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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O PERDÃO E A GÉNESE DO RELIGIOSO


Pergunto-me a mim próprio se a maior revolução na história das religiões não está naquela ordem que Jesus, na continuidade dos profetas, essas figuras colossais da História, coloca na boca de Deus: “Ide aprender o que isto quer dizer: ‘Eu não quero sacrifícios, mas justiça e misericórdia’.”


Por princípio, nas diferentes religiões, uma das componentes essenciais é precisamente o sacrifício a oferecer à divindade. E degolam-se cordeiros, vitelos, bois, pombas, cabritos. Mesmo pessoas humanas foram sacrificadas. Quem não se lembra do terror de Isaac, o miúdo carregando com a lenha do sacrifício, desconhecendo que a vítima era ele próprio? Também por princípio, só os sacerdotes podem oferecer sacrifícios. Há quem afirme que no tempo de Jesus, serviam no Templo de Jerusalém uns 20.000 sacerdotes e levitas -- os levitas eram uma ordem inferior de clérigos, que ajudavam os sacerdotes em vários serviços, como apresentar os animais e a lenha para o altar. Embora hoje os historiadores estejam de acordo em reconhecer que é um número exagerado, Flávio Josefo escreveu que numa Páscoa em Jerusalém foram degolados 255.600 cordeiros. Atendendo ao sangue que corria no meio do calor, entende-se a expressão forte do profeta, quando faz Deus dizer que é um fedor que chega aos céus.


Jesus veio proclamar que Deus é bom, que está farto de sacrifícios, e foi mesmo o enfrentamento com o sacerdócio judaico uma das razões da sua crucifixão. Deus é amor. Se há definição para Deus, ela só pode consistir na acção de amar: Deus é aquele que ama. Deus está do lado da Humanidade. Deus criou não para a sua maior honra e glória, mas para a alegria e a realização plena dos homens, das mulheres, dos jovens, das crianças. Deus é Pai/Mãe e só quer a felicidade de todos. Deus não está irado com a Humanidade. Portanto, não precisa de ser aplacado com sacrifícios.


A revolução é, pois, esta: os homens e as mulheres não têm que ter medo de Deus. Ora, se não precisam de ter medo, são livres e não escravos. Então, libertos do medo, não metem medo. Porque não haja ilusões: quem tem medo mete medo. Deve-se ter medo de quem tem medo: por paradoxal que pareça, o medo desencadeia toda a forma de violência.


Que a rejeição dos sacrifícios por parte de Jesus constituiu uma revolução prova-se também pelo facto de, a partir de alusões já no Novo Testamento, se ter dado à própria morte de Jesus uma interpretação sacrificial: essa morte era a paga a Deus pela dívida contraída pela Humanidade com o pecado dos primeiros seres humanos. A ofensa cometida contra Deus era infinita, e, assim, a reparação também tinha de ser infinita. Por isso, Deus não poupou o próprio Filho: a sua morte sangrenta foi exigida para aplacar Deus na sua ira e assim Deus reconciliar-se com a Humanidade.


Foi deste modo que Deus-amor voltou a ser o Deus-Moloch sanguinário e bárbaro. Mas, se Deus é sádico e exige sangue, os homens podem fazer o mesmo -- e aí está a religião enquanto legitimadora de tanto sangue derramado e de tanta violência cometida, desde sempre. Aí está hoje uma invasão injusta com uma guerra hedionda, brutal, torturadora, que não poupa civis nem mulheres nem crianças, que atira cadáveres para valas comuns, que humilha a Onu, que não teme o perigo de uma guerra nuclear, com a ameaça do fim da própria Humanidade, e é uma invasão e uma guerra provocadas por quem se diz cristão, apoiado pelo seu líder religioso, contra cristãos…


O Deus que mete medo e apavora está ao serviço do poder: é fácil subordinar quem vive afogado em medo. Quanto poder religioso e político não foi beber no medo! Pregou-se o medo para poder subjugar e dominar homens e mulheres, povos inteiros. Se o medo for medo de Deus, já se está vencido.


Sim, Jesus sacrificou-se até à morte e morte de cruz, mas não foi Deus que exigiu a sua morte. Pelo contrário. Jesus, cuja é mensagem é que Deus é Amor, não desistiu, apesar de saber as consequências dela por palavras e obras, foi coerente até ao fim, morreu para dar testemunho da Verdade e do Amor, mandado crucificar pela coligação de interesses religioso-imperiais, postos em causa pelo Deus que Ele pregava. Morreu crucificado, para proclamar bem alto e para sempre que Deus não quer crucificados. Ser discípulo de Jesus quer dizer fazer como Ele fez e o que Ele fez: significa libertar os crucificados, os oprimidos, contribuir de todos os modos para a dignificação de todos.


No dia em que a mensagem de Jesus chegar à cabeça e ao coração e à acção dos seres humanos, já não haverá medo de Deus. O que então habitará no mais íntimo será a reconciliação consigo e com os outros, e a compaixão e a misericórdia, que é o que Deus quer. E até haverá a graça do perdão, para perdoar o imperdoável -- o perdão sem condições, que já não pertence à ordem do jurídico nem do político. Aí, no perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade de cálculo que cessa. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão, há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste 'desejo' ou deste 'pensamento' do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso."

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 de maio de 2022

A SANTA ESPERANÇA

  


Uma reflexão aprofundada sobre a esperança, deverá começar por aquela tendência para o futuro que caracteriza todo o ser vivo e mesmo toda a realidade cósmica, uma vez que está em evolução, de tal modo que já é e ainda não é adequadamente — por isso, está a caminho.


O cosmos desde a sua origem é em processo (do latim procedo, avançar, ir para diante). A realidade material tem carácter “prodeunte” (do verbo latino prodeo, avançar), para utilizar uma palavra do filósofo Pedro Laín Entralgo, que estou a seguir.


Trata-se de uma propriedade genérica que se vai fazendo proto-estruturação – passagem das partículas elementares às complexas --, molecularização – dos átomos às moléculas --, vitalização – das moléculas aos primeiros seres vivos --, vegetalização, animalização – aparecimento e desenvolvimento da vida quisitiva da zoosfera – e hominização – transformação da tendência geral para o futuro em futurição humana, tanto no indivíduo como na espécie humana e na história, desde o Homo habilis até ao presente. 


Nestes modos de existir na orientação do futuro, só quando se chega ao nível do ser vivo, que precisa de buscar para viver, é que se dirá que a tendência para o futuro se configura como espera, podendo chegar a ser esperança. Do nascimento à morte, entre a esperança e o temor, o animal vive permanentemente voltado para o futuro e orientando a sua espera na procura do que precisa para viver.


O animal e o Homem
esperam, mas, enquanto a espera animal é instintiva, no quadro dos instintos e  de estímulos, situada e fechada, a do Homem transcende os instintos, os estímulos e as situações, sendo, portanto, aberta, de tal modo que nunca se contenta com a realização de cada um dos projectos parciais em que a sua futurição constitutiva se concretiza.


Laín dá um exemplo. Numa “sala de espera” de uma estação de caminho de ferro, não me limito a aguardar a chegada do comboio que traz o meu amigo, pois, mesmo que não tenha consciência explícita disso, espero o que será a minha existência em todo o seu decurso posterior, para lá do reencontro. A espera humana está realmente aberta a possibilidades que transcendem a realização feliz ou frustrada de cada projecto.


Ora, tanto num caso como no outro, tanto na espera do concreto – aqui, a chegada do amigo – como, mesmo que não pense directamente nisso, na espera do que transcende o concreto e limitado – o que será de mim na minha vida depois da chegada do amigo --, são possíveis duas atitudes enquanto tonalidades afectivas: a confiança e a desconfiança.


Devido a uma multiplicidade de factores, do temperamento às circunstâncias biográficas de sorte ou desgraça, passando pela educação, estes dois estados de ânimo – confiança e desconfiança – “podem converter-se em hábito de segunda natureza: a esperança, quando é a confiança que domina, e a desesperança, quando prevalece a desconfiança”.


O Homem, como o animal, não pode não esperar: vive orientado para o futuro e esperando o que projecta, isto é, a consecução de metas e objectivos concretos e também, quer se dê conta disso quer não, o que permanentemente transcende a obtenção dos seus projectos. A esperança tem, pois, dois modos complementares: a esperança do concreto (o hábito de confiar que os projectos parciais se irão realizando bem) e a esperança do fundamental (o hábito de confiar – a confiança não é certeza – em que a realização da existência pessoal será boa).


Esta esperança do fundamental é a “esperança genuína”, que assume dois modos, que não se excluem: a esperança terrena e histórica e a esperança meta-terrena e trans-histórica. Esta é própria dos crentes numa religião que afirma confiadamente a vida para lá da morte em Deus.


Aí encontrará o Homem finalmente, como viu Santo Agostinho, aquela plenitude por que aspira na tensão constitutiva entre a sua radical finitude e a ânsia de Infinito: “o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti, ó Deus”. “Santa esperança”, dizia Péguy.


O ser humano é constitutivamente esperante. Porque é que os seres humanos, apesar de todos os fracassos, horrores, sofrimentos e cinismos, ainda não desistiram de lutar e de esperar? Porque é que continuamos a ter filhos? Porque é que, depois de terramotos devoradores e de guerras destruidoras, recomeçamos sempre de novo? Perguntava, com razão, o célebre teólogo Johann Baptist Metz: “Porque é que recomeçamos sempre de novo, apesar de todas as lembranças que temos do fracasso e das seduções enganadoras das nossas esperanças? Porque é que sonhamos sempre de novo com uma felicidade futura da liberdade?”, embora saibamos que os mortos não participarão nela? Porque é que não renunciamos à luta pelo Homem novo? Porque é que o Homem se levanta sempre de novo, “numa rebelião impotente”, contra o sofrimento que não pode ser sanado? “Porque é que o Homem institui sempre de novo novas medidas de justiça universal, apesar de saber que a morte as desautoriza outra vez” e que já na geração seguinte de novo a maioria não participará nelas? Donde é que vem ao Homem “o seu poder de resistência contra a apatia e o desespero? Porque é que o Homem se recusa a pactuar com o absurdo, presente na experiência de todo o sofrimento não reparado? Donde é que vem a força da revolta, da rebelião?”


Neste movimento incontível, ilimitado, do combate da esperança, pode ver-se um aceno do Infinito, um sinal de Deus. Como não se cansava de repetir o ateu Ernst Bloch: “Onde há esperança, há religião.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 07 de maio de 2022

CONTRA A GUERRA. A CORAGEM DE CONSTRUIR A PAZ

  

 

A quem é que, perante as imagens de horror desta guerra na Ucrânia ditada por um megalómeno humilhado e insensato — mortes incontáveis, a tragédia de valas comuns, milhões de deslocados e refugiados, mulheres, crianças, idosos em total desamparo, na falta de tudo, quando nada é poupado à destruição: maternidades, escolas, hospitais —, não vieram já as lágrimas aos olhos?  


O Papa Francisco não se cansa de clamar contra a guerra e apelar à paz: “Em nome de Deus peço-vos : parem este massacre!” “Um massacre sem sentido” e de “uma crueldade inumana e blasfema”. Por ocasião da celebração da Páscoa ortodoxa, no fim de semana passado, ele, a ONU, o Conselho Mundial das Igrejas apelaram a um cessar-fogo, também para abrir a possibilidade de corredores humanitários, mas não foram ouvidos. Quero sublinhar que, atendendo às celebrações pascais, o arcebispo de Munique, cardeal Reinhard Marx, foi particularmente duro na saudação pascal. Chamou “perversos” aos líderes religiosos que, como o Patriarca de Moscovo, Kirill, apoiam a guerra na Ucrânia, lamentou que ao longo da História “os cristãos tenham usado a violência sob o sinal da cruz”, algo que se repete hoje “na guerra actual, com cristãos baptizados a matar outros cristãos e receebendo o apoio de líderes das suas Igrejas”. A Igreja “deve erguer-se como um lugar de não violência, e a cruz como sinal da violência sofrida e superada.” Chamou “ditador” a Putin: “a Páscoa é a rebelião de Deus contra todas as forças da violência e da morte. A vitória da vida sobre a morte não pode ser detida, nem sequer com as armas de Putin e outros ditadores”.


Francisco confessa numa entrevista a “La Nación” que “está disposto a fazer tudo para deter a guerra — o Vaticano nunca descansa” — e acaba de publicar um livro precisamente com o título Contra a guerra. A coragem de construir a paz. Ficam aí algumas ideias fundamentais, a partir de Religión Digital.


Começa por lembrar como há um ano, na sua peregrinação ao martirizado Iraque, pôde constatar directamente o desastre causado pela guerra, a violência fratricida, o terrorismo, viu os escombros dos edifícios e as feridas dos corações. Também viu sementes de esperança. E “nunca teria imaginado que um ano depois rebentaria um conflito na Europa.”


Referi aqui muitas vezes que desde o início do seu pontificado Francisco falou da Terceira Guerra Mundial em curso, mas “aos pedaços, por partes”. O que é facto é que essas partes se foram tornando cada vez maiores e ligando-se entre si. Neste momento há muitas guerras espalhadas pelo mundo, que causam “imensa dor, vítimas inocentes, especialmente crianças”, milhões de pessoas obrigadas a deixar a sua terra, as suas casas, as suas cidades destruídas. Mas essas guerras esquecemo-las, pois andamos distraídos e elas passam-se longe. “Até que, de repente, a guerra rebentou perto de nós. A Ucrânia foi atacada e invadida. E, no conflito, os mais atingidos são, desgraçadamente, muitos civis inocentes, muitas mulheres, muitas crianças e muitos idosos”, obrigados a viver em bunkers para proteger-se das bombas ou com as famílias separadas, pois, enquanto as mães e as avós atravessam fronteiras à procura de refúgio, os maridos, pais e avós ficam para combater.


Perante as imagens terríveis de horror que nos chegam todos os dias, “não podemos fazer outra coisa que não seja gritar: ‘Parem!’ A guerra não é a solução, a guerra é uma loucura, a guerra é um monstro, a guerra é um cancro que se autoalimenta devorando tudo. Mais: a guerra é um sacrilégio, que causa estragos no mais precioso que há sobre a terra: a vida humana, a inocência dos mais pequenos, a beleza da criação.” “Sim, a guerra é um sacrilégio”.


Pela enésima vez estamos perante a barbárie, porque perdemos a memória: esquecemos a História, esquecemos o que nos disseram os nossos avós, os nossos pais. “Se tivéssemos memória, não gastaríamos dezenas, centenas de milhares de milhões para nos equiparmos com armamentos cada vez mais sofisticados, para aumentar o mercado e o tráfico de armas que acabam por matar crianças, mulheres, anciãos. 1981 mil milhões de dólares por ano, segundo os cálculos  de um importante centro de investigação de Estocolmo.”


Se tivéssemos memória, “saberíamos que a guerra, antes de chegar à frente de combate, tem de ser parada nos corações. É necessário o diálogo, a negociação, a escuta, a habilidade e criatividade diplomática, uma política com visão de futuro capaz de construir um novo sistema de convivência que já não se baseie nas armas, no poder das armas, na dissuasão.” Toda a guerra “representa não só uma derrota da política, mas também uma vergonhosa rendição perante as forças do mal.”


Acrescenta: em 2019, em Hiroshima, “cidade símbolo da Segunda Guerra Mundial, cujos habitantes foram massacrados, com os de Nagasaki, pelas bombas nucleares, reafirmei que o uso da energia atómica com fins bélicos é, hoje mais do que nunca, um crime. O uso da energia atómica com fins bélicos é imoral, como o é a posse de armas atómicas. Quem podia imaginar que menos de três anos depois, o espectro da guerra nuclear pairaria sobre a Europa? Assim, passo a passo, avançamos para a catástrofe. Pouco a pouco, o mundo corre o risco de transformar-se no cenário de uma única Terceira Guerra Mundial. Avançamos para ela como se fosse inelutável. Pelo contrário, devemos, todos juntos, repetir, com força: ‘Não, não é inelutável’. A guerra não é inelutável!”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 30 de abril de 2022

FRANCISCO: HÁ NOVE ANOS PAPA

  

 

1. Fez no passado dia 13 nove anos que Francisco foi eleito Papa. Apresentou-se de modo simples na varanda de São Pedro à multidão, sem esplendor, apenas com a batina branca e uns sapatos toscos. E logo na saudação à multidão ficou claro ao que vinha: “Agora iniciamos este caminho, Bispo e povo..., um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade. Espero que este caminho de Igreja seja frutuoso para a evangelização. E agora quero dar a bênção, mas antes... peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim. Façamos em silêncio esta oração vossa por mim...”


Escolheu o nome de Francisco, o que nenhum Papa anterior tinha feito. Em ligação com São Francisco de Assis, o da simplicidade, da fraternidade universal, da paz, do vínculo com a Terra, do que tinha ouvido Cristo dizer-lhe: “Repara a minha Igreja em ruina...” Não foi viver para o Palácio Apostólico mas para a Casa de Santa Marta, utiliza um carro modesto, e é cristão — eu disse-o na televisão, logo quando foi eleito, causando imenso espanto e até perplexidade; mas, pensando bem, não é essa a causa de ele se ter imposto ao mundo como uma voz político-moral global, talvez a mais influente? Como cristão, bate-se pela paz, é simples, está com todos, a começar por aqueles e aquelas com quem ninguém está, é profundamente humano, o Deus que anuncia é o do Evangelho: o seu nome é Misericórdia...


2. Nas reuniões prévias ao conclave no qual foi eleito, tomou mais consciência da crise que a Igreja está a atravessar e de como era urgente uma reforma, para acabar com o longo inverno no qual mergulhara... Evidentemente, a reforma tem de ir ao interior e começar por cada católico/católica, com destaque para os padres, cónegos, bispos, cardeais, perguntando cada um, cada uma a si mesmo, a si mesma: Estou na Igreja porquê? Apenas por tradição? Por rotina? Ou porque a mensagem do Evangelho me interessa de modo vital? Ela é boa para mim? Para mim? Só com a resposta positiva a esta pergunta se poderá avançar para a reforma da Igreja enquanto instituição. Mas, por outro lado, também é certo que há  reversibilidade: a reforma da instituição ajudará na resposta pessoal de cada um, de cada uma.


Assim, acompanhado por um pequeno grupo de cardeais, ao longo destes nove anos, Francisco empenhou-se profundamente nesta reforma, que implica — ponto essencial —, a reforma da Cúria, apesar  de ter consciência de que “é mais difícil reformar a Cúria do que limpar a esfinge do Egipto com uma escova de dentes”. E, inopinadamente, sem fugas de informação, no passado dia 19, no nono aniversário do início solene do seu pontificado, Francisco promulgou a “Constituição Apostólica “Praedicate Evangelium” sobre a Cúria Romana e o seu serviço à Igreja no Mundo”, que entra em vigor no próximo dia 5 de Junho, dia do Pentecostes.


No título, “Praedicate Evangelium”, está o núcleo: “Pregai o Evangelho”. De facto, para que serve a Igreja senão para anunciar por palavras e obras o Evangelho, a notícia boa e felicitante de Jesus, a cada pessoa e à Humanidade inteira? Assim começa a Constituição: “Esta é a missão que o Senhor Jesus confiou aos seus discípulos. Este mandato constitui o primeiro serviço que a Igreja pode prestar a cada pessoa e a toda a Humanidade no mundo de hoje. A isto foi chamada.” 


O núcleo é a evangelização, e aí está uma Cúria humanizada, desclericalizada, numa Igreja em saída, não autorreferencial, sinodal, povo de Deus, ao serviço... Francisco põe em marcha “a revolução da primavera na Igreja”, como José Manuel Vidal, director de Religión Digital, gosta de lhe chamar.


Com 250 artigos, o texto é longo. Ficam aí apenas algumas notas, com a promessa de que voltarei ao tema. 1. “As pessoas que servem na Cúria são escolhidas entre os bispos, os padres, os diáconos, os membros dos Institutos de vida consagrada e das Sociedades de vida apostólica e os leigos que se distinguem pela sua vida espiritual, a sua boa experiência pastoral”. Mais: os membros da Cúria devem ser exemplares quanto à “sua sobriedade de vida e o seu amor aos pobres, o seu espírito de comunhão e de serviço, a sua competência nos assuntos que lhes são confiados e a sua capacidade de discernir os sinais dos tempos.” 2. Para cercear o “carreirismo eclesiástico”, os membros da Cúria vêem o seu tempo de serviço limitado a 5 anos, excepcionalmente renovado por mais cinco. 3. Como sublinhou o cardeal O’Malley, “pela primeira vez o Papa fez da protecção dos menores uma parte central do governo da Igreja.” De facto, o artigo 78 da Constituição estabelece que, no Dicastério (na linguagem corrente, um Dicastério é um Ministério) para a Doutrina da Fé, “institui-se a Comissão Pontifícia para a Protecção dos Menores, que tem como missão assessorar e aconselhar o Papa  e propor as iniciativas mais oportunas para a protecção dos menores e das pessoas vulneráveis.” 5. Agora, todos os fiéis poderão exercer um poder de governo na Cúria: os leigos, homens e mulheres, poderão ser chamados a presidir a um Dicastério ou outro Organismo. Para dar um exemplo, o próximo Secretário de Estado poderá ser uma mulher. As nomeações são decididas pelo Papa em função da “competência, do poder de governança e da função” da pessoa escolhida. 6. Há um Dicastério (Minitério) da caridade, para ir ao encontro da dor em todo o mundo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 26 de março de 2022

AS TENTAÇÕES DO PODER E A TRAGÉDIA

  


Perante os horrores que estamos a viver, escrever o quê? O meu desejo era tão-só pôr como título: Ucrânia: o horror. Depois, pedir para colocarem na página em branco a imagem de uma cruz e, no fundo à direita, duas palavras: Lágrimas e solidariedade. E era tudo.


Mas estamos na Quaresma e, no Domingo passado, o Evangelho narrava as três tentações de Jesus, tentações que, lá no fundo, não são senão uma só: a tentação do poder total enquanto domínio: o poder económico — o diabo disse a Jesus: “diz a estas pedras que se transformem em pão” —, o poder religioso — levou-o ao pináculo do Templo e disse-lhe: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, os anjos levar-te-ão nas suas mãos” —, o poder total — “o diabo mostrou-lhe todos os reinos do universo: Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória; se te prostrares diante de mim, tudo será teu.”


Jesus não cedeu. Mas, quando se cede, caindo na tentação do domínio total, da omnipotência, julgando ser Deus, então é o que se sabe, ao percorrer a História: horrores, tragédias sem fim, a brutalidade pura, reinos destruídos, impérios que se desmoronam, ódio, sofrimento e dor sem nome e sem fim...  Lembrando apenas o século XX na Europa: várias guerras, com duas mundiais, custaram quantos mortos? E agora, quando pensávamos ter encontrado a paz, eis que, num desígnio imperial, Vladimir Putin, ignorando o Direito Internacional, a dignidade da pessoa, os direitos humanos, invade um país independente e soberano, a Ucrânia. E aí está outra vez a guerra, e as atrocidades sucedem-se, bombardeamentos indiscriminados, milhões de deslocados, feridos, mortos, edifícios arrasados, idosos, mulheres, crianças a fugir desesperados à morte, num calvário arrepiante, pungente. O intolerável que, no limite da loucura de uma guerra nuclear, poderia arrastar para o auto-aniquilamento da Humanidade...


Mesmo se a União Europeia e a NATO não souberam gerir da melhor maneira o pós-queda do Muro de Berlim e o desmembramento da URSS — não se deverá esquecer a ideia de De Gaulle sobre uma Europa “do Atlântico aos Urais” nem o discurso do Papa João Paulo II sobre  o Ocidente e o Oriente como “os dois pulmões” da Igreja e da Europa —, isso não justifica de modo nenhum a invasão. Aliás, felizmente, como que anunciando o despertar para uma nova Europa, nunca a Europa esteve tão unida como nesta condenação e, também na Assembleia geral da ONU, 141 Estados votaram a favor da resolução condenando a invasão; apenas 5 votaram contra. Putin sentir-se-á isolado como nunca, já com um lugar na história dos tiranos, e a solidariedade com os ucranianos é gigantesca e cordial.


Nesta solidariedade e procura da paz mediante negociações diplomáticas, o Papa Francisco tem sido incansável. Logo nos primeiros dias da guerra, encontrou-se com o embaixador russo no Vaticano, telefonou ao embaixador da Ucrânia, manifestando a sua “profunda dor” pela invasão, e falou com o presidente ucraniano Zelensky.


Entretanto, enviou à Ucrânia dois cardeais: Krajewski, o esmoleiro, e Czerny, prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, como mensageiros da paz. No Domingo passado, foi claro: “Na Ucrânia,  correm rios de sangue e de lágrimas. Não se trata de uma operação militar, mas de guerra, que semeia morte, destruição e miséria.” Lembrando as tentações, sublinhou que elas são “uma proposta sedutora mas que conduz à escravidão do coração: cegam-nos com a ânsia do ter, reduzem tudo à posse de coisas, de poder  e de fama. Jesus, porém, opõe-se vitoriosamente à atracção do mal. Como? Respondendo às tentações com a Palavra de Deus, que diz que a verdadeira felicidade e a liberdade não estão no ter, mas na partilha, não no aproveitamento dos outros, mas no amor, não na obsessão pelo poder, mas na alegria do serviço.” E, mais uma vez, declarou: “A Santa Sé está disposta a tudo, a pôr-se a caminho pela paz.” Numa conversa telefónica entre o Secretário de Estado do Vaticano e o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa, o cardeal Parolin repetiu a Lavrov o apelo de Francisco e a disposição da Santa Sé para todo o tipo de mediação  considerado útil para fomentar a paz: “Os combates têm de cessar, impõe-se abrir corredores humanitários, negociar.”


O grande objectivo de Francisco é poder entrar em contacto, pelo menos telefónico, com Vladimir Putin. Para isso, precisaria da mediação do Patriarca ortodoxo de Moscovo, Kirill, que, desgraçadamente, se tem colocado ao lado de Putin.


Termino com parte da letra de uma canção, enviada por um amigo, intitulada: “Senhor Putin”.


“Sr. Putin, permita que lhe pergunte: afinal, quem é? Nasceu de pai e mãe? Tem coração que bate? Pensa? Sente? Já alguma vez sofreu? Já chorou? Como é possível sob o seu comando tanta gente perder a vida, perder a paz, ter de abandonar as suas casas, fugir das armas e tanques de guerra, tudo sob o seu comando? Como pode ver crianças a sofrer, a chorar assustadas, crianças mortas? Crianças a nascer em bunkers, mulheres a ver os seus maridos e filhos a morrer? Quem é afinal, Sr. Putin? Pense... Alguém lá acima, mas muito acima..., Esse, sim, a quem todo o poder pertence, Ele fará justiça e o Sr. Putin irá então encontrar-se consigo mesmo, dando conta da sua pequenez, ignorância, insignificância, frieza, crueldade e materialismo. A vida aqui tem um tempo limitado. Abra os olhos. Pare,  Sr. Putin, pois esta guerra não é dos russos, é do Sr. Putin. Deus, sim, Ele é o Senhor de tudo.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 de março de 2022

PALAVRAS PARA MIM. 2

  

 

Continuo com palavras que ao longo da vida me foram dirigidas e me marcaram positivamente.

Do teólogo Andrés Torres Queiruga. Para o crente, é a própria realidade, comum a todos, que, mediante certas características, como a contingência radical, a consciência da finitude, concretamente frente à morte e ao impulso radical  para transcendê-la, a exigência de Sentido último, se mostra implicando uma Presença como seu Fundamento primeiro e Sentido último. Assim, na estrutura íntima do processo religioso, “não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum.”

Do filósofo Miguel Baptista Pereira. “Na leccionação da Antropologia Filosófica, nunca se esqueça da centralidade do homo dolens (o Homem sofredor)”.

Do sociólogo e político Jean Ziegler. “Actualmente, há o tabu da morte. Não se fala dela. Chamamos aos nossos mortos os defuntos (de-functi: os que deixaram de funcionar). Ora, o que dá à vida a sua individualidade, a sua especificidade irredutível é a consciência clara da finitude. Se não fôssemos mortais, o tempo que passa  não teria esse valor extraordinário, único, e não poderíamos construir um destino individual, uma biografia, uma história. É a morte que funda a liberdade,  uma história individual, é a morte que faz que você seja você e eu seja eu e que cada instante que passa só nos pertença a nós de modo totalmente específico, único”.

Do historiador Philippe Ariès. Ficou conhecido também pela sua história das atitudes face à morte — a do nosso tempo é o tabu. À minha pergunta sobre se acreditava na imortalidade, respondeu: “Sim, sem dúvida nenhuma. Aliás, nisso, não há nada de original, pois todos os homens acreditaram sempre que haveria qualquer coisa após a morte. A ideia de que com a morte acaba tudo é completamente recente.”. Como desejaria morrer? Ele: “É provável que não tenha a escolha. Mas gostaria de morrer como morreram os meus antepassados, os meus avós, que morreram como se morria outrora, dizendo adeus, pondo em ordem os assuntos do aquém e os da alma.”

De uma médica. “Sabe? Sou crente e gostava muito, muito, de poder comungar. Mas, em criança, falaram-me de tal modo da presença real de Jesus na Eucaristia, do corpo, da carne, do sangue, que ainda hoje se me revolta o estômago.”

Do filósofo Ernst Bloch. “O cristianismo em grande parte venceu graças à proclamação de Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’.” ”É melhor desaparecer completamente do que ir para o inferno. Eu espanto-me como é que na Idade Média podiam acreditar na vida após a morte sabendo que era certa a alternativa: o purgatório era quase certo e o inferno muito provável. Seria melhor o nada ao inferno E todos no inferno estariam de acordo comigo. E também os do purgatório, que não passa de um inferno temporário.”

Do padre e psicanalista Marc Oraison. “É-me radicalmente impossível conceber-me como não sendo.” “Eu creio que, para se ser verdadeiramente crente, para se ter verdadeiramente acesso à fé, é preciso começar por ser ‘ateu’, isto é, é preciso destruir todas as representações imaginárias, todas as falsas imagens de Deus. Isto não impede, pelo contrário, vai desembocar na questão do mistério. A questão do mistério persiste. Portanto, poder-se-ia dizer que a démarche psicanalítica destrói todas as imagens de Deus, porque são construções humanas. Há uma frase de Lacan que me fez reflectir: ‘Os teólogos não crêem em Deus, pois falam dele”. “Cristo e a fé em Cristo o que fazem essencialmente é libertar-nos da contradição do tempo. A normalidade é poder amar. Ora, o amor está continuamente ameaçado pela morte. O nosso esforço de amor termina sempre num fracasso no tempo. É a fé que nos dá a certeza de que o amor, apesar de tudo, termina na realização e na plenitude. Eu tenho necessidade desse sentido. É uma realização e não uma compensação. É o Sentido último. E trata-se de uma plenitude do que faço e no que faço.” “Eu sou padre por causa da morte e por causa da vida. Sou padre para pôr no tempo a superação do tempo e da morte: a Ressurreição.” “O celibato pode ter um sentido, mas enquanto obrigatório não pode ser, é idiota.”

Do teólogo Kans Küng. “Quando na Sagrada Escritura se fala de Deus (em grego, hó Theós, o Deus pura e simplesmente), pensa-se sempre no Pai. Cristo é designado como o Filho de Deus. Filho de Deus é a expressão correcta para ele.” “Face à morte, há uma alternativa: Tudo vai parar ao nada ou o Homem, em vez de morrer para o nada, morre para a Realidade última, que é também a Realidade primeiríssima? A minha resposta é uma confiança radical racional em Deus, Fundamento e Sentido último. Eu confio e e é na medida em que me confio que vejo que se trata de uma resposta plena de sentido e que a vida tem sentido.”

De muitas pessoas. Quando, por causa da pandemia, fiquei em isolamento, várias pessoas souberam e escreveram-me ou telefonaram a desejar melhoras. Sobretudo, a perguntar: “Precisa(s) de alguma coisa? Já sabe: se precisar, diga. Estou (estamos aqui). É com gosto”. E eu senti verdadeiramente que a amizade está nesta pergunta: “Precisa(s) de alguma coisa?”. Pergunta central também para o cristão: “Precisa de alguma coisa? De ordem material, de ordem espiritual?” E responder com o coração e com actos.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 de março de 2022

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR...

  


Quando por razões ideológicas, se negou a referência ao Cristianismo num projeto de Constituição Europeia, recusaram-se as raízes e cometeu-se um quase-crime de lesa história. Foi algo de mesquinho, na medida em que não se negou apenas a afirmação de uma realidade, mas teimou-se em não a compreender que o Cristianismo é culturalmente multirradical. Também se disse que o nosso reconhecimento nos abre ao conhecimento dos outros. Aliás, um dos obstáculos sérios, por exemplo, ao diálogo islâmico-cristão está no facto de ninguém perceber com clareza quais são os nossos valores, aqueles que deveriam estar na mão que a Cristandade deveria estender ao Islão. Poderá parecer paradoxo, mas é a perceção desapaixonada e serena da nossa identidade, a consciência perspetiva, no tempo e no modo, dos nossos valores, que nos aproxima dos outros e nos permitirá racionalmente interrogar-nos por que não poderá, por exemplo, a Turquia, maioritariamente muçulmana, aceder à União Europeia? Ou, positivamente: como poderá fazê-lo? Não tem, certamente, e sabe-o, que negar a matriz cristã da Europa, com a qual, aliás, lidou durante séculos. Tampouco tem de se converter ao Cristianismo, pois a própria tradição cristã da dignidade da pessoa humana fundou, no Iluminismo e depois dele, o respeito ético e jurídico da liberdade religiosa... Tal como sabemos, uns e outros, cristãos e muçulmanos, que nem sempre os nossos poderes instituídos, políticos e religiosos, respeitaram nos outros a dignidade divina da pessoa humana e a liberdade da sua escolha, também houve, na Cristandade e no Império Otomano, admiráveis exceções de tolerância e acolhimento. Também nestes valores comuns que, em culturas diferentes, traduzem o princípio fundador que é o da misericórdia de Deus, deveremos encontrar um caminho e o seu sentido, de harmonia, não como receita, mas como procura. Há que lembrar ainda, no diálogo com o islamismo, um princípio que se foi afirmando ao longo da história do Cristianismo europeu e, finalmente, conduziu ao Estado laico das democracias atuais: o da distinção entre poder espiritual e temporal, entre a submissão a Deus e o tributo a César. Desde a tentação constantiniana às lutas entre os sacro-impérios e Roma, entre os reis de Portugal e o Papado, passando por guelfos e gibelinos, cismas de Avignon e tratados de Tordesilhas, até à unificação da Itália e às suas sequelas, aprendemos muito. Ao fim e ao cabo, o que Jesus Cristo disse: a César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Neste princípio assenta a liberdade religiosa, que o Estado constitucional e democrático deve garantir até como contrapeso à própria tentação totalitária do poder político. Universitário e escritor muçulmano, Abdelwahab Meddeb, no seu livro com um título desafiador, "Pari de Civilisation", para fundamentar a sua visão cosmopolita da religião cita Kant e a sua proposta "Para a Paz Perpétua": "Diversidade das religiões? - curiosa expressão! Tão singular, como se falássemos de morais diversas. Pode bem haver várias maneiras de crer, por força da história dos meios utilizados para a promover, os quais pertencem ao campo da erudição e dos livros religiosos (o Zendavesta, os Vedas, o Corão, p.ex.). Mas só pode haver uma religião valendo para todos os homens e todos os tempos. Assim, os modos de crer só podem conter o veículo da religião, o que é contingente e pode variar segundo a diversidade dos tempos e dos lugares". Muito interessante é ainda verificar que Abelwahab Meddeb refere que a expressão "paz perpétua" surge, pela primeira vez em Nicolau de Cusa (herdeiro espiritual do místico dominicano medievo Mestre Eckhart), na sua obra "De Pace Fidei", escrito durante a guerra com os turcos, que conduziu à tomada de Constantinopla em 1453. Em tempos tão conturbados, Nicolau de Cusa, respeitado homem de Igreja e amigo de Papas, procurou como que "estabelecer uma paz perpétua em religião": "Apesar da diversidade dos ritos, a paz da fé permanece todavia inviolada". Proximamente regressaremos ao tema das fronteiras da Europa e do desafio da definição geográfica, política e cultural da União Europeia, bem como à análise dos critérios que, para o efeito, têm sido propostos. Por agora, interroguemo-nos apenas sobre se serão suficientes os princípios definidos no Conselho de Copenhague em 1993: o Estado de direito, a estabilidade das instituições, a democracia pluralista, o respeito das minorias, a economia de mercado e a incorporação nas diferentes esferas jurídicas nacionais, do "acquis communautaire"... Pois tudo se constitui com objetivos inspirados pelo desejo de realização de valores fundadores. A falta de visão a prazo e a ausência de profundidade de reflexão são, no momento em que escrevo estas linhas, fustigadas por Fernando Henrique Cardoso, contestando o consumismo como guia. Por aí me ocorrem estas palavras de Zigmunt Bauman: "O modelo de PNB que domina (monopoliza) a maneira como os habitantes da líquida, consumista e individualizada sociedade moderna pensam o bem-estar ou imaginam o ´bem social´ (...) é mais notável, não pelo que classifica de modo equivocado ou claramente erróneo, mas por aquilo que nem chega a classificar, que deixa totalmente fora do cálculo, negando qualquer relevância típica à questão da saúde nacional e do conforto individual e coletivo". No presente debate sobre a "crise financeira" na Europa, é evidente a preocupação de cada um com o que pode consumir, dos políticos com as suas obsessões, e das nações europeias com o seu egoísmo nacional. Falta-nos espírito. O que nos fará sair da " crise" não será o debate de modelos econométricos e contabilísticos impostos, sem outra razão que a das previsões matemáticas (que vão falhando), e muito menos a exigência infantil do consumismo misturado com "direitos adquiridos". Temos, no fundo, de repensar o sentido da vida e o valor (esquecido) da pessoa humana.

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 28.09.12 neste blogue.

A RELIGIÃO VAI ACABAR?

  


A religião chegou ao fim?

Eis uma daquelas perguntas que volta sempre de novo. E não faltam as profecias a anunciar o fim da religião. No entanto, a profecia está longe de ver a sua confirmação. Neste tempo de ateísmo, pelo menos 85% da Humanidade continua a afirmar-se religiosa A religiosidade é uma dimensão profunda e constitutiva do Homem, como a música, a estética, a ética…

No longo processo da hominização, quando se deu o salto para a humanidade, apareceu no mundo uma forma de vida inquieta que leva consigo constitutivamente a pergunta pelo sentido último e total e a sua busca. Precisamente esta questão é a raiz do dinamismo cultural e religioso. E o que mostra a história das religiões é que não bastam as realizações culturais como resposta à totalidade da questão do sentido, pois também elas são contingentes e minadas pelo efémero e mortal. Por isso, desde o início, a resposta do "verdadeiramente positivo" é vista em forças supra-humanas, mais tarde, em deuses e Deus. Trata-se sempre de "objectivações" que transcendem o mundo empírico e a história dada. O que constitui a religião, como escreveu Karl-Heinz Ohlig, é a experiência de contingência, a abertura ao sentido e a correspondente esperança num Sentido "transcendente".

A ideia de que é possível varrer do mundo o incognoscível, o mistério e a transcendência pela ciência não se confirma de modo nenhum. De facto, há o incognoscível, o mistério último. Evidentemente, o cientista tem de partir da vontade de procurar explicações, razões e causas cada vez mais abrangentes e finalmente completas dos fenómenos. No entanto, como escreveu o filósofo Luc Ferry, se esta vontade é legítima, por outro lado, se a tomarmos como "princípio ontológico absoluto", será sempre de certo modo votada ao fracasso. De facto, nenhuma explicação científica poderá alguma vez encontrar uma "causalidade última", porque, nesse processo explicativo, ou pára-se de modo arbitrário na busca das causas, tornando-se a explicação incompleta ou pretende-se descobrir uma "causa primeira", caindo na metafísica e abandonando a racionalidade empírico-científica. "Na ciência, não existem senão explicações limitadas de fenómenos eles mesmos limitados".

Precisamente desta abertura para o incognoscível e para o mistério erguer-se-á sempre a pergunta por Deus, e esta pergunta infinita é que dá ao Homem aquela dignidade e aquela seriedade das quais a nossa sociedade de banalidade raquítica parece estar cada vez mais distanciada, absorvida como anda na logomaquia sofista e rídicula e no consumo sofisticado e pedante.

Claro que Deus não é demonstrável - Deus só pode ser "esperado" como Sentido último e transcendente para todas as esperanças. No entanto, mesmo quando se considera os "mestres da suspeita" e os críticos da religião na modernidade, talvez só de Freud se possa dizer que, ao pressupor uma aceitação desiludida da realidade, aceitou como possível uma vida sem religião. Os outros, na sua aparente contundência crítica, não deixam de manifestar alguma reserva quanto à iminência do fim da religião - por exemplo, o "louco" de Nietzsche confessa que a sua notícia da "morte de Deus" ainda está a caminho - e abrem perspectivas globais de esperança quase religiosa, não se contentando, portanto, com o mundo fenoménico: Comte falou da "religião da Humanidade", o marxismo apontou para a utopia de uma sociedade reconciliada, Nietzsche para a perspectiva de um Superhomem futuro, Ernst Bloch para o Reino de Deus sem Deus. Mesmo Freud escreveu numa carta a J. J. Putnam, em 1915: “Quando me pergunto porque é que sempre procurei com seriedade ser solícito e, quanto possível, bondoso com os outros e porque é que não o deixei de fazer quando verifiquei que se é prejudicado por isso e massacrado, pois os outros são brutos e infiéis, não conheço qualquer resposta.”

"O potencial de angústia e de experiências negativas parece ser tão grande e o dinamismo da esperança de Sentido tão forte" que "haverá sempre religião", concluía o teólogo Karl-Heinz Ohlig, especialista em história e ciências das religiões.  O que se passa é que agora as religiões já não podem ignorar a razão crítica e, por outro lado, a cultura e a religião já não se identificam, de tal modo que, nas sociedades pluralistas, as religiões já não são normativas para todos os domínios da realidade, que se tornaram autónomos. Mas, precisamente por isso, ficam libertas para o que é o domínio específico da sua competência -- a questão do Sentido. Ora, este domínio "parece afectar de modo tão central a vida humana que até agora não se pode afirmar um fim da religião nem é de esperar para o futuro".

Face à questão de Deus, a situação da razão é paradoxal. Por um lado, parece constitutiva a sua referência a Deus: não é próprio do ser humano ter de colocar a questão do Fundamento último, a questão do Sentido último enquanto Sentido de todos os sentidos, e não está Deus co-implicado na experiência do limite, portanto, paradoxalmente também nas experiência do mal, da morte e das vítimas da História? Por outro, a razão não pode demonstrar Deus, já que essa demonstração implicaria que Ele é menos do que ela: o Deus demonstrável é um ídolo.

Deus é dado essencialmente numa experiência de fé, de entrega confiada, que pode e deve ser articulada racionalmente. Então, a experiência mais profunda e autêntica de Deus, aquela que não engana, é a do amor. Essa foi a revolução de Jesus de Nazaré.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 de fevereiro de 2022

CONTRA OS FUNDAMENTALISMOS...

  


Valerá a pena debruçarmo-nos sobre a história de Deus nas culturas dos homens antes de Cristo, a saga da Revelação, o percurso a que um agnóstico, Régis Debray, chamou itinerário de Deus. Ou, ainda, procurarmos, noutras tradições do pensamento e da fé, raízes espirituais, frutos e concordâncias do Cristianismo e do Ocidente cristão. Fá-lo-emos, à procura de pilares e pontes para o diálogo entre civilizações e culturas, com que teremos, sob ameaça de confrontos violentos, de responder a um tempo-mundo em que comunicações e migrações nos põem, todos os dias, em casa uns dos outros. Falámos da identidade cristã de Europa, olhemos agora para o enraizamento da cristandade europeia. O Cristianismo, enquanto religião do Deus incarnado no homem e na história, nesta tem as suas múltiplas raízes. Num estudo sucinto, notável pela erudição e pela profundidade da análise ("Jésus l´Héritier - Histoire d´un métissage culturel"), Christian Elleboode, professor na Universidade Católica de Lille, parte à descoberta das raízes do cristianismo na história dos homens. Do animismo primitivo aos deuses das civilizações da agro-pastorícia, do Egipto e da Mesopotâmia à Pérsia e ao monoteísmo israelita, onde nasce, como herança e antítese, o Deus da misericórdia e do amor universal que Cristo incarna e apregoa, há todo um caminho de revelação da transcendência pela imanência. Ao fim do percurso, uma conclusão: "Crente ou incréu, judeu ou cristão, é fundamental, para que haja diálogo, romper com a obsessão da procura do aspeto original de cada religião, reconhecer as suas dívidas culturais e aceitar finalmente a mestiçagem como um fenómeno que em nada altera a identidade dos indivíduos. Pelo contrário, é a ideia de pureza original que confunde as pistas e se torna fonte de conflitos. Hoje, num mundo mais global, em que os valores cristãos se encontram em diáspora e, simultaneamente, interrogados e contestados em sua casa, quer pela imigração de outras gentes, credos e culturas, na "nossa" Europa, quer sobretudo pelo materialismo e o economicismo consumista e ganancioso que o próprio "Ocidente" gerou, devemos refletir sobre as raízes espirituais da Europa e sobre a fidelidade como condição do diálogo. Não falamos de negociação nem de relativismo: não se trata de uma possível troca de valores, trata-se de um esforço comum na procura de um sentido da história e para o futuro. Ou do que, para um crente, é a comunhão dos homens no universo de Deus. Quando, ao esbofetearem-me a direita, eu ofereço a esquerda, não me submeto, mas interrogo: se disse ou fiz mal, diz-me o quê; se não, porque me bates? O diálogo e o entendimento são exercícios difíceis, só possíveis a prazo, onde seguem a fé e a esperança, e se constroem, dia a dia, pela fidelidade do amor. Situam-se numa perspetiva diametralmente oposta à das relações "líquidas" que Zygmunt Bauman aponta como causa de precaridade. Interrogar o outro, o diferente, é necessariamente interrogar-me também, e à minha diferença. Para o incréu, é um imperativo da dúvida sistemática. Para o crente, um imperativo da humildade: se Deus me revelou assim a verdade, como e porquê a terá frustrado a outros? Ou será que, no itinerário da sua revelação, Deus foi abrindo outros caminhos, para que os homens de boa vontade, que são a sua glória, na encruzilhada se reconheçam? Afinal, o que nos une? Tudo o que Deus semeou ou só a nossa semente contra a dos outros? A rutura do Deus de Jesus Cristo com o Deus de Israel antigo é clara: quem são os meus irmãos, o meu pai, a minha mãe? Não é a minha família ou nação que os define, são os que me seguem no amor universal. E S. Paulo dirá que não há escravo nem homem livre, homem nem mulher... Contra todos os fundamentalismos, inclusive os nossos.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 14.09.12 neste blogue.

A ORAÇÃO DE FERNANDO PESSOA

 

1. "Não acredito em Deus porque nunca o vi". "Pensar em Deus é desobedecer a Deus, / Porque Deus quis que o não conhecêssemos / Por isso se nos não mostrou...". Estas são afirmações célebres de Fernando Pessoa.


É verdade: se não houvesse nenhuma experiência de Deus, se ele se não mostrasse, se não se desse nenhuma possibilidade de encontrá-lo, como é que alguém poderia acreditar nele?


À pessoa religiosa Deus manifesta-se tanto na natureza — na sua contingência e ao mesmo tempo na sua beleza, no seu fascínio e nos seus enigmas, remete para uma Fonte criadora —, como na história, concretamente na história da liberdade e nos seus dinamismos: no apelo ao bem e ao respeito incondicional pela dignidade humana em si mesmo/a e nos outros e nesse impulso imparável de transcendência em ordem à realização pessoal e colectiva e da realidade toda, que só no próprio Infinito pode encontrar a sua satisfação adequada.


De qualquer modo, o encontro com Deus só pode dar-se verdadeiramente numa experiência pessoal. É de tal modo decisiva a experiência que Simone Weil, a filósofa e mística, dizia: "De duas pessoas que não fizeram a experiência de Deus, a que o nega está provavelmente mais perto dele do que a que O afirma". Esta experiência pode acontecer em múltiplas ocasiões e de muitos modos: na palavra que nos fala em silêncio no mais profundo de nós, na vivência da beleza sem nome de um pôr do Sol no horizonte sobre o oceano ou no longe da montanha, naquele súbito saber-se a si próprio como dom recebido a partir de uma fonte que jorra desde o abismo, no sentido da vida que de repente se vê ameaçado pela morte, na exaltação sublime de uma sinfonia ou do encontro no amor, no olhar abissal, triste ou saltitante de um ser humano, na solidão insuportável de um abandono, na visita surpreendente de um rosto que nos obriga a um transcendimento total, na recusa existencial radical do absurdo, no apelo suplicante e irrecusável de um esfomeado, no abalo até à raiz provocado pela morte da pessoa amada, no toque irrecusável do ser perguntado e do perguntar sem limites, naquela inquietação que impele permanentemente a pôr-se a caminho, numa experiência única de Jesus Cristo vivo, no acontecimento mais simples, que é, como escreveu o ateu Ernst Bloch, "a mística do quotidiano", sempre em conexão com "a pergunta inconstruível"...


Há sinais de transcendência no mundo. Deus aparece implicado nas experiências radicais e originárias da existência humana, e todas estas experiências são, em última análise, expressão do reconhecimento de que só no Infinito o finito encontra a sua verdade.


A experiência religiosa de Deus é a experiência pessoal mais radical que um ser humano pode fazer. Ela transforma a vida, de tal modo que já nada é como era. Estritamente falando, sobre a relação eu-tu entre Deus e o Homem só pode falar quem fez a experiência. Quem olha de fora é como se estivesse perante o vazio, pois Deus não é objecto de curiosidade objectivante. Mas, quando essa luz interior se acende, a pessoa pode experienciar que a sua existência já não soçobra no nada, não é roída pelo vazio, mas participa no mistério incomensurável, insondável e inesgotável da plenitude do Ser.


2. Fernando Pessoa rezava assim:

"Senhor, Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.


Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.


Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.


Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a Lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.


Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim."


Esta era a belíssima oração de Fernando Pessoa, num texto que deve ser de 1912.


O que é rezar?


Muitas vezes, crentes e até não crentes queixam-se de que Deus deve estar surdo. Mas ainda bem que Deus não ouve as nossas orações, pois frequentemente só pedimos disparates. Em vez de pedir o Espírito Santo, como Jesus mandou, pedimos a Deus o triunfo do nosso egoísmo e o abate dos nossos adversários; honra, glória e riqueza para nós, e os outros que fiquem na miséria e sejam nossos servos... Por um lado, queremos ser livres e autónomos e, por outro, desejaríamos que Deus resolvesse todos os nossos problemas... Com a ladainha das nossas petições, quereríamos manter-nos na preguiça, continuar infantis e colocar Deus pura e simplesmente à nossa disposição e serviço...


Afinal, Deus dá-nos tudo o que é bom, e rezar é agradecer e louvar e preparar-se para receber o que Deus tem para nos dar... Rezar é ficar à escuta do que Deus no silêncio tem para nos dizer. Rezar não é a tentativa idólatra de converter Deus ao nosso desejo, mas tentarmos nós próprios converter-nos ao desígnio de Deus, que consiste na liberdade digna e na dignidade livre de todos.


Rezar é fazer a paz dentro de nós e lembrar o essencial e olhar para o Infinito e ver o Divino em todas as coisas e contemplar a Presença viva de Deus no mais íntimo de nós e no rosto de cada homem e mulher...

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 29 de janeiro de 2022