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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Entrava-se no salão das inúmeras janelas daquele solar e mesmo sendo verão, logo se antecipava a recordação dos cheiros e dos sabores de Natal que começavam a bater na porta da memória aquando do final das vindimas.

 

A revelação de que o sabor do leite-creme era uma lição de afeto da bisavó e que os bolinhos de bolina teriam a exata dose de canela que lembrava o abraço-lugar-doce onde se adormecia seguro como em nenhum local, sendo este o dos braços da avó, e eis as surpreendentes realidades que nos diziam sem palavras, o que só os cheiros e os sabores sabem dizer transformando os ambientes em amor e paz.

 

A verdade é que o cheiro do trabalho das cozinhas espalhava-se pela casa abraçando todos no inicial silêncio dos manjares. Era um silêncio muito espiritual, era um silêncio de segredo infalível, pois nele as verdades expunham-se sem medo de que as mentiras ou deturpações ou sofreres do dia-a-dia, não fossem por elas vencidas de tanta compreensão.

 

E eis que este ano, em Miranda do Douro, as sopas e outros condutos servidos na Balbina deram azo ao ouvir da história de uma avó, que, passando todas as possibilidades de receitas dentro de um único pão de saberes, multiplicou as recordações das épocas tutelares, em que bastava o vapor dos caldos para que, na memória, se desenhasse a distinção entre o puro e o impuro, a inocência e a toalha de mesa, como uma salvação aos dias duros do resto do ano.

 

Não há dúvida de que de norte a sul de um país, de norte a sul do mundo, a comida é algo que ousa conviver com a vida dando-lhe cores, tráficos de sentido, poesias sem ornamentos, e leva à vida, não apenas a mera saciação, mas sobretudo o louvor sossegado das recordações tranquilas dos sabores, dos cheiros, das orações, dos entusiasmos, do contributo do dizível e do indizível e expõe-se também como ética e estética reabilitando o que nos faz feliz como dantes. Entenda-se este dantes como o tempo da experiência sem medo.

 

Assim, neste sentido, qualquer manjar, ainda que só de pão, é um ensaio humano exposto aos dias e às noites das nossas fragilidades e vulnerabilidades; é uma procura conjunta de cintilação na paisagem que nos liga ao mais fundo.

 

Há que saber que com ou sem épocas festivas marcadas no calendário, à mesa, o silêncio e os olhares dizem muito do que não sabemos. Os chãos destas mesas estão postos também com a toalha da terra, tudo é um convite ao exercício da atenção, um tempo que relata o eu e o nós, enquanto entregamos ao outro, o azeite, o sal, a possibilidade do reencontro com o que afinal julgáramos perdido.

 

Enfim, o leite-creme ou os bolinhos de bolina, a roupa velha do bacalhau do dia anterior, o peixe fresco ou a fruta de qualquer época do ano, todos afinal dialogam connosco em compromisso.

 

Resta-nos saber partilhar. Resta-nos saber que em tudo isto há excesso que se deve doar em doação doada e que possamos perceber quase tudo sem necessidade de dizer muito.

 

Cremos que um dos grandes desafios é, em cada dia, voltar a olhar e a saborear tudo pela primeira vez, como um acolhimento mútuo, uma intimidade, uma morada, uma resposta, uma visita à oficina dos sonhos reais.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Título original: Sorry we missed you, de Ken Loach

 

De olhos vazos e exaustos Rick e a mulher enfrentam dias cruéis sabendo que vivem uma vida a caminho do fuzilamento definitivo seu, e da sua família.

 

Após a crise financeira de 2008 o incêndio da não vida permanece-lhes no dia-a-dia como uma mandíbula que os morde sobretudo quando já só as lágrimas e o desespero lhes resta.

 

A consciência do que o mundo lhes dá para lutarem, parece-lhes agora mais perfurante da alma, da justiça e do amor que afinal acreditaram um dia poderem vir a viver serenamente, mesmo que à custa de se encontrarem permanentemente numa luta à beira do inferno.

 

A excelência deste filme de Ken Loach deixa-nos numa combustão interior por aquilo que afinal nunca deixámos florescer, nem antes nem depois da crise de 2008: o direito à vida digna.

 

Qualquer tipo de violência tornou-se culto desenjaulado sob os nossos olhos, os da dita compaixão possível, mas afinal da indiferença e da distância face ao sofrimento.

 

José Mário Branco tão corajosamente cantava que veio de longe de muito longe e muito passou para aqui chegar, e afinal sabia que nunca encontraria o que sonhara para o aqui e pelo qual tanto lutara. Tal como todos os elementos do programa “Governo Sombra”, a minha gratidão ao José Mário Branco é imensa por todo o prumo com que viveu a vida, não obstante, nunca me ter sentido ideologicamente par, mas sim, comoventemente, sua admiradora.

 

A verdade é que este filme me fez recordar o quanto a luta de Mário Branco foi também para que se habitasse um dia um mundo que fosse início de uma harmonia. Ricky e a mulher, descrentes afinal desta esperança de harmonia, amavam-se e amavam os filhos, e, na qualidade de cuidadora a mulher de Ricky, ainda conseguia encontrar no sofrimento alheio, a possibilidade desse sofrimento a compreender e a mimar, enquanto ele lhe penteava os cabelos e as lágrimas lhe permitiam descansar os minutos horríveis dos dias de trabalho que suportava. Ficava ela grata ao trabalho desesperante que fazia, não apenas pela possibilidade de o desempenhar bem, mas porque esse trabalho a compensava do pior que nela era a ebulição de suportar raiva e ternura, tentando sempre que esta última fosse a vencedora.

 

A cada dia restavam as cinzas do dia anterior e arrancar a partir daí para outra e mais outra cratera de dor era o injustíssimo destino a aceitar.

 

E tudo é verdade neste filme. A proposta das sociedades de hoje é para que cada um se despeça de uma parte de si e a mecanize irrecuperavelmente até que perder o seu todo seja o desígnio único.

 

As políticas oxidadas candidatam-se ao voto na fúria do poder, e, enquanto este, e a privação, ditam quem é quem, uma teia de sangue oculto acossa e esquece que até os corações se tornaram temíveis, e íntegro, mas desfeito, Ricky, a mulher e os filhos já só cartilagem e não osso, podem perder ainda o telhado tenebroso que os cobre.

 

É então esta a última morada que se oferece. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

É-me difícil entender como se vai gerindo a idade do corpo quando tão distinta da idade da mente. Há pessoas que parecem envelhecer na totalidade, ou seja, tudo em “harmonia” e ao mesmo tempo: corpo e mente estão de acordo e pim! é um “sossego”! tudo tem artroses até o coração e alma juntos, e eis o facto do qual se está dormente num todo: dizem-me.

 

Surpreende-me, contudo, que querendo muitos de nós entender a velhice, referindo-me a esta que vive a discrepância entre corpo e mente, devamos contar sempre que os outros não olham para o fundo dos nossos olhos onde se enche de perguntas a aflição dos desejos lúcidos; onde se pode ainda cartografar o que inclui experiências vividas e que geram os futuros de atuarmos de acordo com as interpretações que nos proporcionaram. Afinal, refiro-me a quem o envelhecimento físico é pesadíssimo face à jovem mente que ainda se questiona, e, assim sendo, está-se significativamente disposto a viver com o compromisso da defesa filosófica predisposta à visão atenta e particular da natureza humana.

 

Assim sendo, como é possível ouvir tanta palermice despudorada acerca da velhice, como se se tratasse de um simples período ao qual correspondem uns vagos direitos oferecidos, talvez, porque quem os recebe deu a estas gentes da tal palermice despudorada, a possibilidade de se sentarem numa confortável cadeira e de perna traçada, traçarem o caminho que se deve obedientemente percorrer, de preferência, sem queixa, doa o que doer?

 

Registo que em todas as versões dos discursos e posturas desta “fulanagem”, mora um vácuo numa qualquer versão que seja dos seus ADN, que não pede, nem emprestada, uma regra moral que impeça a perversidade e o alheamento com que se debruçam sobre a velhice alheia, já que a deles, seja em que tempo for do seu viver, em consciência, lhes não acode, nem quando comparada com a dos primatas inferiores.

 

É certo que não existe nenhum computador gigante programado para estes seres com a devida antecedência – no mínimo, antes de lhes chegar o tempo das suas falas - a fim de que soubessem que se aprende e nunca paramos de aprender, e que nos ensinamos uns aos outros a raciocinar.

 

Julgo fazer parte da tal “lógica operativa” o nosso desenvolvimento por tentativa e erro, criando ferramentas que nos ajudam a entender o cântico de um pássaro consoante habite na cidade ou no campo; consoante demonstre a sua experiência e com ela a sua idade.

 

A natureza humana altera-se consoante o mundo em que vivemos, as culturas, e consequentemente as normas de comportamento. Todavia, pergunto: não inclui a dieta de muitos dos mais jovens, a grande análise da sua envolvência com os mais velhos? A capacidade de imaginarem o colocar-se no lugar do outro, e o desejo de que lhes seja atribuído, um dia, o direito de se defenderem a si mesmos, sendo escutados e amados e respeitados e não atirados à solidão abandonada de um muro escorado num mercado de hipocrisias também de afetos?

 

Proteger as fragilidades e as forças de qualquer tipo de velhice, chegue ela em que idade chegar, é a possibilidade de começar a acreditar num mundo mais justo, mais inteligente, mais humano que impeça uma conversão maciça ao fatalismo dos campos de concentração do sofrer.

 

Em verdade, a submissão à lógica da máquina criada por seres humanos, e a entrega do seu domínio a uma força bruta, coerciva da vida, corrói as próprias constituições da liberdade, a impérios de extrema parcialidade, qual cleptocracia que sempre protege e enriquece um grupo de poder que atribui a última e desesperada trincheira a viver, com meia dúzia de silenciosos euros, a todos os restantes mais frágeis, continuando ausente a estratégia política que a impeça, e sendo que nem ao início da solução do problema principal constatamos que alguém se abeire.

 

É difícil entender como se pode gerir a idade do corpo quando tão distinta da idade da mente. Quando sem que se tenha tido sequer acesso ao código do jogo, qualquer ecrã é uma extensão da realidade da velhice mais triste, e os musculados de hoje não entendem sequer o que veem os seus olhos, onde está a bola, a pá, o significado.

 

Teresa Bracinha Vieira

MARIA JUDITE DE CARVALHO: A «FLOR DISCRETA» DA NOSSA LITERATURA, COMO LHE CHAMOU AGUSTINA

Maria Judite de Carvalho.jpg

 

De novo aqui venho com a escrita de Maria Judite de Carvalho e a unidade perspicaz que o seu movimento interior expõe e que continua, desmedidamente, a revelar um frondoso poder de comunicar, também na constante descoberta do ser-se singularmente estranho às ideias e aos sentires dos quais nascemos e àqueles face aos quais somos obrigados a fazer frente.

 

Uma noite, um mosquito marcou a sua presença, acordando-a de um forte pesadelo. Imaginou-se ainda sem vigília total, a aguardar entender o ruído de um fantasma?, de uma dor que tinha pés?, de uma madeira a estalar?, de um grito?, daqueles que se nos atravessam na garganta porque não o possuímos na totalidade?, de um estalo de tempo mais curto que o tempo, impercetível de ser entendido?, e não, nada disto, eis, agora de luz acesa, bem visível um mosquito que passa, leve como um destino sem angústia.

Todavia o ruído que a acordou enerva-a, e montando uma breve cilada, mata com destreza o mosquito imprevidente ou optimista.

O sono não voltava. O minúsculo ser tinha-a libertado do horrível pesadelo. Ela matara-o. Restou pó no lençol? Se sim, sopra-se.

Sopramos igualmente as pessoas e elas sopram-nos: às vezes sem que tenhamos sido sequer irritantes.

 

O Mosquito, encontra-se no IV volume das obras completas de Maria Judite de Carvalho para a Minotauro, e são estas obras também a possibilidade de analisarmos o tratamento aberto da acutilância com que ela espelha o seu anónimo quotidiano, a sua solidão profunda, a razão pela qual se morre por causa da razão dos outros, ou, «O Homem no Arame» não constituísse outra obra na obra em que a escritora se refere a Passárgada de Manuel Bandeira – Passárgada, Kelevim e outras terras – e não concluísse ela que o caminho aberto para Passárgada, face àquele homem, e a muitos, seria um caminho em que a descoberta fulcral…

 

(…)um homem para ter inventado o seu país mágico e para ter até ao fim da vida uma vergonha imensa de o dizer seja a quem for(…)

tem de nele

 

flutuar um sorriso em forma de barco,

 

apesar de todos os inúmeros apesares que vida diária lhe faça carrego, mas se por razão de nos seus olhos ferver uma luz, nada lhe deve ser possível perguntar e

 

«Pronto, sr. Ventura, não se fala mais nisso.»

 

Teresa Bracinha Vieira

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

Marília, ó D. Marília estou aqui!

 

Menina, já vou, já vou, o meu homem anda a cavar e anda cada vez mais surdo, é da idade, e eu fico práqui a atender a tudo. Olá menina, beijinho, como tem passado? Olhe tenho os pintainhos a nascer, venha, venha ver.

 

Entrámos devagarinho, sem fazer barulho nenhum a fim de não interrompermos o parto dos ovos.

 

Ó D. Marília, que lindo! Que lindo!

 

Pois é! E tenho a ovelha quase a parir também. Andou-me inquieta de noite que eu bemnaouvi e é assim, este mês está-me a nascer tudo. Até a cadela já está a dar mama aos filhos. Quer ver? Não senalhincoste que ela é brava porque é boa mãe. Tudo isto é muito lindo, lá quisso é, é, mas dá muito trabalhinho. Inda ontem saí do feijão-verde às dez da noite. Ó marido, anda que está aqui a menina e temos de conversar, ós pois ajeitas o resto dos morangos, anda falar que a menina tem de ir à vida dela.

 

Pois é como a minha mulher lhe disse. A menina sabe que estamos a ficar velhos e já não podemos com tudo isto, é muito encargo prá gente. Os filhos ligam-nos pra virem ao dinheirinho, mas não prájudar e como somos do Norte, pensámos em ir lá práldeia. Pegamos aqui na carroça que comprei – disse, olhando orgulhoso para um carro novo – e pronto, lá vai a gente pregar para outra freguesia e ver se os compadres ainda estão vivos.

 

Ó menina, eu sou mulher de labuta, mas como diz o marido estamos aqui sozinhos a fazer as vendas prá praça num carrego diário. Alugámos a casa e dormimos naquela espécie de quarto ao lado dos pintainhos e de noite é frio e ainda temos de andar às raposas que nos vêm ao galinheiro e ós pois ofereceram-nos uma boa quantia para fazer aqui uma pensão de praia que a praia é perto sim senhora, e prontos, desta, a gente está a pensar ir pró Norte. Que acha?

 

E a D. Marília começou a chorar e o Sr. Carvalho olhava para as batatas plantadas com os seus braços e disse-me:

 

Desgosto tenho de deixar isto. Foram muitos anos. Mas trata-se do nosso futuro, sim estamos velhos mas ainda temos futuro e se ele for a coxear ao menos agora temos dinheiro para a bengala, não é?

 

Ó menina que desafio, não é? Levamos no carro os dois cães e o galo calçudo e o resto vendemos tudo. Tenho medo da viagem lá isso tenho, mas temos de sobreviver. Chegámos até aqui com muito trabalho e o futuro chama-nos.

 

E há que dizer ó Marília, que temos lá casa, é só dar-lhe um jeito e refazer o forno do pão, mas seremos livres, livres, não acha menina? Vai ser uma nova história e há muito que conversar com os vizinhos. Já soube que os novos não querem nada com a aldeia, mas aqui não querem nada connosco. É a visita da cortesia pró dinheirito dos velhos, e, às vezes até estou na missa e só os vejo no mês seguinte e olhe que moram aqui ao lado. É assim, vamos fazer o futuro! Foi uma luta grande, mas agora é o futuro e a liberdade. Só sairemos da cama quando tivermos o corpo descansado.

 

E pronto menina estamos então conversados. Vamo-nos escrevendo. É melhor não nos visitar não vá a coisa correr mal e ficarmos lá pior do que aqui.

 

A D. Marília estava em pé encostada à mesa e tinha a cara entre as mãos. Ainda não temos a certeza disto tudo – disse – mas vamos sim. E começou a chorar baixinho.

 

Sabe menina, eu nunca deixaria de me casar aqui com o marido e ele ontem também mo disse:

 

Ó Marília vamo-nos daqui, Temos de arriscar para fazermos o nosso noivado.

 

Afastei-me, fui ver a vaca já de cama feita a forrar-lhe o chão, a palha estava sacudida. Os porcos pareciam ansiosos que tudo isto acabasse e soubessem o destino. Apanhei um saquinho de espinafres e escutei o barulho do vento nos pinheiros altos. Pois seria tudo uma pensão ou rezórte como eles diziam. Cheguei-me ao portão onde me aguardava o casal: olhei-os com atenção, nada nos perguntámos.

 

Assinámos hoje o contrato a acabar, vamos ser livres, não somos daqui, disse-me a D. Marília a olhar para o chão. Chegámos a passar fome para não gastar dinheiro. Agora vamos ao futuro, de muitas maneiras enforcámo-nos aqui e agora só não quero uma casa pintada de branco que pareça um tratamento.

 

Dois meses depois passei lá. Chamei pela D. Marília. Tudo era um deserto. Nem galinhas nem cães à solta. A carroça de marca Opel já lá não estava. Desejei muito que estivessem a noivar num futuro que lhes acontecia de repente naquela idade.

 

Afinal fora um dia indefinível aquele em que os ouvi como quem escuta do que a ausência será feita quando se explicam os dias que hão-de vir.

 

Teresa Bracinha Vieira

LITERATURA E PENSAMENTO - CICLO 2084 IMAGINE

 

Conversas com Graça Castanheira

 

De referir a gratidão que senti a cada conversa neste Ciclo 2084 Imagine: chamei-lhe momentos de flecha de tempo original.

 

Em rigor, a sucessão reflexiva e os pensamentos nela contidos e expressos neste ciclo, criaram uma ponte imensa de esperança apta a conduzir a uma outra nomeação do acreditar, quando sabemos que o acreditar tem sido mero fragmento de rotina de pouca verdade nos dias que correm.

 

Estive atenta e entusiasmada aos pressentimentos que despertaram em mim ao longo deste Ciclo 2084 Imagine acutilantemente conduzido por

Graça Castanheira.

 

A divisão e a organização deste conjunto de conversas criaram uma totalidade compacta de relações e afinidades na área do Conhecer e do Saber que propiciaram uma infinidade temática, alertando-nos a reiniciar o infinito e nele o início/indício fundamental.

 

Impossível não conectar estas conversas com O Tempo e o Modo conduzido igualmente pela realizadora e argumentista Graça Castanheira, naquela serie de entrevistas sobre o futuro, e nele também a importância do tema do estado.

 

Pareceu-me encontrar nestas entrevistas/conversas do Ciclo 2084 Imagine uma ideia de fúria, uma ideia de fúria com a proximidade exponencial de cada tema a uma distância quase irrecuperável se o perdêssemos.

 

De um lado o declive das inquietações quando existem, do outro aquilo que excede o esclarecimento da hipotética abstração: aqui o risco da densidade é claramente uma proposta.

 

A tradução das ideias nelas mesmas, tornaram-nas possíveis como futuro e como presente, afinal reaparecendo ao nosso caminho e desafiando-o a que saibamos que as ideias que temos, podem ser suficientes à mudança, mas não aquelas que nesta espera de um compacto melhor surjam propício à nossa adesão. E o compacto a que se deseja aderir não é uma suspeita, infelizmente, é uma realidade. O desejo de levar as ideias até esse compacto é igualmente uma realidade. O tríptico há-de chegar a votos! Volta-se à circunvolução no movimento parado a que assistimos em hora de prime time.

 

E eis que surgem “ciclos 2084 imagine” com a capacidade de uma escola solitária aberta ao mundo.

 

Aqui a infidelidade da sabedoria é o saber permanecer fiel, em todas as circunstâncias, ao saber da arte no estar seguro dos entendimentos e assim os erros positivos têm segura cura.

 

Afinal o robot deixa-se desnortear com facilidade pois não conhece o esforço estranho para que isso não aconteça, ainda que o robot nos possa ajudar para aquilo que o programemos.

 

Atentemos sempre que as ideias não podem ser fracas em virtude de objetos superiores. Os Gregos, creio, deixaram-nos o sentido mais próprio do que não vale para o cidadão se o sentido for o de lhe atribuir um vale imitativo ou usurpatório de uma época ilesa de gente.

 

O cérebro pousa aquém e além das asas que lhe tocaram e irrompe incontido aos meandros dos nossos olhos, num lance, quando tudo está um jogo.

 

O afeto conduz também ao porquê do ter visto. A Noite pode insinuar o Jogo, mas o primordial revela-se e ascende se por ele soubermos e quisermos que se desvende a surpresa do Eu, e dele em nós num mundo com sim.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O que fazemos agora?

 

Há quem defenda que uma ideologia beta será sempre aquela que não pergunta à razão o que leva a justificar o poderio do modo de estar alfa. Mais: o “motor” alfa é tido como o que deve ser naturalmente protegido e aclamado pois corresponde ao triunfo dos fortes sobre os fracos, mesmo que essa realidade seja a do poder da mentira sobre a pessoa moral.

 

Creio que certas “elites” esconderam sempre o seu íntimo compromisso com esta doutrina que referimos acima, usando o discurso do politicamente correto, devidamente civilizado e suficientemente bondoso, de modo a que criticá-lo envolvesse criticar o que estaria bem na mescla das correntes do bem e do mal com que se afrontam os direitos à vida digna.

 

Acreditamos que para os betas existe um único caminho que têm real vontade de percorrer para atingir o único objetivo: imitar os alfas.

 

Cremos que o percorrer desse caminho constitui nos betas o grande fundo orgulhoso de um comportamento de culto, encabeçado pelos próprios, em jeito exponencialmente violento para chegar, tanto quanto possível, a um esmero dos alfas de hoje e ultrapassando-os criando uma musculação popular desafiadora de seguidores sem questões.

 

Não há dúvida de que as redes sociais são propícias a serem utilizadas para que em poucos anos, estes betas, atinjam uma realidade global de alfas, que, de jeito subtil e subcultural se mostrem como alternativa em todo o mundo.

 

As narrativas que passam a predominar envolvem um padrão familiar: velhos preconceitos valorados com novos conteúdos económicos determinam que as vítimas ou são virtuais ou atiradas para campos especialistas em estados permanentes de revolta.

 

É o tempo das realidades alternativas incapazes sequer de serem neutras porquanto ensinam a alcançar a finalidade dos betas enquanto se nutrem dos banquetes dos alfas que enfim já deixaram de ser o poder que agora se quer alcançar numa hostilidade clara às próprias universidades.

 

E não descurando as fobias e as obsessões de estimação de alfas e betas e novíssimos alfas, o que fazemos agora?

 

Talvez criarmos forças não esperadas, já que esperados não somos, a que alfas e betas e alfíssimos sejam obrigados a expor os internos inimigos de si mesmos, retirando-lhes a possibilidade de os usarem como motor e motivo do seu combate.

 

Claro que a força não esperada terá de conter o atrevimento de desagradar a estes novos senhores da vida bem como a capacidade de lhes provar que ainda existe uma parte considerável do mundo que não é o seu quintal.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

CRÓNICA DA CULTURA.jpg

 

A ilusão da pós-verdade chama-se mentira. O medo do outro e do diferente só se supera com partilha de responsabilidades e melhor democracia. É de economia ciente da importância da cultura como criação que falamos.

por Guilherme d’Oliveira Martins in Jornal Público / 07 de agosto de 2019

 

E de facto ao olhar para a ponte de Mostar em 1982, o sonho que haveria um passo comum em direcção a um futuro melhor foi-me claro. E foi-me claro pela história da responsabilidade que o pluralismo da democracia a todos chamaria; e foi-me claro pelo impacto da cultura que vivi naquela viagem de meses à Jugoslávia; e foi-me claro porque não queria uma coisa abstracta situada no futuro de todos nós: uma coisa abstracta com nome de mentira.

Acreditei que todos nós chegaríamos à conclusão de que a alteridade dos outros é parte integrante da nossa humanidade. Acreditei que a cultura dos povos seria tão criativa que animada por vontades objectivas desmontaria as instituições imperfeitas, as económicas e as outras, e só o seu prenúncio impediria a compreensão incauta da globalização.

Estava longe da brutalidade com que os vários tipos de terrorismos saltariam das televisões defendendo a lucidez dos estados em pânico como realidade ancora em vontades, ou seja, em votos mesmo não expressos.

Navegar nos barcos de Klee deixou de ser política de acolhimento e defesa de um interior espírito de desafio à criatividade nas mudanças estruturais de vida. A partilha de riscos na determinação do bem-estar não se concretizou como messias à construção da prosperidade na idealização da cultura e da civilização.

E é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores.

Há que nos desviarmos de guiões que nos são sugeridos mesmo quando não pareça; há que entender os traumas do passado como base para discussão de possibilidades futuras; há que estarmos atentos à actualidade que se move à nossa volta cheia de nostalgias para que nacionalismos sejam a solução lacunar das democracias.

Não podemos dizer que precisamos de tempo pois já não há tempo para nos redimirmos das desatenções. Os pensadores receiam que nem as ciências nem as artes possam ser suficientes para seduzir as plateias de vidas que não prosperando, têm o poder dos saltos violentos como solução e pseudo sustento ideológico para justificação comportamental de si mesmas.

Por isso mesmo, neste caldeirão

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores

sem os homicídios das guerras e a atribuição estonteada de culpas.

A distância que nos separa dos totalitarismos não nos deve deixar baixar a guarda.

Quem joga? E o que se joga? Quem é o senhor do Jogo?

Como é a noite sem estrelas?

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem nos conformarmos com a condição humana que nos coube.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

CRÓNICA DA CULTURA

A EUROPA uma possibilidade.jpg

 

   A EUROPA: uma possibilidade

 

Creio que se deseja uma Europa que consiga preservar a paz, uma Europa próspera, uma Europa em cuja cultura civilizada os cidadãos se identifiquem, desafiadores de um futuro responsável, responsável também pela ordem social que abarca a procura de uma justiça justa, uma justiça fora dos cenários das utopias, uma justiça como condição única e natural forma dos povos se entenderem e se serenarem.

Quero crer que se deseja a Europa! Quero crer que esse desejo é consciente de que terá de ser urgentemente realizado nesta Europa, um imediato futuro diferente daquele por onde tanto errámos. Em rigor, também sinto que o projecto de integração europeia, na actual União Europeia resultou nesta Europa sacudida e doente; tombada pelas mãos das inúmeras políticas e instituições que dela se serviram para a abater, para a partir em tantos pedaços quanto os necessários à manipulação da sua fragilidade, de modo a que o seu reerguer não se pudesse concretizar.

Todavia, volto a insistir: quero crer que se deseja uma Europa unida e noutros parâmetros, quero crer que se vai lutar por ela, ou a certeza de que o corolário natural da actual situação, se nada de relevante for feito, terá tantas consequências negativas que este nosso Portugal se transformará em mero ancião-cidadão-comum de destino de inaceitável preço.

A nível global, a realidade que acarretaria a queda desta Europa sem alternativa no seu seio, tenho-a, na minha modesta opinião, como imprevisível e perigosíssima, ou essa realidade não deitasse mão da entropia e dos equívocos vividos neste projecto, para que as grandes rupturas globais, onde se não desejam, fossem activadas, clarificando-se enfim, o mundo, que se não apraz nas ideias da consensualização.

Urge falarmos, discutirmos, actuarmos em urgência prioritária à ideia de uma Europa unida com possibilidades de “exigência pragmática de utopia” como referiu Steiner, mas igualmente com a capacidade de protegermos objectivamente as democracias dos nacionalismos que se deleitam a provar, em estratagemas de ocasião, o quanto os direitos humanos são exigentes de concretizar.

Quero crer que iremos saber provar que para um novo mundo europeu, existem caminhos que só se percorrem pelo respeito dos menos poderosos; pelo respeito pelas diferenças pois que a Europa é plural, pelo assumir da solidariedade, e entre tantas outras vertentes nucleares, pelo conhecimento de que as grandes preocupações são não-territoriais.

A Europa continuará a ser uma possibilidade, se desde logo não descurarmos que o aumento terrível da pobreza na União Europeia significa, em última análise, a descrença de milhões de europeus na sua melhoria de vida, e por essa descrença somos todos responsáveis de modo agravado, se não criarmos de imediato, dentro da União Europeia as vias que concretizem a união política que venha a suportar outras uniões que façam frente aos poderosos interesses instalados.

Quando o nosso futuro comum, enquanto europeus, resvala para o abismo, e depois das grandes guerras vividas, resta acreditar que a Europa é uma possibilidade! sim! é uma esperança!, sim!, contra os fatalistas, se se souber refundar  a tempo de não permitirmos que esta Europa seja mero joguete esfarrapado nas mãos dos directórios internacionais.

Urge que um dos grandes muros a destruir seja o que impede o vigor no combate para que se inicie um futuro melhor, um futuro que seja pedra fundamental e pedra filosofal, pedras que impeçam, nomeadamente que a hegemonia do capital e a desregulação que lhe deu chão impeçam de vez, que a arquitectura do dinheiro se infiltre nos processos de deliberação política.

A Europa: uma possibilidade!

 

                                                       Se voltasse ao princípio, começava pela cultura.

                                                                                Jean Monnet

 

Teresa Bracinha Vieira

 

 

DIOGO FREITAS DO AMARAL (1941-2019)

freitas do amaral.jpg

 

“I've lived a life that's full
I've traveled each and every highway
But more, much more than this
I did it my way”
Vivi uma vida cheia
Viajei por todas as auto-estradas
Mas mais, mais do que isso
Fi-lo à minha maneira

 

     e omitiu de propósito

And now, the end is near
And so i face the final curtain
Agora, que o fim está perto
E que enfrento a cortina final

 

Não o fez por esquecimento - escreveu-se -  mas, certamente, para evitar a exposição pública de constrangimentos da plateia de amigos que assistia ao lançamento do seu último livro no Centro Cultural de Belém.

As feiras de outras vaidades deixou pelo caminho na hora certa. A poesia, soube-o a tempo, foi a virtude reencontrada.

É necessário, digo, o respeito pela cedência da força face à doçura. Por aí o reencontro com a delicadeza em que se faz saber a nós mesmos que o domínio do nosso sentir só se faz no sentido íntimo do outro. É o único progresso que nos humaniza porquanto por aí se partilham as solidões e as poeiras da vida.

O amor como todos os sentires, abre fendas, e a ideia de um recomeço implica sempre a sua transformação numa associação, enfim, será quando um género de fraternidade das armas da política, da economia, da justiça, dos estatutos, dos compromissos, da pobreza, fica desamparado pois dele em nós, não se exigiu o suficiente e chegou a nossa partida!

Já não é possível recomeçar-se mesmo que se recusem falhas, fazê-lo teria sido o segredo maior da coragem, a adesão da inteligência à verdade. Diria mesmo que para a abordagem da razão, talvez nem uma alma de criança baste; tudo é embrionário no fim. Sentiremos então que encontraremos tudo pelo deslumbramento das fronteiras que afinal se não traçam?

Se assim for, o amor venceu a morte e esta é doravante oferecida numa participação eterna na vida.

Se assim for, não há justiças compensadoras noutros locais que não aqui. A paz no mundo tem este preço, bem-haja quem teve no coração uma moral que soube o quanto a equidade respeita a dignidade humana e se funda numa sociedade livre.

 

   Teresa Bracinha Vieira