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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTA

 

É sim querida Inês, tens razão, e digo-te;

 

Existe um tempo em que não se sendo feliz, não se perdendo a vontade de estar atento a outro lugar, é-se feliz com o que se vive, e, tolera-se tudo com a tolerância que esconde a procura de outro caminho. Nesse tempo se apoia uma esperança secreta de descobrir um outro ser feliz excluído de obediências e de estranhos estares, e guarda-se fundo os secretos intuíres de que uma música entrou no nosso pensar e vamos procurar-lhe a fonte e fugir por aí. Fugir de ser feliz daquele modo de então.

 

Necessariamente vem sempre à memória o primeiro beijo de amor incondicional: o Zezinho do lado – o menino da casa do lado – veio propor irmos brincar às escondidas, tínhamos ambos 5 anos, e eu respondi ternurenta e triste:

 

«A minha mãe não me deixa ir brincar. Estou de castigo. Pintei os lábios com verniz das unhas.»

 

E o Zezinho com uma lágrima a escapar, deu-me um beijo na testa e fugiu a correr para a casa dele, para chorar tudo o que havia a chorar por não brincar comigo, e por eu estar tão triste, e assim enrolado no cobertor da sua cama a soluçar, deixou-se ficar naquela tarde.

 

Meu Deus este sim, que tempo de felicidade e que existirão outros é seguro, quando, depois de bem crescidos pensarmos na sua conquista.

 

Contudo, vai-se sabendo com os anos que passam, que falta a mãe para proibir ou dar autorização seja ao que for, e que esta realidade é condição indispensável da felicidade. Falta o aconchego de existir a avó que ralha e dá mimo infinito e o tio-avô que oferece uma caixa de alumínio pintada com fadas e flores e com os melhores caramelos do mundo; as criadas que dão torradas com manteiga e açúcar ao lanche; a bisavó que dá ordem para que seja dada a gemada: o irmão que nos olha cúmplice e rosado de tanto afecto, e, ainda às escondidas, a avó que vai fazendo caramelos com a nata do leite e manda que se escondam para serem dados no dia seguinte, enrolados em pratas de cores de sonho. Sim, o dia seguinte era preparado na segurança do dia anterior. Depois, chega o pai, e tem no bolso do sobretudo um cachorrinho mínimo que vai ganindo aos nossos beijinhos encantados. Dormirá connosco enrolado numa mantinha, dentro de uma caixinha de cartão.

 

E é de tudo isto feita a felicidade que se procura recusando a que nos coube forçadamente optar quando a casa desmorona e as pessoas desaparecem para locais indefinidos e definitivamente ocultos do nosso olhar.

 

Agora e afinal já estamos na terceira ou quarta ou quinta busca da felicidade, e, como me dizia o Alçada é muito difícil caminhar para o amor e ele sempre e naturalmente à nossa frente, potencialmente a poder afastar-se sem ruído e de jeito definitivo, e também a esconder-se num precipício de onde se atirará seguro das imensas mãos que o ampararão estonteadas, por desconhecerem o seu poder de voar.

 

Aí, ou vamos com ele, como agarrados a uma cria nossa, ou, verdes de folhagem de tantas lágrimas quando os olhos já não choram, arriscamos na mesma; a chave, carcereira do ar afadiga-se a dar a volta, e, é incrível como os candeeiros das ruínas se acendem cheios de esperança quando compreendemos enfim que a admiração é branca, a febre é insónia, a felicidade é vingativa, a dor é focinho vermelho, os ossos, um trabalho de cinzas e o porão da vida, cobaia dos nossos sentires, consome-se, enquanto a minha abelha leva até ti o mel e numa noite abandonada de jeito a poder dormir tranquila, assim fui partindo  herdeira do musgo que forra os palácios, afinal cheios do odor bruto de tantas manhãs.

 

E para enfrentar todo este grande e último desafio, o amor preparou-me as armas do duelo. As dores contaram os passos. A felicidade virou-se tranquila, quando tudo se imolou e não houve fim no fim.

 

Se for possível, doce Inês, não apanhes tu um comboio exausto, segura sim, um coto de vela e acende-a: é tua, infinitamente e não faz perguntas.

 

Tua amiga

 

Isa

 

PS Queria dizer-te que soube que estiveste com o Alçada. Também a mim nada me disse da Teresa. Sei que para ele a Teresa é uma inconformidade com o limite – já o  escreveu -  e tem nela um espanto de ternura muito dele. Talvez telefonares para a mãe dela não seja má ideia. A Teresa é muito só e mais ainda quando desaparece para o meio da gente que não sabe fazer viagem. Como calculas então o seu itinerário é o de seguir as suas próprias pegadas e não regressa de lá até ser borboleta. Assim a conheço.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O silêncio é de oiro

 

Ó menina não me faça perguntas, tire lá daqui o microfone, não insista. E lá volta ela

 

O que é que eu sou? Sou um homem sem opiniões daquelas que a menina gosta de ouvir e depois passa na televisão e foi o seu programa ou lá o que seja. Não é?

Se não tenho opinião sobre nada? Pronto, então vamos lá a ver: até tenho. Olhe tenho-as fresquinhas todos os dias pois troco-as com as minhas vacas quando as levo ao monte ou a dar-lhes de beber ou a levá-las a dormir ou quando as acordo. Quer saber? Não quer saber? Mas eu digo

 

A minha opinião de hoje - aquela fresquinha que troquei com a Eulália, esta vaca que aqui vê e que me dá grandes alegrias pelo leite que faz meu pão - foi a seguinte

 

A minha vaca não quer ser europeia e eu também não quero que ela seja. Está no seu direito, ou não? E eu também, ou não? Ela é corajosa mesmo quase calada. É tão corajosa como eu quando digo com firmeza à menina que é precisa coragem para não ter opiniões. A menina consegue? Ah! pois é, até fica muda. Mas olhe, que se conseguir não ter opiniões, ou, tê-las frescas como a minha Eulália me ensina, olhe que no seu caso, se for capaz, ainda vai parar a um cargo bom. Aqui ou na Europa. Sou eu que lho digo. Mas olhe que é preciso que esteja muito tempo caladinha e não pergunte o que não quer ouvir.

 

Ainda há uns dias voltei a lembrar-me que o silêncio é de oiro. Ora veja o preço dele aqui em Ponte de Lima. Mas viu, viu, como já lhe respondi, já não consigo ser rico proximamente. Temos que falar para dentro e por isso eu não lhe queria dizer nada, já que, acredite, a maioria das vezes não tenho opinião e acho que até é bom para o país que não exista mais um palavroso. Entende? E muito menos que fale também em nome de outro, neste caso outra, como foi o caso da minha Eulália. Prometi-lhe e agora descaí-me com a opinião dela também.

 

Pois com licença, cá vou à vida que já pequei e que a sua já está feita, ao menos por hoje.

 

Eulália? Tens a certeza que tens sede? Ou é só para conversar? Pronto a tua mãe vai connosco também. O que é um rumo? Olha é eu andar ao teu passo e aguardar há anos consulta para a dor nas cruzes. Pensa bem, tens opinião sobre quem quer ser um de nós?

 

Pois. Eu também fui sempre assim, como sabes. Seria bom que, por uma vez…

 

Pois.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Os amoladores, os sinaleiros, os ardinas

 

Um tema antigo.

Esquecimento.

Era uma vez.

 

Sempre que o meu pai parava o carro por ordem do sinaleiro e baixava o vidro, todos os dias por aquela hora, o ardina – que já o conhecia – entregava-lhe o jornal pela janela do automóvel a troco da moeda. Corria de um lado para o outro, no meio do trafego, para vender o maior número de jornais possível e também aliviar o peso da cinzenta sacola de pano que transportava e o fazia coxear de tão pedra. Depois logo que vazia a sacola, corria a enchê-la. Quantas vezes os vi a correr, Rua da Rosa acima.

 

E eram homens estes ardinas e eram meninos também que brincavam a descortinar a buzina dos carros que os chamavam, e com um saco de jornais quase maior que o seu tamanho, lá vendiam mais um jornal, a sorrir, como se brincar fosse assim e só assim àquela hora em que os carros passavam perto dos seus pés podendo pisá-los.

 

Ninguém se lhes referia como crianças em trabalho adulto. Esquecimento?

 

Era uma vez

 

Um cabeça de giz, como chamávamos aos sinaleiros devido ao formato do capacete que usavam, um cabeça de giz que elegantemente comandava o trânsito em gestos de braços e mãos de bailarino clássico. Nunca se cansava. Fazia piruetas nas voltas do corpo com uma tal eloquência que, por vezes, os carros não arrancavam logo a seu mando, pois os condutores pensavam ou diziam para os restantes companheiros de viatura

 

Olhem, lá esta ele, parece que dança sem se cansar horas a fio. Parece que controla o ar. É giro este fulano!

 

Ninguém celebrava a passagem por este sinaleiro com um agradecimento. Nem mesmo nos dias de maiores melancolias. Esquecimento?

 

Era uma vez

 

Um amolador que passava lá na rua de Alvalade, tocando uma gaita-de-beiços em timbre conhecido, e a avó dizia logo que o escutava: «pronto lá vem chuva». As criadas corriam com as facas e as tesouras e alguma cafeteira na mão, antes que o amolador da bicicleta se fosse. Creio ter visto, um dia, que a cozinheira levava também na mão um desgravidado chapéu-de-chuva para concertar as hastes. Eu corria de mão dada com as criadas e ficava a ouvir os piropos que o amolador lhes atirava enquanto concertava os haveres entregues. Aquele era danado, diziam elas. Enfim, eu achava bonito ouvi-lo dizer: «dás-me um beijo e caso-me contigo.». Elas riam e provocavam-no. Ele olhava-as com prazer. Era um namoro único. Esperado. Esquecimento?

 

Era uma vez

 

Sempre que escrevo o que bate em mim como alguém que se procura e se pensa e se desenvolve e se aniquila, e depois renasce, porque é com palavras de uma ideia que o esquecimento se faz pensar.

 

Teresa Bracinha Vieira

UM EXTENSO DIA GRÁTIS OU UMA MORTE NA RAMAGEM DO CÉU

 

Querida Inês,

 

Aqui estou de novo a responder às tuas cartas tentando repor alguma regularidade. Parece que passam mil séculos atropelando-se ou presumindo-se de se entenderem sempre que não tenho noticias tuas, ou, tu de mim não recebes a prosa das longas viagens em que nos ficamos sempre que as palavras das cartas que deviam ter seguido se interrompem.

 

Mas dizes-me, na tua penúltima carta, e a propósito do teu cansaço, que querias um extenso dia grátis e que a morte quando viesse fosse isenta de sofrimento. Meu Deus doce Inês, como é tanto o que pedes quando até a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer. Parece-me mesmo que o que pedes está no fundo de uma lenda recolhida. Mas ainda bem que o que pedes é por escrito, pois só a palavra escrita é que conta, sobretudo, quando as ideias visitantes nos deixam sem se despedirem ou permanecem como lembranças que se evaporam.

 

E digo-te que me é tão poderoso e justo o que pedes que muito me afoitei já nas viagens que fiz procurando os locais onde dormem as certezas, e tanto, ou, apenas e tudo, para me certificar que uma certeza virá até mim e abrir-me-á as portas ao páteo dos jardins, daqueles que lá mesmo no centro, todos, os dias são grátis e medusados de tão leves, e eu mesmo sem ter lido a tua carta, logo corro para ti, para te trazer até lá. Lá, onde também a inquietude da morte não é sentida ou visível, é mera presa atada pelos nossos amores a que ela obedece.

 

Querida Inês, como é funda a tua fala, e tão vital e tão irónica. Julgo conhecer-te o suficiente para assim neste conversar contigo, dizer que te entendo tanto que chamo a este teu/meu desejo o de “Última Importância” depois dos essenciais.

 

Pudera eu Inês dar-te um dia grátis e uma morte que assegurasse em paz a função que mais desejas. Todavia, minha framboesa Amiga, só temos poder sobre quem nos teme e bem receio que a vida conhece bem seus donos e por entre eles não estamos nós.

 

Um dia, devo dizer-te, encontrei em casa de um amigo, um alferes vindo da guerra de Angola que me disse libertar-se de cada dia como de um peso absurdo, já que os dias dizia, obrigam a deitar fora tempo de vida e então riscava os dias numa espécie de calendário que arranhava na memória e aguardava desta forma o seu/teu/meu dia grátis.

 

À morte não se referia. Disciplinou-se. Não a podia matar.

 

Querida Inês cuida que até os sonhos são vingativos. Na volta do correio te respondo logo.

 

Tua Amiga

 

Isa

Teresa Bracinha Vieira

AS CARTAS E OS TEMPOS

 

Pedro L.,

 

Respondo-te, surpresa pelo teu contacto, como quem ante o teu rosto, regressasse da tua própria ausência. E sim, sabemos todos uns dos outros. Escrevemo-nos e vamos falando e quando possível estamos juntos. Nunca todos, a Leonor, o Miguel, nem sequer moram cá, contudo, quando falamos, a memória ajuda-nos a adquirir meios de conhecermos a razão de hoje sermos do modo que cada um é; de nos aceitarmos, ou não, dos outros nos quererem, ou não, com o que temos dentro. Falamos mais de vidas e ideias concretas e já não tanto de ângulos ideais, presença protetora ao desejo do acontecer do então. Como bem sabes, em seu tempo, quisemos crer que o mundo era aquele, aquele das transgressões e das batalhas decisivas onde tudo se passava nas estradas dos astros e das esferas por decifrar - a tua jovem mulher bem o intuiu, e, por ti, desconexa, adoeceu do teu viver.

 

Hoje, curiosamente, entre o nosso grupo, teve lugar uma religação, se assim lhe posso chamar, como se todos soubéssemos bem que desde a adolescência conjunta, o caminho de cada um se fez daquele modo que habitou todos, tecendo desgostos, alegrias, doenças, separações, mortes, profissões, verdades, furiosas mentiras, filhos a chegar e a partir, paixões, sensualidades, amores, e, afinal, a nossa pertença ainda é hoje nua à mercê do deslumbrar-se. Esta a tal religação ao passado que se despertou ao nosso peito de agora e que te queria referir. Enfim, tudo quanto me dizes Pedro L., não altera em nada o desejo de todos pela oficina secreta que consertasse os mistérios que se nos abrissem rotos de futuro; não altera em nada a força do teu encanto - só frágil de aparência - com que amavas a Leonor, não desconhecendo tu os teus sentires cheios de angústias, que, necessariamente, nela encontrariam tão inocente colo. Disse-me um dia a Leonor, que tinha sido preciso amar-te muito para entender que a tua fantástica modernidade estava refém de uma espécie de seita religiosa que vos levaria a nenhuma vida em vós poder perdurar, e mais, tudo terias feito para que a dor que lhe causaste expressasse bem a tua clara definitividade de a afastar.

 

Pedro L., bem sabes que do passado te falo pois me questionas como se acaso não me fosse claro que bem dominavas o esfriar e por essa razão vencerias sempre. Também hoje sei que a tua permanente depressão era tão forte quanto a tua sedução, ambas, juntas, fariam muito mal a quem acreditasse nos teus beijos. Na realidade, afastaste brutalmente a Leonor da tua vida, não vejo pois razão para ser eu a dar-te o seu contacto.

 

Queria ainda dizer-te que o Miguel nunca se considerou teu amigo. Achava-te demasiado polido na tua profissão para ser verdade a tua devoção a ela. Já o Nuno sempre gostou de ti, sempre te admirou, e tanto mas tanto que te seguiu as pisadas, na mesma universidade, dois anos mais tarde. Saberás porquê? Creio que sim. Ele diz que sim. A Beatriz adorava-te e ele copiando o teu estar haveria de a conquistar.

 

Pedro L., esta, uma carta de época, adequada à que me enviaste. De dizer-te ainda que de ti não tenho uma nova noção, sei apenas que no limiar estamos todos, e, ainda que perigosamente me deixe surpreender, aceito o café que me sugeres no nosso velho refúgio de Óbidos.

 

Abraço-te do meu avesso.

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

JOÃO GILBERTO

 

A UNESCO considerou, que a morte de João Gilberto "é uma perda para o património cultural”


Não chega de saudade não! Não chegará nunca! João Gilberto e seu Violão ou o azul num frente a frente.


Vai minha tristeza

E diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer


Chega de saudade

A realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza, é só tristeza e melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

(…)


“Chega de Saudade”, escrita por Tom Jobim e Vinícius de Moraes, foi gravada por João Gilberto, em 1958.

O cantor e compositor, considerado o precursor do género musical Bossa Nova e grande responsável pela sua disseminação pelo mundo, vivia arruinado em miserabilidade e solidão no Rio de Janeiro. Assim li hoje.


E diz-se que os seus olhos nunca choraram pois apenas olhavam um para o outro.

Caetano afirmou sempre
que qualquer músico brasileiro pós-1959 (há quem chegue até nos Beatles) foi reinventado por João Gilberto. A sua experiência alterou de forma irreversível nosso DNA musical.


Creio João Gilberto, que viveste sempre por um projeto de primavera com as horas absolutamente soltas pelas notas que teus dedos imprimiram nas cordas do teu violão: esse que tão bem conhecia teu saber antigo de fogo duplo. E tu, tempo que nunca se deteve, imortalizaste em nós as canções que nos fotografaram o coração. Tu, testemunha da condição natural do poeta: consciência de que o rio vital era por ali.



Álbum completo 2019 - João Gilberto Melhores canções de todos os tempos.

 

Teresa Bracinha Vieira

NINGUÉM É INOCENTE

 

Oriundos de El Salvador!
Oscar e Valéria unidos
Pelo corpo e pela alma e por uma camisola
Que a ambos abraçava

 

Assim chegaram às correntes bravas do rio
Que lhes permitiria a aproximação ao justo sonho
À vida que seria sorriso, ouro, prata e verde

 

El Salvador? Que escuridão?!
Deixa-nos
Que vamos voar!

 

Então as flores deram-se as mãos em perfeita robustez
Pois o voo estava a ser um pássaro que não parte

 

E chamou-se nomes à dor, ao branco, ao amarelo-torrado das águas
E em pranto desesperado, encalhado, no acesso ao salvador
Mordido, sangrado, não asa, desfizeram-se as forças

 

Pai e filha
Doces ramos, definitivamente partidos, destruídos
Por um mundo todo que está morto
Enquanto o sol tomba
Em espanto ilimitado

 

Por nos ver, a nós, tão instantâneos, tão sem destino, tão sem memória

 

Tão terminados.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Aquela casa de artigos de bebé e de crianças até aos 10 anos tinha uma montra que nos fazia sempre parar para ver como o mundo podia ser cor-de-rosa ou azul ou branco da cor do vestido de noiva que projetava a esperança de crianças envoltas em nuvens colhidas na felicidade eterna dos casais do sim.

 

Os manequins que imitavam os bebés sentados em cadeirinhas de madeira trabalhada irradiavam o direito de sujarem os mais escrupulosos bordados dos seus babetes, e os berços de palha forrados a múltiplos folhos, divinamente engomados, nem pareciam berços de gritos lá dentro.

 

Aquela montra era uma espécie de tule debruçado sobre a felicidade do vinde e crescei que a dor de barriga é assim mesmo desprezada na fralda que a criada lavará.

 

Esta casa também fazia vestidos de noiva e o respetivo enxoval com as ditas rendas de Veneza como nunca sonhara uma cidade condenada poder produzir e, depois de tudo devidamente confecionado a cores de romantismo, era a hora da noiva e sua mãe e avó mostrarem à mãe do noivo o presente de casamento da avó da noiva, ou seja o enxoval e os brincos de diamante em flor de laranjeira, tradição da família quando se noivasse até ao casamento.

 

Depois, escadaria acima, enquanto os sinos tocavam e o padre se aperaltava em rigor, o canto nupcial fazia-se ouvir e entrava a noiva, de braço com o pai, solenemente encoberta pelo véu e ainda assim ouvia o cochichar relativo ao tamanho do seu pequeno ventre pois que de quatro meses ninguém lhe tirava o aguardar da criança. E, o poder da montra não se quedava: nada tinha mal, tudo se podia não ver ou ver através do tule; tudo emplumado e os meninos de calções de veludo e sobretudos impecáveis tal como o cabelo de risco ao lado com um tantito de brilhantina se fazia notar. As alianças chegavam pelas mãos das virgens dos cabelos enrolados em flores que seguravam a taça de prata envolta em laço onde duas alianças aguardavam destino.

 

E do bouquet ao parto tudo afinal posava na montra. Eis o seu poder de resumo.

 

Olhávamos de novo e lá estava o bolo de noiva, agora um tanto encostado aos saleiros: não, a faca e o garfo de prata reluziam junto dele. Assim é que era, e não fosse eu uma mulher que ali tinha vontade de chorar, o mesmo é dizer que chegara a hora de continuar a andar e deixar que a montra, ó graças a Deus já me esquecera dela até à próxima. Ou verdade, verdadinha, perguntava-me se um dia estaria ali um micro-ondas embrulhado em ponto de cruz com o ar sério de quem resolve problemas para que os dias felizes sejam menos brutos, sendo que o próprio é de bruteza natural. Ah! E uma piscina em miniatura forrada a seda azul que revelasse as potencialidades de ser inserida em quinta familiar que desconhecesse a importância de uma carta do Congresso de Viena na qual se mencionasse a Legião Estrangeira.

 

E

 

que eu sinta sempre ao lado da força do amor que nada me pode acontecer porque o meu tio-avô e a minha bisavó não haveriam de deixar. E que possa eu fazer o que ainda não comecei.

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2019

LÍDIA JORGE: O LIVRO DAS TRÉGUAS, OU QUANDO A POESIA AGUARDA UM FILME DE SABERES, LUGARES E TEMPOS

 

Lá no apartamento em Jerusalém numa janela aberta para a rua os olhos do Poeta refletem a ambição de segurar nas mãos Nova Iorque ou Alexandria. Quase zangado, quase desesperado, quer dizer da saudade com as fotografias nas mãos, e nada o contenta das palavras que a definem. Afinal a saudade é um lugar de desejo, de perseguição, de punição e pede-se a Faulkner que feche a cortina ao de leve e que se deite o Poeta por entre os lençóis da cama que lhe fazem sentir um habitar Jerusalém, na cama da sua meretriz, ou Muro, que impele a sua partida dali. E fecha os olhos o Poeta, com as faces rosas de sangue que lhe recordam a cor das bochechas do filho, nascido livre, e agora outra noite, filha do livro-mãe, filha da conclusão e da pergunta com nome de destino, com nome de veleiro.

 

O filme começou assim, exprimindo um rosto com tudo o que deve exprimir antes que seja tarde, antes que os enigmas de cansem de ser perguntados e que o Poeta jure por Deus que não descodificou o perfume.

 

E o filme mostra o frasco de cristal ricamente trabalhado e de tampa de cortiça, pousado na mesinha de cabeceira: o Poeta adormece, um tanto, só um tanto, pois que as flores desbotadas que o frasco contém, embrulham o porvir, as proporções das novas estradas, placentas informatizadas que já tinham trocado o mundo do simulacro pelo Mundo da vida, e assim, mergulhadas no mar amniótico do frasco, a elas devia estar atento o Poeta.

 

No dia seguinte, o Poeta desce a encosta das videiras, acaricia os cachos de uvas, e súbito, pressente o perigo não cruxificado de poder partir apenas na altura que ele conhece não haver caminho, e pergunta:

 

- Qual a razão para que ninguém me diga de frente que só o perfil pode agir nas noticias do amor; naquelas que se aceitam em nós e nós por elas cheios de atualidade, a sabermos que podemos partir do Médio oriente seguros do que Arquimedes nos ensinou: falo da alavanca, esta que vos mostro na qualidade de vedor e que torço como se torcesse o umbigo do mundo.

 

O écran, surge agora com a cor e a forma de uma laranja, os gomos parecem-se a músculos iniciáticos que oferecem sumo a todos os que rodeiam o Poeta, e que ele domina afinal com o saber das coisas escondidas dando de beber e sorrindo, sereno.

 

E surge um forno, uma lareira, um lume que inunda os olhos de todos e que o Poeta explica tratar-se apenas de uma existência muito viva, e que antes do seu salto olímpico e mortal, arde para que todos conheçam o benefício da dúvida que as flores da música de Mozart sugerem. A casa de Mozart está toda pintada pela mão dos impressionistas. Todos, sejam quem sejam todos, pois que entrem neste noivado consumado e cuja chave é uma fábula. Uma fábula de poder. A fábula de poder dos Poetas. Sentam-se então todos numa montanha, na bainha de uma montanha, à procura de um outro início. A bainha parece igual à dos cortinados de Jerusalém. As linhas enroladas são similares a batalhas que o Poeta regista no seu caderno de apontamentos e recorda-se que isto é o significado de mesmíssimo. O essencial inalterado, afinal. O céu da tarde lança ao Poeta um cabo e ele desce por ele até fitar o que o perturba. O Poeta é sempre a conjunção do cerne dos elementos do mundo, e olhando as aguas empurra-as para o beijo, até que o lápis descreva de um outro modo a tez morena das mulheres com sarongs coloridos.

 

E surge a casa a tal iluminada pela candeia do Poeta: a tal do coração e da espada, do cavalo e do segredo de o montar, e lá longe de tão perto, a noção de que só do não conhecido é o futuro. Big-Bang ou a primeira batalha, a tal que não conhece a bandeira branca. O Poeta, ingénuo do poder, não julga. O Poeta continua a crer no ato limite que exponha a poesia, finalmente como solução, nem que seja por sinais de mímica, mas que a deixe a cobrir como uma pele, o mundo velho dos deuses e lhes diga que coragem é ir por onde perigoso é o norte.

 

Eis a Grécia!

 

O Poeta tem à cintura pássaros vivos e livres que assim desejam estar. É sua a vontade deste modo se acomodarem; esse o édito das suas manhãs. E o Poeta escreve que se não desliga dos incêndios das verdades, nem que lhe citem Roland Barthes. Se necessário arrendam-se as nuvens sem contrato e as suas águas transformam as florestas em verde para que todos as interpretem e ele, sozinho, arda nos factos irrelevantes que mataram os dias: nada de novo, afinal. De nada novo a não ser a estrela que se solta sem ser vista e lá do céu explica os factos todos.

 

Os dromedários transportavam gentes e sal pelo deserto. O tuaregue do filme «Um chá no deserto», voltou a adormecer nas dunas, olhando a mulher estranha às origens da sua cor. E sim, correu água sobre a areia no deserto durante três dias como diz o Poeta Lídia Jorge ou o amor nu, em cada canto não tivesse sido descoberto.

 

Em muitas circunstâncias e tempos se faz o caderno dos apontamentos do Poeta. Até o cocheiro atento ou não à maioridade da rapariga, aceitava o seu corpo doado e ainda não amado, ainda não noivado, ou, ainda era o Poeta demasiado jovem para entender aquele estado? Eu mãe-Poeta digo:

 

- Ó minha filha não fales alto, ninguém tem de saber que ainda estás no comboio dos nadas e que só depois da lucidez te repetirás e com ela entenderás os preceitos.

 

O comboio seguia junto ao mar porque ali o rio parecia o mar. O Poeta pela janela olhava o horizonte e aqui e ali presumia as cavernas nas rochas, aquelas que guardavam as sabedorias que não correspondiam à verdade. Enfim, era a viagem. Era a suspeita aqui e ali de que o livro procurado se faz ao Poeta ladrando como um cão que o arreda da esperança de entrar no carreiro da montanha. Esse carreiro, como nos mostra o filme, é um pedaço de terra que serpenteia até ao céu. E para quê? Para nos demonstrar que só estamos acompanhados de nós. Mas há futuro dizia Rui, o Belo.

 

Num vasto campo de milho, o Poeta utiliza a natureza por decifração e abre uma especial carola que guarda o correio que lhe é destinado. Depois de tantos anos chegar à primeira desilusão, é duro, e é duro, partir daí. O bosque que o Poeta já foi, ilumina-se só com uma arvore e lhe não basta: aquela. Parece-lhe ver uma terra de infâncias no meio daquele milho, no meio daquele acontecimento que se inicia também com pedras, pedras das montanhas, pedras com formato de condição humana, fosse o que viesse a ser essa condição em Jerusalém.

 

Assim, li este extraordinário livro de poesia de Lídia Jorge. Deste modo sugeri o filme: a flor de lymo que poderia dizer melhor do Poeta, quando do fim do périplo ao ponto inicial do pôr à prova, dali mesmo partiu ele, sorrindo, com o seu frasco de desbotadas flores na mão, e acredita-se que se fez de novo à expectativa.

 

 

Teresa Bracinha Vieira

NA MINHA ALDEIA NINGUÉM MORRIA SOZINHO

 

Afirmava Eduardo Lourenço, e acrescento: talvez porque lá os unia o passado e o presente das sementes. Talvez porque lá era a casa das memórias universais, daquelas memórias que só os poetas conhecem: memórias com alma e com destino que se encontram sempre no seio da música que, sem nada dizer, tudo diz, nessa experiência religiosa e bastante só de a escutar. E sim, lá onde e aonde se não morre sozinho, é mundo sem mácula, é punhado de inocência, é enfim, vida com as coisas essenciais reconhecidas.

 

Quando penso que já não há escolha no entender do morrer e que só os outros dizem do nosso morrer, penso que nem metade do que eu penso, saberei pensar, já que a morte me acompanha e sou eu que lhe faço vista grossa.

 

Na aldeia que conheci em Vilarinho das Furnas também nunca se soube que alguém tivesse morrido sozinho. A comunidade era total. Até se sabia partilhar a Lua no seu primeiro quarto, bem como a mantilha de neblina que lhe flutuava à volta antes de descer à povoação e tranquilamente passar o corpo pela terra enquanto planava. Assim também se adocicava fosse o que fosse acontecer enquanto se aprendia a morrer sem angústia.

 

Conversei com muitas gentes de aldeias vizinhas de Vilarinho e registei que poucos se preocupavam numa análise de aprendizagem dos enredos da morte. Parecia que intuíam que o custo de a compreender era inferior ao benefício de acudir ao medo que ela poderia provocar se atentasse contra o poder da comunidade. E de facto, consultar a morte era criar demora nos bois à pastagem, o que era inadmissível: para a súbita aflição, a presença de padre ou de vizinho, bastava para que a facilidade da passagem chegasse pronta na ponta de um olhar ou dos dedos de uma mão. E esta realidade acontecia sempre. Naquela aldeia ninguém morria sozinho, o que tornava a vida de uma leveza única.

 

Um dia sentada junto à água da barragem que cobriu esta aldeia, fazia eu ricochetear pedrinhas que ressoavam antes do mergulho final, e eis que um professor de uma escola dali de perto se aproximou e me perguntou:

 

- Porque afogas as pedrinhas? Não lhes escutas o mugido da morte sem companhia? Fingem que não sabem que o saltitar as não livra dela, tão só porque a não entendem, mas o mugido está acima do que se entende.

 

- Não sei se compreendi o que me disse. Venho de um local onde o poeta Graça Moura escreveu:

 

Quando eu morrer (…) fica junto de mim (…) segura na minha mão, põe os olhos nos meus se puder ser (…) que ao deixar de bater-me o coração fique por nós o teu inda a bater,

quando eu morrer segura na minha mão.

 

Ou seja, neste local que bem conheço, a sociedade tem de apelar doridamente, e, melhor acredita no apelo, se ele for feito em nome do amor, para que o desaparecer da vida se faça na possibilidade de uma relação última e íntima com alguém.

 

O crucial nestes momentos, é a constatação do quanto, há muito, perdemos a simplicidade dos factos e dos processos que por tentativa e erro nos levariam à cor dos inícios dos entendimentos. Concede-se por mais não ser que ninguém leva consigo o pecúlio da vida, entre outras realidades, concede-se também que por excedentes ensimesmados, se morre só.

 

O mugido que menciona, não creio que se ouça, mas já ouvi falar dele e sei que existe e que de tão tremendo, enterraram-no debaixo das montanhas, lá longe, lá longe, lá muito longe.

 

Teresa Bracinha Vieira