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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

Soltos


1
.

Também nos chega o momento em que há que descansar

dos homens. O lume descansa no fogo e a água na água.

Criador e criação dormem

2.

E saibamos entender aquela força calma

de quem escreve um texto e o deixa abandonado

naquela página,

sem o voltar a ler, sem o enviar a nenhum lado.

Eis um lar

quando assim é toda a vida

3.

A solidão conhece bem os sentires dos sem porquê

e as razões de se dizer que ela, descalça,

sem entrar nem sair,

está

4.

Talvez sejamos pouco mais do que areias movediças.

A vida vai-se convertendo,

os deuses

acabam por entrar na fila

5.

E dizer tudo de um outro modo:

dizer um novo nome e semeá-lo

num oásis.

Depois,

colher os brinquedos, despir o bibe

e ser totalmente criança


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

  ALEGRIA É UMA ALFORRIA

 

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    A Alegria de Viver - Robert Delaunay

 

Alegria é uma proteção que a claridade nos oferece.

A alegria faz-nos completos, faz-nos parte dos outros e faz parte dos outros em nós.

A alegria não sufoca. Alegria é o oposto de estar imerso.

Alegria é a compreensão, é o inverso da incerteza, é um valor, uma homenagem, um princípio, uma exatidão.

Alegria é uma viagem, uma música, uma energia quântica, uma potencialidade, uma reciprocidade, um significado, uma razão, um fascínio, uma obra, uma trajetória, um diálogo, uma experiência, uma verdade.

Alegria é uma saudade.

Alegria é uma esperança.

Alegria é alforria!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

É do nosso sentir criar Natais não desligados do humano

  


Liguemo-nos, pois, à estrela!

É do nosso sentir o quanto um plano alimentar em cadeia pelo mundo seria a grande conexão por onde se estabeleceria uma verdade e, por aí, um princípio da celebração do nascer.

É do nosso sentir o dever de partilhar e de prestar.

É do nosso sentir que nada, no muito, funciona de forma isolada e que não podemos continuar a pactuar com os natais cegos e surdos à denúncia de todas as iniquidades.

É do nosso sentir saber que quem se sente excluído da vida digna não é a sua dor que quer ouvir, mas sim a voz de alguém tão vigilante, tão envergonhado, que, enfim, cumpra a promessa.

É do nosso sentir que a indiferença à desumanidade não torna nenhuma natureza digna.

É do nosso sentir que não se aguentará prolongar o viver como perdidos num mundo que não nos é fraternal, porque não somos seres da fraternidade, como no começo dos grandes solipsismos.

É do nosso sentir apaziguar a fome do amor.

Liguemo-nos, pois, à estrela!


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

(…) et, je suis presque prête

  


Não sei se mais alguém está à espera destas palavras

e de as levarem como se fossem só de quem as lê,

evoluindo-as para lembrar outras luzes, outros risos, músicas distantes

e girarem com elas para lá das janelas

enquanto os séculos são, sem dúvida,

tempos de mar que ainda ontem

era de múltiplas cores desdobradas.

De facto, as aves migratórias, sentindo a terra girar por debaixo delas, voavam num bando tão cerrado que as luzes se alteravam

e o mar, sempre ele, a pegar nas chaves do céu

e logo um dos anjos,

numa língua de nós conhecida,

diz-nos:

toma, quero dar-te isto que nem sei bem para o que serve,

ou o que farás com esta minha lembrança,

mas são palavras capazes de manter o que quiseres, e já vejo os teus olhos

de novo a lerem este jornal das manhãs a caminho dos trabalhos, das flores,

dos fantasmas, e já passaram mais outros trinta anos sobre outros.

Vai, leva o que escrevo e prepara-te para me ensinares, que eu estou quase, quase pronta

para aprender

o quanto preciso de ti para me sentar 

a comungar a romã efémera e imortal.

Sim,

et, je suis presque prête


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

NÚCLEO 

  
    James Turrell


Como noites, as noites voltavam a arrefecer.

Nas noites de lua cheia, viajávamos sempre juntos, viajávamos tanto que perdíamos o medo do fim, de qualquer fim.

Não conseguíamos esforçar-nos mais por uma coisa viva como aquela que vivíamos.

E sobrevivíamos sempre porque nos salvávamos de modo diferente, ou não nos tivéssemos amado tal como um homem e uma mulher de folhas.

Um jardim.

Árvore aberta numa cama de flores de braços e mãos

e entrávamos na eternidade.

Foi tudo tanto que um dia te senti um caos que não sabia passar sem mim, que era um caos só teu, mas com razão de dois, e significava que a fresta se dividia de com tanta força nos unir.

Mas tudo fragmentos da parte e não do todo.

Foram imensas emoções. Tudo nos entrou pela janela aberta, por aquela por onde aparece o núcleo, aquele único mundo que nos diz que os humanos devem aprender a amar-se, mesmo quando não responder possa querer dizer muitas coisas,

e a ternura, a ternura

uma réplica de um romance russo.

Realidade.

Realidades que têm o desaforo do amor e o acesso cor de carmim às glórias, e nós por lá também.

As macieiras carregadas, pacientes, reconquistam-nos em tudo,

e tanto é o que não nos pertence como aquilo em que nos temos

e é por isso que escrevo


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

LEMBRO-ME 

  


Lembro-me tanto de quando a poesia me explodiu na adolescência.

Depois de rezar o terço com a senhora mais velha da casa, depois dela adormecer esquecida da telefonia ligada, às vezes, as cartas de Goeth:

uma a uma as palavras.

Lembro-me tanto o quanto as não entendia e o quanto me apaixonava logo ali, liberta.

Eu,

eu a criada ainda adolescente.

Eu, a que tinha medo das bruxas, dos males ligados ao sobrenatural, do diabo que instigava que todos na casa tivessem autoridade sobre mim, até os mais novos. Até o cão.

E lembro-me que no dia dos meus anos não era dia de nada. Ninguém legitimava que eu existia na forma de gente que fizesse anos.

O camião do lixo passava à mesma hora, e o barulho dos carros era quase igual ao das panelas enquanto as areava. Depois, faria as camas de lavado, encerava as áreas mais desgastadas do chão e logo com o brilho do lustro, as palavras de Goeth. Algumas, soltinhas, tomavam conta de mim.

Ao domingo havia missa, missa com véu preto quase a trocar de vida, mas podia ser domingo, mas se o marido da senhora estivesse zangado com Deus, não havia ida à missa para ninguém, e o ambiente era como pedra lá em casa e a minha folga era ter ido à missa que não fui.

Também me lembro que havia uma porta lá na casa que não se podia abrir nunca pois havia atras dela muitas verdades, e nenhumas ou todas com razão, não sei bem, e dizia a patroa que não me competia saber, havia apenas que manter a porta sempre fechada e não escutar radio à noite depois do terço rezado.

E lembro-me também de ler a carta que me escreveste e na qual dizias que até me conheceres, pensavas que inventavas os caminhos da tua vida, e depois aprendeste que eu era para ti tão importante que me poderias até deixar ouvir rádio, mas que eu não pensasse que te casarias comigo.

Lembro-me de te ter dito que ao amolador de facas contei um verso que tinha pensado e que ele naquele dia me disse que o verso amolava melhor do que ele aquilo que eu quisesse amolar.

Depois lembro-me de algumas das nossas primeiras vezes no carro do teu pai, e foi nesse carro que decidi que os meus versos futuros se chamariam rodas, e que precisava de ir às urgências de um hospital quando as dores de cabeça eram tão fortes que até torcia melhor os lençóis tirados da barrela.

E sim, ensinaste-me a escrever quase sem erros, e deste-me muitas uvas, e lembro-me de te perguntar se sabias quantos anos tinha a minha idade que era mais nova do que a tua.

E lembro-me que uma cigana, um dia, me leu a sina e me disse que eu seria trocada toda a vida por coisas, coisas desentendidas das coisas, e esta foi mesmo a primeira história de terror que ouvi, e que me fez apertar tanto a salsa entre os dedos que a senhora me perguntou se a tinha pisado, e disse-me que naquele mês me não pagaria porque até nem podia, mas que eu nem merecia o dinheiro.

E fui.

Lembro-me de prometer a mim mesma que não voltaria. Fugi.

Vários anos depois, esperei-te com uma carta de Goeth e um disco de vinil.

Parecia-me agora natural saber que só no meio era o enigma.

E hoje, publiquei-te numa tatuagem na minha perna direita, e lembro-me da última vez que disse «amo-te» a alguém que já não queria na minha vida, e invoquei o algoritmo,

como se ele, ignorante, 

conhecesse os instantes em que nada ainda é passado, em que tudo nasce, ou soubesse algum dia que o lúcido pecado é traçado por Deus quando na mão uma lanterna acesa,

Goeth.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Há que dispensar o cocktail da política do ódio, da mentira, do pessimismo

  


As desigualdades mais revoltantes não se gerem no descompasso dos processos simbólicos do inverso das coisas más serem as boas e de imediato identificá-las com o bem personificado na pessoa-divindade que se assume como tal.

Todos temos os nossos constrangimentos externos e internos que balizam o exercício das liberdades e nos instam a entender que ninguém escolhe livremente agendas na totalidade, o que também não nos condena a escolhas de óbvios defeitos e horrores.

O modelo avatar condiciona processo e resultado, circulação de narrativas e imagens, e procura o controlo da ignorância oferecendo-lhe os mais lustrosos jogos simplistas que se encaixam em todos os preconceitos considerados de senso comum, qual receita de controlo completo à escala planetária.

O enfraquecimento do ensino, da educação, dos meios de comunicação, a multiplicação de canais sem evoluções substantivas, a própria Internet, tudo emergiu numa mercantilização tremenda pela atenção humana.

As próprias teses do conspiricionismo já descobriram há muito a importância dos discursos a soundbites pois a atenção das gentes já não se mantém para além do instantâneo.

Muito, demasiado mesmo, se entregou ao poder do dinheiro, enquanto as dores se não queixavam dos ataques sem precedentes que as provocavam e que advinham da decisão referida ao poder puramente mercantilista.

Há que gerir as compatibilidades que impedem a vida dos naufrágios em naufrágios e, para tal, a simples força de vontade poderá não ser suficiente, e por essa razão as mutações devem ser usadas para convergir e virar os tortuosos e apocalípticos jogos em decisões conscientes num outro caminho de humanidade real.

A própria heterogeneidade espicaça a criar conteúdos e a descobrir o razão do mais urgente, e se não estivermos a ser apenas reativos, produziremos um modo de nos entendermos a nós próprios e às sociedades, evitando o extremo saque do mundo e a anulação completa de sistemas que ainda têm muito para serem refundados.

Para tanto dispense-se de imediato o cocktail da política do ódio, do pessimismo, da mentira.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

O HOMEM É BEM MENOS DO QUE JULGA, MAS PODE SER BEM MAIS DO QUE TEM SIDO

  
    Doris Homann


A grande substituição que muitos pensam poder implantar no espírito do mundo é aquela que separa os transportadores de “maus genes” dos que só transportam os mas iluminados e puros que o seu sistema celular exclusivamente para eles produz.

O quadro trágico de um mundo que pode desaparecer afundado nos podres das fortunas-relâmpago, e noutros perversos domínios, todos pertença de uma minoria, alerta a civilização para a beirinha de um precipício inenarrável, antes que uma ideia de melhoria da existência humana consiga soltar-se da esterilização e vingue.

As “bíblias” das grandes substituições são uma herança que culmina sempre na pura aceitação da mesma, na ideia do boomerang que tolera o sofrer antes de o sentir e assim o legitima na sua chegada exponencial.

E se de facto o homem é bem menos do que julga será também porque o muito humano parece ignorar que também carrega em si o demónio, a sombra que pretende secar o diálogo, o pensar divergente, a criação, retirando o seu grito de guerra da sua imensa simplicidade viral.

Mas basta olhar à nossa volta e à volta dos factos acontecidos e logo o exemplo da não aceitação do medo generalizado marca presença; basta recordar o quanto a uma ressurreição violenta dos mitos, os homens já têm feito frente.

Basta que o homem prove que pode ser bem mais do que tem sido e evolua da comunidade definida por pseudovalores, agora facilmente manipulados pelos algoritmos, e saiba que a estes o significado de que no princípio era a cor, sempre escapará.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

A mentira é quando não se compartilha o alimento. 

  


É mais ameaçador admitir que para manter uma instituição há que mentir, ou que não mentir é algo mais ameaçador que nos faz passar para um mundo sem norma?

É uma questão desestruturante, uma interrogação agudíssima, pois o que significa o caos? Tudo tem e não tem sentido? Qual a chave interpretativa?

Há em estes questionares, uma espécie de incandescência dos pensamentos. Vai-se a muitos lados numa estimulação e num entusiasmo que, quando se sai disso, o mundo amornece tanto que falece em pouco.

No entanto, continuará a vir das perguntas a efervescência da criação, da inteligência, da novidade que estimula a inovação, e pelo bom caminho começa o laço com as coisas que saem por entre os céus do puro idealismo e entram na comunhão de bens com a realidade.

As temáticas das conferências multidisciplinares e rigorosas passam então por saber o que é preciso para sorrir com uma agilidade intelectual tão espantosa, tão amorosa que envolva o imprescindível respeito pelo que é vivo e pela sua condição neste mundo.

A minha homenagem por quem nos deixou há pouco tempo.

Refiro-me a Jane Goodall e à sua lucidez obsessiva para que se redefinisse Homem, para que ele redefinisse o seu interior e o enfrentar-se, para que saísse do seu pedestal e se entendesse por entre as mentiras mais aproximadas das verdades que pudesse consciencializar.

Este um dos grandes fragmentos em falta na vida social humana: a auto-reflexão.

Com profunda humildade agradecerei sempre a Jane Goodall a grande viagem e o imenso despertar, a clareza do quanto a mentira é quando não se compartilha o alimento.

 

  


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Uma esperança é algo que se passa no presente e prova que já estamos a viver uma coisa melhor

  
    “The Dynamic Eye”


A proposta é a de que talvez possamos deitar mão de uma realidade que compreenda o que está completo e em aberto ao mesmo tempo.

Nada é idílico. Tudo sai de tudo, mas é preciso ver o que sai de importante quando há desejo, e esse desejo inclui a liberdade e a imaginação.

Os movimentos de superestruturas e o dos grupúsculos que se querem fazer passar por mundo, não são desejos enquanto elementos culturais – o próprio entendimento da sexualidade, a liberdade, a misericórdia, a empatia, o cumprimento do melhor e mais justo bem-estar, sim, são desejos, trazem novas realidades que acossam o que a maioria desejaria viver.

Por aí um caminho!

Um caminho dificílimo que só um bom violino sabe tocar.

E os políticos saberão que um bom violino escapa a qualquer IA?

E se aproveitarmos as reflexões quando tudo pode estar num aberto que não estamos a ver, e do qual não estamos a valer-nos no tempo certo para uma remodelação que arrisque propostas?

Propostas de se viver com menos mitos e menos dogmas e com a possibilidade de mais realidades incodificáveis que não tenham no dinheiro o discurso paranóico da obediência?

E nada resulta no idílico, mas pode-se fazer ainda imensas coisas que noutras situações não estávamos suficientemente atentos e motivados para compreender a sua urgência.

O tempo não é o das gentes se deixarem abafar, nem é tempo de nos deixarmos aborrecermos com tudo.

Que tal operar uma descontinuidade no que de facto estava errado?

Que tal acarinhar o que de facto estava a melhorar as condições de vida dos povos?

Que tal as magias serem uma especial atenção para as realidades-evidência que tanto expõem o quanto há que melhorar face à infelicidade dos mundos dos gritos e dos silêncios?

Por aí um caminho!

Um caminho dificílimo que só um bom violino sabe tocar.

E os políticos saberão que um bom violino escapa a qualquer IA?


Teresa Bracinha Vieira