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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

CRÓNICA DA CULTURA.jpg

 

A ilusão da pós-verdade chama-se mentira. O medo do outro e do diferente só se supera com partilha de responsabilidades e melhor democracia. É de economia ciente da importância da cultura como criação que falamos.

por Guilherme d’Oliveira Martins in Jornal Público / 07 de agosto de 2019

 

E de facto ao olhar para a ponte de Mostar em 1982, o sonho que haveria um passo comum em direcção a um futuro melhor foi-me claro. E foi-me claro pela história da responsabilidade que o pluralismo da democracia a todos chamaria; e foi-me claro pelo impacto da cultura que vivi naquela viagem de meses à Jugoslávia; e foi-me claro porque não queria uma coisa abstracta situada no futuro de todos nós: uma coisa abstracta com nome de mentira.

Acreditei que todos nós chegaríamos à conclusão de que a alteridade dos outros é parte integrante da nossa humanidade. Acreditei que a cultura dos povos seria tão criativa que animada por vontades objectivas desmontaria as instituições imperfeitas, as económicas e as outras, e só o seu prenúncio impediria a compreensão incauta da globalização.

Estava longe da brutalidade com que os vários tipos de terrorismos saltariam das televisões defendendo a lucidez dos estados em pânico como realidade ancora em vontades, ou seja, em votos mesmo não expressos.

Navegar nos barcos de Klee deixou de ser política de acolhimento e defesa de um interior espírito de desafio à criatividade nas mudanças estruturais de vida. A partilha de riscos na determinação do bem-estar não se concretizou como messias à construção da prosperidade na idealização da cultura e da civilização.

E é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores.

Há que nos desviarmos de guiões que nos são sugeridos mesmo quando não pareça; há que entender os traumas do passado como base para discussão de possibilidades futuras; há que estarmos atentos à actualidade que se move à nossa volta cheia de nostalgias para que nacionalismos sejam a solução lacunar das democracias.

Não podemos dizer que precisamos de tempo pois já não há tempo para nos redimirmos das desatenções. Os pensadores receiam que nem as ciências nem as artes possam ser suficientes para seduzir as plateias de vidas que não prosperando, têm o poder dos saltos violentos como solução e pseudo sustento ideológico para justificação comportamental de si mesmas.

Por isso mesmo, neste caldeirão

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores

sem os homicídios das guerras e a atribuição estonteada de culpas.

A distância que nos separa dos totalitarismos não nos deve deixar baixar a guarda.

Quem joga? E o que se joga? Quem é o senhor do Jogo?

Como é a noite sem estrelas?

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem nos conformarmos com a condição humana que nos coube.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

CRÓNICA DA CULTURA

A EUROPA uma possibilidade.jpg

 

   A EUROPA: uma possibilidade

 

Creio que se deseja uma Europa que consiga preservar a paz, uma Europa próspera, uma Europa em cuja cultura civilizada os cidadãos se identifiquem, desafiadores de um futuro responsável, responsável também pela ordem social que abarca a procura de uma justiça justa, uma justiça fora dos cenários das utopias, uma justiça como condição única e natural forma dos povos se entenderem e se serenarem.

Quero crer que se deseja a Europa! Quero crer que esse desejo é consciente de que terá de ser urgentemente realizado nesta Europa, um imediato futuro diferente daquele por onde tanto errámos. Em rigor, também sinto que o projecto de integração europeia, na actual União Europeia resultou nesta Europa sacudida e doente; tombada pelas mãos das inúmeras políticas e instituições que dela se serviram para a abater, para a partir em tantos pedaços quanto os necessários à manipulação da sua fragilidade, de modo a que o seu reerguer não se pudesse concretizar.

Todavia, volto a insistir: quero crer que se deseja uma Europa unida e noutros parâmetros, quero crer que se vai lutar por ela, ou a certeza de que o corolário natural da actual situação, se nada de relevante for feito, terá tantas consequências negativas que este nosso Portugal se transformará em mero ancião-cidadão-comum de destino de inaceitável preço.

A nível global, a realidade que acarretaria a queda desta Europa sem alternativa no seu seio, tenho-a, na minha modesta opinião, como imprevisível e perigosíssima, ou essa realidade não deitasse mão da entropia e dos equívocos vividos neste projecto, para que as grandes rupturas globais, onde se não desejam, fossem activadas, clarificando-se enfim, o mundo, que se não apraz nas ideias da consensualização.

Urge falarmos, discutirmos, actuarmos em urgência prioritária à ideia de uma Europa unida com possibilidades de “exigência pragmática de utopia” como referiu Steiner, mas igualmente com a capacidade de protegermos objectivamente as democracias dos nacionalismos que se deleitam a provar, em estratagemas de ocasião, o quanto os direitos humanos são exigentes de concretizar.

Quero crer que iremos saber provar que para um novo mundo europeu, existem caminhos que só se percorrem pelo respeito dos menos poderosos; pelo respeito pelas diferenças pois que a Europa é plural, pelo assumir da solidariedade, e entre tantas outras vertentes nucleares, pelo conhecimento de que as grandes preocupações são não-territoriais.

A Europa continuará a ser uma possibilidade, se desde logo não descurarmos que o aumento terrível da pobreza na União Europeia significa, em última análise, a descrença de milhões de europeus na sua melhoria de vida, e por essa descrença somos todos responsáveis de modo agravado, se não criarmos de imediato, dentro da União Europeia as vias que concretizem a união política que venha a suportar outras uniões que façam frente aos poderosos interesses instalados.

Quando o nosso futuro comum, enquanto europeus, resvala para o abismo, e depois das grandes guerras vividas, resta acreditar que a Europa é uma possibilidade! sim! é uma esperança!, sim!, contra os fatalistas, se se souber refundar  a tempo de não permitirmos que esta Europa seja mero joguete esfarrapado nas mãos dos directórios internacionais.

Urge que um dos grandes muros a destruir seja o que impede o vigor no combate para que se inicie um futuro melhor, um futuro que seja pedra fundamental e pedra filosofal, pedras que impeçam, nomeadamente que a hegemonia do capital e a desregulação que lhe deu chão impeçam de vez, que a arquitectura do dinheiro se infiltre nos processos de deliberação política.

A Europa: uma possibilidade!

 

                                                       Se voltasse ao princípio, começava pela cultura.

                                                                                Jean Monnet

 

Teresa Bracinha Vieira

 

 

DIOGO FREITAS DO AMARAL (1941-2019)

freitas do amaral.jpg

 

“I've lived a life that's full
I've traveled each and every highway
But more, much more than this
I did it my way”
Vivi uma vida cheia
Viajei por todas as auto-estradas
Mas mais, mais do que isso
Fi-lo à minha maneira

 

     e omitiu de propósito

And now, the end is near
And so i face the final curtain
Agora, que o fim está perto
E que enfrento a cortina final

 

Não o fez por esquecimento - escreveu-se -  mas, certamente, para evitar a exposição pública de constrangimentos da plateia de amigos que assistia ao lançamento do seu último livro no Centro Cultural de Belém.

As feiras de outras vaidades deixou pelo caminho na hora certa. A poesia, soube-o a tempo, foi a virtude reencontrada.

É necessário, digo, o respeito pela cedência da força face à doçura. Por aí o reencontro com a delicadeza em que se faz saber a nós mesmos que o domínio do nosso sentir só se faz no sentido íntimo do outro. É o único progresso que nos humaniza porquanto por aí se partilham as solidões e as poeiras da vida.

O amor como todos os sentires, abre fendas, e a ideia de um recomeço implica sempre a sua transformação numa associação, enfim, será quando um género de fraternidade das armas da política, da economia, da justiça, dos estatutos, dos compromissos, da pobreza, fica desamparado pois dele em nós, não se exigiu o suficiente e chegou a nossa partida!

Já não é possível recomeçar-se mesmo que se recusem falhas, fazê-lo teria sido o segredo maior da coragem, a adesão da inteligência à verdade. Diria mesmo que para a abordagem da razão, talvez nem uma alma de criança baste; tudo é embrionário no fim. Sentiremos então que encontraremos tudo pelo deslumbramento das fronteiras que afinal se não traçam?

Se assim for, o amor venceu a morte e esta é doravante oferecida numa participação eterna na vida.

Se assim for, não há justiças compensadoras noutros locais que não aqui. A paz no mundo tem este preço, bem-haja quem teve no coração uma moral que soube o quanto a equidade respeita a dignidade humana e se funda numa sociedade livre.

 

   Teresa Bracinha Vieira

 

"UMA CHAVE DE PORTA DE ENTRADA"

Manoel de Oliveira a imagem exata por palavras de Agustina: não se começa outra vida. Matamos e morremos, é sempre o mesmo. (…) Para quê tanto sofrimento? (…) Uma família feliz e pronto. Não posso ver esse desespero só por causa de dez mandamentos do tempo dos profetas maníacos.

 

 

Não chega a todas as suas consequências quem não se deixou apaixonar ou quem desse sentir esteve ausente. Também não chega a todas as suas consequências quem em si não desenhou esmeradamente o estado de amante. Nestas duas situações há desespero que em cada uma faz estação própria e em cada uma o amor não chega para assumir todas as consequências. Resta tantas vezes um cerimonial sem grande heroicidade. Resta uma espécie de discurso e gesto em volta do amor como um colar de pérolas ágil no segurar-se angélico em volta da garganta. O que reina são os mistérios e as propostas do corpo para possuir o que se ama. O entendimento, esse, tem a poesia onde se deita e dela faz pele e afinal onde busca também os diálogos que existem de coração a coração em palavras que muito assombram o que está seguro e não acontece, ou, o que acontece, pois que a segurança pode não ter sido fruto nem semente para nada e de repente abre-se larga qual fruteira sabiamente ideia, prata e cristal proposta num centro de mesa onde tudo se permite.

 

E o filme PARTY de Manoel de Oliveira pelo livro de 90 páginas PARTY Garden-Party dos Açores da extraordinária Agustina Bessa-Luís ou assim se não entendesse S. Miguel

 

Miguel

Leonor está encantadora!

 

Rogério

(…) Por falar nisso: a sua saia é indecente, sabia?

 

Leonor

(…) O primeiro que a achar indecente vai dizer-me que estou encantadora.

 

Rogério

Querida amiga!

 

Irene

(…) As mulheres eram enfadonhas, agora são de uma vulgaridade horrível. (…) Uma mulher encantadora está perto de ser recordada pelas fotografias de férias. Para começar, você faz dez anos de casada (…) É uma idade rupestre

 

Leonor

Está gravada a cem metros de profundidade.

 

Miguel

Como faz para respirar?

 

Leonor

Não sei. Essas coisas não se chegam a saber.

 

Alguém

Em S. Miguel existem armários fechados há seculos pela força da insularidade. Guardam neles coisas impalpáveis que sempre forçaram as portas desses armários, mas nunca o suficiente para se exporem. Sabiam que bastava ser percetível a força, e que as portas, se se abrissem expunham ao lado dos beijos apaixonados, os mortos em jeito de bolas de naftalina e haveria sempre um cabide vazio. Entendes Mafalda? Um cabide vazio. Aquele das camisas de noite de tão belas não estreadas: aquele dos jardineiros que labutam sementes transparentes; aquele que apanhou palavras de passagem e que passaram a ter o destino de serem versos cristalinos e à espreita; aquele que de tão vazio se chamava oportunidade disponível que se não conforma; aquele que te pica a mão para que num apesar de tudo saibas que a seiva é ascendente.

 

Irene

As viagens cortam o apetite. São como o tabaco. (…) Quilómetros de gares e de escadas rolantes. Bagagens, horários (…) a que nos leva tudo isto?

 

Miguel

É simples potencialidade isso de viajar. É como o amor.

 

Leonor

Não fale nessas coisas. Estamos num terreno vulcânico, além disso…

 

Miguel

Os segredos são tão subtis, que podemos falar deles sem os revelar.

 

Leonor

Acredita que já não sabem tudo sobre nós muito melhor do que nós?

 

Irene

(…) o carro é grande, sempre cabe mais um. E na cama também.

 

Miguel

Está a querer fazer do amor uma ligação. Eu tenho uma ligação com esta senhora. Consigo é diferente.

 

Alguém

Mafalda que por toda a parte será finitude mesmo que digam que isto ou aquilo é teu, mesmo que isto ou aquilo envolva a lembrança das tuas ligações influenciadas por tudo quanto te inovava. Acho estranho contar-te assim uma versão do filme PARTY. Não sei se te disse que até já pensei noutros tempos vir viver para os Açores? Ah! Disse? Pois antes reli sempre este livro da Augustina e acreditei numa próxima ocasião, logo após a prova do deitar. Esta prova foi sempre em mim uma visita à cave da minha vida, da vida que também te servi pois outra me era estranha. Mafalda sei que entendes que as distancias são iguais quando da lareira a madeira cheira a verde. Vá deita aqui a cabeça no meu colo. Vá tapa-te que a manta é terna, o Pico aguarda-nos e nele continuaremos o filme PARTY numa quietude Mafalda, numa quietude tão funda que o tempo já não me perguntará «quanto tempo ainda?». E depois do teu sono te direi como me sinto livre como as aves prontas a serem abatidas. Dir-te-ei também alguma coisa sobre o meu perder-me com determinação, com a minha consequência, e tu, encantadora, ouvirás que o és pela primavera e pelo outono do amor de uma qualquer rupestre idade que ele tenha. Vá tenta compreender e verás o que acontece. Ama o teu homem e arranca-o desta ilha, leva-o, manda-o para Nova Iorque, sei lá!

 

Teresa Bracinha Vieira

A PROCURA

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O elmo, as luvas de ferro, a armadura completa que vestia o cavaleiro, era como uma única e selada peça que há muito o separava do mundo que enfim procurava, e, porventura, daquilo que nele procurava, defendendo-se deste modo do Mal que a descoberta envolveria, inclusive, quando adormecendo na praia, a espada, despida e deitada ao seu lado, era fortemente agarrada pela sua mão como um surdo aço em contacto atento.

 

Helgi, o cavaleiro, tinha o seu nome gravado na viseira do elmo, na vontade de se entender por sinais escritos face a eventuais chamamentos do além, cuja linguagem não decifrasse. Tinha Helgi a perfeita consciência que o seu cansaço na longuíssima procura, fizera-o ir e deixando a sua juventude expunha agora as olheiras de uma idade não dita, mas expressa pela pele e sobretudo pelo modo de olhar a indagação.

 

Faço questão em reafirmar o quanto creio que o modo de olhar a pergunta nos expõe a idade, o quanto os sinais têm consistência e peso e luto, o quanto os refúgios absolutos são anteparos das angústias onde se existe na procura. A vida? Um dardo? Um fecho éclair que se nega? Um sentimento? Uma biblioteca.

 

Assim, inicio o dia, mais uma vez tentando transmitir a minha interpretação deste genial conto de António Vieira relendo «A Procura», publicado no livro Dissonâncias pela &etc.

 

Helgi tinha tido em tempos um escudeiro de nome Gylfi ficara ele, um dia, por um castelo, ou a violência da vã esperança não o tivesse seduzido na sua necessidade, na sua gregaridade. Helgi prosseguiu sozinho a procura, sem que esse facto lhe adviesse de coragem, antes, dizer que talvez, de há muito, só lhe interessavam as perguntas fundamentais, logo, a decisão do escudeiro não lhe disputara nenhuma atenção. Contudo, julgo entender que o cavaleiro sentia que o seu cavalo lhe transmitia, a razão da sua errância, pois o trote de Kirjat era tão livre e tão cúmplice dos interditos que Helgi, a ao seu cavalo, reconhecia que indicações díspares não lhe sucederiam; era um ser superior da natureza: incapturável.

 

E a procura continuava e expunha-se também pelo pasmo frontal de encontrar um licorne dos mares jazendo morto na praia onde Helgi adormecera. Veja-se que era um licorne dos mares, criatura dos bosques segundo os códices, e ali à boca do oceano morto, em plena metamorfose de monstruosidade. Haveria que decifrar esta razão. Esta razão e outras, como a da belíssima mulher lhe surgir neste momento e ser seu nome Sigrun, e falar ela outra língua, e o silêncio os levar a compreender a espessura dos gestos e dos olhares e dos caminhos e eis a ilha, eis que antes ou depois dela, quis o cavaleiro interpelar Deus, mas ao desamparar-se Dele interrogando-se das razões, diminuíram as próprias razões da procura que em nome de Deus intentara.

 

Helgi e Sigrun amaram-se numa gruta.

 

Diria que desta feita, ao reler este conto, acreditei ter sentido já que um olhar profundo de desejo retirava ao ser cobiçado algo que não o deixaria igual, como refere o genial autor deste livro. Creio mesmo ser através deste mistério que nos doamos quando nos entregamos a alguém.

 

E eis que o cavaleiro foi o primeiro a sentir o fortíssimo ranger das rochas da gruta ao apertarem-se no seu intento inamovível de se fecharem, e, agarrou o Graal tendo tido ainda tempo de ver que lá dentro, lá estavam os tempos dos primórdios, e nada do fulgor da alma. O futuro? Sim, também estava lá, apocalíptico.

 

Helgi olhou para a sua companheira que escutava o tremor das pedras que os emparedariam vivos. Mostrou-lhe a sua adaga.

 

Estavam nus na eternidade de um momento de graça e apaziguamento depois do amor.

 

Kirjat corria livre pelos prados da ilha.

 

Teresa Bracinha Vieira

PORQUE COMBATEM OS HOMENS PELA SUBSERVIÊNCIA?

 

| O Estado não soçobra ao sofrimento da sociedade que afinal não representa |

 

Há quem se não ocupe de outra coisa senão a de fazer passar a mensagem que afirma como realidade parecida com aquelas que não se podem fazer melhor do que o que são e aí assentar de vez.

 

Aqui e além, também se diz, como se a preocupação não fosse ausente, que a democracia está doente.

 

Assim, sem ordem nem motivo aparentes, mas de jeito conveniente, nada se estranha, nada se arrola para imediato ou posterior tratamento, já que o tá doente e ninguém se envergonha de o ter contaminado às entranhas, antes, com o correr do tempo se sabe não haver melhor remédio do que apostar na fugidia memória de todos, à perca do ponto de mira…

 

É certo que os incaracterísticos pensos rápidos, vendidos em farmácias ou junto aos semáforos, vão dando para aguentar a sobrevivência que poucos sabem não ter de mendigar.

 

Não é menos verdade que a democracia vive dentro de outra e outras caixas, encaixadas sucessivamente umas nas outras e de tal forma sobrepostas que não se descortina a mais vazia, se logo no abrir da primeira ou por sob o alcatrão da última.

 

Fingidas submissões ao Estado de Direito e à sua genuína pujança, se o respeitassem, são forma comum de aplacar os ânimos de todos os lesados e assaz ofendidos nos mais elementares direitos e expectativas legítimas.

 

Mas, tal como dizia Montaigne, o descaramento e a firmeza têm por vezes surtido o mesmo efeito, logo, quem com inacreditável valentia se opõe às hostes podres, mas fortes pelo número, por tão notável coragem, recebe, em doses regulares, ora a cólera de quem o gorro encarapuça por inteiro ora a sôfrega fúria do amo, caso o tenha agraciado com um direito constitucionalmente a todos atribuído.

 

Será que não chegou o tempo de fazer cessar o martírio contra o resoluto ânimo da ainda e enfim viva democracia?

 

Será que se finge desconhecer o seu paradeiro, recompensando-se do que esse facto proporciona?, será que a entendem como filha de pai incógnito e mãe entregue a cheques?, será que não se intui que muitos daqueles que querem afirmar-se excluídos de qualquer processo avesso à vida democrática são, na realidade, mutuamente dependentes não só daqueles que simulam detestar como do sangue que neles flui tóxico, mas útil, à orgia da manipulação desenfreada de um qualquer e ainda que irrisório poder?

 

Em rigor, a omnipresente impunidade – jet-set da pátria – acirrará, um dia, todos os ânimos dos “tolerantes” deste caminho percorrido em muitas palhas insanas e, amotinando-se de justos valores, com eles arremessarão de forma tão dura que até o sonho de melhorar a saúde da democracia se esvai, posto que excessos contra excessos não são excessos ao quadrado, antes abertura ampla e fácil ao abuso de poder, agora, e finalmente instalado na totalidade.

 

Eis um labiríntico perigo que a História nunca perdoou aos homens a leviandade de o não detetarem com antecipação.

 

Não se concebe as dificuldades que o poder político e económico têm de entender que a todos incumbe o aprofundamento da democracia sem soçobrar aos tiranos que, por nascença ou antiguidade, insistem obstinadamente em ser os únicos a demarcar a usança de um território, o qual, supostamente, já nem ao seu alcance se deveria deparar, na medida em que democracia não é seguramente tráfego sem barreiras, afeto a pérfidos jogos cujo triunfo consiste em não assumir qualquer pública culpa, qualquer arrogância provadamente lesiva da vida de outrem, não se dando sequer ao trabalho de poupar o vil espetáculo titanesco.

 

Na verdade, o não respeito pelo código da democracia deriva da facilidade e da bonomia com que são entendidos os valores fundamentais de uma sociedade, em vez de a necessária assunção desses valores acarretar um transporte de ombro penoso e nobre.

 

Em última análise, não se chora o descontentamento de ninguém, que, afinal, sentem tão alheio e motivo pelo qual não cabe sequer na análise de abstenção das últimas eleições que tiveram lugar entre nós. Todavia, tem lógica que assim seja, o Estado não soçobra ao sofrimento da sociedade, que, afinal, não representa.

 

Sempre nos declínios se perderam as moradas centrais, sempre na profanação de direitos se simularam interpretações justificantes; sempre que se descuidou a reflexão se atribuíram preços altos à absurdidade; sempre que não se alertou para as intoxicações todas as existências foram de equívoco; sempre que as frenéticas trocas de favores excitaram, pela sedução, os ávidos de Hobbes, o cancro da submissão enovelou-se, informe, qual matéria não viva, mas lama.

 

Se estivermos atentos, ainda se vive num mundo em que a certos escravos se oferece um atributo de tirania temporária, para que eles se sintam orgulhosos do seu tempo de robóticos e aceitem a tarefa de uniformizar, pela força delegada, um mundo de sonhos e conquistas de destino.

 

Desconhecem estes pobres de espírito, mais sugestionados pelo embotamento do prémio do que pela “obra”, que, geneticamente modificados ou por congestão de nascença deformados, só poderão encontrar-se a si próprios por entre monte de escória e, a observá-los, a piedade e o desprezo dos que construíram o Saber humano. Os que sabem onde mora a democracia, os que constituem o núcleo duro da energia criativa, impressionante força que não toma de empréstimo qualquer vitória, os que, tal como Espinosa, se questionam “porque combatem os homens pela sua subserviência como se tratasse da sua salvação?”, ou, revivendo sempre as núpcias da democracia, a força mágica da questão de Gershom Scholem, “tinham os golems o dom da fala?”.

 

Questões suficientes são estas, desde que colocadas no imo das coisas e, em hora e “prime time”, que inibem ou encolhem, de alguma forma, quem se opõe à rebelião dos homens que não aceitam as condições impostas pela golemização e para quem a democracia pode constituir uma realidade de contornos à qual se não afeiçoa a insídia…e ainda são muitos, muitos, basta estugar o passo.

                                                                                                                 

Teresa Bracinha Vieira   
Publicado no Jornal Euronotícias a 9 de fevereiro de 2001

ANA CRISTINA LEONARDO: O CENTRO DO MUNDO

 

No centro do mundo há muito para contar e tanto que os veteranos deste livro de Ana Cristina Leonardo podem ser crianças, gentes de meias idades que crescem ou envelhecem que é outro jeito de desaguar, tementes ao rei por bondades, banditismos ou assassinatos, russos que por apátridas se fazem passar por alemães e sempre na procura de um agasalho quente, de uma mulher adúltera que sobrevive porque tem os abraços de cela que a selam, sempre de confissões sustidas, ou o mar não as pudesse abafar de vez, se as ouvisse, apenas porque nelas procura as coisas proibidas que só a morte revelará, e tanto é tanto.

 

E tem a palavra Olhão. «Logar de Olham.» Lugar desconfiado das governanças, às quais se obedece apenas em mar alto, disciplinadamente como o beijo que não tem qualquer ruído e que de tão iletrado, beijo, beijo não é. É sim, beijo de salmoura, diz-se então que em mil setecentos e troca os números e os pares dos sapatos que um dia um versejador denunciado perdeu, dentro de todas as caixas que lhe fariam bem à reserva monetária do engenho contrabandista, tinham um sapato só – julgo que o esquerdo - e como não tivessem qualquer utilidade, estes sapatos sem par, os restantes foram logo apanhados com o sapato do pé direito, em falta, nas restantes caixas de sapatos, que, no leilão arrematado ao fisco deu a quem rema nas artes de versejar a razão para expulsar os de Napoleão, e, era levar depressa a boa nova ao rei de Portugal e dos Algarves e dizer-lhe que assim também se uniam as terras da esquerda e da direita, e que talvez por essa razão ser sabida da Europa, ela ainda assentava na paz precária do Tratado de Versalhes.

 

E quem está a tentar fugir deste “Centro do Mundo”, nele deixando infantarias americanas nas torres de vigia, são sempre os sobreviventes, aqueles que rezam o terço das balas para que os disparos se nunca façam a seu favor. E dias e noites hão-se passar em número escasso e logo os gritos se tornarão gemidos. Assim, sem muito mais, encontrei neste livro editado pela QUETZAL* vários pontos exactos e definidos, em que as nesgas dos céus azuis não têm tempo para visões de misericórdia. Afinal o que levamos connosco é todo o cais e o próprio mar dentro dele; é tudo Alhambra e os lenços de cores mágicas ali tão perto; é ainda uma Polónia ocupada e as automutilações sob negros panos arados, à roda de uma Mesquita de Jeddah e um médico argonautra:

 

- Quem quiser escutar mentiras, alinhe-se.

Alguém disse:

- Vamos pois, que se um homem deixa de se poder divertir é hora de dar corda aos sapatos, e respeitando a Lei Seca, pelo menos eu, não amo a minha Rosa.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

  • Ave trepadora da América Central, que morre quando privada de liberdade.
  • Por decisão da Autora, este livro mantém a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990

 

 

 

ESTE LIVRO É UM CORAÇÃO QUE O ESCREVE EM JEITO DE ORAÇÃO.

 

Ela, como ninguém, ensinou-me a importância de exercitar a gratidão.
Ela, como ninguém, mostrou-me que é o facto de esperarmos um destino comum que nos faz cúmplices e irmãos na aventura do caminho.»
Filipe Condado

 

José Tolentino de Mendonça e Filipe Condado atentos ao parto da alma de Etty Hillesum, porque se vive sempre e primeiro por dentro; porque a reconciliação é o pré parto que expele qualquer ódio que mine o entendimento da vida espiritual, porque se o desejo desta for identificado e abraçado pela única porta que nos conduz a nós e aos outros: então saberemos que nos referimos ao amor; então julgo que sei um pouco do itinerário deste livro.

 

Emocionou-me profundamente a leitura deste livro: os excertos do diário de Etty, as fotografias e as palavras de Filipe Condado, as palavras de Tolentino.

 

Este livro propõe um horizonte que não se esgota através do humano, mas por aí encontra a sua expressão/mediação de chegar lá onde e aonde se trabalha espiritualmente a vida, sobretudo para nela confrontarmos os pontos dolorosos, quantas vezes vividos na nossa família (não se escolhe lugar onde se nasce, nem pai nem mãe, nem outros pontos de partida) que nos condicionaram o sonho de muitos modos, e até nos fizeram sentir abandonados, ou, como diz Etty ao falar de casa

É tragicómico, não sei que tipo de casa é esta, mas aqui uma pessoa não progride.

 

Esta substância aniquiladora, da qual se apercebe Etty insinua-se sólida na sua vida e ela receia que prisioneira, perpetue aquela mistura de barbarismo e cultura, espécie de qualquer coisa que era, sem nunca ter sido, e, no entanto fora.

 

Talvez a partir daqui, por um caminho ou outro, comecemos um começo sem fugirmos de nós, e escutando-nos, até que nessa escuta caiba a nossa vulnerabilidade, a nossa necessidade de aperfeiçoamento a cada hora, a fim de expelirmos a tal

Tralha humana e matagal manhoso

que temos em nós, se não passarmos também da cabeça para o coração como diz Spier a Etty.

E tudo isto com a ajuda do silêncio.

 

Só o silêncio nos aproxima a pergunta: quantas pessoas existem em cada um de nós? Creio que pergunta semelhante aproximou Etty Hillesum a um caminho com Deus; um caminho, o tal caminho muito encostadinho ao seu íntimo, tão encostadinho que lhe confiava um calor de xaile de mãe, um calor que a apaziguava consigo mesma.

 

A partir desta conciliação, interpretei, abre-se sempre uma vastidão apta há muito! A tanto! que até o que nos ensina a ocupar-nos dos outros é o mesmo que se ocupou da nossa mão e nos disse de algum modo que

Existe algo de «Deus» na Nona de Beethoven.

 

Surge-me uma Etty Hillesum que se não quer perder em constantes campos de batalha; uma Etty que deixa o umbigo para espreitar um tantinho de eternidade, outro tantinho dentro dela que é a intuição de encontrar uma sabedoria que a faça pessoa, e não um conhecimento que lhe aporte poder.

 

E este livro também se pode ler abrindo-se em qualquer página. E este livro também se lê só vendo os desenhos; e este livro é uma preciosidade contra o medo e não o simplifica, antes o sossega: eis a tranquilidade.

 

Quando uma pessoa leva uma vida interior, talvez nem haja tanta diferença entre estar fora ou dentro dos muros de um campo.

 

O campo de concentração: o trabalho do espírito a enfrentá-lo de dentro para fora.

 

Lembrei-me que se torturam barbaramente os elefantes para lhes retirarem o espírito, isto é, para os subjugar e humilhar pela dor, faze-los ceder, desaparecer de si. Mas como fazer sumir no ar as humilhações no campo de concentração? E Etty escreveu

Esta manhã desfrutei do vasto céu (..). Diria eu que Etty nos propõe o céu total, mesmo que visto por uma brecha minúscula.

 

E chega outra proposta de pensamento: será que o maior roubo que nos é feito, é feito por nós próprios? Se assim for é necessário o despojamento material e de aparência, para melhor vivermos uma vida em cada dia, uma vida na posteridade, e dentro dela, acolhe-se então, simplesmente, a morte.

 

Etty deixou de estar revoltada, mas resignada nunca! Foi capaz, sim, de tirar energia do sofrimento e como escreveu

A partir de agora vou extrair o essencial de tudo com o meu espírito e guardá-lo para tempos de vacas magras.

 

Se Deus não me ajudar mais, nesse caso hei-de eu ajudar a Deus.

 

Saberemos todos os caminhos que em nós se abrem ao entendimento da condição humana? Da sua índole? Saberemos nós perdoar-nos para que possamos perdoar os outros?

 

Saltam-me os poemas à memória, e todos eles sabem que à beira do morrer se descobre a paz da vida, e na mochila que connosco há-de partir em frutos e cereais vocacionados ao indizível sossego, digo, que mesmo que expressão alguma de desgosto humano não me seja alheia, que o absoluto possa conter em si o bem e o mal

Uma pessoa deve ser a sua própria pátria

e estar preparada para todos os inícios, acrescento, mesmo que eu não saiba como, mesmo que esteja eu num descampado de mim, saiba a minha mão por ela, que a estendo para ti.

 

Teresa Bracinha Vieira

SE SEI VIVER SÓ

 

Se sei viver só?

Quem sabe?

Nessa imagem revelada pelas montras

Passeia-se a rua interior

De mão dada com cada um

Ou não fossemos a primeira e última

Trincheira

Unida a outra e a mais outra

Corredores sem fim e labirínticos

Por entre as mensagens como flechas

Chegadas ao nosso, meu coração rebentado.

Se sei viver só?

Quem sabe?

Cada um compõe a alegria obrigando-se a voltar

Eu a ti e às tuas pálpebras regresso

Para que me ampares o terror experimentado

Na aberta realidade aquela que arboriza a solidão

Sem água

Rosa dos muros, cama das poeiras, orçamento que vela

O nada escrito no pleno dos vazios

Quando se renova a procura de nós

E a rota que turista se passeou à nossa janela

Quando o amor e só ele era o acreditar.

E de novo

Se sei viver só?

Quem sabe?

O parapeito é sempre cais

De onde os sonhos quantas vezes partem confundidos

Por histórias banais que nos ficam na memória

Entrada nela por navios e a ti neles regresso

E afinal a inocência é muita

E por ela a morte passa

Na preocupação de fechar segredos.

E eu quero tanto aquele morango, aquela cereja

Porque a minha obra, se o for tem um fundo vermelho

De sangue e flor futura e cega

E foi minha a andorinha e os xailes esgaçados de tão rotos.

Se sei viver só?

Quem sabe?

A semente é feita de carne humana

Poeta, não grites, não!

Poeta, não deixes fugir as pombas

Ou escuta os astros

E por lá deixa teus olhos

Definitivamente muito definitivamente.

E de todos

Ai anjo que de nós foge

E que me procura há quanto?

Pasmo, quebro-me e vou-me dando

Só paro em deltas

Abraçada ao teu olhar

Porque assim os oceanos

Embrulham-me num musgo, naquele mesmo que foi

Manta de alma enquanto vivi

Enquanto espreito

 

Se sei viver só? 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A Rita viera jantar comigo no dia seguinte ao acordo do divórcio e fê-lo em benefício da sua verdade. Adivinha-se que existem muitas coisas difíceis de dizer e que mortificam e que criam constrangimentos dolorosos em situações como a dela.

 

- Podes ler-me o que escreveste no Natal de 86?

 

- Sim Rita, claro que sim.

 

(…) e saíram do carro na Praça de Londres. De mão dada atravessaram para o lado das montras. As luzes estavam acesas em todas as árvores, o Natal chamava-a como nunca. Sentiu-se muito feliz. Olhou de novo as iluminações natalícias e todas lhe segredavam paz, encontro, vida excelsa por viver, parir, aconchego, justeza, amor finalmente, e, seguros os enigmas principais. Olharam-se e beijaram-se. A Rita e o marido viviam em inspiração, em paixão, em amor; o coração era-lhes apto às suas certezas e segredos e tudo lhes chegava numa íntima unidade. A Rita sentia mesmo um certo pasmo face ao que lhe estava a ser dado viver. Afinal tanto esperara em dor lenta, e, segurando no peito as farpas dos invasores dos terrenos serenos das mães, tal como lhe transmitira a sua mãe serem essas seguras terras, e só agora por fora e por dentro de si era completamente feliz, completamente! Era até protegida das próprias reconciliações.

 

Quanta delicadeza neste sentir, quanta comoção! Quanto sonho a acontecer! Poema com as coisas todas agora revelado, assim era o que acontecia, e mais do que mundo a obra era esta.

 

- Arderam os tempos não é?, perguntou-me a Rita.

 

Só tenho cinzas dessas tuas palavras que relataram tão bem o meu sentir de então. Não sei, não sei ainda como o archote queima o espaço de voo das andorinhas. Terá sido esse o meu grande lapso? Não entender a tempo essa realidade, esse espaço queimado? Só sinto que os ressentimentos me rodeiam e de dentro de mim não saem.

 

Violências, muitas. Tensões contraditórias, radicais, expressas agora em plena solidão em fundas dores. Limites afinal em tudo. Inconformidade com eles. Impossibilidade de bolas de Natal nas árvores. Náuseas porque ele se afastou de mim, feliz e vigoroso. Ele que atravessara comigo a Praça de Londres, num beijo indizível que em nada poderia vir a condizer com a gélida indiferença instalada. E eu, agora, numa viscosidade de memórias elevo o meu gigante não, frente ao mundo, e pertenço àquela condição que interpreta o princípio dos caminhos que violentamente enfrentam o absurdo, e uma liberdade, te digo, amiga minha, uma liberdade estranha que ainda reivindica as fomes das estrelas natalícias do Natal de 86! Que faço? Apago o céu?

 

Não! Amiga, vim a tua casa para brindar à semente que estoira o mundo. Nunca à que o segura já não o sendo. 

 

Teresa Bracinha Vieira