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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

UMBERTO ECO

 

“Riflessioni sul dolore” (edizioni ASMEPA- 2016)

 

A dor é normalmente identificada como um sofrimento físico quando, na verdade, o seu significado deve ser alargado pois envolve o sofrimento das emoções, o sofrimento espiritual e afetivo e social. A dor é expressão de uma falta global de cura, e cada vez mais se necessita de uma medicina que envolva a pessoa na doença para entender ambas, e não tenha como objetivo único a doença.

 

A relação da dor com a doença e com a pessoa, permite a análise num contexto filosófico, semiológico, histórico, contextualizando a discussão e análise em diversas situações para que se saiba, em qual, a palavra dor, se liberta mais do vínculo estereotipado e de derivação apenas clínica.

 

A dor física e a dor da alma, a dor percebida e a dor provocada, o sofrimento como redenção não dizível de uma profunda perturbação, como é o caso da dor do amor perdido, do sentir que a regeneração da energia não é possível; a dor como estrada para o conhecimento, como meio de captar uma cultura e controlar os seus sintomas quando ela nos invade sem licença; a dor enamorada de esquecer-se por tão física, por tão espiritual, quantas vezes agravada pelo medo do que encobre a dor que se tem, será sempre uma angústia, e, também, um perigo cativo se a medicina não nos der a mão segura, a mão não enferma de uma solução global de soldado.

 

Múltiplos aspetos e significados da dor e do sofrimento, se entendidos amplamente, dão-nos a receita adequada a um solido tratamento, a uma reflexão, não de cuidado paliativo generalizado, mas do entendimento de uma medicina que cura pelo saber e pelo afeto e pela interpretação das emoções que dialogam com uma milenária dor universal, cuja presença no mundo, bem se sabe que fomenta a fadiga, a discórdia, o odio, o desamparo, o choro e a inelutável natureza da esperança, algo animal, que se enrodilha apertada no centro da dor.

 

A consciência da dor e do sofrimento como realidades universais também minadas pelo stresse, tornam, quantas vezes, insuportável a dor física e espiritual da doença que se expõe em corpo marcado pelas contracturas que nos abandonam a nós mesmos e só a nós.

 

Assim também se interpreta que a dor amorosa è un pensiero assíduo podendo mesmo tornar-se obsessivo já que a memória pode não se afastar do objeto amado e modifica-o mesmo para que se pareça mais com a dor que quer expor, afastando-se da verdade, mas caminhando para aquela que melhor justifique a interpretação que permite que o mundo faça, a essa realidade, mesmo inverdade mas tal como deseja que seja e não como foi.

 

Quantas vezes só a medicina poderá ser capaz de apanhar o pulso de um enfermo, alterar-lhe o ritmo, prescrever-lhe o remédio vital e torna-lo um distinto e vulgar caminhante da vida, mesmo quando nessa vida a dor e a cura se mostram apáticas ao esforço, àquele que já só atribui pequeninas doses de tranquilidade.

 

P.S. “Riflessioni sul dolore”: trata se de uma excelente publicação organizada pela Academia da Ciência da Medicina Paliativa num contexto ético e social. Umberto Eco destacado membro da Academia da Ciência de Bolonha propõe-nos também a clarividência da função biológica no acerto com várias mortes que enfrentamos através das violentas doenças da vida.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Cristiano Ronaldo içou-se do chão de quando era criança; rodou nos invisíveis degraus do esforço d’alma; prendeu-se no ar, e, intacto de natureza, opôs-se ao que no mundo é simulacro. 

 

  

 

De mão no peito o agradecimento minucioso a cada um, a cada vida.

O gesto, o gesto de que o limite é para se ultrapassar.

 

  

 

Ronaldo, o vulto voante de uma magia que poucos merecem, demanda-nos na sua vida o nosso próprio desejo de pulsar pelo céu. Expõe sentires em choros e felicidades de inocência rara.

 

Cristiano Ronaldo o menino empurrado para os dias dos socalcos de todas as solidões.

Ronaldo o homem-menino que hoje segura o seu filho à expansão das manhãs.

 

 

O menino-homem da bola de ouro a erguer ao mundo o sentido do choro.

 


Ronaldo, um fundo de convicção que aponta caminhos, muitos deles entre o ser-eu e o estar-ali irredutível.

O colossal jogador de futebol português, conhece-se e devolve-se a nós, na simplicidade de algo a decifrar, como se não transportasse também um Portugal e suas pedras, em ordenada linguagem aplanada pela força do mérito, do trabalho, do sonho, e da indecifrável magia de pertencer a um lugar que poucos conhecem.

Obrigada

 

Teresa Bracinha Vieira

Se és fogo, como passas tão brando?

 

El oficio de Cupido, Los Siete Pecados Capitales, Las Siete Virtudes, Los amores de los dioses Cinco sentidos numa sumptuosa edição da TASCHEN, editora alemã cuja minucia da edição perfeita sempre nos surpreende e surpreenderá.

 

A recompilação das 143 magníficas gravuras dos princípios do séc. XVII que ilustram o amor em suas alegorias, os provérbios que envolvem a carga erótica latente, a mitologia, as breves frases de amor ardente que elucidam a cor da criatividade dos desenhos e o seu significado, encontram-se neste livro de rara e extraordinária qualidade e beleza.

 

Permite-nos esta obra viver e entender um mundo da era do Barroco, e, bem usa as figuras de linguagem para reforçar a tentativa de apreender a realidade por meio dos sentidos.

 

Nomeadamente despertam-nos pedaços soltos do poder do sentir

 

N’acusons point l’Amour mais notre ame indiscrete 

Ou 

Because I Have fettered myself

Perch’io stesso mi strinsi

 

Let us not accuse Cupid, but our own imprudent soul

 

A arte Barroca foi impactante, expressou as ideias e os sentimentos do artista do século XVII. Gerou encantamento e apelo visual e soube combinar realidades para expressar uma nova conceção de mundo.

 

O homem culto conhece o espanto que nos provoca a Editora TASCHEN, neste brio de publicação que não descuida a brilhante escolha de Carsten-Peter Warncke, autor nascido em Hamburg em 1947 e que estudou história de arte, arqueologia clássica e literatura, tendo-se doutorado em Hamburgo em 1975 e na Universidade de Gottingen e ser atualmente catedrático de história de arte; autor, aliás conhecido também pelos seus estudos sobre Pablo Picasso.

 

E porque o que farei na vida do meu pensar terá sempre um relacionar firme e fixo ao que pretendo exprimir, aqui recordo, terra e fogo, ar e agua na intersecção com a peça que sem estabilidade ou suporte que não a da alquimia do dizer, vi na Bastilha com Laure Mathis (Doreen Keir) e David Geselson (André Gorz), na peça “Doreen” em março de 2017.

 

 

Confessa um homem, à sua muito amada mulher, todo o seu imenso amor, em jeito de desculpa.

 

Não se fende a pedra filosofal, mas a sua invisível fratura consolidou-se na matéria-prima do coração e leva-o mesmo à corajosa decisão de ser.

 

Assim se rompeu a simetria e assim se volveu amor como ser-que-conhece o instante em que se perde e se reencontra, e, só depois se pode em rigor dizer que se conhece a distância e se compreende o ar que o separou respirando-o, respirando o amor que parecia consumido, mas que do longe nos vem, nos torna e tudo ousa. E assim o disse quase em segredo este homem à sua mulher de sempre. Esculpidos numa chama, ela no ouvir, ele no dizer, fez-se assim sentir a cor do carmim.

 

E baixinho, mas sólido, deste livro nos chega para que adormeçamos em paz

 

I have been fishing all night; I must dry my little net

 

E na gravura de oiro as mãos dele secam-lhe o corpo em certezas absolutas, certeiras e incansáveis, e os dois, no tal amor grande como o sono, afinal como o sono quando é gentil.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A prisão: uma recruta dos desertos

 

Depois de passar a primeira porta de ferro todas as vozes surgem reconstituídas face aos ecos que se fazem sentir. Quase se soletram as energias vocais de cada um e que correspondem a um diferente sentir instantâneo de uma ocasião repentina que se torna única quando o prisioneiro se depara com alguém que não conhece. Depois outra porta de ferro, e também automática, fecha-se a estalar atras de nós, numa descendência justificada de portas, uma após outra: e o corredor: eis. O corredor, ou antes, os corredores, em anarquias controladas de ruídos e movimentos que se esgotam nos repentes que se não veem, mas se apercebem por um ar, por onde, cheios do bater de asas, aves mudas seguem sopros que não são mais do que turvas visões. De todos são conhecidos os nervosos movimentos que se esgotam ali, súbitos, sob o nosso olhar como numa rápida operação de cálculo. Mais fundo, mais dentro da cadeia, chega o momento de se escutarem os segredos enlouquecedores vindos de cada um, e, entende-se que já por ali se não tem tudo o que a vida entregou antes de iniciar o gesto que daria o cumprir da pena. Ali quedaram-se muitas migrações e emigrações em sombras impassíveis de desastres confiados a um luto. Os guardas prisionais, naquela cadeia de alta segurança, surgiam-me, um após outro, como se os conhecesse desde sempre naquela profissão de lenhadores de ruínas que naquela hora única me sorriam à minha descida do céu.

 

Sentei-me à frente dos trinta e poucos prisioneiros que queriam ter tido aquela tarde na biblioteca que todos estávamos a construir, e eis que o Diretor da prisão entra, senta-se ao meu lado, e num gesto de harmonia simples e de contentamento solto, apresenta-me aos prisioneiros e, generosamente, agradece a minha presença e sai, pois o muito a fazer não lhe permite ficar.

 

Olhei para todos em breve relance. Os dois guardas presentes perfilavam-se também para me escutar ou escutar orlas desconhecidas da minha perceção. Os despertadores das trovoadas, quis crer, adormeceram num ápice. E eu

 

Não me ocorre nada do que pensei dizer-vos. Deixo à vossa consideração as perguntas que me queiram fazer face aos livros que sejam do vosso interesse. Eu, apenas vos digo, que um dia, um dia normal como tantos outros, um dia em que não se pensa sequer na liberdade como jornada a conquistar, um dia, disse-me um médico

 

Pois o seu caso é complicado, o que resulta dos exames renais leva-nos a atuar com a urgência máxima. Será operada daqui a dois dias, ou seja neste dia de Natal próximo, e, o pós cirurgia, devo dizer, é doloroso. Vamos ver como se lida com isto.

 

Tremia por dentro do peito como não sei dizer. Aquele cancro condenava-me a um mês de vida. Prisioneira de tudo e de todos procurava danos que tivesse cometido e que justificassem aquela pena máxima a que estava condenada. Não tinha a mínima possibilidade de escolher livremente quem queria ser naquele dia. E digo-vos, pensei nessa dor inexplicável, irremediável e injusta que então senti, quando há pouco se fecharam atras de mim as grades elétricas que me deixariam enfim, ao vosso lado. Pensei nisto tudo quando nos corredores vos vi a todos impacientes a uma estranha dança deste viver, assim, aqui dentro. Agora mesmo sinto no ar abandonos, feridas sufocadas por maldições e os vossos olhares a escutarem-me e eu nada mais vos sei dizer, neste momento, em que queria muito que pensassem que se estou aqui é porque sobrevivi ao mundo de dor pelo qual passei. E acima de tudo sobrevivi sem me sentir enraivecida pelo que suportei, a impotência não me moldou, devo dizer-vos, mas a caça por um mundo melhor trouxe-me neste dia até vós. Assim aceitem os senhores esta estranha janela que vos quero dar. Não sei se fui clara, mas não fui poupada neste meu tempo de viver, creiam, e tive de jogar às cartas da vida numa estúpida crença de que elas não possuíam o meu trunfo. E afinal, não possuíam mesmo: estou aqui, com as minhas fraquezas e as minhas possibilidades.

Obrigada.

 

Um guarda trouxe-me, num velho carro celular (não havia outro) até Campanhã. Recordo ter achado curioso experimentar a limitação e a incomodidade do dito. Viemos lado a lado a conversar numa estranha admiração mútua. As condições de trabalho que me explicou funcionarem naquele estabelecimento prisional, bem me consciencializaram para as pessoas que lutam pelas migalhas do pão de cada dia, bem cientes de que já viram demasiadas verdades. Vivemos num mundo arrasado e apenas aqueles que têm os corações arrasados, sabem que também se marcha por entre os destroços. Não esquecerei o diálogo com aquele guarda e muito me agradou o que ele não disse.

 

O comboio da noite, após várias horas, trouxe-me até Lisboa. Durante a viagem fui pensando uma a uma em todas as perguntas que me fizeram os prisioneiros e nas respostas que fui dando. O que se mostrou mais intelectual de entre todos e com Alberto Caeiro entre as mãos disse-me: a imperfeição absurda da vida é irremediável: escrevo isto muitas vezes pois cada vez fica mais claro. E um outro que se levantou para que a sua voz se ouvisse bem alto: sabe eu tenho um cão que olha para mim e me diz coisas que eu gostaria de ouvir de alguém. E eu, ali naquele comboio, cada vez mais me convencia que cada um de nós parece estar mais bem treinado para sacudir a água do capote. Também somos sobrecarregados connosco próprios, pensei, agrade-nos ou não a ideia. Lembrei-me de Yourcenar quando perguntava: existirá alguém tão insensato que morra sem conhecer a sua prisão? O que temos é, inevitavelmente, a opção de escolher em tudo o que fazemos, mas um homem sensato tem de ser um investigador de almas que saiba da luta vã contra a nossa insignificância. O seja feita a vossa vontade, é o saber recompor as horas fragmentadas e formar com elas uma harmonia, uma possibilidade em relação a cada novo dia. Talvez a compreensão deste facto nos permita acarinhar os desastres e tornarmo-nos humanos, dirigindo-nos ao mundo como indivíduos. Mais pensei, por muito que a ideia messiânica possa ser atraente, a simples crença na fraternidade de uma sociedade pode demonstrar compaixão em pessoas que ainda não saibam viver mais do que para elas. Então a tal janela que acima referi aos prisioneiros, pode abrir-se aos desejos e aos medos e podemos com ela libertar-nos da nossa prisão de portas automáticas que acolhem os recrutas de desertos, ainda que tudo isto seja, por óbvio, uma atividade interminável e estritamente pessoal. Olhei através da janela da carruagem em que seguia. Chovia torrencialmente naquela noite de inverno e muito de mim foi o que me uniu à tempestade. Do outro lado do corredor, e já muito bebidos, uns americanos festejavam ruidosamente a eleição de Trump. Voltei ao casulo dos meus pensamentos, tenho para mim que uma solidão quase inalienável faz parte de nós, e cada vez mais achei que a resistência aos nossos erros não começa com grandes palavras, começa com pequenos atos e saiba-se que quando nos entregamos, não temos ideia da dimensão da nossa entrega. Todos nos tornamos adultos tardiamente. Julgo ainda, que, só desaparecemos quando totalmente absorvidos pelo momento: quero dizer com isto que, naquele dia, quando não existi, foi afinal quando desfrutei de tudo o que me foi oferecido e ensinado.

 

Paços de Ferreira

Teresa Bracinha Vieira

O RENDIMENTO BÁSICO INCONDICIONAL: mero contributo à reflexão

 

De  facto há muito que um estado social devia ter estado atento à substituição do emprego dos homens pelas máquinas e que o trabalho não devia ser a fonte única de rendimento, nem o número de horas de trabalho fosse indicativo da produtividade e que quem não tem trabalho não é necessariamente o tal mandrião objeto de reprovação ética, ou o mérito não fosse por aqui, algo a deixar escondido de moeda que o pague sem que um RBI lhe acuda como liberdade justa de opção de trabalho e de remuneração por dignidade de indispensável interesse à reflexão na investigação de um futuro melhor. No entanto, tudo o que se faz como trabalho, até o cansativo trabalho de lida de casa, constitui uma fonte de dignidade para os casais, para a família, para a sociedade no seu todo e deveria ser compensado pela existência mais cómoda e digna que provoca na sociedade no seu conjunto. Esta é uma das situações exemplares de falha de perceção da política pública, sendo esta atividade prestada a uma coletividade por pessoas privadas, e que traduz real qualidade de vida. Quanto vale uma mesa posta diariamente com tudo o que só de olhar, induz ao sentir de um lar, desenvolvendo momentos de ternura e diálogo, interrompendo quantas vezes? com eles as horas de luta por vida mais justa, recolhendo delas algum descanso e força? Não terá o RBI que ter em conta igualmente a armadilha da sociedade a quem suporta este trabalho e o pratica, e, quantas vezes se diz no desemprego? Será que a segurança social passa a ferro dentro da casa de cada um ou limpa-a como prestação social? Então a medida mais revolucionária seria a de atribuir um rendimento básico e incondicional a quem trabalhando, no hoje dito não trabalho, mas produzido com fortes externalidades positivas, fosse capaz, afinal, de aumentar o bem-estar social no conjunto das famílias. Pensemo-lo. Desenvolvamo-lo. Criemo-lo como projeto-piloto.

 

E se pensarmos no dito não trabalho imaterial e material produtivo da cultura? Que solução ao incentivo do entendimento de um mundo realmente melhor provocado por quem transmite conhecimento? e que quantas vezes nos é pedida a obrigação de um contributo sem verba sequer para o agasalho dos livros? E no amplo conceito da pobreza que não gera riqueza nem emprego? sem que tenha visibilidade substantiva a criação de trabalho próprio? Como se funciona? Creio que podemos dizer que se o RBI fosse impeditivo de não se dar o trambolhão abaixo da sustentação da rede mínima que nos segura a vida em dignidade de opção, ou seja em dignidade e em liberdade, a verdade é que, outros, que, sem essa rede, para ela acabariam por contribuir, qual rede que poderiam considerar alheia ou a solidariedade não estivesse mais longe do mundo do que o projeto-piloto do RBI no Alasca ou na Finlândia ou em países africanos.

 

Os pensamentos simples e as palavras simples e as ideias que as gerem são saudosas da busca na solução da evidência que atalha o rebuscado fenómeno das ideias que, sendo recentes, não são novas. Diga-se que a realidade ainda não escoou como assunto diagnosticado, e muito menos tratado, as questões inerentes aos consensos sociais e políticos, às absolutamente necessárias medidas de transformação das estruturas de enquadramento para que se insira um projeto cuja verdade utópica tem pernas para caminho como cremos que poderá ser o RBI. Todavia, há que pensarmos nesta questão do Rendimento Básico Incondicional com sincera modéstia, pois se a adesão às novas ideias carece de um domínio das mesmas invulgar, então que haja também uma suspeita construtiva da sua falência e que se lhe atribua as mesmas armas de quem as expõe com a sedução da esperança.

 

O exemplo do incentivo à preguiça que muitos entendem constituir as férias pagas não deveria, em nossa opinião, acreditar em si mesmo como um direito inalienável se, confrontado com a precariedade. Eis um exemplo de difícil perceção no convite - para nós, errado - a que não se abdique de algo que pode ser substituído por um outro bem--estar redefinido, e que seja ele, por hipótese, a distribuição interna no seio de uma família, através de uma gestão por objetivos dos gastos dela, nomeadamente extensiva na casa de uma Europa renovada, ou antes numa Europa nova na origem de cada um de nós, para que não arraste com ela o navio naufragado o qual também secou as esperanças em terra.

 

Os projetos-piloto de um RBI em Portugal e a nível europeu seriam seguramente mais sustentáveis e entendidos por um “público” carente de uma ideia de justiça ainda não concretizada. Contudo, presta-se a expressão «rendimento básico incondicional» a uma adesão rápida por grande parte da sociedade que nela encontra o cobrir de muitas carências sem que auto-inculque um contributo individual à resolução das mesmas. Todavia, para nós, haveria que atentar ao sentir básico do a quem se destina, para que o RBI se não tornasse uma inevitabilidade sem o contributo de quem por ele deveria modificar vida e nela modo de pensar e de estar.

 

A aplicação do RBI mesmo no que se refere ao ambiente, tendo em conta que os recursos da terra são escassos, será seguramente domínio de política gradualista, infelizmente, diríamos, tão gradualista que arriscaria perder a sua vocação de vanguarda se errada for a fase do ciclo político e económico em que fosse implantada, bem como o respetivo time lag de cada país ou de cada país na europa. Por outro lado a questão política na base do RBI pode aceitar não arriscar mais do que uma pseudo-inovação que cative o voto, ou, a política de hoje não fosse um estudo não feito daquilo que a ciência política, há muitos anos propôs como desafio: menor estado e melhor estado.

 

Lembremo-nos do quanto o RBI estava contido na temática dos impostos da célebre curva de Arthur Laffer que, nem por isso, constituiu uma liberdade para cada individuo demonstrar o seu grau de insustentação face à carga fiscal.

 

O gap estrondoso provocado numa sociedade biónica com consequências ainda de contornos indizíveis e sem precedentes, alterou e alterará a estrutura do emprego sem que se intua quem, de entre os pensantes, explicará com clareza a quem é dono do voto, o quanto a inteligência artificial é uma questão decisiva já do presente e, necessariamente, do futuro próximo que pode pecar por confiança ou defeito, mas que à escala global, e, consoante as políticas públicas e privadas, não será nunca, atente-se, uma via de criação normativa que impedirá ou incentivará os cenários de uma proteção social distinta da atual, a não ser por agravamento penalizador da sua sustentabilidade. Por óbvio, se questiona, o quanto a insustentabilidade do atual sistema de segurança social, e de estado social, poderá impedir o novo modelo de crescimento económico mundial de atingir os custos decrescentes, e com eles a capacidade de o Estado pagar atempadamente um RBI. Não deveremos ter em conta um fiel de balança que explique uma eventual incapacidade de mercado que pode ser substituída por seguros individuais que libertariam verba para o RBI, mas que poderiam induzir a um receio nas gentes, o receio de que afinal o Estado para eles falira, e este novo modelo não era mais do que um tamponar interpretativo dos seus novos medos de se verem sem o Estado, tal qual até aqui, por muito que ele já não seja a velha órbitra que no final, de um modo ou de outro, entenderia cada um, ainda era pátria o que se queria: ainda é nação o que se espera.

 

Queremos também dizer com isto, enfim, que o RBI ao desejar contribuir para a atenuação da desigualdade, pode e deve criar oportunidades até inerentes à desejável e já praticada redução dos horários de trabalho, sistema a funcionar já noutros países, com melhorias na qualidade de aprender a felicidade da opção do trabalho a desempenhar, estabelecendo um equacionar propício entre automatização e RBI.

 

Entenda-se que o saber do construir a vida, competência exclusiva de cada um, não será assegurada por robôs, ainda que robotizada se encontre a sociedade-modelo na qual se se vive, essa mesma, onde se deseja implantar o RBI e a sua genética, como se as juntas de transmissão dos valores dos homens, estivessem disponíveis a uma real mudança. Permitam que se duvide.

 

Ainda assim, independentemente de se dialogar sobre a melhor estratégia de sustentação deste sistema do RBI, independentemente de o mesmo ser visto como um melhoramento do antigo rendimento mínimo, independentemente da mudança nas políticas estruturais terem aqui o seu momento áureo, temos de evitar que o RBI seja redundante, seja uma adaptação tão tradicional quanto outras anteriores; ou seja, julgamos que a oportunidade e o seu sucesso reside sempre numa auto supervisão do modelo teórico, tao sedutor quanto a realidade atual pode vir a ser a melhor parceira a um casamento por comunhão de vários bens.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A vaidade dos desejos

 

Recordo uma história profundamente absurda que incidia sobre uma enorme quantidade de pessoas que ao terem alcançado uma imaginação desalmadamente prolífera, tão logo mencionassem qualquer coisa, e, ela logo lhes surgia ali mesmo à frente dos narizes. Este particular poder conferia-lhes uma vanglória ao anseio que os enchia de ares de tudo ser.

 

E como é complicado determo-nos nesta componente dos poderes, desta feita associada ao orgulho! Assim, e por bizarro que pareça, Aladino estabeleceu com estas gentes uma estranha relação bem mais prática que qualquer ciência pagã.

 

Um dia, estando D. Fernando a passear pela sua longa vinha junto ao Douro eis que lhe surge Rosália a mulher de seu grande amigo Pedro que naquele fim-de-semana lhe faziam companhia no solar. Rosália fundamentava os seus olhares a D. Fernando, no prazer conferido pela verdade da sua beleza madura e, aos poucos, nunca distraídos um do outro, caminharam, a conversar, até à bela adega encerada e de belos sofás de recantos que possuía a quinta.

 

E se nós fossemos capazes de controlar o cosmos, ó Rosália, já pensou nisto? Alguma vez o desejou?

 

Sabe Fernando, os meus desejos são mais antiquados, mais quedos, diria; o meu marido é, como sabe, um homem que se preocupa sobretudo com a objetividade do estado de um fumeiro e tanto lhe basta para me contar com um largo sorriso que este ou aquele ano até o presunto de salmoura terá melhor gosto. Creia que esta ligação digamos, à terra, me faz não pensar no cosmos que, seguramente até um beijo me levaria!

 

Fernando, vendo e sentindo a aproximação do corpo de D. Rosália bem como a chama do seu desafio, rapidamente tornou os três desejos num, chamou por Aladino enquanto esfregava a garrafa de porto e baixinho desejou:

 

Tira-me já de mim este reumatismo maldito!

 

Aladino não cuidou que D. Fernando desperdiçava dois desejos e de imediato cumpriu aquele que seria afinal o desejo de dois breves amantes em tons de rosa.

 

Mas eis que a garrafa, de súbito, escaqueirou-se no chão em pedacinhos, já que as forças sem reumatismo desalinhavam-se para se realinharem no corpo todo e entenderem agora os pesos por ele seguros.

 

Rosália, boquiaberta, avistou de súbito a idade de D. Fernando e a sua e apressou-se:

 

Era tal a vaidade no seu vinho, era tal o desejo que eu o provasse na sua companhia que enfim, um certo comedimento se impôs. É natural, disse, já toda corada.

Não Rosália, não foi bem isso. Eu é que pedi um elefante branco que visse tudo azul.

 

E por temer uma recarga do reumatismo, atirou-se D. Fernando, um tanto sem jeito, para um dos sofás, onde, para seu espanto acabara caído sentado.

 

A partir daqui, diz-se, prevaleceu nos círculos literários um estilo simples e menos cheio de metáforas híbridas que tanto assustavam os leitores, afastando-os dos livros e que bem mais os apavorava, diz-se, do que o vislumbre de um centauro resmungando aos troianos contra o propósito da Guerra de Troia. 

 

Teresa Bracinha Vieira

Ricardo Araújo Pereira

 

Ricardo Araújo Pereira: o poder da sua inteligência é contaminante: a sua capacidade humorística experimenta sempre o ceticismo perfeito

 

Quantas vezes ao escutar uma frase de Ricardo Araújo Pereira deixei soltar a melhor gargalhada que me condenasse a aderir ao seu raciocínio brilhante ou a desaparecer em estratégia sobrevivente pois, aqui não me apanhas, não comungo eu de verdades absolutas, isto caso fosse o caso ou outra coisa sobre o destino do homem que ri.

 

Já me imaginei no rio de Heraclito a lutar contra a corrente da História, enquanto Ricardo, ao leme, me olhava de jeito agudo, como só ele sabe, pois eu lhe recordava por gestos de grande caudal e com a ajuda do remo, que, ali existiam saídas por todos os lados, máscaras de oxigénio fartas enquanto os olhos vissem o céu e coletes de puxar guitas para o caso do S. Pedro estar distraído. Depois continuávamos a conversa do imbecilismo, iniciada na sua frase as pessoas não se tornam estúpidas, elas já nascem assim

 

As águas continuavam em proporções crescentes num irreversível estado de negação de se verem face a correntes mais serenas. E Ricardo insistia

 

A morte, muitas vezes (se não todas), acaba com o sofrimento; o casamento dá-lhe início. A morte é a morte e acabou-se; o casamento é mais cruel: é como uma doença. Daí a expressão «contrair matrimónio». Estar casado é uma condição que se contrai, como um vírus. O facto de o Código Penal de alguns países prever a condenação à pena de morte mas não a condenação ao casamento tem intrigado as pessoas casadas de vários tempos e lugares. Creio que o celibato dos padres tem como objetivo fazer com que a instituição do casamento perdure: se os sacerdotes soubessem o que o casamento é, sendo homens de Deus não teriam coragem de infligir o mesmo castigo a outro ser humano.“

 

E deitava para o alto dos seus quase dois metros o escutar de uma resposta minha

E eu atirava-lhe uma citação dele

 

Eu vou e chamo a atenção para o facto de a leitura ser uma atividade perigosa: D. Quixote enlouqueceu a ler romances de cavalaria, a Madame Bovary ficou meio maluca a ler histórias de amor e perdi a conta ao número de pessoas a quem a leitura da Bíblia ou do Corão fez mal.“

 

E ele gritava

Ah, assim não vale isso é batota, tens que me meter um susto, um susto absurdo que me elucide do teu grau de transgredir a reflexão dos árbitros dos jogos do Benfica. Vá, diz, diz depressa, a corrente é forte e o telejornal das 20h está a chegar e não o podemos perder, convoco-o todos os dias para lhe pesar a seiva mercantil e os interstícios dos seus textos ocos onde circula o sucesso. Até me comovo com tanto sensacionalismo de imagem e uso mesmo os lençóis XL sempre que me chega a consciência, mesmo à pontinha dos dedos!

 

Não digas?

Comungamos afinal! Pois não é que logo que estas correntes me libertem e eu, ai eu olharei para sempre o mundo pela memória da máquina e explicarei que tudo se saberá pelo não-questionamento, pela não-cultura, por todas as gamas de simplificação e Ricardo! nada como repetir o horizonte da expressão «contrair matrimónio» ou ler enquanto atividade auto- explosiva e

 

O bote rasgou-se na pedra, ou bem que és o homem do leme ou os nossos espíritos serão sugados a nível do para baixo, aquele das guitas do colete salva-vidas que leva o mundo à morte, ou pelo menos é o que nele está escrito a contrario

 

Olha, disse o Ricardo, todo a espenujar das forças, tenho uma última pergunta a fazer-te:

 

Tem o homem do leme o dom da fala?

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018

CRÓNICA DA CULTURA

 

O âmago da árvore permanecia o mesmo, independentemente da frondosidade que esta ia ganhando com o tempo; e as crianças faziam desse lugar - pois que o âmago se tornou lugar- um local de abrigo, nas brincadeiras do onde estás tu meu malandro que está na hora do almoço? E assim esta arvore se tornou a nossa substantiva referência das férias grandes e nela pensávamos quando o inverno na cidade nos desprotegia da ida à escola.

 

No âmago da árvore, com o passar dos anos, passou a existir toda uma cultura em todos os sentidos aprendidos de cor pelo mais íntimo de cada um de nós: da rima infantil até à cumplicidade com o primeiro namorado, a verdadeira fruição deste âmago de espaço oco da nossa arvore, centrava-se sempre num prazer de natureza simples e, aos poucos, na obtenção de um prazer de natureza mais subtil.

 

Um dos problemas do moderno mundo é que se fazem tentativas para se alcançar a simplicidade da modernidade em quase tudo, exceto no que respeita à alma. Todavia, o âmago da nossa árvore era desde muito cedo e ainda que o não soubéssemos, de tão cedo, de uma simplicidade de fundo de alma, ao qual eramos gratos pelo imenso conforto que nos proporcionava esse sentir, tão generosamente oferecido ainda que o não soubéssemos definir – até mesmo pela complexidade.

 

Nenhum de nós que conhecia o segredo do local do âmago desdenhava, dentro dele, até sozinho se sentar lá e devorar com entusiasmo o segredo de uma vida simples nos momentos ali vividos também em espírito simples.

 

Quantas vezes hoje penso que as formas de arte moderna revertem o seu passo na direção de um “primitivo” que as esclareça, e, que o seu erro, quantas vezes, é procurarem um âmago com altivez- que só ao saciar deveria respeitar- e que em penúltimos e últimos esforços revela afinal o objetivo de desenhar uma árvore que expresse o âmago de uma criança que esboça e consegue demonstrar a visão do sentir primordial.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro

A Mulher Infiel

 

Romance de Jules Roy com tradução de José Saramago para a Estúdios Cor

 

Jules Roy é um escritor da linhagem de Saint-Exupéry. Pierre Loewell recorda mesmo que é o único escritor francês que a guerra fez aparecer. Direi que não obstante os prémios que a sua obra recebeu, a profundidade com que escreve faz dele uma marca das obras clássicas. O presente romance foi Grande Prémio de Literatura da Academia Francesa e orgulho sincero de Nataniel Costa o publicar na Coleção LATITUDE da editora Estúdios Cor.

 

E também julgo que o meio-dia estava próximo quando no esbulho dos livros amados o encontrei de novo. Coloquei-o em cima da secretária.

 

Dentro e fora de um avião que se despenhara no mar, a mulher infiel, e dentro dele o homem que tão bem e tão mal amava a sua mulher infiel ou, tão só e tão tudo: a mulher infiel.

 

Sabia que o caminho até ela seria percorrido através dos homens que ela tivera e, no entanto, este caminho ia dar ao mar, para sempre num atrevimento de quem o decifrasse.

 

Um telegrama anuncia na base dos capitães a queda deste avião trôpego, mas que cumpria a sua função como nenhum outro, ou, o seu piloto, a cada dia não fosse nele como quem vai para o amor eterno e com ele medisse forças.

 

A morte podia tornar insuportável o que a vida de um modo ou outro ajudara a aceitar. A presença da mulher infiel que ainda não tinha tido conhecimento da notícia, era uma presença de corpo de desejo que desafiava as regras estabelecidas. Era uma mulher que todos queriam pela carga de felicidade que lhes tornava mais tensa a posse que com ela mediam forças para se não deixar partir. Era como quem dizia o dono sou eu.

 

Todavia, a espécie de alegria confusa e sombria, depois do amor, arrastava-se nos homens até a amarem e amarem e admirarem o marido, excelente pessoa, o melhor piloto da base, agora morto e que nunca explicara a tolerância do que fingira não conhecer ou ele não fosse o único que a levava, à mulher infiel, nos braços, céu adentro no cockpit do pequeno avião, conjuntamente com as asas que lhe desenhara para a eventualidade de um avião inimigo atingir o seu. Então, ele iria para o mar. Ela não. Diante da maldade dos homens, ela sobreviveria, e, eles, honrados como eram, montariam uma encenação de tristeza para reduzirem a crueldade de lhe terem roubado a mulher, a ele, um excelente colega, um corajoso e invejado piloto que tão bem entendia que os seus voos eram tão tiranos quanto a sua mulher, e se abandonados o trairiam. Quando é que abandonara o voo? Só naqueles segundos em que se via a despenhar no mar, e ela? Só naqueles dias a partir dos quais, sem querer, a colocara a seguir ao voo e com ela não fizera suficiente ninho na terra.

 

A perda de velocidade até ao mar, imaginada pelos colegas, fazia senti-los mais impudicos, e afinal ainda não a encontraram para lhe dar a notícia que qualquer um, só a queria dar com um beijo, ou mil beijos que lhe cobrissem a ela o grito e a culpa do que eles lhe tinham despertado. Pois que era menos desejada do que o céu, mas estava próxima.

 

Caiu ajoelhada que a culpa de não chegar ao mar com o marido era dela.

 

No início fora fiel por indiferença e por vocação e por deixar de competir com o destino. Depois os vestidos colados ao corpo sem nada por baixo, deram-lhe o que um dia repentinamente lhe faltara ainda que ao seu lado. E eis uma nova liberdade. E ei-la de joelhos. E eis que bem conhecia que os homens não possuíam o dom de observação e que a vaidade os impedia de acreditar que as mulheres lhe podem sempre ser infiéis. Mas não, de joelhos, gritava não, não, não, ele observava o céu. Eu sei. Ele soltara seguramente as asas, as minhas, para voarem sozinhas e não intuírem a horrenda morte.

 

Ambos os capitães que deram à mulher infiel a notícia da morte do marido estavam perdidos com o rosto e as palavras da amante, ali, ajoelhada à frente deles, quase nua, para eles agora, como algumas santas nas igrejas, e, a memória do marido morto, salvo enfim pela própria morte da humilhação extrema que ambos sentiam. Não sabiam o que dizer. Muitas tinham sido as indecentes menções que fizeram à mulher infiel. E eis que a busca amorosa estivera sempre ferida pela admiração ao marido da amante infiel. E por ela, provocante, sem medo afinal.

 

Julgo que colocado em cena este romance, aqui chegado

 

Só um deles a levantou do chão e ajoelhando-se, ele, lhe disse:

 

sei que me não vais querer, mas quero que saibas que o que sinto por ti é mais forte que a minha vergonha. A partir daqui, sim, a minha vida será banal.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018

CRÓNICA DA CULTURA

 

A criatividade é sobretudo a ideia nova da curiosidade

 

A fome da experiência diferente existe. O excesso que quebra o entorpecimento e nos faz sentir a necessidade de espreitar pela janela, é em si, uma abordagem da consciência sem medo das emoções: a raiz da força da ideia nova.

 

Pelos canais das intuições, as empatias do entender o fundo que se não mostra, separa-se mesmo dos outros sentidos, e, dão o salto sozinhas, num processo interno de diálogo e de recolha interpretativa à precisão das nossas perceções. Este um dos caminhos da intensidade e das razões por que ocorre; este um processo vivo de interatividade que até pode ser doloroso, insuportável mesmo, face à decisão do que fazer com a nova informação. Como reagir à nova cor? À nova palavra? Ao novo som? Como criar a nova substância, face ao que existia, quando em peças isoladas a intuímos?

 

Não é fácil. Há que abrir passagens na própria barreira das nossas emoções. Há que ter aprendido a necessidade da curiosidade, aprendizagem que sempre se iniciará e acabará no nosso coração, nem sempre generoso ao trabalho de sapa que nos leva às razões.

 

Criar é também tornarmo-nos fluxo e refluxo do nosso próprio entender, e expô-lo a interagir, e, por aqui, quantas vezes, enrolados nós até aos outros, e a luz do mapa que percorremos e que afinal não foi suficiente. Ainda assim a criatividade vai decidir como proceder para alterar esta situação e afinar desculpa, corrigindo o processo energético desperdiçado num saber que o não chegou a ser, ao menos pela diferença da criatividade e da curiosidade, ambas, quantas vezes, sem libertação suficiente para a todos convidar ao mais longe possível, por onde sempre podemos começar um décimo segundo passo, no validar da criatividade, atributo de uma curiosidade fértil e atenta e responsável.

 

Também dentro do ato criativo, dentro e bem dentro da curiosidade imparável, existe uma hospitalidade universal em nós, que significa um direito do que é estrangeiro e que chega até nós - sua nova morada - e não invoca acolhimento, antes visita, e nos convida a ir até ao outro lado da terra prometida sem qualquer mapa que nos oriente.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018