Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Em merecido descanso, reproduzimos uma crónica anterior do Padre Anselmo Borges.
Dostoiévski. Foto: Corbis/Getty Images
Nunca esqueci a senhora Isilda, uma idosa antiga, muito bonita e viva, com filhos, que, já com 91 anos, um dia no café me esclareceu quanto ao baptismo: segundo ela, baptizam-se as crianças pequeninas para receberem o Espírito Santo que é mais forte do que Jesus e que é o Espírito falador: é ele que dá às crianças a capacidade divina para falar.
À sua maneira, a senhora Isilda tinha consciência do milagre que é falar. Quem algum dia reflectiu sobre isso - a capacidade de falar: proferir sons articulados que transportam sentido - falando, dizemo-nos a nós próprios, damos ordens, fazemos declarações de amor, e ódio também, ensinamos, contamos anedotas, fazemos paralisar um homem, levamos uma mulher à lua, discutimos sobre o que há e o que não há, sobre o possível e o impossível, dirigimo-nos ao Infinito... -, não pode deixar de cair no assombro interrogativo.
Um corpo humano, pelo simples facto de falar, nunca deixará de constituir um enigma e mesmo um milagre pura e simplesmente. Lá está Aristóteles, que viu bem ao definir o ser humano como animal que tem fala (zôon lógon échon), sendo, por isso, animal político (zôon politikón), com a capacidade de distinguir e discutir sobre o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o bem e o mal... Ah! Se os políticos soubessem disto e agissem em consequência!...
E as palavras não são arbitrárias. Assim, muitos já estão em férias, outros irão para férias. Ora, cá está: a palavra latina feria, no plural feriae, tinha o sentido de “descanso, repouso, paz, dias de festa”. No século III, a Igreja assumiu os dias da semana como dias de “comemoração festiva”, enumerando-os como feria prima, feria secunda, tertia, quarta, quinta, sexta, ou, invertendo a ordem das palavras: prima feria, secunda feria, tertia feria, quarta feria, quinta feria, sexta feria.
Daí, ao contrário de outras línguas, como o espanhol, o italiano, o francês, etc., que adoptaram a classificação romana baseada na divinização de um planeta: lunes, martes, lundi, mardi, etc., o português, ao seguir a designação eclesiástica, ter dado origem aos dias da semana como: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, etc. Que feira, enquanto mercado esteja associada a feria, deriva do facto de os comerciantes aproveitarem os dias festivos para vender as suas mercadorias - aliás, isso ainda hoje acontece frequentemente.
De qualquer modo, o importante é sublinhar, até do ponto de vista histórico e etimológico, o carácter festivo associado às férias. Isso é tanto mais significativo, quanto isso mesmo está presente noutras línguas, que seguiram caminhos etimológicos diferentes. Assim, em espanhol, férias diz-se vacaciones e, em francês, vacances. Ora, vacaciones e vacances têm o seu étimo no latim vacatio, com o significado de isenção, dispensa de serviço. Os ingleses em férias dizem que estão on holidays, e isso quer dizer: em dias santos. Os alemães, esses têm ferien ou urlaub. Ora, a raiz de urlaub é erlaubnis, com o sentido de dias livres de serviço e trabalho.
É necessário sublinhar que a Bíblia faz questão de dizer que Deus deu um mandamento de um dia feriado semanal santo, sem trabalho, para que o ser humano fizesse a experiência de que não é uma besta de carga, mas um ser festivo. Tem de trabalhar - e duro -, mas não é besta de carga. E Jesus também trabalhou e trabalhou no duro. Quantos padres falam disso? Mas também descansou e tentava levar os discípulos para um lugar recôndito onde pudessem repousar.
Mas, aqui chegados, é preciso reflectir, pois, se pensarmos bem, os dias de descanso semanal e as férias não têm, ou, pelo menos, não deveriam ter, como finalidade única e última ser só um intervalo no trabalho para repor as forças, em ordem a trabalhar outra vez e mais.
As férias e o descanso semanal têm o seu fim em si mesmos: a experiência de que o ser humano é um ser festivo. É preciso ler e escrever poesia, dançar, apanhar sol na praia, no campo, na montanha, ouvir música excelente, que nos remete para origens imemoriais e para a transcendência utópica toda. É preciso reaprender a ver o Sol a nascer no Oriente e a pôr-se no Ocidente (sabia?) e a exaltar-se com a Lua enorme - cheia - ou pequenina que nem um fio, e com o alfobre das estrelas: isso que na cidade se não vê.
É preciso voltar às alegrias simples: contemplar uma simples folha de erva, acolher o perfume de uma rosa sem porquê, como dizia Angelus Silesius, exaltar-se com o mistério de qualquer rosto humano. É preciso ter tempo para ouvir o silêncio: haverá milagre maior do que estarmos cá?
Se se for fora, encontrar-se com culturas outras e diferentes modos de ser ser humano: como americano, como asiático, como africano e, de modo mais concreto, como chinês, como ugandês, como mexicano (nestes tempos de globalização, que Deus nos livre da uniformidade!).
É preciso ter tempo para a família e para os amigos. Para andar solto. Para dialogar com o Infinito. Para contemplar e criar beleza: não é ela que redime o mundo, como disse Dostoiévski?
Ai de quem, concretamente nestes tempos de dispersão, de barulho ensurdecedor e correria sem fim não se sabe muitas vezes para onde, não tenha todos os dias um pouco de tempo para o melhor: estar consigo lá no mais íntimo para se concentrar e conviver com o milagre de viver - sim, viver é um milagre - e encontrar o mistério da Transcendência e Sentido.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 3 de agosto de 2024
Mesmo correndo o risco de repetições, volto ao tema, porque a ameaça temível da verborreia oca não cessa de aumentar...
Sim, é verdade. Quando comparamos o ser humano e os outros animais, notamos que a linguagem duplamente articulada é característica decisiva dos humanos. Foi sobretudo a partir do século XVIII que se deu essa compreensão: até encontramos caricaturas com um missionário no meio da selva africana dizendo a um macaco: “Fala, e eu baptizo-te”. Se falasse, era humano. Evidentemente, esta fala refere-se ao que é próprio do ser humano: dupla articulação da linguagem.
Pela palavra, abrimo-nos ao mundo e o mundo abre-se a nós. Falando, damos razão disto ou daquilo, argumentamos, comprometemo-nos, formamos comunidade. Sendo a razão humana linguisticizada, só podemos compreender-nos a nós próprios em corpo, com outros e na História.
O Homem, pelo facto de ser “zôon lógon échon”, animal que tem lógos (razão e linguagem), é também “zôon politikón”, animal social, político, diferentemente do animal, que é gregário, e a razão disso é a palavra, como bem viu Aristóteles, na Política: “A razão de o Homem ser um ser social, mais do que qualquer abelha e qualquer outro animal gregário, é clara. Só o Homem, entre os animais, possui a palavra”. E continua: “A voz é uma indicação da dor e do prazer; por isso, têm-na também os outros animais. Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente bem como o justo e o injusto. E isto é o próprio dos humanos face aos outros animais: possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações. A participação comunitária nestas funda a casa familiar e a cidade”. A linguagem humana não se reduz à expressão emotiva do prazer e do desprazer. É capaz de fazer juízos morais, de distinguir o bem e o mal, o justo e o injusto, partilhar e debater publicamente estas apreciações. Deste modo, a linguagem está na base da ética e funda eticamente a pólis (a cidade, no sentido da vida política).
Percebe-se assim que o ser humano é constitutivamente dialogante. Aliás, o que é, logo à partida, pensar senão falar consigo mesmo? Damos tantas vezes connosco a falar connosco — isso mesmo, a dialogar connosco no mais íntimo de nós, quando precisamos de deliberar e vamos apresentando razões a favor e razões contra uma determinada tomada de posição.
Precisamos de falar connosco. É preciso falar, dialogar em família. Quando o diálogo morre numa família, o amor vai esmorecendo e caminhando também para a morte. Mas hoje, desgraçadamente, parece que não há tempo para dialogar em família, porque o barulho invasor das televisões — o que lá vai de comentadores, tantas vezes ignaros! — toma conta de tudo. E os telemóveis e quejandos, meu Deus!... Já se diz que a “Última Ceia” do século XXI representa Jesus com as mãos à cabeça, aflito, porque os Apóstolos estão todos entretidos a olhar e a “dedar” entusiasmados nos seus smartphones!...
Por outro lado, quem não faz silêncio, quem não medita (significativamente, meditação, medicina e moderação têm a mesma proveniência: o verbo latino mederi — a raiz é med: pensar, medir, julgar, tratar um doente —, que significa cuidar de, tratar, medicar, curar), quem não ouve a Palavra originária, que fala no silêncio, pode produzir tempestades de palavras, mas elas são ocas ou até perniciosas. Porque então a palavra já não existe para “manifestar o conveniente e o inconveniente bem como o justo e o injusto”. Ora, não é isso que tantas vezes se passa nas campanhas eleitorais e nos Parlamentos? E também em muitas homilias de padres e bispos e discursos de todo o género? Como faz falta a palavra poética, criadora, revigoradora e que cura! Ah, sim, pela palavra, animamos alguém, damos-lhe força, esperança, abrimos-lhe futuro. Com uma palavra podemos curar alguém, mas também podemos “matar”, destruir-lhe a vida.
Tudo fica abalado, quando os sofistas e a sofística tomam conta do espaço público e privado. Nunca mais se vai ao essencial. E tudo se agrava agora com a ameaça da banalização total das redes sociais. Para isso chama a atenção um comentário aceso e paradigmático do grande Umberto Eco, pouco antes de morrer: “As redes sociais concedem o direito de palavra a legiões de imbecis que antes falavam só no bar depois de um copo de vinho, sem danos para a colectividade. Eram imediatamente remetidos ao silêncio enquanto agora têm o mesmo direito de palavra de um Prémio Nobel. Assistimos à invasão dos imbecis.”
É, pois, urgente dar espaço e tempo ao silêncio. E também à oração. Sim, à oração. Para colocar o ser humano em contacto com o Mistério último da realidade e da vida. Dialogar com o mais fundo da Vida. Estar ligado ao Fundamento, à Fonte, ao Sentido último. Para se não perder na dispersão, completamente desorientado, desorientada, sem referências, perigo maior do nosso tempo.
Mas a oração e o que é essencial exigem o salto para fora do barulho ensurdecedor. Que se faça silêncio. Num tempo em que se é invadido e esmagado pelo tsunami das informações, entrando no mundo caótico da dispersão e da fragmentação, da “agitação paralisante e da paralisia agitante”, segundo a expressão do famoso bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, é urgente parar, fazer pausa. Para ouvir o silêncio. Sim, ouvir o silêncio. No meio da vertigem dos vendavais de palavras em que vivemos, que nos atordoam e paralisam, ouvir outra coisa. Ouvir o quê? Isso: o silêncio. Só depois de ouvir o silêncio será possível falar, falar com sentido e palavras novas, seminais e iluminantes, criadoras. De verdade. Onde se acendem as palavras novas, seminais, iluminadas e iluminantes, criadoras, e a Poesia, senão no silêncio, talvez melhor, na Palavra originária, criadora, que fala no silêncio? Ouvir o quê? Ouvir a voz da consciência, que sussurra ou grita no silêncio. Quem a ouve? Ouvir o quê? Ouvir na noite o silêncio da noite e também na noite contemplar o alfobre das estrelas. Ouvir música, a grande música, aquela que diz o indizível e nos transporta lá, lá, ao donde somos e para onde verdadeiramente queremos ir: a nossa morada. Ouvir o quê? Ouvir a sabedoria. Sócrates, o filósofo grego, o mártir da Filosofia, que só sabia que não sabia, consagrou a vida a confrontar a retórica sofística com a arrogância da ignorância e a urgência da busca da verdade. Falava, mas só depois de ouvir o seu daímon, a voz do divino e da consciência.
O grande filósofo A. Comte-Sponville é partidário de um “ateísmo místico”, no quadro de “uma espiritualidade sem Deus”. Mas constituinte dessa espiritualidade é precisamente o silêncio. “Silêncio do mar. Silêncio do vento. Silêncio do sábio, mesmo quando fala. Basta calar-se, ou, melhor, fazer silêncio em si (calar-se é fácil, fazer silêncio é outra coisa), para que só haja verdade, que todo o discurso supõe, verdade que os contém a todos e que nenhum contém. Verdade do silêncio: silêncio da verdade.”
O problema está em que já Pascal, nos Pensamentos, se queixava: “Toda a desgraça dos homens provém de uma só coisa, que é não serem capazes de permanecer em repouso num quarto.” Hoje é ainda pior do que no tempo de Pascal. Ninguém suporta o silêncio. Sinal extremo disso: Quem ousa ouvir, em todo o seu abismo, o silêncio da morte no silêncio de um rosto morto, que nos cala e nos abala até à raiz de nós e ao fundo abissal do ser? No entanto, é em silêncio que, na noite do mistério, se pode entrever a luz da verdade do amor e da morte e do Sentido final. Por isso, é preciso constantemente pedir com Sophia de Mello Breyner: “Deixai-me com as coisas/Fundadas no silêncio.”
Há um preceito sufi que reza: “Se a palavra que vais dizer não for mais bela do que o silêncio, não a digas”. Se este preceito fosse cumprido, poderia estar a caminho o casamento feliz, humanizante e criador da Fala e do Silêncio.
N. B.: Estas crónicas ficam suspensas até Outubro.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 16 de Agosto de 2025
Há regras mestras do pensar que, dada a sua universalidade, legitimam também a sua intemporalidade.
A liberdade de expressão, de falar, de discutir, de pensar, terá de ser equilibrada pelo talento de saber ouvir, não apenas o que o outro nos diz, mas também aquilo que somos capazes de dizer a nós próprios quando a sós ou em silêncio.
Um equilíbrio físico, emocional, psicológico e social apela a que ao movimento da força centrífuga se contraponha o repouso da força centrípeta, que a uma didactologia do diálogo se tenha de contrapor uma pedagogia do silêncio.
Exemplifica-o um dos princípios vigentes da escola pitagórica ao determinar que os discípulos começassem por ser ouvintes, sabendo escutar e meditar, em silêncio, as lições dos mestres, durante um período de preparação, a que se seguiria o exercício dialético e do contraditório, contrariando uma idealização de progresso que tem como ultrapassados os valores do passado, só por pertencerem ao que já findou.
A força diluviana da informação de que dispomos, ampliada pelo progresso tecnológico, não contribui, por si só, para um maior esclarecimento de nós mesmos, dado que, ao mesmo tempo, o ser humano sempre foi dominado pela ansiedade, desespero, stresse, angústias e tragédias psíquicas.
Daí haver uma necessidade permanente de equilibrar o andamento vertiginoso da nossa vida com um entusiasmo criador e silencioso que transmita alegria material e espiritual. Se se educa o ouvido ouvindo, a cabeça lendo e a escrita lendo muito, a liberdade de expressão e de pensar, terá de ser equilibrada com a arte de saber ouvir e escutar em silêncio.
Nunca esqueci a senhora Isilda, uma idosa antiga, muito bonita e viva, com filhos, que, já com 91 anos, um dia no café me esclareceu quanto ao baptismo: segundo ela, baptiza-se as crianças pequeninas para receberem o Espírito Santo que é mais forte do que Jesus e que é o Espírito falador: é ele que dá às crianças a capacidade divina para falar.
À sua maneira, a senhora Isilda tinha consciência do milagre que é falar. Quem algum dia reflectiu sobre isso -- a capacidade de falar: proferir sons articulados que transportam sentido -- falando, dizemo-nos a nós próprios, damos ordens, fazemos declarações de amor, e ódio também, ensinamos, contamos anedotas, fazemos paralisar um homem, levamos uma mulher à lua, discutimos sobre o que há e o que não há, sobre o possível e o impossível, dirigimo-nos ao Infinito... --, não pode deixar de cair no assombro interrogativo. Um corpo humano, pelo simples facto de falar, nunca deixará de constituir um enigma e mesmo um milagre pura e simplesmente. Lá está Aristóteles, que viu bem ao definir o ser humano como animal que tem fala (zôon lógon échon), sendo, por isso, animal político (zôon politikón), com a capacidade de distinguir e discutir sobre o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o bem e o mal... Ah! Se os políticos soubessem disto e agissem em consequência!...
E as palavras não são arbitrárias. Assim, muitos já estão em férias, outros irão para férias. Ora, cá está: a palavra latina feria, no plural feriae, tinha o sentido de "descanso, repouso, paz, dias de festa". No século III, a Igreja assumiu os dias da semana como dias de "comemoração festiva", enumerando-os como feria prima, feria secunda, tertia, quarta, quinta, sexta, ou, invertendo a ordem das palavras: prima feria, secunda feria, tertia feria, quarta feria, quinta feria, sexta feria. Daí, ao contrário de outras línguas, como o espanhol, o italiano, o francês, etc., que adoptaram a classificação romana baseada na divinização de um planeta: Lunes, Martes, Lundi, Mardi, etc., o português, ao seguir a designação eclesiástica, ter dado origem aos dias da semana como: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, etc. Que feira enquanto mercado esteja associada a feria deriva do facto de os comerciantes aproveitarem os dias festivos para vender as suas mercadorias — aliás, isso ainda hoje acontece frequentemente.
De qualquer modo, o importante é sublinhar, até do ponto de vista histórico e etimológico, o carácter festivo associado às férias. Isso é tanto mais significativo quanto isso mesmo está presente noutras línguas, que seguiram caminhos etimológicos diferentes. Assim, em espanhol férias diz-se vacaciones e em francês vacances. Ora, vacaciones e vacances têm o seu étimo no latim vacatio, com o significado de isenção, dispensa de serviço. Os ingleses em férias dizem que estão on holidays, e isso quer dizer em dias santos. Os alemães, esses têm Ferien ou Urlaub. Ora, a raiz de Urlaub é Erlaubnis, com o sentido de dias livres de serviço e trabalho.
É necessário sublinhar que a Bíblia faz questão de dizer que Deus deu um mandamento de um dia feriado semanal, santo, sem trabalho, para que o ser humano fizesse a experiência de que não é uma besta de carga, mas um ser festivo. Tem de trabalhar -- e duro --, mas não é besta de carga. E Jesus também trabalhou e trabalhou no duro. Quantos padres falam disso? Mas também descansou e tentava levar os discípulos para um lugar recôndito onde pudessem repousar.
Mas, aqui chegados, é preciso reflectir, pois, se pensarmos bem, os dias de descanso semanal e as férias não têm ou, pelo menos, não deveriam ter como finalidade única e última ser só um intervalo no trabalho para repor as forças, em ordem a trabalhar outra vez e mais.
As férias e o descanso semanal têm o seu fim em si mesmos: a experiência de que o ser humano é um ser festivo. É preciso ler e escrever poesia, dançar, apanhar Sol na praia, no campo, na montanha, ouvir música excelente, que nos remete para origens imemoriais e para a transcendência utópica toda. É preciso reaprender a ver o Sol a nascer no Oriente e a pôr-se no Ocidente (sabia?) e a exaltar-se com a lua enorme -- cheia -- ou pequenina que nem um fio, e com o alfobre das estrelas: isso que na cidade se não vê. É preciso voltar às alegrias simples: contemplar uma simples folha de erva, acolher o perfume de uma rosa sem porquê, como dizia Angelus Silesius, exaltar-se com o mistério de qualquer rosto humano. É preciso ter tempo para ouvir o silêncio: haverá milagre maior do que estarmos cá? Se se for fora, encontrar-se com culturas outras e diferentes modos de ser ser humano: como americano, como asiático, como africano e, de modo mais concreto, como chinês, como ugandês, como mexicano (nestes tempos de globalização, que Deus nos livre da uniformidade!). É preciso ter tempo para a família e para os amigos. Para andar solto. Para dialogar com o Infinito. Para contemplar e criar beleza: não é ela que redime o mundo, como disse Dostoiévski?
Ai de quem, concretamente nestes tempos de dispersão, de barulho ensurdecedor e correria sem fim não se sabe muitas vezes para onde, não tenha todos os dias um pouco de tempo para o melhor: estar consigo lá no mais íntimo para se concentrar e conviver com o milagre de viver — sim, viver é um milagre — e encontrar o mistério da Transcendência e Sentido.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 3 de agosto de 2024
Continuamos com a urgência da cultura da pausa e do silêncio.
Repetindo, chama-se, como diz o jesuíta Juan Masiá, professor em Tóquio, cultura da pausa à tradição oriental de dar importância aos silêncios numa conversa, às margens numa folha escrita ou num quadro, aos intervalos entre as palavras, aos vazios nas letras, aos espaços livres na arquitectura, ao não dito na mensagem, à receptividade na contemplação. Parar para ouvir o silêncio e contemplar: em vez de olhares para ti e eu olhar para mim, deixemo-nos olhar ambos pela “Realidade-Assim-Sempre-Presente cuja aura comum nos envolve”. Sai de ti, para te encontrares no Todo. Deixa o eu superficial, transcende, descendo até ao eu profundo e ao “Assim-Sempre-Presente”, que se manifesta. Sem pausas de silêncio, como poderíamos ouvir uma mensagem ou uma sinfonia? Sem intervalos, margens e vazios nas letras e entre frases, como poderíamos ler e entender? E verdadeiramente viver, indo ao essencial?
Aqui, quanto ao essencial, lembrei-me daquela estória, que poderia ser histórica, e volto a Juan Masiá, pois é ele que a conta — está no seu livro Vivir. O jovem rei, com desejo de aprender, convocou os sábios do reino, encarregando-os de lhe trazerem um resumo da sabedoria humana. Passados trinta anos, compareceram com doze camelos, carregando quinhentos volumes. O rei, já cinquentenário, lamentou já não ter tempo para lê-los: “Fazei uma edição abreviada”. Dez anos depois, bastaram três camelos, mas o rei, já sexagenário, sentia-se sem forças para tanta leitura e pediu uma versão mais curta. Outros dez anos de trabalho e um camelo apenas para transportar os volumes. O rei, porém, tinha a vista debilitada. Assim, mais cinco anos de trabalho, para reduzir a obra a um único volume. O rei, já no leito de morte, entristeceu-se profundamente: “Chegarei ao fim dos meus dias sem ter tido o gozo de aprender a história da caminhada humana?” Então, o mais velho dos sábios aproximou-se e sussurrou aos ouvidos do rei: “Majestade, pode-se reduzir tudo a três palavras: nascemos, sofremos e morremos.” O rei assentiu com um gesto e expirou. Recordo que Jesus também disse: “De que vale ao Homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma, a sua vida?”
Afinal, tanta vaidade oca! Ah!, tantos desastres pessoais, sociais, económicos..., se teriam evitado, se tivesse havido a graça do meditar em silêncio! E quem tem a responsabilidade de falar para ser ouvido não pode falar em ruído cacofónico a propósito e a despropósito de tudo e de nada. Também há o silêncio discreto, que evita os mexericos, a tagarelice vazia. As palavras criadoras, com autoridade, nascem do e no silêncio. Como escreveu o filósofo A. Comte-Sponville, precisamos do “silêncio do sábio, mesmo quando fala.”
E aí está o fundamento de todos os silêncios: o silêncio perante o Mistério Inefável, Deus, que transcende tudo quanto se possa pensar ou dizer dele: o Mistério do ser. O silêncio da surpresa avassaladora e inominável que nos visita. E vou ao encontro de Raul Solnado, que apenas encontrei uma vez. Num casamento. Surpreendeu-me a imagem que me ficou: a de um homem reflexivo. Deixou um pequeno escrito de uma profundidade surpreendente, com uma experiência, no silêncio, na Expo, em Lisboa, em 2007. “Numa das vezes que fui à Expo, em Lisboa, descobri, estranhamente, uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia ali qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que aquele espaço se tratava de um templo grandioso. Quase como um espanto, senti uma sensação que nunca sentira antes e, de repente, uma vontade de rezar não sei a quem ou a quê. Sentei-me num daqueles bancos, fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto. Tudo o que pensava só poderia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me envolvia no meu corpo amolecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz. Quando os meus olhos se abriram, aquele Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só Ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta, corri para a beira do rio para dar um grito de gratidão à minha alma, e sorri para o Universo. Aquela vírgula de tempo foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida e fez com que eu me reencontrasse. Resta-me a esperança de que, num tempo que seja breve, me volte a acontecer. Que esse meu Deus assim queira.”
É nele, na presença do “Deus desconhecido”, que vivemos sempre. Como São Paulo foi dizer no Areópago aos atenienses: “É nele, realmente, que vivemos, nos movemos, e existimos, ‘pois nós somos também da sua estirpe’.” Mas, distraídos, não damos por nada.
Quem não aprendeu a fazer silêncio e a ouvir o silêncio não aprendeu o essencial do viver nem experienciou o sentido último da vida. Mas não esquecer, mais uma vez, o que escreveu Juan Masiá: “São precisos anos para aprender a ouvir o silêncio.” E cito Teresa Bracinha Vieira: “O silêncio não tem corpo nem ocupa espaço. Não é pintado nos quadros, nem tocado na música. O silêncio não é o oposto do ruído, é muito mais... é um saber que se sente e se sabe e se não diz.”
Fica ainda, pedindo desculpa por isso, o silêncio de todos os silêncios ignorados ou esquecidos neste texto.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 8 de julho de 2023
Continuo com os silêncios que a vida requer na sua decência.
O silêncio respeitador. É o silêncio diante de alguém que está a dormir, a sofrer e sobretudo a morrer. Nunca esquecerei as palavras do cardeal P. Veuillot, arcebispo de Paris, que morreu jovem, aos padres: “Quando fordes ao hospital ver alguém, não vades com discursos na tentativa de uma conversão..., não. Sentai-vos em silêncio e dai-lhes a mão.”
O silêncio sossegado. Numa praia serenamente deitados numa toalha sobre a areia, apanhando sol e embalados pelo rumor sereno das ondas do mar.
O silêncio cuidadoso. As mulheres são acusadas de terem dificuldade em estar caladas. Talvez isso provenha de um facto criado pela evolução, que deixou uma marca orgânico-cerebral (área de Broca). Os homens iam caçar e tinham de manter um silêncio cuidadoso para não espantar a caça enquanto as mulheres ficavam em casa e tinham de estimular os bebés para a fala.
O silêncio da preparação. São João Baptista preparou-se no deserto. Antes da vida pública, Jesus também foi para o deserto ouvir o silêncio e preparar-se para levar o Evangelho ao mundo. São Paulo fez o mesmo. Sócrates, o filósofo grego, escutava o seu daímon, a voz interior, a consciência...
O silêncio interrogativamente orante. Até Jesus sentiu esse silêncio. No extremo limite do sofrimento da cruz, rezou: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?” Mas, aparentemente, Deus manteve-se em silêncio. Perante tantos horrores ao longo da História — um exemplo de agora: aquela guerra da Ucrânia e os gritos das mães e das crianças e do desabar de aldeias e cidades —, o impenetrável silêncio de Deus deixa-nos em silêncio, numa oração em silêncio, porque, como me disse uma vez Eduardo Lourenço, cuja centenário estamos a celebrar: “Não se admire. Todos os homens rezam.” Cá está: de um lado, o misterioso silêncio de Deus e do nosso lado, o silêncio da interrogação orante.
O silêncio da advertência. Ao saber que Jesus era galileu, da jurisdição de Herodes, “Pilatos enviou-o a Herodes, que também se encontrava em Jerusalém nesses dias. Ao ver Jesus, Herodes ficou extremamente satisfeito, pois havia bastante tempo que o queria ver, devido ao que ouvia dizer dele, esperando que fizesse algum milagre na sua presença. Fez-lhe muitas perguntas, mas Ele nada respondeu. Os sumos sacerdotes e os doutores da Lei, que lá estavam, acusavam-no com veemência. Herodes, com os seus oficiais, tratou-o com desprezo e, por troça, mandou-o cobrir com uma capa vistosa, enviando-o de novo a Pilatos. Nesse dia, Herodes e Pilatos ficaram amigos, pois eram inimigos um do outro.” Jesus não respondeu, manteve silêncio, pois Herodes não estava interessado no que Jesus tinha realmente para lhe dizer. Há situações nas quais é preferível não responder, na esperança de que a pessoa atingida reflicta...
O silêncio comovedoramente comovido de uma multidão a acenar os lenços da despedida em Fátima...
B.3. Há os silêncios da exultação.
Quando ouvimos uma grande orquestra, fazemo-lo em silêncio. Um silêncio exultante: a música é o divino no mundo. Aconteceu-me várias vezes, mas sobretudo uma vez, quando ouvi a Nona Sinfonia de Beethoven pela Orquestra Filarmónica de Berlim. Quando saí, continuei num silêncio exultante, incapaz de falar. Quando visito um grande museu, vou contemplando em silêncio, vagarosamente absorvido por tudo quanto ali me fala ao mais fundo de mim em silêncio, e, no final, ao sair, é como se despertasse tendo voltado ao quotidiano, ao tempo e ao espaço profano (no sentido etimológico de profanum: diante do sagrado).
O silêncio avassalador. Aí está o silêncio avassalador do cosmos, que, segundo os pitagóricos, é uma gigantesca sinfonia para a qual não temos ouvidos. Ah! O silêncio do céu estrelado! Ah! e o do pôr-do-sol no mar! Momentos, daqueles sobre os quais disse Goethe: “Pára, és tão belo!”, a eternidade no tempo. Ah! E o silêncio estrondoso de uma grande biblioteca em silêncio solene... Ah! e o silêncio do amor e no amor...
C. Urgência da cultura da pausa e do silêncio. Trata-se do silêncio essencial. Já Pascal se queixava: “Toda a desgraça dos homens provém de uma só coisa, que é não serem capazes de permanecer em repouso num quarto.” Hoje é pior. Concretamente, numa sociedade como a nossa, quando predomina o barulho infernal — assembleias, televisões, comentários de comentários, todos a falar e ninguém a ouvir —, a vertigem da corrida, do stress e do atropelo numa confusão de imagens e da fúria consumista, na pura imediatidade, exterioridade e esquecimento de si, no dedar constante em busca da última novidade, da vertigem da banalidade, do parecer e do aparecer, é urgente fazer o elogio do silêncio, para ouvir a voz da consciência, fazer apelo à cultura da pausa, para não perder o essencial, para dar conta do milagre que é viver e não se afundar na dispersão de si e na insensatez sem fim. Para se viver e não ser pura e simplesmente vivido.
No meio do ruído infernal, chama-se cultura da pausa, como diz o jesuíta Juan Masiá, à tradição oriental de dar importância aos silêncios numa conversa, às margens numa folha escrita ou num quadro, aos intervalos entre as palavras, aos vazios nas letras, aos espaços livres na arquitectura, ao não dito na mensagem, à receptividade na contemplação. Parar, para ouvir o silêncio e contemplar. (Continua).
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 1 de julho de 2023
Numa conferência sobre o silêncio, comecei por pedir um minuto de silêncio. E em silêncio perguntei-me como é que os participantes — este, aquela — terão ocupado esse minuto. A pergunta coloca-se aliás em relação a todos os minutos de silêncio pedidos em diversas circunstâncias. Sim, como se ocupa esse minuto de silêncio? Evidentemente, vai depender também das circunstâncias e de quem pede esse minuto.
Afinal — e isso é decisivo —, há muitos tipos de silêncio. Logo de início, é essencial entender que há os maus silêncios, alguns abomináveis, que é preciso exorcizar; depois, aqueles que a vida nos traz: uns impostos por situações dramáticas, outros, silêncios da decência humana, outros ainda, silêncios abençoados,, que nos vêm ao encontro na exultação da vida; impõe-se, em terceiro lugar, reflectir sobre uma cultura da pausa e do silêncio e ouvir o silêncio, se quisermos ser verdadeiramente humanos e não perder o essencial.
A. Comecemos pelos primeiros, os maus silêncios. Só exemplos.
O silêncio faltosoou mesmo pecador. Quando, na confissão, as pessoas me pediram ou pedem para fazer perguntas, a única pergunta que fiz ou faço é: “Há alguém com quem não fala?”. Negar a palavra a alguém, ao menos uma saudação, um “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, é uma forma de agressão. Tradicionalmente, até se usava uma expressão bela: para saudação, dizia-se “salvar” alguém, de tal modo que a pessoa que não foi saudada sentia-se tão magoada que dizia ou diz: “Imagine: nem me deu a salvação, essa pessoa não me salva”, e isso equivale a: “trata-me como se eu fosse um ninguém”.
Como é uma falta não pegar ao menos no telefone e dirigir uma palavra de saudação, de conforto, de solidariedade, a alguém que está na solidão, uma solidão que pode ser mortal. Como é mortal o silêncio que “ouvimos” num restaurante, por exemplo, com pais e filhos todos a dedar e sem uma palavra entre eles...
O silêncio mortalmente cobarde. Tantos que deviam uma palavra de explicação para o mal feito, mas abotoam-se no silêncio. A todos os níveis. Nem uma palavra de desculpa... E era obrigatório denunciar as injustiças, repor a verdade, mas isso não foi, não é, feito por medo e cobardia..., silêncio criminoso. Que dizer do silêncio e do encobrimento dos abusos sexuais do clero...
O silêncio indelicado, egoísta. Não houve, não há, uma palavra de gratidão por um favor, uma atenção, uma delicadeza. Por ocasião de uma festa, num aniversário, no meio de um pesar, pessoal ou familiar, não há a lembrança de uma palavra.
O silêncio amuado. O miúdo ou até já não miúdo, que amua, senta-se a um canto em silêncio torcido.
O silêncio manhoso. Alguém poderia obter uma vantagem para a sua vida. Isso não aconteceu, por causa do silêncio invejoso de alguém.
O silêncio irresponsável. Pessoas caíram na vida, porque alguém fez silêncio, não avisou.
O silêncio ignorante. Alguém devia responder, saber para formar, mas não responde, não forma, porque não sabe, é culpadamente ignorante.
B.1. Passamos aos silêncio que a vida traz, na sua dramaticidade.
O silêncio aterrado. Perante a iminência de um desastre brutal e inevitável..., a acontecer, não há tempo para palavras, fica-se em silêncio. Estava com uns amigos, quando surgiu a notícia: em França, um homem atacou com uma faca quatro crianças. Ficámos estarrecidos, em silêncio, não há palavras...
O silêncio recolhido. Perante a morte, sobretudo inesperada, de alguém muito, muito querido, muito querida..., no encontro com familiares e amigos, só restam um abraço, muito, muito apertadamente afectuoso, e um rosto em lágrimas. Na morte, somos remetidos para o silêncio, o silêncio que ela mesma constitui — o que dizemos exactamente, quando dizemos que alguém morreu? E aí está, do seu lado e do nosso lado, o silêncio fundo, misterioso, inabarcável, de um cemitério. O cemitério está num silêncio sepulcral e toda a nossa tagarelice, mesmo quando se é “uma picareta falante”, cai no silêncio.
O silêncio de chumbo. Perante certas catástrofes e alguns funerais, faz-se “um silêncio de chumbo”.
B.2. Silêncios que a vida requer na sua decência.
O silêncio imposto. Uma autoridade (o pai, a mãe, um professor...) manda calar e faz-se imperativamente silêncio.
O silêncio obrigatório. O segredo da confissão, por exemplo, é inviolável e tem de ser mantido em silêncio. Também há o segredo de justiça. A propósito: a quantas pessoas confiaria um segredo?
O silêncio secreto. Ai! Se tantos silêncios apenas balbuciados por cada um, cada uma saíssem do silêncio!...
O duplo silêncio da admiração positiva. No mausoléu de Immanuel Kant na antiga Königsberg, Prússia oriental, actual Kaliningrado, um enclave russo, encontra-se uma placa com o seu texto célebre, que diz o duplo silêncio: o silêncio admirativo e o silêncio imperativo da consciência que grita: “Duas coisas enchem o ânimo de uma admiração e de uma veneração sempre novas e crescentes quanto mais frequentemente e com maior persistência delas se ocupa a reflexão: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim.”
O silêncio do espanto perturbado. Afirmando-se o ser humano animal racional, o que dizer perante o aumento crescente de armamento, incluindo o nuclear, de tal modo que a Humanidade corre cada vez mais o risco de pôr fim a si própria, num suicídio colectivo?
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 24 de junho de 2023
1. Há perguntas ingénuas que parece quase tocarem o ridículo. No entanto, são das mais interessantes.
Exemplos: Onde começa um ser humano? Começar, não apenas no sentido cronológico, mas quase diria topográfico... Em que instante começou um ser humano? Aliás, a pergunta do início é similar à do fim: Que instante é esse em que um ser humano deixa, pela morte, de pertencer a este mundo e ao tempo? No tal sentido quase topográfico, a pergunta poderia assumir a seguinte formulação: O que é que um ser humano vê, quando olha, não os olhos, mas o olhar de alguém? Hegel disse que vê o abismo do mundo. Se estivermos atentos, é isso: quando dois olhares se olham no olhar contemplam o abismo do mundo e o seu mistério.
A pergunta pode explicitar-se, perguntando: O que é que está por detrás e no íntimo e no fundo do que se vê? O que é o invisível do visível? Ou então: O que é que o visível torna visível? Melhor: O que é que o visível, precisamente ao mostrar, esconde? O que é que está na raiz do que vem à luz, do que se manifesta?
Onde é que radica qualquer pergunta digna desse nome senão aí onde habita o imostrável, mas precisamente para mostrá-lo enquanto imostrável? O que é que um rosto mostra senão alguém que está a vir à janela de si próprio, ocultando-se?
Afinal, o que vem à luz acende-se na noite... E as nossas palavras, onde é que se acendem também senão precisamente na noite do Silêncio? Mas há o silêncio morto e vazio, e o Silêncio habitado, que fala. E ouvir o Silêncio que fala não é o que propriamente se deveria chamar oração?
Quando não se ouve o Silêncio que fala, as nossas tempestades de palavras não passam de verborreia e barulho caótico, ensurdecedor. De facto, quem não bebe na fonte do Silêncio que fala, o que é que diz, quando fala? Não quero apontar para os parlamentos...
Não será precisamente porque já não há tempo para ouvir o Silêncio que os pais pouco ou nada têm a dizer aos filhos, que a palavra dos professores anda gasta e murcha, que os padres proferem palavras engasgadas e mortas, que a vida pública se vai tornando pura poluição sonora?
2. De repente, tropecei no título da rádio TSF: Como se visse o invisível. É isso: o ser humano anda distraído, mas pode acontecer que subitamente se dê conta. Aliás, o homem é homem, diferente do animal, precisamente porque não vive estando aí pura e simplesmente, mas se dá conta de que vive, reflecte sobre as coisas, sobre a existência, sobre si próprio.
Como se visse o invisível... Afinal, como é? Trata-se de um simples "como se" ou vê-se mesmo o invisível? E se se vê, que invisível é esse? E como é que se vê o que é invisível? E esse ver é privilégio de alguns ou todos podem vê-lo? Ou acontece até que todos o vêem, simplesmente não se dão conta disso?
Quem ouve como se visse o invisível não espera ouvir dizer que alguém viu Nossa Senhora ou bruxas ou o diabo ou um anjo aí numa esquina qualquer, numa igreja, numa esplanada, no cimo de um monte... Mas então quem fala em Como se vissse o invisível o que é que viu de especial para ousar falar do invisível, como se o tivesse realmente visto? Afinal, o que é que ele ou ela viu ou vê?
Quando não andamos completamente distraídos, sabemos que vemos sempre mais do que aquilo que julgamos ver, ouvimos sempre mais do que pensamos ouvir, pensamos sempre mais do que pensamos. Toda a experiência é sempre experiência com experiências. Seja qual for a esperiência, sabemos dela, de nós e das condições de possibilidade do experienciar. Quando vemos algo, não vemos apenas esse algo que estamos a ver, pois vemo-nos também a nós que estamos a ver, embora não tenhamos imediatamente consciência disso. Por outro lado, por mais que vejamos de nós, nunca nos vemos completamente: somos sempre mais do que vemos de nós ou sabemos de nós. Nunca conseguimos ir até ao fundo de nós, tornar-nos completamente transparentes a nós próprios.
O olho vê o que vê, mas nunca se vê a si mesmo; sabemos, no entanto, que está lá. Como dizem os Vedas, livros sagrados dos Hindus, "o que vê não pode ser visto; o que ouve não pode ser ouvido; e o que pensa não pode ser pensado". O mais fundo de nós nunca pode vir à consciência, é, por sua própria natureza, invisível. Quando demos por nós já lá estávamos, e a existência nunca pode ser reflectida adequadamente nem tornar-se plenamente consciente de si própria. Assim, quando nos vemos é sempre com o invisível que contactamos.
Antes da execução, aos condenados à morte vendam-lhes os olhos, porque o olhar da vítima é intolerável. Afinal, quando vemos alguém no olhar o que é que vemos senão o invisível na sua visibilidade, mas precisamente de tal modo que permanece invisível? Uma pessoa no seu corpo, melhor, um corpo pessoal não é simplesmente uma estrutura fisiológica visível: ninguém faz amor com uma estrutura orgânica visível, mas ama-se uma pessoa na sua invisibilidade palpável e visível. Um corpo humano é uma "alma" visível e vista, cheirada, palpável...
Quando olhamos para o mundo com olhos de ver é sempre com o invisível visível que entramos em contacto. A realidade toda é a visita do invisível. Na raiz de tudo está um mistério que se diz, que vem à luz, mas que ao mesmo tempo continua velado e sem se ver: vê-se precisamente como invisível.
Como se visse o invisível: apontamentos para chamar a atenção para o mistério do ser, para a dignidade de ser homem, para a justiça, para a religação última à fonte invisível de tudo o que se vê...
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 20 de novembro de 2021
E estar velho é sentir que se vive uma intensidade do saber e do não-saber para o qual se deseja tempo e ar puro na Natureza e nas ideias e em todos os convívios dos afetos em consciência comum da missão do amor
e estar velho é desejar o vento das tardes, o das casas, o do mar, o dos pássaros e que o cavalo de madeira seja agora de carne e de conclusão em vida do sonho que transportou
e estar velho é sentir que esta pandemia nos faz ficar no defeso, como sítio de folhas sem retorno onde se demora a claridade e apressa o desconhecimento aos nossos espelhos
e se estar velho é não aceitar este tempo assalariado de uma existência rígida, espaço intercalar e jamais, jamais paisagem, quando nunca nos bastou o ver e o rever
então sistematizemos os dados destes excessos de visões mínimas que nos fixam irónicas e eis
como até vivemos numa desordem de muitas inexistências e só não somos antipoéticos porque enviamos barcos uns aos outros numa antevisão órfica
nós
o bloco dos dissidentes robustos contra as formigas que afinal nos devolvem Camões a um outro destino
quando o silêncio é o imenso pio qual nova proposta da vida
turmalina
que só pertence a uma ave que o esclarece e nos visita.
Caminhar e meditar em silêncio são exercícios de resistência. O inverso do espírito de competição, num tempo dominado pelo ruído, em que a filosofia de vida predominante é a do mundo de negócios. Caminhar e meditar em silêncio é terapêutico. Uma cura, um remédio, um ansiolítico natural que recompensa. É viajar com a mente, pensando enquanto se caminha. Trabalhar com a mente, enquanto se anda a pé. Viver o corpo, enquanto se caminha e medita. A mente a trabalhar e a cooperar com as pernas. É humanizar a vida. Simbolicamente é uma aventura, um passeio palpável e intangível, uma experiência de aprendizagem, cognitiva e de procura do silêncio, desfrutando-o. O nosso mundo mais próximo, que nos rodeia, é apreciado, explorado e festejado. Abrimos os olhos e achamos a beleza onde não diríamos estar. É respirar e sentir a paz. Dialogar com o tempo e o espaço. Ter paciência, sem pressa, pois o mal da pressa apressa tudo. Arrumam-se ideias, obrigações, compromissos, conhece-se o pormenor do percurso, o nome das ruas e seus desvios. É passear ao longo da praia, apreciada e sentida de manhã cedo, ouvindo o oceano, molhando os pés, apanhando conchas, vendo as gaivotas e o mar a enrolar na areia. Saboreia-se e disfruta-se a natureza. Degustamos a memória do tempo passado, o presente das coisas, a espera e o sonho das coisas futuras. Purifica-nos a contemplação e o sentir do silêncio que nos falta. Interrogamo-nos sobre nós próprios e os outros. Sensibilizam-nos pormenores da paisagem que usualmente não vemos. Ocioso, para muitos, apoiando-se na teoria de vida dominante, que concebe a existência como uma luta, na qual só é devido respeito ao vencedor. Vive-se o corpo e a mente, cada um está mais perto de si, dada a intimidade, introspeção e concentração do caminhar e meditar em silêncio, sociabilizando mentalmente com outros. Um prazer físico, espiritual, frugal e tranquilo.