Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

COM O CADÁVER DA ESPERANÇA ÀS COSTAS

 

Ainda sobre os dias 1 e 2 de Novembro:

Dois dias para a morte e o sentido

 

Por mais arrogante que se seja e se padeça do complexo da omnipotência, ninguém, a não ser que pense suicidar-se antes, pode dizer: Até amanhã, se eu quiser. Dada a constituição corpórea do ser humano e a sua consciência antecipadora, toda a pessoa adulta e consciente, que reflecte, sabe, embora com um saber paradoxal, pois ninguém se pode conceber a si mesmo morto, que é mortal e que a morte é o limite inultrapassável. Ninguém rouba a morte a ninguém, cada um morrerá na sua vez. E as sabedorias ancestrais e as religiões e as filosofias lembraram sempre a cada um: “lembra-te de que és mortal”; aos generais romanos vitoriosos, na corrida para a celebração do triunfo, havia um escravo que lhes ia sussurrando ao ouvido o dito, em latim: “memento mori” (lembra-te de que és mortal); “sic transit gloria mundi” (assim passa a glória mundana): lembrava ao papa na sua coroação o mestre de cerimónias enquanto queimava uma mecha de estopa; os gregos definiam os humanos frente aos deuses, imortais, como “os mortais”.

 

A consciência da morte caracteriza o ser humano e, confrontando-o com a ameaça do nada — aquele “nunca-mais-para-sempre” neste mundo, escreveu Vladimir Jankélévitch —, revela-o a si mesmo na sua fundura ético-metafísica.  Aí, sabe que é um eu, único, enfrentando perguntas de abismo sem fundo, inevitáveis: O que sou e quem sou? O que quero e devo fazer?

 

Na consciência antecipadora da morte, cada um é dado a si mesmo como totalidade, ainda que incompleta, pois ninguém sabe o que é morrer nem o que quer dizer exactamente estar morto. De qualquer modo, nessa antecipação, a pergunta decisiva é: Qual o sentido da vida, da existência, da História, de tudo? Vamos realizando sentidos, mas, perante a morte, impõe-se a pergunta essencial, final: Qual o sentido de todos os sentidos, o Sentido último? Para quê? Porque, se tudo se afunda na morte: bem, mal, dignidade, indignidade, justiça, injustiça..., então tudo é equivalente, vale tudo o mesmo e foi tudo para nada.

 

 Mas é tão natural o homem saber da sua morte como esperar para lá dela. A pessoa é constitutivamente esperante, assim: por mais que concretize e realize da sua esperança, ela nunca está plena e adequadamente concretizada nem realizada, pois há sempre um abismo entre o desejado e o alcançado, e, por isso, sempre um mais além, de tal modo que  nenhum homem, nenhuma mulher morre satisfeito, satisfeita (de satis-factus, satis-facta: feito, feita suficientemente). Todos morrem em aberto, o que leva à conclusão de que a realização plena só pode vir de Outro, de Deus; só a religião pode garantir a esperança total. Assim, a própria Escola de Frankfurt vivia atenazada. Por exemplo, Max Horkheimer, um dos seus fundadores, por um lado,  não acreditava, mas, por outro, ansiava pelo totalmente Outro: “Sem Deus, é inútil pretender salvar um sentido incondicional. (...) A morte de Deus é também a morte da verdade eterna”. “O anelo pelo totalmente Outro é um anelo que une os homens, de tal modo que os factos atrozes, as injustiças da história passada não sejam o destino último, definitivo, das vítimas”. Por isso, pensava que a moral assenta em última instância na teologia, significando teologia “a consciência de que este mundo é um fenómeno, que não é a verdade absoluta, que não é a ultimidade. Teologia é – exprimo-me conscientemente com grande cautela – a esperança de que a injustiça que atravessa o mundo não seja a ultimidade, que não tenha a última palavra (...) expressão de um anelo de que o verdugo não triunfe sobre a vítima inocente”. Theodor Adorno, outro fundador, escreveu que “o pensamento que se não decapita desemboca na transcendência; a sua meta seria a ideia de uma constituição do mundo na qual não só ficasse erradicado o sofrimento existente, mas também revogado o irrevogavelmente passado”. Também Jürgen Habermas se refere a toda esta problemática, concretamente a das vítimas inocentes e da dívida da História para com elas, trazendo à colação este texto de J. Glebe-Möller: “Se desejarmos manter a solidariedade com todos os outros, incluindo os mortos, então temos que reclamar uma realidade que esteja para lá do aqui e do agora e que possa vincular-nos a nós também para lá da nossa morte com aqueles que, apesar da sua inocência, foram destruídos antes de nós. E a esta realidade a tradição cristã chama-a Deus”.

 

Claro que ninguém se pode gloriar, diz I. Kant, de saber que Deus existe e que haverá uma vida futura: se alguém o souber, escreveu, “esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele”. Mas é razoável acreditar em Deus e esperar para lá da morte. Na sua obra Was ich glaube (O Que Eu Creio), resultado de uma série de lições, aos 80 anos, na Universidade de Tubinga, a cada uma das quais  assistiram mil pessoas, pergunta, com razão, o célebre teólogo Hans Küng: ”O ateísmo explica melhor o mundo? A sua grandeza e a sua miséria? Como se também a razão descrente não encontrasse o seu limite no sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido!”

 

A curto, a médio, a longo prazo todos iremos estando mortos. A nossa vida e a realidade do mundo estão em processo e a História lê-se do fim para o princípio. Só no fim se poderá saber, mas, sem Deus, nunca poderíamos sequer saber quem somos nem o que pretendia a realidade e a História, porque não estaríamos lá e tudo teria sido para nada.  Lá, no final, só há, portanto, uma alternativa.

 

Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu L’homme nu: “Ao homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada.”

 

A Bíblia, no seu último livro, Apocalipse, que quer  dizer revelação, conclui assim: “Vi então um novo céu e uma nova terra. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.”

 

É preciso relembrar esta alternativa final, concretamente neste tempo de inesperança em que, ao contrário de todas as aparências de euforia, se avança, citando um poeta galego, “com o cadáver da esperança às costas”.

 

Aqui chegados, alguém poderá objectar que a esperança no Além é alienante, porque retira força ao compromisso com a luta por um mundo mais humano no aquém. Mas, se se pensar mais fundo, é o contrário. A inesperança está a infectar a vida, porque se ama pouco. O amor autêntico quer eternidade e é o combate comprometido com um mundo mais justo, mais humano e mais feliz que reforça a esperança no Além. Como disse Immanuel  Kant de forma lapidar: “A praxis tem de ser tal que se não possa pensar que não existe um Além”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 3 NOV 2018

FRANCISCO EM PEQUIM?

 

1. A perseguição aos cristãos foi particularmente feroz durante a Revolução Cultural no tempo de Mao. Mas a situação está a mudar de modo rápido e surpreendente. Desde 1976, com a morte de Mao, as igrejas começaram a reabrir e há quem pense que a China poderá tornar-se mais rapidamente do que se julgava não só a primeira potência económica mundial mas também o país com maior número de cristãos. “Segundo os meus cálculos, a China está destinada a tornar-se muito rapidamente o maior país cristão do mundo”, disse Fenggang Yang, professor na Universidade de Purdue (Indiana, Estados Unidos) e autor do livro Religion in China. Survival and Revival under Communist Rule (Religião na China. Sobrevivência e Renascimento sob o Regime Comunista). Isso “vai acontecer em menos de uma geração. Não há muitas pessoas preparadas para esta mudança assombrosa”.

 

Cresce sobretudo a comunidade protestante. De facto, a China tinha apenas um milhão de protestantes. Em 2010, já tinha mais  de 58 milhões. Segundo Yang, esse número aumentará para cerca de 160 milhões em 2025, o que faria com que a China ficasse à frente dos Estados Unidos. Em 2030, a população cristã total da China, incluindo os católicos, superará os 247 milhões, acima do México, Brasil e Estados Unidos. “Mao pensava que poderia acabar com a religião. E julgava ter conseguido”, diz Yang. “É irónico pensar que o que fizeram foi fracassar completamente.”

 

A situação parece preocupar as autoridades chinesas, que, por outro lado, não quererão 70 milhões de cristãos como inimigos.

 

2. Os católicos serão uns 12 milhões. Desde 1951 que a China não tem relações diplomáticas com o Vaticano. Mas o Governo chinês felicitou Bergoglio a seguir à sua eleição como novo Papa e exprimiu o desejo de que, sob o pontificado de Francisco, o Vaticano “elimine os obstáculos”, para uma aproximação. Francisco declarou por várias vezes não só o seu apreço pelo povo chinês como o seu desejo de visitar Pequim. Por exemplo, disse aos jornalistas: “Estamos próximos da China. Enviei uma carta ao Presidente Xi Jinping quando foi eleito, três dias depois de mim. E ele respondeu-me. Há contactos. É um grande povo do qual gosto muito.” E que está à espera de um sinal para uma visita.

 

O que é facto é que, aquando das viagens de Francisco à Ásia, a China, pela primeira vez, abriu o espaço aéreo para que um Papa pudesse sobrevoá-la. Não se pode esquecer que Francisco é jesuíta e que o jesuíta Matteo Ricci, cujos conhecimentos científicos deixaram o imperador deslumbrado, juntamente com Marco Polo são os dois estrangeiros recordados por Pequim entre os grandes vultos da China. Aliás, a inculturação do cristianismo na cultura e religião chinesas poderia ter-se dado nos séculos XVI-XVII, por influência precisamente do génio de Ricci, não fora a cegueira do Vaticano, que interveio desgraçadamente, impedindo essa síntese entre o Evangelho e a cultura milenar chinesa.

 

3. Francisco é um jesuíta da estirpe de Ricci, que admira: o processo da sua beatificação avança e a frase “venho dos confins do mundo” será citação de Ricci, que dizia ter passado a vida nos “confins do mundo”. Francisco é também considerado um “animal político”, que sabe de geoestratégia, acompanhado pelo secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, um diplomata de primeira água, como disse o Papa, no regresso da sua viagem aos países bálticos, respondendo às perguntas dos jornalistas sobre o acordo assinado dias antes entre o Vaticano e Pequim: “o Secretário de Estado que é um homem muito devoto, o cardeal Parolin, que tem também uma especial devoção pela observação. Estuda todos os documentos, até nos pontos, nas vírgulas e acentos. Isto dá-me uma segurança muito grande.” Foi um acordo que durou anos de negociações e é sabido que, acrescentou o Papa, “quando se faz um acordo de paz ou uma negociação, as duas partes perdem alguma coisa. Esta é a lei. As duas partes, e continua-se. E isto continuou. Dois passos para a frente, um para trás, dois para a frente, um para trás. Depois, passaram meses sem falarmos e depois chegou o tempo de falar, à maneira do tempo chinês, lentamente. Esta é a sabedoria, a sabedoria dos chineses.” Não houve improvisação, mas um caminho que durou a percorrer “mais de dez anos”.

 

Francisco fez questão de sublinhar que assumiu a total responsabilidade pelo que se passou: “Fui eu que assinei o acordo.” Em que consiste esse acordo de 22 de Setembro passado? Antes, havia a Igreja Patriótica, com bispos nomeados pelo Governo, e a Igreja clandestina, com bispos nomeados e fiéis ao Papa. Agora, “há um diálogo sobre eventuais candidatos. A coisa faz-se em diálogo, mas quem nomeia é Roma, o Papa. Isto é claro.” Há uma consulta entre os fiéis para o candidato a bispo, o Governo aprova, mas o Papa tem o direito de veto, havendo neste caso a necessidade de encontrar outro candidato.

 

Sucede, pois, que o Papa reconheceu sete bispos da Igreja Patriótica, que ficaram, em igualdade com os outros, em comunhão com o Papa. É compreensível que alguns bispos e muitos católicos que foram perseguidos e tiveram de viver na clandestinidade se tenham sentido um pouco traídos e sofram. Para esses Francisco teve também uma palavra: “Penso na resistência, nos católicos que sofreram. É certo, e sofrerão, num acordo, há sempre sofrimento, mas eles têm uma fé grande, e escrevem, fazem chegar mensagens. Sim, a fé martirial desta gente avança. São grandes.” E, numa alusão a Viganó, que o acusou na célebre carta bem conhecida, Francisco contou: “Quando saiu aquele famoso comunicado de um ex-núncio, os episcopados do mundo inteiro escreveram-me, dizendo de modo claro que se sentiam próximos, que rezavam por mim... Os fiéis chineses também escreveram e a assinatura desse escrito era do bispo, digamos, da Igreja tradicional católica e do bispo da Igreja Patriótica, os dois juntos e os fiéis juntos com eles. Para mim foi um sinal de Deus. Rezamos pelos sofrimentos de alguns que não entendem ou que têm às suas costas muitos anos de clandestinidade.”

 

O primeiro resultado visível deste acordo provisório é a presença no Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a decorrer em Roma, de dois bispos da República Popular da China: um da Igreja tradicional e outro da Igreja Patriótica. Na Missa de abertura do Sínodo, ao referir os seus nomes, um nomeado por Bento XVI e outro que pertencia à Igreja Patriótica, Francisco comoveu-se: “Hoje, pela primeira vez, estão também aqui connosco dois irmãos bispos da China continental. Demos-lhes as nossas afectuosas boas vindas: graças à sua presença, a comunhão de todo o episcopado com o Sucessor de Pedro é ainda mais visível.”

 

4. Poderia Francisco culminar o seu pontificado com uma visita à China? No quadro da reconfiguração geoestratégica daquela região — pense-se nos encontros entre o Presidente Donald Trump e o Presidente Kim Jong-un, no convite deste ao Papa para uma viagem à Coreia do Norte, nas próximas viagens de Kim a Seul e a Moscovo, na visita próxima do Presidente da China, Xi Jinping a Pyongyang... — e da importância deste acordo sobre um tema que era a principal razão de conflito entre Pequim e o Vaticano, não se pode excluir essa possibilidade ou até, diz-se, probabilidade.

 

Mas haverá ainda outro longo caminho a percorrer. O bispo de Hong Kong, Michael Yeung, apoiou — “Eu disse: Santo Padre, avance, não tenha medo, mas seja cauteloso” — e apoia este acordo com a China, mas adverte: “Não creio que a assinatura deste acordo provisório signifique a solução de tudo. É preciso tempo, um par de anos, para ver.” Acrescentou que “um acordo provisório não poderia ter parado a opressão” dos católicos chineses por parte do regime comunista nem tão-pouco “ter evitado que as igrejas sejam destruídas” ou que “os jovens sejam proibidos de ir à Missa”. “Estas coisas exigirão tempo para serem resolvidas”. De qualquer forma, pede que daqui em diante o Vaticano vele especialmente por duas coisas: os clérigos “clandestinos” encarcerados por Pequim e a liberdade religiosa.

 

Uma questão maior. Como é sabido, para o estabelecimento de relações diplomáticas, a República Popular da China pressiona todos os Estados para que cortem relações com Taiwan. Ora, a Santa Sé continua a reconhecer Taiwan e o Vaticano é mesmo o único aliado que Taiwan tem na Europa. John Hung Shan-chuan, arcebispo de Taipé, declarou em relação ao acordo: “Estamos felizes pelo progresso das relações, fomos informados antes”, e acrescentou: “O que vemos é que pela primeira vez o partido comunista está a abanar. Eles dizem que não querem que poderes estrangeiros se metam no seu país, mas desta vez permitiram-no. E isso é um bom sinal, embora não saibamos quais serão as consequências no futuro. Mas não estamos preocupados, porque o Papa disse-nos que não nos ia abandonar nem prejudicar Taiwan. Pedimos-lhe isso e sabemos que como bom pastor não nos vai abandonar”.

 

Neste enquadramento, a Presidente de Taiwan convidou oficialmente o Papa a visitar a ilha, que tem 300.000 católicos, aproximadamente 1, 5% da população. E os dois bispos chineses que estiveram no Sínodo — foi a primeira vez — convidaram o Papa a visitar o seu país, a República Popular da China. Para que a visita se concretize, será necessário um convite formal de Pequim.

 

Imediatamente a seguir, neste passado dia 18, o Papa Francisco recebeu, como previsto e como escrevi aqui na semana passada, o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, que lhe transmitiu oralmente, a pedido de Kim Jong-un, o convite para visitar a Coreia do Norte.  Depois do encontro, o porta-voz presidencial sul-coreano, Yoon Young-chan, declarou que “o Papa disse: ‘Darei uma resposta incondicional, se me chegar um convite oficial e puder ir’”. Já em relação ao convite para visitar Taiwan, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, confirmou, no mesmo dia, o convite, mas “posso afirmar que essa visita do Santo Padre não está a ser estudada”, disse.

 

Questões da diplomacia, imensas e complexas.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 20 OUT 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A dado passo (página 72) do meu Fomos em Busca do Japão, escrevi: Já referi Shusaku Endo, e com ele nos interrogámos sobre o porquê do cristianismo surgir, aos japoneses, como estrangeiro. E verificámos, com o professor Suzuki Norihisa, como o cristianismo progrediu no Japão em tempos de mutação social e subversão de valores, mas esses são, simultaneamente, períodos em que também se faz sentir uma maior necessidade de coesão nacional. Esta manhã, relendo este trecho e outros que adiante citarei, ocorreu-me ainda um passo do An 1000 An 2000 - Sur les Traces de nos Peurs, de Georges Duby (Textuel, Paris, 1995), livro que comprei e li em Tokyo, comparando a Europa medieval (aqui no século XIII) à presente: Também temos uma visão clara da evolução das mentalidades. Nesse período de forte crescimento, como atualmente, os filhos não pensavam como os pais. Apesar dessa sociedade muito hierarquizada cultivar de modo fundamental o respeito dos antigos. Qualquer súbito e novo modo de pensar é sinal, não só de mudança da circunstância económica, social, política e referencial (ou cultural), mas de um sequente salto para a frente de uma nova geração, seus modos de pensar e artifícios. O tempo e o modo: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

 

   O tempo e o modo do Japão - escrevia eu então - à hora da chegada dos portugueses, será a circunstância em que se desenvolverá o chamado século cristão, com o progresso rápido da evangelização e, depois, com as perseguições, até ao martírio de muitos (sobretudo japoneses) e à expulsão de todos os missionários e dos portugueses mercadores. As rivalidades entre senhores feudais, a sua própria concorrência ao batismo cristão para obterem armas de fogo e o benefício do comércio dos portugueses (sobretudo este, posto que, quanto a mosquetes, depressa os japoneses os fabricaram em Sakai); o movimento de unificação conduzido pelos senhores da guerra Nobunaga, Hideyoshi e Yeasu, este vindo a ser o iniciador do shogunato Tokugawa; a influência política das seitas e mosteiros budistas (e falarei dos kenmon); a desconfiança dos bakufu, aliás alimentada por adventícios holandeses e ingleses, de que a evangelização católica visava objetivos de cruzada e conquista política... Tudo isto pesou no destino do cristianismo e dos portugueses no Japão! Diga-se, a talho de fouce, que a tal ideia de cruzada não era apenas pura invenção protestante: os próprios Xavier, Valignano e outros jesuítas tiveram muitas vezes de enfrentar pessoas e conceitos firmados nas cortes portuguesa e espanhola, que defendiam que o Japão deveria ser outro Peru, como terra de conquista espiritual e temporal!

 

   Claro fique que os concorrentes holandeses e ingleses exploraram quanto possível o receio semeado, servindo-se da sua qualidade de cristãos protestantes e adversários dos católicos ibéricos. Não esqueças, Princesa, que aquilo a que hoje se chama a primeira globalização - e foi a expansão, primeiro ibérica, logo europeia, pelos cantos do mundo - a toda a parte levou essa mistura política, traduzida em guerras, de rivalidades económicas, concorrências comerciais, e confrontos religiosos fratricidas. Aliás, lutas entre irmãos, e intrigas, não foram apanágio exclusivo de reformados contra tridentinos e vice-versa: no Japão, por exemplo, a partir do momento em que se relaxou o Padroado Português e, pela rota de Manila, foram chegando missionários de outras ordens religiosas, também os católicos entre si se foram pregando umas partidinhas... Não quero fazer alarde de investigação histórica (nem sequer historiador sou, muito menos investigador) e procuro não te dar aulas, mas tão somente propor-te uma leitura descontraída de coisas passadas. Portanto, passo a ilustrar o período de que te falo com textos respigados do The Christian Century in Japan (1549-1650) de Charles Boxer (University of Califórnia Press, 1951). Traduzo-te alguns:

 

   Um dos lugares comuns da história é que não há confrontações mais amargas do que as engendradas pelo odium theologicum, que parece inseparável de qualquer disputa doutrinal e, mais ainda, em religiões como o Cristianismo e o Budismo que teoricamente deixam tal tensão à paz e boa vontade. O registo da Igreja Cristã a este respeito até é mais negro do que o dos sequazes do Iluminado, e a calúnia mútua a que as ordens católicas romanas chegaram no Extremo Oriente foi uma das principais causas do relativo falhanço das suas missões na China e no Japão. Como observou o Professor Murdoch [cf. Murdoch, James, e Isso, Yamagata, A History of Japan during the Century of Early Foreign Intercourse, 1542-1651, Kobe, 1903], a simples verdade dos factos é que, entre 1564 e 1614, pelo menos, entre jesuítas e franciscanos, no Japão, se chegou quase à guerra à facada, tal como sucederia no Paraguai, poucos anos depois. Não há historiações da Igreja que cheguem para esconder tal verdade a quem queira dar-se ao trabalho de gastar algum tempo a analisar as cartas que as missões daquelas Ordem e Companhia enviaram às respetivas sedes.

 

   Não tenho bem a certeza de em quem é que o Professor Murdoch pensava quando empregou o termo "historiações da Igreja" [Church historianizing], visto que os coevos participantes em tão pouco edificantes disputas não tentaram esconder o que tinham por verdade histórica, nem tampouco o fizeram os protagonistas Jesuítas e Dominicanos da igualmente amarga querela acerca dos ritos chineses, que convulsionou a Igreja Católica no século seguinte. Pelo contrário, a franqueza e chã linguagem dos seus respetivos porta-vozes não deixam a mínima dúvida da sua sinceridade, pense-se o que se pensar dos motivos (muitas vezes irrisórios quanto baste) que inspiraram essas erupções de inveja, ódio, malícia e falta de caridade. Frailes idiotas era um termo de opróbio usado pelos jesuítas muito antes de se tornar num grito de guerra dos anticlericais espanhóis no século XIX.

 

   [Ainda que não te escreva esta para te falar de história, aproveito-lhe a oportunidade de abrir um trecho só para te dizer que, na circunstância do Padroado Português do Oriente, em que se incluíam China e Japão, e apesar da sede do paralelo Patronazgo Espanhol estar nas Filipinas, a norma estabelecida pela coroa dos Áustria espanhóis, que submetia a si os dois reinos (Espanha e Portugal) e seus impérios, ordenava que a administração ultramarina de cada um fosse independente da do outro, bem como separadas as respetivas áreas de missionação. Desse modo, a presença e atividade das missões espanholas de outras ordens religiosas no Japão era ilegal, visto que, desde Dom João III, o Padroado fora confiado aos cuidados da Companhia de Jesus. Mas não te será difícil entender como o mui lucrativo comércio triangular (luso-nipo-chinês) era naturalmente cobiçado pelos mercadores espanhóis estabelecidos em Manila, onde arribavam pela rota do Pacífico, vindos do Peru... E a ganância pode muito.]

 

   Fechado o parêntese, volto ao tema da distorção de outrem e do próprio, por força, não tanto de divergências ou de propostas alternativas, em si mesmas, mas da concorrência entre rivais e das consequentes ganas de cada qual ser superior aos outros. É interessante verificar como a ideia das virtudes da concorrência como indispensáveis fatores de progresso e, finalmente, de justiça, não só fez dela a palavra de ordem para a viabilização de qualquer sociedade política e económica verdadeiramente liberal e democrática, como até canonizaram a agressividade como virtude heroica, e a ambição de dinheiro e poder como causa efetiva de saúde social e fim último do esforço individual.

 

  Concomitantemente se esquecem os efeitos colaterais ou secundários decorrentes da degenerescência da competição em tirania concorrencial. Ou, se assim melhor entenderes, Princesa de mim, se olvida a parábola do barranco de cegos. Tal como os missionários cristãos, no Japão do século XVI/XVII, não aprenderam com a lembrança de que uma das razões do seu êxito inicial na conversão de japoneses estar precisamente na incerteza que os nipónicos experimentavam com a divisão e a concorrência agressiva das seitas budistas entre si, tal acontecendo, diria o professor Norihisa, em período de necessidade de coesão nacional. Assim também hoje, muito se fala de crise das democracias liberais, ameaçadas por populismos, nacionalismos estremes ou, ainda, por agressões de fundamentalismos islâmicos e sabotagens russas e chinesas... Mas pouco se faz uma nossa introspeção -  exercício que talvez nos conduzisse à perceção de revisões necessárias da nossa cultura e comportamentos. Ao correr da pena epistolográfica - que, neste caso, é um teclado de computador portátil - vou então desafiar-te a recordares comigo alguns exemplos das nossas correntes contradições e perplexidades. Não seguirei qualquer ordem preestabelecida, vai tudo ao jeito do Vitorino Nemésio, isto é, do meu se bem me lembro... E assim irá por etapas, isto é, por cartas várias.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

FRANCISCO EM PYONGYANG?

 

A notícia chegou completamente inesperada e surpreendente: o Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, será portador de um convite formal do Presidente Kim Jong-un ao Papa Francisco para que visite o seu país, a Coreia do Norte. E está preparado para recebê-lo em Pyongyang “com entusiasmo”.

 

A Coreia do Norte ocupa hoje o primeiro lugar na lista dos países onde os cristãos são mais perseguidos. Nos princípios do século XX, a capital, Pyongyang, foi chamada “a Jerusalém do Oriente” ou “a Jerusalém da Ásia”. Na Coreia do Norte,  em 1950 viviam ainda mais de 55.000 católicos, com 57 igrejas construídas, com missionários, escolas católicas e actividades pastorais florescentes. A perseguição tinha começado antes, mas acentuou-se com a guerra da Coreia e o brutal regime instalado: as igrejas foram arrasadas, os cristãos, católicos e protestantes, mortos ou enviados para campos de concentração, num processo de eliminação de qualquer presença religiosa. As comunidades católicas tornaram-se verdadeiramente a “Igreja do silêncio”. Hoje existe apenas uma igreja católica, construída em 1988, mas sem padre nem religiosos nem baptismos. Na capital, os católicos  serão uns 800 e, dispersos por toda a Coreia do Norte, uns 2 ou três mil; no entanto, é convicção de padres do Sul, que estiveram no Norte, que o número pode ser muito superior: haverá muitos homens e mulheres que continuam a viver a sua fé em Cristo de modo  íntimo, sem possibilidade de exprimi-la publicamente. O regime é ateu, mas, a partir de 1989, com a queda do bloco comunista, reconheceu uma “Associação Católica” e uma “Federação Cristã”, que são duramente enquadradas e controladas pelo Governo. Alguns contactos informais têm tido lugar em Roma entre representantes norte-coreanos e diplomatas do Vaticano, revela o jornal La Croix, que também escreve que em 2017 um diplomata norte-coreano declarou expressamente a um seu enviado especial à Coreia do Norte que “as organizações humanitárias católicas faziam um trabalho muito bom na Coreia do Norte; são sérias, eficazes e nós confiamos, pois são mais honestas e sinceras do que outras grandes organizações laicas que nos enviam espiões”.

 

Como reagirá o Papa Francisco ao convite? Ele vai receber no próximo dia 18 o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, um católico fervoroso, que lhe entregará o convite oficial do líder norte-coreano. Nesse dia, o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, um diplomata reconhecido e prestigiado internacionalmente, celebrará uma Missa na Basílica de São Pedro pela “Paz na península coreana”, na qual participará o presidente Moon.

 

Possivelmente o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, é o grande artífice da presente situação cada vez mais distendida na península coreana, no quadro de uma nova ordem, que poderia estar inclusivamente a caminho de uma união entre as duas Coreias; para um dos encontros inter-coreanos convidou também o presidente da Conferência Episcopal Coreana, que esteve presente. O convite do líder norte-coreano ao Papa surge no contexto dessa reconfiguração geoestratégica, estando previsto que Kim Jong-un visite Seul, visitando também proximamente Moscovo, ao mesmo tempo que se espera uma visita do presidente chinês,  Xi-Jinping, a Pyongyang, e outro encontro entre Kim e Donald Trump poderá acontecer em breve. Por outro lado, Kim, que é sabido ser um ditador cruel e que poderia correr o risco de uma sublevação por parte da população esfomeada, quererá mudar a sua imagem, agora uma imagem de homem pacífico; e que solução melhor para isso do que o convite a Francisco, líder político-moral global e símbolo do combate a favor do diálogo e da paz?

 

E se Francisco fosse visto em Pyongyang? Ele visitou a Coreia do Sul em Agosto de 2014. Aquando da cimeira histórica entre Trump e Kim a 12 de Junho passado em Singapura repetiu os  vários apelos que tem feito a favor da paz entre as duas Coreias.  O cardeal Andrew Yeom Soo-Jung, arcebispo de Seul, declarou a propósito do convite: “Dá-me satisfação e conforta-me saber que, durante a sua visita ao Vaticano na próxima semana, o Presidente Moon Jae-in levará consigo a mensagem do líder norte-coreano Kim Jong-un, que deseja convidar o Papa Francisco para Pyongyang. O Santo Padre preocupou-se sempre e preocupa-se com a paz na península coreana e incluiu nas suas orações os coreanos sempre que houve acontecimentos importantes na história recente. Espero que estes esforços ajudem a construir uma paz genuína na península da Coreia. Sobretudo como administrador apostólico de Pyongyang, rezo sinceramente para que em breve possamos enviar sacerdotes e religiosos e religiosas para o Norte e celebrar juntos os Sacramentos.”

 

Francisco tem a convicção de que o futuro do cristianismo se joga em grande parte na Ásia. Está prevista uma viagem sua ao Japão no próximo ano e não se deverá esquecer que este convite vem também na sequência do acordo de 22 de Setembro passado entre o Vaticano e Pequim sobre a nomeação em conjunto dos bispos da República Popular da China. Este acordo será o tema da minha próxima crónica.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 13 OUT 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

    Não te falo agora, Princesa de mim, de um problema da consciência pessoal de cada um de nós, mas antes me preocupa a inspiração de uma atitude eclesial, isto é, o olhar da caridade sobre o justo e o injusto. E terei de te falar de uma questão insidiosa: a confusão corrente, que se pensa ser a da Igreja "oficial", entre crime e pecado. E, claro está, do embrulho mental e sentimental em que nos meteu tudo isso, pela  insistência em se manter uma intervenção jurisdicional da Igreja sobre o comportamento das pessoas, e em quase todos os aspectos das suas vidas. Entre amigos, como bem sabes, Princesa de mim, costumo dizer que a Igreja padece de um excesso de moralismo canónico e duma correspondente carência de esperança evangélica na acção do Espírito Santo... E esse moralismo começa assim que se considera qualquer ato mais importante do que a inspiração donde decorre ( A.-N. Bertrand, citado em A. Lalande: Vocabulaire technique et critique de la philosophie, 8ª edição, Paris, 1960). Caímos assim no domínio objetivo do direito positivo, a lei de Deus passa a ser lida mais como um código de conduta, com infrações textualmente identificadas, concretamente verificáveis por factos reconhecidos ou pelo reconhecimento, em confissão, dos seus próprios autores. Ora, parece-me que, em sentido ou espírito evangélico, o mandamento novo antes é uma vocação à santidade, um caminho de perfeição cujo prémio é a alegria da semelhança ao Pai (os nossos Padres até lhe chamavam regras de vida santa) do que uma regra totalitária que incessantemente nos ameaça com o inferno. O jugo de Jesus Cristo é suave, dá à nossa liberdade a oportunidade sempre renovada de cooperarmos com o Senhor Deus. Gosto muito daquela definição que o dominicano frei Jean Cardonnel dá do pecado: Le péché c'est la passion de nos limites. Na verdade, o pecado é essencialmente a desmesura do nosso contentamento com a nossa mesquinhez. É como querer fechar-se em casa, cerrando portas e janelas, em dia de sol e brisa mansa.

 

   A realidade do pecado não é catalogável, do mesmo modo em que o é, e tem de ser, pelo direito positivo, qualquer crime, com suas atenuantes e agravantes, como ato que é facto punível por pena objetivamente estipulada. Por isso mesmo, todos os crimes cometidos por gentes da Igreja - e a Igreja somos todos nós - devem ser devidamente denunciados e entregues ao juízo e sentença da justiça civil, pois que até a reparação possível de qualquer infração da lei e da violência sofrida por vítimas, ou da simples violação dos seus direitos, não pode ser isenta da norma que, por fundamento e definição, é, e deve sempre ser, equitativa, isto é, igual para todos.

 

   Outrossim, a Igreja não é um tribunal, nem humano nem divino. É, entre nós, a comunidade da misericórdia de Deus na terra dos homens. O seu serviço não é o de ameaçar ou punir, é o de nos chamarmos, uns aos outros, ao cumprimento da regra do amor, que conduz à visão de Deus. Pelo acolhimento na fé e pela esperança no amor misericordioso de Deus, pelo labor de lançar a ponte sobre esse abismo a que o diplomata e grande poeta francês Alexis Leger (conhecido como Saint-John Perse) assim se referia no discurso que proferiu quando lhe foi entregue o prémio Nobel, em 1960: O verdadeiro drama deste século está na distância que temos deixado crescer entre o homem temporal e o homem intemporal.

 

   E é certo:  a vocação, o risco e o compromisso da - chamemos-lhe assim - "aventura evangélica" de cada um não são sempre iguais, já São Paulo explicava bem como, no corpo da comunhão em Cristo, são muitas e diversas as funções, consoante os dons e o carisma, os serviços e as capacidades. E se a todos nos é pedido seguir Jesus na amoris laetitia, nem a todos é feita a mesma chamada a uma resposta absoluta, ou quase, que é renúncia a família e amigos, a bens e arbitrariedades... Por isso mesmo, a Igreja dos Apóstolos não exigia o celibato aos seus ministros, e o próprio São Paulo aconselhava a escolha dos bispos de entre homens casados e considerados bons pais de família. E o beato Bartolomeu dos Mártires, frade mendicante e dominicano (voluntariamente comprometido com os três votos: pobreza, castidade e obediência) enquanto arcebispo de Braga defendeu, no Concílio de Trento, que não se impusesse a obrigatoriedade do celibato aos padres católicos, pensando na dura vida dos seus párocos em serranias de Barroso.   

 

   A Igreja, hoje tão perplexa pelos escândalos de pedofilia no seu seio - sobretudo pelo envolvimento direto ou encobrimento dos mesmos por muitas das suas "Altas Patentes" (é minha a ironia da designação) - só tem todavia, como repetidamente disse, uma forma de tolerância zero para com os crimes cometidos: entregá-los ao poder judicial da sociedade civil, para que sejam julgados conformemente à lei comum. Aliás, tal gesto talvez inspire outros grupos sociais, confessionais ou laicos, todos, como a Igreja Católica, aí simplesmente cívicos, a diligenciarem o mesmo - pois sabemos bem quantos mais abusos de menores e sevícias sexuais, domésticas e não só, também fora da Igreja se vão cometendo... Esta deverá concentrar-se no exercício da misericórdia cristã para com todos os que, mesmo criminosos, para ela devem ser apenas pecadores. Evitando o disparate de pensar que, com absolvições e promessas de boas intenções se corrigem problemas deste gabarito. A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Lembra-te, Princesa de mim, da palavra de Jesus que bem distingue crime e pecado: quem consentiu no desejo ou vontade de o fazer, já cometeu pecado no seu coração. Aos olhos do deus cristão, o pecado não está nos factos, mas sim no mal que deixarmos habitar o nosso pensarsentir. Os feitos dos homens são certamente passíveis de chamadas de atenção e correção fraterna, sem prejuízo da sua ponderação pelo poder judicial civil, ou consideração pelas medicinas humanas. Mas a consciência, a casa do pecado, essa responde perante Deus, e a Igreja apenas deve abrir-lhe sempre a porta da conversão e reconciliação. A catalogação dos pecados, suas penitências e indulgências, até tem servido para que catecismos não tenham reparado que não se fala, por exemplo, de sexo, nas bem aventuranças, nem no Juízo Final. O que, neste, nos será perguntado é se acudimos e acolhemos quem precisava, que esperava. Revejam-se os catecismos e, já agora, debatam-se em sínodos mais participados questões como  a contracepção e o divórcio que, não sendo crime perante a lei civil, nem sempre serão pecado aos olhos justos de Deus... Para terminar esta carta - em que podia ter-te dito ainda muito mais - deixo-te um parágrafo dum artigo do teólogo americano Stanley Hauerwas, significativamente intitulado The Demands of a Truthful Story: Ethics and the Patoral Task , e publicado na revista Chicago Studies (nº21, 1982). Traduzo:

 

   A primeira tarefa da ética cristã implica uma tentativa de nos ajudar a ver. Porque apenas poderemos agir no mundo que pudermos ver, e só poderemos ver bem o mundo se formos treinados para ver. Não conseguiremos ver só a olhar, mas sim através de habilitações disciplinadas, que se desenvolvem pela iniciação a uma narrativa.

 

   O conceituado professor de teologia no King´s College, em Londres, Alister McGrath, diz (cf. Heresy, Society for Promoting Christian Knowledge, London, 2009) que aquele teólogo americano é um dos muitos escritores contemporâneos a enfatizar que tratar o Cristianismo simplesmente como uma colecção de doutrinas ou declarações de fé leva a uma grave distorção do seu carácter. Antes e mais, ele deve ser visto como diferente caminho de vida, tornado possível pela ação da graça do Espírito Santo, que orienta os seus fiéis para o Pai através de Jesus Cristo.

 

   Sobretudo em sociedades onde o clero se constitui em classe ordenada e "consagrada" pela segregação (com mais fundamentação canónica ou pseudoteológica do que evangélica), e é maioritariamente instruído pela aprendizagem de catecismos, mais do que por formação intelectual adequada a questões teológicas e pastorais, o clima necessário à meditação e reflexão entre a fé e o mundo parece ausente. E, todavia, o caminho da Igreja no mundo deve ser percorrido pela comunhão dos crentes, essa fé que interpela o mundo e deixa o mundo interpelá-la. 

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

PENSANTES E NÃO PENSANTES

 

Imersos numa crise sem precedentes da Igreja Católica, que está longe de terminar, retomo, na substância e com a devida vénia, um texto que escrevi para o livro “Portugal Católico. A beleza na diversidade”.

 

1. Quando cheguei à Universidade, admirava-me com o espanto de estudantes e até de professores por causa do meu pensar interrogativo no que se refere à religião. No entanto, I. Kant tinha razão ao escrever que a religião, apesar da sua majestade, não pode ficar imune à crítica. Só uma Igreja autocrítica e que acolhe a crítica da sua realidade tantas vezes tenebrosa pode criticar as infâmias do mundo.

 

Julgo que continua em Portugal a ideia de que o católico na Igreja está infectado por uma fé dogmática, imóvel e incapaz de pensamento aberto e crítico. A pergunta é: Quem assim pensa estará enganado? Infelizmente, parece-me que não. De facto, quando se pensa nas feridas deixadas pela Inquisição, que tolheu a abertura do pensar, e num clero frequentemente inculto, que se deixou ultrapassar pelo mundo moderno — ouça-se as homilias de grande parte dos padres, impreparadas, inúteis ou mesmo prejudiciais —, fica-se com a convicção de que a Igreja se imobilizou num mundo do dogma repetitivo de uma doutrina que já não é aliciante para a vida e que, pelo contrário, transformou o Evangelho, notícia boa e felicitante, em Disangelho, notícia infeliz e de desgraça, para utilizar a palavra de Nietzsche. Drama maior: a modernidade acabou por ter de impor à Igreja oficial o que é património e herança do Evangelho: os direitos humanos, a liberdade, a igualdade, a separação da Igreja e do Estado.

 

No entanto, a Primeira Carta de Pedro manda “dar a razão da fé e da esperança”. E é M. Heidegger que tinha razão, ao dizer que “o perguntar é a piedade do pensamento”. Job — está na Bíblia — atreveu-se a fazer perguntas de protesto a Deus e Deus louvou-o por isso. Jesus morreu a rezar, com uma pergunta que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?” E é preciso aceitar que há perguntas sem resposta ou para as quais o crente não tem resposta, como reconhece o Papa Francisco. 

 

O ser humano é constitutivamente o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, chega ao infinito, perguntando ao Infinito pelo Infinito, isto é, por Deus. É aqui que encontra fundamento a dignidade humana. Finitos e mortais, levamos connosco a capacidade de perguntar ao Infinito pelo Infinito e a sua existência, independentemente da resposta que se dê à pergunta. Isso significa que temos algo de infinito em nós, precisamente essa capacidade. Finitos, somos da ordem do infinito. Por isso, temos dignidade e somos fim e não meio, como é próprio do infinito: para lá do infinito não há mais nada. Lá está Ernst Bloch, o ateu religioso, na sua pedra tumular: “Denken heisst überschreiten” — “Pensar significa transcender”.

 

2. O Evangelho explicita os dois princípios que devem presidir à reforma que se impõe na Igreja, ao “definir” Deus como Agapê, Amor incondicional, e, logo no início do Evangelho segundo São João, ao dizer que no princípio era o Logos (Verbo, Palavra, Razão, Sentido), o Logos estava em Deus e o Logos era Deus e tudo foi criado pelo Logos. Os dois princípios que têm de animar os católicos, começando por aqueles a quem foi entregue a missão de presidir à Igreja, comunidade de comunidades espalhadas pelo mundo todo, são, portanto: o Amor, a Bondade, e a Razão, a Inteligência. A bondade sem inteligência não abre caminhos novos e pode causar imensos estragos irreparáveis; a inteligência sem a bondade pode tornar-se cruel e fazer um sem número de vítimas.

 

É neste fundo que se percebe claramente a urgência impreterível da renovação da teologia. O jesuíta Jorge Costadoat chamou a atenção para esta necessidade, ao constatar que talvez nunca como hoje, desde os inícios do cristianismo, a Igreja precise tanto de se pensar a si própria teologicamente no seu respectivo mundo. Uma tarefa gigantesca. De facto, o que acontece é que a teologia não tem ajudado a Igreja na sua entrada numa nova época, o que deriva também das sucessivas condenações de teólogos, de tal modo que a teologia que os ambientes eclesiásticos consideram a melhor é realmente “muitas vezes a pior”. Daí, o fosso entre a Igreja “oficial” e o mundo e mesmo o comum dos baptizados, a ponto de “não se saber exactamente quem tem real autoridade para orientar os outros”: o poder formal sabe-se quem o tem, mas o problema é a autoridade, inexistente, para orientar. “O que se constata é que a distância da Igreja em relação à cultura — a cultura predominante e as diversas culturas —, é crescente. A actual configuração histórica e cultural da Igreja não suporta tantas e tão aceleradas mudanças. Este foi já o diagnóstico do Concílio Vaticano II há 50 anos. Hoje, a tensão é muito maior”.

 

Uma coisa sabemos: primeiro, é a necessidade da conversão ao Deus de Jesus, ao amor e à misericórdia, que o Papa Francisco encarna. Esta é a direcção correcta e o rumo certo e necessário. “Mas, continua Costadoat, a caridade cristã acerta verdadeiramente quando exige e depende de uma articulação da fé e da razão. Uma caridade infantil e piedosa nunca deve ser menosprezada, mas também não deve ser mistificada. A caridade de que hoje precisamos requer ser pensada e reflectida em todos os planos da vida humana, e a nível político e planetário”. E isso exige uma teologia que não seja mera teologia de teologia, isto é, comentário de comentários, no quadro de uma ortodoxia empacotada e repetida ad nauseam de modo caduco, estéril e, por isso, prejudicial. Impõe-se a necessidade de uma teologia viva e que “tenha a coragem que tem o próprio Francisco de tentar e de equivocar-se”. A teologia com uma tarefa pendente tem de ser “teologia que se confronta com hipóteses e interpretações de uma realidade cada vez mais difícil de compreender; que se situe historicamente e pense a sua missão numa cultura em transformação variada, muitas vezes disparatada, e incessante. O que se requer é uma conversão teológica de 180 graus. A teologia ocupou-se da revelação de Deus no passado; a teologia de que agora se precisa deveria concentrar-se na fala de Cristo no presente. Sem uma teologia deste tipo, que atenda também à pluralidade cultural, a proposta evangelizadora está a naufragar”.

 

O Papa Francisco tem dado o exemplo. Não só não condenou teólogos como pede pensamento teológico novo na liberdade de pensar e de expressão, tendo ele próprio avançado com dois textos essenciais, que farão história: a Laudato si’ sobre a salvaguarda da criação, a humanidade no cosmos, e a Amoris laetitia, uma visão nova sobre a sexualidade, o casamento e a família.

 

3. A Igreja tem de dialogar com humildade e sem medo com as ciências, com todos, incluindo os agnósticos e os ateus. Diálogo, como diz a etimologia, é o logos comunicante, a razão comunicativa. Homem de diálogo, o cardeal jesuíta Carlo Martini, que dizia que a Igreja anda atrasada duzentos anos, criou em Milão a Cátedra dos Não-Crentes e, reportando-se a um pensamento de Norberto Bobbio, dizia: “o que me interessa é a diferença entre pensantes e não pensantes. Quero que todos vós sejais pensantes. Depois, escutarei as razões de quem crê e as de quem não crê”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 6 OUT 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Escreve Sylvie Courtine-Denamy em Trois femmes dans de sombres temps (Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil): Para Arendt, o perdão é um conceito com função importante: «Se não fôssemos perdoados, libertados das consequências do que fizemos, a nossa capacidade de agir seria como que encerrada num ato único do qual nunca mais nos poderíamos levantar; ficaríamos para sempre vítimas dessas consequências, tal como um aprendiz de feiticeiro que, à falta de fórmula mágica, não poderia quebrar o encanto». O perdão surge assim como libertação possível da irreversibilidade da ação, «quando não sabíamos, não podíamos saber o que fazíamos». É a Jesus de Nazaré que ela aqui se refere, a Ele ter sabido suster que o poder  de perdoar «não vem de Deus [...] mas deve, pelo contrário, trocar-se entre os homens que, só depois disso, poderão esperar ser também perdoados por Deus». As citações de Arendt aqui feitas por Courtine-Denamy são todas respigadas da versão francesa de "The Condition of Modern Man", publicada em 1961 e 1983, pela Calmann-Lévy (La Condition de homme moderne, tradução de G. Fradier, com prefácio de Paul Ricoeur). Mais adiante, observa: Por outras palavras, o perdão é libertador. Na verdade, só o amor pode perdoar, na medida em que «se desinteressa, a ponto de ser totalmente ausente do mundo, daquilo que possa ser a pessoa amada, das suas qualidades e dos seus defeitos, como dos seus êxitos, omissões ou transgressões». Eis porque é que o amor, sendo «estranho ao mundo» é, não só «a-político», mas «antipolítico». Temos, pois, de concluir que se Hannah Arendt muito perdoou a Heidegger, foi também por tê-lo amado muito. Está assim aqui resumido tudo o que, mutatis mutandis, eu te irei dizendo a seguir.

 

   Comove-me aquela evocação do dito de Jesus Cristo sobre a origem do poder de perdoar, que reside no coração das pessoas humanas quando estas se deixam habitar pelo amor de Deus que, no cristianismo, não pode existir marginalizado do amor dos outros, nossos próximos. Será que, cultivados por gerações sucessivas de "mestres"  (alguns deles lembrando a contrario o dito de Jesus : o mais pequeno entre todos vós, esse é o grande)  -  "mestres" esses mais inspirados pelo formalismo do rigor canónico, pelo resguardo da sua autoridade, ou pelo policiamento de adventícias "heresias", do que pela mensagem fulcral do cristianismo que é o mandamento do amor com toda a misericórdia de que ele é capaz  - , já não nos conseguimos libertar o infinito que desafia cada extensão do nosso coração, isto é, a primazia ética de saber "perdoar não apenas sete vezes, nem sete vezes sete, mas setenta e sete vezes sete"? O perdão não pode ostracizar, ele é, como tão bem nos conta a parábola do Filho Pródigo, cujo Pai sai ao seu encontro para lhe abençoar o regresso, acolhimento por excelência. Quando refletirmos sobre casos de divorciados recasados e muitos outros, é bom que o nosso pensarsentir seja, primeiro, acolhimento e reconciliação.  Quiçá essa reflexão também nos leve a reconsiderar a qualificação, como pecado, de divórcios e segundos casamentos. Até haverá casos em que sejam inevitáveis ou, mesmo, sejam a melhor solução para pais e crianças envolvidos. Parafraseando: "a instituição matrimonial é feita para o homem, não o homem para a instituição".  E, ao interrogarmo-nos sobre qualquer repúdio de homossexuais (que, ainda por cima, para quem esteja ao corrente das ciências de hoje, de modo algum podem ser considerados deficientes, diminuídos, psicopatas ou, menos ainda, pecadores por natureza), deveremos lembrar-nos do ser humano, nosso igual irmão em Cristo, e esquecer preconceitos culturais insustentáveis. E ninguém se esqueça de que nenhum de nós é juiz do outro, verdade que o Papa Francisco tem lembrado: Quem sou eu para julgar? Entristece-me muito deparar com tantas situações em que ministros ao serviço da Igreja de todos, se atêm à ideia de que o poder de perdoar lhes vem de Deus  -  que lhes entregou não só códigos ou regras definidoras dos pecados, como ainda tabelas de classificação destes e das respetivas penas aplicáveis, para que eles, e só eles, possam exercer, por delegação do Altíssimo Juiz, o poder de absolver ou condenar  -  e se esquecem de que perdoar, reconciliar, é o dever fundamental da nova lei de Cristo, de cumprimento a todos exigível, ao ponto de ser inaceitável uma oferta presente no altar, enquanto não me reconciliar com meu irmão. Na Igreja Apostólica, a confissão dos pecados e a determinação da pertinente penitência era comunitária, como ainda hoje se pratica nos capítulos das antigas ordens monásticas e religiosas. E o pecado que cada um anunciava ao perdão dos seus irmãos não era uma acusação escrupulosa, ou mais ou menos narcísica de um ato individual, mas a apresentação, à correção fraterna de cada igreja ou comunidade, de intenções consentidas, atos praticados ou omissos que, de um ou outro modo, pudessem ser ou tivessem sido atentatórios da caridade comunitária, isto é, da justiça como direito de todos e de cada um. Donde o lema: "Deus habita a caridade". 

 

   E porque o acolhimento é desígnio de Deus, a igreja não se fecha à chave [conclave, só cardeais para eleição do papa, o que diz muito sobre o clima de conspirações e intrigas, e as movimentações de influências que tiverem de ser controladas], mas é bom pastor aquele que deixa o rebanho no redil para ir lá longe buscar a ovelha transviada. Ou que, a exemplo de Jesus, acolhe La Traviata, a transviada. Conta-nos o Evangelho de Lucas (8, 36-50), em tradução de Frederico Lourenço:

 

   Convidou-o um dos fariseus para comer consigo e, entrando em casa do fariseu, tomou o seu lugar à mesa. E eis que certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. E colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; secava-os com os cabelos e beijava os pés dele e ungia-os com perfume.

 

   Vendo isto, o fariseu que o convidara disse para consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia quem e que tipo de mulher é esta que lhe está a tocar, porque é uma pecadora.»

 

   Então Jesus disse-lhe em resposta: «Simão, tenho uma coisa para te dizer.» Ele disse: «Fala, Mestre.»  «Dois devedores tinham um prestamista: um deles devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» Simão disse em resposta: «Aquele a quem perdoou mais dívida, creio eu.» Jesus disse-lhe: «Julgaste bem.» E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e secou-os com os seus cabelos. Não me deste um beijo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com azeite, e ela ungiu-me os pés com perfume. Por isso, digo-te que lhe estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele, a quem pouco se perdoa, pouco ama.» Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.»

 

   Começaram então os convivas a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa os pecados?» E Jesus disse à mulher:

«A tua fé te salvou. Vai em paz.»

 

   À atenção e ao cuidado de qualquer pecador e de qualquer "mestre", entre os muitos que todos nós somos, deixo a nota observadora do professor Frederico Lourenço: «estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama» -a formulação da frase em grego (hai hamartíai hai pollaí) sustém a interpretação de que foram perdoados todos os pecados da mulher. O amor, como circunstância mitigadora do pecado («porque muito amou») - faz pensar em I Pedro48: «acima de tudo mantende entre vós um amor intensoporque o amor cobre a multidão dos pecados. Curiosa é a ideia de que aqueles que têm poucos pecados por perdoar são pessoas que pouco amam. Nesta última frase, o tempo verbal é o presente; no caso do amor da pecadora, é o aoristo (égapêsen: amou pontualmente no passado); e no caso dos pecados perdoados, temos o perfeito, permitindo a tradução «os teus pecados foram e continuam perdoados», em virtude da força semântica do perfeito grego como resultado presente de uma ação passada.

 

   Esta afirmação de que «os teus pecados foram e continuam perdoados» parece apontar para um amor misericordioso sempre ativo e sem repouso, uma vocação à conversão que, como diria Hannah Arendt, nos liberta das consequências do que fizemos e restaura a nossa capacidade de agir. O repúdio da pena de morte fundamenta-se no respeito da vida até às suas próprias capacidades de renovação, a misericórdia do Deus dos vivos não se seca, não é juíza impositora de sentenças e penas, é, sempre e só, um apelo à metanoia... Escrevo-te a 21 de setembro, dia de festejar São Mateus, o cobrador de impostos e a sua pessoa nova que seguirá Jesus como seu apóstolo. E leio um passo do Evangelho do seu homónimo (nada, em verdade, nos permite identificar o apóstolo com o evangelista), trecho que está em Mateus, 9, 11-13:

 

   E os fariseus disseram aos discípulos dele: «Porque razão come o vosso mestre com cobradores de impostos e com pecadores?» Jesus, porém, ouviu e disse: «Os saudáveis não têm necessidade de um médico, mas sim os doentes. Mas ide e aprendei o que é isto: quero misericórdia e não sacrifício. Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores».

 

   Aqui chegada esta carta, sei que deixarei para outras o quase tudo que tenho ainda para te dizer. Porque, na verdade, não é fácil agir com justiça, nem superar a nossa perplexidade, sempre que nos deparamos com o dilema que contrapõe o rigor do juízo à misericórdia do pensarsentir. E bem sabemos que não há vida social possível sem ordenamento jurídico, nem direitos de todos e cada um sem justiça.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

TRÊS GRANDES FERIDAS CONTEMPORÂNEAS

 

Devo este título e alguma inspiração para esta crónica a J. M. Rodríguez Olaizola, no seu livro Bailar con la soledad, já aqui citado na semana passada. Quais são as três feridas?

 

1. A do amor. O que é que todos procuramos? A felicidade, e elemento constitutivo da felicidade é o amor, um amor sólido, estável e fiel. Mas isso hoje está como se sabe: na sociedade líquida, também o amor é líquido, para ir a Z. Bauman. Só para dar o exemplo do amor conjugal: Portugal é o país da Europa com mais divórcios, 70 por cento dos casamentos terminam em divórcio. Aí está G. Lipovetsky, em Da leveza: “Publicidade, proliferação de formas de empregar o tempo livre, animações, jogos, modas: todo o nosso mundo quotidiano vibra com cantos à distracção, aos prazeres do corpo e dos sentidos, à ligeireza de viver. Com o culto do bem-estar, da diversão, da felicidade aqui e agora, triunfa um ideal de vida ligeiro, hedonista e lúdico”.

 

Então, a contradição é esta: num tempo de incerteza, do zapping, do provisório, do usar e deitar fora até nas relações humanas, o amor sólido e fiel, inabalável, deveria ser a pedra angular da vida, e é isso que se procura idealmente, mas, ao mesmo tempo, pretende-se viver numa união sem compromisso, na abertura ao consumo do “poliamor”, numa liberdade à deriva, incapaz de sacrificar-se pelo que mais vale. E lá está outra vez Z. Bauman, em Amor líquido: “Automóveis, computadores ou telefones celulares em bom estado e que funcionam relativamente bem vão engrossar o monte de resíduos, com pouco ou nenhum escrúpulo, no momento em que ‘versões novas e melhoradas’ aparecem no mercado. Há alguma razão para que as relações de casal sejam uma excepção à regra?”.

 

Mas a liberdade sem vínculos e sem enraizamento é um fantasma. Byung-Chul Han, no seu livro admirável, O aroma do tempo, mostra-o, inclusive a partir do étimo, no alemão: a raiz indogermânica fri, donde derivam frei (livre), Friede (paz) e Freund (amigo), significa amar. “Assim, originariamente, ‘livre’ significava ‘pertencente aos amigos ou aos amantes’. Sentimo-nos livres numa relação de amor e amizade. O compromisso, e não a ausência dele, é que nos faz livres”.

 

Na falta de um amor comprometido e estável, é-se invadido pela desconfiança em relação a si próprio (o que é que eu valho e para quem e o que é que eu sou?) e pelo medo e a insegurança face ao futuro instável. E pela solidão, como bem viu o Sínodo sobre a Família: “Uma das maiores pobrezas da cultura actual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas e da fragilidade das relações”.

 

2. Na sociedade líquida, a morte é tabu, tabu que, retroactivamente, impulsiona a sociedade líquida, num reforço mútuo. Da morte, que viria desarranjar a lógica da euforia do consumo, do hedonismo e da leveza do viver, pura e simplesmente não se fala. Então, o essencial — o metafísico, a ética, a existência enquanto texto com sentido — cai inevitavelmente no esquecimento. De facto, sem a consciência do limite que a morte impõe, ficam apenas instantes que se dissolvem na fugacidade vazia do tempo. Afinal, é com a consciência da morte que se é convocado para o que verdadeiramente vale, como bem viu M. Heidegger: face à morte, aparece em todo o seu vigor a distinção entre a existência autêntica e a existência inautêntica, entre o que verdadeiramente vale e o que realmente não vale e a urgência de construir uma existência com significado para lá da voragem do tempo. Confessava-me recentemente um colega e amigo, que sofreu um AVC: “Anselmo, desde então tudo ficou com outra perspectiva, num outro horizonte, e tanta coisa por que me batia denodadamente passou a um plano secundário e há outras prioridades e outra força e intensidade no viver do essencial.” Sem perder a alegria funda do fulgor do milagre de existir. O pensamento sadio da morte atira-nos para a urgência de viver agora, a cada momento, na intensidade, sem adiar, porque é aqui e agora que se vive.

 

De repente, a sabedoria. Que confirmo também com uma experiência que no Natal de 2015 se quis fazer sobre percepções, prioridades e valores e de que Rodríguez Olaizola se faz eco. Foi-se perguntando a um conjunto de jovens madrilenos, um a um, que presentes pensavam dar nesse Natal a uma pessoa muito significativa (em princípio, seriam os pais). E as respostas surgiram alegres, com alguma originalidade. Depois de exporem as suas intenções, eram confrontados com outra pergunta: e se soubesses que é o último Natal que vais celebrar com essa pessoa?, se soubesses que ela vai morrer? Aí, de repente, ficaram perplexos, as palavras começaram a falhar e foram surgindo respostas com outro cuidado, emoção, intensidade. A perspectiva agora era outra e o horizonte do fim “enchia de profundidade o presente. E os presentes escolhidos nesse novo cenário ficaram carregados de sentido, significado e ternura”.

 

3. Face à morte, ergue-se, inevitavelmente, lá do mais fundo de nós, a pergunta pelo sentido, o sentido último. Porque, como disse recentemente, numa entrevista ao Expresso, conduzida por Luciana Leiderfarb, o famoso patologista Sobrinho Simões, depois de ter sofrido um AVC e perceber que, na existência, está na fase da descida, a sua grande experiência foi que “as explicações biológicas fazem sentido para muita coisa, mas não para explicar quem sou”. E a pergunta, in-finita, é: Para quê? “Para quê”.

 

Essa pergunta leva necessariamente consigo a pergunta por Deus. Mas hoje essa pergunta está obnubilada e a mim, mais do que o ateísmo, o que me preocupa é a indiferença, implicada, também ela, na sociedade líquida.

 

Aqui, encontramos Nietzsche. Matámos Deus ou constatamos que Deus morreu. Há um júbilo perante o “acto mais grandioso da História”, que foi essa morte. Mas, ao mesmo tempo, Nietzsche apercebe-se de que esse júbilo é atravessado por perguntas terríveis e trágicas: “Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos nós, quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima e um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?”

 

4. Deus desapareceu do nosso mundo? Não; Ele está presente pela sua ausência insuportável, que leva à total desorientação, como anunciam estas perguntas proféticas de Nietzsche. Num tempo em que, como se lê num verso do poeta galego Ramón Cabanillas, parece que avançamos “com o cadáver da esperança às costas”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 29 SET 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Ia-te dizendo que a eclesiologia ou tratado da Igreja começa a constituir-se como tal, e como disciplina autónoma, num período de lutas entre papado e monarcas. Congar observa, e bem, que já nos finais do século XIII e princípios do XIV se sente que um modo jurídico de discorrer vai invadindo largos sectores da teologia: Sentimo-lo até à evidência, quando passamos dos textos de São Tomás de Aquino ou São Boaventura, ambos mortos em 1274 (a caminho ou participando no Concílio de Lyon) aos textos de Henrique de Gand (morto em 1293), por exemplo, mas sobretudo aos de Guilherme de Ocam (morto em 1349/50). Achamos posições teológicas e conclusões menos determinadas por razões internas tiradas duma consideração contemplativa da natureza íntima das coisas, do que por autoridades puramente positivas, textos de decreto cujo valor mais ou menos coercivo se aprecia...

 

   ... O juridismo em teologia, em ética, em liturgia, etc., levanta a questão das condições mais positivas e mais estritas a que uma coisa possa ainda dar o nome, ser válida, satisfazer uma obrigação. [Quem se familiarizou com o método discursivo do Aquino, sabe bem a importância da distinção entre as coisas, conceitos e premissas para o progresso e a fecundidade do pensamento ou, dito doutra maneira, Princesa de mim, para se saber discorrer ou raciocinar. Mas, depois, a escolástica foi transformando esse espírito analítico num exercício de separação e dissociação, quantas vezes esvaziador de realidade]. Tal atitude dominou e prejudicou especialmente a liturgia. Favoreceu um velho instinto coisista e muito pouco espiritual, em virtude do qual as pessoas se interessam pelo rito, pela materialidade de uma prestação procurada, obrigatória, e não pela atitude pessoal profunda de quem, para além da satisfação de uma dívida, empenha o seu "coração": interessam-se pelas condições legais mínimas de validade, necessárias a estar em regra com a lei, pelo menos com a letra desta e com a autoridade, e não pelo sentido das coisas. [O escrito em itálico é sempre de Congar].

 

   Pessoalmente, com alguma frequência pensossinto que o irrealismo - com que a igreja clerical (em que incluo não só clérigos, e nem todos, mas muitos leigos igualmente imobilistas) considera circunstâncias e questões do nosso tempo  -  é fundamentalmente decorrente de um conceito de Igreja como instituição sociopolítica de direito divino, dotada de poderes jud jurisdicionais e judiciais sobre todos os aspetos da vida humana, tais poderes sendo exclusivamente atribuídos a, e por,  uma nomenclatura chamada "hierarquia". Coloca-se esta num plano diferente (superior), não só ao do comum dos mortais, mas ao da própria comunidade dos fiéis. Tal separação conduz ao seu desfasamento da realidade e, infelizmente e sobretudo, à degradação, e até rutura, do essencial entendimento - e diálogo dialético - no seio da comunhão cristã.

 

     Voltando ao início de uma minha carta anterior, aperto e espremo o trecho onde vem dito «tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja!». Palavra pronunciada na sequência de uma inaudita confissão de fé, como decorre do próprio texto do evangelho de Mateus (16, 13-20), na tradução portuguesa, diretamente do grego, do professor Frederico Lourenço:

 

   Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: «Quem dizem as pessoas ser o Filho da Humanidade?» Eles disseram: «Uns dizem João, o Batista; outros, Elias; outros, Jeremias, ou um dos profetas.» Diz-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que eu sou?» Simão Pedro, respondendo, disse: «Tu és o Cristo, o filho do Deus, do Vivo.» Jesus, respondendo, disse-lhe: «Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque carne e sangue não te revelaram ´isto´, mas sim o meu Pai, o que ´está´ nos céus. E eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha assembleia e os portões do Hades não terão poder sobre ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus e aquilo que ligares na terra terá sido ligado nos céus, e aquilo que desligares na terra terá sido desligado nos céus». Jesus recomendou então aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele é o Cristo. 

 

   Sempre meditei esta fortíssima bendição de Pedro como anúncio da renovação da fé no Pai Eterno, pelo reconhecimento e confissão da sua incarnação em Jesus Cristo. O que proclama o prólogo ou abertura do evangelho de João - No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. Este no princípio estava com Deus. Todas as coisas existiram por ação dele e sem ele nem uma só coisa existiu. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz - eis, precisamente, o que, segundo Mateus, Pedro responde a Jesus. E a fé de Pedro, pescador iletrado, é tão profunda, e tão profundamente clara, que não pode ter surgido do seu ser humano e carnal, mas apenas pelo próprio Deus revelada: a confissão de Pedro, como a profissão de fé de cada crente cristão e da assembleia ou reunião dos crentes que é a Igreja, proclama algo que existe nos céus desde o princípio dos tempos. O que Pedro diz, na sua resposta à pergunta de Jesus, liga o Verbo, o Cristo do Vivo, ao próprio Deus na sua realidade ontológica, que já assim era una nos céus. É evidentemente difícil, quiçá rigorosamente impossível - e sempre tentativo e ousado - procurar definir ontologicamente seja o que for: o próprio Deus, que é Ser absoluto, escapará sempre a qualquer definição.  Até dizemos, ao professar, no Credo, a nossa fé em Jesus Cristo - não só na pessoa humana e histórica que Deus quis ser, mas na pessoa divina e eterna que Ele é, desde o todo sempre - Deus de Deus, Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro... Deus é só de Deus, é já antes do princípio de tudo, é no vácuo, no meio de nada, a potência de tudo. Afinal, o início do Evangelho de São João remete-nos para o primeiro trecho da Bíblia (Génese 1, 1-3): No princípio Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra era vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, um vento de Deus revolvia-se sobre as águas. Deus disse: «Faça-se luz!"- e a luz fez-se.

 

   Não sendo eu tradutor nem exegeta de textos bíblicos, deixo ao teu dispor a transcrição de algumas notas do professor Frederico Lourenço, tradutor dos textos evangélicos reproduzidos nesta carta. Por ordem, as duas primeiras observações referem-se aos trechos do evangelho de Mateus, a terceira ao prólogo do de João. Todas respigadas do volume I (Os Quatro Evangelhos) da tradução da Bíblia publicada pela Quetzal (Lisboa, 2016):

 

   16,18 - «tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha assembleia»: Jesus não está a dar agora o nome de Pedro a Simão, pois já antes se dissera (4, 18) que Simão se chamava Pedro. Mateus é o único evangelista a empregar a palavra "ekklêsía" («assembleia»; mais tarde «igreja» - não esquecer que «igreja» como edifício de pedra e cal é uma realidade que não existe antes do século IV). Uma das dificuldades desta célebre passagem (lida, durante séculos, para legitimar a identidade do Papa romano como sucessor de Pedro e, por isso, único representante autorizado de Cristo na terra) centra-se no próprio anacronismo de "ekklêsía", palavra que muitos comentadores têm dificuldade em admitir que pudesse ter sido dita pelo Jesus histórico, uma vez que a ideia da existência de uma «assembleia» de cristãos pressupõe a morte e ressurreição de Jesus. Não é por acaso que, das mais de cem ocorrências de "ekklêsía" no NT, só encontramos três (Mateus 16,18 e duas vezes em Mateus, 18,17) fora do "corpus" constituído por Atos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse.

 

   16, 19 - «aquilo que ligares na terra terá sido ligado nos céus»: note-se aqui a utilização do futuro perfeito passivo (perifrástico: "éstai dedeménon"). Não é fácil determinar ao certo o sentido que Mateus pretende dar a esta construção verbal. «Aquilo que ligares na terra será aquilo que já foi ligado por Deus»? Ou tratar-se-á, antes, de sublinhar a simultaneidade do ato de ligar, que acontece ao mesmo tempo na terra e no céu? Um aspeto importante a ter em conta é o facto de «aquilo» corresponder ao pronome relativo neutro em grego: trata-se de ligar (e desligar) algo - não alguém.

 

   Prólogo - «No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. João inicia o seu Evangelho com uma das mais intraduzíveis afirmações alguma vez registadas por meio da palavra escrita: uma afirmação de fulminante arrojo assertivo, de sublime alcance teológico, carregada de múltiplos e complexos sentidos. A palavra-chave é "lógos", celebremente traduzida na Vulgata de São Jerónimo por "verbum" ("In principio erat verbum"), opção que condicionou desde então todos os que traduziram o quarto Evangelho para uma língua neolatina.

 

   Não entremos agora, Princesa de mim, pela esclarecedora explicação de Lourenço sobre o facto de que, embora inescapável (por falta de outra opção convincente em português) «verbo» não é uma tradução satisfatória... Já em cartas anteriores, falando-te deste magnífico prólogo que, desde uma infância de mim, sempre considero uma página luminosa da literatura universal, te repeti que o logos grego tanto é palavra significante de um raciocínio, como a própria razão deste, isto é, o ser. Mas está bem lembrado, pelo nosso erudito professor, um trecho de Goethe:

 

   Quem leu o Fausto de Goethe (vv.1224-1227) lembrar-se-á da cena em que o herói procura traduzir o início do Evangelho de João por «no princípio era a palavra» ("am Anfang war das Wort"), chegando de imediato à conclusão de que não faz sentido dar à palavra tão excelso estatuto. Na realidade, o que João diz ter existido «no princípio» não é só a razão na sua forma de pensamento já verbalizado, mas também a Razão em si mesma. Recorde-se que a própria palavra "lógos" já servira aos primeiros filósofos helénicos (e mais tarde aos estoicos) para designar a inteligência que preside ao universo. Um desses filósofos, também morador (como tradicionalmente se pensa de João Evangelista) de cidade de Éfeso, falou inclusive do "lógos" («segundo o qual todas as coisas acontecem») como sendo eterno (cf. Heraclito, fragmento 1). João dá ao termo "lógos" um novo sentido teológico, mais transcendente do que aquele que lhe é próprio no âmbito da filosofia grega. Deste "lógos" - desta Razão desde sempre «com Deus» que ao mesmo tempo é Deus - nos dirá o Evangelista que se tornou carne (1, 14) e tomou forma humana. É da Razão Divina encarnada em forma de homem - Jesus - e da sua passagem pelo mundo dos homens que trata, pois, este Evangelho.

 

   Se para aqui te trago, Princesa, todas esta considerações não será apenas pela meditação que, só em si mesmas, elas merecem. Mas porque pensossinto muito aquela resposta de Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus, do Vivo!». Só porque tal lhe foi revelado é que aquele humilde pescador galileu, sem instrução, certamente com enorme coração - no qual, todavia, até por qualquer engolida resignação ao seu estatuto social, haveria quiçá mais medos e silêncios do que ambições e protestos - perguntaria depois: «Para onde iremos, Senhor, se só tu tens palavras de vida eterna?». E deixaria a sua terra e o seu lago ou mar da Galileia, para apontar a Roma e ser crucificado. Desafiara um poder imperial, ele que não tivera nem brio nem coragem para reconhecer Jesus defronte de pobres serviçais judias... A confissão de fé de Simão Pedro, que acima registamos segundo o Evangelho de São Mateus, tem sido muito frequentemente destinada, na pregação do clero e no ensino usual da Igreja Católica para fundamentar a primazia de Pedro e a decorrente hierarquia clerical com todos os seus poderes de origem divina. À imagem e semelhança das monarquias imperiais. Muito menos se fala e proclama a extraordinária profissão de uma apocalíptica visão de Deus em Jesus Cristo! E, todavia, é esta fé tremenda que nos é revelada pelo próprio Deus, e não pela carne nem pelo sangue. Simão Pedro não teve uma aparição, uma alucinação, uma visão: Teve Quem, à sua frente, lhe perguntou: e tu, Quem dizes que eu sou?. E deu então uma resposta muito acima da sua própria capacidade, algo que antes não sabia mas ora ficara a saber, naquele momento de revelação. E é sobre essa rocha, essa fé substantiva da união ontológica de Deus, já ligada no céu, que assentará a verdade e a comunhão dos fiéis. Não, certamente que não, na instituição de jurisdições e poderes que pretendam impor e executar o que entendam ser mandamentos e desígnios divinos.

 

   Jesus Cristo não fundou "Igreja" alguma, no sentido institucional, isto é, como se constituíram estados nacionais, a ONU, a Companhia de Jesus ou o Sporting Clube de Portugal. As primeiras comunidades cristãs eram reuniões de fiéis que confessavam a união das naturezas humana e divina na pessoa de Jesus, celebravam a eucaristia, ação de graças, pela partilha do pão, sacramento do corpo morto e ressuscitado de Jesus Cristo, e do seu corpo místico. Assim, a eucaristia era, já ela própria, sacramento de reconciliação (antes de levares a tua oferta ao altar, reconcilia-te com teu irmão), memória do sacrifício redentor de Cristo e da sua ressurreição, celebração da sempre presença do Senhor na sua Igreja, comunhão fraterna. Pode até dizer-se que, nesse sentido, a Igreja é a eucaristia comungada, não há eucaristia sem Igreja. Nem Igreja de Cristo sem abertura aos seres humanos, a começar por todos nós pecadores, para que todos encontremos respostas à vocação universal de Deus.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

    Como prometido, vamos então descontraidamente procurar pistas que nos guiem num passeio histórico pelas institucionalizações humanas, mais ou menos ideológicas, "políticas", sempre canónicas, desse corpo místico cuja cabeça é Jesus Cristo, e é, no mundo, conhecido por assembleia ou Igreja dos seus fiéis ou batizados. Pelo Novo Testamento é esse povo, por Cristo, com Cristo e em Cristo, o único sacerdote.

 

   Para frei (e cardeal) Yves Congar, a Igreja inicial, ou dos Apóstolos, continua no período dos mártires (não esqueças, Princesa, que mártir quer dizer testemunha) até à paz constantiniana (1ª metade do século IV); segue-se-lhe o período dito "monástico", de que te falei em carta anterior, que mantém o princípio da autoridade episcopal como fator de união, em osmose com a comunidade dos cristãos e com carácter acentuadamente carismático ou espiritual. Período definido até ao século XI. Volto a citar-te São Cipriano (2ª metade do século III): Tenho por regra, desde o inicio do meu episcopado, nada decidir sem o vosso conselho (de padres e diáconos) e sem o sufrágio do povo, algo que fosse só da minha opinião pessoal... E traduzo o comentário de Yves Congar:

 

   De facto, todo o povo eclesial, e especialmente os leigos, intervinha na eleição dos bispos e na designação dos ministros, nos concílios aonde levavam informações, e, finalmente, na criação dos costumes pelos quais as próprias comunidades regulavam em grande parte as suas vidas. Contribuição tanto melhor acolhida quanto, apesar de bem estruturada canonicamente, a Igreja primitiva se queria dócil às intervenções do Espírito Santo. Ora, é do agrado de Deus dar a conhecer a sua vontade através do mais pequenos ou menos considerados...

 

   Pergunto-nos, Princesa de mim, se, na atual instituição clerical da Igreja Católica, não acabaremos por estar mais próximos da igreja senhorial, a da classe social chamada "primeiro estado" na nomenclatura sociopolítica medieval (clero, nobreza e povo, lembras-te?), do que da inicial Igreja dos Apóstolos, já que com tanta pujança se mantém o uso - pode dizer-se o costume, a consuetudo - das designações dos ministros dos fiéis (diáconos, presbíteros e epíscopos, sejam bispos ou arcebispos) como títulos honoríficos e até graus de uma carreira de honras clericais. Assim, continuam a ser nomeados bispos ou arcebispos de dioceses desaparecidas, clérigos nomeados para funções (que, por vezes, nem pastorais são) na cúria vaticana ou, até, junto a entidades estranhas à Igreja. Esquece-se que diácono, padre, bispo ou arcebispo não são patentes nem sequer graus hierárquicos, são designações de prestadores de serviços das comunidades eclesiais. Ou, dito de outra maneira: no povo de sacerdotes que são os batizados, escolhem-se ou elegem-se (como é, claramente, o caso do bispo de Roma ou papa) pessoas preparadas para o exercício de certas funções da palavra, do culto, dos sacramentos. O conceito - e a respetiva prática socio-eclesial - de uma classe de batizados de primeira (também erradamente chamados, a meu ver, consagrados) gerou a praga do clericalismo, que é sentimento de si e atitude de presumida superioridade de quem pensa deter e poder dispor do poder divino na terra, sobretudo o de absolver erros e pecados, declarar nulidades, ou mesmo ainda o de, no passado, se terem pregado e justificado guerras religiosas. Parece-me indispensável erradicar este mal clericalista... Por isso mesmo penso também que é verdadeiramente justa e digna de louvor a disposição da Igreja denunciar às legítimas instâncias judiciais civis os crimes cometidos pelos seus ministros.

 

   Vai-se alongando esta carta e ainda não cheguei a falar-te de parte do pensarsentir que me inspirou a escrevê-la. Ficará para a seguinte. Todavia, deixa-me dizer-te agora coisas que, creio eu, poderão ajudar a melhor entendermos o que a seguir vier. Sobretudo na medida em que for capaz de te pôr a adivinhar outro rosto de uma Igreja que, sendo mais fiel àquelas que os Apóstolos fundaram, seja também uma comunidade do nosso tempo, mais livre de tantos rebocos e pinturas que lhe foram fazendo, ao ponto de muitas vezes nos esquecermos da sua alma evangélica, para antes a encararmos como uma organização ideológica e jurídica de funcionários do sagrado  -  ou mesmo como um Estado transnacional, com sistema jurisdicional próprio e funcionalismo dispensador de passaportes para o paraíso...

 

   Recorro, uma vez mais, a Congar e ao seu Pour une Église servante et pauvre, livrinho que muitos consideram o "livro-programa do Papa Francisco". Refere-se a um artigo de Chateaubriand, publicado a 5 de Julho de 1824 e citado nas Mémoires d´outre-tombe, que diz assim (traduzo Chateaubriand): O tempo reduziu esta monarquia [a francesa] ao que ela tem de real : em política, já se ultrapassou a idade das ficções; já não se pode ter um governo de adoração, de culto e de mistério : cada qual conhece os seus direitos, nada é possível fora dos limites da razão, e até mesmo o favor, última ilusão das monarquias absolutas, é, como tudo o mais, pesado e apreciado nos dias de hoje. O teólogo e historiador dominicano transpõe assim a inspiração deste trecho:

 

   A sociedade moderna tende a construir-se sobre a razão, não sobre o sagrado. E pergunto se a Igreja operou a crítica correspondente, ou seja, a dessa parte de profano, de imperial, de feudal e de senhorial, que durante tanto tempo não só tolerou como buscou... Já não há Sacro Império, mas muitos títulos e insígnias, muitos cerimoniais ou ritos de visibilidade do seu prestigiado esplendor ficaram na Igreja... Não será já tempo, não haveria benefício nisso, de «sacudir a poeirada imperial que se foi depositando, desde Constantino, no trono de São Pedro?»

O dito é de João XXIII…

 

   Creio que nos será ainda útil respigar e traduzir mais uns trechos de frei Yves Congar, que nos ajudarão a melhor considerar certos aspetos ou facetas da Igreja que, sendo historicamente datados e circunstancialmente explicáveis, tendem muitas vezes a ser apresentados como traços essenciais da tal "Igreja fundada por Cristo"... Vou busca-los a um capítulo que aquele autor dominicano intitulou L’invasion du juridisme:

 

   Se interrogarmos os Padres [os Padres da Igreja, a Patrística] e a liturgia sobre o sentido que dão à Igreja, damos connosco num clima diferente do da eclesiologia moderna, pelo menos da que tem prevalecido nas escolas desde finais do século XVI ou quiçá começos do século XIV e a renovação atual [Vaticano II]. Essa eclesiologia das escolas mais não era do que a versão apologética de um tratado de direito público eclesiástico: só falava de poderes e direitos. Os Padres, a liturgia, falam de Igreja em termos de vida e comunidade espirituais, de Cidade santa, de combate espiritual do espírito contra a carne. Dela falam com os símbolos ou tipos dos patriarcas, de Rahab, a cortesã salva pela fita vermelha que põe à janela e pressagia a fé no sangue de Cristo, de Madalena, a impura que se torna pura, da Virgem Maria, mais feliz por ter acreditado do que por ter gerado Jesus Cristo... É que a Igreja deles é feita do conjunto dos homens que se convertem ao Evangelho. A sua eclesiologia inclui uma antropologia e os meios (sacramentos, regras de vida santa) pelos quais os homens podem viver na comunhão com Deus em Jesus Cristo.

 

... A alta Idade Média, e os grandes escolásticos, são ainda largamente tributários de tal perspetiva... Mas, pelo final do século XI, impõe-se a reforma gregoriana (de Gregório VII, papa): ... para operar a necessária conversão do clero, libertando-o do mal do nicolaísmo (incontinência) e sobretudo da simonia [transação comercial de bens religiosos] pela retirada da Igreja da sujeição a poderes laicos, reforçando a autoridade do papado e, consequentemente, a ação deste.

 

    Desta conjuntura surgirá necessariamente a procura e elaboração de um ordenamento jurídico da sociedade eclesial, donde o desenvolvimento do direito canónico cuja proeminência se revelará, por exemplo, no facto de que, após Alexandre III (papa de 1159 a 1181) e por dois séculos, quase todos os papas terem sido juristas, não apenas canonistas mas também doutores in utroque jure, isto é em direito romano e eclesiástico. Escreve frei Ivo:

 

   Esse desenvolvimento, essa ascensão do direito serviram sobretudo o papado nos conflitos com as potências seculares, conflitos esses que cobrem todos os «séculos de fé»: são os séculos da «cristandade», ou seja, esses em que, idealmente, os dois poderes são como os dois braços de um mesmo corpo, dois «ministérios» de uma única sociedade cristã...   ... É no contexto da luta do papa contra o imperador Henrique IV que se situa essa palavra de Gregório VII: «Ecclesia non est ancilla sed domina», "a Igreja não é serva mas senhora". Palavra que se deve entender em relação com o contexto histórico (tratava-se de sacudir a tutela, ou a dominação, da potência temporal), mas que não deixa de ser embaraçosa, por representar, materialmente, o contrário do princípio evangélico: non dominari sed ministrare, "não dominar mas servir".

 

   Aqui te ficam umas pistas para tua reflexão - como também orientam a minha: na verdade, é a todos nós, cristãos batizados, que compete essa abertura ao Espírito Santo para, em comunhão, irmos renovando a face da Igreja...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira