Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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«Liberdade Religiosa no Mundo – Relatório 2025» (Fundação AIS) constitui um documento de grande importância para o conhecimento da situação real da liberdade de consciência no mundo, num momento especialmente difícil nesse domínio.
Ao analisarmos o último relatório elaborado Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), apresentado no Centro Nacional de Cultura, verificamos que no período analisado do início de 2023 até ao final de 2024 houve graves violações da liberdade religiosa em 62 dos 196 países analisados, sendo que em 24 deles as violações foram classificadas como “perseguição” e em 38 como “discriminação”, sendo que estes países correspondem a cerca de 64,7% da população global.
Além destes, há ainda 24 outros países classificados “sob observação”, devido a uma “onda de sinais de alerta que ameaçam a liberdade religiosa”. Entre elas conta-se o aumento da intolerância, bem como a erosão das proteções legais, o extremismo religioso e a crescente interferência estatal na vida religiosa. Isto significa que 750 milhões de pessoas correm neste momento o risco de discriminação religiosa. Durante o período abrangido, apenas duas nações, o Cazaquistão e o Sri Lanka, apresentaram melhorias em comparação com a edição anterior. Na origem da crescente repressão religiosa está o “autoritarismo” como o principal motor das violações. Em 19 dos 24 países na categoria de perseguição e em 33 dos 38 países com discriminação, os Governos aplicam “estratégias sistemáticas para controlar ou silenciar a vida religiosa”. Na China, Irão, Eritreia e Nicarágua as autoridades utilizam tecnologias de vigilância, censura digital, legislação restritiva e detenções arbitrárias, visando comunidades religiosas independentes. “O controlo da fé tornou-se uma ferramenta do poder político”, sendo a “burocratização da repressão religiosa” cada vez mais sofisticada. Há ainda a expansão do extremismo religioso, em particular em África e na Ásia, em 15 países destes continentes.
A violência jihadista aumenta, adapta-se e desestabiliza a uma escala sem precedentes. Na região do Sahel, em África, grupos como o autoproclamado Estado Islâmico da Província do Sahel têm provocado a morte de centenas de milhares de pessoas, a deslocação de milhões e a destruição de centenas de igrejas e de escolas cristãs. Situações semelhantes são encontradas na República Democrática do Congo e Moçambique, onde a procura de estabelecer um “califado” tem legitimado tais ações. No continente asiático é sobretudo o nacionalismo étnico-religioso que impulsiona a repressão das minorias. Na Índia e em Myanmar é evidente o clima de perseguição. A discriminação é denunciada na Palestina, em Israel, no Sri Lanka e no Nepal. Na Índia ocorre uma “perseguição híbrida”, legal e articulada com a violência das multidões. No caso da Nigéria, os ataques de militantes fulani radicalizados atingiram igrejas, aldeias e clérigos, desencadeando deslocações em massa. No Burquina Fasso, Níger, Mali e na guerra civil no Sudão, “comunidades religiosas inteiras foram desenraizadas, os seus locais de culto destruídos e o património religioso eliminado”. Dos conflitos armados na Ucrânia, Sudão, Myanmar, Gaza e Nagorno-Karabakh têm resultado em “deslocações em massa, encerramento de igrejas e ataques dirigidos a comunidades religiosas”. Do mesmo modo, o crime organizado tem tido “sistematicamente como alvo os líderes e as comunidades religiosas” em Estados enfraquecidos ou falhados e em zonas de conflito. É o que acontece na Nigéria, Haiti e México, onde o crime é um dos principais impulsionadores da perseguição ou discriminação. Verifica-se ainda o “aumento acentuado dos crimes de ódio antissemitas e antimuçulmanos”, sobretudo após o ataque do Hamas em Israel, a 7 de outubro de 2023, e a subsequente guerra em Gaza.
“Os incidentes antissemitas e antimuçulmanos aumentaram em toda a Europa, América do Norte e América Latina”. Em França, os atos antissemitas aumentaram 1.000%, enquanto os crimes de ódio contra muçulmanos aumentaram 29%; na Alemanha houve 4.369 crimes associados ao conflito religioso, face a apenas 61 registados em 2022. Foram atacadas sinagogas e mesquitas e o discurso de ódio proliferou online. Face a isto, “em muitos casos, as respostas governamentais revelaram-se inadequadas, alimentando o medo e a insegurança entre as comunidades religiosas”. Só em 2023, a França registou aproximadamente 1.000 incidentes anticristãos, enquanto a Grécia reportou mais de 600 casos de vandalismo em igrejas. No Canadá, 24 igrejas foram alvo de fogo posto entre 2021 e o início de 2024. Há ainda novas formas de “perseguição digital” na “era da inteligência artificial”. Os grupos extremistas exploram ferramentas digitais para incitar à violência e difundir propaganda negativa e exclusiva e as redes sociais são utilizadas como armas para silenciar as minorias, difundir o discurso de ódio e alimentar a polarização. Duplamente vulneráveis, mulheres e raparigas de minorias religiosas, algumas com apenas 10 anos de idade, sofrem abusos sistémicos. A IA e as ferramentas digitais estão a ser utilizadas para reprimir grupos religiosos. Na China e na Rússia, a “dissidência online” é controlada e punida, enquanto as plataformas religiosas são bloqueadas. Na Coreia do Norte, os relatos citados no documento indicam que as autoridades aplicam um sistema agressivo de vigilância.
Como fica claro neste Relatório “a liberdade religiosa não é um privilégio – é um direito humano fundamental”. “Da região de Cabo Delgado, em Moçambique, ao Burkina Fasso, as iniciativas inter-religiosas demonstraram que a liberdade religiosa pode servir de base para a unidade e salvaguardar a dignidade humana. A educação desempenha um papel fundamental neste processo, promovendo a coesão social, afirmando a igualdade de valor de todos os indivíduos e capacitando os grupos minoritários, tanto a nível cultural como económico”.
Para se entender o que se passa com as narrativas dos Evangelhos à volta do Natal, há pressupostos fundamentais.
1. Em primeiro lugar, a fé cristã dirige-se a uma pessoa, Jesus confessado como o Cristo (o Messias) e, através dele, a Deus que Jesus revelou como Pai e poderemos e deveremos dizer também como Mãe (Pai-Mãe), com todas as consequências que daí derivam para a existência.
O que diz o Credo cristão, símbolo da fé? “Creio em Jesus Cristo. Gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, ressuscitou ao terceiro dia.” Segundo a fé cristã, isto é verdade? Sim, é verdade, mas é preciso dar atenção ao “consubstancial”. De facto, como mostrei no artigo da semana passada — “E vós quem dizeis que eu sou?” —, Jesus nunca se declarou a si mesmo Deus: veja-se, por exemplo, como no Evangelho a alguém que o chamou “bom mestre”, respondeu: “Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus”. De qualquer modo, recitando o Credo, segue-se a pergunta fundamental: o que deriva dessas afirmações para a nossa existência de homens e mulheres, cristãos ou não? O Credo é teologia dogmática, especulativa, em contexto linguístico da ontologia grega, como mostrei aqui no texto da semana passada. Ora, a teologia dogmática tem que ver com doutrinas e dogmas, com uma estrutura essencialmente filosófica. Pergunta-se: os dogmas movem alguém, convertem alguém, transformam a existência para o melhor, dizem-nos verdadeiramente quem é Deus para os seres humanos e estes para Deus?
Exemplos mais concretos, um do Antigo Testamento e outro do Novo, até para se perceber a passagem do universo hebraico em que Jesus se moveu e o universo grego no qual aparecem redigidos os Evangelhos. No capítulo 3 do livro do Êxodo aparece a manifestação de Deus na sarça ardente e Moisés dirige-se a Deus: se me perguntarem qual é o teu nome, que devo responder-lhes? E Deus: “Eu sou aquele que sou”. Dir-lhes-ás: “Eu sou” enviou-me a vós. A fórmula em hebraico: ehyeh asher ehyeh (“eu sou quem sou”, “eu sou o que sou”) é o modo de dizer que Deus está acima de todo o nome, pois é Transcendência pura, que não está à mercê dos homens, mas diz também (a ontologia hebraica é dinâmica) o que Deus faz: Eu sou aquele que está convosco na história da libertação, que vos acompanha no caminho da liberdade e da salvação. Depois, com a tradução dos Setenta, compreendeu-se este ehyeh asher ehyeh como “Eu sou aquele que é”, “Eu sou aquele que sou”, o Absoluto. Filosofando sobre Deus, a partir daqui, Santo Tomás de Aquino dirá que Deus é “Ipsum Esse Subsistens” (O próprio ser subsistente), Aquele cuja essência é a sua existência. Isto é verdade, mas significa o quê para iluminar a existência? Perdeu-se a dinâmica do Deus que está presente e acompanha a Humanidade na história da libertação salvadora.
No Novo Testamento, João Baptista, preso, mandou os discípulos perguntar a Jesus se ele era o que estava para vir, o Messias. Jesus não afirmou nem negou. Mas deu uma resposta existencial, prática: “Ide dizer-lhe o que vistes e ouvistes: os coxos andam, os cegos vêem, a Boa Nova é anunciada, a libertação avança, a salvação está em marcha”.
O que é que isto significa? A teologia, a partir da Bíblia, é, antes de mais, teologia narrativa e não dogmática. Quer dizer: tem uma estrutura existencial, histórica. Na teologia especulativa, o centro de interesse é o ser; na teologia narrativa, o decisivo é o que acontece. Assim, na perspectiva cristã, o essencial consiste na pergunta: O que é que acontece quando Deus está presente? Na linha dogmático-doutrinal, exige-se e até se pode dar um assentimento intelectual, subordinando-se, mas a existência continua inalterada. Corre-se então o perigo de uma “fé” em fórmulas doutrinais coisistas, petrificadas, sem qualquer transformação da vida, que é o que acontece tão frequentemente. Ora, a vida cristã, se quiser ser verdadeiramente cristã, no discipulado de Jesus, tem de ser determinada mais pela ortopráxis — a acção correcta, boa — do que pela ortodoxia, embora, evidentemente, sem menosprezar a ortodoxia, segundo uma hermenêutica adequada: Jesus louvou a cananeia pela sua fé, que não era ortodoxa, deu como exemplo o samaritano, que não seguia a ortodoxia, mas praticava a misericórdia, e, sobretudo, leia-se o Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 25 sobre o Juízo Final, no qual não há perguntas sobre fórmulas teóricas religiosas, mas sobre a prática: “Destes-me de comer, de beber, vestistes-me, visitastes-me na cadeia e no hospital...”.
2. Não há figura mais estudada do que Jesus Cristo e não há hoje nenhum historiador sério que negue a sua existência histórica. E sabe-se que frequentava a sinagoga, trabalhou no duro como tekton, que é mais do que um carpinteiro (ele trabalhava a madeira e outros materiais, tanto na construção de uma casa como de instrumentos agrícolas), portanto, poderíamos dizer: um artesão.
Fez a experiência funda e única de Deus como Abbá, Paizinho, querido Papá, que ama com amor de pai e de mãe. Em seu nome, quando tinha pouco mais de 30 anos, anunciou o Evangelho (notícia boa e felicitante da parte de Deus para todos) e o Reino de Deus, que é o reino da justiça, da paz, da fraternidade, da realização plena de todos os homens e mulheres. Fê-lo por palavras e obras para todos, a começar pela proximidade em relação aos mais fracos, pobres, abandonados, impuros, heréticos... Enfrentou a religião oficial do Templo, escandalizando aqueles que viviam da religião explorando o povo. Foi condenado pelos sacerdotes, que não o toleravam, e foi crucificado pelo poder imperial romano. Morreu como blasfemo religioso e subversivo social e político. Depois, mais uma vez, lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A figura histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Ele conclui que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas, continua, também sabemos que, “depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a ‘ressurreição’”: aquele que tinha morrido realmente apareceu como “pessoa viva, mas transformada”. “Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso”. Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a História. Grande parte da Humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta. Não se pode esquecer, muito menos ignorar, que da biografia de alguém faz parte a sua Wirkungsgeschichte, na reflexão do célebre filósofo Hans-Georg Gadamer, isto é, a história dos efeitos dessa vida ou, por outras palavras, as consequências dessa vida na História.
A experiência pascal — Jesus, o crucificado, está vivo em Deus para sempre — foi avassaladora para os discípulos. São Paulo fez também essa experiência e, assim, de perseguidor passou a apóstolo, percorrendo talvez mais de 15.000 quilómetros para anunciar a Boa Nova. O que vale um morto? Nada. O que vale um crucificado? Ainda menos. Mas, se Jesus, o crucificado, está vivo em Deus, isso significa o aval de Deus a tudo quanto Jesus disse e fez, Deus ratifica a sua pessoa e a sua mensagem. Então, se Jesus, o crucificado, vale para Deus, todos valem, concluindo São Paulo que “já não há judeu nem grego, homem ou mulher, escravo ou livre”, pois todos valem para Deus: “foi para a liberdade que Cristo nos libertou”, “já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus”. Ernst Bloch, o ateu religioso, um dos maiores filósofos do século XX, com quem tive o privilégio de conversar, viu bem: “O cristianismo venceu mediante a proclamação: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’”.
A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem de dignificação de todos, mensagem que mudou a História.
3. A História lê-se de trás para a frente, a partir do princípio, evidentemente, mas tem sobretudo de ser lida do fim para o princípio. Portanto, com a história e a razão hermenêutica. No caso de Jesus e do cristianismo, essa leitura é essencial, para não se cair em alçapões mortais.
Frequentemente, com certas formulações dogmáticas, acabar-se-ia por fazer concretamente de Jesus e de sua mãe, Maria, autênticos robôs, com tudo pré-sabido e pré-determinado. Ora, evidentemente, no princípio, Maria e José não sabiam quem era aquele menino a quem deram o nome de Jesus e perguntaram como todos os pais: o que será deste filho? Ele ia crescendo e umas vezes entendiam o que estava a acontecer e outras vezes não entendiam. Está no Evangelho segundo São Lucas, no relato de Jesus perdido no Templo: “Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura. Ele respondeu: Não sabíeis que devia estar na casa de meu Pai? Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse”. E Jesus ia crescendo “em sabedoria, em estatura e em graça”. E no Evangelho segundo São Marcos: “E quando os seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão nele, pois diziam: Está fora de si”.
Os Evangelhos escrevem sobre a realidade histórica, mas foram escritos por quem, à luz do fim, já acreditava que Jesus é, na confissão de São Pedro, “o Filho do Deus vivo”. Concretamente no que se refere aos Evangelhos ditos da infância, é necessário ter em atenção a sua significatividade mais do que a historicidade. De facto, eles são construções teológicas, colocando no princípio a revelação do fim: Jesus é o Messias. Se é o Messias, nele realizam-se as profecias e as promessas de Deus. Assim:
3.1. O que é o Natal? Sim, é “um novo começo”, como bem viu o famoso teólogo Hans Küng, com quem falei várias vezes. Também tive o privilégio de ter tido como professor talvez o maior teólogo católico do século XX, Karl Rahner, que escreveu: "Quando dizemos ‘é Natal’, estamos a dizer: (Em Jesus de Nazaré), ‘Deus disse ao mundo a sua palavra última, a sua mais profunda e bela palavra numa Palavra feita carne’. E esta Palavra significa: amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos."
3.2. Como foi o seu nascimento? Maria é virgem? Jesus teve irmãos? Foi também a Karl Rahner que ouvi pela primeira vez que os Evangelhos e a teologia não são tratados de biologia e anatomia.
Diz o Evangelho segundo São Lucas, referindo a admiração dos seus conterrâneos, quando Jesus começou a pregar: “Donde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós? E isto parecia-lhes escandaloso.”
Maria é bem-aventurada, não por ser a mãe de Jesus, mas porque acreditou e se converteu à mensagem do seu Filho, como se lê no Evangelho segundo São Lucas: “Enquanto Jesus falava, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse: Bem-aventuradas as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram! Ele, porém, retorquiu: Bem-aventurados, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática”.
Outro jesuíta, filósofo e teólogo, Juan Masiá, disse, neste contexto, o essencial: Maria é bem-aventurada “ao conceber com José a Jesus por cooperação com o Espírito Santo. Agraciada ao dar à luz Jesus e os seus irmãos e irmãs. Salve!, Maria e José, agraciados e abençoados, com todas as mães e pais que recebem como um dom do Espírito os filhos que procriam e, ao gerá-los, consumam a virgindade simbólica que se realiza na maternidade e na paternidade. Porque não é incompatível a união dos progenitores com a acção do Espírito: a criatura nasce pela união dos seus progenitores e pela graça, a força, do Espírito Santo”.
Acrescenta: “Toda a criatura nasce em graça original. Maria não é uma excepção. O chamado pecado original não é originário nem mancha. O seu nome exacto é o pecado do mundo. A criatura, que nasce sem nenhuma mancha, vem à luz num mundo no qual já é vasta uma rede de pecado. Como quem entra numa sala de fumadores e se contamina com o fumo”.
3.3. Quando nasceu? Ninguém sabe exactamente, mas terá sido entre o ano 6 e o ano 4 a.C. Parece paradoxal, mas isso deve-se a um erro do monge Dionísio, o Exíguo, quando no século VI quis estabelecer precisamente a data do nascimento de Jesus.
Evidentemente, não se pode dizer que nasceu no dia 25 de Dezembro. O que se passou é que, quando, nos séculos III-IV já havia comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano, a festa pagã do Dies Natalis Solis Invicti (Natal do Sol Invicto), associada ao solstício do Inverno, deu lugar ao Natal cristão, pois Jesus é que é o verdadeiro Sol, a Luz invencível.
3.4. Onde nasceu? É quase certo que Jesus nasceu em Nazaré, por isso lhe chamavam o Nazareno. Mas, se ele, segundo a fé, é o Messias, então ele é o verdadeiro rei, da linhagem de David, que era de Belém. E puseram-no a nascer em Belém.
3.5. Os pastores foram os primeiros avisados, porque Deus manifestou a sua salvação a todos, a começar pelos que constituíam a classe baixa dos pequenos e pobres e viviam à margem da prática religiosa.
3.6. E os magos vieram do Oriente? E quantos eram? E viram uma estrela sobre a manjedoura?
Será inútil procurar nessa data algum sinal especial no céu, porque, mais uma vez, os Evangelhos também não são nenhum tratado de astronomia. Eles vêm do Oriente, porque “ex Oriente lux” (a luz vem do Oriente) e Jesus é a verdadeira luz. E o salvador veio para todos, também para os pagãos. E Herodes não precisava de se preocupar com a notícia, porque Jesus é rei, mas o seu reino implica um reinado de serviço e não de domínio.
3.7. E, claro, a chamada fuga para o Egipto não aconteceu, é apenas uma metáfora para dizer que Jesus é que é o verdadeiro novo Moisés, porque é o Libertador definitivo de toda a escravidão e opressão, incluindo a libertação da morte. Como Jesus não morreu para o nada, mas para a plenitude da vida em Deus, com a fé nele nasceu para todos a esperança da vida plena e definitiva em Deus.
4. Para todos, cada uma e cada um, de coração, vai o meu vivo desejo de um novo ano de 2026 bom, realmente bom, e feliz.
Com Jesus.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 3 de Janeiro de 2026
Jesus é, como escreveu o filósofo Karl Jaspers, uma das "figuras determinantes" ou "decisivas" da História humana. Não há dúvida nenhuma de que, sem ele, a História do mundo não seria como é. A sua figura continua enigmática e misteriosa, e, ao longo destes dois mil anos, foram muitos os que de um modo ou outro tentaram responder à pergunta que o próprio Jesus colocara em relação à sua pessoa: “Quem dizem os homens que eu sou? E vós quem dizeis que eu sou?” E as respostas são sempre teórico-práticas, pois, ao contrário, por exemplo, de um filósofo, Jesus é também um modelo para viver e para morrer.
Mesmo correndo o risco, inevitável, de simplificações apressadas, poder-se-ia dizer que o que hoje está em confronto é uma cristologia "a partir de cima", helenística, que utiliza categorias gregas, como "consubstancial ao Pai", "união hipostática", "encarnação", e uma cristologia "a partir de baixo", bíblica, que procura fazer o percurso dos discípulos com o Jesus histórico, tentando balbuciar o mistério da sua pessoa.
Jesus nunca se declarou a si mesmo Deus. Pelo contrário, como se escreve no Evangelho segundo São Marcos, a alguém que o chamou "bom mestre" respondeu: "Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus". A sua humanidade manifestou-se no seu saber limitado, na sua fé em Deus, na consciência que tinha de si — considerou que tinha uma missão absoluta e de importância última e decisiva para a humanidade, mas ao mesmo tempo interrogou Deus até ao último momento da sua vida — lá está aquela oração que, do alto da Cruz, atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste”. Mas confiou: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.
Foi depois da experiência pascal — Deus ressuscitou Jesus de entre os mortos: na morte, Jesus não encontrou o nada, mas a plenitude da vida de Deus — que os discípulos compreenderam e testemunharam até ao martírio que ele é o Cristo, o Messias. Reflectindo à luz da ressurreição — mas a vida, a morte e a ressurreição só se compreendem na interdependência: Deus não podia deixar na morte quem viveu e morreu como Jesus; por sua vez, se Deus o ressuscitou, ele é verdadeiramente o Messias e o Salvador —, recordaram o que na sua vida terrena, nas suas palavras, nas suas acções, na sua morte, exprimia uma relação de intimidade única com Deus: declarou-se senhor do sábado e acima de Moisés, ensinava com autoridade, autodesignou-se como o Filho do Homem e sobretudo relacionava-se com Deus como Abbá (Pai querido), experiência que traduziu numa entrega incondicional de amor pela humanidade até à morte. Através dele, as primeiras comunidades cristãs fizeram a experiência de que "Deus é amor", como se lê na Primeira Carta de São João, e acreditaram nele como o Filho de Deus — a expressão "o Deus" refere-se sempre ao Pai. Na sua pessoa, mostrou-se de modo definitivo e insuperável a relação salvadora de Deus para com o mundo e qual deve ser a relação dos seres humanos com Deus e entre si. Na vida e na morte.
Ainda hoje, quem acredita em Jesus Cristo é porque se reconhece nele, encontrando o sentido último para a existência e para a História.
Aqui chegados, com a constatação de que Jesus nunca se declarou a si mesmo Deus e que o Novo Testamento quando se refere a Deus pura e simplesmente (ho theós) se refere a Deus Pai, é natural a pergunta pela Santíssima Trindade. Servir-me-ei concretamente do célebre teólogo Hans Küng, na sua obra famosa: Credo. Das Apostolische Glaubensbekenntnis-Zeitgenossen erklärt (Credo. A confissão de fé dos apóstolos explicada às pessoas de hoje).
Küng começa por perguntar: Porque é que a Santíssima Trindade não é mencionada no Símbolo dos Apóstolos? Porque é que no Credo da fé em Deus Pai, no Filho e no Espírito Santo não se diz uma palavra sobre o Deus trino e uno, a Santíssima Trindade, que, para muitos teólogos é considerado o “mistério central” do cristianismo?” A doutrina clássica trinitária de “uma natureza divina em três pessoas” só apareceu nos finais do século IV e a festa da Santíssima Trindade só foi declarada obrigatória em 1334 pelo Papa João XXII.
Sim, ninguém pode negar que no Novo Testamento se fala do Pai, Filho e Espírito e que a fórmula litúrgica do baptismo segundo o Evangelho de São Mateus é: Baptizai “no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt. 28, 19). A questão, porém, é como estão relacionados entre si o Pai, o Filho e o Espírito. Ora, no Novo Testamento, não há um único passo onde se diga que Pai, Filho e Espírito são “da mesma essência”, isto é, possuem uma só natureza comum (physis, substância).
Assim, conclui, Küng, não admira que o Símbolo dos Apóstolos não fale da Santíssima Trindade. E a pergunta é: como falar de Pai, Filho e Espírito, evitando todo o perigo e até a acusação, concretamente por parte dos muçulmanos, de os cristãos professarem um triteísmo.
Fica aí o resumo em três teses do que, a partir de uma perspectiva do Novo Testamento e olhando para o mundo actual, Hans Küng considera, e eu com ele, “o núcleo bíblico da doutrina tradicional sobre a Trindade: — Crer em Deus, o Pai, é crer no Deus uno, que criou o mundo e o ser humano, que os mantém no ser e os leva à consumação. — Crer no Espírito Santo é crer no poder e na força actuantes de Deus no ser humano e no mundo.
— Crer no Filho de Deus é crer na revelação do Deus uno no homem Jesus de Nazaré, que é assim Palavra, Imagem e Filho de Deus.”
Perante o horror, inevitável a pergunta: Onde está Deus?
Actualmente, porque, com a televisão e outros meios, temos acesso às imagens, talvez seja sobretudo perante os horrores das guerras que se pode ficar estarrecido perante o silêncio de Deus. São bombardeamentos que não deixam pedra sobre pedra, que matam indiscriminadamente homens, mulheres, crianças, e ficamos esmagados sobretudo pela dor, o clamor, as lágrimas, a desorientação das crianças inocentes. Onde está Deus?
Joseph Ratzinger, chamado aos 17 anos para o serviço militar do Reich, foi desertor e prisioneiro dos americanos. Já Papa Bento XVI, como já aqui escrevi, esteve em Auschwitz e fez um discurso dramático e deveras emocionante: "Tomar a palavra neste lugar de horror, de crimes contra Deus e contra o ser humano sem precedentes na História, é quase impossível, e é particularmente difícil e deprimente para um cristão, para um Papa que procede da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras; no fundo, só há espaço para um atónito silêncio, um silêncio que é um grito interior para Deus: Porque te calaste? Porque quiseste tolerar tudo isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque se calou?”
Perante o horror do mundo e todos os mortos e todas as vítimas — ah!, as vítimas inocentes — e o aparente silêncio de Deus, percebemos a tentação do ateísmo. E até poderá tratar-se de um ateísmo moral, um ateísmo ad majorem Dei gloriam, para a maior glória de Deus, como se, perante o horror, a justificação de Deus fosse não existir. É-se ateu por causa de Deus, que é preciso recusar por causa da moral: um mundo com tanta dor, tantas injustiças, tanto sofrimento de inocentes, tanto cinismo brutal do poder, como pode ser criação de um Deus bom? Mas a quem recusa Deus assalta-o outra pergunta: se Deus não existe, donde vem o bem e a nossa revolta, desde a raiz de nós, contra o mal e a morte, clamando por justiça e salvação para as vítimas inocentes? Porque, sem Deus, afundamo-nos no nada e anula-se, em última análise, a própria diferença entre bem e mal. Por isso, segundo Jürgen Habermas, para mim o maior filósofo vivo, agnóstico, o que mais nos inquieta é “a irreversibilidade dos sofrimentos do passado — a injustiça contra as pessoas inocentes vítimas de maus tratos, aviltamento e assassinato — sem que o poder humano possa repará-los”, acrescentando: “A esperança perdida da ressurreição” sente-se como um grande vazio.”
Há uma pergunta decisiva (para Max Horkheimer, da Escola Crítica de Frankfurt, a que Habermas também está ligado, é mesmo “a pergunta fundamental da Filosofia”): o que podem esperar as incontáveis vítimas inocentes da História? Quem lhes fará justiça? As vítimas inocentes clamam, e um grito sem fim, ensurdecedor, percorre a História. Há uma dívida incontável para com essas vítimas. Quem a pagará?
Max Horkheimer e Theodor Adorno, principais representantes da Escola Crítica, com quem Bento XVI entrou em diálogo na sua encíclica sobre a esperança, “Salvos em Esperança”, viveram filosoficamente a inconsolável “tristeza metafísica” da impossibilidade de fazer justiça às vítimas da História. De facto, mesmo supondo, no quadro do marxismo e da ideia do progresso moderno, que algum dia fosse possível a edificação de uma sociedade finalmente justa, transparente e reconciliada, ela não poderia ser feliz. A razão é simples: ou essa sociedade se lembrava de todas as vítimas do passado, que não participam dela, e então seria atravessada pela infelicidade, ou não se interessava por essas vítimas, e então não era humana, porque não solidária.
Adorno e Horkheimer exprimiram uma filosofia em tenaz: por um lado, não podiam acreditar num Deus justo e bom; por outro, há uma verdade da religião, apesar de todas as suas traições no conluio com o poder e os vencedores: a religião “no bom sentido” é, segundo Horkheimer “o anelo inesgotável, sustentado contra a realidade fáctica, de que esta mude, que acabe o desterro e chegue a justiça”. Não se trata de um desejo egoísta, mas da esperança contrafáctica de que a realidade dominante da injustiça não tenha a última palavra. Daí, “o anelo do totalmente Outro”, o “anelo da justiça universal cumprida”, “a esperança de que a injustiça que atravessa a História não permaneça, não tenha a última palavra.”
Esta esperança tem de traduzir-se numa práxis solidária tal que, como disse de modo incisivo Kant, “a práxis tem de ser tal que não se possa pensar que não existe um Além.” Nesta práxis, está implicado o pensamento do Absoluto, como exigência moral e como anelo de que o finito e o mundo da injustiça não sejam a ultimidade e o definitivo. Também neste sentido, Adorno escreveu que “o pensamento que não se decapita desemboca na Transcendência”. Neste domínio, a única filosofia legítima seria “o intento de contemplar todas as coisas como aparecem à luz da redenção”. A pergunta pela esperança truncada das vítimas, que acusam o mundo da história dos vencedores, obriga a pensar para lá dos limites da imanência, colocando a pergunta pelo Absoluto enquanto pergunta pela justiça universal.
No seu diálogo com a Escola Crítica de Frankfurt, Bento XVI reconheceu que a necessidade individual da realização plena e da imortalidade do amor já é “um motivo importante para crer que o ser humano está feito para a eternidade”, “mas só o reconhecimento de que a injustiça da História não pode de modo nenhum ter a última palavras” convence da necessidade da ressurreição dor mortos e da vida eterna.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado 22 de Novembro 2025
Andrés Torres Queiruga, fotografado por Sandra Alonso
A fé convive com a dúvida
Insisto constantemente em que no Novo Testamento há duas “definições” de Deus — evidentemente, Deus não é definível, mas são tentativas de dizer algo sobre o seu mistério. Na Primeira Carta de São João, está escrito que Deus é Agapê, Amor incondicional. O Evangelho segundo São João começa com estas palavras: “No princípio era o Logos, o Logos estava Deus e o Logos era Deus. Por Ele é que tudo começou a existir.” Logos significa palavra, razão, inteligência. Deus é, portanto, Amor e Razão e, assim, a existência humana e cristã autêntica resultará da convergência e interpenetração da bondade e da razão, da inteligência e do amor. Portanto, a fé não só não pode contradizer a razão como deve ser razoável e, como diz a Primeira Carta de São Pedro, é preciso “dar razões da esperança”. E, como tentei explicar na crónica da semana passada, não há resposta definitiva constringente para o que é a realidade na sua ultimidade. É no próprio acto de fé que o crente experiencia o carácter razoável da sua adesão confiante livre.
Assim, tanto o crente como o ateu, a partir do mundo comum, que é ambíguo, arrancam de perguntas humanas radicais — qual é o Fundamento e o Sentido último? —, e as suas respectivas respostas de fé ou descrença representam interpretações da realidade, mas nestes precisos termos, como escreveu o filósofo da religião Andrés Torres Queiruga: "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a descrença aparecem aos respectivos sujeitos como o modo melhor de interpretar o mundo comum". Deste modo, também no domínio da fé há uma "verificação": se o crente dá a sua adesão à fé é porque comprova que a "hipótese religiosa" é a que melhor ilumina as questões últimas da vida e da morte, a realidade do mundo e da história; o agnóstico confessará que não acha razões suficientes para decidir-se; o ateu apoia-se na convicção de que têm mais peso as razões contra a existência de Deus. Como se não cansava de repetir Pedro Laín Entralgo, só o penúltimo é certo, o último é e não pode não ser incerto.
Deste modo, torna-se claro que a fé convive com a dúvida, como já observou Santo Tomás de Aquino e, para dar exemplos, já aqui citei algumas vezes a situação angustiante de Santa Teresinha do Menino Jesus quando as dúvidas da fé a assaltavam. De qualquer modo, erguer-se-á sempre aquela terrível pergunta: Como é que Deus é compatível com tanto mal, tantos horrores no mundo?
Hoje quero chamar a atenção para o querido Papa Francisco, tão sensível também ele ao problema do mal, na sua autobiografia, que foi e é um best-seller, com o título ESPERANÇA. Termina assim: “Uma vez, um jovem universitário perguntou-me: na universidade tenho muitos amigos que são agnósticos ou ateus, o que devo dizer para que se tornem cristãos? Nada, disse eu. A última coisa que deves fazer é falar. Primeiro, deves fazer, e então será quem vê como vives, como geres a tua vida, que irá perguntar: por que razão o fazes? Então, poderás falar. No testemunho de uma vida, a palavra vem depois, é consequência. Deixar também um espaço para a dúvida, também esta é uma chave importante”. E acrescenta: “Se uma pessoa diz que encontrou Deus com certeza total, então não está bem. Se alguém tem respostas para todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ele. Quer dizer que é um falso profeta, que instrumentaliza a religião, que a usa para si mesmo. Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deixaram espaço para a dúvida. É necessário sermos humildes, deixar espaço ao Senhor, não às nossas fingidas seguranças. A ternura não é fraqueza: é a verdadeira força. É a estrada que os homens e as mulheres mais fortes e corajosos percorreram. Percorramo-la, lutemos com ternura e com coragem. Percorrei-a, lutai com ternura e com coragem... Eu sou apenas um passo.”
Quereria fechar esta crónica talvez pouco sistematizada, observando que é essencial pensar que, lá no mais fundo, quando a pergunta é a pergunta pelo Sentido último, se está confrontado com a questão decisiva: a Vida plena, eterna, em Deus, ou o nada.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado 15 de Novembro 2025
O que é a religião? O que deve entender-se por pessoa religiosa? Onde se fundamenta a religião? Qual é o dinamismo que está na base das religiões? Porque há religião/religiões?
Toda a religião tem a ver com a ética e também com a estética. Hegel viu bem, quando afirmou que a arte, a religião e a filosofia estão referidas ao Absoluto. A pergunta é, como escreveu o filósofo J. Gómez Caffarena, se a ética, a estética e a filosofia acabarão por absorver a religião, como já insinuava Goethe: “quem tem arte (e moral e filosofia) tem religião; quem a não tem que tenha religião”.
Segundo Lucrécio, “o medo criou os deuses”. Desde então, isso tem sido repetido, acrescentando a ignorância e a impotência, de tal modo que, com o avanço da ciência e da técnica, a religião acabaria por ser superada e desaparecer. Será, porém, verdade que na génese da religião estão o medo, a ignorância e a impotência? Ninguém poderá negá-lo. A questão é saber se esses são os únicos e decisivos factores e de que modo actuam. De facto, não é a limitação enquanto tal que está na base da religião, mas a consciência da limitação. Na consciência da finitude, que tem a sua máxima expressão na consciência da mortalidade, o Homem transcende o limite e articula um mundo simbólico de esperança de sentido último e salvação. Como disse Hegel, a verdade do finito encontra-se no Infinito, e Kant viu bem, ao referir a religião à esperança de um sentido final. Segundo ele, o interesse da filosofia pode reduzir-se às seguintes perguntas: “O que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? O que é o Homem? À primeira pergunta responde a metafísica, à segunda a moral, à terceira a religião e à quarta a antropologia”. Assim, é possível que a ciência e a técnica obscureçam a força do apelo religioso. Mas, permanecendo a finitude e a sua consciência, há-de erguer-se sempre a pergunta pelo Fundamento e Sentido últimos.
Como disse E. Ciorán, “tudo se pode sufocar no Homem, salvo a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos e mesmo ao desaparecimento da religião”. Na mesma linha, afirmou L. Rougier: “A Igreja pode declinar. O sentimento religioso grávido de um impulso para o ideal, de uma sede do Absoluto, de uma necessidade de superar-se, que os teólogos chamam Transcendência, subsistirá.” O que, do ponto de vista biológico, une a Humanidade é a interfecundidade. Do ponto de vista espiritual, o que a une é a pergunta radical pela totalidade e o seu sentido, o Sentido último.
O Homem é o animal que pergunta pelo seu ser e pelo ser. A razão humana não cria a partir do nada. Na base do ser humano, há uma “passividade originária”, como repetia o meu saudoso mestre e amigo Miguel Baptista Pereira: quando damos por nós, já lá estamos, ninguém foi consultado nem decidiu vir a este mundo e ser quem é; depois, um dia, a morte chega e leva-nos. A razão humana constrói, portanto, a partir do dado e, feito todo o seu percurso, sabe que acende a sua luz na noite do Mistério. Se pergunta, é porque ela própria é perguntada pela realidade, que é ambígua. Precisamente na sua ambiguidade, provocando, por isso, espanto positivo e negativo, a realidade e a existência convocam para a pergunta radical: o que é o Ser?, o que é o Homem? Quando, no processo evolutivo, se deu a passagem do animal ao homem, apareceu no mundo uma forma de vida inquieta que leva consigo constitutivamente a pergunta pelo Sentido de todos os sentidos, portanto, a pergunta pelo Sentido último. A dinâmica religiosa deriva da experiência de contingência radical e da esperança num sentido final. A mesma experiência tem um duplo pólo: a radical problematicidade do mundo e da existência e a referência em esperança a uma resposta de Sentido último, plenitude, felicidade, orientação, identidade, salvação. Este domínio da busca de sentido aparece de modo tão central na vida humana que a História da Humanidade não se compreende sem a história da consciência religiosa, não sendo de esperar o fim da religião e das religiões. Neste contexto, não é ousado afirmar que todo o ser humano é religioso, na medida em que é confrontado com a pergunta pela Ultimidade. Só poderíamos falar de irreligiosidade, no caso de alguém se contentar com a imediatidade empírica, recusando todo e qualquer movimento de transcendimento, o que não é possível, pois isso é contraditório.
É inevitável a pergunta: Sem Deus, que sentido teria a vida?
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 25 de Outubro de 2025
Penso que é mesmo urgente parar para pensar. Concretamente neste nosso tempo de ameaça de apocalipse niilista, quando Deus morreu e a questão de Deus é ignorada mesmo enquanto questão constitutiva do ser ser humano enquanto tal. O que se segue à morte Deus e quando a própria pergunta por Ele está morta?
1. Volto muitas vezes a esse sublime e abissal texto, pavoroso, um dos grandes da grande literatura alemã, escrito por Jean Paul, pseudónimo de Johann Paul Friedrich Richter, em 1796: Rede des toten Christus vom Weltgebäude herab, dass kein Gott sei (Discurso do Cristo morto, a partir do cume do mundo, sobre a não existência de Deus).
Nele, o célebre escritor descreve um sonho. Pela meia-noite e em pleno cemitério, numa visão apavorante, o olhar estende-se até aos confins da noite cósmica esvaziada, os túmulos estão abertos, e, num universo que se abala, as sombras voláteis dos mortos estremecem, aguardando, aparentemente, a ressurreição.
É então que, a partir do alto, surge Cristo, uma figura eminentemente nobre e arrasada por uma dor sem nome. E, com um terrível pressentimento, "os mortos todos gritam-lhe: “Cristo, não há Deus?” Ele respondeu: "Não, não há Deus."
Então, a sombra de cada morto estremeceu, e umas a seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo continuou, anunciando o que aconteceu no instante da sua própria morte: "Atravessei os mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci até onde o ser estende as suas sombras, e olhei para o abismo, gritando: "Pai, onde estás?" Mas apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém governa." Quando, no espaço incomensurável, procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas o cosmos infindo o fixou petrificado com uma órbita ocular vazia e sem fundo, "e a eternidade jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se".
O coração rebentou de dor, quando as crianças sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo, perguntando: "Jesus, não temos Pai?" E ele, debulhado em lágrimas, respondeu: "Somos todos órfãos, eu e vós, não temos Pai." "Nada imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah! Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é que não há-de poder ser também o seu próprio exterminador?"
Para Jean Paul, a morte de Deus não era ainda um destino espiritual inevitável. Apenas a tentação de uma possibilidade ameaçadora. E ele queria estar prevenido: que, quando a tentação o visitasse, soubesse de antemão o abismo sem fim, pavoroso, a que a morte de Deus conduz. Quando acordou do pesadelo ateu, a sua alma "chorava de alegria, por poder de novo adorar a Deus — e a alegria e o choro e a fé nele era a oração".
2. Um século depois (1882), o louco de Friedrich Nietzsche proclamou, em A Gaia Ciência, a morte de Deus: "Quem o matou fomos todos nós, vós mesmos e eu! Os seus algozes somos nós todos! E como o fizemos? Como conseguimos engolir todo o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos nós, quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao seu sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para a frente, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?”
Ao contrário do que habitualmente se afirma, não penso que Nietzsche — morreu há precisamente 125 anos: 25 de Agosto de 1900 — seja ateu. Ele constata o que se segue à morte de Deus. E quer que se pense...
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 11 de Outubro de 2025
A presença em Portugal do Cardeal Pietro Parolin constituiu um acontecimento que merece destaque, uma vez que teve lugar no âmbito do Ano Jubilar de 2025, que vivemos sob a invocação da Esperança. As palavras que o Secretário de Estado da Santa Sé proferiu na Fundação Calouste Gulbenkian constituem afirmações de especial importância, considerando o momento que hoje se vive de incerteza, de guerra em fragmentos e de ausência de regulação no sentido da paz. O Compromisso com a Cidade constitui uma exigência destes tempos de instabilidade, pelo que a proposta de sermos Peregrinos da Esperança revela uma especial responsabilidade para todos. Neste Jubileu das Autoridades houve, assim, um apelo muito forte no sentido de haver um empenhamento para que compreendamos os sinais dos tempos, de modo a criar condições para uma cultura de paz e de justiça, onde todos caibam, como foi muito claramente proclamado pelo Papa Francisco e hoje continua a ser proposto por Sua Santidade o Papa Leão XIV. Nesta ocasião a palavra Autoridades liga-se à capacidade de assumir o serviço público com todas as suas consequências, ligando-se a uma etimologia que enaltece a qualidade criadora como fator de partilha e de salvaguarda do cuidado, da atenção aos outros e do bem comum. Apesar de continuarmos a ser vozes que clamam no deserto, importa não desistirmos, persistindo na mobilização de vontades em prol da Justiça. Não esquecemos o exemplo de S. Tomás Morus, patrono da vida política, ele mesmo símbolo de sacrifício máximo perante a razão de Estado, mas lembramos outros casos contemporâneos de cidadãos exemplares como Robert Schuman um dos pais fundadores da União Europeia ou Giorgio La Pira, síndaco de Florença, cujo exemplo de cristão defensor da democracia, dos direitos fundamentais e do respeito mútuo está bem presente em todos nós.
Como afirmou o Cardeal Parolin: “Neste tempo complexo e marcado por profundas fraturas, sentimos uma necessidade que precede até o dever: a de voltar a falar, com coragem e verdade, da dignidade humana. Uma dignidade que não é concedida, mas reconhecida; que é infinita e inalienável, própria de cada homem e cada mulher, sem qualquer exclusão”. E é esta dimensão universal da dignidade da pessoa humana que tem de se assumir como prioridade absoluta, quando na cena internacional assistimos a uma onda de horrores com muitas vítimas inocentes da cegueira humana e da recusa do primado do direito e da justiça. Deste modo, “num mundo que tantas vezes parece perder a direção, é importante recordar que a esperança não é apenas um conceito abstrato, mas uma promessa concreta; neste tempo de crescente complexidade global, somos todos chamados – como cidadãos responsáveis e profissionais do compromisso público – a promover o humano e a sua dignidade com um olhar amplo, integral e profundo.”
Perante os apelos pungentes de tantos inocentes, civis, mulheres e crianças, devemos recordar especialmente as recentes palavras do Papa Leão XIV: «Farei todos os esforços para que a paz se propague. A Santa Sé está disponível para que os inimigos se encontrem e se fitem nos olhos, para que aos povos se devolvam a esperança e a dignidade que merecem, a dignidade da paz. Os povos querem a paz e eu, com o coração nas mãos, digo aos responsáveis dos povos: encontremo-nos, dialoguemos, negociemos! A guerra nunca é inevitável, as armas podem e devem ser silenciadas, pois não resolvem os problemas mas só os aumentam; pois ficará na história quem semeia a paz, não quem ceifa vítimas; pois os outros não são sobretudo inimigos, mas seres humanos: não vilões a odiar, mas pessoas com quem falar”. Deste modo, o Papa é muito claro: “Rejeitemos as visões maniqueístas típicas das narrações violentas, que dividem o mundo entre bons e maus. A Igreja não se cansará de repetir: silenciem as armas!”
O que estamos a assistir hoje obriga-nos a refletir. Os sinais dos tempos trazem palavras de violência e os seus ecos. As instituições têm dificuldade em funcionar normalmente. A sociedade civil tarda em fazer-se ouvir. Faltam instrumentos de mediação que facilitem a representação e a participação dos cidadãos. Nestas condições, emerge a tentação do apelo às intervenções de um falso messianismo, do mesmo modo que prevalecem as lógicas mercantis, como se tudo fosse transacionável. Deve recordar-se a atualidade da Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, capaz de abranger todos os homens e mulheres de boa vontade. A palavra todos tem, assim, um significado amplo, unificador e diferenciador. Para tanto, a justiça e a paz constituem desígnios que obrigam a uma grande determinação, capaz de superar as resistências, os equívocos e as ilusões. A verdade e a vida tornam-se assim sinais de sinceridade. Há pontes que têm de se estabelecer, diálogos a aprofundar, esperanças a cultivar.
As palavras do Cardeal Secretário de Estado e o apelo do Papa ecoaram numa casa de cultura como é a Fundação Calouste Gulbenkian, sob a inspiração do seu fundador, defensor das Artes e do diálogo entre Ocidente e Oriente. Foi bom ouvir as palavras que recordamos com especial ênfase. Que a Justiça e a Paz se tornem deveres da Humanidade toda.
Em merecido descanso, reproduzimos uma crónica anterior do Padre Anselmo Borges.
É surpreendente que o austero Immanuel Kant, um dos pensadores maiores de todos os tempos, autor da moral do imperativo categórico, tenha deixado na sua Antropologia um belo texto sobre as regras de uma refeição agradável em boa companhia. Não é saudável, mesmo para o filósofo e sobretudo para o filósofo, escreve ele, comer sozinho. É que o objectivo da celebração de uma refeição não deve ser tanto a satisfação corporal (portanto, comer em ordem à sobrevivência física) - isso podia fazê-lo cada um por si mesmo - quanto o prazer de estar juntos. Daí que sublinhe permanentemente o imperativo do respeito mútuo. "De facto, escreve, mesmo sem prévio pacto expresso, todo o banquete tem uma certa sacralidade". A conversa deve ser mantida em bom ritmo, de tal modo que a refeição termine, "como num concerto, no meio da alegria geral e assim seja tanto mais salutar; como naquele banquete de Platão, do qual o convidado dizia: ‘As tuas refeições não agradam só enquanto se saboreiam, mas também sempre que se pensa nelas'". E os amigos, sempre que se reencontram, avisam: “havemos de repetir”.
Não é verdade que uma das alegrias grandes que podemos conceder-nos é oferecer um almoço ou um jantar, pelo simples prazer de estarmos juntos? Será possível imaginar uma festa - um casamento, um aniversário, um reencontro - sem um banquete, por mais simples que seja?
Por surpreendente que pareça, há um feriado nacional em Portugal que tem a ver com um banquete, a Última Ceia de Jesus Cristo. Jesus, que escandalizou os contemporâneos, pois comia com mulheres consideradas pouco recomendáveis e os pecadores públicos, antes de ser condenado à morte, ofereceu uma refeição de despedida. E os cristãos, ao longo dos tempos, deviam reunir-se, lembrando-se dele e da sua causa, que é a causa dos seres humanos, isto é, a liberdade, a dignidade, a igualdade, a felicidade, a alegria, a fraternidade entre todos os homens e mulheres.
Quando os cristãos se reúnem para a celebração da Missa ou da Ceia do Senhor, partilham o pão e o vinho. Na nossa cultura mediterrânica, o pão e o vinho são dois símbolos fundamentais. O pão quer dizer força, vida, o vinho simboliza festa e alegria. Quem convida para essa festa é o próprio Jesus Cristo. Ele oferece pão e vinho. E, segundo a mentalidade oriental, quem oferece uma refeição oferece sobretudo a sua presença. Assim, os cristãos, quando se reúnem para lembrar a Última Ceia de Jesus, acreditam que Ele está presente. Mas discutir o modo dessa presença só pode levar a becos sem saída, como é sabido pela História. O decisivo é reunir-se, ouvindo e cumprindo o único mandamento de Cristo: sede bons uns para os outros, amai-vos uns aos outros como eu vos amei. O amor vence a morte.
Lembrar. Se, neste instante, perdesse a memória, não perdia apenas o passado. De facto, uma vez que já não saberia quem sou, ao perder a memória, perdia não só o passado, mas também o presente e o futuro. O animal vive da imediatidade do presente. O ser humano, esse, conjuga os verbos no passado, no presente e no futuro. Pela memória, sabemos que vimos de um passado, pela atenção, damos por nós no presente, pela expectativa, pela esperança, projectamo-nos no futuro. E é integrando o passado, o presente e o futuro, que nos vamos erguendo, na procura de uma identidade sempre a caminho.
Por estranho que pareça, isto tudo vem, mais uma vez, a propósito da festa que a Igreja Católica celebra: a festa do Corpo de Deus, festa que nos remete para a Eucaristia e, em linguagem mais comum, para a Missa. Aos Domingos, muitos cristãos continuam a ir à Missa. O que é que lá se vai fazer? Diria que fundamentalmente lembrar, recordar. Na Última Ceia, Jesus, abençoando o pão e o vinho, que significam a sua entrega por amor a todos, disse: “Fazei isto em memória de mim”. Na Eucaristia, os cristãos recordam-se do que Jesus é e fez. Assim, lembram-se também do que eles próprios são e devem ser e fazer. E anunciam, desde já, o futuro: celebram a esperança do que há-de vir: a vida eterna. Deste modo, não é totalmente destituído de sentido que muitos que nem eram praticantes habituais, quando morrem, queiram uma Missa: porque nela se celebra a memória do futuro..., a esperança da salvação. Um funeral de alguém, no contexto cristão, é a celebração da sua morte e ressurreição.
A festa do Corpo de Deus. É impressionante: festa do Corpo de Deus. Quem imaginaria? A pergunta então é: celebra-se o Corpo de Deus, e depois despreza-se o corpo? A festa do Corpo de Deus tem de ser também a festa do corpo humano, que é corpo vivo, que sente, corpo que deseja, que pensa, que quer, que ama, corpo que diz eu, que é esperante, até espera para lá da morte...
Na festa do Corpo de Deus, há quem pergunte se os católicos acreditam na presença real de Cristo na Eucaristia. A resposta é sim. Mas é preciso distinguir entre a presença física e coisista e a presença real pessoal. Por exemplo, um homem e uma mulher, pela relação sexual, estão fisicamente presentes, mas, se não houver amor, estão realmente ausentes enquanto pessoas. Porém, até pode acontecer que, por qualquer motivo, tenham de estar fisicamente ausentes, mas se há amor, continua a presença real entre eles. Os católicos não crêem na presença físico-coisista de Cristo, mas na sua presença espiritual, dando o seu Espírito de Vida, de Amor, de Paz: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Isso tem de ter consequências na vida.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 1 de junho de 2024
Perigo maior: a agitação paralisante e a paralisia agitante
A questão que o ser humano é para si mesmo mostra-se paradoxal. Por um lado, é inevitável: o abismo insuperável entre o que espera e quer ser e o que realmente alcança, obriga-o a perguntar: o que sou? Que ser é esse que é entre ser e não ser e que nunca é plenamente? Por outro lado, a questão é insolúvel, porque, para conhecer-se, ele precisava de saltar para fora de si em ordem a poder ver-se de fora, objectivamente. Ora, precisamente este salto é impossível.
Depois, o ser humano vive-se a si mesmo em processo e em tensão. E são muitas as suas tensões. Lá está sempre a pulsão e a lógica, a afectividade e o pensamento, o inconsciente e o consciente, a emoção e o cálculo, o impulso e a razão. Aliás, essa tensão inscreve-se numa base neurofisiológica — há o cérebro que funciona holisticamente, mas com três níveis: o paleocérebro, o cérebro arcaico, reptiliano, o mesocéfalo, o cérebro da afectividade, e o córtex com o neocórtex, em conexão com as capacidades lógico-racionais. Não é sabido, até por experiência própria, que muitas vezes as respostas emocionais escapam ao controlo racional por causa do chamado “atalho neuronal” e do “sequestro emocional”, como mostrou Paul D. Mac Lean? De repente, demos uma resposta a alguém de que depois nos arrependemos, a pulsão sobrepôs-se à razão...
É verdadeiramente paradoxal a constituição humana. Somos constituídos e vamo-nos constituindo a partir de uma herança genética e de uma história, numa determinada cultura. É próprio do Homem não ter uma natureza fixa e imóvel, porque é histórico e cultural.
Somos afectivos e racionais. Ninguém começa com a inquirição racional do mundo. Primeiro, o ser humano sentiu o mundo e foi afectado por ele, positiva ou negativamente. É muito lentamente que a razão se vai erguendo no seu uso teórico-prático.
O Homem é situado, sumamente concreto: resulta daquele óvulo fecundado por aquele espermatozóide, naquele instante, e, sempre, com uma história concreta — esta e não outra. Ao mesmo tempo é aberto: ao presente, ao passado e ao futuro, a todos os outros seres humanos, à realidade toda, ao que há e ao que não há, pois é também o ser da utopia e do sonho e do ilimitadamente possível. A pergunta vai até ao infinito...
Por isso, é único. Nunca houve nem haverá outro como eu. Lá está o grito de Unamuno: “Cada um de nós é único e insubstituível. Não há outro eu no mundo! Não há outro eu! Havê-los-á mais velhos e mais novos, melhores e piores, mas não outro eu. Eu sou algo inteiramente novo. Eu não quero deixar-me classificar, porque eu, Miguel de Unamuno, como qualquer outro homem que aspire à consciência plena, sou espécie única”. Ao mesmo tempo, o Homem é relacional e, precisamente porque é relação sem limites, aberto a tudo, vem a si mesmo como único, pessoal e comunitário.
Na gigantesca História do universo e da evolução, sabemos que há Homem, quando aparecem rituais funerários. Como os outros animais, o Homem também morre, mas, ao contrário dos outros, sabe que é mortal e angustia-se com a morte.
O Homem sabe que é finito, mas essa consciência da finitude é-lhe dada na abertura ao Infinito. Esta abertura é condição de possibilidade da consciência do finito enquanto finito. É nela que se enraíza a condição da pergunta religiosa enquanto tal.
O ser humano é festivo e sério, condicionado e livre, é homo sapiens e também homo demens — sapienssapiens e demens demens (sapiente sapiente e demente demente). E homo dolens (sofredor) e homo sperans (esperante).
Assim, precisamos de reflectir sobre nós mesmos. Os fins de semana e as próprias férias não precisam de ser agitação constante. Também podem ser e deveriam ser tempo de meditação.
É muito interessante a constatação do vínculo entre meditação, medicina e moderação. As três têm como étimo o verbo latino mederi, que tem o sentido de medir, pensar, curar, restabelecer o equilíbrio. Cá está! É sempre a medida e a justeza que estão em causa. Porque a saúde resulta do equilíbrio e da harmonia. A moderação tem a ver com a medida justa. A meditação é ponderação e pesagem para o equilíbrio harmónico.
Precisamos de viver reconciliados/reconciliadas, em harmonia. Para evitar perigo maior, de que falava D. António Ferreira Gomes, o famoso bispo do Porto: a agitação paralisante e a paralisia agitante.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 5 de Julho de 2025