Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MIGUEL TORGA: UM TEMPO QUE NÃO ACABA


Um dia, há sempre um dia em que nos chega a hora de uma iluminação. Assim me chegou o conhecer Torga o grande Torga pelos seus poemas, pelo que eu por eles intuía e via e já sulcava.


Via as serras, os trabalhadores da empa, os ciclos da natureza, o quanto o amor se podia fazer por cachos de uvas. Aprendia. Aprendia que não estava só no socalco da minha ativa espera.


Perguntava-me muito pelas transcendências e não sei se a interrogação, no fundo, não era apenas o adiar de uma certeza que eu tinha.


Encontrava na leitura de Torga um abrir de segredos intocáveis. O Miura condenado a divertir a multidão entregava o pescoço de toiro vencido ao alívio de um gume. Ou a Terra, única mãe de ventre quente, ao legítimo fruto que fazia sair dos seios feitos arvore.


Miguel Torga o poeta, o romancista, o ensaísta, enfim o escritor e o médico já dissera:


Hinos aos deuses, não.
Os homens é que merecem
Que se lhes cante a virtude.
Bichos que cavam no chão,
Atuam como parecem,
Sem um disfarce que os mude.


In Nihil Sibi


O humanismo sentido por Torga pela obra magnífica do homem, pelo trabalho humano exposto à miséria e à doença, à condição de não ser fácil ser virtuoso, nem criador de vida, e, ainda assim um humano constrói paisagem, molda o meio, semeia penedos face à morte e malgrado o limite do homem ser bicho, este homem tão limitado pelo limite, anseia a descoberta de caminhos para chegar às coisas belas e possíveis.


Assim o senti e ainda sinto Miguel Torga, nesta poderosa acepção do perceber.


Como dele disse Mourão Ferreira, Torga vivia na intimidade das forças elementares e para as celebrar aceitava a constante luta numa rebeldia ao que o queria asfixiar.


Fui a Coimbra e visitei-o. Não sei se visitei o seu monasticismo votado à autenticidade sublime da poesia ou de uma escrita, ou a sua fidelidade à medicina: ou se visitei a visita e tão só me era tanto.


Régio e a medicina? Nemésio? Perguntei.


«Teresa, eu barafusto muito com a medicina. De Régio a Nemésio é todo um dia. Tento entender-me.»


Nada acrescentei, mas recordei-me de uns poemas dele – sabia muitos de cor mas envergonhei-me de lho dizer naquela altura.


E ele já escrevera:


A começar por mim – meu principal motivo
De insatisfação (…)
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar.


E mais além, noutra página de um livro de Coimbra de 1956continuou:


(…) casou-nos o mito
(…) tu com sementes nos pés
(…) sei que não és mentira nem és lenda
Perder-te nada é – perde-se tudo.


No comboio que me trouxe de volta a Lisboa justifiquei cada palavra das quase nenhumas que trocámos. Voltei a agradecer-lhe o ter podido conhecê-lo. Na minha mão o beijo que nela deixou. Então recarreguei a inocência daquela ida e recordei a joaninha que ambos olhámos, olhando-nos, e afinal foi o único momento em que lhe disse «não nos deu para colecionarmos burros». E o Torga sorriu largamente com o perto e a distância de Piódão que então eu não conhecia. E desejou:


«Que alguém te ame muito é o que eu quero!»


Parei o carro há dois anos atrás, num miradouro no regresso de Piódão, e fui ler o que estava escrito numa pedra no alto da Serra do Açor onde faltava o ar por tão nítida a aldeia, e era isto:


Com o protesto do corpo doente pelos safanões tormentosos da longa caminhada, vim aqui despedir-me do Portugal primevo. Já o fiz das outras imagens da sua configuração adulta. Faltava-me esta do ovo embrionário.
Miguel Torga

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Solicitou-se a reposição deste texto publicado em 2012 neste blogue.

CRÓNICA DA CULTURA

Aerograma


Sue Arrowsmith

 

Luís Pedro,


Bem creio que os anos expõem uma sensibilidade do como foi a viagem com e sem restrições.


Chega-se, enfim, a um rodar que nos leva ao prometimento e nele o que afinal importa para nós aqui chegados.


Nota que te não quero preocupar, se estou a ir além ou aquém, do significado que pretendes que eu assuma com o teu gesto de me doar doadas as tuas realidades. Apenas e muito apenas, podes crer, tenho para mim que sempre caminhaste dentro de ti, sem exceção e sem consultas aos refúgios que te protegeriam.


Saibas igualmente que o meu instinto de preservação nunca foi uma arma adequada contra o mundo; talvez segredos, sim, o tenham sido, antes de descodificar a razão das vidas se fazerem paralelas.


Quanto à vigília das noites por causa da velhice, querido Luís Pedro, te digo que não valem os medos que se instalam.


Os dias são agora mais independentes e menos comum a existência. Nada tem que ver com explicações e não existe qualquer valor moral nos andarilhos.


Digo-te ainda, como carpinteira das memórias do que fui, e do que li e do que sou, e ainda como contrabandista das coisas que vão morrendo porque sim, que, se nestas entrelinhas encontrares razão, aceito pois o teu depositar nas minhas mãos do que nunca roubou o espaço da generosidade com que sempre nos demos, mesmo tendo nós sido vitimas de algumas qualidades.


Consente Luís Pedro, que um dia, deixe eu nas tuas mãos, a alegria, esse não sofrer extraordinário!


Tua Amiga
Isa 

 

Teresa Bracinha Vieira

LITIGANTES

 

Sonho sempre que te salvo.

Agora, como então, a sorte decide-se por um efeito paradoxal do amor.

Não cedo a nenhum atrativo. Cedo a ti. O ansiado é proteger-te como a carta que não chega ao seu destino; a missiva entre ti e mim, destinatária, caminho, sempre a caminho.

Digo-te que tudo é também um pedido de absolvição escrito num manuscrito sem que alguém o tivesse escrito.

Tudo é mapa e séria herança. E como a imensa misericórdia do talvez é tão difícil de suportar!

Mas sonho sempre que te salvo.

Para que não me abandones, ou, para que, salvando-te, ofereça eu a minha vida e escape ela do confronto com os destroços do mundo que nunca se constituiu como vitória sobre a morte.

Também, um dia, pela ajuda da diversidade caleidoscópica de um vidente, eu e tu, espreitámos o combate de um tal angulo que vimos a incerteza do juiz a pairar como parte interessada!

No entanto, a grande prece amor, a grande prece nunca consagrou um vencedor.

Verdadeiramente, ninguém domado, ninguém em jaula: ambos condição e já tanto! ou espécie de disciplina no que nos envolve, jeito indefinível da alma, e sempre o que te quero deixar principia no fim, e ao começo fomos perguntando, mas onde estivemos?

De tudo brota, brotou um véu, um andamento, e o que mais conta para nós é o prometimento com a nossa verdade carpinteira.

Como o existir tem sido a metade que só se completa um no outro!

Como em nossa íntima companhia, durante a caçada, fomos!

Amor que tanto ainda hoje preparados!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Conheci Helena Almeida na sua casa da Rua Arco de São Mamede, era eu, colega da Joana, sua filha, numa escola que existia na mesma rua. Estudávamos ambas para o antigo 5º ano do liceu.


A casa da Helena Almeida era uma casa, tanto quanto memoro, rodeada por um largo espaço de terra. Um jardim? Entrava-se, e ao fundo do primeiro corredor, a sala de trabalho de Helena Almeida; à direita um outro corredor e igualmente ao fundo mas à esquerda, uma cozinha; ao lado uma sala de jantar com acesso a uma sala de estar de portas até ao chão. Muita luz. Lembro.


Na cozinha, móveis de sacada de cristaleira, antigos, e uma chaminé de pedra. Havia um azulão, lindo, que cobria as portadas das janelas e outros espaços estratégicos da cozinha. Julgo. Ao meio, uma mesa de madeira, nela, duas canecas de chá e pergunta-me a Helena, a razão de eu tanto gostar do enorme quadro que estava na sala. Era ele pintado todo numa única cor de azul e apenas com o desenho de umas sapatilhas de bailado “tombadas” no canto direito do quadro. Assim o penso ainda hoje.


Respondi que era a mesma razão de gostar dos quadros que estavam no atelier, e dos quais saiam crinas ou caudas de cavalos na continuação dos desenhos o que os tornava vivos para mim…mas mais nada sabia dizer.


Sorriu e perguntou-me se eu gostaria de arte?


Pensei dizer-lhe tantas coisas se não me achasse uma miúda que não poderia falar muito com quem nos mostra os sonhos. Pensei falar-lhe no quadro do marido que estava na sala de jantar e que me parecia tratar-se de milhentos cubos pequeninos, e que eu queria espreita-los para ver o que tinham dentro e como se encostavam uns aos outros definitivamente, achava eu. Pensei dizer-lhe que gostava de a rever a andar com os arames agarrados aos sapatos para visualizar a ondulação do andar. Pensei dizer-lhe que me sentia muito, muito bem sempre que estava ali. Mas nada disse. Não fazia sentido atrever-me. Queria mesmo passar quase despercebida. Não incomodar. Era um privilégio quando a Helena me olhava e me sorria, nas vezes em que fui lá a casa e me sentei no atelier. Ela, a Helena Almeida era então a minha poesia total.


Um dia, deu-me alguns fios do quadro em que trabalhava e disse «Ficam nas tuas mãos. Bem entregues».


Corei.


Sair daquele espaço onde se passavam as interrogações todas, era o meu momento de trazer tudo ao mesmo tempo comigo depois de ter confirmado que existia um tudo.


Ainda hoje me envolvi com um guindaste de memória, e grata pela partilha dos círculos coloridos e insistentes que desde então me chegavam e partiam aos enxames, por ela, por Helena Almeida, deles deixei de duvidar ou de ter medo.

 

Teresa Bracinha Vieira

ALEXANDRE O’NEILL: O EXEMPLO DE COMO DIZER AS COISAS

 

A beleza e o músculo dos seus poemas sempre me deixaram claro que o importante é viver na padaria da aldeia de cada um. E regar os gladíolos, e vestirmo-nos com traje de humor e em coração, a luta e a colcha que nos cobre os dias.


Ainda hoje leio o grande Alexandre O’Neill com a surpresa que me deixa sempre. A sua prosa, também marcada pelas influências surrealistas - ou não tivesse O’Neill sido um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, com Mário Cesariny, José-Augusto França entre outros, tendo tido lugar as primeiras reuniões deste grupo na conhecida pastelaria Mexicana – utilizava um jogo de palavras lúdico e único e também se caracterizava por uma intensa sátira aos portugueses tão clara na expressão "meu remorso, meu remorso de todos nós".


O’Neill não conseguindo viver apenas da sua arte, chegou-se até ao campo da publicidade e é da sua autoria o lema

«Há mar e mar, há ir e voltar» ou, da campanha desse Verão «Passe um Verão desafogado».
Alçada que tanto admirava Alexandre O’Neill e que sempre foi seu grande amigo, relatou-me que um dia tinha perguntado ao O’Neill, qual seria a razão do bom entendimento deles, ao que Alexandre teria respondido, dizendo de imediato “ A gente dá-se bem porque não se leva a sério”.


António Alçada considerava-se neste grupo de amigos, um crente entre os ateus e uma vez, num táxi, seguia O’Neill com José Cutileiro e disseram adeus ao António Alçada quando por acaso o avistaram. E o Alexandre terá dito para o José Cutileiro: “ O António ficou a pensar: lá vão aqueles para o ateísmo”.


Um dia o António escrevia a sua crónica para a revista Máxima quando me disse: “Sabes que o José Cutileiro tinha bons versos? Recordo aquele “ De si me sirvo amor como de tudo” e , como o declamou ao lado do Alexandre, este, fez-lhe o reparo

Falta aí uma vírgula. De si me sirvo, amor, vírgula, como de tudo.


Alexandre O’Neill sempre com humor era um prazer ouvi-lo, uma verdadeira fonte de achados linguísticos, assim me transmitiu o António Alçada num dos múltiplos dias em que do Alexandre me falou.


E tendo acordado naquele Domingo com um poema do Alexandre na memória, o António telefonou-me e lá fomos almoçar ao restaurante em Sintra. A verdade, é que a dada altura, subíamos a Serra de Sintra na 4L do António, enquanto eu lia em alta voz um poema do O’Neill que começava


Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo
- Ó António !, gritei-lhe, olha que não estamos a subir. O carro não sobe?
- Olha Teresinha senti o mesmo, mas não queria interromper o poema.
- Ó António, não estás a ver que trazemos o caixote do lixo agarrado ao pára-choques?


E continuei

Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.
E o Alçada olhou-me e comovidamente disse-me:

Ó Teresa ainda bem que não paraste a leitura do poema do O’Neill. Foi a melhor homenagem que lhe fizeste: o caixote do lixo pode perfeitamente querer ouvir o poema de um beijo.

 

Teresa Bracinha Vieira

Obs: Solicitou-se a reposição deste texto publicado em 2013 neste blogue.

CRÓNICA DA CULTURA

AMANDA GORMAN: The Hill We Climb


O NOSSO POVO DIVERSO E FORMOSO VAI EMERGIR ÚNICO E MARAVILHOSO
 

disseste 

com a verdade da tua qualidade de espírito, dos teus movimentos livres, porque vês coisas diferentes e para elas escreves horizontes de antecipações, e porque antes já perguntaste  

When day comes we ask ourselves where can we find light in this never-ending shade? 

Agora, para todos te encontras preparada, aberta à lucida felicidade por ti procurada e por ti revelada nas palavras 

When day comes, we step out of the shade aflame and unafraid.  

Como um pássaro real sem peso dentro da liberdade total do ser. 

Amanda Gorman 

que sem a mínima dúvida o teu poema foi antes de nós e foi o que conta para nós 

tudo! 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Da grande experiência fará sempre parte o imenso espanto com a possibilidade da existência.

Diria que neste encontro, o segredo conjunto da vida e da poesia, desenrolam-se, compensando a segunda muitos dos espaços em que a primeira se confina, reconhecendo apenas a marca do fim, enquanto a segunda, deitando mão à condenação, vive livre a ilusão da raiz de todos os amanhãs.

E não há paradoxo nesta realidade, antes constitui ela, um dos marcos de simultânea essencialidade das coisas na sua acontecimentalidade.

A arquitetura que integra a grande edificação da existência e nela da experiência, emanará sempre das íntimas contradições do que se vive, afinal, mundo exposto a todos e que a todos pertence.

Os momentos dominantes ou aqueles que mais se consolidam à nossa pele, seguramente se prendem com os nossos movimentos prisioneiros que nos aportam uma visão do ser que aceita mundo molemente seco, infecundo mesmo, e no qual o abominável vazio é o que foi e o que no dia-a-dia já era.

A presença da poesia ciente de uma existência condenada no próprio instante da vida tem capacidade de expor, o quanto ilusória é a visão convencional de uma diferença, e sem que negue que pode não haver ninguém exterior ao poema, afirmará então que a verdade pode estar muito, muito além do sentimento, e nós, ainda nós no seu interior.

Da grande experiência fará sempre parte o imenso espanto com a possibilidade da existência, dissemos.

Porque não correr o risco de assumir o quanto o abstrato é concreto, o quanto a inconcretizável esperança pode não ser inútil, bastando pensar que antes das separações tudo esteve unido.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

COMUNICAÇÃO: UMA FERRAMENTA HOLÍSTICA

 

Vai-se descobrindo ao longo da vida que muito também se fala para nós mesmos, bloqueando acessos à comunicação, impossibilitando, muitas vezes, o ponderar opiniões ao caminho do conhecer uma nova via.

Tende-se, por excesso, ou, inadvertidamente, a falar para dentro de nós, ainda que invocando diálogos, e, não raro, se afirma, uma comunicação, no preciso instante em que se continua a falar de si e para si.

O ser e o sendo também assim se confunde.

O problema da escolha em ato de liberdade implica a necessidade de nos soltarmos do tempo das perceções circulares, soliloquiais.

Abrir o devir, é abrir a partilha, ferramenta essencial que não receia a separabilidade, a impermanência, a própria perplexidade.

Há que ter claro o quanto a redução dos seres é superada pelo diálogo.

Em rigor, há que retrabalhar tudo, e não escamotear, o quanto as dicotomias são razão de afastamento, ruturas, desprezos, impossibilidades de compreender as pertenças de todos, os laços do pluralismo, a própria origem do amor.

Todavia, o isolamento em que se coloca cada um, quando não atenta o quanto apenas para si fala, cria um feixe de supostas relações, nas quais a coexistência e a tolerância são, afinal, realidades constituídas à cautela da sua interpretação.

Nenhum de nós é apenas a soma de partes. Somos raízes das pontes entre os mundo, num todo.

O tempo que nos segura, é o tempo do pensamento comungado, e esta conquista vital faz-se como a Mãe-Natureza ensina: comunicando para além de nós.

 

Teresa Bracinha Vieira

JOÃO CUTILEIRO (1937-2020)


Em todos os dias lhe nascia obra como um mapa que sempre devia ser entendido qual poema maior.

Em todos os dias ia deixando a existência ao mundo, feita de muitas coisas, e sempre à janela, aquela mesma por onde saiam os sonhos, as flores, os sacrifícios, as luzes, os gritos, as coisas só aparentemente impossíveis, como essas de um bailarino se esgueirar para colocar a arte humana no cosmos.

Teu é o lugar de quem escuta!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Crónica da Cultura - Celebração.jpg

 

CELEBRAÇÃO

 

Minha filha vamos, vamos, a levantar, aproxima-se o dia, o teu dia, e afinal o de todos nós! A cidade e o povo reivindicam-te. A um sinal de assentimento teu, todos vamos a demanda do novo ano. Vai, vai no cortejo das tuas núpcias, canta as glórias das essências. As ruas irão encher-se de coroas e tochas e vinhos e perfumes. É um dia de vitória muito teu. Neste primeiro dia do ano, de pronto, vai soltar-se o teu coração, sem qualquer medo do que lhe está destinado. São assim as núpcias, estabelecem elas alianças com futuros frente a frente para que se vejam, e ainda assim tão longe, ou já amanhã, quem sabe?

Minha filha, concede!, antes que te faltem as forças e que deixe de ser evidente que quem te pretende, te ama, disposto a arruinar-se por ti, sabendo que a ruína é o tanto imenso amor que te tem e terá, e que o ano a viver é o início de uma ideia.

Prodígio! Cantamos todos! Prodígio extraordinário! Vem 2021! Vem ó ano dos futuros que o enlace original é da minha filha! Grande é a sua formusura, superior mesmo à dos segredos dos escultores e pintores e poetas e arquitetos e músicos. Centras tu, filha minha, meu amor, a força feminina da história catalisadora dos movimentos e das ações. O teu herói será a separação e o reencontro, e tu o enfrentarás como aos perigos dos caprichos da Sorte.

Minha filha luta, assume o desafio a exigir núpcias. E eis que te vais surpreender em cálculos e desfechos e em perceções contraditórias, mas o sonho e o que nele viste, vai existir também na realidade.

Filha vamos a levantar, aproxima-se o dia, o teu dia, e afinal o de todos nós! Nada temas! Se prisioneira, se prisioneiros, as crianças serão destino, sempre!

Teresa Bracinha Vieira