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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

NÓS E OS OUTROS. A URGÊNCIA E A DIFICULDADE DO DIÁLOGO

 

    Estamos a viver uma transformação prodigiosa do mundo. Há hoje várias revoluções em marcha. Uma revolução económica, com a globalização, que significa a concretização da ideia de McLuhan de que formamos uma “pequena aldeia” e a chegada ao palco da História de grandes países emergentes, como a China, a Índia... Outra é a revolução cibernética, que, como disse Jean-Claude Guillebaud, faz nascer um quase-planeta, um “sexto continente”. Nunca como hoje houve tanta informação e com a rapidez com que circula pelo mundo. Esta é a era da informática. A internet, o correio electrónico, os telemóveis, as televisões põem-nos em contacto constante e imediato com tudo o que acontece no mundo. Depois, com a facilidade dos transportes e no quadro das novas condições económicas, há a circulação permanente das pessoas de uns países para outros e também entre continentes. As NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, Big Data, ciências cognitivas, neurociências...), em interconexão,  transformam a nossa relação com a vida e a procriação e podem fazer bifurcar a Humanidade: a actual continuaria ao lado de outra a criar; por isso, se fala em transhumanismo e pós-humanismo. Também está aí a urgência da revolução ecológica, que, se a Humanidade quiser ter futuro, obriga a uma nova relação com a natureza. Como se não pode esquecer de modo nenhum o perigo do terrorismo global e de uma guerra atómica. Está aí, omnipresente, de múltiplos modos, o terror da violência...

 

    Perante todas estas revoluções e face aos problemas que agora são globais, como a droga ou o trabalho, os mercados, impõe-se, em primeiro lugar, pensar numa governança mundial. Depois, não se sabe de que modo o futuro será, como diz J.-Cl. Guillebaud, uma “modernidade mestiça”, mas, para evitar o “choque das civilizações”, impõe-se o diálogo intercultural e inter-religioso. De facto, como escreveu o teólogo José María Castillo, com todos estes factos, produziu-se “um fenómeno inteiramente novo na história da Humanidade: a mistura, a fusão ou o choque, a inevitável convivência de culturas, tradições, costumes, formas de pensar e de viver, de pessoas que vão de uns países para outros, de um extremo ao outro do mundo. E vão, não para fazer turismo, mas para tratar da vida, fugir das guerras, da fome e da morte. Mas, como é lógico, este reboliço de pessoas, de notícias, de ideias, de formas de viver fez com que – sem nos darmos conta muitas vezes do que realmente se passa – bastantes critérios, convicções, costumes e tradições que até há poucos anos tínhamos como seguros e intocáveis, hoje estejam abalados, tenham perdido segurança, se tenham esfumado, modificado ou, em todo o caso, perdido a firmeza e estabilidade que antes tinham para nós.”

 

   De qualquer modo, para o diálogo, impõe-se uma reflexão de base sobre as suas condições de possibilidade e as suas dificuldades. De facto, o diálogo é feito de encontros e desencontros. O encontro é fascinante, mas, veja-se, logo de entrada, como a própria palavra chama a atenção para a sua dificuldade: encontro mostra, nas várias línguas, um confronto, uma oposição. Assim: en-contro (lá está o contra, como em en-cuentro ou em rin-contro..., mesmo no alemão, Begegnung, está presente o contra, que se diz gegen).  

 

   A neotenia constata, no essencial, que o ser humano é um prematuro – para fazer o que faz, precisaria de permanecer no ventre materno mais um ano, mas isso não é possível; assim, nasce no termo de 9 meses, em vez de passados 20 –, tendo, portanto, de receber por cultura aquilo que a natureza lhe não deu. Frágil segundo a natureza e sem especialização, tem de criar uma espécie de segunda natureza ou habitat, precisamente a cultura. Como escreve o filósofo Robert Legros, “é na cultura ou no que a fenomenologia chama um mundo que a humanidade de Homo encontra a sua origem, e não na natureza. Quanto à origem da cultura, ela está por princípio votada a permanecer uma questão sem resposta”. Enquanto os outros animais nascem feitos, o Homem, nascendo por fazer, em aberto, tem de fazer-se a si mesmo e caracteriza-se por essa tarefa de fazer-se com outros numa história aberta, em processo.  Constata-se deste modo que nos fazemos uns aos outros genética e culturalmente. O ser humano é, pois, sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura em história. Assim, no processo de nos fazermos, o outro aparece inevitavelmente. O outro não é adjacente, mas constitutivo. Só sou eu, porque há tu, em reciprocidade. O outro pertence-me, pois é pela sua mediação que venho a mim e me identifico: a minha identidade passa pelo outro, num encontro mutuamente constituinte. A identidade não é estática, fixa, determinada de uma vez para sempre. E, em cada um de nós, há múltiplas possibilidades de ser: se eu tivesse tido outros encontros, se tivesse frequentado outras escolas..., certamente seria eu, mas de outro maneira, idem sed aliter. A nossa identidade é aberta, somos nós e somos muitos; se assim não fosse, como poderíamos entender os outros, compreender um romance, colocando-nos na pele de tantas personagens diferentes?...

 

   Claro que cada um, cada uma, é ele, ela, de modo único e intransferível – a experiência suma desse viver-se cada um como único e irrepetível dá-se frente à morte, na angústia do confronto com a possibilidade do nada e da aniquilação do eu: “ai que me roubam o meu eu!”, clamava M. Unamuno –, mas fazemo-nos uns aos outros, de tal modo que ser e ser em relação coincidem. Por isso, a identidade faz-se, desfaz-se, refaz-se e, em sociedades complexas e abertas, ela será cada vez mais compósita e planetária, com tudo o que isso significa de enriquecimento e ao mesmo tempo de complexidades e possíveis rupturas. O outro é vivido sempre como fascinante e ameaça. Porque o outro é outro como eu, outro eu, e, simultaneamente, um eu outro, outro que não eu. Daí, a ambiguidade do outro. O outro enquanto outro escapa-se-me, não é dominável.

 

    Nunca saberei como é viver-se como outro. Quando olhamos para outra pessoa, perguntamos: como é que ela se vive a si mesma, por dentro?, como é que ela me vê?, como é o mundo a partir daquele foco pessoal? Porque é simultaneamente, tanto do ponto de vista pessoal como grupal e societal, um outro eu e um eu outro – outros como nós e outros que não nós –, o outro atrai, ao mesmo tempo que surge como perigo possível. Há, pois, uma visão dupla do outro, que tanto pode ser idealizado – no amor, é divinizado –, como diabolizado. Atente-se na ligação entre hospitalidade e hostilidade, derivados do latim “hospite” e “hoste”, respectivamente. Cá está: o outro é hóspede, por exemplo, no hotel e no hospital. Mas, no hotel, pedem-nos a nossa identidade, porque podemos constituir uma ameaça, um perigo ou ir embora, sem pagar. Aliás, agora, também há o “hostel”, onde a dimensão hostil é mais visível pela sua sonoridade, e, por isso, nos pedem, repito, para prevenir, a identificação. E a fronteira, porta de entrada e de saída, em ligação com fronte – a nossa fronte somos nós voltados para os outros e ao mesmo tempo ela é limite e demarcação de nós –, anuncia o outro – outro país – e é espaço de acolhimento e também da independência.

 

    No quadro desta ambiguidade, entende-se como, por medo, ignorância, desígnios de domínio, se pode proceder à construção ideológica e representação social do outro essencialmente e, no limite, exclusivamente, como ameaça, bode expiatório, encarnação e inimigo a menosprezar, marginalizar, humilhar e, no limite, abater, eliminar. Num mundo global, cada vez mais multicultural e de pluralismo religioso, é urgência maior repensar a identidade e avançar no diálogo intercultural e inter-religioso, sempre no horizonte da unidade na diferença e da diferença na unidade.

   

    As revoluções em curso, que obrigam a repensar o futuro da Humanidade, são outras razões que aprofundam a necessidade e urgência do encontro e diálogo entre as culturas e religiões. O que desde há anos Hans Küng vem sublinhando – a necessidade do diálogo inter-religioso para ser possível a paz no mundo – é cada vez mais urgente. Entende-se mais claramente do que nunca que a obra do célebre teólogo, autor principal da “Declaração de uma Ética Mundial”, aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões em Chicago, em 1993, se oriente pelo lema: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso globo sem um ethos global, um ethos mundial”.

 

    Falo nas religiões, mas o problema estende-se às várias dimensões do Humanum, precisamente porque o ser humano é, constitutivamente cultural, resultado de uma herança genética e de uma cultura em história, é bom repetir. Por isso, a integração noutra cultura é tudo menos fácil. Porquê? Quem não reflectiu suficientemente é por vezes levado a pensar que a cultura é como um vestido, algo exterior que a pessoa facilmente troca, mudando de cultura como muda de vestido. Não é assim, de modo nenhum. Porquê? Sendo sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura, a cultura define-nos, faz parte da nossa identidade e, por isso, como se constata pela História, mesmo recente, não falta quem esteja disposto a bater-se, até pelas armas, pela sua cultura, que faz parte constituinte da sua identidade.

 

    Felizmente, a nossa identidade é aberta, em história e, por isso, também podemos ver no diálogo inter-cultural e inter-religioso um factor determinante de enriquecimento mútuo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 2 JUN 2019

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - XII

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não sei se esta duodécima das derradeiras será a última que te escrevo por agora. O tempo o dirá. Como tão bem sabes e tantas vezes te lo disse, tenho uma relação ambígua, ou talvez apenas ambivalente, com isso a que só chamarmos tempo. Nele terei sempre de situar-me, por mim e pelos outros, pela curiosidade do passado, a verificação do presente e a tentativa perscrutação do futuro. Será só uma necessária categoria mental, como a noção do espaço, mas se nos situarmos fora da sua circunstância seremos, nós próprios, perturbados na perspetiva do olhar e na sua justeza sobre as coisas e os humanos, o mundo e a vida. Quiçá também sobre Deus, o Quem transcendente, O que está ontologicamente fora do visível. E que, enquanto tal, nunca é, nem pode ser, relativo, como são todas as coisas e pessoas, pensamentos atos e omissões que vão preenchendo a História. O que não significa que seja absoluto, não relativo, o nosso olhar sobre Ele. Assim, por outro lado de mim, como tantas e tantas vezes te disse e escrevi, pensossinto-me além do tempo. Sinceramente te lo digo: em tal tensão vivo e não esmoreço. Nem nada quero, desejo ou, sequer, anseio deslindar. Sempre fiel ao que chamo "minha dialética com a vida", que vai animando o mundo das coisas e das pessoas, sou igualmente fiel a esta íntima consciência de mim: a de estar de partida ou, se preferires, de regresso a casa. Tal é o sentido que dou a essa frase de S. Paulo (Hebreus, 11, 1, na tradução de Frederico Lourenço): Fé é garantia de coisas que se esperam e certeza de coisas que não se veem.  Muitas vezes a leio, dizendo que a fé é a substância, a essência das coisas que hão de vir. A tradução de F. Lourenço é praticamente idêntica à versão francesa, também diretamente do original grego, do dominicano C. Spicq para a edição da Escola Bíblica de Jerusalém. Pessoalmente, gosto muito da leitura feita pelo cónego José Falcão na sua versão portuguesa, a partir do texto grego, publicada pela Gráfica de Coimbra em 1965 (e que nesse mesmo ano adquiri por 65$00): A fé é o sustentáculo das coisas que se esperam, a prova da realidade das coisas que se não veem. "Sustentáculo" traduz aqui o grego "hypostasis", isto é, o que está por baixo, o apoio, o pedestal. Na verdade, a nossa relação com o transcendente está necessariamente acima do nosso entendimento e, não sendo necessariamente uma estupidez ou cegueira, necessita porém do sustentáculo da fé.

 

    Talvez por isso mesmo, há tantos anos já, quando o Ernâni Lopes me mostrou o seu Francisco de Borja meditando, qual São Jerónimo, sobre a caveira da morte, lhe recitei duma assentada a meditação do duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, poema da Sophia que eu há muito decorara por sentir como intimamente meus alguns versos seus: ... nunca mais darei ao tempo a minha vida... nunca mais servirei senhor que possa morrer... nunca mais servirei quem não possa viver sempre... porque eu amei como se fossem eternos a luz a glória e o brilho do teu ser... amei-te em verdade e transparência... e nem se quer me resta a tua ausência... és um rosto de nojo e negação... e eu fecho os olhos para não te ver...

 

   A experiência da morte próxima, seja quem for que morra, tanto quanto a solitária ideia dela, eis que nos surpreende o ser e se nos anuncia como dor funda, agudíssima, contrária a nós. Pois que é a própria persistência do ser no ser que o mantém vivo, a morte só me é concebível no tempo, nunca na eternidade, o seu momento sendo apenas um passo desconhecido. Ao terminar, qualquer tempo é um buraco negro que em voragem final até os seus vestígios leva: ...e nem sequer me resta a tua ausência. Por paradoxal que possa ser, a própria ideia da morte nos repugna visceralmente, a nós humanos que recusamos o que é próprio a todo o mundo biológico: a consumação post mortem na reciclagem da natureza, onde nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Assim, contrariando o que seria natural, encaramos a morte como sendo contra natura. E tal invenção da nossa própria eternidade é-nos tão íntima que ainda pequeninos nos acontece reclamá-la, como já te narrei num dos contos breves dos meus netos. Mais precisamente, naquele em que o Tomás, então com quatro anitos apenas, se passeava comigo pelo Jardim dos Passarinhos, no Monte Estoril, quando deparamos com um cágado velhinho, e a minha neta Inês, sua irmã, me questiona: "Ó Avô, esta tartaruga vai morrer? Porquê?" E eu respondo: "Talvez, é natural, pois tudo o que nasce morre"... E logo o Tomás, rápido: "Então o Tomás não nasceu!"

 

   Há milénios que sucessivas gerações vivem a condição humana nessa tensão entre o da sein em que cada um se descobre e o ser em infinitude que se sente interiormente. Aqui estamos e somos, mas a nossa própria imperfeição, o nosso inacabamento - todos os dias verificável - parece acordar-nos e vocacionar-nos para uma qualquer completude, perfeição ou acabamento do nosso ser. Mas aqui aprenderemos também que tal não será possível no tempo, pois este é duração medida, e todo o mensurável tem princípio, meio e fim, tem horizonte traçado. O tempo é um espaço de finitude, medido pela duração. Por isso tanto falamos de um período de tempo como num espaço de tempo, e a marcação de uma frase musical se pode fazer pela cadência, e esta imaginar-se como a distância da queda de uma nota para outra. Qualquer eternidade do ser não é, portanto, não pode ser, sequer, concebível sem a transformação do espaço-tempo em algo que transcende a nossa verificação possível, e a que a nossa ignorância chama o Infinito, conceito paradoxal por excelência, ambíguo mesmo, já que infinito não é só o que não foi acabado, o imperfeito, é, enquanto ser, ele mesmo, o Ser Infinito.

 

   O Quem, assim o apelidou Saramago; YHWH, o tetragrama hebraico que nos diz ser impronunciável o nome do Deus bíblico, que é raiz do verbo ser ("Eu Sou" ou simplesmente "Ser"); o Nada dos grandes místicos como o meu tão querido Mestre Eckhart, que escreve no seu sermão 71, que mais de uma vez te lembrei nas minhas cartas, citando um passo dos Atos dos Apóstolos, na versão latina da Vulgata: Surrexit autem Saulus de terra, aperitisque oculis nihi videbat ("Levantou-se Saulo do chão e de olhos abertos não via nada"): Parece-me que esta frase tem quatro sentidos. O primeiro deles é: quando se levantou do chão, com os olhos abertos, nada viu, e esse nada era Deus; pois que, quando viu Deus, lhe chama um nada. Outro sentido: quando se levantou nada viu, mas apenas Deus. Terceiro sentido: em todas as coisas apenas viu Deus. Quarto: quando viu Deus, viu todas as coisas como nada.

 

   O Quem de Saramago surge, nas leituras de cabine do seu imaginado Ricardo Reis (cf. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de que te falei nas minhas "Cartas a José Saramago"), como personagem misteriosa e título de uma aventura "policial" (ou de investigação). Será uma questão persecutória, não é ainda pausa ou conclusão filosófica, muito menos intuição metafísica. O tetragrama bíblico estará na fronteira de tal intuição como uma revelação teológica. A contemplação mística do medievo dominicano alemão é já um exercício propriamente teológico, um desenvolvimento da fé pelo labor da razão. Afinal, de nada ou muito pouco estamos sempre absolutamente seguros. Vivemos na contingência. Mas pecado, mesmo, será apenas contentarmo-nos com os limites dela e fecharmos o olhar, o caminho e a vida à possibilidade de novo progresso.

 

   Fecho esta carta, citando-te um passo do Corão (versículo 34 da Sura 21, dita "Dos Profetas"): Não demos a imortalidade a homem algum antes de ti. Seriam eles imortais, enquanto que tu vais morrer? E outro ainda (vers. 4 da Sura 10, dita Jonas)

 

  Todos voltareis a Ele. Eis a verdadeira promessa de Deus: Ele faz emanar a criação e depois fá-la regressar, a recompensar aqueles que creem, que praticam as boas obras com equidade. O destino do mortal cumpre-se com a morte, a que não pode escapar. Mas o destino da humanidade é a vida com Deus, no advento da Nova Criação. Creio que há aí, no Islão, uma tradição cristã. Tal como S. Paulo, na sua Carta aos Romanos (6, 2-11, tradução de F .Lourenço) teologicamente expõe: Nós que morremos para o erro, como viveremos nele? Ou ignorais que tantos quantos fomos batizados para Cristo Jesus, para a morte dele fomos batizados? Fomos sepultados com ele através do batismo para a morte, para que, tal como Cristo ressuscitou dos mortos através de glória do Pai, do mesmo modo também nós caminhemos em novidade de vida. Pois se nos tornámos unidos à semelhança da morte dele, também o seremos na semelhança da ressurreição. Saibamos isto: que o homem antigo que havia dentro de nós foi crucificado, para que fosse anulado o corpo do erro; e saibamos que não somos escravos do erro. Pois quem morre foi ilibado do erro. Se morremos com Cristo, acreditamos que também viveremos com ele, sabendo que Cristo ressuscitado dos mortos já não morre: a morte já não tem senhorio sobre ele. Pois aquilo que ele morreu, para o erro morreu de uma vez por todas; aquilo que ele vive, vive para Deus. Do mesmo modo, considerai-vos também vós mortos para o erro e vivos para Deus em Cristo Jesus.

 

   A fé é a minha aproximação a tudo o que ainda não posso ver. Vou aprendendo a contemplar o invisível,

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

GREVE DAS MULHERES E O FEMINICLERICALISMO

 

1. Escrevi aqui recentemente sobre as mulheres na Igreja, perguntando: “E se as mulheres fizessem greve na Igreja?” Uma mulher de alta estatura intelectual, espiritual e social comentou: “As igrejas ficavam vazias.”

 

Nem de propósito, mulheres católicas alemãs de várias dioceses acabam de boicotar durante uma semana o seu trabalho voluntário nas igrejas e fazer greve às Missas, para protestar contra o machismo e os abusos do clero. “Deploramos os casos conhecidos e desconhecidos de abuso e o seu encobrimento e ocultação por parte dos líderes da Igreja.” E exigem “o acesso das mulheres a todos os ministérios.” Facto é que, como disse Thomas Steinberg, presidente do Conselho Central de Católicos Alemães, “sem as mulheres nada acontece” e, portanto, é necessário seguir um “caminho sinodal” por parte da Igreja, operando as mudanças que se impõem. Aliás, já antes, católicas francesas tinham denunciado o machismo na Igreja, causa dos abusos contra mulheres e crianças: “na Igreja, todo o poder está nas mãos de homens solteiros, os únicos com capacidade para decidir, governar, ensinar, e que dizem ser mediadores da relação com Deus e com o sagrado.” E insistem: “Isto não pode continuar por mais tempo. Tem que mudar.”

 

2. As mulheres não podem ser discriminadas na Igreja. Jesus não as discriminou. A prova está em que teve discípulos e discípulas, como testemunham muitos passos dos Evangelhos, e Maria Madalena foi determinante no cristianismo. De facto, foi ela que, depois da crucifixão, quando tudo parecia ter sido o fim, reuniu outra vez os discípulos à volta da experiência avassaladora de fé de que o Jesus crucificado está vivo em Deus, que é Amor. Voltaram a reunir-se na fé em Jesus, o Vivente, e foram anunciar que Ele é o Messias, o enviado de Deus como “o Caminho, a Verdade e a Vida.” E testemunharam-no, dando a vida por isso. De tal modo Maria Madalena foi determinante que Santo Agostinho lhe chamou “a Apóstola dos Apóstolos”.

 

Também São Paulo fala com imenso respeito das suas colaboradoras. Por exemplo, na Carta aos Romanos, escreve: “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que também é diaconisa na igreja de Cêncreas, recebei-a no Senhor, de um modo digno dos santos. Saudai Trifena e Trifosa, que se afadigam pelo Senhor. Saudai Andrónico e Júnia, meus concidadãos e meus companheiros de prisão, que tão notáveis são entre os apóstolos e que, inclusivamente, se tornaram cristãos antes de mim”. Na Carta aos Gálatas, 3, 26-29, escreve: “É que todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé, pois todos os que fostes baptizados em Cristo revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus.” Portanto, na Igreja, e não só, há uma igualdade originária.

 

Jesus Cristo é, sem dúvida, quando se pensa a sério no que Ele fez, disse, foi e é, a figura mais determinante da História da Humanidade. São Paulo explicitou essa influência, a partir da sua própria experiência pessoal, avassaladora, que se traduz naquela conclusão: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher.” Que experiência foi essa, que o levou de perseguidor a Apóstolo, fazendo milhares e milhares de quilómetros, com os meios precários da altura, para anunciar o Evangelho? Há uma pergunta fundamental que Paulo faz: o que vale um morto?, o que vale um morto, concretamente um crucificado morto? Mas, ao fazer a experiência de fé de que esse Jesus crucificado está vivo em Deus, conclui que Deus o ressuscitou e, portanto, Ele vale para Deus, tem valor para Deus. E, se Jesus crucificado, morto, vale para Deus, como mostra a ressurreição, então todos valem, todos os homens e mulheres, independentemente do sexo, da etnia, da religião, da idade, da cor, valem para Deus, têm valor. Todos têm dignidade diante de Deus. Já não há escravo nem livre, nem judeu nem grego, nem homem nem mulher.

 

Alguém conhece revolução maior na História do mundo, de que lentamente se foi e vai tomando consciência, a ponto de se proclamar a dignidade inviolável de todas as pessoas, nomeadamente na Declaração Universal dos Direitos Humanos? As comunidades cristãs celebravam a Eucaristia, lembrando Jesus, a sua memória e reconheciam-no na partilha do pão, em refeições festivas, e, pela primeira vez, senhores e escravos, homens e mulheres, judeus e gregos se sentaram todos à mesma mesa. E quem presidia era o dono ou a dona da casa, que recebiam a comunidade. Com o tempo, a Igreja tornou-se uma estrutura de poder e aí tudo se transformou, chegando-se ao cúmulo daquelas celebrações da Ceia de Jesus que já nada têm de fraterno, pois mais parecem cerimónias das cortes imperiais. Naqueles longos pontificais com pompa imperial, adornos de ouro e pedras preciosas, vestimentas luxuosas que por vezes até rondam o ridículo, em que participam inclusivamente patifes e ladrões sem o mínimo propósito de emenda nem conversão, alguém se lembra da Última Ceia de Jesus? Quem preside? Os “senhores”, donos de Deus e do sagrado. Evidentemente, as mulheres foram ficando excluídas da presidência. E, lentamente, a revolução evangélica de Jesus, da radical igualdade de todos, teve de ser proclamada fora da Igreja oficial e ser-lhe imposta de fora, como aconteceu com as proclamações dos direitos humanos.

 

3. E Francisco? Ele está convencido de que “é necessário ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja. As mulheres formulam questões profundas que devemos enfrentar.” Disse às religiosas: “Não às criadas. Nenhuma de vós se faz freira para ser uma servente dos padres.” Em Julho de 2016, nomeou uma comissão igualitária de homens e mulheres para estudar o papel das mulheres na Igreja primitiva. A comissão terminou o seu trabalho sem acordo e ele acaba de comunicar no Encontro internacional das religiosas que, sobre o caso do diaconado, “temos de ver o que havia no início da Revelação. Se o Senhor não nos deu o ministério sacramental para as mulheres, a coisa não dá. Por isso, estamos a investigar a história”. Francisco não fechou a porta, mas ficou atado com a questão do diaconado como sacramento ou não para as mulheres.

 

Aqui precisamente, chegámos ao nervo do problema, problema nuclear da Igreja, porque está na base do clericalismo e do carreirismo, “a peste da Igreja”, na expressão de Francisco. Foi o maior exegeta católico do século XX, professor da Universidade de Tubinga, Herbert Haag, que me ensinou que Jesus não ordenou ninguém “in sacris”,  nem homens nem mulheres. Na Igreja, há ministérios (Autrag), mas não há ordenação sacra (Weihe). Todo o povo de Deus pelo baptismo é Povo sacerdotal, mas  não há sacerdotes. Toda a Igreja é ministerial, mas o Novo Testamento evitou a palavra hiereus (sacerdote) e, entre os carismas (dons do Espírito Santo), não se refere o sacerdócio.

 

Neste enquadramento, Pepe Mallo foi ao essencial, quando escreveu: “Porque é que se há-de sacramentalizar os ministérios? É evangélico sacralizar (ordenar ‘in sacris’) as pessoas? Não se deverá dissociar ‘ordenação’ e ministério’? É certo que Jesus não ordenou mulheres, mas também não ordenou homens, e, menos ainda, no sentido, aspecto e categorias de que desfrutam hoje os clérigos. Jesus não instituiu nenhum sacramento da ‘Ordem Sagrada’, nem para mulheres nem para homens. As funções de diáconos e diaconisas, bem como de presbíteros e bispos  de que falam as Cartas no Novo Testamento eram pura e simplesmente ministérios da comunidade e para a comunidade. Não eram dignidades e privilégios de supremacia e domínio.” Na Igreja, tem de ser respeitada a dignidade de todos, mas não há dignidades nem dignitários.

 

Jesus dizia no Evangelho: “Tomai cuidado com os fariseus e os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes. Vós sois todos irmãos.” Voltando às primeiras comunidades, é preciso reconhecer o sacerdócio de todos os baptizados, homens e mulheres, e, assim, proclamar e exigir a igual dignidade de todos. Mas, se as mulheres apenas reclamarem o poder dos homens na Igreja, então teremos o mal acrescentado:  ao mal do clericalismo machista acrescentar-se-á o do feminiclericalismo. Julgo que é este o receio do Papa Francisco, quando critica algum feminismo como “machismo de saias”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 26 MAI 2019

PAPA FRANCISCO, HERÉTICO?

 

1. Numa longa Carta Aberta de 20 páginas, publicada no LifeSiteNews, em tempo de Páscoa, mais concretamente, no dia 30 de Abril passado, um grupo de académicos, teólogos e padres católicos, dirige-se ao colégio dos bispos da Igreja Católica, invocando duas razões: acusar o Papa Francisco do “delito canónico de heresia” e requerer que os bispos façam o que é preciso para que ele renuncie publicamente a essas heresias ou se lhe aplique o estabelecido canonicamente, incluindo a remoção do cargo papal. E os bispos têm o dever de agir, porque “a acumulação de danos causados pelas palavras e actos do Papa Francisco ao longo de anos foi causa de uma das piores crises da História da Igreja Católica.”

 

2. Quais são essas heresias, por palavras e actos?

 

Em síntese, Francisco é acusado de aceitar que católicos divorciados e recasados civilmente possam ser admitidos, em certas circunstâncias, à comunhão; acusado de não se opor de forma mais contundente ao aborto; acusado de, no diálogo ecuménico com os luteranos, manifestar acordo com Lutero em alguns pontos; acusado de acolher os LGBT; acusado de afirmar que a diversidade de religiões não só é permitida por Deus, mas querida; acusado de ter dado cobertura e mesmo ter promovido personalidades que também dão cobertura a estas heresias, aceitam a moralidade de actos homossexuais e/ou praticaram ou encobriram abusos sexuais de menores...

 

Como exemplo de quem, em vez de ser condenado, foi promovido, aparece o arcebispo José Tolentino de Mendonça. Com estas palavras: “Em 2013, Mendonça louvou a teologia da Irmã Teresa Forcades, que defende a moralidade de actos homossexuais e declara que o aborto é um direito e que afirmou que ‘Jesus de Nazaré não codificou nem estabeleceu regras’. Francisco fê-lo arcebispo e chefe dos Arquivos Secretos do Vaticano. E também o escolheu para pregar o retiro quaresmal a ele e à Cúria em 2018.”

 

Outro exemplo: O cardeal Maradiaga, para lá de outras heresias, afirmou que “dentro do Povo de Deus, não há uma classificação dual dos cristãos — laicado e clero, essencialmente diferentes — e que, para se falar correctamente, não se deveria falar de clero e laicado, mas de comunidade e ministérios (serviços).”

 

3. Embora não seja possível aprofundar os problemas convenientemente, examinemos as “heresias”, que de modo nenhum o são, ao contrário do que pretendem esta e outras minorias no seio da Igreja, aguerridas contra o Papa Francisco. Pela ordem acima enunciada.

 

3.1. Quanto aos recasados. Francisco não abre as portas indiscriminadamente a todos. Diz que há casos e casos e cada caso deve ser examinado na sua concreção, com aconselhamento de um padre, com discernimento e atenção à consciência. Os cristãos não podem ser tratados infantilmente, como menores. Aliás, em 1972, o próprio professor Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI, escreveu: O casamento é indissolúvel. Mas quando “um primeiro casamento se rompeu há já algum tempo” e de modo irreparável, e quando “um segundo enlace se vem manifestando como uma realidade moral e está presidido pela fé, especialmente no que concerne à educação dos filhos (de tal modo que a destruição deste segundo casamento acabaria por destroçar uma realidade moral e provocaria danos morais irreparáveis), neste caso — mediante uma via extrajudicial —, contando com o parecer do pároco e dos membros da comunidade, dever-se-ia consentir a aproximação da comunhão aos que assim vivem.” Penso que se deverá acrescentar uma outra condição: se se esclareceram as obrigações do primeiro casamento.

 

Porventura é heresia apelar para a gradualidade da verdade nestes casos? Quem estudou hermenêutica sabe que, evidentemente, na lógica, na matemática, nas ciências empírico-matemáticas, não há gradualidade, porque há o critério da verificabilidade experimental, e, por isso, não há uma ciência para homens, outra para mulheres, uma para budistas, outra para católicos ou ateus... Mas, na verdade pastoral, há essa gradualidade, pois é necessário atender a cada pessoa, às suas circunstâncias, à sua situação, à sua história...

 

Sim, Francisco disse que “muitos casais que coabitam têm a graça do matrimónio”. Ele apela para a importância do tempo e dos processos... Eu próprio tenho realizado o casamento de jovens casais que já coabitavam e que, num processo de maturação, concluíram que queriam realizar o seu casamento na Igreja. A realidade humana é histórica, processual...

 

3.2. Alguém de boa fé pode negar que Francisco se tem oposto permanente e veementemente ao aborto? Simplesmente, é necessário atender às pessoas e aos seus dramas. E a Igreja deve acolher e não excluir nem oprimir quem já sofre demais. Por isso, Francisco concedeu a todos os padres o que antes estava reservado aos bispos: na confissão, o poder de absolver também esse pecado.

 

3.3. Quanto a Francisco e Lutero. Claro que não é heresia afirmar que “as intenções de Martinho Lutero não estavam erradas. Era um reformador. Talvez alguns métodos não tenham sido correctos... E hoje luteranos e católicos, protestantes, todos nós concordamos com a doutrina da justificação. Neste ponto, que é muito importante, não errou”.


Quem anda minimamente atento sabe que o acordo oficial quanto à questão da justificação vem de antes do pontificado de Francisco. Realmente não é Deus que tem sempre a iniciativa? As nossas boas obras não são por graça de Deus? E quem pode negar que devemos estar gratos pelos “dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma”? É sabido que Lutero não queria entrar em ruptura com a Igreja. Foi Roma que não entendeu nem quis superar a corrupção em que vivia. Os autores da Carta querem continuar a vender indulgências?

 

3.4. Francisco é acusado de receber homossexuais e dizer que quem os “descarta” não tem espírito cristão. É evidente que os homossexuais não podem ser discriminados. Hoje, é sabido que 8% da população tem orientação homossexual. Há quem os acuse de deboche, disto e daquilo. Pergunto: e entre os heterossexuais só há santos? O que o Papa não quer e eu também não é o lóbi gay nem outros lóbis...

 

Quanto aos transexuais, seja-me permitido apresentar um caso concreto. Fui procurado por uma pessoa nessa situação. Fiquei bem ciente de quanto se pode sofrer... e da complexidade que esta situação deverá implicar — biológica, psicológica, social e cultural —, exigindo um enorme rigor e seriedade na sua compreensão.

 

É urgente que também na Igreja se avance no conhecimento da ciência, da biologia, etc.

 

Aproveito para deixar uma palavra sobre uma questão hoje muito acesa e sobre a qual me pronuncio criticamente e Francisco também. Estou a falar da “ideologia do género”. Sim, conheço e aprovo a distinção entre sexo e género, no contexto dos chamados “gender studies” e do seu contributo. Oponho-me é à ideologia do género, quando se pretende que a identidade sexual é pura construção social; não é verdade, o biológico também intervém; assim, hoje, pela imagiologia cerebral, até sabemos que a configuração do cérebro masculino e feminino é diferente, com todas as consequências.

 

Francisco também se pronunciou sobre o tema, na obra Politique et société, resultado de doze encontros com Dominique Wolton, intelectual francês, laico, director de investigação no CNRS (Centro Nacional da Investigação Científica), especialista em comunicação. Nestes termos, Wolton: “A ideologia do género não é o mesmo problema. É um desvio sociológico. Consiste em dizer que os sexos são indiferenciados, e que é unicamente a sociedade que distribui o papel masculino ou o papel feminino. Terrível este determinismo. Não há nem natureza, nem cultura, nem destino, nem liberdade, resta apenas a determinação social. E, se és contra estes determinismos, chamam-te reaccionário. Dizem-te que adoptas as posições da Igreja. A deriva ideológica fez-se em vinte anos”. Francisco: “Isto é uma confusão crítica, neste momento. Disse-o um dia publicamente na Praça de São Pedro, ao falar sobre o casamento: ‘Há ideias novas e eu pergunto-me se estas novas ideias, como a ideologia do género, não assentam em última análise no medo das diferenças”. Wolton: “Uma negação das múltiplas formas da alteridade e da diferença?” Francisco: “Disse-o em forma de pergunta. E encorajo os investigadores a debruçarem-se sobre o assunto”. Wolton: “A ideologia do género é o risco de uma negação da diferença. Ora, a diferença não é só social. É muito mais complicado. Trata-se de uma forma de determinismo ao contrário: ao dizer-se que não há homens, que não há mulheres, que tudo depende da sociedade, na realidade cria-se uma forma de determinismo social”. Francisco: “Não quereria que se confundisse a minha posição sobre a atitude para com as pessoas homossexuais com a questão da teoria do género”.

 

Neste domínio, quero referir também a grande polémica por causa de acções sobre igualdade de género em escolas. Aqui, estou com Henrique Monteiro, quando escreve que é necessário distinguir: “Se as acções são apenas contra a discriminação de qualquer género e orientação, tudo bem. Mas, se acaso são para propagar a ideologia de género, que diz que nascemos sem ele e que o sexo biológico reprime a essência do nosso ser etc.... e tal... é caso para prudencialmente acabar com tal programa. Nem provas científicas nem razões substanciais existem. Apenas uma teimosia ideológica desnecessária.”

 

3.5. Francisco é acusado por ter assinado, juntamente com o Grande Imã da Mesquita Al-Azhar, em Abu Dhabi, o “Documento sobre a Fraternidade Humana”. Acusam-no concretamente por causa desta afirmação: “A liberdade é um direito de cada pessoa: cada indivíduo goza da liberdade de crença, pensamento, expressão e acção. O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e língua são queridos por Deus na sua Sabedoria.”

 

O que é que os autores da Carta querem? Que não haja liberdade religiosa? Querem o uniformismo? Não será a unidade na variedade a riqueza da vida, também no domínio religioso? Estou convicto de que Deus se revelou de modo definitivo e inultrapassável em Jesus. No entanto, o Jesus que disse: “Eu e o Pai somos um” também disse: “O Pai é maior do que eu.” O que é que isto quer dizer? Evidentemente, as religiões não são todas iguais, mas elas todas, na medida em que não sejam contra o Humanum, pelo contrário, o promovam, são caminhos para Deus, que está para lá de todas elas. Não se pode esquecer que as religiões não existem para elas mesmas, pois estão ao serviço de Deus e da Humanidade. E o Papa esforça-se no combate a favor da paz, concretamente com o islão moderado, a favor do diálogo inter-religioso. Sem afastar nem postergar a identidade cristã, evidentemente.

 

3.6. Quanto aos abusos sexuais, os críticos deviam ter vergonha. Houve porventura alguém que tenha feito mais do que o Papa Francisco para que se ponha termo a esse escândalo execrável na Igreja? Acaba, aliás, de publicar o Motu Proprio (Decreto papal) “Vos estis lux mundi” (Vós sois a luz do mundo) que, na sequência da Cimeira de Fevereiro passado em Roma sobre a pedofilia na Igreja, ratifica com normas concretas para a Igreja universal a luta contra os abusos de menores e os seus encobridores. Será o tema da minha próxima crónica aqui.

 

3.7. Criticam o Papa também por causa do que disse o cardeal Maradiaga: que, na realidade, é melhor falar de comunidade e ministérios na Igreja do que de clero e laicado. Os críticos ainda não viram que enquanto baptizados, na Igreja, há uma real igualdade na dignidade, pois o padre, o bispo e o próprio Papa não são mais do que o leigo, todos são igualmente cristãos, embora com ministérios, serviços diferentes. Não há diferença essencial, ontológica, entre eles.

 

Julgo, sinceramente, que tudo se joga essencialmente logo no endereço da Carta, dirigida aos bispos nestes termos: Your Eminence, Your Beatitude, Your Excelence, ignorando que Jesus não se fez tratar por Sua Eminência Reverendíssima, Sua Excelência Reverendíssima... Jesus disse: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” e: “Sois todos irmãos”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 12 MAI 2019

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - IX

 

Minha Princesa de mim:

 

   Porém se eu ousasse e as minhas palavras tivessem muitas cãs, elas abririam este coração onde jazem algumas coisas que sente, e a tenra idade não quer que diga... Este misterioso passo da Crónica do Imperador Clarimundo de João de Barros, o  autor das Décadas da Índia, surge-me do século XVI e faz-me pensarsentir em dantes e muito para além do episódio daquele romance de cavalaria, em que o imaginário imperador da Hungria e raiz da linhagem dos reis de Portugal, recebe um escudo pintado, como assim resume Eduardo Lourenço no seu Clarimundo: simbologia imperial e saudade (em Portugal como Destino, seguido de Mitologia da Saudade (Gradiva, 1999): Fanimor enviara a Clarimundo um escudo pintado, tendo no centro uma ilha escondida por nuvens, alegoria do império do mar, ainda por vir. Agora, na última parte fá-lo passar pelos Açores e aí lhe anuncia que um dia estas ilhas pertencerão a um senhor do seu sangue. É nesta ocasião que Barros se refere com insistência à figura mais misteriosa da sua narrativa, àquele que ele chama «o filho do bravo leão e da mansa cordeira», que, em princípio, só pode ser o infante Dom Henrique. Como sabes, e sobre tal já te escrevi, não sou um adepto da tecelagem de considerações sobre qualquer identidade nacional entendida como fruto da ou a própria constituição histórica duma personalidade a que chamamos nação ou raça. Daí que possa subscrever sem hesitação o seguinte trecho de Eduardo Lourenço:

 

   É tentador assimilar o destino de um povo ao do indivíduo, com o seu nascimento, a sua adolescência, maturidade e declínio. A analogia organicista é, naturalmente, falaciosa. Nem a povos ou civilizações extintos o paradigma humano se aplica. O tempo do indivíduo, a leitura que ele faz do seu percurso, pode ajustar-se a esse processo de surgimento, afirmação e desaparição. Um povo tem igualmente uma história e, por comodidade hermenêutica, pode ser tentado a ler o seu percurso em termos subjetivos de afirmação de si, de presença mais ou menos forte entre os outros ou de existência precária ou ameaçada neste ou naquele momento. Mas o tempo dessa história não é, como o dos indivíduos, percebido ao mesmo tempo como finito e irreversível. O tempo de um povo é trans-histórico na própria medida em que é «historicidade», jogo imprevisível com os tempos diversos em que o seu destino se espelhou até ao presente, e que o futuro reorganizará de maneira misteriosa.

 

   Cada povo só o é por se conceber e viver justamente como destino.

 

   Creio ser importante repetirmo-nos, nos dias hodiernos, esta frase, como motor e meta de meditação. Por duas razões fundamentais: antes do mais, porque a nossa identidade comunitária, enquanto povo e nação, deverá, necessariamente, orientar-se e definir-se em função de um projeto de vida e justiça comum; depois, porque a própria legitimidade da nossa existência política (como estado-nação organizado) já não é atributo nem consequência de linhagem, mas justifica-se pela vontade democrática de construção da casa comum. Hoje, nenhum português pretenderá radicar a linhagem nacional num qualquer Borgonha filho do imperador Clarimundo e de sua mulher Clarinda, por via da qual ele será feito imperador de Bizâncio, sucedendo a seu sogro. Nem romano algum tratará mais do que como ficção literária ou artística a pretensa ascendência da genealogia lendária de Roma ao navegante Eneias. Não há passado verdadeiramente constitutivo da unidade política de um povo se não houver projeto de destino comum de e para quem vive hoje aqui. Pensossinto que uma nação tem necessariamente, como Janus, duas faces: uma vira-se para trás e olha o caminho percorrido; outra está voltada para a frente, perscruta o porvir, em busca da Cidade onde todos poderão conviver melhor e encontrar a felicidade possível.

 

   Por isso também as propostas desses movimentos nacionalistas xenófobos que por aí vêm pululando me parecem, muitas vezes, não só injustas mas violadoras de princípios elementares da cultura de inspiração cristã que ainda nos anima. Além de que, ansiosos por acordarem fantasmas que depois possam espantar incarnados em pessoas, geram muita confusão e pouco tino. Na verdade, a «descristianização do ocidente» não é obra de imigrantes oriundos de outras culturas, senão desgaste nosso. A mutação das nossas paisagens demográficas tampouco se pode fundamentalmente atribuir à presença de outros entre nós, pois mais decorre da nossa baixa natalidade e envelhecimento das populações nativas. E se nos pensarmos dentro da humanidade como um todo, talvez sintamos mais gravosa e preocupante a submissão das nossas sociedades (até incluindo nestas os recém vindos) ao materialismo consumista reinante do que a oportunidade de trabalharmos em aculturações de valores humanos e tradições diferentes. Aliás, tal tarefa é hoje inevitável, dada a trama alastrante das redes de informação e comunicação, de contactos e trocas várias em todo o mundo. Não mais vivemos em período de descobrimentos e conquistas europeias pelo mundo fora, nem de proposição e imposição de valores religiosos, éticos ou culturais do "Ocidente", ou das suas instituições jurídicas e políticas, em todo os lados da terra. Mas se muito de tudo isso foi ficando por toda a parte, também por lá muito o "Ocidente" descobriu e adotou. Aos encantos orientais do nosso século XIX - fascínios do Egipto, da Mesopotâmia, Magrebe ou Palestina, bem como da Índia, da China e do Japão -, que entretiveram a curiosidade das nossas sociedades abastadas e diletantes, sucederam já as modas assimiladas do ioga, da filosofia e da gastronomia extremo orientais... Para não contarmos agora os astros chineses e japoneses da nossa música clássica (maestros, cantores, pianistas, violinos, etc.) E para não falarmos do êxito, nos nossos países, da música latino-americana ou, mais simples e genuinamente, africana. São hoje inúmeros os exemplos de inculturação, e ainda bem que assim é: aprendemos todos, uns com os outros. E há mais: a revista mensal Books, por exemplo, na sua edição deste mês de maio de 2019, faz uma resenha da versão francesa (L´Âge de la colère. Une histoire du présent) do último livro do ensaísta indiano Pankaj Mishra, e refere os elogios que o mesmo recebe do universitário paquistanês (repara, Princesa de mim, paquistanês e muçulmano) Ali Ahmed, no jornal diário Dawn:

 

   «Tendo tido a vantagem de crescer num mundo (perpetuamente) em desenvolvimento, compreendo a modernidade, tal como Mishra, como podendo ser um projeto não viável se perseguir o interesse pessoal quebrando todos os laços de fraternidade».

 

   E eu pergunto: não estaremos todos nós, afinal, a viver num mundo em vias de desenvolvimento? Já ninguém leva a sério as teorias do fim da História. Esta continua, num mundo composto de mudança, tomando sempre novas qualidades... Por vezes surpreendentes! As resistências ao surto e assimilação de uma nova cultura comum a todos -  ou, se preferires, à inculturação de valores constituintes de uma ética de referência para o futuro - surge, por vezes, de onde menos se espera. O filósofo André Comte-Sponville assina, na revista Le Monde des Religions de maio-junho deste ano, um artigo intitulado Dieu est Femme, donde te traduzo alguns trechos: Cada um de nós sabe bem que não é suposto Deus ter um corpo e, portanto, um sexo. Mas todos falamos dele no masculino, e a língua, como sempre, estrutura o imaginário. As deusas, para nós, fazem parte da mitologia, isto é, do passado. Deus, do presente ou da eternidade. Eis um dos raros pontos em que o monoteísmo opera uma espécie de regressão, pela exclusão de qualquer divindade feminina. «Pai Nosso que estais no céu...» Nesse céu mais não vemos do que uma metáfora. Mas quanto à paternidade divina? Porque não «Mãe Nossa»? Tal seria perfeitamente concebível teologicamente. Na prática, todavia, não é nada assim. Cada uma das três «pessoas» da Trindade (Pai, Filho, Espírito Santo) se dizem também no masculino. Poderão objetar que a Virgem Santíssima... Mas eis que esta, precisamente, não é Deus: contenta-se com ser virgem e mãe, o que diz muito sobre o ideal feminino que a Igreja veicula...   ...Entre os crentes, as mulheres são, pelo menos, tantas quanto os homens, e muitas vezes mais praticantes; mas quase sempre em situação de inferioridade ou de subordinação hierárquica no seio das instituições religiosas. Assim se fecha a ratoeira: numa sociedade patriarcal, atribui-se a Deus uma ilusória masculinidade; depois, faz-se da masculinidade, em matéria de culto, uma espécie de privilégio que reforça o patriarcado. «Senhor Padre» («Mon Père», em francês, ou «Meu Pai»), assim falamos ao padre católico, e também isso diz muito, tal como a tola recusa, tantas vezes reiterada, de ordenar mulheres...   ... «A mulher é o futuro do homem», dizia Aragon. E, por aí também, o futuro das religiões. Tanto pior para aquelas que não o quiserem compreender, ou o compreenderão tarde demais.

 

   Virginie Larousse, chefe da redação da mesma revista, escreve em editorial da edição citada: «Há grandeza em ser-se apóstolo. Eles eram eminentes por causa das suas obras, por causa do seu êxito. Glória a eles! Quão grande deve ter sido a sageza desta mulher, para ser considerada digna do título de apóstolo.» Não, não estamos a sonhar: trata-se mesmo de uma mulher apóstolo, de acordo com as próprias palavras de S. João Crisóstomo (344-407), arcebispo de Constantinopla e doutor da Igreja. A mulher a que se refere é citada por Paulo na sua Epístola aos Romanos. No final dessa carta, o apóstolo saúda muitas pessoas que deram uma boa mão à Igreja nascente. «Saudai Andrónico e Júnia, meus parentes e companheiros de cativeiro: são apóstolos marcantes que me precederam em Cristo» (Rom.16, 7).

 

   Nunca ouviram falar desta mulher? Era de esperar, porque a tradição foi progressivamente fazendo dela um homem... Todavia, durante séculos se soube que Júnia era mulher - como assim o provam as palavras de João Crisóstomo. Até que, no século XIX, sábios entendessem ser impossível considerar «apóstolo» uma pessoa do sexo fraco. E começa-se a transformar o nome próprio dela em «Junias», patronímico masculino, e até a propor-se uma nova tradução -incorreta gramaticalmente - daquele passo da Epístola (cf. o estudo de Eldon Jay Epp, professor na Divinity School da Universidade de Harvard, Junia, uma mulher apóstolo ressuscitada pela exegese, em Labor et Fides, 2014).

 

   Os tempos e modos hodiernos, contudo, não parecem muito entusiastas na defesa do patriarcado, eufemismo significando superioridade masculina, mesmo no seio do Vaticano: veja-se, por exemplo, a demissão, por iniciativa própria, da equipa de redatoras do suplemento feminino do Osservatore Romano, Donne Chiesa Mondo. Tal como, curiosamente, nos devemos recordar de que, apesar de todos os preconceitos respeitantes à condição feminina ainda ativos no mundo islâmico, muito, ali também, vai mudando. Designadamente nas comunidades residentes em democracias plurais, que procuram identificar-se nessas circunstâncias. Apesar de, já há 1400 anos, o Islão autorizar mulheres imãs, isto é, presidentes e condutoras de assembleias de orantes, só muito recentemente se tem assistido ao revigorar dessa prática, designadamente pela fundação de mesquitas com espaços de oração comuns a ambos os sexos, cuidando embora da disposição dos participantes, já que o exercício físico das preces muçulmanas a tal precaução aconselhará... Os respetivos imãs (chamemos-lhes "párocos") tanto podem ser homens como mulheres que se revezam, como só homens ou só mulheres. Seja como for, esta prática, não só abre às mulheres uma participação mais ativa e igualitária na vida religiosa comunitária, como, finalmente, lhe reconhece um estatuto social que poderá repercutir-se na sua vida empresarial e política.

 

   Confesso que me é difícil entender como é que a Igreja Católica, maioritária em sociedades onde tantas mulheres exercem já funções dirigentes, na política, empresas, magistratura, forças armadas e tantas profissões, continua a vedar-lhes o acesso a funções pastorais...

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

O PAI NOSSO E O MALIGNO

 

Levantou-se de repente e de modo totalmente desnecessário uma celeuma à volta do Pai Nosso e de uma possível nova versão.

 

Assim,  a actual versão diz: “Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.” Na nova tradução, passaria a dizer: “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome, venha o teu reino, seja feita a tua vontade, como no céu, assim também na terra. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Perdoa-nos as nossas ofensas, como também nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos leves à provação, mas livra-nos do Maligno.”

 

Fica aqui a minha oposição a esta nova versão, sobretudo se se quiser introduzir na liturgia. Apresento algumas reflexões sobre o assunto.

 

1. Não tenho objecção especial a que se introduza o “tu” dirigido a Deus. Mas, mesmo assim, chamo a atenção para o perigo de uma possível banalização que se tornou corrente nos dias de hoje. É preciso perceber que Deus se revelou como Abbá, querido Papá, mas ao mesmo tempo perceber que Deus é Deus, infinitamente para lá do “tu cá, tu lá”, como alguns comentadores já chamaram a atenção, de modo agudo e até com alguma acidez. É como os pais e os professores. Alguns querem ser tão próximos e “amigos” e iguais dos filhos e dos alunos que, depois, perdem toda a autoridade e, de “amigos”, passam a ditadores brutais, sem honra nem glória. Porque não sabem ser pais nem professores.

 

2. O que me preocupa é sobretudo pretender trazer de novo o diabo, sob a designação de “o Maligno”, pois ele tem muitos nomes, como Demónio, Belzebu, Mafarrico, Satanás, Satã, Lúcifer... Mas comecemos pela tentação, agora substituída pela provação.

 

Como já aqui escrevi (ver “As tentações e o Diabo”), por influência também do Papa Francisco, está-se a rever, em várias línguas, a tradução do Pai Nosso nesta questão da tentação, porque há o perigo de pensar que é Deus que leva à tentação. Como acontece no latim: “et ne nos inducas in tentationem”, no italiano: “e non c’indurre in tentazione”, no alemão: “und führe uns nicht in Versuchung”, ingês: “and lead uns not into temptation”, francês: “et ne nous soumets pas à la tentation”..., sempre com o sentido de: não nos leves, não nos submetas à tentação. Portanto, há aqui sempre o pressuposto erróneo de que Deus é o responsável pelas tentações que podem levar ao pecado, pois seria Ele que nos conduz à tentação. Ora, se Deus é Amor, não tenta as pessoas. Na Bíblia, na Carta de São Tiago, lê-se: “Ninguém diga, quando for tentado para o mal: ‘É Deus que me tenta.’ Porque Deus não é tentado pelo mal, nem tenta ninguém. Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e seduz.” Deus nada tem a ver com o mal, pois Deus é o Bem e o Anti-mal.

 

Significativamente, nas línguas que já mudaram, adoptou-se a tradução que já consta na tradução portuguesa actual: “Não nos deixeis cair em tentação” ou na tentação. 

 

3. Mas fica a pergunta: é o diabo que tenta?

 

Nem de propósito, o Papa Francisco acaba de dizer, numa catequese sobre o Pai Nosso: “Temos de excluir que seja Deus o protagonista das tentações que surgem no caminho dos homens. Como se Deus estivesse à espreita para armar ciladas aos seus filhos. Os cristãos não têm um Deus invejoso, que compete com o Homem, ou que se diverte, pondo-o à prova.” Mas também afirmou: “Alguns dizem: Para quê falar do diabo, que é uma coisa antiga, que não existe? Olha para o que diz o Evangelho: Jesus foi tentado por Satanás.”

 

Começo por esclarecer que o diabo não faz parte do Credo cristão. E, neste tema, é também Immanuel Kant que tem razão, ao colocar na boca de um catequizando iroquês uma excelente pergunta, a partir do pressuposto de que o diabo é preciso para explicar a tentação: Se os diabos nos tentam, quem tentou os anjos, para, de anjos bons, se tornarem anjos maus, diabos?

 

Quando se fala no diabo, é essencialmente para encontrar uma reposta para o mal, personificando-o. Ora, colocar o diabo ao lado de Deus, como se fosse um anti-Deus, no quadro de um dualismo maniqueu, é uma contradição. O diabo não explica nada. O mal é inevitável por causa da finitude. Deus não pode criar outro Deus e, por isso, o mundo finito, em processo, encontra becos sem saída, contrariedades, conflitos, sofrimentos... Mas há quem não acredita em Deus, mas acredita no diabo.

 

O diabo não é preciso para explicar as tentações. O ser humano, dada a sua natureza finita, carente, tensional, animal-racional, é sempre tentado, isto é, seduzido pelas “vantagens” aparentes do mal, e pode cair na tentação e, em vez de praticar o bem, praticar o mal e o pecado. E o que é o pecado? Aquilo que, pelo mau uso da liberdade, nos faz mal, a nós e aos outros. Por isso, tem sentido pedir a Deus que não nos deixe cair em tentação, na tentação, e que sejamos responsáveis, convertendo-nos.

 

E há tantas tentações a seduzir-nos! A tentação da vaidade, da corrupção, da vingança, da preguiça, da utilização dos outros como simples meios, da ostentação, a tentação do laxismo caótico, de legislar a favor de interesses próprios ou do partido em vez do interesse do bem comum, a tentação de ensaio de jogos políticos indecorosos a pensar apenas nas eleições, a tentação da luxúria, a tentação do consumismo idiota, a tentação de não pagar o salário justo, a tentação do poder como domínio, a tentação de promessas eleitorais irresponsáveis e não cumpríveis, a tentação da retórica sofista, a tentação do roubo e de uma deletéria administração na Banca e, a seguir, claro, a tentação do “esquecimento” e da mentira, a tentação do clericalismo e do carreirismo na Igreja, a tentação do poder e dos abusos sexuais... Atente-se: tudo isso nos aparece como  vantajoso e, portanto, sedutor.  Então, o que é preciso? Estar atento para não ir no engano; pelo contrário, ser ético, manter a dignidade, estar atento para não cair na tentação. O que é que se pede então a Deus? Que tenhamos atenção, que não pratiquemos o mal.

 

4. Senhores bispos, ele há tanta coisa na Igreja que precisa urgentemente de ser mudada! Quanto ao Pai Nosso, por favor, deixem estar como está. Tanto mais quanto a mudança só vai criar mais confusões, desnecessárias. Esteve bem o bispo de Lamego, António Couto, quando, a este propósito, sobriamente, disse à jornalista Natália Faria, do Público: “É possível que haja um aspecto ou outro... mas temos de usar os rituais que são universais. Isto está tudo testado.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 5 MAI 2019

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - VIII

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em oitava de Páscoa, na cultura em que respiramos, interrogamos e debatemos, até a incréus acontece - se acaso convivem de perto com pessoas já idosas que sofram degeneração implacável das suas faculdades de concentração e de memória, sobretudo no imediato ou a curto prazo - refletir mais sentidamente nesse mistério da nossa vida e morte, a que Milan Kundera chamaria, apesar de poder pesar-nos, a insustentável leveza do ser. Na verdade, lembrados da nossa infância ou já confortados pelo espetáculo oferecido por netos e bisnetos, sempre recordamos primeiros passos e, desde logo, a extraordinária e gratificante aventura da curiosidade humana como motor de procura. Meninos, até à nossa custa vamos aprendendo a descobrir o mundo, as pessoas, a comunicação. E alegram-se-nos os corações com tal e tanta empresa milhentas vezes repetida, mas em cada uma delas sempre animada pelo impulso de uma ressurreição interior em dialética com a progressiva descoberta do mundo...

 

   Por isso a princípio nos inquieta e entristece a cena de quem já não entende porque não percebe nem sabe distinguir, nem mais nada consegue guardar por que já não se fixa nem sabe registar. Eis uma experiência de vida e convívio que será desanimadora e dolorosa, mas que em período pascal também poderá ser embarque para nova viagem. Pois que nessa idade em que o descobrimento vai dando lugar ao encobrimento, e o discorrer ao confundir, também tudo parece cobrir-se de noite, daquela noite que tantas vezes evoco nos versos de Álvaro de Campos, como sabes. E, neste final de tarde de Pascoela, vejo bem, e com incontida ternura, esta figura de mulher cujo olhar se vai enchendo da penumbra que cresce lá fora e vem entrando pela janela vasta, aberta sobre os campos e que, ajoelhada num sofá macio, ela perdidamente contempla... Não deverá lembrar-se - para os ir recitando - dos versos do Poeta que, todavia, talvez dissessem aquilo que ela simultaneamente vai vendo, perdendo e profundamente sentindo:

     

      Vem, vagamente,
      vem, levemente,
      vem sozinha, solene, com as mãos caídas
      ao teu lado, vem
      e traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
      funde num campo teu todos os campos que vejo,
      faze da montanha um bloco só do teu corpo,
      apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
      todas as estradas que a sobem,
      todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe,
      todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
      e deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
      na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
      na distância subitamente impossível de percorrer.

 

   A alma ali ajoelhada talvez já não saiba, nem sequer pensa nessa oculta vontade de soluçar que, todavia, sente a tentar trepar-lhe pelo íntimo de si. Terá agora, pensossinto eu, outra sageza, talvez porque a alma é grande e a vida é pequena, / e todos os gestos não saem do nosso corpo / e só alcançamos onde o nosso braço chega, / e só vemos até onde chega o nosso olhar...

 

   Assim me imagino a genufletir a seu lado, rezando, diante da noite que sobre nós vai caindo, com as palavras suplicantes do Poeta:

 

      Vem, Noite silenciosa e extática,
      vem envolver na noite manto branco
      o meu coração...
      Serenamente, como uma brisa na tarde leve,
      tranquilamente, como um gesto materno afagando,
      com as estrelas luzindo nas tuas mãos
      e a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
      Todos os sons soam de outra maneira
      quando tu vens.
      Quando tu entras baixam todas as vozes,
      ninguém te vê entrar,
      ninguém sabe quando entraste,
      senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
      que tudo perde as arestas e as cores,
      e que no alto céu ainda claramente azul
      já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

 

      a lua começa a ser real.

 

   Esta ode do Pessoa Álvaro de Campos, muitas vezes a leio e recito como oração à morte in hora mortis. Aliás, até posso substituir, em quase todos os versos, a palavra noite por morte. Ambas têm cinco letras, três delas idênticas e na mesma posição. Mas, no último verso, lembro-me da lumen vitae, e digo a vida começa a ser real. Aí, afinal, escrevo a morada da minha, da nossa, esperança. Porque somos inquietos por natureza, muitas vezes insatisfeitos só por precipitação, há em nós essa propensão ao descontentamento: resmungamos, ou disparatamos, ou desesperamos, vamo-nos pondo a jeito de nos ocultarmos esse pisca-pisca interior que nos avisa de que a paragem é um convite à paciência. A partir de certa idade, quiçá mais difícil connosco do que para com os outros... Ao ponto de até nos esquecermos de que a substância da nossa esperança é, precisamente, a nossa vida, esta sendo um facto evidente. Nem será necessário recorrermos ao que poderia chamar-se, por contraposição à intuição metafisica, a conclusão biológica do António Damásio quando nos fala na perseverança celular do ser vivo. Em momentos difíceis, recordo muitas vezes a primeira quadra de um fado de Coimbra que, há seis décadas atrás, ouvi em serenata frente à Sé Velha de Coimbra ao Fernando Machado Soares:

 

      A vida é negra, tão negra,
      como a noite nos pinhais!
      Mas é nas noites mais negras
      que as estrelas brilham mais!

 

   Até qualquer passado romantismo nos pode ensinar que tudo é graça... Tal como o Livro do Apocalipse de S. João nos diz: Mas ele pousou a mão direita sobre mim e disse-me: «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Estive morto, mas eis-me vivo»... Pelos tempos que correm, talvez nos fizesse bem voltar ao treino da contemplação dos mistérios.

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

A IGREJA É UMA CANOA, NÃO É UM MUSEU

 

No Sínodo de Outubro passado, em Roma, um jovem proveniente das ilhas Samoa, disse que a Igreja é “uma canoa, na qual os velhos ajudam a manter a direcção, interpretando a posição das estrelas, e os jovens remam com força, imaginando aquilo que os espera mais além.”

 

Na recente  “Exortação Apostólica Pós-Sinodal Cristo Vive aos jovens e a todo o Povo de Deus”, inspirada nas reflexões e diálogos do Sínodo, incluindo opiniões de jovens de todo o mundo, crentes e não crentes, o Papa Francisco retoma a imagem da canoa, para acrescentar: “Não nos deixemos levar nem pelos jovens que pensam que os adultos são um passado que já não conta, que já caducou, nem pelos adultos que julgam saber sempre como é que os jovens se devem comportar. É preferível que todos subamos para a mesma canoa e que entre todos procuremos um mundo melhor, sob o impulso sempre novo do Espírito Santo.”

 

A pastoral só pode ser sinodal, isto é, caminhando juntos, dado que a Igreja somos todos e cada um deve contribuir com os seus carismas e a sua situação. “Ao mundo nunca aproveitou nem aproveitará a ruptura entre gerações.” Só com os contributos intergeracionais se poderá construir um mundo novo e uma Igreja aberta. Lá diz o ditado: “Se o jovem soubesse e o velho pudesse, não haveria coisa que não se fizesse”.

 

O Papa apela aos jovens para que não esqueçam as raízes: “É fácil ‘sumir-se no ar’ quando não há onde agarrar-se, onde apoiar-se.” Não devem seguir quem lhes peça que desprezem ou ignorem a História. Quem faz isso “precisa que estejais vazios, desenraizados, desconfiados de tudo, para que só confieis nas suas promessas e vos submetais aos seus planos. Assim funcionam as ideologias de diversas cores.” E previne-os contra outro perigo: a adoração da juventude e do corpo. “Os manipuladores utilizam outro recurso: uma adoração da juventude, como se tudo o que não seja jovem se convertesse numa coisa detestável e caduca. O corpo jovem torna-se o símbolo deste novo culto, e, então, tudo o que tiver que ver com esse corpo é idolatrado e desejado sem limites, e o que não for jovem é olhado com desprezo. Queridos jovens, não aceiteis que usem a vossa juventude para fomentar uma vida superficial, que confunde a beleza com a aparência. Há formosura para lá da aparência ou da estética da moda, em cada homem e em cada mulher que vivem com amor a sua vocação pessoal.”

 

Por outro lado, Francisco desafia a hierarquia, bispos e padres, para que dêem protagonismo às novas gerações. A pastoral juvenil precisa de adquirir outra flexibilidade e de convocar os jovens para eventos, para acontecimentos que de vez em quando lhes ofereçam um lugar onde não só recebam formação, mas que também lhes permitam partilhar a vida, celebrar, cantar, escutar testemunhos e experimentar o encontro comunitário com Deus.” Para se renovar, a Igreja precisa de estar atenta aos jovens, aos seus anseios, aos seus traumas, aos seus problemas, às suas dúvidas, aos seus erros, à sua história, à sua busca de identidade, às suas experiências de pecado e todas as suas dificuldades.

 

Não se pode esquecer que, “para muitos jovens, Deus, a religião e a Igreja são palavras vazias, no entanto, eles são sensíveis à figura de Jesus, quando esta é apresentada de modo atraente e eficaz.” O Sínodo reconheceu que “um número consistente de jovens não pede nada à Igreja porque não a consideram significativa para a sua existência. Alguns, inclusive, pedem expressamente que os deixem em paz, visto que sentem a presença da Igreja incómoda e até irritante.” Isto implica que a Igreja tem de reconhecer humildemente que muitas coisas têm de mudar e, para isso, “também precisa de ter em conta a visão e também as críticas dos jovens.” Eles “reclamam uma Igreja que escute mais, que não passe a vida a condenar o mundo. Não querem ver uma Igreja calada e tímida nem tão-pouco que esteja sempre em guerra por dois ou três temas que são para ela uma obsessão.”

 

A Igreja não pode pôr-se na defensiva, porque “uma Igreja na defensiva, que perde a humildade, que deixa de escutar, que não permite que a ponham em questão, perde a juventude e converte-se num museu.” E Francisco dá o exemplo da relação da Igreja com as mulheres: ela precisa de prestar atenção às “legítimas reivindicações das mulheres que pedem mais justiça e igualdade. Pode recordar a História e reconhecer uma longa trama de autoritarismo por parte dos homens, de sujeição, de diversas formas de escravidão, de abuso e de violência machistas. Nesta linha, o Sínodo quis renovar o compromisso da Igreja contra todo o tipo de discriminação e violência sexual. É essa a reacção de uma Igreja que se mantém jovem e que se deixa colocar em questão e impulsionar pela sensibilidade dos jovens.”

 

O Papa não se cansa de clamar: Jovens, “vós sois o agora de Deus. Não podemos dizer apenas que os jovens são o futuro do mundo. São o presente, estão a enriquecê-lo com o seu contributo.” Deus é “o autor da juventude e actua em cada jovem. A juventude é um tempo abençoado para o jovem e uma bênção para a Igreja e para o mundo. E uma alegria, um cântico de esperança e uma bem-aventurança.” Apreciar a juventude implica vê-la como um tempo valioso em si mesmo e não como mera etapa de passagem para a idade adulta. De qualquer modo, “neste período da vida, os jovens são chamados a projectar-se para a frente sem cortarem as suas raízes, a construir autonomia, mas não na solidão.” Neste sentido, o Papa adverte-os contra as ofertas desumanizantes: “São muitos os jovens ideologizados, utilizados e aproveitados como carne para canhão ou como força de choque para destruir, amedrontar ou ridicularizar outros. E o pior é que muitos se convertem em seres individualistas, inimigos e desconfiados de todos, que assim se tornam presa fácil de ofertas desumanas e  planos destrutivos elaborados por grupos políticos e por poderes económicos.” Daí, o apelo: “Não deixes que te roubem a esperança e a alegria, que te narcotizem para utilizar-te como escravo dos seus interesses. Atreve-te a ser mais, porque o teu ser é mais importante do que qualquer outra coisa. Não te serve ter ou aparecer. Podes chegar a ser aquilo que Deus, teu Criador, sabe que tu és. Assim não serás fotocópia. Serás plenamente tu próprio.”

 

Francisco reconhece as dificuldades dos jovens no mundo actual: “Ainda mais numerosos são os jovens que padecem formas de  marginalização e exclusão social por razões religiosas, étnicas ou económicas. Recordamos a difícil situação de adolescentes e jovens que engravidam e a praga do aborto, bem como a difusão do HIV, as várias formas de dependência (drogas, jogos de azar, pornografia, etc.) e a situação das crianças e jovens da rua, que não têm casa, nem família, nem recursos económicos.” Perante estas situações, convida cada um a interrogar-se: “Eu tenho aprendido a chorar?” Porque não podemos ser “uma Igreja que não chora frente a estes dramas dos seus filhos.”

 

 Consciente de que “a moral sexual costuma ser, muitas vezes, causa de incompreensão e afastamento da Igreja, visto que é percebida como um espaço de julgamento e de condenação”, o Papa não podia deixar de reflectir sobre a problemática do corpo e da sexualidade, que têm “uma importância fundamental para a vida dos jovens e no caminho de crescimento da sua identidade.” Chama a atenção para que, “num mundo que enfatiza em excesso a sexualidade, é difícil manter uma boa relação com o próprio corpo e viver serenamente as relações afectivas.” “Ao mesmo tempo, os jovens exprimem um desejo explícito de se confrontarem sobre as questões relativas à diferença entre identidade masculina e feminina, à reciprocidade entre homens e mulheres e à homossexualidade.” O Papa convida a superar “tabus” sobre o sexo e a sexualidade, que apresenta como “um dom de Deus”, com o propósito de “amar-se e gerar vida.”  E, neste contexto, reflectindo sobre os avanços das ciências e das NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas), lembra as novas interrogações antropológicas e éticas  que se levantam e como facilmente se pode ser instrumentalizado por quem detém o poder tecnológico.

 

Outro desafio é o da digitalização. “A Web e as redes sociais criaram um modo novo de comunicação e de vinculação, e são uma praça na qual os jovens passam muito tempo e facilmente se encontram, embora o acesso não seja igual para todos, de modo particular em certas regiões do mundo.” O Papa não pode deixar de reconhecer as vantagens da digitalização, mas não deixa de advertir que se trata de uma realidade atravessada por ingentes interesses económicos e por limitações e carências, como, por exemplo, o perigo da perda de sentido crítico. “Não é saudável confundir a comunicação com o mero contacto virtual. Com efeito, o ambiente digital também é um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até ao extremo da dark Web.” A imersão  no mundo virtual pode tornar-se “uma espécie de migração digital, isto é, um afastamento da família, dos valores culturais e religiosos, que leva muita gente a um mundo de solidão e de autoinvenção, até ao ponto de experimentarem uma falta de raízes, mesmo permanecendo fisicamente no mesmo lugar.” Trata-se de um novo desafio: “interagir com um mundo real e virtual, em que os jovens penetram sozinhos, como num continente global desconhecido. Os jovens de hoje são os primeiros a fazer esta síntese entre a pessoa, o próprio de cada cultura e o global. Isso requer que consigam passar do contacto virtual a uma boa e sã comunicação.”

 

No capítulo  quarto, o Papa expõe “três grandes verdades”, que todos permanentemente precisamos de escutar. A primeira: “Deus ama-te. Independentemente do que te aconteça na vida, não duvides disso, és sempre infinitamente amado.” A segunda: “Cristo entregou-se, por amor, até ao fim para salvar-te.” A terceira: “Mataram-no, mas Ele venceu. Ele está vivo. O mal não tem a última palavra.”  “Cristo vive” é o título da Exortação.

 

Os dois últimos capítulos, oitavo e nono, são dedicados à vocação e ao discernimento. “Somos chamados pelo Senhor a participar na sua obra criadora, prestando o nosso contributo para o bem comum a partir das capacidades que recebemos.” Na procura da sua vocação, os jovens não deverão pensar apenas no dinheiro. E lembra o livro bíblico de Ben Sira: “Não há pior do que aquele que é avaro para si mesmo.”

 

Conclui, com um desejo: “Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e temerosos. A Igreja precisa do vosso entusiasmo, das vossas intuições, da vossa fé. Fazeis-nos falta. E, quando chegardes aonde nós ainda não chegámos, tende paciência para  esperar por nós.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 28 ABR 2019

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - VII

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não há testemunhas presenciais do levantamento de Jesus Cristo do chão dos mortos. Não há relatos, reportagens, desse momento fundamental, fundador, da fé cristã. As narrativas existentes do sucesso, ou acontecimento, dessa Ressurreição apenas nos contam a descoberta do sepulcro vazio. O capítulo XVI do Evangelho de Marcos - que a seguir te transcrevo na tradução de Frederico Lourenço - é curta, incisiva, interrogadora, quiçá cheia de uma verdade que, todavia, para a condição humana do leitor, poderá não ser assim tão evidente:

 

   Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para irem embalsamá-lo. E muito cedo de manhã, no primeiro dia da semana, elas vão até ao sepulcro tendo já nascido o sol.

 

   E diziam entre si: «Quem rolará para nós a pedra da entrada do sepulcro?» E tendo olhado à sua volta, veem que a pedra tinha sido rolada para o lado; e era muito grande. E entrando elas no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram apavoradas.

 

   Ele diz-lhes: «Não vos assusteis. É Jesus, o Nazareno, que procurais, o crucificado? Ressuscitou. Não está aqui. Vede o lugar onde o depuseram. Mas ide e dizei aos seus discípulos e a Pedro: "Ele vai à vossa frente, a caminho da Galileia; lá o vereis, tal como ele vos disse.»

 

   E elas, saindo, fugiram do sepulcro, pois dominava-as um tremor e um êxtase. E nada disseram a ninguém: tinham medo, pois.

  

   Assim termina uma das quatro narrativas canónicas da Boa Nova de Jesus Cristo, esta sendo, provavelmente, a mais antiga. Como se fossem todos saduceus ou, noutra hipótese, considerassem que a ressurreição dos mortos fosse algo só imaginável no após fim do mundo, do tempo e do espaço, quando rebentassem inúmeras catástrofes. Tinham medo dos fantasmas, como todos nós, nas nossas culturas, ao longo de milénios... Qualquer contacto com os espíritos dos mortos seria necessariamente obra do maligno, ou como descer aos infernos, ao Hades donde nem Orfeu logrou tirar Eurídice, mas apenas o castigo que o levou a quedar-se explodido na abóboda estelar...

 

   Já o mais tardio dos evangelhos, o de João, no seu penúltimo capítulo (o XX), reportando embora o túmulo vazio e a ausência imediata de Jesus, conta que Maria Madalena desatou a correr e foi ter com Pedro e o discípulo que Jesus amava: «Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram!» Ambos então acorreram ao local, entraram no túmulo e encontraram e viram que os panos que envolviam o corpo estavam depostos, e o sudário que estivera à volta da cabeça dele não jazia juntamente com os panos, mas dobrado à parte em lugar próprio. Então, o outro discípulo, que chegara primeiro ao túmulo, entrou e viu e acreditou. Ainda não conheciam o trecho da Escritura, segundo o qual ele tinha de ressuscitar dos mortos. Os discípulos voltaram de novo para junto dos seus. E o Evangelho segundo S. João prossegue o relato da cena que nos deixa adivinhar o mistério da Ressurreição e nos põe a interroga-lo. Não só sobre o que será ou possa ser ressurgir dos mortos, mas, desde logo, sobre os modos como nos poderemos relacionar com essa eventualidade anunciada. Todos e qualquer de nós, mesmo quem tenha ou creia ter fé. Os textos de João Evangelista que seguidamente transcrevo (sempre na versão de Frederico Lourenço) são bem elucidativos do paradoxo da fé:

 

   Maria Madalena ficou de pé a chorar no exterior do túmulo. Enquanto chorava, espreitou para dentro do túmulo e viu dois anjos sentados, vestidos de branco, um à cabeça, outro aos pés, no sítio onde jazera o corpo de Jesus. E eles dizem-lhe: «Mulher, porque choras?» Ela diz-lhes: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram. Enquanto ela dizia isto, voltou-se para trás e viu Jesus e pé e não sabia que era Jesus. Jesus diz-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que ele é o jardineiro, diz-lhe: «Senhor, se o levaste, diz-me onde o puseste e eu levo-o.» Diz-lhe Jesus: «Maria!» Ela, voltando-se, diz-lhe em hebraico: «Rabounî!» (o que quer dizer Mestre). Jesus diz-lhe: «Não me toques. Ainda não ascendi para o Pai. Vai para junto dos meus irmãos e diz-lhes: "Subo para meu Pai e vosso, Deus meu e Deus vosso".» Chega Maria Madalena anunciando aos discípulos que «vi o Senhor!» e as coisas que ele lhe disse.

 

   Antes de passar ao trecho seguinte - para voltarmos aos diferentes modos da fé - deixa-me, Princesa de mim, fazer sobre este um comentário linguístico e trazer-te uma recordação pictórica. O primeiro manifesta a minha maior simpatia por outra tradução da expressão grega "mé mo hapto": não me retenhas! Em vez de não me toques, como na latina da Vulgata, por que é sobejamente conhecida, noli me tangere. Dir-te-ei porquê, ao comentar duas representações da mesma cena: a de Hans Holbein Júnior e a de Lavínia Fontana, uma hoje presente na galeria real de Hampton Court, perto de Londres, onde a visitei com os meus netos, outra nos Uffizi de Florença, que também contemplei em tempos mais meus... À primeira, curiosamente e sem machismo algum, chamam-lhe Noli me tangere; à segunda, pintada por uma mulher, chamam Aparição de Cristo Ressuscitado a Maria Madalena...


   Jean-Luc Nancy, filósofo, escreve no seu Noli Me Tangere (Paris, Bayard, 2003): Na maioria das suas representações pictóricas, Noli me tangere dá azo a notáveis jogos de mãos: aproximação e designação do outro, arabesco de dedos afinados, prece e bênção, esboço de um toque, de um afago, indicação de prudência ou de um aviso. Todas essas mãos desenham uma promessa tenção ou retenção, de se ligarem uma às outras: na verdade, estão, muitas vezes, não só bem no centro do desenho, mas como se fossem o próprio desenho, como as mãos do pintor que diligencia e manipula o desligar dos seus dedos e das suas palmas...   ... Na verdade, essas mãos são signos e sinais da intriga de uma chegada (a de Madalena) e de uma partida (a de Jesus), mãos prontas a juntarem-se, mas já disjuntas, e tão distantes quanto a sombra da luz, mãos que trocam saudações mescladas de desejos, mãos que apontam os corpos tanto quanto designam o céu...

 

   No quadro de Holbein o Jovem, Jesus e Maria estão ambos de pé, mas ela, segurando o vaso de bálsamo com a mão esquerda, inclina-se para a frente, estendendo a direita, como para tocar em Jesus e certificar-se de que ali está mesmo o seu Mestre. Este, pelo contrário, inclina-se para trás, frustrando-se à mão que o procura, e atirando para a frente os seus dois braços, como que a mandá-la parar.

 

   Na pintura de Lavínia Fontana, também do século XVI, Jesus, vestido de jardineiro, com chapéu de palha na cabeça e uma pá ou sacho na mão esquerda, estende a direita sobre a cabeça de Madalena ajoelhada a seus pés, de braços abertos e vaso perfumador na sua mão esquerda, enquanto a direita revela uma íntima ação de graças, como se o gesto suspenso do Mestre, que não lhe toca, fosse simultaneamente uma bênção de despedida e uma promessa.

 

   Apesar das suas muitas diferenças, ambas estas representações ilustram a mesma narrativa evangélica, são a sua reportagem pictórica. Comumente, Cristo Ressuscitado é mais representado vestido de luminoso tecido branco e segurando na mão esquerda um estandarte, de semelhante alvura, sobre a qual surge uma cruz vermelha, e por vezes parece lança espetada sobre o túmulo da própria morte, pois só esta agora ali se encontra, como celebração do triunfo do Ressuscitado. Nestas duas que temos vindo a ver, apenas se conta um episódio, não há qualquer retrato de um corpo ressuscitado. A este sói chamar-se corpo glorioso, quiçá para o diferenciar dos fantasmas imaginários que tanto assombramento causam. Talvez para vencer o medo que o desconhecido sempre nos mete cá dentro. Seja o que for, se até deste mundo sabemos muito pouco, apesar de o situarmos no espaço/tempo que nos permita entendê-lo, que poderemos dizer do outro, infinito e intemporal? Assim, a glória, tal como suas derivadas verbalizações e adjetivações, são apenas conceitos que criamos, neste caso, para designar o indesignável: a realidade (que não é condicionada) da imortalidade, e o seu lugar (que ou é nenhures ou omnipresente).

 

   A fé na Ressurreição não é, pois, não pode ser, o conhecimento, nem sequer a imaginação, de algo palpável. Cristo ressuscitado já não pode continuar entre nós em condição humana, pois esta é periclitante e terminal. Muitos gostaríamos de poder retê-lo e tocar-lhe. Mas, desde o início do seu ensino, Jesus diz-nos que terá de padecer, morrer e ressuscitar para voltar para o Pai. E, em troca da sua ausência necessária, deixa-nos a memória de si e o Espírito de Vida. Deus não está connosco como se o Transcendente pudesse existir submetido à condição humana. Veio uma vez e revolucionou a nossa vida, em sentido próprio: deu-lhe a volta completa para nos pôr, a nós, outra vez, no início do mundo. Agora já como seu Corpo Místico, celebrado na ação de graças que é a Eucaristia, mas vivificado pelo Espírito Paráclito que anima o sacramento cristão por excelência: amai-vos uns aos outros.

 

   O mesmíssimo capítulo XX do Evangelho de João conta-nos, depois da narrativa da Madalena que, sem sequer ter podido tocar o Senhor, o reconheceu e foi, correndo, contar aos discípulos fechados em medos que o tinha visto, a visita que Cristo Ressuscitado lhes faz, ali onde, temerosos, se tinham trancado: «Paz para vós». E dizendo-lhes isto, mostrou-lhes as mãos e o flanco. Então, os discípulos alegraram-se ao verem o Senhor...   ... Mas Tomé, um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos diziam-lhe: «Vimos o Senhor!» Mas ele disse-lhes: «A não ser que veja nas mãos dele a marca dos pregos e ponha o meu dedo na marca dos pregos e ponha a minha mão dentro do flanco dele, não acreditarei». E oito dias depois, os discípulos estavam de novo dentro, e Tomé estava com eles. Chega Jesus, estando trancadas as portas, e pôs-se de pé a meio e disse: «Paz para vós.» Depois diz a Tomé: «Aproxima o teu dedo daqui e vê as minhas mãos e aproxima a tua mão e põe-na no meu flanco e não te tornes descrente mas sim crente.» Tomé respondeu e disse-lhe: «Meu Senhor e meu Deus.» Diz-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste? Bem aventurados os que não viram e acreditaram».

 

   Caravaggio, na sua Incredulidade de São Tomé (1600-1)que vi no Neues Palais, em Potsdam, pinta com intenso realismo físico o dedo do apóstolo a meter-se no lado lancetado do Mestre, cuja mão esquerda lhe segura e empurra a direita para que toque bem a ferida. Há uma força voluntarista e serena no rosto atento de Jesus, enquanto Tomé parece atónito e confuso, e outros dois apóstolos (Pedro e João?) se debruçam como quem quer certificar-se. Não surge sangue algum, um corpo ressuscitado já está livre de qualquer sinal ou atributo de vida carnal. E qualquer certeza física da Ressurreição parece aqui deslocada, quase absurda. Pertence já ao domínio da simples fé, substância das coisas que hão de vir.

 

   Outra tela do Caravaggio, coeva desta (1601), oferece-nos, na National Gallery, em Londres, A Ceia de Emaús, um conto neotestamentário que resume bem a herança que Jesus Cristo deixa depois de morto e ressuscitado. Sentado à mesa já composta para a ceia, o Senhor é figura central, cujo braço direito se ergue sobre os alimentos presentes, em que se reconhecem o pão e o vinho eucarísticos, num gesto de bênção e oferta. À sua esquerda senta-se um discípulo (Pedro?) que, com os braços abertos em cruz, se debruça como quem abraça o gesto do Mestre. Diante deste senta-se outro discípulo que, segurando-se com força ao seu assento, fita o mesmo gesto com o maravilhamento de quem assiste a uma revelação. De pé, quase por detrás de Jesus, o estalajadeiro, com semblante muito sério, contempla e escuta os gestos e palavras do celebrante, interrogando-se, talvez, sobre o que se está na realidade passando.

 

   E em 2019, por chuvosa semana de Páscoa a tornar mais verdejantes os campos largos que avisto, também eu, minha Princesa de mim, continuo a contemplar e interrogar um mistério, na esperança de que certo dia me seja desvendado.

 

Camilo Maria    

  
Camilo Martins de Oliveira

ENTRE A SEXTA-FEIRA SANTA E A PÁSCOA: SÁBADO

 

Crentes ou não crentes — quem o disse foi George Steiner — é em Sábado que vivemos. Que é que isto quer dizer? Todos, de um modo ou outro, em nós mesmos e no mundo, constatamos e vivemos a Sexta-Feira Santa do sofrimento, do horror, da violência, do silêncio e da noite, e todos, de um modo ou outro, de forma mais explícita ou menos explícita, mais consciente ou menos, é pelo Domingo, o Domingo da Páscoa, que suspiramos e esperamos, a Páscoa da salvação.

 

O que nestes dias os cristãos celebram é este Sábado, que pertence ao núcleo da existência cristã, como disse São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã também a vossa fé. Se nós temos esperança em Cristo apenas para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. Evidentemente, a ressurreição implica por si mesma uma meditação sobre a morte e o sentido último da existência. Uma meditação sobre o Sábado, no qual vivemos.

 

1. Na história gigantesca do universo, com 13.700 milhões de anos, o sinal distintivo de que há Homem, não já simplesmente algo, mas alguém, são os rituais funerários. A partir daí, já não estamos em presença de um animal qualquer, mas do ser humano, que sabe que sabe, que tem consciência de si, consciência de que é mortal, e que, nem que seja de modo confuso, espera para lá da morte. A consciência da morte e a esperança constituem, portanto, na História do mundo, uma novidade essencial e radical.

 

Perante a morte e a mortalidade, surge a interrogação fundamental, que está na base das artes, das filosofias, das religiões: o que é o Homem? Sabemos que somos mortais, mas ninguém sabe o que é morrer, ninguém sabe o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto. Face à morte, a linguagem falha. Assim, dizemos, perante o cadáver do pai ou da mãe, de um amigo: ele/ela está aqui morto/morta. Ora, o que falta é precisamente o pai, a mãe, o amigo, pois o que ali está não passa de restos mortais e lixo biológico. Ou dizemos que os levamos à sua última morada. Ora, quem se atreveria a enterrar ou a cremar o pai, a mãe, um amigo? Também dizemos que os vamos visitar ao cemitério. Ora, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém. O Evangelho é cru: nos cemitérios, só há ossos e podridão. Então, o que há realmente nos cemitérios, para serem considerados lugares sagrados, de tal modo que a violação de uma sepultura constitui, em todas as culturas, uma profanação e um crime nefando? O que há nos cemitérios não é senão essa pergunta radical: O que e o Homem?, o que é ser Homem?

 

Mas hoje a morte é tabu. Disso pura e simplesmente não se fala. É de mau tom chamar o tema à conversa. Se, tradicionalmente, tabu era o sexo, actualmente, a morte é que é o tabu. Mente-se às crianças, evita-se o luto, pois a grande mentira-ignorância das sociedades contemporâneas, desenvolvidas, técnicas, é a morte. Pela primeira vez na história da Humanidade, temos uma sociedade que se funda no tabu da morte, com todas as consequências. De facto, não se pense que a morte já não é problema. Pelo contrário, numa sociedade que se julga omnipotente e é poderosíssima nos meios, mas sem finalidades humanas, de tal modo a morte é problema, o único problema para o qual não tem solução que a solução é precisamente ignorá-lo, viver como se ele não existisse.

 

As razões do tabu são múltiplas. Fundamentalmente, o que se passou é que a razão esqueceu as suas múltiplas dimensões, ficando reduzida à razão instrumental, à eficiência, ao cálculo, à técnica, e o que importa é o sucesso imediato, o êxito, a juventude, o prazer, a eficácia, o consumismo sem fim. Por outro lado, vai-se impondo a desafeição face à religião, a fé vai rareando. Ora, perante a morte, o Homem faz a experiência de que não é omnipotente, de que não pertence a si mesmo, mas ao Mistério. Assim, perante a erosão da fé, cada vez se acredita menos na vida eterna. Vivemos, pois, numa sociedade sem Eternidade. Ora, sem eternidade, desfaz-se o tecido do tempo, que já não faz texto, pois só ficam instantes que se devoram, na imediatidade do gozo do momento, que se segue a outro momento, na voragem da repetição, do tédio e do sem sentido.

 

A crise do nosso tempo é uma crise global: financeira, económica, social, política, moral, religiosa. Mas é fundamentalmente uma crise da morte. Esta sociedade, para ser o que é, teve de fazer da morte tabu, esquecê-la.

 

Para reencontrar a sabedoria, impõe-se voltar ao pensamento sadio da morte. Não para envenenar a vida, mas, pelo contrário, para viver humanamente e em autenticidade. O pensamento sadio da morte dá-nos a consciência do limite, obrigando, portanto, a viver intensamente cada momento como único. A existência e as suas decisões não admitem adiamentos. Por outro lado, perante a morte, somos remetidos para a liberdade e a ética e a urgência da existência autêntica, pois o confronto com a morte leva à distinção entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o que verdadeiramente vale e o que não vale. A consciência da mortalidade desperta para a compaixão e a consciência da fraternidade humana: somos mortais; logo, somos irmãos. Quem quiser saber o que vale um homem e o que orienta verdadeiramente a sua vida pergunte-lhe o que faria, se soubesse que ia morrer no dia seguinte.

 

2. Como disse Ernst Bloch, filósofo marxista, ao mesmo tempo ateu e religioso — ele que esperava que a última música que ouvisse não fosse a das pazadas de terra na sepultura —, “o cristianismo, na concorrência com outros profetas da imortalidade e da sobrevivência, venceu em grande parte graças à proclamação de Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’. Não propriamente graças ao Sermão da Montanha. No século I depois do acontecimento do Gólgota, a ressurreição foi referida ao Gólgota de uma forma inteiramente pessoal, de tal modo que pelo baptismo na morte de Cristo se experiencia a ressurreição com Ele. Imperava então um desespero apaixonado, que hoje nos parece incompreensível e representa um acentuado contraste com a nossa indiferença. Mas nada impede que dentro de cinquenta anos (porque não dentro de cinco?) volte essa neurose ou psicose de angústia da morte, de tipo metafísico, com a pergunta radical: para quê o esforço da nossa existência, se morremos completamente, vamos para a cova e, em última instância, não nos resta nada?”

 

Outro grande filósofo alemão, J. G. Fichte, escreveu que o ser humano não deixará facilmente de resistir a uma vida que consistisse em “eu comer e beber para apenas logo a seguir voltar a ter fome e sede e poder de novo comer e beber até que se abra debaixo dos meus pés o sepulcro que me devore e seja eu próprio alimento que brota do solo”; como poderei aceitar a ideia de que tudo gira à volta de “gerar seres semelhantes a mim, para que também eles comam e bebam e morram e deixem atrás de si outros seres que façam o mesmo que eu fiz? Para quê este círculo que gira sem cessar à volta de si?... Para quê este horror, que incessantemente se devora a si mesmo, para de novo poder gerar-se, gerando-se, para poder de novo devorar-se?”  

 

Assim, para o ser humano é tão próprio saber que é mortal como esperar para lá da morte. Há aquelas perguntas in-finitas: Porque há algo e não nada? Quem sou? Para onde vou? Onde estarei, quando cá já não estiver, como inquiria Tolstoi? É insuportável andar, na vida, de sentido em sentido e, no fim, afundar-se no nada. Se tudo desembocasse no nada, que valor teria a distinção entre bem e mal, honestidade e desonestidade, honradez e mentira, verdade e falsidade, justiça e injustiça, já que, no fim, tudo se afundaria no nada e tudo seria o mesmo: precisamente nada?

 

Há aquela pergunta in-finita, que atravessa a História: quem fará justiça às vítimas inocentes? Há um clamor na História por causa da dívida para com as vítimas da injustiça e do horror. Quem pagará essa dívida? Quem pode fazer a reconciliação com tanta injustiça e sofrimento dos inocentes? Em diálogo com a Escola Crítica de Frankfurt, tão sensível às vítimas da História e à exigência de uma justiça universal cumprida, Bento XVI reconheceu que a necessidade individual da realização plena e da imortalidade do amor já é “um motivo importante para crer que o Homem está feito para a eternidade”, “mas só o reconhecimento de que a injustiça da História não pode de modo nenhum ter a última palavra” convence da necessidade da ressurreição dos mortos e da vida eterna. Perante a alternativa do absurdo ou do mistério, é sensato optar, com razões, pelo Mistério que salva, entregando-se-lhe confiadamente na fé, na esperança e no amor.

 

A curto, a médio, a longo prazo, todos foram estando mortos. A curto, a médio, a longo prazo, todos iremos, todos irão estando mortos, e, lá no final, só há uma alternativa, porque todos caminhamos para a eternidade: a eternidade do nada ou a eternidade da vida plena em Deus.

 

O cristianismo mantém-se ou afunda-se pela verdade e a fé ou não no Jesus que foi crucificado e que é agora, para sempre, o Vivente em Deus. Os discípulos que, como Jesus, confessavam cada dia, na Shemoné Eshré, a fé no “Deus que ressuscita os mortos“ e que tinham acreditado em Jesus como o Messias continuaram a crer nele, após a sua morte, uma morte que testemunhava o que foi o centro da sua vida e mensagem por palavras e obras até à morte: que Deus é Amor. Depois da crucifixão, reflectindo, aprofundaram a convicção avassaladora de fé de que Jesus não morreu para o nada, mas para o interior da vida de Deus, como promessa e esperança de vida plena e eterna para todos. O Deus que tudo criou por amor a partir do nada, a quem Jesus se dirigia como Abbá (Pai/Mãe), não é um Deus de mortos, mas de vivos. E disso deram testemunho até à morte, testemunho que chegou até nós.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 20 ABR 2019