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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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NOVA EVOCAÇÃO DE JOSÉ RÉGIO DRAMATURGO

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Aqui temos referido espaçadamente, como é óbvio, as ligações de José Régio à arte do Teatro, tendo bem presente a relatividade cénica da sua produção teatracional: um conjunto de textos diversos e dispersos que, entretanto, se valorizam pela própria criatividade e qualidade do autor. Mas mesmo assim há que ter presente a relatividade do teatro do conjunto admirável da sua obra em geral e mesmo na comparação e visão completa e complexa dessa criatividade global. Régio é de facto um grande autor, mas o teatro não significa a dimensão mais determinante da sua obra geral.

Não vamos aqui e agora repetir o que certa vezes escrevemos sobre a obra teatral de Régio e, no entanto, será sempre oportuno retomar o comentário que a qualidade, vastidão e heterogeneidade da sua obra amplamente justifica.

Em qualquer caso, importa invocar a doutrina constante neste conjunto de peças de teatro, ainda por cima contabilizadas com dois aspetos sempre citáveis na obra de Régio: de um lado a vastidão e qualidade do suporte literário subjacente, aliás adequado à atividade profissional; e por outro lado, o sentido do espetáculo que em si mesmas cada uma das peças comporta.

E tudo isto insista-se, numa qualidade literária, poética e de espetáculo que, em si mesma, sobrevaloriza cada uma das peças. Sendo certo que, se por um lado o conjunto da obra de José Régio tudo valoriza de forma coerente, por outro lado a conciliação com os aspetos complementares da restante e vastíssima obra marcam o sentido intuitivo da espetacularidade que o teatro exige!...

E de tal forma assim é, que o próprio Régio assim o consagra, numa vasta análise denominada rigorosamente “Vista sobre o Teatro”, incluída nos três ensaios sobre a Arte que editou em 1967.

Diz então José Régio:
“fantasiemos o momento: a admitirmos a trindade o autor dramático, ator e encenador – três pessoas distintas e uma só verdadeira – diríamos que é essa única verdade que caberia ao cuidado do espetáculo teatral. Não passando isso de fantasia que viria a, lucidamente, sugerir o sentido dado aos extremos, regressemos à realidade: esse pensamento teatral, de que se tenta uma realização no palco, essa ideia central ou teia de ideias, em redor da qual é preciso criar uma espécie de personalidade coletiva realizadora; essa intenção profunda em foco, esse unitário que sustenta o espetáculo – não é ilusoriamente que desde sempre os atribui o bom senso comum, o autor dramático, criador do texto”.

DUARTE IVO CRUZ

SALAS DE ESPETÁCULO DE VILA REAL DE TRÁS-OS-MONTES

  


Como já uma vez vimos a cultura e a arquitetura ligada aos espetáculos tem em Vila Real inesperadas e extremamente interessantes referências a nível da atividade artística propriamente dita, mas sobretudo hoje na expressão cultural inerente. E mais: não obstante a necessária descentralização, em tempos imposta pela distância relativamente a grandes centros de espetáculo, nunca deixou de se verificar e registar uma atividade de produção artística adequada, à expressão urbana e arquitetónica.


Referimos o Conservatório Regional de Música, o Teatro Municipal e ainda, como memória, o antigo Teatro-Circo. Assim, temos para já o Conservatório Regional de Musica, projeto do Arquiteto Belém Lima, inaugurado em 2004. E, como adiante se refere, é o próprio autor do projeto que nos esclarece acerca dessa tradição modernizada, a qual hoje tanto valoriza a cidade.


Estamos no quadro de uma tradição urbano-arquitetónica que remonta ao antigo Convento São Domingos, com vestígios plausivelmente originários dos séculos XVI/XVII. E há uma heterogeneidade significativa na localização urbana e no que ainda sobressai, e não é pouco, do edifício em si mesmo.


Citamos então o próprio arquiteto: “Em quinhentos e oitenta anos, o chão conturbado do Convento de São Domingos foi também hospital, quartel, estalagem, cine-teatro”. (cfr. “O Novo Hóspede” in “Conservatório de Música de Vila Real”, 2005, texto reproduzido em “Habitar Portugal 2003/2005 - ed. Ordem dos Arquitetos 2006).


E insistimos, foi também, em épocas passadas, teatro, pois lá terá eventualmente estreado em 1846 a primeira peça de Camilo Castelo Branco, “Agostinho de Ceuta”.  E a propósito dessa estreia, transcrevo o que escrevi sobre o então Theatro de Vila Real:


“Com a peça, estreou também um Teatro com ar de Igreja, e se calhar fora-o antes, singelamente denominado Theatro de Vila Real. Era pertença de João Pinto da Cunha, tio do escritor. Seguiram-se algumas salas até ao Teatro Avenida, depois Cine-Teatro Real, de 1930. ( in “Teatros de Portugal” ed. INAPA 2005).


Sobre o Conservatório Regional de Música, e tal como tivemos já ocasião de referir, o que mais impressiona é a conciliação do atual projeto arquitetónico com a funcionalidade de uma casa destinada ao ensino, sem trair nem a tradição nem a modernidade. Salienta-se designadamente a harmonização da arquitetura contemporânea com o romano-gótico da Sé e com a envolvente urbana, num edifício de vocação ampla e realizada na docência e no espetáculo artístico inerente.


Ora bem: Sousa Bastos cita, em 1908, um Teatro Circo de Vila Real, construído a partir de 1879 e inaugurado “em 1 de janeiro de 1892 com o drama D. António de Portugal desempenhado pelo grupo de amadores dos Bombeiros Voluntários de Vila Real e pela atriz Carlota Veloso. Tem 26 camarotes numa só ordem, 4 frizas, 208 cadeiras, 170 lugares de superior e 300 de galeria”!... (in “Diccionario do Theatro Português” ed. 1908 pág. 326).  

DUARTE IVO CRUZ

Obs: Reposição de texto publicado em 09.12.17 neste blogue.

AUDITÓRIO FERNADO LOPES GRAÇA DE TOMAR

  


Temos aqui referido com destaque a politica de descentralização cultural e de património, na conjugação destas duas componentes que convergem mas não implicam obviamente uma comum dimensão temporal, pois o património histórico em si mesmo comporta um significado cultural, mas a cultura tantas vezes se assume e desenvolve à margem de patrimónios específicos.

E isto mais se acentua na ponderação da cultura de espetáculo e dos espaços, modernos ou clássicos que a sua concretização necessariamente envolve.

Nesse sentido, demos aqui notícia do Cine-Teatro Paraíso de Tomar, “herdeiro” de um Teatro Nabantino do século XIX, sucessivamente remodelado em 1920 e em 1948, projeto de Francisco Korrodi, municipalizado em 1997 e reaberto em 2002.

Hoje referiremos o Auditório Fernando Lopes Graça, também situado em Tomar.

E começamos por frisar que o Auditório Fernando Lopes Graça representa, na arquitetura, na evocação e na função, essa convergência modernizante da simbologia e da atividade cultural.

Desde logo pelo património histórico-urbano em que se implanta e na conciliação da sua modernidade arquitetónica com a tradição monumental da cidade. Mas também pela evocação de um nome e de uma obra referencial da cultura portuguesa moderna,  o compositor Fernando Lopes Graça (1906-1994), natural de Tomar e figura destacadíssima no meio musical.

Trata-se de um edifício de notável qualidade na modernidade do projeto mas também da abrangência das atividades culturais e pedagógicas desenvolvidas. Na origem encontramos um grupo coral criado em 1980 na Sociedade Banda Nabantina que se constitui em 1982 como Associação Cultural autónoma com a designação programática de Canto Firme de Tomar.  Foi reconhecida como Associação Cultural de Utilidade Publica em 1992. Mas vinha de muito antes a sua ação e projeção regional e nacional no plano das artes do espetáculo e da respetiva docência e formação.

Recordemos então os antecedentes culturais da cidade.

Como vimos em crónica anterior, mas é oportuno novamente referir, existe desde os anos 60 do seculo XIX uma tradição de edifícios teatrais em Tomar. Por essa época foi efetivamente inaugurado o Teatro Nabantino com 30 camarotes de 1ª e 2ª ordem, 12 frisas e 126 lugares de plateia. Trata-se então de uma assinalável iniciativa local, que se foi prolongado ao longo do século passado e que agora se reforça no notável edifício do Auditório Fernando Lopes Graça.

E efetivamente, este Auditório Fernando Lopes Graça – Canto Firme , assim conhecido,  constitui um conjunto de valências de cultura e de espetáculo, desde logo a partir da sala principal com lotação de 250 lugares e com palco devidamente dimensionado e equipado.

Mas não só: o edifício comportou ainda uma Escola de Música e áreas de atividades diversas de complementação de cultura e convívio especialmente vocacionadas para formação didática e de juventude.

E com destaque para a produção de espetáculos teatrais.

 

DUARTE IVO CRUZ 

MEMÓRIA DO TEATRO DA GRAÇA

  


Nesta alternância entre teatros históricos e teatros atuais, reforçada pela maior ou menor centralidade junto de meios urbanos de destaque cívico e cultural, referimos hoje especificamente o chamado então Theatro da Graça de Lisboa isto no século XVIII: e desde logo se esclareça que a própria designação contém indicador óbvio da própria centralização histórico-urbana que já na altura marcou a infraestrutura do espetáculo teatral.


Num estudo intitulado precisamente “Lisboa: Espaços Teatrais Setecentistas”, Maria Alexandra T. Gago da Câmara remete para o “clássico” Sousa Bastos numa referência desenvolvida a este Teatro, que, com alterações e períodos de interrupção de atividade, funcionou de 1767 a 1781.


É efetivamente um período em que a atividade teatral fomentou a construção ou adaptação de espaços de espetáculo, apesar de tudo muitos deles mais ou menos efémeros. O teatro teria sido construído por Simão Caetano Nunes por encomenda de Henrique da Costa Passos.


Sousa Bastos refere que o Teatro acolheu a certa altura uma companhia espanhola, que trouxe à cena um repertório, hoje completamente ignorado mas onde constava pelo menos uma peça de temário histórico português, intitulada “São Gil de Portugal”...


Como ignorados são hoje os artistas que na época integravam os efémeros elencos do Teatro da Graça: Francisco de Sousa, Maria Joaquina, Joana Ignácia, entra tantos mais...


Apenas António José de Paula deixou alguma memória histórica. A rainha D. Maria I tinha proibido que mulheres tomassem parte em certo tipo de espetáculos públicos. Mas no que respeita ao teatro, essa proibição terá sido revogada em 1800, por iniciativa de António José de Paula, então diretor-empresário do Teatro da Rua dos Condes.


Trata-se aqui do chamado “Velho Condes” que vem do século XVIII e do qual resta uma gravura que mostra um barracão situado onde mais ou menos se irá erguer, com a nova Avenida da Liberdade, os sucessivos “Novo Condes” e o Cinema Condes!...

 

DUARTE IVO CRUZ

 

Obs: Reposição de texto publicado em 29.12.18 neste blogue.

TRADIÇÃO DE EDIFÍCIOS DE TEATRO E DE CULTURA EM VILA DO CONDE

  


A monumentalidade histórica de Vila do Conde remonta aos inícios do século XIV: pelo menos desde 1318, com o Convento de Santa Clara, fundado e construído por D. Afonso Sanches, filho do Rei D. Dinis e de D. Teresa Martins. Restaurado e beneficiado a partir da década de 70 do século XVIII, como tal sobreviveu como Mosteiro e residência eclesial, expressão corrente na época, até 1893, ano em que falece a última monja e o edifício é entregue ao Ministério da Justiça.


Mas entretanto, em 1778 efetuam-se trabalhos de restauro e alargamento do Mosteiro. E nessa data inicia a construção do que ficou conhecido como o “Submosteiro”, este segundo traça de um arquiteto relevante, Henrique Ventura Lobo de seu nome. Daí que, em 1912, o historiador Castro e Solla, publique um estudo relacionando os dois monumentos, para lá da proximidade urbana.  (cfr. Castro e Solla “Notas de um Antiquário” in “Ilustração Villacondense” setembro de 2012). Trata-se de um belo edifício da época.


Mas o que aqui queremos referir é que o Submosteiro foi adquirido em 1985 pela Câmara Municipal que o converteu em auditório, segundo projeto do Arquiteto Maia Gomes.


Em 2012, publiquei um estudo intitulado “Teatros em Portugal – Espaços e Arquitetura” em edição de Mediatexto e do Centro Nacional de Cultura.


No Prefácio desse livro, Guilherme d´Oliveira Martins refere “os recintos teatrais, a partir do encontro entre o espaço que foi sagrado e uma nova vocação profana – o Mosteiro de Enxobregas, o antigo teatro de Penafiel, o Convento e o Subconvento de Vila do Conde, o exemplo de Trancoso os Conventos e Misericórdias do Alentejo e quatro casos algarvios. E o certo é que esse encontro do sagrado e do profano permite o entendimento do fenómeno teatral a partir das suas origens mais remotas e essenciais”. (pág. 9).        


Nesse livro, refiro ainda que “a Câmara Municipal de Vila do Conde adquiriu o Cine-Teatro Neiva, belo exemplar da geração dos Cine-Teatros dos anos 40”.


Efetivamente, acrescento, trata-se de um cine-teatro inaugurado em 1949, encerrado nos anos 80 e agora recuperado com uma lotação de cerca de 550 lugares na sala principal, em plateia e dois balcões, e ainda uma sala experimental de 120 lugares.

DUARTE IVO CRUZ

 

Obs: Reposição de texto publicado em 22.12.18 neste blogue.

TEATRO ANTIGO E TEATRO MODERNO EM CHAVES

  

 

Esta abordagem conjunta da antiga sala de espetáculo de Chaves e do recente Centro Cultural tem como substrato histórico e social a marca de descentralidade que o próprio desenvolvimento económico e tecnológico determina em cada época, no que se refere à convergência cultural: isto porque, no século XIX, Chaves distava muito dos centros culturais do país. 


Daí, a relevância da criação e funcionamento do Teatro Flaviense, fundado no século XIX e restaurado ou, se quisermos, reedificado a partir de 1873, por iniciativa de um grupo de destacadas individualidades locais.


Os trabalhos foram confiados a um nome de projeção nos grandes teatros da época, João de Amil, que exerceu durante anos funções nos Teatros da Rua dos Condes em Lisboa e Baquet do Porto. Ora, aqui também já temos visto que se trata de duas salas referenciais nesse tempo e de certo modo ainda hoje, na arquitetura e/ou cultura de espetáculo.


E nesse sentido, recorde-se que o Teatro Flaviense seguia a estrutura das mais relevantes salas de teatro. Tinha 3 ordens de camarotes e segundo fontes aliás pouco rigorosas, algo como mais 180 lugares de plateia, geral e superior, como era hábito.


A inauguração deste Teatro Flaviense ocorreu em 9 de maio de 1874 a cargo de um grupo de amadores locais, o que também é relevante dada a descentralização e distanciamento social e cultural de Chaves nesse tempo.


E sobretudo, há que recordar a peça inaugural, nada menos do que o “Ódio de Raça” de Gomes de Amorim, peça e autor de grande relevância em muitos aspetos ainda hoje. De referir designadamente que “Ódio de Raça” (1845) passa-se no Brasil e dramatiza o tema da escravatura. O autor e o tema mostram a então modernidade do evento, para não falar da qualidade do texto.


Acrescente-se então que Chaves pode assumir uma tradição secular de cultura, que justificaria a existência comprovada na região de um Teatro quando as vias romanas garantiam uma integração às zonas dominantes da Península: é o que nos diz designadamente Mário Gonçalves Carneiro, que refere uma tradição histórica e que permite recordar na zona “magníficos edifícios em que sobressairiam o Balneário, o Rossio, a Curia, o Tesouro, o Teatro”... isto, insiste-se, a nível histórico regional. (in “As Caldas de Chaves” – 1945).


Em 2003 a Câmara Municipal transformou em Centro Cultural o antigo edifício da estação de caminhos de ferro, inaugurado em 1921 e desativado em 1999.


E é ainda de referir em Chaves, além de serviços culturais da Câmara, diversas outras áreas de atividade cultural, como a Academia das Artes e a Associação Chaves Viva.

DUARTE IVO CRUZ

 

Obs: Reposição de texto publicado em 06.10.18 neste blogue.

NOVA EVOCAÇÃO DO CINE-TEATRO DO FUNDÃO

  

 

Já aqui foi feita referência ao Cine-Teatro Gardunha do Fundão, salientando a tradição histórico-urbana das salas de espetáculo da cidade e da zona geográfico-urbana em que se inscreve.


Importa efetivamente enfatizar, a nível de todo o país e a nível histórico, esses movimentos de descentralização que se foram implantando num sentido obviamente convergente de desenvolvimento descentralizado de cultura e de espetáculo, com toda a vastíssima abrangência que envolve.


E é relevante referir esse movimento, no que diz respeito a instituições e edificações ligadas ao espetáculo, na transição da relevância teatral para a relevância cinematográfica, sinais generalizados e incontestáveis no seu significado histórico-urbano e cultural.


Ora, como já temos referido, é também de realçar o desempenho da Câmara Municipal na reconversão desta infraestrutura e atividade cultural. Independentemente do desempenho, o que aqui agora referimos é pois essa infraestrutura, que ao longo de décadas pelo menos se tem mantido como tal, independentemente das alterações urbano-arquitetónicas envolvidas, e que oportunamente têm sido aqui evocadas.


Isto sem embargo de referir também a dissidência epocal que neste domínio, repita-se, da atividade e da infraestrutura, sempre acaba por ocorrer.


No caso agora evocado, há que recordar que em meados da década de 60 foi demolida no Fundão uma bela sala oitocentista, na época integrada no então designado Casino Fundanense.


Restaram imagens e descrições de uma pequena sala à italiana, como aliás era quase norma na época (e de certo modo ainda hoje…) a certa altura devidamente restaurada, com camarotes, e pinturas no teto: terá sido reaberta cerca de 1915 mas sofreu sucessivas intervenções e adaptações, até que a Câmara lá instalou o Museu Arqueológico.


Entretanto, em 1958 é inaugurada uma sala de espetáculos, precisamente o Cine-Teatro Gardunha. E já tivemos ensejo de referir que à época este edifício foi devidamente saudado, pela tecnologia de construção em betão pré-esforçado, com revestimento em cantaria de granito da região, o que confere no ponto de vista arquitetónico uma especificidade de certo modo também regional.


Mas o mais relevante seria o torreão, ao qual se tinha acesso através de escadaria implantada no foyer. A sala tinha condições para funcionar como teatro e como cinema, com uma lotação de cerca de 750 lugares. E como tal se manteve em atividade, com óbvio destaque para os espetáculos cinematográficos.


E a partir de certa altura, só esses lá eram apresentados, o que terá mais a ver com as condições de produção e atividade cultural da época, do que propriamente com a exploração da sala e do público: assim era e de certo modo assim ainda é em todo o país…


Encerrou atividade nos anos 90 do século passado. E no entanto, importa destacar a singularidade do edifício, dominado pela torre.


Na época a Câmara Municipal definiu o processo de reabilitação do edifício preenchendo assim uma lacuna a nível de infraestruturas do Concelho no que respeita a equipamentos de espetáculo. E nessa componente técnico-artística participou José Manuel Castanheira como arquiteto responsável pelas áreas de recuperação e espaço de espetáculo.


Já tivemos então ensejo de referir este exemplo da chamada geração dos cineteatros. Além de constituírem em si mesmo equipamento arquitetónico e urbano que merece ser preservado, representam importante expressão cultural na globalidade da conceção, construção, urbanização e exploração.

DUARTE IVO CRUZ

 

Obs: Reposição de texto publicado em 14.09.19 neste blogue.

OS TEATROS DAS COLÓNIAS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

  


Fazemos hoje aqui uma evocação de teatros em funcionamento nas colónias portuguesas a partir do início do século passado. E vale a pena desde logo referir que havia na época uma tradição de espetáculo, efetuado a partir de Lisboa por companhias que se deslocavam às colonias africanas, e que dessa forma reforçavam uma certa, se bem que ténue atividade cultural.


E recuando ainda mais no tempo e na história, recorda-se o que Eça escreveu em “Os Maias”, a propósito do projeto do Conde de Gouvarinho para a criação de teatros em África. Trata-se de uma conversa com João da Ega no Teatro da Trindade:


«Ega então afirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interesse geográfico pela África, faria um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado... / Toda a face do Conde reluzia, escarlate, de prazer. / - Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colónias, todas as coisas belas, todas as coisas grandes estão feitas.  Libertaram-se já os escravos; deu-se-lhes já uma suficiente noção de moral cristã; organizaram-se já os serviços aduaneiros... Enfim, o melhor está feito. Em todo o caso, há ainda detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Luanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso a dar. Em Luanda, precisava-se bem um teatro normal, como elemento civilizador!» (“Os Maias” cap. XVI).


Ora bem: temos aqui citado Sousa Bastos e o seu “Diccionário do Theatro Português” (ed. 1908), onde descreve, por vezes em muito vastas referencias, nada menos do que 2002 Teatros, em Portugal   e nas colónias.


E os das colónias eram então os seguintes: Teatro Africano, de São Tiago de Cabo Verde, com 14 camarotes, 7 frisas, 120 lugres de plateia e geral; Teatro Caridade de São Vicente de Cabo Verde; Teatro Garrett de Moçâmedes, com 30 camarotes de duas ordens, 110 lugres de plateia, 60 de geral e 40 de galeria; Teatro de Luanda, com plateia, duas ordens de camarotes e lotação de 300 lugares; e Teatro de S. Tomé, este em sucessivos edifícios adaptados...


Isto, em 1908.


Mas vale a pena citar outra vez  “Os Maias”.


Quando o Conde Gouvarinho é nomeado ministro, o João da Ega faz troça: “Lá vai o Gouvarinho batendo para o poder, a mandar representar a Dama das Camélias no sertão!” 

 

DUARTE IVO CRUZ

 

Obs: Reposição de texto publicado em 19.01.19 neste blogue.

TEATROS HISTÓRICOS EM LISBOA: TEATRO DAS FANGAS DA FARINHA

  


Temos aqui referido o património histórico dos teatros-edifícios construídos e/ou adaptados ao longo do país, em sucessivas fases da História do Espetáculo, e aí cobrindo, desde as realizações iniciais, aos tempos atuais: e sempre tendo em vista a própria realidade do teatro como expressão de um texto que é apresentado ao publico de acordo com os hábitos culturais e as técnicas de cada época.


E de tal forma assim é, que não nos podemos vincular à arquitetura específica e à técnica correspondente de cada expressão de espetáculo cénico.


Por isso aqui temos evocado sucessivos espaços de espetáculo teatral, desde as primeiras manifestações até à geração mais recente, e isto no ponto de vista dos autores, dos arquitetos e do público: pois teatro é espetáculo e sem público – nem que seja um único espetador – não há espetáculo!...


E isto vem a propósito, precisamente, de uma efeméride teatral que neste ano de 2019 completa exatos 5 séculos: a saber, a estreia em 1619 de um espaço teatral, o chamado Pátio das Fangas da Farinha, no que é hoje a Baixa lisboeta.


Vejamos então.


A partir de 1590, o empresário, diríamos hoje, Fernão Dias de la Torre, castelhano de origem e de cultura, organiza em Lisboa o que se pode considerar o primeiro espaço público de espetáculos, o chamado Pátio das Arcas, situado na zona que hoje corresponde mais ou menos à Rua Augusta. Para tal, obtém autorização do Hospital de Todos os Santos. E assim prossegue uma atividade de produção de espetáculos.


Ora o que é mais curioso é que a zona consagra pelo menos desde aí uma vocação, digamos assim, para a realização de espetáculos e de espaços musicais e teatrais. E assim, em 1619, portanto há exatos 400 anos, inicia atividade o chamado Pátio das Fangas da Farinha, próximo do que viria a ser o Tribunal da Boa Hora.


Em 21 de novembro de 1622 o Município de Lisboa emite um documento divulgado por Eduardo Freire de Oliveira em 1888 (in “Elementos para a História do Município de Lisboa”) que citamos na nossa “História do Teatro Português” e que aqui se evoca.


Transcreve então Freire de Oliveira:


“A Relação se meteu em perturbar a jurisdição da cidade, mandando derrubar o Pátio das Fangas da Farinha (...) e ora chegando à nossa notícia que o Pátio da Rua das Arcas estava em notável perigo de arruinar e cair com o peso da gente se ordenou ao vereador do pelouro das obras que com o arquiteto da cidade e mais ministros dela fosse ver a fábrica do dito Pátio da Rua das Arcas e por todos, debaixo de juramento, foi dito que a obra estava fraca e notável risco de vira abaixo com o peso da gente, o que acontecendo, o que Deus não permita, mataria e estropiaria muita gente (...) deem licença a este Senado que mande concertar o das Fangas da Farinha”...!


Quer dizer: já nessa altura os poderes públicos se envolviam em problemas de gestão da infraestrutura de espetáculos!...

DUARTE IVO CRUZ

 

Obs: Reposição de texto publicado em 06.07.19 neste blogue.

TEATRO VIRIATO DE VISEU

  

 

A pretexto do anúncio de novas obras no Teatro, vale a pena recordar o historial desta sala de espetáculos, sobre a qual já tivemos ocasião de diversas vezes aqui referir e também num dos nossos livros dedicados a antigas e modernas salas e centros de espetáculos em Portugal. 


Muitas vezes citamos esses nossos livros e artigos: e neste caso a oportunidade mais se justifica precisamente pelo início das obras de recuperação. 


Desde logo porque o Teatro Viriato, na sua expressão histórica, surge em 1883, então denominado Theatro Boa União. Mas logo passados meros 6 anos, adota a designação atual, Teatro Viriato, numa evocação histórica que durou mais do que a atividade da sala em si: pois efetivamente, a inauguração, em 1921, de um Teatro Avenida, aliás esse demolido em 1970, prejudicou a atividade do mais velho Viriato. E o edifício é transformado em armazém: isto, num período em que os velhos teatros eram ou demolidos ou adaptados... 


E decorrem 25 anos até que, precisamente em 1985, segundo já oportunamente escrevemos, o velho Teatro Viriato é recuperado com um espetáculo simultaneamente cultural-nacional e regional, digamos assim – uma montagem de textos de Aquilino Ribeiro, articulados e encenados por Ricardo Paes com a designação dramática de “Teatro de Enormidades Apenas Críveis à Luz Elétrica”, nada menos. 


Aquilino Ribeiro (1885-1963) era natural de Viseu. Apesar de ter dedicado diretamente à cena apenas duas peças, ainda por cima separadas por mais de 20 anos, “O Manto de Nossa Senhora (1920) e “Tombo no Inferno” (1964), isso não obsta a que, para além da especificidade exemplar da linguagem, a expressão de espetáculo mereça referência.


No mesmo ano de 1985, a Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto efetuou um conjunto de estudos acerca da possível restauração do edifício. Até que em 1986 a Câmara Municipal de Viseu adquiriu o Teatro Viriato e efetuou obras de restruturação. As obras prosseguiram com intermitências, e o Teatro é recuperado no final do século. Mas com limitações de espaço. Em 1999 o Teatro reiniciou atividade. 


E agora anunciam-se novas obras no Teatro. Segundo informações do próprio Teatro Viriato trata-se da reabilitação dos antigos espaços das Aprogel, isto é um espaço antigo contíguo ao Teatro, que foi adquirido pelo Município de Viseu de forma a ampliar o Teatro Viriato. Estas obras no valor de 324€ mil euros, vêm colmatar a falta de espaço que o Teatro vinha a sentir. Com as obras o Teatro passará a contar com um espaço polivalente associado a atividades de Teatro, a projetos de residência e a apresentações formais e informais para pequenas audiências.  A intervenção irá durar cerca de um ano, durante o qual o Teatro permanecerá aberto e em atividade.

DUARTE IVO CRUZ

Obs: Reposição de texto publicado em 05.10.19 neste blogue.