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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

2. A CASA DOS 4 CAMINHOS: quando o propósito é o paradigma

 

 

Passeava-se hoje o pensamento enquanto lia a vida em voz alta.


Neste dia, desde que saíra da Casa dos 4 Caminhos, procurava uma direção que sabia muito além. Por isso passeava-se, assim, solto, sem dramas, abandonando-se ao cheiro das resinas e inebriado tanto quanto aprendiz.


Sabia que se não movia em áreas universais do conhecer e que muito lhe fora escapando enquanto guardador de algumas especializações.


Sabia da sua dificuldade em se atualizar como a vida.


Sabia que a sua formação continuava em tempo de múltiplos berços, com inúmeras interpretações por escutar, por concluir, e por já pouco esperançoso de ainda ser tempo do muito, decidira hoje passear-se sem inquietude maior que a do propósito.


Sabia, se sabia, que não queria apropriar-se do que de outros pensamentos recebera.


Agradecia-lhes tanto o terem-no deixado conhecer novas direção que, mais, seria impudor.


Sabia que a perceção de um código genético comum seria a leitura com a qual ouviria melhor a humanidade.


Sabia que para este conhecer, careceria de tirar férias de muitos movimentos e devagar e vulnerável, deixando de lado as metafisicas e as transcendências e os excessos de objetividade, construiria hoje o início de um paradigma que explicaria o instinto que contém a comum raiz humana.


Passeava-se hoje o pensamento.

 

Teresa Bracinha Vieira

UMBERTO ECO E CARLO MARIA MARTINI (III)

Em Que Crê Quem não crê?
(Um livro acalorado e nós)


A coragem é muito notável se com ela examinarmos coisas simples e reconhecermos depois que ainda as não entendemos. 


Refletir sobre estas coisas simples sem nos desinteressarmos do passado e dos seus erros ajuda-nos à interpretação humilde do que deixamos atras e do que connosco irá até ao futuro. 


Mas vivermos sempre abraçado aos erros é como procurarmo-nos insistentemente distantes de nós, incapazes de descortinarmos qual a razão que nos leva a não abandonarmos o que afinal afirmamos rejeitar e que se encontra, absurdamente, ainda por abrir. 


Parece-nos que para iniciarmos um entendimento dos tempos do conhecer em nós, necessitamos que a inteligência tenha uma responsável escolha, desde logo, aceitando que a coragem não é uma espera de um fim humilde com manto de elite.  


Para tanto, há que ter piedade nas perguntas; há que ter piedade na suposta consensualidade e mesmo nas denúncias; no julgar; no crer. 


Para tanto, há que ter coragem! Coragem para que saibamos discernir quais os valores com os quais estamos totalmente de acordo sem nos alongarmos. 


Coragem! para que se conheçam muitas das fronteiras minúsculas do não consenso e ainda assim, aceitar que isso bastará.  


Todos, afinal todos, temos de ir um tantito mais longe, sem receio algum dos paradoxos, ou neles não coubesse também um gérmen de verdade. 


Enfim, temos de ter coragem para considerar que o acreditar origina equívocos, e que os devemos confrontar na perspetiva do que se espera.

 

 Teresa Bracinha Vieira

JULIÃO SARMENTO (1948-2021)


Quero eu dizer, enfim, que JS esteve sempre desde o palimpsesto, no modo de saber que ser artista é uma forma de vida.

Quero eu dizer, enfim, que JS se reconhecerá sempre como uma auréola de luz avassaladora ao nosso conhecimento.

Quero eu dizer, enfim, que JS chegou com a boca inteira à procura de uma vida: os caules não se lhe esconderam, resta-nos merecer a sua fidelidade ao campo de ondas que nunca abandonou

e que enfim, sem uma única distância tudo nos deixou.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

O pio do silêncio


E estar velho é sentir que se vive uma intensidade do saber e do não-saber para o qual se deseja tempo e ar puro na Natureza e nas ideias e em todos os convívios dos afetos em consciência comum da missão do amor

e estar velho é desejar o vento das tardes, o das casas, o do mar, o dos pássaros e que o cavalo de madeira seja agora de carne e de conclusão em vida do sonho que transportou

e estar velho é sentir que esta pandemia nos faz ficar no defeso, como sítio de folhas sem retorno onde se demora a claridade e apressa o desconhecimento aos nossos espelhos

e se estar velho é não aceitar este tempo assalariado de uma existência rígida, espaço intercalar e jamais, jamais paisagem, quando nunca nos bastou o ver e o rever

então sistematizemos os dados destes excessos de visões mínimas que nos fixam irónicas e eis 

como até vivemos numa desordem de muitas inexistências e só não somos antipoéticos porque enviamos barcos uns aos outros numa antevisão órfica

nós

o bloco dos dissidentes robustos contra as formigas que afinal nos devolvem Camões a um outro destino

quando o silêncio é o imenso pio qual nova proposta da vida

turmalina

que só pertence a uma ave que o esclarece e nos visita.

 

 Teresa Bracinha Vieira

UMBERTO ECO E CARLO MARIA MARTINI (II)


(Um livro acalorado e nós)


E será que tem prevalecido o sentido simbólico enquanto se anulam as realidades?


E se assim for admite-se a carga utópica como uma reserva de força?


Então aquele medo do futuro que se não confessa, multiplica-se, e a experiência interior que dá a palavra «salvação» tem uma tal amplitude que nos revive em todos os sentidos, incluindo o simbólico, graças!


Afinal é como se o caminho da história da condição humana só tivesse possibilidade de ser encontrado fora dela, mas dentro do simbólico e da esperança, enquanto lugares que consolidam o que afinal tem a energia do que é contingente, do que é aventura por entre as ideias.


Desta forma podemos todos dizer coisas muito parecidas, e, no momento mais dramático do que acontece, deseja-se que a misericórdia se integre em nós, e até na nossa escrita, quantas vezes, indignada? depois da morte de quem parte?


Torna-se então claro o quanto bem carecemos de entender a revelação da nossa condição num fim?


Agora, a realidade será sempre mais importante do que o nome que se lhe dá, mesmo que os nomes possam reconhecer valores comuns.


Mas o nosso exercício ainda está longe de esgotar as coisas simples. Creia-se!


Os nossos pequeninos progressos ainda se balançam entre o simbólico e a realidade enquanto repto.

 

 

Teresa Bracinha Vieira

HÉCTOR ABAD FACIOLINCE

Quando o amor de um pai é a magia mais extraordinária do mundo


Mal nos envolvemos na leitura das primeiras páginas deste livro e logo aquele amor entre pai e filho nos enche os sonhos de uma única e sabedora substância.

É o menino pela mão de seu pai.

Este menino não se imaginava sequer no céu, sem o seu pai. Chegou a ver-se por lá e, espreitando para baixo, avistou o pai no inferno, e logo lhe saltou para os braços.

Até ao nascimento dos filhos deste menino, ele nunca tinha sentido um amor assim. Sentia que ao lado do pai nunca nada de mal lhe aconteceria, tal como sente que aos seus filhos nada acontecerá se estiverem com ele.

Ele, o menino e seu pai, viviam numa casa de mulheres: eram dez no total e cinco delas irmãs do menino. A sua infância, na relação com seu pai, fora algo que só se sente muito fundo, naqueles sítios do sentir anterior ao sentir. Ele sentia pelo pai o que os amigos sentiam pelas mães deles.

Quando o pai se ausentava, ele recordava-lhe o cheiro que resistia na fronha da almofada da cama não mudada, a seu pedido, pelas criadas.

Era um mundo em que até os medos medonhos se acolhiam e adormeciam no largo braço do seu pai. Parecia-lhe que o pai o deixava fazer tudo, bastando que o tudo fosse mexer nos livros dele ou no pincel de barbear. Era maravilhoso fingir que sabia escrever à máquina e dedilhar as letras todas numa confusão que, afinal não existia, pois qualquer delas tinha em si a palavra “Pai”. Ah! E aquela luz forte nos olhos só de imaginar que um dia lhe escreveria cartas.

E ele, este menino, nunca conheceu os cumprimentos distantes entre machos, entre pai e filho, daqueles que aparentemente não tinham afetos. Ele, este menino, só conheceu os abraços e as frases carinhosas de seu pai, ou o seu pai não achasse que mimar os filhos era o melhor dos sistemas educativos. 

Nada melhor afinal do que um caderno de apontamentos chamado Manual de tolerância.

Nada melhor do que existir a noção de que os pais podem fazer os filhos muito infelizes e que fazê-los felizes lhes aumenta a bondade e esta a sua felicidade.

Este amor faz os filhos sentirem-se fortes para que um dia a dureza da vida os não vergue, antes os renasça na infância, se necessário.

Ainda hoje, este menino sente que obedece ao pai, ao pai que lhe ensinou a desobedecer se necessário; ao pai que ainda hoje por memória lhe resolve dilemas morais; ao pai que um dia lhe agarrou por um braço deixando-lhe marca, e o obrigou a pedir, em alta voz, desculpa a um vizinho que ele tinha aviltado, copiando colegas.

Depois, depois o pai fechou-se no escritório com ele, e olhando-o nos olhos, recordou-lhe que o próprio Jesus era judeu.

Ter um pai assim, era conhecer a leveza do aprender em compaixão. Era conhecer quando as crianças o que têm é fome.

Um dia, muitos anos depois: 

Filho, enquanto continuares a estudar e a trabalhar como tens feito (…) para nós a tua dependência não será uma carga, mas uma agradabilíssima obrigação.

Assim é a magia mais extraordinária do mundo.


 Teresa Bracinha Vieira

UMBERTO ECO E CARLO MARIA MARTINI (I)

Em Que Crê Quem não crê?
(Um livro acalorado e nós)


Existe uma noção de esperança que para todos signifique o mesmo?

Ou existe um otimismo trágico que também pode ser lido por otimismo da vontade? 

Ou que o que existe é um tipo de enfermidade acordada, todas as vezes que o fim dos tempos sopra e à qual também chamamos esperança? 

E poderá essa enfermidade ter-se tornado num hábito assente num erro e medita se, medita-se, e vamos fingindo ignorar a não resposta?  

E também se pode dizer que se deu a essa enfermidade, um significado espiritual para que ela possua a ideia reguladora de nos julgar, e a nossa engenharia humana, aceita. Aceita porque os nossos medos se acostumam que assim seja.  

E desafia-se a força desta esperança enferma, a enfrentar a força dos fantasmas, e ao fazê-lo, deixa de fora a sua irrealidade. Quanto alívio! 

Às vezes, existe uma cor nos dias que parece aquela cor da alvorada que nunca existiria e que, no entanto, um tema, um dia inteiro expõe irreverente, com todo o poder do capital da cor que subscreve. 

Aprende-se então que a cor tem poder de mando, reconhecida mesmo por aqueles que só se vincularam à razão. 

Aprende-se que existe sim, uma noção de esperança, e que para todos não significa o mesmo. 

É então chegado o tempo da permuta das razões em liberdade.  

É então chegado o tempo do entreabrir de uma das portas do futuro dos homens não resignados com o seu presente.

 

 Teresa Bracinha Vieira

DANTE ALIGHIERI: SIGNORE, SONO FELICISSIMO DI VERDEVI; PERÒ CREDO CHE IL TEMPO CAMBI


Que dizer de toda a qualidade e força criativa do il sommo poeta da língua italiana?

Nasce em Florença, Dante, escritor, poeta e político, Durante (seu nome) é lancinantemente exilado da sua terra natal, e mais do que uma separação física, Dante foi abandonado pelos seus próprios parentes. Dor que sempre o acompanhará.

La Divina Commedia, poema épico e teológico é a sua obra-prima iniciada por volta de 1307.

Poema narrativo e extremosamente planejado a cada etapa da viagem, com detalhes quase visuais, narra uma odisseia pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. Dante, o personagem, é guiado pelo purgatório e pelo inferno pela mão do poeta romano Virgílio, e no céu por Beatriz, a mulher dentro de si, no coração do seu amor.

Os três livros da Divina Comédia estão divididos em 33 cantos cada, e terminam com um verso isolado no final. No último verso de cada um dos livros a mesma palavra: stelle.

Estrelas que influenciaram pintores, músicos, cineastas, poetas e outros artistas do mundo como Gustave Doré, Botticelli, Dali, Michelangelo, W. Blake, Shumann, Rossini, Liszt, Rodin entre tantos outros.

O inferno, na La Divina Commedia corresponde também a um desalinho do caminho certo que impede de ver o céu e as estrelas.

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

(Numa tradução possível)

No meio do caminho desta vida
vi-me perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.

O purgatório, proposto aos arrependidos e com força para subirem os sete terraços, odisseia que define o local onde se expurgam os sete pecados capitais, e de novo Beatriz, a que purifica.

Depois o paraíso dividido em duas partes: uma material e uma espiritual. A primeira segue o modelo cosmológico de Ptolomeu, e consiste em círculos formados por sete planetas, e quando o céu das estrelas fixas se expõe, no paraíso terrestre, Beatriz olha fixamente para o sol e ela e Dante começam a elevar-se até ele.

Aqui chegado Dante adquire uma nova capacidade visual e cristalina, passando a ter visão para compreender o mundo espiritual, e separando-se da própria Beatriz sente então o amor divino.


Tive a oportunidade de ver Dante Alighieri: Le più belle battute di Roberto Benigni a Firenze na passada sexta-feira.

De facto, no inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise, como bem afirmava Dante. E com que motivação e sentimento, Benigni no-lo transmite! Como agradecer a generosidade e a capacidade de Benigni e do seu próprio ser para connosco, em mais um ato inesquecível da sua arte de comunicar em excelência?

Impossível também não recordar Sophia de Mello Breyner que, na nossa opinião, tendo Dante nos olhos da alma, abre a luz do percurso iniciático e mantém-se num aqui onde escolheu viver, e na Carta aos Amigos Mortos

Nada me resta senão olhar de frente
Neste país de dor e incerteza

E quase geme Benigni, neste torna a Sta Croce com TuttoDante e ainda recita com a esperança nos olhos que nos buscam

Oh, quão insuficiente é a palavra e quão ineficaz / ao meu conceito!

E como dizer de outro modo este beijo emozionato nello prima serata di TuttoDante?, quando a criação da prisão moderna é local chamado liberdade?

Repito:
Signore, sono felicissimo di verdevi; però credo che il tempo cambi.

  

Teresa Bracinha Vieira

 

 Obs: Solicitou-se a reposição deste texto publicado em 2011 neste blogue.

JÜRGEN HABERMAS

O grande pensador que nos diz:
envergonha-te de morrer antes de teres alcançado uma vitória para a humanidade.


No passado dia 28 do corrente na Fundação Calouste Gulbenkian colocaram-se as questões inerentes aos livros e às leituras, tendo em conta os desafios da era digital.

Debater o papel do livro e da leitura na era da internet tendo como convidado o filósofo e sociólogo alemão, Habermas, figura central do pensamento contemporâneo que desde logo, confessa:

No meu trabalho diário sentir-me-ia perdido sem o meu computador pessoal, mas não sou verdadeiramente um habitante do novo espaço virtual. Não participo nas redes sociais, não leio 'e-books' e de tempos a tempos escuto os relatos da minha neta sobre o seu admirável mundo novo.

Gomes Canotilho deu-nos conta que em 2010 Habermas falhou a presença em Portugal por razões de saúde. Desta feita aceitou fazer a viagem até Lisboa por se tratar de uma conferência sobre educação

Habermas um dos mais influentes filósofos do mundo a dois passos de física distância disse-nos: temos um ascensor comum.

Na semana passada, tinha lecionado uma aula sobre a Europa alertando, naturalmente, para os raciocínios de Jügen Habermas.

Expressei o que entendia ser a necessidade de uma política de saúde comum entre os povos, nos quais enfim, até se enraízam os mesmos princípios constitucionais, mesmo que sem as mesmas origens étnicas, linguísticas ou culturais.

Recordei a importância da Europa no pensamento de Habermas e que atravessa áreas como a ética, a filosofia da religião, a linguagem, a estética, entre outras temáticas, e recordando que a Fundação C.G. já editara este ano a obra de Habermas “A transformação estrutural da esfera pública”.

Para o filósofo, "no caso da pós-democracia, a perceção é a de que os governos não só perderam a vontade como também a força para intervir de modo a alterar o estados dos mais desfavorecidos".

Deste modo, poderemos colocar a possibilidade de alargar as fronteiras da legitimação democrática para lá das fronteiras do estado-nação?

Habermas entende que a transnacionalização da democracia oferece uma saída que não se compadece com a apatia do mundo ocidental, nem com o distanciamento em relação aos políticos, existindo mesmo uma exigência, por parte dos cidadãos e grupos de protesto, de uma democracia direta.

Aqui um silêncio interrogativo do auditório. E acrescentei que mais nos atiçara o pensador:

o preço a pagar pela governação para lá dos estados é a crescente insignificância dos processos de legitimação no interior do estado-nação (…)”

Então a resposta reforça a afirmativa:

 necessário se torna que surjam novos tipos de comunidades transnacionais e a União Europeia é suposta ser a primeira desse tipo de instituições, explicou o autor da “Teoria da Acção Comunicacional”.

No entanto, prosseguiu Habermas, a crise da zona euro é a prova de como é difícil o caminho até se chegar a um “sistema democrático supranacional ambicioso e com vários níveis”.

Ultrapassar o atual estado de coisas implica, defendeu, uma mudança no espaço público europeu, um espaço que é mais uma soma de espaços públicos nacionais do que um fórum de discussão de questões genuinamente europeias e comuns a todos os estados-membros.

A mundialização, a busca planetária, a Europa de geometria variável ou a la Carte, os laços de pertença interrompidos pelo “poder de agenda”, mostram-nos que, esta crise nos clareou o quanto é necessário mudar de política, e levá-la a enquadramentos partilhados por políticas económicas e sociais que nos libertem dos mercados financeiros, neles responsabilizando investidores e não contribuintes.

Claro está que para se caminhar neste futuro os países têm que se afastar dos egoísmos nacionais e adotar verdadeiras perspetivas europeias comuns, não conformadas ao mercado, mas sim, à modificação do seu papel em prol de um advir consciente, responsável e inequivocamente seguro da geração que se deseja por uma justiça a recriar, começando esta em cada um.

Mas os partidos políticos evitam a questão da solidariedade europeia, daquilo que os europeus devem uns aos outros. Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas, concluiu o filósofo.

Quantas vezes a política do dar e do haver prejudicou a identidade dentro da União Europeia? Lancei aos alunos. Quantas vezes? E repito a análise de Habermas

Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas, concluiu o filósofo.

Habermas, um dos maiores pensadores do nosso tempo, encerrou com estas palavras a sua conferência sobre a democracia na Europa, na passada segunda-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Fica por repensarmos a razão e o limite das transferências de soberania que não colocam em causa a coragem da revisão dos tratados, e fica por saber o quanto os meus alunos puderam compreender que qualquer dos caminhos tem custos, mas que é preciso sair do conforto dos egoísmos nacionais que nos condenam, e que saibamos olhar-nos como parte de uma comunidade, independentemente de fronteiras, na qual saibamos responder à  questão: quem somos nós?

Ou

E se precisarmos um dia, absolutamente de resolver um trágico problema comum?

Se estas controvérsias não forem lançadas nos espaços públicos nacionais, estes serão moldados de acordo com o formato das ‘democracias conformadas”, digo.

Mas, os partidos políticos evitam a questão da solidariedade europeia como se ela não fosse o grande desafio de dimensões históricas.

Nasceu em Düsseldorf, em 1929 Habermas, e foi fortemente influenciado pelo pensamento de Martin Heidegger.

Habermas para quem

O Homem é um “sim” que vibra com harmonias cósmicas

Recorde-se também o encontro entre Habermas e Ratzinger, no qual se discutiram "as bases pré-políticas e morais do Estado democrático". Habermas e o cardeal debateram razão e fé, capitalismo globalizado, moral nas sociedades pluralistas e mediáticas, interculturalidade, poder e direito comum.

Saibamos sempre que a Cultura se situa no contexto da história e que se limpem os pés e se usem mascaras que protejam a sanidade das ideias antes da tolerância de cada um a si mesmo.

E com este filósofo, casa cheia afinal na Fundação Gulbenkian!

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Texto muito similar foi publicado neste Blogue há cerca de 8 anos. Pouco depois, o atual, foi publicado noutra sede.

CRÓNICA DA CULTURA

1.     A CASA DOS 4 CAMINHOS: quando a ideia do fim sobrevive ao fim

 

Acabo de encontrar um sentir-chave: eu já sou uma floresta à porta de um dos caminhos da Casa. Por ela ofereci um acesso.

Comuniquei.

Usei uma combinação de palavras que exprimiram uma nova luz e ela é nova ou não fosse uma descoberta consentida no meio metalinguístico.

Borges conhece bem o ser humano e as suas fragilidades. Ele sabe «que uma coisa sugerida é muito mais eficaz que uma coisa expressa.» Ele sabe que o que fica por dizer é capaz de atear um pacto com o fogo e com a neve.

E acrescenta: «Também se escrevem palavras para nos livrarmos delas»

Então pergunto: se assim não for choco com algo físico, algo sem emoção? Algo bruto?


Recordo-te Jorge Luis Borges


As ditaduras fomentam a opressão, as ditaduras fomentam o servilismo, as ditaduras fomentam a crueldade; mas o mais abominável é que elas fomentam a idiotia.


Sim. Ouvi-te.

Agora, de um fim dos tempos surgiu o corona e dos emplumados auditórios das elites até às marchas populares, ele roubou-lhes as audiências, as carpetes e os asfaltos, e os resíduos apenas batem às portas do bem-estar, por vezes com violência escutando dos ácidos insubstituíveis a promessa de se proporem construir-se em clonos invisíveis do outro lado das máscaras.


Bella Ciao
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao


Teresa Bracinha Vieira