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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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LUIS CERNUDA (I)

Queria fazer poemas que não gerassem linguagem mas que a suprimissem.

 

Quando do meu ângulo abro as portas de um livro e dentro dele passo a viver com um anseio sem nome, aguardo anos que ele me escute e compreenda, e encontre eu a razão que por fim me dirá se nele terei vivido quanto.

 

Depois, o que importa, é que claramente o recordo e a ele recorro, e, então, é como a casa sempre que me dá a mão.

 

 

Assim e por dívida inexcedível a José Bento poeta e tradutor maior, eis esta Antologia Poética de Luis Cernuda, para quem, a poesia foi a única realidade que, como poucos no seu tempo alcançou. Assim se pode ler no prólogo, igualmente escrito pelo tradutor desta livro em edição bilingue, oportuna chancela da Cotovia.

Um ponto de partida para a compreensão da obra de Cernuda era o desejo da proximidade da por si chamada poesia pura.

Desde logo a Mozart as palavras cenurdianas surgiram como gente, sangue e meta: 

A sua música dava forma ao mundo, dava ordem, justiça, nobreza e formusura. Escreveu.

 

Luis Cernuda habitante do mundo mítico da Andaluzia nasceu em Sevilha em 1902. Incorpora-se na famosa Geração de 27, que constituiu um específico período, durante o qual as artes eram tratadas num profundo estilo vanguardista, e deste ciclo veio a ser um dos poetas mais significativos.

 

No seu exílio de Espanha e de muitos caminhos de uma infância profundamente solitária e difícil, conheceu a Inglaterra e os E.U.A. onde foi professor na Universidade de Mount Holyok, tendo vindo a falecer no México em 1963.

 

Muito influenciado por Gustavo Adolfo Bécquer e Pedro Salinas, Baudelaire, Rimbaud, Hölderlin, Mallarmé, Gide, Garcilaso, entre muitos outros, Cernuda, no seu livro, “Ocnos”, produziu dos mais admiráveis poemas em prosa.

 

Um mundo diferente também o despertou quando em 1925, terminado o seu curso de Direito, e vendo-se sem trabalho para viver, o cinema e o jazz entusiasmam-no, enquanto trabalhava nalguns suplementos de revistas, numa profunda antipatia pelo conformismo.

 

A obra de Luis Ceruda, entendo-a como uma razão, à qual sou, e serei a visitante que por ela caminha, a visitante que leva vida na ambição de se aproximar da insubornável busca de Luis Ceruda de uma linguagem que não existe, quer para tratar afetos que não podem ou não sabem ser ditos e que por assim ser - esta e outras realidades - a própria linguagem artística é ultrapassada pelo seu interior metalinguístico.

 

Hay poetas que deslumbran y poetas que alumbran. Li.

 

Para nós a força de acender está com Ceruda: um dos mais solitários escritores espanhóis que incessantemente transportou dentro de si uma multidão que, enfim, o tornou alma tão triste, tão água, fogo, terra, ar, e beijo, aquele mesmo que unge lutador e moribundo, o despido e o comprometido.

 

Na afirmação da sua verdade, o mesmo pensamento que produziu os mais arrebatadores poemas de amor -

 

 “Libertad no conozco sino la libertad de estar preso en alguien
cuyo nombre no puedo oír sin escalofrío”

 

- produziu também os mais desamparados.

 

“Morir parece fácil,
La vida es lo difícil:
Ya no sé sino usarla
En ti, con este inútil
Trabajo de quererte

que tú no necesitas”

 

Ou ainda o tão eloquentemente objetivado poema “País” traduzido por José Bento:

 

Somos uma sociedade atrasada
que somente se põe em dia nos
símbolos externos. 

 

E palpo respeitar a senha dos livros de Luis Ceruda, que numa trajetória de vida nada superficial, reconheceu que nem sempre soube ou sequer pôde criar a distância entre o poeta criador e o homem que sofre.

Destino?, ou a mais alta verdade?

De novo, apenas me aproximo.

E ávida volto ao poeta que afirma entender melhor os homens que na lenda estão mortos -

(…) quem vai do manancial latente

Ao rio que sem alento desagua.

- qual desencanto, ou antecipação da desolação das quimeras, seu último livro de poemas.

                                                         

Teresa Bracinha Vieira

"CAROÇO DE AZEITONA" OU O FASCÍNIO PELA IMENSIDÃO DOS SENTIDOS

 

Erri De Luca é romancista, tradutor e poeta italiano. Escritor de palavra rigorosa, tornou-se um escritor de culto. Entre outras línguas estudou o hebraico e neste seu livro “Caroço De Azeitona” (ed. Assírio & Alvim), Erri de Luca procura a originalidade da Palavra na profundidade das palavras bíblicas.

Erri de Luca não acredita em Deus mas acredita nos livros, e para ele, os livros que compõem o velho testamento são das coisas mais bonitas que existem mas cuja verdadeira mensagem foi sendo deturpada em traduções e adaptações.

Li este livro como se com ele estivesse a percorrer uma rara noite de percurso bíblico, sendo certo que as passagens quer do Antigo quer do Novo Testamento, me provocaram, pela mão de Erri de Luca, uma frescura muito especial e que me falou da alba de uma viagem ao país dos encontros.

E recordei o quanto me comovi no encontro com a ponte de Mostar. Uma ponte que dizia respeito ao homem e à humanidade. Uma ponte que ali era penhor de uma síntese por explicar. Uma ponte-músculo que ali também aguardava que o mais intruso do mundo a protegesse e interpretasse. Uma ponte para conforto dos presépios do mundo, uma ponte, magnífica construção em pedras brancas, sobre o rio Neretva e que bem registavam os seus prodígios através das forças com que se uniam umas às outras.

Sim, no centro da ponte de Mostar poderia sempre colocar-se a estrelinha com a cauda de ouro.

Até àquela ponte a peregrinação era a viagem e que cruel holofote-cometa a denunciou para abate?

O seu bombardeamento expos a morte no alto, à vista manifesta.

Nunca me atreverei a considerar-me residente na memória da ponte de Mostar, apenas visitante.

Acabei inventando um jeito de ali pedreira por muitos anos.

Em 2004 quando reconstruída a ponte, não me esqueci do mal, mesmo quando um pouco de bem se fez notar. Afinal não sei perdoar já que não admitiria ter sido perdoada pelo projeto falhado de a defender.

Afinal na minha vida existe o limite do irreparável.

Não se carece de ser recenseado para se contarem os filhos mortos. Digo. O sonho é o nascimento é a grande denúncia e que se lhe façam oferendas: que três estrangeiros venham dignos do nascimento e vida dos anseios, ou os futuros da humanidade não fossem eles também absolutamente justos.

«E Deus disse», esteja-se certo que em hebraico é: «E disse Deus». Porque nesta vontade de revelação o dizer é mais importante e urgente do que o próprio facto de ser Deus a falar. (Erri de Luca)

A respiração, aliás, todo o corpo deve acompanhar a viagem de cada um de nós face à interpretação e à assunção. Assume-nos mais como portadores de um coração, se assim for, e se assim for os massacres dos meninos das ruas deste mundo, reconhecem-nos.

Neste livro a precedência do escutar é único modo de leitura das escrituras sagradas.

O desafio proposto: o do fascínio pela imensidão dos sentidos.

 

É nesse sentido que fala da Bíblia como um caroço de azeitona?

Sim. As palavras que lia de manhã, quando trabalhava como operário, tinha-as como companhia para todo o resto do dia. Remastigava-as no trabalho das obras e fazia como se fosse um caroço de azeitona que me ficava na boca. 

 

Teresa Bracinha Vieira

ALDIR BLANC: ATÉ SEMPRE!

 

A noite de 26 de abril foi a mais dolorosa desde o seu internamento com Covid 19.

 

E assim foi chegando o seu momento do tempo final do mundo. Que enfim, receba este nosso adeus, num até sempre!

 

Aldir, compositor, escritor, formado em Medicina, consagrou-se como “ourives do palavreado” por Dorival Caymmi. É também um dos compositores mais gravados por Elis Regina.

 

Em 2006 publicou o livro "Rua dos Artistas e transversais" pela chancela da Agir. Neste livro reuniram-se todas as suas inúmeras crónicas.

 

Aldir Blanc foi um homem à frente do seu tempo, corajoso, tudo denunciando, procurando ater-se ao significado da linguagem das ruas. Nunca viveu à sombra do medo de colocar o dedo nas feridas, mesmo sob condições muito adversas. Agora com as novas ameaças à democracia no país de Aldir Blanc, quando ele fez 70 anos disse, numa entrevista:

 

Eu vivo de adiantamentos, empréstimos e tal. Mas há muito canalha com casa em Búzios construída com os meus direitos de autor."

 

E noutra altura:

 

Quando uma escola de samba vence subvencionada pela mais antiga ditadura africana, o esquema todo está podre. Pode ser que a rua ajude, mas desconfio que não será fácil porque, como se viu recentemente em política, tudo é manipulado.

 

Amante do jazz, os seus favoritos, Duke Ellington, Coltrane e Mingus, nunca serão esquecidos nas horas de compor. Autor de tantos clássicos como “Mestre-sala dos Mares” ou “O Bêbado e o Equilibrista” Aldir está para sempre entre nós!

 

Aldir Blanc, verdadeiro património brasileiro, aos 73 anos, tem vivido num profundo e sabido desconforto material. Aldir, sempre tão lúcido, lembremos que o lema dele tem sido "colocar no mesmo barco realidade e poesia, rindo da própria agonia".

 

Lê-se que os seus amigos e familiares “fizeram uma vaquinha” para o ajudar nestes tempos de doença a fim de poder ser transferido para um outro hospital mais preparado para Covid 19. Solicitavam qualquer doação de qualquer quantia que junta a outra o pudessem ajudar.

 

Ouvi na TSF que há tempos, ele teria sublinhado deste modo, o facto de ter feito medicina e de se ter especializado em psiquiatria:

 

"Eu talvez tenha feito boa psiquiatria na época porque eu era, antes, músico, percussionista e letrista".

 

E se não como explicar a letra “Resposta ao Tempo” de Aldir Blanc?

 

"Resposta ao Tempo"

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter
Argumento
Mas fico sem jeito, calado
Ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar

E eu não sei

Num dia azul de verão sinto vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que eu perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
E eu desperto
E o tempo se rói com inveja
De mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

 

“Resposta ao tempo”, um clássico, nunca não parou de atrair grandes vozes, como Milton NascimentoLeila PinheiroSimone e Fafá de Belém.

 

E eis um mundo que muitos conhecem:

Um mundo mesmo

 

Cristovão Bastos / Chico Buarque / Paulo César Pinheiro /
Paulinho da Viola / Abel Silva / Elton Medeiros

 

Edu Lobo ou Paulinho da Viola atrevo-me a dizer, que todos em força de espírito pediriam aos deuses que o apelo fosse até à sua cama de hospital e a canção fosse

Me Dá A Penúltima

Eu gosto quando alvorece
Porque parece que está anoitecendo
E gost quando anoitece,que só vendo
Porque penso que alvorece
E então parece que eu pude
Mais uma vez,outra noite,
Reviver a juventude (…)

 

 

Aldir, que contigo também aprendi o quanto sempre estive atraída por um ponto distante, íman à Bossa Nova também no Canecão.

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Há mulheres cuja voz é perturbadora e profunda como o tempo.

 

Tentávamos seguir o poder que nos sonhos nos tinha sido conferido pela música celta. Música também de Portugal, da Escócia, da Galiza, da Irlanda, música igualmente improvisada por trovadores; música que utiliza flautas e harpas e pianos e as línguas locais nas letras das músicas.

 

Sem que compreendêssemos porquê, sabíamos que iriamos encontrar por entre aquela escuridão, o predestinar da voz de Loreena McKennitt.

 

Era Primavera fria e no céu daquela noite só uma brecha de lua se deixava desvendar.

 

Seguíamos pelas ruas desertas procurando ouvir o rumo da voz desejada.

 

Os nossos olhos diziam a surpresa do nada no que era o tudo daquela noite sem sombras.

 

Todavia, caminhávamos, caminhávamos sem supor que a bússola dos nossos passos nos levaria a um largo imenso alumiado por lanternas suspensas das árvores.

 

De repente, no centro do ar de uma clareira, ao piano, uma mulher dona de magia, cuja voz de tão bela, de tão perturbadora, de tão profunda, nos seduzia, enquanto nós, agora abraçados, nos recordávamos termos dito um ao outro antes das trevas:

 

Till you come to me 

 

 
Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Espreitou pelo bocal da ânfora inclinando a cabeça para o interior do vaso: lá dentro o que em tormento sonhara vígil, a confirmação do que suspeitara no quase antes do adormecer.

 

Agora, o alerta vencia o sono.

 

Lá dentro, eram inúmeras as gentes em afazeres iguais, executantes de cidades e de países, todos sob um líquido translúcido e pegajoso, todos a correrem em círculos para o mesmo lado, numa obediência sem limite a quem.

 

Todos se pisavam violentamente uns aos outros para que diminuíssem o número daqueles a vigiar e também daqueles que quase tinham saído do líquido e que deveriam voltar a entrar para mais fundo ainda, não sem que antes passassem pela antecâmara que lhes sugaria a réstia de ar, liquidando-os definitivamente.

 

Dos círculos sobressaíam máscaras que tapavam os rostos de quem ali se acoitava como testemunha do que se passava. Assim e afinal estavam marcadas estas gentes. Confirmava-se tudo o que suspeitara.

 

O que lhes aconteceria? Seriam despersonalizadas? Teriam destino expiatório?

 

Olhou uma segunda vez para dentro da ânfora. Vendo sem ser visto. Os guardas da entrada estavam apenas atentos ao interior.

 

Contudo, receava as micro-câmaras que, dissimuladas, e sem sono, tudo registavam, concentradas no que se jogava, e aptas a quebrarem sempre duas asas de cada vez, lá onde se decidia o absolutismo do poder.

 

Teresa Bracinha Vieira

BERGAMO

 

Pega no tempo 

E coloca-o na tua mão em chaga

 

Verás que uma ave 

Inesperada 

Maravilha-se

 

E recompensada voa 

Levando as trágicas horas consigo

 

E é teu o espetáculo

 

Ex ovo           

 

Teresa Bracinha Vieira  

CARTAS DE BEBER - 1

 

Miguel;

 

Embora tenha sabido de ti por outros amigos comuns, saber de ti por ti, faz acender uma outra vela que esclarece dúvidas que me preocupavam desde que, daqui, partiste para o mundo.

 

Envio-te a galeria aberta de Caragh Thuring, a leste de Londres, Caragh que não se cansa de procurar de onde vieram as coisas, buscando as imagens e as ideias de todos os recantos da vida, criando os atalhos certeiros para ir até ao fundo e reconsiderar, reposicionar até as sombras, e vir de volta ao quadro que lhe dará outra janela panorâmica do que procura.

 

Em rigor, fui edificando muito do que pensava da tua pintura nestas perguntas: poderá o Miguel ter encontrado na Colômbia a proximidade com a distância que por aqui procurava e sempre lhe fugia? Poderá o Miguel, agora, andar a espreitar Thuring ou ter mesmo trocado com ela dicas e acenos para encontrarem, em paz, o vaso de onde a flor cresce clara e tranquila?

 

Miguel, olá Miguel, que pela tua carta se deduz, o teu não receio de ser, mesmo dentro das irrelevâncias das realidades que, aliás, não tentas explicar, antes sugerir-nos que as possamos percorrer, por muito embaraçoso que seja para todos nós, não termos já iniciado um percurso por aí. Eis como senti as fotografias dos teus quadros que me enviaste em diálogo com a tua carta. Julgo ter visto nelas que a tua pintura já não ameaça amanhecer: ela anda de mão com as manhãs.

 

Julgo que o teu processo passou por um confiar no desconfortável, creio que o mistério da tua pintura, nunca tu o conhecerás, é como estar sempre a ler um livro que enxerta outros, até que seja completado, e, nem mesmo quando o completas, tens uma noção exacta do que ele é, e no que se terá completado.

 

Recordo que me dizias que por aqui só encontravas superfícies planas e imóveis, e no entanto amavas muito este país, sobretudo a sua luz, mas receavas que por aqui não fosses capaz de uma pintura sedutora. No entanto, dizes, é nesta luz que pensas quando pintas.

 

Recordas-te daquele dia em que me propuseste pintar a quatro mãos sendo que eu deveria pensar nas cores como palavras? E disseste-me: todos serão trabalhos falhados, não te preocupes. Tudo é preparatório. Como bem sabes, nunca se sabe quando se encontra algo.

 

De facto Miguel, sempre que senti a tua falta, a falta da nossa amizade se ver no tacto das tintas e das palavras, pensava em ti como um pássaro em direcção lá onde e aonde tu partiste sem nunca teres vivido retirado daqui. E sim, agora respondo-te, a rocha continua lá na praia do Bueiro e é tua e minha vizinha, estejamos nós longe ou cada vez mais perto das coisas invisíveis, ela aguarda-nos mar adentro.

 

Miguel continuas com a ideia de um dia fazermos um filme? Afinal qual a razão de alguém o querer ver? Apenas no Outono, os crisântemos, talvez soubessem…não?

 

Que bom Miguel, já vires a caminho não sabes quando.

 

Afinal a maneira confortável de olhar para algo e reconhecê-lo imediatamente, é um desejo forte, e, como estamos ambos cansados, será bom o abraço.

 

Sim, será algo como uma manta de lã sobre os joelhos e sob ela estarmos de novo, mas obviamente de uma maneira diferente. Será o nosso estúdio com as nossas poeiras aquelas que não renegam as nossas responsabilidades.

 

Agora, ambos sabemos, existem sumos de pedra. Existe o decanto da vida. Existem os portões abertos ou fechados ao silêncio. E que alegria os pássaros com saudades das florestas!

 

Querido Miguel,

 

retribuo o teu abraço imenso e peço que o estendas à tua Santa Cruz de Mompox.

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

ANA HATHERLY: A ROMÃ. DE FRENTE E ASSIM DE DENTRO, AS TISANAS.

 

Poderia haver uma outra solução que não fosse a de abrir a romã. Poderia existir uma maneira melhor de sair do impasse sem que acreditasse que dentro da romã estava a resposta que procurava? Sentou-se à mesa.

 

Pensativamente continuava a olhar para a romã como uma possibilidade. Afinal existiam letras e algarismos nas sementes das romãs: existia aquela cor inconfundível do líquido-sangue que vertia.

 

Um dia, no tabliê de um táxi estava pousada uma romã:

 

- A romã não cai porquê?

 

- Tem adesivo – disse, secamente o motorista.

 

- Mas sabe que a romã é uma peça do mistério da vida?

 

- Ó amigo, estou a ver que o amigo é das religiões do porque tira e do porque deixa, e mais isto e aquilo, e os pecadores e a salvação? Desculpe lá, não acredito em coisas do além.

 

- Não, não. Eu falei do mistério da romã porque se eu fosse crente era a altura de rezar ou não andasse indeciso cá numa coisa importante. Contudo não sou crente, e por isso limito-me a ter medo, medo que dentro das romãs esteja um destino que se atire a mim se as abrir. É estranho isto que digo, eu sei. Esqueça. Não devia ter falado.

 

- Sabe amigo, não percebo nada do que diz, mas coloquei adesivo na romã para ela não cair pois por superstição quero que a romã ande comigo uns tempos, mas assim fechadinha, por dentro são um bocado complicadas, de facto: muitas circulares e muitos entroncamentos…percebe? Até sangue…é estranho é…

 

- E não receia que ela apodreça e já não o possa proteger?

 

- Não, não receio. Sabe, eu nunca vi uma romã podre. Já as vi secas, mas não podres. Elas vão mudando de cor, acastanham, depois atrofiam e de repente parece que já não estão lá: como se dentro delas, ninguém! É giro, parece que entram em metamorfose lá como os bichinhos da seda que o meu filho tem. O casulo fica abandonado, vazio.

 

Voltou-lhe à memória aquela fotografia em que segurava na mão uma romã. Aquela idade fora cúmplice dos segredos das romãs e das razões pelas quais se lhe ofereciam, muito de repente, as decifrações. Para tanto, bastara-lhe a autópsia que fizera a uma romã que tinha na sua mão, e logo, a outra sua mão escrevente, derramara a tinta bem vermelha logogrifos sobre o papel. Agora confirmava que fora como se acontecesse algo aquém do Jogo. Escreveu então que a romã, insinuara-lhe a fragmentação de tudo e de todos, e ele não a entendera. Chegava enfim o momento de ter a coragem de abrir uma romã qualquer apenas para se certificar se poderia chamar literatura às notas esparsas.

 

Lera As Tisanas de Ana Hatherly as tais que constituem uma espécie de cidade-estado construída pela escrita criadora (…) as tais que também são o excelente filtro da vida através da pintura. Lera As Tisanas e ficara numa experiência íntima tão forte que, receava bem não possuir o saber de a gerir como desejava.

 

Estou triste e só. Ligo o rádio. Oiço duas das últimas Canções de Strauss. Sinto de uma maneira profunda a sua fluidez cromática, a sua riqueza orquestral. Os metais soam como vibrantes florestas. A voz da cantora é a de uma grande ave solitária. Sinto-me um lobo sem alcateia. Quando se está muito só o gemido transforma-se em uivo.

 

(Tisana 387 do livro 463 tisanas que em 2006 conteve o conjunto destes poemas, publicado por Quimera Editore)

 

E perguntava-se agora se poderia ainda haver uma outra solução que não fosse a de abrir a romã?, qual a razão de não a deixar assim na sua metamorfose secreta, e, intuir, solitariamente, as lições que lhe iriam decidir a Sorte?, aquela mesma que ilude até tiranos, aquela que julga só saber coisas pelos seus olhos.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Em Veneza, finalmente os peixes viram a luz do Sol, e nós os vemos, enfim, felizes, no final da sua desesperada espera.

As gôndolas leem agora tão bem o fundo dos canais que já não se perdem sozinhas.

 

Também há momentos em que o muito pouco ou o nada é tudo o que se pode fazer.

Também há momentos em que a poesia dos instantes tem um voo indecifrável.

Também há momentos em que se recorda o quanto a vida foi passada junto dos outros e não se registou a aventura.

Também há momentos em que o amor se iniciou como razão do viver, e tanto se gostou dele como da vida.

Também há momentos em que muito se ama sem que o digamos.

Também há momentos em que a terra nos escorre das mãos qual parcela de si a esvair-se para outro local.

Também há momentos em que os lares nos falaram da raiz da paz.

Também há momentos em que todos dormimos a mil quilómetros do essencial.

Também há momentos sem horários para as tempestades do não compreender.

Também há momentos em que as praias, suas espumas e as areias são a elegância do nosso trajar.

Também há momentos para o nosso choro de crianças escrever a nossa morada.

Também há momentos para decidir que não me casarei com um homem que não chora.

Também há momentos para te dizer e repetir sem fim, que contigo irei para qualquer mundo do mundo.

Também há momentos em que o momento se surpreendeu, ou não encontrasse no fundo de nós, o maravilhoso.

Também há momentos em que outros e os intelectuais já não veem o sorriso.

Também há momentos de melancolia no cerne da prodigiosa solidão.

Também há momentos em que nos escapa a vida depois da infância, bela, ou daquela que muito nos matou.

Também há momentos em que gostamos de nos perder e tanto desejamos depois que nos protejam como à rosa de Exupéry.

Também há momentos de frutos , tílias, passeios, camas alvas de doçuras, correios, beijos, ciúmes, felicidades infelizes, mãos de costureiras no peito, abrigos, arvores, pássaros e outros bichos, montanhas, pontes, abraços, despedidas, martírios, mortes que não souberam chegar no tempo das piedades, solidariedades, coragens e reencontros, traições, utopias, doenças, artes, civilizações, sobrancerias até nos destinos comuns, sacerdócios sem condição humana, arcanjos sedutores, algumas eternidades, aprenderes, ofícios , milagres, vaidades nas coisas pequenas e humildes nas muito grandes, orfandades Senhor!, e um olhar para  a cidade condenada, pois lá 

 

finalmente os peixes viram a luz do Sol, e nós os vemos, enfim, felizes, no final da sua desesperada espera.

As gôndolas leem agora tão bem o fundo dos canais que já não se perdem sozinhas.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Nunca duvidei que a leitura iluminadora situa o tornar acessíveis as incertezas de uma interpretação. 

 

Nunca duvidei que uma tela com luz própria cria um movimento de análise e resposta a muitas interrogações.

 

Nunca duvidei o quanto uma peça musical ativa a precedência íntima e lúcida da imaginação.

 

Nunca duvidei o quanto uma escultura nos pode aportar ao ângulo virtuoso das razões simples e fundamentais.

 

Não duvido que a anatomia do comportamento seja deliberadamente ignorada para que se não detetem as vertigens em voga.

 

Em rigor, vive-se no cerne de rasuras totais ao significado.

 

Registo, o quanto se abandonou a diferença primordial entre criação e o seu reflexo, ou entre criação e seu dependente secundário.

 

Resumem-se ao Jogo da não-vida os sucessos formais, cujos efeitos são corrosivos, pulverizando a vulgarização, o kitsch e as subculturas de massas, sobretudo nas relações de comunicação entre as gentes.

 

A realidade decadente abrange a hipótese do enlouquecer pela erosão da privacidade e poderá ser expectável que os conflitos venham a estar assentes entre credos desacreditados e razões cercadas de trevas.

 

E a memória ainda reivindica as suas raízes num «nós» afetivo? E a arquitetura entre as artes e a eletrónica? E que alerta perante o que é novo numa re-identificação de si próprio? E o nosso cobertor de infância é agora computacional? Virtual o nosso lar? E no circo do não-mundo a mercadoria é amada numa liberdade de lucro?

 

Manequins e maquettes são afinal a moeda autorizada e a nova palavra coincide com o simulacro. Digo.

 

E em verdade, se posso ter algum descanso, ele reside na luta pela ciência interrogativa do espírito crítico, e assim ele seja o pequeno contributo que vá denunciando o reino do espetáculo.

 

Diria que um poema passou a ser tão mudo quanto o acesso à corda de um violino trancado num armário, e, muito por essa razão, se luta, para colocar o pragmatismo ao serviço das ideologias e assim manipular as massas.

 

Referindo-se à pintora Rose Wylie, Ana Ruepp disse: olhar é sempre um ato extraordinário que transforma e que interrompe o mundo.

 

Como é que isso é possível? Pergunta-se para espanto meu.

 

E edifiquei a minha casa no meio dos homens não encontrando outras palavras para esta verdade.

 

A neofesta acede ao corredor das lojas num prazer coletivo de sentir a proximidade mimética com os outros: eis o contributo à felicidade de uma multidão «unificada». O indivíduo procura-se no colectivo onde encontra segurança. Férias em grupos, jantares em grupos, todos com todos, de tal modo que se não sabem perder.

 

Os transes burlescos nas ambiências fun assemelham-se a deambulações turísticas da vida.

 

O despropósito festivo deu lugar à finalidade distrativa. As pessoas falam e falam e falam por sms e telefonam-se, entre outras não-comunicações.

 

As pessoas são o seu próprio pico de audiências acríticas mas prontas a agredir o que não compreendem, antes julgam desenfreadamente o desconhecido, e julgam-se atletas no único género de amor que conhecem, enquanto se autoproclamam heróis da sua vidinha.

 

E eis que esta também é uma sociedade de performance, uma sociedade de época, da aparência, da tirania da beleza, da corrida desenfreada e desumanizada aos resultados.

 

A sociedade do pronto-a-pensar.

 

Teresa Bracinha Vieira