Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A PANDEMIA. ONDE ESTÁ DEUS?

 

A Universidade de Viena investigou a relação da religiosidade com a pandemia. Os resultados mostraram que as pessoas mais religiosas utilizam estratégias mais activas para dominar a crise. Enquanto as pessoas menos religiosas tendem a reprimi-la ou a negá-la, as mais religiosas procuram apoio social e lidam com ela de modo mais forte, mais optimista e com mais serenidade.

 

São dados significativos. Não houve, creio, nenhum estudo sobre o outro lado, mas estou convencido de que dele resultaria que muitos, esmagados pela pandemia, pelo sofrimento, se perguntaram: Onde está Deus?

 

A História é um autêntico calvário. Hegel referiu-se-lhe como um Schlachtbank: um açougue, um matadouro. E lá está o famoso dilema de Epicuro: Deus tem de ser todo-poderoso e infinitamente bom. Ou Deus pôde evitar o mal e não quis, e não é bom; ou quis e não pôde, e não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal?

 

Mesmo teólogos de renome sentiram-se atenazados pelo dilema, de tal modo que alguns, como J. Moltmann, falaram de um Deus impotente, que sofre connosco; outros, como R. Guardini, chegaram a exclamar que “pediriam contas” a Deus pelo sofrimento dos inocentes, Karl Rahner disse que, “num tribunal humano, não sairia absolvido”, Karl Barth afirmou que, no Jardim das Oliveiras, quando Jesus rezava, suando sangue, Deus “se portou como Judas”, e Urs von Balthasar disse que “se deve falar de uma descarga de ira de Deus sobre aquele que lutava no Jardim das Oliveiras.” Nestas posições, a pergunta ergue-se talvez ainda mais veemente: acreditar como e para quê num Deus irado ou impotente?

 

A Filosofia e a Teologia ficarão historicamente devedoras ao filósofo-teólogo Andrés Torres Queiruga por ter desfeito o preconceito em que assenta o dilema (ver a sua obra marcante: Repensar o mal). De facto, como escreveu, “enquanto permanecer o preconceito de que Deus poderia acabar com todo o mal do mundo, se quisesse, ninguém pode crer na bondade de Deus, sem se ver obrigado a negar o seu poder; ninguém acreditaria na bondade de um cientista insigne que, podendo acabar hoje com os estragos do coronavírus, não quisesse fazê-lo, por altos e ocultos que fossem os seus motivos.”

 

O crente, nomeadamente o crente cristão, acredita no Deus Pai-Mãe, infinitamente poderoso e bondade infinita, que ama os seus filhos e filhas e só quer o seu maior bem. Donde vem o mal? Do mundo, que é finito e no qual há inevitavelmente mal. Não é possível um mundo finito, em evolução, perfeito e sem mal, porque isso  é uma contradição; como se não pode reivindicar a autonomia criatural da liberdade humana finita e a perfeição. “Afirmar hoje que Deus não é bom ou omnipotente, porque não cria um mundo perfeito, é o mesmo que argumentar que não o é, porque não quer criar círculos-quadrados ou não pode fazer ferros-de-madeira.” A primeira coisa que é, portanto, preciso clarificar é que o mundo produz mal, o finito não pode ser perfeito, tem falhas, carências, nele haverá choques, becos sem saída...

 

Desfeito o equívoco de um mundo finito perfeito e sem mal, avança-se para uma ponerologia (do grego, ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus. De facto, o mal atinge a todos, crentes e não crentes, todos sofrem ao nascer, todos passam pela dor, todos morrem. E devemos todos estar unidos solidariamente na defesa da vida e na procura do real alívio do sofrimento de todos. A pergunta, agora, é outra: se o mal é inevitável, porque é que Deus criou o mundo? “Não posso responder ao ateu que diz que o mundo é absurdo, que não vale a pena. Eu não sou pessimista: creio que vale a pena e que há um referendo na Humanidade: todos, no fundo, sabemos que vale a pena. Por isso, continuamos a trazer filhos ao mundo.”

 

Aqui, começa a pisteodiceia (de pistis e dikê, justificação da fé). Há diferentes pisteodiceias, pois todos, ateus, agnósticos, crentes, têm de enfrentar-se com o mal e cada um tem, dentro de uma cosmovisão, a sua resposta para o problema, a sua fé. O crente religioso crê e pensa que é razoável crer em Deus e até pode perguntar, com o famoso teólogo Hans Küng: “O ateísmo explica melhor o mundo? A sua grandeza e a sua miséria? Como se também a razão descrente não encontrasse o seu limite no sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido!” E crê que Deus não teria criado o mundo, se não fosse possível libertar-nos do mal. O que se passa é que o que não é possível num dado momento pode sê-lo mais tarde. A mãe sabe matemática, mas não pode ensinar matemática ao seu bebé enquanto bebé; fá-lo-á mais tarde. Alguém pode conceber-se a aparecer já adulto no mundo? A realidade é processual, e o crente em Deus como Amor e Anti-mal espera a salvação definitiva e plena para lá da morte.

 

Aqui, ergue-se outra objecção: depois da morte, não continuamos finitos? Os crentes confiam em Deus e podem mostrar, com razões, que a salvação eterna não é contraditória, pelo contrário. Sim, a pessoa é finita, mas com uma abertura infinita. Este é o mistério do Homem. Nunca estamos acabados, nenhum ser humano morre definitivamente feito. Não há nada finito que possa preencher a abertura humana, não há nada finito que possa realizar a nossa capacidade de conhecer e amar. Esta é a possibilidade que se abre ao crente a partir da fé: já para lá dos limites do espaço e do tempo, Deus mesmo entrega-se-nos nesta abertura infinita e finalmente seremos nós com Ele e nEle.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 JUN 2020

A TORRE DE BABEL E O PENTECOSTES

 

Celebra-se hoje, na liturgia católica, a festa do Pentecostes, o acontecimento inaugural da Igreja cristã, que irradia luz fulgurante também para os tempos que estamos a viver, tempos de penúria e de noite, penúria no sentido do verso famoso de Hölderlin: “Wozu Dichter in dürftiger Zeit?” (Para quê poetas em tempo de penúria, indigência mais funda e abrangente do que a meramente económica?).

 

O Pentecostes apenas alcança a sua compreensão adequada em contraposição com Babel, o acontecimento mítico tão conhecido, descrito no livro do Génesis. É um mito, mas o mito transporta consigo uma verdade fundamental, “dá que pensar”, como escreveu o grande filósofo do século XX, Paul Ricoeur.

 

Diz a Bíblia que Javé, ao ver a maldade grande dos homens sobre a Terra, maldade que não deixava de crescer, se arrependeu de ter criado o Homem e se sentiu magoado no seu coração. Por isso, mandou o dilúvio, mas Deus renovou a sua aliança com Noé e com a criação inteira, aliança figurada ainda hoje, ainda que de forma ingénua, no arco-íris, unindo o Céu e a Terra. Mas um dia, continua a narrativa do Génesis, os homens disseram: construamos uma cidade e uma Torre cujo ápice penetre nos céus. A Bíblia vê neste projecto uma iniciativa de arrogância e orgulho insensatos, aquela hybris — desmesura — que os gregos também condenavam, porque arrasta consigo a maldição e a catástrofe. No meio da arrogância e da desmesura, os seres humanos, em vez de se compreenderem e unirem, guerreiam-se e matam-se na barbárie. Aí está o sentido bíblico da confusão das línguas.

 

Babel e a sua Torre é um mito de uma actualidade dramática. Note-se que em capítulos anteriores à narrativa da Torre de Babel o livro do Génesis fala do plano de Deus que quer que a Humanidade cresça e se multiplique em “povos que se dispersaram por países e línguas, por famílias e nações”. Assim, o que está em causa neste mito não é de modo nenhum a dispersão pela Terra nem a variedade das línguas, que constitui uma riqueza. O mito põe a nu e denuncia o imperialismo dominador de uns sobre os outros, na incapacidade do descentramento (desconfinamento, diríamos em linguagem actual) de si para colocar-se no lugar do outro e, no respeito pela alteridade insuprimível, entrar em diálogo mutuamente enriquecedor. O mito é uma advertência eloquente contra o desígnio de dominação.

 

Precisamente em contraponto, noutro livro da Bíblia, Actos dos Apóstolos, narra-se a descida do Espírito Santo, no dia do Pentecostes, que hoje se celebra. “De repente, ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa. Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem.” Ao ouvir o ruído, a multidão acorreu e todos ficaram estupefactos, “pois cada um os ouvia falar na sua própria língua”. Atónitos e maravilhados diziam: “Esses que estão a falar não são todos galileus? Que se passa então, para que cada um de nós os ouça falar na nossa língua materna? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus!”

 

No dia de Pentecostes, que deve ser todos os dias, na sua intenção mais profunda — e cada vez mais tomamos consciência disso —, quando se percebeu que o que tem de unir os seres humanos é a justiça, o amor, a solidariedade, a fraternidade, o respeito pela igualdade na diferença e pela diferença na igualdade, os seres humanos, todos, voltaram a encontrar-se e entenderam-se... No Pentecostes, restabelece-se a unidade desfeita com a Torre de Babel. Trata-se, porém, da unidade na diferença e da diferença na unidade. O amor do Pentecostes une diferenças, sem uniformizar. E abre horizontes novos de esperança à Humanidade solidária.

 

Na actual situação do mundo globalizado e terrivelmente ameaçado, em que a globalização tem sido sobretudo tecnológica e económico-financeira no quadro do neoliberalismo, é urgência maior pensar numa governança global (não digo um governo mundial, mas uma governança global), para que o império da força da lei ponha limites ao império da lei da força do mais forte — na presente situação de crise global, vários pólos do planeta se perfilam já com intenções de domínio imperial global, a pandemia acabou por agudizar a tensão e a rivalidade entre a China e os Estados Unidos — e, neste contexto, pensar no diálogo multicultural e inter-religioso, em ordem à paz, à justiça, a uma atitude nova de respeito e cuidado da natureza, a nossa casa comum, a uma vida menos centrada no consumo imoderado, no ter, e mais no ser, nesse milagre que é ser, existir e conviver.

 

Dada a presente crise global, dramática, não se pode pensar em voltar à normalidade como se se tratasse apenas de, após um interregno, voltar à continuação da situação em que a deixámos. Não. Penso que já se percebeu que se impõe um novo macroparadigma de desenvolvimento e também nas relações entre os povos, incluindo a sua relação com a natureza — felizmente, a União Europeia está no bom caminho. Assim, sejamos crentes ou não, é claro que isso implica uma conversão, um espírito novo, que só pode ser o Espírito Santo, espírito de verdade, de liberdade, de igualdade, de fraternidade.

 

São Paulo escreveu na Carta aos Gálatas: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da escravidão. Foi para a liberdade que fostes chamados.” Esta liberdade está fundada na filiação divina: “Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: ‘Abbá! – Pai!’ Deste modo já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus.” “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher”. Agora, todos são livres. Assenta aqui a igualdade radical de todos os seres humanos – homens e mulheres. E o Espírito da liberdade é o Espírito do amor. Jesus disse aos discípulos: “Já não vos chamo servos, mas amigos.” E a razão é que não há amizade sem confidência e ele confiou-lhes o segredo mais íntimo de Deus: “Deus é amor incondicional”.

 

A Humanidade precisa de um novo Pentecostes, com a chegada do Espírito Santo, com os seus dons. Entre os dons do Espírito – eu fui ao catecismo à procura dos dons e dos frutos do Espírito Santo e também dos pecados contra o Espírito — encontram-se os dons da sabedoria, do entendimento e da ciência: o sábio tem o conhecimento profundo de Deus e julga todas as coisas na sua luz – também na Igreja, é necessário fazer mais apelo à sabedoria e à inteligência.

 

Quem vive no Espírito Santo, que é o Espírito do nosso espírito, recebeu também o dom do conselho: a luz do alto e do mais íntimo para as grandes decisões; o dom da fortaleza: a firmeza no caminho do bem; o dom da piedade: a ternura na relação com Deus e com os irmãos; o dom do temor de Deus: não é medo nem inquietação, mas princípio da sabedoria e sentido da responsabilidade.

 

O Espírito Santo e os seus dons produzem frutos. São Paulo escreveu: “Este é o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio. Contra tais coisas não há lei. Se vivemos no Espírito, sigamos também o Espírito. Não nos tornemos vaidosos, a provocar-nos uns aos outros, a ser invejosos uns dos outros. Se porventura alguém for apanhado nalguma falta, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão; e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado. Carregai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo”.

 

O fruto mais excelente do Espírito é o amor unido à benignidade, à bondade, à fidelidade e à mansidão — “na tarde da vida seremos julgados pelo amor”, escreveu São João da Cruz. Com o amor vem a alegria – vejo hoje demasiada tristeza. A paz é a tranquilidade na ordem: há paz quando há justiça e tudo vai bem dentro de nós, com os outros, com Deus e a criação. A paz interior dá força à paciência, que não é resignação. O autodomínio mantém a pessoa íntegra para si e na sua entrega aos outros.

 

Afinal, de que Espírito somos? Uma forma eficaz de responder é responder a outra pergunta, talvez mais concreta: cometemos pecados contra o Espírito Santo? Entre esses pecados — pecar é coisificar a pessoa —, contam-se: “ter inveja das mercês que Deus faz a outrem”, “contradizer a verdade conhecida como tal”, “obstinação no pecado”, “desesperação de salvação”. Temo o perigo da escravização própria e alheia — escravização pelo ter, pelo hedonismo, pelo espectáculo (não era na sociedade-espectáculo que estávamos a viver?) —, perigo do afundamento no lamaçal da mentira, contradizendo a verdade conhecida como tal, da inveja, da obstinação no pecado e, em tempos de niilismo, da vertigem da desesperação.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 31 MAI 2020

CARÍCIAS DE DEUS

 

1. Hoje celebra-se, na liturgia católica, a festa da Ascensão de Jesus ao Céu. Evidentemente, quando se fala em ascensão, não se está a fazer descrições geográficas; trata-se tão-só de tentar expressar simbolicamente que Jesus entrou na plenitude da Vida que é Deus.

 

Antes da despedida, prometeu aos discípulos o Espírito Santo, o Espírito de Deus, que é Amor, aquela luz e força que ilumina, vivifica, dá ânimo, consolação, confiança, coragem. E disse-lhes, segundo os Actos dos Apóstolos, de São Lucas: “Sereis minhas testemunhas  em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.” Desapareceu da sua vista e “como estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: “Porque estais assim a olhar para o céu?” E observou-lhes que agora a sua missão era partir, para cumprir a missão que Jesus lhes entregara.

 

Esta é a missão da Igreja. Sim, olhar para o Céu, anunciar o sentido da vida, o Sentido último da existência humana, que não caminha para o nada, mas para a plenitude da Vida em Deus. A missão da Igreja, essencial, é ser a multinacional do sentido de todos os sentidos, do Sentido último. Ao mesmo tempo, e por isso mesmo, não pode ficar parada a olhar para o Céu. Não pode abandonar o mundo, a Terra, criação de Deus. É aqui que vivemos e a missão da Igreja é continuar o projecto de Jesus, concretizá-lo, aqui, porque queremos, como é desígnio de Jesus, viver num mundo que é de todos e que deve ser para todos, na justiça, na igualdade radical, na dignidade livre e na liberdade digna, num mundo onde todos possam viver em paz e realizar a sua dignidade humana e divina.

 

A missão da Igreja tem esta dupla vertente: olhar, na Terra, para o Céu. A igreja de Marco de Canavezes, de Siza Vieira, di-lo como só um artista o sabe dizer. Tem uma porta com 10 metros de altura e, quando se sai da celebração, ela abre-se e continuamos com os pés assentes na Terra, mas, diante de nós, abre-se o Céu.

 

2. Durante muito tempo, impôs-se uma espiritualidade de fuga do mundo, desprezo e abandono do mundo, esquecendo que ele é, repito, criação de Deus e é nele que é preciso encontrar Deus, uns com os outros. Mas também é preciso transformar o mundo. Porque o mundo, no Evangelho, aparece num duplo sentido: por um lado, no sentido positivo, ele é criação de Deus; por outro, no sentido negativo, ele pode ser lugar da tentação, pode ser sujo. Por isso, há o contraponto entre cosmos, que significa, em grego, belo (donde vem cosmética?), e caos, o seu contrário: a desordem; e mundo (limpo, belo, universo), que tem o seu oposto em i-mundo. Não é necessário limpar o mundo, também o mundo humano, das suas imundícies? A vida humana e, consequentemente, a vida cristã também, são e estão, portanto, continuamente em tensão.

 

Também a Igreja enquanto organização necessita de limpeza. Morreu, em Tóquio, na passada Quinta-Feira, dia 20 de Maio, o Padre Adolfo Nicolás, antigo superior-geral dos jesuítas. Num texto emocionado,  José M. Castillo, revela como no seu último encontro, em Roma, poucos dias antes de se saber da renúncia ao papado de Bento XVI, quando se estavam a despedir, ele lhe disse algo que o marcou profundamente: “Reza, reza muito pela Igreja. Porque para pior do que está agora não creio que possa cair”. E aí está Francisco a dar uma viragem à Igreja, apesar de todas as resistências. E o problema são mesmo as resistências. Numa entrevista recente, o conhecido vaticanista Marco Politi, afirmou: “Não são uma minoria. 30% do clero, dos bispos e dos leigos mais comprometidos no mundo estão contra Francisco. Há uma parte da Igreja que não está de acordo com Francisco e que está já a tratar de influenciar o próximo conclave. Nunca houve tantos ataques contra um Papa.”

 

Com a presente pandemia, tomámos consciência de muitas realidades de que andávamos muito afastados. Uma delas é que precisamos de atender à natureza, aos ecossistemas, à biodiversidade, à “ecologia integral” de que fala Francisco, precisamos de viver com mais moderação, e a Igreja, concretamente, uma vez que tem de dar o exemplo, não pode continuar no luxo ou a utilizar símbolos, mesmo na liturgia, que não são senão sinais de poder e ostentação. Impõe-se viver com simplicidade, segundo o estilo de Jesus. Nesse sentido e para dar um exemplo apenas, a irmã Mercedes Loring, de 95 anos, religiosa da Assunção, sugeriu: “Seria possível pedir ao Papa que acabe com as mitras dos bispos, inúteis, e que dão a impressão de ‘alta categoria’? Fico mal humorada, quando vejo uma cerimónia religiosa, sobretudo a Eucaristia, e o bispo com mitra. Ou quando vejo um grupo de bispos, todos com as suas mitras! Não consigo imaginar Jesus com essas pretensões.”

 

Já depois de este pedido se ter tornado viral, a irmã Mercedes Loring, que dedicou a sua vida à promoção dos pobres, voltou à carga, em diálogo com José Manuel Vidal, director de Religión Digital: “As mitras episcopais sempre me pareceram ridículas. Agora, com o confinamento, participei em muitas Missas pela internet, algumas presididas por bispos, todos eles com a mitra. E o antigo mal-estar voltou. Aquele tira e põe da mitra parece-me ridículo.” Acrescentou: “Se pudesse realizar o sonho de ver o Papa, dir-lhe-ia que acabasse com a mitra para ele e também para os bispos.”

 

É claro que Francisco não vai satisfazer o pedido da irmã Mercedes, pois não pode arranjar mais um problema, ele que já tem tantos. Há pouco tempo, encontrou o Padre Ángel, um exemplo notabilíssimo de cuidador atento e eficiente dos mais pobres e frágeis. O Papa perguntou-lhe: “Como estás, Ángel?” Resposta: “Vou indo, com os meus problemas.” “E tu?” Francisco: “Os meus problemas? Nem te falo...”.

 

De qualquer forma, fica aí o eco do pedido da irmã Mercedes, com 95 anos. Para exemplo, um extracto de um poema do célebre bispo-poeta Pedro Casaldáliga, também ele nonagenário (92 anos): “A tua MITRA será um chapéu de palha sertanejo./ O teu BÁCULO será a verdade do Evangelho/ e a confiança do teu povo em ti./ O teu ANEL será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador/ e a fidelidade ao povo desta terra./ Não terás outro ESCUDO/ para lá da Esperança/ e da liberdade dos filhos de Deus.”

 

3. Há muito pouco tempo, telefonei ao bispo de Bragança-Miranda, José Cordeiro. Para lhe manifestar a minha total simpatia. Porque vi no JN uma reportagem da jornalista Glória Lopes sobre ele, vestido normalmente e, como se impõe, com a máscara, a distribuir nas ruas alimentos e remédios a quem necessita. Leva também, e talvez seja por vezes o mais importante e necessário, palavras de conforto, “uma carícia de Deus”, como ele diz, neste tempo de pandemia, quando as pessoas se sentem mais sós e tristes. Fá-lo duas vezes por semana, indo ao encontro não só de pessoas mais velhas, mas também de migrantes e alunos estrangeiros do Instituto Politécnico de Bragança. “Eu senti o dever de acompanhar o trabalho da Cáritas Diocesana como um sinal em toda a Diocese, pois não posso acompanhar todas as instituições. Esta crise sanitária transformou-se rapidamente numa crise económica e social”, sublinhando que “não se trata de caridadezinha, mas de um amor em saída (aqui, lembro que Francisco não se cansa de repetir que quer “uma Igreja em saída”), para sermos solidários e de ir para o terreno “para estar junto das pessoas e dizer-lhes que não podemos ter medo”.

 

Estou convencido de que o bispo de Bragança não é caso único. Mas é um excelente exemplo da Igreja em saída, que olha para o Céu, com os pés assentes na Terra, distribuindo “carícias de Deus”. Para que se concretize um mundo melhor.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 24 MAI 2020

ANSELMO BORGES: "É POSSÍVEL QUE OS CATÓLICOS SE SINTAM ABANDONADOS"

 

Em tempos de pandemia, o teólogo Anselmo Borges questiona o que está atrás das portas fechadas das igrejas, o que se passa com a humanidade que deixou as praças vazias em todo o mundo – sem esquecer a de São Pedro.

 

O padre e teólogo Anselmo Borges refere nesta longa entrevista que tem tido muito tempo nas últimas semanas para pensar, ler, andar... Ao mesmo tempo, tem sido confrontado com uma Igreja Católica bastante diferente da que tem existido há dois mil anos, seja por ver o Papa Francisco sozinho na Praça de São Pedro a falar ao mundo e a celebrar a Páscoa, bem como por se confrontar com a interrupção de todas as celebrações religiosas desde há semanas e de uma forma tão radical que jamais achara ser possível.

 

Esta entrevista mostra um pensador diferente de anteriores conversas, dir-se-ia um crente que foi mais do que nunca obrigado a recorrer à sua reflexão de décadas, aos ensinamentos da Bíblia e aos de muitos teólogos e cientistas sociais – a favor e contra a instituição Igreja e estudiosos da fé – com quem se deu ou estudou, de modo a ser capaz de repor a ordem do seu pensamento perante a catástrofe que atingiu toda a humanidade sem um aviso prévio.

 

Sendo uma voz critica de muitos comportamentos ostentatórios da Igreja, estudioso de novas formas do existir contemporâneas, como as questões que a neurociência vai desbravando entre outras novas tecnologias, adepto do diálogo inter-religioso e insaciável no confronto de ideias, Anselmo Borges realiza nesta entrevista um mergulho teológico através da história de muitos homens e mulheres que o antecederam. Por isso não se estranha quando afirma perante a crise temporária provocada pela covid-19 junto da instituição de que faz parte: “Na Igreja primitiva, não havia sacerdotes nem toda a maquinaria de que a Igreja, entretanto, e não pelas melhores razões, se foi apetrechando.”

 

Aproveita para equacionar além do tempo mais imediato que se segue à maior preocupação de todos os habitantes da Terra, o fim da pandemia, no que respeita a pilares que o Papa Francisco tem estado a abanar: “Pensando no futuro, julgo que se imporá uma revisão na formação dos futuros padres. Ela deve operar-se em ambientes naturais, mais em contacto com a realidade – os seminários serão para encontros espaçados, para uma formação mais específica comunitária. E haverá dois tipos de padre: o homem ou a mulher, casados ou não, escolhidos pela comunidade, que têm a sua profissão e que por algum tempo assumem a missão de liderar a comunidade; haverá também os que, celibatários por opção, se entregam a tempo inteiro à coordenação de comunidades e à sua formação mais profunda e intensa...” Para que não fiquem dúvidas, recupera as palavras do antecessor de Francisco:”O próprio Bento XVI, quando era ainda apenas o professor Joseph Ratzinger, propôs algo de semelhante.”

 

Há uma semana aconteceu o primeiro Domingo de Páscoa na história dos católicos em que as suas igrejas estiveram e continuam encerradas por todo o mundo. Esperava ser testemunha de uma religião de portas fechadas?
Sinceramente, não. Aliás, nunca imaginei que havíamos de passar por um flagelo global como este que estamos a viver.

Mas uma crise é ou deve ser sempre uma oportunidade. Neste caso, penso que foi uma oportunidade para reflectir. De facto, havia o perigo de reduzir a Páscoa a procissões, correrias, talvez demasiada exterioridade e até folclore. Foi a oportunidade de se ir ao essencial e perguntar pelo sentido real e verdadeiro da Páscoa. Perguntar, por exemplo: em que é que eu acredito, em que é que realmente acreditamos, e sobretudo: em quem acreditamos? A Páscoa celebra a paixão e morte de Jesus e a sua ressurreição, e este é o centro da fé cristã. Neste mistério, revela-se que Deus, o Mistério último, indizível, se revelou como Amor incondicional em Jesus. Evidentemente, a ressurreição não é a reanimação do cadáver; nela, o que se afirma é que Jesus, crucificado, está vivo para sempre, ele é o Vivente em Deus, que é a Vida e a fonte da vida.

 

Foi a oportunidade para o reencontro com uma fé mais límpida?
Nada nem ninguém consegue dizer o mistério da ressurreição como os Evangelhos. Os discípulos, a começar pelas discípulas (Maria Madalena foi a primeira), reflectindo sobre o que Jesus fez e foi, no modo como ele se relacionava com Deus e com todos, a começar pelos mais abandonados, pobres, pecadores, prostitutas, no modo como morreu, fizeram a experiência avassaladora de fé de que ele é o Vivente em Deus e, quando quiseram dizer essa experiência descrevem o que chamaram “aparições”, “visões”, mas de tal modo que Maria Madalena, por exemplo, não o reconheceu, só quando ele se lhe dirigiu pelo nome: “Maria”, mas ela não pôde tocá-lo; Jesus caminhou com os discípulos de Emaús, mas eles só o reconheceram “ao partir do pão”; entrava, com as portas fechadas, saudava os discípulos: “a paz esteja convosco”, e desaparecia; disse a Tomé que metesse a mão no lugar dos cravos, mas não se diz que ele tenha metido, inclinou-se: “Meu Senhor e meu Deus”… Acreditaram e foram proclamar a grande notícia e morreram por ela. Na fé, como em tudo o que é essencial, o ver é o ver espiritual, íntimo e único, mas partilhável. Sem essa experiência interior, fica-se na mera exterioridade e em fórmulas dogmáticas congeladas que nada dizem.

É isso: é ele, pessoalmente, o Jesus real, mas transformado, já não no tempo e no espaço, mas na dimensão da eternidade. Foi Ernst Bloch, o ateu religioso, que me disse um dia: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”: foi com esta proclamação que o cristianismo venceu.”
Depois, quem acredita parte para a vida, procurando fazer o que Jesus fez e mandou: combater por um mundo justo, feliz, para todos, na paz. Com mais esperança, força, confiança. E na convicção de fé, com razões, de que o ser humano na morte não cai no nada, mas entra na Realidade mais real e verdadeira, na plenitude da vida em Deus. Como é? Ninguém sabe.

 

Estarmos perante uma religião que deixou de baptizar crianças, dar catequese, casar e enterrar católicos, não a deixa questionável aos olhos dos fiéis? 
Esta situação pode provocar um abalo nos fiéis, e eu espero que seja positivo. O que se passa é que o clero se tinha apropriado da Igreja, dos sacramentos, acabando por criar, mesmo que talvez isso não tenha estado na sua intenção, uma Igreja piramidal, vertical, clerical, com privilégios, o carreirismo e o clericalismo e a corte, que é a Cúria romana e outras, tudo o que, segundo o Papa Francisco, constitui “a peste da Igreja”.

No quadro dessa mentalidade, nesse modo de Igreja, é bem possível que os católicos se sintam agora um pouco abandonados, desamparados, pois não podem ter acesso imediato aos “donos” da sua religião.
É urgente repensar o que é verdadeiramente a Igreja, que é, antes de tudo, o conjunto de todos os baptizados. Na Igreja primitiva, a Igreja era primeiro “a Igreja doméstica”, que se reunia nas casas de algum cristão ou cristã com uma casa mais ampla e quem presidia era o dono ou a dona da casa e celebravam a memória de Jesus, fazendo o que ele mandou: dar a bênção e partilhar o pão e o vinho, lembrando-nos dele, em acção de graças, como diz a palavra Eucaristia. E foi a primeira tremenda revolução na história do mundo no que à religião se refere: se algum senhor se tinha convertido a Jesus, ali sentava-se à mesma mesa que um escravo. Nestes dias de Páscoa, leu-se a história dos discípulos de Emaús, que reconheceram Jesus ressuscitado “ao partir do pão”. Para escândalo de muitos, não se fez a consagração.
Ainda alguém me há-de mostrar no Novo Testamento onde é que está que Jesus ordenou alguém sacerdote. Todos os baptizados são sacerdotes e o ministro ordenado (o chamado indevidamente sacerdote) é, como diz a palavra, apenas o que preside, num serviço ministerial, ao sacerdócio real dos cristãos.

 

Esta situação de prática de religião suspensa fisicamente irá provocar algum estremecimento nos católicos que viam nas missas e noutras cerimónias religiosas uma certeza ao longo de toda a sua vida?
Suspensa porquê? Já disse que na Igreja primitiva não era assim. Na Igreja primitiva, não havia sacerdotes nem toda a maquinaria de que a Igreja, entretanto, e não pelas melhores razões, se foi apetrechando. Por isso, é necessário reconhecer, com o teólogo Bernardo Pérez Andreo, que o coronavírus, com o confinamento, acabou por colocar em xeque esse catolicismo tradicionalista, que deixa os padres e bispos com a possibilidade de celebrar e comungar, discriminando os outros fiéis, que ficarão à míngua: “O catolicismo não pode ser a dependência do clero”.

Eu não sou nem nunca fui anarquista. E, por isso, considero que deve haver uma “ordem” (daí, o padre ordenado ou o bispo…) e um mínimo de organização.
Mas quem pode impedir ou declarar inválidas as celebrações da Eucaristia realizadas nas famílias? Estas não são porventura Igrejas domésticas? Ou, como já escrevi, impedir que se concelebre “coronoviricamente” em casa, assim: em vez de apenas “assistir” à Missa pela televisão ou outras novas tecnologias, colocar numa mesa com uma vela acesa e o livro dos Evangelhos pão e vinho, símbolos da vida, e participar na celebração, perdoando uns aos outros os pecados como Jesus mandou, ouvir a Palavra de Deus e comungar realmente e não apenas espiritualmente, como é aconselhado? Aliás, a comunhão, para ser real, não tem de ser sempre espiritual também? E o que são os sacramentos senão sinais visíveis de uma Presença (com maiúscula) invisível, mas real e actuante na graça que vivifica?

 

Está a falar por experiência própria?
Permita que lhe conte um entre muitos encontros que tive com o maior exegeta católico do século XX, grande cristão, o meu querido amigo, professor de Tubinga, Herbert Haag. Foi numa Sexta-Feira Santa em sua casa, em Lucerna. Conversámos longamente sobre Jesus, a sua história, os seus desígnios, a sua morte e ressurreição, a sua Igreja. Até foi nesse encontro que ele me pediu para ir buscar o Evangelho segundo São João em grego e ler aquele passo: “Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados”, e reparei então que Jesus não disse isso aos Apóstolos mas aos discípulos (oi mathetai). Conversámos enquanto partilhávamos uma refeição ao anoitecer, uma refeição com pão, queijo e bom vinho. Já noite dentro, à saída para o hotel, perguntei-lhe em afirmação: “Professor, foi uma Eucaristia”. E ele, serenamente: “Claro que foi.”

 

E nos membros do clero esta interrupção da sua missão levantará questionamentos diferentes daqueles que assombravam a Igreja nos últimos tempos, como mulheres a serem ordenadas, casamento dos padres?
No contexto do que acabo de dizer-lhe, é essencial que o clero medite na sua missão e no seu lugar na Igreja e no mundo. Impõe-se uma conversão radical, em ordem a uma Igreja já não clerical, piramidal, mas participativa, em círculo, comunional, pondo cada um, cada uma, os seus carismas ao serviço de todos. Homens ou mulheres, casados ou não, porque Jesus não impôs o celibato.

Mas, repito, não sou anarquista e, quando passar este pesadelo, os católicos, porque o cristianismo é simultaneamente uma fé pessoal a partir de uma experiência íntima, e comunitária, reunir-se-ão outra vez festivamente em assembleia comunitária, para, todos juntos, celebrarem a Eucaristia.
Mas, pensando no futuro, julgo que se imporá uma revisão na formação dos futuros padres. Ela deve operar-se em ambientes naturais, mais em contacto com a realidade (os seminários serão para encontros espaçados, para uma formação mais específica comunitária). E haverá dois tipos de padre: o homem ou a mulher, casados ou não, escolhidos pela comunidade, que têm a sua profissão e que por algum tempo assumem a missão de liderar a comunidade; haverá também os que, celibatários por opção, se entregam a tempo inteiro à coordenação de comunidades e à sua formação mais profunda e intensa... O próprio Bento XVI, quando era ainda apenas o professor Joseph Ratzinger, propôs algo de semelhante.

 

Se todas as epidemias da História da humanidade até há bem pouco tempo eram 'carimbadas' como um castigo de Deus, esta não o será. É uma primeira pedra a cair num edifício mental religioso com dois mil anos e que produzirá leituras diferentes das páginas da Bíblia que guiaram até há bem pouco os católicos? 
Desgraçadamente, ainda há quem, incluindo cardeais, ouse apelar para o castigo de Deus. Isso é uma blasfémia. Porque é incompatível com Deus que criou por amor.

Como já disse, impõe-se saber ler a Bíblia e renovar e recriar a linguagem, não só teológica, mas também litúrgica. Por exemplo e só exemplos: como se pode continuar a dizer que as crianças nascem com o pecado original? Só se se entender por isso o que faz sentido: que nascem inocentes, mas para um mundo onde já há pecado e, por isso, podem ser afectadas por ele, como um não fumador, ao entrar numa sala de fumadores, pode ser contaminado pelo fumo. E o que é que quer dizer para um contemporâneo, ao recitar o Credo: “Gerado, não criado, consubstancial ao Pai”?; que quer dizer: “Creio na ressurreição da carne?”; que dizer a uma pessoa que tem medo de comungar na mão, porque podem cair fragmentos da hóstia? E as homilias inúteis, vazias ou contra  a razão? Só exemplos, que obrigam a reflectir e a não esquecer que de Deus, no Novo Testamento, se diz que ele é “agapê” (amor incondicional) e também “Logos”, que quer dizer razão, inteligência. Portanto, não basta o amor, a bondade, impõe-se atender à razão, à inteligência e procurar viver interpenetrando bondade e razão, amor e inteligência.
Por vezes, aparecem na Internet vídeos a ridicularizar o que parece a fé cristã. A mim não me ofendem, pois apenas ridicularizam, e é urgente aprender com isso, imagens ridículas de Deus e dos dogmas que a Igreja foi e vai tantas vezes transmitindo.

 

A forma como o Papa Francisco tem conduzido as suas aparições nestas últimas semanas torna-o mais consensual dentro da própria igreja Católica?
Aqui, permita que, na situação desta calamidade da Covid-19, que lembra, por exemplo, as pestes, recorde o Decameron de Bocaccio (1313-1375) no contexto da Peste Negra. Está lá a história daquele judeu bem intencionado que, instado por um amigo a converter-se, decide ir a Roma para ver e analisar o que se passava no centro da cristandade. O amigo tenta dissuadi-lo, pois Roma não seria o lugar ideal para encontrar o cristianismo, mas ele parte, deparando realmente com a podridão moral: luxúria, todos eram gulosos e beberrões, simonia e tantos outros vícios e pecados… Regressando a Paris, encontra-se com o amigo, que esperava tudo menos a sua conversão. Mas não. Ele voltara convertido, e a razão era que, se a Igreja, apesar do que vira, continuava viva, só podia ser porque como sua base e fundamento se encontra o Evangelho e o Espírito Santo. Nesta linha, também se conta que, quando Gandhi esteve no Vaticano, olhou para aquilo tudo e terá dito como o judeu do Decameron: se nem estes acabaram com o cristianismo, o Evangelho de Jesus é realmente verdadeiro.

 

O que nos leva de novo a Francisco...
Hoje, no Vaticano, mora (não será o único) um Papa cristão, Francisco. Que dá ânimo, consolação, esperança, confiança, que põe o seu esmoleiro apostólico, o cardeal Krajewski, protegido mas sem qualquer adorno cardinalício, nas ruas com os sem abrigo e indigentes, que quer abraçar a todos, que devem saber que “no isolamento em que sofremos falta de afecto e de encontro, fazendo a experiência da falta de muitas coisas”, ninguém está só. Na Páscoa, fez uma homilia programática para uma conversão global, pedindo o alívio ou até o perdão da dívida aos países mais pobres, que os refugiados não sejam abandonados à sua tragédia, apelou à solidariedade na União Europeia e à superação dos egoísmos, porque “do desafio do momento actual depende não só o seu futuro, mas o do mundo inteiro”. E esta semana tomou a iniciativa de criar uma Comissão de peritos para estudar como enfrentar a terrível crise económica, social e política a caminho. Com cinco grupos de trabalho que se ocuparão de reflectir sobre os desafios socioeconómicos, culturais, políticos, espirituais, do futuro já presente. Qual o contributo da Igreja nesta nova situação dramática e decisiva na qual o que está em jogo é o próprio futuro da Humanidade?

 

Que significado tem, e terá, para os fiéis um homem só na Praça de São Pedro a falar para todos eles e para o resto do mundo?  
É uma imagem pregnante que ficará na memória de todos quantos, naquela tarde um pouco chuvosa e escura, presenciaram Francisco a atravessar sozinho em passos lentos aquela Praça de São Pedro deserta e a subir as escadas que levavam a uma plataforma. Dali, convidou à conversão e à esperança, insistiu repetidamente na necessidade da fraternidade e da solidariedade, dirigiu-se longamente às “pessoas comuns, muitas vezes esquecidas, que não ocupam as primeiras páginas dos noticiários televisivos, dos jornais e das revistas nem aparecem nos grandes desfiles do último show, mas que, sem qualquer dúvida, estão a escrever hoje os acontecimentos decisivos da nossa história”, e citou “médicos, enfermeiros e enfermeiras, empregados de supermercados, agentes de entretenimento, artistas, fornecedores de cuidados ao domicílio, transportadores, forças da ordem, voluntários, padres, religiosas e tantos, tantos outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho”. Num abraço que quer abraçar e consolar a todos, abençoou o mundo, pedindo que se ponha de lado “a nossa sede de omnipotência e de posse e domínio”.

Na sua simplicidade comovente, de uma intensidade avassaladora, foi mais um gesto que corroborou não só nos fiéis mas também em não crentes a imagem de um líder, um profeta, político-moral global confiável.

 

A Igreja Católica fechou rapidamente as portas dos templos, no entanto não demorou demasiados dias a aparecer ao lado dos que creem nela? 
Mais uma vez, penso que é urgente operar uma revolução. Cá está: quando se fala em Igreja, pensa-se em primeiro lugar e imediatamente na organização e na hierarquia: Papa, bispos, cardeais, padres… Ora, o Concílio Vaticano II veio corrigir. A Igreja é em primeiro lugar o Povo de Deus, o conjunto dos baptizados e, nesse Povo, há uma organização, inevitavelmente, que deve seguir o que Jesus queria, e o que ele queria até se adequa mais aos tempos, que caminham no sentido da democracia. Na Igreja, tem de haver serviços, ministérios, sem honrarias nem privilégios nem mitras nem barretes cardinalícios nem solidéus que, nas celebrações, levam àquele ritual, tão desinteressante, do tira e põe solidéu. A Igreja deve ser mais do que uma democracia, pois Jesus disse: “Eu vim não para ser servido, mas para servir” e: vós não deveis procurar ser os primeiros pelo poder, mas pelo serviço: “vós sois todos irmãos”.

O equívoco tem de ser urgentemente corrigido. Os católicos não crêem na Igreja; o que é preciso é, passando à verdade, confessar: em Igreja, todos juntos, crêem em Deus Pai-Mãe, criador e salvador, crêem em Jesus, o enviado de Deus, que revelou por palavras e obras Deus, o Mistério invisível e indizível, como Amor, e crêem assim, na luz do Espírito Santo. O acento não pode estar de maneira nenhuma na organização e na hierarquia.

 

E já vê sinais de uma futura mudança?
Viaja na Internet uma “graça” que diz bem o que eu quero exprimir. Mais ou menos assim: o Diabo: “Com a Covid-19 fechei-te as igrejas”; Deus: “Pelo contrário, abri uma em cada casa”. É evidente que eu não quero de maneira nenhuma que as igrejas fiquem definitivamente fechadas, mas para que servem as igrejas-edifício sem a Igreja da fé vivida por cada um dos cristãos e sem as “Igrejas domésticas” em cada casa e família?

Dito o que aí fica, quero prevenis e sublinhar que,  tanto mais quanto ensinei muitos e muitos anos Antropologia Filosófica, não ignoro que o ser humano é um animal simbólico e simbolizante e precisa de símbolos e de rituais. Mas que eles sejam adequados e vivos e belos.

 

A palavra cisma deixou de se ouvir. O inédito de dois papas vivos em simultâneo, com opiniões nem sempre convergentes, vai ser uma polémica esquecida no pós-pandemia ou tudo voltará a ser com dantes?
Em primeiro lugar, quanto aos dois Papas, nada justifica teologicamente que Bento XVI se tenha intitulado Papa emérito. Não há Papas eméritos. O Papa é o bispo de Roma,  ao qual está vinculado o papado, como serviço de unidade da Igreja, na caridade. Só há um Papa, como foi dito até pelo ultraconservador cardeal Gerhard Müller, durante a recente polémica, por causa do cardeal Robert Sarah. Quando deixa de ser Papa, torna-se bispo emérito de Roma. E devia, para evitar confusões e aproveitamentos, deixar o Vaticano e as vestes pontifícias. Como fará, estou convencido disso, o Papa Francisco, se e quando resignar.

Sim, a palavra cisma deixou de se ouvir, pois, no meio desta calamidade que a todos atinge, quem quer ouvir falar nisso? É preciso ir ao essencial e acudir às pessoas em necessidade, também em necessidade espiritual.

 

É uma discussão em quarentena?
Mas não é impossível que, se não houver conversão ao núcleo da fé, esse discurso do cisma volte. Mas digo-lhe: uma Igreja sem conversão ao que é essencial e determinante da fé cristã — o determinante é Jesus Cristo, na vida e na morte —, e que não se recrie segundo esse determinante, na organização, na formulação da doutrina, na liturgia, será uma Igreja cada vez mais museu, que se irá tornando irrelevante, insignificante, no meio da sociedade e da História.

A Igreja assenta em três pilares fundamentais. Em primeiro lugar, a fé, essa entrega confiada a Deus, o Mistério último, Amor incondicional revelado em Jesus Cristo. Essa fé não pode ser irracional, não pode, muito menos, agredir a razão, tem de ser pensada e reflectida e ser capaz de dar razões dela e da esperança. A Igreja tem de ser a multinacional do sentido, do Sentido último. Depois, a fé vive-se na oração, certamente, mas não menos no amor, que se traduz no combate lúcido e corajoso pela justiça, pela dignidade divina de todos, pelos direitos humanos. Aqui, é preciso lembrar que o cristianismo operou várias revoluções, uma delas, essencial: ele transcende a confessionalidade; de facto, como diz o capítulo 25 do Evangelho segundo São Mateus, no Juízo Final, não se perguntará às pessoas, em ordem à salvação, por doutrinas e dogmas, por actos religiosos confessionais (isso não significa, de modo nenhum, menosprezo por eles), mas por aquilo que se fez na ordem aparentemente tão pouco espiritual, religiosa e confessional: “Tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, estava nu e vestiste-me, estava no hospital, na cadeia, e foste ver-me.” E quem assim procedeu não sabia que o outro necessitado é Jesus, o que significa que alguém que até se confessa ateu, mas pratica a justiça e faz o bem, é realmente cristão, e isto é estrondoso. O terceiro pilar são liturgias belas, que celebram festiva e comunitariamente, com alegria, a vida vivida em Deus. Porque Deus não está fora; quem acredita sabe que é em Deus que nos encontramos sempre.  

 

Nos seus livros e ensaios existem preocupações filosóficas, científicas e metafísicas que se debatiam com o mundo como o conhecíamos. Até que ponto esta pandemia o vai obrigar a rever certos pressupostos em que acreditava?
Desculpe talvez a vaidade, mas não me sinto na necessidade de revisões. De facto, nestas circunstâncias que atiram para um sofrimento incrível, a impotência, a morte, talvez o abalo maior possa vir daquele famoso dilema, que já vem de Epicuro: Deus deve ser omnipotente e infinitamente bom. Então porque é que nos abandona e nada faz? Eu já tinha reflectido muitas vezes nisso, mostrando que é falso o pressuposto de que é possível um mundo finito ser infinito, em processo evolutivo e sem choques; não se pode querer a autonomia das realidades terrestres e cósmicas e ao mesmo tempo um Deus intervencionista; nem é compaginável querer a liberdade e ao mesmo tempo um Deus manipulador.

Deus é omnipotente, não no sentido de dominar, mas enquanto Força infinita de criar. Ele é o criador, não se afastou do mundo, está infinitamente presente ao mundo, impulsionando ao bem e como anti-mal, mas respeitando a sua autonomia e a nossa liberdade. E a História está em processo e lê-se do fim para o princípio e o crente espera, com razões, que a última palavra, que ainda não foi dita, será dita por Deus e será uma palavra de misericórdia e salvação para a vida eterna. Evidentemente, o crente não pode dizer que sabe que Deus existe e que há vida para lá da morte. E entende o não crente, concretamente por causa do mal no mundo. Mas o não crente também não pode dizer que sabe que não há Deus e que com a morte acaba tudo. Ele não sabe, crê, e eu entendo as suas razões. Mas o crente também crê, com razões. Pessoalmente, penso que é mais razoável acreditar em Deus e na vida eterna. No próprio acto em que o crente ousa entregar-se, em confiança radical racional, a Deus, o mundo, que se apresenta tão ambíguo, ambivalente  e tantas vezes sem sentido, ilumina-se e torna-se mais razoável, pleno de sentido.

 

Já releu livros de colegas teólogos em que certas questões de que divergia parecem agora ter algum significado?
Não. Mas, salvaguardando sempre o pluralismo na Igreja, pois, como disse São Paulo, “onde está o Espírito de Cristo aí está a liberdade”, e o princípio de que as pessoas estão antes e acima do Código de Direito Canónico, estou de acordo em que, no meio de algum descalabro moral das nossas sociedades, se impõe evitar o perigo de que agora, dentro da infinita misericórdia divina, vale tudo. Como é igualmente necessário prevenir contra a ameaça de alguma anarquia institucional na Igreja.

E é preciso manter sempre o equilíbrio racional, também na análise política, incluindo a economia política e a geoestratégia. É evidente que é necessário denunciar o capitalismo desregrado, que não serve de modo nenhum e que mata, mas também não se pode, depois, de modo nenhum, ser ingénuo quanto às soluções.
Lá está sempre a aliança da bondade e da razão.

 

Acredita que a humanidade ficará diferente após esta crise mundial ou retiraremos poucos ensinamentos? 
Esta crise vem cheia de ensinamentos. Vamos aproveitá-los? Temo que estejamos agora unidos mais pelo medo comum face ao incontrolável (“o indisponível”, de que fala o filósofo Hartmut Rosa) do que pelas lições que esta crise nos traz e que tanto precisávamos de aprender.

Alguns exemplos. Andávamos distraídos do essencial, apressados, pensando que estava tudo sob o nosso controlo, que éramos omnipotentes. De repente, ficámos desorientados e perdidos na nossa fragilidade, expostos ao medo, à morte, caíram sobre nós perguntas essenciais, como: o que é que verdadeiramente vale? qual o sentido da vida? quem somos, o que somos? Os nossos planos caíram, ficámos com imenso tempo, um tempo estranho, parado, vazio, num silêncio de breu. Egoístas, cultores de um individualismo soberano e arrogante, demo-nos de repente conta de que dependemos uns dos outros, que nos podemos contagiar uns aos outros, mas também só uns com os outros nos podemos salvar. E, presos num consumismo voraz e alarve, reparamos agora que precisamos de muito menos para viver bem, é possível viver com menos. E que precisamos de pensar e de meditar. E não somos omnipotentes, não somos Deus, não somos deuses, como lembrava há dias Paulo Rangel, citando o cardeal alemão Reinhard Marx.

 

Pouco mudará, então?
Ficaremos com estes ensinamentos vitais ou, terminada a crise, esqueceremos tudo e voltaremos à vertigem da corrida e da competição, fechando-nos outra vez no individualismo, no consumismo, esquecendo todas as vítimas: por exemplo, todos os dias morrem de fome 24 mil pessoas no mundo e há 215 milhões de crianças no mundo que são vítimas de escravatura, continuarão as guerras, a violência, a exploração, o primado do deus Dinheiro? Tanto mais quanto já está presente e aumentará uma crise terrível económica, social, política. E precisávamos de unir-nos na solidariedade global, mas será que os nacionalismos, populismos, imperialismos invadirão o mundo? Tínhamos tomado consciência de que, por causa do confinamento, o ar era mais puro, havia menos poluição, mas estaremos dispostos a uma real conversão também neste domínio vital da salvaguarda da mãe Terra e da casa comum?

 

Que atitudes sugere?
Precisaríamos de parar, de meditar, de rezar, de ter tempo para nós, para a família, para a beleza, para a contemplação, para a música, para pura e simplesmente fruir do milagre de viver e estar vivo… Mas vamos esquecer e voltar à vertigem da aceleração alienada? Para onde queremos ir, afinal, até que venha outro vírus?

O ser humano é terrivelmente complexo e carente. É por isso que não se aquieta no essencial do ser, e deslumbra-se com o ter. Chamo permanentemente a atenção para a escola, essa palavra mágica que vem do grego scholê, que significa ócio, não o ócio da preguiça, mas o tempo livre para homens e mulheres livres pensarem e governarem a polis. Mas há sempre o perigo do negócio (de nec/otium, negação do ócio), de tudo se tornar negócio, incluindo a política. Esse perigo está aí concretizado e operante. Ora, para os negócios e a técnica, não se pensa – o filósofo Martin Heidegger preveniu: a técnica não pensa —, não se pensa, apenas se calcula, e fica tudo reduzido a cálculos.

 

Perigos não faltarão à humanidade nos próximos tempos?
Sim, há uma série de problemas que são globais, como o armamento atómico, químico e biológico; as questões da ecologia; os mercados; os problemas levantados pelas NBIC (acrónimo de nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas, neurociências), como o transhumanismo, o pós-humanismo, o eugenismo; as migrações… Problemas globais, que precisam de soluções ético-jurídico-políticas globais, no quadro de uma Global Governance (não digo um governo mundial), uma governança global. Ora, de facto, a política é nacional ou, quando muito, regional.  E a nova geoestratégia? E a China?

Aqui, a Igreja Católica, enquanto única instituição verdadeiramente global, poderá, como já ficou dito, em união com as outras Igrejas cristãs e as religiões mundiais, ter um papel decisivo numa Declaração ao mundo sobre as condições de possibilidade de futuro para a Humanidade. Apesar de tudo, pelo menos 80% da Humanidade ainda se confessa religiosa.

 

Em cem anos nunca Fátima fechou as portas aos peregrinos que vêm de todo o mundo para o 13 de Maio como irá verificar-se este ano. Será, finalmente, a vitória da legião anti-Fátima ou um fait-divers no meio de todo o pandemónio global? 
De maneira nenhuma. Não é nem será a vitória dessa legião. Pelo contrário. Para já, impunha-se evidentemente, até por uma questão de bom senso, fechar Fátima e anular a celebração pública do 13 de Maio. Mas, dentro da lógica de Fátima e do que leva milhões de peregrinos a Fátima — Maria é a mãe, a que ouve e entende —, logo que seja possível (quando, não se sabe), as pessoas irão lá em massa, para rezar, para agradecer, para pedir. Exactamente para aquilo que já fazem e independentemente da Igreja oficial. Fátima salta, de algum modo, para fora do controlo do clero. Nunca esqueço que, quando há anos se anunciou, num 13 de Maio, que ia ser “revelado” o terceiro segredo de Fátima, eu, diante da televisão, pensei que toda aquela gente iria ficar especada a ouvir. Mas não. Os peregrinos continuaram na sua devoção e na sua fala íntima com a Mãe. A definição precisa de Fátima foi dada há muito tempo por Frei Bento Domingues: “Fátima é o cais de todas as lágrimas dos portugueses”.

 

Sabe como está a situação financeira dos padres nas paróquias que ficaram sem receber os peditórios?
Não sei, porque não sou pároco. Pareceu-me, por aquilo que ouvi a um colega que é pároco, que vai haver algumas dificuldades, exactamente na medida em que não há os peditórios nem se deu a chamada “côngrua” no compasso da Páscoa. Penso serem essas as duas fontes de receita para o salário dos párocos e para pagar as despesas das igrejas.

De qualquer modo, as suas dificuldades não se assemelharão às de muitas famílias que suponho viverem já em autêntica miséria, inclusivamente queixando-se da falta de possibilidade de alimentar os filhos.

 

Como estão a conviver as outras religiões com estes novos tempos?
Tanto quanto me é dado saber, concretamente os protestantes, os judeus e os muçulmanos têm utilizado também as novas tecnologias para se unir e rezar.

E parece-me que as dificuldades terríveis por que todos passamos têm unido a todos inter-religiosamente. Afinal, indo mais fundo, é mais o que nos une do que o que nos separa. O que nos une é o Mistério, o Sagrado, referente comum de todas as religiões que saibam o que isso quer dizer, e o mandamento de amar o próximo como a nós mesmos, concretamente e sobretudo quando está mais fragilizado e em maior dificuldade. O que nos une é, antes de tudo, a humanidade comum de todos numa casa comum, sabendo que nos salvamos juntos ou nos perdemos todos.
E, dado o prestígio do Papa Francisco, penso que as várias religiões deveriam ser associadas à Declaração comum à Humanidade, atrás referida.

 

Como está a decorrer a sua quarentena? 
Normal. Eu sou um privilegiado. Por vários motivos. Depois de suspender uma série de aulas, conferências e palestras em agenda, continuo a fazer o meu trabalho, de que gosto e que não me falta: ler, estudar, escrever, dar entrevistas. Depois, o Seminário onde vivo tem uma quinta, podendo eu dar passeios, arejar, pensar peripateticamente (a andar…). Três colegas concelebramos todos os dias, mantendo as devidas distâncias sociais, segundo as regras. Há um colega, padre Zacarias Pinho, que é um autêntico provedor e que prevê e provê, não faltando nada do que é essencial. E tenho muitos amigos e amigas que me telefonam ou escrevem (dá-me particular alegria ouvir antigos alunos que, espalhados por muitos lados, até nas ilhas, até em Nova Iorque, que me telefonam a perguntar e a animar) e se oferecem para, se algo for necessário: “Saiba: eu estou aqui, nós estamos aqui”). Também procuro dar ânimo, esperança, confiança, e ouço confidências incríveis.

Durante este tempo já me aconteceu ter de andar em hospitais e fazer na Quinta-Feira Santa, na minha terra (Paus, Resende), o funeral do meu irmão mais velho que faleceu canceroso. É a lei da vida. E oportunidade para a aprofundar a ela e à fé. E perceber melhor e mais intensa e dramaticamente aqueles e aquelas que não puderam sequer despedir-se dos seus entes queridos entretanto falecidos. Por isso é que tenho aconselhado vivamente os párocos e agentes pastorais a comprometerem-se a fazer, quando for possível, uma celebração condigna de homenagem aos que, entretanto, faleceram, também porque é necessário ajudar no luto ainda mais difícil.

  

O que mais o surpreendeu nos últimos dias entre os que o rodeiam ou daquilo que sabe pelas notícias?
Por um lado, a imensa generosidade e criatividade, de tantos no apoio, de todas as maneiras, a quem mais precisa, material ou espiritualmente. Fico comovido.

Por outro, tornou-se-me ainda mais claro que à frente das instituições, também religiosas, não se pode colocar incompetentes, hesitantes, temerosos.
Evidentemente, como já ficou subentendido, não tenho palavras para agradecer a tantos que arriscam até a saúde e a vida para cuidar dos outros em necessidade: médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros, e todos aqueles e aquelas que anonimamente trabalham para que o país funcione minimamente… Os verdadeiros heróis e “santos da porta ao lado”, como diz o Papa Francisco.

 

João Céu e Silva entrevista Anselmo Borges
in Diário de Notícias | 19 de abril de 2020  

O CALVÁRIO DO MUNDO E A SANTA ESPERANÇA

Cristo com a Cruz _ filme de Pasolini.jpg

 

1. Pascal, um dos maiores matemáticos e cristãos de sempre, tinha prevenido nos Pensamentos: “Jesus estará em agonia até ao fim dos tempos. É preciso não dormir.”

Na Paixão de Jesus, estamos todos, pois os figurantes são exactamente os mesmos: Judas que não percebeu Jesus (esperava um messianismo de poder político) e o entregou; os sacerdotes do Templo, Herodes, Pilatos, que o condenaram à morte e morte de cruz; Pedro, o homem generoso, mas que, por cobardia, o negou; os discípulos que, apavorados, fugiram; os soldados que o torturaram, cumprindo ordens; o Cireneu que, embora um pouco forçado, o ajudou; os dois, talvez “terroristas”, que o ladearam na cruz: um continuou a blasfemar, o outro compreendeu e Jesus prometeu-lhe o Paraíso com ele naquele próprio dia; o centurião reconheceu:”Verdadeiramente este homem era Filho de Deus”; as mulheres nunca o abandonaram e ali estiveram em pé. E Jesus, que, no Getsémani sentiu pavor e pediu, em lágrimas e suando sangue, a Deus, seu Pai, que, se fosse possível, o libertasse daquele horror, talvez, transportando a cruz, o tenha assaltado a dúvida: valeu a pena?; morreu, perdoando a todos; sentindo-se abandonado e só, gritou aquela oração que ecoa através dos séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, mas continuando a confiar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.

Contra o aviso de Pascal, não tínhamos estado atentos e adormecemos. E a Semana Santa estava quase exclusivamente centrada em rituais, em procissões gloriosas com esplendor, e em férias esbanjadoras. A cruz de Cristo foi (já não é?) frequentemente ultrajada em cruzes peitorais de ouro, prata, e pérolas preciosas embutidas. E tínhamos continuado a ser réus do Corpo e do Sangue do Senhor, porque enquanto uns comem lautamente e se embebedam outros morrem de fome, como acusou São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios...

Mas, de repente e sem contarmos, com esta pandemia que invade o mundo todo, fomos obrigados a acordar da letargia em que vivíamos e a parar. Como me escreveu, na Quinta-Feira Santa, um grande médico, cireneu lutador no Hospital de São João do Porto, enviando-me “um enorme abraço neste momento quase não-pensável, de um vazio enlouquecedor... e uma dor invisível quanto insuportável”, “há algo de simbólico, de quase premonitório neste tempo da PAIXÃO”. Por isso, eu digo que, com excepção da primeira, talvez nunca tenha havido uma Semana Santa tão verdadeira como a que estamos a viver. É preciso realmente não dormir, pois estamos convocados para reflectir a fundo sobre a primeira Semana Santa dramática, há 2000 anos, tirando todas as consequências dela, exigentes, certamente, mas ao mesmo tempo portadoras da esperança verdadeira para a vida autêntica neste mundo para o futuro da Humanidade, e abrindo para a transcendência da Vida plena em Deus, para lá de todos os horrores.

Por quem é que Jesus foi mandado matar e porquê? Ao contrário do que demasiadas vezes foi proclamado, ele não morreu porque Deus o tenha enviado para, pela sua morte, pagar uma dívida infinita da Humanidade a Deus e, assim, aplacar a Sua ira. Jesus não é vítima de Deus, mas vítima dos homens. Deus não precisa de vítimas. Jesus é mandado assassinar precisamente porque o Deus que ele anuncia não quer vítimas, e há demasiadas vítimas no mundo.

Jesus fez uma experiência avassaladora de Deus, o Mistério Sagrado, Pai-Mãe, Amor incondicional para com todos, a começar pelos mais frágeis e abandonados, as vítimas da injustiça e de sistemas opressores. Assim, como consequência, anunciou, por palavras e obras, o Reino de Deus, aquele Reino no qual não há opressão nem injustiça, Reino do amor, da justiça e da paz. Por isso, opôs-se à religião do Templo e à imagem do Deus em nome do qual os sacerdotes, os fariseus e os doutores da Lei oprimiam o povo. Jesus ergueu-se contra a Lei, mostrando que o mais importante é a pessoa na sua dignidade divina, todas as pessoas sem excepção, e curava doentes ao Sábado, dia absolutamente sagrado, comia com pecadores, prostitutas, publicanos... E proclamava: “Ide aprender: Deus não quer sacrifícios, mas justiça e misericórdia.” Evidentemente, a classe sacerdotal e os doutores da Lei viram os seus privilégios e interesses em perigo, ameaçados, e, por isso, condenaram-no.

A sua doutrina e as suas obras, embora ele nunca quisesse tomar o poder político — disse que tinha vindo para “servir, não para ser servido” —, colocavam igualmente em causa os interesses imperiais de Roma e, por isso, o representante do Império, Pôncio Pilatos, condenou-o à morte, mandando que fosse crucificado.

Jesus acabou por ser morto como blasfemo religioso e subversivo social e político, dando testemunho da Verdade e do Amor e proclamando que Deus não quer mais crucificados.

É isso: andávamos apressados, distraídos, adormecidos. É tempo de ir ao essencial. Neste drama, sempre presente, mas agora de forma brutal, paroxística, qual tem sido o nosso papel e que papel queremos desempenhar? A Igreja, concretamente, terá de recentrar-se, porque tem de saber que o centro não é de modo nenhum o poder, rituais imperiais, mitras e barretes cardinalícios, mas apenas o serviço a favor de todos. Muitos perguntam agora: Onde está Deus? Jesus respondeu que no Juízo Final não nos será perguntado pelo ritual, mas pelo amor, concretizado no que fizermos aos outros, nomeadamente aos desgraçados: “Tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, estava nu (nu de vestido, de honra, de dignidade...) e vestiste-me, estava no hospital, na cadeia, e foste visitar-me”. Perguntaremos: “Quando te fizemos (ou não fizemos) isso, Senhor?”. “Sempre que o fizeste a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizeste”. Ele, ela, sou eu.

Onde está Deus hoje, no meio desta catástrofe? Está nos hospitais, nos lares, nas casas, nas empresas..., em todos os crucificados e naqueles e naquelas que, mesmo no meio de perigos e até correndo o risco de morte, procuram por todos os meios curar, dar alento, aliviar a dor, dar esperança, brincar com as crianças, animar e alegrar os outros com um telefonema, com música, consolar os tristes e mais idosos, pôr o país a funcionar minimamente... Esses são “os santos da porta ao lado”, como disse o Papa Francisco.

 

2. “E dando um grito forte, Jesus expirou”, diz o Evangelho.

A morte é sempre paradoxal: ela é biologicamente natural, faz parte da vida, mas, por outro lado, apresenta-se-nos como o maior enigma e mistério. Porquê? Porque o ser humano não se reduz a biologia. Por isso, na longa história da evolução (13.700 milhões de anos), sabemos que há pessoa humana, quando surgem a consciência da morte e rituais funerários. Aí, sabemos que já não estamos perante algo, mas alguém. E a morte angustia-nos, porque é o confronto com a ameaça do nada. “Para onde é que eu irei, quando cá já não estiver?”: pergunta lancinantemente Tolstoi em A morte de Ivan Ilitch. Como é que alguém se pode tornar ninguém, coisa que apodrece?

No presente pesadelo pandémico até a morte se torna ainda mais pesada. Na Quinta-Feira Santa, celebrei na minha terra o funeral de um irmão meu, falecido na Terça no hospital com cancro. Não poder haver uma despedida condigna, com tempo, porque até o ritual tem de ser distante, parco e apressado, não se poder chorar agarrado a alguém que também chora, não se poder abraçar, beijar, termos de parecer indiferentes uns aos outros, num vazio plúmbeo e silêncio de breu — isso pode ser, é mesmo, profundamente desolador. Para não falar daquela cena na Itália, que poderá repetir-se noutros lugares, arrasadora, de uma marcha lenta de camiões transportando, empilhados, os caixões de tantos mortos. Para onde se encaminhava a marcha? E volta, mais intensa, densa e dramática, para não dizer trágica, a pergunta: para onde vão os mortos?

Para a eternidade vamos: a eternidade do nada ou a eternidade do Deus criador e salvador.

É aqui, nesta perplexidade de abismo, que se trava o combate decisivo da fé e da esperança. Outra vez Pascal: “Incompreensível que Deus exista e incompreensível que não exista; que a alma seja com o corpo, que não tenhamos alma; que o mundo seja criado, que o não seja, etc.”. Mas continuamos a perguntar, sem fim, como Heinrich Heine: “E continuamos perguntando,/uma e outra vez,/até que um punhado de terra/nos cale a boca./Mas isto é uma resposta?”

E Jesus? Ele é o Crucificado, morreu na cruz. Mas, se ele fosse apenas o crucificado, não passaria de um homem bom que quis revolucionar a imagem de Deus e do Homem, mas não passaria de mais um crucificado e não haveria cristianismo. “Eu sou a Ressurreição e a Vida”: foi por causa desta proclamação que o cristianismo venceu, disse-me um dia o filósofo ateu, mas religioso, Ernst Bloch. E lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A Figura Histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Conclui, como ficou dito, que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas também sabemos que, “depois da sua morte, seguidores fizeram a experiência do que descreveram como ‘ressurreição’: aquele que tinha morrido realmente apareceu como ‘pessoa viva, mas transformada’. Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso.” Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a História. Grande parte da Humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta de Vida eterna.

Por mim, faço minha a confissão de fé do teólogo Hans Küng, o teólogo considerado rebelde. Recentemente, uma irmã perguntou-lhe: “Acreditas realmente na vida depois da morte?” E ele: “Sim, respondi com convicção. Não porque tenha demonstrado racionalmente essa vida depois da morte, mas porque mantive a confiança racional em Deus e porque na confiança no Deus eterno também posso confiar na minha própria vida eterna. Devo ou não ter esperança em algo que seja a ultimidade de tudo? Uma vida eterna, um descanso eterno, uma felicidade eterna? Isso é problema da confiança, mas de modo nenhum de uma confiança irracional, mas de uma confiança responsável. É irracional a confiança em Deus? Não. A mim parece-me a coisa mais racional de tudo quanto o ser humano pode ser capaz. O que me parece absurdo é pensar que o ser humano morre para o nada. A passagem à morte e a própria morte são apenas estações a que se segue um novo futuro. A vida é mais forte do que a morte e o ser humano morre entrando na Realidade primeira e última, inconcebível e inabarcável, que não é o nada, mas sim a Realidade mais real. Vita mutatur, non tollitur: a vida transforma-se, não acaba. Eu defendo uma fé cristã em Deus e na vida eterna. Sem Deus, a fé na vida eterna não teria razões, careceria de fundamento. E vice-versa: a fé em Deus sem fé na vida eterna careceria de consequências, não teria um objectivo”.

Permita-se-me, neste contexto, deixar aqui as palavras que pronunciei no funeral do meu irmão, diante do caixão aberto: “O meu irmão acreditou sempre em Deus, no Deus que é Amor, Pai-Mãe, como nos foi revelado por Jesus, na sua pessoa, por palavras e obras. O meu irmão entregou a sua vida ao anúncio do Evangelho, a mensagem boa e felicitante de Jesus, e fê-lo por palavras, obras e atitudes. O meu irmão não está aí morto. Nem sequer se pode propriamente dizer que partiu para Deus. Na morte, o meu irmão tomou consciência plena de que foi em Deus que sempre existiu e é, como foi anunciar São Paulo a Atenas: ‘É n’Ele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos’. Assim, o meu irmão nunca esteve tão vivo nem nunca foi tão feliz.” Como é ninguém sabe.

É esta “a Santa Esperança”, como lhe chamou Charles Péguy.

Boa Páscoa para todos!

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 ABR 2020

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Noites insones me vão oferecendo tempos de leitura que, deixando-me cair na tentação de viajar no tempo e no espaço, vou cedendo à novelística e poesia japonesa. Há um qualquer mistério de mim, mesmo para mim, nessa contemplação, ou espiritual comprazimento, de visões nipónicas... Por estranhas e distantes que sejam as suas origens, misturam-se-me cá dentro, sinto-me assim como o lado de lá daquele pântano japonês de que fala o Shusako Endo e tudo digere e recria... Nesta noite de longa vigília que tarde acabou, muito longamente penseissenti este haiku de Yamaguchi  Seishi, poeta nascido no início do século passado (1901), primeiro de uma série inspirada por visita aos túmulos imperiais de Mukden:

 

                     Ryo samuku
                     Jitsugetsu sora ni
                     Terashiau

 

   Versos de 5, 7, 5 sílabas que, a meu livre jeito, assim traduzo:

 

                     Gélidas tumbas:
                     no alto céu, sol e lua 
                     se contemplam

 

   Inexorável, a morte de humanos deixa indiferentes os astros. De nada valerão, a reis e imperadores, os monumentais túmulos que pretendiam abriga-los. Mas, ao recordar nestes dias tantos familiares e amigos que, há bem pouco, repentinamente, deixei de poder ver fora da saudade, e ainda tanta, tanta, gente que, só por andar na rua e falar a outros, é surpreendida pela morte, reencontro a sageza de São João Evangelista neste trecho do seu evangelho que segue o sinal deixado pela ressurreição de Lázaro:

 

   Então, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus reuniram conselho e disseram: «Que havemos de fazer, uma vez que este homem realiza tantos milagres? Se o deixarmos continuar assim, todos acreditarão nele, e virão os romanos destruir o nosso lugar santo e toda a nação.» Então, Caifás, que era sumo sacerdote naquele ano, disse-lhes: «Vós não sabeis nada: não compreendeis que é melhor morrer um só homem pelo povo do que perecer a nação inteira?» Não disse isto por si próprio, mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação, e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos. A partir desse dia, decidiram matar Jesus.

 

   Já por várias vezes te disse, e escrevi em cartas anteriores, que nenhum de nós - dos que por cá vamos andando - tem qualquer experiência da morte. Nem pode ter. A morte de cada um é sua própria, única, inexorável e irrepetível. Apenas podemos ter - e tantas vezes temos - a experiência da dor que a morte de outros nos causa. Até o evangelho nos diz que, ainda que consciente da sua própria morte, e ciente do modo e circunstância em que ela lhe viria, o mesmo Jesus, pouco antes, choraria sentidamente a morte de Lázaro, seu amigo. E todavia  sabia que o iria ressuscitar, em sinal inequívoco do poder de Deus Pai. Mas em sinal, também, de que a sua misericórdia não é o entreolhar do sol e da lua, nem se comove pela monumentalidade dos depósitos fúnebres. Antes será movida pela dor verdadeira de que perde um amigo.

 

   A narrativa da ressurreição de Lázaro e sua circunstância, feita no Evangelho segundo João, mexe nesse ponto tão misterioso e profundo da nossa humanidade. O trecho do capítulo 11, que acima te transcrevo, dá-lhe outra continuidade: a justificação que dá Caifás para que Jesus seja sacrificado (impõe-se que um homem só morra pelo povo) é mais do que simples argumento de uma razão de Estado. De certo modo, afinal, leva facetas gnósticas daquele evangelista a mergulhar as suas raízes na tradição profética do judaísmo, destituindo ainda esta de carácter nacionalista, para lhe conferir uma vocação universal. A morte e ressurreição de Jesus Cristo não salvará apenas a nação de Israel, mas redimirá a humanidade inteira. Deus Pai não é indiferente ao destino de todos nós.

  

   Talvez para nos levar a meditar sobre isto, a liturgia da Igreja Católica nos proponha a proclamação desse passo do evangelho no 5.º sábado da quaresma, na véspera de Domingo de Ramos, festa da aclamação triunfal de Jesus pelo povo de Jerusalém, a abrir a Semana Maior, ou Santa, esta que terminará no silêncio sepulcral de Sábado Santo, dia de luto absoluto e sem celebrações, depois da memória da Paixão e Morte do Senhor, celebrada em Quinta e Sexta-Feira Santa, e já anunciada e relatada pelo texto de um dos evangelhos sinópticos em Domingo de Ramos. Este ano coube a vez a São Mateus, o que me serviu de convite para uma comovida e atenta escuta do correspondente auto musical de Johann Sebastian Bach. [E sempre me lembro da primeira vez que ouvi a peça, que coincidiu com a minha primeira ida ao Teatro de S. Carlos, em Lisboa, teria eu uns nove ou de anos... Desde então, repito a sua audição anual, seguida, no silêncio de Sábado próximo, da Paixão Segundo São João, do mesmo compositor. E fica-me uma impressão de visita onírica a uma história e um mundo reais, com alguns apontamentos psicológicos que me fazem refletir no paradoxo da nossa condição humana, como, por exemplo, nas diferentes formas de cobardia, de autoavaliação, de arrependimento, de justificação ou de desespero, como nos dramas pessoais de Pedro-que-negou-três-vezes, Pilatos-que-lavou-as-mãos, Judas-que-se-enforcou.]

 

   O que se chama de Mistério Pascal seduz-me desde a infância, quiçá não tanto pela irrupção de um poder divino, como muito mais pela humanidade do encontro de Deus. E não só frequentemente me ocorrem imagens do acolhimento do Pai ao filho pródigo - até já te escrevi um dia que, ao contemplá-las, tanto vejo o filho arrependido como o Pai que também pede perdão- mas calam-se-me bem no fundo do coração essas palavras de São Paulo aos filipenses que lemos na missa de Ramos: Cristo Jesusque era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo. Assumindo a condição de servo, tornou-se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte na cruz.

 

   [A versão portuguesa deste passo do evangelho que consta dos lecionários e missais em uso, tal como a das traduções diretas do grego, quer a de Frederico Lourenço, quer a do cónego José Falcão, dizem todas morte de cruz. Arrepio-me sempre que assim leio ou ouço, ocorre-me a expressão assinar de cruz. Bem sei que se trata da versão literal do genitivo grego que, aliás, na vulgata latina reza assim: Humiliavit semetipsum, factos obediens usque ad mortem, mortem autem crucis. E nessas línguas clássicas, tal genitivo não me surpreende nem aborrece. Mas em português, não só me soa muito mal, como nunca entendo porque não hão de tais textos recordar que sempre dizemos: Jesus Cristo morreu na cruz. Qualquer tradução deve encontrar a forma idiomática mais autêntica, isto é, procurar comunicar, mais do que reproduzir literalmente um original.]

 

   Os textos evangélicos buscam, afinal, o verdadeiro pensarsentir de cada um de nós. As suas narrativas trazem-nos a perceção de acontecimentos históricos conservada e cultivada nas memórias e pelas sensibilidades diversas de comunidades coevas ou próximas do tempo de Jesus. Por isso mesmo nos levam sempre a comunhões na esperança e no amor e, simultaneamente à renovação perene, interrogativa e incansavelmente descobridora da fé alimentada por sucessivas gerações de crentes. A cristandade é, tal como o Filho do Pai, que lhe deu o seu nome de Cristo, uma humanidade histórica. O cristianismo não é alguma abstração: é a procura incessante da prática do amor fraterno.

 

   Dizemos que é tácito algo que não se manifesta e permanece calado. Tácito era o nome de um historiador romano do tempo do imperador Tibério e dos primeiros cristãos, que muito pouco ou quase nada escreveu dos mesmos cristãos. Dele te falarei, Princesa de mim, na próxima carta. 

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

tumulo de cristo vazio.jpg

 

                    Minha Princesa de mim:

 

   Ao ler hoje, como é meu hábito diário, pela manhã nascente, o trecho do Evangelho proposto para o dia, comovi-me profundamente, como quase sempre me acontece ao silenciosamente entrar no texto de São João, pois que assim se nomeia o suposto autor do quarto evangelho, bem distinto dos três sinópticos, escrito provavelmente já na primeira década do século segundo, por alguém que não se cruzou pessoalmente com Jesus Nazareno. Este magnífico testemunho da vida adulta e do ensino, paixão, morte e ressurreição de Cristo aponta assim, nos dois últimos versículos (24 e 25) do seu capítulo final, o seu autor : Este é o discípulo que testemunhou estas coisas e as escreveu. E sabemos que o testemunho dele é verdadeiro. São muitas as outras coisas que Jesus fez, que, se fossem escritas uma a uma, não penso que o mundo tivesse espaço para tantos livros escritos. Mas, mais do que concluir daí a sua atribuição a redator contemporâneo de Jesus, designadamente João, filho de Zebedeu e pescador quiçá analfabeto e certamente ignorante da língua grega escrita, poderá talvez deduzir-se que o texto é, de facto, o registo posterior de memórias de uma comunidade cristã formada à volta de um João. Registo tal que, aliás, se terá elaborado por uma construção teológica dessa tradição de fé. Mas, Princesa de mim, remeto-te para a consulta da nota introdutória ao Evangelho de João, incluída pelo Prof. Frederico Lourenço na edição da sua tradução portuguesa (que aqui utilizamos) pela Quetzal (Lisboa, 2016). Nesta carta, só quero reproduzir o trecho que tanto me comoveu:

   Depois de ter lavado os pés deles, pegou na sua roupa e voltou a reclinar-se à mesa. Disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me "o Mestre" e "o Senhor" e dizeis bem. Sou de facto. Se eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós vos deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos um exemplo para que, tal como eu fiz, façais vós também. Amém, Amém vos digo, o escravo não é maior do que o amo dele, nem um apóstolo é maior do que Aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem aventurados sois se as fizerdes.
   Este trecho do capítulo 13 é como um prefácio à maravilhosa súmula da verdade cristã, que Jesus amorosamente nos dá, como João regista nos versículos 9 a 17 do capítulo 14, passo marcante do seu discurso de despedida, antes de partir, pela via crucis, a caminho da Paixão que o aguarda e lemos descrita pelo mesmo João em Sexta Feira Santa :

   Tal como me amou o Pai, assim eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, tal como eu observo os mandamentos de meu Pai e permaneço no amor d´Ele. Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria se complete. Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros tal como eu vos amei. Ninguém possui maior amor do que este, que alguém dê a vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos se fizerdes as coisas que vos mando. Nunca vos chamo escravos, porque o escravo não sabe o que faz o seu amo. Chamo-vos amigos, porque todas as coisas que ouvi do meu Pai vos dei a conhecer. Não fostes vós que me escolheste mas eu que vos escolhi e vos estabeleci, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça, para que aquilo que pedirdes ao Pai em meu nome ele vos dê. As coisas que vos mando são que vos ameis uns aos outros.

   Mas foi hoje mais funda a minha emoção, pela circunstância difícil que estamos vivendo, e sobretudo pelo muito que ela tem movido o meu modo de pensarsentir a realidade humana, não só dos que muito sofrem, mas também de tantos e tantos que, generosamente, se vão oferecendo e esforçando para a todos trazerem um apoio, um alívio, um amigo, um aconchego, a nossa humanidade comum. Nem todos, talvez nem muitos, sejam cristãos confessos ou sequer crentes simplesmente. São apenas seres humanos livres que, pela singela consciência do ser antiquíssimo que todos somos na comunhão da nossa condição, vão distribuindo essa graça de frutos que em cada um permanecem, como lembrança, esperança e promessa de comunidade em amor. 

   A leitura que qualquer cristão faça dos capítulos 13 a 17 do evangelho de João nunca poderá ser sectária, nem sequer clubista. A mensagem ali contida só pode ser entendida à luz do versículo que afirma: Na casa de meu Pai há muitas moradas (Jo.14, 2). No seu Christian Beginnings: from Nazareth to Nicea, 30 a 325 DC (Penguin, 2013) Geza Vermes, professor de Estudos Judaicos na Universidade de Oxford, judeu de origem húngara, que estudou em Budapeste e Lovaina e passou por um período católico (creio que até foi padre jesuíta), falando do cristianismo joanino, escreve: Jesus o Filho, ou o Filho de Deus: é o título de Filho e não o de Messias que mais acertadamente descreve o Jesus joanino. E mais adiante diz: Na perspetiva religiosa do Quarto Evangelho, o Filho é enviado por Deus Pai, não como juiz final, mas como dispensador de vida. E o próprio Geza Vermes faz questão em recordar de que vida se trata, citando outro passo de João (17, 22-24): E eu dei-lhes a glória que Tu me deste para que sejam um, tal como nós somos um. Eu estou neles e Tu em mim, para que eles atinjam a completude em um, para que o mundo saiba que Tu me enviaste e os amaste tal como me amaste a mim. Pai, aqueles que me deste, quero que estejam também comigo onde eu estiver, para que contemplem a minha glória, que Tu me deste, porque me amaste antes da fundação do mundo... Daí que o professor oxoniano ouse dizer que, além da redenção da humanidade do pecado, o propósito da Incarnação do Filho é a deificação dos humanos.

   Em Sexta e Sábado Santos, fui sobretudo escutando, a meditar nos textos, as "Paixões" segundo Bach (S. Mateus, S. João e... S. Marcos, sim, quase desconhecida). A última estrofe cantada pelo coro de Marcos reza assim:

 

               Bei deinem Grab und Leichenstein,
               Will Ich mich stetes, mein Jesu, weiden,
               Und über dein verdienstlich Leiden
               Von Herzen froh un dankbar sein.

 

   Traduzo assim, acrescentando também os últimos quatro versos: "Junto da tua tumba e sua pedra
                                                                                                              para sempre quero ficar, ó meu Jesus!
                                                                                                              E graças à tua admirável Paixão
                                                                                                              estar de coração alegre e reconhecido
                                                                                                              e teu será este epitáfio:
                                                                                                              Da tua morte nasce a minha vida,
                                                                                                              aqui jaz a angústia dos meus pecados,
                                                                                                              que com Jesus aqui mesmo sepultei".

 

   Sobre a noite que vai caindo em dia de Sábado Santo se ergue a luz alegre das vestes de um anjo do Senhor que, rolando a pedra que fechava o túmulo, se senta em cima dela, diz às mulheres: Não temais. Sei que procurais Jesus, o crucificado. Não está aqui, pois ressuscitou, tal como afirmou.

   E em comunhão com todos, sobretudo aqueles que com pandemias se defrontam, pensossinto comigo que um dia será completa a nossa alegria. Seja já nossa essa semente da Páscoa de hoje.

 

            Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

QUERIDA AMAZÓNIA

 

Na sequência do Sínodo sobre a Amazónia, que se realizou em Roma de 6 a 27 de Outubro do ano transacto, Francisco publicou, no passado dia 2 de Fevereiro, uma Exortação Apostólica Pós-Sinodal, a que deu o título “Querida Amazónia”.

 

Nela, formula quatro grandes sonhos: 1. O sonho de “uma Amazónia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e a sua dignidade promovida.” 2. O sonho de “uma Amazónia que preserve a riqueza cultural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana.” 3. O sonho de “uma Amazónia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas.” 4. O sonho de “comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazónia que dêem à Igreja rostos novos com traços amazónicos.”

 

E explicita e concretiza os sonhos:

 

1. Um sonho social. Impõe-se a indignação e um grito profético a favor dos mais pobres e explorados, contra os interesses colonizadores, antigos e presentes, que lucram “à custa da pobreza da maioria e da depredação sem escrúpulos das riquezas naturais da região” e dos seus povos. “Os povos nativos viram muitas vezes, impotentes, a destruição do ambiente natural que lhes permitia alimentar-se, curar-se, sobreviver e conservar um estilo de vida e uma cultura que lhes dava identidade e sentido.” Danificar a Amazónia, não respeitar o direito dos povos nativos ao território e à autodeterminação tem um nome: “injustiça e crime”.

 

2. Um sonho cultural. É preciso assumir e defender os direitos dos povos e das suas culturas. Não se pode destruir a cultura dos povos, pois ela faz parte da identidade. Destruí-la conduz à desintegração. Não se pode continuar a considerar esses povos como “selvagens não-civilizados”. Por isso, “o objectivo é promover a Amazónia; isto, porém, não implica colonizá-la culturalmente, mas fazer de modo que ela própria aproveite o melhor de si mesma.” Sentido da melhor obra educativa: “cultivar sem desenraizar, fazer crescer sem enfraquecer a identidade, promover sem invadir.”

 

3. Um sonho ecológico. Para entender melhor o pensamento de Francisco, valerá a pena ir ao étimo das palavras, pois ecologia, economia e ética estão em relação e interpenetram-se, em conexão com casa. Assim: ecologia tem o oikos grego que significa casa (portanto, tratado da casa), como economia, de oikos, casa, e nómos, lei (portanto, governo da casa) e ética, de êthos, morada (portanto, como devemos agir para habitarmos a nossa casa autêntica, sermos verdadeiramente nós).

 

Assim, percebe-se o conceito de “ecologia integral”: a ecologia da natureza exige uma ecologia humana e uma ecologia social. “Se o cuidado das pessoas e o cuidado dos ecossistemas são inseparáveis, isto torna-se particularmente significativo lá onde a floresta não é um recurso para explorar, é um ser ou vários seres com os quais se relacionar.” Daí, uma ética do cuidado pela Mãe Terra, pela casa comum, tanto mais quanto já compreendemos que, por exemplo, o que nós chamamos alterações climáticas para os mais pobres é fome: o clamor da natureza é ao mesmo tempo o clamor dos mais pobres. A conclusão só pode ser: se o equilíbrio da terra também depende da Amazónia, “o interesse de algumas empresas poderosas não deveria ser colocado acima do bem da Amazónia e da Humanidade inteira.” Os projectos económicos internacionais de indústrias extractivas, energéticas, madeireiras e outras que destroem e poluem não podem ignorar os seus efeitos ambientais deletérios. “Além disso, a água, que abunda na Amazónia, é um bem essencial para a sobrevivência humana.”

 

Impõe-se, pois, mudar de paradigma, o que significa também libertar-se do “paradigma tecnocrático e consumista que sufoca a natureza e nos deixa sem uma existência verdadeiramente digna.” Esta mudança exige, por sua vez, outro tipo de educação: “Não haverá uma ecologia sã e sustentável, capaz de transformar seja o que for, se não mudarem as pessoas, se não forem incentivadas a adoptar outro estilo de vida, menos voraz, mais sereno, mais respeitador, menos ansioso, mais fraterno.”

 

4. Um sonho eclesial. Muitas vezes me perguntei como seria visto e dito o cristianismo, se ele, nascido dentro da cultura bíblica, em vez de ter, imediatamente a seguir, passado para a cultura helenista, sendo nela sobretudo que a doutrina foi reflectida e dogmatizada, tivesse passado, por exemplo, para a Índia ou para a China. Seria certamente a mesma fé cristã, mas dita e reflectida noutra linguagem e com outros conceitos. Pergunte-se, por exemplo: quando hoje se confessa o Credo e se diz, referido a Jesus: “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, ou se diz: “creio na ressurreição da carne”, ou “desceu aos infernos”, em que pensarão as pessoas que já não vivem nem pensam no contexto helenista ou bíblico?

 

Isto, para dizer a importância da linguagem e da cultura e da necessidade da inculturação: a mesma fé precisa de ser vivida e dita dentro de culturas diferentes, o que implica também outros símbolos e rituais nas celebrações litúrgicas. Neste sentido, porque é que em todas as culturas se há-de celebrar a Eucaristia com pão e vinho e não com os elementos próprios das respectivas sociedades e culturas?

 

Francisco é muito sensível à inculturação e isso está claro no seu sonho eclesial: inculturação social e espiritual, inculturação da liturgia, inculturação do ministério.

 

4.1. A unanimidade no coro de louvores quanto aos três primeiros sonhos não se repetiu quanto ao sonho eclesial, pois ele foi para muitos uma decepção, afirmando-se mesmo que constituiu um erro, já que se perdeu uma oportunidade histórica. De facto, no documento final do Sínodo, ficaram, com a votação positiva de mais de dois terços, pedidos para que houvesse a possibilidade da ordenação de homens casados e do diaconado feminino. Contra todas as expectativas, esses dois temas foram ignorados na Exortação “Querida Amazónia”.

 

4.2. Jesus não pertencia à classe sacerdotal, não era sacerdote no sentido clerical. Não consta que tenha ordenado alguém sacerdote “in sacris”. Na Carta de São Pedro, lê-se que os cristãos são todos sacerdotes pelo baptismo, povo sacerdotal. Nas primeiras comunidades, houve inclusivamente mulheres que presidiram à celebração da Eucaristia...

 

Neste quadro, há teólogos que pensam, com razão, que, em caso de necessidade, uma vez que a Eucaristia é fonte e cume de toda a vida cristã como disse o Concílio Vaticano II, quando não há um padre ordenado — é esta a situação da Amazónia, onde as comunidades podem passar mais de um ano sem a presença de um padre —, as comunidades poderão celebrar validamente a Eucaristia, sem a presença do padre. Significativamente, o Concílio Vaticano II evitou a expressão, referida ao padre, de “alter Christus” (outro Cristo).

 

Ainda neste sentido, houve, em pleno Sínodo de Outubro, o testemunho de uma religiosa, a espanhola Alba Teresa Cediel — uma das 35 mulheres que participaram no Sínodo, com voz, embora sem poder votar —, a dizer que as mulheres “acompanhamos os indígenas nos diferentes eventos, quando o sacerdote não pode estar presente e se é preciso um baptismo, baptizamos, se alguém quer casar, nós estamos presentes e somos testemunhas desse amor, e muitas vezes acontece ouvir em confissão, mas não demos a absolvição, mas...”. Neste contexto, é teologicamente legítimo perguntar: porque é que não dão a absolvição? No Evangelho segundo São João está escrito que Jesus disse: “a quem perdoardes os pecados serão perdoados...” Disse a quem? Não foi aos Apóstolos, foi aos discípulos (oi mathetai).

 

De qualquer modo, nos números 87 e 88 da Exortação, Francisco veio lembrar que só o sacerdote, “mediante a Ordem sacra”, tem o poder, “que não se pode delegar”, de presidir à Eucaristia — só ele pode dizer: “Isto é o meu corpo” —, e “há outras palavras que só ele pode pronunciar: “Eu te absolvo dos teus pecados”. Evidentemente, nestas circunstâncias, uma vez que também reconhece, como não podia deixar de ser, que “a Eucaristia faz a Igreja” e “nenhuma comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na celebração da Santíssima Eucaristia”, acentua-se e ergue-se ainda mais gritante a pergunta: Porque é que Francisco não abriu a porta à ordenação de homens casados?

 

Outra pergunta decisiva: a última palavra está dita ou, pelo contrário, vem aí o que poderá ser o início da verdadeira revolução para Igreja, a partir de Francisco?

 

É o que vamos ver na crónica da próxima semana.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 MAR 2020

O SAGRADO E SUAS CONFIGURAÇÕES. 2

 

Dou continuação à crónica da semana passada.

 

A pessoa religiosa refere-se sempre ao Sagrado, à Ultimidade, que, pela sua própria definição, não pode alcançar, menos ainda, dominar ou possuir. Percebe-se, pois, que o Sagrado seja figurado e representado de múltiplas formas.  

 

1. Uma das figuras ou representações é a de o Ser supremo. Aparece, portanto, como o Deus celeste, criador e senhor das criaturas.

 

2. Quanto ao politeísmo (vários deuses e deusas), houve quem o interpretasse como uma degenerescência ou queda do monoteísmo. De facto, é preciso saber que o monoteísmo em sentido estrito é recente, mas isso não significa que haja religiões propriamente politeístas. Penso que o politeísmo é sobretudo a atribuição da Força divina originária a várias divindades, que aparecem como suas “personificações”. Atente-se, por exemplo, no politeísmo grego e romano, talvez os mais conhecidos.

 

3. No quadro de tentativas de compreensão do mal, surgiram representações dualistas – pense-se no mazdeísmo, gnosticismo e maniqueísmo. Mas dificilmente se poderá dizer que haja um verdadeiro dualismo no sentido de dois princípios simétricos e supremos. Pode é dar-se uma espécie de luta no interior do Uno, com expressão no mundo e na História, que seriam a continuação desse combate a caminho da reconciliação e da vitória do Bem. No fim, o Bem triunfará.

 

4. O monismo – pense-se em certas formas de hinduísmo e no budismo – acentua a unidade, o Uno, o Absoluto, Brahman. Este acento no Sagrado como absoluto leva a considerá-lo como realidade única, de que os outros seres, especialmente o ser humano, não são senão expressões e manifestações. Precisamente a plenitude do Absoluto tenderá, por um lado, a sublinhar a unidade, mas, por outro, corre o risco da diluição da dimensão pessoal.

 

5. O monoteísmo, enquanto figuração do Sagrado como um só Deus, transcendente, pessoal e criador, é, na história das religiões, bastante recente (séculos VII-VI a.C.), podendo afirmar-se que só alcançou expressão no tempo do exílio dos judeus na Babilónia e constitui a grande herança do judaísmo ao mundo. Como escreveu J. Gómez Caffarena, a experiência negativa de submissão ao Império babilónico, com a destruição (ano 587 a.C.) do templo de Salomão e a deportação para a Babilónia, “foi, paradoxalmente, positiva para o monoteísmo javista, que alcançou nesse tempo plena expressão (sobretudo nos escritores ‘deuteronomistas’ e no grande profeta do exílio que anunciou o regresso e cujos textos formam os capítulos 40-55 do livro de Isaías, pelo que se costuma chamar ‘segundo Isaías’). Foi chave para a abertura de um horizonte universal, exigida logicamente pela unicidade de Deus proclamada pelo monoteísmo, que implicava a superação (relativa) do particularismo etnicista inerente às ideias de eleição e ‘aliança’”.

 

Neste contexto, poderá dizer-se, a título de conclusão, que, no panorama da história das religiões, analisando a lógica da sua evolução e o que estruturalmente as une, desde a pré-história até ao presente, as duas opções religiosas fundamentais são, segundo a tese de K.-H. Ohlig, o monismo e o monoteísmo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 MAR 2020

O SAGRADO E SUAS CONFIGURAÇÕES. 1

 

Como ficou dito em crónicas anteriores, o Sagrado é o referente último de todas as religiões, o mistério da realidade na sua ultimidade. É o Sagrado ou o Mistério pura e simplesmente. É o Inominável, pois transcende sempre tudo quanto se possa pensar ou dizer dele. Nenhuma religião o possui nem mesmo as religiões todas juntas.

 

Na experiência do Sagrado, fonte de sentido último, salvação e felicidade, o Homem está sempre em presença de algo outro e superior, “o tremendo e fascinante”, o Absoluto, inabarcável, inacessível e inefável.

 

Esta superioridade do Sagrado manifesta-se em níveis diferentes: o ontológico – infinita riqueza de ser –, o axiológico – realidade sumamente valiosa. Assim, comporta “uma ruptura de nível que aponta para a plenitude de ser e realidade por excelência” (J. Sahagún Lucas).

 

Sendo o Inominável, procurou-se, ao longo da História, nomeá-lo. Numa obra recente, Después de Dios..., o teólogo José Ignacio González Faus apresentou várias tentativas, com muitos nomes. Os Upanishades referem-se a ele como “O Incondicionado”; as filosofias mais racionalistas designam-no como “O Absoluto”; Santo Tomás de Aquino disse que o seu melhor nome é precisamente “O Inominável”; Tierno Galván, “a partir do seu agnosticismo despreocupado pelo tema”, designa-o por vezes como “O Fundamento”; Karl Rahner, o maior teólogo católico do século XX, fala dele precisamente como “O Mistério”; Rudolf Otto, autor da obra famosa “Das Heilige”, fala dele precisamente como “O Santo”, “O Sagrado”; Platão referia-se a ele como “a ideia do Bem”, mas é necessário notar que Platão chama ideia à verdadeira realidade, contraposta às sombras, sendo assim o Sagrado o Sumo Bem; Aristóteles designou-o como “O Motor Imóvel”, com o sentido de que, no meio de todas as mudanças, é necessário algum “ponto de referência firme”; mesmo o famoso tetragrama hebraico YHVH, letras impronunciáveis, não é um nome próprio, mas “uma resposta evasiva a Moisés”: “sou o que serei”: confia e irás vendo; o Novo Testamento conclui, que “Deus é Amor”, que não é uma definição, pois não diz “Deus é O Amor”. O místico João da Cruz referiu-se-lhe como “a música calada que enamora”.

 

Que concluir? Deus é “esse Mistério indizível que nos envolve. Neste sentido, à pessoa que se sente ou se julga ‘muito religiosa’ é preciso pedir-lhe que renuncie um pouco a Deus, não para negá-lo, mas para deixar Deus ser Deus. Frequentemente, os que mais falam de Deus são os que de modo pior acreditam nEle.” É também neste contexto que deve entender-se o que uma vez ouvi a Jacques Lacan: “Os teólogos não acreditam em Deus, porque falam dele.” Talvez mais decisivo do que falar de Deus seja falar com Deus.

 

De qualquer forma, ao longo da História e sempre, o Sagrado, na medida em que o Homem precisa de nomeá-lo de alguma maneira, foi sendo apresentado de múltiplas formas e em várias configurações, desde o politeísmo ao monismo, passando pelo dualismo, o deísmo, o monoteísmo..., como veremos em próximas crónicas.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 23 FEV 2020