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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

OS GURUS DOS INTERESSES PESSOAIS

 

Teremos ajuda nas nossas necessidades se falarmos a quem as possa ajudar a eliminar, transmitindo-lhes com exatidão, quais as vantagens deles, nesse ato, já que a perseguição do interesse pessoal é a grande motivação para que tenham lugar eventuais ajudas, e apenas terão lugar essas ajudas, desde que guiadas pela maximização do interesse pessoal e não pela solidariedade, pela humanidade, pela generosidade, pela justiça, pela humanidade.

 

Mas as moscas, esta espécie de moscas infetadas que habitam o termo da história, minam ininterruptamente e de há muito, o último jardim cujos moinhos e canaviais contribuíam à distribuição das aguas de beber, e, por ali a origem fenoménica do Conhecimento enraizava-se na sua historial origem, uma origem, diria, anterior ao Pensamento ligada aos seres do porvir e do antevir que comungavam uma pululante vida, sem entropia, nem termo, nem destino inquieto, nem nirvana: apenas e bastante multiplicação de valores, de enigmas, de questionares que afinal poderiam conciliar o homem nas somas que abusam, e vão ao limite das possibilidades, e tal era sempre a nossa opção sem cansaço.

 

E os coletes amarelos e roxos e pretos e brancos, cor da súmula das cores, não surgem, parece-nos, como flores da ideia de Deus cujas emoções desamparadas no mundo os fazem acolher nos braços, essa emoção, e por ela lutarem. Diria sim, que também os coletes dos muros todos do mundo, parecem apenas ter como função equiparar preços de escravatura imperecíveis nas balanças dos gurus dos interesses pessoais, que vão admitindo existir, e bem sabem ser esse caminho da luta forte e vencedora pela eternização deste novo estar visível de há muito.

 

Mas os coletes também são sons primordiais de uma razão, de um lancinante grito que cresce apalpável na dor e na esperança.

 

Afinal estamos lançados num mundo no qual quanto mais nos debatemos mais nos enredamos na teia preparada a nos tolher; e a grande aranha ali nos deixa, ela, intocável, transparente mesmo, qual predador perfeito que apaga o caminho sem qualquer rastro.

 

E nós? Ficamos a esperar por paradoxo?

 

A economia do equilíbrio que tanto desejávamos casada com a filosofia moral se, incorreta, face ao princípio do seu comportamento por interesse pessoal, é causadora da deficiência consumada e sem retorno do pobre cada vez mais minguar e do rico medrar nicho a nicho numa existência facilitada.

 

Que eu saiba os sonhos também se aproveitam dos materiais de cada dia vivido, então pergunto: onde e como enfrento o pouco ou o nada desses dias que coincidem com os fins dos tempos? E como as sobremaneira arrogantes, ditatoriais, populistas, ignaras, são representantes do mando no mundo, mesmo que bastardas da condição humana?

 

Cada vez mais os viventes de superior razão e exemplar sentido são tratados, quanto muito, como silhuetas, e mesmo que tenham forma e dor de homens, a grande Coisa Absurda despe-os até que o senso se esvaia.

 

Depois, depois quando não se saiba já que ideia têm os outros de nós, que ideia poderíamos ter dos deuses e eles de nós, querem-nos fazer crer que é tempo de subir às arvores que existam, e, por lá deixarmo-nos cair bem fundo nos mediterrâneos do mundo, e tudo sem vergonha assumindo a irredenção da culpa.

 

Doravante as guerras e as torturas serão arbitradas entre medo e esperança devidamente codificados, sendo que poucos foram os que até aqui questionaram sequer se alguma vez tinham questionado.

 

A consciência faz-se densa e incendeia-se e descreve um círculo sobre um céu desbotado. Receia-se que ela, abutre, vagueie com algo ligado à morte ou aguarde em desmaio, um estado de rascunho perpétuo, por muito que queira acreditar nas realidades com unidade e sentido que lhe salvarão o coração de tão potentes e famintas aves negras.

*

Agora deixem-me, vou sozinha. Um qualquer inseto espera-me. Ou tenho-te a ti, no colo, na amizade dos meus joelhos.

 

Teresa Bracinha Vieira

JOÃO CABRAL DE MELO NETO: UM REINO MARAVILHOSO

 

“…E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.”
– João Cabral de Melo Neto, trecho de “Morte e Vida Severina”.

 

E relíamos “Morte e Vida Severina” na Igreja de Santa Isabel em evoluído diálogo com o nosso catequista e a orientadora da Profissão de Fé. Era um tempo em vários atos de verdadeira higiene ou conselho ao pensar possível na nossa idade, porque mais doce era aquele compreender em nós, orgulhosos de espreitarmos mundos de onde pouco ou nada escutáramos, cegos que eramos às mondas e às foices, e ao negro pardo ou hulha, ou ao carcereiro branco e o significado das vidas cangas em todos.

 

Um dia, saberão, diziam-nos

 

Morre-se um pouco ao ler, nasce-se um pouco ao entender

 

E olhávamos uns para os outros numa mímica de pergunta conformada pelo orgulho de estarmos a falar de quem sabia o que eram reinos maravilhosos, refreados, às vezes, pelos poderes que não conhecíamos bem ainda, mas que os não queriam por perto. Estranho! Atraente.

 

E lá me tocou a vez e disse o melhor que podia e alto: 

 

«De João Cabral de Melo Neto»

 

- Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
- Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso de tais partidas, 
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.

 

E a orientadora virou-se para mim e perguntou

 

De que achas que falaste?

 

Instaurou-se um silêncio que escutava entre a minha incredulidade pela pergunta e o meu medo de não ter entendido nada

 

Entreolhei todos os meus colegas em busca da ajuda que não veio. E lá me fiz à resposta:

 

Acho que é como em casa. Uns dias só podemos estar com os amigos um bocadinho e um dia os pais não nos proíbem de casar e lá vamos nós meninas, de vez, fazer uma outra vida e sem eles proibirem nada, e a gente até pode nem querer bem aquilo, a não ser o vestido branco e as flores.

 

Olha, olha, disse o Luís, não é nada disso. João Cabral de Melo Neto é um poeta muito famoso e muito bom, ele até analisa o mundo e diz-nos o quanto uns têm tudo e outros são pobres e ninguém se importa, e faz poemas especiais sobre a sede.

 

Muito bem, Luís. Muito bem acrescentou o catequista!

 

Hoje leio neste livro de João Cabral de Melo Neto com chancela da Global Editora, São Paulo 2010 e com seleção de poesia de Antonio Carlos Secchin, inúmeros poemas deste poeta, que, continua exemplar às letras do mundo de hoje, exemplar à conduta literária de vigilância e eu nele segura também como quem descobriu o guiar-se pela contenção e, ao menos, uma parte, através da dicção do mar.

 

Eis um exemplo de tudo do seu reino maravilhoso

 

Menino, o gume de uma cana
cortou-me ao quase cegar-me,
e uma cicatriz, que não guardo,
soube dentro de mim guardar-se.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

A Matemática porque é também preciso resistir às simplificações grosseiras

 

O desinteresse pelo ajuste das impurezas do pensar quando lidamos com assuntos muitíssimo complexos, sobretudo quando, até mesmo as bolas da sorte, aparentemente escapam às leis da natureza e apenas contribuem para erros de raciocínio, o que daqui emerge não é particularmente abonatório para o retrato da humanidade.

 

Quem pensa que basta admitir que alguém possua a verdade e que, por esse facto, a possa impor aos outros, desconhecendo que nenhum de nós sabe isoladamente, e que vivemos numa rede de interdependências cognitivas, então desconhece que uma das características da Matemática é justamente a sua integração vertical no nosso raciocínio de modo a que ele não suba para o andar de cima sem ter entendido o andar inferior.

 

Recordo que me ensinaram que o algoritmo de Euclides fora um método eficiente para se calcular o máximo divisor comum, esse mesmo que hoje com pequenas pertinências é utilizado nos computadores.

 

Que mais não seja, há também que pensar que a Matemática é necessariamente uma questão de educação, e é sobretudo um processo, um processo para além da aldeia de pensamento que nos querem fazer crer que nos basta, que nos basta a ela aceder, e pronto! eis que já percebemos que um resultado matemático, tal como uma lei da Física, é verdadeiro ou falso independentemente das referencias culturais onde assim o constatemos.

 

E nada mais falso afinal do que se julgar que foi na aldeia murada que aprendemos esta realidade.

 

Em rigor o processo a que acima nos referimos referente à Matemática é um processo internacional, independentemente de existirem escolas de Matemática. Lamenta-se, de quando em vez, que, em Portugal, o lugar da Matemática seja um lugar onde se arrumam de vez os obstáculos e que as ambições de a conhecerem sejam meras tendências, na sua maioria.

 

Do pouco a que acedi no seu estudo e do tempo que ainda hoje me ocupa a sua Casa para que me sinta numa razão que muito assista à minha escrita, sinto cada vez mais que a Matemática é necessariamente uma liberdade para a qualidade de vida do pensar e para a higiene das ideias, e, é lugar por excelência onde se joga o jogo decisivo.

 

Confesso que sempre senti a Matemática como uma postura revolucionária indispensável no processo do pensar, e, confesso que sempre a vi – excecionando um caso – a ser transmitida, ensinada, exemplificada, não como quem conta uma história de amplo nexo, mas como quem conta que um país é pobre porque padece dos males x e y, sem alternativa de que, a soma destes dois, possa ser diferente de quatro, no sentido de dois x mais dois y.

 

Talvez o exemplo dos países que têm um ensino não superior exigente para todos, de mãos dadas com a seleção atenta, possa provar que o talento da perceção da Matemática reside na excelência de um sistema de ensino.

 

É com felicidade que hoje já vejo, até em programas dos meios de comunicação, a Matemática e as Artes, legitimarem casamentos, nos quais a Música, a Poesia, a Dança, a Arquitectura, a Pintura, o Diálogo, enfim tudo o que é essência, conferir e receber poder de entendimento ao papel-chave de um número, ou de uma letra de um ângulo de geometria espacial, ou de um simples sinal, função insubstituível para nos entendermos fora das simplificações grosseiras do pensar e do dizer, enfim, próximos da lógica do cerne.

 

Sei que não é possível melhorar qualquer área do saber individualmente sem melhorar a qualidade global do sistema escolar. Não douremos as pílulas. Se Pedro Nunes (1502-1578) foi um grande matemático, dos poucos portugueses que citamos nesta área, foi porque subiu acima da mediania e deu profundo contributo ao desenvolver a Matemática do seu tempo. Contudo, afirma-se que Portugal nunca produziu um génio matemático. Enfim, em Portugal, registe-se, que o ensino das ciências sempre foi deficiente. Ora, atualmente, publica-se a ritmo crescente, artigos científicos em revistas internacionais de referência. Assim sendo, estamos a tentar recuperar de um desenvolvimento da ciência que em Portugal terá tido mais de anos de decadência do que de anos de ouro, mesmo considerando a época extraordinária dos Descobrimentos.

 

Na verdade até na escrita, a investigação tem chegado bem pouco à grande passada de Pedro Nunes no seu contributo para a ciência náutica. Pretendo com isto dizer que o domínio da palavra tem de assentar na fantástica utopia do seu perfeito manejo e na correspondência com as infinitas realidades a que se pretende referir, sobretudo se na ascensão dessa escrita estiver a bússola que possa não ensinar a resolver a equação de segundo grau, mas a pressentir a vida dessa equação, o seu poder de agir sobre o Universo.

 

Talvez assim, possamos afirmar que daí, à dependência da curiosidade nossa face ao Saber, eis a Matemática, generosa, afinal prenha de ideias subtis que nos oferece a grande chave para a desencriptação do mundo que nos rodeia, e a mão da Filosofia vívida a expor o propósito e o sentido.

 

A linguagem e o pensamento têm uma capacidade fabulosa para representar a realidade. Todavia, somos irremediavelmente falíveis, mas podemos diminuir os riscos se nos confrontarmos em cadeia, e só desse modo, entenderemos que nem todas as realidades se submetem às nossas representações, carece que a sensatez judiciosa dos nossos raciocínios e dos nossos envolvimentos estejam à altura da tarefa que nos cabe.

 

Eis o repto de Gowers e Michael Nielsen

 

«quem poderia imaginar que o registo de trabalho de um projeto matemático fosse tão interessante de ler como um thriller

 

A Matemática e o Português, a História e a Filosofia, a Física e a Etologia, a título de exemplo, envolvem radiações de origem solar que só se esgotarão se se esgotar a nossa criatividade: que esta se não cristalize, é da nossa exclusiva responsabilidade.

 

Teresa Bracinha Vieira

UM ESCRITOR COMPLETO E ÚNICO QUE A HISTÓRIA DEVE REGISTAR: ANTÓNIO VIEIRA

 

Já tive oportunidade de escrever que António Vieira foi para mim um privilégio no partilhar Amizade, dedicação, obra, sorrisos e risos num mundo que antecipámos e dele falámos por hipóteses nebuladas de onde todas as partidas eram possíveis. A ele sempre o meu agradecimento. Que quem lê por ocasião da carpintaria, da marcenaria, do fabrico da literatura nunca o esqueça.

 

Hoje trago aqui E Ô S, um conto de um volume de contos que, a meu ver, é uma obra-prima breve e completa. Em 2002 a Editora Globo não descurou a hipótese de trazer à luz esta edição de essencial grandeza.

 

                                         Oh! Jeter le temps hors du temps!

                                                       Valéry, Tel Quel II (1943)

 

Quem fora e o que intentara?

 

Não sei se Títonos se propõe desconhecer a experiência do amor que idealizava por força da solidão que vivia, e assim desejava viver, arriscando mesmo, a totalidade de si nessa experiência de paixão, ou se se servia dela por intuir a solidão em que ficaria um dia, despojo estranho de um corpo áureo que habitara havia muito, e ainda assim nos provocaria ao expor-se do fundo das velhas órbitas, enrodilhado e rígido, não descuidando nunca a forma de um ponto de interrogação à nossa incredulidade.

 

Eôs era uma jovem e bela mulher ainda que bem mais velha do que Títanos, e que o rondava celebrando o tino que bem sabia nele incendiar. O olhar de ambos quando se cruzava era desejo magnético, insónia puxada por dois cavalos soberbos nomeados neste conto. Irromperam em Títanos todos os prodígios que do convite dela irradiavam diretos ao seu ser, e, medusado perante ela abandonou-se à tal viagem que tanto receava como desejava, qual sonho que o seu pensar excedia.

 

Quando ambos chegados ao palácio de Eôs, que, flutuava no mar alto, escutou Títanos uma cigarra que cantava em monótono coro com muitas outras, em rugidos secos como se por elas tivessem passado gerações. Eôs tendo reparado que Títanos se quedara com esta realidade, disse: “Todos as ouviram, mas poucos as olharam” e abriu-lhe a brancura do seu corpo deixando que todos os segredos lhe fossem tocados, e, Títanos descobre assim a experiência da duração.

 

Julgo que agora uma gravitação o agarrara. Julgo que ao ler e ao escrever a minha interpretação deste belíssimo conto, chegou aqui o meu momento de entender que afinal o arco-íris se pode fazer e desfazer, e digo-o afrontando a metáfora de John Keats.

 

Poderia escolher testemunhas do que acontecia entre ambos se as recolhesse entre terra, água, fogo e ar, todos sortilégio de um desejo que se adensava; e já Eôs à luz de um lampadário continha nas mãos a poção mágica que solicitara à indústria das armas, poder mesmo e único pertencente a Suze, a quem todos temiam pela falta de escrúpulos, pela maldade extrema de doar eternidade por morte e ainda assim Eôs por ele arrastava a sua sedução. Entendiam-se na raça e na linguagem da estirpe da primeira língua da humanidade. Julgamos.

 

Títonos começara a sentir-se arrastado por uma perdição que Eôs, de todo, não acompanhava. Deitou mão aos livros da biblioteca de Eôs e encontrava-os numa vitalidade de palavras perdidas. Amava ainda aquela mulher que lhe propusera a experiência da duração, mas o desejo, o ciúme, o desespero do desastre, o amor que declinava embaciado e sem remédio, abria-lhe horizontes tremendos de, nessa mulher, ser um estorvo, uma emoção de não-retorno para ela e para si.

 

Não sei se tudo o que li depois do que tento interpretar, representaria algum período de luto à tal seta que se despedira de Títanos, ou, se a decrepitude a que chegara num uivo quase impercetível, lhe dera a dimensão do tempo passado, e, esse tempo era tão só o vazio de um verbo ausente já da vida. A magia funesta da poção mágica não reparava o derrube total de uma juventude, antes a deixava envelhecer, carcomida a assistir ao novo escanção que sorvia o branco corpo de Eôs.

 

Então Títanos abrindo ligeiramente os lábios secos e obstinados da velhice, aceitou que Eôs com desprezo, lhe despejasse algumas gotas do liquido mágico, e, quando a metamorfose se operou, Títanos o amante da experiência da duração já caminhava, qual cigarra para junto das semelhantes e assim por entre elas se perdeu.

 

Se há aqui um ser humano que se converte em Jesus, desconheço. Se há neste conto uma inocência a compreender no desacordo do leitor: assim proponho. Se cada linha foi ponderada e limada: tenho a certeza. Se nas nossas mãos trazemos as cinzas dos esquecimentos, dos sonhos, dos dias das poções mágicas, da vigília ao homúnculo a que cada um será incrédulo: posso bem crer. E se não me engano, o tardio da descoberta de cada um, eis aqui.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Viver na vulgaridade é banalizar-se como utensílio da sua rotina

 

A tentativa de ocultação do vazio e da própria morte cria um espaço de sombra no qual desejar é ser incapaz de desejo.

 

Li hoje o texto que escreveu para o DN e transcrito para o nosso blogue, de Anselmo Borges e desde já muito agradeço a Sua reflexão.

 

Curiosamente vou levando até um deserto uma especial estrela que me fala da morte desde há muito, e, que aos poucos, pela literatura e pela vida, me conduz ao discorrer sobre a razão do fundo turvo, puro ponto de negatividade, no qual, nos dias de hoje, o medo foge do medo, abraça a ignorância e uma hipotética arte de argumentação a respeito é equivalente a zero.

 

E não é de bom-tom como se afirma no texto que referi, falar da morte e do seu tabu, quando na nossa sociedade nada se sabe como se trata, o como se morre, e o tabu da morte impõe-se, já que esta também só bate à porta dos outros. Afinal o mundo que vale a pena é o do capital circulante dividido outrora por um tratado que demarcou os limites de um universo com desprezo pelos seres, separando-os, confiscando-os e desamando-se uns aos outros para que depois de torturados, após as confissões, possam perder o valor e serem eliminados. Aqui a morte?

 

Não! Aqui o seu rival.

 

Tudo se precipita como numa mise-en-âbime e surge uma parcela que simula o Todo quando a morte é um mistério, por óbvio, desconhecida dos vivos, e a fraude do desprezo por ela, inibe as condições da ideia como na caverna platónica. E lá vou com a minha especial estrela ao tal deserto no qual ainda me resta a pulsação do meu sentir pela dor dos outros que até hoje nenhuma des-razão venceu.

 

Contudo, aqui e além e muitas vezes sou espectadora dorida do irreversível e do insuperável quando a morte me alerta que me não sei despegar da minha consciência, e num cenário tão extremo volto a olhar para o tempo por viver e nele

 

«Um anão ressuscitado não é menos espantoso que um gigante, e assemelha-se mais a um gigante ressuscitado do que se lhe assemelha um gigante morto.»

                          Malraux

Enfim a morte de que falamos converge para uma disciplina de engenharia genética ou robótica para que lhe seja conferida a tarefa uniformizadora mais definitiva e assim a insensibilidade dos sentires realiza completamente o titanismo. E sim, a morte faz a triagem entre o que vale ou não a pena: a energia da minha estrela já mo fez saber.

«Para onde quer que nos voltemos, o nosso espírito não encontra senão o vazio, quando o espaço está repleto.»

                          Artaud

O abismo seduz quem se aproxima de uma partida definitiva que ainda pode ser impedida, e, se o faz, ou, se o consegue será sempre pelo poder da mercadoria ávida de enfrentar e derrubar a teia imensa do entendimento do amor pelos homens entre si; e, cada vez mais este abismo forma um novelo cego que aperta esfolando a fundo os braços da minha estrela: aquela, única, com a qual vou ao deserto desafiar a decifração da morte, e ela surpreende, se supera e exímia de tanta inocência me recorda

«(…) Na paz, os filhos enterram os pais; na guerra, os pais enterram os filhos.»

         Heródoto

         (fala Crespo)

E no confronto com a morte quando ela não é tabu, bem creio que se insinua um saber de liberdade no instante trágico e efémero dos homens, de saborearem o amor vivido sem o amparo da eternidade.

 

Afinal todos somos sem sandálias.

 

Todos somos a nossa impossibilidade ainda que viver na vulgaridade é banalizar-se como utensílio da rotina, esta é minha convicção.

 

Acresce que bem creio na clara impiedade de um mausoléu que tanto ajuda a petrificar uma vida quando qualquer coisa de dramático no peito aconteceu.

 

«Tu que no fundo dos tempos,

No Nada de uma noite,

na Não-noite, revi,

tu(…)»

       

Paul Celan

 

Teresa Bracinha Vieira

A NÃO ANTIQUÍSSIMA VIDA

 

Eis a morte sempre inclusa em sórdidos locais onde e aonde
permitimos  que se não nidifique o viver 

No Iémen ou noutro armazém faminto de aterradores sofreres só a finitude arrastada para lá e para cá nas nossas vidas
indica quanto o inesgotável direito à vida ficou por viver

sem que cada um de nós assumisse a data de início com a qual se comprometeu à promessa da carta que

com os nossos cumprimentos e preocupações para trás e para a frente ficou sem resposta ou a falta de vida no destino não fosse muda

sendo certo que em breve nada teremos a dizer nem sequer haverá nada para decifrar entre linhas no correio sem remetente de penas perdidas

e tanto direito de posse e de poder têm até os deuses que nas suas mãos deixamos a resposta a este esgar

mera lembrança de olhar

 

após o que

como se nada acontecido ou as guerras nem fossem empresas acesas

ou nós nem predadores da pobreza

não estivéssemos todos ateados por negligência

quando o corpo do vizinho é pasto de várias chamas abertas

onde não mora o dinheiro

 

já que este se aquartelou no quê e justificou o porquê

 

ó amor nosso de cada dia

que hora tardia em que se revela a ruína dos seres

como um regresso essencial a nada se salvar

hoje

ou sempre

 

traço a traço a juros de um demónio

que sempre fará colapsar antes da meta

a quem

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A ilusão da sabedoria

 

De fato a felicidade não é uma ideia nova, o que é novo é associar-se a conquista da felicidade às facilidades da vida, diz-me o Rui Vassalo ao entrarmos para o Jardim da Estrela, local de boas conversas do nosso grupo de então.

 

E sim, digo-lhe, concordo contigo, mas tudo me parecem caminhos indefinidos para um paraíso ali mesmo ao lado de cada um, e como já ninguém aceita o seu destino, há que aligeirar o que no mundo pode ser transformado, sem que qualquer preocupação de aperfeiçoamento pessoal colha hipóteses de embelezar o viver do eu na terra de todos. As metamorfoses das quais me dou conta são puramente do foro material. Julgo que se pensa dever existir um mínimo confortável a que todos tenham acesso, independentemente da insalubridade em que cada qual venha a viver esse mínimo: interessa sim, que dê pelo nome de mínimo confortável. Não sentes assim?

 

Pois. Entendo-te. O conforto são os muitos eletrodomésticos, as roupas de marca, a renovação periódica da imagem, a simplificação da vida e do descanso passivo, afinal o encontro de braços abertos com a felicidade individualista de massa. A ausência de conhecimento por parte do utilizador disto tudo, é óbvio, já que a evasão confortável é a que se instala nos prazeres e juízos fáceis. Nem imaginas Rui, o quanto sinto a violência disto tudo, vomitada em palavras mesquinhas e pensares rotos de telenovelas, equipamento-base para se avaliar comportamentos e mundo. Eu até acho que o formato dos prédios dos dias de hoje são bem o espelho de quem neles habita. A orientação dita estética conforma-se com a não proteção da paisagem interior e exterior de cada qual. Tudo, tudo está ligado. Não existirem hábitos de leitura, mas sim o carregar de tecla para que os motores de busca respondam de imediato onde se localiza hoje o novo território da felicidade.

 

Olha Rui, o teu irmão disse-me com um sorriso esclarecedor que a qualidade de vida dos utentes dos casamentos de hoje, assentam naquilo a que as mulheres querem chamar de amizade, e que permite que o casamento resulte porque são amigos e os divórcios são para o desamor, e, assim, safam-se estas mulheres pois sendo as maiores amigas dos seus maridos, mesmo que haja alguma separação elas mandam dentro da futura relação deles, e, se existir uma traição, não faz mal pois são apenas amigos e tudo se recompõe no somos muito felizes mesmo não sendo. E isto é felicidade.

 

Mas qual a razão de serem as mulheres a apregoar essa amizade?

 

Ora porque querem permanecer no mando do individuo pelo seu espaço e pelo seu sentir. Não sabias?

 

Bom! sei que não estou a pensar casar contigo e és a minha melhor amiga. Sei que no amor também há amizade, mas não quero ouvir falar dela nos votos nupciais, entendes?

 

Sim entendo. Tudo isto que está a acontecer não é novidade; são meros trabalhos de reabilitação do habitat afetivo. Repete-se o que não tem alicerce; receia-se que o amor seja pouco, seja escasso, termine mesmo, e, depois não sabem o que fazer, enquanto, a amizade é outra “tranquilidade”, mesmo que nos estejamos a referir à amizade nos votos matrimoniais. Assim não se arrisca o amor. Arrisca-se a cosmética… e não se entende depois o recurso aos médicos e a intolerância da doença…ainda que a maior parte das patologias são do foro dos piercings intelectuais. Enfim, envelhecer em bom estado faz parte da felicidade adquirida pelas facilidades da vida que se desejam viver. A própria inflação orgíaca do sexo agressivo e banalizado, consumível a toda a hora, o culto do obsceno e a justificação de que todos podem fazer o que querem, dependendo do seu registo, não os questiona. Ora, assim sendo, o aceder aos sites da pedofilia faz parte do mundo que se planteia com maior publicidade mesmo que saibam que a pornografia já em 1983 excedia as receitas geradas pelo cinema ou que agora a cannabis é tendência.

 

Vivemos afinal o tempo da festa dita decente?

 

Sim Rui vivemos o tempo da festa pálida do Homo festivus, tão pálida, tão light que os seus espectadores não resistem à sua própria hegemonia, à sua ambiência fun: só os decibéis da maré humana contam. Regressamos ao culto do instante exibindo-se a felicidade hedonista e narcísica numa estranha obsessão pela performance.

 

Será tudo isto apenas uma parte da ilusão da sabedoria? Digo-te Rui, às vezes penso que já cá não existimos.

 

Teresa Bracinha Vieira

PESCADORES DE ÍRIS

 

Pescávamos com búzios à beira do mar

Acedendo à festa dos mistérios das ilhas

Seguros de que aquele animal tutelar

Viria a nós ressurgir e libertar

 

À noite recolhíamos o cabo

Que nos segurava o espirito

E escutávamos o regresso sem dano

De uma visita às origens

 

E os búzios espias

Contavam dos espelhos

Superfícies polidas onde as sereias

Se comparavam na ideia de si

 

Com a que acreditavam que delas tivessem

E logo vaidoso

Cnossos – palácio cretense

Expunha-se ao nosso olhar de dentro e de fora

 

Abrindo as portas do seu labirinto

Expondo saídas, vocalizando tensões

 

E nós

Pescadores

 

Que nenhum ângulo queríamos perder

Acasalávamos ondulando no céu

Como se o desejo nos subtraísse ao peso

Prisioneiros de quem assim se ofereceu

 

Mas era demais 

 

A grande borboleta hipnótica do escutar

- semi-deusa grega que o era de sempre

Saciou-se de nós pescadores

 

Que julgávamos saber pensar os limites

Nimbados do impensável

Nós que só estávamos na história

De corpo e arco a ceder

 

Então libertamos os búzios

E ao largá-los aflorámos seu feitiço

Enquanto a vida breve se eternizava

Ao abrigo do tempo

Ao lado das coisas 

 

E ainda assim

Projeto 

 

Delicado e difícil

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


    Hopper

 

À Porta do Mar

 

O sótão da linda casa de praia era todo forrado a pinho: tetos, paredes e chãos, portas, postigos e rebordos de claraboias. As camas tinham colchas de chita, as fronhas das almofadas de enfeite e os cortinados que tapavam a área das roupas, eram também de chita. Nas paredes fotografias recortadas das revistas mostravam praias exóticas de palmeiras convidativas e, aos cantos dos quartos, dependuradas junto ao teto esconso, as colunas de som do gira-discos faziam presença. Estas colunas de som não eram mais do que as camas das bonecas com o fundo forrado a chita e exposto como colunas de som, ou ainda alguns legos, montados em retângulo, forrados igualmente a chita, e que cumpriam a mesma função. Ali se viviam parte das férias em reuniões com amigos e escutando-se a Françoise Hardy – sobretudo a canção Mon Amie la Rose, Adamo, ou ainda a canção Rain and Tears que nos levava à lágrima ao canto do olho. Contudo, o silêncio total fazia-se entre nós com o Don´t Let Me Down dos Beatles. Enfim, a era da modernidade não tinha nascido. O mesmo é dizer que a civilização do desejo também não se tinha concluído, ao menos ali dentro de nós.

 

Não recordo que houvesse alguma multiplicação de necessidades o que quereria dizer que o consumo em nós não tinha liderança. A nossa relação com as coisas e com os outros estava estabelecida sem que fosse desassossegada, pelo menos entre amigos, e, não obstante a televisão existir, estávamos sempre melhor no nosso universo mental de afetos, exprimindo-nos em diálogos de amizade, de cumplicidade de namoricos que nos expunham deliciosos mistérios, do que em frente a um ecrã de televisão que apenas aqui e ali, nos proporcionava um impacto de momento, como era o caso da serie Bonanza.

 

Éramos todos muito novos e no entanto surgia e implantava-se uma realidade que iria colocar fim à boa velha sociedade de consumo em que vivíamos. O creme Nivea, sem o notarmos, já era. A difusão de produtos deu lugar em todos nós, a uma estranha reatividade provocada pelo marketing, enquanto forma de nos comunicar a conquista de uma liberdade de muitos e diferentes sótãos, em que se decretava ser a chita, um pano de baixo valor, e a fidelização do nosso bem-estar, devia sentar-se agora à porta da piscina e não à porta do mar. 

 

O produto, o mercado e o consumidor era a nova predominância em trio, sem que chegasse até nós a razão do hiperconsumidor ser um ator a responsabilizar com urgência. Ainda tínhamos pudor de pedir aos nossos pais mais do que nos ofereciam, é certo, todavia o imperativo de olhar para o que não tínhamos, ia-se impondo, ou não fossemos frágeis por excesso, a fim de podermos resistir ao mero empréstimo gratuito de provarmos uma felicidade potencialmente mais recheada do que aquela que sempre vivêramos nos sótãos das nossas alegrias e segredos.

 

Enquanto vai triunfando um capitalismo globalizado, não nos damos conta que passámos a segundo ou terceiro plano de tudo o que é vida. Nascem os turboconsumidores subjugados pelo estatuto social, ausentes da cultura da coluna de som feita com a cama das bonecas. As novas experiências emocionais são infiéis ao próprio tempo que duram, e no seu universo não cabe escutar com emoção Don´t Let Me Down dos Beatles. Tudo é dessincronizado, hiperindividualista, onde moldar o corpo é reorganizar a vida, e, pouco a pouco, este novo espírito insere-se na nossa relação com a família, com a política, com a religião, com a cultura e mesmo com a dimensão do tempo.

 

Quem sabe que as pechinchas do low- cost, ou os pseudo leques de opções que se diz oferecer na atual sociedade, só produzem desequilíbrios de alma, embora os seus seguidores incondicionais encontrem nas farmácias de quem imitam, os comprimidos da felicidade alheia e a tenham como sua. E tudo vale mesmo que as verdades passem a verdadinhas.

 

Na realidade, as festas do nada, as noivas do stress, as ansiedades tão frequentes, o dinheiro cada vez mais preocupação obsessiva, as relações sexuais problemáticas, a gravidez a fazer-se uma batalha para se conquistar, a procura cega da diversão a todo o custo, enfim, como escrevia Aragon «Quem fala de felicidade tem muitas vezes os olhos tristes» e, é, esta frase, cada vez mais o nosso espetáculo ao vivo.

 

E diz-me o aconchego do sótão da casa de praia que nem todo o balanço desta sociedade é apenas negativo como afirmam os seus habituais detratores. Diz-me este sótão que não esqueço, que o individuo continua a viver para algo mais do que o que lhes é passageiro, e ainda assim, este sótão, também deixa claro que não há que fazer o elogio a um regime que gera males infinitos, insucessos educativos, injustiças sociais, pobrezas inauditas, velhices abandonadas e tudo o que carece afinal de um reinventar de vida, e à beira-mar, no mínimo com esse horizonte se deve questionar

virá a humanidade a ser, então, mais feliz?, virá a ouvir uma outra Françoise Hardy – Mon Amie la Rose?

 

 

Teresa Bracinha Vieira

LIBERDADE

 

E não é um sonho

Ter-te assim

Meu peixe de ouro

A indicar-me caminhos

Por um cordão umbilical

 

Vem, vem mais perto

E fala comigo

Da liberdade que te leva

Ao teu ninho seguro

 

E possa eu celebrar um mundo

Aquele pelo qual espero

Distinto, matinal, envolto

 

No meu peito peregrino

Com força de luta

Sem medo e sem dúvida

 

De que o jamais

É

 

Afinal uma alegria

União de tetos

Onde

Só tu, só tu, minha obra fantástica

 

Minha companhia

 

Que por ti

Recordarei o dia

Que mal nascia

Quando te perguntei

 

E antes já te vi?

E eu estava aqui?

Há passado e há futuro?

Perdeu-se algo durante a noite?

 

E não é um sonho meu peixe de oiro

Esta passagem na minha vida

Calvário de entendimentos

A história e os atores?

 

E tu?

 

Sempre que a semente rompe a terra

E o glaciar chora

Derretes

 

Pois que aqui nos vês os mesmos

Entre o ser e o nada

 

E ainda assim

 

A vigilância. 

 

 

 

Teresa Bracinha Vieira