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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ROTA DAS CATEDRAIS (II)

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 14

 

Continuamos na Rota das 27 Catedrais portuguesas. Recomeçamos pelo Porto, de onde houve nome Portugal, e aí a (ix, a nona catedral do nosso roteiro) Sé Catedral é dominada pelas influências românica (séculos XII e XIII), maneirista e barroca (séculos XVII e XVIII). Na única cidade-estado portuguesa (como lhe chamou Jaime Cortesão) temos uma Catedral fortaleza – onde se casou D. João, Mestre de Avis e D. Filipa de Lencastre e onde foi batizado o Infante D. Henrique. A estátua de Vímara Peres recorda o tempo da presúria e Sophia lembrou que o Bispo D. António se assemelhou como pessoa à firmeza da Catedral. E chegamos à (x) Guarda – a cidade dos cinco efes: fiel, forte, formosa, fria e farta… A Catedral herda a tradição da Egitânia, construída depois do século XIV, mantendo hoje o seu magnífico traçado gótico… Sente-se a firmeza e a permanência da mais antiga fronteira do mundo. Depois, temos a (xi) Catedral de Aveiro – e já se adoçam os nossos paladares com os melhores doces conventuais do mundo, invocando-se também Santa Joana Princesa, irmã do Príncipe Perfeito. Era a antiga Igreja da Misericórdia, que sofreu alterações nos séculos XVI e XVII. Na cidade de Coimbra, capital de D. Afonso Henriques, cidade do moçárabe Sesinando, temos a (xii) Sé Velha, joia do nosso românico e a (xiv) Sé Nova, o mítico lugar renascentista da nossa cultura, em que houve o mágico encontro entre Antero de Quental e Eça de Queiroz. E chegamos à (xv) Catedral de Castelo Branco, a velha Igreja de S. Miguel do século XIII ou XIV, que foi sendo alterada ao longo dos séculos, até ao barroco e rococó. E continuamos até Leiria, com um novíssimo Cardeal, D. António Marto, e não esquecendo que hoje é 14 de agosto, data de Aljubarrota (1385). A (xvi) Catedral de Leiria é paradigma do maneirismo, numa edificação que abrange os séculos XVI a XVIII. Depois, (xvii) a Catedral de Santarém, belamente renovada, com os justíssimos prémios Europa Nostra e Vilalva – foi a igreja do Convento da Companhia de Jesus, construída sobre o antigo Paço Real em 1647 por iniciativa de D. João IV. Como se teriam regozijado Garrett e Herculano perante o brilho atual do monumento. E seguimos para Portalegre, “cercada / de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros / Morei numa casa velha, / á qual quis como se fora feita para morar nela”… A (xviii) Catedral de Portalegre é dominada pelo maneirismo do arquiteto Afonso Álvares do século XVI… Num salto a Elvas, encontramos a (xix) Sé instalada na antiga Igreja de Nossa Senhora da Assunção – construída sob o traço de Francisco de Arruda, podendo em redor usufruir-se do magnífico artesanato. E (xx) chegamos à Sé Patriarcal de Lisboa, onde se exprime a História da cidade e do mar, de S. Vicente e dos Cónegos Regrantes, bem próximo dos lugares de nascimento de Santo António de Lisboa e do Padre António Vieira. O monumento é riquíssimo e a estação arqueológica que alberga inesgotável – a antiga mesquita, o templo cristão, as reminiscências romanas, visigóticas, suevas, a presença moçárabe… E continuamos. Mais para sul, a jovem diocese de Setúbal, tem sede na (xxi) antiga igreja de Nossa Senhora da Graça, erguida no século XIII, no estilo românico-gótico – chegando até nós como referência maneirista. E se estamos na cidade do Sado não se esqueça a visita da preciosidade que é a Igreja de Jesus, projeto dos Jerónimos. Falando de Évora, a sua (xxii) Catedral foi Igreja episcopal visigótica, onde se situou uma mesquita e onde o Bispo D. Soeiro erigiu o templo em 1186. Porém, o que chegou aos nossos dias associa os estilos românico e gótico, com uma personalidade própria e inimitável. Na reta final deste nosso roteiro – temos a (xxiii) Catedral de Beja, que encerra um mistério por ser a localização primitiva da Igreja de Santiago Maior, com elementos dos séculos XVI a XVIII, e um riquíssimo património. Todos esperamos, aliás, que a diocese continue a ser modelo de defesa do Património Cultural, na linha de D. Manuel Falcão (1922-2012). A (xxiv) Sé Catedral de Faro é emblemática, sendo erigida nas fundações de uma Basílica paleocristã e de uma mesquita – chegando aos nossos dias como exemplo de convergência de tempos e culturas. Mas no Algarve, não esqueçamos a antiga (xxv) Sé de Silves, maioritariamente gótica do século XV, um dos mais importantes exemplos da nossa arte religiosa. Em Angra do Heroísmo (Terceira), a (xxvi) Sé imponente invoca o Santíssimo Salvador, é do século XVI (1570) e constitui mais uma referência essencial.  A (xxvii) Sé do Funchal data da passagem do século XV para o século XVI tem também um grande interesse artístico, tendo a particularidade de ter sido sede da primeira diocese global, donde saíram as outras dioceses do mundo de língua e de influência dos portugueses… Um Roteiro riquíssimo de Catedrais fica ao nosso alcance para deleite e cultivo do património, da herança e da memória…

 

E como habitualmente, depois de termos lembrado José Régio, quem melhor do que Florbela Espanca para nos acompanhar na fantástica Évora?…

 

«Évora! Ruas ermas sob os céus

Cor de violetas roxas ... Ruas frades

Pedindo em triste penitência a Deus

Que nos perdoe as míseras vaidades! 

Tenho corrido em vão tantas cidades!

E só aqui recordo os beijos teus,

E só aqui eu sinto que são meus

Os sonhos que sonhei noutras idades! 

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...

Tua boca sinuosa, um mês de Abril,

Que o coração no peito me alvoroça! 

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...

E a minh'alma soturna escuta e pasma ...

E sente-se passar menina e moça ... »

  

Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

ROTA DAS CATEDRAIS (I)

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 13 

 

A vida cultural faz-se de caminhos e de percursos vários, que nos permitem conhecer melhor a complexidade e o que é diferente. A muito antiga tradição das peregrinações (per agros) permite encadear as influências – e tornar a História próxima e compreensível. Os povos começaram por ser nómadas e passaram a sedentários. Há vantagens e inconvenientes que todos o sabemos . Também as artes se tornaram sedentárias, sem esquecer, porém, o movimento que sempre as anima. Hoje começamos a falar da Rota portuguesa das Catedrais – em boa hora preconizado e oportunidade para termos contacto com a história da Arte e da espiritualidade como realidades bem vivas. Neste Ano Europeu do Património Cultural (AEPC-2018), falar de Catedrais portuguesas constitui uma demonstração da importância da História viva. Para caracterizar o território e as suas gentes, urge considerar o património como um todo – ligando os valores religioso, histórico, paisagístico e artístico. A Rota das Catedrais é das mais ricas da Europa, e permite compreender as evoluções, histórica, cultural e artística, do que recebemos do passado. Há, assim, algumas ideias a considerar: (a) a referência histórica; (b) a integração no conjunto multifacetado do território; (c) a lógica da afirmação cultural portuguesa ligada à religiosidade popular; (d) a compreensão da evolução, desde a Reconquista ao povoamento e depois  à partida das Navegações; e (e) a ideia de peregrinação, originalmente influenciada pela marca de Santiago de Compostela em toda a Península.

 

Vejamos a Rota de norte para sul: (i) A catedral de Viana do Castelo vem do século XV e segue o gótico tardio. (ii) A Sé de Braga tem a marca do século XI e alberga os túmulos de D. Henrique e D. Teresa – tendo sido enriquecida por D. Diogo de Sousa, com a marca do Renascimento no século XV. (iii) A catedral de Vila Real foi construída no século XV sob o orago de S. Domingos, com influência gótica. (iv, v, vi) As Catedrais de Bragança e Miranda do Douro envolvem três monumentos marcantes: a Sé Nova da autoria do Arquiteto Vassalo Rosa (1935-2018) representa a modernidade, a Sé Velha leva-nos ao século XVI e a Sé de Miranda do mesmo século XVI singulariza-se pela sua imponência. (vii, viii) As Catedrais de Lamego e Viseu, merecem uma atenção também especial – sendo a de Lamego, anterior à nacionalidade (1129) e a de Viseu anuncia o gótico, o manuelino e o barroco… (continua)

 

Diz-nos David Almeida escreveu:

 

«Oh! Cidade sem rio grande.

Oh! Cidade sem Mar.

Não quem há na cidade quem mande

Como a magia do velho altar.

Oh! Bela cidade clerical.

Oh! Bela verde fonte.

Tudo desde a sé Catedral,

Ao bom Jesus do monte.

Oh! Bela minhota.

Oh! Bela cidade calma.

De noite pura e marota,

De dia viva e com alma.

Oh! Bela cidade de vida.

Oh! Memória de estudante.

Apesar da partida,

Braga, serás minha amante!”

 

Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture