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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 15 a 21 de março de 2021

 

“Toda a Terra” de Ruy Belo (Moraes, 1976) revela-nos a força criadora do poeta, num momento importante do seu percurso criador.

 

Toda a terra de ruy belo.jpg

 

FIDELIDADE À VIDA

Num ensaio célebre sobre Manuel Bandeira, publicado em “O Tempo e o Modo” (nºs 62-63, 1968), lido na Sociedade Nacional de Belas-Artes, numa homenagem ao poeta brasileiro, por sugestão de Sophia de Mello Breyner, Ruy Belo afirmou que o autor de Vou-me Embora pra Pasárgada tinha “noções muito precisas acerca da poesia e do público”. Por isso defendia “a necessidade de uma fidelidade à vida tal como ela é”, fazendo-o “pelo recurso à enumeração e pela rigorosa passagem do singular ao universal, o que deve bastar para assegurar a um texto (…) uma temperatura poética que o tempo dificilmente fará arrefecer. E o poeta bem sabia a importância do manejo e combinação das palavras encantatórias criadoras de poesia. Ao lermos esse ensaio e o outro que publicou na revista “Rumo” em 1966 compreendemos qual a ideia de Ruy Belo sobre “como um poeta se faz”. E a propósito de Manuel Bandeira e do seu carácter precursor, o poeta de Toda a Terra coloca-nos no ensaio o caminho que preconiza para que, como poeta, possa exprimir a paixão pelas palavras. Ao rever há dias o filme “Ruy Belo, Era Uma Vez”, de Nuno Costa Santos, na RTP-Memória, reencontrei a lúcida análise de António Feijó sobre a importância fundamental do contributo de Ruy Belo na poesia portuguesa do século XX, pela originalidade, inteligência e profundidade de um testemunho, que abriu inúmeras pistas para as novas gerações e para a literatura da língua plural que o português é. E, com emoção, ouvimos, mais uma vez, a lembrança de Teresa Belo, de saudosa memória, cuja generosa persistência permitiu reforçar a tomada de consciência da singularidade excecional do poeta. Se refiro os ensaios sobre Manuel Bandeira, dados à estampa em Na Senda da Poesia (1969), é para deixar claro que essa reflexão de Ruy Belo faz luz sobre o seu próprio percurso e sobre a preocupação que tinha relativamente à relação entre as palavras e a vida. Daí a invocação do poema “Os Sapos” de 1918, que constitui um exemplo significativo, verdadeiramente um pequeno manifesto, sobre a necessidade de os poetas não se deixarem prender pela moda do tempo: “Enfunando os papos / Saem da penumbra, / Aos pulos, os sapos. / A luz os deslumbra. // em ronco que aterra, / Berra o sapo-boi: / - Meu Pai foi à guerra! / - Não foi! – Foi! – Não foi!” // O sapo-tanoeiro, / Parnasiano aguado, / Diz: Meu Cancioneiro / É bem martelado. // Vede como primo / Em comer os hiatos! / Que arte! E nunca rimo / Os termos cognatos // O meu verso é bom / Frumento sem joio. / Faço rimas com consoantes de apoio…”.  Afinal, o sapo-tanoeiro, representante do parnasianismo, sacrifica a poesia às artes poéticas, reduzindo a forma a fôrmas. Mas, longe da grita, na beira do rio, o sapo-cururu (ou seja, o próprio Manuel Bandeira) soluça, transido de frio, afastado da tentação do sapo-tanoeiro. É assim que Bandeira chega à Semana de Arte Moderna de 1922, com uma vivacidade e uma força inovadora, que claramente define em “Itinerário de Pasárgada”: “em literatura a poesia está nas palavras, se faz com as palavras e não com ideias e sentimentos, muito embora, bem entendido seja por força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”. E Ruy Belo lembra “Evocação do Recife”: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha pela boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil / Ao passo que nós / O que fazemos / É macaquear / A sintaxe lusíada”.

 

UM SÍTIO DE SILÊNCIO

Contra as fôrmas da moda parnasiana, Manuel Bandeira, atento à língua certa do povo e “industriado no convívio de Camões”, transforma defeitos em recursos e alcança “um ritmo lento, sincopado, que é de apreciar”. Eis como entendia ser importante ligar a palavra a todos quantos a usam, de modo a compreendê-la como realidade viva, sempre em mutação, para ser fiel intérprete de uma real capacidade de se fazer entender, de comunicar e de compreender os valores enraizados na vida. “Quero uma mesa e pão sobre essa mesa / na toalha de linho nódoas de vinho / quero só isso nem isso quero” – dirá o poeta em Toda a Terra. E ainda o ouviremos: “A minha vida é hoje um sítio de silêncio / a própria dor se estreme é dor emudecida / que não me traga cá notícias nenhum núncio / porque o silêncio é sinónimo da vida”… Trilhando caminho diferente de Manuel Bandeira, Ruy Belo é, no entanto, fiel ao espírito aberto e livre daquele, e procura fôlego, como fazia nos dias em que ia mar adentro em Vila do Conde perante as ondas bravias. “A mim morto no mar entre algas e corais / que notícias me dais aí da superfície / dessa única terra onde vivi / e foi minha ambição morrer pra nunca mais? / Ainda cheira a esteva por aí?”.

 

NÃO HÁ BEM MAIS HUMANO QUE A PALAVRA

Compreender a vida, obriga a usar as palavras certas para a dizer e interpretar – eis o que está em causa. Como o autor de Boca Bilingue afirmou numa entrevista em 1962 ao “Diário Ilustrado”: “A poesia não constitui um fenómeno isolado no contexto cultural. Poesia é fundamentalmente linguagem, e a língua, sendo em si mesma um facto de cultura, permite a fixação e a transmissão de toda a cultura. A poesia enquadra-se na arte e distingue-se das outras artes quanto ao ‘meio’ (o termo aqui, embora, claramente insuficiente, é aplicado na sua aceção vulgar) de expressão”. E é esta circunstância que a autonomiza e distingue. De facto, o poeta compreende, melhor que ninguém, que cada palavra é um infinito, “que exerce o sortilégio que o poder mágico lhe permite”. Eis o que Ruy Belo procurou no seu rápido caminho. “Não há bem mais humano do que a palavra, de tal maneira que ela até compromete na inteligência do homem toda ou quase toda a sua existência. Ela ajuda a criar, e participa da história do homem. Daí que pô-la em jogo seja movimentar o universo”. E se, para Ruy Belo, a palavra é humana, naturalmente se torna social, comprometida, responsável. Ela abre diversas relações com outras palavras e sobretudo com pessoas. Vista a esta luz, a poesia é o lugar “onde convivem umas com as outras as palavras”. E é isto que sentimos ao ler os poemas longos do autor. Teresa Belo recordava, por isso, os exercícios intermináveis que dedicava aos encontros e desencontros de palavras. Afinal, se “O Guardador de Rebanhos” veio de um só jacto; Régio confessava: “Há quanto, há quanto já que os versos me não vinham”… Foi na leitura de Homero que se educaram todos os atenienses, mas Platão preconizava a expulsão dos poetas da cidade pelo perigo que representavam. Hölderlin, se reconhecia a inocência da palavra, considerava-a o mais perigoso dos bens. “A vida não se compadece com ideologias vãs / a vida pede pouco mais que vida / Para sabedoria não existe idade / mas a felicidade existe um só momento”…  

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (IV)…
16 de julho de 2019

 

Falámos talvez pouco de Hergé (1907-1983). Ele é o herói. A revista que hoje vos trago é de 1966. O fenómeno de sucesso ocorre essencialmente depois dos anos quarenta e cinquenta, graças aos continuados do journal Tintin e à nova apresentação das aventuras do jovem repórter em álbuns muito cuidados quer no tocante à qualidade do argumento, das ilustrações e do colorido. Hergé teve a intuição e a sabedoria, o talento e a arte, de compreender que era necessário criar um estúdio profissional servido de uma equipa de elevadíssima qualidade. Já referimos o papel desempenhado por E. P. Jacobs e por Jacques Martin, entre outros, o que permite verificar não haver comparação entre as versões originais do “Petit Vingtième” e os álbuns coloridos, que irão conhecendo aperfeiçoamentos. Mas para que tudo isso fosse possível é preciso voltar a citar Raymond Leblanc (1915-2008), o editor de visão larga que acreditou em Hergé e construiu uma máquina de grande eficácia que lançou o herói da BD… A chegada à Lua de Tintin é reconhecida hoje como dos exercícios mais rigorosos de ficção científica, uma pérola de antecipação… De Gaulle afirmou que só tinha um concorrente internacional, que se chamava Tintin. A literatura francesa e mundial incorporam a figura de Tintin. François Mauriac lamentou, porém, os gostos da geração Tintin, mas enganou-se redondamente, uma vez que não só líamos Tintin, mas também nos preparávamos para ler Thérèse Desqueyroux… O tema da imagem entrava na ordem do dia – no cinema, na fotografia, na banda desenhada – e não largava a importância da narrativa… E Edgar Morin disse em 1958: “Tintin sauvegarde la liberté illimitée du rêve de l’enfance, mais en orientant vers les rêves déjà socialisés du cinéma d’aventure pour adolescents et adultes (…) dans les rapports imaginaires de Tintin, le petit super-boy est roi »…  Mas havia mais : Blake e Mortimer eram a melhor introdução aos melhores policiais. Alix Graccus na companhia do jovem egípcio Enak levava-nos para os clássicos da República Romana. Albert Weinberg (1922-2011) fazia-nos entrar no mundo da aviação de vanguarda com Dan Cooper, antecâmara da ficção científica, Jean Graton levava-nos para o automobilismo, e a lista é muito longa: Modeste e Pompon (Franquin), Oumpah-Pah (Uderzo e Goscinny), Corentin (Cuvelier), Bob e Bobette (Vandersteen), Chick Bill (Tibet), Pom e Teddy (Craenhals), Jari (R. Reding), Ric Hochet (Tibet e Duchâteau), Guy Lefranc (com a marca indelével de J. Martin), Le Chevalier Blanc (L. e F. Funcken), Spaghetti (Dino Attanasio), Clifton (Macherot), Taka Takata (Jo-el Azara), Bernard Prince (Hermann), Bruno Brazil W. Vance), Cubitus (Dupa), Olivier Rameau (Dany), Luc Orient (Eddy Paape)… Mas nesta imensa lista, não podemos esquecer Greg o argumentista inesgotável, a aparecer em toda a parte, com uma prodigiosa imaginação.

 

Eis o ponto onde ficamos. Mas não esquecemos os nossos grandes como Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), Fernando Bento (1910.1996), Vítor Péon (1923-1991), José Garcês (1928) ou José Ruy (1930)…, mas esses contos serão outros aos quais regressaremos…

 

Para terminar hoje, cito um belo poema do meu Amigo Ruy Belo – «Portugal Futuro»…

 

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

 

Agostinho de Morais

O PORTUGAL FUTURO DE RUY BELO…

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 27

 

Ao relermos Ruy Belo, encontramos uma inesperada definição de Património Cultural, não como reminiscência do passado, mas como apelo e desafio para diante. A ideia de que “o puro pássaro é possível” é o apelo poético na sua expressão plena. Como os chamados “vencidos da vida”, os “vencidos do catolicismo” não foram vencidos no largo prazo, são símbolos vivos do que poderemos designar como a “paixão crítica”. Quando Ramalho Ortigão e Oliveira Martins inventaram a expressão que o tempo consagraria fizeram-no com um misto de ironia e de empenhamento na construção do futuro. Contra a ideia de fatalismo do insucesso ou do atraso e sem dó nem piedade no sentido crítico essas duas gerações – a da “Vida Nova” e de “O Tempo e o Modo” assumiram plenamente a dureza da denúncia e a aventura das propostas audaciosas. O atraso recusa-se. E a leitura de “Portugal Futuro” obriga-nos a não baixar os braços, a renovar o ânimo crítico. Uma cultura acomodatícia ou conformista tende a tornar-se frágil. A nitidez crítica contrapõe-se à cacofonia… Daí a necessidade de uma visão cosmopolita de diferentes culturas, não de uma amálgama onde ninguém se entende. Eis como é importante a tradição de D. Pedro das Sete Partidas, mas também de Pedro Nunes, Garcia de Orta, D. João de Castro – de Camões, de Fernão Mendes Pinto, de Vieira… E esse cosmopolitismo liga-se à diversidade das culturas da língua portuguesa – da saudade até à morabeza… “Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz / mas isso era o passado e podia ser duro / edificar sobre ele o portugal futuro”. Haverá melhor definição de património vivo?

«O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro»

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

 

   Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Dizes que te tenho escrito muito pouco, quase nada. Amigos meus também me mandam recados, aconselhando a que não me isole tanto... E todas essas vozes me soam distantes, indistintamente as ouço. Sem querer parafrasear o António Alçada Baptista, sinto-me em peregrinação interior. Talvez porque a necessária arrumação de objetos, livros e escritos com décadas de repouso, quiçá esquecimento, em malas e caixas, em armários fechados, donde os vou retirando atentamente, ainda que sem apreensão, me devolva um caminho de vida que, afinal, passou e ficou. A memória acordada restitui-me a mim, como se o retrovisor fosse um espelho constitutivo. Desenha-se-me meu o rosto que descubro em papéis velhinhos, apontamentos que fui fazendo, desde menino... E fico estupefacto: afinal, todos estes anos de vida não me mudaram muito, permaneço aquele rapaz de vinte anos, em que reconheço o que ainda hoje são as minhas cismas. Este texto data do início dos anos sessenta, escrito a tinta, por caneta célere, mas arrumadora, sem hesitações nem rasuras, num caderno chamado Sebenta, fornecido pela Papelaria Americana, de Leiria:

 

   «A angústia surge quando chega a idade da opção (que em muitos parece nunca chegar), quando nos encontramos como possibilidade, como responsáveis, como autodetermináveis vitalmente por isto ou por aquilo.

 

   A angústia é então o não ter certezas absolutas, o inquietar-se porque não sabemos se havemos de apostar a vida pela fé ou contra ela, por isto ou por aquilo.

 

   A angústia é a marca do homem adulto e a passagem necessária para uma fé autêntica, ou para uma autêntica aventura humana quotidianamente acompanhada pelo desespero.

 

   Nós não escolhemos entre a angústia e a fé (isso seria uma falsa opção e a fé seria então um lenitivo), mas escolhemos a fé para além da angústia ou, se quisermos, assumimos a nossa angústia na fé, tal como a poderíamos assumir no ateísmo.

 

   Talvez, sim, talvez, liberdade e angústia sejam simultâneas.

 

   Kierkegaard vê bem quando diz que a angústia é diferente do medo e coisas parecidas, que sempre se referem a um objeto preciso. Porque a angústia é a realidade da liberdade porque é o possível dela.

 

   Mais perto de Heidegger, a angústia é essa inquietação que surge a "ligar"- me ao meu projeto.

 

   E continuando mais com Kierkegaard, a angústia é como que o imenso nada da ignorância.

 

   Enquanto que, para Heidegger, o homem é ser-para-a-morte e a angústia é, de certo modo, diríamos, a consciência disso, para Kierkegaard a morte é para a vida.

 

   O desespero é precisamente esse saber que não se será mais nada, aquilo que queríamos ser, e, simultaneamente, o não poder aniquilar-se. E isto é o sinal do eterno no homem. Diferentemente, Kierkegaard olha tudo numa perspetiva cristã.

 

   O Absurdo é um divórcio.

 

   Divórcio entre o desejo de vida que sinto em mim e o quotidiano que a minha condição me oferece, e a morte.

 

   Divórcio entre a sede da minha inteligência e a insuficiência ou a "mentira" de tudo o que "conheço".

 

   Em suma: divórcio entre mim e o mundo, entre mim e a minha condição.»

 

   Quase sessenta anos depois de ter escrito isto num caderno só para mim, reencontro-me comigo numa questão precisa, e pego outra vez na 7ª edição do Sein und Zeit, de Martin Heidegger (Max Niemeyer Verlag, Tübingen, 1953) que será, como muitos pretendem, uma "análise existencial". Ocorre-me então a explicação que dá Fernando Savater, professor de filosofia na Complutense de Madrid, a propósitos do filósofo de Tubinga: A morte é sempre a minha morte, a própria para cada um dos que podem dizer "eu", isto é, para os Dasein ou seres que existimos aqui, atirados para o mundo e destinados ontologicamente a perecer. Como a morte é essencialmente a minha e não o destino genérico de uma espécie de que sou simplesmente membro de número, é a morte que me constitui com irrepetível propriedade. O mesmo professor madrileno, aliás, no seu Diccionario Filosofico (Editorial Planeta, 1995; tradução portuguesa de Carlos Aboim de Brito nas Publicações Dom Quixote, 2010, donde tiro as citações) diz, ele próprio, na entrada Morte: Não o facto da morte e sua espantosa frequência estatística mas a certeza da morte, como destino próprio e de todos os nossos semelhantes, conhecidos ou desconhecidos, odiados ou amados... essa certeza universal é que nos converte em humanos. A previsão certa da morte - própria, alheia - é a diferença específica da estirpe humana, não a razão ou a linguagem. A segurança da morte é o único segredo que conhecemos de todos os nossos semelhantes e também de nós mesmos, embora intimamente permaneçamos incrédulos perante tão fatal perspetiva.  Assim, para o incréu Savater, isso a que, Princesa de mim, chamamos espírito, o nosso espírito, nasce da presciência da morte. Escreve: Que significa ter espírito? Não é gozar de algum misterioso elemento sobrenatural misturado com o barro comum da nossa natureza nem sentir o latir do imortal dentro do que tem de morrer, mas sim o contrário. Ter espírito é sermos conscientes de que não podemos dar o nosso corpo por garantido (como fazem o resto dos animais que, por isso, chegam a ser muito espertos mas nunca espirituais); ter espírito é dar o corpo por perdido e amá-lo assim, na sua marcha e no seu quebranto. O espírito é a celebração do corpo (do complexo de vida e mundo que corporalmente se manifesta) porque valentemente ainda vive no seu resvalar certo para a morte. O espírito não é, pois, o que nunca morre, mas o que sabe sempre que vai morrer.

 

 

   Aqui chegado, o leitor que sou lembra-se do que escreveu, e muito daquilo que te disse, sobre o amor, em tantas cartas. O amor que é a única vitória possível para um ser em relação, como sempre defino (ou indefino) o ser humano. E volto a recordar o São Paulo que nos fala da permanência única do amor. Curiosamente, o artigo de Fernando Savater sobre a morte encerra-se com um poema do argentino Macedonio Fernandez, que foi precedido por considerações que, sem o desligarem de Heidegger, o aproximam do cristão que eu sou e continua a repetir a pergunta: Ó morte, onde está a tua vitória? Escreve o madrileno: A morte permanece e continua a permanecer inassimilável. Talvez tenha sido precisamente isso que pretendeu Espinosa ao assegurar que o homem livre em nada pensa menos do que na morte e toda a sua sabedoria está concentrada na vida...   ...O pensamento morre quando aceita que o seu tema mais próprio é mergulhar na morte, apropriar-se dela. Em contrapartida, os poetas assumem a morte mas opondo-lhe a outra grande força que nos individualiza, que nos personifica: o amor. O incompatível com a morte não é viver (a vida exige a morte) mas amar: o amor desconhece a força da morte, embora amemos a partir da consciência da nossa mortalidade e da do amado.

 

   A revelação íntima do Evangelho está bem dita, para mim sempre esteve, Princesa, na 1ª Carta de São João, no capítulo 4º, de que destaco os versículos 7 e 8: Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus, e seja quem for que ame nasceu de Deus e conhece Deus. Quem não ama não conheceu Deus, porque Deus é amor. Com Cristo, por Cristo e em Cristo, venceu a morte. Os três últimos versos do poeta argentino que Savater cita:  Pouco mais a Morte logra, pois não pode / entrar seu medo no peito onde Amor pode. / Que a Morte rege a vida; o Amor a Morte.

 

   O rapaz de mim que escreveu aquelas linhas num simples caderno de apontamentos tinha então vinte anos. Foi por essa altura que conheci o Ruy Belo, com quem conversei muito. Meia dúzia de anos depois (em 1966), ele publicava, pela Ática, o seu Boca Bilingue. Lembrei-me hoje, ao ver-me ao tosco espelho de um velho caderno de apontamentos, de uma das Sete Coisas Verdadeiras que o poeta ali recorda, com o título de Em Cima de Meus Dias, poema de que transcrevo as duas primeiras estrofes, por tão minhas as sentir neste momento:

 

          Muita gente me tem falado a meu respeito

          como quem me chamasse pelo nome e eu me voltasse 

          e nesse nome dito nessa boca fosse toda a minha vida

          e eu morresse quando entre pinhais quem me chamara a fechasse

 

          Muita gente me tem falado a meu respeito

          mas eu cresço e decresço não reparo e anoitece

          e já nem sei ao certo quantos dias meço

          Regresso com o gado contra o sol rasante

          Mas é de névoa ou fumo o algodão que cobre as casas

          aonde regressamos atraídos pela luz que já nos campos se consome?

 

   Olho para dentro de mim e talvez encontre a saída de um caminho.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira