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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Viver na vulgaridade é banalizar-se como utensílio da sua rotina

 

A tentativa de ocultação do vazio e da própria morte cria um espaço de sombra no qual desejar é ser incapaz de desejo.

 

Li hoje o texto que escreveu para o DN e transcrito para o nosso blogue, de Anselmo Borges e desde já muito agradeço a Sua reflexão.

 

Curiosamente vou levando até um deserto uma especial estrela que me fala da morte desde há muito, e, que aos poucos, pela literatura e pela vida, me conduz ao discorrer sobre a razão do fundo turvo, puro ponto de negatividade, no qual, nos dias de hoje, o medo foge do medo, abraça a ignorância e uma hipotética arte de argumentação a respeito é equivalente a zero.

 

E não é de bom-tom como se afirma no texto que referi, falar da morte e do seu tabu, quando na nossa sociedade nada se sabe como se trata, o como se morre, e o tabu da morte impõe-se, já que esta também só bate à porta dos outros. Afinal o mundo que vale a pena é o do capital circulante dividido outrora por um tratado que demarcou os limites de um universo com desprezo pelos seres, separando-os, confiscando-os e desamando-se uns aos outros para que depois de torturados, após as confissões, possam perder o valor e serem eliminados. Aqui a morte?

 

Não! Aqui o seu rival.

 

Tudo se precipita como numa mise-en-âbime e surge uma parcela que simula o Todo quando a morte é um mistério, por óbvio, desconhecida dos vivos, e a fraude do desprezo por ela, inibe as condições da ideia como na caverna platónica. E lá vou com a minha especial estrela ao tal deserto no qual ainda me resta a pulsação do meu sentir pela dor dos outros que até hoje nenhuma des-razão venceu.

 

Contudo, aqui e além e muitas vezes sou espectadora dorida do irreversível e do insuperável quando a morte me alerta que me não sei despegar da minha consciência, e num cenário tão extremo volto a olhar para o tempo por viver e nele

 

«Um anão ressuscitado não é menos espantoso que um gigante, e assemelha-se mais a um gigante ressuscitado do que se lhe assemelha um gigante morto.»

                          Malraux

Enfim a morte de que falamos converge para uma disciplina de engenharia genética ou robótica para que lhe seja conferida a tarefa uniformizadora mais definitiva e assim a insensibilidade dos sentires realiza completamente o titanismo. E sim, a morte faz a triagem entre o que vale ou não a pena: a energia da minha estrela já mo fez saber.

«Para onde quer que nos voltemos, o nosso espírito não encontra senão o vazio, quando o espaço está repleto.»

                          Artaud

O abismo seduz quem se aproxima de uma partida definitiva que ainda pode ser impedida, e, se o faz, ou, se o consegue será sempre pelo poder da mercadoria ávida de enfrentar e derrubar a teia imensa do entendimento do amor pelos homens entre si; e, cada vez mais este abismo forma um novelo cego que aperta esfolando a fundo os braços da minha estrela: aquela, única, com a qual vou ao deserto desafiar a decifração da morte, e ela surpreende, se supera e exímia de tanta inocência me recorda

«(…) Na paz, os filhos enterram os pais; na guerra, os pais enterram os filhos.»

         Heródoto

         (fala Crespo)

E no confronto com a morte quando ela não é tabu, bem creio que se insinua um saber de liberdade no instante trágico e efémero dos homens, de saborearem o amor vivido sem o amparo da eternidade.

 

Afinal todos somos sem sandálias.

 

Todos somos a nossa impossibilidade ainda que viver na vulgaridade é banalizar-se como utensílio da rotina, esta é minha convicção.

 

Acresce que bem creio na clara impiedade de um mausoléu que tanto ajuda a petrificar uma vida quando qualquer coisa de dramático no peito aconteceu.

 

«Tu que no fundo dos tempos,

No Nada de uma noite,

na Não-noite, revi,

tu(…)»

       

Paul Celan

 

Teresa Bracinha Vieira

A NÃO ANTIQUÍSSIMA VIDA

 

Eis a morte sempre inclusa em sórdidos locais onde e aonde
permitimos  que se não nidifique o viver 

No Iémen ou noutro armazém faminto de aterradores sofreres só a finitude arrastada para lá e para cá nas nossas vidas
indica quanto o inesgotável direito à vida ficou por viver

sem que cada um de nós assumisse a data de início com a qual se comprometeu à promessa da carta que

com os nossos cumprimentos e preocupações para trás e para a frente ficou sem resposta ou a falta de vida no destino não fosse muda

sendo certo que em breve nada teremos a dizer nem sequer haverá nada para decifrar entre linhas no correio sem remetente de penas perdidas

e tanto direito de posse e de poder têm até os deuses que nas suas mãos deixamos a resposta a este esgar

mera lembrança de olhar

 

após o que

como se nada acontecido ou as guerras nem fossem empresas acesas

ou nós nem predadores da pobreza

não estivéssemos todos ateados por negligência

quando o corpo do vizinho é pasto de várias chamas abertas

onde não mora o dinheiro

 

já que este se aquartelou no quê e justificou o porquê

 

ó amor nosso de cada dia

que hora tardia em que se revela a ruína dos seres

como um regresso essencial a nada se salvar

hoje

ou sempre

 

traço a traço a juros de um demónio

que sempre fará colapsar antes da meta

a quem

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A ilusão da sabedoria

 

De fato a felicidade não é uma ideia nova, o que é novo é associar-se a conquista da felicidade às facilidades da vida, diz-me o Rui Vassalo ao entrarmos para o Jardim da Estrela, local de boas conversas do nosso grupo de então.

 

E sim, digo-lhe, concordo contigo, mas tudo me parecem caminhos indefinidos para um paraíso ali mesmo ao lado de cada um, e como já ninguém aceita o seu destino, há que aligeirar o que no mundo pode ser transformado, sem que qualquer preocupação de aperfeiçoamento pessoal colha hipóteses de embelezar o viver do eu na terra de todos. As metamorfoses das quais me dou conta são puramente do foro material. Julgo que se pensa dever existir um mínimo confortável a que todos tenham acesso, independentemente da insalubridade em que cada qual venha a viver esse mínimo: interessa sim, que dê pelo nome de mínimo confortável. Não sentes assim?

 

Pois. Entendo-te. O conforto são os muitos eletrodomésticos, as roupas de marca, a renovação periódica da imagem, a simplificação da vida e do descanso passivo, afinal o encontro de braços abertos com a felicidade individualista de massa. A ausência de conhecimento por parte do utilizador disto tudo, é óbvio, já que a evasão confortável é a que se instala nos prazeres e juízos fáceis. Nem imaginas Rui, o quanto sinto a violência disto tudo, vomitada em palavras mesquinhas e pensares rotos de telenovelas, equipamento-base para se avaliar comportamentos e mundo. Eu até acho que o formato dos prédios dos dias de hoje são bem o espelho de quem neles habita. A orientação dita estética conforma-se com a não proteção da paisagem interior e exterior de cada qual. Tudo, tudo está ligado. Não existirem hábitos de leitura, mas sim o carregar de tecla para que os motores de busca respondam de imediato onde se localiza hoje o novo território da felicidade.

 

Olha Rui, o teu irmão disse-me com um sorriso esclarecedor que a qualidade de vida dos utentes dos casamentos de hoje, assentam naquilo a que as mulheres querem chamar de amizade, e que permite que o casamento resulte porque são amigos e os divórcios são para o desamor, e, assim, safam-se estas mulheres pois sendo as maiores amigas dos seus maridos, mesmo que haja alguma separação elas mandam dentro da futura relação deles, e, se existir uma traição, não faz mal pois são apenas amigos e tudo se recompõe no somos muito felizes mesmo não sendo. E isto é felicidade.

 

Mas qual a razão de serem as mulheres a apregoar essa amizade?

 

Ora porque querem permanecer no mando do individuo pelo seu espaço e pelo seu sentir. Não sabias?

 

Bom! sei que não estou a pensar casar contigo e és a minha melhor amiga. Sei que no amor também há amizade, mas não quero ouvir falar dela nos votos nupciais, entendes?

 

Sim entendo. Tudo isto que está a acontecer não é novidade; são meros trabalhos de reabilitação do habitat afetivo. Repete-se o que não tem alicerce; receia-se que o amor seja pouco, seja escasso, termine mesmo, e, depois não sabem o que fazer, enquanto, a amizade é outra “tranquilidade”, mesmo que nos estejamos a referir à amizade nos votos matrimoniais. Assim não se arrisca o amor. Arrisca-se a cosmética… e não se entende depois o recurso aos médicos e a intolerância da doença…ainda que a maior parte das patologias são do foro dos piercings intelectuais. Enfim, envelhecer em bom estado faz parte da felicidade adquirida pelas facilidades da vida que se desejam viver. A própria inflação orgíaca do sexo agressivo e banalizado, consumível a toda a hora, o culto do obsceno e a justificação de que todos podem fazer o que querem, dependendo do seu registo, não os questiona. Ora, assim sendo, o aceder aos sites da pedofilia faz parte do mundo que se planteia com maior publicidade mesmo que saibam que a pornografia já em 1983 excedia as receitas geradas pelo cinema ou que agora a cannabis é tendência.

 

Vivemos afinal o tempo da festa dita decente?

 

Sim Rui vivemos o tempo da festa pálida do Homo festivus, tão pálida, tão light que os seus espectadores não resistem à sua própria hegemonia, à sua ambiência fun: só os decibéis da maré humana contam. Regressamos ao culto do instante exibindo-se a felicidade hedonista e narcísica numa estranha obsessão pela performance.

 

Será tudo isto apenas uma parte da ilusão da sabedoria? Digo-te Rui, às vezes penso que já cá não existimos.

 

Teresa Bracinha Vieira

PESCADORES DE ÍRIS

 

Pescávamos com búzios à beira do mar

Acedendo à festa dos mistérios das ilhas

Seguros de que aquele animal tutelar

Viria a nós ressurgir e libertar

 

À noite recolhíamos o cabo

Que nos segurava o espirito

E escutávamos o regresso sem dano

De uma visita às origens

 

E os búzios espias

Contavam dos espelhos

Superfícies polidas onde as sereias

Se comparavam na ideia de si

 

Com a que acreditavam que delas tivessem

E logo vaidoso

Cnossos – palácio cretense

Expunha-se ao nosso olhar de dentro e de fora

 

Abrindo as portas do seu labirinto

Expondo saídas, vocalizando tensões

 

E nós

Pescadores

 

Que nenhum ângulo queríamos perder

Acasalávamos ondulando no céu

Como se o desejo nos subtraísse ao peso

Prisioneiros de quem assim se ofereceu

 

Mas era demais 

 

A grande borboleta hipnótica do escutar

- semi-deusa grega que o era de sempre

Saciou-se de nós pescadores

 

Que julgávamos saber pensar os limites

Nimbados do impensável

Nós que só estávamos na história

De corpo e arco a ceder

 

Então libertamos os búzios

E ao largá-los aflorámos seu feitiço

Enquanto a vida breve se eternizava

Ao abrigo do tempo

Ao lado das coisas 

 

E ainda assim

Projeto 

 

Delicado e difícil

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


    Hopper

 

À Porta do Mar

 

O sótão da linda casa de praia era todo forrado a pinho: tetos, paredes e chãos, portas, postigos e rebordos de claraboias. As camas tinham colchas de chita, as fronhas das almofadas de enfeite e os cortinados que tapavam a área das roupas, eram também de chita. Nas paredes fotografias recortadas das revistas mostravam praias exóticas de palmeiras convidativas e, aos cantos dos quartos, dependuradas junto ao teto esconso, as colunas de som do gira-discos faziam presença. Estas colunas de som não eram mais do que as camas das bonecas com o fundo forrado a chita e exposto como colunas de som, ou ainda alguns legos, montados em retângulo, forrados igualmente a chita, e que cumpriam a mesma função. Ali se viviam parte das férias em reuniões com amigos e escutando-se a Françoise Hardy – sobretudo a canção Mon Amie la Rose, Adamo, ou ainda a canção Rain and Tears que nos levava à lágrima ao canto do olho. Contudo, o silêncio total fazia-se entre nós com o Don´t Let Me Down dos Beatles. Enfim, a era da modernidade não tinha nascido. O mesmo é dizer que a civilização do desejo também não se tinha concluído, ao menos ali dentro de nós.

 

Não recordo que houvesse alguma multiplicação de necessidades o que quereria dizer que o consumo em nós não tinha liderança. A nossa relação com as coisas e com os outros estava estabelecida sem que fosse desassossegada, pelo menos entre amigos, e, não obstante a televisão existir, estávamos sempre melhor no nosso universo mental de afetos, exprimindo-nos em diálogos de amizade, de cumplicidade de namoricos que nos expunham deliciosos mistérios, do que em frente a um ecrã de televisão que apenas aqui e ali, nos proporcionava um impacto de momento, como era o caso da serie Bonanza.

 

Éramos todos muito novos e no entanto surgia e implantava-se uma realidade que iria colocar fim à boa velha sociedade de consumo em que vivíamos. O creme Nivea, sem o notarmos, já era. A difusão de produtos deu lugar em todos nós, a uma estranha reatividade provocada pelo marketing, enquanto forma de nos comunicar a conquista de uma liberdade de muitos e diferentes sótãos, em que se decretava ser a chita, um pano de baixo valor, e a fidelização do nosso bem-estar, devia sentar-se agora à porta da piscina e não à porta do mar. 

 

O produto, o mercado e o consumidor era a nova predominância em trio, sem que chegasse até nós a razão do hiperconsumidor ser um ator a responsabilizar com urgência. Ainda tínhamos pudor de pedir aos nossos pais mais do que nos ofereciam, é certo, todavia o imperativo de olhar para o que não tínhamos, ia-se impondo, ou não fossemos frágeis por excesso, a fim de podermos resistir ao mero empréstimo gratuito de provarmos uma felicidade potencialmente mais recheada do que aquela que sempre vivêramos nos sótãos das nossas alegrias e segredos.

 

Enquanto vai triunfando um capitalismo globalizado, não nos damos conta que passámos a segundo ou terceiro plano de tudo o que é vida. Nascem os turboconsumidores subjugados pelo estatuto social, ausentes da cultura da coluna de som feita com a cama das bonecas. As novas experiências emocionais são infiéis ao próprio tempo que duram, e no seu universo não cabe escutar com emoção Don´t Let Me Down dos Beatles. Tudo é dessincronizado, hiperindividualista, onde moldar o corpo é reorganizar a vida, e, pouco a pouco, este novo espírito insere-se na nossa relação com a família, com a política, com a religião, com a cultura e mesmo com a dimensão do tempo.

 

Quem sabe que as pechinchas do low- cost, ou os pseudo leques de opções que se diz oferecer na atual sociedade, só produzem desequilíbrios de alma, embora os seus seguidores incondicionais encontrem nas farmácias de quem imitam, os comprimidos da felicidade alheia e a tenham como sua. E tudo vale mesmo que as verdades passem a verdadinhas.

 

Na realidade, as festas do nada, as noivas do stress, as ansiedades tão frequentes, o dinheiro cada vez mais preocupação obsessiva, as relações sexuais problemáticas, a gravidez a fazer-se uma batalha para se conquistar, a procura cega da diversão a todo o custo, enfim, como escrevia Aragon «Quem fala de felicidade tem muitas vezes os olhos tristes» e, é, esta frase, cada vez mais o nosso espetáculo ao vivo.

 

E diz-me o aconchego do sótão da casa de praia que nem todo o balanço desta sociedade é apenas negativo como afirmam os seus habituais detratores. Diz-me este sótão que não esqueço, que o individuo continua a viver para algo mais do que o que lhes é passageiro, e ainda assim, este sótão, também deixa claro que não há que fazer o elogio a um regime que gera males infinitos, insucessos educativos, injustiças sociais, pobrezas inauditas, velhices abandonadas e tudo o que carece afinal de um reinventar de vida, e à beira-mar, no mínimo com esse horizonte se deve questionar

virá a humanidade a ser, então, mais feliz?, virá a ouvir uma outra Françoise Hardy – Mon Amie la Rose?

 

 

Teresa Bracinha Vieira

LIBERDADE

 

E não é um sonho

Ter-te assim

Meu peixe de ouro

A indicar-me caminhos

Por um cordão umbilical

 

Vem, vem mais perto

E fala comigo

Da liberdade que te leva

Ao teu ninho seguro

 

E possa eu celebrar um mundo

Aquele pelo qual espero

Distinto, matinal, envolto

 

No meu peito peregrino

Com força de luta

Sem medo e sem dúvida

 

De que o jamais

É

 

Afinal uma alegria

União de tetos

Onde

Só tu, só tu, minha obra fantástica

 

Minha companhia

 

Que por ti

Recordarei o dia

Que mal nascia

Quando te perguntei

 

E antes já te vi?

E eu estava aqui?

Há passado e há futuro?

Perdeu-se algo durante a noite?

 

E não é um sonho meu peixe de oiro

Esta passagem na minha vida

Calvário de entendimentos

A história e os atores?

 

E tu?

 

Sempre que a semente rompe a terra

E o glaciar chora

Derretes

 

Pois que aqui nos vês os mesmos

Entre o ser e o nada

 

E ainda assim

 

A vigilância. 

 

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Karl Popper apontou uma certa televisão como sendo um verdadeiro perigo para a democracia. Refletia ele sobre o embate da televisão na educação das crianças, não descurando que o principal esforço delas residia precisamente na adaptação ao que as envolvia, e, a educação tinha passado a estar também e demasiadamente nas mãos de uma televisão-comandante, com um papel tão forte neste processo educacional que, difícil se tornara, ir contra ela sem se ir contra o que as crianças já tinham absorvido com segurança e as fazia sentir tranquilas. Restava por isso controlar a própria televisão. Sugeria Popper que os profissionais da televisão deveriam ter eles próprios uma educação que visasse acima de tudo entender o poder que futuramente deteriam, e o grau de influência no desenvolvimento de um país que, essa responsabilidade apontava, como nenhuma outra, e, pela qual haveria que responder a bem do melhor da nossa civilização. Aliás, muito se falou a este propósito na exposição da violência pelos ecrãs das televisões, como se fosse o modo único de expor o mal e de assim o mesmo não ser repetido (há quem justifique a atitude deste modo…): isto quando já se provava a relação entre o aumento da criminalidade e as imagens televisivas.

 

Em casa de uma maioria, passou a ser normal, jantar ou almoçar em frente de uma televisão que expõe feridas horrendas nos corpos mutilados pela guerras, corpos de mortos espalhados sem direito ao respeito de não serem mostrados, crianças gritando apavoradas e de olhos carregados de moscas que preveem a morte pela fome e pela sede não abrandada pelos seios secos das mães, enquanto os telespectadores, pais e filhos, vão comendo ao seu ritmo; quando não, até comentando que determinada enfermeira naquele dia x em que foram ao hospital era absolutamente uma mulher cruel. Comer enquanto se veem matanças ferozes não é o princípio de uma realidade hedionda, é já o fim na sua normal aceitação. Curiosamente são essas mesmas pessoas e são essas mesmas crianças que um dia também gritarão “assassino” quando algum prisioneiro ou prisioneira entra para um carro celular a fim de ser transportado ao tribunal onde será julgado por algum crime.

 

As inúmeras possibilidades de escolha de canais ou programas televisivos recai na similitude de conteúdos, oferecidos por bens públicos que utilizam as ondas hertzianas como sua exclusiva pertença ou esfera de Hertz em plataforma apropriada abusivamente desde que se vise um qualquer objetivo. Acreditamos sinceramente que as tensões populistas triunfam, em muito induzidas pelos media, mas também acreditamos que se olharmos a forma como se faz política hoje, através desses mesmos media, não será difícil de concluir o quanto mal é tratada a democracia, defendendo-se sozinha como se a nossa contribuição diária não fosse a sua constante roupa de domingo preparada por todos nós nos inícios de semana. A limitação dos freios do poder e a atividade dos contrapesos da democracia são faróis à liberdade de imprensa que poderá cair do pedestal em que a si mesma se colocou, quantas vezes, levianamente num outrora de tornar a democracia como um circo mediático até a bem de um qualquer comércio. Sabemos que determinar a verdade do jornalismo não é fácil, mas por entre várias visões, até a qualidade das prioridades pode ser um diferenciado padrão sem que signifique notícias iguais ou idênticas.

 

Certo é que “ A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância” com ausência de crítica para ambas, acrescentamos: veja- se o livro “Televisão: um perigo para a democracia-: de Karl Popper; Sir John Condry; Giancarlo Bosetti; Jean Baudouin; Maria Carvalho - chancela da Gradiva - ou a sua noção claríssima sobre o paradoxo da tolerância.

 

Temos para nós que é desejável que exista espaço para que a própria condenação extrajudicial seja repudiada da notícia como um excesso que mina a verdade. Acreditamos que não são as leis que devem proibir ou estimular virtudes positivadas, antes todos estes poderes dos media devem fundear ancoras que provem melhoramento pessoal e coletivo; devem elas escrutinar virtudes baseadas em princípios num convite à cooperação de todos a um jornalismo enfim capaz de gerar cidadania, capaz de diminuir a opacidade do que se transmite e da sua razão última, isto como primeiro passo à sã comunicação das pessoas entre si.

 

A Internet cria uma ilusão de transparência e tem gerado mais apatia ao tornar-se a voz de tudo o que é novo e sem constrangimentos indispensáveis de objecto de freios e de contrapesos.

 

Em rigor voltando à televisão e sua influência, cremos que muito passa por um sentimento real de humildade dos media e que alcançar a verdade não quer dizer deixar de a procurar. Acreditamos que a humildade de quem quer ter consciência da reflexão sobre a própria inteligência de descortinar a arvore-núcleo da floresta é aventura a defender.

 

 

Também ao lermos este outro livro de Popper sentimos que nos referimos ao mesmo fenómeno que tratamos acima já que se trata de um abeirar a um berço sem idade que faz parte integrante da cultura dos jornalistas profissionais e independentes, verdadeiros centros de poder de contrapesos nas modernas democracias.

 

O mundo em que vivemos é o reino da opinião, e a plena certeza das coisas somente os deuses possuem”

 

Uma veemente luz sobre tudo o que escrevemos anteriormente, acerca do que Popper nos deixa no pensar, e sobretudo ao lermos este livro, ficou-nos claro o quanto não podemos ter medo de nos perdermos por muito que os pontos de interrogação ou exclamação se sobreponham seja qual for a profissão.

 

Tales de Mileto um dos Sete Sábios da Grécia para quem a água é a origem de todas as coisas, trazido à existência por toda a atividade do seu intelecto, ou, Zenão de Eleia igualmente pré-socrático - discípulo de Parménides- que defendia o quanto refutar diretamente as teses era o melhor caminho para expor o seu trágico absurdo. E o elogio de Popper a Xenófanes ou não considerasse a ciência um otimismo em relação à incessante busca do conhecimento por aproximação à verdade. E entender este mundo acordando do torpor agressivo dos media dos nossos dias e libertarem-se eles enfim da tensão atenta de sempre comandar, comandando tão só e tanto! a não libertação dos que os escutam e veem como quem aprende e assim se atualiza, este despertar dos media seria a possibilidade de ver o voar debaixo das grandes aves, seria a fórmula e o filtro.

 

É tempo, é tempo de reparar o funesto esquecimento de que somos mundo e nele, humanos, ainda que muito nus e muito indefesos. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CONDIÇÃO

 

Também amor

 

São folhas que se soltam das saias

Acesas e no meio de muitas memórias

Palavras completas como oceanos

 

Também amor

 

É o que atravessa o amor

É o que existe ao cimo

É o leme amor dentro

 

Também amor

 

É uma vida de cegueira

Uma alegria furibunda

Pureza de mundo só

 

Também amor

 

É o que se desdobra da alma apertada

Pela dor da seta fragmentada

Coração uno de uma dor inexplicável

 

Também amor

 

É limite recriado

Truculento principiante

De canto contra o muro humano

 

Também amor

 

É uma selvajaria celeste

É ator, verdade e cenário

Janela, bocado de estrela

Divagação de maçã

Holofote de grandeza

Casa louca, ninho verde

Magnólia essência de oficina

Afinal poema

 

Condição

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

As sociedades grisalhas: o idadismo

 

Questionar o contexto demográfico que descreve o mundo atual, em particular definindo o envelhecimento da população é importante porque em grande parte explica o fenómeno das atitudes negativas em relação às pessoas mais velhas. Preconceitos e discriminação ferem as pessoas idosas atirando-as, nomeadamente, para o grupo dos sem grandes ou nenhumas capacidades, sendo que o “idadismo” não é compatível com a mudança social de um país como Portugal que tanto necessita de ver um futuro bem diferente.

 

Li que em 1969 o psicólogo americano Robert Butler procurava explicar o termo “idadismo” (ageism em inglês) quando procurava um esclarecimento às reações negativas de uma comunidade face à construção em determinada área das redondezas da mesma, de casas para pessoas idosas. Conclui Butler que não constituindo estas pessoas idosas qualquer motivo de provocação de medo ou de afrontas, somente a idade levantava questões à comunidade pois diminuía o valor imobiliário na zona e mesmo o charme da vizinhança.

 

Em rigor a Suécia e o Reino Unido têm feito um esforço no que se refere às práticas negativas contra alguém, baseadas na sua idade. O idadismo – envolve preconceitos e sentimentos que se têm em relação a um qualquer grupo etário- não descura as pessoas idosas e talvez por essa razão se chamarmos gerontismo, estejamos mais próximos da senilidade de espírito que se quer apontar, ainda que nem sempre presente na realidade, e, por essa razão, para a sua ausência, queremos alertar.

 

Tende-se a criar grupos de idosos com traços negativos baseados na incapacidade, na doença, no sentimento de desdém, e, até na piedade que empolga sentires desditosos face ao aspeto espelhado pelo enrugamento de pele ou pela curvatura de dorso, entre outros sinais de velhice como o longo olhar inquiridor e mesmo zangado de muitos idosos, que tanto indicam a pergunta da razão da injustiça que suportam sob o nosso consentimento. Existe uma ideia do que é feio na velhice e que conduz ao distanciamento, ao abuso e aos maus tratos, não necessariamente por via de agressões físicas, mas pelo abandono do idoso, reduzido ao mimo hipócrita de um comportamento cultural da visita aos lares, onde se depositam na maioria das vezes, espelhando sempre que um idoso tem local certo, possa o jovem familiar ter ou não disponibilidades de lhe retribuir em conforto tudo o que ele, uma vida inteira lhe proporcionou.

 

A discriminação em relação à idade do idoso é em Portugal um núcleo duro a vencer. Será de perguntar a todos os idosos se já foram maltratados devido à sua idade? se, já lhes foi questionado, quando não, subtilmente insinuado que assim sofrer é o normal face à idade? Creio que por medo de abandono total ou agravamento dos receios em relação a quem deles toma conta quando estão à mercê de desumanidades, poucos são os que diriam a verdade. Pois que aguardem a morte serenos, pois que assim cumprem o dever fundamental de entenderem os constrangimentos que impõem a quem deles por estes modos assumem a responsabilidade de os tratarem.

 

Não se pretende promover a incapacidade ou a dependência com bem-intencionados atos. Não se pretende que se não viva por ter um idoso em casa, mas que se compreenda o delinear de políticas adequadas que combatam a atitude de uma condenação à espera da morte e mergulhada em desamor: eis o que aguarda numa desilusão estilhaçada a nossa sociedade grisalha, aquela que poucos anos antes ainda aguardava que, esperança de vida, afinal, levasse a uma pertença de estatuto a respeitar.

 

A Europa é a região mais envelhecida do mundo. A redução do crescimento demográfico associado ao aumento de esperança de vida com profundos impactos económicos e também sociais, e não se descuidando imigrações e migrações, não deixa de nos impressionar, e, de acordo com o INE em 2007nos próximos 25 anos o número de pessoas com mais de 65 anos poderá duplicar o número de jovens.

 

Recordo que em 2006 a União Europeia iniciou uma discussão sobre os desafios a as oportunidades trazidas pela sociedade grisalha, mesmo no âmbito do trabalho e da interação dos saberes. Teve-se em conta também a proteção social e as finanças públicas. A ideia de que a dispensa dos trabalhadores mais velhos tem de ter lugar para que os mais novos ocupem posto, é só por si tao desprovida, que, a economia chamou a este pensamento, a falácia do pulmão, comparando com o ar que neles entra, saindo consequentemente o que lá estava, e assim de jeito reducionista, se expulsam as hipóteses das pessoas mais velhas serem portadoras transmissíveis de criação de riqueza, não obstante o ter presente os processos de envelhecimento e a diminuição de capacidades funcionais do organismo.

 

A esta temática voltarei, ou, na fila de uma farmácia, não tivesse escutado uma senhora de 70 anos, dirigindo-se à farmacêutica

 

Sabe a sensação que tenho com esta minha idade? É que sou tratada como se critica que os negros o são só por serem negros. Ninguém faz esforço para me entender, disparam a arma do julgamento só de me olharem os traços da idade. Isto não é uma sociedade inclusiva. Envelhecer assusta mais do que ter enfrentado a vida 70 anos. Poucos são os que atuam de modo diferente em termos individuais sequer, e, nem se dão conta de que muitos dos paternalismos magoam fundo com o cobertor de fibra que envolvem. Faz feridas entende? A interpretação de um idoso parece que é tão necessária como compreender diversas etnias.

 

É uma ideologia, pensei para mim. É também uma cultura que não é explicada às crianças garantindo uma comunicação normal entre todas as idades, e, que ameaçar é crime. Ameaçar com afastamentos, formas de abandono e desamor é crime, e, no futuro, todos nós assim acabamos a ser o seu alvo preferencial como garantia completa do termo da história. 

 

O «écran-circo» distrai-se nas aparências sem essência. A sociedade grisalha entrou no mundo pela memória das máquinas, pelas barbáries simuladas de afetos. O horizonte do verbo foi-se desfocando com a passagem dos anos: resta perecer sob a dignidade possível.

 

As pessoas idosas têm uma ideia clara da desvalorização de que são alvo na sociedade em geral. As manifestações idadistas quanto muito toleram coexistências de saber, mas raramente intuem o quanto esse conhecimento é diálogo de aprendizagem. Ainda estão na fase da arrogância e do tudo dominarem sob muitos títulos, sendo que para esses também o símbolo de alguém curvado com uma bengala é rótulo de idoso extensível a um perfil codificado.

 

Bem basta que o corpo vivido se alterne em contrações e dilatações a nós estranhas: o próprio espírito olha-o com um despropósito entorpecido.

 

Paira sobre todos nós, envelhecer, com o perigo de muito, muito envelhecer, tanto que o destempo pode chegar com o estrangeiro que nos oferece um dormir lá onde e aonde se escondem as mensagens da nossa sedução, e, se inspira o cheiro das tílias que se entrançam para partir.

 

Digo: antes desse momento em serenidade desejado por todos, eis-nos ainda a tempo.

 

Que os jovens não cumpram o trabalho de termiteiras: esse é o maior amor que lhes podemos desejar, o único capaz de não lhes fazer sentir o seu futuro, precocemente amedrontado pela velhice!

 

Teresa Bracinha Vieira

LUÍS MIGUEL NAVA

 

O Círculo de Poesia da Moraes Editores publica em 1979 o livro de poesia PELÍCULAS de Luís Miguel Nava prémio de revelação de poesia da Secretaria de Estado da Cultura.

 

Recordo a referência expressa a este livro em diálogo com António Alçada Baptista. Não nos restava qualquer dúvida sobre a inquestionável qualidade e originalidade da obra de poética de Luís Nava numa incessante ideia do conhecimento de excesso e de limite, e que muito clara nos surgia neste livro.

 

Formado em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, na qual foi assistente, parte para Oxford como leitor de português, mudando-se em 1986 para Bruxelas, tendo sido cruelmente assassinado em 1995 no seu apartamento por um companheiro de circunstância.

 

Estávamos a almoçar em Sintra eu e o António ainda incrédulos acerca da notícia do assassinato do Luís quando nos veio à memória a profunda influência que nele teve Eugénio de Andrade aquando do conhecimento de ambos em 1975. Em rigor, Luís Miguel Nava, nunca mais referiu como escrita ativa tudo o que tinha escrito antes de conhecer Eugénio de Andrade. Terá sentido o Luís - dizia-me o António – que até Eugénio de Andrade o que escrevera fora apenas indício de nada.

 

Julgo que o modo de se acender na escrita surge-lhe depois de Eugénio e surge-lhe do jeito que surge às águas: fala de torrente por caminho de ondas. Digo.

 

Há pouco tempo escrevi sobre uma obra de Bashô, e logo abri a página 10 deste livro de Luís

 

O TANQUE DE BASHÔ

O tanque junto a que o crepúsculo mo traz é o de

bashô.

   A água maravilha-se.

 

Inquinam-se as imagens, a pequena rotação do outono,

o dia decompõe-se, o sangue explode contra a claridade.

 

Um nó de leite a nudez cresce pela água.

 

e

ARS ERÓTICA

Eu amo assim: com as mãos, os intestinos. Onde

ver deita folhas.

 

ou

OLHANDO O MURO

E assim ficava olhando o muro. Não atentava então na claridade em que a casa e a terra a essa hora faleciam (…) metade do seu rosto entrava pelas paisagens, era prisioneira da fabulação.

 

Creio que existe sempre um relâmpago de cores diferentes quando relemos Luís Miguel Nava.

 

Teresa Bracinha Vieira