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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

VALE TUDO

 

Para os dias de hoje a dominação do individuo através da manipulação das suas necessidades, constitui o melhor modo de o integrar no sistema social, enquanto o seu mundo interior, a cada dia que passa, se verga ao entretenimento de outras vontades.

Sector estratégico nos planos político, económico e cultural é a comunicação que fatura dinheiro e gente para um universo do nada ou do poucochinho, e esta é a grande indústria imposta por uma minoria, única beneficiária das regras que impõe.

Em rigor, as formas veladas de pressão sobre a mente das gentes, através dos meios massivos de informação de bífida cultura, manipulam com violência ardilosa incertezas e medos e frustrações, na exata dose que levam o individuo a sentir-se permanentemente insatisfeito.

Deste modo, quanto mais dolorosamente o sujeito é confrontado com a negação do que julgava merecer e obter, quanto mais uma certa elite recear vir a perder as posições que eventualmente conquiste, sobretudo em momentos de crise ou mudança, maior é a necessidade desse mesmo sujeito ocultar a realidade, ignorar mesmo que a conhece.

O mais fácil então - e visto que a ciência não pode oferecer mais do que dúvidas- é que os indivíduos se submetam a uma panóplia de verdades absolutas, passando a vida a ser vivida numa sociedade cujas grandes energias residem na mentira.

Natural se tornou que vivam os videojogos que fazem furor se se basearem na combinação que atinge a agressividade, o culto pela indiferença, a sujidade de espírito, o desafeto, a força bruta do vale tudo.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

JON FOSSE

“O destino de um tocador de violino é apenas isso, o destino.”

 

 

Tens frio, diz Asle

Sim, estou encharcada e tenho frio, diz Alida

Asle adormece de pé e Alida agacha-se com o seu enorme ventre, e acha possível, enquanto adormece, dar à luz dentro de horas.

Na rua.

Ambos sentiram o frio, aquele que faz tremer as paredes do fiorde, aquele que trespassa as casas e lhes chega aos olhos para lhes dizer que não há sítio para ficarem. Há frio.

O destino de quem sente frio, é apenas isso, sentir frio.

Na primeira novela desta trilogia, a vigília do frio sobre nós é a que nos surge até dentro da memória, é a que nos explica que o frio não adormece nunca porque há dentro dele um frio e outro e outro, sucessivamente.

Aqui lemos um frio que flui na música e se enrola na caixa do violino de Asle e no enorme ventre de Alida. É um frio de cimento. É um frio que impede o exílio.

E vão bater à porta da casa da frente (…) uma rapariga olha para eles, um pouco incrédula, e quando Asle lhe pergunta se têm um quarto para alugar, ela sorri e diz que para ele, poderão sempre arranjar-lhe um quarto, mas para aquela ali é mais difícil (…) no estado em que se encontra

e continuam a andar.

E o quarto?

Continuam sós.

Nem o frio conta como algo. O frio tomou-os num gole mais forte e há um infinito pó neste frio trazido pelo vento. Um pó que nenhuma persiana segura, e há música, a música é fundamental na união destes dois jovens ao frio.

O seu amor vencerá caso pecado ou morte se envolvam porque o destino de um tocador de violino é apenas isso, o destino, e o destino de quem sente frio, é apenas isso, sentir frio.

O frio esclarecedor desta escrita hipnótica tão poesia quanto prosa arrebata na leitura.

Da nossa contemporaneidade, Jon Fosse é um dos escritores mais celebrados. Foi prémio Literário Do Conselho Nórdico.

Nasceu Jon Fosse no Oeste da Noruega, e vive atualmente numa residência honorária situada nas propriedades do Palácio Real de Oslo, chamada «Grotten», bem como em Hainburg, Áustria, e em Frekhaug, Noruega.

A sua obra extensa está traduzida em mais de quarenta línguas. 

Trilogia, eis um livro que entra como uma pena nos sinais ao nosso pensamento.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

2022

 

As coisas da condição humana continuam a ser coisas simples, verdades antigas como a necessidade de entender o mundo, a procura da origem, a raiz dos fenómenos e dos sentires.


Poder falar destas realidades, é domínio de quem com extrema sabedoria, consegue a simplicidade de as dizer.


Descuidam – ou não?-  as gentes, no atribuir-se si mesmas utilidades com tamanha facilidade e jeito tão atreito ao seu milímetro, que explicam com aptidão o sucesso dos maus canais televisivos, bem como os seus viveres reveladores de que sem o tal vil metal, se descarnavam espalmadas as consequências das suas próprias descobertas.


Afinal, quando será que num novo ano, nos congratularemos com a coragem da pergunta sincera que as gentes farão ao seu pensamento, não recuando nas consequências do ato?


Afinal referimo-nos a uma prática de honestidade intelectual que descobre o átomo da mente não serventuário, nem dócil ao embuste em que se vive.


Afinal a condição humana continua a não ser apenas o discurso de lugares-comuns que tudo mostram para que pouco se veja.


Afinal o que está em jogo é a felicidade do homem numa historicidade que os tem dominado belicosamente numa relação de poder e não de sentido como afirmava Michel Foucault.


Cremos que a orientação no mundo, é uma necessidade humana que deve ser bem mais desenvolvida do que aquela que se investe nos ginásios para orientação física.


Vive-se um tempo de universo concentracionário e exposto sem pudor. Nem parece o quanto dele é ainda tabu, viagem, liberdade, coisas de substância da condição humana.


Sugere Drummond

(…)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


(extrato do poema “Receita de Ano Novo”)

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

SÍTIO


Querida Dulce,


Dizes na tua carta que sentes por cima da cabeça uma estrela que te olha de há muitos, muitos anos-luz, e que tão mal te conhece afinal!

Será assim? daqui te pergunto?

Será que foi ela que te chegou fora do tempo ou tu nunca deixaste que ela te visse?

Tantas vezes acontece, doce amiga, que dores nos abraçam de tal jeito que ficamos num nó, entregues a nós, e tanto que até nos chega a incapacidade de voar, estorvamos mesmo o próprio espaço que ocupamos e ficamos embaciados a outras realidades.

Não sei como te transmitir de outro modo o que te queria dizer, mas o tempo, o tempo de quando em vez é altar da vida, e teima em nos colocar de joelhos, e talvez ao contrário do que julgas, a estrela que referes tem no céu um mundo solidário que te abrange.

É bem difícil, querida amiga, entender que há vida mesmo quando ela se oculta.

Minha amiga;

Com um forte abraço te peço que tenhas sempre à mão os bocadinhos de ser feliz como quem tem de regar o verde do mundo.

Mais: recorda que há muita inutilidade nas coisas importantes. Escolhe, pois, um caminho pouco andado e sentirás uma liberdade diferente a cada passo: verás que talvez estejas na cadeia à qual te decidiste.


Querida Dulce,

Peço-te que te lembres que espero por ti na porta de cima do dia, à qual já prometemos novo sentido.

Cuida que se atares à tua memória ninho ou casa, a cada dia que te quiseres ver ao espelho da estrela anos-luz, é teu o conhecer que te aguardo aqui como sítio definido.

 

A tua amiga

Isa

 

 Teresa Bracinha Vieira

DESMOND TUTU

desmond tutu.jpg

 

A CORAGEM DA LUTA TÃO LUTA!

Na sua vida as linhas convergentes foram as que o uniram à humanidade.

Sempre preferiu aprender pormenorizadamente o como da paz do que deixar-lhe mera impressão digital.

 

DESMOND TUTU

A alegria no presente, a perícia no desafio por um futuro novo.

Que os mais frágeis de hoje sejam os escribas à luz do amanhã.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Iam os ventos muito grandes em demanda

Das coisas deste mundo e era dezembro

 

Apressem-se, apressem-se – ouvia-se

Tendes vós pouco tempo para o nascer encontrar

E só ele vos dará o favor do deus para os poemas

Favorecidos pelo sonho que sois

Mânticos e núbios à aproximação da luz

 

Diz o Ouvinte:

 

Concedo-vos argila e oleiro

Moldai a ideia nova e se faça ela tão perto

De tão perto e tão humana

Que não haja casa nem rua

 

Onde não penetre

 

E de onde

Se não invada

 

Mão.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


O GRANDE ALGORITMO


Estar com quem amamos, sentir o afeto nos olhos que se olham, nos sorrisos e rires que se mesclam em bolas de espontâneo cristal; escutar o timbre das vozes que nos afagam, as palavras ditas por silêncios, tudo no regaço do bem-estar do estar com os amigos de toda uma vida, é fortuna que espreita da alma, dando-lhe força para que agora a esperança não seja noturna.

Digo.

Mas será que temos consciência do domínio sobre nós dos veículos de estarmos juntos on line e do quanto nos abalam, tal o nível de alteração da experiência e do sentir humanos se transmitirem por ferramentas que insistem no quanto sim, tudo é esta realidade?

A pandemia da COVID-19 obrigou-nos a reunir por videoconferência, agora omnipresente.

O mundo foi-se fechando e a sofrer perdas definitivas, a modificar-se como se bastasse aceitar o quanto estes novos instrumentos ligados à inteligência artificial (IA) são capazes de amizade, curiosidade e dúvidas, aceitando de barato que a tecnologia mude a nossa perceção, conhecimento e realidade, e, sobretudo, descurando que ao fazê-lo está a mudar o curso da humana história.

Docemente permitimos entender que as máquinas excedam o pensamento humano enviando-nos muitos beijinhos e abraços e fotos dos nossos rostos sem máscara e até das cores das artes e dos emojis.

O romance prescindiu do ímpeto de nos abraçarmos, a mensagem WAPP desempenha esse papel e afinal nada falta.

E quando tudo isto começou?

Com a pandemia?

Não, não se creia assim. Antes dela as jogadas concebidas e executadas e armazenadas por humanos até na educação dos jovens, tinham sido aceites sem a originalidade da contestação sólida.

Assim, sacrificaram-se valores e caminhos de luz e luta e amor por jogos no interior de cada um que maximizassem as probabilidades de ganhar fosse o que fosse. Ganhar é o acervo com o qual passaram a dormir os nervosos jovens.

Ganhar seja o que for é a grande molécula antibacteriana ao contacto entre as gentes.

Sentir o afeto nos olhos que se olham é batismo que não colhe.

O novo antibiótico tem a dose certa da indiferença.

Tudo é assético.

Com a pandemia e com o que já funcionava antes dela e que enfim, lhe trouxe o êxito mundial, chegou o grande algoritmo.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Lídia Jorge. A compreensão reside na continuada interpretação. 


Acedo à amizade que partilho com Lídia numa substancial eternidade do dito e do que fica por dizer, quando sabemos de cor como disseminamos silêncios viventes, troianos, pontuais, numa arte de hermenêutica de ilimitada abordagem.


Em 1981 quando li O Dia dos Prodígios percecionei o quanto a Lídia poderia fazer dos livros sobre os livros; o quanto esta magnifica escritora poderia vir a ser considerada como aquela que age nas palavras num todo significante raramente encontrado.


E aguardei.


Aguardei para ler outro e outro livro da Lídia Jorge, num contexto de paz entre o significado e a compreensão. Numa circunstância de corpo-receção, de ouvido cumulativo à mão cheia de mundo, pois que a obra não era, nem nunca fora, nem é efémera ou vulgar.


Sim Lídia, hoje entendo a promessa que fazemos à felicidade e a outros núcleos de histórias íntimas, e tudo de tal forma força que, de facto, só é menor a violência exterior das mulheres na forma de exercer o poder, tal como afirmas na entrevista de maio deste ano à revista Ler. Todavia, atamos realmente as relações de um jeito muito perverso, remetendo, quantas vezes, para o lado masculino, o vencer a todo o preço.


Querida Lídia, eu também digo muitas vezes o quanto somos muito próximos nos comportamentos de outros que julgamos não assumir e o quanto somos muito distantes daqueles que não vendem a alma por um punhado de palavras.


Acresce mesmo dizer, e a propósito da minha leitura do teu livro A Noite das Mulheres Cantoras, que me falta a tolerância à ganga ética dos tristes que de si se enamoram e cegam, numa mão cheia de incongruências.


Afinal como não sabermos andar cinco centímetros acima do chão?


Acima do chão para amar, suspender, espantar, seduzir, ouvir, rever, herdar, inovar, pintar, recusar, numa experiência pessoal que é processo de mosaico?


A Ilíada e a Odisseia têm-me acompanhado toda a vida. Fausto é para mim uma questão de fúria e até Nadime Gordimer me prova o quanto é cerco a história de cada um dos seus livros. Contudo, queridíssima Amiga Lídia Jorge, bem sei que sabes que a filologia é um somatório de amor e logos, mas sem amálgama alguma, é sim, a escultura da palavra, a figuração explicativa de significados que de modo tão exclusivo sabes concretizar.


Maestrina ao longo da tua obra exprimes o sentido fonte como um espelho que olha para outro espelho, trocando luz. Assim O Cais das Merendas; assim e numa variedade responsiva o Combateremos a Sombra, livro de encontro e colisão entre a consciência e a forma significante, livro só teu enquanto escritora.


Deixa que diga ainda o quanto O Belo Adormecido englobando os contos do desejo, ou de um desejo, tem a morosidade bastante à revelação da natureza do ser enquanto pessoas afinadas ou não pela música que nos possui. Ingrediente da própria intriga do ser? Não o interpretei assim, mas antes um ser sobre as nossas paixões, nunca demasiadamente enigmáticas, e, no entanto, plenas de concatenações de antenas estritamente privadas e que, por vezes, até escapam ao nosso entendimento.


Diria que aqui e além o teu romance, O Grande Gatão é uma história tão plena das aventuras pelas noites de luar quanto o é, de muitas formas, o empenho da mulher insubmissa que reside pelo livro A Maçon.


Registei e registo que nos Invernos em que se digladiou para a libertação, uma mulher, face a um marido que a queria na dimensão do bico do seu lápis, vem a ter ela personagem no teu livro O Marido e Outros Contos. 


Toda esta escrita, tua escrita, querida Lídia é de uma extraordinária limpidez e inquietação seminal.


Repetirei que tem a escrita de Lídia Jorge o privilégio de exigir a sua leitura de lápis na mão, e o privilégio de gerar réplica no leitor. Fazê-lo pensar também como a mãe das Musas.


No meu interpretar, a obra de Lídia Jorge é uma experiência que modifica a consciência.


É amiúde uma escrita inesperada e no campo estético, poderosa, possuidora de voz, humor, desígnios, aflições, consolos e tão aguarela de Cézanne que a paisagem das nossas perceções tem a frescura das tempestades após a calmaria.


A maturidade desta escrita implica que a compreensão resida na continuada interpretação, e nos alerte sempre que afinal o regresso a casa, só é regresso a uma casa como a vida.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs. Reposição de texto publicado em 2011.

CRÓNICA DA CULTURA


EXERCÍCIO

 

Vencida pela força do meu dano

Nadei no manso rio

Onde as ninfas de todos os desenganos

Nos chegam transparentes como as águas

Disse-lhes:

Não estou exausta, enquanto tiver vida

A minha força será sempre

Pedida

Pelo rigor do desvio do mundo

Pelo cioso fogo do dia

Em que vencida pela força do meu dano

Nade, pois, no manso rio

E de tanto me levedar

Desate assim a laçada estreita

Do código das águas de destino próspero

E sejam elas o banho da rosa encarnada

Na maravilha dos teus olhos

Amor

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs. Reposição

ALMUDENA GRANDES


Uma das grandes escritoras do nosso tempo que às gentes caminhantes aconteceu.


Malena es un nombre de tango,
livro perturbador, corajoso que dá forma ao tempo do conhecer e do dar a conhecer, na busca de uma perfeição inalcançável.

Os Doentes do doutor Garcia, até nós pela mão da Porto Editora em 2020 entre outros.

As tuas palavras, as poucas que de ti conheci, senti-as como um convite à casa onde as coisas também estão como casa do morar.

Obrigada!

 

Teresa Bracinha Vieira