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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 19 a 25 de setembro de 2022


João Manuel Duque, autor de “Dizer Deus na Pós-Modernidade” (Alcalá, 2003), recebeu o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes. Damos conta das palavras que proferiu na cerimónia de entrega do galardão.
 


O CONFRONTO COM A TECNOLOGIA
Na cerimónia de entrega do Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, o teólogo João Manuel Duque, agraciado este ano, afirmou estarmos perante a tentação da prevalência de posições extremas, na relação entre a humanidade e a tecnologia entre quem sonha “com uma espécie de divinização do humano através da sua transformação e transfiguração tecnológica, e da demonização da tecnologia”. Essas duas atitudes correspondem, porém, a um mesmo deslumbramento (e submissão) relativamente às inovações da tecnologia, tantas vezes sob o esquecimento do carácter permanente e irrepetível da humanidade. No fundo, importa saber qual o impacto dos recursos digitais e da internet sobre as sociedades e as pessoas. A vontade, a autonomia, a consciência e o livre arbítrio não podem deixar de estar presentes nesse confronto. Daí a necessidade de distinguir os fins e os meios. A pessoa humana e a dignidade estão no domínio dos fins, enquanto as tecnologias, a inteligência artificial e os robôs se encontram no campo dos instrumentos, ao serviço das pessoas.  


Importa debater, “de forma mais equilibrada o impacto antropológico da tecnologia e as transformações que comporta, seja a nível psíquico seja a nível social”, sendo impossível pensar os humanos reais do nosso tempo sem essa dimensão. Nesse sentido, “o discurso teológico não é, em primeiro lugar, apenas para ambientes eclesiais”, devendo as comunidades que aí se movem “estar permanentemente envolvidas e interessadas nas questões significativas da humanidade, sobretudo naquelas que tocam a convicção fundamental do que seja humano e do que seja o seu sentido sobre a Terra”. A teologia deve, por isso, “falar para fora, a partir de dentro, e falar para dentro a partir de fora. E isso não como alternativa”, mas sim num movimento permanente de vaivém, envolvendo quem se move dentro e fora dos meios eclesiais. De facto, a ideia de um dentro e de um fora da Igreja – ou do mundo – é problemática, por ser rigidamente dualista. “Distinguir é benéfico e mesmo necessário; mas separar é, normalmente, prejudicial ou mesmo perigoso”. Urge deste modo, evitar a confusão entre o humano e o divino, assim como nunca poderemos separá-los, como mundos diferenciados e à parte. O pensamento teológico exige, assim, uma inserção cultural. Por isso, a teologia que se pratica entre nós é uma teologia contextualizada na Europa, devendo, no entanto, ainda considerar-se a sua relação com o resto do mundo.


PENSAR-NOS NA RELAÇÃO COM OS OUTROS
Para João Manuel Duque, estamos perante dois desafios: “pensar-nos em relação aos outros, diferentes de nós; e pensar-nos nos dinamismos internos” da Europa, onde nos encontramos. Quanto ao primeiro aspeto, estamos perante a possibilidade de desenvolvimento de uma fértil relação com a América Latina, África e Ásia, em cujos contextos o impacto do pensamento que podemos designar como “decolonial” sobre a teologia se torna evidente. Já quanto ao segundo aspeto, há dois caminhos possíveis: por um lado, a relação da teologia com a política de acolhimento do que é diferente e outro, nomeadamente na questão das migrações e dos refugiados. Uma teologia completamente alheia a esta questão seria uma teologia incapaz de compreender a realidade. Complementarmente, no caminho alternativo importa compreender a relação da teologia com o mundo da cultura, nomeadamente com o mundo das artes, no sentido mais abrangente da criação. E então estamos perante fatores desafiantes, que procuram interpretar o mundo que nos cerca, através de formas que se aproximam do discurso teológico.


QUE PÓS-MODERNIDADE?
Quando João Manuel Duque escreveu “Dizer Deus na Pós-Modernidade” (2003), Eduardo Prado Coelho considerou tratar-se de uma obra referencial que merecia uma especial atenção. Para o autor, “sendo a teologia de sempre uma tentativa, simultaneamente renovada e inculturada, de articular Deus num discurso humano, a teologia contemporânea – pelo menos no mundo dito ocidental – não poderá ser outra coisa, senão a constante procura de dizer Deus na pós-modernidade. Mas a abordagem do espaço e tempo culturais, considerando o mundo que habitamos em termos de ‘pós-modernidade’, exige ainda uma elaboração crítico-reflexiva vasta e alargada”. Por isso, esboçar uma teologia na pós-modernidade pressupõe a análise atenta da cultura e do pensamento pós-modernos, “tarefa a que nenhuma teologia atual pode esquivar-se, quer venha a enfrentar esse contexto de forma radicalmente crítica, quer pretenda torná-lo fértil no seu próprio interior”. Assim se compreende a referência e a atenção dada a autores como Hans Urs von Balthasar, na consideração do amor como plenitude metafísica; Eberhard Jüngel, ao referir a morte de Deus por amor; Johann Baptist Metz, interrogador das histórias da História; Jean-Luc Marion, estudioso da superação da idolatria metafísica; e Georg A. Lindbeck, que se preocupa com os limites da intra-textualidade. Isto, sem esquecer H.-G. Gadamer, com quem compreendemos que “o intérprete tem o dever de entrar em diálogo com a realidade de que se fala nas narrativa”. E assim a hermenêutica é sempre dialética, visando a compreensão do texto teológico e sempre a necessidade da compreensão de si mesmo. E temos de lembrar ainda Nietzsche e a tensão que existe com o cristianismo, no tocante ao facto de Deus poder ser mediador da afirmação do homem e o homem mediador da afirmação de Deus. No fundo, o trabalho de uma teologia pós-moderna é imenso, quer se trate da desconstrução de perspetivas modernas ou mesmo pré-modernas, quer se trate do desaparecimento de categorias que se nos tinham tornado habituais, que se trate da redescoberta de temáticas ou perspetivas já antigas e algo esquecidas pela modernidade.


Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

DEUS E OS VENCIDOS

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A razão iluminista tinha como desígnio a reconciliação e emancipação plena do Homem. Mas, de facto, sem esquecer evidentemente conquistas irrecusáveis, como, por exemplo, as Declarações dos direitos humanos nas suas várias gerações, deparamos com duas guerras mundiais e as suas muitas dezenas de milhões de mortos, o comunismo mundial e também os seus milhões e milhões de vítimas, deparamos com Auschwitz e o Goulag, o fosso cada vez mais fundo entre a riqueza e a miséria, a Natureza ferida, a desorientação e o vazio de sentido...

E, desgraçadamente, sabemos que o número das vítimas não cessará de aumentar, de tal modo que frequentemente a História nos aparece, como temia Walter Benjamin, à maneira de um montão de ruínas que não deixa de crescer. Mas, mesmo que fosse possível realizar no futuro uma sociedade totalmente emancipada e reconciliada, nem assim, desde que iluminada pela memória, a razão poderia dar-se por satisfeita, pois continuariam a ouvir-se os gritos das vítimas inocentes, cujos direitos estão pendentes, pois não prescrevem.

O teólogo Johann Baptist Metz não se cansou de repetir, com razão, que só conhecia uma categoria universal por excelência: a memoria passionis, isto é, a memória do sofrimento. Se a História não há-de ser pura e simplesmente a história dos vencedores, se a esperança tem de incluir a todos, quem dará razão aos vencidos?

A autoridade do sofrimento dos humilhados, dos destroçados, de todos aqueles e aquelas a quem foi negada qualquer possibilidade é ineliminável. Trata-se de uma autoridade que nada nem ninguém pode apagar, a não ser que o sofrimento não passe de uma função ou preço a pagar para o triunfo de uma totalidade impessoal. Mas precisamente o sofrimento, que é sempre o meu sofrimento, o teu sofrimento, como a morte é sempre a minha morte, a tua morte, é que nos individualiza, dando-nos a consciência de sermos únicos, de tal modo que nenhum ser humano pode ser dissolvido ou subsumido numa totalidade anónima, seja ela a espécie, a história, uma classe, o Estado, a evolução... O sofrimento revela o outro na sua alteridade, que nos interpela sem limites.

Assim, se as vítimas têm razão - a razão dos vencidos, como escreveu o filósofo Reyes Mate -, com direitos vigentes que devem ser reconhecidos, não se poderá deixar de colocar a questão de Deus, um Deus que as recorde uma a uma, pelo nome, chamando-as à  plenitude da Sua vida. "Essa é a pergunta da filosofia", dizia Max Horkheimer, da Escola Crítica de Frankfurt. Mas é claro que para essa pergunta só a fé e a teologia têm resposta. Ele próprio o reconheceu, ansiando pelo “totalmente Outro”.

Se a História do mundo tem uma orientação, ela só pode ser a liberdade. Ser Homem, ser livre e ser digno identificam-se. Com razão, I. Kant não se cansou de repetir que o respeito que devo aos outros ou que os outros podem exigir de mim é o reconhecimento de uma dignidade, isto é, de um valor que não tem preço. O que tem preço pode ser trocado: é meio. O Homem não tem preço, mas dignidade, porque é fim em si mesmo.

Quando nos interrogamos sobre o fundamento da dignidade do Homem, encontramo-lo no seu ser pessoa. Pela liberdade, a pessoa está aberta ao Infinito. Se se reflectir até à raiz, concluir-se-á que o fundamento último dos direitos humanos é nesse estar referido estrutural do Homem ao Infinito que reside: nessa relação constitutiva à questão do Infinito, à questão de Deus precisamente enquanto questão (independentemente da resposta, positiva ou negativa, que se lhe dê), o Homem aparece como fim e já não como simples meio.

O Homem é senhor de si, autopossui-se, e é capaz de entregar-se generosamente a si próprio a alguém e por alguém. A Humanidade faz a experiência de si como história de libertação para mais humanidade, portanto, para mais liberdade. O Homem indigna-se desde o mais profundo de si contra a indignidade, revolta-se contra toda a violação arbitrária e impune da justiça e do direito, e é capaz de dar a vida pela dignidade da humanidade em si próprio e nos outros seres humanos.

Houve muitos homens e mulheres que, ao longo da História, livremente, morreram por essa dignidade. Mas mesmo que tivesse havido apenas um a fazê-lo, seria inevitável perguntar: o que é isso que vale mais do que a vida física?

Precisamente aqui, nesta experiência-limite, deparamos com o intolerável: como é que pode ser moralmente admissível que quem é sumamente digno, pois se entrega até ao sacrifício de si pela dignidade, morra, desapareça e apodreça, vencido para sempre? Por isso, neste acto de suma dignidade, encontramos um dos lugares em que a questão de Deus enquanto questão é irrenunciável e irrecusável.

A experiência do Deus bíblico surge essencialmente da experiência do intolerável de as vítimas inocentes serem entregues para sempre à injustiça. O Deus bíblico é definitivamente um Deus moral: é o Deus que não esquece os vencidos.

Por isso, a História não é um continuum, onde a razão estaria permanentemente do lado dos vencedores. A História está aberta ao salto último da meta-história, à Palavra definitiva que só Deus pode pronunciar, Palavra que ressuscita os mortos e reconhece para sempre às vítimas os seus direitos. Sem esse reconhecimento definitivo da dignidade de todos, bem e mal, justiça e injustiça, honra e cinismo, verdade e mentira, dignidade e indignidade, tudo é igual, pois, como escreveu Bernhard Welte, tudo seria para nada, já que irá ser engolido pelo nada para sempre.

 

 Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 de fevereiro de 2022

PODER E AUTORIDADE

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No Evangelho, as três tentações de Jesus estão todas relacionadas com o poder. Antes de iniciar a sua vida pública, Jesus teve de decidir se queria ser um Messias político, do poder, ou um Messias do amor, do serviço. Foi por esta segunda via que seguiu: "Eu não vim para ser servido, mas para servir", e servir até dar a vida, dar a vida para testemunhar a verdade e o amor. A verdadeira tentação, segundo o Evangelho, é a do poder, no sentido da dominação.

Evidentemente, em qualquer sociedade o poder é inevitável, tem de haver instâncias de poder. Toda a questão consiste em saber como é que ele é exercido e com que finalidade. Quantos se lembram de que Ministro, etimologicamente, significa pura e simplesmente servente, aquele que serve? Primeiro-Ministro é o que está à frente no serviço. Por isso, Jesus disse aos discípulos, também ao Papa, bispos, cardeais, padres: "Sabeis que os chefes das nações governam-nas como seus senhores. Não seja assim entre vós; pelo contrário, quem quiser fazer-se grande entre vós seja vosso servo".

Jesus renunciou ao poder enquanto domínio, mas é referido frequentemente no Evangelho que ensinava com autoridade. A palavra autoridade vem do verbo latino augere, que significa aumentar, fazer crescer. Ter autoridade tem, portanto, a ver com fazer aumentar no ser. Cá está: servir. O poder legitima-se enquanto serviço de fazer crescer na liberdade e na dignidade, na realização plena de todos os seres humanos em todas as dimensões... Presidentes, ministros, bispos, jornalistas, pais, professores, padres, polícias... exercem legitimamente o poder enquanto autoridade, quando ele faz crescer, quando preserva e aumenta a dignidade humana... Assim, não são apenas os súbditos que devem obedecer. A palavra obediência também tem a sua origem no latim: obaudire, que significa ouvir. Então, os que têm poder são os primeiros a ter de obedecer, isto é, a ter de ouvir aqueles que precisam que lhes seja feita justiça, ouvir a própria consciência, ouvir o apelo de todos os que clamam por mais liberdade e dignidade...

Não há superiores e inferiores. Há apenas homens e mulheres iguais em dignidade. E alguns estão constituídos em poder, que devem exercer como serviço a essa dignidade inviolável.

A grande tentação da Igreja, ao longo da sua história, foi e é o poder. Mas então esqueceu e ignorou o Evangelho. Escreveu, com razão, Miguel Baptista Pereira: "Perdido o sentido do Mistério, instala-se a 'indoutrinação' e a administração definitiva do Absoluto e consagra-se a intangibilidade dos seus burocratas, não fosse dilema humano o serviço do Mistério ou a vontade ilimitada de poder".

A novidade do Deus cristão, revelado em Jesus, é que Ele é poderoso, infinitamente poderoso, mas o Seu poder não é de domínio, mas de criação: Força infinita de criar. Fez-nos livres, para estabelecer connosco uma aliança. Com todas as consequências...

Aí está a razão por que, quando se fala em Igreja, é difícil não se ser imediatamente confrontado com alguma situação de desconforto. De facto, a Igreja aparece frequentemente como uma hierarquia soberana e longínqua, que comanda, que proíbe, não se percebendo muitas vezes se essas ordens e proibições querem realmente o bem das pessoas ou, se, pelo contrário, não são expressão disfarçada de interesses económicos e políticos, enfim, do poder...

Num primeiro momento, pelo menos, a Igreja surge como uma hiperorganização. Mas não deveria ser assim. De facto, a palavra igreja em português (iglesia em castelhano, église em francês) vem do grego Ekklesía. Ora, a Ekklesía era a assembleia do povo. No alemão (Kirche), no inglês (Church), etc., a origem é outra: Kyrike (forma popular bizantina), com o significado de "pertencente ao Senhor" (Kyrios) e, por extensão, "casa ou comunidade do Senhor". De qualquer modo, na dupla etimologia, a Igreja, no Novo Testamento, significa a assembleia daqueles que acreditam em Cristo, que crêem nele como o Messias e se tornaram seus discípulos, querendo, portanto, segui-lo, fazendo durante a vida o que ele fez e confiando nele na própria morte, esperando também a ressurreição. A Igreja desde o início considerou-se a si mesma como a assembleia dos fiéis a Cristo, dos que pertencem ao Senhor: o sinal dessa pertença era o baptismo e reuniam-se, celebrando, na Ceia, a sua memória, até que Ele venha.

Evidentemente, sendo constituída por homens e mulheres, a Igreja precisou de dar-se a si mesma o mínimo de organização. Por isso, nela, há diferentes funções e serviços. A palavra correcta é precisamente serviços. Significativamente, o Novo Testamento não fala de hierarquia (poder sagrado), mas de diakonia, que quer dizer ministério, serviço (mas também os Ministros dos Governos não esqueceram já que ministro é aquele que presta um serviço?).

Que é que isto tudo quer dizer? A Igreja não é, na sua raiz, uma hiperorganização, mas assembleia convocada por Deus e reunida em Cristo. Então, o Papa, antes de ser Papa, é cristão; o bispo, antes de ser bispo, é cristão, um seguidor de Cristo; um cardeal, um cónego, um padre são discípulos de Cristo, que têm uma missão de serviço. Que devem servir, precisamente como qualquer cristão. Não há de um lado a hierarquia que manda e do outro os cristãos leigos que obedecem. Há sim a comunidade dos que acreditam em Cristo, que procuram ser seus discípulos e que prestam serviços uns aos outros e a todos, segundo os dons e as tarefas que foram dados a cada um para bem de todos.

  

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 11 de dezembro de 2021

"AS MULHERES SEJAM SUBMISSAS AOS MARIDOS"

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Sobre o sexo, as mulheres, as religiões e a Igreja já escrevi aqui muitas vezes. Também em livros que publiquei, incluindo o próximo, O Mundo e a Igreja. Que Futuro?, que espero esteja nas livrarias em finais de Outubro. Retomo hoje o tema muito rapidamente, por causa do “alarido” que houve nos média provocado por uma leitura na Eucaristia de um Domingo passado, transmitida pela televisão pública. Algum esclarecimento é devido.

 

1.  O que se passou é que foi feita uma leitura bíblica a dizer: “As mulheres sejam submissas aos maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o Chefe da Igreja”.

Previno que o texto é da Carta aos Efésios, atribuída a São Paulo, mas a autoria realmente não lhe pertence. Aliás, é preciso dizer que, no cristianismo, com Jesus, que escandalosamente tinha discípulos e discípulas, São Paulo deu um contributo decisivo para a emancipação feminina: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus”, escreveu na Carta aos Gálatas; e na Carta aos Romanos descreve Júnia como ilustre entre os Apóstolos.

 

2.  Todas as religiões se entendem a si mesmas como reveladas. A pergunta é: como sabem os crentes que Deus falou?

A religião tem sempre na sua base uma interpretação humana da realidade, da única realidade que há, comum a crentes e a não crentes, e que é ambígua. Para o crente, a realidade mesma, para a sua compreensão adequada, aparece-lhe como incluindo uma Presença que não se vê em si mesma, mas implicada no que se vê. Mediante certas características - a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido último -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença divina como seu fundamento e sentido últimos. Assim, como escreve A. Torres Queiruga, na estrutura íntima do processo religioso, “não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum”.

A fé, no seu nível próprio, tem razões, de tal modo que está sujeita à verificação.  Aí, o agnóstico dirá que não vê razões para poder decidir-se. O ateu julga que as razões contrárias são mais fortes e, por isso, não crê. Para o crente, a “hipótese religiosa” é a que melhor esclarece as experiências e questões radicais postas pela realidade e pela existência: a contingência, as perguntas últimas pela vida e pela morte, a esperança, a exigência ética, o sentido da existência e da História.

 

3.  A partir de uma experiência religiosa de fundo por parte do profeta ou do fundador religioso, desencadeia-se um processo vivo que dá origem a tradições religiosas ou religiões que acabam por sedimentar ou cristalizar em livros sagrados, considerados “revelados”. Os novos crentes não aceitam a verdade da fé por via autoritativa. Eles próprios podem comprová-la. A. Torres Queiruga, o teólogo que de modo mais penetrante tentou esclarecer esta questão, chamou a esta compreensão “maiêutica histórica”. Na verdade religiosa, há os profetas e os fundadores das religiões, que foram os primeiros a tomar consciência da verdade. Mas, após essa descoberta, ouvindo-os e acompanhando-os, outros se podem dar conta por si mesmos da mesma verdade.

A partir daqui, compreende-se que Deus se manifesta, mas nunca directamente, sempre e só indirectamente. Jamais alguém viu ou falou directamente com Deus. Por isso, os livros sagrados não são um ditado divino – são Palavra de Deus em palavras humanas. Os seus autores escreveram e os seus leitores lêem com uma pré-compreensão, isto é, no quadro de pressupostos históricos e culturais, interesses e expectativas. Portanto, a sua leitura nunca pode ser literal, pois implica sempre uma interpretação.

Torna-se, pois, claro que os livros sagrados – a Bíblia, o Alcorão e todos os outros – não são ditados divinos e precisam, por isso, de uma interpretação histórico-crítica e de uma mediação hermenêutica, não podendo de modo nenhum ser engolidos na sua totalidade de modo acrítico. É preciso lê-los, atendendo à língua original, ao género literário, aos destinatários, ao contexto...

A verdade de qualquer livro sagrado só pode acontecer na compreensão de que o seu horizonte é a salvação. Eles são livros religiosos voltados para a oferta de libertação, dignificação, salvação.

Se toda a religião tem como ponto de partida e “definição” a pergunta essencial: o quê ou quem traz libertação e salvação?, então a libertação-salvação total é que constitui o fio hermenêutico decisivo para a interpretação correcta dos livros sagrados na sua verdade final. Só a esta luz é que eles são verdadeiros. A sua leitura nunca pode ser fragmentada, já que só no seu todo é que se reclamam da verdade. Em tudo quanto neles se encontra de menos humano ou até de desumano revela-se o que Deus não é.

À luz da libertação final, que implica uma antropologia e uma teologia negativas, os livros sagrados são também a história da tomada de consciência por parte dos humanos do que Deus, o Sagrado, não é e do que eles, para se tornarem verdadeiramente humanos, não devem ser.

 

4.  Conclusão: O alarido todo não pode ser atribuído à “talibona” que fez a leitura na Eucaristia. A culpa não é dela, mas dos responsáveis que deveriam, embora continuando na Bíblia, retirar esse texto da celebração litúrgica.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 4 de setembro de 2021

KÜNG E A FÉ


1.
Hans Küng, um dos maiores teólogos católicos e um pensador de influência mundial, deixou-nos. Fica a sua teologia com os novos horizontes que abriu no sentido de uma esperança que formulou assim na sua última lição na Universidade de Tubinga, em 1996: "Spero unitatem ecclesiarum, espero a unidade das Igrejas. Spero pacem religionum, espero a paz entre as religiões. Spero communitatem nationum, espero uma verdadeira comunidade das nações." Fica também como inspiração a sua reflexão epistemológica, introduzindo na Teologia "a teoria de mudança de paradigmas", a partir da obra famosa de Thomas Kuhn: The Structure of Scientific Revolutions, sobre o desenvolvimento da ciência (lembro a definição de paradigma de Kuhn: "Uma constelação total de crenças, valores, técnicas, etc., partilhada por uma determinada comunidade"). Também na Teologia há paradigmas: o paradigma paleocristão apocalíptico, o helenístico da Igreja antiga, o católico-romano medieval, o protestante reformado, o iluminista moderno, estando presentemente a esboçar-se um novo paradigma, o paradigma de uma "teologia ecuménica crítica", com duas constantes ou pólos, em "correlação critica" - a primeira constante, pólo ou horizonte é "o nosso mundo presente de experiência em toda a sua ambilvalência, contingência e mutabilidade"; a segunda constante, pólo ou norma essencial é "a tradição judeo-cristã, que, em última análise, se funda na mensagem cristã, no Evangelho de Jesus Cristo" -, e duas orientações: ad intra, isto é, ecuménica, no sentido do ecumenismo intracristão, e ad extra, enquanto dirigida para as religiões do mundo e para toda a Terra habitada.


2.
Küng era um cristão convicto, e também me confessou, da última vez que nos vimos - foi em Barcelona em 2004, por ocasião do encontro do Parlamento das Religiões do Mundo -, a alegria com que ia celebrar os seus 50 anos de padre.


A sua teologia era uma exigência da fé, porque a fé tem de dar razões, o que ficou claro logo na sua tese de doutoramento sobre A Justificação. O que se entende, em termos simples, por justificação? Se se pensar bem, andamos todos a tentar justificar a nossa vida, a nossa existência. É que não nos basta existir, precisamos que outros, concretamente pessoas significativas, nos reconheçam. Há uma luta pelo reconhecimento, como tão bem mostrou Hegel na sua Fenomenologia do Espírito. Tanto individual como colectivamente. Temos necessidade vital de que reconheçam o nosso valor, que valemos. Foi isso que Lutero descobriu ao ler na Carta de São Paulo aos Romanos: "o Homem justifica-se pela fé", isto é, podemos e devemos entregar-nos confiadamente a Deus, porque valemos para Ele, Ele reconhece o nosso valor, e, assim, confiando n'Ele, estamos salvos. Lembro-me de ter tentado explicar isto numa palestra em Maputo, e soube depois que um moçambicano negro tinha feito mais de dez quilómetros a pé para ir dizer a uma irmã: "Está aí um padre de Lisboa que esteve a explicar que valemos para Deus, Deus reconhece-nos, tu tens valor para Deus, já pensaste? Precisava de vir dizer-te isto: tu vales para Deus, Ele dá-te valor."


Küng ouviu muitas vezes a pergunta: "Com toda a sinceridade, em que crê pessoalmente?" Para responder a este desafio deu uma série de lições, a cada uma das quais assistiram cerca de mil pessoas, de que resultou um livro: Aquilo em que Creio. "Escrevo para pessoas que se encontram em processo de busca." Para crentes e não crentes..., "também para todos aqueles que vivem a sua fé e, além disso, querem dar razão dela. Para aqueles que, longe de limitar-se a crer desejam "saber" e esperam, portanto, uma interpretação da fé que esteja fundada filosófica, teológica, exegética e historicamente e tenha consequências práticas". "A fé cega levou e leva muitas pessoas e povos inteiros à perdição." Estava a referir-se aos fundamentalismos. E também não é fé verdadeira a que se contenta com o cumprimento de rituais religiosos.


De modo geral, quando falamos de fé, pensamos apenas na fé religiosa, esquecendo que a nossa vida toda está baseada na fé - fé vem de fides, de cum+fides provém confiança. Quanto nos metemos à estrada, confiamos que não venha um carro contra nós... Cremos num futuro melhor (crer vem de credere, donde procede o crer religioso e o crer até nos bancos: eles concedem (concediam...) crédito... Retire-se a fé, a confiança, o crer e o crédito na vida e... tudo se desmorona... O bebé vem ao mundo e entrega-se, numa confiança radical, à mãe, ao pai... Se a confiança de base (basic trust) for frustrada, a vida pode tornar-se-lhe um inferno.


Com o tempo, vai perguntando se há razões para confiar... E chegamos às perguntas decisivas: porque há algo e não nada? Que sentido tem a minha vida, Sentido último? O que será feito de mim? Fica a alternativa: o nada ou a plenitude, o absurdo ou o Sentido final em Deus. O crente não pode demonstrar Deus, mas o não crente também não pode demonstrar o nada; e ele tem razões melhores do que o crente? Küng acreditava em Deus e na vida eterna. Confiava, com razões, que, na morte, não ia para o nada mas para "o Fundamento último e Fim último do cosmos e da nossa existência a que chamamos Deus", disse-me. O mundo e a existência são ambíguos. É no próprio acto de confiar radicalmente em Deus que se mostra que é um acto racional: com ele, num mundo ambivalente, de bem e de mal, de sentido e de absurdo, tudo se ilumina e ganha sentido, Sentido último.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 JUNHO 2021

A VIDA DOS LIVROS

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   De 26 de abril a 2 de maio de 2021

 

Hans Küng, há pouco desaparecido, deixou-nos a obra fundamental “Religiões do Mundo - Em busca dos pontos comuns”, publicado entre nós na editorial Multinova (2005). Lembramos a colaboração ativa do teólogo na revista “Concilium” portuguesa, animada por Helena Vaz da Silva, e o facto de ter estado entre nós numa iniciativa da nossa saudosa presidente.

 

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HOMEM DE TODAS AS ESTAÇÕES

O teólogo católico Hans Küng (1928-2021) morreu a 6 de abril em Tubinga e deixou uma herança intelectual, filosófica e teológica de grande valor. Pode dizer-se que as suas reflexões e a sua obra constituem elementos perenes, para além do horizonte do nosso tempo e do catolicismo. O futuro se encarregará, por certo, em especial no domínio da cultura da paz e do diálogo inter-religioso, de demonstrar como a cultura moderna se enriquece graças à compreensão de que a razão e o sentimento, a ciência e a espiritualidade se completam permitindo que a humanidade se aperfeiçoe e se emancipe, assumindo os limites do conhecimento e a necessidade de fazer do diálogo entre civilizações uma verdadeira troca de experiências, devendo cada qual ser capaz de se colocar no lugar do outro. Só com essa capacidade será possível criar uma verdadeira consciência comum, que impeça a violência ou a intolerância por motivos religiosos ou culturais. Longe de entender o mundo das religiões como imóvel, silencioso e estático, incoerente e contraditório, importa partir de uma informação séria e bem comprovada, de uma orientação que possa servir de ajuda para enfrentar a complexidade e a multiplicidade das religiões e de uma motivação que estimule uma atitude nova frente à religião e às religiões – de forma a reconhecer a dimensão universal do respeito mútuo e da dignidade humana. Daí a exigência de paz entre os homens, num momento em que há a tentação para o fechamento e a intolerância, centrados em novos dogmatismos. E assim o teólogo afirmou: “Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões; não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais; o nosso planeta não irá sobreviver se não houver um ethos global, uma ética para o mundo inteiro”. E não se julgue que é fácil levar este entendimento à prática.

 

CATOLICIDADE CRÍTICA

Na sequência do Concílio Vaticano II, o teólogo desempenhou um papel de grande importância, persistindo numa “catolicidade crítica”, exercida a partir de dentro da Igreja – uma vez que só uma voz que persista no espírito dos apóstolos pode contrariar eficazmente a deserção dos lugares de culto, a secularização crescente da sociedade, a rarefação de candidatos a funções religiosas e a revelação de abusos dos clérigos. Daí invocar na sua obra os exemplos de Erasmo, de Tomás Morus ou de Monsenhor Romero – e a partir deles assumir a ideia de liberdade teológica, exercida com rigor. E foi essa fundamentação sólida do pensamento que lhe permitiu ser respeitado, mesmo pelos seus críticos – que, aliás, sempre afirmou respeitar e considerar. Por outro lado, contra um certo “restauracionismo” ou recuo em relação aos avanços conciliares, defendeu um cristianismo fiel a uma ideia de serviço, mais próximo da Bíblia e de Jesus e menos subordinado à organização em pirâmide da Igreja. Como suíço, Hans Küng procurou articular catolicismo e democracia, dando ao “povo de Deus” um sentido de liberdade e responsabilidade – invocando nas suas “Memórias” (2006-2010) o exemplo do educador Franz Xavier Kauffmann, que encontrou quando tinha 12 anos, e que foi um apelo irreversível no sentido da vivência e do exemplo das bem-aventuranças. Assim, a democracia e a colegialidade, foram para o teólogo elementos fundamentais e de uma grande pertinência. Por isso, distinguiu, como corolário lógico do seu pensamento, fidelidade à vontade de Deus, Jesus, e obediência ou submissão total às regras, devendo a fidelidade prevalecer relativamente à obediência. Estudioso sistemático da “nova teologia francesa” de Teilhard de Chardin, Henri de Lubac e Yves Congar, o padre, ordenado em 1954, desenvolveu, de forma pioneira, a noção aberta e moderna de ecumenismo – dialogando ainda com Rudolf Bultmann e Karl Barth, a partir da compreensão de um Jesus histórico, da vivência do Seu exemplo e de um compromisso necessário em nome da dignidade humana. Foi, assim, muito relevante a criação do Instituto de Investigações Ecuménicas em Tubinga (1960-1996) e os passos corajosos que deu no sentido de mobilizar vontades num esforço de verdadeira compreensão mútua.

 

A FORÇA DA GRAÇA DIVINA

Em lugar de uma atitude conformista, indiferente ou pessimista, Hans Küng centra-se na capacidade criadora e na força da Graça divina, livre e corajosa, à imagem dos Atos dos Apóstolos. Como espírito atento ao mundo e aos sinais dos tempos, salientou a importância das artes e da arquitetura contemporânea. Os novos caminhos artísticos permitiriam uma vivência religiosa mais autêntica e uma melhor inserção na cultura contemporânea. Não escondeu, assim, de modo persistente, a enorme esperança depositada no Concílio Vaticano II, a partir da audácia de João XXIII, invocando ainda as ideias lançadas nos anos sessenta, designadamente na “Nova Fronteira” de John Kennedy. Estudou os cinco paradigmas da História da Igreja: o original judaico-cristão, o helenístico, o romano-católico medieval, o da Reforma e o da modernidade – afirmando a recusa de uma atitude retrospetiva ou medieval no pensamento religioso. Depois de 1965, foi, assim, um dos animadores da revista internacional “Concilium”, com grande repercussão internacional, lançada em língua portuguesa por António Alçada Baptista e Helena Vaz da Silva. Hans Küng realizou, aliás, duas conferências em Portugal em 5 e 7 de abril de 1967, ambas muito concorridas, a primeira na Igreja de Santa Isabel, com a assistência de cerca de mil pessoas e ainda no Colégio do Rosário do Porto, com cerca de quinhentas. O tema foi “A liberdade dentro da Igreja”, a merecer um grande interesse de cristãos e não cristãos, havendo até uma nota da PIDE sobre a iniciativa. Infelizmente, a revista não durou muito, pela censura e pelas condicionantes políticas e económicas.

O pensador suíço-alemão, apesar de lhe ter sido retirado o mandato canónico para ensinar em Tubinga, nunca foi impedido de exercer o seu múnus sacerdotal – tendo-se dedicado nos últimos anos ao projeto “Ética planetária – Paz mundial pela paz entre as religiões”. Nessa causa foi inspirado por Lorde Menuhin, que lançara a ideia de diálogo universal na série televisiva “The Music of Man”. A partir daí, o teólogo suíço avançou para as religiões. “Yehudi Menuhin precisava apenas de pegar no seu violino ou na sua batuta para, mesmo a ignorantes ou a ouvidos talvez pouco musicais, abrir o coração para o fascinante mundo da música. Mas como seria possível abrir os ouvidos e os corações para o mundo igualmente misterioso e diferente da religião?”. Hans Küng levou a iniciativa adiante e desse conjunto de programas resultou o livro  “Religiões do Mundo – Em busca dos pontos comuns”, publicado entre nós na editorial Multinova (2005), pelo meu saudoso amigo Manuel Bidarra de Almeida. Ao longo destas páginas, encontramos alguém que procurou sempre fazer do “misterioso e imenso mundo das religiões” uma oportunidade para a descoberta partilhada da importância da liberdade religiosa e da liberdade de consciência como fatores essenciais para que a causa da paz se torne pedra angular das democracias.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

EPITÁFIO: PROFESSOR HANS KÜNG

 

1. Morreu em paz na sua casa de Tubinga no passado dia 6 o teólogo católico mais conhecido nas últimas décadas. Escreveu o próprio epitáfio: PROFESSOR HANS KÜNG. Professor vem do latim: profiteri, que também significa entregar uma mensagem. O problema de muitos professores é que não têm mensagem nenhuma para entregar; Küng tinha e passou a sua vida a passar essa mensagem, mensagem maior para a Humanidade: o Evangelho em confronto com o mundo moderno e o mundo moderno em confronto com a fé. Ainda teve a alegria de ver a suas obras completas publicadas: 24 volumes. Sobre a fé, a Igreja, Deus, as religiões, a arte, a psicanálise, o ecumenismo, o diálogo inter-religioso, a ética... Era um trabalhador incansável, com profundíssimo conhecimento da Teologia, Filosofia, História, Ciência... e com o dom, raro, de transmitir em linguagem acessível o que o rigor académico exige.


2. Foi o mais jovem teólogo convidado por João XXIII como perito do Concílio Vaticano II, integrando uma plêiade de teólogos alemães, incluindo Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI.


Küng era um cristão convicto, fascinado por Jesus. Disse-me numa longa conversa: “Para mim, ser cristão tem ainda hoje sentido, pois, com o cristianismo, pode-se ser Homem num sentido mais profundo e radical. Hoje vê-se cada vez mais claramente que o cristianismo não é uma pura ideologia para si mesmo. A Igreja não tem a sua finalidade em si mesma. O cristianismo deve ajudar o Homem a ser Homem melhor e mais radicalmente.” Quem é o cristão? Aquele, aquela para quem Jesus é “o determiannte na vida e na morte”.


Porque o centro só pode ser Jesus Cristo, era crítico do sistema eclesiástico romano centralizado, com “Monsignori, Excelências Reverendíssimas, Eminências”... O Vaticano II queria a descentralização e o retorno ao Evangelho, impondo reformas, abrindo à liberdade religiosa, aos direitos humanos, à ciência, à igualdade das mulheres, ao fim do “celibatismo”... Com o Papa João Paulo II, entrava-se lentamente num “inverno da Igreja”, na expressão de outro teólogo, talvez o maior do século XX, Karl Rahner ... A primeira vítima foi Hans Küng a quem em 1979 a Congregação para a Doutrina da Fé retirou a “missio canonica”, isto é, embora continuando padre, já não podia ensinar como teólogo católico. A razão próxima era o livro Infalível? Uma pergunta, no qual punha em questão a infalibilidade papal. Propunha que a infalibilidade fosse substituída pela indefectibilidade da Igreja, no sentido de que a Igreja nunca deixará cair o essencial da fé cristã. Permita-se-me uma nota pessoal. Bento XVI já era o Papa e uma jornalista perguntou-me sobre o que é que eu pensava da infalibilidade; respondi: “Pergunte ao professor Joseph Ratzinger se ele acredita que Bento XVI é infalível”. Foi pouco antes do Natal, estava na Alemanha e pude vê-lo triste na televisão, com estas palavras, que cito de cor: Dedica-se a gente com todo o empenho à Igreja e a recompensa é esta! Mais tarde, o seu colega e amigo, o suíço Herbert Haag, o maior exegeta do século XX, disse-me que ele passou então por uma depressão de seis meses. Küng manteve-se na Igreja e como padre. Aliás, na última vez que nos encontrámos —foi em Barcelona — confessou-me que era com alegria que ia celebrar os seus 50 anos de padre.


O que se passa é que, se a Teologia quer manter o seu estatuto académico, tem de ser crítica, não podendo renunciar à libertas academica (liberade de ensinar). Dado o estatuto da Teologia na Universidade alemã, foi-lhe entregue a Cátedra de Teologia Ecuménica. Deste modo, abriram-se ainda mais os horizontes. Já na tese de doutoramento sobre  A Justificação,  tinha mostrado não haver razão para a separação entre católicos e protestantes quanto a este ponto central, como depois veio a reconhecer o próprio Vaticano. Deus justifica-nos: nós valemos para Ele. Era necessário continuar o processo de unificação das Igrejas cristãs. Difundiu o conhecimento das religiões mundiais e aprofundou as condições de possibilidade do urgente e exigente diálogo inter-religioso, também em ordem à paz. Não se cansou de sublinhar: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do planeta sem um ethos global” ­— ethos com o sentido de uma nova atitude ética. Neste contexto, é o principal redactor da famosa Declaração  “Princípios para uma ética mundial”, assinada no Parlamento das Religiões em Chicago em 1993, centrada na dignidade da pessoa, e que está na base do Instituto de Ética Global, com incidência na política e na economia. Tornou-se então um pensador mundialmente reconhecido. Dirigiu-se à Assembleia das Nações Unidas e aos estudantes da Universidade de Pequim...


Küng tinha imensa esperança no Papa Francisco, que incentiva uma primavera na Igreja e lhe escreveu duas vezes, também por causa da infalibidade, questão a estudar, e lhe enviou uma bênção antes da morte. Lamentavelmente, talvez para não ferir Bento XVI, não o reabilitou de modo oficial.


3. Para Küng, a fé assenta numa confiança radical racional em Deus, que se revelou em Jesus. Acreditava na vida eterna. Confiou, com razões, que, na morte, não ia para o nada, mas para “o Fundamento Útimo e Fim Último do cosmos e da nossa existência a que chamamos Deus”, disse-me também.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 17 ABR 2021

BENTO XVI. UMA VIDA. (5)

 

1. Em 1981, Ratzinger partiu para Roma, nomeado pelo Papa João Paulo II Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a antiga Inquisição. “Ninguém o advertiu desta missão impopular?” Resposta: “Eu não precisava de advertência nenhuma. Era para mim claro que me lançava às urtigas. Mas tinha de assumi-la”. Foi como “colaborador da verdade”.

 

1.1.  Em Abril de 2005, faleceu João Paulo II, que, com 5 milhões de participantes, teve o maior cortejo fúnebre da História. Com tristeza, Ratzinger presidiu às exéquias. 3500 jornalistas marcaram presença, mais de mil milhões de pessoas seguiram o acontecimento ao vivo nas televisões, havendo quem fale em dois mil milhões, com as televisões de todos os países, exceptuando a China, a transmitir imagens do acontecimento.

 

Mas, paradoxalmente, “a influência da Igreja na era Wojtyla retrocedeu”. O pontificado de João Paulo II deixava uma Igreja com muitas feridas. Por exemplo, no seu pontificado, com o apoio de Ratzinger, foram condenados mais de 100 teólogos. Houve ambiguidade quanto aos abusos sexuais do clero; o próprio Ratzinger enviou em 2001 uma carta a todos os bispos sobre estes delitos, dizendo que todos os casos ficavam sob “segredo pontifício”. Com as imensas viagens papais, a vigilância sobre a Cúria afrouxou...

 

1.2. Ratzinger, agora, o que queria era “ir para a reforma e escrever livros”. Mas, no dia 19 desse mês de Abril, o novo Papa, com o nome de Bento XVI, compareceu na varanda de São Pedro apresentando-se como “um simples trabalhador na vinha do Senhor”. Para ele, era “um dever” aceitar. “Rezai por mim, para que diante dos lobos não fuja temeroso”. Küng falou de “uma tremenda desilusão”.

 

1.3. Ratzinger, “o primeiro Papa do terceiro milénio”, era, “do ponto de vista formal, o Papa mais poderoso de sempre. Nunca a Igreja Católica estivera tão espalhada pelo mundo”. Mas os problemas eram imensos. E os lobos não largavam a vinha do Senhor. No dia 11 de Fevereiro de 2013, após segredo total, Bento XVI, para espanto dos cardeais reunidos, declara a sua renúncia ao pontificado, com efeito a partir do dia 28. Que já não tinha “forças nem físicas nem espirituais”. “O Senhor chama-me para subir o monte.” O seu sucessor, Francisco, foi eleito no dia 13 de Março seguinte.

 

Com a resignação de Bento XVI, deu-se, como diz Seewald, “o início de uma nova era”.

 

2. Concordo com ele. Por isso, deixo agora Ratzinger, para, no contexto do percurso tão exaltante como dramático do indevidamente chamado Papa emérito — nada justifica teologicamente essa designação: ao resignar, o Papa torna-se Bispo emérito de Roma —, reflectir principalmente sobre a urgência de uma organização diferente para a Igreja, pois é isso que a renúncia de Ratzinger acaba por exigir.

 

Há um paradoxo na Igreja, como explicitou o sociólogo Olivier Robineau: “A Igreja Católica é uma junção paradoxal de dois elementos opostos por natureza: uma convicção — o descentramento segundo o amor — e um chefe supremo dirigindo uma instituição hierárquica e centralizada segundo um direito unificador, o direito canónico. De um lado, a crença no invisível Deus-Amor; do outro, um aparelho político e jurídico à procura de visibilidade. O Deus do descentramento dos corações que caminha ao lado de uma máquina dogmática centralizadora. A antropologia católica tenta associar os extremos: a graça abundante e o cálculo estratégico. Isso dá lugar tanto a São Francisco de Assis como a Torquemada.”

 

A mensagem da Igreja é clara e decisiva para a Humanidade inteira, e vem de Jesus: Deus é Amor, Pai/Mãe que ama a todos e o seu interesse é tão-só a realização plena e a felicidade de todos, não abandonando ninguém, nem mesmo na morte. Há na História da Humanidade notícia melhor, mais felicitante? Ela está na base da tomada de consciência da dignidade inviolável da pessoa humana, da liberdade, da fraternidade, da igualdade radical de todos, dos direitos humanos.

 

Evidentemente, a mensagem é o núcleo. Mas é igualmente evidente que, onde há muita gente, muitos e muitas e espalhados por toda a Terra, se impõe um mínimo de organização, que tem de ser meio e não fim, ao serviço da mensagem. Não foi, como se lê no Evangelho segundo São Mateus, o que Jesus disse a Pedro, o primeiro Papa, louvando-o, porque proclamou que Ele é o Messias, mas chamando-o de Satanás, porque pensou que a salvação vinha mediante o poder? Que diria Jesus hoje do Vaticano, das suas intrigas, escândalos, ostentação? Não é da Cúria que se queixa o sucessor de Ratzinger, Francisco?

 

Afinal, quem decide na Igreja? Muito poucos, homens celibatários e de idade avançada, numa Igreja piramidal, centralizada, clerical, misógina, europeísta, sem separação de poderes. Francisco quer uma Igreja sinodal, com a participação de todos. Numa obra importante, Quem manda na Igreja, o sociólogo católico Javier Elzo apresenta outro modelo para a Igreja do século XXI: “Uma Igreja em rede, à maneira de um gigantesco arquipélago que cubra a face da Terra, com diferentes nós em diferentes partes do mundo, inter-relacionados e todos ligados a um nó central, que não centralizador, que, na actualidade, está no Vaticano. Aí ou noutras partes do planeta, todos os anos se reuniria uma representação universal de bispos, padres, religiosas e religiosos, leigos (homens e mulheres), todos sob a presidência do Papa, para debater a situação da Igreja no mundo e adoptar as decisões pertinentes” e iluminar os gigantescos problemas da Humanidade.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 SET 2020

BENTO XVI. UMA VIDA (4)

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1. Uma advertência. Tinha anunciado que faria três crónicas com a síntese da biografia do Papa Bento XVI, de Peter Seewald. No entanto, tratando-se de 1150 páginas, vejo-me forçado a mais duas.

2. Como ficou dito, Ratzinger ascendeu à Universidade de Tubinga em 1966. Os dois eminentes teólogos — ele e Hans Küng — entendiam-se bem. “No fundo, coincido com o colega Ratzinger”, diz Küng nas aulas. Do mesmo modo, Ratzinger: “Concordo com Küng.” Os dois tinham aliás um público igualmente grande: 400 ouvintes. (Aqui, uma nota interessante: na Alemanha, não se pergunta: “Que professores tiveste?”, mas: “Que professores ouviste?”).

Mas estava em marcha a tremenda revolução dos anos 60 (lembrar 1968), em várias frentes. Foi a revolução política, social, de costumes, sexual, e que atingiu, naturalmente, a Igreja. Diria mais tarde Ratzinger: Não se imaginaria que o Concílio, “em vez do esperado salto em frente, introduziria também um processo de decadência. Os Padres conciliares queriam adaptar a fé, mas apresentando-a em toda a sua força”, porém, em vez disso, surgiu a impressão de que “a reforma significava apenas deitar fora um peso morto, facilitar de tal modo que a reforma propriamente dita não consistia numa radicalização da fé, mas numa espécie de diluição da fé.”

Ratzinger foi ficando profundamente assustado com o que estava a acontecer, quando tudo parecia posto em causa, com movimentos extremistas, que criavam enormes tensões entre uma criatividade autêntica e a perda da identidade na Igreja. Havia padres que até se orgulhavam de retirar a cruz dos altares. No campus da Universidade, eram distribuídos panfletos a denunciar a cruz como símbolo de uma glorificação do sadomasoquismo. A teóloga católica G. Hasenhütl exigia uma “radical abertura ao mundo”, cujo ponto culminante só podia ser “uma Papisa negra, grávida”. Ratzinger podia observar “a destruição da Teologia, que, através da sua politização no sentido do messianismo marxista, estava a acontecer”. Evidentemente, os cristãos não podem ficar indiferentes perante a pobreza e a injustiça, mas o Evangelho não é favorável a uma instrumentalização da Igreja e da fé para fins políticos, observava. E constatava que o comunismo era responsável por 100 milhões de mortos e que não tinha havido um único governo comunista que não tivesse perseguido o cristianismo e as outras religiões. Face à revolução sexual, Paulo VI publicou a Humanae Vitae, proibindo a pílula e, perante a crise da Igreja, chegou a falar no “fumo de Satanás” que tinha entrado no templo de Deus.

Ratzinger já não aguentava. Em 1969, depois de Bona, de Münster, de Tubinga, segue para Regensburg/Ratisbona, que deveria ser, como disse, “decididamente a sua última peregrinação”. Ele, que ganhou o Concílio, não queria perder o pós-Concílio. Construiu uma casa, na Universidade tinha uma multidão de ouvintes, era internacionalmente convidado. Mas o facto é que em 1977 era nomeado arcebispo de Munique e, poucas semanas depois, feito cardeal pelo Papa Paulo VI. Seewald perguntou-lhe se este foi “o fim da sua felicidade pessoal e de todos os seus sonhos”, tendo ele melancolicamente respondido: “Sim.”

3. Ratzinger não saiu zangado de Tubinga, nem sequer com o colega Hans Küng: “Tinha com Küng uma relação muito positiva e despedi-me dele em paz.” Küng concordava: “Os três anos em Tubinga decorreram sem sombras para o nosso trabalho comum. Convivi com ele verdadeiramente muito bem.”

De qualquer modo, Ratzinger tomava uma nova orientação, que o correspondente do Die Welt, R. Lambrecht, em 1981, descreveu assim: “Ratzinger, outrora um pensador progressista, não mudou o seu carácter, mas corrigiu o seu rumo, quando viu que havia desenvolvimentos que poderiam levar à dissolução. Como arcebispo e cardeal não se tornou príncipe da Igreja. Toma a sua exigência no pensamento e na acção como um serviço.”

Foi neste contexto que Küng diria mais tarde: “Ratzinger rejeitou completamente aquele caos de 1968, e creio que foi esse o ponto decisivo da sua mudança rumo a uma orientação conservadora.” Aqui, o biógrafo recusa, caracterizando esta afirmação como uma “lenda”. Mais: para exaltar Ratzinger, tenta diminuir Küng, o que, no meu entender, não precisava nem devia fazer. Seja como for, em dezembro de 1979, Hans Küng é o primeiro grande teólogo a ser condenado, tendo-lhe sido retirada a “missio canonica”, isto é, já não podia ser considerado teólogo católico nem ensinar como tal. A causa próxima foi a publicação de Unfehlbar? (Infalível?), que punha em questão a infalibilidade do Papa. Ratzinger não contribuiu para a condenação pela Congregação da Doutrina da Fé, mas também não se lhe opôs. Comentou: Küng tem evidentemente o direito de manifestar a sua opinião livre, a Igreja por sua vez tem o direito de “não o considerar como intérprete da sua fé, e daí tirar as consequências”.

Küng deixa uma poderosa, consistente e vastíssima obra filosófico-teológica, para o aprofundamento da fé cristã e o diálogo ecuménico, inter-religioso e com as ciências e para um ethos (atitude ética) global. Já Papa, Ratzinger recebeu-o no Vaticano e, depois da resignação, escreveu-lhe, confessando: “A minha última e única tarefa é ajudar Francisco”.

Küng sempre se considerou católico. A última vez que o encontrei foi em Barcelona em 2004 por ocasião do encontro do Parlamento das Religiões do Mundo. E confessou-me a sua alegria por ir celebrar os seus 50 anos de padre.

(Continua)

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 29 AGO 2020

JOHANN BAPTIST METZ: O CLAMOR DAS VÍTIMAS

 

1. Já tinha acabado o congresso para o qual o convidara: “Deus no século XXI e o futuro do cristianismo”. Antes de o levar ao aeroporto, tomámos o pequeno-almoço juntos, no Seminário da Boa Nova, num espaço que dá para uma bela paisagem a espraiar-se para o mar. E ele, no fim: “Hei-de voltar, para uma conversa ao pequeno-almoço fruindo este lugar belíssimo”.

 

Foi em 2005, e já não cumprirá a promessa. O filósofo e teólogo alemão Johann Baptist Metz morreu no passado dia 2 de Dezembro, a caminho dos 92 anos.

 

2. Foi um dos maiores teólogos do século XX, pai da chamada “Nova Teologia Política”. Discípulo de Karl Rahnner, que escreveu que “o cristão do futuro será místico, isto é, alguém que ‘experienciou’ algo ou não será cristão, porque a espiritualidade do futuro já não se apoiará num ambiente religioso generalizado, anterior à experiência e à decisão da pessoa.” Metz aprofundou, para incidir na “mística de olhos abertos”, que é mística, mas abrindo os olhos para ver a realidade concreta: os que sofrem, os famintos, os injustiçados, os excluídos, os explorados de todas as maneiras, as crianças e as mulheres violadas, as vítimas todas deste mundo... Com as vítimas inocentes sempre presentes, aqueles e aquelas que foram vítimas inocentes, sem resposta dentro da História para o seu clamor. Há uma dívida da História para com elas; quem poderá pagá-la a não ser Deus?

 

Tudo começou pela sua própria experiência pessoal. Aos 16 anos, já no estertor do regime nazi, foi chamado às fileiras do exército alemão e, um dia, o comandante enviou-o com uma mensagem que devia entregar e, quando regressou, deparou com todos os companheiros mortos.  Este acontecimento trágico mudou-lhe a vida, de tal modo que permanentemente dizia aos seus estudantes, concretamente em Münster: “Se o que aqui dizemos não tiver nada a ver com as nossas vidas e as nossas dores e as dores do mundo, não serve de nada. A Teologia tem que ser significativa.” Não pode enredar-se em ritualismos secos, na mera burocracia legalista e na repetição de fórmulas de um tradicionalismo gasto, nem pode esgotar-se num espiritualismo abstracto nem cair numa redução ao foro privado.

 

O seu pensamento filosófico e teológico viveu acossado pela pergunta: “Como se pode falar de Deus depois de Auschwitz?” Afinal, a História não pode continuar a ser lida apenas a partir dos triunfadores e dos vencedores. Para ser autenticamente cristã, inclusiva, verdadeiramente universal, não pode ignorar nem esquecer o seu reverso: os vencidos, os perdedores, as vítimas.

 

A pessoa humana tem uma dimensão histórico-social, pública, política, praxística. Por isso, escreveu que a sua Teologia Política “é guiada pela intenção de tirar o seu carácter privado ao mundo conceptual teológico, à linguagem da pregação e da espiritualidade. Procura superar aquele excessivo matiz privado no discurso sobre Deus, a obstinada contraposição entre existência espiritual e liberdade de crítica social.”

 

O Reino de Deus, núcleo da mensagem de Jesus, por palavras e por obras, que o levaram à cruz, constrói-se na História, sendo, portanto, necessário superar os dualismos que cindem a realidade em duas esferas simplesmente contrapostas: privado e público, pessoal e social, teoria e praxis, contemplação e acção, imanência e transcendência. A fé cristã é da pessoa, mas da pessoa nunca isolada; é contemplativa, mas ao mesmo transformadora, “é uma praxis dentro da História e da sociedade, que se concebe como esperança solidária no Deus de Jesus enquanto Deus de vivos e de mortos que chama a ser sujeito, pessoa, na sua presença”. Por isso, olha para toda a violência e toda a injustiça, luta solidariamente por um mundo de dignidade para todos, sem esquecer Deus como “o Futuro Absoluto” (Karl Rahner), a quem apela como resposta para todas as vítimas e consumador do Reino que está a caminho. Vive no tempo, na imanência, mas sem esquecer a transcendência, a promessa de eternidade e “a reserva escatológica”, que impede de divinizar o tempo e o que no tempo se constrói, os ídolos do mundo.

 

3. Enigma maior é o do tempo. O que é o tempo? Se soubéssemos o que é o tempo, saberíamos o que somos e quem somos. Quando se medita até ao fundo, deparamos com uma alternativa essencial, que Johann Baptist Metz chamou, dentro do background da situação da crise espiritual do nosso tempo, as duas mensagens contrapostas do tempo: por um lado, a mensagem do tempo com final e, por outro, a mensagem do tempo sem final, isto é, da eternidade do tempo, que aparece nos mitos do eterno retorno e que Nietzsche também retomou de modo dramático.

 

O Homem arcaico angustiava-se com o sentimento do termo próximo da sua vida e esta angústia  do efémero terá paralisado o seu trabalho no mundo. Mas hoje, na opinião de Metz, há uma angústia mais radical, ainda que difusa. Certamente, há angústia perante as catástrofes, o terror, as guerras, a possibilidade da destruição universal, mas a angústia maior — a angústia em todas as angústias — é que não haja fim pura e simplesmente. É o tempo mítico-dionisíaco de Nietzsche: um tempo sem fim e sem finalidade, “inocente”, para lá do bem e do mal, com experiências sem fim, sem começo nem termo e com o Homem inserido no ciclo da Natureza. O próprio Nietzsche que, exaltado, aclamou o eterno retorno do mesmo como o Sol do meio-dia também sentiu o seu horror, exclamando: “Asco! Asco! Asco!”

 

Em contrapartida, temos o tempo bíblico com a esperança escatológica do Deus que vem: no tempo, está em processo de amadurecimento o que é mais do que o tempo, de tal modo que o tempo tem um final e esse final do tempo será simultaneamente a sua consumação. No horizonte do tempo a prazo, o tempo tem um final, que não é a aniquilação mas a plenitude. O tempo com final é o tempo da humanização, do despertar da consciência, do saber que o Homem existe como sujeito incondicionalmente responsável e, assim, culpável concretamente pela “falta de respeito para com a dor alheia”, como sujeito capaz de verdade e de obediência à “autoridade insubornável das vítimas”, na qual se manifesta a autoridade do Deus que salva. O Deus que, como escreveu São Paulo na Carta aos Romanos, 3, 17, “cria os que não existiam e ressuscita os que morreram”, dando-lhes a plenitude da vida.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 DEZ 2019