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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

A VIDA, O SEU TERMO, O SONHO, A NÃO ESPERANÇA: EIS A SUA MATÉRIA

 

A desproporção de forças infetantes que se reproduzem sucessivamente, a grande praga que dizima os seres, que carcome as rochas, os ares, as águas e vaza os lixos na vida, refugo letal onde se adormece um sono, assim a Absurdidade comunica os seus poderes termiteiros e mercantis, somatórios ávidos do ter.

 

A profundidade a que todos, de um modo ou de outro, permitimos que no mundo se venceria pela força do que constrange e obnubila, permitiu que os domínios interditos de quem mata a espessura da vida fosse contada, e mesmo exposta, sem que uma multidão em número e vontade excedesse a soma das forças de todos os que fizeram chegar o mundo ao nível do lixo como desígnio.

 

Todavia as silenciosas contas bancárias dos responsáveis pelo suposto não saber dos atos criminosos que provocaram e provocam, elevam os rendimentos ao limite superior do possível e reduzem ao mínimo qualquer custo de manutenção do esconder dos seus atos, agindo como inimputáveis pois a máquina construída os protegerá passo a passo.

 

A terra continua a ser devastada pela violência dos monstros que alcatroam mandos de morte com a finalidade de que, à superfície, o cenário tenha brilho e atraia aparências de vidas que não denunciam o simulacro do que lhes é dado viver já que no imediato nem o reconhecem como tal.

 

Na fotografia, este menino dorme e desconhece que também lhe simularam o céu sob o qual adormeceu.

 

Sonhará este menino com o abrir de uma caixa própria, uma caixa de algo que lhe é muito precioso e o embala até a encontrar vazia e do sonho acordará num sem número de pesadelos reais?

 

Desconheço as contabilidades que se fazem neste pseudo mundo que troca capital por lixo e no qual adormecem crianças em nojentos colchões que boiam nas lixeiras, lixeiras criadas pelos manipuladores dos fátuos fogos que obscurecem até o futuro das luzes das estrelas.

 

Promove-se a guerra de todos contra todos: assim Hobbes, assim o emaranhamento das corrupções, teia de submissões articuladas no plexo do lixo.

 

Teresa Bracinha Vieira

NO ÚLTIMO ANDAR DO PRÉDIO AMARELO

 

Ela vivia ali, no último andar daquele estranho prédio amarelo. Um prédio que sacudia para a rua a janela do seu quarto sempre que se anoitava. Um prédio que ora estava ali onde não se sabe o como de seu acesso, ora estava noutro local meio gaveto que deixava o prédio mais suspenso, mais esguio, mais alto, quase a palpar o ar para sentir equilíbrio que o agarrasse da queda ou do voo, pois, a qualquer momento, o prédio quase se deixava cair todo ele e não apenas a janela do quarto de Constança.

 

Entrava-se diretamente da escada para a ínfima cozinha, composta por dois armários velhos e uma pedra funda de lava loiça sempre cheia de pratos acumulados por lavar. Loiça de plasticina meio dependurada quase até ao chão. Uma janela esguia deixava ver outros telhados velhos, raros de telhas, desbotados de cor e agarrados a canadianas, que, não impediam a inclinação sobre o prédio amarelo; e, afinal, assim se fazia a companhia dos vizinhos. As ténues luzes chegavam pela janela e sem nada dizer respondia-se com a luminosidade morna da lâmpada da cozinha pendurada do tecto e adornada por um pano de crochet.

 

Da cozinha, passava-se ao quarto escuro, esconso e estreito, dividido desta por uma cortina de pano. A cama, larga embrulhada numa colcha-cobertor quase fugia para fora do prédio se os pesadelos acossassem por excesso o sono de Constança. Um bidé de pés de ferro e bacia de esmalte agrupava quatro catos ali plantados num sossego de secura aos pés da cama. Só um grande espelho de moldura de madeira parecia refletir a luz vinda da cozinha para o quarto interior, agravando-lhe a escuridão.

 

E é mais ou menos assim que sonho o local onde vivo, disse-me Constança

podes crer que é um sonho que não me faz medo, mas intriga-me e desconforta-me por recear ser verdade que tudo assim exista num quadro de um artista que eu desconheço, mas onde até eu lá esteja, ou, será que existo assim a habitar uma casa igual a esta dentro de um conto de um escritor ou num romance em que exista esta realidade que até eu nela seja sinal da personagem que habita o absurdo? Há neste sonho que se repete, de quando em vez, um orvalho solitário e gelado que me toca o rosto quando me deito, mas eu não fujo. Há também um ruído de suspiro fundo naquela casa que indica uma vida clandestina que ali mora e que não recuso ser a minha por perícia de memória que aceito.

 

Diz-me, isto surpreende-te, ou,  para ti pode ser senão mesmo uma ameaça?

 

Constança! Que indícios de percurso vivo e me movimento em direção aos caprichos da vida? Não sei. Às vezes, lanço a rede ao umbigo do mundo para o trazer até mim e dele fazer porto seguro; mas também me acontece no transferir do mundo, surgir-me uma malha amarela - como a cor do teu prédio- segura na crista de uma alta e revolta onda impalpável, e ainda assim projetada dos confins impensáveis por mim, tão surpreendente como os astros antigos que melhor se seguram no nada.

 

Esta é também a descrição que pode surgir da minha casa, num último andar rasante à experiência. Aceita-a para a interpretares tal como a recebo: acordada. Aceita-a como espaço de deliberação; aceita-a como quem consome a vida, somatório dos nossos dias, sobretudo quando o nada se deverá pensar e escrever e viver com maiúscula. Lembra-te que só saídos da nossa fraqueza nos fortificamos. Não me amedronta o teu sonho. Sempre nos possui uma indizível fantasia segregada pela nossa apreensão. E sim, coloca a minha foto no teu espelho. Serei cegonha, aquela que desejas que encha sempre a solidão.

 

Teresa Bracinha Vieira

QUE NÃO SE JEJUE NO AMOR!

 

O Padre Anselmo Borges publicou aqui a 27 de março do corrente um texto de entrançadas e acutilantes reflexões, nomeadamente sobre o jejum, o silêncio, a espiritualidade, entre outras temáticas que certeiramente acudiram às relações que estabeleceu para refletir sobre Quaresma e mundo.

 

Imaginei um mastro e as velas à volta dele, amarradas por sua própria diligência numa autossubmissão total. Imaginei que o próprio mastro era líquido como se nem o próprio Caos tivesse morada para onde se enviassem as orações a um deus cristão. Registei o quanto as tempestades atuais não se anunciam pois já vivem acomodadas, silenciosas dentro de cada um, e, sem fúria que as faça explodir antes que provoquem dor e morte ao sol nascituro.

 

Registo cada vez mais o quanto ninguém suporta o silêncio por não ser ele ruído bastante ao próprio não-ser da vida que se aceita tal qual, indecifrada e acerada. Reconhecer que o silêncio é o da natureza no diálogo com o nosso interior, seria saber o quanto a Poesia é a fala do silêncio que leva os homens a viverem altaneiros e não escravos.

 

E a perceção transtorna-se quando a espiritualidade que se atinge é de facto aquela que faz sentir que a soma dos prazeres seja o sinónimo de felicidade. Assim as hierarquias vão preferindo os apáticos e os abúlicos que se conformam até com os cânones dos Bancos que, abrindo falências por vontades óbvias, codificam a ordem social, insaciados do mal que nos fazem e afinal, nunca perseguidos nem exemplarmente aniquilados os que por seus atos os representaram ou representam. E tudo tem a sua ligação ao tal silêncio das tempestades, à tal espiritualidade de fácil aquisição em hora de saldos. 

 

O pó nefasto e inclemente não aborrece nem fustiga as ideias, parece que se entrou há muito, num doravante, um doravante que é o não medo e a não esperança que liberta os homens de uma tarefa perigosa: a de sondarem razões.

 

E imagino de novo a vida como um mastro liquido exposto a um céu pedrado, permitindo por frestas um sol enganador e sob ele as testas dos homens a bronzearem vaidades, hipocrisias, invejas, cobardias, minudências, jejuns de excessos, aguas indivisas de solidariedade, enfim tudo o que infecta e é presente e justifica a razão de se jejuar sim, até no amor, como se este jejum não fosse o da queda explícita das relações da humanidade que prefere ser bastarda de um rei a dar a mão revoltada à condição comum que a identifica como criada à sombra da fórmula despida de qualquer senso.

 

Olho pela janela do texto do Padre Anselmo e dali envio-lhe a ave que se perdeu do mundo e que na minha porta hoje vacilou, numa vertigem. Quanta injustiça! A solidão acompanhada não lhe zela o sofrer; nós no mundo a fazer-lhe crer os deuses bons; as indiferenças homéricas atiraram-na à Sorte, àquela que umas vezes escuta as preces face aos holocaustos, outras não.

 

E só sei que jejuar no amor não é desocultá-lo. E só sei que à minha volta devo saber interpretar este universo miniaturizado. Também só sei que a palavra não pode ser como mise en abyme; e também só sei que convoco a ideia, aquela que se possa coabitar e por ela se saiba distender o tempo buscando aquele que se perdeu.

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTA A CAMILO

 

Cartas Derradeiras de Camilo Maria de Sarolea - II
(publicado aqui)

 

Amigo Camilo,

 

Obrigada! Fez-me tão bem ler a sua carta de hoje! Precisava muito que hoje um canivete em mãos e pensares hábeis esculpisse em palavras algumas das peças do meu xadrez, trazendo a dialética certeira à essência de um jogo de desiguais virtudes.

 

outra consciência não posso ter do que a da minha própria pequenez.

 

Esta uma das obstinações mais claras que nos pode acudir e acudir em lances tranquilos e de cheque mate, contudo. E chega um doce pólen de partida que entrego às brisas antes mesmo do tempo em que julgava ir sentir mestria preparada à partida, àquela partida que teria idade conformada.

 

A morte é silêncio e é lembrança, como a vida antes de si.

 

Sim, é assim que vejo a vida contida no ovo que a contém. Um ovo no chão que o faz sofrer quebraduras múltiplas. Vejo a vida, por vezes, como criatura mais inconformada nas formas do que nas inações e ainda assim a morte da vida oferece-lhe lembrança e silêncio, num ramo de ternos sorrires como se merecêssemos por termos sido aves sempre atentas ao mundo aberto.

 

Talvez por ser humano, o único ser capaz de viver e sobreviver fora da sua circunstância. Creio que a razão pela qual tanto e tantas vezes nos revoltamos é sermos paradoxo, o nosso próprio paradoxo.

 

Penso que viver fora da minha circunstância é deixar-me surdir para o maravilhamento da vida e é também, com ou sem dor, antecipar a surpresa e que isto tenha muito de ingénuo e muito de bisonho, diria, de modo a que se alguma coisa entendi do princípio dos tempos, tenha sido o não estranhar o paradoxo que sou numa mesmidade, em solidão. Depois, resta-me dar a mão à outra dentro de mim e lá vou acedendo à presença.

 

Afinal, "surfando" ondas hodiernas, não fará sentido perguntar se a fé é uma questão genética?

 

Sempre poderão surgir poderes de interpretação insuspeitados. Novas formas de navegar nos enigmas ao encontro do Espírito-cerne, aquele único que é uma incitação ao prosseguir no virar das folhas do papel-bíblia, afinal ele mesmo aventura de vida. O périplo, Camilo, na parte que hoje li do seu texto, tem o segredo de não nos deixarmos captados como presas sem que desse facto tenhamos consciência. Então pois que consigamos “surfar! já que tudo se vai reduzir a caminho já feito, a pormenores, a eternidades e coisas fugazes e afogadas em bips elétrónicos. Todavia a genética é viagem também; é embrião que não carece de sextante para se explicar de onde e para onde.

 

Camilo, que as suas palavras que cito em itálico me surgiram mais como lianas que muito sustêm os tombares, aqui, e ora ali, surdos e acantonados para que a maioria os não veja. E afinal pouco mais sei que na floresta a voz humana é tão só murmúrio. Os segredos dão a volta a si próprios de onde todas as transcendências parecem provir.

 

Devemos correr o risco de ter medo, tal como se arrisca a vida, eis que em tal risco se reconhece a coragem. Nicolas Diat não deixa de citar este dito

 

Gostava que não se tivesse medo de perder a consistência, a quase identidade que também escorre na berma dos dias que por último se suportam. Todavia, não creio que possamos ir mais longe do que um tecer conjunto, entre linha chamada de coragem e linha inclemente cor de chumbo.

 

Enfim, resta-nos sempre a grande e compacta toalha do mar. Essa que acompanha o seu passeio em Cascais e que o fita. Mas saiba que também já vi uma lua mutilada, um traço de morte, fiel, afinal, aos vícios da vida, um pescoço altivo, uma demora na possessão e tudo ainda assim me tem ajudado à compreensão, alertando-me o quanto esta não tem fim.

 

Sua amiga
Teresa

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Solidão: um lugar de morada

 

Escutei pela radio que uma senhora fazia renda numa farmácia das 9h às 19h todos os dias. Escolheu um cantinho onde desse sol e dizia: é maravilhoso estar aqui na farmácia a fazer renda.

 

Diz que assim nunca está sozinha. Não imagina melhor sítio para estar e o doutor da farmácia entende. É tão discreta que parece-se a uma existência reduzida, ela o banco e a renda. A tensão arterial é branca e as análises que um dia fez acusaram apenas solidão. Há quem precise de explicações para este facto, ela não. Sabe que na morte somos todos iguais e na aflição também. Sabe que aquele que está lá em cima olha por ela, até lhe arranjou a farmácia, e esconde dela as caras dos clientes que não gostam de a ver ali.

 

Às vezes, sente que não descansa nunca, mas não é depressão, é que a renda que faz é complicada e renda, renda, renda a subir e a descer os desfiladeiros da vida da ponta dos dedos ao fundo da alma, são coisas que cansam lá dentro dela. Contudo a farmácia é um local maravilhoso: repete sempre.

 

Também lhe acontece que as linhas entrelaçadas da renda lhe levam à memória os 4 filhos e a viuvez, e, se assim acontece, pensa logo no almoço que só pode em certos dias, pois a reforma é pouco mais de 200€. Este exercício da falta do almoço recorda-lhe uma das filhas, a única, que, de quando em vez, lhe chega uma ajudinha pouca, e o doutor da farmácia, esse, que a deixa estar ali é uma pessoa maravilhosa e ela tem muita sorte.

 

Fazer renda numa farmácia pode ser o promontório possível de uma vida que bem sente a indiferença de quem tudo tem e canta o hino da vitória ao dinheiro que tudo suplantará.

 

Nos tempos que correm a solidão é prevalente nesta sociedade dilacerada, na qual se medem aos palmos e às rendas, o bem-estar inferior de cada um. Não há caminho que concretize o maior desejo do ser humano que é o de ser amado e a vitória afinal é a do descartar dos seres.

 

Também em busca de suposto sentido a sociedade moderna exalta os génios e os de alta performance para a economia e para o superior pensar. Mas a maioria da humanidade não é genial, senão apenas normal e aos normais ainda se retira o pouco, mesmo que ser normal seja a superior capacidade de suportar a dor com um fio de esperança de que a sua vida tenha sentido. O sentido do porque viver. Porque se ganha fidelidade a meio metro quadrado de uma farmácia, chegando a acreditar-se que afinal ali já se vivia antes de nascer.

 

E quem toma como sua esta apelidada de tranquila morada? Quem tem essa coragem onde porta alguma se insinua? Quem de tudo distante, pode manter seu refúgio?

 

A Paulo Moura que tão empenhadamente descreve o exílio das flores regadas a destroços desta sociedade de solidões, me junto, e assim me aceite, para entender com ele o quanto lá ao fundo por entre as rendas, mágoa alguma serena.

 

Teresa Bracinha Vieira

ALMEIDA GARRETT

 

O narrador anuncia: De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. Parte para Santarém. Chega ao terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede.

 

“Há em todo este enredo um claro simbolismo político e social: o emigrado é filho do frade, como o Portugal revolucionário é filho do Portugal clerical; e só por acidente aquele não assassina o pai, como o novo Portugal liquidara pela base o Portugal antigo.” Esta uma das opiniões criticas que li acerca das “Viagens na minha terra”.

 

“Viagens” fazem referência a uma série de reflexões políticas, históricas, filosóficas e existenciais que o autor-narrador trabalha no texto e a viagem, diga-se, é interpretada como busca do conhecimento: assim, pode-se dizer, que a literatura de viagem não é apenas encontrar e conquistar pelo saber do sentir, novos territórios, mas, conhecendo outros povos e culturas refletir de um novo angulo sobre o nosso próprio eu.

 

E quando pego nesta edição de 1857 da Imprensa Nacional, leio, a dada altura, as palavras deste magnífico Garrett:

 

Comêmos, conversámos (vieram visitas, falou-se de politica, falou-se litteratura, falou-se de Santarem sobretudo, das suas ruinas, da sua grandeza antiga, da sua desgraça presente. Emfim, fomo´-nos deitar.

 

(…) Nunca dormi tam regalado somno em minha vida (…).Saltei da cama no outro dia (…) recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o género me afluíam ao espirito, e me tinham como n’um sonho em que as imagens mais discordantes e disparatadas se sucedem umas ás outras. Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperança!...

 

Lembraram-me aquelles versos de Goeth (…)

Vêem os primeiros símplices amores

(…) Dos labyrinthos da perdida vida;

(…) Em horas bellas por fallaz ventura

Antes de mim na estrada se sumiram.

 

É tão evidente neste livro que cada geração, pelo facto de ter nascido no interior de uma continuidade histórica, beneficia e carrega fardos anteriores, reordena ideias, sentires e tempos para, no pensamento e na ação, renovar mundo, aquele mesmo mundo que já lá existia antes do livro e que ele deixará a todos os que o lerem. Ficará o mundo deste livro, viajado também, no quarto de múltiplas estradas, por onde erradamente nos sentimos em excesso culpados e em excesso livres de culpa, quando nem o amor é inocente durante a viagem.

 

Cada peça da engrenagem deste livro é o mesmo que dizer que cada pessoa é um quadro de referência distinto, é um grau de participação no nosso processo interior, respondendo perante o nosso tribunal para que este interprete o que se deve entender, nomeadamente, nas palavras de Garrett por

 

o pouco da noite que lhe restava passou-se (…) combateu-se larga e encarniçadamente – como entre irmãos que se odeiam de todo o odio que já foi amor – o mais cruel odio que tem a natureza!”

 

Depois, depois, proponho que o critério do nosso juízo seja o mundo, isto é, que da janela do quarto de cada um, se olhe para a rua. Permitam então que sugira que deste modo se releia o livro e se faça a viagem. Que se espreite a linguagem a viver ao lado de nós com muitas razões a serem aferidas contra as probabilidades a que estamos habituados, e talvez nos chegue de outra viagem, com a qual nascemos, o entender de parte da Carta de Carlos a Joaninha no Capítulo XLVII (SEGUNDO DAS VIAGENS)

 

Tambem deve ser assim a morte: um descanso apathico e nullo depois de inexplicável padecer.

 

(…) E já não pensava em ti, já te não via na minha alma: eu não existia, estava alli.

 

A militância ideológica de Garrett não é descurada nunca neste livro, ela é uma fonte de informação sobre os sinais de vida do seu tempo e das suas opções, agregada sempre ao fogo intenso e intimo dos amores.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Qual é o défice de que falamos?

 

Segundo critérios contabilísticos normais, o défice ficará acima de x ou abaixo de y, dependendo dos compromissos que a Nação assumiu, ouve-se desde há muito na radio, na televisão, em tudo quanto é órgão por onde se faça comunicação. Também nos explicam uns, que pode existir inscrição de receitas falsas, camuflando o défice e este surgindo w ou z. Acontece que nos explicam ainda que não tenhamos ilusões, mas o défice não é um facto financeiro, é sim, uma decisão política assente no comportamento expectável de exigir a todos o não defraudar do fisco e por aí adiante. Mas, o motorista do táxi olhou para mim pelo espelho do retrovisor e perguntou-me bruscamente:

 

- Bolas, mas o raio do défice nunca se segura? ou tem de ser admitido porque tem de se pagar a saúde, ou, não pode ser admitido porque o motivo dele é todos roubarmos em tudo?

 

É assim?

 

- Hum!

 

- Hum! Então e a senhora não acha que o défice de que eles falam só tem lugar porque o verdadeiro défice é o da nossa falta de confiança neles, e olhe que com toda a razão. Neles e nos que se passeiam com eles, e nos que eles deixam a passear-se, não é?

 

- Pois…percebo.

 

- Claro que percebe. Se até eu percebo que o meu défice de sono assenta nas 12h de trabalho que faço, e ainda assim não durmo com a preocupação do dinheiro e as despesas a crescerem, e eu a saber o que agrava o meu défice de confiança em que eles me protejam quando eu já preciso de ajuda…e olhe, não entendem o meu défice, mas querem obrigar-me a entender o deles, e o deles, dizem que é o meu, ou que é por minha causa ou porque a culpa é da vigarice se encontrar a cada esquina e agrava o défice. Então não acha que o défice é um vício não tratado? é um vício de mata bicho e mata homem, sem prisão? E não há vacina?

 

- Bom, sabe, a democracia é muito frágil e abusa-se do que ela oferece de melhor e

 

- E…, desculpe, e…, nada, porque a democracia está a ser um vicio de país pobre, que já nem mata a sede com o voto, porque o défice é também a falta de trabalho e ninguém faz o necessário para o criar, pois, ou não sabem, ou não se querem meter em prejuízos se as medidas descambam. Não é? E a malta desmoraliza e já vota pouco. É outro défice, não é?

 

Olhe e temos conversa…, com este trânsito! completamente parado, pois já viu que neste país é um por cada carro? Aqui não há défice, não é? Então qual é o défice de que falamos? É nuns locais e noutros não? Então porque não copiam onde não há défice? nos tais locais do não? Que acha? Era boa ideia, não?

 

- Boa ideia era podermos acreditar nos direitos, nas instituições…e

 

- E…, desculpe, e…, nada. Como posso acreditar nas instituições se são elas que me tramam? Ando há 8 meses a tentar perceber quem me resolve um problema da reforma da minha mulher e até já me disseram a sorrir, olhe vá no dia 13 a Fátima e lá dizem-lhe. Vê, vê, isto é um défice de respeito ou um excesso de desvergonha? Que podemos fazer para termos paz face às garantias que a democracia nos prometeu?

 

- Prometeu e se o senhor lutar por ela, ela cumpre!

 

- Ah!, não sabia, então, desculpe lá, mas acha que eu não votei estes anos todos? Ninguém me pode acusar desse défice, e olhe que sempre fui pondo o pão na mesa, e olhe que tenho honra em Portugal e na minha aldeia. Mas pronto os portugueses habituam-se à miséria desde que respirem, e tem de haver algum défice estranho que os mantém assim. Não acha? Não acha? E os bancos? Olhe, minha senhora, quem não tem dinheiro para arranjar esse onde vai sentada, sou eu, e se os clientes continuarem a queixar-se, lá vou viver das dívidas, aumentar o défice, e os especuladores e os corruptos em crescimento na boa, até já nem haver crédito. Desculpe lá, ando a pregar e não mudo nada com isto, mas se não falo com os clientes, chego a casa bem pior que uma panela de pressão.

 

Ora faz favor, aqui está o troco. E tenha um bom dia e tenha esperança! e ainda fique com esta: o Estado precisa que existam pobres para justificar alguma proteção bondosa e daí o défice. Se calhar é desse défice que se quer que todos falemos e pelo qual não nos podemos queixar. Devemos ser bondosos. A senhora não é jornalista, pois não? Pois não?

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTA

 

Amigo João,

 

Fizeste-me pensar nesta questão a que chamas de ganas gigantes da escrita minha, e, se acaso eu der conta de uma resposta que a interprete, dirás tu, se sim.

 

Às vezes, muitas vezes? julgo que escrevo uma obra – permite que assim a chame - de tipo indefinido, assumindo a perigosa honra de a escrever como quem vive uma morte. Penso muito nisto e, se assim for, cabe aqui uma atitude febril que necessariamente vem do interior e mergulha em ruturas, horizontes, compreensões, triunfo de vontades radicais, denúncias, disciplinas indiscretas, nervosas mesmo, até que uma escrita paciente dá lugar à gigantesca impaciência da liberdade, àquela que sacode o jugo, aquele exato jugo que até transforma os pontos de vista de um mundo que se atreva a não ser igual ao mundo. Então aí, levanto-me da cama num ai que morro tão escrava se nada escrever que até a política e a história e os gnus da savana me recusam a essência de repelir os males remediáveis como se só me restasse entregar o homem ao homem ou eu a mim.

 

E escrevo, então e muitas vezes, mesmo doente, escrevo; mesmo agarrada a uma pátria sem território ou as lágrimas não se escoassem lá onde e aonde se não sabe.

 

Assim a hereditariedade da morte, essa safada e tranquila condição que não cauciona qualquer recusa ou não trocasse cigarros com a vida, transforma-se, para se proteger, numa palavra escrita, e assim materializa uma esperança como possibilidade humana, e essa possibilidade não é, nem nunca foi, colonizada, e, talvez por isso, surja na minha escrita com ganas de gigantesco ímpeto.

 

João que o grande perigo é julgarmo-nos no céu das ideias onde se perpetuam as relações de subordinação, e, não nos termos como temíveis imposturas urbi et orbi. Aceita-se a desigualdade real de todas as condições como se existisse um lugar onde o homem pode descansar da humanidade. Logo, a escrita que tem ganas de gigante talvez seja aquela que conhece ser mais humano o esconder do jogo do que a paisagem bucólica de muita da humanidade exposta.

 

E levanto-me de novo ou não tivesse ainda diante de mim uma mulher que morre e vive alvo permanente do atirador emboscado, e, sabendo-se presa, escreve sobre muitos assassinos potenciais, apenas passageiramente inaptos para lhe interromper o destino.

 

Enfim incapaz de se corrigir, eis algo que pode abraçar uma mão que escreve e que adquiriu uma mentalidade de amor e guerra, ambos, sabe-se, atiram mil tiros no preciso momento em que o relâmpago da evidência ilumina o conhecimento. E escreve-se uma e outra vez! E o olhar dos olhos não é modo itinerante, nem qualidade saída dos limbos se se não escrever mais claramente que talvez os acontecimentos não tenham acontecido o suficiente. Quais? Todos os que estão fora do sentimento de um violino, de uma palavra, de uma tinta, de um murro, de uma memória, enfim de tudo o que não conheça o jeito da pluralidade

 

E que saudade de uma gratidão fundamental e eu a merecesse.

 

Bj

Teresa a tua amiga  

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Uma vez sonhei-me a mim e ao meu irmão sentados na escada do prédio onde morávamos, naquele silêncio que sempre presidia entre o final das férias grandes e a viagem urbana do inverno. Como não partilhávamos os amigos, naquele momento eramos mais nós, acompanhados das inúmeras palavras não ditas e de todas as ternuras cúmplices já vividas. E ali estávamos, no mesmo degrau sentados, tristes, naquele intervalo de nada que se misturava com o que não queríamos viver.

 

De repente uma forte agulhada fez-se ao meu peito, e logo percebi que tinha ido parar ao sonho que dói, e, acordei. Não era um sonho errado aquele que se desenvolveria, mas era um sonho do qual me queria afastada como de todas as perguntas que encolhem os ombros e por elas se ficam num vá lá saber-se o quê! vazio e derrapante como as escadarias imensas por onde os sonhos me faziam escorregar sem borboletas na barriga, antes num voar tropeçante e enfim salvo por uma realidade desconhecida que lhe punha fim. Este sonho do cair ou do voar de uma escadaria era, na altura, uma constante.

 

Acendi a pilha que clandestinamente tinha sempre na mesa-de-cabeceira e espreitei o quarto, quieto e seco como um sopro velho e comparei-o às hipóteses vividas no verão que acabara. Nesses verões existiam burros complacentes que carregavam pelos trilhos das fontes, bilhas de água dentro de cestos de verga destinadas às casas dos veraneantes. O barro dava à água uma frescura com cheiro e sabor próprios e tal como as peras e as uvas e os primeiros namorados cujas paisagens eram indecifradas, mas ricas de repensar, as águas das bilhas eram uma concordância com a vida fosse qual fosse a razão. Também as festas nas garagens ou o cheiro a maresia nas chegadas à praia, as estrelas-do-mar dentro das poças por entre as rochas, tudo era palpitante, tudo eram pinheiros e cheiros de cascas de pinhões abertas no chão dos pinhais e, sobretudo, tudo eram escapadas, tudo era conseguir fugir a controlos contrários aos sonhos.

 

Desliguei a pilha e voltei ao sonho e tudo se complicou. O meu irmão esforçava-se em vão por uma autorização para viajar na mota e a mim perguntavam-me a soma dos ângulos dos triângulos qual modo de interrogatório que colocava em causa a curiosidade de qualquer saber.

 

Olhámos um para o outro e bem entendemos que seria mais um inverno em que deitaríamos mão às reservas, colherada a colherada, até ao fim. E como tudo demorava a chegar ou raramente chegava do céu, dei um beijo ao meu irmão e entrei em casa resoluta, desligando-me do sonho e disponível a regar a inexistente planta do meu vaso. A verdade é que desde cedo os começos me subiam à cabeça e desde cedo engolia a chaves dos segredos, e, sem me conformar espreitei da porta o meu irmão, o meu irmão muito no coração de tudo em mim.

 

A viagem urbana do inverno seria feita sempre igual até que alguém nos revezasse.

 

Teresa Bracinha Vieira

2019

POEMA

 

E foi quando tomei os elementos por garante que logo arrefeceu súbito o ar nas minhas mãos. O frio das primeiras neves-alaúdes do saber provocaram um aperto absoluto, como sempre que os sonhos se repetem, e nos abandonam lisos, ensaiando à frente dos nossos olhos o ritual da morte do eterno.

 

Não sei se é esse o tempo dos desastres sem fantasmas, porque afinal o sangue se tornou cíclico, e eu, de vez, o entendi. Também não sei se me conciliei com a natureza por método nu, chegada que fui à sua morada de panos sobrepostos. Não sei, tão pouco, a que horas pedi servo ou serva, a fim de testemunharem que fui eu mais aquela que não posso controlar, que de concreto sempre falou da vida e no mar fez casa, sótão, cave e subcave, onde guardei poemas de universo. Poemas daqueles aos quais me fiz sem quebrar qualquer aliança com a realidade.

 

Devo dizer que reconheço a minha vida.

 

A espuma do mar foi meu telhado; sob ele, a beleza do poema que não procura estética, a força do passado em gruta de luz mutável, a fragilidade do amor numa coragem plena de morte frontal, e ainda as abelhas-biblioteca, tão nítidas, tão feras. Mergulho, mergulhei nos esboços rigorosos com os quais tentei entender o exatamente dito, escrito, acontecido, espreitado, sentido, vivido, quando e sempre atenta para dentro e para fora da vida e, enfim, para o equilíbrio, para aquele que limpa os olhos quando é sinal de verdade, sendo esta a beleza do poema quando poema.

 

Sou e tenho sido uma antena nas velas de um moinho que roda ao ar e por ele traz pão.

 

Escolhi desse pão para a minha casa e, ou a casa não foi minha, ou o pão mal se ouvia à chegada. Foi o excesso de violetas – disse-me à memória o meu avô - e, sim, elas decifram ressurreições e habitam-nos, foi quanto chorei pelas paredes a tua partida. Até hoje. Mútua curiosidade de mim para mim?, ou sei eu que quem parte foi quem deixou os segredos pelo chão?, ou quem partiu fui eu que hibernei fora do tempo? Não sei. Não me peças piedade nos beijos em simultâneo com os meus olhos nos teus, ela não existe para quem hesitou. Atenta igualmente que ela pode ir à frente de mim com outro nome, aquele que define que de ti, hoje e amanhã, o meu passo sempre procurou um voo conjunto.

 

Sei que através de ti muitas vezes, muitas, muitas, fui amor inteiro e tu em mim celeiro em secreta festa de tanto espanto, tanto segredo, que a construção possível do futuro se fazia em veias celebradas na paixão em êxtase, rosas, auréolas de seios, canela, jasmim, madeiras quentes, orientes, tudo teima a progredir para a luz e afinal dançámos, dançámos para nos entendermos em permanecer.

 

Obstinada recomeço-me em cada coisa.

 

Os meus pés escutam o chão do mundo e uso um vestido de fidelidade às pedras, à luz, a todos os bichos homens e bichos mulheres e bichos por autenticidade, para também buscar um deus que atravesse a vida ao contrário: da morte para o embrião.

 

Que instante!

 

Da liberdade, digo, celebro a chegada, adiantando-me ao luar-poente. Do barco lunar, salto para terra, seguida dos beijos do estrangeiro que um dia se aninhará em mim; eu sinto-o, exatamente durante o período que suspende qualquer separação, imediatamente depois de surgir aquele ramo de bétulas tão frágeis quanto os meus pulsos, quais talos frescos que ele tanto suga e parte. O tempo, o tempo reunido fora devorador. Ainda assim hoje o estrangeiro lê ponto por ponto o decifrar da fórmula e enfim, tu ao meu lado.

 

Voltei ao amor esse das limitações e das não eternas eternidades à proa e ao vento de todos os navios expostos às setas das luzes mais brancas e enfim se guiam.

 

E regresso à cidade e aos campos e às gentes e às estátuas e aos rios e às arvores e às sombras e a Hiroxima donde se levantam sementes de outros mitos que conheço de me questionarem o não-sentido do conjunto.

 

Bem sei que o jogo trilha intersecções que filtro algum detém, avultando-se além da morte.

 

Olho o poema e de novo lhe imploro que não me dê uma luz tão minha se acaso ela opaca já me enganou mais do que uma vez. Se assim for, emaranho-me num ponto de cruz, e por entre ele, insisto no rumo ao conhecer, mesmo que em paradoxo se explique e se povoe lá onde se acoita em mim indecidível, leve, funesto e infinito, o projeto do meu músculo-coração, tendo ele força para me afastar do que suprime a morte da ideia, ou o palácio, afinal, não tivesse sido a juventude do tempo, distante ainda da solidão, ignorante dos deuses vencidos, das horas iniciais e limpas,

 

da hora em que iniciei o meu longo exílio.

 

 

* “Speaking Through Walls" exposição na Tyburn Gallery em Londres.

 

Teresa Bracinha Vieira