Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  

De 18 a 24 de setembro de 2023


Autor de “Revelação e experiência do Espírito” (Paulinas), Yves Congar foi um dos grandes teólogos do século XX. Assim, o novo Patriarca de Lisboa fez questão de o referir na entrada solene nas novas funções.


UMA ATITUDE RENOVADORA E ABERTA
Como lembrou Frei Bento Domingues, O.P., dominicano Yves Congar muito lutou e sofreu para publicar as suas investigações que punham em causa tabus, doutrinas e apologéticas que sufocavam a revisão teológica da sua história e impediam as reformas de que precisava para se abrir às outras Igrejas cristãs, ao universo das outras religiões e ao mundo contemporâneo. Nasceu em 1904 e faleceu em Paris a 22 de junho de 1995. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Montparnasse, ao lado da sepultura que evoca a vida do seu confrade e amigo, Marie-Dominique Chenu. A sua vida e a sua obra são uma fonte de inspiração, para quem ama a Igreja e luta para que nunca se esqueça que a sua lei, na graça do Espírito de Jesus Cristo. Elaborou a sua teologia – em constante evolução e revisão – a partir do centro da vida e da história da Igreja Católica, em diálogo com as outras Igrejas cristãs, em escuta do universo das religiões não-cristãs e das correntes que agitam o mundo. Nos anos 30, em face da crescente descrença e indiferença religiosa, sintetizou o seu diagnóstico perspicaz: a uma religião sem mundo sucedeu um mundo sem religião. Acompanhou e marcou os grandes movimentos eclesiais que precederam o Concílio Vaticano II, designadamente no ecumenismo, na teologia do laicado e na reforma da Igreja. Congar afirmou: “As grandes causas que procurei servir chegaram ao Concílio: renovação da Eclesiologia, estudo da Tradição e das tradições, reforma na Igreja, ecumenismo, laicado, missão, ministérios”…


UM NOVO TEMPO
A nomeação de D. Rui Valério como novo Patriarca de Lisboa constitui motivo de alegria e de esperança num momento especialmente importante e exigente na vida da Igreja entre nós, perante inúmeros desafios marcados pelo período sinodal e pela necessidade de mobilizar energias no sentido de superar graves dificuldades recentes, de aproveitar o impulso das Jornadas Mundiais da Juventude e de apresentar à sociedade um sentido de renovação e de responsabilidade. É de bom augúrio a declaração do novo Patriarca segundo a qual se propõe dar à Igreja de Lisboa o que tem dado sempre ao longo da sua vida sacerdotal e como bispo: através da presença e da proximidade. “Vou ser um bispo da estrada, um bispo da rua, um bispo junto das pessoas. E é nessa ótica que vou concretizar e alinhar a minha ação”. Esta ideia de caminho, de atenção às periferias e de mobilização de todos, no sentido que tem sido dado pelo Papa Francisco, constitui um sinal forte e necessário.

A declaração solene feita no momento de entrada na diocese constitui um motivo de reflexão e de responsabilidade para toda a Igreja. «Tal como sempre, também hoje, à Igreja, incumbe a grave responsabilidade de indicar o verdadeiro alimento, a verdadeira água, e oferecê-lo. É essa a sua missão urgente». E não é por acaso que à presença necessária se junta o sentido da urgência. E continua D. Rui Valério: «Como já anotava o teólogo Yves Congar, acerca da pertinência da missão evangelizadora, conservando uma desarmante atualidade: “o nosso mundo já não está naquela espécie de harmonia e homogeneidade com a cultura católica, com os seus símbolos, com as formas de expressão católicas. Simplesmente é profano, secular, laico; é científico e técnico; mas também, cada vez mais, utilitário, hiper sensual, violento, afrodisíaco. Em larga medida é ateu, não porque esteja demonstrada a inexistência de Deus, mas porque se constrói cada vez mais fora da perspetiva de Deus e do seu culto. E Congar rematava: hoje, exigem-se gestos verdadeiros, uma palavra simples e verdadeira, sinais fortes e compreensíveis. Quer-se que a liturgia seja de Alguém, que seja expressão da sua alma e, por isso, que envolva e diga respeito à vida». E nesse sentido o Patriarca afirmou, no sentido do tom geral da Jornadas da Juventude: «Queremos ser Igreja Missionária que, ao estilo de Maria, se levanta apressadamente para a montanha do mundo e da humanidade.» Importa, assim, seguir um caminho audacioso e seguro, permitindo-nos exprimir gratidão e homenagem ao Cardeal D. Manuel Clemente, anterior Patriarca, pelo que realizou, pelas fecundas sementes que deixou e pelo muito que ainda tem para nos dar, na ação e no exemplo.


LEMBRAR A HISTÓRIA
Lembremos que Lisboa tem uma presença da Igreja Católica que vem dos primeiros séculos do Cristianismo. Foi elevada a metrópole eclesiástica, em 1393, tendo em 1716 o Papa Clemente XI, pela Bula de 7 de novembro, «In Supremo Apostolatus Solio», criado o Patriarcado de Lisboa, primeiro na Capela Real, em Lisboa Ocidental, estendendo-se em 1740 o referido estatuto a Lisboa Oriental. A decisão envolveu um acontecimento eclesial e régio. As razões que levaram o Papa a esta concessão inédita, diferente da de Veneza, que recebeu o título patriarcal já existente no Adriático, têm a ver imediatamente com a armada enviada por D. João V para deter o avanço turco no Mediterrâneo, seguindo um apelo insistente do referido Papa Clemente XI. A este facto, associa-se o zelo missionário de Portugal. Foi na verdade o auxílio prestado por D. João V ao Pontífice que decidiu a Santa Sé a reconhecer a importância da antiga capela real portuguesa. Assim a célebre embaixada do Marquês de Fontes (1712), enviada a Roma para defender o padroado português do Oriente e conseguir também o título patriarcal de Lisboa, obteve resultados positivos, graças ao auxílio político contra os turcos, que o Papa recompensou excelentemente. Pode dizer-se, contudo, que é o zelo missionário a razão decisiva para a permanência deste estatuto – que recorda os cinco patriarcados clássicos, Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém e se prolonga no Patriarcado da Índias Orientais, de Goa e Damão. O primeiro Patriarca de Lisboa foi D. Tomás de Almeida (1670-1754), notável teólogo, que veio do Porto para Lisboa, acompanhando D. João V até ao fim do seu longo reinado. Refira-se ainda, neste mês, o início do Ano Jubilar Vicentino, recordando o primeiro padroeiro da Cidade de Lisboa, São Vicente, cujas relíquias chegaram a Lisboa no dia 15 de setembro de 1173 e ficaram primeiro depositadas na Igreja de Santa Justa, sendo transladadas, no ano seguinte, para a capela-mor da Sé. Para assinalar a efeméride o Patriarcado de Lisboa, o Cabido da Sé e a Câmara Municipal de Lisboa concordaram numa série de celebrações comemorativas, em curso. 


Guilherme d'Oliveira Martins

ANTOLOGIA

  


UN TEOLOGO EN LA MUERTE…
por Camilo Martins de Oliveira 


Minha Princesa de mim,


Escreveu-me a NC um bilhete, gratificante para mim, sobre umas reflexões que me ouvira durante o jantar em casa dos C de T. Referia-se à minha meditação sobre o amor como comunicação, procura do outro, movimento perpétuo, e a perplexidade como desamor, paragem. Perplexo - até na sua raiz latina - é o que está atado, embaraçado, ou seja, confuso, indeciso, condenado ao imobilismo. O amor não sabe lidar com a perplexidade, porque é necessariamente generoso e a generosidade é uma atitude da alma como gesto para o outro. "Generositas", em latim, quer dizer nobreza, aquilo que tem qualidade; o seu radical é "genus" que significa nascimento, origem. E, assim também, genuíno se diz do que é verdadeiro, autêntico, inato. O amor é verdade marcada, desde o início, no coração dos homens. É princípio e fim de tudo. Não hesita, é um impulso vital. Quando ocorre a morte de um ente querido, ou nos escandaliza o sofrimento, a miséria, o mal espalhado pelo mundo, há um momento de perplexidade em nós, como se Deus nos tivesse traído. Até Cristo gritou, do alto do martírio da sua cruz: "Pai, porque me abandonaste?" O impulso genético do amor esbarra no absurdo. Só sabemos, então, que o absurdo não se explica. E hesitamos entre essa perplexidade - que nos fecha a Deus, aos outros, ao mundo, e nos imobiliza na impotência - e o amor que nos abre e empurra para fora de nós, ao encontro do outro. A escolha será nossa: amor e perplexidade não são compatíveis. Parafraseando o Ortega y Gasset ("el hombre es un transfuga de la naturaleza"), diria que o amor é um trânsfuga da condição individual: só se torna atual se nos transcendermos por pensamentos, palavras e obras que não nos confinem na paixão dos nossos limites. Quem passou pelo sofrimento de um amor traído, ou de uma amizade esquecida, saberá melhor o que custa, afinal, ser fiel: porque, quando ficou perplexo, terá tido ganas de acusar o outro, de se vingar, fazendo-o sofrer, tornando-o expiatório. Talvez ainda, quando mais resignado a uma fatalidade sofrida como injustiça, fosse tentado a quedar-se na perplexidade, rendido à amargura e à desilusão. Ou, quiçá, tenha feito da sua mágoa uma oferta, guardando serenamente no coração o amor como dom... Dom de si na comunhão de todos, nessa comunicação inesgotável com o nosso ser universal. O amor põe-nos na eternidade, vem do princípio antes de nós e vai até além de qualquer limite que possamos conceber. Recordo "Un teólogo en la muerte", do Jorge Luis Borges, inspirado num relato dos "Arcania Caelestia" de Emanuel Swedenborg: «Los ángeles me comunicaron que quando falleció Melanchton, le fué suministrada en el otro mundo una casa ilusoriamente igual a la que habia tenido en la tierra. (A casi todos los recién venidos a la eternidad les sucede lo mismo y por eso creen que no han muerto). Los objetos domesticos eran iguales: la mesa, el escritorio con sus cajones, la biblioteca. En cuanto Melanchton se despertió en ese domicilio, reanudó sus tareas literarias como si no fuera un cadáver y escribió durante unos días sobre la justificación por la fe. Como era su costumbre no dijo una palabra sobre la caridad. Los ángeles notaran esa omissión y mandaron personas a interrogarlo. Melanchton les dijo: "He demonstrado irrefutablemente que el alma puede prescindir de la caridad y que para ingresar en el cielo basta la fe." Esas cosas les decía con soberbia y no sabia que ya estaba muerto y que su lugar no era el cielo. Cuando los ángeles oyeron esse discurso lo abandonaran”». O conceito de justificação pela fé, do protestante Melanchton, mesmo com o pensamento na suposta libertação dos fiéis cristãos da tutela uniformizadora da doutrina e da prática religiosa impostas pela igreja católica, resultará finalmente em fundamentalismos exclusivistas, essencialmente análogos ao espírito da Santa Inquisição. Como se a verdade que cada um entende -  e em que acredita - fosse superior ao amor que, à imagem e semelhança de Deus, deve ser comum a todos. "Ama e faz o que queres", disse Agostinho. "Ubi est caritas ibi Deus est", diz a tradição do ensinamento de Jesus. O único antídoto para a concupiscência -  que é pensar e fazer por si sem ver o Outro - é o bem-querer, é a humildade intangível de querer o bem. O que está inscrito, no coração dos homens, não é esta ou aquela fé. É simplesmente a fé no amor que se comunica e salva todos. Poderei crer que a forma de fé que professo seja aquela em que melhor se revela e realiza o amor primordial. E nesse movimento quererei comunicá-la. Sem nunca me esquecer de que não sou dono do amor. Assim também, no amor humano, o que vale não é o que no outro mais me agrada ou desagrada. É, tão difícil e simplesmente, a procura da comunicação. Mesmo a comunhão dos santos não é uma uniformidade, nem há comunhão se não houver diferença. Comungar é juntar em paz, num só corpo, as nossas diferenças. No seu diário íntimo, Alma Werfel que, nesse mês de janeiro de 1902, viria a chamar-se, pelo casamento com Gustav - o compositor, maestro e diretor da Ópera de Viena - Alma Mahler, escreve: " Ele quer mudar-me, mudar-me completamente. E eu também quero. Consigo-o enquanto estou a seu lado - mas basta-me ficar sozinha para que o meu outro eu, esta cabeça má e vaidosa, tenha vontade de reaparecer...  ... Ontem à tarde, suplicou-me que lhe falasse - e eu não consegui encontrar uma única palavra calorosa. Nem uma. Chorei. E nada mais...".  Alberto Moravia conclui o seu romance sobre o amor conjugal com este diálogo, numa igreja em ruínas, mas acolhedora, entre o narrador e sua mulher, já com história feita de encontros e desencontros: "- Penso que, daqui a uns tempos, quando nos conhecermos melhor, deverás, como ontem à noite dizias, recomeçar a escrever este romance... e tenho a certeza de que farás uma coisa bem feita! (diz a mulher). Não respondi e limitei-me a acariciar-lhe a mão. Mas por cima do seu ombro vislumbrei o capitel com cara de demónio, e pensei que, para retomar o meu romance, precisaria não só de conhecer o diabo tão bem como o canteiro que o esculpira, mas de conhecer igualmente o seu contrário. - Precisarei de muito tempo... - disse, com doçura. E estas palavras, pronunciadas em voz alta, concluíram o meu pensamento". E termino eu mais esta etapa da nossa digressão pelo labirinto claro da mente de Camilo Maria. Recordando a afirmação que encerra o "Some like it hot" do Billy Wilder: "Nobody is perfect!"


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 10.05.13 neste blogue

NATAL: O EMMANUEL

moises.jpg

          

       Há já alguns anos, o meu bom e ilustre amigo, o eurodeputado Paulo Rangel, e eu tivemos uma conversa muito agradável para mim sobre (imagine-se) Deus e a tentativa de dizê-lo e nos relacionarmos com Ele. Dela resultou um texto de Paulo Rangel, com o significativo título “Deus é Aquele que está”. Numa longa entrevista recente a Inês Maria Meneses, voltou ao tema, confessando a sua fé no Deus de Jesus, o Emmanuel, o “Deus connosco”. Para ele, Deus é “Aquele que está”, Deus não é “esse ser distante e estático” construído a partir da ontologia grega, o Deus que é, “mas antes o ser próximo e interactivo que está e estará connosco, Aquele que acompanha, Aquele que não abandona. Deus é Aquele que está, o Emmanuel.”

      Concordando plenamente com o amigo Paulo Rangel, volto, já em pleno Natal, ao tema, essencial nesta data. De facto, corre-se permanentemente o perigo de esquecer o determinante, já não referindo sequer a ameaça de se ficar amarrado a um consumismo devorador e à concorrência dos presentes: tenho de dar isto e aquilo de presente, para não ficar mal; não posso esquecer este, esta, e aquele, aquela, porque no ano passado também deram…  É preciso parar e reflectir, em primeiro lugar, para se não ficar encerrado em dogmas, quando a fé cristã se dirige a uma pessoa, Jesus confessado como o Cristo (o Messias) e, através dele, a Deus que Jesus revelou como Pai e poderemos e deveremos também dizer como Mãe, com todas as consequências que daí derivam para a existência.

       O que diz o Credo cristão, símbolo da fé? “Creio em Jesus Cristo. Gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, ressuscitou ao terceiro dia.” Segundo a fé cristã, isto é verdade? Sim, é verdade. Mas segue-se a pergunta fundamental: o que deriva dessas afirmações para a nossa existência de homens e mulheres, cristãos ou não? O Credo é teologia dogmática, especulativa, em contexto linguístico da ontologia grega. Ora, a teologia dogmática tem que ver com doutrinas e dogmas, com uma estrutura essencialmente filosófica. Pergunta-se: os dogmas movem alguém, convertem alguém, transformam a existência para o melhor, dizem-nos verdadeiramente quem é Deus para os seres humanos e estes para Deus?

      Exemplos mais concretos, um do Antigo Testamento e outro do Novo, até para se perceber a passagem do universo hebraico em que Jesus se moveu e o universo grego no qual aparecem redigidos os Evangelhos. No capítulo 3 do livro do Êxodo aparece a manifestação de Deus na sarça ardente e Moisés dirige-se a Deus: se me perguntarem qual é o teu nome, que devo responder-lhes? E Deus: “Eu sou aquele que sou”. Dir-lhes-ás: “Eu sou” enviou-me a vós. A fórmula em hebraico: ehyeh asher ehyeh (“eu sou quem sou”, “eu sou o que sou”) é o modo de dizer que Deus está acima de todo o nome, pois é Transcendência pura, que não está à mercê dos homens, mas diz também (a ontologia hebraica é dinâmica) o que Deus faz: Eu sou aquele que está convosco na história da libertação, que vos acompanha no caminho da liberdade e da salvação. Depois, com a tradução dos Setenta, compreendeu-se este ehyeh asher ehyeh como “Eu sou aquele que é”, “Eu sou aquele que sou”, o Absoluto. Filosofando sobre Deus, a partir daqui, Santo Tomás de Aquino dirá que Deus é “Ipsum Esse Subsistens” (O próprio ser subsistente), Aquele cuja essência é a sua existência. Isto é verdade, mas significa o quê para iluminar a existência? Perdeu-se a dinâmica do Deus que está presente e acompanha a Humanidade na história da libertação salvadora.

     No Novo Testamento, João Baptista, preso, mandou os discípulos perguntar a Jesus se ele era o Messias. Jesus não afirmou nem negou. Mas deu uma resposta existencial, prática: “Ide dizer-lhe o que vistes e ouvistes: os coxos andam, os cegos vêem, a Boa Nova é anunciada, a libertação avança, a salvação está em marcha”.

     O que é que isto significa? A teologia, a partir da Bíblia, é, antes de mais, teologia narrativa e não dogmática. Quer dizer: tem uma estrutura existencial, histórica. Na teologia especulativa, o centro de interesse é o ser; na teologia narrativa, o decisivo é o que acontece. Assim, na perspectiva cristã, o essencial consiste na pergunta: O que é que acontece quando Deus está presente? Na linha dogmático-doutrinal, exige-se e até se pode dar um assentimento intelectual, subordinando-se, mas a existência continua inalterada. Corre-se então o perigo de uma “fé” em fórmulas doutrinais coisistas, petrificadas, sem qualquer transformação da vida. Ora, a vida cristã, se quiser ser verdadeiramente cristã, no discipulado de Jesus, tem de ser determinada mais pela ortopráxis do que pela ortodoxia (sem menosprezo, evidentemente, pela ortodoxia, segundo uma hermenêutica adequada): Jesus louvou a cananeia pela sua fé, que não era ortodoxa, deu como exemplo o samaritano, que não seguia a ortodoxia, mas praticava a misericórdia, e, sobretudo, leia-se o Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 25 sobre o Juízo Final, no qual não há perguntas sobre fórmulas teóricas religiosas, mas sobre a prática: “Destes-me de comer, de beber, vestistes-me, visitastes-me na cadeia e no hospital...”.

     A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem de dignificação de todos, mensagem que mudou a História. Bom Natal!

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 24 de dezembro de 2022

A VIDA DOS LIVROS

  

De 19 a 25 de setembro de 2022


João Manuel Duque, autor de “Dizer Deus na Pós-Modernidade” (Alcalá, 2003), recebeu o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes. Damos conta das palavras que proferiu na cerimónia de entrega do galardão.
 


O CONFRONTO COM A TECNOLOGIA
Na cerimónia de entrega do Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, o teólogo João Manuel Duque, agraciado este ano, afirmou estarmos perante a tentação da prevalência de posições extremas, na relação entre a humanidade e a tecnologia entre quem sonha “com uma espécie de divinização do humano através da sua transformação e transfiguração tecnológica, e da demonização da tecnologia”. Essas duas atitudes correspondem, porém, a um mesmo deslumbramento (e submissão) relativamente às inovações da tecnologia, tantas vezes sob o esquecimento do carácter permanente e irrepetível da humanidade. No fundo, importa saber qual o impacto dos recursos digitais e da internet sobre as sociedades e as pessoas. A vontade, a autonomia, a consciência e o livre arbítrio não podem deixar de estar presentes nesse confronto. Daí a necessidade de distinguir os fins e os meios. A pessoa humana e a dignidade estão no domínio dos fins, enquanto as tecnologias, a inteligência artificial e os robôs se encontram no campo dos instrumentos, ao serviço das pessoas.  


Importa debater, “de forma mais equilibrada o impacto antropológico da tecnologia e as transformações que comporta, seja a nível psíquico seja a nível social”, sendo impossível pensar os humanos reais do nosso tempo sem essa dimensão. Nesse sentido, “o discurso teológico não é, em primeiro lugar, apenas para ambientes eclesiais”, devendo as comunidades que aí se movem “estar permanentemente envolvidas e interessadas nas questões significativas da humanidade, sobretudo naquelas que tocam a convicção fundamental do que seja humano e do que seja o seu sentido sobre a Terra”. A teologia deve, por isso, “falar para fora, a partir de dentro, e falar para dentro a partir de fora. E isso não como alternativa”, mas sim num movimento permanente de vaivém, envolvendo quem se move dentro e fora dos meios eclesiais. De facto, a ideia de um dentro e de um fora da Igreja – ou do mundo – é problemática, por ser rigidamente dualista. “Distinguir é benéfico e mesmo necessário; mas separar é, normalmente, prejudicial ou mesmo perigoso”. Urge deste modo, evitar a confusão entre o humano e o divino, assim como nunca poderemos separá-los, como mundos diferenciados e à parte. O pensamento teológico exige, assim, uma inserção cultural. Por isso, a teologia que se pratica entre nós é uma teologia contextualizada na Europa, devendo, no entanto, ainda considerar-se a sua relação com o resto do mundo.


PENSAR-NOS NA RELAÇÃO COM OS OUTROS
Para João Manuel Duque, estamos perante dois desafios: “pensar-nos em relação aos outros, diferentes de nós; e pensar-nos nos dinamismos internos” da Europa, onde nos encontramos. Quanto ao primeiro aspeto, estamos perante a possibilidade de desenvolvimento de uma fértil relação com a América Latina, África e Ásia, em cujos contextos o impacto do pensamento que podemos designar como “decolonial” sobre a teologia se torna evidente. Já quanto ao segundo aspeto, há dois caminhos possíveis: por um lado, a relação da teologia com a política de acolhimento do que é diferente e outro, nomeadamente na questão das migrações e dos refugiados. Uma teologia completamente alheia a esta questão seria uma teologia incapaz de compreender a realidade. Complementarmente, no caminho alternativo importa compreender a relação da teologia com o mundo da cultura, nomeadamente com o mundo das artes, no sentido mais abrangente da criação. E então estamos perante fatores desafiantes, que procuram interpretar o mundo que nos cerca, através de formas que se aproximam do discurso teológico.


QUE PÓS-MODERNIDADE?
Quando João Manuel Duque escreveu “Dizer Deus na Pós-Modernidade” (2003), Eduardo Prado Coelho considerou tratar-se de uma obra referencial que merecia uma especial atenção. Para o autor, “sendo a teologia de sempre uma tentativa, simultaneamente renovada e inculturada, de articular Deus num discurso humano, a teologia contemporânea – pelo menos no mundo dito ocidental – não poderá ser outra coisa, senão a constante procura de dizer Deus na pós-modernidade. Mas a abordagem do espaço e tempo culturais, considerando o mundo que habitamos em termos de ‘pós-modernidade’, exige ainda uma elaboração crítico-reflexiva vasta e alargada”. Por isso, esboçar uma teologia na pós-modernidade pressupõe a análise atenta da cultura e do pensamento pós-modernos, “tarefa a que nenhuma teologia atual pode esquivar-se, quer venha a enfrentar esse contexto de forma radicalmente crítica, quer pretenda torná-lo fértil no seu próprio interior”. Assim se compreende a referência e a atenção dada a autores como Hans Urs von Balthasar, na consideração do amor como plenitude metafísica; Eberhard Jüngel, ao referir a morte de Deus por amor; Johann Baptist Metz, interrogador das histórias da História; Jean-Luc Marion, estudioso da superação da idolatria metafísica; e Georg A. Lindbeck, que se preocupa com os limites da intra-textualidade. Isto, sem esquecer H.-G. Gadamer, com quem compreendemos que “o intérprete tem o dever de entrar em diálogo com a realidade de que se fala nas narrativa”. E assim a hermenêutica é sempre dialética, visando a compreensão do texto teológico e sempre a necessidade da compreensão de si mesmo. E temos de lembrar ainda Nietzsche e a tensão que existe com o cristianismo, no tocante ao facto de Deus poder ser mediador da afirmação do homem e o homem mediador da afirmação de Deus. No fundo, o trabalho de uma teologia pós-moderna é imenso, quer se trate da desconstrução de perspetivas modernas ou mesmo pré-modernas, quer se trate do desaparecimento de categorias que se nos tinham tornado habituais, que se trate da redescoberta de temáticas ou perspetivas já antigas e algo esquecidas pela modernidade.


Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

DEUS E OS VENCIDOS

Auchwitz.jpg

 

A razão iluminista tinha como desígnio a reconciliação e emancipação plena do Homem. Mas, de facto, sem esquecer evidentemente conquistas irrecusáveis, como, por exemplo, as Declarações dos direitos humanos nas suas várias gerações, deparamos com duas guerras mundiais e as suas muitas dezenas de milhões de mortos, o comunismo mundial e também os seus milhões e milhões de vítimas, deparamos com Auschwitz e o Goulag, o fosso cada vez mais fundo entre a riqueza e a miséria, a Natureza ferida, a desorientação e o vazio de sentido...

E, desgraçadamente, sabemos que o número das vítimas não cessará de aumentar, de tal modo que frequentemente a História nos aparece, como temia Walter Benjamin, à maneira de um montão de ruínas que não deixa de crescer. Mas, mesmo que fosse possível realizar no futuro uma sociedade totalmente emancipada e reconciliada, nem assim, desde que iluminada pela memória, a razão poderia dar-se por satisfeita, pois continuariam a ouvir-se os gritos das vítimas inocentes, cujos direitos estão pendentes, pois não prescrevem.

O teólogo Johann Baptist Metz não se cansou de repetir, com razão, que só conhecia uma categoria universal por excelência: a memoria passionis, isto é, a memória do sofrimento. Se a História não há-de ser pura e simplesmente a história dos vencedores, se a esperança tem de incluir a todos, quem dará razão aos vencidos?

A autoridade do sofrimento dos humilhados, dos destroçados, de todos aqueles e aquelas a quem foi negada qualquer possibilidade é ineliminável. Trata-se de uma autoridade que nada nem ninguém pode apagar, a não ser que o sofrimento não passe de uma função ou preço a pagar para o triunfo de uma totalidade impessoal. Mas precisamente o sofrimento, que é sempre o meu sofrimento, o teu sofrimento, como a morte é sempre a minha morte, a tua morte, é que nos individualiza, dando-nos a consciência de sermos únicos, de tal modo que nenhum ser humano pode ser dissolvido ou subsumido numa totalidade anónima, seja ela a espécie, a história, uma classe, o Estado, a evolução... O sofrimento revela o outro na sua alteridade, que nos interpela sem limites.

Assim, se as vítimas têm razão - a razão dos vencidos, como escreveu o filósofo Reyes Mate -, com direitos vigentes que devem ser reconhecidos, não se poderá deixar de colocar a questão de Deus, um Deus que as recorde uma a uma, pelo nome, chamando-as à  plenitude da Sua vida. "Essa é a pergunta da filosofia", dizia Max Horkheimer, da Escola Crítica de Frankfurt. Mas é claro que para essa pergunta só a fé e a teologia têm resposta. Ele próprio o reconheceu, ansiando pelo “totalmente Outro”.

Se a História do mundo tem uma orientação, ela só pode ser a liberdade. Ser Homem, ser livre e ser digno identificam-se. Com razão, I. Kant não se cansou de repetir que o respeito que devo aos outros ou que os outros podem exigir de mim é o reconhecimento de uma dignidade, isto é, de um valor que não tem preço. O que tem preço pode ser trocado: é meio. O Homem não tem preço, mas dignidade, porque é fim em si mesmo.

Quando nos interrogamos sobre o fundamento da dignidade do Homem, encontramo-lo no seu ser pessoa. Pela liberdade, a pessoa está aberta ao Infinito. Se se reflectir até à raiz, concluir-se-á que o fundamento último dos direitos humanos é nesse estar referido estrutural do Homem ao Infinito que reside: nessa relação constitutiva à questão do Infinito, à questão de Deus precisamente enquanto questão (independentemente da resposta, positiva ou negativa, que se lhe dê), o Homem aparece como fim e já não como simples meio.

O Homem é senhor de si, autopossui-se, e é capaz de entregar-se generosamente a si próprio a alguém e por alguém. A Humanidade faz a experiência de si como história de libertação para mais humanidade, portanto, para mais liberdade. O Homem indigna-se desde o mais profundo de si contra a indignidade, revolta-se contra toda a violação arbitrária e impune da justiça e do direito, e é capaz de dar a vida pela dignidade da humanidade em si próprio e nos outros seres humanos.

Houve muitos homens e mulheres que, ao longo da História, livremente, morreram por essa dignidade. Mas mesmo que tivesse havido apenas um a fazê-lo, seria inevitável perguntar: o que é isso que vale mais do que a vida física?

Precisamente aqui, nesta experiência-limite, deparamos com o intolerável: como é que pode ser moralmente admissível que quem é sumamente digno, pois se entrega até ao sacrifício de si pela dignidade, morra, desapareça e apodreça, vencido para sempre? Por isso, neste acto de suma dignidade, encontramos um dos lugares em que a questão de Deus enquanto questão é irrenunciável e irrecusável.

A experiência do Deus bíblico surge essencialmente da experiência do intolerável de as vítimas inocentes serem entregues para sempre à injustiça. O Deus bíblico é definitivamente um Deus moral: é o Deus que não esquece os vencidos.

Por isso, a História não é um continuum, onde a razão estaria permanentemente do lado dos vencedores. A História está aberta ao salto último da meta-história, à Palavra definitiva que só Deus pode pronunciar, Palavra que ressuscita os mortos e reconhece para sempre às vítimas os seus direitos. Sem esse reconhecimento definitivo da dignidade de todos, bem e mal, justiça e injustiça, honra e cinismo, verdade e mentira, dignidade e indignidade, tudo é igual, pois, como escreveu Bernhard Welte, tudo seria para nada, já que irá ser engolido pelo nada para sempre.

 

 Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 de fevereiro de 2022

PODER E AUTORIDADE

Ceia de Emaús de Rembrandt.jpg

 

No Evangelho, as três tentações de Jesus estão todas relacionadas com o poder. Antes de iniciar a sua vida pública, Jesus teve de decidir se queria ser um Messias político, do poder, ou um Messias do amor, do serviço. Foi por esta segunda via que seguiu: "Eu não vim para ser servido, mas para servir", e servir até dar a vida, dar a vida para testemunhar a verdade e o amor. A verdadeira tentação, segundo o Evangelho, é a do poder, no sentido da dominação.

Evidentemente, em qualquer sociedade o poder é inevitável, tem de haver instâncias de poder. Toda a questão consiste em saber como é que ele é exercido e com que finalidade. Quantos se lembram de que Ministro, etimologicamente, significa pura e simplesmente servente, aquele que serve? Primeiro-Ministro é o que está à frente no serviço. Por isso, Jesus disse aos discípulos, também ao Papa, bispos, cardeais, padres: "Sabeis que os chefes das nações governam-nas como seus senhores. Não seja assim entre vós; pelo contrário, quem quiser fazer-se grande entre vós seja vosso servo".

Jesus renunciou ao poder enquanto domínio, mas é referido frequentemente no Evangelho que ensinava com autoridade. A palavra autoridade vem do verbo latino augere, que significa aumentar, fazer crescer. Ter autoridade tem, portanto, a ver com fazer aumentar no ser. Cá está: servir. O poder legitima-se enquanto serviço de fazer crescer na liberdade e na dignidade, na realização plena de todos os seres humanos em todas as dimensões... Presidentes, ministros, bispos, jornalistas, pais, professores, padres, polícias... exercem legitimamente o poder enquanto autoridade, quando ele faz crescer, quando preserva e aumenta a dignidade humana... Assim, não são apenas os súbditos que devem obedecer. A palavra obediência também tem a sua origem no latim: obaudire, que significa ouvir. Então, os que têm poder são os primeiros a ter de obedecer, isto é, a ter de ouvir aqueles que precisam que lhes seja feita justiça, ouvir a própria consciência, ouvir o apelo de todos os que clamam por mais liberdade e dignidade...

Não há superiores e inferiores. Há apenas homens e mulheres iguais em dignidade. E alguns estão constituídos em poder, que devem exercer como serviço a essa dignidade inviolável.

A grande tentação da Igreja, ao longo da sua história, foi e é o poder. Mas então esqueceu e ignorou o Evangelho. Escreveu, com razão, Miguel Baptista Pereira: "Perdido o sentido do Mistério, instala-se a 'indoutrinação' e a administração definitiva do Absoluto e consagra-se a intangibilidade dos seus burocratas, não fosse dilema humano o serviço do Mistério ou a vontade ilimitada de poder".

A novidade do Deus cristão, revelado em Jesus, é que Ele é poderoso, infinitamente poderoso, mas o Seu poder não é de domínio, mas de criação: Força infinita de criar. Fez-nos livres, para estabelecer connosco uma aliança. Com todas as consequências...

Aí está a razão por que, quando se fala em Igreja, é difícil não se ser imediatamente confrontado com alguma situação de desconforto. De facto, a Igreja aparece frequentemente como uma hierarquia soberana e longínqua, que comanda, que proíbe, não se percebendo muitas vezes se essas ordens e proibições querem realmente o bem das pessoas ou, se, pelo contrário, não são expressão disfarçada de interesses económicos e políticos, enfim, do poder...

Num primeiro momento, pelo menos, a Igreja surge como uma hiperorganização. Mas não deveria ser assim. De facto, a palavra igreja em português (iglesia em castelhano, église em francês) vem do grego Ekklesía. Ora, a Ekklesía era a assembleia do povo. No alemão (Kirche), no inglês (Church), etc., a origem é outra: Kyrike (forma popular bizantina), com o significado de "pertencente ao Senhor" (Kyrios) e, por extensão, "casa ou comunidade do Senhor". De qualquer modo, na dupla etimologia, a Igreja, no Novo Testamento, significa a assembleia daqueles que acreditam em Cristo, que crêem nele como o Messias e se tornaram seus discípulos, querendo, portanto, segui-lo, fazendo durante a vida o que ele fez e confiando nele na própria morte, esperando também a ressurreição. A Igreja desde o início considerou-se a si mesma como a assembleia dos fiéis a Cristo, dos que pertencem ao Senhor: o sinal dessa pertença era o baptismo e reuniam-se, celebrando, na Ceia, a sua memória, até que Ele venha.

Evidentemente, sendo constituída por homens e mulheres, a Igreja precisou de dar-se a si mesma o mínimo de organização. Por isso, nela, há diferentes funções e serviços. A palavra correcta é precisamente serviços. Significativamente, o Novo Testamento não fala de hierarquia (poder sagrado), mas de diakonia, que quer dizer ministério, serviço (mas também os Ministros dos Governos não esqueceram já que ministro é aquele que presta um serviço?).

Que é que isto tudo quer dizer? A Igreja não é, na sua raiz, uma hiperorganização, mas assembleia convocada por Deus e reunida em Cristo. Então, o Papa, antes de ser Papa, é cristão; o bispo, antes de ser bispo, é cristão, um seguidor de Cristo; um cardeal, um cónego, um padre são discípulos de Cristo, que têm uma missão de serviço. Que devem servir, precisamente como qualquer cristão. Não há de um lado a hierarquia que manda e do outro os cristãos leigos que obedecem. Há sim a comunidade dos que acreditam em Cristo, que procuram ser seus discípulos e que prestam serviços uns aos outros e a todos, segundo os dons e as tarefas que foram dados a cada um para bem de todos.

  

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 11 de dezembro de 2021

"AS MULHERES SEJAM SUBMISSAS AOS MARIDOS"

Caravaggio_MatthewAndTheAngel_byMikeyAngels.jpg

 

Sobre o sexo, as mulheres, as religiões e a Igreja já escrevi aqui muitas vezes. Também em livros que publiquei, incluindo o próximo, O Mundo e a Igreja. Que Futuro?, que espero esteja nas livrarias em finais de Outubro. Retomo hoje o tema muito rapidamente, por causa do “alarido” que houve nos média provocado por uma leitura na Eucaristia de um Domingo passado, transmitida pela televisão pública. Algum esclarecimento é devido.

 

1.  O que se passou é que foi feita uma leitura bíblica a dizer: “As mulheres sejam submissas aos maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o Chefe da Igreja”.

Previno que o texto é da Carta aos Efésios, atribuída a São Paulo, mas a autoria realmente não lhe pertence. Aliás, é preciso dizer que, no cristianismo, com Jesus, que escandalosamente tinha discípulos e discípulas, São Paulo deu um contributo decisivo para a emancipação feminina: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus”, escreveu na Carta aos Gálatas; e na Carta aos Romanos descreve Júnia como ilustre entre os Apóstolos.

 

2.  Todas as religiões se entendem a si mesmas como reveladas. A pergunta é: como sabem os crentes que Deus falou?

A religião tem sempre na sua base uma interpretação humana da realidade, da única realidade que há, comum a crentes e a não crentes, e que é ambígua. Para o crente, a realidade mesma, para a sua compreensão adequada, aparece-lhe como incluindo uma Presença que não se vê em si mesma, mas implicada no que se vê. Mediante certas características - a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido último -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença divina como seu fundamento e sentido últimos. Assim, como escreve A. Torres Queiruga, na estrutura íntima do processo religioso, “não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum”.

A fé, no seu nível próprio, tem razões, de tal modo que está sujeita à verificação.  Aí, o agnóstico dirá que não vê razões para poder decidir-se. O ateu julga que as razões contrárias são mais fortes e, por isso, não crê. Para o crente, a “hipótese religiosa” é a que melhor esclarece as experiências e questões radicais postas pela realidade e pela existência: a contingência, as perguntas últimas pela vida e pela morte, a esperança, a exigência ética, o sentido da existência e da História.

 

3.  A partir de uma experiência religiosa de fundo por parte do profeta ou do fundador religioso, desencadeia-se um processo vivo que dá origem a tradições religiosas ou religiões que acabam por sedimentar ou cristalizar em livros sagrados, considerados “revelados”. Os novos crentes não aceitam a verdade da fé por via autoritativa. Eles próprios podem comprová-la. A. Torres Queiruga, o teólogo que de modo mais penetrante tentou esclarecer esta questão, chamou a esta compreensão “maiêutica histórica”. Na verdade religiosa, há os profetas e os fundadores das religiões, que foram os primeiros a tomar consciência da verdade. Mas, após essa descoberta, ouvindo-os e acompanhando-os, outros se podem dar conta por si mesmos da mesma verdade.

A partir daqui, compreende-se que Deus se manifesta, mas nunca directamente, sempre e só indirectamente. Jamais alguém viu ou falou directamente com Deus. Por isso, os livros sagrados não são um ditado divino – são Palavra de Deus em palavras humanas. Os seus autores escreveram e os seus leitores lêem com uma pré-compreensão, isto é, no quadro de pressupostos históricos e culturais, interesses e expectativas. Portanto, a sua leitura nunca pode ser literal, pois implica sempre uma interpretação.

Torna-se, pois, claro que os livros sagrados – a Bíblia, o Alcorão e todos os outros – não são ditados divinos e precisam, por isso, de uma interpretação histórico-crítica e de uma mediação hermenêutica, não podendo de modo nenhum ser engolidos na sua totalidade de modo acrítico. É preciso lê-los, atendendo à língua original, ao género literário, aos destinatários, ao contexto...

A verdade de qualquer livro sagrado só pode acontecer na compreensão de que o seu horizonte é a salvação. Eles são livros religiosos voltados para a oferta de libertação, dignificação, salvação.

Se toda a religião tem como ponto de partida e “definição” a pergunta essencial: o quê ou quem traz libertação e salvação?, então a libertação-salvação total é que constitui o fio hermenêutico decisivo para a interpretação correcta dos livros sagrados na sua verdade final. Só a esta luz é que eles são verdadeiros. A sua leitura nunca pode ser fragmentada, já que só no seu todo é que se reclamam da verdade. Em tudo quanto neles se encontra de menos humano ou até de desumano revela-se o que Deus não é.

À luz da libertação final, que implica uma antropologia e uma teologia negativas, os livros sagrados são também a história da tomada de consciência por parte dos humanos do que Deus, o Sagrado, não é e do que eles, para se tornarem verdadeiramente humanos, não devem ser.

 

4.  Conclusão: O alarido todo não pode ser atribuído à “talibona” que fez a leitura na Eucaristia. A culpa não é dela, mas dos responsáveis que deveriam, embora continuando na Bíblia, retirar esse texto da celebração litúrgica.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 4 de setembro de 2021

KÜNG E A FÉ


1.
Hans Küng, um dos maiores teólogos católicos e um pensador de influência mundial, deixou-nos. Fica a sua teologia com os novos horizontes que abriu no sentido de uma esperança que formulou assim na sua última lição na Universidade de Tubinga, em 1996: "Spero unitatem ecclesiarum, espero a unidade das Igrejas. Spero pacem religionum, espero a paz entre as religiões. Spero communitatem nationum, espero uma verdadeira comunidade das nações." Fica também como inspiração a sua reflexão epistemológica, introduzindo na Teologia "a teoria de mudança de paradigmas", a partir da obra famosa de Thomas Kuhn: The Structure of Scientific Revolutions, sobre o desenvolvimento da ciência (lembro a definição de paradigma de Kuhn: "Uma constelação total de crenças, valores, técnicas, etc., partilhada por uma determinada comunidade"). Também na Teologia há paradigmas: o paradigma paleocristão apocalíptico, o helenístico da Igreja antiga, o católico-romano medieval, o protestante reformado, o iluminista moderno, estando presentemente a esboçar-se um novo paradigma, o paradigma de uma "teologia ecuménica crítica", com duas constantes ou pólos, em "correlação critica" - a primeira constante, pólo ou horizonte é "o nosso mundo presente de experiência em toda a sua ambilvalência, contingência e mutabilidade"; a segunda constante, pólo ou norma essencial é "a tradição judeo-cristã, que, em última análise, se funda na mensagem cristã, no Evangelho de Jesus Cristo" -, e duas orientações: ad intra, isto é, ecuménica, no sentido do ecumenismo intracristão, e ad extra, enquanto dirigida para as religiões do mundo e para toda a Terra habitada.


2.
Küng era um cristão convicto, e também me confessou, da última vez que nos vimos - foi em Barcelona em 2004, por ocasião do encontro do Parlamento das Religiões do Mundo -, a alegria com que ia celebrar os seus 50 anos de padre.


A sua teologia era uma exigência da fé, porque a fé tem de dar razões, o que ficou claro logo na sua tese de doutoramento sobre A Justificação. O que se entende, em termos simples, por justificação? Se se pensar bem, andamos todos a tentar justificar a nossa vida, a nossa existência. É que não nos basta existir, precisamos que outros, concretamente pessoas significativas, nos reconheçam. Há uma luta pelo reconhecimento, como tão bem mostrou Hegel na sua Fenomenologia do Espírito. Tanto individual como colectivamente. Temos necessidade vital de que reconheçam o nosso valor, que valemos. Foi isso que Lutero descobriu ao ler na Carta de São Paulo aos Romanos: "o Homem justifica-se pela fé", isto é, podemos e devemos entregar-nos confiadamente a Deus, porque valemos para Ele, Ele reconhece o nosso valor, e, assim, confiando n'Ele, estamos salvos. Lembro-me de ter tentado explicar isto numa palestra em Maputo, e soube depois que um moçambicano negro tinha feito mais de dez quilómetros a pé para ir dizer a uma irmã: "Está aí um padre de Lisboa que esteve a explicar que valemos para Deus, Deus reconhece-nos, tu tens valor para Deus, já pensaste? Precisava de vir dizer-te isto: tu vales para Deus, Ele dá-te valor."


Küng ouviu muitas vezes a pergunta: "Com toda a sinceridade, em que crê pessoalmente?" Para responder a este desafio deu uma série de lições, a cada uma das quais assistiram cerca de mil pessoas, de que resultou um livro: Aquilo em que Creio. "Escrevo para pessoas que se encontram em processo de busca." Para crentes e não crentes..., "também para todos aqueles que vivem a sua fé e, além disso, querem dar razão dela. Para aqueles que, longe de limitar-se a crer desejam "saber" e esperam, portanto, uma interpretação da fé que esteja fundada filosófica, teológica, exegética e historicamente e tenha consequências práticas". "A fé cega levou e leva muitas pessoas e povos inteiros à perdição." Estava a referir-se aos fundamentalismos. E também não é fé verdadeira a que se contenta com o cumprimento de rituais religiosos.


De modo geral, quando falamos de fé, pensamos apenas na fé religiosa, esquecendo que a nossa vida toda está baseada na fé - fé vem de fides, de cum+fides provém confiança. Quanto nos metemos à estrada, confiamos que não venha um carro contra nós... Cremos num futuro melhor (crer vem de credere, donde procede o crer religioso e o crer até nos bancos: eles concedem (concediam...) crédito... Retire-se a fé, a confiança, o crer e o crédito na vida e... tudo se desmorona... O bebé vem ao mundo e entrega-se, numa confiança radical, à mãe, ao pai... Se a confiança de base (basic trust) for frustrada, a vida pode tornar-se-lhe um inferno.


Com o tempo, vai perguntando se há razões para confiar... E chegamos às perguntas decisivas: porque há algo e não nada? Que sentido tem a minha vida, Sentido último? O que será feito de mim? Fica a alternativa: o nada ou a plenitude, o absurdo ou o Sentido final em Deus. O crente não pode demonstrar Deus, mas o não crente também não pode demonstrar o nada; e ele tem razões melhores do que o crente? Küng acreditava em Deus e na vida eterna. Confiava, com razões, que, na morte, não ia para o nada mas para "o Fundamento último e Fim último do cosmos e da nossa existência a que chamamos Deus", disse-me. O mundo e a existência são ambíguos. É no próprio acto de confiar radicalmente em Deus que se mostra que é um acto racional: com ele, num mundo ambivalente, de bem e de mal, de sentido e de absurdo, tudo se ilumina e ganha sentido, Sentido último.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 JUNHO 2021

A VIDA DOS LIVROS

GOM.jpeg
   De 26 de abril a 2 de maio de 2021

 

Hans Küng, há pouco desaparecido, deixou-nos a obra fundamental “Religiões do Mundo - Em busca dos pontos comuns”, publicado entre nós na editorial Multinova (2005). Lembramos a colaboração ativa do teólogo na revista “Concilium” portuguesa, animada por Helena Vaz da Silva, e o facto de ter estado entre nós numa iniciativa da nossa saudosa presidente.

 

Hans Küng.jpg

 

HOMEM DE TODAS AS ESTAÇÕES

O teólogo católico Hans Küng (1928-2021) morreu a 6 de abril em Tubinga e deixou uma herança intelectual, filosófica e teológica de grande valor. Pode dizer-se que as suas reflexões e a sua obra constituem elementos perenes, para além do horizonte do nosso tempo e do catolicismo. O futuro se encarregará, por certo, em especial no domínio da cultura da paz e do diálogo inter-religioso, de demonstrar como a cultura moderna se enriquece graças à compreensão de que a razão e o sentimento, a ciência e a espiritualidade se completam permitindo que a humanidade se aperfeiçoe e se emancipe, assumindo os limites do conhecimento e a necessidade de fazer do diálogo entre civilizações uma verdadeira troca de experiências, devendo cada qual ser capaz de se colocar no lugar do outro. Só com essa capacidade será possível criar uma verdadeira consciência comum, que impeça a violência ou a intolerância por motivos religiosos ou culturais. Longe de entender o mundo das religiões como imóvel, silencioso e estático, incoerente e contraditório, importa partir de uma informação séria e bem comprovada, de uma orientação que possa servir de ajuda para enfrentar a complexidade e a multiplicidade das religiões e de uma motivação que estimule uma atitude nova frente à religião e às religiões – de forma a reconhecer a dimensão universal do respeito mútuo e da dignidade humana. Daí a exigência de paz entre os homens, num momento em que há a tentação para o fechamento e a intolerância, centrados em novos dogmatismos. E assim o teólogo afirmou: “Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões; não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais; o nosso planeta não irá sobreviver se não houver um ethos global, uma ética para o mundo inteiro”. E não se julgue que é fácil levar este entendimento à prática.

 

CATOLICIDADE CRÍTICA

Na sequência do Concílio Vaticano II, o teólogo desempenhou um papel de grande importância, persistindo numa “catolicidade crítica”, exercida a partir de dentro da Igreja – uma vez que só uma voz que persista no espírito dos apóstolos pode contrariar eficazmente a deserção dos lugares de culto, a secularização crescente da sociedade, a rarefação de candidatos a funções religiosas e a revelação de abusos dos clérigos. Daí invocar na sua obra os exemplos de Erasmo, de Tomás Morus ou de Monsenhor Romero – e a partir deles assumir a ideia de liberdade teológica, exercida com rigor. E foi essa fundamentação sólida do pensamento que lhe permitiu ser respeitado, mesmo pelos seus críticos – que, aliás, sempre afirmou respeitar e considerar. Por outro lado, contra um certo “restauracionismo” ou recuo em relação aos avanços conciliares, defendeu um cristianismo fiel a uma ideia de serviço, mais próximo da Bíblia e de Jesus e menos subordinado à organização em pirâmide da Igreja. Como suíço, Hans Küng procurou articular catolicismo e democracia, dando ao “povo de Deus” um sentido de liberdade e responsabilidade – invocando nas suas “Memórias” (2006-2010) o exemplo do educador Franz Xavier Kauffmann, que encontrou quando tinha 12 anos, e que foi um apelo irreversível no sentido da vivência e do exemplo das bem-aventuranças. Assim, a democracia e a colegialidade, foram para o teólogo elementos fundamentais e de uma grande pertinência. Por isso, distinguiu, como corolário lógico do seu pensamento, fidelidade à vontade de Deus, Jesus, e obediência ou submissão total às regras, devendo a fidelidade prevalecer relativamente à obediência. Estudioso sistemático da “nova teologia francesa” de Teilhard de Chardin, Henri de Lubac e Yves Congar, o padre, ordenado em 1954, desenvolveu, de forma pioneira, a noção aberta e moderna de ecumenismo – dialogando ainda com Rudolf Bultmann e Karl Barth, a partir da compreensão de um Jesus histórico, da vivência do Seu exemplo e de um compromisso necessário em nome da dignidade humana. Foi, assim, muito relevante a criação do Instituto de Investigações Ecuménicas em Tubinga (1960-1996) e os passos corajosos que deu no sentido de mobilizar vontades num esforço de verdadeira compreensão mútua.

 

A FORÇA DA GRAÇA DIVINA

Em lugar de uma atitude conformista, indiferente ou pessimista, Hans Küng centra-se na capacidade criadora e na força da Graça divina, livre e corajosa, à imagem dos Atos dos Apóstolos. Como espírito atento ao mundo e aos sinais dos tempos, salientou a importância das artes e da arquitetura contemporânea. Os novos caminhos artísticos permitiriam uma vivência religiosa mais autêntica e uma melhor inserção na cultura contemporânea. Não escondeu, assim, de modo persistente, a enorme esperança depositada no Concílio Vaticano II, a partir da audácia de João XXIII, invocando ainda as ideias lançadas nos anos sessenta, designadamente na “Nova Fronteira” de John Kennedy. Estudou os cinco paradigmas da História da Igreja: o original judaico-cristão, o helenístico, o romano-católico medieval, o da Reforma e o da modernidade – afirmando a recusa de uma atitude retrospetiva ou medieval no pensamento religioso. Depois de 1965, foi, assim, um dos animadores da revista internacional “Concilium”, com grande repercussão internacional, lançada em língua portuguesa por António Alçada Baptista e Helena Vaz da Silva. Hans Küng realizou, aliás, duas conferências em Portugal em 5 e 7 de abril de 1967, ambas muito concorridas, a primeira na Igreja de Santa Isabel, com a assistência de cerca de mil pessoas e ainda no Colégio do Rosário do Porto, com cerca de quinhentas. O tema foi “A liberdade dentro da Igreja”, a merecer um grande interesse de cristãos e não cristãos, havendo até uma nota da PIDE sobre a iniciativa. Infelizmente, a revista não durou muito, pela censura e pelas condicionantes políticas e económicas.

O pensador suíço-alemão, apesar de lhe ter sido retirado o mandato canónico para ensinar em Tubinga, nunca foi impedido de exercer o seu múnus sacerdotal – tendo-se dedicado nos últimos anos ao projeto “Ética planetária – Paz mundial pela paz entre as religiões”. Nessa causa foi inspirado por Lorde Menuhin, que lançara a ideia de diálogo universal na série televisiva “The Music of Man”. A partir daí, o teólogo suíço avançou para as religiões. “Yehudi Menuhin precisava apenas de pegar no seu violino ou na sua batuta para, mesmo a ignorantes ou a ouvidos talvez pouco musicais, abrir o coração para o fascinante mundo da música. Mas como seria possível abrir os ouvidos e os corações para o mundo igualmente misterioso e diferente da religião?”. Hans Küng levou a iniciativa adiante e desse conjunto de programas resultou o livro  “Religiões do Mundo – Em busca dos pontos comuns”, publicado entre nós na editorial Multinova (2005), pelo meu saudoso amigo Manuel Bidarra de Almeida. Ao longo destas páginas, encontramos alguém que procurou sempre fazer do “misterioso e imenso mundo das religiões” uma oportunidade para a descoberta partilhada da importância da liberdade religiosa e da liberdade de consciência como fatores essenciais para que a causa da paz se torne pedra angular das democracias.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

EPITÁFIO: PROFESSOR HANS KÜNG

 

1. Morreu em paz na sua casa de Tubinga no passado dia 6 o teólogo católico mais conhecido nas últimas décadas. Escreveu o próprio epitáfio: PROFESSOR HANS KÜNG. Professor vem do latim: profiteri, que também significa entregar uma mensagem. O problema de muitos professores é que não têm mensagem nenhuma para entregar; Küng tinha e passou a sua vida a passar essa mensagem, mensagem maior para a Humanidade: o Evangelho em confronto com o mundo moderno e o mundo moderno em confronto com a fé. Ainda teve a alegria de ver a suas obras completas publicadas: 24 volumes. Sobre a fé, a Igreja, Deus, as religiões, a arte, a psicanálise, o ecumenismo, o diálogo inter-religioso, a ética... Era um trabalhador incansável, com profundíssimo conhecimento da Teologia, Filosofia, História, Ciência... e com o dom, raro, de transmitir em linguagem acessível o que o rigor académico exige.


2. Foi o mais jovem teólogo convidado por João XXIII como perito do Concílio Vaticano II, integrando uma plêiade de teólogos alemães, incluindo Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI.


Küng era um cristão convicto, fascinado por Jesus. Disse-me numa longa conversa: “Para mim, ser cristão tem ainda hoje sentido, pois, com o cristianismo, pode-se ser Homem num sentido mais profundo e radical. Hoje vê-se cada vez mais claramente que o cristianismo não é uma pura ideologia para si mesmo. A Igreja não tem a sua finalidade em si mesma. O cristianismo deve ajudar o Homem a ser Homem melhor e mais radicalmente.” Quem é o cristão? Aquele, aquela para quem Jesus é “o determiannte na vida e na morte”.


Porque o centro só pode ser Jesus Cristo, era crítico do sistema eclesiástico romano centralizado, com “Monsignori, Excelências Reverendíssimas, Eminências”... O Vaticano II queria a descentralização e o retorno ao Evangelho, impondo reformas, abrindo à liberdade religiosa, aos direitos humanos, à ciência, à igualdade das mulheres, ao fim do “celibatismo”... Com o Papa João Paulo II, entrava-se lentamente num “inverno da Igreja”, na expressão de outro teólogo, talvez o maior do século XX, Karl Rahner ... A primeira vítima foi Hans Küng a quem em 1979 a Congregação para a Doutrina da Fé retirou a “missio canonica”, isto é, embora continuando padre, já não podia ensinar como teólogo católico. A razão próxima era o livro Infalível? Uma pergunta, no qual punha em questão a infalibilidade papal. Propunha que a infalibilidade fosse substituída pela indefectibilidade da Igreja, no sentido de que a Igreja nunca deixará cair o essencial da fé cristã. Permita-se-me uma nota pessoal. Bento XVI já era o Papa e uma jornalista perguntou-me sobre o que é que eu pensava da infalibilidade; respondi: “Pergunte ao professor Joseph Ratzinger se ele acredita que Bento XVI é infalível”. Foi pouco antes do Natal, estava na Alemanha e pude vê-lo triste na televisão, com estas palavras, que cito de cor: Dedica-se a gente com todo o empenho à Igreja e a recompensa é esta! Mais tarde, o seu colega e amigo, o suíço Herbert Haag, o maior exegeta do século XX, disse-me que ele passou então por uma depressão de seis meses. Küng manteve-se na Igreja e como padre. Aliás, na última vez que nos encontrámos —foi em Barcelona — confessou-me que era com alegria que ia celebrar os seus 50 anos de padre.


O que se passa é que, se a Teologia quer manter o seu estatuto académico, tem de ser crítica, não podendo renunciar à libertas academica (liberade de ensinar). Dado o estatuto da Teologia na Universidade alemã, foi-lhe entregue a Cátedra de Teologia Ecuménica. Deste modo, abriram-se ainda mais os horizontes. Já na tese de doutoramento sobre  A Justificação,  tinha mostrado não haver razão para a separação entre católicos e protestantes quanto a este ponto central, como depois veio a reconhecer o próprio Vaticano. Deus justifica-nos: nós valemos para Ele. Era necessário continuar o processo de unificação das Igrejas cristãs. Difundiu o conhecimento das religiões mundiais e aprofundou as condições de possibilidade do urgente e exigente diálogo inter-religioso, também em ordem à paz. Não se cansou de sublinhar: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do planeta sem um ethos global” ­— ethos com o sentido de uma nova atitude ética. Neste contexto, é o principal redactor da famosa Declaração  “Princípios para uma ética mundial”, assinada no Parlamento das Religiões em Chicago em 1993, centrada na dignidade da pessoa, e que está na base do Instituto de Ética Global, com incidência na política e na economia. Tornou-se então um pensador mundialmente reconhecido. Dirigiu-se à Assembleia das Nações Unidas e aos estudantes da Universidade de Pequim...


Küng tinha imensa esperança no Papa Francisco, que incentiva uma primavera na Igreja e lhe escreveu duas vezes, também por causa da infalibidade, questão a estudar, e lhe enviou uma bênção antes da morte. Lamentavelmente, talvez para não ferir Bento XVI, não o reabilitou de modo oficial.


3. Para Küng, a fé assenta numa confiança radical racional em Deus, que se revelou em Jesus. Acreditava na vida eterna. Confiou, com razões, que, na morte, não ia para o nada, mas para “o Fundamento Útimo e Fim Último do cosmos e da nossa existência a que chamamos Deus”, disse-me também.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 17 ABR 2021