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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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RELIGIOSIDADE, SAGRADO, RELIGIÕES. 2

 

  Retomando a reflexão da semana passada sobre o tema em epígrafe, parece-me fundamental acentuar que é essencial distinguir aquele tríplice plano: religiosidade (religioso), Sagrado e religiões. Como escreveu J. de Sahagún Lucas, quando se fala de religião/religiões, religioso e Sagrado não se identificam, “não são sinónimos”. Trata-se de realidades distintas, pois religioso refere-se ao pólo subjectivo, isto é, ao movimento de transcendimento e entrega confiada a uma realidade sagrada – o pólo objectivo —, o Sagrado ou Mistério. Diferenciam-se do profano, já que o religioso indica o modo concreto e peculiar de assumir a existência toda nas suas várias dimensões na perspectiva do Sagrado. As diferentes formas de religião — a religião implica inevitavelmente pluralidade de religiões, surgindo cada uma num determinado contexto histórico, geográfico, sócio-económico, cultural... — coincidem no facto de remeterem o Homem para essa Realidade superior a ele e que, num primeiro momento, se pode caracterizar como um supra (acima) e um prius (anterior) (U. Bianchi). O referente último de todas as religiões é o mesmo: o Sagrado ou Mistério, essa Realidade superior.

 

   Na tentativa de explicitar a definição apresentada, J. Martín Velasco, um dos maiores especialistas no domínio da fenomenologia da religião, desenvolve, na sua obra Introducción a la fenomenología de la religión, os elementos ou traços essenciais do conteúdo dessa realidade misteriosa. Em primeiro lugar, deve-se sublinhar a sua “absoluta transcendência” em relação ao homem e ao mundo. Essa transcendência exprime-se nas várias religiões, referindo a sua “outridade”: “totalmente outro”; a sua inacessibilidade: “altíssimo”; invisibilidade: “tu és um Deus escondido”; incognoscibilidade: “superincognoscível”; radical e absoluta diferença: “distinto do conhecido e do desconhecido”; a inefabilidade: dele só se pode dizer: “não é assim, não é assim”; a sua superioridade absoluta: “superior summo meo” (superior e mais alto do que a minha altura máxima). Por isso, o homem religioso, na sua presença, sente pavor e tremor, indignidade radical. Trata-se do mysterium tremendum (mistério terrível), que é ao mesmo tempo fascinans (fascinante), como referiu R. Otto. Mas, por paradoxal que pareça, o Mistério compreende simultaneamente “a sua mais perfeita imanência” ao homem e ao mundo. É próximo – o Alcorão diz que Alá é mais próximo ao homem do que a sua própria jugular – e íntimo – interior intimo meo (mais íntimo do que a minha máxima intimidade), diz Santo Agostinho, no interior da transcendência, a suma imanência e identidade: atman é Brahman (eu é o Absoluto), diz o budismo, “o centro da alma é Deus”. Estas duas características implicam-se mutuamente. De facto, “só o absolutamente transcendente pode ser imanente de forma absoluta” ou, como diz Nicolau de Cusa, só o totalmente outro é non aliud, não outro.

 

  Outro traço essencial do Mistério é “a sua condição de sujeito activo”. Ele revela-se, dá-se a conhecer, interpela o homem, atrai-o. A sua presença é anterior à procura do Homem, de tal maneira que Pascal pôde, com razão, pôr Deus a dizer: “não me procurarias, se não me tivesses já encontrado”. Na sua presença, o Homem experiencia que não é por si nem dispõe de si, pois só é verdadeiramente no encontro e na entrega confiada a esse Mistério último. Mas, mais uma vez, paradoxalmente, esta entrega não significa de modo nenhum alienação, autoaniquilamento ou sujeição a uma heteronomia, pois, “devido à abertura radical do ser humano ao Infinito, o consentimento neste Além de si mesmo é a condição da sua realização plena”.

 

  Explicitando, dever-se-á, portanto, distinguir entre religiosidade/religioso, Sagrado e religiões. Religiosidade tem a ver com o movimento de transcendimento, sendo religioso aquele ou aquela que se entrega confiadamente ao Sagrado ou Mistério, do qual espera salvação. As religiões são mediações entre os homens e mulheres e o Sagrado/ Mistério, e entre o Sagrado/Mistério e os homens e mulheres. Enquanto mediações, as religiões têm, inevitavelmente, muito de humano e, consequentemente, são habitadas pelo melhor e pelo pior. São mediações necessárias e inevitáveis. Referem-se ao Mistério/Sagrado, estão referidas ao Absoluto; o seu perigo permanente é pretenderem tornar-se elas próprias o Absoluto.

 

  As diferentes religiões configuram de modo diferente o Sagrado ou Mistério. Nelas, há, por princípio, uma dimensão doutrinal teológica, que tenta dizer o Sagrado ou o Mistério; uma dimensão ético-moral; uma dimensão litúrgico-celebrativa; e, evidentemente, um mínimo de organização.

 

   Esta distinção entre religioso, Mistério/Sagrado e religiões é fundamental, pois pode acontecer que alguém seja religioso no sentido autêntico e profundo de uma experiência viva e consequente do Sagrado ou Mistério e tenha e mantenha distanciamento face às religiões instituídas, como pode haver quem não teve nem tem vivência autenticamente religiosa e, no entanto, viva da religião institucional, se sirva dela para fins políticos, económicos, de ascensão social. Pode-se viver da religião institucional em altos cargos eclesiásticos, por exemplo, e não ser consequente com uma verdadeira experiência religiosa, se é que se fez esta experiência. O que acontece também muito frequentemente na política: há quem se confesse ateu e participe em festas religiosas, porque isso pode dar votos...

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 9 FEV 2020

RELIGIOSIDADE, SAGRADO, RELIGIÕES. 1

 

Quando, no domínio religioso, não há conceitos claros, entra-se inevitavelmente em confusões deletérias, que impedem a mútua compreensão e o autêntico diálogo inter-religioso.

 

Será, pois, necessário, em primeiro lugar, perguntar: qual é o critério decisivo para determinar o que é realmente a religião?

 

Há hoje acordo entre os especialistas no sentido de verem esse critério na referência e relação com uma realidade última salvífica. São fundamentais estes dois elementos: entrada em contacto com a ultimidade, que se apresenta como dando sentido último e salvação. Ao contrário da ideia corrente, no domínio religioso, Deus não é figura primeira e determinante a não ser para um determinado tipo de religião: a religião monoteísta. Deus, no quadro do monoteísmo, apareceu tarde. O conteúdo central da religião é o absoluto, o transcendente, o abrangente, o numinoso. O homem religioso depara-se com o Sagrado, o Mistério.

 

Para os fenomenólogos da religião, como J. Martín Velasco, por exemplo, o homem religioso é aquele que assume uma determinada atitude face ao Sagrado, entendendo-se por Sagrado aquele âmbito de realidade que se traduz por termos como “o invisível”, “a ultimidade”, “a verdadeira fonte do valor e sentido últimos”, “a realidade autêntica”. A religião não é em primeiro lugar ordo ad Deum (relação com Deus), mas ordo ad Sanctum (relação com o Sagrado). Antes da sua configuração como deuses e Deus, o “objecto” da religião é o Sagrado, que também dá pelo nome de Mistério, que é ao mesmo tempo absolutamente transcendente e radicalmente imanente. O homem religioso faz a experiência do Sagrado ou Mistério enquanto Presença originante e doadora de toda a realidade. É Presença enquanto Transcendência radical no centro da realidade e da pessoa e, assim, Imanência, isto é, Presença mais íntima à realidade e à pessoa do que a sua própria intimidade. Para o homem religioso, a realidade não se esgota na sua imediatidade empírica: como explica o teólogo Andrés Torres Queiruga, para a sua compreensão adequada, a realidade mesma aparece-lhe como incluindo uma Presença que não se vê em si mesma, mas implicada no que se vê. Mediante certas características – a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido, sentido último –, a própria realidade se mostra implicando essa Presença sagrada, divina, como seu fundamento e sentido últimos.

 

Neste quadro, é decisiva a experiência da contingência radical do mundo, de cada homem e cada mulher, mas, como escreveu R. Panikkar, precisamente assim: contingência deriva do latim cum-tangere, com o sentido de que “tocamos (tangere) os nossos limites” e, no mesmo acto, “o ilimitado toca-nos (cum-tangere) tangencialmente”. Hegel também o disse: só no Infinito o finito encontra a sua verdade.

 

A estrutura comum do fenómeno religioso, presente na variedade das religiões, pode ser resumida, segundo J. Martín Velasco, nestes termos: um facto humano específico, presente numa pluralidade de manifestações históricas, que têm em comum: “estar inscritas num âmbito de realidade original designado pelo termo o Sagrado; constar de um sistema de mediações organizadas – crenças, práticas, símbolos, lugares, tempos, objectos, sujeitos, etc. –, nas quais se expressa uma experiência humana de reconhecimento, adoração, entrega, referida a uma Realidade transcendente, ao mesmo tempo que imanente, ao homem, e que intervém na sua vida para dar-lhe sentido e salvá-lo”. A religião enquadra-se na experiência radical de dependência, implicando, portanto, na sua compreensão estrita, um núcleo com dois pólos: um pólo objectivo, constituído pela presença de uma Realidade superior, absoluta, de que se depende, e um pólo subjectivo, que consiste na atitude de reconhecimento dessa Realidade por parte do homem. Neste contexto, P. Schebesta apresenta uma definição paradigmática: “A religião é o reconhecimento consciente e operante de uma verdade absoluta (‘sagrada’) da qual o homem sabe que depende a sua existência”. É a partir deste núcleo que se entendem os múltiplos elementos visíveis das religiões: crenças, ritos, instituições, espaços e tempos sagrados, etc., diferentes segundo as culturas e tempos históricos humanos e unidos pelo facto de constituírem mediações religiosas. Na sua variedade, as diferentes definições de religião têm um elemento comum que as caracteriza e autentica: “apontam para uma entidade meta-empírica determinante da atitude humana como base da estrutura da religião. É o último necessário que adopta formas e nomes distintos: o santo, o misterioso, o divino, o sobrenatural. Numa palavra, um algo outro que não é coberto inteiramente com os termos que designam as coisas que o homem tem à mão.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 2 FEV 2020

A MÍSTICA DO QUOTIDIANO 

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Há uma história que Aristóteles narra sobre uma palavra do filósofo Heráclito a uns forasteiros que queriam chegar até ele. Aproximando-se, viram como se aquecia junto a um fogão. Detiveram-se surpreendidos, enquanto ele lhes dava ânimo: "Também aqui estão presentes os deuses."

 

Os visitantes ficaram frustrados e desconcertados na curiosidade que os levou a irem ao encontro do pensador. Julgavam ter de encontrá-lo em circunstâncias que, ao contrário do viver dos homens comuns, deveriam mostrar em tudo os traços do excepcional e do raro e, por isso, excitante.

 

Em vez disso - e estou a transcrever o comentário do filósofo Martin Heidegger à história relatada por Aristóteles -, os curiosos encontraram Heráclito junto ao fogão. É um lugar banal e bastante comum. Ver um pensador com frio que se aquece tem muito pouco de interessante. A situação é mesmo frustrante para os curiosos. Que farão ali? Heráclito lê essa curiosidade frustrada nos seus rostos. Ele sabe que a falta de algo de sensacional e inesperado é suficiente para fazer com que os recém-chegados se vão embora. Por isso, infunde-lhes ânimo. Pede-lhes que entrem: "Também aqui estão presentes os deuses." Também ali, naquele lugar corriqueiro, é o espaço para a presentificação de Deus.

 

A mística Santa Teresa de Ávila também dizia que Deus anda na cozinha no meio das panelas. Para sublinhar que quem julga encontrar Deus fora do mundo lida apenas com as suas ilusões.

 

E há muitas formas de ilusão e pseudomística. Escreveu, com razão, o então cardeal Joseph Ratzinger: "A curiosa magia dos estupefacientes apresenta-se como atalho para o Paraíso, aquele atalho que nos pouparia todo o "penoso" caminho da ascética e da moral. A droga é a pseudomística de um mundo que não tem fé, mas que de modo algum pode prescindir da ânsia da alma pelo Paraíso. A droga é, por conseguinte, um sinal indicador de algo mais profundo: não só descobre na nossa sociedade um vazio, que esta não é capaz de preencher com os seus próprios meios, como chama a atenção para uma exigência íntima do ser humano, que, se não encontrar a resposta acertada, se manifesta de forma pervertida."

 

Santo Agostinho viu bem, quando rezou: "Senhor fizeste-nos para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti." Jesus, que é quem terá feito a máxima experiência mística, já tinha prevenido: quem quiser salvar a sua vida perde-a; quem a perder por amor de Deus e dos outros ganha-a. É preciso ir até ao mais fundo e mais íntimo, porque é lá que se encontra Deus. Mas é sempre a dialéctica do perder e ganhar. Onde está o nosso eu verdadeiro? Dou um exemplo: onde está o nosso eu, quando escutamos uma daquelas sinfonias que nos exaltam e extasiam? Aparentemente, perdemo-lo, pois, na exaltação da sinfonia, não pensamos em nós, até nos esquecemos de nós, mas, precisamente aí, suspende-se o tempo e a morte e somos verdadeiramente nós.

 

Então? Qual é a mística verdadeira? É aquela que, em Deus, o Bem e a Beleza, leva a tratar dos irmãos e a transformar o mundo. Há, de facto, muita religião falsa, que os filósofos da suspeita justamente apelidaram de ópio. Mas também os estupefacientes são pseudomística. Por um lado, repito, eles exprimem, numa sociedade em que se experimenta o vazio, a necessidade de salvação e de sentido. Mas, por outro, na droga, o que acontece é a alienação. Pretende-se superar os problemas, mas os problemas continuam lá, e mais graves. A droga leva a "viagens" aparentemente felicitantes, mas, como aquilo é produto da química, quando se regressa da viagem, reencontra-se os problemas e está-se com menos força e energia para enfrentá-los. O critério da mística autêntica tem, portanto, que ver com a força e energia para enfrentar a existência e transformá-la e contribuir para uma sociedade mais justa, fraterna e livre.

 

Na união com Deus, Mistério último da realidade, o crente continua no mundo, embora o veja, precisamente por causa dessa união, a uma luz nova. Por isso, mística, sem o compromisso com os outros, concretizado também no amor político, que inclui o amor cósmico-ecológico, é auto-engano. Como escreveu o filósofo Henri Bergson, "a mística completa é acção"; o místico autêntico, "através de Deus, por Deus, ama a humanidade inteira com um amor divino". Aliás, para Bergson, a prova da existência de Deus são os místicos.

 

Por isso, todas as religiões acentuam o vínculo indissolúvel entre mística e ética. São João escreveu de modo forte e pregnante: "Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?" São Tiago não é menos explícito: "De que aproveitará a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano e um de vós lhe disser: "Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos", sem lhes dar o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se a fé não tiver obras, está completamente morta.

 

O Evangelho deixa qualquer leitor perplexo. De facto, referindo-se ao Juízo Final, não à maneira de Miguel Ângelo, na Capela Sistina, mas no sentido mais profundo da revelação definitiva do que é a realidade verdadeira na sua ultimidade, de quem é Deus para o ser humano e o ser humano para Deus, não pergunta aos homens e às mulheres, em ordem à salvação, se praticaram actos religiosos de culto, mas se deram de comer ao famintos e de beber aos que têm sede, se vestiram os nus, se trataram os doentes e os abandonados, se foram à cadeia visitar os presos (e supõe-se que estavam lá justamente condenados)... E os salvos, que não sabiam, ficam a saber que foi ao próprio Cristo que deram de comer, de beber, que vestiram, que acolheram, que visitaram no hospital ou na cadeia, que trataram em todas as dificuldades, que promoveram, que foi a ele que deram a mão. Apresenta-se, pois, como critério de juízo sobre a história a humanitariedade, isto é, o interesse real, prático, eficaz, pelo ser humano necessitado, na unidade do amor de Deus e do próximo.

 

O místico Ruysbroek disse: "Se estiveres em êxtase e o teu irmão precisar de um remédio, deixa o êxtase e vai levar o remédio ao teu irmão; o Deus que deixas é menos seguro do que o Deus que encontras." Também Buda, depois de ter lavado e tratado de um monge doente e abandonado, disse aos seus monges: "Quem quiser cuidar de mim cuide dos enfermos." São João da Cruz tem aquela expressão famosa: "Ao entardecer desta vida examinar-te-ão no amor."

 

Aí está, em síntese, a missão da Igreja: ser a multinacional do sentido, sentido último, que se encontra no Mistério, em Deus, e o espaço do combate, lúcido e eficaz, pela humanitariedade, num mundo justo e livre. A vida na sua dupla vertente: vida contemplativa e vida activa.


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 01 SET 2018