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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

PEDRO TAMEN (1934/2021)

 

“Os poetas não fazem mais do que arranhar a crosta do mundo para encontrar o que está por baixo”, disse.

Distinguias o vento na paisagem e davas-lhe uma cor.

Pedro, o poeta para quem a tradução literária era um vício.

Pedro, o amigo que não esquecerei.

Partilhámos frinchas de interpretação do mundo e também silêncios, nosso modo de nitidez.

Até sempre!

A tua escrita? um desejo do mar.

                                                        

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

PEDAÇOS II       
 

Tão sumida se via a memória quando se distanciava do café-mercearia que tinha os rebuçados multicolores em frascos de vidro, e vendia arroz e açúcar e massas, em pacotes que absorveriam, mais tarde, o óleo dos fritos na cozinha.

Na inocência, imaginava uma arca caprichosa com chocolates nalguns cantos: sentia-lhe o aroma, sentia-se bendito por um só dia.

Em rigor, desconhecia se a miséria da época que fazia acreditar o quanto dormir de barriga para baixo, ao comprimir o seu tamanho, comprimia a fome, era um tempo dos arredores da vida, ou, se era um centro que se demoraria até ao não pensar.

E assim, sem mais, viria a rendição.

Noutros dias, perguntava às rolas a razão de o amor ser aos poucochinhos, e da indiferença sobreviver a qualquer peçonha
enquanto a humanidade era coisa de cotação.

Não se perguntava com estas palavras, bastava a postura do corpo de pé, como a do lavrador ao ver perdido o seu trabalho, e só lhe surgiam perguntas. Quais?

Deus! eis a extrema resistência!?

E na primavera tudo regressaria igual e separado.

O cantar dos pedaços, por misericórdia, encarregavam-se de trazer

a penugem nova, as bestas, as comunhões, os vírus e as andorinhas.   

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


PEDAÇOS I


Parece-lhe que foi criança há já demasiado.

Também lhe parece que nunca foi criança.

Era-se de um tempo em que os valores se liam no olhar dos outros sobre nós.

O direito de fazer perguntas só pertencia a quem o soubesse e devia entender-se como um privilégio estarmos obrigados a todas as regras.

A máscara? o primeiro critério.

A lembrança que lhe ocorre das guerras familiares, não é muito diferente deste vírus que por aí anda a meter foice, até nas noites natalícias quando o ciclo do sofrer silencioso era oposto ao brilho do molho das rabanadas.

Também por entre as toalhas de linho cru, bordadas pelas avós, chegava assintomática, a realidade do crivo – gato ágil - das bainhas abertas na alma.

Os filmes de final de domingo pouco serenavam o medo daqueles que, em casa, ou fora dela, tinham o mando do porque sim. A esses, obedecia-se ante o mínimo no ar.

Era então o transístor encostado ao ouvido que dava a sensação de fôlego; de dispor do mundo junto às arestas; de tocar naqueles sonhos que nunca podem ser desunidos.

Só assim, quando as notícias dos que não tinham aguentado a força do novo vírus nos chegavam, apenas as cartas de Goethe nos explicavam que cada estádio não era um só estádio.

Mesmo sem metamorfoses, o real mudava.

No dia seguinte, no amanhã, logo ao princípio, seria tempo de praia, tempo daquela luz que embebeda porque a luz se embebe no mar.

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Anoto

como se em silêncio,

por agora

 

 

Aprendo a reconhecer anotando o que tento que seja um mapa de interpretação.


Assim também fala a minha voz neste silêncio com diferentes intensidades. Assim também começa, o era uma vez uma árvore da qual nasciam pássaros e ninguém se surpreendia à hora do parto.


Anoto porque é um dos meus modos de falar do que leio e confesso que tudo me fica disperso e ordenado em simultâneo se o faço.


Do modo de assim proceder, surge-me o antes das palavras, e quero crer que haverei também de chegar aos leitores futuros.


Quando anoto, também espreito o lugar anterior ao tempo escrito, e no branco, o desafio do que lhe sobrevém.


Anoto como se em silêncio, por agora já tivesse marcado a paisagem em todos os seus contrários, e logo respondo à minha própria voz, do como foi a experiencia da leitura, se encontrei ou se me despedi, se o que significa está dentro das múltiplas maneiras de quem sabe, o não sei nada, em redor do tudo e da elipse.


Anoto, assim, numa gritaria silenciosa e por agora, a contar pelos dedos, só peço a vida que me falta.


De passagem, em todos os dias quotidianos, a esperança e a promessa regeneram-se ciclicamente.


Cada ir, está sempre entre o poente e o futuro.


Anoto e junto as bordas.


Sudário. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


A sabedoria da quietude


Para lá da ansiedade do devir, para lá das falas dos profetas, para lá das contradições da condição humana, para lá das irremediáveis inquietudes, existe a foz de um rio no começo do mar.


Lá, os nossos sentires molham os pés, as mãos unem-se em jeito de rédea, o ritmo do que nos cerca absorve o verso, e este surge lábil e compromete-se com as aves.


Dali veem-se os olhos dos veados tão ágeis quanto os sonhos e a segunda pessoa do imperativo desafia-nos num tranquilo «Olhai».


Todos os símbolos do horizonte são Jerusalém.


Mallarmé, na pele daquela água, deixou um tecido bordado no qual se lê: «Donner un sens plus pur aux mots de la tribu».


E porque a morte também morre, estreamo-nos na sabedoria da quietude, conciliando, inovadoramente, os sinais dos tempos que nos couberam numa libertadora lição.

 

Teresa Bracinha Vieira

POEMA


Eu tenho um anjo de água que me desfaz os poemas-dor

 

Este meu anjo de água reescreve-me as lágrimas

A contra-coração

 

E quando sou medo logo vou ao ponto onde o sei

 

E na torrente que sempre me propõe

 

As cores balsâmicas

São as forças

Que me ateiam

 

Vindas do meu anjo de água-esmeralda

Meu anjo impalpável

 

No horizonte-tempo

Que me torna nítida

 

No exato momento em que o poema

Age

 

Ou amar não fosse

Desde tão antigamente

 

Disseste, olhando-me

 

 

Teresa Bracinha Vieira

VICTORIA CAMPS - CUIDADOS: UMA OBRIGAÇÃO DE TODOS (II)

 

“Debemos recuperar el valor del cuidado y construir entre todos una sociedad más humana y solidaria”


Se é certo que o ser humano sente necessidade de ter em conta a outra pessoa e o seu sofrimento, todavia, os hábitos sociais que temos vindo a aceitar nos últimos tempos foram criando raízes na ideia de que os cuidados são da responsabilidade das instituições e não do mundo emotivo de cada um, o que levou a um despreendimento da vontade de cuidar, mesmo que se não interponham razões de saúde da parte do cuidador, ou mesmo razões de emprego ou outras que nunca deveriam recusar a ternura do cuidar que, enfim, de muitos modos se pode expor.


Envelhecer e morrer em lares em vez de nos encontrarmos nos locais a que pertencemos uma vida, acontece sobretudo por termos permitido que os lares fossem os profissionais lugares para onde se devem dirigir os que perturbam a regularidade das vidas normais, tão normais que se esqueceram da luta por uma sociedade inclusiva dos mais idosos.


A desresponsabilização da comunidade face a esta situação perdeu a ética do cuidar já que esta passou a ser uma razão e nunca uma emoção.


Viver o sofrimento dos nossos próximos é entender a paz que lhes damos e a que receberemos a seu tempo.


A vulnerabilidade surge paralela ao perder da autonomia, e, se o nosso pensar, encarar com naturalidade as situações da vida que englobam a fragilidade e a vulnerabilidade, então, a interdependência que um dia surgirá poderá não ser tão dramática, antes uma consequência do entendimento do percorrer a vida, o que nos acontecerá e nos unirá.


Alerta-nos a catedrática em filosofia Victoria Camps, que se não recuperarmos o superior valor do cuidar e de sermos cuidados, também como uma virtude fundamental da vida, nem as instituições públicas alguma vez entenderão a base das instituições cuidadoras e o envolvimento das emoções de todos nós face a quem sofre, único modo de provocar o nascimento da empatia que reside no cuidado de viver o sofrimento dos demais.


Um dia será a nossa vez de ser cuidado e que esse dia seja já fruto da luta incansável por um novo contrato social.


Há que saber onde esteve o limite.

 

Teresa Bracinha Vieira

UMBERTO ECO E CARLO MARIA MARTINI (VI)

Em Que Crê Quem não crê? 

(Um livro acalorado e nós)

 


Existe em nós um estímulo suficientemente luz para nos dar coragem à escolha humana deliberada?


E esse estímulo-luz é a procura da paz que ansiamos a fim de nos perdoarmos por não termos inscrito em nós este desígnio?


Ou antes, ele é a busca de uma religiosidade substantiva, realidade que segura a condição do que é mortal?


Ou ainda e para que nos baste face à lucidez de nos desgostarmos de nós, o estimulo-luz é Deus e deuses, mistérios e milagrosos rezares que abraçam imensamente o coração de quem não crê e de quem crê, e no abraço, a razão da tolerância ao princípio do terreno-conflito comum a todos.


De jeito atrevido diríamos que toda a realidade envolve uma verdade que carece de estabilidade, seja ela o mal que nunca deixa de ser mal ou o bem da boa-fé.


Seja ela o nenhum fundamento da morte ou o entendê-la pela antecipação inegável que há no intuir.


Por aqui também passou o nosso refletir na leitura deste livro e tão pouco foi.


Não será, porventura, da responsabilidade da relativização do pensamento, a consequência dos caminhos múltiplos, nem a sua permanente tentação.


E o diálogo, sempre diálogo a que é intrínseca a ideia de medida.


Os homens identificam normas adequadas à qualidade de vida. É uma conceção moral, é uma linguagem que deve ter em conta as mudanças, é uma linguagem onde nunca caberão as mudanças inegociáveis, as prioritárias no sistema da prudência das hierarquias.


Afinal aquilo que se partilha é sempre o princípio da possibilidade.

 

 Teresa Bracinha Vieira

VICTORIA CAMPS - CUIDADOS: UMA OBRIGAÇÃO DE TODOS (I)

 

Para que haja um início a uma não enferma democracia, absoluto se torna que ela crie raízes a um novo pacto social e que este crie uma mudança de paradigma e nele a assunção de todos ao ato de cuidar.


Todos temos a obrigação moral de cuidar e de sermos cuidados.


A sociedade deve entender como um direito social aquele que dá acesso ao cuidar como dever ético e democrático.


A relevância ao ato de cuidar – equilíbrio entre razão e sentimento - é um colocar no seu sítio a justiça que lhe deve acudir.


Na nossa sociedade, são sobretudo as mulheres que cuidam, e essa exigência é-lhes implicitamente destinada no seio das próprias famílias e em todas as circunstâncias.


As primeiras a deixarem os empregos para se encarregarem dos filhos ou dos pais, ou de outros familiares que necessitam de apoio, são as mulheres, e, para elas, essa é uma obrigação a que naturalmente se devem prestar a cumprir e que, se assim o não entenderem, têm de conseguir suportar uma violenta e permanente crítica e mesmo um desprezo de todos, apesar de um dia, um direito à vida, a dada altura, lhes ter sido prometido e dentro dele um cuidar partilhado.


Todos sabemos que é uma responsabilidade de homens e mulheres, esta dos cuidados familiares, mas, a verdade, é que os cuidados não são tratados como direitos éticos, nem se pensa que todos temos direitos a ser cuidados. E o que nos aguarda?


Esta pandemia deixou aberta a porta que mostra, nus, muitos dos caules da solidão. As transformações de ordem social que têm tido lugar têm revelado um menu moral absolutamente primário para se compreender uma época.


A ausência de um contacto vital e das consequências a assumir por cada um, expôs, de um modo ou de outro, que muitas gerações são questões biológicas mais do que espirituais. A consciência da diferença e da existência de gerações não as fez conceber um cuidado no amor sem que pelo menos ele se inscreva no caderno dos créditos e dos débitos.


Também o aumento da esperança média de vida contém, em muitos olhares, a nesga cruel da linguagem dos olhos de quem está só, e, naturalmente descuidado, como se o tema do nosso tempo fosse o desamor, o alheamento, o desamparo, enfim.


E de novo numa vida presa por grampos ao que lhes resta viver, surgem as mulheres, e elas, no cuidar, são o todo e o tudo e quantas vezes a outra face.


Disse, Carol Gilligan:
«En un contexto patriarcal, el cuidado es una moral femenina; en un contexto democrático, el cuidado es una moral humana».

Teresa Bracinha Vieira

UMBERTO ECO E CARLO MARIA MARTINI (V)

Em Que Crê Quem não crê? 

(Um livro acalorado e nós)


É-nos muito grato dizer, antes de mais, que coragem e humildade são boa herança prévia à leitura deste livro.


Gostaríamos de ser capazes de exprimir, o quanto a nossa inquietação e a nossa espera, têm sempre perseguido uma comunhão com uma realidade sagrada sim, porque excedendo-nos, exatamente ao não renunciarmos a ela, à sua busca-testemunho.


Contudo, cremos que ter esta noção envolve o outro que na harmonia entra em cena do connosco comungar. O outro chega até nós numa respiração reveladora de quem é e do que somos.


E seremos nós capazes de compreender quem é que somos? Ou sim, somos capazes sim, se o outro nos olhar, e que nesse olhar exista amor em primeiro lugar, ou se existir a obrigação de nos submeter a algo terrível, também nos é bastante para enfim, nos entendermos connosco no descobrir quem somos.


O reconhecimento de que existimos, o reconhecimento do nosso papel é-nos fundamental, e assim o afirmamos na plena abrangência que envolve o amor aos outros.


Pensamos mesmo que a continuidade da vida e o sentido de um profundo dever, anima-nos até a deixar, até deixarmos que seja o vento, o portador crível, do que nos parece bom para aqueles que venham depois de nós.

 

Teresa Bracinha Vieira