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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

OS TEATROS ROMANOS EM PORTUGAL

 

O “Público” e a editora “Tinta da China” publicaram 25 volumes, série intitulada “Portugal, um Retrospetiva”, dirigida por Rui Tavares e reunindo dezenas de autores, que analisam, numa visão retrospetiva, a evolução histórico-cultural do país abordada precisamente a partir do ano corrente (vol. 1) até ao ano 500 a.C.

 

Trata-se efetivamente de uma História factual e cultural da evolução na perspetiva do significado histórico, insista-se, mas no seu conjunto prospetivo da evolução do país e da especifidade da sua cultura. E é de assinalar a homogeneidade e coerência alcançada num programa que reúne, insista-se, dezenas de autores.

 

Ora, no que respeita às origens do teatro português - e não hesitamos em assim designar o temário numa época em que Portugal, como país independente, estava longe – assinala-se o estudo de Lídia Fernandes, autora do volume 24, sobre a criação e prática de teatro a partir a do ano de 57 d. C. na Lusitânia, e designadamente na “Felicias Iulia Olissipo”, origem da atual cidade de Lisboa. E é oportuno lembrar que o Teatro Romano ainda hoje constitui um espaço de produção de espetáculos de teatro. (coleção citada, nº 24, novembro 2019).

 

Lídia Fernandes evoca os primeiros trabalhos de localização do Teatro Romano, que remontam a 1798. Hoje musealizado, o Teatro Romano de Lisboa documenta de forma eloquente uma atividade sociocultural que merece o maior destaque.

 

E nesse aspeto, o estudo de Lídia Fernandes complementa de forma eloquente o que se sabe, e como se sabe, da tradição de espetáculo nas origens da cidade de Lisboa. Sem entrar em pormenores, há que referir designadamente alguns aspetos que merecem ampla consideração. E desde logo, a circunstância de que haverá, no prolongamento das obras de recuperação, muito ainda a recuperar.

 

Sem entrar em detalhes, evocamos aqui alguns aspetos desenvolvidos no estudo de Lídia Fernandes. Designadamente, e não entramos em pormenores, o que hoje se pode documentar é a própria dimensão do teatro no seu conjunto, e designadamente nas obras de recuperação e de renovação, ocorridas a partir do ano de 57 d. C., ano em que Nero impulsionou em Roma a atividade cultural, mas através de um anfiteatro de madeira.

 

Ora, “em Felicitas Iulia Olissipo o teatro sofria importantes obras de renovação precisamente nesse mesmo ano”. E mais acrescenta que “o ofertante das obras de renovação do teatro era um liberto, ele próprio concedendo a liberdade aos seus escravos, provavelmente na mesma ocasião em que inaugura a obra do monumento cénico”.

 

E só mais uma referência, esta de um livro da minha autoria.

 

Efetivamente, em “Teatros de Portugal” (2006), numa breve referência, assinalo que “o Teatro, datável da era de Augusto mas remodelado no tempo de Nero (século I) foi metodicamente vandalizado para aproveitamento da materiais na reconstrução da Baixa Pombalina. E só a partir dos anos 60 do século passado e mesmo assim com interrupções se procedeu à recuperação possível”...

 

DUARTE IVO CRUZ

JORGE DE SENA NA EXPOSIÇÃO DA BNP

Jorge de Sena - Epígrafe para a arte de roubar.jp

 

Encerramos, pelo menos para já, estas evocações da vida e obra de Jorge de Sena, para referir a exposição muito recentemente inaugurada na Biblioteca Nacional de Portugal. Intitulada “Jorge de Sena ­- As Máscaras do Poder”, constitui uma muito interessante mostra evocativa do escritor, que completa um século sobre o nascimento (1919), como aqui referimos e analisamos nos artigos anteriores.

 

Na documentação distribuída destaca-se um texto da autoria de Isabel de Sena, o qual contém como que uma síntese relevante da vida e obra do escritor homenageado.

 

No que respeita ao teatro, Isabel de Sena evoca a vasta obra e refere a visão erudita contida em numerosos textos e em especial no livro intitulado “Do Teatro em Portugal”. Cita “O Indesejado”, “Mater Imperialis” e “Amparo de Mãe”.

 

E nesse aspeto, destacamos, especificamente, na exposição, cadernos contendo textos e referências tanto a obras diversas de Sena como a peças e mais referências de outros escritores, bem como a espetáculos e produções diversas.

 

Destacamos designadamente manuscritos, cadernos contendo textos dramatúrgicos e/ou de analise, estratos de diários, traduções e sucessivas edições.

 

Isto, além de cadernos com diversas peças de teatro, correspondência que também as refere, além de livros sobre teatro, sobre cinema e especificamente sobre espetáculos.

 

Nesse aspeto, Isabel de Sena evoca a recolha de textos “Sobre Cinema”, assim expressamente intitulada.

 

Mas a exposição comporta ainda numerosos documentos e correspondência que indica títulos ou esboços de expressão teatral, incluindo os que não foram produzidos.

 

E no que respeita designadamente à correspondência, encontramos cartas enviadas e/ou recebidas de nomes referenciais da cultura portuguesa. Citamos nesse aspeto as cartas de e para Sophia de Mello Breyner Andresen e Francisco Sousa Tavares.

 

E registe-se ainda que na sessão de inauguração na BNP foram distribuídas reproduções de dois poemas manuscritos. Citamos então a denominada “Epígrafe para a Arte de Furtar”:

 

“Roubaram-se Deus/ outros o Diabo/ - quem cantarei?
Roubaram-me a Pátria /a humanidade /outros ma roubaram/ -quem cantarei?
Sempre há quem roube/ quem eu deseje;/ E de mim mesmo/ todos me roubaram/ - quem cantarei?
Roubaram-me a voz/ quando me calo,/ ou o silêncio/ mesmo se falo. /- Aqui del-Rei!!”

 

E mais: foi também distribuída a reprodução de uma composição musical de Jorge de Sena sobre poema de Fernando Pessoa “Sobre Velha Música” datado de 1938-1939.

 

O que documenta o mais amplo criacionismo artístico do grande escritor!...

 

DUARTE IVO CRUZ

NOVA REFERÊNCIA A JORGE DE SENA


Retomamos a análise do teatro de Jorge de Sena, no centenário do seu nascimento, tal como assinalei no artigo anterior, citando hoje a análise que efetuei na “História do Teatro Português” sobretudo acerca da complementaridade  e continuidade entre o surrealismo e o classicismo da sua criação dramática.

 

E isto porque como já tenho aliás referido também em estudos diversos sobre o conjunto da obra teatral de Jorge de Sena, com eventual exceção do iniciático ato algo prematuro intitulado “Luto” (1938), nos 18 anos do autor, e na sequência desta iniciação aliás interessante, o que encontramos, na vasta dramaturgia de Sena, é uma modernização estética e linguística no conjunto vasto de peças que oportunamente analisámos no artigo anterior.

 

Merece pois desenvolvimento a referência à renovação que a obra dramática de Jorge de Sena, hoje de certo modo como tal esquecida, trouxe para o teatro português. E é novamente de assinalar o envolvimento percursor que já foi referido na sua ligação a certas expressões dramáticas de surrealismo e modernismo em geral.

 

Nesse aspeto, assinala-se a colaboração modernizante no movimento denominado Os Companheiros do Pátio das Comédias, no Teatro Experimental do Porto, e talvez mais do que isso, na adaptação/dramatização para o Rádio Clube Português de 13 romances policiais emitidos em 1948 num programa dirigido por António Pedro.

 

Cita-se o estudo de Eugénia Vasques precisamente intitulado “Jorge de Sena – Uma Ideia de Teatro” (Edições Cosmos – 1988), onde se  qualifica, e bem, “O Indesejado (António Rei)” como “um dos casos mais magistrais de individualidade criativa no quadro do teatro, anterior à introdução das coordenadas do teatro épico em Portugal”.

 

Esta referência é relevante pois documenta uma expressão modernizante e percursora da estética de criação teatral, atribuindo-a com justiça a um autor injustamente algo esquecido como dramaturgo.

 

E mais ainda: que marcou o teatro português tanto como autor, como inovador e produtor de espetáculos. O que muito o singulariza, e torna ainda mais injusto o relativo esquecimento que marca a sua intervenção no teatro.

 

E como bem vimos, se na intervenção de espetáculos a sua obra é menos marcante, a sua dramaturgia é de excelente qualidade/modernidade. Pois, como já referi, representa a mais completa continuidade entre classicismo e modernização, designadamente no surrealismo de muitos das peças.

 

Merece por isso maior destaque. Mas, como infelizmente acontece no teatro português, Jorge de Sena está algo esquecido como dramaturgo...!

 

DUARTE IVO CRUZ

O DRAMARTURGO JORGE DE SENA NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO

Jorge de Sena.jpeg

 

Aqui se invoca a criação e produção dramática de Jorge de Sena, no centenário do seu nascimento, referido numa vasta série de artigo de diversos estudiosos, publicados no jornal Público. E desde já se recorda que Sena, nascido em 1917, faleceu em 1978, decorridos então exatos 40 anos.

Foi, pois, uma morte prematura. Mas, prematura também foi a primeira criação dramatúrgica, chamemos-lhe assim, de Sena, a peça, “Luto”, escrita em 1938 numa linha realista-naturalista, tal como tivemos já ensejo de referir.

Assinale-se que Sena tinha então 18 anos e que na época o teatro português nem sempre marcava pela inovação: daí que tenhamos já sublinhado nesta peça uma “toada realista – naturalista” que de facto destaca-se no conjunto da obra dramática do autor.

Eugénia Vasques, num livro dedicado a Jorge de Sena, assinala uma série de projetos teatrais não concretizados ou pelo menos não publicados. Cita alguns títulos: “Luto”, “Origem”, “O Arcanjo e as Abóboras”, “Bazajeto e a Revolução”, “A Demolição”... em qualquer caso, assinala-se o  notável estudo dedicado ao autor e à sua vasta obra. (Eugénia Vasques, “Jorge de Sena: Uma ideia de Teatro”, ed. Babel 2015).

No que me diz respeito, dediquei ao teatro de Jorge de Sena uma referência desenvolvida na “História do Teatro Português” publicada em 2001 (ed Verbo): na altura própria retomarei a análise então efetuada. Mas entretanto, vejamos outras referencias e análises.     

Assim, como adiante se desenvolve, Luiz Francisco Rebello destaca certa influência do surrealismo subjacente à dramaturgia de Jorge de Sena. De certo modo, a linguagem implica como que uma modernização da expressão dramática, dentro dos condicionantes do próprio temário, por um lado, e da estética coerente com a expressão literária do autor, aqui obviamente condicionada pelo potencial cénico subjacente.

Nesse sentido, Luiz Francisco Rebello em “O Jogo dos Homens” (ed. Ática 1971) refere concretamente que o teatro de Jorge de Sena assume expressões que, citamos, “direta ou indiretamente se reconduzem à estética e à ética do surrealismo”. E mais acrescenta, agora em “O Teatro Simbolista e Modernista” (ed. ICP 1979), que esse grupo efetivou transição/modernização, pelo espetáculo, de obras e autores que, na potencialidade dos textos e na efetivação das encenações, marcaram uma à época bem significativa renovação do teatro em Portugal.

Não por acaso, o conjunto do teatro de Sena, se em certos títulos efetivamente reflete estéticas e expressões dramatúrgicas marcadas por certas opções, no seu conjunto e na coerência expressa ou implícita, assume uma constante de modernidade e inovação que marca dessa forma o teatro português.

Refira-se o conjunto dessa dramaturgia, tal como dela há noticia:

“Luto” (1938), “O Indesejado-António Rei” (1945), “Amparo de Mãe” (1948), “Ulisseia Adúltera” (1948), “A Morte do Papa” (1964), “O Império do Oriente” (1964), “O Banquete de Dionísios” (1969), “Epimeteu ou o Homem que Pensava Depois” (1971).

Retomaremos o tema sobretudo a partir da reanálise desta dramaturgia, que já desenvolvemos na “História do Teatro Português”.

Aí referiremos então as colaborações dramatúrgicas de Jorge de Sena na rádio, no Teatro Experimental do Porto e nos então denominados Companheiros do Pátio das Comédias.

E nesse sentido, retomaremos a análise abrangente do teatro de Jorge de Sena no ponto de vista da sua própria criação.

DUARTE IVO CRUZ

 

EVOCAÇÃO DE MARCELINO MESQUITA NO CENTENÁRIO DA SUA MORTE

 

Ocorre este ano o centenário da morte de Marcelino Mesquita (1856-1919). Importa lembrar que Marcelino nasceu no Cartaxo. Tivemos ensejo de questionar a oportunidade de alterar a designação do Centro Cultural do Cartaxo, inaugurado em 2005 e que já aqui referimos na análise da sua expressão arquitetónica e da respetiva atividade cultural.

 

Nesse sentido, referimos designadamente a tradição de espetáculo que antecedeu este edifício de cultura.

 

Assinalamos   a qualidade do projeto arquitetónico de Cristina Veríssimo e de Diogo Burnay. E é sempre de recordar que o Cartaxo tem uma certa tradição de centros de espetáculo cultural. Aquilo a que chamamos a geração dos cineteatros teve aí uma expressão interessante, com um Cineteatro Ribatejano inaugurado em 1947. Ora seria então de lembrar que no ano anterior celebravam-se 90 anos do nascimento de Marcelino: mais valera homenagear nessa altura o dramaturgo!

 

Há pois fortes razões para agora assinalar-se especificamente o centenário da morte de Marcelino Mesquita e justamente salientar o que significa a sua vasta obra teatral, num conjunto de dramas e comédias que conciliam a qualidade dramática com a heterogeneidade de estilos mas sobretudo com o sentido de espetáculo inerente.

 

Estamos à vontade para o referir. De 2006 a 2009, tivemos o gosto e o interesse de publicar na INCM quatro volumes de Teatro Completo de Marcelino Mesquita, antecedidos de um longo texto de pesquisa, organização e introdução da nossa autoria. E seja permitido este levantamento: um total de 28 peças de Marcelino Mesquita e um total de 1773 páginas dos quatro volumes da edição...

 

E também é interessante verificar onde estas peças (as que o foram) subiram à cena. Aí, o que conseguimos  confirmar foi o seguinte:

 

Teatro de D. Maria II – 7 peças.
Teatro D. Amélia (hoje Teatro São Luis) – 5 peças.
Teatro do Príncipe Real (hoje desaparecido) –uma peça.
As restantes não foram na época representadas – e muitas delas até hoje...

 

Ora bem: seja-nos permitido transcrever uma carta de Marcelino Mesquita, que localizamos no arquivo do Teatro Nacional de D. Maria II quando fizemos as pesquisas para a edição do Teatro Completo acima referida.

 

A carta é dirigida ao Ministro da Instrução, datada de 8 de junho de 1918, rigorosamente um ano antes da morte de Marcelino, ocorrida em 7 de junho de 1919.


“Mataram o Teatro Nacional: as intrigas mesquinhas dos bastidores, as injustiças na valorização dos méritos, as proteções escandalosas, os desleixos de mando e de direção, as incompetências com força, as rivalidades, os ódios, os ciúmes, toda a farrapagem da vida teatral, dando a indisciplina absoluta, a desorganização extrema, a morte vergonhosa. Sendo assim, como é, a V. Ex.ª compete vincular o seu nome a uma grande obra. Não a de restaurar mas a de criar de novo o Teatro Português. Seria ingenuidade da minha parte querer ensinar a V. Exª. a ação poderosíssima que pode, num povo da nossa constituição e temperamento, da nossa falta de cultura, exercer um teatro sério, digno, elevado. Basta conhecer a ação dissolvente do teatro português, de há vinte anos para cá, na nossa classe média, para concluir que poderosa lição possa ser a sua, vista, ouvida, vivida, para um povo que ainda não lê e pensa pelo jornal”...

 

(cfr. Marcelino Mesquita “Teatro Completo” Pesquisa, organização e introdução de Duarte Ivo Cruz, vols. I a IV, ed. Imprensa Nacional – Casa da Moeda 2006/2009).

 

DUARTE IVO CRUZ

NOVAS EVOCAÇÕES E DESCRIÇÕES DO TEATRO DE SÃO CARLOS NOS SÉCULOS XVIII/XIX

 

Referimos hoje novamente o Teatro de São Carlos, por já diversas vezes aqui citado e agora evocado e descrito no âmbito de uma sessão organizada há dias pelo Centro Nacional de Cultura, onde precisamente tivemos o gosto de participar.

 

A intervenção fez-se a partir de referências e evocações históricas, estéticas mas também pessoais deste grande Teatro, notável em si mesmo pela qualidade arquitetónica e pela atividade que desde a inauguração, ocorrida em 3 de junho de 1793, até hoje mantém. Foi beneficiando de sucessivas alterações e melhoramentos, com destaque para o São Nobre inaugurado em 1796.

 

Isto, com períodos de maior ou menor atividade, com maiores ou menores ligações diretas à produção nacional de cultura e de espetáculo operístico mas não só, e sobretudo com uma tradição de qualidade que em tudo se concilia com a qualidade arquitetónica do edifício em si mesmo.

 

Colocando-nos numa perspetiva histórica, recordamos então que o Teatro de São Carlos se deve à traça do arquiteto José da Costa e Silva, o qual se terá inspirado no Teatro de São Carlos de Nápoles, esse destruído por um incêndio em 1816.  E vale a pena recordar que o mesmo arquiteto Costa e Silva é autor também do primeiro Teatro São João do Rio de Janeiro, inaugurado em 1813 e destruído por incêndio. Ficaram gravuras que evocam o nosso São Carlos.

 

Tivemos já ensejo de citar diversos textos descritivos do Teatro, produzidos e divulgados ao longo dos séculos. Aliás, o salão nobre é aberto ao público em 1796. Recordamos agora um documento datado de 1803 e assinado pelo futuro Dom João VI, então Príncipe Regente, o qual expressamente refere “o luzimento e esplendor a que se tem elevado a benefício do público e grandeza da minha Corte”, assim mesmo!...

 

Mas já três anos antes, em 1800, Carl Israel Ruders descreve com grandes elogios o Teatro de São Carlos: “de toda a parte se ouve muito bem. Na plateia há três coxias paralelas entre os bancos ficando assim a sala dividida em quatro separações, o que permite entrar e sair sem apertos”. Descreve com grandes elogios os camarotes “adornados exteriormente com belos arabescos e candelabros de cristal, colocados de maneira que o brilho da luz não tira a vista aos espetadores”.

 

E mais acrescenta Ruders que “os panos de boca, tanto o exterior como o interior, representam assuntos mitológicos. São bem pintados”.

 

Mas voltamos ao século XIX, seguindo o que citamos na “História do Teatro Português”. Assim, em 1820, o Marquês da Fronteira vê “pôr-se de pé sobre um dos bancos um jovem elegante pelas sua maneiras, duma fisionomia simpática e toilette apurada um pouco calvo apesar da pouca idade, o qual, pedindo silêncio aos que o rodeavam, disse A Liberdade   e recitou uma bela ode”...  Era nada menos do que Garrett!...

 

E recordamos ainda diversos escritores da época. Assim, António Feliciano de Castilho recorda as aclamações que saudaram a noticia do regresso da D. João VI do Brasil, anunciada no São Carlos em 27 de abril de 1821.  Eça, em “O Primo Basílio”, descreve “figuras obscenas” desenhadas com o charuto nas paredes à entrada da plateia.

 

E a partir dos primeiros anos do século XX o Teatro de São Carlos acolhe a estreia de dramaturgos como Alfredo Cortez com a “Zilda” ou António Ferro com o “Mar Alto”. Marcou assim certa modernização, passe o termo, do teatro português... 

 

Mas isso veremos mais tarde, pois voltaremos a esta evocação do Teatro de São Carlos.

 

DUARTE IVO CRUZ  

EVOCAÇÃO DE DIOGO FREITAS DO AMARAL DRAMATURGO


Seja-me permitida esta perspetiva pessoal na referência ao teatro de Diogo Freitas do Amaral, pelas razões que aqui se referem e que amplamente a justificam. Em outubro de 1958, iniciei estudos de Direito no primeiro curso da nova Faculdade na Cidade Universitária da Lisboa, nesse mesmo ano inaugurada. A distribuição de lugares era fixa e definida por ordem alfabética, com a particularidade de colocar nas duas primeiras filas as então poucas alunas.

 

E assim, o nome Duarte colocou-me precisamente ao lado de um colega que então não conhecida, e que vim a saber que se chamava Diogo.

 

Daí nasceu uma amizade profunda, que durou até à morte de Diogo Freitas do Amaral, ocorrida como sabemos no passado dia 3 de outubro. Foram pois mais de 60 anos. E amplamente justificou que eu tivesse o gosto de colaborar no livro intitulado precisamente “Em Homenagem ao Professor Doutor Diogo Freitas do Amaral” com um artigo que bem justifica esta referência: “Diogo Freitas do Amaral: Um Político Dramaturgo, um Dramaturgo Político” (comissão organizadora do livro - Augusto de Athayde, João Caupers e Maria da Glória F. P. D. Garcia, ed. Almedina 2010).

 

No meu texto assinala-se que Freitas do Amaral é autor de três peças de teatro, intituladas “O Magnífico Reitor” (1999), “Intervenção em África” (2001) e “Viriato” (2002). E como então escrevi, inscrevem-se todas elas na tradição histórico-política do teatro português.

 

Em todas estas peças o que ressalta e as torna coerentes no ponto de vista de conteúdo é o grande apelo aos valores de liberdade. E isto, independentemente da época histórica que cada uma delas recria.

 

Assim, o “Viriato”, que aliás prevê certa intervenção musical, comporta uma reconstituição histórica, em si mesma de grande valor cultural mas que envolve uma transposição epocal adequada e culturalmente válida.

 

As outras duas peças, pelo tema e pelo envolvimento histórico-político, mais reforçam essa perspetiva. E é de assinalar que uma e outra traduzem as alterações dos temas e da cronologia respetiva. 


E sobre as três peças, seja-me permitido remeter para o que escrevi e que, decorridos nove anos desde a publicação do livro, não perdeu atualidade.

 

 

Até no histórico “Viriato”, que expressa e claramente assume posições coerentes com o que se documenta nas outras peças de atualidade.

 

Assim diz Viriato:
“Não tenho nenhuma ambição que não seja impedir os romanos de ocuparem a nossa terra, substituírem os nossos deuses e roubarem a nossa liberdade”.

 

“O Magnífico Reitor” passa-se no final do período de Salazar, o qual, é dito na peça, “só quer saber do Ultramar, dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Nacional”.

 


E na “Intervenção em África”, “os apelos que lançamos à França, ao Secretário Geral das Nações Unidas, não tiveram até agora qualquer efeito prático”...

 

Em suma, o que caracteriza esta dramaturgia de Diogo Freitas do Amaral é basicamente o escrúpulo da investigação histórica, a interpretação moderna respetiva, o sentido da linguagem teatral, o equilíbrio entre a história, a política, o sentido social, pessoal e familiar, e a mensagem coerente, veemente, consistente e sempre atual da liberdade.

 

E, insista-se, tudo isto em termos de grande qualidade de escrita e de espetáculo!...

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DE LUIZ FRANCISCO REBELLO NAS “MEMÓRIAS DA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS”

 

Acaba de ser publicado o Tomo XL das Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, entidade prioritária a que me honro de pertencer.

 

Trata-se de uma edição em 2 volumes reunindo 54 textos de comunicações e colaborações de membros da Academia. E entre os textos, queremos aqui salientar duas comunicações de Luiz Francisco Rebello (membro da Academia) sobre temas ligados ao teatro português.

 

Assim, no Volume I, a comunicação evocativa, precisamente intitulada “No Centenário da Morte de D. João da Câmara”. E no Volume II, a comunicação sobre o teatro e os teatros em Portugal na transição do século, esta intitulada “O Teatro na Transição da Monarquia para a República”.

 

Para além da óbvia qualidade das comunicações, importa referir a abrangência temática no que respeita então ao teatro: a escrita de peças, a referência a análises históricas e críticas e a relevância do historial de peças, textos, salas e edifícios e os próprios espetáculos. Nesse aspeto, trata-se pois de uma abrangência das artes ligadas ao teatro, abrangência em si mesma da grande qualidade, o que, dado o autor, não é minimamente de estranhar!...  E essa globalidade surge em ambas as comunicações.

 

De tal forma assim é, que o texto evocativo do Centenário da Morte de D. João da Câmara começa por citar e remeter e situar textos interventivos de Gil Vicente, D. Francisco Manoel de Mello, António Ferreira, Garrett, Eça, Oliveira Martins, Fialho, Raul Brandão, Lopes de Mendonça, Júlio Dantas, Luís Barreto e tantos mais escritores, dramaturgos e críticos e analistas, de uma forma ou de outra ligados à criação, à analise ou à crítica teatral.

 

E como bem sabemos, Luiz Francisco Rebello, além de excelente dramaturgo, marcou profundamente todas estas dimensões da atividade e criação da arte do teatro. Aí se inclui a dimensão de espetáculo, que é sobretudo desenvolvida como tal no outro estudo acima citado, “O Teatro na Transição do Século da Monarquia para a República”.

 

Salientamos sobretudo toda a referência analítica que encerra o estudo. Refere a reforma do Conservatório, que em 1911 autonomizou a Escola de Arte de Representar.

 

E Luiz Francisco Rebello dá um justo destaque a fatores que normalmente são esquecidos. Citamos.

 

De um lado, a reforma do Conservatório, por decreto de 22 de maio de 1911, “autonomizando a Escola de Arte de Representar e fazendo desta um dos estabelecimentos congéneres mais avançados do seu tempo”.

 

Já “a projetada reforma do Teatro Nacional veio a revelar-se pouco produtiva”. 

 

Pelo contrário, iniciada em 1911 “a campanha vicentina em que se empenhou o poeta Afonso Lopes Vieira que arrancou ao esquecimento em que jazia há anos o autor da trilogia das Barcas”.

 

Também relevante o Teatro ao Ar Livre levada a efeito no Jardim da Estrela pelo cenógrafo Augusto Pina “em que se representou uma versão da Oréstia de Ésquilo assinada por Coelho de Carvalho”.

 

Mas diz-nos ainda Luiz Francisco Rebello, o incremento de sucessivas salas de cinema, que “já desde 1904 se tinha inaugurado em Lisboa “a primeira sala de cinema, o Salão Ideal”: mas esse incremento de salas de cinema  terá sido “a mudança mais  significativa e inovadora que a República registou nas áreas de espetáculo”.

 

DUARTE IVO CRUZ

TEATRO VIRIATO DE VISEU

 

A pretexto do anúncio de novas obras no Teatro, vale a pena recordar o historial desta sala de espetáculos, sobre a qual já tivemos ocasião de diversas vezes aqui referir e também num dos nossos livros dedicados a antigas e modernas salas e centros de espetáculos em Portugal. 

 

Muitas vezes citamos esses nossos livros e artigos: e neste caso a oportunidade mais se justifica precisamente pelo início das obras de recuperação. 

 

Desde logo porque o Teatro Viriato, na sua expressão histórica, surge em 1883, então denominado Theatro Boa União. Mas logo passados meros 6 anos, adota a designação atual, Teatro Viriato, numa evocação histórica que durou mais do que a atividade da sala em si: pois efetivamente, a inauguração, em 1921, de um Teatro Avenida, aliás esse demolido em 1970, prejudicou a atividade do mais velho Viriato. E o edifício é transformado em armazém: isto, num período em que os velhos teatros eram ou demolidos ou adaptados... 

 

E decorrem 25 anos até que, precisamente em 1985, segundo já oportunamente escrevemos, o velho Teatro Viriato é recuperado com um espetáculo simultaneamente cultural-nacional e regional, digamos assim – uma montagem de textos de Aquilino Ribeiro, articulados e encenados por Ricardo Paes com a designação dramática de “Teatro de Enormidades Apenas Críveis à Luz Elétrica”, nada menos. 

 

Aquilino Ribeiro (1885-1963) era natural de Viseu. Apesar de ter dedicado diretamente à cena apenas duas peças, ainda por cima separadas por mais de 20 anos, “O Manto de Nossa Senhora (1920) e “Tombo no Inferno” (1964), isso não obsta a que, para além da especificidade exemplar da linguagem, a expressão de espetáculo mereça referência.

 

No mesmo ano de 1985, a Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto efetuou um conjunto de estudos acerca da possível restauração do edifício. Até que em 1986 a Câmara Municipal de Viseu adquiriu o Teatro Viriato e efetuou obras de restruturação. As obras prosseguiram com intermitências, e o Teatro é recuperado no final do século. Mas com limitações de espaço. Em 1999 o Teatro reiniciou atividade. 

 

E agora anunciam-se novas obras no Teatro. Segundo informações do próprio Teatro Viriato trata-se da reabilitação dos antigos espaços das Aprogel, isto é um espaço antigo contíguo ao Teatro, que foi adquirido pelo Município de Viseu de forma a ampliar o Teatro Viriato. Estas obras no valor de 324€ mil euros, vêm colmatar a falta de espaço que o Teatro vinha a sentir. Com as obras o Teatro passará a contar com um espaço polivalente associado a atividades de Teatro, a projetos de residência e a apresentações formais e informais para pequenas audiências.  A intervenção irá durar cerca de um ano, durante o qual o Teatro permanecerá aberto e em atividade.

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DO TEATRO THALIA

 

Vale a pena recordar o papel e a função cultural do Teatro Thalia, muitas vezes referido como Teatro das Laranjeiras que se situa-se em área altamente frequentada. E a sua função e atuação em muito transcendeu as origens aristocratizantes, digamos assim, do Teatro em si, isto desde que foi inaugurado em 1825 por iniciativa do Conde de Farrobo, junto ao Palácio das Laranjeiras, onde morava, e no que é hoje o Jardim Zoológico de Lisboa.

 

Há anos tivemos ensejo de recordar que o velho Teatro foi inaugurado em 1825, alterado em 1842 segundo projeto de Francisco Lodi, e quase destruído por um incêndio ocorrido em 1862. Só a fachada ficou.

 

Mas em 2012 o Teatro é reconstruído segundo projeto dos arquitetos Gonçalo Byrne e Barbas Lopes. Já tivemos ocasião de sublinhar a conciliação do restauro com o que restava do edifício original. E esse edifício teve funções relevantes ao longo das sucessivas atividades socioculturais. Aliás, há como que uma tradição cultural ligada ao Palácio das Laranjeiras. Nos anos 20 do século passado realizaram-se lá espetáculos de bailado a que esteve ligado Almada Negreiros.

 

E tivemos ocasião, em textos anteriores, de recordar que o Teatro foi inaugurado com uma ópera hoje esquecida, “Il Castello de Spiriti” de Mercadante, compositor e maestro então responsável pelas temporadas de ópera organizadas pelo então dono do edifício, João Pedro Quintela, numa tradição familiar que vinha do pai, “nobilitado” com o título de Barão e depois a Conde de Farrobo.

 

 O pai, por sua vez, esteve ligado à fundação do Teatro de São Carlos em 1793 e o filho seguiu-lhe o exemplo de grande aficionado e amador de ópera. Farrobo filho viria a estar também a certa altura na gestão do São Carlos.

 

Na obra intitulada “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” Ana Isabel P. Teixeira de Vasconcelos evoca a frequência de Passos no Teatro das Laranjeiras e cita, entre mais eventos, a colaboração frequente de Rambois e Cinatti como cenógrafos. Evoca a descrição de Francisco Câncio acerca de uma receção a D. Maria II.

 

O Teatro era e será um grande centro de cultura e de projeção social. Como tal, continua hoje a merecer citação. Veremos em próximo texto as referências num volume publicado muito recentemente.

 

DUARTE IVO CRUZ