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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

NIETZSCHE E DEUS


Quando lemos atentamente a obra de Friedrich Nietzsche e nos debruçamos com simpatia sobre a sua vida, não podemos deixar de ficar afectados pelo drama até à loucura que a questão de Deus constituiu para ele, filho de pastor protestante. Aquele que fora uma criança piedosa e estudara teologia havia de proclamar publicamente em 1882, através de um louco, em A Gaia Ciência, a morte de Deus: "Deus morreu! Deus está morto! E fomos nós que o matámos!" "Conta-se ainda - continua - que o louco entrou nesse mesmo dia em várias igrejas e aí cantou o seu requiem aeternam deo. Expulso dos templos, ripostou sempre apenas isto: 'Que são agora ainda estas igrejas senão os túmulos e os monumentos funerários de Deus?'.”


Mas, ao mesmo tempo, o júbilo perante o "acto mais grandioso da História", que foi a morte de Deus, é atravessado por estas perguntas terríveis: "Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos nós, quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?".


Pergunto: Não tem Nietzsche razão? Não é isto que se passa hoje: desorientação, falta de sentido, a consumação do niilismo?


Deus tinha de morrer, porque o Deus anunciado pelo cristianismo oficial era o inimigo da vida. No seu O Anticristo, Nietzsche condena o cristianismo como "a única grande maldição, a única máxima corrupção interior, o único grande instinto de vingança, (...), a única imortal mancha desonrosa da humanidade...". Porquê? Porque Deus foi "degradado a contradição da vida, em vez de ser a sua glorificação e sim eterno! Em Deus declara-se a hostilidade à vida, à natureza, à vontade de viver! (...) Em Deus diviniza-se o nada, canoniza-se a vontade do não-ser...!"


Isso, porém, aconteceu, porque Jesus, o "ditoso mensageiro" que "morreu como viveu, como ensinou", "para mostrar como se deve viver", foi, segundo Nietzsche, pervertido por São Paulo e pela Igreja. Como pode ler-se nos escritos póstumos, "a Igreja é exactamente aquilo contra o que Jesus pregou e contra o que ensinou os seus discípulos a lutar." "No fundo, houve apenas um cristão, e morreu na cruz. O 'Evangelho' morreu na cruz". O que se seguiu foi uma "má nova", uma "notícia infausta", um "Disangelho." No entanto, "o cristianismo autêntico, originário, será possível em todos os tempos..." Jesus tinha acabado com o próprio conceito de "culpa", tinha "negado todo o abismo entre Deus e o homem, ele vivia essa unidade de Deus e do homem como a sua 'boa nova'". Foi São Paulo que avançou com a doutrina absurda do Deus que entregou o Filho como vítima - "que paganismo horrendo!", exclama Nietzsche. "Paulo foi o maior dos apóstolos da vingança...", e os sacerdotes enquanto senhores dominaram as consciências escravizadas através da moral do ressentimento.


Mais uma vez, não tem Nietzsche razão? Como foi possível pregar um Deus que enviou o Filho para ser crucificado e assim pagar a dívida infinita da Humanidade e Deus poder reconciliar-se com ela? Não foi a mensagem de Jesus a melhor notícia que a Humanidade alguma vez ouviu e viu: Deus é bom, Ele é Pai/Mãe de todos e só quer a alegria, a realização plena de todos? Como foi possível fazer do Evangelho (notícia boa e felicitante) um Disangelho?


Afinal, que Deus foi esse que morreu? Não tinha mesmo de ser morto? É assim que Nietzsche vai passar a vida atenazado entre a vontade prometeica do superhomem sem Deus e a constante nostalgia do Deus desconhecido. Foi ao Deus desconhecido que o jovem Nietzsche dirigiu esta oração impressionante, comovente:


"Antes de prossseguir no meu caminho e lançar o meu olhar para a frente uma vez mais, elevo, só, as minhas mãos para ti, em direcção a ti. A ti, das profundezas do meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, a tua voz me pudesse chamar. Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras: 'Ao Deus desconhecido'. Teu, sou eu, embora até ao presente me tenha associado aos sacrílegos. Teu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo. Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servir-te. Eu quero conhecer-te, desconhecido. Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida. Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero-te conhecer, só a ti quero servir". O mesmo Nietzsche confessou a Ida, a mulher do seu grande amigo F. Overbeck: "Tu nunca abandones a ideia de Deus. De certeza, tu tem-la, sem te dares conta disso. Eu abandonei-a; quero criar algo de novo, e não posso nem quero voltar atrás. Acabarei por sucumbir a esta paixão que me esfalfa constantemente. Vou-me desmoronando, mas isso não me importa."


Concluo, com aquela diatribe dura e melancólica de Nietzsche contra os padres, prevenindo contra a infelicidade, que traz consigo sempre mais infelicidade. “Até entre eles há heróis. Muitos deles sofreram demasiado: por isso, querem fazer sofrer os outros.” Também deixou escrito: “Eu só acreditaria num Deus que soubesse dançar.” Jesus não dançou em Caná?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 de agosto de 2022

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
A ÚLTIMA CEIA


1 - 
No mundo latino, não há sacra imagem mais reproduzida e mais divulgada. Nessa divisão, normalmente situada ao fundo de longos e desabridos corredores, a que no século XIX e em grande parte do século XX, se chamou casa de jantar, a burguesia e a pequena-burguesia, mesmo quando maçónicas ou jacobinas, entronizaram, quase sempre, gravuras, litografias ou, nas casas de pior gosto, horrendos baixos-relevos esmaltados ou pintados, reproduzindo o cenáculo davinciano pendurado sobre o aparador com torcidinhos. Nenhuma dessas reproduções reproduzia a pintura de Leonardo, como ela estava ou como ela era à época da sua mais intensa popularidade. Bem cedo depois de ter sido pintada (1495-1497), "L'Ultima Cena" já começara a obscurecer-se. Em 1568, Vasari escreveu que "a obra de Leonardo está em tão más condições que pouco mais se vê do que uma mancha fosca". Mas a fama de Leonardo era tamanha, tamanha era a reputação da "tavola" pintada no refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, que, na primeira metade do século XVI, já se multiplicavam as cópias a óleo de discípulos do Mestre, como Solari ou Luini. A mais famosa dessas cópias data de 1625, quando o cardeal Federico Borromeo a encomendou a um tal Vespino, para que a "reliquiae fugiente" da "Ceia" ficasse para a posteridade.


Assim, o que essa posteridade, entre a qual me incluo, conservou e emoldurou, não foi a pálida imagem de Leonardo, mas a pálida imagem de maquilhadíssimas cópias. Quem foi ou quem ia a Santa Maria delle Grazie, mesmo após os sucessivos restauros de 1851, 1870, 1901 ou 1924, recuava cheio de espanto. Não via um quadro, como, baseado nas reproduções, tinha suposto ir ver; não via um fresco porque Leonardo nunca pintou um fresco nem usou a técnica dele; via, na parede oposta à Crucificação de Montorfano, uma pintura descomunalmente horizontal (já houve quem lhe chamasse a única pintura do mundo em cinemascope) onde a custo se descortinavam os rostos de Cristo e dos doze Apóstolos e onde o celebérrimo "sfumato" vinciano se esfumava na sombra e no silêncio.


Como as estátuas gregas do século V, que hoje só conhecemos pelas cópias romanas, a memória da "Ceia" vinciana foi transmitida, ao longo de quatro séculos, por imagens claras de uma imagem obscura. É verdade que, de Milão, em 1788, Goethe escreveu ao Duque Carlos Augusto, de Weimar, que ela era "uma obra-chave no campo da conceção artística. Absolutamente única e nada lhe pode ser comparado". Falaria do que viu? Ou foi Goethe o primeiro a perceber que a prodigiosa singularidade da "Ceia" reside no próprio sentido de efémero que lhe presidiu? É que Leonardo só não pintou "a fresco" porque não quis. Se pintasse "a fresco", não tinha podido corrigir, nem mudar. "Leonardo é o primeiro artista insatisfeito, atormentado não tanto por uma obcecante necessidade de perfeição mas pelo objetivo fundamental que perseguiu. Não concebeu a "história" como uma ação definida, mas como uma situação psicológica complexa, tecida de atos e reações mutuamente intrincados, inseparáveis uns dos outros e só passível de valorização face ao resultado global" (...) "O desenho, a pintura são uma busca contínua; não se pode saber de antemão onde conduzirá e que facto revelará de que se não pode prescindir." Estou a citar Argan, o historiador. Podia citar Leonardo, que o disse em menos palavras, aqui deixadas em italiano: "Il bono pittore ha da dipingere due cose principali, cioè l'homo e il concetto della mente sua; il primo è facile, il secondo difficile, perché s'ha a figurare con gesti i movimenti delle membra." Eventualmente, Leonardo terá querido que da sua obra (a "Ceia" é a obra de Leonardo mais dedicada ao instante) ficasse a sombra. Sombra do imenso movimento dos 12 homens que se sentaram com Cristo à mesa naquela tarde; sombra da imensa imobilidade de Cristo naquela tarde e naquele momento (não consigo dizer-vos se a pintura é terrivelmente dinâmica ou terrivelmente estática); sombra que se projetou, como se luz fosse de um projetor cinematográfico indesligado e indesligável, na pálida luz das cópias, as únicas que fixaram o que em Leonardo, para sempre, ficou em aberto, movente e comovente.


2 -
 Vai árido este texto? É bem possível, mas não sei de outra via. Como sempre me acontece, amenizo subjetivando. É que até eu, e até ao dia 11 de novembro de 2003, nunca vira "La Cena" senão em reproduções. Em 1967, da primeira vez que fui a Milão, o Cenáculo fechou-se-me tanto por má fortuna como por amor ardente. Quando voltei, nos anos 80, já se encerrara para o último restauro, esse que durou de 1977 a 1999. Quando, agora, surgiu inopinadamente e sem qualquer premeditação a possibilidade de uma estada de 24 horas em Milão, soube que era chegado o momento. O dia 10 (uma segunda-feira) era o dia de encerramento? Era. Para o dia 11 já não aceitavam mais reservas (o Cenáculo, como tantos outros lugares altíssimos de Itália só se visita hoje por "prenotazione", bela palavra para tão feia ação)? Não aceitavam. Eu tinha que estar no Aeroporto de Malpensa às 11 horas da manhã? Tinha. Mas os modernos dragões (burocracias, turistas japoneses, horários) são como os antigos. Saltamos-lhes às goelas. Comigo próprio assinei o pacto de me levantar às 6 e meia da manhã (não conheço outros Leonardos nem outras Leonardas que a tanto me obrigassem). Às 8 em ponto estava junto à porta amarela do Cenáculo e às 8h15, após mendigar junto de três guias, surgiu aquela (louvada seja!) que tinha um bilhete a mais. Às 8 e 30, a porta de vidro automática do refeitório das Graças abriu-se para mim e para mais 49 terrestres pedestres. Fora avisado da regra, como nos mitos e lendas antigos. Só dispunha de 15 minutos, 15 exatos minutos. Ao fim deles, seria implacavelmente varrido. Nem olhei para a "Crucificação" da parede sul. Os 35 metros de largura da parede norte esperavam por mim. 68 anos esperaram. A primeira coisa que pensei, como Henrique III diante do cadáver do Duque de Guise, foi: "Mon Dieu! Comme il est grand!" Depois, eu, que demoro tanto tempo a ver, puxei dos olhos com quanta força tenho. Vi o triângulo equilátero da figura de Cristo, a forma indestrutível. Vi o perfil efeminadíssimo de Filipe, o mais alto de todos. Vi Tiago Menor, o único da família de Jesus, seguindo alguns até seu irmão, visivelmente inspirado no mesmo modelo que serviu para a imagem de Cristo, dos doze o mais bonito, com os cabelos louros tão bem penteados. Vi o suavíssimo João, o único tão imóvel quanto Cristo, o único que não gesticula. Mas vi sobretudo o Senhor, sentado de costas para a maior das três janelas, com o espaço todo à direita e à esquerda, sem ser tocado por ninguém e sem tocar em ninguém, abertamente sozinho.


3 - 
Em tempos, impressionou-me muito um agudíssimo paralelo feito por George Steiner ("Two Meals") entre "O Banquete" de Platão e a "Última Ceia". Steiner - como Leonardo - parou o tempo na passagem do Evangelho de São João em que Cristo diz: "Amen dico vobis quia unus vestrum me traditurus est" ("Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de trair"). S. João, sempre segundo o mesmo Evangelho, estava reclinado no peito de Jesus, como discípulo amado que era. Pedro faz-lhe sinal para que ele interrogasse Jesus e soubesse quem era o traidor. João assim fez e Jesus respondeu: "É aquele a quem Eu der o bocado de pão ensopado." E, molhado o bocado de pão, tomou-o e deu-o a Judas. Steiner escreveu: "Num plano naturalista, o que aconteceu só é inteligível se o que Jesus disse ao discípulo que amava não foi ouvido por mais ninguém. A não ser assim, porque é que Judas aceitaria o 'pão que eu vou molhar', o sinal que trairia o seu anátema?" Mas Leonardo não viu a cena como quase todos os pintores e comentadores a viram, nem sentou Pedro longe de João, o que "naturalisticamente" explicaria o pedido, que Pedro, de onde estava, não teria podido fazer. Pela primeira vez, na história de uma representação da Última Ceia, João não está reclinado no colo do Senhor, mas muito afastado dele, inclina-se para a direita, ouvindo S. Pedro, que se levantou do seu lugar. Este, João e Judas formam um outro triângulo, em que Pedro passa para trás de Judas, para falar ao ouvido de João. Judas, virado para os dois (único que volta as costas ao espectador), não pode deixar de ouvir o segredo. A não ser que o momento representado seja posterior a ele, hipótese que ao 7º minuto me comecei a pôr. Ou seja, João fez a pergunta a Cristo. Este já respondeu e é essa resposta que João, deixando o colo do Senhor para se aproximar de Pedro, transmite ao futuro papa, sem curar de Judas, que, incauto, já foi identificado e já não pode fugir. Mas nem todos o sabem àquela mesa e por isso tanto se dividem os grupos: os apóstolos, à esquerda do Senhor (mais longe de João, Judas e Pedro) em imensa agitação, protestam inocência; os da direita estão gelados pela descoberta. Por isso, a mão direita do Senhor retira-se da de Judas a quem deu o pão e a mão esquerda fica aberta sobre a mesa, no último sinal de oblação. Por isso, também, o olhar de Cristo é o único olhar que não vemos e não nos olha. Só a boca e os braços abertos exprimem a solidão suprema, nimbada ao fundo pela luz crepuscular, a mesma luz da transcendência, essa que, no mesmo ano, Bramante filtrou na cúpula de Santa Maria delle Grazie. Nunca tanta sombra deu tanta luz.

Um segundo de tempo num infinito de espaço. Foi, também, o que me foi dado. E mais não peço e mais não quero.

João Bénard da Costa
14 de novembro de 2003, in Público

UMA NOVA CONSTITUIÇÃO PARA A IGREJA

  

 

O Concílio Vaticano II constituiu uma verdadeira revolução. Em Outubro de 1962,  há quase sessenta  anos, o Papa João XXIII inaugurou em Roma o II Concílio do Vaticano, um dos acontecimentos maiores e decisivos do século XX.


Há quem pense e diga que o Concílio Vaticano II é responsável pela presente crise da Igreja. Mas não é verdade. É impossível imaginar o que seria a Igreja católica e, por arrastamento, o mundo, sem o Concílio. Não é, porém, difícil supor que a Igreja se teria tornado um bloco marmóreo a dar guarida a um museu de coisas religiosas. Quem quiser aproximar-se da situação vá ler os manuais de teologia dogmática, de teologia moral, de direito canónico, de liturgia, por onde estudavam os futuros padres antes do Concílio, e pense, por exemplo, que na década de cinquenta do século XX ainda se proibia às freiras a leitura da Bíblia, ou que estava em vigor o Índex ou católogo dos livros proibidos aos católicos, onde figuravam não apenas os teólogos críticos, mas também Copérnico e Galileu, Descartes e Pascal, Hobbes, Locke e Hume, a Crítica da razão pura de Kant, evidentemente Rousseau e Voltaire, também Comte, os grandes historiadores Condorcet, Ranke, Taine, igualmente Diderot e D'Alembert com a Encyclopédie e os juristas e filósofos do Direito Grotius, Von Pufendorf, Montesquieu, a nata da literatura moderna, de Heine, Vítor Hugo, Lamartine, Dumas pai e filho, Balzac, Flaubert, Zola, a Leopardi e D'Annunzio, entre os mais recentes, Sartre, Simone de Beauvoir, André Gide... Perante isto, quem não mantiver algum humor fica atónito.


Não é descabido afirmar que depois do momento em que, logo no seu início, decidiu a sua abertura aos gentios, a Igreja terá tido no Vaticano II o acontecimento mais decisivo para a sua história.


Foi com o Concílio que a Igreja se viu a si mesma pela primeira vez como Igreja universal. Antes, era uma Igreja romanocêntrico, com sucursais ou filiais nos vários continentes. Apesar de toda a timidez, a Cúria romana internacionalizou-se, as diferentes Conferências episcopais assumiram responsabilidades e tomadas de posição autónomas, os leigos estudaram teologia e começaram a participar na vida eclesial sem ser por mera delegação da hierarquia. Contra uma concepção clericalizada, afirmou-se a Igreja como Povo de Deus.


Abriu-se uma era autenticamente ecuménica, na medida em que a Igreja assumiu muitas das exigências da Reforma e tentou a reconciliação com a modernidade. Assim, outras comunidades cristãs foram reconhecidas como Igrejas, as celebrações litúrgicas viram consagrado o uso das línguas vernáculas, a Bíblia tomou o seu lugar central na teologia, na pregação e na vida dos crentes, e o seu estudo histórico-crítico devia ser continuado. Por outro lado, afirmou-se claramente a liberdade religiosa e de consciência, os direitos humanos foram igualmente reconhecidos, condenou-se o antisemitismo com que a própria Igreja tinha sido cúmplice, abriu-se um caminho novo de respeito, de diálogo e cooperação com todas as religiões e também com os não crentes, estabeleceu-se uma atitude fundamentalmente positiva em relação à democracia, à ciência, ao progresso, reconheceu-se a separação da Igreja e do Estado, da religião e da política, e a autonomia das realidades terrrestres. A nova atitude face ao mundo já não era de condenação, mas de diálogo e de colaboração leal.


Apesar de todos os recuos posteriores, a Constituição da Igreja resultante do Concílio dissociou-se, como escreveu o teólogo Hans Küng, da concepção da Igreja como "uma espécie de império romano sobrenatural, que se tinha mantido desde o século XI", e o Concílio inaugurou "uma era nova" na história da Igreja católica.


Também há quem pense e afirme que a presente crise da Igreja tem no Concílio a sua causa maior. Mas com uma diferença essencial na argumentação: enquanto uns atribuem as complicações aos excessos de abertura conciliar, outros denunciam as barreiras e os bloqueios colocados ao espírito do Concílio: centralismo da Cúria romana, substituição de episcopados abertos por bispos cada vez mais conservadores, política de enfraquecimento das Conferências episcopais, censura, silenciamento e condenação de grande número de teólogos, imposição de uma moral sexual que peca contra a natureza humana, rejeição liminar da ordenação de mulheres, intocabilidade da lei do celibato sacerdotal, exclusão do acesso aos sacramentos por parte dos divorciados que voltaram a casar, a não ser que - requinte de cinismo! - vivam como irmão e irmã, proibição da pregação por leigos, contenção no movimento ecuménico, desconfiança em relação a novas iniciativas das bases…, numa palavra, em vez de renovação e inovação, quis impor-se a restauração, escreveu Hans Küng.


Evidentemente, a Igreja precisava de retomar sem medo o caminho do Concílio. Essa tem sido a tarefa do Papa Francisco, na linha de João XXIII, quando o papado se orientou numa linha de "um primado pastoral no sentido de liderança espiritual, inspiração, coordenação e mediação", portanto, escreveu ainda Hans Küng, de um papa que não se encontra acima da Igreja e do mundo em posição divinizada, mas "na Igreja" como um membro mais do povo de Deus, embora com  responsabilidades especiais. Impõe-se "desromanizar a Igreja" e é  preciso pôr termo ao enxerto do constantinianismo e, na expressão de Jean Cardonnel, "evangelizar Deus". Pergunta-se: de facto, é ainda o Deus de Jesus que a Igreja anuncia?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 de julho de 2022

O HUMOR, O RISO E O DIVINO

  


Pediram-me uma vez uma reflexão precisamente sobre o tema em epígrafe. Aí fica uma tentativa.


Sobre Deus que sabemos nós? Ele é infinito e está para lá de tudo o que possamos pensar ou dizer. O que sabemos dEle sabemo-lo através de Jesus, a sua revelação no mundo.


Através de Jesus, sabemos que Deus é, como se lê na Primeira Carta de São João, Agapê: Amor incondicional. Mas o Evangelho segundo São João também diz que Deus é Logos: Razão,  Inteligência e que tudo foi criado pelo Logos. Por isso, Deus tem sentido de humor, pois o humor é sinal de inteligência. Não é o humor fino revelador de uma inteligência fina?


Logo no primeiro livro da Bíblia, o Génesis, há uma passo belíssimo em conexão com o riso. “O Senhor apareceu a Abraão quando ele estava sentado à porta da sua tenda”, sob a figura de três homens. ‘Onde está Sara, tua  mulher?’ Ele respondeu: ‘Está aqui na tenda. Um deles disse: Passarei novamente pela tua casa dentro de um ano, nesta mesma época, e Sara, tua mulher, terá já um filho’. Ora, Sara estava a escutar à entrada da tenda. Abraão e Sara eram já velhos, e Sara já não estava em idade de ter filhos. Sara riu-se consigo mesma e pensou: ‘Velha como estou, poderei ainda ter esta alegria, sendo também velho o meu senhor?’.” O que é facto é que “o Senhor visitou Sara, como lhe tinha dito, e realizou nela o que lhe prometera. Sara concebeu e, na data marcada por Deus, deu um filho a Abraão, quando este era já velho. Ao filho que lhe nasceu de Sara deu Abraão o nome de Isaac. Abraão tinha cem anos quando nasceu Isaac, seu filho. Sara disse: Deus concedeu-me uma alegria, e todos quantos o souberem alegrar-se-ão comigo.”


Há aqui dois tipos de riso: Sara ri-se para dentro: como é possível, velha, ter um filho? Mas ao filho é dado o nome de Isaac, que, em hebraico, quer dizer “riso”, sendo aqui o riso um riso intenso de alegria: Isaac também quer dizer “aquele que traz alegria”. 


De Jesus diz-nos o Evangelho que chorou: chorou pela morte do seu amigo Lázaro, também sobre Jerusalém. Não se diz que riu. O nome da rosa, de Umberto Eco, anda também à volta dessa questão. Mas já Santo Tomás de Aquino observou  que é evidente que Jesus riu. A prova: Jesus é homem e rir é característica essencial do ser humano. Jesus participou em festas de casamento e alguém imagina uma festa de casamento sem risos, sem piadas festivas? O Evangelho testemunha que Jesus experienciou o melhor sentimento face à vida e ao seu milagre: o do maravilhamento e do contentamento.


O humor e o riso, repito, são um sinal evidente de inteligência, desdramatizam a vida, permitem viver de modo sadio consigo próprio, fazem bem à saúde, abrem transcendências. A Igreja está atravessada pelo bom humor, porque “um santo triste é um triste santo”. E há piadas fatais. Lá está o dito famoso: “ridendo castigat mores”: a rir castiga-se e corrige-se os costumes. Gil Vicente foi exemplar nisso. Digo: ai da Igreja e dos crentes sem a crítica mordaz, ácida, pela palavra e pela caricatura! O que não se pode é cair na boçalidade, pois esta apenas significa falta de inteligência. O riso também cura a vaidade oca: “Mesmo no mais alto trono do mundo, está-se sentado sobre o cu”, escreveu Montaigne.


Na Idade Média, realizava-se a chamada Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Pegava-se num subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de bispo, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: “e Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes.” Chamada a pronunciar-se, a Faculdade de Teologia de Paris, justificou-a com a necessidade de dar expansão à crítica, voltando depois a ordem.


A propósito da força crítica da piada e da caricatura, fica aí esta sobre o Vaticano e todo aquele luxo, que blasfema do Evangelho de Jesus, no fausto de uma procissão com cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores... Veio São Pedro à janela do Céu e viu aquilo e, estarrecido, chamou Jesus, que olhou e apenas comentou: “E pensarmos nós, Pedro, que começámos aquilo, entrando de burro em Jerusalém onde fui crucificado... Lembras-te?” Por isso, respondi uma vez a uma jornalista: “Não. Jesus não entraria no Vaticano, porque não o deixariam entrar.”


Francisco socorre-se também do bom humor, e todos os dias reza a Oração do bom humor, oração atribuída a São Tomás Moro, o autor de A Utopia, o ex-chanceler que não se esqueceu de levar a gorjeta para o carrasco que ia decapitá-lo. Francisco recomendou-a também aos membros da Cúria Romana, onde tem tantos adversários e até inimigos, a quem falta o bom humor divino: “Dá-me, Senhor, uma boa digestão e também algo para digerir./ Dá-me um corpo saudável e o bom humor necessário para mantê-lo./Dá-me uma alma simples que sabe valorizar tudo o que é bom/ e que não se amedronta facilmente diante do mal, /mas, pelo contrário, encontra os meios para voltar a colocar as coisas no seu lugar./ Concede-me, Senhor, uma alma/ que não conhece o tédio,/ os resmungos,/ os suspiros/ e as lamentações,/ nem os excessos de stress por causa desse estorvo chamado ‘Eu’./ Dá-me, Senhor, o sentido do bom humor./ Concede-me a graça de ser capaz de uma boa piada, uma boa piada para descobrir na vida um pouco de alegria/ e poder partilhá-la com os outros./ Ámen.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 9 de julho de 2022

ANTOLOGIA

  


O ESQUECIMENTO DO OUTRO…

por Camilo Martins de Oliveira


"Quem se diminuir crescerá; quem se engrandecer diminuirá". Estas palavras têm para nós uma ressonância evangélica. Tal como são de indiscutível atualidade as seguintes: "Há três espécies de perigos no mundo dos homens: o primeiro, ser pouco virtuoso mas receber muitos favores; o segundo, ser pouco competente mas ocupar um posto bastante elevado; o terceiro, não ter realizado nada de extraordinário mas serem-lhe atribuídos chorudos emolumentos". Estes pensamentos são retirados do capítulo XVIII ("Do mundo dos homens") do Huainan zi, tratado de filosofia taoísta e forte influência confucionista, elaborado, no sul da China, na segunda metade do séc. II antes de Cristo, sob a égide de Liu An, príncipe de Huainan e neto do imperador Liu Bang, fundador da dinastia Han. Esta obra revela, subjacentes aos ensaios que a constituem, ou à preocupação de síntese entre o pragmatismo político de Lao Zi e o individualismo místico de Zhuang zi, um conhecimento enciclopédico das lendas e narrativas, tradições religiosas e filosóficas, ciências e técnicas, eventos políticos e outros, dos tempos iniciais da era Han, como de outras anteriores. A ilustração ou fundamentação dos pensamentos expressos no Huainan zi é feita pela referência a textos e memórias de antanho (e não foi este também o método que Frei Tiago Voragino usou, quinze séculos mais tarde, para a sua Legenda Aurea?). A título de exemplo, transcrevo este passo: "Que quer dizer: quem se engrandecer diminuirá? Outrora, o duque Li de Jin declarou a guerra, no sul, a Chu, a leste, a Qi, a oeste, a Qin e, no norte, a Yan. Por todo o lado, o seu exército fazia lei e impunha, sem hesitar, o seu poder. Conseguiu assim concluir uma aliança em Jialing,"o belo outeiro", com senhores feudatários. Então, ufano das suas vitórias e cheio de arrogância, levou uma vida de deboche e tiranizou os dez mil povos, de tal modo que nenhum ministro o quis assistir, nem senhor algum dos outros principados quis prestar-lhe o seu apoio. Mandou executar um dos seus principais ministros e tornou obsequiosos os seus íntimos. No ano seguinte, aquando da sua incursão em terras do clã Jiangli, Luang Shu e Zhonghang, raptaram-no à força e prenderam-no. Nenhum senhor feudatário o quis socorrer, nem as cem famílias se afligiram. Sofreu portanto a morte, ao terceiro mês. Com efeito, numerosos eram os príncipes que alimentavam a ambição de aumentarem os seus territórios e imporem ao respeito os seus nomes por vitórias militares e ganhos de guerras ofensivas, mas o duque Li de Jin acabou por perder a vida e o principado. Eis um exemplo do que dissemos acima: quem se engrandecer diminuirá". Liu An, apesar de neto, primo e tio de imperadores - e ele mesmo ter sido considerado para o efeito - foi liquidado "por razões de Estado". Como, aliás, uns séculos depois, numa Palestina fora da órbitra do Império do Meio, o seria Jesus Cristo... Os demónios que nos habitam não gostam da verdade que nos obriga a ser humildes e generosos. E tem sido enorme, monstruoso, o mal que o orgulho e a ganância têm trazido, por milénios e séculos, à história dos homens. "A essência do pecado - dizia o dominicano francês Jean Cardonnel - é a estupidez". A prepotência e o egoísmo são o esquecimento do outro e, por aí, a afirmação de um vazio. Pois nada somos sem os outros connosco: o ser humano é, ontologicamente um ser em relação. A crise das sociedades hodiernas é a do pronunciamento humano - desde logo necessariamente solidário - da globalização que queremos. Se esta for a da imposição de leis ditas "do mercado", que são simplesmente a aposta dos atuais detentores do poder financeiro num jogo que lhes parece convir-lhes, talvez nos enganemos e percamos o futuro. Não sei se iremos ainda a tempo de corrigir o rumo, mas sejamos, pelo menos, fiéis ao nosso princípio: o Homem como medida de todas as coisas. Porque nas guerras que já se adivinham num horizonte cada vez mais negro, seremos nós os duques Li de Jin.

 

Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 11.01.13 neste blogue.

RELIGIOSAS DE CLAUSURA E O SÍNODO. SACERDOTISAS?

  

 

1. Neste tempo do barulho, da corrida e do imediatismo e do culto do ter, do prazer, do parecer e aparecer, não me parece que as religiosas de clausura estejam muito de moda.


O jornalista José Lorenzo, como dá notícia em Religión Digital, entrou em contacto com as religiosas trinitárias de Suesa na Cantábria e a superiora reconheceu isso mesmo: “Não estamos na moda, mas existimos.” Mais: “Não somos seres etéreos, anacrónicos ou surdos. Procuramos dias específicos  para recordar que cada instante é uma celebração onde a vida de Deus transforma as nossas. A vida contemplativa é viver cada instante na Presença. Cada instante é único, é dom e desafio.” Constatam: “Há uma sede imensa de Deus na Humanidade, mas precisamos de testemunhos vivos da força do amor.”


E a provar que não estão inactivas: que pedem ao Sínodo que terá lugar em Roma em 2023? “Que nos deixem pensar.” E realmente pensam. Como é sabido, o Papa Francisco quer deixar como marca do seu pontificado  a sinodalidade, isto é, que todos os membros da Igreja caminhem juntos e todos se sintam autenticamente representados na tomada de decisões. A prova está em que, desta vez, a preparação do Sínodo começa na base, nas Dioceses, de tal modo que todos possam exprimir-se, passando ao segundo momento, que é o momento continental, e só no final, com o contributo de todos, se realizará o Sínodo em Roma.


Encontrei de tal modo estimulante e rico o contributo destas religiosas na primeira fase que o publico na íntegra. Assim:   


1.1. “Defendemos uma Igreja participativa e corresponsável. As pessoas participam e são responsáveis quando sentem a Igreja como sua casa. Estamos numa Igreja piramidal e hierárquica, onde as normas vêm de cima. Isto é reforçado pela falta de formação teológica e espiritual, fomentada pelo difícil acesso do laicado, incluídas as religiosas, às faculdades de teologia. É necessária e urgente uma formação que permita a reflexão sobre questões de moral, bioética, ecologia, pacifismo, relações interculturais.”


1.2. “Reclamamos uma Igreja que se compreenda a si mesma a partir da simplicidade, da vulnerabilidade, do encontro, da busca do consenso e  uma participação de forma natural.”


1.3. “Preocupa-nos muito a questão da mulher na Igreja. A sua participação em igualdade de condições na Igreja católica é uma questão estrutural e não uma reforma secundaria. Acolhemos com alegria as propostas do Papa na Constituição Apostólica Praedicate Evangelium, embora consideremos que é preciso dar passos mais transcendentais ‘até que a igualdade se torne hábito’.”


1.4. “Consideramos que a Igreja precisa de um diálogo mais aberto com a sociedade, a partir de uma postura de verdadeira escuta, acolhendo a realidade e a situação das pessoas sem atitude moralizante. Que não se demonize a sexualidade nem se considere que é o centro de todo o pecado e, menos ainda, que o corpo da mulher é provocação.”


1.5. “Pensamos que a Igreja deve ser testemunho na sociedade exercendo a liderança da escuta, do acolhimento, da compreensão. A escuta é um valor da tradição  cristã que não estamos a praticar nem a propor à sociedade, quando temos a experiência e os meios para levá-la a cabo. É necessário gerar espaços acessíveis para que pessoas de diferentes âmbitos e formas de vida tenham a possibilidade de expressar-se, sendo agentes activos. Os meios de comunicação digitais e as redes sociais facilitam que toda a gente possa exprimir-se, e na Igreja tem-se em pouca conta este âmbito.”


1.6. “Pedimos ao Dicastério para a Vida Consagrada que deixe as religiosas pensar, que as deixe actuar no seu caminho vocacional próprio, que não se lhes imponha critérios a partir de cima, uma vez que desconhecem uma parte importante da vida monástica feminina.”


1.7. “Por fim, consideramos que é urgente que a Igreja se ponha em marcha no cuidado da Criação. Na Igreja deveríamos estar à cabeça no consumo de energias renováveis, o consumo responsável, etc. Parece-nos um grande pecado da nossa  época não fazer todo o possível para evitar que a Criação desapareça.”


O jornalista perguntou como se sentem em relação ao pontificado do Papa Francisco, recebendo como resposta: “Sentimos que é um sopro de liberdade na Igreja, que procura viver na simplicidade do Evangelho e na escuta profunda de toda a sociedade. Apesar disso, sonhamos com que se dêem passos na Igreja, que haja ainda mais audácia.”


2. Quando falam em mais audácia, não estão certamente a pensar em pôr definitivamente fim à tragédia da pedofilia, à violência sexualizada na Igreja e aos sucessivos escândalos no Banco do Vaticano. De facto, para isso, deverá bastar a decência e, consequentemente, a transparência.


Com certeza, estão a pensar na actualização da linguagem, na renovação da liturgia incompreensível. Sobretudo: no fim do celibato obrigatório e no acesso das mulheres a todos os ministérios da Igreja, em igualdade e sem discriminação...


Reclamam que as mulheres sejam sacerdotisas? Penso bem que não. De facto, como mostrei no meu mais recente livro, O Mundo e a Igreja. Que futuro?, a causa fundamental do cancro do clericalismo na Igreja,  reside essencialmente na ordenação sacerdotal. Nem Jesus nem os Apóstolos ordenaram sacerdotes, e uma coisa são ministérios ordenados e outra, qualitativamente diferente, a ordenação sacerdotal – o Novo Testamento evitou a palavra  hiereus, sacerdote, aplicada apenas a Jesus e ao povo cristão. Voltarei ao tema.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 2 de julho de 2022

NA FORÇA DA PALAVRA: TRABALHO E FÉRIAS

  

 

Lembro-me bem da senhora Isilda, uma mulher muito bonita e viva, que, já com 91 anos, um dia me esclareceu no café quanto ao baptismo. Segundo ela, baptiza-se as crianças pequeninas, para receberem o Espírito Santo, que é mais forte do que Jesus, e que é o Espírito falador: é ele que dá às crianças a capacidade divina para falar.


À sua maneira, a senhora Isilda tinha consciência do milagre que é falar. Quem algum dia reflectiu sobre isso - a capacidade de falar: proferir sons articulados que transportam sentido - falando, dizemo-nos a nós próprios, damos ordens, fazemos declarações de amor, e ódio também, ensinamos, contamos anedotas, fazemos paralisar uma pessoa, erguemos alguém caído, dirigimo-nos ao Infinito -, não pode deixar de cair no assombro interrogativo. Um corpo humano, pelo simples facto de falar, nunca deixará de constituir um enigma e mesmo um milagre pura e simplesmente. Aristóteles definiu o Homem como “animal que fala”.


E as palavras não são arbitrárias. Vejamos quanto aos temas do título desta crónica.


Embora em Portugal já se note que há quem não quer trabalhar, encostando-se ao Estado, o que é facto é que temos de trabalhar. A vida foi-nos dada, é um dom, mas, depois, precisamos de, numa bela e exigente expressão, ganhar a vida, e isso significa trabalhar. Mas lá está: trabalhar é duro, como diz o étimo da palavra trabalho: tripalium era um instrumento de tortura. Sem trabalho, não há vida, e trabalhar em conjunto, colaborando (laborare + cum); penso nisso, logo ao pequeno almoço: quem semeou, quem cultivou, quem colheu, quem transportou o que eu como?…); viajo em autoestradas (desgraçadamente, até com buracos!) e não fui eu quem as construiu, num carro que veio donde e quem o montou e com peças que vieram donde e com saber feito ao longo de séculos...; e escrevo num computador...; e aprendi numa escola e em universidades e com professores… Mas é construindo o mundo que nos fazemos… E, por isso, vamos realizando uma obra: em inglês, trabalhar diz-se to work (o étimo é érgon, donde deriva no alemão a palavra Werk, com o significado precisamente de obra, e dizemos: “as obras completas” de alguém...


Em breve, temos férias. Ora, cá está: a palavra latina feria, no plural feriae, tinha o sentido de "descanso, repouso, paz, dias de festa". No século III, a Igreja assumiu os dias da semana como dias de "comemoração festiva", enumerando-os como feria prima, feria secunda, tertia, quarta, quinta, sexta, ou, invertendo a ordem das palavras: prima feria, secunda feria, tertia feria, quarta feria, quinta feria, sexta feria. Daí, ao contrário de outras línguas, como o espanhol, o italiano, o francês, etc., que adoptaram a classificação romana baseada na divinização de um planeta: Lunes, Martes, Lundi, Mardi, etc., o português, ao seguir a designação eclesiástica, ter dado origem aos dias da semana como: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, etc. Que feira enquanto mercado esteja igualmente associada a feria deriva do facto de os comerciantes aproveitarem os dias festivos para vender as suas mercadorias.


De qualquer modo, o importante é sublinhar, até do ponto de vista histórico e etimológico, o carácter festivo associado às férias. Isso é tanto mais significativo quanto isso mesmo está presente noutras línguas, que seguiram caminhos etimológicos diferentes. Assim, em espanhol férias diz-se vacaciones e em francês vacances. Ora, vacaciones e vacances têm o seu étimo no latim vacatio, com o significado de isenção, dispensa de serviço. Os ingleses em férias dizem que estão on holidays, em dias santos. Os alemães, esses têm Ferien ou Urlaub. Ora, a raiz de Urlaub é Erlaubnis, com o sentido de dias livres de serviço e trabalho.


É necesssário sublinhar que a Bíblia fez questão de dizer que Deus deu um mandamento de um dia feriado semanal, santo, sem trabalho, para que a pessoa fizesse a experiência de que não é uma besta de carga, mas um ser festivo. Tem de trabalhar -  e duro -, mas não é besta de carga.


Afinal, se pensarmos bem, as férias não têm como finalidade última ser um intervalo no trabalho para repor as forças, em ordem a trabalhar outra vez e mais. As férias têm o seu fim em si mesmas: a experiência de que o ser humano é um ser festivo. É preciso ler e escrever poesia, dançar, apanhar sol na praia, no campo, na montanha, ouvir música, que nos remete para origens imemoriais e para a transcendência utópica toda. É preciso reaprender a ver o sol a nascer no Oriente e a pôr-se no Ocidente e a exaltar-se com a lua enorme -- cheia -- ou pequenina que nem um fio, e com o alfobre das estrelas: isso que na cidade não se vê. É preciso voltar às alegrias simples: contemplar uma simples folha de erva, acolher o perfume de uma rosa sem porquê, como dizia Angelus Silesius, exaltar-se com o mistério de um rosto humano. É preciso ter tempo para ouvir o silêncio: haverá milagre maior do que estarmos cá? Se se for fora, encontrar-se com culturas outras e diferentes modos de ser ser humano: como americano, asiático,  africano e, de modo mais concreto, chinês, ugandês, mexicano (nestes tempos de gobalização, que Deus nos livre da uniformidade!). É preciso ter tempo para a família e para os amigos. Para andar solto. Para dialogar com o Infinito. Para contemplar e criar beleza: não é ela que redime o mundo, como disse Dostoievski?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 25 de junho de 2022

O PAPA FRANCISCO VAI RESIGNAR?


A notícia percorreu mundo e nenhum dos grandes meios de comunicação social internacionais terá ignorado a notícia sobre a possibilidade de o Papa Francisco resignar em breve, abrindo caminho à sua sucessão à frente da Igreja Católica. Isso concretamente a partir do momento em que foi visto numa cadeira de rodas e em que se viu obrigado a adiar a sua viagem nos princípios de Julho à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul.


Para os rumores sobre a renúncia contribuíram sobretudo três factores.


Em primeiro lugar, sabe-se que Francisco está doente, sofre concretamente de dores no joelho da perna direita, que o impedem de estar em pé e o obrigam a andar em cadeira de rodas e de bengala. Ora, ele próprio já dissera a propósito de uma operação ao intestino: “Sempre que o Papa está doente corre brisa ou furacão de conclave”; de qualquer forma, acrescentou, “não lhe tinha passado então pela cabeça renunciar.” De qualquer modo, já em 2014 afirmou que “Bento XVI não é caso único”, o que faz pensar que não exclui a resignação no caso de se sentir impossibilitado de exercer o cargo.


Outro fundamento para os rumores assenta em que durante as conversas de preparação para o conclave no qual Francisco foi eleito ficou claro que uma das tarefas essenciais para o novo Papa era uma reforma funda da Cúria Romana. Ora, essa reforma, preparada durante nove anos de ponficado, é o tema da Constituição Apostólica “Praedicate Evangelium (Pregai O Evangelho), que entrou em vigor no passado dia 5 deste mês de Junho. Levada à prática, poderá constituir uma  autêntica revolução na Igreja, já que deixa de ser uma Igreja auto-centrada, auto-referencial, para ser uma Igreja em saída, aberta ao mundo, uma Igreja que deixa de ser piramidal para ser uma Igreja sinodal, em que verdadeiramente todos participam, segundo o princípio: “o que é de todos deve ser decidido por todos”.


Por outro lado, Francisco convocou um consistório para a nomeação de 21 novos cardeais, 16 dos quais possíveis eleitores. Isto significa que, no caso de um conclave, a maior parte dos cardeais eleitores já são da responsabilidade de Francisco. Significativamente, este consistório para o qual estão convocados todos os cardeais realizar-se-á nos dias 27 e 28 de Agosto, também com a intenção de estudo e aplicação da nova Constituição. Para acentuar os rumores, Francisco anunciou que no dia 28 de Agosto participará na celebração do “Perdão”  em Áquila, no centro da Itália. Que tem de especial este anúncio? Essa celebração foi instituída por Celestino V, e é em Áquila que se encontra o seu túmulo. Ora, Celestino V é o Papa que, passados pouco mais de quatro meses de pontificado, renunciou ao cargo em 1294, retirando-se para uma vida contemplativa. Mais: por coincidência ou não, Bento XVI, pouco tempo antes de anunciar a sua resignação, também foi visitar o túmulo de Celestino V.


Entretanto, Francisco, apesar de ter adiado a viagem a África e ter cancelado, nesta passada Quinta-Feira, a Missa e a Procissão do Corpo de Deus, continua a trabalhar. As viagens anunciadas continuam na agenda, nomeadamente ao Canadá no final de Julho, onde quer pedir perdão a grupos indígenas maltratados pela Igreja Católica, e ao Cazaquistão em Setembro, também para poder, pensando na tragédia da Ucrânia, encontrar-se com Cirilo, Patriarca Ortodoxo de Moscovo... Por outro lado, dadas as resistências na Cúria — dizia recentemente Óscar R. Maradiaga, o cardeal que presidiu ao grupo de cardeais que prepararam a Constituição “Pregai o Evangelho”: “É preocupante: perante a reforma que a Constituição quer há uma greve de braços caídos na Cúria”  — Francisco, que já uma vez disse que é “mais difícil reformar a Cúria do que limpar a esfinge do Egipto com uma escova de dentes”, quererá discutir com o colégio cardinalício a necessidade da implementação da reforma. E certamente terá ainda a intenção de presidir ao Sínodo sobre a sinodalidade em Outubro de 2023.  


Depois, há convergência de opiniões, referindo que dificilmente Francisco renunciará enquanto Bento XVI viver. E pode-se pensar no Presidente Roosevelt que numa cadeira de rodas governou durante a Segunda Guerra Mundial. De qualquer modo, Francisco não está a pensar renunciar em breve. Os testemunhos de figuras muito próximas vão nesse sentido. Assim, Maradiaga veio esclarecer que “os rumores de renúncia são telenovela barata”, não passando de “notícias falsas”. Também Guillermo Marcó, ex-porta-voz de Francisco enquanto cardeal, declarou depois de um encontro recente: Francisco continua “com muito bom ânimo, superatento e conduzindo com energia e coragem a Igreja; para lá do problema no joelho, que está em pleno processo de superação, o Papa encontra-se perfeitamente bem e não está de modo nenhum a pensar em renunciar”.


Seja como for, mais tarde ou mais cedo, a renúncia virá. E é agora a ocasião propícia para pensar na situação em que fica um ex-Papa, não só quanto ao seu estatuto mas até do ponto de vista da residência, pois, por mais liberdade que o ex-bispo de Roma queira, não é fácil, pensando na responsabilidade em termos da sua segurança, encontrar um Estado disposto a acolhê-lo.


É evidente que o Papa Francisco foi e é uma bênção para a Igreja e para o mundo e a História não vai esquecê-lo. A pergunta é: quem se segue a partir de um conclave próximo?  Pessoalmente, gostaria que fosse o cardeal Luis Tagle, que vem da Ásia e segue as pegadas de Francisco.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 18 de junho de 2022

O MILAGRE DO PERDÃO

  

 

Participei há anos no funeral gigantesco de um jovem padre francês. Na África do Sul. Tinha sido morto por engano na estrada, com a mira do roubo. Os pais não puderam estar presentes fisicamente. Fizeram-no do modo mais nobre e emocionante: o bispo leu àquela multidão o texto em que eles declaravam que perdoavam de coração aos assassinos.


No Evangelho, se há tema que volta sempre de novo é o do perdão. É preciso perdoar sempre. De coração. O próprio Jesus, do alto da cruz, perdoou aos seus algozes.


Mas o perdão é um milagre, como reconheceu o próprio filósofo J. Derrida, remetendo para a religião. Um milagre no sentido intenso da palavra. É algo de espantosamente admirável, porque transcende a lei da simples justiça. No âmbito da justiça pura, ninguém pode ser obrigado a perdoar e ninguém pode exigir o perdão. Perdoar é do domínio da generosidade, ser perdoado é da ordem da graça: ser perdoado é ser agraciado, receber uma graça. A justiça contabiliza. O perdão desfaz a lei do cálculo. Por isso, até na linguagem corrente, referente a pequenas ofensas, o ofendido dirá a quem pede desculpa: “Deixa lá, não foi nada!” A essência do perdão é a anulação do cômputo e da permuta, substituídos pelo dom. Quem ofendeu já não deve, porque o ofendido esqueceu a dívida, não tem em conta a ofensa. Assim, em verdade não perdoou a mulher que todos os dias repetia ao marido, que tinha tido uma "escapadela": “Não te esqueças que eu te perdoei de todo o coração!”


A justiça no seu rigor estrito não contempla o perdão. Mas, sem o perdão, a vida torna-se intolerável, pois quem ofendeu é devorado pela culpa, e o ofendido, roído pela vingança.


Apesar de tudo, há algum fundamento para o perdão? Em primeiro lugar, tenha-se em conta a compreensão pela fragilidade humana: se os seres humanos pudessem contar a sua história desde a raiz e até ao fim - o que será sempre impossível, pois desconhecemos a nossa raiz e o nosso fim -, a quantos se negaria compreensão? Mas há sobretudo a lei do ser, que é dom: antes de eu te dar seja o que for - também o perdão -, eu já recebi, existir é ser recebido desde sempre da Fonte, que dá sem nada exigir em troca e, por isso, mora no abscôndito.


Também por isso, perdoar mesmo só o Criador pode fazê-lo. De facto, a ofensa é uma ferida no ser, que a criatura, no limite, mesmo que a vítima perdoe, não pode propriamente reparar. Quem restitui ao jovem padre francês assassinado as suas possibilidades mortas para sempre? Só o Criador pode fazê-lo. É assim que o perdão da criatura não pode desvincular-se da memória. Perdoar não coincide com esquecer. Mesmo se a vítima esqueceu, perdoando, quem ofendeu tem de lembrar, para que o mal nunca mais se repita. Quem foi perdoado é convocado ao arrependimento e a uma vida nova. Como disse Kierkegaard, "tudo está esquecido, mas lembra-te do perdão".


Concretizando. Uma das situações em que o ser humano é confrontado com o limite é o caso do perdão do algoz por parte das vítimas mortas, como se torna palpável na história contada por Simon Wiesenthal numa obra sobre Auschwitz. Como contou Jürgen Moltmann, o judeu Wiesenthal era prisioneiro num campo de concentração e foi chamado ao leito de morte de um chefe nazi, que lhe queria confessar a ele, o judeu, que tinha participado nos fuzilamentos em massa de judeus na Ucrânia. Queria pedir-lhe perdão, para poder morrer em paz. Wiesenthal disse-lhe que podia ouvir a confissão do assassino, mas que não podia perdoar-lhe, pois "nenhum vivo pode perdoar em nome dos mortos aos seus assassinos". Não pode fazê-lo, porque não tem o direito nem o poder para isso. E Wiesenthal ficou tão abalado com esta impossibilidade de perdoar que escreveu a muitos filósofos e teólogos europeus a contar-lhes a sua história, que publicou, com as respostas, num livro com o título: Die Sonnenblume (O girassol).


A razão, para não sucumbir à parcialidade, se quiser ser verdadeiramente universal, não pode não ser "razão anamnética", isto é, tem de se deixar iluminar pela memória das vítimas. E é imprescindível a memória para que as tragédias acontecidas não voltem a acontecer... Por outro lado, quem fará justiça às vítimas, também para que os algozes possam reconciliar-se e encontrar a paz?


O místico é aquele que caminha com Deus e para Deus, mas sem abandonar a noite. Ele não se distingue do crente e do descrente, que simultaneamente somos com dor e sofrimento, por já ter sido subtraído à noite na qual todos os mortais vivemos submersos. "Distingue-se por ter avançado na noite o suficiente para que a noite seja para ele 'amável como a alvorada' (...), outra forma de luz", como escreveu o teólogo Juan Martin Velasco. Para muitos, em nenhum lugar da História esta experiência mística em que culmina a experiência de Deus foi tão radical como na cruz de Cristo, onde, segundo a fé cristã, "Deus se revela de forma definitiva e, por isso, insuperavelmente obscura". Aí, precisamente na dor insuportável da sua “ausência”, nessa noite de trevas, Deus está infinitamente presente, escutando aquela oração simultaneamente desesperada e confiante, que atravessa os séculos: "Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?; Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".


Os cristãos ousam acreditar que Deus ressuscitou de entre os mortos esse Crucificado, que o foi por blasfémia e sublevação do povo oprimido político-religiosamente.


NEle, Deus revelou-se solidário para sempre com todas as vítimas.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 28 de maio de 2022

O PERDÃO E A GÉNESE DO RELIGIOSO


Pergunto-me a mim próprio se a maior revolução na história das religiões não está naquela ordem que Jesus, na continuidade dos profetas, essas figuras colossais da História, coloca na boca de Deus: “Ide aprender o que isto quer dizer: ‘Eu não quero sacrifícios, mas justiça e misericórdia’.”


Por princípio, nas diferentes religiões, uma das componentes essenciais é precisamente o sacrifício a oferecer à divindade. E degolam-se cordeiros, vitelos, bois, pombas, cabritos. Mesmo pessoas humanas foram sacrificadas. Quem não se lembra do terror de Isaac, o miúdo carregando com a lenha do sacrifício, desconhecendo que a vítima era ele próprio? Também por princípio, só os sacerdotes podem oferecer sacrifícios. Há quem afirme que no tempo de Jesus, serviam no Templo de Jerusalém uns 20.000 sacerdotes e levitas -- os levitas eram uma ordem inferior de clérigos, que ajudavam os sacerdotes em vários serviços, como apresentar os animais e a lenha para o altar. Embora hoje os historiadores estejam de acordo em reconhecer que é um número exagerado, Flávio Josefo escreveu que numa Páscoa em Jerusalém foram degolados 255.600 cordeiros. Atendendo ao sangue que corria no meio do calor, entende-se a expressão forte do profeta, quando faz Deus dizer que é um fedor que chega aos céus.


Jesus veio proclamar que Deus é bom, que está farto de sacrifícios, e foi mesmo o enfrentamento com o sacerdócio judaico uma das razões da sua crucifixão. Deus é amor. Se há definição para Deus, ela só pode consistir na acção de amar: Deus é aquele que ama. Deus está do lado da Humanidade. Deus criou não para a sua maior honra e glória, mas para a alegria e a realização plena dos homens, das mulheres, dos jovens, das crianças. Deus é Pai/Mãe e só quer a felicidade de todos. Deus não está irado com a Humanidade. Portanto, não precisa de ser aplacado com sacrifícios.


A revolução é, pois, esta: os homens e as mulheres não têm que ter medo de Deus. Ora, se não precisam de ter medo, são livres e não escravos. Então, libertos do medo, não metem medo. Porque não haja ilusões: quem tem medo mete medo. Deve-se ter medo de quem tem medo: por paradoxal que pareça, o medo desencadeia toda a forma de violência.


Que a rejeição dos sacrifícios por parte de Jesus constituiu uma revolução prova-se também pelo facto de, a partir de alusões já no Novo Testamento, se ter dado à própria morte de Jesus uma interpretação sacrificial: essa morte era a paga a Deus pela dívida contraída pela Humanidade com o pecado dos primeiros seres humanos. A ofensa cometida contra Deus era infinita, e, assim, a reparação também tinha de ser infinita. Por isso, Deus não poupou o próprio Filho: a sua morte sangrenta foi exigida para aplacar Deus na sua ira e assim Deus reconciliar-se com a Humanidade.


Foi deste modo que Deus-amor voltou a ser o Deus-Moloch sanguinário e bárbaro. Mas, se Deus é sádico e exige sangue, os homens podem fazer o mesmo -- e aí está a religião enquanto legitimadora de tanto sangue derramado e de tanta violência cometida, desde sempre. Aí está hoje uma invasão injusta com uma guerra hedionda, brutal, torturadora, que não poupa civis nem mulheres nem crianças, que atira cadáveres para valas comuns, que humilha a Onu, que não teme o perigo de uma guerra nuclear, com a ameaça do fim da própria Humanidade, e é uma invasão e uma guerra provocadas por quem se diz cristão, apoiado pelo seu líder religioso, contra cristãos…


O Deus que mete medo e apavora está ao serviço do poder: é fácil subordinar quem vive afogado em medo. Quanto poder religioso e político não foi beber no medo! Pregou-se o medo para poder subjugar e dominar homens e mulheres, povos inteiros. Se o medo for medo de Deus, já se está vencido.


Sim, Jesus sacrificou-se até à morte e morte de cruz, mas não foi Deus que exigiu a sua morte. Pelo contrário. Jesus, cuja é mensagem é que Deus é Amor, não desistiu, apesar de saber as consequências dela por palavras e obras, foi coerente até ao fim, morreu para dar testemunho da Verdade e do Amor, mandado crucificar pela coligação de interesses religioso-imperiais, postos em causa pelo Deus que Ele pregava. Morreu crucificado, para proclamar bem alto e para sempre que Deus não quer crucificados. Ser discípulo de Jesus quer dizer fazer como Ele fez e o que Ele fez: significa libertar os crucificados, os oprimidos, contribuir de todos os modos para a dignificação de todos.


No dia em que a mensagem de Jesus chegar à cabeça e ao coração e à acção dos seres humanos, já não haverá medo de Deus. O que então habitará no mais íntimo será a reconciliação consigo e com os outros, e a compaixão e a misericórdia, que é o que Deus quer. E até haverá a graça do perdão, para perdoar o imperdoável -- o perdão sem condições, que já não pertence à ordem do jurídico nem do político. Aí, no perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade de cálculo que cessa. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão, há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste 'desejo' ou deste 'pensamento' do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso."

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 de maio de 2022