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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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TAO YUANMING: O POETA DA RECLUSÃO ENTRE O TEMPO E AS COISAS

 

A minha gratidão a Manuel Afonso Costa por mais esta tradução que me permitiu ir a este caminho de passado procurar regressos e futuros.

 

Sabe-se que Tao Yuanming (365-427) é o alicerce fundamental dos grandes clássicos da literatura chinesa e um dos maiores poetas chineses. Pela mão de um amigo francês, chegou-me a leitura deste escritor sagrado. Agora, lendo em português, por tradução de um poeta, melhor se entende o quanto a poesia é uma receção única ao entendimento das realidades, graças, sobretudo, à sempre nova e singular luz que aporta à verdade.

 

Lê-se que Tao Yuanming nasceu numa família aristocrática empobrecida, cresceu e envelheceu pobre, sempre pobre, ainda que nunca tenha descuidado a afirmação:

 

«Não voltarei as costas aos meus princípios por cinco alqueires de grão.»

 

Por esta razão preferiu viver como agricultor e passar fome, do que seguir uma carreira de funcionário, repelindo assim a corrupção generalizada. Retirado com a sua família para uma aldeia, numa pulsão pelo campo, nela escreveu poesia e prosa e cultivou os crisântemos inseparáveis dos seus versos. Os crisântemos representam o Outono quando as outras flores já murcharam e representam igualmente um comportamento ético do homem livre que se distingue na honra. Um comportamento que assenta na natureza e não se compromete com o ilusório.

 

O vinho também foi caminho que o não perdeu, antes jeito de intransigência e de serena solidão, jeito mesmo de compreender um desfrutar das manhãs às quais as pessoas vulgares não agradecem de tão confusamente viverem.

 

Tao Yuanming soube como refletir sobre a passagem do tempo, o seu significado, a transitoriedade da existência, a morte, e afinal o conhecer do saber valorizar o tempo que passa, ou a vida depressa não caminhasse para o nada.

 

Já tinha lido e ficado maravilhada com as palavras de Tao

(…)

eu por mim consagro-me a viver em solidão
já faz quarenta anos que a isso me dedico
com devoção e de acordo com a sábia natureza
o meu corpo envelheceu há muito tempo
mas os meus sentimentos continuam intactos,
por isso nada tenho a lamentar.

 

A verdade é que este poeta maior atravessa a vida pedindo comida emprestada para sua mulher, seus filhos e para si enquanto escreve

 

(…) o lugar onde moro (…)
onde tenho uma casita com aposentos vários
(…) no coração da casa nem uma nódoa
não cabem tumultos onde o silêncio mobila os quartos
tanto tempo estive em cativeiro
que alegria por voltar ao campo
(…) durante o dia o portão fica fechado
e na sala vazia o mundo vazio não entra

 

(…) O grande oleiro não concede favores particulares
dentro do complexo mundo das coisas,
cada uma por si só cresce e se distingue
se o homem prospera, entre céu e terra

 

(…) Se o frio e o calor se sucedem sem parar,
o mesmo acontece com a fortuna dos homens
tudo isto me parece óbvio,
por isso sabiamente se retira
aquele que para a vida despertou.

 

Creio que é pouco dizer que com este livro se reencontra o espanto. E é pouco realmente porque julgo que se encontram muitíssimas realidades que nos levam a não nos atrevermos a procurar o caminho de modo “banal”, como muitos que viajam, viajam, viajam de modos vários para procurar verdadeiramente o quê? E se a esta pergunta se atrevem, nela reside a coragem de sobreviver à resposta com dignidade, a dignidade de continuarmos inteiros na pobreza de cada um, e isto também nos propõe Tao Yuanming.

 

Depois, depois, diria:

 

Sei que o lume da lareira vai apagar-se não tarda nada e de fontes de flores ainda só conheço a dos plátanos.


Teresa Bracinha Vieira

 

Obs. Este livro pela Assírio & Alvim, na coleção Gato Maltês, 2019 - Poesia e Prosa de Tao Yuanming

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

Era a primeira quarta-feira do mês e sempre neste dia do mês, vestia o seu melhor fato, o azul de fina risca branca, e punha gravata. Um cachecol dava o toque por cima do sobretudo invernoso e gasto como a restante roupa. Usava chapéu, sempre. A mulher também se preparava para sair com ele, e cuidava-se vestindo o seu vestido de malha cinzento, vestido que tanto dava para verão como para inverno, neste último caso, desde que o colocasse por baixo do casaco tingido de preto. Elegantemente, um lenço arroxeado era atado ao pescoço com um nó suave que fazia uma espécie de gola alta ao vestido.

 

Antes de saírem de casa olhavam-se um pouco, e os olhos transmitiam um ao outro, o quanto sentiam a injustiça de viverem com dificuldades financeiras depois de tanto terem trabalhado, e, sentiam que não tinham nascido para aquilo, se é que se nasce para o que se é? mas, a verdade é que o tempo de fugir, escapara-se-lhes. De resto, fugir para onde? Fugir especificamente do quê? Tinham-se habituado a suportar as contrariedades da vida, implacáveis a eventuais ambições, e ainda que com muita zanga interior, tentavam viver espelhados naquele anónimo quotidiano.

 

E beijavam-se antes de sair de casa! Beijavam-se num célere e importantíssimo beijo, na necessidade absoluta de registar o imutável, a clarificação do claro, a culpa inexplicável e também a necessidade de se concordarem sempre com ternura nas roupas que usavam.

 

Na rua, davam as mãos um ao outro, enquanto se transmitiam mensagens curtas de cautela com os escorregadios passeios, com os buracos ou com a proximidade dos carros ou ainda com algum charco, se acaso chovesse. Ele tinha sido operado aos olhos há pouco tempo, como manda a idade, dissera o médico. Ela, como mulher, tinha dificuldade em acreditar em coisas simples e por isso segurava-lhe a mão com uma força redobrada, atendendo ainda à falta de vista do marido. Ele sorria-lhe de soslaio, dizendo, vá não apertes tanto que partes a tua mão e depois nós?

 

Depois? Depois eu amo-te. E não eram mais do que estas palavras o que procurava dizer-lhe. E eu a ti: ouvia ela soando-lhe a aventura calma.

 

Sabias que neste jardim os pássaros andam em cima dos cotos? De facto, reparo agora, disse-lhe incrédula! Porquê? Não sei, penso que talvez apanhem choques nestes fios elétricos e se queimem, disse apontando os fios baixos. Depois, por sobrevivência lá começam a debicar o chão na procura de alimento, ou a petiscar algum pão que lhe trazem, e aos poucos andam a saltitar nos cotos.

 

Entraram na farmácia. A farmacêutica elogiava-lhes sempre o aspeto quando os via chegar à primeira quarta-feira do mês, não obstante nada de verdade englobasse o elogio que não fosse a vontade de transmitir carinho e força. Perguntava-lhes se vinham buscar os remédinhos e como passa dos olhos? Melhor? E a senhora?, essas artrites maldosas ainda queimam muito?

 

Olhe senhora doutora, respondendo pelos dois, digo-lhe que o meu marido está melhor dos olhos, contudo diz que ainda tem dificuldade em ver, e por isso, imagina! Imagina os barcos a fazerem-se ao mar e lá vamos ambos dentro. E eu. Eu?, eu estou bem. Vi há pouco uns passarinhos que andam em cima dos cotos. Perderam as patinhas, sem culpa alguma. E lá andam…se aquilo é viver…é muito triste…mas não podem fazer nada.

 

De retorno a casa o caminho parecia-lhes sempre mais longo. Na sala, começavam a tirar os casacos quando ele lhe perguntou se ela iria com ele, se ele decidisse hibernar como um bicho. Claro! E bem sei ao que te referes. Acordávamos apenas quando estivéssemos perto daquela coisa e daí partíamos de vez, sossegados, não é?, e não te esquecesses tu de me dar a mão. Vá anda, faço-te um chá e uma torrada. Põe Verdi, não faz mal que o disco esteja riscado, a nossa idade limpa-o.

 

Trouxeste os remédios?

 

Perguntas bem! Esqueci-me.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Ativam-se ou desativam-se mercados, alteram-se o valor das moedas, animam-se as balanças de pagamentos entre estados, sobretudo atentos à consumação do consumo, nada se passa sobre a verdadeira informação do para onde o mundo inteiro converge, oblitera-se a referencia aos homens, vendem-se armas ao soberbo lucro das guerras e regenerada, a violência, é esta sempre oferecida como espetáculo, ou a fome ou a sede, grande escândalo do tempo presente não fosse tida como natural decorrência do funcionamento da coisa humana.

 

A sociedade do simulacro é venerada por quem desejando ser senhor - mas com veia de escravo – germina em si invejas e cobiças e mesquinhez mescladas de instantâneos de generosidades que instauram cenários desta paz perpétua, onde se joga na venda e na compra da alma, quando até a dimensão trágica da morte é banida ou a vida intoxicada já nem sequer dessa realidade se pode dar conta.

 

Em rigor, uma força terrificante, manipula a multidão subvertida por um desejo não questionador que faz dela escrava dos escravos, perseguida e perseguidora do que mendigam sofregamente, fingindo detestar ou ser alheio, sequer, dos meandros do seu próprio organismo que o torna gregário de si e dos mesmos a si iguais.

 

Volta a existir um e outro dia, uma e outra hora, em que se recusa o paraíso artificial em que é suposto viver o intoxicado, de preferência sem grande brado, contra o sem sentido de uma existência de equívoco, afinal.

 

O grande desafio não dito, é o da decifração e do entendimento do que ela expõe.

 

A liberdade está excluída de quem afirma que ela é sim aferida pelo que se tem.

 

As gentes são tratadas por um potente motor de plástico como se tivessem órgãos de plástico, direitos de plástico, cultura de plástico, identidade de plástico, raízes e pátrias de plástico, não lhes sendo concedida a permissão de viver em caminho diferente daquele que serve ao declínio.

 

Será de repetirmos com René Char

 

«Certas épocas da condição do homem sofrem o assalto gelado de um mal que procura apoio nos pontos mais desonrosos da natureza humana.»

 

Teresa Bracinha Vieira

GEORGE STEINER: ETERNAMENTE!

 

Desde o passado dia 4 do corrente, nós, órfãos para sempre.

O silêncio total neste tempo de luto face ao pensar plantado por Steiner é o tudo existir que tenho para lhe agradecer: e bem sei que não basta!        

 

Tal é a razão das afinidades, que teremos frequentemente ensejo de observar, entre as fenomenologias da arte e as da abordagem ocidental da morte. Ao contrário do que pretende o cliché, o irmão da morte talvez não seja o sono, mas a arte, em particular a música. Ao mesmo tempo que exprime na sua essência a vitalidade, a força da vida e o prodígio da criação, a obra de arte é acompanhada por uma dupla sombra: a da sua possível ou preferível inexistência, e a do seu desaparecimento.

(…) Kafka a Milena: «Ninguém canta mais puramente que aqueles que estão no mais fundo do inferno; é o seu canto que tomamos pelo dos anjos». Deverá ser esse o único cantar?

De múltiplas maneiras emblemáticas da nossa condição moral, política e psicológica, neste momento da história, «o caos regressa». Mas estava também presente no momento da criação.

De George Steiner in GRAMÁTICAS DA CRIAÇÃO.

 

Teresa Bracinha Vieira

SAUDADE

 

António Alçada Baptista: um olhar para a frente e para trás, todos unos e porque o que late é latente, está no muito fundo esta saudade.

 

António Alçada, António Alfredo da Fonseca Alçada Tavares Baptista faria um outro aniversário ontem, dia 29 de janeiro. Será sempre um privilégio lembrá-lo.

 

E falávamos também tanto, do reter e do libertar, do devolver à terra e ao céu o que lhes pertence, falávamos dos lugares dos fragmentos e da-nesga-porta-do-meio, que nos escapa tantas vezes, e afinal por onde quase tudo se vê. Sobretudo o amor e a gentileza.

 

Tentávamos, afinal, por palavras, em diversos campos de tensão, serenar naquele equilíbrio do pólo-a-pólo, que lhes desse uma instância de totalidade, e ali sossegassem as palavras dos pensamentos; e ali sossegássemos longe, bem longe da intranquilidade.

 

As secretárias do António Alçada eram um mundo aparentemente de caos de papéis e livros e lugar de algumas fotografias. Nessas secretárias, as letras nos papéis rabiscadas por ele, eram todas livros por escrever, assim o senti sempre, num reflexo de muitos reflexos do Autor.

 

Estão para aí uns livros, estão sim senhora, dizia num sorriso de ternura olhando para os papéis, um dia escrevo-os de rajada. Mentira! Não sei se terei tempo. De resto ando numa fase em que os acontecimentos aborrecem-me, “Les événements m’ennuient”- como dizia o Valéry.

 

António era também Autor testemunha, desde o palimpsesto ao livro. Ele escrevia num silêncio escutado lá do torreão do exprimir do Escritor e duvidava da mão que escrevia, se acaso se alheava por tempo demais, olhando o rio.

 

Os recessos, os recantos, recuam-me. Sei que também é assim a natureza do envelhecer e olha que estranho!, não me perturba acontecer-me isto.

 

Para mim o António foi um horizonte, foi um defronte. Desconhecerei sempre se a sua terna tolerância foi demasiado indulgente às minhas perguntas e aos meus silêncios.

 

Sei que num 29 de janeiro o ajudei numa limpeza de prateleiras. Os livros voavam e o António dizia-me, a rir como um miúdo

 

Estou no episódio! Estou no episódio!

 

Enfim, porque o que late é latente, está no muito fundo esta saudade do António Alçada.

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - E

 

1

Se se pensa nas razões da vida ela a morte é cabeça velha que labuta
Num ofício em que o tempo finda de rompante
Ou ela não gostasse de se interpor às conversas e impor-se só querendo falar daquilo que chama
Daquilo que está escondido atras da sua língua linha reta que todos cumprem
Quer sejam os do berço do início ou do fim quer sejam os que olharam o mar
Ou os que não conheceram caravelas ou voo ou glote de sal
Alarga-se sim forçosamente o diálogo à morte e ao dirigir-lhe palavra alguém passou a ser outra voz como a daquele verso que Exaurido da cova cantou
Ó morte não mataste tu da vida um lugar de mães nem o poeta no vivo audível nem
O amor que foi único nome de si

 

2

Houve um tempo vivido por detrás das janelas
Houve um tempo aplanado que de tão plano se convertia
Na rampa da fuga quando se sabia que os peixes ajudariam
Ao lance do mar e onde se esperava o barco como uma espécie de salvação
A primeira de muitas que implicariam ofícios vagos e muito sofridos e de novo
O carteiro junto ao portão de ferro entregava a carta por entre as grades
E sorria como uma armadilha ou não soubesse que o remetente
Era uma paisagem aparente nem benigna nem mortal

 

3

Também chega o tempo de cuidar das memórias e das gerações
Que nos ensinaram as cantigas que descobriam o segredo dos ovos nos folares
Quando tudo era tépido antes do meio-dia
E eis que um dia uma flor se suicidou atando cuidadosamente
O caule à corda e ali se deixou estar de olhos abertos à casa
Cheia de luzes presas sob empenas que sustinham estonteadas esperanças
Tateando a nossa pele na vigília ao centro das infidelidades
Mãe minha que não sei se falo de magias ou inocência

 

4

Também se levam nos braços muitos filhos desconhecidos
Infindamente vai-se dizendo com a suavidade do embalo
Que eles devem sonhar com o mar
Com aquele mar sem princípio nem fim e que mesmo quando vento é mar
No sonho e no caminho e até tem pinhal de pinhas e pinhões que adivinham
A hora em que a vida dos afetos que nos dão é bela e pobre
E pedra-insónia feita de cordão umbilical

 

5

Às vezes parece um muro imenso que avança e tapa a estrada
Caminha-nos para o contrário das nascentes e dos comprimidos que nos retiram a dor
Enfrenta-nos com o seu corpo pardo e duro e inclemente e logo te abraço
Amor meu pois que morra eu e te deixe à guarda de um palácio que te fiz
Com mantas de plumas de pássaros daqueles que em ti sempre festejarão
As núpcias por te terem visto nos seus casamentos e tanto bastou
Para criarem aquela canção-périplo que mesmo adormecida ou já não aqui
Eu para ti ela e tu

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - D

 

1

Tudo se cingia àquela estrada solitária numa terra
Inocentemente guardada entre montes por onde caminhei
Com meus pés muito autênticos até ao túnel que nunca me barrou
Antes me ajudava a subir para o comboio da infância
Quando a direção era rumo aos nascentes e o brincar com o que não era eterno
Não ocupava espaço nem dor nem gritos sendo as aves da viagem
Harmonias que nunca se referiam à primeira morte e pelos olhos
À janela o único poeta procriava para a terra a relação dos seres com o aconchego
Nada em mim se desunia e naquele estou aqui não entendi a oscilação

 

2

Pânicos e paz noturnos também se juntam puxados pelo íman
Que une os contrários sem explicar o que está no meio e é borboleta-eu
Numa luta em pleno cosmos em que da metamorfose sou vítima e carrasco
Que aguarda de mim para mim o sinal de que não se resiste ou não tivesse pisado
As minhas próprias asas sem receio de não voltar a recordar o voo
Embora já se desassemelhasse do pulso-ideia que se atreveu em seu dia
De modo nítido e supérfluo máxima diferença de tudo o que se copia
Escrevendo em nome da arte que a Natureza não pôde resistir e infiel ao princípio
Engendrou um invisível fruto-criação

 

3

Ali na savana montou-se a tenda e abriu-se o fogo ruidoso
Aquele fogo que espanta vultos de bichos de tipos vários e trovoadas secas
E vi-me a olhar o lume com luxúria sentindo as chamas carnais
A alertarem-me quando pegaste na minha mão e eu pedi uma verdade
Para toda a vida escavada naquele momento crepuscular
Ainda hoje fecho os olhos e reconheço o tempo e o cheiro e o tato quando convida
Parece que um sonho foi preparado naquela noite como se a vida fosse só uma e una
Pela manhã o poema entregou-se à mesma sorte de sempre
Embrulhado no raiar do dia entregou-se às paredes de todas as portas

 

4

Por fim um poço propício a receber as tristezas maiores
Um poço sem fundo cuja volúpia desmedida era a de sugar todas as lágrimas
Um poço mudo e nu cujo corpo só lhe conhece a terra
Um poço absurdo de tanta perdição e glória e até poder
Um poço-osso presságio de um nada não descodificado e contudo um balde
Descia-lhe pesado e subia-lhe depois assolado de livros que vinham dos livros
Que recebera em diversas formas e ele poço
Arqueólogo do pouco e do mínimo e do maior era todo uma gargalhada de andorinha

 

5

Nas viagens conhecem-se muitas saudades para além do ir do vir e do estar
Procuram-se palavras que se prendam definitivamente às memórias do que se viveu
E as não traia como se tivéssemos estado em locais apenas retratados aptos
A serem moldados com o rolar dos tempos por outras analogias possíveis
Os viajeiros somam e seguem eras em espaços que não têm e ordenam as saudades
Em imagens dizem que esta e aquela atravessou-lhes o tórax ao verem a pedra Vermelha da Austrália mas o macadame das viagens é um amante muito solitário que nos esquece os passos e os viajeiros só estiveram no começo
Sempre num outubro impiedoso os morcegos das memórias roubam-lhes o beijo transumante

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - C

 

1

Também se conhece uma nociva doença do que é verde
Uma doença que ataca até as terras no pousio
Ataca o próprio sal trazido nas ondas do mar
E cinde mistérios até os levar à morte
Antes que as estações dos anos da vida expliquem a necessidade
De se progredir por entre sulcos e vultos de temporais
Por várias razões debruçadas na claridade
Entre as quais o coração se perder em muitas alturas
Por entre arados e leveduras e realidades de vidas falseadas
Quando afinal os barcos suplicavam o embarque urgente
E só o nosso aceno fora de aço

 

2

O chão dos olhos inundou-se pela forte bátega
Quando do horizonte constelado veio a tua mão fechada
O teu ombro vago a estriar-se na tua fala que exortava vésperas cadentes
Afinal o lugar de ambos um reboco um talhão de obra a soro
A nossa casa devoluta e transferida e segura
Tão só por uma ossatura vagamente viva
Trave mestra em que sempre acreditei e sob a qual tanto mas tanto
Me tens amado

 

3

É preciso infinita coragem para procurar no poema
O testamento da alma e expô-lo aos olhos que o visitam
Atravessando-o por onde eclode excessivo quando envolto em si
Sem freio já nem pode recolher repouso ou medo ou debulho
Deixando-se sim possuir e consumir qual miradouro que se despenha solícito
Ao fascínio de quem lê a viva solidão entre coisas e parte delas
Já defronte e misturadas não turvas mas definidas
Saídas de muito dentro de um tempo que sobrevoa
A rocha escavada desmesura morada do poema

 

4

De onde procedem as asas ascendentes incandescentes
Que no ar de tudo sustêm terra e curvo céu abaixando-se sobre a leira
Das mulheres que aceitam suas sementes jubilando de alegria
Dormindo posteriormente sem receios sob todas as noites
Em que até mesmo os lobos as visitam e se escutam os ossos a latir
E elas as asas e as mulheres vívidas ante tudo
Já brincam agora com as crianças aos lumes que colidiram juntos na mesma luz
Depois do cheiro acre de um parto de forças e deuses
Em bandos

 

5

Agora a glosa é enorme é um outro livro uma outra distância
Onde se implanta uma outra emergência de entendimento
Do posto e do lugar por onde espreita o pássaro
Agora as palavras da glosa são comentadas num pulmão de verso
Oposto à prosa ou à provação desta poder ser tão ampla
Que uma anotação a descreve arvore não rítmica e essa compreensão
Existe como expressão narrativa de uma carta
Despida folha que afinal em mensagem te enviei
Desenhando para ti te um favo que por harpa te oferecia
Toda a música dos ventos

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - B

 

1

Nenhuma mão foi central
Ao ritmo das noites quando necessitadas
De pontes que as libertassem das cicatrizes
E dos sismos nos peitos em peso de afogamento
Descobriu-se sim e lentamente
A corola da lua com o sol por baixo
O ar sensitivo a insinuar-se 
As coisas a cederem sob uma causa maior
E encurvada eu no exercício da palavra-respiração
Lavrei pão e armas e pássaros enquanto uma diferente paz
Chegou sem manto nem lenço
Ferida tanto quanto suturada
Envolta numa viseira que dava à costa levantada
Sem demandar porto


2

Também evoco falecidos nos cercos dos sítios
Em que viveram e nos amaram e magoaram
Utilizando nós feitos para os recordar para os acolher
Na memória das lutas com chifres e adereços de amor
Tudo em sentires de fuso ou jeito de o usar
Recordando em crónica aqui e ali o mudar da vida
Dos mortos agora sem trono mas chorados e vestidos com mantos
Roupa na qual crescemos e a eles nos igualamos
Em demasia para depois de exumados
Nossa lembrança escarlata


3

Eram doze cavalos muito altos a correrem vinte e quatro corridas
E mais seriam se fossem mortais e expostas as múltiplas feridas
Do chicote inimigo ou ais que em palmas ásperas lhes explodisse o coração
Mas agora não que era verde o destino destes imortais animais
Velozes e dispostos a dar trono não ao sol mas a quem o nomeia
Não aos mudos mas a quem calado escuta
Não ao poema mas a quem o parisse morto e dele a vida soltasse
Quando os doze cavalos muito altos corressem as vinte e quatro corridas
E chegassem ao tempo que não finda
Lá onde e aonde só uma pedra aguarda

 

4

Aquela ilha eventual lugar secreto de encadeados
É uma ilha de leitos fundos que saem da barriga do chão
Regada de muitos nevoeiros para que os estares dos segredos
Sejam protegidos das perspicácias alheias e o lodo se possa fechar
Como quem fecha um rio em barragem para que o pulmão só consigo respire
Aquela ilha é simultaneamente operária de mágoas e raiz de fomes proibidas
Aquela ilha tem o mais perfeito e sinuoso peso de cada um
Que supostamente a separa da vida indivisível
Mesmíssimos passos na tábua que pisa
Reveladores de que o muito dentro da neblina afinal
É uno e condição

 

5

O rosto mostra muito de um choro predisposto
Ao íntimo do amor
Jogo
Tão ansioso que alimenta cio e crosta
Assegurando coragem e desafio num estreito
De beijos cor de evasão do desejo
Deleite que traz tempos infindos tecidos por nós
Numa variedade de vigílias de senso profundo e dúctil
Como pode depois o mesmo rio fazer veios nas correntes
Das dúvidas que nem as guerras atenuam
Ou sequer os bois têm força para lavrar

 

Teresa Bracinha Vieira

CINCO POEMAS - A

 

1

Se hoje amamos é porque muito amámos ontem com e sem razões
Só porque se o amor não for isto de amar mais
De cada vez que se amou
Então o amor não seria esse imenso saber amar
A cada dia que mais não é do que aprender
O quanto amar ontem hoje e sempre
É amar no amor o núcleo lá onde ele
É a pele da alma que nos envolve
Num ar bordado a felicidade e a dor
Permeável e afinal múltiplo de tão fixo
E alimento em nós sua espessura tanta
Qual seara
Nela tu meu tempo
Sempre

 

2

Procuro dentro do que nome não tem
Uma linguagem que me não deixe perdida
Ao atravessar o espaço que conheço e sinto
Não como aparência
Antes realidade a toda a volta de mim e dentro
De uma oficinal consciência que volve nela para se oferecer ao meu canto
Naquele recanto que se nomeia cheio de uma voz
Que sabe que o poema existe lá
Tão impossível quanto coerente de não ser de ninguém
Mas me persegue sem hiato numa infatigável
Alegria

 

3

Se o mais desconcertante for o peso da memória
Que o voo carrega
É sem esforço que o apanho nos braços
Habitando-o num género novo de mistério maior
Que visto e logo permuto roupagens de oiro por aves doridas
Sem berço de mãe nem essências a confluir no piar
Ou o entender do fantástico visceral me não coubesse
No embrião das palavras que principiam e são
Afinal virgens e úberes
No vai-vem de um ângulo

 

4

A noite que digere a noite
Tem uma língua de água com a qual corta
Os muros num sinal anfíbio
De tão bem conhecer mares e pontos cardeais
Tudo tão verosímil como o rio que se inclina
De dentro da ânfora e me submerge com espessura de mar
Nascida escada até onde o ar me colhe
Óvulo é certo
Obsessão afluente
Seguramente
Que não resume tamanho nem conflito

 

5

Sobre o dorso de um sentimento
Eu quero dizer plátanos vitríolos
Quero dizer que nada é sítio e que o dia também nem sempre
É diurno
Ou a ausência não fosse um glóbulo incapaz de se levantar
E quero dizer contorno
Gineceu da flor
Época
Das pedras que sabem contemplar
A morte num estar
No hálito dos poemas não lidos

 

Teresa Bracinha Vieira