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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

O tempo e o amor

 

Diz-se que o tempo sempre se anuncia e com ele se intui o que se pode e o que se não vai poder nunca. É uma espécie de condenação definitiva que se admite de uma forma ou de outra.

 

E o que fazer do conhecimento dos olhos quando de frente para nós despertam cheios de imensidades e medos e perfumes que se deixam cair entre lençóis por estrear?

 

Não há que procurar razões, nem sentá-las em sofá que as sossegue. O território tem a força do aço e a sua violação implicações fortíssimas na vida-a-vida que se diz não perceber, não designando essa afirmação real estado.

 

E hesita-se mais e uma vez mais ou, nem se hesita, recusa-se o que em sonho desperto nos mantém aptos a acreditar que porventura um dia será diferente.

 

A lógica é excessivamente familiar e reduz sempre a metade qualquer coisa por nascer.

 

Assim e de outras formas se aceita ser clandestino junto e para além da fogueira que, quando perto ou por tão perto e de tão perto, se fecham os olhos com a ajuda das mãos porque tão perto é demais.

 

O silêncio mais profundo apodera-se de nós, quando a possibilidade é o calar, num brutal movimento de fogo.

 

Um dia, um dia de país não esperado, todos os obstáculos são vantagens e enfim de súbito, de jorro, de esperança desalmada, tudo acontece. A densidade é tão segura quanto a dimensão da clareira que ora se permite. O sentido último da vida faz sentido por instantes: ao rubro.

 

Só o tempo é esquivo. Essoutro coto de vela.

 

E, antes que alguma ausência se sobreponha, antes que outro antes faça face ao que se vive, antes que o futuro possa não acontecer e antes que eu mais não possa, deixa que te diga

 

Meu Amor 

Teresa Bracinha Vieira

 

Publicado pelo António Alçada Baptista na Revista Máxima em 1999

Obs. Em 2006/07? Tive oportunidade de ver uma retrospetiva de Palermo no Kunsthalle Düsseldorf. Fiquei sensível ao seu trabalho e tento saber até onde vai a minha curiosidade desde então. Daí esta escolha de hoje, e, que seja bem recebida também no site de Alçada Baptista já que foi a seu pedido que escrevi este texto há 19 anos sobre o tempo e o amor.

CRÓNICA DA CULTURA

 

De quem é a culpa? A culpa é nossa.

 

Continuamos a ver e a interpretar as notícias do burgo e do mundo como se não dessemos conta que, o que ao de cima vem, é o espetáculo do acessório ou nem isso. A lista das futilidades noticiosas mistura-se na dose e sequência de alinhamento propício ao não desvendar daquilo que é verdadeiramente o cerne de uma lista terrífica e que não acaba, e que devia escandalizar-nos de tanto sofrimento e miséria humana, tudo neste século que, afinal, arrasta consigo os plexos de interesses ocultos, depois de nos ter promovido honoris causa ao indiferentismo mais total.

 

O delírio sem vergonha dos “velhos do Restelo” que nunca pensaram ser críticos também do reverso de si próprios, é pródigo na evidência da fraude do perguntar e premonitoriamente não conseguem melhor do que criticar supostamente antes de um acontecer de matizes nos espelhos, ou, quando já é muito evidente que 2+2= 4. Acresce que se sentem muito estrangeiros no meio dos homens que eles próprios vão regando não vá existir pior num outro mundo. Em tão patética paródia tudo se torna num sem contorno ao qual se afeiçoa a insídia.

 

Depois os comentadores -pretexto, nova e promissora profissão que os catapulta para capítulos de vida que lhes assegura bem-estar na hora e na velhice, e, não são estes paralisados pelo que se despreza, como se imaginaria, antes fazem parte da natureza da austeridade das regras-que-eu-sou-bom ou boa e tenho poder, principalmente na ilusão da não vaidade que projeto de o não ter. Eu sou a resistência ao sistema à outrance, creiam, eu defendo país e mundo gritando as reformas para nos salvarem, e que cada um não trate de si aproveitando a desordem, não senhora, só se as coisas derem mesmo para o torto, mas nessa altura criarei um novo cânone e dele vos farei saber seguir.

 

Também os acima dos muitos nos chamam constantemente a atenção para a igualdade de direitos dos cidadãos perante a lei, conhecendo a metamorfose desta, na radical desigualdade perante os cidadãos. E assim vamos, sendo filas de lixo destinados ao lixo, adulando lixo na excelência de espirito de quem não o vê nem reconhece como tal.

 

Destes e de muitos outros modos se conquistam terras limpas aos espíritos dos homens quebrando a vida e impondo o fim que devora seres e sua alteridade humana.

 

As supostas elites por se terem como tal, orientam-se bem na absurdidade irresistível a que vão desde cedo aderindo, tudo cortando enfim, em troços idênticos que, por óbvio, não escapam à uniformização, ela mesma disponível no mercado, num otimismo ao qual a paixão lhe não faz frente de há muito.

 

Insensível este mundo não submete em muitas circunstâncias: faz pior, suprime e nenhuma vítima o apazigua, afinal.

 

Numa montanha: logo se imaginam os minérios a extrair; num segredo megalítico: um íman para turistas; num animal: sua pele; numa tese: seu eventual estatuto de sapiência, e, todos estes sentires estão reunidos nos campos de concentração de hoje; nos campos de refugiados ou nos mares dos botes que despejam gente à morte, esta de boca ávida e aberta face a tanta constância que lhe é oferecida.

 

O grande empório da absurdidade roda à escala planetária e a degenerescência do seu senso já não é há muito a espuma da onda que se entrega na areia da praia. O grande empório, na sua excitação, só conhece um ponto onde a cada noite atraca: o inóspito mundo que resta.

 

E de quem é a culpa? A culpa é nossa.

 

Mentira e mundo já não logram libertar-se. As termiteiras informáticas reúnem uma cognição sem chama, mas que opera sem falha na destruição de tudo o que não entende.

 

Pergunta-se: e se doravante insubmisso o espaço literário germinasse de tanta inquietação?

 

Teresa Bracinha Vieira

Günter Grass

 

Deitando mão de uma escrita dinâmica que expõe a poesia, a prosa, a ilustração, Grass em Sobre a Finitude – tradução de João Bouza da Costa e chancela da D. Quixote, livro editado postumamente - surpreende em concisos sentidos que enfrentam e desafiam a velhice num possível novo, exposto em cartas de amor, dramas ciumentos, sátiras sociais, monólogos, exprimidos em felicidades amadurecidas e tristes, astutas e sensatas.

 

Falecido em 2015 recebeu o Nobel da Literatura em 1999. Escritor, poeta, dramaturgo e pintor, logo em 1959 lhe surge a notoriedade internacional com O Tambor de Lata, recordando-nos também do livro A Passo de Caranguejo que nas suas palavras constituía um “saltar para trás para ir para a frente” face à necessidade de se referirem vários eventos que nos levem a interpretar a história para uma melhor vivência com o futuro de uma realidade.

 

Mas Grass em Sobre a Finitude, não deixa de se fazer claro ao leitor quando afirma que será sempre alguém que se observa e porque não com uma ironia romântica dotada do necessário humor, nomeadamente quando

 

O que durante o dia, assim que o cansaço me vence, tendo a interpretar, com sardónico desprezo ou compreensiva ironia, como a consequência de uma fuga senil à cama, é no fundo, uma dádiva da velhice, pois assim que, por volta das três ou quatro horas – enquanto lá fora, parafraseando Quirinus Kuhlmann, «o escuro escurece» -, o sono me evita e o constante mudar de posição a vigília acentua, a fuga para aquela cela cujos livros amparam (…)

 

E Quando se soltam os ciúmes

(…) vê-se uma mão tentada

a abrir as cartas da outra,

exigem-se às dúzias juras,

sofre a alma nevralgias,

deita o ódio a mão

a objetos pontiagudos,

estilhaçam-se vidros, grita a aflição

e ameaçam gastar-se do amor as reservas –

conservadas frescas na cave –

colherada a colherada, até ao fim.

 

E também assim se imortaliza lápis, papel e memória, calmias e o que restará da finitude?

Eis. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Eram seis da manhã quando acordámos nos quartos do sótão que tanto amávamos na nossa casa de praia. A empregada bateu as palmas ao entrar nos nossos quartos totalmente forrados a pinho e salpicados com fotos dos nossos ídolos e gritava

 

Vá meninos se querem ver aquela cor do mar no céu, vamos a sair da cama depressa.

 

E nós os três meio trôpegos de sono vestimo-nos num ápice, e, escadas para que te quero que se faz tarde.

 

Cada um a roer a sua maçã, descemos a ladeira de terra e pedra que dava acesso à praia e ali na areia nos sentámos ao lado do António Lameja, nosso banheiro e salvador, mas que não nos salvava dos banhos gelados a que pelas 11h o nosso pai dava ordem que todos tomássemos.

 

O meu irmão mais velho perguntou-lhe

 

É esta a cor?

 

Não, chiu! é mais daqui a bocadinho, mas estejam calados, pois ela pode fugir.

 

A nossa ansiedade e alegria cresciam à luz de prata daquela manhã em que veríamos a tal cor no mar colada com o céu e que em agosto só naquele dia e hora surgiria.

 

Agora de pé, já, gritou Lameja, olhem bem lá no fundo do horizonte: veem aquele tom amarelo? Aí vem a tal luz que sobe para o céu e se torna azul e branca e que é igual à dos santinhos dos missais que mostram a cor dos milagres.

 

Sai de dentro daquela nuvem lá ao fundo? Perguntei

 

Não menina, essa é uma nuvem que acorda mais tarde e quando se abre, sai por seu pé, bem leve, um pouco do sol, aquele que depois é gordo durante o dia.

 

Mas vejam agora. Olhem.

 

E fixámo-nos todos numa auréola que tomava cor amarela e azul e branca e dela saiam uns traços lindos do mar, erguidos para o céu, ou, do céu descidos para o mar, tudo num abraço de cores e luz esplendorosas.

 

Que lindo, que lindo disse o meu irmão mais novo, agarrando-me os ombros. Aquilo é um milagre ou é a natureza lá do alto que chama o mar e ele sobe sozinho?

 

E o Lameja

 

Ó meninos, não duvidem, aquilo é milagre não veem logo? São focos de luz com vida que se cruzam em mar e céu e dão nesta cor de oiro de pasmarmos. Debaixo das águas os peixes também a veem, e, logo saltam para dentro dos barcos dos pescadores, não sendo precisos anzois ou redes, e fazem-no por tanta beleza terem visto, preferindo morrer logo a seguir a esta hora do dia do mês e do ano e, morrem transformados em oiro! Pronto! Viram? Vá, ide para casa, já viram o segredo.

 

Tiveram muita sorte, podia até chover. Ide, ide tomar o pequeno-almoço.

 

Subimos a ladeira devagar, mas íamos olhando para trás, para o mar e o céu.

 

Que viste mana?

 

Uma borboleta que veio do céu beber agua e tu?

 

Um fantasma bom. Um daqueles que toma conta das aparições desta hora.

 

E tu mano, que achas? Ou antes o que viste tu?

 

Ora eu vi o mundo quando estamos a dormir.

 

Entrámos em casa e a empregada perguntou-nos: que tal? Como foi, meninos?

 

Eu respondi

 

Pois parece que vamos ter peixes de oiro para o almoço. Sabes cozinhá-los?

 

Os de oiro, não.

 

Ainda bem. Devem ser rijos. Mas queres que te conte o que vi?

 

Sim, menina.

 

Pois vi o céu azul vestido de borboleta para esconder que é princesa que namora com o mar àquela hora e abraçam-se e tudo.

 

Com beijos?

 

Claro, com beijos também, acho que é uma hora de intimidades com muitas cores. Nada de especial, mas mesmo assim é muito bom.

 

Jesus Maria! Até estou arrepiada. De fato Nosso Senhor não pertence à raça humana!

 

Teresa Bracinha Vieira

O POETA DA BOLA

 

No segundo incerto

A certeza que segura no respirar e no olhar

Suspenso e unânime dentro de si e iminente

E já subindo o impossível na aresta viva de um conseguir

Apertados que estão todos os sonhos trabalhados à exaustão

De encontro aos ásperos pilares das inúmeras barragens

Eis a vida cumprida no golo que é naquele momento

O que lhe resta, livre, altivo, humano

E Cristiano

Num coro de milhões é um sinal aos homens

Que desde as suas profundidades inimagináveis

Se podem encontrar numa fulguração indizível

A tal ponto inatingível que o conseguem

E chegarão à verdade

Até onde sem palavras o riso franco, feliz

Aberto de par em par

Se nos oferece

E eis o poeta da bola no pé

A desvendar-se desde sempre e neste agora

Um diamante de menino que cria

A sua poesia - possante abraço

Que tudo alaga e nos corre

Por dentro

Ligando coisas que não sabemos

 

Teresa Bracinha Vieira
Junho 2018

 

P.S. Já tenho escrito sobre Cristiano Ronaldo, tentando interpretar o seu saber crescer. Hoje gostaria que a minha bandeira fosse este poema que lhe ofereço à custa de sempre o ter entendido como entendo o mar: uma ilha, uma fruta onde ferve a vida espessa já que só é espessa a vida que se desdobra em mais vida, tal como a flor é mais espessa que a fruta e o dia se adquire a cada dia.

CRÓNICA DA CULTURA

 

O nonsense pelo nonsense

 

A tarde era soalheira como o eram muitas das tardes vividas naquele alpendre da chamada casa grande na ilha de S. Miguel. Todas as cadeiras de vime, com largas almofadas queixosas do uso, estavam viradas para o mar. Em cima da mesa o bule com o chá fumegava ao lado do bolo de laranja, posto que ocupava sempre ufano, naqueles domingos em que por volta das 5 da tarde lá chegava o prior para deitar conversa fora com os donos da casa grande e fazer as meninas, Antónia e Bernadete, escreverem as redações sob sua sugestão temática.

 

A de hoje parecia-se com todas as dos outros domingos, mas fingia-se não descortinar. E lá começaram as obrigadas dotadas a escrever sobre A Alice no País das Maravilhas e a sua amiga, a Gata Borralheira.

 

Depois leu-se em voz alta:

 

Uma vez uma menina muito importante transformou-se em gata. Ninguém dera conta das possibilidades que a menina tinha para assumir a nova condição e sobretudo usar coroa e manto de chinchila quando espreitava o pobre gato preto que ao final da tarde lá ia aceitar os ossos que ela lhe dava. Estes ossos eram, pela gata borralheira, partidinhos miudinhos para que o gato se engasgasse, fosse parar ao hospital e a gata muito piedosa o pudesse acompanhar e de indispensável enfermeira se tornasse sua mulher promovendo-o a duque da casa grande. No dia do casamento quem levaria a cauda do longo vestido com véu de arame de capoeira seria a grande amiga, Alice, rapariga que vivia de maravilha em maravilha até ao dia em que se picara no arame do véu do casamento da amiga, e, logo se transformara numa madrasta má. Então a agora madrasta, vestida de vestido de horrível gosto, dobrara com cautela, um pouco do arame do véu da noiva, de tal modo que, quando chegada perto do altar, picou com ele o gato-noivo, duque da casa grande, que logo se apaixonou por ela e fugiram os dois num meteoro aranhoso para o país das maravilhas.

 

Na verdade ninguém ficou chocado com a redação das manas Antónia e Bernardete. Olharam uns para os outros seguindo o princípio de quem decreta o decreto por decretar, e o reverendo achou mesmo que os argumentos da redação, podiam sustentar-se numa insanidade desafiante, numa congruência nonsense, ou numa profunda aptidão para a inaptidão, afirmando estes reparos todos com sorrisos complacentes.

 

Ao que a mãe das meninas acrescentou de imediato:

 

Talvez até se tratasse de algo absolutamente nacional, ou, de um nonsense inclinado para a realidade. E lá que era pedagógico (o que ainda é pior) era, sim senhora. Ah! Que curioso, disse, é absolutamente nova a forma como as minhas filhas veem a realidade. Nos dias que correm, a este nível é raro. Ah é, é! São deveres morais escutarmos a voz da razão: não acha Sr., padre?

 

E enfim, sabe-se que a hilaridade que terá nascido naquela tarde de verão foi tema lato e que sem esta obra de redação, o nonsense nunca teria chegado a parte constituinte, ao menos na ilha.

 

Teresa Bracinha Vieira

Hélia Correia

 

Quando li a «Dama Singular», um dos contos do livro de Hélia «Vinte Degraus e Outros Contos», chancela da Relógio D'Água, conto este dedicado a uma mulher da literatura portuguesa, senti e assim interpretei, o quanto a literatura pode ser uma lição descalça de muitos amores, aberta até de espaços, a mães ausentes, e enovelada em sóis que podem não chegar até onde e aonde se quer luz. Deste conto, retirei que a lição do seu segredo é a existência de uma escola de bonecas que o escuta, rebeldes e aprendizes bonecas para quando tiverem forma humana se salvarem, se um dia escreverem com um lápis tão fundo ao intuir de cada um de nós que, a cada palavra o soalho das mesmas faça ouvir a literatura.

 

E entretanto os padrões das palavras usadas sentem vontade de brincar, deste modo contribuindo para uma maturidade que as leve a entender para quem foram erguidas, e qual a razão desse empenho na subida de uma escada que ora é o total contacto com o chão, raiz de entendimento, ora é equilíbrio para quem queira ler as palavras a partir da distancia da literatura. E neste conto existem buganvílias que explicam o inverso da verdade numa febre que se não esquece. Também existem palavras deixadas a um especial relento para que morram ou para que escutem o quanto a preservação do seu universo, também é doloroso antes do ato de amor da literatura.

 

O conto da «Dama Singular» tem um cheiro de lenha húmida num quintal despenteado de certezas. Tem também muitos medos quando as palavras nos seus banhos receiam afundar-se, antes do apuramento certeiro do que visam.

 

E também existe neste conto uma casa. Há sempre uma casa: a literatura descobre-lhe função, estação e local de lição. Casos se conhecem em que a própria casa das palavras são seu lugar de libertação, são seu treino na estratégia de lhe entendermos peito, pensamento e mão.

 

Assim me aninhei neste conto.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Era um dia de abril. Lúcia abrira a porta do quarto que ligava à varanda e esta ao mar, aos pássaros, aos barcos, às flores, à romântica mesa onde estivera a ler no dia anterior o livro “Engenho”.

 

A sua varanda parecera-lhe sempre uma galeria de arte fosse qual fosse a estação. No entanto, ao aproximar-se a primavera atribuía-lhe sempre o nome de “Alegoria”. Presumia-lhe uma infalibilidade de linhagem romântica e nela a existência de um halo perfeito a todos os estados de espírito e pensamentos. Sorria Lúcia para este seu entendimento de que o acordar em paz junto desta “Alegoria” não envolvia a imitação de uma arte por outra, nem sequer o engenho no pincel dos olhos da interpretação.

 

Deixara cair o envolvente xaile de seda e preparava-se languidamente, mas afoita, para recordar o que lera no livro no dia anterior. E de lá lhe chegava o tal homem que tendo o engenho de se aproximar da verdade, recusava o enredado dilema que lhe propusessem acerca da razão, da paixão, da fé e do livre-arbítrio. Achava, que a linguagem desse homem era como a das ondas na areia: derramava coisas artísticas e claras e coisas que provocavam uma espécie de caçada científica atras da onda quando esta se recolhia de novo ao mar. Depois, pegava numa das flores que Mercedes - sua empregada- deixava todos os dias num cesto junto à mesa, e de si para si.

 

A linguagem escrita não é instrumento de confiança como é a visão de fotografia que tenho desta varanda. A linguagem escrita é até judiciosa, é uma coisa sempre perigosa, sempre poética como a música ou o fogo. A linguagem é o engenho? O que daqui vejo é uma verdade através dos cheiros, das formas, das cores, verdadeira sequência de sinais estéticos que são lições de segurança na vida e nela, de prioridades. Ainda assim, nesta “Alegoria” sinto-me como se viajasse em primeira classe num comboio de luxo para conhecer a India. E o homem que tendo o engenho de se aproximar da verdade vivia próximo dos símbolos da realidade e não se equivocava a respeito.

 

Lúcia pegou no livro de novo, e sentiu uma curiosidade enorme em saber, espreitando para o céu, se viria aí tempestade e com ela o interrompido sabor de tudo o que luz num oiro de pressuposto em tudo cuidado, ou, afinal, num oiro de Cabo Horn. Oceanos e poderosos Andes que se dissolvem em ilhas poderiam ser vistos da sua varanda em alegoria viva na tarde desse dia.

 

Teresa Bracinha Vieira

Lídia Jorge

 

Estuário, o seu novo romance

 

Creio que as pessoas se perdem de nós e nós delas como se empurrássemos mundos que só se distanciam porque com o tempo somos conquistados por outros modos: pela morte ou pela vontade de uma escrita que os aceita, os quer buscar mesmo até à nudez que nos esclareça de tão blindada se sentir.

 

E escreve Lídia

 

Que a vida só está completa quando, ao morrermos, sentimos que obtivemos o conhecimento suficiente para outra vez nascermos. E essa contradição entre saber e percurso parece querer dizer que alguma coisa não está no seu lugar, mas está.

 

Escrever sobre este poderoso romance não é fácil, nem pretendo fazê-lo de jeito tradicional. Vou tentar dizer dele o que melhor saiba pelo ângulo que o senti, e direi de modo bifurcado, entre o espaço protetor do romance e o espaço sem contemplações do mundo cá de fora. E assim

 

Oferece-se também Edmundo para ser adivinhado neste livro e viver nele - terra tremenda - todas as traves, as casas, as muralhas, as ameias, o crepitar de vidas que ele quer colher no seu livro, escrito por sua mão amputada, por seus olhos fotográficos, pela sua capacidade de decifrar até quando desejará escrever tão avidamente o livro que tanto deseja, e deseja-o enfim, ao ponto de saber por entre as coisas secretas, que nenhum passo mais o levará a escrever algum dia esse livro, embaraço desvendado e eventualmente perturbador da sorte que lhe reserva um texto, qual grito de ave, lâmina.

 

Quero pensar que por entre os personagens de Estuário, por Edmundo Galeano chego a Tatiana e aos brincos de pérola, como proponho a chegada de David e da baleia cantora ao título do livro de Edmundo, a esse título 2030

 

E


Porque não havia uma correspondência entre as palavras e o mundo, ainda que muitos dissessem que sim. (…) que sentido tinha isso? O amor de Tristão e Isolda já não existe mais à face da Terra, ou antes, sabia-se agora que, afinal, sempre fora aquilo que fora, um mito construído com imaginação e palavras.

 

Um brinco de pérola salgada muito bela e criado em água doce e mansa. Ou a pergunta de David

 

Mãe, uma pessoa que se pendura de uma trave para morrer é muito fraca ou muito forte?

 

E responderá a baleia cantora pelo hino de Deméter que afinal é feliz quem dos viventes pergunta tal coisa.

 

Pois e não é que

 

Edmundo Galeano também entrou neste livro por uma garrafa que aportou à casa das vidas que queria escrever, que aportou ao estuário das saciedades e dentro da garrafa, uma película inextensa lhe permaneceu em negativo algures no seu cérebro.

 

Este livro de Lídia Jorge é também poético de tão real. Parece todo ele escrito entre o pôr-do-sol e o vir da noite, e, acaso adivinhais que nele também é dito

 

Quem disse alguma vez que os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo, troçou da inteligência alheia. (…) Por que razão a vida sonhada era tão leve e a vida vivida, tão pesada? A imaginação tão diáfana, a realização tão grosseira? Perguntou-se Edmundo Galeano, com os olhos cheios de tristeza.

 

Edmundo optará por um regresso à casa, à casa junto à Praça do Mar e escreverá afinal o seu tão ansiado livro. Escreverá numa passada tutelada pela biblioteca onde A Cartuxa de Parma, A Peregrinação, a Ilíada, a Odisseia, O Homem sem qualidades, o Livro do Riso e do Esquecimento, a Ode Marítima, iluminarão sempre o que de melhor de si se salvará: a mão mutilada e afinal plena, ampla, como cavalo fogoso, agora esporeada para que a realidade não se fique por uma polegada acima ou abaixo do Estuário, antes substanciosa à vida.

 

Assim Lídia, neste teu livro senti uma mistura de inquietude e mágoa, humor e absurdo, capricho e segredo, mito e fantasia e o quanto as ligações humanas são todas tão perto do caos, verdade-herdeira de quem as escreve por mão insubmissa.

 

Teresa Bracinha Vieira

GIORGIO AGAMBEM

 

Giorgio Agambem ex-aluno de Heidegger e responsável pelas obras completas surgidas em Itália de Walter Benjamin é Filósofo italiano que se debruça da estética à política trabalhando os conceitos de estado de exceção, essa terra de ninguém entre o direito público e o facto político (…) entre a ordem jurídica e a vida (…) entre o direito e o vivente, a fim de que possamos chegar ao que significa agir politicamente, e o conceito de homo sacer ou «homem sagrado» figura singular do Direito Romano arcaico que nos remete à condição de quem, cometendo delitos contra a divindade, colocava em risco o entendimento afetivo entre a coletividade e os deuses e, em última análise, cometia um crime contra o Estado, merecendo a vingança dos deuses, a expulsão do acesso a direitos e a sua vida passava a ser «sagrada» negativamente por expulsão total do meio onde vivia, podendo caber-lhe a morte fora de qualquer ritual religioso.

 

Neste imenso projeto de conceitos que Agambem não descuida de pesquisar desde os anos noventa, encontramos muitos termos em similitude utilizados por Hannah Arendt e até Slavoi Zizeck aplicados à história recente. Referindo-se a este último conceito de existência sagrada, Zizeck aproxima-o da imagem do avião que distribui, em teatro de guerra, alimentos para uma população que fora atacada por um bombardeiro, considerando que a existir um homo sacer neste caso, a morte era decidida pela divindade, sendo apenas concretizada por outro homem, e, nunca este seria acusado de homicídio pois a decisão vinha da divindade. O quanto e o como se impõe à humanidade a inercia do paradigma da ação humana face ao que se insiste afinal chamar de politica legitimada.

 

Giorgio Agambem formou-se em Direito com uma tese sobre o pensamento político de Simone Weil. Dirigiu o Collège international de philosophie em Paris e entre outras atividades lecionou Estética e Filosofia no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza. As suas pesquisas concentram-se nas relações entre a literatura, a poesia, a filosofia, e a política. Também docente em universidades americanas, antes de se decidir a não entrar mais nos EUA por oposição à política de segurança de Bush, Agambem recebe o Prix Européen de l’Essai Charles Veillon.

 

No seu livro Nudez que entre nós saiu pela chancela da Relógio d’Água encontramos reunidos um conjunto de pequenos ensaios a retermos neste seu universo tão próprio com o pensamento sempre em incursão na tal espécie de terra de ninguém.

 

Dele tentaremos dar a nossa opinião também pelos caminhos da biopolítica e da filologia.

 

Teresa Bracinha Vieira