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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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MAIS TEATROS ROMANOS: O DE BRAGA

 

Na última crónica, fizemos referência ao Teatro Romano de Lisboa e aludimos a livros recentes ou mais antigos, que versam a perspetiva historial dos edifícios então construídos e explorados, ou o que deles resta...  E nesse aspeto, importa então citar e evocar diversas áreas hoje museológicas mas que, na época, constituíram centros de atividade de espetáculo, tal como então eram concebidos.

 

Designadamente, refira-se o Teatro Romano de Braga, já oportunamente citado, mas que a cronologia recente justifica nova evocação: efetivamente, assinalam-se agora exatos 20 anos decorridos sobre a descoberta e início da recuperação museológica de ruinas da cidade atual que incluíram o que resta, e não é pouco, do Teatro e Anfiteatro da então denominada Bracara Augusta.

 

E tal como aí referimos, citando designadamente um estudo de Manuela Martins, Ricardo Mar, Jorge Ribeiro e Fernanda Magalhães, intitulado “A Construção do Teatro Romano de Bracara Augusta”, para o qual novamente se remete, e onde se refere que “a intenção política terá residido no estabelecimento de uma relação privilegiada do edifício com o fórum que se situava a nascente do teatro”.

 

 E salienta-se ainda, na obra agora novamente citada, “a construção de termas públicas anexas que se dispõe a sul do teatro, sendo de sublinhar que existem numerosos exemplares de uma estreita relação entre os teatros, os equipamentos termais e os jardins”...  (cfr.“A construção do Teatro Romano de Bracara Augusta” in “História da Construção - Arquitetura de Técnicas Construtivas” coordenação de Arnaldo Sousa e Melo e Maria do Carmo Ribeiro).

 

Assinale-se ainda que em 2014 aqui publicámos um artigo sobre a Lusitânia e o teatro romano de Mérida, o qual atualizaremos em próxima crónica, na sequência portanto do estudo sobre o Teatro Romano de Lisboa, esse divulgado no passado dia 10 de agosto, e a que se dá desta forma sequência.

 

Pois em Portugal havia teatro e Teatros muito antes de Gil Vicente!...

 

DUARTE IVO CRUZ  

NOVAS EVOCAÇÕES DO TEATRO ROMANO DE LISBOA

 

Há cerca de 5 anos, evocámos aqui o Teatro Romano de Lisboa. Ocorre que a “redescoberta” das ruínas aliás consideráveis do espaço arquitetónico ou que o que dele restava na época, e que não era pouco, ocorre em 1798: sendo certo que os trabalhos de recuperação e sobretudo de reaproveitamento cultural e de espetáculo verificaram-se séculos decorridos e atingem hoje uma expressão considerável de relevância, tanto no ponto de vista da arqueologia arquitetónica como da atividade museológica e de espetáculo entretanto decorrente.

 

Nesse sentido há que assinalar a edição/reedição de estudos que abordam o tema, estudos esse editados pela EGEAC, entidade da CML que gere o espaço histórico.

 

Citamos designadamente dois livros como dissemos ditados pela EGEAC:

 

“Dissertação Critico-Filológico-Histórica” de Luiz António de Azevedo, edição fac-similada do estudo publicado em 1815 e agora reeditado com um Prefácio de Lídia Fernandes.

 

“Saudades da Rua da Saudade – O Teatro Romano e a sua Envolvente nas Memórias da Cidade”, textos da autoria de Joana Gomes Cardoso, Joana de Sousa Monteiro, Lídia Fernandes, Carolina Grilo, Daniela Araújo, Rui Coelho, Ana Cosme, Rani Almeida, Maria Miguel Lucas, Miguel Coelho.

 

A bibliografia sobre o tema é vasta. Pessoalmente abordei-o    em “Teatros de Portugal” e em textos aqui mesmo divulgados como o artigo datado de 15 de abril de 2014, sob o título de “Teatro Romano de Lisboa – Felicitas Iulia Olissipo”.

 

Aí cito designadamente o estudo de Lídia Fernandes, onde se esclarece que “os elementos arquitetónicos com revestimento a estuque, as características técnicas do edifício e o emprego da ordem jónica, são alguns dos elementos que nos apontam o início da sua construção para uma época recuada”. E acrescenta que o teatro sofreu “uma fase de remodelação, levada a cabo em meados do século I, concretamente 27 d. C.”.     

 

O teatro terá sido abandonado cerca do século VI e sacrificado e soterrado em fases sucessivas da expansão da cidade medieval. Mas o terramoto de 1755 põe as ruínas parcialmente a descoberto. São reconstituídas numa gravura de Francisco Fabri. Em 1815 Luis António de Azevedo publica uma reconstituição do proscénio.

 

Mais se desenvolve o texto, que cita como bibliografia obras diversas de Lídia Fernandes, Aarão de Lacerda, Irisalva Moita, Carlos Fabião, Jorge Alarcão.

 

E no livro acima citado “Saudades da Rua da Saudade” Lídia Fernandes historia a própria criação do Museu e as intervenções que, até 2001, marcaram a recuperação do edifício transformado em Museu, bem como sucessivos trabalhos efetuados neste singular monumento da cidade.

 

Retomaremos o tema em crónicas destinadas a evocar os dois livros recentes.

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DOS 70 ANOS DA INAUGURAÇÃO DO CINEMA E TEATRO SÃO JORGE

 

Completam-se dentro de meses os 70 anos da inauguração do Cinema (e Teatro) São Jorge de Lisboa. E se o referimos desta forma, é porque, precisamente, o grande edifício, vocacionado para cinema desde a fundação, previu a potencialidade de espetáculos de teatro, e não foram poucas as vezes que tal sucedeu, mesmo tendo em vista a descontinuidade histórica - já o podemos assim dizer - da exploração junto do público e da natureza e qualidade dos espetáculos respetivos.

 

E isto apesar da vocação dominante expressa no projeto do arquiteto Fernando Silva, depois, aliás, profundamente alterado no interior das salas de espetáculo.

 

A função cultural de espetáculo do São Jorge transcendia de inicio a exploração cinematográfica, ela própria de exigente qualidade, vocacionada sobretudo para a filmografia inglesa, pois essa era a origem da direção do Cine-Teatro, chamemos-lhe assim: mas desde já se recordam os verdadeiros concertos de órgão eletrónico, efetuados no intervalo das sessões, a que ainda assistimos, aqui recordamos, e que marcavam a qualidade cultural dos espetáculos.

 

Evoca-os designadamente José Augusto França, situando o São Jorge no plano do desenvolvimento urbano de Lisboa com evocação muito elogiosa do projeto original de Fenando Silva, “que venceu um concurso, com correção britânica por identidade dos empresários, e contando com um magnífico espaço interior, superior a todos em Lisboa, que a massa finalmente construída não chegou a acompanhar”...

 

E mais acrescenta José Augusto França que, “apesar da novidade do seu órgão elétrico que tocava nos intervalos, o São Jorge nunca se integrou nos hábitos da capital, disputando dificilmente a clientela da melhor classe mundana do Tivoli e do São Luís, afeitas a um quadro mais tradicional”. Estávamos no início dos anos 50...  (J.A. França “Lisboa, História Física e Moral” ed. Livros Horizonte 2008 pág. 716).

 

Mas isto não obstou a que, durante décadas, o São Jorge tenha mantido uma atividade de espetáculos com qualidade e prestígio de público. 

 

Em 1981 o São Jorge encerrou para obras e reabriu cerca de um ano depois. Prosseguiu a exploração sobretudo cinematográfica, com alternativas que se revelaram difíceis, a ponto de se colocar novamente a certa altura a hipótese da demolição. 

 

Até que em 2001 a Câmara Municipal de Lisboa adquire o edifício.  Não se falou mais em demolição.

 

E até hoje, o São Jorge mantém atividade cultural, com uma programação interna e  internacional que transcende os próprios espetáculos.

 

DUARTE IVO CRUZ

NOVA REFERÊNCIA A VENTURA TERRA NO CENTENÁRIO DA SUA MORTE

 

Em diversos artigos, e designadamente no anterior, evocamos Ventura Terra (1866-1919) como arquiteto de edifícios vocacionados para o espetáculo teatral. Nesta celebração do centenário da sua morte, é oportuno pois referir o Tetro Politeama, e por diversas e óbvias razões.

 

Desde logo, por se tratar de projeto arquitetónico de excecional qualidade, como aliás são todos os que Ventura Terra criou. Mas neste caso concreto, é um teatro que, em boa hora, se mantém em plena atividade, marcando desde a origem a vida cultural de espetáculo de Lisboa: é teatro, como tal foi concebido, mas durante décadas funcionou como cinema, e conciliou essas atividades alternadamente dominantes com toda a abordagem das expressões de cultura e de arte. Quantas vezes lá se realizaram concertos e outros espetáculos musicais!

 

Mas mais: inaugurado em 1912, este Teatro-Cinema Politeama, não obstante as alterações no interior, desde logo se impôs pela imponência da fachada e pela harmonia da sala de espetáculos Sendo certo que aí se registaram alterações: e aqui evocamos as frisas.

 

Mas no conjunto, a sala tal como hoje se encontra, permite a justíssima evocação da sua qualidade, notável desde a origem. E nesse aspeto, justifica-se a referência à decoração do teto e da própria sala, projetos de Veloso Salgado e de Benvindo Seia. 

 

Vale a pena recordar alguns dados históricos do Politeama e a tradição cultural que trouxe até hoje. Basta enumerar os autores que lá foram representados, e os atores que os representaram: e reportamo-nos apenas e tão só a nomes que hoje constituem património “histórico”...

 

Pois, sem querer entrar em notícias mais recentes, aqui lembramos que pelo Teatro Politeama passaram, trabalharam e fora aplaudidos artistas como Amélia Rey Colaço, Ângela Pinto, Adelina Abranches, Aura Abranches, Palmira Bastos, Chaby Pinheiro, Vasco Santana, Laura Alves...

 

E foram representados textos de D. João da Câmara, Raul Brandão, Alfredo Cortez, Ramada Curto... e aqui só evocamos, propositadamente, nomes que são “históricos” no teatro português!

 

DUARTE IVO CRUZ

TEATROS DE VENTURA TERRA NOS 100 ANOS DA SUA MORTE

 

Ocorre este ano o centenário da morte do arquiteto Ventura Terra (1866 – 1919). Já por diversas vezes aqui referimos o muito que se lhe deve na renovação da estrutura arquitetónica das salas de espetáculo a que esteve ligado, pela conceção original dos edifícios e também na renovação e atualização de outros teatros que histórica e cronologicamente o antecedem.

 

Designadamente, referimos, em artigos diversos, tanto o Teatro Politeama, como sabemos em plena atividade, ao qual voltaremos, e o Teatro Club de Esposende, este projetado em 1908 por Ventura Terra, inaugurado como teatro em 1911 e convertido em Museu Municipal em 1993, segundo projeto de adaptação do arquiteto Bernardo Ferrão.

 

 Trata-se de um edifício de notável qualidade, na fachada estreita em arco, dominada por varanda. Em boa hora a Câmara Municipal o conservou e reconverteu, mantendo a vocação cultural.

 

Ora, é de assinalar desde já que Ventura Terra transcende e aplica a sua criatividade em sucessivas criações arquitetónicas de espetáculo e de convívio público. O que incluiu especificamente a reestruturação do próprio Teatro de São Carlos, exemplo incomparável em Portugal da arquitetura das salas de espetáculo.

 

Deve-se efetivamente a Ventura Terra obras de modernização do edifício, com destaque para a primeira grande obra de restauro do setecentista Teatro de São Carlos, inaugurado em 13 de junho de 1793 com a ópera “La Ballerina Amante” de Domenico Cimarosa:  traçou diversas alterações a este teatro, modelo das casas de espetáculo da época.

 

Designadamente, nas obras de restauro efetuadas em 1908, alterou o grande foyer de entrada do Teatro e as pinturas do teto, que se deviam a Cyrilo Volkmar Machado. Mas mais relevante até hoje é a restruturação do interior, e designadamente do chamado Salão Nobre, belíssima sala de produção musical e de convívio.

 

E é de assinalar que, nesta avaliação de projetos de salas de espetáculo, encontramos Ventura Terra nas comissões que avaliaram os projetos de restauro do Teatro São João do Porto e do Teatro- Circo de Braga. Já ambos aqui referimos.

 

Como aliás já referimos a notável recuperação do chamado Teatrinho do Palácio da Brejoeira de Monção, onde se concilia a sala de pequenas dimensões, cerca de 50 lugares, com a magnitude do Palácio, desta forma valorizado também na dimensão cultural do espetáculo.   

 

Voltaremos a evocar Ventura Terra, designadamente a propósito do Teatro Politeama: e esse, como bem sabemos, mantem-se em plena e pujante atividade!

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DO TEATRO NA OBRA DE MANOEL DE OLIVEIRA

 

Em Serralves, foi recentemente inaugurada a Casa de Cinema Manoel de Oliveira. Merece referência esta sala de espetáculos, a partir da homenagem que a designação contem. Pela vida, excecionalmente longa, pela obra, excecionalmente qualificada e como tal reconhecida, e pela projeção internacional que com toda a justiça alcançou.


Evoca-se pois a obra e a atuação de Manoel de Oliveira na adaptação e realização cinematográfica de peças e demais expressões de teatro. E há que atender à cronologia, não só do realizador/encenador (absolutamente excecional: 1908-2015!...) como também do conjunto de peças que transpôs, seja permitida a expressão, para a potencialidade cénica e cinematográfica.


E isto porque em rigor, a dramaturgia filmada e adaptada por Manoel de Oliveira assenta numa capacidade de espetáculo que tanto se molda à cena como à projeção: sendo certo que Manoel de Oliveira é sobretudo um criador de cinema.


E se considerarmos a cronologia, não tanto dos filmes como das peças subjacentes, encontramos desde logo um texto clássico: o “Auto da Muito Dolorosa Morte e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo” da autoria do Padre Francisco Vaz.  Datado de 1559, portanto há exatos 460 anos, mas, ainda há relativamente pouco tempo representado em Trás-os-Montes, foi filmado por Manoel de Oliveira em 1963 no filme que denominou “Ato de Primavera”.


E é interessante constatar que a expressão dramática em si mesma é como que transposta para a expressão e criação cinematográfica, não obstante, note-se ainda por cima, a difícil dramaticidade deste longo texto.


Mas há mais textos de teatro adaptados ao cinema por Manoel de Oliveira.


Desde logo, José Régio. “Benilde ou a Virgem Mãe”, peça datada de 1947, e “Mário Ou Eu Próprio – O Outro”, esta datada de 1957, foram ambas filmadas por Oliveira: e quando escrevemos “filmadas” temos bem presente a recriação cinematográfica, digamos assim. E não é fácil transpor para a estética e sobretudo para a técnica cinematográfica um texto criado e vocacionado para a expressão teatral...


O que mostra a globalidade do sentido estético de Manoel de Oliveira no que se refere a espetáculo: com o circunstancialismo de que no cinema, a estética envolve e exige a técnica respetiva!


A sua excecionalmente longa vida permitiu portanto uma excecionalmente longa atividade: e merece referência especial a sucessiva adaptação de obras ligadas à criação literária. Já citamos Régio, mas também Camilo Castelo Branco, Agustina Bessa Luís, António Patrício, e sobretudo, o próprio Manoel de Oliveira, que tantas vezes se assume como escritor, ao criar textos que filmou...


Saúda-se pois esta iniciativa que consagra, num edifício do Arquiteto Álvaro Siza, a obra ímpar de um cineasta português, internacionalmente reconhecido e consagrado.


E voltaremos ao assunto.

 

DUARTE IVO CRUZ

TEATROS HISTÓRICOS EM LISBOA: TEATRO DAS FANGAS DA FARINHA

 

Temos aqui referido o património histórico dos teatros-edifícios construídos e/ou adaptados ao longo do país, em sucessivas fases da História do Espetáculo, e aí cobrindo, desde as realizações iniciais, aos tempos atuais: e sempre tendo em vista a própria realidade do teatro como expressão de um texto que é apresentado ao publico de acordo com os hábitos culturais e as técnicas de cada época.

 

E de tal forma assim é, que não nos podemos vincular à arquitetura específica e à técnica correspondente de cada expressão de espetáculo cénico.

 

Por isso aqui temos evocado sucessivos espaços de espetáculo teatral, desde as primeiras manifestações até à geração mais recente, e isto no ponto de vista dos autores, dos arquitetos e do público: pois teatro é espetáculo e sem público – nem que seja um único espetador – não há espetáculo!...

 

E isto vem a propósito, precisamente, de uma efeméride teatral que neste ano de 2019 completa exatos 5 séculos: a saber, a estreia em 1619 de um espaço teatral, o chamado Pátio das Fangas da Farinha, no que é hoje a Baixa lisboeta.

 

Vejamos então.

 

A partir de 1590, o empresário, diríamos hoje, Fernão Dias de la Torre, castelhano de origem e de cultura, organiza em Lisboa o que se pode considerar o primeiro espaço público de espetáculos, o chamado Pátio das Arcas, situado na zona que hoje corresponde mais ou menos à Rua Augusta. Para tal, obtém autorização do Hospital de Todos os Santos. E assim prossegue uma atividade de produção de espetáculos.

 

Ora o que é mais curioso é que a zona consagra pelo menos desde aí uma vocação, digamos assim, para a realização de espetáculos e de espaços musicais e teatrais. E assim, em 1619, portanto há exatos 400 anos, inicia atividade o chamado Pátio das Fangas da Farinha, próximo do que viria a ser o Tribunal da Boa Hora.

 

Em 21 de novembro de 1622 o Município de Lisboa emite um documento divulgado por Eduardo Freire de Oliveira em 1888 (in “Elementos para a História do Município de Lisboa”) que citamos na nossa “História do Teatro Português” e que aqui se evoca.

 

Transcreve então Freire de Oliveira:

 

 “A Relação se meteu em perturbar a jurisdição da cidade, mandando derrubar o Pátio das Fangas da Farinha (...) e ora chegando à nossa notícia que o Pátio da Rua das Arcas estava em notável perigo de arruinar e cair com o peso da gente se ordenou ao vereador do pelouro das obras que com o arquiteto da cidade e mais ministros dela fosse ver a fábrica do dito Pátio da Rua das Arcas e por todos, debaixo de juramento, foi dito que a obra estava fraca e notável risco de vira abaixo com o peso da gente, o que acontecendo, o que Deus não permita, mataria e estropiaria muita gente (...) deem licença a este Senado que mande concertar o das Fangas da Farinha”...!

 

Quer dizer: já nessa altura os poderes públicos se envolviam em problemas de gestão da infraestrutura de espetáculos!...

 

DUARTE IVO CRUZ 

O TEATRO CARLOS MANUEL DE SINTRA

 

Há anos, já aqui fiz referência ao conjunto de projetos de Norte Júnior, ligados a espetáculos: designadamente o edifício da Voz do Operário, o Cinema Max, o Cinema Royal ou a Sociedade Amor da Pária.  

 

Acresce agora que recebi convite do Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Basílio Horta, para participar como orador na conferência intitulada “Teatro em Sintra – O Estado da Arte”, iniciativa da Câmara, que teve lugar na sala Vergílio Ferreira da Biblioteca Municipal.

 

E não resisto a evocar a única peça conhecida de Vergílio Ferreira, de seu nome “Redenção”, conflito existencial de um poeta que se isola da sociedade e que morre no terror desse isolamento. 

 

Mas voltando ao Teatro Carlos Manuel.

 

Tive o gosto de conhecer pessoalmente o arquiteto Norte Júnior, por ter passado numerosos verões no chamado Bairro das Flores em Sintra, na casa dos meus pais - próxima da sua e projeto dele próprio - e de ter assistido a numerosíssimos espetáculos de teatro, cinema e concertos no então denominado Cine-Teatro Carlos Manuel, também projeto de Norte Júnior, inaugurado em 1948.

 

Era na época o grande referencial de lazer e cultura de espetáculo – que não só de cinema, note-se, em Sintra. 

 

E é de referir que o Teatro Carlos Manuel hoje denominado Auditório Olga Cadaval, situa-se mesmo ao lado do antigo Casino de Sintra, novamente de Norte Júnior, este inaugurado em 1929, também com sala de espetáculos. E nela terá atuado por exemplo o grande cantor Tito Schipa, nada menos: nome então determinante na arte do canto, e ainda hoje na memória de historiadores das artes do espetáculo. Posteriormente foi lá instalada a Biblioteca Municipal.

 

Em 1985, um incêndio quase destruiu o Cine-Teatro Carlos Manuel. A Câmara adquire-o dois anos depois e procede ao restauro do edifício, como dissemos agora chamado Auditório Olga Cadaval.  Mas do antigo Carlos Manuel, pode recordar-se, como noutro lado escrevi, a modernidade da decoração em madeira e estuque, numa harmonia arquitetónica e decorativa com a fachada.

 

 E muito ao estilo da época, o chamado segundo balcão tinha acesso por uma porta, uma bilheteira e uma escadaria diferentes, “isolando” dessa forma os espetadores com bilhetes mais baratos!...

 

Tudo isso desapareceu. Mas foi construído no edifício um prolongamento que se intitulou Auditório Jorge Sampaio com cerca de 300 lugares.

 

E recordo ainda que em Sintra se estreou em 1959 um espetáculo a partir das peças de Eugene Ionesco “La Leçon” e “Les Chaises”, com encenação de Jacques Mauclair. Era o então chamado Festival de Sintra.

 

Ionesco foi convidado. E tive o gosto de acompanhar Ionesco e a mulher numa visita a Lisboa, juntamente com o meu irmão  Manuel Ivo Cruz! 

 

DUARTE IVO CRUZ

AGUSTINA, DIRETORA DO TEATRO D. MARIA II

 

No artigo anterior, evocou-se Agustina Bessa-Luís nas funções de diretora do Teatro Nacional de D. Maria II, muito marcante nas temporadas de 1991 a 1993.

 

É certo que, na época como de certo modo ainda hoje, as funções não se confundem necessariamente com a direção das temporadas e com os repertórios e elencos respetivos: mas também é certo que antes ou depois daquele período, o prestígio de Agustina necessariamente marcaria não só a direção institucional e administrativa  do Teatro em si, mas certamente também a atividade artística no que se refere à função cultural e operacional da empresa, a gestão administrativa do edifício como património do Estado e até, seja permitido dizê-lo, a tradição do prestigio cultural do Teatro Nacional de D. Maria II, designadamente quando dirigido por um escritor: tradição essa que vinha do tempo de Garrett...!  

 

O certo é que de 1991 a 1993, o Teatro de D. Maria II marcou o meio cultural português pela sua atividade direta de grande e tradicional sala de espetáculos, mas também, simultaneamente, pelo nível de qualidade do repertório e pela atividade complementar, aberta a ações de cultura que transcendem a produção dos espetáculos em si.

 

É obvio que um Teatro, sobretudo do Estado exige um repertório em si mesmo qualificado e com uma dimensão de cultura, sendo certo que isso não obsta evidentemente à variedade dos espetáculos e à recetividade do chamado grande publico. Não deve ser nesse aspeto uma sala elitista, digamos assim: mas terá de ser uma sala qualificada. Na gestão de Agustina, foi o que ocorreu.

 

E de tal forma que, nas temporadas de 91 a 93, encontramos numerosos eventos que, para alem dos espetáculos da Companhia do Teatro em si, abrangem iniciativas de interesse cultural de âmbito interno mas também internacional.

 

Lembramos a esse respeito, designadamente mas não só, a realização de programas, exposições e debates  integrados nos Festivais Internacionais de Teatro,  a cooperação com companhias vindas do exterior, algumas de grande prestígio, e também a escolha de um repertório que simultaneamente apresentava tanto peças e espetáculos nacionais como  estrangeiros: os já referidos Festivais Internacionais de Teatro,  com exposições, ciclos de conferências e ateliers de cultura teatral e musica sobretudo ligados  à função de cultura de um Teatro Nacional.

 

Recordamos então que foram numerosas as iniciativas determinantes da cooperação internacional do Teatro de D. Maria II durante a gestão de Agustina Bessa-Luís.

 

E nesse sentido, poderemos  voltar ao tema.

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DE AGUSTINA BESSA-LUÍS

agustina bessa-luis.jpg

 

Este quadro de celebrações da morte de Agustina Bessa-Luís, ocorrida no passado dia 3 de junho, tinha a escritora-dramaturga 96 anos de idade, leva a uma ponderação-reflexão da sua obra literária sem dúvida, mas também das criações e intervenções que marcaram não só a obra escrita, mas também a criatividade e produtividade do teatro-espetáculo: e tudo isto, numa abrangência de ações, géneros e áreas de intervenção que em si mesmas caracterizam a própria essência do teatro como espetáculo.

 

Porque não é de mais recordar que teatro é texto mas é texto-espetáculo, ou pelo menos tal será a sua essência e vocação.

 

E nesse aspeto, Agustina marcou e sempre marcará o teatro português, como dramaturga, mas também como diretora que foi do Teatro Nacional de D. Maria II e sobretudo como pensadora da própria realidade da arte do teatro, na sua expressão essencial de texto e de espetáculo.

 

E nesse aspeto, importa então recordar algumas das criações/intervenções de Agustina ao longo de dezenas de anos e num somatório devidamente articulado e como tal coerente da diversidade compósita da arte do teatro-espetáculo. Porque, insista-se, o teatro é espetáculo concreto ou potencial.

 

Como dramaturga, estrou-se em 1958 com uma peça que denominou “O Inseparável ou o Amigo em Testamento”. Luis Francisco Rebello qualifica a peça como “comédia enigmática” e sublinha “um eco de existencialismo literário, pouco frequente na nossa dramaturgia, expresso através de uma ação jogada entre o real e o imaginário”. E refere ainda diversas peças para a televisão: “Os Cartazes”, “Xarope de Orgiata”, “Querido Kock”, “Ana Plácido” e “A Bela Portuguesa”.

 

Por minha parte, refiro em particular as afinidades de temática entre “O Inseparável” e “A Bela Portuguesa”. De certo modo, essa peça constitui o cerne do teatro de Agustina e o maior vetor da sua análise existencial.

 

 Cito o que escrevi na “História do Teatro Português”:

 «As reflexões sobre a verdade constituem o cerne de “A Bela” e do teatro de Agustina e o maior vetor da sua análise existencial; Madame Nachan é assim de certo modo, “o amigo em testamento” que não existiu na forma aparente, mas apenas no segundo plano existencial. Ora essa reflexão profunda, que é o mérito e o desafio do teatro de Agustina»... e segue a reflexão sobre o teatro de Agustina Bessa-Luís, com comparações a uma peça sobre Garrett.

 

E voltaremos a referir a intervenção de Agustina na criação, na cultura e na produção do teatro em Portugal.

 

 

DUARTE IVO CRUZ