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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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LÍDIA JORGE: O LIVRO DAS TRÉGUAS, OU QUANDO A POESIA AGUARDA UM FILME DE SABERES, LUGARES E TEMPOS

 

Lá no apartamento em Jerusalém numa janela aberta para a rua os olhos do Poeta refletem a ambição de segurar nas mãos Nova Iorque ou Alexandria. Quase zangado, quase desesperado, quer dizer da saudade com as fotografias nas mãos, e nada o contenta das palavras que a definem. Afinal a saudade é um lugar de desejo, de perseguição, de punição e pede-se a Faulkner que feche a cortina ao de leve e que se deite o Poeta por entre os lençóis da cama que lhe fazem sentir um habitar Jerusalém, na cama da sua meretriz, ou Muro, que impele a sua partida dali. E fecha os olhos o Poeta, com as faces rosas de sangue que lhe recordam a cor das bochechas do filho, nascido livre, e agora outra noite, filha do livro-mãe, filha da conclusão e da pergunta com nome de destino, com nome de veleiro.

 

O filme começou assim, exprimindo um rosto com tudo o que deve exprimir antes que seja tarde, antes que os enigmas de cansem de ser perguntados e que o Poeta jure por Deus que não descodificou o perfume.

 

E o filme mostra o frasco de cristal ricamente trabalhado e de tampa de cortiça, pousado na mesinha de cabeceira: o Poeta adormece, um tanto, só um tanto, pois que as flores desbotadas que o frasco contém, embrulham o porvir, as proporções das novas estradas, placentas informatizadas que já tinham trocado o mundo do simulacro pelo Mundo da vida, e assim, mergulhadas no mar amniótico do frasco, a elas devia estar atento o Poeta.

 

No dia seguinte, o Poeta desce a encosta das videiras, acaricia os cachos de uvas, e súbito, pressente o perigo não cruxificado de poder partir apenas na altura que ele conhece não haver caminho, e pergunta:

 

- Qual a razão para que ninguém me diga de frente que só o perfil pode agir nas noticias do amor; naquelas que se aceitam em nós e nós por elas cheios de atualidade, a sabermos que podemos partir do Médio oriente seguros do que Arquimedes nos ensinou: falo da alavanca, esta que vos mostro na qualidade de vedor e que torço como se torcesse o umbigo do mundo.

 

O écran, surge agora com a cor e a forma de uma laranja, os gomos parecem-se a músculos iniciáticos que oferecem sumo a todos os que rodeiam o Poeta, e que ele domina afinal com o saber das coisas escondidas dando de beber e sorrindo, sereno.

 

E surge um forno, uma lareira, um lume que inunda os olhos de todos e que o Poeta explica tratar-se apenas de uma existência muito viva, e que antes do seu salto olímpico e mortal, arde para que todos conheçam o benefício da dúvida que as flores da música de Mozart sugerem. A casa de Mozart está toda pintada pela mão dos impressionistas. Todos, sejam quem sejam todos, pois que entrem neste noivado consumado e cuja chave é uma fábula. Uma fábula de poder. A fábula de poder dos Poetas. Sentam-se então todos numa montanha, na bainha de uma montanha, à procura de um outro início. A bainha parece igual à dos cortinados de Jerusalém. As linhas enroladas são similares a batalhas que o Poeta regista no seu caderno de apontamentos e recorda-se que isto é o significado de mesmíssimo. O essencial inalterado, afinal. O céu da tarde lança ao Poeta um cabo e ele desce por ele até fitar o que o perturba. O Poeta é sempre a conjunção do cerne dos elementos do mundo, e olhando as aguas empurra-as para o beijo, até que o lápis descreva de um outro modo a tez morena das mulheres com sarongs coloridos.

 

E surge a casa a tal iluminada pela candeia do Poeta: a tal do coração e da espada, do cavalo e do segredo de o montar, e lá longe de tão perto, a noção de que só do não conhecido é o futuro. Big-Bang ou a primeira batalha, a tal que não conhece a bandeira branca. O Poeta, ingénuo do poder, não julga. O Poeta continua a crer no ato limite que exponha a poesia, finalmente como solução, nem que seja por sinais de mímica, mas que a deixe a cobrir como uma pele, o mundo velho dos deuses e lhes diga que coragem é ir por onde perigoso é o norte.

 

Eis a Grécia!

 

O Poeta tem à cintura pássaros vivos e livres que assim desejam estar. É sua a vontade deste modo se acomodarem; esse o édito das suas manhãs. E o Poeta escreve que se não desliga dos incêndios das verdades, nem que lhe citem Roland Barthes. Se necessário arrendam-se as nuvens sem contrato e as suas águas transformam as florestas em verde para que todos as interpretem e ele, sozinho, arda nos factos irrelevantes que mataram os dias: nada de novo, afinal. De nada novo a não ser a estrela que se solta sem ser vista e lá do céu explica os factos todos.

 

Os dromedários transportavam gentes e sal pelo deserto. O tuaregue do filme «Um chá no deserto», voltou a adormecer nas dunas, olhando a mulher estranha às origens da sua cor. E sim, correu água sobre a areia no deserto durante três dias como diz o Poeta Lídia Jorge ou o amor nu, em cada canto não tivesse sido descoberto.

 

Em muitas circunstâncias e tempos se faz o caderno dos apontamentos do Poeta. Até o cocheiro atento ou não à maioridade da rapariga, aceitava o seu corpo doado e ainda não amado, ainda não noivado, ou, ainda era o Poeta demasiado jovem para entender aquele estado? Eu mãe-Poeta digo:

 

- Ó minha filha não fales alto, ninguém tem de saber que ainda estás no comboio dos nadas e que só depois da lucidez te repetirás e com ela entenderás os preceitos.

 

O comboio seguia junto ao mar porque ali o rio parecia o mar. O Poeta pela janela olhava o horizonte e aqui e ali presumia as cavernas nas rochas, aquelas que guardavam as sabedorias que não correspondiam à verdade. Enfim, era a viagem. Era a suspeita aqui e ali de que o livro procurado se faz ao Poeta ladrando como um cão que o arreda da esperança de entrar no carreiro da montanha. Esse carreiro, como nos mostra o filme, é um pedaço de terra que serpenteia até ao céu. E para quê? Para nos demonstrar que só estamos acompanhados de nós. Mas há futuro dizia Rui, o Belo.

 

Num vasto campo de milho, o Poeta utiliza a natureza por decifração e abre uma especial carola que guarda o correio que lhe é destinado. Depois de tantos anos chegar à primeira desilusão, é duro, e é duro, partir daí. O bosque que o Poeta já foi, ilumina-se só com uma arvore e lhe não basta: aquela. Parece-lhe ver uma terra de infâncias no meio daquele milho, no meio daquele acontecimento que se inicia também com pedras, pedras das montanhas, pedras com formato de condição humana, fosse o que viesse a ser essa condição em Jerusalém.

 

Assim, li este extraordinário livro de poesia de Lídia Jorge. Deste modo sugeri o filme: a flor de lymo que poderia dizer melhor do Poeta, quando do fim do périplo ao ponto inicial do pôr à prova, dali mesmo partiu ele, sorrindo, com o seu frasco de desbotadas flores na mão, e acredita-se que se fez de novo à expectativa.

 

 

Teresa Bracinha Vieira

NA MINHA ALDEIA NINGUÉM MORRIA SOZINHO

 

Afirmava Eduardo Lourenço, e acrescento: talvez porque lá os unia o passado e o presente das sementes. Talvez porque lá era a casa das memórias universais, daquelas memórias que só os poetas conhecem: memórias com alma e com destino que se encontram sempre no seio da música que, sem nada dizer, tudo diz, nessa experiência religiosa e bastante só de a escutar. E sim, lá onde e aonde se não morre sozinho, é mundo sem mácula, é punhado de inocência, é enfim, vida com as coisas essenciais reconhecidas.

 

Quando penso que já não há escolha no entender do morrer e que só os outros dizem do nosso morrer, penso que nem metade do que eu penso, saberei pensar, já que a morte me acompanha e sou eu que lhe faço vista grossa.

 

Na aldeia que conheci em Vilarinho das Furnas também nunca se soube que alguém tivesse morrido sozinho. A comunidade era total. Até se sabia partilhar a Lua no seu primeiro quarto, bem como a mantilha de neblina que lhe flutuava à volta antes de descer à povoação e tranquilamente passar o corpo pela terra enquanto planava. Assim também se adocicava fosse o que fosse acontecer enquanto se aprendia a morrer sem angústia.

 

Conversei com muitas gentes de aldeias vizinhas de Vilarinho e registei que poucos se preocupavam numa análise de aprendizagem dos enredos da morte. Parecia que intuíam que o custo de a compreender era inferior ao benefício de acudir ao medo que ela poderia provocar se atentasse contra o poder da comunidade. E de facto, consultar a morte era criar demora nos bois à pastagem, o que era inadmissível: para a súbita aflição, a presença de padre ou de vizinho, bastava para que a facilidade da passagem chegasse pronta na ponta de um olhar ou dos dedos de uma mão. E esta realidade acontecia sempre. Naquela aldeia ninguém morria sozinho, o que tornava a vida de uma leveza única.

 

Um dia sentada junto à água da barragem que cobriu esta aldeia, fazia eu ricochetear pedrinhas que ressoavam antes do mergulho final, e eis que um professor de uma escola dali de perto se aproximou e me perguntou:

 

- Porque afogas as pedrinhas? Não lhes escutas o mugido da morte sem companhia? Fingem que não sabem que o saltitar as não livra dela, tão só porque a não entendem, mas o mugido está acima do que se entende.

 

- Não sei se compreendi o que me disse. Venho de um local onde o poeta Graça Moura escreveu:

 

Quando eu morrer (…) fica junto de mim (…) segura na minha mão, põe os olhos nos meus se puder ser (…) que ao deixar de bater-me o coração fique por nós o teu inda a bater,

quando eu morrer segura na minha mão.

 

Ou seja, neste local que bem conheço, a sociedade tem de apelar doridamente, e, melhor acredita no apelo, se ele for feito em nome do amor, para que o desaparecer da vida se faça na possibilidade de uma relação última e íntima com alguém.

 

O crucial nestes momentos, é a constatação do quanto, há muito, perdemos a simplicidade dos factos e dos processos que por tentativa e erro nos levariam à cor dos inícios dos entendimentos. Concede-se por mais não ser que ninguém leva consigo o pecúlio da vida, entre outras realidades, concede-se também que por excedentes ensimesmados, se morre só.

 

O mugido que menciona, não creio que se ouça, mas já ouvi falar dele e sei que existe e que de tão tremendo, enterraram-no debaixo das montanhas, lá longe, lá longe, lá muito longe.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Bruno,

 

Dei comigo a ser a única pessoa a comprar selo para uma carta. Dei comigo a pensar que as nossas conversas se não escrevem em e-mails. Dei comigo a pensar que não posso perder a chaves da caixa do meu correio porque recebo muitas cartas. Ainda. Dei comigo a pensar que ambos sabemos que carta tem o perfume das várias estações da alma. Tem folhas de árvores e espuma de mares que colam a cola do envelope, às vezes, com lágrimas, outras com urgências; carta tem respiração de mundo e tem carteiro que lhe pega e a entrega como testemunho de alguém que o pode ler na casa de jantar atras do reposteiro e beijar muito a carta e esconde-la no montinho do sótão, dentro de uma caixa, imune a ratos, e essa caixa é de Ali Bábá de um agosto que permitiu umas férias de mundo da nossa juventude. Quanto tesouro! Um mundo de projetos fenomenais e acontecimentos fantásticos, descobertas únicas, tudo condensado em 30 dias. Um mundo de cada um à sua maneira e tu com a Eduarda janela por janela a olharem-se, e, o tanque redondo dos peixes – mirante – era o meu melhor público para que o Miguel entendesse que aquele golpe de vista infalível que a água captava, era a promessa de, na manhã seguinte, juntos, na praia, nós os dois, iríamos ao mar.

 

Bruno,

 

Voltei para casa e abri o envelope e escrevi-te isto. Quis saber que saberias da minha fidelidade a escrever-te cartas, mas que uma mulher exausta e ansiosa demais pode escrever e-mails, e, uma vez por outra, o teu endereço eletrónico, tenta-me, e não te posso prometer que uma tarefa esgotante me evite de o usar quando.

 

Contudo, do perfume ainda não sei como farei. A minha caneta tem tinta permanente e por isso tem perfume. Receio que isto de escrever-te sem ser por carta, fique tudo mal escrito e mal vivido e que não domine as palavras na minha fala, como quando as obrigo por tinta a subirem a Acrópole.

 

Que dizes?

 

Eu sei que não estou apta a conhecer este novo Evangelho das tecnologias de utilizador que, receio, pelo sinistro da sua facilidade, mas, desde que o envio das cartas se apoderou de mim na fúria de viajar e começo a chegar antes delas. Enfim.

 

Acima de tudo, para nos sabermos de nós, rapidamente, outros meios se propõem. Impessoais? Ou neles se reconhecem, que os últimos degraus que subi na arena em Palermo e tos mostrei, quase em direto, por um vídeo que fiz e te enviei por telemóvel, foi pronto também a mostrar-te os templos de Agrigento e a expor-te quão mágica era a luz mediterrânica.

 

Duas semanas depois estavas lá com uma Eduarda III ou IV (eras fiel ao nome) pois pressentiste afinal pelo vídeo que…

 

Que dizes?

 

Esta pergunta vai por carta. Vou voltar aos correios. Tratam-me tão bem!

 

«Bom dia Dra., mais uma cartinha? Quer escolher o selo? Temos uns que são mesmo o seu sorriso.»

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

ÁNGEL CRESPO: UMA VERDADEIRA FESTA DA LEITURA

 

Volto de quando em quando a Ángel Crespo. Volto à sua doçura recorrendo à memória do seu passo pelas ruas de Lisboa. O meu regresso à poesia de Ángel supõe sempre o introduzir-me num espaço de aprendizagem de contínuos assombros e desde sempre os seus livros foram a tal festa da leitura para mim.

 

Foi num estado de maravilha em que fiquei quando adquiri este seu livro em Barcelona. Nesta antologia sobressai a contemporaneidade criativa que só ele soube construir, mantendo o pulso no realismo espanhol e devotando-se ao entendimento do consenso sobre a realidade. O seu livro La realidad entera que dá titulo a esta antologia, surpreende num itinerário que envolve a própria filosofia medieva, raridade de um intelectual numa sua criação muito peculiar na cultura espanhola, na segunda metade do seculo passado. Ángel, pensador e poeta de uma claríssima consciência atravessa transversalmente o espaço do conhecimento que, na bela expressão de José Lezama a traduz como sendo a grande amiga de todas as coisas. Julgamos que a palavra poética de Crespo é uma experiência vital para que a poesia resulte entre linguagem e mundo, desafiando a aventura crespiana um espaço do sagrado como forma de conhecimento e de presença de um enigma que possa fazer parte de uma carta, de um animal, de um símbolo, de um amigo e sempre veículo sem estridências que um passeio matinal não cure. Mas a sua obra em geral mesmo em registo que não de poesia, constitui o descobrir de uma escultura, de uma pintura, de uma viagem, do frio e do Nada. Tudo são passos necessários à concepção integral da poesia de Crespo. E, no mesmo processo se encadeia, as suas conferências, o seu professorado, os seus ensaios, as suas traduções. Ángel afirmou

 

Por supuesto, mi própria poesia fue da estimuladora y, en cierta manera, la iluminadora del resto de mi escritura(…) la poesía se ha convertido en objeto casi exclusivo de mis inquietudes intelectuales, tal vez por haber sido, tanto en las circunstancias propricias como en las adversas, mi más decisiva señal de identidad y, desde luego, la celadora constante de mi libertad.

 

Lembremo-nos que estas coordenadas são o centro, o ponto de convergência que converte, dito nas palavras de Borges, ao destino da ética secreta do homem.

 

Crespo mostra-se também muito interessado pelos poetas de cultura portuguesa no momento em que começa a traduzir Virgílio.

 

Afirma então

He procurado, pues, passar de lo intuitivo (o, si se quiere, no racional, pero tampoco irracional) de la consciencia colectiva a lo enigmático de la consciência superior.

 

A verdade é que nos resulta difícil fazer um relato dos caminhos de Crespo que exponham em profundidade a sua curiosidade intelectual insaciável. E chega à leitura de Dante em italiano, chega aos parnasianos - escola literária francesa dos poetas que cultivavam a arte pela arte e que defendiam a perfeição formal face a sentimentalismos excessivos do romantismo. Segundo a mitologia grega Parnaso é um monte onde habitaram as musas.Le Parnasse contemporain, recorde-se era o nome de uma revista francesa de poesia-, e simbolistas franceses em francês, a Baudelaire, à poesia hispano americana com Neruda, Rubén Darío entre outros e é um dos primeiros a reconhecer a alta qualidade de Juan Ramón Jiménez.

 

Mais tarde obtém na Suécia em 1973 o título de doutor em Filosofia e nesse mesmo ano traduz o inferno de Dante e a Antologia da poesia brasileira. O desejo de Crespo do conhecimento do homem através da obra do homem fá-lo viver o sentido do diálogo com o conhecimento sagrado da palavra poética num processo que se iniciou no início dos anos oitenta e em 1987 surge Lisboa y Las cenizas de la flor.

 

Por muito que falemos do percurso de Crespo, tudo é incompleto. Cremos plenamente que dentro do panorama espanhol ele é uma verdadeira exceção. É um poeta comprometido com uma conceção da poesia como conhecimento integrado na modernidade e colocando o sagrado numa situação de diálogo com os poetas que cruzam esse caminho, de Fernando Pessoa a Blake, a Mallarmé, entre outros.

 

Por profunda admiração, por não esquecermos o encontro com Crespo no Largo do Camões em Lisboa, por termos entendido nele uma ternura indizível, pelo orgulho por este grande poeta e em homenagem à sua linha de significação, o poema

 

«El INVISIBLE»

 

Yo sé que alguien me habla,

me habla con insistencia,

tercamente me dice cosas que debo saber,

pero ese alguien no usa mis palabras,

pero yo no conozco su lenguaje,

y los dos, frete a frente,

sin vernos, angustiados,

no podemos unir nuestros discursos.

 

A veces casi escucho su mensaje,

presiento cómo lucha junto a mí,

cómo trata de hablarme, de decirme,

cómo viene a mi libro, a mis papeles,

cómo se sienta al lado, invisible, en la silla

cómo hace a mi madre que diga cosas raras

que mi madre no querría decir,

para que yo le entienda.

 

También, cuando passeo,

a la cara me arroja hojas secas, y a veces

me hace tropezar en una brizna.

 

Pero yo no le entiendo,

yo no sé qué me quiere decir,

yo soy un tope incomprensivo, y sólo

sé abrir los ojos y exclamar con miedo:

Quién eres? Qué me quieres decir?

 

Pero se va

si nota mi impaciencia.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

(…) naquela casa houve sempre neve a agudizar o frio: verão ou inverno os seres eram recrutados ao horizonte.

 

 

 

Bruno, meu amigo, minha tão jovem vaidade;

 

Só posso responder à tua carta dizendo-te que naquela casa, tanto quanto me recordo, houve sempre neve. Neve, lá mesmo dentro da casa. Diria que em certos dias havia neve dentro do próprio forno de lenha. Fora arrendada essa casa aos caseiros da quinta da tua avó. Recordas-te? Caía nela em charcos, a água das chuvas, a neve, em despedaçados e pesados flocos, fustigava-a com a ajuda do vento e tudo tão suportado pela casa estoica e pelos seus habitantes. Tenho a certeza de que era assim para que eles pudessem ser seres do mundo. Agora tenho outra certeza: mesmo no verão, no tempo dos milhos, o tempo, caía pelo buraco do teto da cozinha de chão de terra e, feito neblina, a qualquer hora, furava todas as velhas rachas da casa e expandia-se no ar, fazendo-nos sentir necessidade de algum agasalho. A casa era uma casa de aldeia, rural, marcada pelas pedras cinzentas e pelos sequeiros de pedra cinzentos e pela eira de pedra cinzenta. A casa era o bater do coração do ti Aires que a achava um mistério fundo, ou não guardasse ela, gentes e bichos, num orgulho de casa conforme a todas as necessidades, assim ele a descrevia. Confirmo-te que a tia São fazia o tal arroz de feijão no tacho, assente na grelha dos três pés, e, não havia melhor cheiro no mundo do que aquele que vivia no fumegar deste tacho ou na abertura da tampa do forno de lenha, onde, assada estava a galinha e cozido o pão, ambos a espreitar-nos como um vestido aberto às cerejas. E nós, Bruno, nós lá íamos perguntando à Ti São, qual a razão do repasto e por entre as perguntas, as lágrimas que ela limpava dizendo sempre:

 

Maldita constipação! E fazia por tossir.

 

A ti São dava-nos sempre suspiros que fazia com as claras dos ovos que sobejavam dos almoços com os amigos do marido, vizinhos de ambos, e em cuja mesa – que era a própria arca salgadeira das carnes do porco - ela se não sentava nunca, apenas de pé e de prato de alumínio na mão só o arroz de feijão provava. Ainda assim, para nós, abria o forno, metia a pá e lá vinham eles, os suspiros direitinhos provocar o nosso olhar.

 

Vá levai alguns, dizia-nos num sorriso de ternura.

 

Nós lá íamos para casa felizes com aquelas guloseimas únicas. No outro dia, ou melhor, em mais outro dia, seguia a ti São às 5h da manhã para o campo, de onde só regressava de novo por volta da meia hora, como quem diz, a um outro meio-dia e meia. Regressava para pôr no lume a sopa a fazer. Esta sopa levava couves e um pouco de gordura da barriga do porco e comiam-na com broa saída das mãos da Ti São. A nós ela deitava os olhos e dizia-nos:

 

Vá ide almoçar, isto não é para os meninos.

 

E tu reparavas que eles nunca falavam um com o outro durante o almoço, ou, falava o ti Aires por gestos secos, conhecidos da ti São depois de 50 anos de matrimónio. Talvez por isso havia sempre neve na casa. Talvez por isso o fulgor do mundo entrara há 50 anos, quando o tempo das promessas lhes obedecia, e, depois, rapidamente as fartas hortas foram ficando nuas, o quarto do casal com lençóis mais gelados, os porcos a engordarem sempre o mesmo e os secos polvos do Natal cada vez mais tesos e magros.

 

E o ti Aires lá seguia para a empa de pés nus e gretados enfiados nas botas velhas, e, a ti São de joelhos, lavava a roupa no riacho partindo previamente com as mãos o gelo da superfície da água; depois lavava a roupa, esfregava-a na pedra como se não tivesse chagas nas mãos. Num sol qualquer corava a roupa exposta no chão; puxava os bois à fonte, enchia os colchões de capas de milho, deitava semente ao lavrado e vinha para casa dar comida às galinhas e aos coelhos e com a tal constipação que a fazia chorar, cortava um pouco da barriga do porco que cozera na sopa do almoço, e acompanhava-a com batatas cozidas, evitando que fossem solteiras de acompanhamento. Para nós, lá vinha mais um suspiro.

 

Tudo em silêncio, ou quase.

 

E tens razão Bruno, nunca compreendemos porque chegada a quase noite, o ti Aires lhe batia, e lhe batia até com cordas. Depois bebia, dizendo que era para esquecer ou aquecer e deitava-se.

 

Nós e os suspiros de que falas. Nós que tanto gostávamos de passar o dia a brincar à volta daquela casa, e a dizer adeus à ti São, nós, olhávamos para os suspiros e esmigalhávamo-los nas mãos a cada chibatada do ti Aires na Ti São, e o que caia das nossa mãos era neve. Naquela casa houve sempre neve, houve sempre muito frio.

 

E a cebola no tacho também fazia chorar a ti São: e nós miúdos confundidos.

 

Bruno há sempre um envolvimento na reflexão a respeito de tudo e com a nossa atual idade tem de haver decantação. Alguns acontecimentos que referiste poderiam parecer-nos, nos dias de hoje, insignificantes, e, afinal surgem com um significado que no momento não pensámos ter sido tão violento por muito que esmigalhássemos os suspiros nas mãos. Vivemos naquela casa episódios lúdicos e presenciámos forças ensombradas, forças daquelas que impressionavam os olhos a chorar de tão brutas serem. Digo-te: é bom que te não queiras perdido daquele tempo. É bom que queiras que o criador tenha que optar.

 

É bom que saibas que tanto quanto me recordo, e tu te aproximas, naquela casa houve sempre neve a agudizar o frio: verão ou inverno os seres eram recrutados ao horizonte. E enfim, a indiferença, essa, em que os faziam jogar a própria vida…era, é…

 

Saudades te envio

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

MACHADO DE ASSIS

 

O AUTOR COMPLETO DOS LIMITES SEM LIMITE!

O SEU LIVRO “A CASA VELHA” OU A HIPOCRISIA DAS CLASSES BURGUESAS

 

Ao reler Casa Velha de Machado de Assis, livro publicado em 1944, depois da sua morte, encontro ainda mais clara a similitude de significado entre um drama de família e a realidade política/histórica que se vive em sociedade no cerco e pelas limitações desta. Surgem-nos os acontecimentos políticos drapeados pelo pensar das gentes que os reflectem, e se deitarmos mão ao pressentir neste livro de um esboço de Dom Casmurro, entãotodas as entrelinhas são questões políticas de relevo, disfarçadas de histórias românticas, mesclando-se ambas em confidências acutilantes de verdade.

 

Neste livro, a narrativa é feita por um padre que por razões de fazer pesquisa na biblioteca de uma casa muito antiga e fidalga, nela encontra dados inerentes ao imperador Pedro II, bem como a seus altos membros de governo, cuja vida privada, mesquinha e devassa, permite a Machado de Assis a crítica aguda aos costumes sociais, aos seus jogos de interesse, religiosos ou não, a feiras de vaidades descritas numa fusão de interpretações, pertença única de Machado de Assis em palavras plenas de verdadeira essência anímica. E neste conto uma narrativa também de amor.

 

Diz-se que surge neste livro a descrição da primeira relação entre irmãos que se apaixonam desconhecendo os seus laços de sangue, temática posteriormente muito utilizada na literatura.

 

Lalau, moça de olhos largos de pureza-criança, amava como se o amor fosse a puberdade do espírito mas, assumindo-se como mulher neste sentimento, sendo que fingia acreditar que a leitura de Deus, por ser a mais velha, seria a melhor, num tempo em que para ela, tudo nunca era a aproximação sequer de quase tudo.

 

As travessuras da bela Lalau eram tão desafiantes que era sua a vontade de ver um desastre por dentro a fim de conhecer bem essa realidade, não podendo descortinar o malabarismo que lhe era feito pela sociedade, para que um qualquer fardado lhe parecesse rei. Ainda assim o rasgo pueril de achar prazer em qualquer coisa fazia-a dizer ao padre que se ele não pudesse conversar com ela, lhe agradecia se a deixasse ficar ali, a olhar para as paredes da biblioteca onde este fazia a pesquisa de dados históricos e políticos, pois ela também estava bem daquele modo: as paredes sempre lhe tinham contado muitas coisas.

 

E estas confissões de Lalau fizeram o padre descobrir-se a si mesmo de um outro modo, sobretudo quando foi o ciúme do amor de Lalau por Félix que o esclareceu de um acontecer que por Deus!, enquanto homem nunca poderia ter sido realidade diferente da que o levou ao respeito divino.

 

Haveria sim que assumir o compromisso da consciência antiga de sentir Lalau como mais do que uma criatura, ela era a sociedade humana se por aquele abismo que lhe preparavam, a sua decisão fosse a de arriscar sem mais. Havia que o evitar. A imperatriz da Casa Velha, D. Antónia gostaria de ter sido imperatriz nalgum ponto mínimo da terra que fosse, e ainda que tivesse oferecido educação a Lalau, não queria, nem sequer permitia que o padre reverendíssimo questionasse as suas decisões em relação ao futuro da moça. As ideias certas da casa velha eram as de que por ali ninguém vivia no mundo da lua e todos se haveriam de fazer às proximidades régias nem que não fossem dignas sequer de teimarias.

 

No dia em que Lalau falou pelo silêncio depois de lhe ter sido desmentido o laço de sangue a Félix, a vida humana foi para ela capital mendiga de tudo.

 

A verdade? Que verdade? Ex-ministros, criadas, escravos, os egoísmos de letrados, a claridade de que uma anedota era sempre algo político, os coronéis e a vida derramada que abrangia todos os recantos para os controlar e justificar poder de mando, mesmo quando quem baralhava as cartas, pudesse ser também uma casa velha, seca, nos rituais das novenas diárias, dentro da qual, a capela deitava missa cantada ou rezada, consoante as visitas da casa fidalga. Seria a missa mais solene, seguramente, desde que o governo mandasse fuzilar todos os legais que se achassem. E o fuzilamento poderia ser o de um amor entre seres que, supostamente, o não poderiam sentir. Só há que inventar. Só há que confundir! E o poder abre caminho sem esforço.

 

Um dia, depois de passadas as grandes tormentas, vi de relance Lalau, diz o padre narrador que os olhos de Lalau eram uma edição do vento que não vai às bibliotecas: era uma edição à qual se fechou a janela. E o que venceu não foi o amor, mas o valor pessoal.

 

Na Casa Velha multiplicaram-se as visitas e no limar das arestas, abriam-se mais entradas, totalmente discriminatórias, e cada qual sabia por onde entrar e sair. As soluções acomodatícias ligadas às emergências dos interesses e dos valores das actividades comerciais e financeiras e seus agentes estavam no auge. Além das entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho avesso que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos. D. Antónia não tinha de o percorrer, nem de se encher de pó para chegar à reza. O seu local era uma reserva vitalícia junto ao altar com bênção mais forte do padre pois que a distancia dela, contava em atribuições.

 

O Cônego, homem por natureza, tinha o seu álibi, em nome de Deus e o seu meio para ser.

 

Afinal as poucas coisas que não eram velhas na Casa, além de Lalau, eram os livros de Voltaire e Rousseau e deles uma busca de independência num mundo que deixava pouca margem para isso. Enfim, a viagem dos comboios é muito diferente da que fazem os rios.

 

Um século antes de Casa Velha, foi dito que o homem nasce livre, mas encontra-se sempre aprisionado.

 

Teresa Bracinha Vieira

FAREWELL

 

Depois de reler estes teus versos, Drummond, recordou-me assim, porventura, o escrito numa teia.

 

Quando as noites de novembro são eternidades nas tuas mãos de julho, eu quero dizer-te que é mentira estarmos sós, que te cerco de constelações atentas ao nascimento do teu sorrir, sem qualquer vírgula rastejante que do chão te possa alcançar e empatar um sol só teu, no apogeu do teu coração que pecou no crime que não perpetraste. E claro, amor meu, que na inocência dos sofrimentos nos tornamos tão vulneráveis que só mesmo cumprindo os ritos de existir se amará as imperfeições tanto quanto as maravilhas, e com gratidão, a ambas, em ti me sinto dividida, qual campo de batalha sem lado de vitória, mas lá onde me sinto que estou, podes crer, que te acolherei sempre, e sofro e sou feliz e reparto-me em pedacinhos tão pequeninos que logo nos teus olhos acolhes, enfim, a minha transcendência que afinal nada mais é do que eu inteira e única, na prisão do ar que ambos respiramos. E chega o momento de sermos pássaro livre, bem livre e tão livre que só a notícia o preserva. Chegou então o momento de fugirmos, um para o outro, suplicantes, evaporados, do pensar e do sentir, e assim sermos uma outra essência, num anel de beijos que as nossas bocas repetem e nele se fecham a conversarem promessas sobre universais assuntos. Então, as tuas noites de novembro, nas tuas mãos de julho, abrem-se para mim numa fotoviagem interior que entendo descendente de um sofrimento não revolucionário, mas atento ao rumo do mar, rumo sem uma ruga castrada, rumo tão só, alcançado sem opressões familiares ou outras do mundo ou até de nós mesmos, robustas todas em fervor e suor, país dentro do mundo e nele a rua da nossa casa, lá mesmo onde aceitamos as horas sendo ou não tempo – não importa – que o amor, segredo químico, é um tigre que se enrosca também em afagos e sendo tigre, é fera, é luta, é volúpia, imaginação longa e longe da nossa realidade e por isso é doer fundo pois que partimos, ficando, e é presente, quando ficando não estamos perto, e ambos signo da selva negra de gozo, muito gozo, triste também – caso exista - por tudo o que não pôde ser chorado do que já não lembramos mais, ou ainda nos deleitamos numa alquimia, logo celebrando a viagem funda, qual projeto interrompido – às vezes - e tu e eu rechaçando a inutilidade do nascer, fazemos da lição dos olhos nosso olhar, nosso resgate de noite amante - natureza, afinal, imperecível alegria, e enfim nos amamos quites de uma lei do esquecimento. Nós os inicialmente destinados, nus e tão nus de tão nus enquanto aos ouvidos um do outro, sussurramos: ó minh’alma, for this very love always both, will come back after all!

 

Uma origem o confiar-se; uma origem, o lance: farewell!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A fragilidade da tolerância

 

Há pouco tempo escutava um empresário que insistia perante todos nós naquele almoço, na necessidade de acedermos a todas as culturas, nomeadamente na tolerância de as compreendermos e fazer nossas na parte em que as nossas e as demais se quisessem abraçar. Falava eloquentemente naquele encontro de amigos e conhecidos e defendeu mesmo a medida indispensável de introduzir nas nossas fábricas assalariados chineses, fazendo uma correta ponderação entre os salários deles na China e os que se praticam em Portugal, e que o valor que resultasse da ponderação seria bom para ambas as partes, já que nós tínhamos mão-de-obra mais barata e eles subiam na qualidade de vida pois aufeririam sempre muito acima do que podia ser a realidade deles na China. E voltava a referir a tolerância como a capacidade humana de entender esta escala tão vasta de intercâmbios que a todos favorecia.

 

Confesso que fui perdendo o apetite face àquele teatro de papel seguro na tolerância e fui-me deslocando para Dante refletindo no Purgatório, no Céu e no Inferno tudo cabendo nas estreitas ruas de Florença de onde nunca nada me sufocava e, no entanto, começava a sentir falta de ar com este congeminar da tolerância exposto convictamente pelo empresário que descobrira a fórmula um de auferir o máximo à custa de uma ideia de porte em espaço cerebral mínimo.

 

Assim, da minha parte, coloquei desde logo em questão esta tese de índole moral num contexto de tirar partido de quem humanamente e por lapso se refugia num outro humano que sem lapso o convida para o explorar.

 

Na verdade tudo isto é tão abrangente que até dá guarida à tolerância que fica inteiramente indiferente à fome ou a quem morre de frio no metropolitano de Londres, ou, o mesmo ao desemprego, ou, não fosse este um dos maiores sem abrigo da vida bem suportado pela tolerância, frágil artefacto usado aos domingos, honrando assim os dias santos de guarda.

 

Ou ainda a fragilidade da tolerância não pudesse permitir a cereja no topo de um bolo que desaba no pechisbeque de pretender fazer de coroa de um rei burlesco, como foi o caso deste que num almoço brindou ao realismo empresarial de um novo e tolerante estilo de interpretar.

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A RIBEIRA DA BALEIA tinha caminhos de condições muito precárias para lhe aceder. Tinha percursos estreitos com fortes subidas e descidas suspensas em fúrias de pedras que rolavam debaixo das ferraduras dos burros tão carregados que escorregavam e, ainda de vez em quando, lá levavam com um vergão para que se não temessem do que a memória já lhes devia ter retido de tantas idas e voltas à Ribeira da Baleia.

 

Por mim iria sempre à Ribeira da Baleia desde que a Ti Jaquina Pataca me convidasse a ir com ela a este local para mim, mágico. Também ia connosco o rebanho de ovelhas que nos seguiam os passos e que se confiavam a uma certa sonolência no descer das ravinas como se não olhar fosse atitude protectora ao não cair.

 

Chegadas à Ribeira hora e meia depois de sair da aldeia, as ovelhas corriam ao pasto, os burros eram descarregados e soltos, e lá se expunha a ribeira sempre envolta numa neblina de quem tenta fugir à luz expressa. A ti Jaquina começava a tratar da horta e a refrescá-la com a farta água da ribeira. A terra molhada deitava o cheiro que só a conjugação com o verão lhe era inigualável. Depois era a hora da sandes com chouriço. Sentávamo-nos as duas em pedras escolhidas à beira da água e como sempre a ti Joaquina perguntava-me

 

Então e hoje qual é a pergunta da menina?

 

A baleia foi atirada aqui pelo mar nas marés vivas?

 

Pois dizem que não. Ela veio vindo ao engano entrando na corrente em que a ribeira chega ao mar. A ribeira deve ter-se alargado naquela noite e o mar zás! empurrou-a para a livrar de por ali morrer encalhada. E ela veio vindo devagarinho, cansada e esvaída e aqui parou de vez junto à horta.

 

Que estranho como ela se perdeu assim terra dentro. A ti Jaquina viu-a?

 

Ah claro! era enorme, de boca aberta. Não se falava de outra coisa pelas terras. Todos diziam uma baleia deu à ribeira da ti Joaquina. E iam todos lá ver.

 

E espreitou-lhe a boca?

 

Ah claro! e o que eu vi…

 

Que viu?

 

Vi o princípio do seu mundo. Vi-lhe o coração.

 

O coração?

 

Sim menina. Quando se esteve entre vida e morte o coração tem certezas e vem dizê-las à boca de todos mesmo que se não ouça nada. Também acho que ela deitava um fumo que se confundia com a neblina e lá dentro dela era tudo negro, acho que do luto. Era uma baleia defunta e a podridão dela começava ali naquela água que fazia de cemitério.

 

Pois imagino, mas sem caixão que a baleia é bicho enorme. E diga-me novamente, e depois como foi?

 

Depois vim cá passados uns dias e nada havia na ribeira. Pus-me a pensar. Quem levou a baleia e como? se era tão grande e estava morta? Perguntei ali ao vizinho da horta e ele respondeu-me grosseiro que de nada sabia e continuou a cavar como se a pergunta fosse parva de tão tonta.

 

Não gosto de coisas segredosas das quais nada resta e ao mesmo tempo parecem mistérios mentirosos.

 

Sim, mas ainda há o coração.

 

Qual coração? O da baleia?

 

Sim. A menina não sabe, mas acordar não é de dentro, acordar é ter saída mesmo nem que seja para um fiapo de vida ou morte. Tenho esta coisa comigo e fui lá dentro da boca buscar o coração da baleia. Dei-lhe campa, é no lugar das alfaces e dos cheiros que se veem, ali mesmo ao fundo. Só eu sei que está lá o coração que se enganou no caminho. E as pessoas julgam que de cima dos telhados vêm tudo…

 

Ah já sei, como lhe salvou o coração ela deve ter voltado ao mar num forte impulso de corpo e aproveitando o redondo da forma, depois, no mar, os peixes comeram-na sem que soubessem que não comeram nunca o principal.

 

Pode ser assim ti Jaquina?

 

Pode menina.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A VIDA, O SEU TERMO, O SONHO, A NÃO ESPERANÇA: EIS A SUA MATÉRIA

 

A desproporção de forças infetantes que se reproduzem sucessivamente, a grande praga que dizima os seres, que carcome as rochas, os ares, as águas e vaza os lixos na vida, refugo letal onde se adormece um sono, assim a Absurdidade comunica os seus poderes termiteiros e mercantis, somatórios ávidos do ter.

 

A profundidade a que todos, de um modo ou de outro, permitimos que no mundo se venceria pela força do que constrange e obnubila, permitiu que os domínios interditos de quem mata a espessura da vida fosse contada, e mesmo exposta, sem que uma multidão em número e vontade excedesse a soma das forças de todos os que fizeram chegar o mundo ao nível do lixo como desígnio.

 

Todavia as silenciosas contas bancárias dos responsáveis pelo suposto não saber dos atos criminosos que provocaram e provocam, elevam os rendimentos ao limite superior do possível e reduzem ao mínimo qualquer custo de manutenção do esconder dos seus atos, agindo como inimputáveis pois a máquina construída os protegerá passo a passo.

 

A terra continua a ser devastada pela violência dos monstros que alcatroam mandos de morte com a finalidade de que, à superfície, o cenário tenha brilho e atraia aparências de vidas que não denunciam o simulacro do que lhes é dado viver já que no imediato nem o reconhecem como tal.

 

Na fotografia, este menino dorme e desconhece que também lhe simularam o céu sob o qual adormeceu.

 

Sonhará este menino com o abrir de uma caixa própria, uma caixa de algo que lhe é muito precioso e o embala até a encontrar vazia e do sonho acordará num sem número de pesadelos reais?

 

Desconheço as contabilidades que se fazem neste pseudo mundo que troca capital por lixo e no qual adormecem crianças em nojentos colchões que boiam nas lixeiras, lixeiras criadas pelos manipuladores dos fátuos fogos que obscurecem até o futuro das luzes das estrelas.

 

Promove-se a guerra de todos contra todos: assim Hobbes, assim o emaranhamento das corrupções, teia de submissões articuladas no plexo do lixo.

 

Teresa Bracinha Vieira