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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

As sociedades grisalhas: o idadismo

 

Questionar o contexto demográfico que descreve o mundo atual, em particular definindo o envelhecimento da população é importante porque em grande parte explica o fenómeno das atitudes negativas em relação às pessoas mais velhas. Preconceitos e discriminação ferem as pessoas idosas atirando-as, nomeadamente, para o grupo dos sem grandes ou nenhumas capacidades, sendo que o “idadismo” não é compatível com a mudança social de um país como Portugal que tanto necessita de ver um futuro bem diferente.

 

Li que em 1969 o psicólogo americano Robert Butler procurava explicar o termo “idadismo” (ageism em inglês) quando procurava um esclarecimento às reações negativas de uma comunidade face à construção em determinada área das redondezas da mesma, de casas para pessoas idosas. Conclui Butler que não constituindo estas pessoas idosas qualquer motivo de provocação de medo ou de afrontas, somente a idade levantava questões à comunidade pois diminuía o valor imobiliário na zona e mesmo o charme da vizinhança.

 

Em rigor a Suécia e o Reino Unido têm feito um esforço no que se refere às práticas negativas contra alguém, baseadas na sua idade. O idadismo – envolve preconceitos e sentimentos que se têm em relação a um qualquer grupo etário- não descura as pessoas idosas e talvez por essa razão se chamarmos gerontismo, estejamos mais próximos da senilidade de espírito que se quer apontar, ainda que nem sempre presente na realidade, e, por essa razão, para a sua ausência, queremos alertar.

 

Tende-se a criar grupos de idosos com traços negativos baseados na incapacidade, na doença, no sentimento de desdém, e, até na piedade que empolga sentires desditosos face ao aspeto espelhado pelo enrugamento de pele ou pela curvatura de dorso, entre outros sinais de velhice como o longo olhar inquiridor e mesmo zangado de muitos idosos, que tanto indicam a pergunta da razão da injustiça que suportam sob o nosso consentimento. Existe uma ideia do que é feio na velhice e que conduz ao distanciamento, ao abuso e aos maus tratos, não necessariamente por via de agressões físicas, mas pelo abandono do idoso, reduzido ao mimo hipócrita de um comportamento cultural da visita aos lares, onde se depositam na maioria das vezes, espelhando sempre que um idoso tem local certo, possa o jovem familiar ter ou não disponibilidades de lhe retribuir em conforto tudo o que ele, uma vida inteira lhe proporcionou.

 

A discriminação em relação à idade do idoso é em Portugal um núcleo duro a vencer. Será de perguntar a todos os idosos se já foram maltratados devido à sua idade? se, já lhes foi questionado, quando não, subtilmente insinuado que assim sofrer é o normal face à idade? Creio que por medo de abandono total ou agravamento dos receios em relação a quem deles toma conta quando estão à mercê de desumanidades, poucos são os que diriam a verdade. Pois que aguardem a morte serenos, pois que assim cumprem o dever fundamental de entenderem os constrangimentos que impõem a quem deles por estes modos assumem a responsabilidade de os tratarem.

 

Não se pretende promover a incapacidade ou a dependência com bem-intencionados atos. Não se pretende que se não viva por ter um idoso em casa, mas que se compreenda o delinear de políticas adequadas que combatam a atitude de uma condenação à espera da morte e mergulhada em desamor: eis o que aguarda numa desilusão estilhaçada a nossa sociedade grisalha, aquela que poucos anos antes ainda aguardava que, esperança de vida, afinal, levasse a uma pertença de estatuto a respeitar.

 

A Europa é a região mais envelhecida do mundo. A redução do crescimento demográfico associado ao aumento de esperança de vida com profundos impactos económicos e também sociais, e não se descuidando imigrações e migrações, não deixa de nos impressionar, e, de acordo com o INE em 2007nos próximos 25 anos o número de pessoas com mais de 65 anos poderá duplicar o número de jovens.

 

Recordo que em 2006 a União Europeia iniciou uma discussão sobre os desafios a as oportunidades trazidas pela sociedade grisalha, mesmo no âmbito do trabalho e da interação dos saberes. Teve-se em conta também a proteção social e as finanças públicas. A ideia de que a dispensa dos trabalhadores mais velhos tem de ter lugar para que os mais novos ocupem posto, é só por si tao desprovida, que, a economia chamou a este pensamento, a falácia do pulmão, comparando com o ar que neles entra, saindo consequentemente o que lá estava, e assim de jeito reducionista, se expulsam as hipóteses das pessoas mais velhas serem portadoras transmissíveis de criação de riqueza, não obstante o ter presente os processos de envelhecimento e a diminuição de capacidades funcionais do organismo.

 

A esta temática voltarei, ou, na fila de uma farmácia, não tivesse escutado uma senhora de 70 anos, dirigindo-se à farmacêutica

 

Sabe a sensação que tenho com esta minha idade? É que sou tratada como se critica que os negros o são só por serem negros. Ninguém faz esforço para me entender, disparam a arma do julgamento só de me olharem os traços da idade. Isto não é uma sociedade inclusiva. Envelhecer assusta mais do que ter enfrentado a vida 70 anos. Poucos são os que atuam de modo diferente em termos individuais sequer, e, nem se dão conta de que muitos dos paternalismos magoam fundo com o cobertor de fibra que envolvem. Faz feridas entende? A interpretação de um idoso parece que é tão necessária como compreender diversas etnias.

 

É uma ideologia, pensei para mim. É também uma cultura que não é explicada às crianças garantindo uma comunicação normal entre todas as idades, e, que ameaçar é crime. Ameaçar com afastamentos, formas de abandono e desamor é crime, e, no futuro, todos nós assim acabamos a ser o seu alvo preferencial como garantia completa do termo da história. 

 

O «écran-circo» distrai-se nas aparências sem essência. A sociedade grisalha entrou no mundo pela memória das máquinas, pelas barbáries simuladas de afetos. O horizonte do verbo foi-se desfocando com a passagem dos anos: resta perecer sob a dignidade possível.

 

As pessoas idosas têm uma ideia clara da desvalorização de que são alvo na sociedade em geral. As manifestações idadistas quanto muito toleram coexistências de saber, mas raramente intuem o quanto esse conhecimento é diálogo de aprendizagem. Ainda estão na fase da arrogância e do tudo dominarem sob muitos títulos, sendo que para esses também o símbolo de alguém curvado com uma bengala é rótulo de idoso extensível a um perfil codificado.

 

Bem basta que o corpo vivido se alterne em contrações e dilatações a nós estranhas: o próprio espírito olha-o com um despropósito entorpecido.

 

Paira sobre todos nós, envelhecer, com o perigo de muito, muito envelhecer, tanto que o destempo pode chegar com o estrangeiro que nos oferece um dormir lá onde e aonde se escondem as mensagens da nossa sedução, e, se inspira o cheiro das tílias que se entrançam para partir.

 

Digo: antes desse momento em serenidade desejado por todos, eis-nos ainda a tempo.

 

Que os jovens não cumpram o trabalho de termiteiras: esse é o maior amor que lhes podemos desejar, o único capaz de não lhes fazer sentir o seu futuro, precocemente amedrontado pela velhice!

 

Teresa Bracinha Vieira

LUÍS MIGUEL NAVA

 

O Círculo de Poesia da Moraes Editores publica em 1979 o livro de poesia PELÍCULAS de Luís Miguel Nava prémio de revelação de poesia da Secretaria de Estado da Cultura.

 

Recordo a referência expressa a este livro em diálogo com António Alçada Baptista. Não nos restava qualquer dúvida sobre a inquestionável qualidade e originalidade da obra de poética de Luís Nava numa incessante ideia do conhecimento de excesso e de limite, e que muito clara nos surgia neste livro.

 

Formado em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, na qual foi assistente, parte para Oxford como leitor de português, mudando-se em 1986 para Bruxelas, tendo sido cruelmente assassinado em 1995 no seu apartamento por um companheiro de circunstância.

 

Estávamos a almoçar em Sintra eu e o António ainda incrédulos acerca da notícia do assassinato do Luís quando nos veio à memória a profunda influência que nele teve Eugénio de Andrade aquando do conhecimento de ambos em 1975. Em rigor, Luís Miguel Nava, nunca mais referiu como escrita ativa tudo o que tinha escrito antes de conhecer Eugénio de Andrade. Terá sentido o Luís - dizia-me o António – que até Eugénio de Andrade o que escrevera fora apenas indício de nada.

 

Julgo que o modo de se acender na escrita surge-lhe depois de Eugénio e surge-lhe do jeito que surge às águas: fala de torrente por caminho de ondas. Digo.

 

Há pouco tempo escrevi sobre uma obra de Bashô, e logo abri a página 10 deste livro de Luís

 

O TANQUE DE BASHÔ

O tanque junto a que o crepúsculo mo traz é o de

bashô.

   A água maravilha-se.

 

Inquinam-se as imagens, a pequena rotação do outono,

o dia decompõe-se, o sangue explode contra a claridade.

 

Um nó de leite a nudez cresce pela água.

 

e

ARS ERÓTICA

Eu amo assim: com as mãos, os intestinos. Onde

ver deita folhas.

 

ou

OLHANDO O MURO

E assim ficava olhando o muro. Não atentava então na claridade em que a casa e a terra a essa hora faleciam (…) metade do seu rosto entrava pelas paisagens, era prisioneira da fabulação.

 

Creio que existe sempre um relâmpago de cores diferentes quando relemos Luís Miguel Nava.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A garrafa de cristal

 

A porta ao fundo do corredor estava sempre fechada e nunca nenhuma criada a abria para ir limpar aquela que era uma sala comum aberta aos natais.

 

Um dia, atrevi-me e abri a porta espreitando lá para dentro transida de medo. Desconhecia o segredo e isso criava em mim um imaginar de coisas ruins, pelo estranho respeito que todos tinham pela porta fechada. Atrevi-me, e, vi uma sala num lusco-fusco de janelas quase fechadas e um brilho estranho em cima de um dos aparadores.

 

Fechei a porta e desapareci dali. Depois comecei a reparar que a Tia Carolina cada vez que passava junto à porta colocava a mão na chave da fechadura e puxava-a para si, como se estivesse a tirar alguma duvida de que a porta pudesse não estar bem fechada. A avó fazia o mesmo. Depois pela hora do jantar quando o dono da casa chegava, todos ficavam atentos ao seu percurso até à saleta. Este “todos” abrangia as criadas, sabedoras do segredo. Era visível que se sustinha a respiração até ele passar pela porta sempre fechada da sala e rumar à saleta. Entendi, então, que ele nunca deveria abrir a porta e que se o fizesse a casa explodiria em discussões e tremuras de vidas não ditas.

 

Lembrei-me do brilho que vira. Ia criando a ideia de que o problema era aquele brilho branco e avermelhado, o que continha o mistério. Um dia, num repente, abri a porta e entrei e fechei-a atras de mim num ápice. Olhei para o brilho da garrafa bem de frente e percebi que era uma garrafa de cristal esguia e alta com tons avermelhados e brancos. Ao seu lado uma salva de prata que lhe garantia estatuto. Percebi tudo. Era uma lâmpada de Aladino desta vez em formato de garrafa. Realidade preciosa; mas qual a razão que impedia o dono da casa e afinal todos nós de a vermos, mesmo que desconhecêssemos os seus poderes? por desconhecimento do código que a massajasse no angulo certeiro?

 

A tia deu-me um grito

 

Que fazias dentro da sala? Não sabes que não é local de brincadeiras?

 

Fui ver a garrafa

 

Ah a garrafa! Dentro dela existe a emanação de uma alma, não sabias? De dentro dela saem sombras se a luz do sol as acordar. Nunca mais te quero ver ali.

 

Senti-me aniquilada como um grão de areia quando pisado. Escapei-me para o meu quarto e enrolei-me na cama entre os cobertores, mas o frio não passava. De repente tudo naquela casa era dividido por criaturas e destinos. De repente entendi que as perguntas decisivas nunca as poderia fazer ali. Ali havia inclemência, ninguém saía da escuridão para a vida. Só a garrafa acedia a entender a sua força, o impacto do seu tempo íntimo. Corri com Aladino e convoquei o olimpo. E exatamente naquele momento ouvi a chegada do dono da casa. Ouvi-o a dar a volta à fechadura da porta da sala comum. Perguntou num grito ameaçador e seco, onde estava a garrafa.

 

Abri a porta do meu quarto e ainda vi a avó sair quase correndo para a rua, submissa, de cabeça inclinada para o chão. Saía só com o que tinha vestido e era final da tarde da chegada de um inverno. A tia Carolina respondia aos gritos do homem da casa, gritando-lhe também e recordando-lhe a sua inocência total no desaparecimento da garrafa e que a culpa era da avó que tinha acabado de provar essa mesma culpa, fugindo.

 

Pela manhã, ainda em robe, a tia entrou no meu quarto e inquiriu

 

Não sabe que tem de ir buscar a avó? Levanta-se. Vá. Ela deve estar à espera, leve-lhe o casaco dela e não entre na pensão onde ela está. Diga à porta que a vai buscar e nada mais. Já sabe onde é.

 

Viemos as duas quase sempre caladas. Eu e a avó. Junto à entrada da nossa casa eu disse-lhe

 

Não tenha medo da garrafa. Ela é falsa.

 

Entrei em casa com a avó que se dirigiu a chorar para a saleta.

 

Entendi que o tempo era enfim chegado. O tempo de descobrir a porta de acesso a outro reino distante daquela casa tinha chegado e que forçaria todas as sortes: a decisão ancorara-se no meu espirito. A soluçar, compreendi que um poema muito tempo ao abandono pode sofrer a erosão do tempo de vida e envolver-se no túmulo da garrafa de cristal.

 

Levantou-me uma grua firme e, tendo ali ficado, fugi para sempre.

 

Teresa Bracinha Vieira

MATSUO BASHÔ

 

O pai de Matsuo Bashô era um samurai de pobres recursos numa altura em que o Japão era dominado pelos shoguns Tokugawa. Em 1672 começa Matsuo Bashô a impor-se como poeta em Edo (Tóquio). Os seus haiku têm uma dimensão rara de qualidade até aos dias de hoje.

 

Homem profundamente solitário aceita a construção de uma cabana que um discípulo ergue para ele e no primeiro inverno oferecem-lhe uma bananeira decorativa (Bashô, em japonês).

 

Depois de um incêndio que lhe destrói a cabana, ele parte errante para um mundo que percorre como viajante

 

«Estou só e escrevo para minha alegria»

 

Por vezes fazia-se acompanhar de um cuco, por uma borboleta, ou mesmo por um discípulo.

 

Vem Bashô a falecer em 1694 e sobre a sua sepultura, os seus discípulos plantaram uma bananeira.

 

Ainda hoje se menciona que o haiku é o resultado de uma lenta depuração que a poesia japonesa aceita ao longo dos tempos. Mas foi sobretudo Bashô que a construiu no seu estatuto mais cristalino.

 

Li que cada haiku deve ter um tom dominante, no qual se devem reunir a frugalidade, o isolamento e o mistério. O haiku deve surgir como um momento único na eternidade

 

Para o entendimento de um poema assim, devemos nós, os ocidentais despirmo-nos de transfigurações no sobrevém das horas da escrita e da leitura e absorver um haiku qual brisa ligeira que sacudiu as asas de uma libelinha.

 

Jorge Sousa Braga na organização da antologia de Bashô a que me refiro “O Gosto Solitário do orvalho” (chancela da Assírio e Alvim) segue o critério das antologias de haikus (no Japão e no Ocidente): o ciclo das estações, e refere

 

O texto sobre a bananeira decorativa transcrevi-o (…) como se Bashô se tivesse resolvido despir perante os seus leitores. Porque um poeta – e um poeta tão próximo da natureza como este – serve-se sempre nu.

 

E eis Matsuo Bashô

 

Primavera
Debaixo de uma cerejeira

tudo é servido
decorado com flores

 

Flores de cerejeira no céu escuro
E entre elas a melancolia
quase a florir

 

Verão
Silêncio:

as cigarras escutam
o canto das rochas

 

Sensação de vazio
Ao despedir-me colhi
uma espiga de trigo

 

Outono
No outono nos separamos

como as duas conchas
de uma ostra

 

Outono –
Empoleirado num ramo seco
um corvo

 

Inverno
Através da racha na lareira

o gato
vai ter com a amada

 

Deixem-me caminhar
até que tropece e desapareça
na neve

 

Também assim nesta estética de palavras, este homem antiquíssimo comanda um útero para melhor vigiar o mundo e o influir. Porque o verdadeiro poder se exerce na discrição e comunica-se sussurrando mensagens de uns para os outros. A vontade do dizer de Matsuo Bashô recebe e envia sinais com força de mandato e nós só o entendemos se desligados para sempre. E tendo os homens como gente atenta, anfóricos, cor de malva convocados, ao tempo das asas desenvoltas, e entendidos do porquê.

 

Cada ser, julgamos, está para além das somas e transborda do que lhe é conferido. É desse excesso que temos que nos despir para receber a cabana, a bananeira, a eterna viagem que para ser eterna não se consente em estados intermédios.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

E discutia-se se a alma deveria ter acesso a cuidados paliativos ou a alguma competência específica que lhe acudisse na dor. Falava-se em várias especializações da medicina contemporânea que podiam abordar a temática, mas sobrepunha-se a objetividade, agora tolerante, que, levava a que a alma fosse vista como uma espécie de fatalidade que em nós vive, e, que a dor física enquanto fenómeno universal se não podia reconduzir a fatalidades, nem que se deitasse mão a teologias ou a filosofias. De resto, houve mesmo quem dissesse que então, a existência da alma era um mal em nós, já que atormentava a todos, e que afinal, era ela bicho-homem em dor de invencível natureza.

 

Olhando a todos, disse baixinho

 

Mas a alma chora de dor e é muito difícil não lhe acudir pois ela mostra-nos, como ninguém, no amor.

 

Alguém acrescentou

 

Sempre podemos fazer-lhe uma cura de sono para as dores mais insuportáveis, ou até para quem a não queira deixar partir em fase terminal, poderemos sempre anestesiá-la ou induzir-lhe um coma. É uma tranquilidade para todos. A medicina até pode criar sub alternativas dentro deste saber. Mas atenção! o sofrimento moral e físico, unidos, são uma falta de compaixão da alma, por abandono dela, da pessoa amada. A dor da alma, em pensamento – já ouvi dizer - tem uma figura estranha e difusa, de tal modo que as biopsias não lhe encontram o certeiro lugar para se efetuarem e delas sair diagnóstico.

 

Não concordo, disse eu

 

Desculpem, nada sei de medicina, teologia ou filosofia, mas a alma quando chora expõe lugar e respirar e pode ser detetada pelo estetoscópio dos olhos. A alma quando se contém em dor é insónia em destroçado ponto de interrogação. A alma dá sintomas quando feliz ou doente. Sente-se nela um pulso irregular quanto baste à interpretação. E que se não sugira ver a alma através das ressonâncias magnéticas e assim averiguar local ou posto dentro do corpo, pois ela tem poderes para escapar ao contraste que existe para se efetuarem estes exames.

 

Então e como se faz, na sua douta opinião, perguntaram-me em desafio

 

Pois não sei. Nem sei qual a terminologia que exprime as dores da alma. É muito difícil de dizer, mas sei que ela pode morrer. Por exemplo, morrer de amor, mas não só, morrer de abandono o que é terrível. E não acham que deveríamos ter antecipado a atenuação da sua dor enquanto ela insistentemente se queixava? E quando a alma se ri? qual o aparelho que sugerem para registar o estado da felicidade para que de futuro se use como paliativo, se necessário? Qual a análise ou exame de ADN que é avaliado na doçura de um sentimento vital da alma? Acho e só acho, que, a dor da alma há-se ser algo que fica cativa num órgão, e esse órgão é o cérebro que requer o que o coração bombeia. Quando lá está, enquanto dor, há-se ocupar um espaço anteriormente vazio - pois enquanto felicidade ela é ar. Então, se se procurasse esse espaço e ele estivesse cheio, era como encontrar o local e formato da dor, e decifrar a partir daí, a partir de uma infinidade de pontos, o fio do seu discorrer. Pelo menos surgiria o início de um horizonte de inteligibilidade. Não? Mas não procurem circunvoluções: a alma não tem, é diferente. Acho que é algo sensorial, algo que sentimos viver, padecer e morrer e ainda que pertença ao corpo tende a identificar-se com uma essência que lhe atribui ou retira a vontade de viver. A alma é uma força que se rende ou não ao conhecimento dos limites.

 

Não cabe à medicina, ouviu-se em coro. Ou cabe, no que a psicologia e a psiquiatria propõem. E noutro apontamento

 

Deus dirá, um dia. E continuaram uns

 

E a literatura e as artes em geral não lhe são irresistíveis em tratamento adequado? Como quem conta uma história em doses de prescrição certeiras?

 

E outros

 

Nem se lhe imputa culpa por não caber à medicina o seu tratamento. Só a felicidade é salutar ao corpo: a dor retira-lhe a energia. Isso sabe-se. Resta saber se verdadeiramente a alma viver no cérebro, é ela assim mais útil ao homem do que se viver no lugar do não se sabe

 

Ainda somei

 

E desse lugar, deitar ela mão a uma mãe que a console com atos e palavras, qual remédio sem prole, mas que vá confortando, como só reconforta, quem, em bondade, for a última testemunha da vida. Quanta expectativa!

 

Teresa Bracinha Vieira

HELENA MARQUES

 

(…) E revoltava – a também que a sua própria mãe, que a dera à luz trinta anos atrás, quando tinha apenas dezassete anos, continuasse a produzir, ano depois de ano, aquele caudal de gritos apavorados, aquelas apaixonadas promessas de nunca mais, nunca mais. E no ano seguinte, tudo se repetiria, o mesmo terror, o mesmo medo cego, a mesma rejeição, a mesma revolta. Como podiam? Como podia o pai provocar e impor tamanho sofrimento? (E ela, a mãe? utilizar como poder?)

 

(…) Marta não quer filhos, não terá filhos, não irá nunca casar-se.

 

Esta passagem do livro de Helena Marques - o livro que eu cheguei a chamar durante muito tempo “o livro da âncora”- refletiu em mim uma luz que insistia em não se mostrar como claridade que eu levasse à escrita. Essa luz, quando chegou, resumiu e ampliou o que eu não tinha colocado no papel, acerca da estranha insatisfação de um prazer doentio, quando este oblitera o caminho do amor, e, levando em si, um tudo em vão, um tudo de poder, portador de um elixir de puro logro que corrói os dias e constitui enfim, sua única sustentação. Disso, disso se quer fugir!

 

E se quer fugir também não casando. Não atribuindo a ninguém o direito de lhe fazer filhos, e que se evitasse que ela os manipulasse, se nascessem.

 

Os homens deveriam ser procurados apenas nas suas saídas solares e se paixão houvesse que ela fosse vivida em fulgor e não no langor da sua dissipação.

 

As mulheres deveriam ser achadas em núpcias de vida breve, antes que tivessem tempo de transmitir os cantos das resignações às suas eventuais descendências. Antes de lhes ensinar que a solidão envolve temer os tempos das laminárias sendo esse o único caminho.

 

Surgia-me assim uma consciência trágica do entendimento dos tempos que Marta vivera. Na sua memória, sempre algo de monstro, algo de envelhecido ao ritmo de um jugo. Algo subtraído às leis da duração da ordem cósmica.

 

Às vezes, Marta despenhava-se no mar e fitava de frente os turbilhões da água na procura de um deus. Outras vezes, julguei ver Marta menos prisioneira e mais afoita às constelações das aves, tão tristemente adiadas do seu conhecer. E sempre o mesmo medo de tudo se repetir como se repetira desde que nascera e a assombrara tanto.

 

Prometia-se ao seu interior num nunca mais. Prometia-se, mordendo-se para que uma marca a fizesse cumprir a promessa, evitando o desespero do desastre de uma vida igual àquela que tanto repudiara.

 

Via-se jovem e sabia que detinha uma passagem, uma cumplicidade subversiva que iria gerir entre dois mundos: o que repudiara e aquele que lhe era plataforma para um outro, um que iria descortinar por entre as duas margens da sua vida, e que saberia gerir.

 

Entretanto o tempo passava, alívio e cansaço, e a fronteira entre o mundo e a morte fechava-se.

 

 

Recordo bem que assim me ative no interpretar do que seria o último cais de Marta. 

 

Desconheço se Helena Marques assim pensou quando escreveu o parágrafo com que iniciei este acontecer. Resta que talvez os humanos possam ter o dom de entenderem várias palavras escritas e por elas comunicarem outras até saciarem a sua sede de saberem do Ser, sobretudo quando Marta foi para mim a criatura vinda de um outro frio; um frio larvado do seu interior, um frio onde seria aposto o dia em que deixaria o mundo, e, esse facto não era terrível, não! nem maligno, antes impenetrável mistério como o das cegonhas quando voando alto, levando consigo o azul, nas suas silhuetas migratórias.

 

Teresa Bracinha Vieira

PLANO HUMANO ARQUITETOS

O projeto da Capela Nossa Senhora de Fátima foi premiado recentemente, com o VMZINC® ARCHIZINC TROPHY, e está também nomeado para os prémios WAF - World Architecture Festival Awards, que irão decorrer em Amesterdão durante o próximo mês de novembro.

 

 Capela de Nossa Senhora de Fátima em Idanha-a-Nova

 

 

É de rara pureza estética e de escorreito primor arquitetónico esta Capela de Nossa Senhora de Fátima que nos deixa aberta a oração à proximidade com a terra, com o céu, com o abrigo inesperado, do qual todos queremos ser parte ao modo de cada um.

 

Os Arquitetos Pedro Ferreira e Helena Vieira entenderam o espaço, a excecional localização, e, o objetivo deste projeto, numa assimilação de rara vigília a todos os elementos a ter em conta para que a diferenciação do traço desdobrasse o instante em quimera de paz, de convite, de acolhimento e de firme consola que se apoia numa vontade de existir como vontade primeira.

 

Propomos que se procure esta Capela que se situa na região centro de Portugal - concelho de Idanha-a-Nova - no Centro Nacional de Atividades Escutistas (CNAE), do Corpo Nacional de Escutas-Escutismo Católico Português.

 

Em rigor a simplicidade escutista é um compromisso, tal como esta Capela de Nossa Senhora de Fátima o é, e é um compromisso com o que se não mede, com o parto amanhã e aqui fico, com a possibilidade de inúmeras pessoas ali poderem estar em comunhão com um altar cuja dimensão é sobretudo espiritual, ou, o profundo saber exprimir de um teto de duas águas e uma estrutura de doze vigas não nos acolhesse à memória dos Apóstolos como foi intenção destes Arquitetos. Note-se que até as extremas do edifício constituem uma alusão ao lenço escutista e a estrutura de madeira e zinco conferem a proteção gentil e calorosa que cada um possa querer sentir na sua estada na Capela de Nossa Senhora de Fátima, e, desta finalidade, não descuraram também os Arquitetos.

 

Esta Capela não tem mapa de sinal que não seja de Divino, de transcendente e de terrestre.

 

É a mão do homem que não adia a amplitude de um tempo que por nossa promessa de regresso nos trará ali também, para o sabermos fazer tributo ao respirar, desta beleza que expõe esta Capela que em nada parece assentar a não ser no ar que respira vindo da qualidade da criação arquitetónica. Eis.

 

Teresa Bracinha Vieira

LUÍS DE CAMÕES: A QUEM SEMPRE NOS CONFIAMOS

 

Lindo e subtil trançado, que ficaste

em penhor do remédio que mereço,

se só contigo, vendo-te endoideço,

que fora cos cabelos que apertaste?

 

Aquelas tranças de ouro que ligaste,

que os raios do sol têm em pouco preço,

não sei se, ou pera engano que peço,

ou pera me atar, as desataste.

 

Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,

e por satisfação de minhas dores,

como quem não tem outra, hei-de tomar-te.

 

E, se não for contente meu desejo,

dir-lhe-ei que, nesta regra dos amores,

pelo todo também se toma a parte.

 

A ideia-mater do soneto baseia-se no conceito final: por o todo também se toma a parte. A parte do todo é um lindo trançado (fita para apertar tranças) com que o poeta traça amoroso monólogo.

 

Sonetos Luís De Camões, prefácio, seleção, notas e bibliografia de João de Almeida Lucas, Vice-Reitor do Liceu de D. João de Castro – Livraria Clássica Editora A.M. Teixeira & C.A (FILHOS), Lda.

 

Teresa Bracinha Vieira

MORRER AINDA MAIS

 

Quem dois dias no mar a boiar junto aos mortos

Já não quer viver

Mas morrer ainda mais

 

Quem esqueceu o invisível muro da vida

Entre os corpos sem pulso  

E o mundo da maldade obscena

 

Quem como também ela

Numa tristeza sem onde

Num olhar que não vive

 

É mais que espanto

Muito mais que pranto seco

Não sabe, não sabe

 

História é só ferida

E gozo ou dor será o mesmo

Sem beijos, mas lousa

 

Afã de uma verdade

Que bate contra as águas cardadas

Contra a carne a ferros

 

Quem?

Uns olhos se levantam

Na ruína do imenso

 

Quem?

Corpo inerte, mão no bem tangível

Dos morreres

 

E o naufrágio

Mentira!

Que o mundo clama

 

Para que se não contemple

Esse tronco vivo e mais morto

Numa data vazia

 

Quando a morte é de tudo e de todos

E as gentes sumo engano

Fissuras, punhais

 

Mas ingenuidades

Nunca

 

 

Teresa Bracinha Vieira
Julho 2018

O TEMPO E O AMOR

 

Diz-se que o tempo sempre se anuncia e com ele se intui o que se pode e o que se não vai poder nunca. É uma espécie de condenação definitiva que se admite de uma forma ou de outra.

 

E o que fazer do conhecimento dos olhos quando de frente para nós despertam cheios de imensidades e medos e perfumes que se deixam cair entre lençóis por estrear?

 

Não há que procurar razões, nem sentá-las em sofá que as sossegue. O território tem a força do aço e a sua violação implicações fortíssimas na vida-a-vida que se diz não perceber, não designando essa afirmação real estado.

 

E hesita-se mais e uma vez mais ou, nem se hesita, recusa-se o que em sonho desperto nos mantém aptos a acreditar que porventura um dia será diferente.

 

A lógica é excessivamente familiar e reduz sempre a metade qualquer coisa por nascer.

 

Assim e de outras formas se aceita ser clandestino junto e para além da fogueira que, quando perto ou por tão perto e de tão perto, se fecham os olhos com a ajuda das mãos porque tão perto é demais.

 

O silêncio mais profundo apodera-se de nós, quando a possibilidade é o calar, num brutal movimento de fogo.

 

Um dia, um dia de país não esperado, todos os obstáculos são vantagens e enfim de súbito, de jorro, de esperança desalmada, tudo acontece. A densidade é tão segura quanto a dimensão da clareira que ora se permite. O sentido último da vida faz sentido por instantes: ao rubro.

 

Só o tempo é esquivo. Essoutro coto de vela.

 

E, antes que alguma ausência se sobreponha, antes que outro antes faça face ao que se vive, antes que o futuro possa não acontecer e antes que eu mais não possa, deixa que te diga

 

Meu Amor 

Teresa Bracinha Vieira

 

Publicado pelo António Alçada Baptista na Revista Máxima em 1999

Obs. Em 2006/07? Tive oportunidade de ver uma retrospetiva de Palermo no Kunsthalle Düsseldorf. Fiquei sensível ao seu trabalho e tento saber até onde vai a minha curiosidade desde então. Daí esta escolha de hoje, e, que seja bem recebida também no site de Alçada Baptista já que foi a seu pedido que escrevi este texto há 19 anos sobre o tempo e o amor.