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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A PANDEMIA. ONDE ESTÁ DEUS?

 

A Universidade de Viena investigou a relação da religiosidade com a pandemia. Os resultados mostraram que as pessoas mais religiosas utilizam estratégias mais activas para dominar a crise. Enquanto as pessoas menos religiosas tendem a reprimi-la ou a negá-la, as mais religiosas procuram apoio social e lidam com ela de modo mais forte, mais optimista e com mais serenidade.

 

São dados significativos. Não houve, creio, nenhum estudo sobre o outro lado, mas estou convencido de que dele resultaria que muitos, esmagados pela pandemia, pelo sofrimento, se perguntaram: Onde está Deus?

 

A História é um autêntico calvário. Hegel referiu-se-lhe como um Schlachtbank: um açougue, um matadouro. E lá está o famoso dilema de Epicuro: Deus tem de ser todo-poderoso e infinitamente bom. Ou Deus pôde evitar o mal e não quis, e não é bom; ou quis e não pôde, e não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal?

 

Mesmo teólogos de renome sentiram-se atenazados pelo dilema, de tal modo que alguns, como J. Moltmann, falaram de um Deus impotente, que sofre connosco; outros, como R. Guardini, chegaram a exclamar que “pediriam contas” a Deus pelo sofrimento dos inocentes, Karl Rahner disse que, “num tribunal humano, não sairia absolvido”, Karl Barth afirmou que, no Jardim das Oliveiras, quando Jesus rezava, suando sangue, Deus “se portou como Judas”, e Urs von Balthasar disse que “se deve falar de uma descarga de ira de Deus sobre aquele que lutava no Jardim das Oliveiras.” Nestas posições, a pergunta ergue-se talvez ainda mais veemente: acreditar como e para quê num Deus irado ou impotente?

 

A Filosofia e a Teologia ficarão historicamente devedoras ao filósofo-teólogo Andrés Torres Queiruga por ter desfeito o preconceito em que assenta o dilema (ver a sua obra marcante: Repensar o mal). De facto, como escreveu, “enquanto permanecer o preconceito de que Deus poderia acabar com todo o mal do mundo, se quisesse, ninguém pode crer na bondade de Deus, sem se ver obrigado a negar o seu poder; ninguém acreditaria na bondade de um cientista insigne que, podendo acabar hoje com os estragos do coronavírus, não quisesse fazê-lo, por altos e ocultos que fossem os seus motivos.”

 

O crente, nomeadamente o crente cristão, acredita no Deus Pai-Mãe, infinitamente poderoso e bondade infinita, que ama os seus filhos e filhas e só quer o seu maior bem. Donde vem o mal? Do mundo, que é finito e no qual há inevitavelmente mal. Não é possível um mundo finito, em evolução, perfeito e sem mal, porque isso  é uma contradição; como se não pode reivindicar a autonomia criatural da liberdade humana finita e a perfeição. “Afirmar hoje que Deus não é bom ou omnipotente, porque não cria um mundo perfeito, é o mesmo que argumentar que não o é, porque não quer criar círculos-quadrados ou não pode fazer ferros-de-madeira.” A primeira coisa que é, portanto, preciso clarificar é que o mundo produz mal, o finito não pode ser perfeito, tem falhas, carências, nele haverá choques, becos sem saída...

 

Desfeito o equívoco de um mundo finito perfeito e sem mal, avança-se para uma ponerologia (do grego, ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus. De facto, o mal atinge a todos, crentes e não crentes, todos sofrem ao nascer, todos passam pela dor, todos morrem. E devemos todos estar unidos solidariamente na defesa da vida e na procura do real alívio do sofrimento de todos. A pergunta, agora, é outra: se o mal é inevitável, porque é que Deus criou o mundo? “Não posso responder ao ateu que diz que o mundo é absurdo, que não vale a pena. Eu não sou pessimista: creio que vale a pena e que há um referendo na Humanidade: todos, no fundo, sabemos que vale a pena. Por isso, continuamos a trazer filhos ao mundo.”

 

Aqui, começa a pisteodiceia (de pistis e dikê, justificação da fé). Há diferentes pisteodiceias, pois todos, ateus, agnósticos, crentes, têm de enfrentar-se com o mal e cada um tem, dentro de uma cosmovisão, a sua resposta para o problema, a sua fé. O crente religioso crê e pensa que é razoável crer em Deus e até pode perguntar, com o famoso teólogo Hans Küng: “O ateísmo explica melhor o mundo? A sua grandeza e a sua miséria? Como se também a razão descrente não encontrasse o seu limite no sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido!” E crê que Deus não teria criado o mundo, se não fosse possível libertar-nos do mal. O que se passa é que o que não é possível num dado momento pode sê-lo mais tarde. A mãe sabe matemática, mas não pode ensinar matemática ao seu bebé enquanto bebé; fá-lo-á mais tarde. Alguém pode conceber-se a aparecer já adulto no mundo? A realidade é processual, e o crente em Deus como Amor e Anti-mal espera a salvação definitiva e plena para lá da morte.

 

Aqui, ergue-se outra objecção: depois da morte, não continuamos finitos? Os crentes confiam em Deus e podem mostrar, com razões, que a salvação eterna não é contraditória, pelo contrário. Sim, a pessoa é finita, mas com uma abertura infinita. Este é o mistério do Homem. Nunca estamos acabados, nenhum ser humano morre definitivamente feito. Não há nada finito que possa preencher a abertura humana, não há nada finito que possa realizar a nossa capacidade de conhecer e amar. Esta é a possibilidade que se abre ao crente a partir da fé: já para lá dos limites do espaço e do tempo, Deus mesmo entrega-se-nos nesta abertura infinita e finalmente seremos nós com Ele e nEle.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 JUN 2020

JOÃO PAULO II: NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO

 

1. Celebra-se a 18 de Maio, o centenário do nascimento de Karol Wojtyla, que havia de ser Papa, com o nome de João Paulo II.

 

Fica aí um breve apontamento sobre essa figura marcante do século XX. Não é, de facto, possível escrever a história do século XX ignorando João Paulo II, que não foi apenas uma figura marcante, mas determinante, do século passado. Apresento alguns acontecimentos, um pouco à maneira de flashes, referentes concretamente ao seu pontificado, um dos mais longos da História: mais de 26 anos, de 18 de Outubro de 1978 a 2 de Abril de 2005.

 

João Paulo II foi um dos líderes mais influentes do seu tempo. Era um homem de convicções, corajoso, profundamente crente no Evangelho e no Deus de Jesus. Foi com ele e as suas viagens por mais de cem países que a Igreja católica tomou real consciência de ser uma Igreja mundial. Foi decisivo para o fim do comunismo no seu país natal, a Polónia, e para a queda do Muro de Berlim. Afirmou e reafirmou os Direitos Humanos. Escreveu notáveis encíclicas sobre ética social e concretamente sobre os direitos dos trabalhadores (Laborem exercens e Centesimus annus) e, se não me engano, foi o primeiro Papa a utilizar a palavra ecologia em todo o seu significado de defesa do meio ambiente. Perdoou àquele que o quis assassinar e visitou-o na cadeia. Reuniu em Assis os representantes das religiões mundiais para a oração, criando o que ficou conhecido como “o espírito de Assis”, no sentido da compreensão entre as várias religiões a favor da paz. Fez o possível para evitar a invasão do Iraque, um erro histórico brutal cujos efeitos ainda hoje o mundo está a pagar. Foi um lutador incansável pelo que considerava a sua missão: precisamente a defesa da paz, que o levou a viajar pelo mundo todo como seu mensageiro. Era humilde: ele que chegara a Papa, jovem e atleta, não teve vergonha em envelhecer sem ocultar ao mundo a sua decadência física.

 

Foi um dos homens mais populares do seu tempo. O mundo agradeceu-lhe, despedindo-se dele com milhões de pessoas no funeral, que teve também o maior número de representações diplomáticas de sempre. E o povo gritou que queria vê-lo rapidamente canonizado: “Santo subito!”

 

2. Mas João Paulo II era um homem do seu tempo e tem de ser situado nesse tempo e no seu contexto histórico. Ele vinha do Leste, com uma Igreja perseguida, e ele próprio tinha uma certa visão da Igreja, mais hierárquico-autoritária do que propriamente participativa, sinodal, em comunhão. E vivia-se então na Igreja uma forte tensão entre os chamados progressistas e os conservadores, dentro da necessidade de um novo rumo para uma Igreja conciliar, em ligação com o espírito do Concílio Vaticano II.

 

Neste contexto, viveu grandes contradições. Por exemplo, pediu perdão pelas culpas da Igreja ao longo da História ao mesmo tempo que continuou a condenar um grande número de teólogos (mais de 100). Defendeu os Direitos Humanos para o mundo ao mesmo tempo que reprimiu quem dissentia das suas concepções doutrinais, teológicas ou relacionadas com a organização da Igreja. Pôs travão a horizontes abertos pelo Concílio Vaticano II e concretizou esse propósito com a nomeação de bispos da sua linha conservadora no mundo inteiro. Limitou o diálogo ecuménico entre as Igrejas cristãs. Opôs-se tenazmente a uma reflexão sobre a obrigatoriedade da lei do celibato para os padres. Recusou terminantemente debater de modo sério o lugar da mulher na Igreja, pretendendo inclusivamente invocar a infalibilidade, para pôr termo definitivo ao debate teológico sobre a possibilidade da ordenação de mulheres.

 

Sobretudo, João Paulo II deixou uma herança dramática por causa do modo como terá lidado com os abusos de menores por parte do clero e com a figura perversa do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel. Neste sentido se pronunciou também, numa entrevista recente ao “Der Sonntag”, o actual cardeal de Viena, Christoph Schönborn, para quem João Paulo II é certamente “um dos grandes Papas”, mas “ficou arrasado com o tema dos abusos, foi uma das suas debilidades... Esperávamos que João Paulo II encontrasse uma palavra de consolação e compaixão para os afectados, para os que tinham sofrido... Essa palavra não veio”, concretamente na sua viagem à Áustria em 1998. Do ponto de vista teológico e pastoral, Karl Rahner, um dos teólogos do Concílio Vaticano II e talvez o maior teólogo católico do século XX, morreu com a tristeza do que antevia como a caminhada da Igreja para um “inverno”.

 

3. Permita-se-me uma nota pessoal. Uma vez, foi-me dada a possibilidade de encontrar pessoalmente o Papa João Paulo II nos seus aposentos privados, no Vaticano. Era a primeira vez que estava com um Papa. Apertei-lhe respeitosamente a mão e disse no meu mais íntimo: “É apenas um homem”.

 

João Paulo II era apenas um homem. Com imensa grandeza, mas com grandes debilidades também. O que é facto é que o sucessor, que tinha sido no seu pontificado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Bento XVI, encontrou a Igreja numa situação tal que não teve forças para continuar à sua frente e tomou aquele gesto histórico de resignar. Foi então que foi eleito o Papa Francisco, uma bênção para a Igreja e para o mundo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 17 MAI 2020

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em texto breve e claro, Claude Lévi-Strauss fala de algo que disse no Japão e a que chama apprivoiser l'étrangeté, encabeçando a sua reflexão por uma citação de Platão: Porque o mais contrário é o maior amigo do que lhe é mais contrário... Poderia também ter citado alguém mais seu coevo, como o jornalista correspondente de guerra Robert Guillain, que teve esta afirmação famosa: Le Japon est le pays où le contraire est vrai...

 

   E, referindo-se à descoberta da cultura japonesa pelo Ocidente, logo aponta o jesuíta português Luís Froes como pioneiro, no século XVI, desse exercício de comparação simétrica de pessoas, usos e costumes que, em meados do século XIX, levou o mesmo Ocidente a ganhar o sentimento de se redescobrir nas formas de sensibilidade estética e poética que o Japão  lhe propunha. Esta frase, aliás, resume o teor do prefácio que o célebre antropólogo francês (nascido em 1908, em Bruxelas) escreveu para a edição francesa de Européens et Japonais. Traité sur les contradictions et différences de moeurs, que, em português, foi escrito pelo padre Luís Froes em 1585 e, apesar de praticamente ignorado na sua pátria, e sua própria língua, foi, muito mais tarde, traduzido e publicado em França pela Chandeigne (1998 e 2005).

 

   Noutro texto seu, e noutra charla nipónica, Lévi-Strauss fala de Sengai (1750-1837), calígrafo, pintor e poeta, monge zen que costumava ir beber à fonte dos haikai de mestre Basho. O trecho que seguidamente para ti traduzo vale bem a leitura que fizeres, pelo muito que nos desvenda da íntima relação - para não dizer natureza comum  -  da poesia, caligrafia e pintura japonesas. Escuta bem:

 

   A arte de Sengai, reconhecia André  Malraux, deixa perplexo o espectador ocidental: «Nenhuma outra arte extremo-oriental, prosseguia ele, está tão longe da nossa, nem de nós.»

 

   Cada vez que se nos revela o sentido das legendas inscritas por Sengai à margem das suas pinturas, compreendemos um pouco melhor as razões de tal mal entendido. Pois que, pelo seu significado e o seu grafismo, as palavras têm tanta importância quanto o assunto, já que desses curtos textos, muitas vezes em forma de poemas, com as suas citações implícitas e as suas alusões maliciosas, os seus subentendidos, apenas obtemos das obras uma perceção mutilada.

 

   Mas, em certo sentido, isso é válido para toda a pintura extremo-oriental, indissociável da caligrafia, e não tão somente porque esta tem sempre cabimento naquela. Cada coisa representada - árvore, rochedo, curso de água, casa, senda, monte   -  para além da sua aparência sensível, recebe um significado filosófico de como o pintor a representa e situa num conjunto organizado.

 

   Mesmo se nos ativermos apenas à caligrafia, é claro que, apesar de todos os esforços dos tradutores, o essencial da poesia dos haikai - tais como os de Basho, de quem Sengai se sentia próximo, fica fora do nosso alcance. Tanto quanto o sentido literal, único acessível, contam a escolha de um caracter em vez de qualquer outro, o estilo da escrita (os manuais enumeram pelo menos cinco) e a disposição do texto sobre a folha...

 

   Já noutras cartas para ti, ou ainda em textos vários que escrevi sobre as minhas descobertas e insistentes interrogações acerca da cultura japonesa, abordei temas relacionados com a tradução literária ou as imitações e tentativas de adoção de géneros e modos literários próprios de outras culturas e línguas. Tais aventuras são sempre empresas de risco e incógnitos sucessos à partida. Exigem aos seus fautores, antes de mais, um refletido esforço de escuta e humildade, Com o tempo todo que lhe for necessário. E, depois, a serenidade de uma partilha, só pelo gosto dela. 

 

   O poeta, nosso contemporâneo, Mutsuo Takahashi editou em 2003 uma curiosa antologia de haiku - que, aliás, considera a chave poética do Japão - cuja maior qualidade, a meu ver, reside, precisamente, na achega a uma poética e estética, que nos proporciona, não só através das suas magníficas traduções para inglês, como pelas fotografias que a ilustram, e através das quais Hakudo Inue tenta desvendar-nos alguma visão mais intimista dos poemas japoneses. Essa também é facilitada pelo facto da edição ser bilingue (japonês-inglês), nesta publicação da P-I-E Books (Tokyo, 2003). O prefácio escrito pelo antologista e tradutor é, além disso, breve, conciso e claro, muito informativo e esclarecedor. Vem, a talho da fouce desta carta, traduzir-te eu os seguintes trechos desse texto de apresentação:

 

   ...O haiku de cinco-sete-cinco sílabas, todavia, nem sempre foi uma forma independente. Começou enquanto primeiro verso, chamado hokku, de uma espécie de poesia engrenada, chamada renga e haikai no renga (ou renga em estilo popular).  [Abro aqui um parêntese, Princesa, para te dizer que ouso pensar no "hokku" nipónico como equivalente ao nosso mote em desafios poéticos]. Tais poemas engrenados eram colaborativamente escritos por vários poetas que lhes iam alternativamente adicionando versos de sete-sete ou cinco-sete-cinco sílabas. Há pouco mais de cem anos, Shiki [Masaoka Shiki, 1867-1902, poeta, inventor do neologismo "haiku"] , decidiu separar o hokku do renga e do haikai  no renga, assim nascendo então o haiku.

 

   Havia uma conexão entre o hokku e os versos seguintesque começava com o segundo verso (wakiku ou "verso de suporte"). Apesar disso, o hokku permanecia semiautónomo. Aquilo a que hoje chamamos haiku, de Basho ou de Buson, são os seus semiautónomos hokku, vistos como poemas independentes.

 

   [Permite-me aqui, Princesa de mim, abrir mais um parêntese, chamando a atenção para a pertinência desta observação, já que tem sido generalizada a ideia de que haiku (para o qual, aliás, se inventou o plural, inexistente em japonês, de "haikus") é uma forma poética, ou género literário independente desde a sua origem. E é bem notória a tendência de se identificar tal mal entendido com, por exemplo, a obra escrita de Munefusa Matsuo (mais conhecido por Basho), esquecendo que dois terços da mesma está em prosa, sendo os versos destacados comentários, quiçá mais intimistas, ao próprio relato dos textos prosaicos. Aliás, tal facto nada tem de novo: já em literatura japonesa muito antiga  -  e no próprio Conto de Genji - o recurso a interlúdios poéticos é patente, retratando bem a unidade japonesa e budista das artes da escrita, da caligrafia e da ilustração plástica. Talvez, mesmo mais do que qualquer outra em todo o mundo e história, a literatura japonesa seja integral e profundamente emocional, registo possível do pensarsentir do ser humano. Quiçá por motivos próximos dos que levam a língua japonesa a tanto se alimentar de onomatopeias. Ocorre-me, neste preciso instante da escrita desta carta, voltar a citar-te um passo do Zen and Japanese Culture do professor Daisetz Suzuki (Princeton University Press, 1970), a que já muitas vezes me referi em escritos vários: Está certo dizer-se que a mente oriental é intuitiva, enquanto a mente ocidental é lógica e discursiva. Uma mente intuitiva tem certamente as suas fraquezas, mas o seu ponto forte surge quando trata de coisas mais fundamentais na vida, isto é, coisas relativas à religião, à arte, à metafísica. E foi o Zen que especialmente estabeleceu esse facto: o satori. A ideia de que a verdade última da vida e das coisas deve geralmente ser intuitiva e não conceptualmente apanhada, e de que tal apreensão intuitiva é o fundamento, não só da filosofia, mas de todas as outras atividades culturais - eis aquilo com que a forma Zen do budismo mais contribuiu para a cultura do apreço artístico entre o povo japonês.]

 

   Retomarei o fio desta meada em carta próxima, ou talvez aproveite a oportunidade para iniciar já com a presente uma nova série de escritos meus sobre o Japão, à qual, depois de Fomos em Busca do Japão e de Um Itinerário de Muitos Olhares, talvez ponha o título de Em Rebusca do Japão. Até lá. Mas, a fechar a presente, deixa-me traduzir-te as primeiras linhas de um "Diário de Viagem" de Matsuo Basho, intitulado Nozarashi kiko, e que é o primeiro apresentado, já em 1988, por René Sieffert na sua versão francesa Bashô - Journaux de voyage, publicada pelas Publications Orientalistes de France. A minha versão portuguesa foi feita directamente da francesa de Sieffert, com recurso esporádico e "tant bien que mal" ao texto original japonês, e o apoio do meu querido Dicionário Universal Japonês-Português do nosso jesuíta e contemporâneo padre Jaime Cepeda Coelho, velho e querido amigo. O pequeno trecho que se segue, a meu ver, diz muito sobre o espírito, a obra e o universo do grande Basho:

 

   Partindo para uma viagem de mil léguas, sem me embaraçar com provisões para o caminho, «sob a lua da terceira vigília entrei no inquestionável», poderia dizer esse Ancião: ao seu cajado me apoiei, na era Jokyo, no ano do Primogénito da Árvore e do Rato [1684], pela oitava lua do outono, quando deixei o meu casebre desconjunto, ao pé do rio, e um vento frio soprava.

 

          Embranqueçam os meus ossos
          penetra-me o vento o corpo
          até ao coração

 

          Passados dez outonos
          o nome de pátria designa
          Edo doravante

 

   No dia em que atravessei as barreiras, caía chuva e os montes todos desapareciam por entre as nuvens.

 

          Nevoeiro e bruma
          dissimulam o Fuji
          encanto deste dia

 

      Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

UM ASTROFÍSICO E UM FILÓSOFO FRENTE À COVID-19

 

Têm outro horizonte de compreensão e, por isso, podem ajudar-nos no discernimento da presente hecatombe. Ambos muito conhecidos. Um é astrofísico, o outro é filósofo. Do alto do seu saber e da sabedoria que a idade, 88 e 98 anos, respectivamente, também dá, vale a pena ouvi-los. Foi o que fiz, pela intermediação de entrevistas que deram, a partir do seu confinamento.

 

1. O astrofísico é Hubert Reeves, que conversou com Luciana Leiderfarb para o Expresso. E que disse?

 

Constatou o facto: em casa, confinados, por causa de um vírus invisível. “A única coisa que não é clara para mim é se a poluição e a degradação do planeta a que estamos a assistir e a que chamamos a ‘sexta extinção’ estão ou não relacionadas com este vírus.” Embora não seja especialista na matéria, pensa que “está perto da verdade: a pandemia não foi causada directamente pela sexta extinção, mas indirectamente, facilitando as condições para o coronavírus se expandir tão depressa.”

 

De qualquer modo, somos muito maus a fazer antecipações: “Ninguém sabe do futuro. É a imprevisibilidade da realidade que quero destacar. A realidade é difícil de prever, e somos muito maus a fazê-lo.” Mas temos hoje excesso de poder que nem sempre queremos ou somos capazes de controlar, e aí está o perigo: “Temos duas formas de nos autodestruirmos: através de uma guerra nuclear ou da sexta extinção. Ambas podem eliminar-nos e dependem do nosso autocontrolo.”

 

A Natureza foi construindo estruturas. “E uma das suas obras-primas é a espécie humana. Somos provavelmente o nível mais alto de complexidade que conhecemos, a estrutura mais complexa do Universo.” A Humanidade trouxe ao mundo a cultura — Mozart, Van Gogh, um tipo de criatividade que desapareceria completamente se o ser humano fosse extinto —, a ciência — nenhuma outra espécie animal teria chegado à teoria da relatividade de Einstein —, e a compaixão — temos pulsões destrutivas, mas também temos compaixão, sofremos quando vemos pessoas a sofrer. “A Humanidade merece ser preservada.” Adverte, porém, que o ser humano é tremendamente poderoso, o mais poderoso, mas também o mais complicado e tanto somos capazes do melhor como do pior: tanto podemos fazer uma sinfonia de Beethoven ou construir a teoria da relatividade como uma bomba atómica ou a II Guerra Mundial. “Hoje sabe-se que a probabilidade de a actividade humana ser a principal causa do aquecimento global é de 99%” (Aqui, acrescento eu: por causa do confinamento, é um facto que, com a diminuição da intervenção antropogénica, se constata uma forte melhoria do meio ambiente). Também “sabemos que, se não nos adaptarmos ao ecossistema, em vez de continuarmos a forçá-lo a adaptar-se a nós, vamos desaparecer.” A nossa presença na Terra está ameaçada. Portanto, “a nossa responsabilidade agora é não destruirmos de vez a complexidade do planeta. Garantir que com o nosso comportamento não eliminamos a Humanidade.”

 

O aparecimento da vida e, concretamente do ser humano, na gigantesca história da evolução, continua envolto em mistério. Quais as condições presentes desde o início para que se desse esta aparição? “Vivemos ainda num grande mistério, sem conhecimento do que se passou entre o início e agora e sem fazermos ideia sobre se houve um antes e se haverá um depois.” Uma questão muito debatida entre os cientistas, mas “aqueles que possuem uma crença religiosa não têm qualquer problema em relação  a isso, porque a resposta é Deus.” Perguntado sobre se acredita em Deus, responde: “Tenho muitas perguntas sobre Deus. Mas não sei o que Deus é. Para mim, é um assunto importante, mas relativamente ao qual não cheguei a nenhuma certeza.” Aqui, digo eu: também o crente não tem certeza, tem fé, com razões, e é razoável acreditar.  Sobre se é possível conciliar ciência e religião, Reeves reconhece que “são duas actividades diferentes da mente”, que tem dois domínios, sendo um o conhecimento — “aprender, saber como as coisas são, como funciona o mundo” — e o outro o do valor. Dá um exemplo: a ciência diz como fazer a bomba atómica, mas não pode dizer se devemos ou não fazê-la, pois isso já é do domínio do valor, no qual se inclui a filosofia e a religião. ”Enquanto a ciência pergunta: ‘o que é, como funciona?’, a religião questiona: ‘é bom ou mau?’. Este é um assunto na ordem do dia, na medida em que, cada vez mais se coloca a questão da aplicabilidade da ciência e das suas fronteiras éticas.”

 

À pergunta da jornalista: “O que é que ainda o surpreende? O que é que o emociona?”, responde: “A amizade, o amor, a música. Ouço música o dia todo. Não há nada mais elevado. As salas de concerto são as minhas igrejas. É o lugar onde sinto que existe algo maior do que eu.”

 

Envolvido pelo espanto, pelo maravilhamento perante o  Universo e a sua história, sabe que a sua vida roça “o seu limite perigoso” e, por isso, não se deita antes da uma ou duas da madrugada. “Tenho esta ideia de, até onde a saúde mo permitir, não querer desperdiçar o tempo a dormir.”

 

2. Edgar Morin é filósofo e sociólogo e continua a surpreender-me, agora confinado, com mais uma entrevista concedida ao jornalista Francis Lecompte para o sítio Cnrs. Le journal, que colocou como título para a conversa que teve: “Edgar Morin: Temos de viver com a incerteza”.

 

Uma mensagem principal desta pandemia é que derrubou a nossa sensação de omnipotência e pôs em causa a relação com a ciência, que se pretendia omnisciente. Diz Edgar Morin: “O que me impressiona é que grande parte do público via a ciência como o repertório de verdades absolutas, afirmações irrefutáveis.” Afinal, observámos que os cientistas convocados pelo poder político “defendiam pontos de vista muito diferentes e, às vezes, contraditórios, e isso nas medidas a ser adoptadas, nos possíveis novos remédios para responder à emergência, na validade deste ou daquele medicamento, na duração dos ensaios clínicos a realizar.” Parece que mesmo entre os cientistas poucos leram, por exemplo, Karl Popper, que estabeleceu que uma teoria só é científica se for refutável, portanto, o critério de cientificidade de uma teoria é a sua refutabilidade, ou Gaston Bachelard, ao colocar o problema da complexidade do conhecimento, ou Thomas Kuhn, ao estabelecer, com a sua teoria dos paradigmas, que “a história das ciências é um processo descontínuo”.

 

“O facto de hoje estarmos a falar do coronavírus era completamente desconhecido há um ano”, afirma Reeves. E Edgar Morin confirma: nesta crise do coronavírus, o impressionante é que “não temos ainda nenhuma certeza sobre a própria origem desse vírus nem sobre as suas diferentes formas, as populações que ataca, os seus graus de nocividade. Nós estamos igualmente a passar por uma grande incerteza sobre todas as consequências da epidemia em todos os domínios, sociais, económicas, etc.”. Aqui, acrescento eu: A China portou-se da pior maneira ao não alertar atempadamente o mundo e continua a manifestar má consciência ao impedir estudos e investigações  internacionais independentes sobre precisamente a origem da pandemia.

 

O paradoxo é este: por um lado, estamos todos à espera de que a ciência, através de medicamentos, através de uma vacina, nos liberte do pesadelo; por outro, não sabemos e temos de conviver com a incerteza. Edgar Morin espera que a presente crise sirva para “revelar como a ciência é uma coisa mais complexa do que se quer crer. É uma realidade humana que, como a democracia, assenta sobre os debates de ideias, embora os seus modos de verificação sejam mais rigorosos.” Temos de aceitar as incertezas e viver com elas, “quando a nossa civilização nos inculcou a necessidade de certezas cada vez mais numerosas sobre o futuro, muitas vezes ilusórias, por vezes frívolas. A chegada deste vírus deve lembrar-nos que a incerteza permanece um elemento inexpugnável da condição humana. Nenhum seguro social que possamos fazer será capaz de nos garantir que não vamos adoecer ou que seremos felizes. Tentamos cercar-nos com o máximo de certezas, mas viver é navegar num mar de incertezas, através de ilhotas e arquipélagos de certezas nos quais nos reabastecemos.”

 

O jornalista: “É a sua própria regra de vida?” Edgar Morin: “É sobretudo o resultado da minha experiência. Assisti a tantos e tantos acontecimentos imprevistos na minha vida que isso faz parte da minha maneira de ser. Não vivo na angústia permanente, mas estou à espera de que surjam acontecimentos mais ou menos catastróficos. Não digo que previ a epidemia actual, mas digo, por exemplo, que há vários anos que, atendendo à degradação da nossa bioesfera, nos devíamos preparar para catástrofes. Isso faz parte da minha filosofia: ‘Espera o inesperado’.” Aliás, desde que na década de 60 li Martin Heidegger, apercebi-me de que vivemos na era planetária e a globalização é um processo que poderia trazer  benefícios e também danos. “Também observo que o desencadeamento descontrolado do desenvolvimento tecno-económico, animado por uma sede ilimitada de lucro e favorecido por uma política neoliberal generalizada, se tornou prejudicial e provoca crises de todos os tipos. A partir desse momento, estou intelectualmente preparado para enfrentar o inesperado, para enfrentar as convulsões.”

 

Edgar Morin confessa satisfação porque, desde o seu primeiro discurso sobre a crise, o Presidente Macron até mencionou a possibilidade de mudar o modelo de desenvolvimento. Significa que caminhamos para uma mudança económica? Resposta: “O nosso sistema baseado na competitividade e na rentabilidade tem muitas vezes graves consequências nas condições de trabalho. A prática massiva do teletrabalho por causa do confinamento das empresas pode contribuir para mudar o funcionamento das empresas ainda muito hierárquicas ou autoritárias. A crise actual pode acelerar também o regresso à produção local e o abandono de toda a indústria do descartável, dando assim trabalho aos artesãos e ao comércio de proximidade.”

 

E vamos passar também para uma mudança política, na qual “as relações entre o indivíduo e o colectivo se transformam?”

 

Resposta: “O interesse individual dominava tudo, mas agora as solidariedades estão a despertar”, e dá o exemplo do mundo hospitalar. Infelizmente, não podemos falar de um despertar da solidariedade humana ou planetária. No entanto, já éramos seres humanos de todos os países, confrontados com os mesmos problemas no que se refere à degradação do meio ambiente ou ao cinismo económico. Mas, hoje, da Nigéria à Nova Zelândia, encontramo-nos todos confinados e deveríamos tomar consciência de que os nossos destinos estão ligados, queiramos ou não. Seria, portanto, o momento para refrescar o nosso humanismo, pois, enquanto não virmos a Humanidade como uma comunidade de destino, não poderemos pressionar os governos a agir num sentido inovador.”

 

O jornalista: E agora, passando longos períodos de confinamento, o que é que a Filosofia nos poderia ensinar?

 

Edgar  Morin: “É verdade que para muitos de nós que vivemos uma grande parte da nossa vida fora de casa este confinamento brusco pode representar um incómodo terrível. Mas penso que pode ser uma ocasião para reflectir, perguntar o que, na nossa vida, é frívolo ou inútil. Não digo que a sabedoria é permanecer toda a vida num quarto, mas, para dar um exemplo: pensando apenas no nosso modo de consumo e de alimentação, é talvez o momento de nos desfazermos de toda esta cultura industrial, cujos vícios conhecemos, o momento para nos desintoxicarmos. É também a ocasião para tomarmos consciência de modo duradouro dessas verdades humanas, que todos conhecemos, mas que estão recalcadas no nosso subconsciente: o amor, a amizade, a comunhão, a solidariedade, que fazem a qualidade da vida.”

 

3. Fica uma pergunta imensa, mas essencial: Quando terminar a hecatombe, teremos ao menos aprendido onde está o essencial? Ou voltaremos à vertigem do ter, esquecendo o ser?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 10 MAI 2020

CONVERSÃO, DIA DA TERRA, 25 DE ABRIL

 

Numa experiência diferente do tempo, um tempo parado, vazio, parece, por um lado, que nada acontece de especial, por outro, na medida em que se está atento, percebe-se que a vida está aí para ser vivida e em interrogação constante. O vírus invisível e global isso fez: obrigou a parar e a pôr as perguntas essenciais. O que aí fica são algumas notas sobre este tempo novo.

 

1. São muitos os que se perguntam se vamos sair melhores, na convicção de que sim. Por mim, espero que sim, mas temo que, passada a catástrofe, tudo volte exactamente ao mesmo. Não esqueço aquelas palavras de Primo Levi que, ao sair de Auschwitz, constatou que “não saímos nem melhores nem mais sábios”. E viaja pelas redes sociais uma “graça”, talvez, infelizmente, verdadeira: “Vamos sair melhores?” – “Não. Porque isto é um vírus, não é um milagre”.

 

No entanto, é de um milagre que precisamos, ao sair deste pesadelo: sair melhores e mais sábios. Para isso, não se trata de mudar apenas isto ou aquilo, é urgente mudar o modo de pensar. Precisamos de uma conversão, como manda o Evangelho. Frequentemente, traduz-se essa conversão por “fazei penitência”, mas o que lá está é o verbo grego: metanoiête, que quer dizer: mudai o vosso modo de pensar, mudai a vossa mentalidade, começai a pensar de modo outro e a agir em consequência. Qual é o propósito da vida, o seu sentido mais profundo? É enriquecer, produzir cada vez mais, consumir sempre mais? Ou o bem-estar, o viver bem, num mundo que é de todos, na entreajuda para maior alegria e mais felicidade no sentido autêntico? Queremos continuar na religião de um progresso sem limites, que aliás não é possível num mundo que é finito, limitado? Não queremos viver melhor, com moderação, sem explorar a Mãe Terra nem os outros nem a nós, dentro de um modelo de progresso que assenta num montão crescente de vítimas? Talvez o nosso engano seja este: em vez de vivermos aqui, agora, vivermos, alienados, numa concepção de tempo, que é o tempo que a modernidade inventou: o passado é apenas o ultrapassado e o presente apenas a rampa de lançamento para um futuro de progresso sem fim. Mas, assim, neste modelo, quando vivemos e somos verdadeiramente?

 

2. E cá estão os dados dramáticos, na celebração do Dia da Terra, na passada Quarta-Feira, 22. Ai de nós, se, insaciáveis na satisfação dos nossos desejos não arrepiarmos caminho. Sirvo-me de alguns dados, recolhidos de um texto de Faustino Vilabrille: “Cuidar da Mãe Terra é cuidar dos seres humanos”, com números devastadores. Só alguns:

 

Gases com efeito estufa. Em 2018, o dióxido de carbono (CO2) aumentou uns 147%, o metano (CH4) uns 259%, o dióxido nitroso (N2O) uns 123%. O que quereríamos com milhões de carros, aviões, cruzeiros de luxo...?

 

Invadimos tudo com infinitas radiações electromagnéticas.

 

Os mares e os oceanos acabam por ser o depósito final do lixo do planeta: desde 1950 fabricámos mais de 8.000 milhões de toneladas de plástico. De todo o plástico que há nos oceanos, 268.940 toneladas são microplásticos que, ao ser ingeridos pelos peixes, passarão à nossa cadeia alimentar.

 

Destruímos milhões e milhões de hectares de florestas: só no ano 2000 foram queimados 350 milhões.

 

Resíduos. Milhões de toneladas de substâncias químicas tóxicas são espalhados dos modos mais diversos, como petróleo, produtos radioactivos, explosões atómicas, produtos químicos, pesticidas, resíduos urbanos, hospitalares, sanitários, fabris...

 

A Terra é a nossa Mãe, e ela pode viver sem nós, mas nós não podemos viver sem ela. Cuidar dela é cuidar de nós. Ela é a nossa casa comum e tomamos agora cada vez mais consciência de que formamos uma única humanidade. Precisamos de uma “ecologia integral”, como sublinha permanentemente o Papa Francisco, porque quem mais sofre com os maus tratos do planeta são os mais pobres. É preciso pensar nos 815 milhões de pessoas que passam fome (segundo a ONU, com a crise que acompanha a Covid-19, o número pode duplicar) enquanto outros (será que fazemos parte deles?) esbanjam 1.400.000 toneladas de comida ao ano e 1.500.000 toneladas de roupa. “É injusto exigir ao planeta produzir tanto para a seguir esbanjar, e tantas pessoas a passar fome, nudez e frio. A Mãe Terra está a pedir-nos um pouco de austeridade, solidariedade e amor para o bem de todos e de toda a Criação.” E os milhões de milhões de euros ou dólares em gastos militares? E chegamos ao absurdo de a um investigador de alta qualidade se pagar por ano uns 100.000 euros, mas a um desportista de elite, que dá pontapés numa bola, pagamos 30, 50 ou até 100 milhões ao ano. “A sério: não estamos um pouco loucos?”.

 

No Dia da Terra, lá esteve o Papa Francisco, que a História não esquecerá também por causa da encíclica histórica sobre a ecologia, Laudato Sí, a pedir que “se crie um movimento de base, de baixo para cima” para conseguir “a conversão ecológica”. “Criados à imagem e semelhança de Deus, estamos chamados a cuidar e a respeitar todas as suas criaturas, mas com amor especial e compaixão os nossos irmãos, sobretudo os mais débeis”. “A presente pandemia está a ensinar-nos que só se estivermos unidos e encarregando-nos uns dos outros poderemos superar os actuais desafios globais e cumprir a vontade de Deus, que quer que todos os seus filhos vivam em comunhão e prosperidade. Falhámos na protecção da Terra, nossa casa-jardim, e na protecção dos nossos irmãos. Pecámos contra a Terra, contra o nosso próximo e, em última análise, contra o Criador, Pai bom.”

 

3. Devia celebrar-se o 25 de Abril? Quem poderá pôr isso em causa? Mas as comemorações tinham de ser como foram, na Assembleia da República? Não. Foi incompreensível e escandaloso que, enquanto a Páscoa foi celebrada como foi, no confinamento, e o Papa a celebrar sozinho, e bem, os funerais, e bem, têm de ser celebrados como são, numa míngua arrepiante de possibilidades de despedida e de expressão da dor, enquanto os cidadãos continuam confinados, e bem, o Parlamento se mantivesse irredutível para as comemorações, incluindo convidados, que deveriam ter respondido que, entre uma ordem — ficar em casa — e um convite, deveriam ter obedecido à ordem. O escândalo é tanto maior quanto era possível uma comemoração condigna: com o discurso do Presidente da República e um concerto de música clássica (a nona Sinfonia de Beethoven, por exemplo) e canções de Abril, a transmitir pelas televisões e outros meios de comunicação social.

 

Dito o que aí fica dito, penso que os deputados e os políticos em geral fariam bem em reflectir sobre as razões do enorme afastamento e desinteresse da população e, concretamente, dos mais jovens, em relação a estas comemorações e à política em geral.

 

Na presente situação de catástrofe pandémica, sei que a prioridade é dar as mãos, colaborar lealmente, não estamos em tempos de luta na atribuição de erros, mas, por outro lado, a caminho de um lento desconfinamento gradual e com as devidas cautelas — Ângela Merkel, por exemplo, avisou na Quinta-Feira que a pandemia está ainda “no começo” —, não se pode de modo nenhum deixar de pensar criticamente. Tenho insistido constantemente nisso, e não me canso de fazê-lo: escola vem do grego scholê, que significa ócio, não o ócio da preguiça, mas tempo livre para homens e mulheres livres pensarem e governarem a polis, e tenho alertado para a ameaça de ter acabado esse ócio, porque tudo, incluindo a política, se tornou negócio, do latim nec/otium, negação do ócio, e a técnica (e os negócios têm sobretudo a ver com técnicas), não pensa, apenas calcula, como aprofundou o filósofo Martin Heidegger.

 

Neste contexto e face à crise económica, social e política já presente e que vai acentuar-se dramaticamente — será mesmo verdade que não vai haver medidas de austeridade?! —, permito-me voltar a textos meus, que aqui publiquei muito antes da pandemia (“As maravilhas de Portugal”, Novembro de 2018, e “Sobre as eleições”, Setembro de 2019), nos quais não embarcava na “aparente euforia nacional”.

 

Algumas citações. Em 2018. “Quanto ao futuro, receio o abalo que acontecerá com a subida dos juros e se alguma crise internacional chegar. Há uma almofada suficientemente sólida de suporte? De qualquer forma, a dívida... E os portugueses não poupam, porque se criou a percepção de que tudo está sob controlo, e desculpam-se pensando também no que os Bancos cobram e as pessoas ainda se lembram de que vários Bancos faliram, e, até agora, não aconteceu nada, excepto que os contribuintes vão ter de continuar a pagar... O turismo continuará com a força do presente? Que investimentos se tem feito? O crescimento da economia tem derivado sobretudo da procura interna, e os portugueses até se endividam para consumos dispensáveis e viagens.”

 

Em 2019. “Dado que vivemos internamente mais de uma situação conjuntural favorável do que de investimentos sólidos para um desenvolvimento estrutural sustentável, receio que o país venha a confrontar-se com percalços inesperados. Tenho a sensação de que a aparente euforia tenha na sua fonte um manto de mentira e ilusão”. “Recentemente, a anterior Procuradora-Geral da República afirmou que o Estado está ‘capturado’ por redes de corrupção e compadrio. Joana Marques Vidal lamentou concretamente: Se nós pensarmos um pouco naquilo que são as redes de corrupção e de compadrio, nas áreas da contratação pública, que se espalham às vezes por vários organismos de vários ministérios, autarquias e serviços directos ou indirectos do Estado, infelizmente nós estamos sempre a verificar isso’.

 

Que compromisso assumem os Partidos neste domínio gravíssimo?”. “Ponto decisivo: que os Partidos esclareçam o que pretendem fazer em relação à justiça, não só à justiça social — há muita miséria no país (acrescento agora: e vai aumentar assustadoramente) —, mas à justiça-poder judicial, órgão de soberania, independente. A justiça continua lenta e, por isso, pouco eficaz, e, se se ler e ouvir a opinião pública: que ela foi atingida pelo véu de alguma desconfiança. Lembro o Presidente da República referindo-se, no passado 10 de Junho, às ‘falências na justiça’: Portugal não pode ‘minimizar cansaço, corrupções, falências na justiça’. Neste contexto, a Banca. Uma catástrofe! Há anos que o Estado, isto é, os contribuintes, andam a pagar, a tapar buracos com milhares de milhões de euros, e não há consequências para as más administrações e os desvios?”

 

Mais. “O que vão fazer os Partidos para que haja transparência na política e com os políticos? Sinceramente, atendendo às suas responsabilidades, penso que os políticos são mal pagos e até pergunto: será essa uma das razões por que para as tarefas políticas a maior parte das vezes não vão os melhores e estamos cheios de incompetentes? Mas, por outro lado, verifico que imensa gente se bate por, como diz o povo, “ir para lá — para onde? Para o poder. Há muita sedução pelo poder, pois ele é ‘o maior afrodisíaco’ (Henry Kissinger dixit). Mas também haver muitos privilégios que moram para essas bandas. Que haja, portanto, transparência! Donde vêm tantas regalias e privilégios auto-concedidos? Já não há vergonha em Portugal? Leio que subvenções vitalícias para políticos custam milhões de euros, que extras quase duplicam o salário dos deputados (...). E a maior parte dos deputados não morrerão de cansaço, a trabalhar no e para o Parlamento, como denunciou numa entrevista recente Macário Correia: ‘Metade dos deputados no Parlamento não faz nada de concreto ou sequer útil, anda lá só a ocupar o tempo.’ E ficam sempre aberturas para contactos presentes e sobretudo futuros, numa ligação in-transparente de política e negócios...”.

 

“É essencial a racionalidade política em ordem ao bem comum, bem para lá dos interesses próprios e partidários. E a competência. É necessário pensar sempre mais longe e aproveitar a oportunidade para um consenso mínimo nacional, com duração suficiente, nos domínios da saúde, da educação, da justiça, da segurança social, da política internacional. Numa hierarquia de valores, que anda muitas vezes, desgraçadamente, transtornada. Para evitar o sobressalto permanente. E com que geoestratégia?”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 26 ABR 2020

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Domingo da Ressurreição do Senhor, e esta segunda-feira de Páscoa, neste confinamento largo pelo privilégio de já viver exilado e isolado no campo, feito anacoreta (ou retirado no deserto) e monge (em grego, monachos significa sozinho), têm sido dias de nova reflexão sobre o Jesus histórico e o Ressuscitado. Até escrevi, em breve mensagem a uma querida amiga, precisamente em Dia de Aleluia: «A Páscoa é sempre - para mim - um passo difícil, na medida em que nos (me) leva a ir do histórico ao cerne da fé... Os únicos testemunhos coevos  que conheço da Ressurreição de Jesus são os constantes de textos neotestamentários. Tenho pensado na escrita de um texto sobre isto, apesar de, provavelmente, poder interessar a muitos poucos».

 

   Mas, Princesa de mim, sem me esquecer da promessa que te fiz de falar sobre Pôncio Pilatos, Tácito e Anatole France, aproveito esta oportunidade para te traduzir o início do artigo Ponce Pilate do Dictionnaire amoureux de Jésus do historiador francês Jean-Christian Petitfils (Paris, Plon, 2015): Penso muitas vezes na extraordinária e sulfurosa fama póstuma desse prefeito da Judeia que condenou Jesus ao suplício da cruz, quando afinal a gente tudo ou quase tudo esqueceu da vida dos poderosos Césares romanos. Todos os domingos, centenas de milhões o mencionam ao recitar o Símbolo dos Apóstolos ou Credo de Niceia-Constantinopla: «Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado...»

 

   Sub Pontio Pilato: tal referência nada tem de despicienda. É mesmo essencial para os dados da fé. Significa que a Incarnação não é um mito, um conto de fadas, aquilo, precisamente, que dela dizia o filósofo incréu Paul-Louis Couchoud no seu "Mystère de Jesus" (1924). Pois que, para ele, Jesus não é uma personagem histórica, mas uma figura mítica idealizada, um ser divino paulatinamente elaborado pela consciência cristã. «Admito todo o Credo, escrevia ele a Jean Guitton, menos essa inclusão de sub Pontio Pilato.» A presença intempestiva do prefeito romano num texto cristão incomodava-o. Já que ela é, pelo contrário, uma caução histórica da existência de Jesus.

 

   Apoiando-se nos escritos coevos de cronistas como Flavius Josephus, Fílon de Alexandria  e sobretudo Tácito, os historiadores durante muito tempo consideraram que Pilatos era "procurador" na Judeia. [Na verdade, como se veio a verificar depois, por uma lápide descoberta no teatro romano de Cesareia, o seu título (e sua função ali), no reinado de Tibério, ao tempo de Jesus, era o de "Prefeito", isto é, administrador público exercendo poderes militares e judiciais, sendo nessa sua capacidade que interveio no processo do Nazareno].

 

   Não sabemos bem se a aposição do Titulus damnationis  (razão da condenação), inscrito numa tabuinha de madeira no alto da cruz, era prática corrente. No caso de Jesus, o título INRI (Iesus Nazarenus Rex Iudeorum), terá sido redigido por Pôncio Pilatos. Tal redação consta do Evangelho de João, transcrevendo o que testemunhas oculares observaram. É interessante reproduzir nesta carta para ti, Princesa de mim, um comentário de Jean-Christian Petitfils. Traduzo:

 

   Foi intencionalmente que os sumos-sacerdotes Anás e Caifás denunciaram Jesus como perigosos Nazareno, não enquanto habitante da insignificante aldeia de Nazaré, na baixa Galileia, mas antes como membro do clã davídico que tinha esse nome que assim fazia dele um pretenso Messias político.

 

   Ao interrogar Jesus, Pilatos tinha-se dado perfeitamente conta de que o prisioneiro nada tinha a ver com qualquer chefe de bando com aspirações a uma realeza temporal. Tinha-lhe dito: «O meu reino não é deste mundo». E vira bem como os sumos-sacerdotes o procuravam manipular. Mas, fingindo segui-los, ordenou que o texto fosse inscrito nas três línguas utilizadas na Judeia: em aramaico, língua corrente; em latim, língua oficial do império; e em grego, usado nos meios comerciais e trocas internacionais.

 

   Estigmatizando assim a expectativa messiânica de Israel, Pilatos troçava dos sumo-sacerdotes e dos que haviam tentado obrigar a condenar Jesus. Escreve S. João que «essa tabuleta foi lida por muitos judeus porque o lugar onde crucificaram Jesus era próximo da cidade». Quando perceberam que tinham sido enganados, Anás e Caifás protestaram: «Não devias escrever "Rei dos Judeus" mas que "ele disse que era Rei dos Judeus"». Pilatos logo arrumou a questão: «O que escrevi está escrito».

 

   Petitfils, e outros historiadores nossos contemporâneos deduzem da leitura do texto grego original, em que essa resposta de Pilatos, dita em grego, sofre todavia de latinismo, terá si registada por testemunhas presenciais, entre as quais estava o próprio João Evangelista, que seria membro da alta aristocracia de Jerusalém e assim a teria recolhido da própria boca do Prefeito romano.

 

   Aliás, em muitos passos do seu Evangelho João insiste em referir testemunhos presenciais, muitos deles seus próprios. No relato da Paixão e Morte de Jesus é meticuloso na nomeação das pessoas presentes aos atos sucessivos que vai narrando, bem como no próprio silêncio em redor da Cruz. O texto de João é surpreendentemente magnífico pela sua íntima densidade, oferecida num cenário quase cinematográfico: ao assistirmos a uma cena, simultaneamente vamos descobrindo e pensarsentindo um mistério que apocalipticamente nos penetra. 

 

   Ao lermos o capítulo 19, Princesa de mim, vimos com minúcia o exterior aparente dos atos e dos factos, e podemos imaginar os rostos dos presentes, mas também sentimos o que tantos silêncios nos dizem da perplexidade e do sofrimento anímico das pessoas. É uma reportagem.

 

   Mas o capítulo 20 "apenas" interpela o íntimo dessa gente e de nós mesmos perante a revelação e manifestações posteriores de um facto único, que ninguém presenciou nem podia presenciar: a Ressurreição do mesmo Jesus que víramos morrer e ser sepultado. É um apelo à metanoia.

 

   Pois muitas vezes pensossinto que uma coisa é a nossa compreensão, outra será o poder de Deus. Aliás, este nem sequer poderá bem ser o que por poder entendemos. Tenho para mim, desde a minha mais tenra adolescência, que o poder de Deus não é qualquer faculdade de impor sem interrogar, de obrigar sem consulta.  Antes me soa como um apelo, uma chamada a sair dos meus limites, para ir ao encontro do que não conheço, ou ainda não sei entender. Nesse sentido se abre para mim a religião como espaço e tempo de libertação. Isto que te escrevo agora, Princesa de mim, ocorre-me neste instante como sendo aquilo que tantas vezes te disse quando te falava de me sentir simultaneamente no tempo mensurável e fora dele.

 

   O tal João Evangelista - de que não tenho foto alguma, nem sei ao certo, nem cientificamente, quem foi exatamente - é meu companheiro e irmão, sei que vivo com ele todos os dias. Confio nele porque me diz o que viu e ouviu presencialmente, e assinala o que ouviu dizer e testemunhar. Afinal, todos nós, seres humanos e limitados, somos honestamente assim: até os cientistas vão tendo cada vez mais de considerar o adquirido por quem os antecedeu. O início do capítulo 20 do conto evangélico de João refere: No primeiro dia da semana, Maria Madalena chega cedo ao túmulo, estando ainda escuro. E vê a pedra retirada do túmulo. Então desata a correr e vai ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e diz-lhes: «Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram!» Saíram então Pedro e o outro discípulo e foram até ao túmulo. Corriam juntos, e o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo; e, espreitando, vê depostos os panos. Porém não entrou. Chega então também Simão Pedro, seguindo atrás dele, e vê os panos depostos, e vê que o sudário, que estivera à volta da cabeça dele, não jazia juntamente com os panos, mas dobrado à parte em lugar próprio. Então o outro discípulo, o que chegara primeiro ao túmulo, entrou e viu, e acreditou. Ainda não  tinham entendido o passo da Escritura, segundo o qual ele tinha de ressuscitar dos mortos. Os discípulos voltaram de novo para junto dos seus.

 

   Maria Madalena ficou de pé a chorar no exterior do túmulo. Enquanto chorava, espreitou para dentro do túmulo e viu dois anjos sentados, vestidos de branco, um à cabeça, outro aos pés, no sítio onde jazera o corpo de Jesus. E eles dizem-lhe: «Mulher, porque choras?» Ela diz-lhes: «Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram». Enquanto ela dizia isto, voltou-se para trás e vê Jesus de pé, e não sabia que era Jesus. Jesus diz-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que era o jardineiro, diz-lhe: «Senhor, se o levaste, diz-me onde o puseste e eu levo-o.» Diz-lhe Jesus : «Maria!» Ela, voltando-se, diz-lhe em hebraico: «Rabbouni!» (o que quer dizer Mestre). Jesus diz-lhe: «Não me toques. Ainda não ascendi para o Pai. Vai para junto dos meus irmão e diz-lhes: "Subo para meu Pai e vosso, Deus meu e Deus  vosso.»

 

   A cena do "Noli me tangere" encontra-se largamente representada na iconografia cristã. A tradução literal da expressão latina da Vulgata será "Não queiras tocar-me". O corpo de Jesus ressuscitado é já um corpo glorioso, isto é, incorruptível, intocável. Não é como o de Lázaro  -  que Jesus tirara do reino dos mortos para devolver à vida terrena - um corpo restituído à animação da sua própria carne, como que apenas arrancado à dormição em que se encontrara. O Corpo de Cristo está já noutro mundo, onde nem sequer os seus discípulos poderão ir agora, e no mundo presente é o Corpo Místico que formam, na Eucaristia comum, aqueles que acreditam e se reconhecem pelo amor fraterno. Por isso mesmo se celebra, na Eucaristia, o Mistério da Fé como anúncio da morte, proclamação da ressurreição e esperança no regresso do Senhor Jesus, na hora em que todos seremos glorificados com ele.

 

   Mas não deixa de ser curioso que, no mesmo capítulo 20 de João, a seguir ao relato do "Noli me tangere!" e do anúncio feito por Maria Madalena, bem como da presença inesperada de Jesus que surge no meio dos seus discípulos reunidos numa casa totalmente fechada (pois tinham medo dos judeus), atravessando barreiras físicas e apresentando o seu corpo glorioso, seja também narrado o episódio da permissão dada a Tomé, uma semana depois, de tocar as feridas visíveis no mesmo corpo, para que, assim confirmando a sua realidade, acredite que é o corpo ressuscitado que tanto padecera... «Meu Senhor e meu Deus!» - exclama o desconfiado discípulo. «Porque me visteacreditasteBem aventurados os que não viram e acreditaram».

 

   Tal como quem não experimentou ainda a sua morte, não sabe o que esta é e apenas pode sofrer com a de outros, assim também quem ainda não ressuscitou terá de se contentar com acreditar na Ressurreição e esperar a sua. O próprio Tomé, mesmo depois de ter visto e tocado, terá tido que acreditar. A divina misericórdia interroga a nossa esperança.

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

ANSELMO BORGES: "É POSSÍVEL QUE OS CATÓLICOS SE SINTAM ABANDONADOS"

 

Em tempos de pandemia, o teólogo Anselmo Borges questiona o que está atrás das portas fechadas das igrejas, o que se passa com a humanidade que deixou as praças vazias em todo o mundo – sem esquecer a de São Pedro.

 

O padre e teólogo Anselmo Borges refere nesta longa entrevista que tem tido muito tempo nas últimas semanas para pensar, ler, andar... Ao mesmo tempo, tem sido confrontado com uma Igreja Católica bastante diferente da que tem existido há dois mil anos, seja por ver o Papa Francisco sozinho na Praça de São Pedro a falar ao mundo e a celebrar a Páscoa, bem como por se confrontar com a interrupção de todas as celebrações religiosas desde há semanas e de uma forma tão radical que jamais achara ser possível.

 

Esta entrevista mostra um pensador diferente de anteriores conversas, dir-se-ia um crente que foi mais do que nunca obrigado a recorrer à sua reflexão de décadas, aos ensinamentos da Bíblia e aos de muitos teólogos e cientistas sociais – a favor e contra a instituição Igreja e estudiosos da fé – com quem se deu ou estudou, de modo a ser capaz de repor a ordem do seu pensamento perante a catástrofe que atingiu toda a humanidade sem um aviso prévio.

 

Sendo uma voz critica de muitos comportamentos ostentatórios da Igreja, estudioso de novas formas do existir contemporâneas, como as questões que a neurociência vai desbravando entre outras novas tecnologias, adepto do diálogo inter-religioso e insaciável no confronto de ideias, Anselmo Borges realiza nesta entrevista um mergulho teológico através da história de muitos homens e mulheres que o antecederam. Por isso não se estranha quando afirma perante a crise temporária provocada pela covid-19 junto da instituição de que faz parte: “Na Igreja primitiva, não havia sacerdotes nem toda a maquinaria de que a Igreja, entretanto, e não pelas melhores razões, se foi apetrechando.”

 

Aproveita para equacionar além do tempo mais imediato que se segue à maior preocupação de todos os habitantes da Terra, o fim da pandemia, no que respeita a pilares que o Papa Francisco tem estado a abanar: “Pensando no futuro, julgo que se imporá uma revisão na formação dos futuros padres. Ela deve operar-se em ambientes naturais, mais em contacto com a realidade – os seminários serão para encontros espaçados, para uma formação mais específica comunitária. E haverá dois tipos de padre: o homem ou a mulher, casados ou não, escolhidos pela comunidade, que têm a sua profissão e que por algum tempo assumem a missão de liderar a comunidade; haverá também os que, celibatários por opção, se entregam a tempo inteiro à coordenação de comunidades e à sua formação mais profunda e intensa...” Para que não fiquem dúvidas, recupera as palavras do antecessor de Francisco:”O próprio Bento XVI, quando era ainda apenas o professor Joseph Ratzinger, propôs algo de semelhante.”

 

Há uma semana aconteceu o primeiro Domingo de Páscoa na história dos católicos em que as suas igrejas estiveram e continuam encerradas por todo o mundo. Esperava ser testemunha de uma religião de portas fechadas?
Sinceramente, não. Aliás, nunca imaginei que havíamos de passar por um flagelo global como este que estamos a viver.

Mas uma crise é ou deve ser sempre uma oportunidade. Neste caso, penso que foi uma oportunidade para reflectir. De facto, havia o perigo de reduzir a Páscoa a procissões, correrias, talvez demasiada exterioridade e até folclore. Foi a oportunidade de se ir ao essencial e perguntar pelo sentido real e verdadeiro da Páscoa. Perguntar, por exemplo: em que é que eu acredito, em que é que realmente acreditamos, e sobretudo: em quem acreditamos? A Páscoa celebra a paixão e morte de Jesus e a sua ressurreição, e este é o centro da fé cristã. Neste mistério, revela-se que Deus, o Mistério último, indizível, se revelou como Amor incondicional em Jesus. Evidentemente, a ressurreição não é a reanimação do cadáver; nela, o que se afirma é que Jesus, crucificado, está vivo para sempre, ele é o Vivente em Deus, que é a Vida e a fonte da vida.

 

Foi a oportunidade para o reencontro com uma fé mais límpida?
Nada nem ninguém consegue dizer o mistério da ressurreição como os Evangelhos. Os discípulos, a começar pelas discípulas (Maria Madalena foi a primeira), reflectindo sobre o que Jesus fez e foi, no modo como ele se relacionava com Deus e com todos, a começar pelos mais abandonados, pobres, pecadores, prostitutas, no modo como morreu, fizeram a experiência avassaladora de fé de que ele é o Vivente em Deus e, quando quiseram dizer essa experiência descrevem o que chamaram “aparições”, “visões”, mas de tal modo que Maria Madalena, por exemplo, não o reconheceu, só quando ele se lhe dirigiu pelo nome: “Maria”, mas ela não pôde tocá-lo; Jesus caminhou com os discípulos de Emaús, mas eles só o reconheceram “ao partir do pão”; entrava, com as portas fechadas, saudava os discípulos: “a paz esteja convosco”, e desaparecia; disse a Tomé que metesse a mão no lugar dos cravos, mas não se diz que ele tenha metido, inclinou-se: “Meu Senhor e meu Deus”… Acreditaram e foram proclamar a grande notícia e morreram por ela. Na fé, como em tudo o que é essencial, o ver é o ver espiritual, íntimo e único, mas partilhável. Sem essa experiência interior, fica-se na mera exterioridade e em fórmulas dogmáticas congeladas que nada dizem.

É isso: é ele, pessoalmente, o Jesus real, mas transformado, já não no tempo e no espaço, mas na dimensão da eternidade. Foi Ernst Bloch, o ateu religioso, que me disse um dia: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”: foi com esta proclamação que o cristianismo venceu.”
Depois, quem acredita parte para a vida, procurando fazer o que Jesus fez e mandou: combater por um mundo justo, feliz, para todos, na paz. Com mais esperança, força, confiança. E na convicção de fé, com razões, de que o ser humano na morte não cai no nada, mas entra na Realidade mais real e verdadeira, na plenitude da vida em Deus. Como é? Ninguém sabe.

 

Estarmos perante uma religião que deixou de baptizar crianças, dar catequese, casar e enterrar católicos, não a deixa questionável aos olhos dos fiéis? 
Esta situação pode provocar um abalo nos fiéis, e eu espero que seja positivo. O que se passa é que o clero se tinha apropriado da Igreja, dos sacramentos, acabando por criar, mesmo que talvez isso não tenha estado na sua intenção, uma Igreja piramidal, vertical, clerical, com privilégios, o carreirismo e o clericalismo e a corte, que é a Cúria romana e outras, tudo o que, segundo o Papa Francisco, constitui “a peste da Igreja”.

No quadro dessa mentalidade, nesse modo de Igreja, é bem possível que os católicos se sintam agora um pouco abandonados, desamparados, pois não podem ter acesso imediato aos “donos” da sua religião.
É urgente repensar o que é verdadeiramente a Igreja, que é, antes de tudo, o conjunto de todos os baptizados. Na Igreja primitiva, a Igreja era primeiro “a Igreja doméstica”, que se reunia nas casas de algum cristão ou cristã com uma casa mais ampla e quem presidia era o dono ou a dona da casa e celebravam a memória de Jesus, fazendo o que ele mandou: dar a bênção e partilhar o pão e o vinho, lembrando-nos dele, em acção de graças, como diz a palavra Eucaristia. E foi a primeira tremenda revolução na história do mundo no que à religião se refere: se algum senhor se tinha convertido a Jesus, ali sentava-se à mesma mesa que um escravo. Nestes dias de Páscoa, leu-se a história dos discípulos de Emaús, que reconheceram Jesus ressuscitado “ao partir do pão”. Para escândalo de muitos, não se fez a consagração.
Ainda alguém me há-de mostrar no Novo Testamento onde é que está que Jesus ordenou alguém sacerdote. Todos os baptizados são sacerdotes e o ministro ordenado (o chamado indevidamente sacerdote) é, como diz a palavra, apenas o que preside, num serviço ministerial, ao sacerdócio real dos cristãos.

 

Esta situação de prática de religião suspensa fisicamente irá provocar algum estremecimento nos católicos que viam nas missas e noutras cerimónias religiosas uma certeza ao longo de toda a sua vida?
Suspensa porquê? Já disse que na Igreja primitiva não era assim. Na Igreja primitiva, não havia sacerdotes nem toda a maquinaria de que a Igreja, entretanto, e não pelas melhores razões, se foi apetrechando. Por isso, é necessário reconhecer, com o teólogo Bernardo Pérez Andreo, que o coronavírus, com o confinamento, acabou por colocar em xeque esse catolicismo tradicionalista, que deixa os padres e bispos com a possibilidade de celebrar e comungar, discriminando os outros fiéis, que ficarão à míngua: “O catolicismo não pode ser a dependência do clero”.

Eu não sou nem nunca fui anarquista. E, por isso, considero que deve haver uma “ordem” (daí, o padre ordenado ou o bispo…) e um mínimo de organização.
Mas quem pode impedir ou declarar inválidas as celebrações da Eucaristia realizadas nas famílias? Estas não são porventura Igrejas domésticas? Ou, como já escrevi, impedir que se concelebre “coronoviricamente” em casa, assim: em vez de apenas “assistir” à Missa pela televisão ou outras novas tecnologias, colocar numa mesa com uma vela acesa e o livro dos Evangelhos pão e vinho, símbolos da vida, e participar na celebração, perdoando uns aos outros os pecados como Jesus mandou, ouvir a Palavra de Deus e comungar realmente e não apenas espiritualmente, como é aconselhado? Aliás, a comunhão, para ser real, não tem de ser sempre espiritual também? E o que são os sacramentos senão sinais visíveis de uma Presença (com maiúscula) invisível, mas real e actuante na graça que vivifica?

 

Está a falar por experiência própria?
Permita que lhe conte um entre muitos encontros que tive com o maior exegeta católico do século XX, grande cristão, o meu querido amigo, professor de Tubinga, Herbert Haag. Foi numa Sexta-Feira Santa em sua casa, em Lucerna. Conversámos longamente sobre Jesus, a sua história, os seus desígnios, a sua morte e ressurreição, a sua Igreja. Até foi nesse encontro que ele me pediu para ir buscar o Evangelho segundo São João em grego e ler aquele passo: “Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados”, e reparei então que Jesus não disse isso aos Apóstolos mas aos discípulos (oi mathetai). Conversámos enquanto partilhávamos uma refeição ao anoitecer, uma refeição com pão, queijo e bom vinho. Já noite dentro, à saída para o hotel, perguntei-lhe em afirmação: “Professor, foi uma Eucaristia”. E ele, serenamente: “Claro que foi.”

 

E nos membros do clero esta interrupção da sua missão levantará questionamentos diferentes daqueles que assombravam a Igreja nos últimos tempos, como mulheres a serem ordenadas, casamento dos padres?
No contexto do que acabo de dizer-lhe, é essencial que o clero medite na sua missão e no seu lugar na Igreja e no mundo. Impõe-se uma conversão radical, em ordem a uma Igreja já não clerical, piramidal, mas participativa, em círculo, comunional, pondo cada um, cada uma, os seus carismas ao serviço de todos. Homens ou mulheres, casados ou não, porque Jesus não impôs o celibato.

Mas, repito, não sou anarquista e, quando passar este pesadelo, os católicos, porque o cristianismo é simultaneamente uma fé pessoal a partir de uma experiência íntima, e comunitária, reunir-se-ão outra vez festivamente em assembleia comunitária, para, todos juntos, celebrarem a Eucaristia.
Mas, pensando no futuro, julgo que se imporá uma revisão na formação dos futuros padres. Ela deve operar-se em ambientes naturais, mais em contacto com a realidade (os seminários serão para encontros espaçados, para uma formação mais específica comunitária). E haverá dois tipos de padre: o homem ou a mulher, casados ou não, escolhidos pela comunidade, que têm a sua profissão e que por algum tempo assumem a missão de liderar a comunidade; haverá também os que, celibatários por opção, se entregam a tempo inteiro à coordenação de comunidades e à sua formação mais profunda e intensa... O próprio Bento XVI, quando era ainda apenas o professor Joseph Ratzinger, propôs algo de semelhante.

 

Se todas as epidemias da História da humanidade até há bem pouco tempo eram 'carimbadas' como um castigo de Deus, esta não o será. É uma primeira pedra a cair num edifício mental religioso com dois mil anos e que produzirá leituras diferentes das páginas da Bíblia que guiaram até há bem pouco os católicos? 
Desgraçadamente, ainda há quem, incluindo cardeais, ouse apelar para o castigo de Deus. Isso é uma blasfémia. Porque é incompatível com Deus que criou por amor.

Como já disse, impõe-se saber ler a Bíblia e renovar e recriar a linguagem, não só teológica, mas também litúrgica. Por exemplo e só exemplos: como se pode continuar a dizer que as crianças nascem com o pecado original? Só se se entender por isso o que faz sentido: que nascem inocentes, mas para um mundo onde já há pecado e, por isso, podem ser afectadas por ele, como um não fumador, ao entrar numa sala de fumadores, pode ser contaminado pelo fumo. E o que é que quer dizer para um contemporâneo, ao recitar o Credo: “Gerado, não criado, consubstancial ao Pai”?; que quer dizer: “Creio na ressurreição da carne?”; que dizer a uma pessoa que tem medo de comungar na mão, porque podem cair fragmentos da hóstia? E as homilias inúteis, vazias ou contra  a razão? Só exemplos, que obrigam a reflectir e a não esquecer que de Deus, no Novo Testamento, se diz que ele é “agapê” (amor incondicional) e também “Logos”, que quer dizer razão, inteligência. Portanto, não basta o amor, a bondade, impõe-se atender à razão, à inteligência e procurar viver interpenetrando bondade e razão, amor e inteligência.
Por vezes, aparecem na Internet vídeos a ridicularizar o que parece a fé cristã. A mim não me ofendem, pois apenas ridicularizam, e é urgente aprender com isso, imagens ridículas de Deus e dos dogmas que a Igreja foi e vai tantas vezes transmitindo.

 

A forma como o Papa Francisco tem conduzido as suas aparições nestas últimas semanas torna-o mais consensual dentro da própria igreja Católica?
Aqui, permita que, na situação desta calamidade da Covid-19, que lembra, por exemplo, as pestes, recorde o Decameron de Bocaccio (1313-1375) no contexto da Peste Negra. Está lá a história daquele judeu bem intencionado que, instado por um amigo a converter-se, decide ir a Roma para ver e analisar o que se passava no centro da cristandade. O amigo tenta dissuadi-lo, pois Roma não seria o lugar ideal para encontrar o cristianismo, mas ele parte, deparando realmente com a podridão moral: luxúria, todos eram gulosos e beberrões, simonia e tantos outros vícios e pecados… Regressando a Paris, encontra-se com o amigo, que esperava tudo menos a sua conversão. Mas não. Ele voltara convertido, e a razão era que, se a Igreja, apesar do que vira, continuava viva, só podia ser porque como sua base e fundamento se encontra o Evangelho e o Espírito Santo. Nesta linha, também se conta que, quando Gandhi esteve no Vaticano, olhou para aquilo tudo e terá dito como o judeu do Decameron: se nem estes acabaram com o cristianismo, o Evangelho de Jesus é realmente verdadeiro.

 

O que nos leva de novo a Francisco...
Hoje, no Vaticano, mora (não será o único) um Papa cristão, Francisco. Que dá ânimo, consolação, esperança, confiança, que põe o seu esmoleiro apostólico, o cardeal Krajewski, protegido mas sem qualquer adorno cardinalício, nas ruas com os sem abrigo e indigentes, que quer abraçar a todos, que devem saber que “no isolamento em que sofremos falta de afecto e de encontro, fazendo a experiência da falta de muitas coisas”, ninguém está só. Na Páscoa, fez uma homilia programática para uma conversão global, pedindo o alívio ou até o perdão da dívida aos países mais pobres, que os refugiados não sejam abandonados à sua tragédia, apelou à solidariedade na União Europeia e à superação dos egoísmos, porque “do desafio do momento actual depende não só o seu futuro, mas o do mundo inteiro”. E esta semana tomou a iniciativa de criar uma Comissão de peritos para estudar como enfrentar a terrível crise económica, social e política a caminho. Com cinco grupos de trabalho que se ocuparão de reflectir sobre os desafios socioeconómicos, culturais, políticos, espirituais, do futuro já presente. Qual o contributo da Igreja nesta nova situação dramática e decisiva na qual o que está em jogo é o próprio futuro da Humanidade?

 

Que significado tem, e terá, para os fiéis um homem só na Praça de São Pedro a falar para todos eles e para o resto do mundo?  
É uma imagem pregnante que ficará na memória de todos quantos, naquela tarde um pouco chuvosa e escura, presenciaram Francisco a atravessar sozinho em passos lentos aquela Praça de São Pedro deserta e a subir as escadas que levavam a uma plataforma. Dali, convidou à conversão e à esperança, insistiu repetidamente na necessidade da fraternidade e da solidariedade, dirigiu-se longamente às “pessoas comuns, muitas vezes esquecidas, que não ocupam as primeiras páginas dos noticiários televisivos, dos jornais e das revistas nem aparecem nos grandes desfiles do último show, mas que, sem qualquer dúvida, estão a escrever hoje os acontecimentos decisivos da nossa história”, e citou “médicos, enfermeiros e enfermeiras, empregados de supermercados, agentes de entretenimento, artistas, fornecedores de cuidados ao domicílio, transportadores, forças da ordem, voluntários, padres, religiosas e tantos, tantos outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho”. Num abraço que quer abraçar e consolar a todos, abençoou o mundo, pedindo que se ponha de lado “a nossa sede de omnipotência e de posse e domínio”.

Na sua simplicidade comovente, de uma intensidade avassaladora, foi mais um gesto que corroborou não só nos fiéis mas também em não crentes a imagem de um líder, um profeta, político-moral global confiável.

 

A Igreja Católica fechou rapidamente as portas dos templos, no entanto não demorou demasiados dias a aparecer ao lado dos que creem nela? 
Mais uma vez, penso que é urgente operar uma revolução. Cá está: quando se fala em Igreja, pensa-se em primeiro lugar e imediatamente na organização e na hierarquia: Papa, bispos, cardeais, padres… Ora, o Concílio Vaticano II veio corrigir. A Igreja é em primeiro lugar o Povo de Deus, o conjunto dos baptizados e, nesse Povo, há uma organização, inevitavelmente, que deve seguir o que Jesus queria, e o que ele queria até se adequa mais aos tempos, que caminham no sentido da democracia. Na Igreja, tem de haver serviços, ministérios, sem honrarias nem privilégios nem mitras nem barretes cardinalícios nem solidéus que, nas celebrações, levam àquele ritual, tão desinteressante, do tira e põe solidéu. A Igreja deve ser mais do que uma democracia, pois Jesus disse: “Eu vim não para ser servido, mas para servir” e: vós não deveis procurar ser os primeiros pelo poder, mas pelo serviço: “vós sois todos irmãos”.

O equívoco tem de ser urgentemente corrigido. Os católicos não crêem na Igreja; o que é preciso é, passando à verdade, confessar: em Igreja, todos juntos, crêem em Deus Pai-Mãe, criador e salvador, crêem em Jesus, o enviado de Deus, que revelou por palavras e obras Deus, o Mistério invisível e indizível, como Amor, e crêem assim, na luz do Espírito Santo. O acento não pode estar de maneira nenhuma na organização e na hierarquia.

 

E já vê sinais de uma futura mudança?
Viaja na Internet uma “graça” que diz bem o que eu quero exprimir. Mais ou menos assim: o Diabo: “Com a Covid-19 fechei-te as igrejas”; Deus: “Pelo contrário, abri uma em cada casa”. É evidente que eu não quero de maneira nenhuma que as igrejas fiquem definitivamente fechadas, mas para que servem as igrejas-edifício sem a Igreja da fé vivida por cada um dos cristãos e sem as “Igrejas domésticas” em cada casa e família?

Dito o que aí fica, quero prevenis e sublinhar que,  tanto mais quanto ensinei muitos e muitos anos Antropologia Filosófica, não ignoro que o ser humano é um animal simbólico e simbolizante e precisa de símbolos e de rituais. Mas que eles sejam adequados e vivos e belos.

 

A palavra cisma deixou de se ouvir. O inédito de dois papas vivos em simultâneo, com opiniões nem sempre convergentes, vai ser uma polémica esquecida no pós-pandemia ou tudo voltará a ser com dantes?
Em primeiro lugar, quanto aos dois Papas, nada justifica teologicamente que Bento XVI se tenha intitulado Papa emérito. Não há Papas eméritos. O Papa é o bispo de Roma,  ao qual está vinculado o papado, como serviço de unidade da Igreja, na caridade. Só há um Papa, como foi dito até pelo ultraconservador cardeal Gerhard Müller, durante a recente polémica, por causa do cardeal Robert Sarah. Quando deixa de ser Papa, torna-se bispo emérito de Roma. E devia, para evitar confusões e aproveitamentos, deixar o Vaticano e as vestes pontifícias. Como fará, estou convencido disso, o Papa Francisco, se e quando resignar.

Sim, a palavra cisma deixou de se ouvir, pois, no meio desta calamidade que a todos atinge, quem quer ouvir falar nisso? É preciso ir ao essencial e acudir às pessoas em necessidade, também em necessidade espiritual.

 

É uma discussão em quarentena?
Mas não é impossível que, se não houver conversão ao núcleo da fé, esse discurso do cisma volte. Mas digo-lhe: uma Igreja sem conversão ao que é essencial e determinante da fé cristã — o determinante é Jesus Cristo, na vida e na morte —, e que não se recrie segundo esse determinante, na organização, na formulação da doutrina, na liturgia, será uma Igreja cada vez mais museu, que se irá tornando irrelevante, insignificante, no meio da sociedade e da História.

A Igreja assenta em três pilares fundamentais. Em primeiro lugar, a fé, essa entrega confiada a Deus, o Mistério último, Amor incondicional revelado em Jesus Cristo. Essa fé não pode ser irracional, não pode, muito menos, agredir a razão, tem de ser pensada e reflectida e ser capaz de dar razões dela e da esperança. A Igreja tem de ser a multinacional do sentido, do Sentido último. Depois, a fé vive-se na oração, certamente, mas não menos no amor, que se traduz no combate lúcido e corajoso pela justiça, pela dignidade divina de todos, pelos direitos humanos. Aqui, é preciso lembrar que o cristianismo operou várias revoluções, uma delas, essencial: ele transcende a confessionalidade; de facto, como diz o capítulo 25 do Evangelho segundo São Mateus, no Juízo Final, não se perguntará às pessoas, em ordem à salvação, por doutrinas e dogmas, por actos religiosos confessionais (isso não significa, de modo nenhum, menosprezo por eles), mas por aquilo que se fez na ordem aparentemente tão pouco espiritual, religiosa e confessional: “Tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, estava nu e vestiste-me, estava no hospital, na cadeia, e foste ver-me.” E quem assim procedeu não sabia que o outro necessitado é Jesus, o que significa que alguém que até se confessa ateu, mas pratica a justiça e faz o bem, é realmente cristão, e isto é estrondoso. O terceiro pilar são liturgias belas, que celebram festiva e comunitariamente, com alegria, a vida vivida em Deus. Porque Deus não está fora; quem acredita sabe que é em Deus que nos encontramos sempre.  

 

Nos seus livros e ensaios existem preocupações filosóficas, científicas e metafísicas que se debatiam com o mundo como o conhecíamos. Até que ponto esta pandemia o vai obrigar a rever certos pressupostos em que acreditava?
Desculpe talvez a vaidade, mas não me sinto na necessidade de revisões. De facto, nestas circunstâncias que atiram para um sofrimento incrível, a impotência, a morte, talvez o abalo maior possa vir daquele famoso dilema, que já vem de Epicuro: Deus deve ser omnipotente e infinitamente bom. Então porque é que nos abandona e nada faz? Eu já tinha reflectido muitas vezes nisso, mostrando que é falso o pressuposto de que é possível um mundo finito ser infinito, em processo evolutivo e sem choques; não se pode querer a autonomia das realidades terrestres e cósmicas e ao mesmo tempo um Deus intervencionista; nem é compaginável querer a liberdade e ao mesmo tempo um Deus manipulador.

Deus é omnipotente, não no sentido de dominar, mas enquanto Força infinita de criar. Ele é o criador, não se afastou do mundo, está infinitamente presente ao mundo, impulsionando ao bem e como anti-mal, mas respeitando a sua autonomia e a nossa liberdade. E a História está em processo e lê-se do fim para o princípio e o crente espera, com razões, que a última palavra, que ainda não foi dita, será dita por Deus e será uma palavra de misericórdia e salvação para a vida eterna. Evidentemente, o crente não pode dizer que sabe que Deus existe e que há vida para lá da morte. E entende o não crente, concretamente por causa do mal no mundo. Mas o não crente também não pode dizer que sabe que não há Deus e que com a morte acaba tudo. Ele não sabe, crê, e eu entendo as suas razões. Mas o crente também crê, com razões. Pessoalmente, penso que é mais razoável acreditar em Deus e na vida eterna. No próprio acto em que o crente ousa entregar-se, em confiança radical racional, a Deus, o mundo, que se apresenta tão ambíguo, ambivalente  e tantas vezes sem sentido, ilumina-se e torna-se mais razoável, pleno de sentido.

 

Já releu livros de colegas teólogos em que certas questões de que divergia parecem agora ter algum significado?
Não. Mas, salvaguardando sempre o pluralismo na Igreja, pois, como disse São Paulo, “onde está o Espírito de Cristo aí está a liberdade”, e o princípio de que as pessoas estão antes e acima do Código de Direito Canónico, estou de acordo em que, no meio de algum descalabro moral das nossas sociedades, se impõe evitar o perigo de que agora, dentro da infinita misericórdia divina, vale tudo. Como é igualmente necessário prevenir contra a ameaça de alguma anarquia institucional na Igreja.

E é preciso manter sempre o equilíbrio racional, também na análise política, incluindo a economia política e a geoestratégia. É evidente que é necessário denunciar o capitalismo desregrado, que não serve de modo nenhum e que mata, mas também não se pode, depois, de modo nenhum, ser ingénuo quanto às soluções.
Lá está sempre a aliança da bondade e da razão.

 

Acredita que a humanidade ficará diferente após esta crise mundial ou retiraremos poucos ensinamentos? 
Esta crise vem cheia de ensinamentos. Vamos aproveitá-los? Temo que estejamos agora unidos mais pelo medo comum face ao incontrolável (“o indisponível”, de que fala o filósofo Hartmut Rosa) do que pelas lições que esta crise nos traz e que tanto precisávamos de aprender.

Alguns exemplos. Andávamos distraídos do essencial, apressados, pensando que estava tudo sob o nosso controlo, que éramos omnipotentes. De repente, ficámos desorientados e perdidos na nossa fragilidade, expostos ao medo, à morte, caíram sobre nós perguntas essenciais, como: o que é que verdadeiramente vale? qual o sentido da vida? quem somos, o que somos? Os nossos planos caíram, ficámos com imenso tempo, um tempo estranho, parado, vazio, num silêncio de breu. Egoístas, cultores de um individualismo soberano e arrogante, demo-nos de repente conta de que dependemos uns dos outros, que nos podemos contagiar uns aos outros, mas também só uns com os outros nos podemos salvar. E, presos num consumismo voraz e alarve, reparamos agora que precisamos de muito menos para viver bem, é possível viver com menos. E que precisamos de pensar e de meditar. E não somos omnipotentes, não somos Deus, não somos deuses, como lembrava há dias Paulo Rangel, citando o cardeal alemão Reinhard Marx.

 

Pouco mudará, então?
Ficaremos com estes ensinamentos vitais ou, terminada a crise, esqueceremos tudo e voltaremos à vertigem da corrida e da competição, fechando-nos outra vez no individualismo, no consumismo, esquecendo todas as vítimas: por exemplo, todos os dias morrem de fome 24 mil pessoas no mundo e há 215 milhões de crianças no mundo que são vítimas de escravatura, continuarão as guerras, a violência, a exploração, o primado do deus Dinheiro? Tanto mais quanto já está presente e aumentará uma crise terrível económica, social, política. E precisávamos de unir-nos na solidariedade global, mas será que os nacionalismos, populismos, imperialismos invadirão o mundo? Tínhamos tomado consciência de que, por causa do confinamento, o ar era mais puro, havia menos poluição, mas estaremos dispostos a uma real conversão também neste domínio vital da salvaguarda da mãe Terra e da casa comum?

 

Que atitudes sugere?
Precisaríamos de parar, de meditar, de rezar, de ter tempo para nós, para a família, para a beleza, para a contemplação, para a música, para pura e simplesmente fruir do milagre de viver e estar vivo… Mas vamos esquecer e voltar à vertigem da aceleração alienada? Para onde queremos ir, afinal, até que venha outro vírus?

O ser humano é terrivelmente complexo e carente. É por isso que não se aquieta no essencial do ser, e deslumbra-se com o ter. Chamo permanentemente a atenção para a escola, essa palavra mágica que vem do grego scholê, que significa ócio, não o ócio da preguiça, mas o tempo livre para homens e mulheres livres pensarem e governarem a polis. Mas há sempre o perigo do negócio (de nec/otium, negação do ócio), de tudo se tornar negócio, incluindo a política. Esse perigo está aí concretizado e operante. Ora, para os negócios e a técnica, não se pensa – o filósofo Martin Heidegger preveniu: a técnica não pensa —, não se pensa, apenas se calcula, e fica tudo reduzido a cálculos.

 

Perigos não faltarão à humanidade nos próximos tempos?
Sim, há uma série de problemas que são globais, como o armamento atómico, químico e biológico; as questões da ecologia; os mercados; os problemas levantados pelas NBIC (acrónimo de nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas, neurociências), como o transhumanismo, o pós-humanismo, o eugenismo; as migrações… Problemas globais, que precisam de soluções ético-jurídico-políticas globais, no quadro de uma Global Governance (não digo um governo mundial), uma governança global. Ora, de facto, a política é nacional ou, quando muito, regional.  E a nova geoestratégia? E a China?

Aqui, a Igreja Católica, enquanto única instituição verdadeiramente global, poderá, como já ficou dito, em união com as outras Igrejas cristãs e as religiões mundiais, ter um papel decisivo numa Declaração ao mundo sobre as condições de possibilidade de futuro para a Humanidade. Apesar de tudo, pelo menos 80% da Humanidade ainda se confessa religiosa.

 

Em cem anos nunca Fátima fechou as portas aos peregrinos que vêm de todo o mundo para o 13 de Maio como irá verificar-se este ano. Será, finalmente, a vitória da legião anti-Fátima ou um fait-divers no meio de todo o pandemónio global? 
De maneira nenhuma. Não é nem será a vitória dessa legião. Pelo contrário. Para já, impunha-se evidentemente, até por uma questão de bom senso, fechar Fátima e anular a celebração pública do 13 de Maio. Mas, dentro da lógica de Fátima e do que leva milhões de peregrinos a Fátima — Maria é a mãe, a que ouve e entende —, logo que seja possível (quando, não se sabe), as pessoas irão lá em massa, para rezar, para agradecer, para pedir. Exactamente para aquilo que já fazem e independentemente da Igreja oficial. Fátima salta, de algum modo, para fora do controlo do clero. Nunca esqueço que, quando há anos se anunciou, num 13 de Maio, que ia ser “revelado” o terceiro segredo de Fátima, eu, diante da televisão, pensei que toda aquela gente iria ficar especada a ouvir. Mas não. Os peregrinos continuaram na sua devoção e na sua fala íntima com a Mãe. A definição precisa de Fátima foi dada há muito tempo por Frei Bento Domingues: “Fátima é o cais de todas as lágrimas dos portugueses”.

 

Sabe como está a situação financeira dos padres nas paróquias que ficaram sem receber os peditórios?
Não sei, porque não sou pároco. Pareceu-me, por aquilo que ouvi a um colega que é pároco, que vai haver algumas dificuldades, exactamente na medida em que não há os peditórios nem se deu a chamada “côngrua” no compasso da Páscoa. Penso serem essas as duas fontes de receita para o salário dos párocos e para pagar as despesas das igrejas.

De qualquer modo, as suas dificuldades não se assemelharão às de muitas famílias que suponho viverem já em autêntica miséria, inclusivamente queixando-se da falta de possibilidade de alimentar os filhos.

 

Como estão a conviver as outras religiões com estes novos tempos?
Tanto quanto me é dado saber, concretamente os protestantes, os judeus e os muçulmanos têm utilizado também as novas tecnologias para se unir e rezar.

E parece-me que as dificuldades terríveis por que todos passamos têm unido a todos inter-religiosamente. Afinal, indo mais fundo, é mais o que nos une do que o que nos separa. O que nos une é o Mistério, o Sagrado, referente comum de todas as religiões que saibam o que isso quer dizer, e o mandamento de amar o próximo como a nós mesmos, concretamente e sobretudo quando está mais fragilizado e em maior dificuldade. O que nos une é, antes de tudo, a humanidade comum de todos numa casa comum, sabendo que nos salvamos juntos ou nos perdemos todos.
E, dado o prestígio do Papa Francisco, penso que as várias religiões deveriam ser associadas à Declaração comum à Humanidade, atrás referida.

 

Como está a decorrer a sua quarentena? 
Normal. Eu sou um privilegiado. Por vários motivos. Depois de suspender uma série de aulas, conferências e palestras em agenda, continuo a fazer o meu trabalho, de que gosto e que não me falta: ler, estudar, escrever, dar entrevistas. Depois, o Seminário onde vivo tem uma quinta, podendo eu dar passeios, arejar, pensar peripateticamente (a andar…). Três colegas concelebramos todos os dias, mantendo as devidas distâncias sociais, segundo as regras. Há um colega, padre Zacarias Pinho, que é um autêntico provedor e que prevê e provê, não faltando nada do que é essencial. E tenho muitos amigos e amigas que me telefonam ou escrevem (dá-me particular alegria ouvir antigos alunos que, espalhados por muitos lados, até nas ilhas, até em Nova Iorque, que me telefonam a perguntar e a animar) e se oferecem para, se algo for necessário: “Saiba: eu estou aqui, nós estamos aqui”). Também procuro dar ânimo, esperança, confiança, e ouço confidências incríveis.

Durante este tempo já me aconteceu ter de andar em hospitais e fazer na Quinta-Feira Santa, na minha terra (Paus, Resende), o funeral do meu irmão mais velho que faleceu canceroso. É a lei da vida. E oportunidade para a aprofundar a ela e à fé. E perceber melhor e mais intensa e dramaticamente aqueles e aquelas que não puderam sequer despedir-se dos seus entes queridos entretanto falecidos. Por isso é que tenho aconselhado vivamente os párocos e agentes pastorais a comprometerem-se a fazer, quando for possível, uma celebração condigna de homenagem aos que, entretanto, faleceram, também porque é necessário ajudar no luto ainda mais difícil.

  

O que mais o surpreendeu nos últimos dias entre os que o rodeiam ou daquilo que sabe pelas notícias?
Por um lado, a imensa generosidade e criatividade, de tantos no apoio, de todas as maneiras, a quem mais precisa, material ou espiritualmente. Fico comovido.

Por outro, tornou-se-me ainda mais claro que à frente das instituições, também religiosas, não se pode colocar incompetentes, hesitantes, temerosos.
Evidentemente, como já ficou subentendido, não tenho palavras para agradecer a tantos que arriscam até a saúde e a vida para cuidar dos outros em necessidade: médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros, e todos aqueles e aquelas que anonimamente trabalham para que o país funcione minimamente… Os verdadeiros heróis e “santos da porta ao lado”, como diz o Papa Francisco.

 

João Céu e Silva entrevista Anselmo Borges
in Diário de Notícias | 19 de abril de 2020  

O CONTÁGIO DA ESPERANÇA

 

1. Naquele fim de tarde escuro do passado dia 27 de Março, quando a chuva começava a cair, o Papa Francisco, sozinho, concentrado, em passos lentos, quase alquebrado como se transportasse aos ombros a cruz da Humanidade toda, atravessou, em silêncio, uma Praça de São Pedro deserta e subiu os degraus para uma plataforma fragilmente iluminada e rezou, sozinho. Uma imagem que fica na memória de todos quantos assistiram àquela caminhada lenta, uma das imagens marcantes desta catástrofe. A apontar para a solidariedade mundial de todos e para a esperança. E disse: “Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair da noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo de um silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem; pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos.” Aludindo à imagem do Evangelho, acrescentou: “Fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda”. Constatando que “nos demos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários”, continuou, sublinhando o que desde a deflagração da pandemia tem sido uma constante sua: “Somos todos chamados a remar juntos, todos carecidos de encorajamento mútuo.” “Estamos juntos neste barco”, ninguém poderá vencer a tempestade sozinho, “só conseguiremos todos juntos”. E incutiu esperança e abençoou o mundo: “Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como um abraço consolador, a bênção de Deus.”

 

De lá, do seu confinamento em Santa Marta no Vaticano, todos os dias está presente ao mundo, dando ânimo, esperança, apelando à co-responsabilidade mundial. Para que ninguém se sinta só. Na homilia do Domingo de Ramos, mais uma vez, apelou à solidariedade, lembrando concretamente os mais sós: “Quando nos sentimos encurralados, quando nos encontramos num beco sem saída, sem luz, quando parece que nem Deus responde, lembremo-nos de que não estamos sozinhos.” E foi ao essencial, quando a Humanidade no meio desta pandemia é obrigada a deixar o supérfluo: “O drama que estamos a atravessar impele-nos a levar a sério o que é sério, a não nos perdermos em coisas de pouco valor, a redescobrir que a vida não serve, se não for para servir. Porque a vida mede-se pelo amor.” Aos jovens deixou esta mensagem: “Queridos amigos: olhai para os verdadeiros heróis que vêm à luz nestes dias: não são aqueles que têm fama, dinheiro e sucesso, mas aqueles e aquelas que se oferecem para servir os outros. Senti-vos chamados a arriscar a vida.”

 

2. No Domingo de Páscoa, há 8 dias, deixou uma mensagem histórica, pensando já no que é preciso e urgente para o futuro próximo. Uma mensagem própria de um líder político-moral global, pronunciada excepcionalmente, como não acontecia desde 1947, a partir do interior da Basílica de São Pedro e não da varanda frente à Praça. Para a sua síntese, inspiro-me na exposição esquemática do jornal “La Croix”.

 

2.1. Dedicada em larga medida à crise causada pela Covid-19, incentivou o mundo, “oprimido pela pandemia, ao contágio da esperança.” A ressurreição de Cristo não é “uma fórmula mágica que faz desaparecer os problemas, mas a vitória do amor sobre a raiz do mal.” E lembrou em primeiro lugar as vítimas do coronavírus, “os doentes, os que morreram, e as famílias que choram o desaparecimento dos seus entes queridos, aos quais por vezes não puderam sequer dizer um último adeus”.

 

2.2. Pediu para não esquecer aqueles que esta pandemia torna ainda mais vulneráveis: “os idosos e as pessoas sós, os que trabalham nas casas de saúde, os que vivem nas casernas ou nas cadeias”. Uma palavra especial, “pedindo força e esperança” para os médicos e enfermeiros, auxiliares, todo o pessoal de saúde, “que em toda a parte oferecem ao próximo um testemunho de atenção e de amor até ao limite das suas forças e muitas vezes até ao sacrifício da sua própria saúde”. Exprimiu-lhes a sua “gratidão”, a eles e “aos que trabalham assiduamente para garantir os serviços essenciais”, e ainda aos polícias e militares que “contribuíram para aliviar as dificuldades e os sofrimentos da população.”

 

2.3. Encorajou os governos “a empenhar-se activamente a favor do bem comum dos cidadãos, fornecendo os instrumentos e os meios necessários para permitir a todos levar uma vida digna e para favorecer, quando as circunstâncias o permitirem, a retoma das actividades quotidianas habituais”.

 

Porque “este tempo não é o tempo da indiferença, todos devem estar unidos para enfrentar a pandemia”, e fazer o necessário para que não se agrave a situação dos que já carecem de alimentos, medicamentos e assistência de saúde.

 

E pediu um alívio das sanções internacionais, “que impedem os países que as sofrem de dar um apoio conveniente aos seus cidadãos” e a redução ou até pura e simplesmente o perdão da “dívida que pesa sobre os orçamentos dos mais pobres.”

 

2.4. Porque “este tempo não é o tempo dos egoísmos”, dirigiu uma palavra veemente sobre e para a União Europeia, que nestas últimas semanas não brilhou particularmente pela sua solidariedade. Sublinhando que “do desafio do momento actual dependerá não só o seu futuro, mas o do mundo inteiro”, lembrou “o espírito concreto de solidariedade que lhe permitiu ultrapassar as rivalidades do passado” a seguir à Segunda Guerra mundial, sendo imperioso que “estas rivalidades não ganhem novo vigor”. E preveniu: “A alternativa é o egoísmo dos interesses particulares e a tentação de um regresso ao passado, com o risco de expor a uma dura prova a coabitação pacífica e o desenvolvimento das próximas gerações”.

 

2.5. Porque “este tempo não é o tempo das divisões”, apelou a “um cessar fogo mundial e imediato em todas as regiões do mundo”, citando nomeadamente a Síria, o Iémen, o Iraque, o Líbano, a Terra Santa, a Ucrânia e os “ataques terroristas perpetrados contra tantas pessoas inocentes em diversos países de África”, e desejou que “os capitais enormes” para o armamento “sejam utilizados para cuidar das pessoas e da melhoria das suas existências”.

 

2.6. Porque “este não é o tempo do esquecimento”, fez votos “para que a crise que enfrentamos não nos faça esquecer outras emergências que trazem consigo o sofrimento de muitas pessoas”, citando as “graves crises alimentares” na Ásia e na África, mas também a situação dos migrantes “que vivem em condições insuportáveis, especialmente na Líbia e nas fronteiras entre a Grécia e a Turquia, a que juntou especificamente a ilha de Lesbos, e a Venezuela.

 

2.7. E concluiu: “Indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento não são propriamente as palavras que queremos ouvir neste tempo. Queremos bani-las para sempre!”.

 

3. A esperança não se pode confundir com wishfull thinking. Ela tem de ser pensada e activa, implicando uma estratégia correcta e eficaz. Assim, durante a semana, Francisco, convencido de que nos encontramos numa mudança de época, criou uma comissão de peritos, com cinco grupos, para estudar a crise económica, social e política global, já presente e que se agravará na sequência deste flagelo pandémico, e qual o contributo que a Igreja pode e deve dar a nível local e universal.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 ABR 2020

O CALVÁRIO DO MUNDO E A SANTA ESPERANÇA

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1. Pascal, um dos maiores matemáticos e cristãos de sempre, tinha prevenido nos Pensamentos: “Jesus estará em agonia até ao fim dos tempos. É preciso não dormir.”

Na Paixão de Jesus, estamos todos, pois os figurantes são exactamente os mesmos: Judas que não percebeu Jesus (esperava um messianismo de poder político) e o entregou; os sacerdotes do Templo, Herodes, Pilatos, que o condenaram à morte e morte de cruz; Pedro, o homem generoso, mas que, por cobardia, o negou; os discípulos que, apavorados, fugiram; os soldados que o torturaram, cumprindo ordens; o Cireneu que, embora um pouco forçado, o ajudou; os dois, talvez “terroristas”, que o ladearam na cruz: um continuou a blasfemar, o outro compreendeu e Jesus prometeu-lhe o Paraíso com ele naquele próprio dia; o centurião reconheceu:”Verdadeiramente este homem era Filho de Deus”; as mulheres nunca o abandonaram e ali estiveram em pé. E Jesus, que, no Getsémani sentiu pavor e pediu, em lágrimas e suando sangue, a Deus, seu Pai, que, se fosse possível, o libertasse daquele horror, talvez, transportando a cruz, o tenha assaltado a dúvida: valeu a pena?; morreu, perdoando a todos; sentindo-se abandonado e só, gritou aquela oração que ecoa através dos séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, mas continuando a confiar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.

Contra o aviso de Pascal, não tínhamos estado atentos e adormecemos. E a Semana Santa estava quase exclusivamente centrada em rituais, em procissões gloriosas com esplendor, e em férias esbanjadoras. A cruz de Cristo foi (já não é?) frequentemente ultrajada em cruzes peitorais de ouro, prata, e pérolas preciosas embutidas. E tínhamos continuado a ser réus do Corpo e do Sangue do Senhor, porque enquanto uns comem lautamente e se embebedam outros morrem de fome, como acusou São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios...

Mas, de repente e sem contarmos, com esta pandemia que invade o mundo todo, fomos obrigados a acordar da letargia em que vivíamos e a parar. Como me escreveu, na Quinta-Feira Santa, um grande médico, cireneu lutador no Hospital de São João do Porto, enviando-me “um enorme abraço neste momento quase não-pensável, de um vazio enlouquecedor... e uma dor invisível quanto insuportável”, “há algo de simbólico, de quase premonitório neste tempo da PAIXÃO”. Por isso, eu digo que, com excepção da primeira, talvez nunca tenha havido uma Semana Santa tão verdadeira como a que estamos a viver. É preciso realmente não dormir, pois estamos convocados para reflectir a fundo sobre a primeira Semana Santa dramática, há 2000 anos, tirando todas as consequências dela, exigentes, certamente, mas ao mesmo tempo portadoras da esperança verdadeira para a vida autêntica neste mundo para o futuro da Humanidade, e abrindo para a transcendência da Vida plena em Deus, para lá de todos os horrores.

Por quem é que Jesus foi mandado matar e porquê? Ao contrário do que demasiadas vezes foi proclamado, ele não morreu porque Deus o tenha enviado para, pela sua morte, pagar uma dívida infinita da Humanidade a Deus e, assim, aplacar a Sua ira. Jesus não é vítima de Deus, mas vítima dos homens. Deus não precisa de vítimas. Jesus é mandado assassinar precisamente porque o Deus que ele anuncia não quer vítimas, e há demasiadas vítimas no mundo.

Jesus fez uma experiência avassaladora de Deus, o Mistério Sagrado, Pai-Mãe, Amor incondicional para com todos, a começar pelos mais frágeis e abandonados, as vítimas da injustiça e de sistemas opressores. Assim, como consequência, anunciou, por palavras e obras, o Reino de Deus, aquele Reino no qual não há opressão nem injustiça, Reino do amor, da justiça e da paz. Por isso, opôs-se à religião do Templo e à imagem do Deus em nome do qual os sacerdotes, os fariseus e os doutores da Lei oprimiam o povo. Jesus ergueu-se contra a Lei, mostrando que o mais importante é a pessoa na sua dignidade divina, todas as pessoas sem excepção, e curava doentes ao Sábado, dia absolutamente sagrado, comia com pecadores, prostitutas, publicanos... E proclamava: “Ide aprender: Deus não quer sacrifícios, mas justiça e misericórdia.” Evidentemente, a classe sacerdotal e os doutores da Lei viram os seus privilégios e interesses em perigo, ameaçados, e, por isso, condenaram-no.

A sua doutrina e as suas obras, embora ele nunca quisesse tomar o poder político — disse que tinha vindo para “servir, não para ser servido” —, colocavam igualmente em causa os interesses imperiais de Roma e, por isso, o representante do Império, Pôncio Pilatos, condenou-o à morte, mandando que fosse crucificado.

Jesus acabou por ser morto como blasfemo religioso e subversivo social e político, dando testemunho da Verdade e do Amor e proclamando que Deus não quer mais crucificados.

É isso: andávamos apressados, distraídos, adormecidos. É tempo de ir ao essencial. Neste drama, sempre presente, mas agora de forma brutal, paroxística, qual tem sido o nosso papel e que papel queremos desempenhar? A Igreja, concretamente, terá de recentrar-se, porque tem de saber que o centro não é de modo nenhum o poder, rituais imperiais, mitras e barretes cardinalícios, mas apenas o serviço a favor de todos. Muitos perguntam agora: Onde está Deus? Jesus respondeu que no Juízo Final não nos será perguntado pelo ritual, mas pelo amor, concretizado no que fizermos aos outros, nomeadamente aos desgraçados: “Tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, estava nu (nu de vestido, de honra, de dignidade...) e vestiste-me, estava no hospital, na cadeia, e foste visitar-me”. Perguntaremos: “Quando te fizemos (ou não fizemos) isso, Senhor?”. “Sempre que o fizeste a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizeste”. Ele, ela, sou eu.

Onde está Deus hoje, no meio desta catástrofe? Está nos hospitais, nos lares, nas casas, nas empresas..., em todos os crucificados e naqueles e naquelas que, mesmo no meio de perigos e até correndo o risco de morte, procuram por todos os meios curar, dar alento, aliviar a dor, dar esperança, brincar com as crianças, animar e alegrar os outros com um telefonema, com música, consolar os tristes e mais idosos, pôr o país a funcionar minimamente... Esses são “os santos da porta ao lado”, como disse o Papa Francisco.

 

2. “E dando um grito forte, Jesus expirou”, diz o Evangelho.

A morte é sempre paradoxal: ela é biologicamente natural, faz parte da vida, mas, por outro lado, apresenta-se-nos como o maior enigma e mistério. Porquê? Porque o ser humano não se reduz a biologia. Por isso, na longa história da evolução (13.700 milhões de anos), sabemos que há pessoa humana, quando surgem a consciência da morte e rituais funerários. Aí, sabemos que já não estamos perante algo, mas alguém. E a morte angustia-nos, porque é o confronto com a ameaça do nada. “Para onde é que eu irei, quando cá já não estiver?”: pergunta lancinantemente Tolstoi em A morte de Ivan Ilitch. Como é que alguém se pode tornar ninguém, coisa que apodrece?

No presente pesadelo pandémico até a morte se torna ainda mais pesada. Na Quinta-Feira Santa, celebrei na minha terra o funeral de um irmão meu, falecido na Terça no hospital com cancro. Não poder haver uma despedida condigna, com tempo, porque até o ritual tem de ser distante, parco e apressado, não se poder chorar agarrado a alguém que também chora, não se poder abraçar, beijar, termos de parecer indiferentes uns aos outros, num vazio plúmbeo e silêncio de breu — isso pode ser, é mesmo, profundamente desolador. Para não falar daquela cena na Itália, que poderá repetir-se noutros lugares, arrasadora, de uma marcha lenta de camiões transportando, empilhados, os caixões de tantos mortos. Para onde se encaminhava a marcha? E volta, mais intensa, densa e dramática, para não dizer trágica, a pergunta: para onde vão os mortos?

Para a eternidade vamos: a eternidade do nada ou a eternidade do Deus criador e salvador.

É aqui, nesta perplexidade de abismo, que se trava o combate decisivo da fé e da esperança. Outra vez Pascal: “Incompreensível que Deus exista e incompreensível que não exista; que a alma seja com o corpo, que não tenhamos alma; que o mundo seja criado, que o não seja, etc.”. Mas continuamos a perguntar, sem fim, como Heinrich Heine: “E continuamos perguntando,/uma e outra vez,/até que um punhado de terra/nos cale a boca./Mas isto é uma resposta?”

E Jesus? Ele é o Crucificado, morreu na cruz. Mas, se ele fosse apenas o crucificado, não passaria de um homem bom que quis revolucionar a imagem de Deus e do Homem, mas não passaria de mais um crucificado e não haveria cristianismo. “Eu sou a Ressurreição e a Vida”: foi por causa desta proclamação que o cristianismo venceu, disse-me um dia o filósofo ateu, mas religioso, Ernst Bloch. E lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A Figura Histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Conclui, como ficou dito, que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas também sabemos que, “depois da sua morte, seguidores fizeram a experiência do que descreveram como ‘ressurreição’: aquele que tinha morrido realmente apareceu como ‘pessoa viva, mas transformada’. Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso.” Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a História. Grande parte da Humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta de Vida eterna.

Por mim, faço minha a confissão de fé do teólogo Hans Küng, o teólogo considerado rebelde. Recentemente, uma irmã perguntou-lhe: “Acreditas realmente na vida depois da morte?” E ele: “Sim, respondi com convicção. Não porque tenha demonstrado racionalmente essa vida depois da morte, mas porque mantive a confiança racional em Deus e porque na confiança no Deus eterno também posso confiar na minha própria vida eterna. Devo ou não ter esperança em algo que seja a ultimidade de tudo? Uma vida eterna, um descanso eterno, uma felicidade eterna? Isso é problema da confiança, mas de modo nenhum de uma confiança irracional, mas de uma confiança responsável. É irracional a confiança em Deus? Não. A mim parece-me a coisa mais racional de tudo quanto o ser humano pode ser capaz. O que me parece absurdo é pensar que o ser humano morre para o nada. A passagem à morte e a própria morte são apenas estações a que se segue um novo futuro. A vida é mais forte do que a morte e o ser humano morre entrando na Realidade primeira e última, inconcebível e inabarcável, que não é o nada, mas sim a Realidade mais real. Vita mutatur, non tollitur: a vida transforma-se, não acaba. Eu defendo uma fé cristã em Deus e na vida eterna. Sem Deus, a fé na vida eterna não teria razões, careceria de fundamento. E vice-versa: a fé em Deus sem fé na vida eterna careceria de consequências, não teria um objectivo”.

Permita-se-me, neste contexto, deixar aqui as palavras que pronunciei no funeral do meu irmão, diante do caixão aberto: “O meu irmão acreditou sempre em Deus, no Deus que é Amor, Pai-Mãe, como nos foi revelado por Jesus, na sua pessoa, por palavras e obras. O meu irmão entregou a sua vida ao anúncio do Evangelho, a mensagem boa e felicitante de Jesus, e fê-lo por palavras, obras e atitudes. O meu irmão não está aí morto. Nem sequer se pode propriamente dizer que partiu para Deus. Na morte, o meu irmão tomou consciência plena de que foi em Deus que sempre existiu e é, como foi anunciar São Paulo a Atenas: ‘É n’Ele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos’. Assim, o meu irmão nunca esteve tão vivo nem nunca foi tão feliz.” Como é ninguém sabe.

É esta “a Santa Esperança”, como lhe chamou Charles Péguy.

Boa Páscoa para todos!

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 ABR 2020

MISSAS "VIRTUAIS": NÃO JUNTOS, MAS UNIDOS

 

Advertências prévias

 

Insisto constantemente em que no Novo Testamento há duas “definições” de Deus — evidentemente, Deus não é definível, mas são tentativas de dizer algo sobre o seu mistério. Na Primeira Carta de São João, está escrito que Deus é Agapê, Amor incondicional. O Evangelho segundo São João começa assim: “No princípio, era o Logos e o Logos era Deus. E tudo foi criado pelo Logos.” Logos significa palavra, razão, inteligência. Deus é, portanto, Amor e Razão e, assim, a existência humana autêntica resultará da convergência e interpenetração da bondade e da razão, da inteligência e do amor.

 

Também a fé não só não pode contradizer a razão como deve ser razoável e, como diz São Pedro, é preciso dar razões da esperança.

 

Dou exemplos, para mostrar a necessidade de compreender e superar ideias feitas.

 

1. Jesus andou sobre as águas, como está no Evangelho? Não. Na perspectiva bíblica, o mar é símbolo do mal; dizer que Jesus andou sobre as águas é dizer que ele está acima do mal e nos liberta dele, como fez com São Pedro, que já estava a afundar-se. Percebe-se então o que está no Apocalipse, o último livro da Bíblia: “Haverá um céu novo e uma nova terra e já não haverá mar”, isto é, já não haverá mal.

 

Falando no Apocalipse, é preciso, nestes tempos terríveis, prevenir contra as profecias do horror e do fim do mundo. Impõe-se saber ler. De facto, o Apocalipse tem o sentido oposto ao vulgarizado: em tempos de perseguição, quer, utilizando linguagem simbólica e até cifrada, animar os cristãos, que devem confiar na vitória de Deus e de Cristo. E os números? É este o seu significado: 3 é um número perfeito e o número de Deus; 3+4=7 ou 3x4=12, para simbolizar a plenitude (os dias da criação ou a aliança de Deus, respectivamente), os 144.000 assinalados são o múltiplo de 3x4x12x1000 — 1000 também é a plenitude — e simbolizam o novo povo de Deus. Em sentido contrário, a metade destes números só pode significar o não-tempo de Deus e a sua não-aliança, como é o caso de três e meio e de seis. Assim, 666 é o número da Besta, um símbolo numérico do nome e título de Domiciano, imperador perseguidor.

 

2. Jesus ressuscitou mortos? Não. Caso contrário, como é que, sendo o Além o maior abismo da nossa curiosidade, ninguém perguntou a Lázaro como é, se esteve lá quatro dias? Os relatos sobre as ressurreições operadas por Jesus são o que se chama “parábolas em acção”. O seu conteúdo é o anúncio da esperança firme na vida eterna: o que o crente espera para lá da morte — a vida plena em Deus — já está presente na fé.

 

3. O Anjo apareceu a Nossa Senhora para lhe anunciar que ia ser mãe de Jesus? Não. O que lá está é muito mais profundo, pois o que é espiritual é sempre mais fundo e passa-se no interior: como todas as mães, Maria reflectiu, meditou sobre o “milagre” que lhe acontecera.

 

Nossa Senhora é virgem? Os Evangelhos não são um tratado de anatomia. O que lá está é que Jesus é especial, tem uma relação única com Deus.

 

4. Há milagres? No sentido estrito da palavra, isto é, uma intervenção especial de Deus para interromper o curso das leis da natureza e a favor de uns e não de outros, não. Um Deus intervencionista implica ateísmo, pois supõe que Ele criou e se afastou do mundo, para, de vez em quando, intervir nele a pedido. Ora, Deus Criador está sempre infinitamente presente à sua criação e aos seres humanos, que são concriadores. Há os milagres do amor.

 

5. Então, para que serve a oração? Rezar é estar com Deus, no mais fundo e íntimo de si, e falar com Ele como se fala com um amigo, com o pai, com a mãe. Porque Deus é Pai-Mãe. Falar-lhe das dúvidas e perplexidades. Fazer-lhe perguntas: porque é que, no meio dos horrores destes tempos de tribulação da covid-19, não faz nada? Será que existe? Jesus na Cruz gritou aquela oração que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, mas continuando a confiar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”

 

Pedir o quê? Pedir a nós mesmos força para fazermos o que devemos e generosidade para estarmos com todos, sobretudo com quem ninguém está.

 

Presença física e presença real

 

Entrando mais directamente no que aqui nos traz, a pergunta é: os católicos acreditam na presença real de Jesus na Eucaristia? A resposta é clara: sim. Mas é urgente compreender, para não se cair no desastre.

 

Por exemplo. 1. Um bispo perguntou-me uma vez: “O que é que se responde a uma criança de 12 anos que, depois de uma procissão do Santíssimo, me veio dizer: ‘Tu não levavas o Jesus, pois não? Tu não podias com Ele!...’”. Respondi-lhe: “O que é que se deve responder exactamente eu não sei. Mas sei que se não deve ensinar o que, depois, leva até uma criança a fazer observações dessas.” 2. Uma vez uma médica, crente, disse-me que tinha pena de não comungar. Mas ficou-lhe, de miúda, uma impressão tal do Corpo de Cristo na hóstia que ainda hoje, ao pensar em comungar, se lhe embrulha o estômago. 3. O filósofo Hegel viu bem o perigo da coisificação. Referindo-se à Eucaristia, escreveu que, segundo a representação católica, “a hóstia — essa coisa exterior, sensível, não espiritual — é, mediante a consagração, o Deus presente — Deus como coisa”.

 

O que é que se passou?

 

Jesus, na iminência da morte, ofereceu uma ceia, a Última Ceia. Abençoando o pão e o vinho, que significam a entrega da sua pessoa, fiel à Verdade e ao Amor, por amor a todos, disse: “Comei e bebei todos. Fazei isto em memória de mim.” Em hebraico, “Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue” quer dizer: Isto sou eu, a minha pessoa, a minha vida entregue por vós. Os primeiros cristãos reuniam-se na casa de um companheiro ou companheira (de cum+panis: comer o pão em conjunto) e, recordando essa Ceia e todos os banquetes que Jesus teve com tantos, incluindo pecadores, a oferecer o júbilo da salvação, e tudo o que Jesus fez e é, celebravam “o partir do pão”, uma refeição festiva e fraterna, abertos à esperança de um futuro novo na plenitude da Vida, porque Jesus é o Vivente para sempre.

 

Depois, também porque eram acusados de não oferecerem sacrifícios à divindade, a Missa foi perdendo o carácter de banquete festivo e fraterno e começou a ser concebida mais como sacrifício. Havia aí uma imolação — ainda li isso num manual de Teologia: uma mactatio mystica Christi (matação mística de Cristo) — e discutia-se se essa imolação era real, moral, sacramental.

 

Daqui resultaram equívocos tremendos. É claro que Jesus não fugiu, aceitou a morte de cruz e entregou-se a si mesmo a Deus. Mas não à maneira de vítima sacrificial, para aplacar a ira de Deus. Jesus foi vítima dos homens e não de Deus. Uma concepção sacrificial contradiz a revelação essencial de Jesus: “Deus é Amor incondicional”. Ele não precisa de sacrifícios expiatórios. É uma concepção arbitrária e sacrificial de Deus que leva alguns à blasfémia de dizer que esta covid-19 é um castigo de Deus. Por outro lado, com esta concepção sacrificial apareceu o padre-sacerdote que oferece o sacrifício e, consequentemente, o celibato obrigatório e a chaga do clericalismo, já que o padre adquiria um poder divino: o de, como “outro Cristo”, só ele “trazer Cristo à Terra”, realizando o milagre da transubstanciação, só ele perdoar os pecados, decidindo da salvação ou da condenação...

 

A Eucaristia deixou, pois, de ser celebração festiva em que todos participavam activamente — e só assim fazia sentido —, para tornar-se um sacrifício objectivo autónomo, que o padre até podia celebrar sozinho e que oferecia pelas almas do purgatório e outras intenções. Era possível ir à Missa e não comungar, pois, nela, estava-se “de fora”. Acontece mesmo esta distorção: as “Missas oficiais”, a que assistem agnósticos, ateus, indiferentes, grandes ladrões, sem arrependimento nem qualquer propósito de emenda...

 

 E volta a pergunta: Jesus está realmente presente na Eucaristia? Sim. Mas é preciso distinguir entre presença físico-coisista e presença real pessoal. Um homem e uma mulher, pela relação sexual, estão fisicamente presentes, mas, se não houver amor, estão realmente ausentes como pessoas. Também pode acontecer que tenham de estar fisicamente ausentes, por motivos de trabalho, por exemplo, mas, se houver amor, continua a presença real entre eles. Então, o que falta nas comunidades cristãs? A conversão ao projecto de Jesus. Precisamente nesta não conversão é que São Paulo via que “comemos o pão e bebemos o cálice do Senhor indignamente”, tornando-nos “réus do corpo e do sangue do Senhor”, isto é, culpados da sua morte: de facto, o que ele condena na comunidade de Corinto é que não haja partilha real e que, enquanto uns comem lautamente e se embebedam, outros passem fome.

 

 Afinal, é tudo mais simples mas também mais exigente e libertador.

 

Concelebrar “coronoviricamente”

 

 Na situação de confinamento em casa, porque é que as pessoas, isoladas ou em família, ao participar na Eucaristia pela televisão ou outros meios, não hão-de concelebrar e comungar realmente e não só “espiritualmente”, como é aconselhado? Para ser real, não tem a comunhão de ser sempre espiritual?? Quanto à confissão, porque não confessar-se por telefone ou, como disse o Papa Francisco, “directamente” a Deus?

 

 Assim, frente à televisão, coloque-se na mesa pão e vinho, também uma vela, símbolo da luz de Cristo, acompanhe-se a celebração, escutando a Palavra de Deus, oferecendo o pão e o vinho, símbolos da nossa vida, que pedimos seja transformada e vivificada em Cristo ao serviço da Humanidade inteira. E partilhemos o Pão da Vida e o Vinho da alegria que não tem fim. E esperando poder em breve (quando?), de novo, como habitualmente em comunidade plena, unidos e todos juntos, dando as mãos, celebrar outra vez a Páscoa da Ressurreição.

 

 Há oferta maior, mais felicitante, de esperança e sentido para a Humanidade do que o Evangelho vivo de Jesus? A realizar na vida e a celebrar em Eucaristia.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia da

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Artigo publicado Jornal SOL | ABR 2020