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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POEMA

 

E foi quando tomei os elementos por garante que logo arrefeceu súbito o ar nas minhas mãos. O frio das primeiras neves-alaúdes do saber provocaram um aperto absoluto, como sempre que os sonhos se repetem, e nos abandonam lisos, ensaiando à frente dos nossos olhos o ritual da morte do eterno.

 

Não sei se é esse o tempo dos desastres sem fantasmas, porque afinal o sangue se tornou cíclico, e eu, de vez, o entendi. Também não sei se me conciliei com a natureza por método nu, chegada que fui à sua morada de panos sobrepostos. Não sei, tão pouco, a que horas pedi servo ou serva, a fim de testemunharem que fui eu mais aquela que não posso controlar, que de concreto sempre falou da vida e no mar fez casa, sótão, cave e subcave, onde guardei poemas de universo. Poemas daqueles aos quais me fiz sem quebrar qualquer aliança com a realidade.

 

Devo dizer que reconheço a minha vida.

 

A espuma do mar foi meu telhado; sob ele, a beleza do poema que não procura estética, a força do passado em gruta de luz mutável, a fragilidade do amor numa coragem plena de morte frontal, e ainda as abelhas-biblioteca, tão nítidas, tão feras. Mergulho, mergulhei nos esboços rigorosos com os quais tentei entender o exatamente dito, escrito, acontecido, espreitado, sentido, vivido, quando e sempre atenta para dentro e para fora da vida e, enfim, para o equilíbrio, para aquele que limpa os olhos quando é sinal de verdade, sendo esta a beleza do poema quando poema.

 

Sou e tenho sido uma antena nas velas de um moinho que roda ao ar e por ele traz pão.

 

Escolhi desse pão para a minha casa e, ou a casa não foi minha, ou o pão mal se ouvia à chegada. Foi o excesso de violetas – disse-me à memória o meu avô - e, sim, elas decifram ressurreições e habitam-nos, foi quanto chorei pelas paredes a tua partida. Até hoje. Mútua curiosidade de mim para mim?, ou sei eu que quem parte foi quem deixou os segredos pelo chão?, ou quem partiu fui eu que hibernei fora do tempo? Não sei. Não me peças piedade nos beijos em simultâneo com os meus olhos nos teus, ela não existe para quem hesitou. Atenta igualmente que ela pode ir à frente de mim com outro nome, aquele que define que de ti, hoje e amanhã, o meu passo sempre procurou um voo conjunto.

 

Sei que através de ti muitas vezes, muitas, muitas, fui amor inteiro e tu em mim celeiro em secreta festa de tanto espanto, tanto segredo, que a construção possível do futuro se fazia em veias celebradas na paixão em êxtase, rosas, auréolas de seios, canela, jasmim, madeiras quentes, orientes, tudo teima a progredir para a luz e afinal dançámos, dançámos para nos entendermos em permanecer.

 

Obstinada recomeço-me em cada coisa.

 

Os meus pés escutam o chão do mundo e uso um vestido de fidelidade às pedras, à luz, a todos os bichos homens e bichos mulheres e bichos por autenticidade, para também buscar um deus que atravesse a vida ao contrário: da morte para o embrião.

 

Que instante!

 

Da liberdade, digo, celebro a chegada, adiantando-me ao luar-poente. Do barco lunar, salto para terra, seguida dos beijos do estrangeiro que um dia se aninhará em mim; eu sinto-o, exatamente durante o período que suspende qualquer separação, imediatamente depois de surgir aquele ramo de bétulas tão frágeis quanto os meus pulsos, quais talos frescos que ele tanto suga e parte. O tempo, o tempo reunido fora devorador. Ainda assim hoje o estrangeiro lê ponto por ponto o decifrar da fórmula e enfim, tu ao meu lado.

 

Voltei ao amor esse das limitações e das não eternas eternidades à proa e ao vento de todos os navios expostos às setas das luzes mais brancas e enfim se guiam.

 

E regresso à cidade e aos campos e às gentes e às estátuas e aos rios e às arvores e às sombras e a Hiroxima donde se levantam sementes de outros mitos que conheço de me questionarem o não-sentido do conjunto.

 

Bem sei que o jogo trilha intersecções que filtro algum detém, avultando-se além da morte.

 

Olho o poema e de novo lhe imploro que não me dê uma luz tão minha se acaso ela opaca já me enganou mais do que uma vez. Se assim for, emaranho-me num ponto de cruz, e por entre ele, insisto no rumo ao conhecer, mesmo que em paradoxo se explique e se povoe lá onde se acoita em mim indecidível, leve, funesto e infinito, o projeto do meu músculo-coração, tendo ele força para me afastar do que suprime a morte da ideia, ou o palácio, afinal, não tivesse sido a juventude do tempo, distante ainda da solidão, ignorante dos deuses vencidos, das horas iniciais e limpas,

 

da hora em que iniciei o meu longo exílio.

 

 

* “Speaking Through Walls" exposição na Tyburn Gallery em Londres.

 

Teresa Bracinha Vieira

A CURA VEM DE DENTRO

 

O sentido de alguma coisa está na sua relação com outra coisa: o Brexit é uma significação? Um conteúdo?, face a?     

 

Que se interpretem estas minhas palavras como mero desabafo face à realidade do Brexit, sem qualquer pretensão de com elas dar a conhecer, mais do aquilo que mendiga, este «écran-circo» que, para mim, eleva a voz da absurdidade, num mundo tão carecido de pontes e de uniões, de conhecimento e de culturas, para que se inicie um travão, pleno de conduto, ao sofrimento e à desigualdade que vêm impondo como caminho único, o destino dos homens.

 

Tenho dito muitas vezes que esta Europa para ser a Europa de um sonho, ela teria de ser melhorada desde o seu nascimento. Ela teria de ser aperfeiçoada, e aperfeiçoada desde o momento que, começou a agredir o seu próprio povo e a abster-se de saber mais do resto do mundo do que o código de barras que a maioria das notícias lhe leva a casa.

 

A partir do exato segundo em que os seus cidadãos se apressaram a convocar a U.E. apenas para aumentar a rentabilidade dos seus discursos, verdadeira galeria de seivas mercantis, aceites para encobrir o núcleo para onde escorrem a fim de contaminarem o sucesso da Europa, eis que se aponta o dedo a uma Europa de luz trémula como se a multidão que a compõe não constituísse muito da aparência sem essência, ora olhando representações de saque, ora restando-lhe desejados cenários de impunidade.

 

Então pergunto: será que o discurso de hoje não é também uma maneira de romper com o diálogo e fugir assim às responsabilidades não assumidas?

 

Vejo o Brexit como se naquela G.B. ninguém quisesse saber da importância das relações internacionais, num mundo globalizado. Como se naquele parlamento não existisse consciência de que as instituições internacionais se relacionam na ótica unida de espelharem soluções maturadas e não conflitos acanhados, como se esse fosse o cenário preferível, ao aperfeiçoamento desta U.E. numa terminologia internacional.

 

A União Europeia está a lidar com grandes desafios políticos como a crise dos refugiados e a própria zona euro. Não se nega que existem descontentamentos, mas o populismo e o nacionalismo que suscitam o lixo em tantas realidades no mundo que nos cerca, não renunciam à destruição dos valores fundadores da U.E. enquanto meta-mercadoria que se ajusta à guerra num jogo trágico que nada detém.

 

É preciso estarmos mais atentos a certos países da U.E., mas, se o Reino Unido entender que pode decidir sozinho uma realidade de relações internacionais com consequências globais, é para mim, atitude tão míope, tão corrodente à sua própria realidade que, estou convencida de que estes não são os seus interesses  sequer. Mais insegurança, maior desprezo por aqueles que já estão em pior situação e que serão os mais afetados, numa zona de estulta xenofobia e racismo, não gera apetência por uma sociedade internacional vizinha da solidariedade.

 

Aquilo a que tenho assistido, parece similar ao sentir de um país que no voto do Brexit assume um ato de quem parece nunca se ter acertado com seu próprio passado. Se é certo que qualquer país pode abandonar a U.E. como é possível que tenha sido a G.B, que submete a referendo essa decisão, depois de uma discussão tão pobre que, por óbvio, teria sido melhor resolvida se o tema tivesse sido menor e mais específico e com real desejo de ser obtido e não com real desejo de teatro político a conquistar os pequenos poderes que somados até a Irlanda esquecem.

 

Os dias correm tristes. Se este é o mais grave desafio do Reino Unido depois da Grande Guerra, pois que Theresa May revele a tolerância com que a U.E. tem tratado a G.B. nestas negociações inerentes ao Brexit, e, não faça crer que as atmosferas alteradas que enfrenta, são pelo grande motivo das negociações do Brexit, antes esclareça que se o sentido de alguma coisa está na sua relação com outra coisa: o Brexit é uma significação? Um conteúdo?, face a?, Sra. Theresa May?

 

Que eu saiba a cura vem de dentro.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA: A PRISÃO DA VIDA POR INTEIRO

 

O neto da D. Amélia - modista exemplar e orgulhosa de tanta sabedoria na feitura de qualquer modelo que lhe requeresse cuidados especiais – abriu-me a porta e balbuciou qualquer coisa. Entrei e esperei no hall onde uma perna artificial estava dependurada num cabide e agarrada a um sapato preto, parte integrante da perna, e sobre ele uma serie de panos e um punho de lã de alfinetes.

 

Soubera que a minha muito querida modista tinha tido a desgraça de aprender a dor da amputação de uma perna, devido a tremendos problemas de artrite reumatoide. Levava-lhe naquele dia, musseline para uma blusa e um ramo de flores escolhidas ao dedo por mim.

 

Mal chegou ao hall, rápida, na sua cadeira de rodas, depositei-lhe as flores no regaço e debruçada, dei-lhe o mais ternurento abraço que pude. Um abraço de 28 anos de modista e cliente amigas.

 

A D. Amélia retirou logo um lenço do bolso para enxugar a lágrima, apertou as flores contra o peito e disse-me com um largo sorriso

 

Ora vamos lá!, que saudades!

 

Pegou na perna pelo pé que estava dependurada no cabide e lá fomos as três para a saleta das provas.

 

Perguntei-lhe

 

Mas não usa a perna, D. Amélia?

 

Ó menina! Claro que não, até me faz feridas este trambolho. Sabe?, o hospital deu-ma e nem sabe que número calço e como vê este sapato é enorme. Depois o sapato tem ar de sapato de freira a fingir atacadores e tudo, e a perna, tem a cor de ter ido à praia verão e inverno. Olhe um mamarracho destes a que tive direito por tudo o que sofri!, e como prefiro andar nesta cadeirita de rodas, não quero usar a perna, mas faz-me um jeitão. Ao cabide não lhe chego:logo, ponho lá a perna pendurada por esta argola que o meu neto lhe arranjou, e, nela coloco os lenços ou alguns trapos de recorte a que chego facilmente. Quando vou às provas, levo-a comigo, e, além de ser fonte de riso meu e das clientes, coloco-lhe em cima os fatos a provar: uma utilidade pura!  Um buracão também, que, às vezes, tenho de virar ao contrário se da zona da coxa da tola, cai algo lá para dentro. É oca como tudo o que é tolo!

 

Amélia, não tem dores? Quis já começar a trabalhar? Não é cedo? Não poderei eu pedir outra perna para si?

 

Não, não se incomode. Já pedi eu e deram-me outra igual. Tinha duas e só me amputaram uma. Era uma cegada quem as via ali dependuradas…«ah!, afinal tirou as duas perninhas?» e eu que nunca fui de ter mais do que aquilo a que tenho direito. Veja bem que até um dia até me assustei: olhei para as duas pernas dependuradas e de repente olhei para mim. Não sei como foi isto, mas parece que me assustei pois sabia que só me faltava uma, mas tudo é possível. Então mandei o meu neto entregar uma delas ao Sr. Dr. lá do hospital, e veja que ele perguntou de jeito bruto

 

Para que é que eu quero isto?

 

E o meu neto, que se não fica, respondeu-lhe

 

Mas para a minha avó já serve não é? E veio-se embora.

 

E ria-se a bom rir, olhando por cima dos óculos como quem pergunta: percebes?

 

Bem! D. Amélia essa recuperação vai correr bem.

 

Ah! Pois vai, não sei se lhe disse, mas o estafermo do meu ex-marido que chegou a advogado à conta dos meus alfinetes e da minha coluna, ele morreu. Viu? Estava bem e morreu. Estava com a amante e morreu. E eu ainda cá estou! Foi a vida do Dr. Ai que linda musselina me traz. Que vamos fazer?

 

Olhe D, Amélia – menti – ainda não sei. Tem alguma sugestão?

 

Claro que sim. Não é o seu marido muito ciumento?

 

Sim.

 

Então vou fazer-lhe o que a musselina der, mas vai andar vestida unicamente com a macieza nua dela. Ou seja, vai andar linda como sempre a vi, todavia despida sim, de uma forma mais completa. Desde que me cortaram a perna ou desde que parei de chorar, mudei a minha criação nas roupas. Acho que o corpo, quando se veste, muitas das vezes perde a definição e assume uma pele que a roupa lhe empresta. No fundo, é melhor que tudo acabe confundido.

 

Perna no cabide ou sem perna na cadeira, tudo carrega presenças, até o que é volume vazio. E nós andamos aqui a enfeitar a epiderme que tantas memórias criam ao corpo e um dia abalroam-nos. Olhe menina, é o que mais sinto que me fizeram. Abalroaram-me e deixaram-me com uma parte de mim e uma crosta a segurar o resto. É uma espécie de uma guerra, mas constante.

 

Enfim, não preciso de medidas, já vi que são quase as mesmas: fronteiras que conheço há tantos anos.

 

E como está o paizinho? Doentinho não é? Chatinho, não é? Ai desculpe, mas ontem vi um filme em que a filha punha o pai no alpendre à hora do trem e um dia ambos viram o tempo e começaram a dar-se melhor. 

 

Teresa Bracinha Vieira

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

 

«A poesia (…) pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar.» 
Arte Poética – II

 

 

Pois te digo Sophia

 

Que sinto uma neve a embranquecer mais

Esclarecendo a vida mergulhada na vulnerabilidade

Onde e aonde expõe por fim toda a paisagem

Sempre que as exímias tuas palavras

Me levam pelos bosques para deles

Outra bainha outro sentir

 

E diria

Eis uma memória encontrada e coligada

A focos de luz boreais

De volta à nossa casa tão espessa quanto o coração

Tão revivida quanto o sinal mais inquietante com o qual dormi

Numa inesperada cadência que acreditei ir aclarando o coração dos homens

 

E tu sabes e eu 

Recordo-te

 

Sophia

 

Que nos olhamos por entre cortinas sobrepostas

Quanto te leio

E nos faço olhar as duas ao espelho

Àquele que é criatura de liberdade

Onde semeias/semeio

Os beijos

Cheios daquela vontade antiga e de agora

 

Tu

Ramificada pelo mundo

Nele a insinuares-te com contorno próprio

Entre a não liberdade da origem

E a vital presença

 

E sei que suscitas e suscitaste a surpresa

E sei que o lago me espera

 

Sophia

 

Tenho os teus poemas nas mãos

Vou com eles nadar de leve

 

A vida volta

 

Participámos já na grande festa da eclosão

Dos seres?

Ou a tarefa de sobreviver já nos iniciou na pequeníssima parte de um poema?

 

Ninguém pode compreender o que cada um é

 

Ninguém explica o não recordar-se

A chave é minúscula

Só quero saber evadir-me de um mundo a outro

E encontrar-te tão feliz

Como afirmaste sentir-te quando te sabias de partida

 

Sophia!

 

Talvez se possa partilhar um ir

Mas nada o explica

 

Cada um pode não ser mais do que aprendizagem

À procura de um ponto de encontro

Daquele mesmo

De onde voavas com o pássaro

 

Com aquele que se unia a si mesmo

E te fitava no voo e tu eras ele

Mais do que um cristal

Absolutamente límpido

Absolutamente lúdico

E tu, Sophia

 

Reconquistada

 

 

Teresa Bracinha Vieira
Janeiro 2019

TINTIN

 

Camilo,

 

Sempre acontece querer dizer mais de uns textos seus do que de outros, não por faltar qualidade a algum deles, mas, porque saltam palavras mais diretas aos olhos de cada um que as lê e todos somos diferentes no que o olhar, nos olhos, segura.

 

Quando vendi o submarino e o foguetão de Tintin, ambos adquiridos em Paris num antiquário, senti que podia ir neles escondida para poder chorar e rezar quando quisessem fazer mal ao Tintin, ou, se ele se visse aflito na decisão dos seus percursos, pudesse estar eu sempre próxima e atenta e sofresse com ele as loucuras, e mais, pudessem as minhas lágrimas salvá-lo e por elas rezando ao mistério, rezando às perplexidades que buscava nos cantinhos dos quadrados da banda desenhada. O meu pai atualizava a minha coleção de banda desenhada, constantemente, e, recordando-lhe eu sempre essa necessidade sem cerimónia. Colocava ele quase em segredo em cima da cómoda do meu quarto os novos cadernos de Tintin, a fim de me espantar de encantamento quando eu desse conta de que as histórias afinal eram libertação.

 

Quando vendi - promessa cumprida a quem vendi - os objetos que faziam capa das revistas de Tintin, logo pensei que nesse dia tinha crescido muito ainda que não entendesse para que lado.

 

Hoje ao ler o que o Camilo citou

 

Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo (confissão de Alberto Caeiro)  

 

julgo ter entendido o silêncio que muito me fez crescer, mas agora de um outro jeito. Julgo tê-lo entendido como uma possibilidade rara de ser fundamento da própria transgressão: uma seiva. Sim, uma seiva que nos é divulgada existir, mas muito por dentro, muito por comunhão.

 

O António Alçada não era tão tranquilo quanto parecia – assim o compreendi também, e o seu filho Luís, confidenciou-me um dia, ser igualmente essa a sua opinião - e por isso no seu livro de homenagem, e ao contrário de todos os que nele participaram, depois de umas palavras minhas, citei um poema de revolta do seu poeta O’Neill ou não tivesse sido esse poema o que ele escolhera depois de, alternadamente, lermos um ao outro uma das aventuras de Tintin, enquanto a minha mãe nos olhava através de seus contagiantes olhos verdes, e, nos referia, de outro modo, a nossa, a de todos, coisa mais tremenda que há em nós: a incapacidade de total consciência lúcida.

 

E enfim, o despojamento de que me falava o Alçada, sobretudo nos largos meses antes de partir, tinha muito de religioso, muito de clarividência, muito do conteúdo do destino que, em paz, cada um devia tentar aceder sobretudo pelo silêncio.

 

Deste modo Camilo lhe agradeço o texto que enviou, círculo de luz, aparência e essência, e que todos os dias e noites de claro, saibamos olhar o mundo também pela memória.

 

Sua Amiga Teresa

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Bossa Nova: milagre de amor que escorreu dos meus olhos quando

 

em 1970, entrei no Canecão - sala de espetáculos situada no Botafogo, Rio de Janeiro – e Vinicius de Moraes, Tom Jobim, a cantora Miúcha e o violinista Toquinho, deram-nos a ouvir uma joia da música brasileira ao vivo, qual joia mais tarde também brilhando em Buenos Aires com Maria Creuza na boate La Fusa.

 

De repente, senti que acabara de sair do avião, e à minha volta um calor de abraço único que nunca sentira em local algum e me penetrava à medida que a cidade maravilhosa se expunha, jubilosa, forçando o meu sonho a interpretá-la, real. O mar, uma alegoria ingénua e mulheres-deusas disto e daquilo, e tontas e seminuas, ao longo do calçadão de Copacabana, moviam as ancas quais jangadas convidativas ao nosso ouvido. E eis Ipanema que surge num repente, virando-me eu ainda no carro com o Pão de Açúcar num tudo em mim, uma floresta da Tijuca muito donzela e sem que eu a tudo pudesse dar o que já era, apenas suspirar deslumbrada por aquela chispa da areia doirada, sempre a bordo do meu olhar, tão frágil até onde ele foi, tão desembarque, tão terra nova.

 

Depois, morria a tarde numa divina fragância, momento por momento, em Búzios, e nós nos preparávamos para a ida ao Canecão naquela noite.

 

O meu desejo crescia e espalhava-se à minha volta como uma aia, no trautear das letras das canções da Bossa Nova que conhecia e que escutaria, lacaia da sua chama em mim e ao vivo. E a Aninha prendia os meus longuíssimos cabelos numa flor e cantava-me

 

tem de ser…Amor?...- chama, e, depois, fumaça:

 

O fumo vem, a chama passa…

 

E respondi orgulhosa: sim, conheço Manuel Bandeira, nessas tuas palavras. E conheço o que ele publicou no livro Libertinagem em 1930. Por causa de saber a leitura desse livro, eu digo-te Aninha: um dia fui-me embora para Pasárgada pois lá era amiga de um rei e escolhi um homem e a cama onde com ele me deitei. E, como era cheia de graça e bendita entre as jovens mulheres, Santa Clara me clareou a partir de uma única vez, e sem medo e sem saudade o deixei: foi quando certa rua começou algures, veio dar ao meu coração e comecei a roubar-me. É assim que sei! Um dia explico-te, melhor, se for capaz.

 

Esperavas que te dissesse isto? Não te impressiones, nada sei da Bossa Nova, sei que a amo e olha, vê este papel escrito por Vinicius, não digas ao pai que eu o tenho, guardo-o neste amarrotamento debaixo do meu travesseiro.

 

Bossa nova – para citar esse grande new yorker que foi o poeta Jayme Ovalle –, é mais a namorada que abre a luz do quarto para dizer que está, mas não vem, 

 

Bossa nova é mais um olhar que um beijo; mais uma ternura que uma paixão; mais um recado que uma mensagem. 

 

Bossa nova é mais uma moça triste atravessando a Broadway 

 

Bossa nova é mais a solidão de uma rua de Ipanema que a agitação comercial de Copacabana. 

 

Bossa nova é a nova inteligência, o novo ritmo, a nova sensibilidade, o novo segredo da mocidade do Brasilovens a seus pais e mestres: uma estrutura simples de sons super-requintados de palavras em que ninguém acreditava mais, a dizerem

 

que o amor dói mas existe;

 

que é melhor crer do que ser cético;

 

que por pior que sejam as noites, há sempre uma madrugada depois delas e que a esperança é um bem gratuito: há apenas que não se acovardar para poder merecê-lo."

 

Julgo que ele disse isto numa entrevista que deu enquanto tomava banho na sua banheira, onde gostava de estar no banho e onde, julgo, morreu. Assim se dizia na Capela do Rato lá em Lisboa.

 

Aninha, vamos ouvi-lo ao vivo daqui a pouco e saber também de

 

Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Elis, Toquinho, Carlos Lyra, Edu Lobo, Caetano e tantos que cantam Bossa

 

Vá ajuda-me canta comigo, tu és de cá:

 

Tristeza não tem fim, felicidade sim

 

E já no carro, ambas perguntávamos constantemente ao motorista quanto tempo faltava para chegarmos ao Canecão

 

e ao passar em Ipanema

 

olha que coisa mais  linda mais linda mais cheia de graça é ela que passa

(…) Ah porque estou tão sozinho

Ah porque tudo é tão triste,

Ah a beleza que existe 

A beleza que não é só minha

….que também passa sozinha

Ah se ela soubesse que quando ela passa

(…) o mundo fica mais lindo por causa do amor

 

E a outra e a outra canção

 

Um velho calção de banho

Um mar que não tem tamanho

Um fim de tarde em Itapuã

Falar de amor em Itapuã

 

Mais ou menos assim, não é? E atrasadas entrámos no Canecão. Fui caminhando em transe até à mesa dos nossos amigos. O meu padrinho Alçada estava lá, não recordo se com Jorge Amado pois estive em casa do Jorge com o Alçada algumas vezes, mas desta anterior, não me lembro se ele estava ou não, eu só queria multiplicar-me para parecer mais um animal livre vestido de neblina já que começara a chorar por ver tão soberbos poetas tão perto e os meus olhos sem glórias escutavam e julgavam compreender Vinicius e a Bossa Nova e os ritmos dissolutos e os sonetos da despedida e todas as meninas afogadas no transito da vida que só as levava às margens.

 

Há a sensação angustiante de uma mulher dentro de um homem

 

Porque hoje é sábado!

 

Deus meu! Eu ouvi ele dizer esta canção falada! Porque hoje é sábado! E…

 

E por toda a minha vida eu vou te amar

A cada despedida eu vou te amar

 

E quem assim cantou casou e se divorciou 7 ou 8 vezes?

 

Caetano Veloso e Edu Lobo, estou a confundir? Mozart ainda não entendo. E o Jazz? E?

 

E eu que andava perdido ao encontrar você eu entendi ???

 

E a Tonga da Mironga do Kabuletê? Lembras-te? E lamento no Morro?

 

Ouvi dizer que no Rio de Janeiro, o termo Bossa Nova passou a ser utilizado para nomear o talento especial de uma pessoa a fazer algo. Neste sentido surge no samba “Coisas Nossas”, de Noel Rosa, que diz “O samba, a prontidão e outras bossas/ São nossas coisas, são coisas nossas”. Mais ou menos assim nos disse um amigo do Alçada.

 

Ai meu brasil brasileiro três vezes voltaste à flor e bem sei que te afogarás não sejam as redes por ti do meu amor. Escrevi isto num papel, dobrei e dei ao António Alçada. Levantei-me da mesa com a Aninha. Despedimo-nos de todos. Deitámos um olhar largo como se nos desse este olhar a certeza absoluta do que ali se passara.

 

Quando voltávamos para búzios, a noite parecia um corpo em cruz no meio de uns braços fortes que o lavavam no mar. Estávamos num silêncio imensamente eu e a Ana, duas inocências acesas. Por mim sentia que não tinha vivido um sonho, sim, uma existência: na carne, na fadiga, no pudor, na casa das ideias, no trópico encantado, afinal, tivera a visita das belas feras do Pantanal e não tivera medo, antes queria brincar, brincar muitíssimo, sentir a Natureza desacordada ou não te amasse tanto.

 

SARAVÁ! 

Teresa Bracinha Vieira

CHARLIE CHAPLIN

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Teus olhos perscrutantes são meus olhos vagabundos. Tua irmã sou, se me aceitares

 

E como disseste “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre” e só se conhecem céus, conhecendo as noites fundas do ódio, do poder cego, do desprezo e da clemência do amar que exprimiste mudo com a extrema dignidade de um cavalheiro. Na tua cartola, na tua bengala de bambu, no teu fraque, nos teus sapatos imensos e desgastados, não foste grande, foste gigante e nunca foste o fim de uma era, ou não tivesses partido deste mundo que encheste de significado durante a gentileza do teu dormir.

 

Em 1977 ano da tua morte, juntamo-nos um grupo de amigos para falar de ti para homenagear algumas das tuas frases. Tudo o resto, pois que o teu resto é mundo todo, já sabíamos que se vai fatiando deitando laço à idade que nos chega

 

e num espírito sem clausura, tu

 

Se matamos uma pessoa somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis”;

 

“Amo o público, mas não o admiro. Como indivíduos, sim. Mas, como multidão, não passa de um monstro sem cabeça”;

 

“A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la - mas quem consegue descobre tudo”;

 

Enfim o que pode extrair a nossa imaginação dos teus filmes expressa bem o quanto neles o que importa não é a realidade.

 

Sempre o meu choro ao vê-los foi meu aplauso total. Sempre senti uma dor brilhante naquela mímica. Deixava-me a pensar nos corações de estopa lacrimosos a expor as suas contradanças e repudiava o que ainda hoje repudio: refiro-me ao eterno jardim sempre prostituído por malabaristas de estudadas esgrimas.

 

Agora, de manhã, quando te escrevo, é tudo grato…mas Chaplin ao meio dia já muito é duro, a noite é amarga, e, ao amanhecer, contigo também aprendi que do vagabundo despertam aos poucos as ânsias de caminhar e assim a andar nos pomos.

 

Grata te sou pois julgo ter entendido de ti um jeito de conhecer o indizível do morrer, da perda dele ao largar o mundo já que me deixaste a hipótese de encontrar no negrume o que resta da luz.

 

PS

A vida é maravilhosa se não se tem medo dela, sim é certo Chaplin, e é um texto irreversível no qual para irmos a jogo haveria que inventar outra comédia humana, outra trave mestra que fosse um outro dia, de repente.

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTA AO ANO VELHO

 

Fica onde estás ano velho ou não dominas tu agora tudo o que se passou e que sempre no tudo e à tua beira esteve o mesmo erro? Que mais queres que te leve para além da manta de brisa marítima confiada apenas aos que se vão e sobrevivem? Diz-me, que mais queres? A mim me tiveste e sou eu que saio de manhã ou tu que partes pela noite? Não sei. É teu jeito retomares o interrompido antes de partires para acrescentares novas dúvidas, e que pelas mãos dos homens e das mulheres elas cheguem ao novo ano pois que esse é teu desejo-força. E a que horas o fazes? Não perguntes. Diria que a nenhuma em especial. Foste fazendo enquanto te oferecias a ser vivido e isso é de uma importância vital e sem misericórdia igual à de quem colhe campos de algodão e se fere e se sangra e só assim se afirma lá num canto onde descobre o quanto se pode suportar.

 

Ano velho te digo que sempre eu mesma e meus vizinhos, reconfortantes, cruéis, reais conheceram o espinho que astuciosamente se escondeu entre nós, e, todavia a denúncia não teve lugar, ou o amor não fosse também género de ligadura que reclama cidade e reconhece cidadãos, guerras, mercados, escolas, notícias, versos e tudo o que se vai buscar para voar connosco. As fotografias? Claro que se intuem nos pratos, na comida, nalguma gaveta da mobília, nos credos e nos sermões, nos seios descobertos ao amor e nas razões e o que é a vida? As fotografias? ano velho? têm a maior e a menor das fés: acreditam-se num instante.

 

E sim, já me sentei pacientemente no banco de uma igreja escutando de ti um Evangelho e aceitando o papel de um homem que me deixou instruções antes de uma viagem. Em tudo, o passado nos impele, ano velho, e, precisamente da mesma maneira. Não sei o que ainda não experimentei ou o que está para vir, mas sei que isso será infalível e terá de ser suficiente.

 

Ninguém será esquecido.

 

Ano velho, de ti não soube a que hora é a eternidade, mas atenta que percorri os degraus de baixo devidamente, e, ainda subo, e conforme subo, lá bem no fundo reconheço um Nada enorme, e, a minha robusta alma a fazer-lhe frente ou, não soubesse que, ao ano novo que chega, não existe mesmo melhor modo de lhe dizer, aqui estou! e vou chamar-te canteiro, postigo, orla, prazo, légua, encontro, caminhante

tua

 

Teresa Bracinha Vieira

2018/2019

CRÓNICA DA CULTURA

 

Das estrelas: pois que já nascemos

 

Tantas vezes são as que penso que Dante procurou o modelo do seu inferno no nosso mundo real e sem qualquer dificuldade o descreveu. Contudo, quando narrou o céu, enfrentou-o uma inexcedível dificuldade, pelo facto do nosso mundo não oferecer nada de análogo. Cada um de nós tem um arquidiabo e vomita que sofrer e morrer e esquecer a fraternidade e a solidariedade é modo de nos matarmos mutuamente como destino. Enfim, se as dores deste espetáculo de medo que é o mundo nos entrassem em antros pelos olhos, reconheceríamos rapidamente a que espécie de mundo pertencemos. Seres atormentados só subsistem a devorar-se uns aos outros, e só se conserva a vida a preços do sofrer, e eis o absurdo gritante de tudo isto. Os olhos, e neles o olhar gelado, no meio da dor que os tenta a uma outra vontade de viver diferente. Mas eles quedam-se sem vacilar, não se fundem a não ser com eles mesmos.

 

Os otimistas de uma espécie harmoniosa expuseram-nos este mundo com uma candeia, guiaram as nossas interpretações, e giraram os nossos olhos para um lado da vida que fizesse pensar ou refletir. Tentaram. Ensinaram-nos que a existência humana é naturalmente um sonho efémero e assim deve ser aceite e vivida, e que os dias com fantasia não são de todo a razão oposta de um cadáver nos fazer sérios e silenciosos de repente, são sim, o sentir ali, um campo de batalha que a todos respeita e um dia ele nos tocará exigindo-nos o essencial. Um dia, há sempre um dia, em que terra e mar se mesclam e nas nossas mãos um irreconhecível gelo não permite qualquer fruto. Chega então uma dor inteligente, pode imaginar-se mesmo uma dor que nos aumenta a sensibilidade e nos faz sentir nas tragédias e nas comédias, atores de gabarito. Afinal quanto tempo andámos nos repastos do nada? Durante quanto tempo nos sentámos desprovidos de alegrias na pedra agelasta? E se tudo isso tiver sido em vão? Se até a história natural da dor for em vão? Que caçada estranha em que caçadores e caçados dividem as suas próprias carniças. Vive-se em privação mesmo quando se tem filhos, e muito se vive em casamentos forçados connosco próprios em que divórcio algum nos chega para autocrítica.

 

Contudo Romeu e Julieta adquiriram uma gloria imortal sobre o poder do amor com uma força e perseverança incríveis, embora vítimas das circunstancias exteriores que os separavam. Não creio que nos seja possível duvidar da realidade do amor, no entanto, uma questão tão importante deixada sobretudo ao dizer dos poetas, sinto-a, confesso, algo descurada dos caminhos dos filósofos, e, mesmo relendo Platão, nele encontro o amor grego, um domínio de mito e de jogos de palavras. Ainda assim na vida real o amor é a mais convicta de todas as molas como finalidade do esforço humano para a felicidade! Crê-se mesmo que no sono da morte do amor ainda existem sonhos. Estranho conforto de um fiel traidor que assim nos surge em jeito de prolongamento de existência. Mas enfim, creio sim que projetar a geração seguinte numa condição de entender o amor como algo que seja escolha individual e instinto e chave e diversidade, não se trata de uma vantagem individual, mas antes meio de garantir uma outra constituição da humanidade futura, porque o amor se transforma em vontade de espécie, e, ainda que seja dor, relativo a um bem de todos nós, não valerá ele a pena? O áspero realismo dos limites que vivem no amor é infinitamente mais nobre do que os sentimentos letais que desafiam esse amor. Ainda assim há que estarmos atentos porque a nossa natureza precisa de ser admirada e, deste modo, o ser que é a pessoa amada, nosso alvo da criação, somos nós, constituídos de um suposto novo ser diferente na nossa natureza, e esse ser não se contenta a não ser que sejamos nós o essencial.

 

Afinal que seres mal constituídos e desarmoniosos somos nós? Somos até a intriga que um dia conduz ao desamor e um dia ele não é mais do que um desenlace acessório. Aqui a força definitiva da morte acode-nos, se o ser amado partir e nós, nós, logo de modo exclusivo, ousamos descrever o que enfim foi nosso e tudo o que diz o mundo não impele à verdade de nada: nós somos finalmente essa verdade; essa dor, essa realidade de pacto e rodeios e manobras e limites e esforços, e de tudo isto, só nós temos a propriedade registral e mesmo assim somos infelizes! 

 

Creio que em todos os fins que a vida humana tem, digno de consideração e de dor interpretada será sempre a impossibilidade de viver o amor, pois ao trocarmos os olhares que não destroem a vida, eventualmente seremos capazes de uma harmoniosa criação de sentires. Eventualmente

das estrelas: pois que já nascemos

numa luta de vencidos entoada na Aleluia que tanta sabedoria exige

 

Teresa Bracinha Vieira

OS GURUS DOS INTERESSES PESSOAIS

 

Teremos ajuda nas nossas necessidades se falarmos a quem as possa ajudar a eliminar, transmitindo-lhes com exatidão, quais as vantagens deles, nesse ato, já que a perseguição do interesse pessoal é a grande motivação para que tenham lugar eventuais ajudas, e apenas terão lugar essas ajudas, desde que guiadas pela maximização do interesse pessoal e não pela solidariedade, pela humanidade, pela generosidade, pela justiça, pela humanidade.

 

Mas as moscas, esta espécie de moscas infetadas que habitam o termo da história, minam ininterruptamente e de há muito, o último jardim cujos moinhos e canaviais contribuíam à distribuição das aguas de beber, e, por ali a origem fenoménica do Conhecimento enraizava-se na sua historial origem, uma origem, diria, anterior ao Pensamento ligada aos seres do porvir e do antevir que comungavam uma pululante vida, sem entropia, nem termo, nem destino inquieto, nem nirvana: apenas e bastante multiplicação de valores, de enigmas, de questionares que afinal poderiam conciliar o homem nas somas que abusam, e vão ao limite das possibilidades, e tal era sempre a nossa opção sem cansaço.

 

E os coletes amarelos e roxos e pretos e brancos, cor da súmula das cores, não surgem, parece-nos, como flores da ideia de Deus cujas emoções desamparadas no mundo os fazem acolher nos braços, essa emoção, e por ela lutarem. Diria sim, que também os coletes dos muros todos do mundo, parecem apenas ter como função equiparar preços de escravatura imperecíveis nas balanças dos gurus dos interesses pessoais, que vão admitindo existir, e bem sabem ser esse caminho da luta forte e vencedora pela eternização deste novo estar visível de há muito.

 

Mas os coletes também são sons primordiais de uma razão, de um lancinante grito que cresce apalpável na dor e na esperança.

 

Afinal estamos lançados num mundo no qual quanto mais nos debatemos mais nos enredamos na teia preparada a nos tolher; e a grande aranha ali nos deixa, ela, intocável, transparente mesmo, qual predador perfeito que apaga o caminho sem qualquer rastro.

 

E nós? Ficamos a esperar por paradoxo?

 

A economia do equilíbrio que tanto desejávamos casada com a filosofia moral se, incorreta, face ao princípio do seu comportamento por interesse pessoal, é causadora da deficiência consumada e sem retorno do pobre cada vez mais minguar e do rico medrar nicho a nicho numa existência facilitada.

 

Que eu saiba os sonhos também se aproveitam dos materiais de cada dia vivido, então pergunto: onde e como enfrento o pouco ou o nada desses dias que coincidem com os fins dos tempos? E como as sobremaneira arrogantes, ditatoriais, populistas, ignaras, são representantes do mando no mundo, mesmo que bastardas da condição humana?

 

Cada vez mais os viventes de superior razão e exemplar sentido são tratados, quanto muito, como silhuetas, e mesmo que tenham forma e dor de homens, a grande Coisa Absurda despe-os até que o senso se esvaia.

 

Depois, depois quando não se saiba já que ideia têm os outros de nós, que ideia poderíamos ter dos deuses e eles de nós, querem-nos fazer crer que é tempo de subir às arvores que existam, e, por lá deixarmo-nos cair bem fundo nos mediterrâneos do mundo, e tudo sem vergonha assumindo a irredenção da culpa.

 

Doravante as guerras e as torturas serão arbitradas entre medo e esperança devidamente codificados, sendo que poucos foram os que até aqui questionaram sequer se alguma vez tinham questionado.

 

A consciência faz-se densa e incendeia-se e descreve um círculo sobre um céu desbotado. Receia-se que ela, abutre, vagueie com algo ligado à morte ou aguarde em desmaio, um estado de rascunho perpétuo, por muito que queira acreditar nas realidades com unidade e sentido que lhe salvarão o coração de tão potentes e famintas aves negras.

*

Agora deixem-me, vou sozinha. Um qualquer inseto espera-me. Ou tenho-te a ti, no colo, na amizade dos meus joelhos.

 

Teresa Bracinha Vieira