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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


242. IGUALDADE E SINGULARIDADE


O espírito da democracia, a vida e a morte, assentam em dois princípios: de igualdade e de singularidade.   

Somos todos iguais no que respeita à natureza e dignidade comum do ser humano, não havendo seres humanos diferentes em matéria de dignidade e de direitos e obrigação de deveres, mas somos todos diferentes nas nossas caraterísticas pessoais, na singularidade de cada um e na diferença irredutível com todos.

Contudo, porque há desigualdade factual ou de facto (física, económica, de género, geográfica, social, etc), importa que se estabeleçam ou restabeleçam as condições e oportunidades que possibilitem a todos usufruir dos mesmos direitos e cumprir os mesmos deveres. 

Sem esquecer que deve haver tratamento igual de situações iguais e tratamento desigual de situações desiguais, bem como tratamento das situações não apenas como existem, mas também como devem existir, rumo a uma verdadeira igualdade através da lei.   

Esta dualidade de princípios ganha força perante a efemeridade da vida, pela inevitabilidade da morte e a não infalibilidade da democracia.   

Quando a morte é iminente e a democracia precária, porque mais intensas e imediatamente sentidas, cada singularidade de vida é mais única e impagável, ao contrário do sentimento comum “de que não morremos” ou de que a democracia não está ameaçada.   

O sentimento de imortalidade quotidiana é inversamente proporcional ao envelhecimento pois, com ele, o valor da vida vai-se anulando gradualmente, dado que quando somos jovens persiste a ilusão de sermos “imortais”.   

Perante a precariedade da vida e a certeza da morte, vem ao de cima o princípio da igualdade, segundo o qual todos morremos e temos um destino comum, ao mesmo tempo que se afirma a singularidade de quem morre e do ser vivo que foi antes, articulando-se ambos os princípios, neles se alicerçando a génese pluralista da democracia.  


09.01.26
Joaquim M. M. Patrício

EM BUSCA DE IDEIAS CONTEMPORÂNEAS

Folhetim de Verão - Capítulo 24

folhetim 24.jpg

 

UM PROCESSO DE VAI-E-VEM…

 

Michael Walzer tem uma atitude inconformista e insiste na afirmação da necessidade de ligar o valor da singularidade e da autonomia individual com a ideia de solidariedade voluntária. Neste sentido, escreveu: “o conflito agudo que existe hoje na vida dos Estados Unidos tem a ver com o multiculturalismo contra a hegemonia da singularidade, do mesmo modo que poderia ser do pluralismo contra unidade ou de muitos contra um, e ainda do conjunto dos grupos contra o conjunto dos indivíduos, das comunidades contra o público privado. Neste conflito não podemos tomar partido por qualquer outro lado que não seja o de afirmar a legitimidade dos dois antagonismos. Estes dois pluralismos levam os Estados Unidos tal como são (ou pelo menos como hoje são) a dar o exemplo como deveriam ser. No conjunto, mas apenas no conjunto, são perfeitamente compatíveis com a cidadania comum democrática” (Dissent, Spring 1994).

Eis o ponto forte do pensador: a concretização do pluralismo e a salvaguarda da diversidade. Com efeito, as sociedades contemporâneas necessitam de singularidade e interdependência, até para garantia da coesão. Assim, Walzer reclama a renovação da vida associativa como pedra de toque da cidadania, numa sociedade em mudança. Nestes exatos termos, exprime um misto de crítica e de simpatia relativamente às atitudes comunitárias e liberais. Mas a necessidade de uma catalogação torna-se vã quando o que está em causa é a compreensão da diversidade e da complexidade. Um equilíbrio deve ser estabelecido entre instituições políticas, nas quais a separação de poderes seja respeitada e o sistema de freios e contrapesos da democracia siga o pensamento de Montesquieu.

Cada cidadão está colocado em diversas esferas de pertença, o que tem repercussões nas relações interculturais e na distribuição de bens aptos a satisfazer necessidades. Estamos, assim, perante questões diversas como as relativas à descentralização e ao associativismo (ou a subsidiariedade) que conduzem a uma dupla aceitação do pluralismo, no que respeita aos elos de pertença dos indivíduos e dos grupos. Nesta perspetiva, a noção de solidariedade (na lógica sequência da liberdade, da autonomia individual e da responsabilidade) ganha um novo sentido orientado pela “justiça complexa” enriquecida pelo pluralismo. No momento em que a exclusão toma um lugar perturbador na representatividade dos movimentos sociais ativos, torna-se fácil a compreensão da importância deste tema. O pensador contesta, porém, que cada um possa ter uma conceção incontestável de universalismo, propondo a descrição de experiências concretas de compreensão dos valores universais em diversas culturas.

Um valor ou um princípio deveria ser pensado por cada cultura para ter consistência segundo a experiência própria, para responder ao dilema entre o único e o uniforme, e o relativismo, em coerência com a cidadania comum e a diversidade cultural. Isto leva-nos ao coração das relações entre ética e política. O pluralismo exige a investigação dos valores comuns e dos interesses, e isso torna tudo mais importante, uma vez que a solidariedade requer a vontade comum dos cidadãos livres e iguais, partilhando responsabilidades civis. Isto é o que Walzer designa como “Social-democracia”, que é a regulação pública dos interesses conflituais dos indivíduos e dos grupos. Quem se esquecer dos dois lados cai numa cegueira ignorante e inútil.

O pensamento que Walzer defende está ligado à preservação do particular, com respeito do lugar, da vizinhança e do pluralismo. Deste modo, o liberalismo que M. Walzer defende associa formalmente as virtudes da separação e da partilha. A diferença reside na autonomia de diversas esferas de ação assente na ideia de respeito por todos e por cada um. Assim, chegamos ao pluralismo pela empatia e pela identificação. O universalismo dos valores éticos deve corresponder a um movimento incessante de vai-e-vem entre os grandes princípios e a sua diversidade.

 

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Playtime de Jacques Tati, Uniformidade e Singularidade.


Em arquitetura, a forma certa responde a um significado preciso e único. Para um significado existe uma única e irrepetível forma. E o comportamento das pessoas ao interagir com essa forma da arquitetura é que afinal conta, em defesa do indivíduo, que não se automatiza e que continua livre.


«What I’ve been trying to show is that the whole world is funny (...) comedy belongs to everybody.» (Malcolm Turvey, 2020, p. 62)


Hulot representa o indivíduo em ‘polémica’ com a sociedade estabelecida - não é apenas um visionário isolado do mundo. Hulot reforma sem destruir, sem quebrar a evolução natural da sociedade.


Na era da máquina o trabalho manual deixou de estar no centro de tudo, deixou de estar totalmente envolvido com o material. Tati, mostra que a arquitetura deixou de ser a revelação de um espírito, porque quando assim é, revela-se sempre imperfeita incompleta, impura e expressiva. No livro PlayTime. Jacques Tati and Comedic Modernism (2020), de Malcolm Turvey, lê-se que no filme Playtime, só o erro traz individualidade ao Royal Garden e a humanização, naquele espaço acontece assim que o chão se descola ou assim que Hulot tenta apanhar a laranja que está colada ao teto... A irregularidade, a incorreção, o amor pela alteração, pela imaginação confusa, o excesso e a redundância, a mistura das partes e a união do todo, só se conseguem a partir desse momento, no filme, naquele pequeno espaço da festa no Royal Garden.


Por toda a cidade, de Playtime, o corpo está ausente, existem só reflexos na arquitetura de vidro. Na cidade de Playtime, tal como para Walter Gropius «o espaço da arquitetura não é nada em si; é uma pura, inclassificável e ilimitada extensão» (G.C. Argan, 1992, p.273). O edifício já não é uma massa plástica, mas sim uma construção geométrica de planos transparentes no espaço.


Tati não critica o movimento moderno, critica sim a rapidez das transformações no mundo moderno e a forma absurda que a arquitetura pode tomar assim que uma linguagem (qualquer) é esvaziada de significado. Talvez a personagem de Hulot em Mon Oncle e em Playtime tente dar de novo significado à arquitetura. Tente dar de novo autonomia à expressão individual, pura e livre. Talvez despoletado não por uma intenção meramente pessoal, mas por uma intenção muito maior, relacionada com a necessidade de perseguir a vida com mais alegria, poesia e compaixão (porque se todos estivermos atentos e disponíveis estes propósitos podem ser encontrados a todo o tempo e em qualquer parte). Naquele bocado de espaço do Royal Garden, estabelece-se dentro daquele espaço (que é expressão subjetiva da vontade do tempo e do ser humano) de repente uma festa paralela dentro de um espaço irregular (formado pelo acaso, não planeado, sujo, partido, pequeno...).


No filme Playtime, todo o ambiente urbano se organiza sem erro e sem nódoa. Tudo e todos reagem como autómatos - em movimentos repetidos e iguais. Não se distinguem tipologias arquitetónicas - o aeroporto, o hotel, o escritório, a loja e a casa. Tudo se parece. O dentro e o fora misturam-se. O espaço privado e o espaço público confundem-se. Caixas de vidro aparecem dentro de caixas de vidro.


E por isso, as outras dimensões da vida são introduzidas através da imperfeição - talvez a  verdadeira vida só aconteça por entre aquilo que é automático.


Neste ambiente, Hulot não consegue ser rápido e eficaz em controlar até os seus próprios movimentos. Playtime deixa transparecer a necessidade de um profundo espírito, individual e livre, que deve estar constantemente por trás de tudo o que é criado (por mais insignificante que a criação seja). O ideal de beleza que só aceita o rápido, o perfeito, a síntese, a repetição, a precisão, a uniformização e a passividade deve ser substituído por uma vontade de dar forma que aceita as imperfeições, a problemática, a irregularidade, a demora, a hesitação, a singularidade e a participação de todos os indivíduos, sem exceção. Porque a criação não é uma habilidade superior, nem inatingível. É uma capacidade humana que se encontra em todo o fazer desde o trabalho mais moroso ao mais minúsculo e ínfimo.


Tati não procura evocar uma forma de arquitetura nostálgica mas antes uma arquitetura mais humana. As imperfeições são difíceis de aceitar e o modernismo cómico manifesta-se através de imperfeições, enganos (um aeroporto que parece um hospital, um edifício que se parece com o aparelho radiofónico).


«What I condemn in the ‘new’ life is precisely the disappearance of any respect for the individual», Jacques Tati (Malcolm Turvey, 2020, p.55)

 

Ana Ruepp