS VALORES E CHOQUE DA GUERRA - II

 

Para uns, a origem da crise no século XX era terem ruído os valores tradicionais, essencialmente os religiosos. Para outros, a divinização da ciência e idolatria dos cientistas, o mito do progresso científico, substitutos das crenças tradicionais, entre elas a religiosa. Apesar de defenderem que o afastamento de Deus tinha ocorrido em pleno século XIX e, mesmo assim, a humanidade tivesse vivido um período de um expressivo e significativo otimismo.

 

A razão e a racionalidade fomentariam a dignidade humana e a liberdade individual, trariam a paz, a justiça social, a promoção e reconhecimento dos melhores. A guerra viria provar o contrário, dada a sua violência e totalitarismo, produzindo armas letais que punham em perigo a sobrevivência da humanidade e de melhores condições que possibilitassem uma vida interior mais humanizada. As tentativas de institucionalização da paz internacional, após a primeira guerra mundial, fracassaram, com a malograda Sociedade das Nações. Reflexões pessimistas emergem, revelando a guerra o que havia de não adquirido e de transitório na civilização do princípio do século XX.

 

O filósofo, escritor e poeta francês Paul Valéry, em 1919, escreveu: “Nós, civilizações, nós sabemos agora que somos mortais. (…) Agora vemos que o abismo da História é suficientemente grande para todos. Sentimos que uma civilização tem a mesma fragilidade que uma vida. (…) E não é tudo. A lição escaldante é ainda mais completa: não bastou à nossa geração aprender por experiência própria como as coisas mais belas e as mais antigas, as mais formidáveis e as mais bem ordenadas são perecíveis por acidente: viu na ordem do pensamento, do senso comum e do sentimento, produzirem-se fenómenos extraordinários, bruscas realizações de paradoxos, deceções brutais da evidência”.

 

Mas se é verdade que este choque belicista colocou em causa a cultura cosmopolita, o clima intelectual e artístico, a crença no progresso e a prosperidade da sociedade da Belle Époque (Bela Época), que se iniciou no fim do século XIX (década 1870) até ao implodir da primeira guerra mundial (1914), também é verdade que foi um acelerador de novos meios de comunicação, massificando-os e difundindo-os junto de um público mais vasto, através da rádio, do cinema e do disco, por exemplo.

 

Face à transitoriedade da vida, foi ainda um acelerador poderoso para a fúria de viver, o culto do fruir, gozar e usar a vida ao ritmo do dia a dia, para os que sobreviviam, dada a certeza de efemeridade da vida, aliada à maior incerteza do momento, agravada pela mortalidade da guerra. Literatura e cinema fizeram o seu culto.

 

O mesmo sucedendo a nível das convenções morais, incluindo o Reino Unido, profundamente afetado pelo choque da guerra, exemplificando-o o filme Mrs Henderson, de Stephen Frears, dado que: “O puritanismo, quando a vida se tornara tão ameaçada e os prazeres tão raros, sofrera rudes golpes. Os breves encontros do soldado de licença harmonizavam-se mal com o respeito pelo ritual vitoriano do noivado, as convenções do decoro já não eram admitidas nos “cabarés para soldados”, os nascimentos fora do casamento tornavam-se aceitáveis, senão admitidos. De um só golpe a guerra acabava de tornar ultrapassado o código social e moral do século XIX. Dali em diante, os puritanos tiveram de resignar-se a tolerar a existência de comportamentos “não convencionais” ou até “emocionais” (Pierre Léon, História Económica e Social, Vol. V, Sá da Costa, Lisboa, 1982). Com mudanças no mundo feminino, em termos de estatuto e responsabilidades.

 

Amargura, ansiedade, dúvida, incerteza e inquietude, sucederam ao otimismo. A fé positivista e inabalável na ciência e na razão, foi posta em causa pelo filósofo francês Henry Bergson, para o qual a intuição é o motor de todas as coisas, não a razão nem a ciência, originando o intuicionismo, sendo o impulso vital que explica a evolução do universo (vitalismo). O cientista, apercebendo-se de que nem tudo é explicável racionalmente e em termos deterministas, abre portas à intervenção de Deus na ciência. Albert Einstein apresenta a teoria da relatividade pondo em causa a natureza absoluta do espaço e do tempo de Newton, surgindo uma súbita relativização de tudo o que até então era tido como inatacavelmente científico. O físico alemão Heisenberg criou o princípio da incerteza, reforçando o indeterminismo.

 

O que trouxe novas preocupações aos homens de letras, tornando a literatura mais angustiada e crítica, com reflexos da guerra. Franz Kafka, autor da angústia e do absurdo, Aldous Huxley, usando a ironia, Máximo Gorki, autor soviético empenhado politicamente, Malraux, Hemingway e Scott Fitzgerald, são alguns exemplos.

 

29.08.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

 

OS MEUS SETE PAPAS (II) 

1. Como alguns se lembrarão, estava perto do Taj Mahal quando, tarde e a más horas, soube da morte de João Paulo I, por tão pouco tempo meu quinto Papa.


De lá segui para as Pirâmides e para o Egipto, mas não foi entre faraós que soube do Papa posto em vez do Papa morto. Já tinha regressado à pátria, findo o meu mês de orientes, quando apareceu fumo branco por Karol Wojtyla, que, como o seu efémero predecessor, escolheu dois nomes e os mesmos dois nomes: João Paulo II. Tinha 58 anos e era o mais novo Papa desde 1846 e desde a eleição de Pio IX com 54 anos. Esse Pio IX que morrera cem anos antes da eleição de João Paulo II (a 7 de fevereiro de 1878) e fora o pontífice de mais longo reinado na história da Igreja (32 anos), se não contar a incerta duração do papado de S. Pedro. João Paulo II, que reinaria 27 anos, seguiu-os de perto.


Mas, em 1978, a grande novidade não foi a "tenra" idade do novo Papa, mas a sua nacionalidade. Pela primeira vez, desde 1523, ou seja, durante 455 anos, o Papa não era italiano e pela primeira vez, em quase dois mil anos de Igreja, o Papa era polaco. Com Wojtyla acabou uma era, que, em categorias adaptadas da história geral para a história da Igreja por Cristiani, no monumental Tu Es Petrus, correspondem à Idade Moderna (1447-1870) e à Idade Contemporânea (1870-1978). Desde o fim do Cisma do Ocidente até ao "ano dos três papas", dos 55 pontífices que se sentaram no trono de S. Pedro durante cerca de 540 anos, apenas dois não foram italianos: o aragonês Calisto III (Papa de 1455 a 1458, que, apesar das suas origens, gerou os italianíssimos Borgia) e o holandês Adriano VI, o tal que pontificou entre 1522 e 1523 e que tanto contrastou com os Medici que o precederam e lhe sucederam (Leão X e Clemente VII) em desgosto pelas artes e pelos ofícios. Mas isso já são outras conversas, pois que nenhum deles foi Papa das minhas vidas, embora nos renascentistas me tenha ficado muito da melhor parte delas. Das outras e desta.
 

2. "O ano dos três papas" (Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II) foi expressão corrente para o ano de 1978. Às vezes, penso em como teria vivido esse ano um amadíssimo amigo meu, poeta de 35 Poemas, que partiu deste mundo e destes papas em 1968, dez anos antes do ano trino. Digo-o porque, em 1963, quando morreu João XXIII, ele viveu premonitoriamente a febre papal que em 78 já subira uns pontinhos e em 2005 entrou no delírio a que se assistiu. Foi ele o primeiro a inventar a expressão "totopapa", enviando-me, e a outros amigos comuns, antes e durante o conclave, listas de probabilidades com os nomes que os eleitos escolheriam, caso viessem a ser os contemplados.

Dentre os inúmeros cartões retangulares que me mandou, escritos a tinta encarnada, copiei estes: Probabilidades (Flos Florum)


1 - Siri (Pio XIII, de que Deus nos guarde)
2 - Montini (Pio XIII, João XXIV ou Leão XIV que: vá lá com Deus)
3 - Lercaro (João XXIV - Deus queira)
4 - Confalonieri (João XXIV, Bento XVI ou Clemente XV, que talvez Deus queira)
Hipóteses desvairadas más
1 - Ottaviani (Alexandre IX, Calisto IV, Anastácio V ou Júlio IV)
2 - Larraona (Anastácio V)
3 - Marella (Bonifácio X)
4 - Cerejeira (Urbano IX)

Na altura, todos nos ríamos com estes totopapas, que ele corrigia, emendava e voltava a enviar. Mas a realidade excede sempre a ficção: tanto na morte de João Paulo II, como na eleição de Bento XVI, televisões e jornais ultrapassaram em excentricidade e delírio o meu amigo das "profundidades intactas". Muitos dos cardeais já nem sei quem são, como esse Lercaro que, pelos vistos, era o favorito dele. Não previu nenhum Paulo VI, mas previu um Bento XVI, que seria - se tivesse sido - o cardeal Confalonieri, "que talvez Deus queira".


Em 1963, no interior de círculos muito restritos e - vá lá - muito especiais, vivia-se assim a eleição de um papa, guardando segredo para os não iniciados que já suspeitavam da nossa sanidade mental, mesmo sem saberem destes desvarios. Quem nos diria - quem me diria? - que 42 anos depois, milhões viveriam momentos desses em delírio ainda maior, imaginando papas hindus, argentinos, chineses e até (como sempre) portugueses?
Tudo - tamanha mudança! - talvez se deva a esse Papa polaco que, entre 1978 e 2005, fez mais pelo pope system do que todos os seus antecessores reunidos. E volto a 1978.
 

3. Estou a começar a dizer mal de João Paulo II, ou, como alguns já lhe chamam, de S. João Paulo Magnus? Não estou. Quando foi do Jubileu dele, escrevi, neste mesmo jornal, um artigo em que disse o que pensava e penso dele, exaltando sobretudo o homem da fé.


Escrevi então e mantenho: "Não é o "Papa da minha vida", no sentido em que o foram, dos que conheci, João XXIII ou João Paulo I. Não é o Papa que me dê mais esperança ou que eu ame mais do que os outros. Mas tudo o que me separa dele de nada conta quando o vejo - sobretudo nos últimos anos - dar um tamanho testemunho que só consigo explicar pelo inexplicável mistério da Fé." Acima citei a idade com que foi entronizado. Mas parecia muito mais novo, respirando saúde física por todos os poros, o que muitos atribuíam a um passado de desportista. Três anos depois - apenas três anos dessa imagem pletórica - o atentado da Praça de São Pedro fez esse Papa de 60 anos envelhecer 20 em poucos meses. De então para cá, a pujança original quase que se esqueceu e o "atleta" deu lugar a um velhinho, atacado por mil doenças, até, no fim, mal se conseguir mexer ou falar.


Alguns lhe censuraram - velada ou abertamente - o lugar que deu, na sua própria biografia, ao dia 13 de maio de 1981, em que quase se realizou a sarcástica profecia de Buñuel no filme La Voie Lactée. Mas não é muito fácil compreender como é que se deu tal mudança num homem. Não é a questão da sobrevivência, pois que outros têm recuperado de coisas ainda piores. É a consciência, não proclamada, mas crescentemente interiorizada, de que a sua salvação teve e tem um sentido e que esse sentido só podia ser desvelado com a crescente transfiguração do corpo quebrado num corpo oferecido. Muito e muito se há-de escrever - pressinto-o - sobre os vários sentidos a dar a essa maceração. Por um lado, há a "papolatria" ou os riscos dela, tão temida nos anos 60 e tão escancaradamente recuperada nesta viragem de séculos. Mas reduzir à papolatria o calvário de João Paulo II é perder a dimensão fundamental dele. Falou-se do seu imenso carisma, do seu imenso magnetismo. Que querem dizer essas palavras? Quem saiba que explique e João Paulo II nunca explicou. Acreditou, não só com toda a sua alma (expressão já de si incompreensível), mas com todo o seu corpo e, como só este lhe podia ser imagem, fez dele o grande plano para um mistério insondável. Por agora - e por mais algum tempo - se falará ainda e muito do Papa que venceu o comunismo, sob o qual viveu desde os 25 anos. Mas não faltam nos textos papais - antes e depois da queda do Muro - advertências ainda mais graves contra a sociedade permissiva e libertária que era, aparentemente, a grande inimiga dos chamados "socialismos reais". Qual o significado da sua presença junto a Fidel em Cuba, tão estranho, por parte de um, como por parte de outro? Qual o sentido das suas mil viagens? Qual o sentido dos "estádios cheios e das igrejas vazias"? Qual o sentido do seu altivo moralismo? Porque o aplaudiam milhões de jovens que depois não fundavam famílias de 14 filhos, como nos tempos de Maria Teresa da Áustria, ou nem sequer se precipitavam para os ter, como nos tempos da geração dele? Quanto mais medito na ação deste Papa, mais ela me parece paradoxal, mas de um paradoxo que não desafia a razão, antes a busca. Por isso, grande parte do mistério de João Paulo II só será percebido com a passagem do tempo e com os pontificados que se seguirem ao deste Papa tão tirolês quanto carpático ou, se se preferir, tão terra a terra, como céu a céu.
 

4. Sabe-se como foi recebida a eleição de Bento XVI, conhecem-se os juízos que já se fizeram. Mas não se tem reparado muito (ou então sou eu que tenho andado muito distraído) que ao turbilhão de abril (velório e exéquias de João Paulo II, conclave, etc.) se seguiu um estranho e agudo silêncio. Ouve-se Bach no Vaticano (talvez pela primeira vez).


Perguntam-me o que penso. Pensei mal, quando pensei depressa e me vieram dizer que Ratzinger era o novo Papa. Agora espero para pensar. Bento XVI já não é Ratzinger. É o meu sétimo Papa. Seja minha a solidão deste silêncio, como escreveu o poeta dos 35 Poemas, e dos trinta e cinco cardeais.
 

por João Bénard da Costa
20 de maio de 2005 in Público

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

 

OS MEUS SETE PAPAS (I)

 

1. Agora que isto acalmou um bom bocado, quer em matéria de papas quer em matéria de vigílias, posso dar-me ao luxo de desfiar, nos meus romanizados rosários, contas dos papas da minha vida e de os relembrar um a um, entre arminhos e solidéus, sédias gestatórias ou detidas. Setenta anos, sete papas. Muitos anos? Não há dúvida. Muitos papas? Assim agora não me parece ou me aparece, mas a uma média de dez anos por papa, pode ser que as aparências iludam. Embora eu tenha vivido o terceiro pontificado mais longo de que a Igreja conserva memória (João Paulo II) e um dos pontificados mais curtos dos últimos sete séculos (João Paulo I).

 

2. A bem dizer, o meu primeiro Papa Papa de mim não foi, embora o dr. Freud, que morreu sete meses e dezasseis dias depois dele, me tenha querido ensinar, sem grande resultado, que foi o Papa de que o meu inconsciente mais ouviu falar. Refiro-me a Pio XI, o Papa Ratti, que reinava em Roma quando eu nasci e morreu, três dias depois de eu fazer quatro anos, a 10 de fevereiro de 1939, aos 81 anos. Aos quatro anos, alguém se lembra de papas? Acreditem-me ou não, se não me lembro dele, lembro-me muito bem (vá-se lá saber porquê) do dia da morte dele. Era à hora de almoço. Eu estava em casa de uns tios postiços que moravam no mesmo prédio do que eu, no segundo andar que ficava por baixo da casa da minha avó. Na casa de jantar, havia uma telefonia, dessas com ponteiro, olho luminoso verde e lãzinha branca a aconchegar os baixos. E foi da dita, ou na dita, que deram a notícia da morte do Papa. Não devo ter prestado atenção, pois o que recordo é a voz acaciana do meu velho tio (com idade para ser meu avô) a dizer-me solenemente: "Morreu o Santo Padre." Talvez tenha ficado confundido com a ideia de os santos morrerem. Talvez não associasse padres a santos, de tanto ouvir dizer que os padres ralhavam. Talvez outra razão qualquer. Mas a morte de Pio XI chegou-me em direto. Mais tarde, já grandinho ou já velhote, o Papa que queria que o futuro o conhecesse como "o Papa da Ação Católica", o papa da Mit Brennender Sorge e da Non Abbiamo Bisogno, o Papa que "tarde, demasiado tarde na vida", descobriu que as ameaças à Igreja não vinham só de um lado, e que as do lado oposto não eram menos fortes, esse Papa, Pio XI, dizia eu, olhei-o sempre com particular afeto. A paz de Cristo no Reino de Cristo. Seis meses depois da morte dele, findo um pontificado de dezassete anos (1922-1939) começou a guerra do diabo.

 

3. Não me lembro de ninguém me ter dito que a 2 de março desse mesmo ano, ao fim de três escrutínios e no primeiro dia de conclave (coisa que há trezentos anos não acontecia), o cardeal Pocelli, que nesse mesmo dia completava 63 anos, fora eleito e tomara o nome de Pio XII. As minhas primeiras imagens dele, ascético e severo, remontam aos dias em que Roma deixou de ser cidade aberta e houve igrejas bombardeadas. Pio XII deixou então o Vaticano para consolar os feridos e chorar os mortos. Quando a guerra acabou, gregos e troianos louvaram o Pastor Angelicus e a sua ação em favor da paz. Em 1950, ex cathedra, num Ano Santo a que só não fui pela maldição de uma bruxa, proclamou o Dogma da Assunção de Maria e, aos 15 anos, extasiei-me, mais do que me interroguei, com essa solene afirmação da infalibilidade papal, a primeira (e a única) desde os tempos de Pio IX.
Depois, ele foi o Papa dos meus anos de brasa, os anos da Ação Católica. Formei-me com a Divino Afflante Spiritu, que relançou os estudos bíblicos, ou com a Mediator Dei sobre a renovação da liturgia. Morreu, diz-se, ouvindo a Sétima Sinfonia de Beethoven, que amava mais do que as outras e Jorge de Sena dedicou-lhe um belíssimo poema na Fidelidade: "Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo / mesmo no mal que consentis que eu faça / por ser-Vos indiferente, ou não ser mal / ou ser convosco um bem que eu não conheço." Foi a 9 de outubro de 1958 e soube da notícia no mesmo dia em que soube que ia ser pai pela primeira vez. Para mim, morrera mais do que o meu primeiro Papa. Morrera o meu único Papa. O Papa por antonomásia.

 

4. Foi assim com algum escândalo (obviamente, o escândalo admissível num crente então fiel e obediente à Igreja) que, a 28 de outubro, soube que fora eleito Papa o cardeal Roncalli, quase a completar 77 anos, ou seja, muito mais perto das idades com que morreram Pio XI (81) e Pio XII (82) do que das idades com que tinham sido eleitos, em papados sensivelmente com a mesma duração. Um amigo meu deu voz ao que eu sentia: "Os cardeais terão mesmo ouvido o Espírito Santo ao escolherem um Papa de transição?" (era a explicação mais correta para a surpresa da escolha: após dois pontificados longos e fortes, um pontificado breve que servisse para pensar no futuro). A primeira surpresa veio com a escolha do nome de João XXIII, recuperado a um anti-Papa de 1410 a 1415 e que ninguém usara mais desde o século XV. Depois vieram todas, todas as surpresas desse papado inacreditável: a convocação do Concílio, a inauguração do Concílio, a Mater et Magistra a Pacem in Terris. O bom Papa João. Repararam bem quão estranho é chamar bom a um Papa? Mas foi com esse cognome que ele ficou, tão amado pelos não crentes como pelos crentes ou mais ainda pelos primeiros do que por muitos segundos. Vivi, sob ele, os mais exultantes anos do meu catolicismo. Não chegaram a ser cinco. João XXIII morreu a 3 de junho de 1963, aos 81 anos.

 

5. Já quando Pio XII morreu, eles haviam sido os mais "papabile". Refiro-me aos cardeais Alfredo Ottaviani e Giovanni Montini. O primeiro era chefe do Santo Ofício e acusavam-no de reacionarismo. O segundo, arcebispo de Milão, com fama de homem aberto ao novo e ao moderno. "Cantemos ao Senhor um Cântico novo." Os dois voltaram a ser falados em 1963. O que eu rezei para um Papa chamado Montini! E ele chegou, sob o nome de Paulo VI, a 21 de junho, com 65 anos. Foi um dos dias mais felizes da minha vida e eu tinha apenas 28 anos! E o nome do Papa era o nome do Apóstolo das Gentes.
Poucos meses depois, já se falava de "fundo Roncalli, forma Pacelli", contrastando a rigidez do novo Papa com a bonomia do seu antecessor. Mas o Concílio continuava, começavam as viagens papais (a histórica peregrinação à Terra Santa em janeiro de 1964) e foi a continuidade muito mais que a rutura que eu li na encíclica Ecclesiam Suam de agosto de 1964. Lembro-me que o meu elogio ao texto papal, nas páginas de O Tempo e o Modo, me valeu uma resposta zangada de um amigo ex-católico, então muito mais à esquerda do que eu. Ele, que, agora muito mais à direita, manda para braços anglicanos todos os "protestantes" (mesmo os mais silenciosos) à eleição de Ratzinger, acusava-me então de poetizar e lembrava-me que ao contrário do que dizia o alemão Novalis (compatriota de Ratzinger) o mais poético podia não ser o mais verdadeiro.
Paulo VI na ONU, em 1965. Mas, bruscamente, fez há muito pouco tempo trinta e oito anos, Paulo VI em Fátima, recebido por Salazar. Foi a única vez que vi um Papa. Foi o único Papa que eu vi. Não em Fátima, mas junto ao Mosteiro da Batalha, quando de Fátima ele regressava em carro aberto, olhos imensamente azuis, como nunca até esse dia eu os supusera. Por esses anos, por esses tempos, mudou muito a imagem pretérita de Pio XII, quando os silêncios do Vaticano perante a Alemanha nazi começaram a ser muito falados. Pio XII devia ter falado? Paulo VI devia ter recusado vir a Portugal? Essa questão - ou essas questões - ainda hoje as não resolvi dentro de mim. Se os olharmos como chefes institucionais (e a Igreja é uma instituição), eles defenderam-na como a deviam ter defendido, sem atrevimentos inauditos e sem riscos temerários para a unidade que lhes cabia preservar. Mas se os olharmos como pastores do povo de Deus (e a Igreja é o povo de Deus) por que temeram se o próprio Cristo garantiu a Pedro que as portas do Inferno nunca prevaleceriam contra as da Igreja? E foi no tempo do Papa que eu mais "elegi" que eu cheguei à conclusão que o sumo pontífice não podia ser um modernizador mas um contemporizador, não podia ser uma Antígona mas um Creonte (para recuperar uma imagem antiga). Podia escandalizar intelectuais impacientes como eu, mas não mansos ou feros pobres de espírito. Em 68, com a encíclica Humanae Vitae, Paulo VI enfrentou de peito aberto a revolução sexual nesse ano triunfante. Católicos insurgiram-se por todo o mundo, numa contestação inédita. Quem mudará? Eu, por certo, mudei, nesses últimos dez anos do pontificado de Paulo VI. Octogesima Adveniens? Mas 80 anos depois da Rerum Novarum, onde estavam as coisas novas? Onde estão hoje, em que a Humanae Vitae é menos contestada do que os seus contestatários de 68? Talvez por isso esse Papa seja, na minha memória, o mais amargurado e o mais torturado dos papas da minha vida. Por que é que pensar nele me faz pensar na morte?

 

6. Estava em casa diante da televisão, quando, em agosto de 1978, pouco depois da morte de Paulo VI, aos 81 anos e com quinze de pontificado, nos foi anunciado novo magnum gaudium. Contra todas as previsões, apareceu-me como Papa João Paulo I, Albino Luciani, patriarca de Veneza (como João XXIII) aos 65 anos. Nunca me esquecerei da alegria - infantil ou angélica - com que surgiu à varanda e com que deu a primeira bênção. Foi o primeiro Papa a usar dois nomes, em dupla homenagem aos seus mais imediatos antecessores. À época escrevia crónicas no Diário de Notícias. E o meu texto sobre a eleição de João Paulo I foi tão delirante que Mário Mesquita (à época diretor do jornal) se espantou com a minha inabalável fé (fé de um ex-católico) no Espírito Santo, que escolhera para Papa o papa do Pinocchio. Depois fui até aos Japões e pensei mais em budistas, à Sylvia Sidney, do que em papas. Já no regresso, no aeroporto de Nova Deli, vindo do Taj-Mahal, folheei um jornal. Numa página interior, em corpo pequeno, falava-se da morte do Papa. "Meu Deus" - pensei eu - "como este jornal é antigo, o Papa já morreu há quase dois meses." Quando li a notícia, percebi. Quem morrera a 28 de setembro, depois de um pontificado de 34 dias, fora esse mesmo João Paulo I, de que eu esperava nem sei bem o quê, mas sei quanto. Nunca acreditei na tese absurda do assassinato. Mas acredito que Deus, às vezes, atravessa muito depressa a vida dos homens. (continua)

 

por João Bénard da Costa
13 de maio de 2005 in Público

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Com tanto alarido à volta do filme do Scorsese, Silêncio tem havido pouco. Nem tampouco ouço vozes que nos aproximem do drama dos cristãos japoneses, nem sequer de uma compreensão mais próxima do combate obsessivo de Endo Shusaku pelo entendimento da sua própria fé cristã. Este, tanto quanto possamos depreender de passos da sua obra literária, tem muito a ver com sentimentos de divisão e traição (ao pai ou à mãe), com solidão e separação (rasgões que experimentou através da companhia e deserção de animais domésticos) e, já no plano mais propriamente racional, cultural, filosófico e religioso, com o problema do mal, do pecado e da graça, da misericórdia de Deus. Começo por te referir um passo do romance Rio Profundo (Deep River, na versão inglesa, Le Fleuve Sacré, na francesa), em que Otsu, seminarista jesuíta japonês em Lyon, França, desabafa assim: Não posso perceber a diferença entre o que as pessoas de cá chamam o bem e o mal. Penso que no bem se esconde o mal, e vice versa. E aí intervém a magia de Deus. Até pode servir-se dos meus pecados para os transformar em salvação...   ... A Igreja considera-me herético. Corrigiram-me: "Não distingues claramente as coisas, tens de agir com mais discriminação. Deus não é assim". A pobre personagem quererá pensar num cristianismo que se coadune com a mentalidade japonesa. Eis um ponto fulcral para o entendimento, não só de atitudes e comportamentos de católicos japoneses perante os  estrangeiros (lembra-te do que eu já contei da minha experiência com a família católica dos meus senhorios em Tokyo ou das diligências que, enquanto Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi, fiz junto da hierarquia da Igreja em Nagoya) mas sobretudo da estranheza - para não dizer dificuldade de aceitação, desconfiança, ou mesmo aversão - que uma pregação rígida da ideia cristã pode causar nos japoneses. Já no século XVI, em debates entre missionários jesuítas e bonzos budistas, os japoneses interrogavam sobre se poderia ser infinitamente misericordioso um Deus omnipotente que, todavia, condena e castiga gente, mesmo até ao inferno eterno. Ou como poderia o mesmo Deus ser justo, ao pretender que há uma só religião verdadeira, quando, afinal, tanta e tanta gente nunca ouviu nem ouvirá a boa nova evangélica, do que não têm culpa. Nesse romance de Endo, Otsu afirma que estou persuadido de que o homem elege o seu Deus em função do seu local de nascimento, da sua cultura, das suas tradições e do seu ambiente. Os europeus escolheram o cristianismo porque assim o haviam feito os seus antepassados, e a cultura cristã era predominante no seu país. Não se pode dizer que os habitantes do Médio Oriente se tornaram muçulmanos, nem a maioria dos indianos hindus, após terem feito rigorosas comparações com outras religiões. Quanto a mim, foi a minha mãe e a sua particular influência que fizeram de mim o que sou. [Este passo é claramente autobiográfico, num romance em que Endo Shusaku se revê, ou descreve, sobretudo noutra personagem, Numada de seu nome]...   ..." Mas nunca pensaste que teres nascido numa certa família foi graças à bênção de Deus e ao seu amor?" - perguntou-me certo dia o meu diretor espiritual. "Sim, mas foi também graças à Sua bênção que aqueles que nasceram noutros lares acreditam noutras religiões... - responde Otsu/Endo.

 

   O tal Numada, como Endo ele-mesmo na vida real, passara a infância em Dalian, na Manchúria, que à época fora colonizada pelos japoneses. Ajudado por um jovem criado chinês - que seu pai mais tarde despediria - recupera da vadiagem das ruas um cão manchu, que criará e a quem chamará Negrão. Quando os pais se divorciam, na sequência do alcoolismo crónico do marido, Numada/Endo parte para o Japão com a mãe. E assim, depois de ter perdido Li, o criado amigo, terá de se separar de Negrão. Mais tarde, o menino já adulto nunca esquecerá o olhar de despedida do seu cão. Foi graças a ele e a Li que aprendeu o significado da palavra separação. Já casado e escritor conhecido, Numada adquire um estranho pássaro tropical, um calau. Este acabará por voar livremente no gabinete do romancista, que com ele conversa e o calau observa enquanto escreve. Quando a ave morre, a mulher de Numada, que muito discutia e protestava contra a sujidade que o bicho lhe fazia em casa, oferecer-lhe á outro pássaro diferente. Percebera que o marido era incapaz de explicar o seu desejo intenso de se religar a todos os seres vivos. A semente nele plantada pelo Negrão, na infância, tinha lentamente frutificado num mundo imaginário que ele só podia descrever através das histórias que contava. Aí, as crianças eram capazes de compreender o murmúrio das flores, as conversas das árvores, e até de ler os sinais trocados pelas abelhas entre elas, ou as formigas. Apenas um cão e um calau tinham compreendido a solidão que, já adulto, ele não conseguira dissipar... 

 

   Essa sentida solidão - em Endo autor e muitas das suas personagens - acaba sempre por ter uma proposta de companhia: a de Jesus. No romance Chinmoku (Silêncio), o padre apóstata ouve em confissão o renegado Kichijiro, que o traíra. Ambos haviam pisado o fumie, a imagem de Cristo. - "Senhor, ressenti o teu silêncio". - "Eu não estava silente. Sofri ao teu lado". Após a confissão secreta, Kichijiro chora mansamente e sai. E o livro termina assim: O padre tinha administrado o sacramento que só um padre pode administrar. Sem dúvida de que os seus colegas padres condenariam o seu ato porque sacrílego; mas mesmo que estivesse a traí-los, ele não traíra o seu Senhor. Amava-o agora de uma maneira diferente de dantes. Tudo o que ocorrera até agora fora necessário para o trazer a este amor. "Agora mesmo sou o último padre nesta terra. Mas Nosso Senhor não estava silencioso. Mesmo que estivesse calado, a minha vida até hoje teria falado dele". William Johnston, jesuíta da Universidade Sophia, em Tokyo, amigo e tradutor de Endo Susaku, escreve, a abrir um prefácio ao romance, algo que traduzo para ti:

 

   Shusaku Endo tem sido apelidado de Graham Greene japonês. Se com isso se quer dizer que ele é um romancista católico, que os seus livros são problemáticos e controversos, que a sua escrita é profundamente psicológica, que ele descreve a angústia da fé e a misericórdia de Deus - então é certamente verdade. Porque o senhor Endo chegou à ribalta do mundo literário japonês escrevendo sobre problemas que, a dado momento, pareciam longe deste país: problemas de fé e Deus, de pecado e traição, de martírio e apostasia.

 

   Sobre o pano de fundo desta história - que é o século cristão do Japão - já escrevi bastante. Mas talvez volte a escrever, em carta só para ti. Por hoje, basta lembrar-te de que, como já te disse, Silêncio não é um romance histórico, muito menos uma análise da missionação dos jesuítas no Japão dos séculos XVI-XVII. É um cenário e uma ficção para questões que o seu autor foi interrogando, sofrendo e meditando.


Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira