Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ANTOINE DE SAINT EXUPÉRY


Na noite de 31 de julho de 1944, ele, Antoine de Saint Exupéry descolou de uma base aérea na Córsega e não voltou.


Uma mulher relatou ter visto um acidente de avião


“Não sei se o transporte de um saco de correio vale o risco de uma vida humana, mas o importante é saber se o homem que esses valores formam é ou não um belo tipo de homem”   
Antoine


Este homem, este escritor, este filósofo ensinou-nos como ninguém até que ponto nós somos “da nossa infância, como de um país.”


Sempre lerei o Petit Prince como quem interpreta crónicas do céu, intangíveis como as casas feitas para a felicidade, tão noivas de guerras, tão mãos nas mãos para nunca caírem, tão jardineiras sim, e tão dentro de mim que não sei viver fora do amor, e tal como Antoine nunca falei, agi ou escrevi sem ser por amor.


E o “Principezinho”, neste livro de todo o sempre, a voltar a cada dia para que eu esqueça o medo de o perder, antes da certeza inequívoca de me poder esquecer que já fui criança, e que conheço a solidão, e muito pelo julgamento dos pensamentos adultos se atropelarem, pois que afinal, nem sempre entendi os arcanjos no caminho que procuro. 


E acrescentou Antoine que sofria


Porque não há verdade clara para dar aos homens.”  


E dizia


"e eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Os principezinhos das lendas não eram, em nada, diferentes dele."


Por todas as perfeitas comunhões, queria dar-te Antoine de Saint Exupéry, alguma coisa esplêndida. Aceita assim esta toalha de renda feita pelas mãos da minha avó, essa mesma que, na capela ou na mesa das ceias do amor, nela tem escrito que se não morre «contra», morre-se «por».


E como me ouviste, respondeste


“É tão misterioso, o país das lágrimas!”


E tantos tesouros desses tenho debaixo da terra! E tão de boa vontade aceito adormecer, pois eis que aprendi a contar contigo.


Assim disse um dia ao meu amor: exponho-me aos riscos mortais, aqui do meu cockpit onde aprendi que nunca de mim partirás: “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz.” Já decorei o teu primeiro olhar e quero muito acreditar na nossa paz para o resto dos nossos dias.


Muitas vezes são as que peço que me esperes lá onde me é necessário adiar o momento do reencontro. É que me é impossível ficar na retaguarda sem assumir o risco. Não me é possível não regar a rosa, não regar a intimidade dos laços ou viver sem poesia.


E fico de vela a estas certezas.


Apprivoise-moi ! Si tu m’apprivoises, nous aurons besoin l’un de l’autre.


Antoine não voava tanto quanto desejava, dizia-se que a única coisa de que gostava, era de se perder no céu, para nele traçar estradas e deixar de recear não ter vivido depois da sua infância.


A infância? O nosso reservatório de paz? A chávena de café quente na terra de um lar e que Consuelo lhe daria, em qualquer altura da vida e sempre, e sobretudo, se a seu lado pudesse recortar papéis e dobrá-los como aviões para depois os lançar ao céu do terraço do amor infinito de ambos.


O essencial é invisível aos olhos.


E neste momento já Antoine era o marido de Consuelo e ela era já o que o seu marido lhe chamava: “a raiz da minha paz”.


E no entanto Antoine bem sabia que sublimava o sonho e que aquele encontro de almas nas areias não se passaria liso e plano nas ruas de Paris.


E escrevia Saint Exupéry:


J’accepte la mort. Ce n’est pas le risque que j’accepte. Ce n’est pas le combat que j’accepte. C’est la mort. J’ai appris une grande vérité. La guerre ce n’est pas l’acceptation du risque. Ce n’est pas l’acceptation du combat. C’est à certaines heures, pour le combattant, l’acceptation pure et simple de la mort.


Il tomba doucement comme tombe un arbre


Oração que Consuelo deve dizer todas as noites:
“Senhor, não vos canseis muito (fazei-me simplesmente como eu sou. (…) Senhor, que ele morra antes de mim, porque ele tem aquele ar de ser muito sólido mas sente uma grande angústia quando já não me ouve fazer barulho em casa. Senhor, poupai-o, principalmente à angústia. Fazei com que eu faça sempre barulho em casa, ainda que de vez em quando tenha de partir alguma coisa (…) porque ele fez em mim a sua vida. Protegei. Senhor, a nossa casa. Vossa Consuelo. Amen.”


E pode não haver verdade clara para dar aos homens, pode um saco de correio não valer o risco de uma vida, mas já te tenho escrito muitas cartas portadoras de muitas pressas, e um escritor guerreiro como tu, tem, de certeza, nessa eternidade, a caixa mágica que abre o mundo e volta para desenhar principezinhos em toda a parte, mas


Tu as décidé de partir. Va-t’en.


Car elle ne voulait pas qu’il la vît pleurer. C’était une fleur tellement orgueilleuse…


Teresa Bracinha Vieira


Obs. Este texto foi publicado neste blogue em 2013. A republicação ou a vénia à  intemporalidade da obra de Exupery: eis.

 

LOUISE GLÜCK: PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2020

 

Voz completa na poesia. Voz inconfundível e cheia de sagacidade mordaz.

 

 

Louise Glück

Modo único de interpretar o que nos diz a vida através do discurso da natureza numa releitura romântica e lúcida.

Modo único de nunca preterir a intimidade das questões familiares, dos amores, dos divórcios, enfim, também da análise da morte, em profunda introspeção solitária e penetrante na procura das palavras precisas.

Modo único de ser discreta, e modo único de, conhecendo a dor, não permitir que esta a impedisse de falar, e só assim a sua poesia esconjurava o que magoa e surgia uma fábula dura, mítica e real. Digo.

Modo único no interesse pela cultura grega e romana; poeta que aspirou sempre ao universal, retrabalhou a mitologia grega e romana, trazendo, nomeadamente, personagens como Perséfone e sobre um jardim de flores, um dos núcleos da sua poesia.

Diga-se que só com a ajuda da tradução de Rui Pires Cabral de um conjunto de poemas do livro “Averno”(2006) tivemos, em português, a possibilidade de conhecer Louise Glück.

 

Desse livro

 

“É verdade que não há beleza suficiente no mundo.
Também é verdade que eu não tenho competência para devolver-lha.
Nem há sequer candor, mas nisso talvez eu possa ser útil.
Eu estou
de serviço, mesmo estando em silêncio.
A sensaboria
miserável do mundo
prende-nos a cada uma das margens, num beco
como se fosse do artista
o dever de inventar
mas a partir de quê? do quê?

(…)

tu não estás só,
disse o poema
na escuridão do túnel.”


Ou de um outro livro


The Past

Small light in the sky appearing
suddenly between
two pine boughs, their fine needles

now etched onto the radiant surface
and above this
high, feathery heaven —

Smell the air. That is the smell of the white pine,
most intense when the wind blows through it
and the sound it makes equally strange,
like the sound of the wind in a movie —

Shadows moving. The ropes
making the sound they make. What you hear now
will be the sound of the nightingale, Chordata,
the male bird courting the female —

The ropes shift. The hammock
sways in the wind, tied
firmly between two pine trees.

Smell the air. That is the smell of the white pine.

It is my mother’s voice you hear
or is it only the sound the trees make
when the air passes through them

because what sound would it make,
passing through nothing?

 

E como eu gostava de conhecer bem toda a obra de Louise Glück. Atrevimento!

E por Louise Glück

sempre que creio que num rio pode estar um embrião de uma noite sofrida que eu não soube como dizer, creio igualmente que o pinheiro que na margem a ele se encosta é bem permeável aos meus segredos, e por aí construo-te a ti e aos ventos que escrevo.

 

Teresa Bracinha Vieira

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

OBRA BREVE
POESIA REUNIDA
prefácio Eduardo Lourenço
Assírio & Alvim

 

De novo com Fiama vou colhendo muito do que colho.

Ela permite-me a lancha a contornar mar pela passagem interior das descobertas, e lá oiço tudo, até as aves.

A verdade é que sempre que leio Fiama Hasse sinto que recebo um legado ao deciframento e lá vou sabendo que cada ser pode ter o tempo da História.

Todavia, este sentir, não apressa os poemas que releio, ou não soubesse o quanto eles me fugiram anteriormente, e eu na lancha, já só escrevia o passado na mesma situação de mim mesma, exatamente no mesmo então.

Desta feita a minha romagem visa a descrição posterior da viagem da leitura.

Espreitam-me os peixes de oiro, é certo, e todos qual completa biografia no olhar, desde a partida da linguagem, à escrita da existência.

Na água, sobretudo, está presente o que não amaina entre a celebração e o celebrado: as palavras sagradas não são de ninguém. Conclui-se.

Hoje escolhi procurar mais os arbustos da poesia de Fiama, do que as arvores, numa consciência oficinal de que os recantos da casa dos poemas se encontram por ali.

Para tanto, tracei um sulco na leitura que abraça – obsessiva - a sugestão deste livro, e, eis que ele não se mostra pós-viagem, antes se dispõe sempre à proximidade de uma origem, bem conhecendo o quanto o vento e o tempo, ambos podem servir de alimento.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


EDUARDO LOURENÇO


Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos.”

Ergo-me todas as manhãs e ando na Acrópole. Aqui não sonho com nada. Aqui apenas estou. Aqui a minha idade é uma áurea entre mim e a poesia que dedilha tudo o que do homem ficará. Aqui, a música, numa relação de verdade que muito procuro entre ela e nela, único acesso à altura do meu mais alto tema.

Leio um passado para chegar ao presente: uma reflexão que transforma. Leio Eduardo Lourenço.

Ergo-me todas as manhãs para andar na Acrópole. Foi assim que iniciei o conhecer.

Apaziguou-me o ponto de partida para uma fuga que não foi afastamento, afinal uma pergunta ao mundo, sempre: o que foi o que vivi até hoje? O que me resume tanto que nada sei daquela lágrima que cai pesadamente enquanto a outra acena, e enquanto tudo, avaliamos na ideia do vento, todos os nossos pensamentos.

E quando o amanhecer no seu contexto é a realidade que me contém, experimento de novo o verso e reabro as palavras de E.L.

«Os autênticos poetas de uma época não são sempre aqueles que visivelmente o parecem, mas todos cuja obra é fonte de energia e impulso anímico, como queria Dilthey.»

Anda esta afirmação a regular o som dos sinos, não os distinguindo como côncavos ou convexos. E no entanto, no ouvido das ideias, deixa E.L. que se saiba que ele também diz:

‘Faço de tudo uma espécie de leitura poética, de puzzle da ficção. Unamuno pensava que Hegel era um grande filósofo porque era um grande poeta. E Heidegger entendia que os filósofos são, a seu modo, poetas’»

E ainda com a candeia de invulgar ensaísta:

«A poesia é na totalidade da nossa existência um sol fabricado mas a sua luz é a única que permite distinguir o que dura do que morre, o que é digno do homem e o que não o é.

«O que dura os poetas o fundam».

Eduardo Lourenço sempre leu os poetas de forma osmótica. Fernando Pessoa está quase sempre quando lê os outros poetas, entendendo-o como um bisneto de Shakespeare.

Estabelece E.L. um cosmos literário analisando também as questões da identidade a partir da literatura e sobretudo da poesia. Assim registei e confirmei no diálogo com quem o conhece de fundo.

Nestes tempos de plena cultura da imagem em que ser poeta continua a ser um dos grandes actos de coragem; nestes tempos em que somos mais do que perecíveis, acode Eduardo Lourenço com a sua enorme força-luz, como só um interlocutor capaz de falar a partir do destino da aventura poética, pode ter.

Muito obrigada a quem

Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos.”

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O passado que tenho por mais próximo, é o de ler e escrever sobre livros ao longo dos tempos em que os leio e releio, os descubro e redescubro, os vivencio com diferentes paixões, e da experiência de todos, o elo de equilíbrio sempre se moveu, muitas vezes, conflito.

 

Sempre aprendi e aprendo no movimento e no todo.

 

Tenho para mim que não há equilíbrio sem mobilidade, nem há equilíbrio sem uma totalidade.

 

Aprendi e aprendo, o encontro e o perder na viagem de um livro.

 

Julgo saber que há trilhos irreversíveis para enfim, tentarmos chegar aos vestígios, à passagem pelo meio; à passagem que busco na experiência do livro.

 

Tempos houve em que me surpreendia com o ângulo tão diferente em que se oferecia um livro já lido. Foram tempos que me trouxeram um outro tempo de aprendizagem: refiro-me ao falar com a escrita, qual criatura terrena.

 

Tempos do livro arquétipo, dos metalivros, do êxtase, desde o palimpsesto que sempre me provocou de imediato o amor desejado por outros livros, até ao que bebeu da fonte das fontes, entre polo e polo, e eu sempre muito me reconheci e reconheço, deslumbrada, neste cerco aberto.

 

Tempos de olhar para a frente e para o antes das palavras, sentindo-lhes a resistência, a aceleração, é tempo de com elas sentir uma espécie de cumplicidade com o dom de iluminar as coisas.

 

Tempos da descida das arribas às povoações quando os livros, soalheiros à interpretação dos sentires das narrativas, nos esclarecem num atalho, no verso e reverso da escrita que leio na solidão que me conhece, e sei, que nem o silêncio é súmula, mas a primeira vontade de existir segue no golfinho veloz.

 

E é outro livro.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
Cora Coralina

 

A cápsula do tempo contém segredos, e um deles é o que nos permite saber até onde chegámos: até onde a nossa filosofia da felicidade fez justiça a princípios antitéticos.

 

Construímo-nos através do pensamento e do agir e, tanto mais, quanto tivermos sido certeiramente ecléticos, mutáveis, nessa construção do crescer, sendo certo que neste domínio, tudo afinal pode ser inventado se não nos sujeitarmos a um modelo assegurado.

 

Não é tarefa fácil, a de encontrar o caminho de transferir o que aprendemos e de aprendermos com o que ensinamos, se formos conscientes de que percorremos um horizonte que se vai evaporando a cada vez que o julgamos mais próximo.

 

Se soubermos que por aqui também o ecletismo da felicidade, a procura da terra prometida, sem que se chegue a possuir as chaves que abrem a sua porta, mas, para nós, um valor de luta e referência, e que tanto baste!

 

Afinal, é do nosso conhecimento que sempre que o homem se reduz, o mundo mirra, e o farol que guia a navegação das ideias, amarelece.

 

Então, retificar trajetórias, refletir nas dúvidas, convocar o paradigma de um dia sermos um pouco de nós, num noutro, é igualmente crer que esse outro vença mais medos por sempre próximo de David Hockney!, na capacidade de fazer face à institucionalização arbitral dos valores.

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

ENNIO MORRICONE (1928-2020)

 

Perdemos uma enorme referência. Morricone, o grande músico, o grande maestro do rigor, deixou-nos em julho passado.  

Que todas as vozes saibam sempre dizer da sua grande capacidade para entender o essencial.

Um amigo seu fez saber que, quando Morricone escreveu a música para a missa em honra do Papa Francisco apresentada na Chiesa del Gesù em 2015, falou dela com profundo entusiasmo, mas quase certo de ser o momento de um ponto final na sua carreira.

Todavia, a sua luminosidade já tinha ultrapassado os limites, indo a mais pontos do universo com a sua extraordinária assinatura. 

Ennio Morricone e a Sétima Arte: a árvore e o musgo.

 

Captava em algumas linhas musicais a essência de um filme. 

Como não recordar Cinema Paraíso
 do cineasta italiano Giuseppe Tornatore, extraordinário marco da história do cinema? 


Com este filme e nele e por ele a música de Ennio, naquele  tudo existir, um aprender a amar. 

Filme e música para toda a vida. Atalho mais claro à via do coração. Da oração. 

Os beijos – cenas que o padre da vila mandava cortar - que nos fazem chorar e sorrir neste filme, esclarecidos pela música que tudo faz renascer em entendimento e doçura, chegam ao encontro dos nossos olhos, e, um nó, em nós, num mundo de sentimento especial e de saudade, leva a que a terra-argila, se deixe fechar na nossa mão. 

Com Ennio Morricone, a música envolveu-se por via do cinema na cultura a uma escala de universo erudito e popular.

Magia!


Teresa Bracinha Vieira

OLÁ! SOU SETEMBRO E VOU ENTRAR!

 

Enquanto a vida um segredo guardar

Serei sempre Setembro e vou entrar

Inda que me digam que mostro inocência

Vestido de cores

De flores

De amores

O meu tempo é transformado e olhai

Em mim ventura

Que sou Setembro

Formoso

Venturoso

Isento

Que pois com minha época

Vos quero tirar danos

Ó prenda de meu bem

Vós

Vida minha

Vida causa inda presente

Olá!

Sou Setembro e vou entrar

Recebei-me pois

Na vossa mão

De força

Coragem

Glória

Ou não sabeis que até as silvas têm folhas

De espessura

De amoras que muito namoram

Com a esperança

Das inúmeras razões

Sim!

 

Teresa Bracinha Vieira

Eduarda Azevedo (1956-2020)

cnc e-cultura blog _ Eduarda Azevedo 1956-2020.png

A amizade também significa uma comunhão de diálogos e de experiências de vida, um tocar, um alcançar, um deter e um comover.

Partilhei a docência de Finanças Públicas na Universidade Lusíada com a Eduarda, durante largos anos. Fomos testemunha uma da outra num processo de evolução no ensino superior privado.

Em visitas regulares à casa de cada uma, no período que acima refiro, fui acompanhando o empenho profissional da Eduarda, por uma atividade laboral, na qual o seu cuidado e disciplina expunham vigor inequívoco.

Desafiou a coragem na luta contra a realidade que a capturava nos últimos tempos.

O meu desejo

Que sempre o humano e o natural se confrontem no plano dos sentimentos.

Que baste a perceção do afeto da amizade e que nos fique como surpresa e memória.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

CRÓNICA DA CULTURA

POSTAL 4º


Singular e querida amiga Dulce,

Obrigada pelo teu postal. Obrigada pelo modo como escreves. Obrigada por nunca teres partido.

Fizeste bem em adquirir o anel que descreves e a pulseira a jogo. Essa prata baça que referes, essas pedras antigas do Nepal irão casar com os teus dedos longos e com os teus pulsos estreitos e brancos, e ao adereço, chamarás peça astral. Pois sim, acho adequado.

Dulce,

Tenho duas notícias diferentes para ti. Nenhuma te queria dar, mas insistes, e, na verdade, desconheço por que razão entendo que aí, em Lassa, no mosteiro que escolheres, as dominarás melhor.

Assim, a morada que pedes está vaga. Por outras palavras, não te será acesso a quem queres, pois foi viver para uma cidade perto de Paris. Apenas sei que foi uma decisão que não pôde adiar mais, por desamparo, por tanto acrescido de aflições, tudo ligado aos seus problemas familiares. Às vezes, a infelicidade é um tempo de granito, é mesmo o advir da solidão pesada, da que não despega.

E querida Dulce, apetecia sumir-me em vez de te dar a segunda notícia: a nossa Joana deixou-nos fisicamente. Tenho para ti um saquinho de linho que ela me encarregou de te entregar. Dentro dele e por sua mão escrevente, a razão de lhe faltar tempo.

Preciso que te recordes que em ambas, luz e trevas, dorme o mesmo mistério, a mesma indecifração.

Longe e bem perto tudo é uma possibilidade.

Que mais dizer-te?

Custa-me que a reflexão sobre a morte seja um sinal de vida, mas afinal de que outro modo se pode olhar a fundo as coisas ainda abertas?

Em Lassa a eternidade poderá ser diferente? Não sei. Coloca um papel ao vento, te peço, por ti e por mim, e mediada pelos mosteiros, talvez a razão de ser de tu estares aí, e eu aqui.

Li no teu postal que irás pela Índia um mês. Se encontrares um deus para todas as condições, lembra-te de nós duas.


Tua muito amiga
Isadora

 

 Teresa Bracinha Vieira