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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CADA ROCA COM SEU FUSO…


UMA CAPA MILIONÁRIA… 


Teve lugar há poucos dias um leilão histórico, no qual foi vendido por 3,2 milhões de Euros o primeiro original da capa do “Lotus Azul” da autoria de Hergé. Apesar da polémica sobre a proveniência da ilustração, o valor atingido bateu todos os records em relação à Banda Desenhada. A editora Casterman que colocou o desenho em leilão com uma base de licitação entre 2,2 e 2,8 milhões de euros, viu ultrapassadas as melhores expectativas em cerca de um milhão de Euros, o que surpreendeu todos os especialistas. Fica, porém, demonstrada a celebridade inigualável de Hergé, referência da BD e também da Arte Pop (ao lado de Andy Warhol e Roy Lichtenstein. A história continua rodeada de mistério, uma vez que há quem duvide que aquilo que foi contado corresponda exatamente à verdade. No entanto, o que importa é que, mesmo sabendo das dúvidas, houve quem se dispusesse a largar os cordões à bolsa num valor inimaginável – digno do milionário Carreidas. E talvez a polémica tenha contribuído para animar este leilão histórico. Sobre as razões que levaram a Casterman a vender este pequeno tesouro também se suscitou muita especulação – muitos disseram que tal se deveria a dificuldades financeiras da casa editora. Recorde-se que o anterior record do preço atingido por uma prancha de BD cabia também a Tintin com 2,6 milhões de euros para os originais de umas páginas de guarda para as publicações da casa de Tournai. Na versão oficial, o editor teria considerado que esta versão da capa seria de muito cara execução, pela grande superfície de negro exigida na quadricromia. Por isso, Hergé teria oferecido a versão não aceite a Jean-Paul Casterman, filho do editor, que a teria guardado religiosamente dobrada (como se nota na imagem) durante cerca de oitenta anos… Neste momento, não nos importará entrar nesta discussão – sobre se foi ou não uma dádiva de Hergé… O importante é dar nota do valor extraordinário atingido no leilão.


Este acontecimento, coincide com o anúncio pela Fundação Gulbenkian da grande exposição antológica que será inaugurada no Outono deste ano e que trará a Lisboa os mais importantes originais de Hergé…


Também hoje assinalamos os oitenta anos do encontro do Capitão Haddock com Tintin, em 9 de janeiro de 1941, no “Le Crabe aux Pinces d’Or” (O Caranguejo das Tenazes de Ouro). Para o efeito reproduzimos o desenho de Plantu, publicado na primeira página do circunspecto “Le Monde”. É caso para dizer “tonerre de Brest”, “Mille Miliards de Mille Sabords”, “Sacré de cercopithèque…”. Os tintinófilos estão todos de parabéns, uma vez que este companheiro de Tintin, que ele trouxe ao caminho da virtude e se tornou amigo inseparável é uma referência essencial. Plantu invoca a cena do esparadrapo em “Tintin au Tibet”, transformando-o na representação do terrível vírus Convid-19, de que nunca mais nos vemos livres.


Se dúvidas houvesse sobre o sucesso que se anuncia para a grande exposição de Hergé em Lisboa, parece que todos temos de reservar o nosso tempo, o nosso entusiasmo e a nossa curiosidade para a grande mostra anunciada, com mil milhares de milhões de surpresas…

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

André-Paul Duchâteau.jpg

 

A. P. Duchâteau (1925-2020)

 

O pai de Ric Hochet e do inspetor Bourdon morreu. André-Paul Duchâteau, autor consagrado da Escola belga da Linha Clara da BD deixou-nos na passada semana, contava 95 anos. O experimentado autor celebrizou-se pela criação com o desenhador Tibet de Ric Hochet, personagem mítica para várias gerações de leitores das histórias de quadradinhos. A. P. Duchâteau há muito que estava ligado às edições du Lombard. Sendo natural de Tournai, nasceu a 8 de Maio de 1925, tendo a paixão pelo romance policial nascido da leitura de "Six Hommes morts", de Stanislas-André Steeman e sobretudo depois do contacto pessoal que com ele estabeleceu. Com apenas 15 anos de idade, publicou o primeiro romance policial, "Meurtre pour meurtre", numa coleção dirigida pelo próprio Steeman. Em 1947, escreveu os primeiros argumentos para Banda Desenhada, na revista "Bravo!", entre narrativas originais e adaptações de obras de Walter Scott e Paul Féval. Nessa altura que travou conhecimento com Tibet, pseudónimo de Gilbert Gascard, (1931-2010), autor de Chick Bill e elemento muito relevante na redação de “Tintin”.

A ilustração que hoje publicamos é de sua autoria, possuindo um traço da rara qualidade. Hergé reconheceu cedo essa qualidade, fazendo-o, porém, desistir de desenhar figuras de animais para uma faixa etária infantil. Em 1951, Duchâteau e Tibet assinam as primeiras criações em parceria na "Ons Volske" e depois na revista "Tintin", graças ao apoio de Raymond Leblanc e do próprio Hergé. Em 1955, nasce Ric Hochet, futuro jornalista e detetive, que começou por ser um jovem ardina. Em Portugal, foi o nº 183, de 2 de Julho de 1955 do “Cavaleiro Andante” que primeiro publicou essa aventura de Ric Hochet, como adolescente português, chamado João Nuno. Os dois autores assinarão quase oito dezenas de álbuns de um herói, que revelará uma popularidade significativamente longeva.. Meses depois, em fevereiro de 1956, Ric Hochet, já com um aspeto diferente, mais velho, como os mais célebres detetives, reaparece numa história curta, promovido a repórter do periódico La Rafale, onde soma proezas detectivescas aos eventos jornalísticos. É a redação parisiense que apresentamos com toda a sua vitalidade. O sucesso não pararia e A. P. Duchâteau tornar-se-ia um dos pilares da revista “Tintin", chegando a chefe de redação e diretor artístico. Em 1961, o “Álbum do Cavaleiro Andante” publicaria a primeira longa metragem de Ric Hochet “Camaleão, Perigo de Morte”.

Autor exigente, prolífero e erudito, com um grande conhecimento dos clássicos, Duchâteau abordou os mais diversos géneros, da aventura ao humor, do western ao fantástico, mas sempre com a ficção policial como principal referência. Com uma invulgar capacidade de escrita, era um caso especial de popularidade, deixando um imenso legado de centenas de novelas, romances, folhetins e álbuns de BD. Apesar de estar ligado essencialmente à personagem de Ric Hochet, escreve argumentos para Mittéï (3A), Aidans (Bob Binn), Parras (Comissaire Marin) e Eddy Paape (Les Jeux de Toah). Com Christian Denayer, produz a série Yalek, Alain Chevalier e Les Casseurs (Al & Brock). Na década de 1970, sucede a Jean Van Hamme como o argumentista de Mr. Magellan (desenhos de Géri), escreve para Paape (Luc Orient e Yorik das Tempestades), Cosey (Monfreid et Tilbury), MiTacq (Derval Stany), Follet (Valhardi) e Pleyers (Tiger Joe). Na década de 1980, lança novas séries com Grzegorz Rosinski (a saga de ficção científica Hans), Patrice Sanahujas (Serge Morand e Chancellor), Vance (Bruce J. Hawker) e Xavier Musquera (Peggy Press). No final dos anos 1980, torna-se editor literário de du Lombard. Em 1989, é responsável pela coleção Detetives BD da editora Lefrancq, onde escreve várias adaptações para BD de romances policiais. Na década de 1990, continua a fazer adaptações para BD de escritores como Mik Fondal (Les Galapiats de la Rue Haute com Didier Desmit ) e John Flanders (Edmund Bell com Raoul Giordan). Inicia novas séries, como Wilt, com Yves Urbain, Detective Carol com Eddy Paape e Les Romantiques com Eric Lenaerts (2001 a 2003). Foi distinguido com inúmeros prémios durante a sua vida, prezando de forma especial o Grande Prémio de Literatura Policial que, em 1974 galardoou o seu romance "De 5 à 7 avec la morte", tendo sido durante muitos anos, em “Tintin” um imbatível campeão de popularidade, classificando-se sempre em primeiro lugar nos inquéritos realizados às preferências dos leitores.

Também em Portugal, o sucesso de Ric Hochet foi grande. Se o “Cavaleiro Andante” lhe chamou João Nuno, o “Zorro” preferiu o nome de Mário João e do inspetor Navarro, mas o “Falcão” não teve problema em usar o nome original de Ric Hochet e do seu inseparável companheiro Inspetor Bourdon. O “Foguetão” e o “Falcão” usaram os enigmas policiais engendrados por Duchâteau – tendo cabido a Artur Varatojo a coordenação dos enigmas policiais na equipa de Adolfo Simões Müller. Raimundo Esteves era o nome do Comissário desses enigmas do “Foguetão” e as ilustrações de Tibet eram muito expressivas e ajudavam muito. Havia, no fundo, que motivar os leitores para poderem responder sobre quem era o criminoso… Havia sempre um indício acusador – ou era um lenço, ou um monograma, afinal, um pequeno erro cometido pelo acusado… A sombra de Ric Hochet significava mistério e procura da verdade e da justiça – eis o fundo pedagógico que A. P. Duchâteau e Tibet sempre prosseguiram. Não me canso de voltar a essa dupla extraordinária… Prometo que a minha próxima crónica será integralmente um enigma de Ric Hochet…

 

Agostinho de Morais

 

André-Paul Duchâteau 2.jpg

 

 

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (IV)…
16 de julho de 2019

 

Falámos talvez pouco de Hergé (1907-1983). Ele é o herói. A revista que hoje vos trago é de 1966. O fenómeno de sucesso ocorre essencialmente depois dos anos quarenta e cinquenta, graças aos continuados do journal Tintin e à nova apresentação das aventuras do jovem repórter em álbuns muito cuidados quer no tocante à qualidade do argumento, das ilustrações e do colorido. Hergé teve a intuição e a sabedoria, o talento e a arte, de compreender que era necessário criar um estúdio profissional servido de uma equipa de elevadíssima qualidade. Já referimos o papel desempenhado por E. P. Jacobs e por Jacques Martin, entre outros, o que permite verificar não haver comparação entre as versões originais do “Petit Vingtième” e os álbuns coloridos, que irão conhecendo aperfeiçoamentos. Mas para que tudo isso fosse possível é preciso voltar a citar Raymond Leblanc (1915-2008), o editor de visão larga que acreditou em Hergé e construiu uma máquina de grande eficácia que lançou o herói da BD… A chegada à Lua de Tintin é reconhecida hoje como dos exercícios mais rigorosos de ficção científica, uma pérola de antecipação… De Gaulle afirmou que só tinha um concorrente internacional, que se chamava Tintin. A literatura francesa e mundial incorporam a figura de Tintin. François Mauriac lamentou, porém, os gostos da geração Tintin, mas enganou-se redondamente, uma vez que não só líamos Tintin, mas também nos preparávamos para ler Thérèse Desqueyroux… O tema da imagem entrava na ordem do dia – no cinema, na fotografia, na banda desenhada – e não largava a importância da narrativa… E Edgar Morin disse em 1958: “Tintin sauvegarde la liberté illimitée du rêve de l’enfance, mais en orientant vers les rêves déjà socialisés du cinéma d’aventure pour adolescents et adultes (…) dans les rapports imaginaires de Tintin, le petit super-boy est roi »…  Mas havia mais : Blake e Mortimer eram a melhor introdução aos melhores policiais. Alix Graccus na companhia do jovem egípcio Enak levava-nos para os clássicos da República Romana. Albert Weinberg (1922-2011) fazia-nos entrar no mundo da aviação de vanguarda com Dan Cooper, antecâmara da ficção científica, Jean Graton levava-nos para o automobilismo, e a lista é muito longa: Modeste e Pompon (Franquin), Oumpah-Pah (Uderzo e Goscinny), Corentin (Cuvelier), Bob e Bobette (Vandersteen), Chick Bill (Tibet), Pom e Teddy (Craenhals), Jari (R. Reding), Ric Hochet (Tibet e Duchâteau), Guy Lefranc (com a marca indelével de J. Martin), Le Chevalier Blanc (L. e F. Funcken), Spaghetti (Dino Attanasio), Clifton (Macherot), Taka Takata (Jo-el Azara), Bernard Prince (Hermann), Bruno Brazil W. Vance), Cubitus (Dupa), Olivier Rameau (Dany), Luc Orient (Eddy Paape)… Mas nesta imensa lista, não podemos esquecer Greg o argumentista inesgotável, a aparecer em toda a parte, com uma prodigiosa imaginação.

 

Eis o ponto onde ficamos. Mas não esquecemos os nossos grandes como Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), Fernando Bento (1910.1996), Vítor Péon (1923-1991), José Garcês (1928) ou José Ruy (1930)…, mas esses contos serão outros aos quais regressaremos…

 

Para terminar hoje, cito um belo poema do meu Amigo Ruy Belo – «Portugal Futuro»…

 

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (II)…
2 de julho de 2019

 

Continuei a folhear a minha coleção de revistas "Tintin" com grande prazer. E centrei-me, como prometido, em Edgar P. Jacobs (1904-1987) e em Blake e Mortimer. Com uma inclinação musical evidente para a ópera, Jacobs vai ingressar no estúdio de Hergé nos anos quarenta para dar cor e reforçar o rigor cenográfico das aventuras de Tintin. Assim colaborará na reedição de Tintin no Congo, Tintin na América, Cetro de Otokar e Lotus Azul, bem como na feitura de Sete Bolas de Cristal e Templo do Sol. Vindo de realizar uma versão adaptada de Flash Gordon em virtude da proibição alemã de publicação dessas aventuras e de dar à estampa na revista “Bravo” “Rayon U”, Jacobs vai abalançar-se na criação de personagens originais. Escolhe um género que caminha para a ficção científica, mas também aproveita ingredientes policiais e ligados a uma guerra dos mundos. Apesar do trabalho intenso na profunda renovação da obra de Hergé, o início da publicação da revista Tintin em 1946 permite o surgimento de "O Segredo do Espadão" com Blake e Mortimer e de "O Mistério da Grande Pirâmide" (1950). O sucesso das novas pranchas, o caráter muito  próprio do autor, dá-lhe um papel fundamental. Mas quando Herge recusou a partilha de rendimentos a propósito dos livros de Tintin, Jacobs seguirá o seu caminho próprio - mantendo porém a amizade com Herge, que o faz aparecer como Jacobini em "O Caso Tournesol". Seguem-se a obra-prima “Marca Amarela” (1956), depois “O Enigma da Atlântida” (1957), “SOS Meteoros” (1959), “Armadilha Diabólica” (1962) e “O Caso do Colar” (1967). É uma sucessão extraordinária e Adolfo Simões Müller no “Foguetão” publica em cima da hora “Armadilha Diabólica”, que permitirá abrir caminho a um grande grupo de admiradores portugueses que se tornam fans incondicionais dos heróis britânicos… O trabalho agora anunciado por uma equipa dirigida por François Schuiten, “Le Dernier Pharaon” constitui uma renovação profunda da inspiração de E. P. Jacobs, numa espécie de simbiose entre a moderna Banda Desenhada belga e a tradição dos anos cinquenta… Devo ainda referir Jacques Martin (1921-2010), que também esteve com Hergé na fantástica equipa que foi aperfeiçoando a produção de Tintin, como caso único de rigor na escolha de temas, na certeza do traço, no equilíbrio entre o imediato e a duração, na extrema qualidade na feitura dos álbuns (p. ex. Tintin au Tibet e Coke en Stock). Se nos anos quarenta e cinquenta E. P. Jacobs é um artífice indispensável, Jacques Martin, durante cerca de vinte anos representa uma capacidade especial de consolidar essas marcas de inconfundível exigência – que são bem evidentes na produção própria de Martin, através de Alix (1948) e de Lefranc (1952). Com uma marcada personalidade narrativa e artística, pode dizer-se que ao lado dos grandes nomes da “linha clara” ou da Escola de Bruxelas, enquanto E. P. Jacobs está na tradição de H. G. Wells, Jacques Martin empenha-se no relato histórico na linha da escola do romance que vai de Walter Scott até Alexandre Dumas. Alix é um modelo de herói romântico que nos permite, a um tempo, compreender a herança greco-latina com enorme sentido pedagógico (p. ex. Alix Intrépide e La Sphinx d’Or). Mas, além desta dimensão altamente meritória de pendor educativo e de culto da investigação histórica, Jacques Martin afirma-se como um excelente argumentista na conceção de Lefranc, onde se juntam o requinte dos cenários e dos pormenores da vida quotidiana à urdidura de um bom enredo policial (p. ex. Le Mystère Borg). Mas sobre a ligação ente mistério e mundo moderno da técnica falaremos na próxima crónica, sobre A. P. Duchateau, Tibet e Jean Graton…

 

Em tempo de visitas nostálgicas, não resisto a citar o meu amigo Ruy Cinatti

 

Memória Amada
Para Alain Fournier

 

Vinham de longe em bandos. Acorriam
Jubilosos. Fantasias
De parques pluviosos
E, descendo,
Os patos bravos lançados
Entre juncos, salgueiros e veados.
Tarde,
Muito tarde, uns olhos tais
Haviam de aparecer, sobressaltados
Entre enigmas e um floco de cabelos
Osculado pelo vento. Alegorias...
Do agora ou nunca e do momento
Definido. Trégua impensada,
Insuspeita, no perfume alado
Da página dobrada e abandonada
Dum livro interrompido. Sinto a dor fina,
Finamente atravessada e suave,
- Quase saudade.

 

Ruy Cinatti, in 'O Livro do Nómada Meu Amigo'   

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS…
25 de junho de 2019

 

Dei-me numa tarde destas, em que o Verão foi fazendo caretas, a folhear revistas antigas da minha coleção do jornal “Tintin” belga. Para os mais novos, recordo que a minha geração do “Cavaleiro Andante” (que já não apanhou diretamente o “Tintin” português de Dinis Machado e Vasco Granja, e que tomou contacto como Corto Maltese já numa adolescência avançada) teve uma especial ligação ao “Tintin” belga e à Escola de Bruxelas. Lembro, por isso, longos debates no Pedro Nunes sobre o que líamos e sobre quais os nossos autores preferidos. Na idade em que estávamos havia dúvidas – se é verdade que Hergé era indiscutível, o certo é que a sua riquíssima equipa dava-nos pano para mangas para dizermos de nossa justiça sobre aquilo que mais ou menos nos enchia as medidas. Nestas incursões de agora comecei por voltar a admirar os impecáveis desenhos das indumentárias militares, dos estandartes e das histórias seiscentistas de Liliane (1927-2015) e Fred Funcken (1921-2013). Comecei por aí e deleitei-me. Voltei a ler tudo… Os dois colaboraram no “Spirou” e no “Tintin” e deram vida ao Capitan de Castaignac (a partir de 1963), um gascão tornado agente secreto ao serviço do Cardeal Richelieu (e nós gostávamos de 1640 e do Cardeal pouco amado por Dumas). E também é deles Doc Silver (1967) um médico americano de óculos com aros redondos num “western” deveras atípico, com argumento de Yves Duval (1934-2009). E se falo de Duval, devo lembrar os muitos argumentos que escreveu, além de alguns do Capitan, sobretudo os Franval com desenhos de Edouard Aidans (1930-2018) – destacando-se a célebre aventura “Destination Desertas”, passada nos Açores. Duval fez também os argumentos de Howard Flynn (1964), o jovem oficial da marinha real britânica, com desenho de William Vance (1935-2018). E sem perder o fio desta notabilíssima meada, Vance foi dos mais fecundos autores da nossa predileção – dele são Ringo, a continuação de Bob Morane (depois de Gérald Morton o ter deixado), o importante Bruno Brazil (com argumento de Greg, sob o pseudónimo de Louis-Albert), e o famosíssimo “XIII”, com argumento de Jean Van Hamme (1939) – chegado aos nossos dias. Ainda no elenco do casal Funken não posso esquecer “Le Chevalier Blanc” (“Sans Peur et Sans Reproche”, 1954) e “Les Belles Histoires de l’Oncle Paul” (1951). As histórias verdadeiras tinham uma predileção especial – e assim vencemos os nossos professores renitentes. Se repararmos bem nesta lista encontrámos uma boa parte da equipa que Hergé constituiu graças ao investimento e à coragem inovadora de Raymond Leblanc (1915-2008), editor de “Tintin” a partir de 1946 e responsável pelo desenvolvimento da “linha clara”. E se falei de Greg (1931-1999), Michel Louis Albert Regnier, devo dizer que ele foi um dos mais prolíficos e influentes criadores das escolas belgas. É impressionante a lista das suas personagens – que se devem antes de tudo à influência, cumplicidade e amizade de André Franquin (1924-1997). Franquin é um nome grande ligado a Spirou, Fantasio e Marsupilami, a Gaston Lagaffe ou a Modeste et Pompon (os nossos Lolocas e Pompom)… Greg colaborou em centenas de pranchas, designadamente de Modeste e de Spirou. Com Lolocas Greg foi assim uma presença muito antiga do “Cavaleiro Andante”. De 1958 ao início dos anos oitenta, Greg foi argumentista com os principais desenhadores da linha clara: Tibet (1931-2010), Maréchal (1922-2008), Mittéï (1932-2001), Paul Cuvelier (1923-1978), Hermann (1938), Eddy Paape (1920-2012), Dany (1943), Jo-El Azara (1937), Turk (1947), Bob de Groot (1941), Claude Auclair (1943-1990), Aidans, Derib (1944), Fahrer (1939)  ou Dupa (1945-2000). Está aqui a fina-flor! Jo-El Azara é o criador do impagável Taka Takata e fez renascer o Coronel Clifton, e quanto a Dupa, temos o extraordinário Cubitus, o cão felpudo que se tornou um ícone. Greg foi autor de mais de 250 álbuns: a lista é impressionante e fala por si. Zig, Puce e Alfredo criados em 1925 por Alain Saint-Ogan renasceram com Greg, mas o caso de Achille Talon merece nota especial. Este apareceu em 1963 no jornal “Pilote” e René Goscinny (o inventor de Astérix, de Iznogoud e do Petit Nicolas, e argumentista de Lucky Luke com Morris – 1923-2001) saudou assim a aparição da nova personagem: “Achille Talon n’en a cure; sûr de lui, il n’hésite jamais à se jeter à corps perdu dans les situations les plus difficiles, avec une remarquable inefficacité”. Que melhor definição poderia ser feita de um herói dos quadradinhos? Misto de realidade e de sonho, motivo de reflexão e de riso, motivo para não nos levarmos demasiado a sério… Não vou esgotar hoje este meu folhear de páginas antigas. Já está tudo espalhado no chão. Que fantástico mar de desenho e de tinta… A maior parte dos autores referidos já não está entre nós, mas a sua memória está bem viva. E se pertenço ao clan “Tintin” não esqueço (porque líamos tudo) as influências do jornal “Spirou” (1938) e da célebre Escola de Marcinelle, com Rob-Vel (1909-1991) e Jijé (1914-1980), além de Franquin… Aí encontramos Peyo (1928-1992) criador dos Estrumpfes (Smurfs) e Johan e Pirlouit; Roger Leloup (1933); Roba (1930-2006) autor de Boule et Bill… Lembre-se que Jijé foi o artífice de Blondin et Cirage, Jean Valhardi e Jerry Spring. Também “Pilote” (1958) não nos passou despercebido, com René Goscinny (1926-1977) e Uderzo (1927) e a genial aparição de Astérix – que conhecemos através do efémero “Foguetão” de Adolfo Simões Müller… Com “Pilote” encontrámos ainda Barbe-Rouge de Jean-Michel Charlier (1924-1989) e Victor Hubinon (1924-1979), Blueberry criado também por Jean-Michel Charlier com Jean Giraud “Moebius” (1938-2012), Valérian e Laureline de Pierre Christin (1938) e Jean-Claude Mezières (1938) e Tanguy e Laverdure de Charlier e Uderzo. Os nomes e o traço são inconfundíveis… Sopravam novos ventos e novos temas, designadamente a ficção científica. Aí pudemos começar a encontrar Corto Maltese de Hugo Pratt (1927-1995) que estava na transição temática entre a adolescência e a idade adulta, mas também Enki Bilal (1945) que conheceu Goscinny aos 14 anos e publica a primeira história, “Le Bol Maudit”, em 1972, passando depois a colaborar com Pierre Christin… As escolas belgas levavam-nos aos italianos – como tínhamos vindo das bandas norte-americanas ou dos “Sobrinhos do Capitão”… Por hoje, fico-me por aqui até à próxima crónica, onde falarei de Blake e Mortimer e de Edgar P. Jacobs (1904-1987), a propósito na nova e surpreendente criação de Schuiten, Van Dormael, Gunzig e Durieux, “Le Dernier Pharaon”. Mas não esquecerei Jacques Martin (1921-2010), que durante quase vinte anos acompanhou a feitura dos álbuns de Tintin, ao lado de Hergé, célebre pela criação de Alix (1948) e Lefranc (1952), nem  A.P. Duchateau  (1925), romancista policial, argumentista de Ric Hochet com desenho de Tibet, nem  Jean Graton (1923), exímio desenhador e argumentista do automobilismo e desportos motorizados, criador de Michel Vaillant… No caso de Graton três obras têm a ver connosco portugueses: “Rali em Portugal” (1971), “O Homem de Lisboa” (1984) e “Febre de Bercy” (1988) pela participação de Pedro Lamy. A título de curiosidade e a lembrar-me do Major Jaime Eduardo de Cook e Alvega (que num concurso de cultura geral alguém confundiu com um herói histórico), lembro que no tempo em que deveriam dar-se nomes portugueses aos heróis das HQ Ric Hochet era Mário João e Miguel Vaillant, Miguel Gusmão…  Conhecemos mil exemplos sempre caricatos…

 

E como escolho sempre um poema – hoje também não falta:

 

«Estudo para Banda Desenhada»
De António Barahona
“Em Banda desenhada, tão depressa
Treparam à colina onde corria
Um bando de crianças à gandaia
Em redor duma casa arruinada,
Tão depressa, em banda de surpresa,
Que ganharam tal medo na subida
Lentamente assombrados por medida
De Deus, que mede os sustos sem ter pressa.
Depressa mais depressa: segredava
A rapariga atlética ao poeta
no balão da legenda: as crianças
aos gritos, entretanto param a corrida:
emudecem ao ver o som e as danças
do casamento alquímico das sombras”
De “Raspar o fundo da Gaveta e Enfunar uma gávea (2011).

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

DE PARTIDA…
29 de janeiro de 2019

 

 

«Escrevo a minha última carta de Klow, antes de partir de regresso ao meu lar lusitano. Como disse, encontrei a Sildávia como sempre – amena e simpática. E a Bordúria continua cheia de medos e desconfianças. Depois dos sinais apaziguadores em 1989, regressaram velhos fantasmas e designadamente o grande fantasma de Plekszy-Gladz, que eu julgaria totalmente banido. Mas não, voltam subtis e ambíguas referências a essa tremenda personagem, em nome de um estranho nacionalismo. É, afinal, a projeção do que hoje vivemos no velho continente.

 

Falta memória das guerras civis – e, em lugar de uma ligação entre o debate de ideias e a aceitação regulada dos conflitos, deparamo-nos com a ilusão de que tudo se pode resolver com um qualquer chefe omnipresente e omnisciente – como quis ser esse Plekszy-Gladz de má memória. O seu bigode até chegou a servir de símbolo de marca de automóvel e de decoração… É verdade que ainda não chegamos a tanto, mas a bigodaça volta não volta aparece. Entretanto o meu amigo Oliveira da Figueira desvaneceu-se. Partiu de Klow sem me dizer para onde iria.

 

Sei que os seus negócios vão indo razoavelmente, mas sobretudo o seu espírito aventureiro está mais vivo que nunca…  Entretanto, fui matando saudades entre velhos amigos e ofereceram-me uma pequena imagem de Tintin com dois sildavos no tempo em que ele chegou aqui pela primeira vez, ainda ninguém sabia a história e a existência deste país, que continua a ser uma referência histórica e romanesca. Nada vos disse sobre a política. É uma pequena democracia multipartidária, com um governo de coligação com moderados de várias cores. Continua a ser uma monarquia constitucional quase republicana, com a divisa “Eih Bennek, eih blavek” – Aqui estou aqui vou ficar, centrada na velha lenda da rosa com espinhos e do cuidado necessário para não nos picarmos nela. Com uma Europa e um mundo em convulsão, os jornais, as rádios e as televisões dão-nos a notícias costumeiras…

 

Por mim parto com saudades. Até à vista caros amigos da Sildávia.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

CONTINUAÇÃO DE UMA CARTA QUE RECEBEMOS DE KLOW…
22 de janeiro de 2019

 


Prosseguimos a missiva que recebemos do nosso colaborador e amigo Agostinho de Morais, que ainda se encontra na cidade de Klow, capital da Sildávia.

 

«Continuo a deambular por esta cidade tão acolhedora. Ontem mesmo voltei a estar com o meu amigo Oliveira da Figueira, numa amena conversa. Lembrámo-nos que a sua primeira aparição nestas aventuras aconteceu em 1932, como personagem de «Os Charutos do Faraó», num episódio em que Tintin é atirado ao Mar Vermelho, por engano, num sarcófago egípcio. Salvo «in extremis», o nosso herói encontrou-o na embarcação que milagrosamente o recolheu. Oliveira da Figueira diz: «se puder ajudá-lo, posso fornecer-lhe a preços competitivos qualquer artigo de que necessite». Começou então por um conjunto flamante de gravatas, às riscas, às bolas ou com figuras exóticas. Seguiu-se um lote de magníficos sabres, com lâminas de Toledo, mil outras bijuterias e muitos brindes: um despertador, escova de dentes etc… Tintin saiu carregado de inutilidades, com um balde, um regador, uma gaiola com papagaio, uns esquis, tacos de golfe, uma casota e uma coleira de cão, além de um despertador. E ingenuamente confessa: «Ainda bem que não me deixei levar pela conversa dele. A tipos como este acabamos sempre por comprar uma série de coisas inúteis»… Já na costa árabe, Oliveira da Figueira demonstrará a sua inefável arte de convencer. Chamam-lhe «o-branco-que-vende-tudo»… E ele reconhece-se orgulhoso: «Então que tal? Chama-se a isto eficiência! E o melhor é que os meus clientes voltarão». De facto, voltam, mas quem aparece a protestar (sem razão, é certo) parece ter ingerido um naco de sabão, que lhe produz mal-estar pelas bolas de sabão que o atormentam. Daí a maldição: «Antes da Lua Nova, o meu Senhor, o Xeque Patrash Pacha, ter-te-á castigado»… Encontramos mais tarde Figueira no «País do Ouro Negro», obra iniciada em 1939, interrompida pela guerra e recomeçada em 1948. Aí, ajuda Tintin a encontrar os segredos do Dr. Müller, descobrindo um subterfúgio.

 

Mascarado de sobrinho do comerciante, sob o nome de Álvaro, com um aspeto bizarro, levemente atrasado, quase invisual é supostamente vítima de uma estória que o português vai contando sem parar para distrair quantos visavam impedir o acesso aos segredos do vilão. É extraordinária a capacidade efabulatória de Oliveira da Figueira. Inventa que o sobrinho é filho de um criador de caracóis, vítima de uma trama terrível que envolve uma mulher rica que morre de desgosto aos noventa e sete anos e a influência de duas imortais palavras, ditas em português, «Oh! Oh!», cujo sentido, alcance e influência nunca chegamos a conhecer… Depois, em «Carvão no Porão» («Coke en Stock», publicado no «Cavaleiro Andante», em 1959 e 1960, sob o título «Mercadores de Ébano»), Tintin e o seu amigo, Capitão Haddock, pedem apoio e hospitalidade em Wadesdah. Lembro-me, aos sábados de manhã, da expectativa que tínhamos antes de ler a continuação das peripécias. Oliveira da Figueira recebe surpreendido e assustado a visita noturna, com a cidade em estado de sítio, cheia de cartazes a pedir a captura de Tintin. «Que faz aqui, desgraçado? Não sabe que tem a cabeça a prémio?». Há agitação e um conflito entre a Arabair e o Emir…

 

Tintin diz que precisa absolutamente de ajudar o Emir e Oliveira da Figueira informa que ele teve de fugir para casa de Patrash Pacha. Tintin e Haddock treinam desesperadamente o equilíbrio das bilhas à cabeça, para que possam não dar nas vistas, mascarados de mulheres árabes, cobertas com burkas. O resultado do treino é desastroso. Os estragos são enormes e os cacos enchem o armazém do comerciante arruinado, que se vê na obrigação de dizer às clientes que as bilhas estão esgotadas. No momento da verdade, tudo parece salvo, mas eis que uma mulher árabe descobre a barba hirsuta do capitão e foge escandalizada. O desastre anuncia-se, mas no final tudo se arranja graças ao apoio providencial de Oliveira da Figueira. Recordámos gostosamente estes episódios. E verifiquei que o meu querido Oliveira da Figueira continua igual a si mesmo. Não sei que idade tem. Continua a cuidar-se. Nenhuma das suas qualidades se encontra adormecida. E fala, fala, fala… Comunicou-me, porém, que partirá para um lugar que não me quis revelar qual para dirigir os seus negócios… E hoje fico-me por aqui. Continuarei a informar-vos sobre o que encontrei neste país adorável…

 

Agostinho de Morais  

TINTIN

 

Camilo,

 

Sempre acontece querer dizer mais de uns textos seus do que de outros, não por faltar qualidade a algum deles, mas, porque saltam palavras mais diretas aos olhos de cada um que as lê e todos somos diferentes no que o olhar, nos olhos, segura.

 

Quando vendi o submarino e o foguetão de Tintin, ambos adquiridos em Paris num antiquário, senti que podia ir neles escondida para poder chorar e rezar quando quisessem fazer mal ao Tintin, ou, se ele se visse aflito na decisão dos seus percursos, pudesse estar eu sempre próxima e atenta e sofresse com ele as loucuras, e mais, pudessem as minhas lágrimas salvá-lo e por elas rezando ao mistério, rezando às perplexidades que buscava nos cantinhos dos quadrados da banda desenhada. O meu pai atualizava a minha coleção de banda desenhada, constantemente, e, recordando-lhe eu sempre essa necessidade sem cerimónia. Colocava ele quase em segredo em cima da cómoda do meu quarto os novos cadernos de Tintin, a fim de me espantar de encantamento quando eu desse conta de que as histórias afinal eram libertação.

 

Quando vendi - promessa cumprida a quem vendi - os objetos que faziam capa das revistas de Tintin, logo pensei que nesse dia tinha crescido muito ainda que não entendesse para que lado.

 

Hoje ao ler o que o Camilo citou

 

Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo (confissão de Alberto Caeiro)  

 

julgo ter entendido o silêncio que muito me fez crescer, mas agora de um outro jeito. Julgo tê-lo entendido como uma possibilidade rara de ser fundamento da própria transgressão: uma seiva. Sim, uma seiva que nos é divulgada existir, mas muito por dentro, muito por comunhão.

 

O António Alçada não era tão tranquilo quanto parecia – assim o compreendi também, e o seu filho Luís, confidenciou-me um dia, ser igualmente essa a sua opinião - e por isso no seu livro de homenagem, e ao contrário de todos os que nele participaram, depois de umas palavras minhas, citei um poema de revolta do seu poeta O’Neill ou não tivesse sido esse poema o que ele escolhera depois de, alternadamente, lermos um ao outro uma das aventuras de Tintin, enquanto a minha mãe nos olhava através de seus contagiantes olhos verdes, e, nos referia, de outro modo, a nossa, a de todos, coisa mais tremenda que há em nós: a incapacidade de total consciência lúcida.

 

E enfim, o despojamento de que me falava o Alçada, sobretudo nos largos meses antes de partir, tinha muito de religioso, muito de clarividência, muito do conteúdo do destino que, em paz, cada um devia tentar aceder sobretudo pelo silêncio.

 

Deste modo Camilo lhe agradeço o texto que enviou, círculo de luz, aparência e essência, e que todos os dias e noites de claro, saibamos olhar o mundo também pela memória.

 

Sua Amiga Teresa

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembro-me de, no princípio dos anos 70, ir muito a Paris, às vezes com o João Cravinho, para reuniões na OCDE. [Ambos trabalhávamos então com o Secretário de Estado da Indústria (SEI), Rogério Martins: o João, muito mais qualificado, era o diretor geral do GEBEI - Gabinete de Estudos Básicos de Economia Industrial; eu era jovem assessor do SEI para as relações internacionais, e delegado ao Comité de Indústria da OCDE].  Costumávamos ficar num pequeno hotel da rue du Bois de Boulogne, à avenue Foch, donde, a pé, partíamos todas as manhãs, em passeio higiénico, para os nossos trabalhos no Château de la Muette. No regresso, ao fim do dia, acontecia-nos, quando mais cansados e com menos tempo, jantar algures nos Champs Élysées e ir comprar uns jornais ou revistas, nalguma drugstore. Por mim, juntava-lhes quase sempre uma banda desenhada, para surpresa do João Cravinho, que não entendia como é que eu podia gostar "daquilo". A verdade é que, desde os meus cinco anos, toda a vida me deliciei com histórias aos quadradinhos, e hoje ainda releio com confessado gosto muitas delas. Esta noite ainda, quase em 2019, calhou-me uma curiosa aventura do Tintin, em dois volumes: Les Sept Boules de Cristal e Le Temple du Soleil. Digo curiosa, porque, para além de temas comuns a muita literatura - como a ilusão e a magia, o secretismo, a descoberta e a maldição - o fio condutor desta história, a sua intriga fulcral, me parece ser a loucura. É ela o castigo que o espírito inca reserva para os cientistas aventureiros que ousem violar os seus mistérios, é dela que eles serão finalmente libertados, depois de Tintin ordenar ao sol em eclipse que reapareça - para assim obter, além do fim da maldição dos sábios hospitalizados, a própria libertação, e a dos seus inseparáveis amigos, em troco da promessa de manter secretos os segredos dos incas clandestinos, escondidos nas altitudes da sua milenar terra natal, em ruínas conservadas do seu perdido império. Mais: é a loucura, sobretudo ela, que espreita toda a gente, desde logo, nas páginas iniciais, a dos pacíficos burgueses que, no compartimento de comboio em que Tintin lê o jornal, espreitam os títulos das notícias de maldições, e logo se assustam muito, receosos do contágio da loucura de sonhos aventureiros... 

 

   Nota bem, Princesa de mim, que, de certo modo, é com audácia -- à qual, como à clarividência, tantas vezes chamamos louca - que Tintin vence a loucura. Esta surge manifestada por histerismos doentios, pelo medo, ou qualquer terror inspirado por fantasmas íntimos que as vítimas sofrem mas não conseguem expulsar. Como se, confusa, a consciência a si mesma se perseguisse... Ou um sonho tenebroso nos habitasse como se fosse real. Tintin também é perseguido: está a dormir no seu quarto, na enorme moradia do professor Bergamotte, onde se conserva a múmia de Rascar Capac, quando esta fantasmática figura lhe entra pela janela aberta e lança ao chão, quebrando-a, uma bola de cristal contendo gás de loucura. Assustado, o nosso herói salta da cama e verifica que, afinal, o vento e a chuva de uma borrasca é que lhe haviam aberto a janela, e quebrando-lhe os vidros. Tudo o mais não passara de sonho. Reparei numa jarra azul com flores, posta numa mesa de canto, junto à janela. Com a violência da rajada que a abriu, esta tombou aquela sobre a tal mesa, e caíram as flores. O pormenor da jarra vê-se claramente em três dos quadradinhos em que surge Rascar Capac. Tombada, surge noutros três, em que o fantasma está ausente e Tintin, bem acordado, regressa à realidade. Ocorreu-me a semelhança entre essa jarra e suas flores e o quadro de Van Gogh, Fleurs dans un Vase Bleu... Evocação da loucura, de uma intoxicação? Apenas pensossinto que, mesmo inconscientemente, Georges Rémy evoca ali, sob a aparência de coloridas flores, a perturbação que o pintor holandês também experimentou. A angústia é ali insídia interior, talvez a nossa consciência imperfeita em atroz desespero por não se nos encontrar nas explicações do universo e da vida. Histórias, novelas, desenhos e filmes de terror são exorcismos dessa coisa mais tremenda que há em nós: a incapacidade de total consciência lúcida.

 

   Só saímos dessa perplexidade respirando fundo, contando até dez, somando dois mais dois, e indo chamar pessoas e coisas pelos nomes que sabemos. Ou, mesmo antes, tocando fisicamente em algo à mão. Ser e sentir-se animal é melhor antídoto da angústia do que qualquer metafísica. Come chocolates, pequena..." aconselharia o Álvaro de Campos. Ou, melhor ainda, outro dos heterónimos do Fernando Pessoa (qualquer deles um exorcista das suas angústias), sabiamente:

 

Creio no mundo como num malmequer, / Porque o vejo. Mas não penso nele / Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. Esta confissão de Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos, é uma profissão de fé quando o mesmo assim fala: Pensar em Deus é desobedecer a Deus, / Porque Deus quis que o não conhecêssemos, Por isso se nos não mostrou...

 

   Alternamente formuladas - outra vez pelo engenheiro Álvaro de Campos, agora no seu Lisbon Revisited (1926) - as mesmas sugestões vão-se deixando tentar pela metafísica literária:

 

   Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
   Mas o que é conhecido? o que é que tu conheces, 
   Para que chames desconhecido a qualquer cousa em especial?

 

   Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
   Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
   Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
   Dispersa-te, sistema físico-químico
   De células noturnamente conscientes
   Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
   Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
   Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
   Pela névoa atómica das cousas,
   Pelas paredes turbilhonantes
   Do vácuo dominante do mundo...

 

   A religião não é mezinha nem cura para a angústia. Não a tentes para o efeito, Princesa de mim. A própria experiência religiosa, mesmo mística, pode sofrer angústia. A presença sentida de Deus não o torna visível nem palpável, já são Paulo ensinava aos hebreus que a fé é a substância das coisas por vir. Todos os dias chamamos: Vinde Senhor Jesus! Como já o salmista interpelava "de profundis da sua angústia" o Senhor que não via.

 

   Ao que outros percebem como inexistência de Deus - por falta de prova experimental ou científica -, e, outros ainda, como simples ausência, chamam os crentes o silêncio de Deus. Destes, há os que reclamam sinais - dos tais que Jesus repetia terem sido já dados - talvez esquecidos da lição a São Tomé: acreditas porque viste; bem aventurados os que creem sem ter visto. Em religião, a resposta ao silêncio de Deus é o nosso silêncio que escuta. A experiência mística não é uma prece.  É uma comunhão. Esta pressupõe disponibilidade e despojamento, cujo exercício é ascese espiritual, a qual não se funde com quaisquer regras mecânicas ou rituais de calculada ou previsível eficácia, ou seja, não é um tratamento. Antes e só uma predisposição à escuta do silêncio que fala. Será difícil, em tempos de pressas e correrias, de fabricação constante de palavras e discursos, explicações e receitas, e, porque pensa que tudo se faz, considera que a escuta do silêncio é uma atitude passiva. Mas, de outro modo, poderemos entendê-la como essa talvez esperança que suspende o final da Ode Mortal de Álvaro de Campos:

 

   E de repente se abrirá a Última Porta das coisas,
   E Deus, como um Homem, me aparecerá por fim.
   E será o Inesperado que eu esperava -
   O Desconhecido que eu conheci sempre -
   O único que eu sempre conheci...

 

   Afinal, pela sua imperfeição, talvez a condição humana seja heroica. E talvez por ser louca e longa a silenciosa espera, na escuridão da noite vá nascendo o dia. Para que possamos dizer, como Ungaretti: M´illumino d´immenso... Poema brevíssimo, intitulado Mattina (Manhã na versão portuguesa de Orlando de Carvalho - Cadernos de Poesia, Publicações Dom Quixote, 1971 - que reza assim: Deslumbro-me / de imenso). Na minha tradução, opto por Alumio-me de imenso: não só, nem tanto, pela maior proximidade ao original italiano, mas por me parecer que, antes do deslumbramento (talvez mais sensorial e subjetivo) a iluminação vem de além, é o dom da luz, é a clarividência, a lucidez. Deslumbro-me depois de ter sido aceso como o Buda ou Paul Claudel em Notre Dame de Paris, ou claramente derrubado - porque perseguia ou desafiava - como São Paulo a caminho de Damasco. Sobre tão imensa luz que me alumia te escrevi, em 18 de maio de 2014, uma carta que o blogue do CNC publicou naquela data... Relia-a hoje.

 

Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira

CADA ROCA COM SEU FUSO...

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NOS NOVENTA ANOS DE TINTIN, CRÓNICA DE KLOW
Episódio especial, 11 de janeiro de 2019

 

«Na sequência de “Tu Cá Tu Lá Com o Património”, iniciámos uma nova série para 2019, da autoria do nosso amigo Agostinho de Morais.

São crónicas amenas deste “gentleman farmer”, afilhado de Frei Agostinho da Cruz, de idade incerta, mas com uns bons anos de vida e de experiência. É um jardineiro nas horas vagas, cuida do seu MGA com mil cuidados e vive obcecado com o Brexit, com pavor que as peças para o seu vetusto automóvel se tornem incomportáveis de preço. É um anglófilo inveterado, cônsul honorário da Sildávia, detetive nas horas vagas, colecionador de borboletas exóticas, especialista em autores como Chesterton e Evelyn Waugh, e de Histórias aos Quadradinhos, pratica xadrez e bridge, e cultiva a teoria dos jogos. Em tempos escreveu três complexos opúsculos com misteriosos títulos “Para o Estudo do Paradoxo de Zenão – Aquiles e a Tartaruga” , “História da Sildávia até à Atualidade” e “ As Misteriosas descobertas do Father Brown”… São páginas de puro humor, história e matemática. É um conhecedor de temas históricos e linguísticos, e lê textos antigos em sânscrito, grego e latim. Quanto ao mais, é o que resultar das suas crónicas, a não perder!».

 

 

 

Eis o telegrama que acabamos de receber da cidade de Klow:

 

«Escrevo no dia 10 de janeiro de 2019, exatamente noventa anos depois da primeira publicação das aventuras de Tintin, no “Petit Vingtième”. Faço-o da cidade de Klow, capital da Sildávia, país adorável dos Balcãs. Aqui passaram-se momentos fundamentais na vida do herói de Hergé., que gosto sempre de lembrar.  Vim passar uns dias de férias a este país, em homenagem a todos os cultores das histórias de quadradinhos. Bianca Castafiore definiu a Sildávia como “um país encantador, para quem gosta de velharias”. A Sildávia nasceu em 1127 quando o chefe tribal Hvegui expulsou turcos e adotou o nome Muskar. A Bordúria, o país arquirrival, ocupou a Sildávia em 1195, mas em 1275 a independência foi reconquistada. O rei Otokar IV tornou-se monarca em 1360 quando o barão Staszrvitch reclamou o trono e o atacou com uma espada, mas Otokar derrubou-o com seu cetro – então tornado símbolo nacional. Eis a razão do célebre título “O Cetro de Otokar” E, desde então, o rei da Sildávia deve trazer consigo o cetro e mostrá-lo ao povo no Dia de São Vladimir, sem o que perderá a sua legitimidade. Aquele que tiver o cetro será o novo rei. Sabemos bem que isso é assim pela leitura da obra de Hergé.. Em 1939 a Sildávia ficou sob o risco de uma invasão de sua vizinha Bordúria como parte de um plano para expulsar Otokar XII. Tintin desenvolveu uma estratégia para neutralizar a situação. Assim, de modo pacífico, Otokar XII viu-se regressado à plenitude poderes no seu pequeno reino, graças ao jovem e destemido Tintin, algo como um monarca constitucional de seu país. Ordenou a seus ministros e generais que se fizessem as mudanças necessárias para evitar um golpe e uma nova invasão. E assim se iniciou um longo paríodo de paz. Podem crer que é com sentida emoção que aqui me acho. O tempo está soalheiro, mas o frio é bastante… E para minha surpresa, aqui me encontrei quando ia a chegar ao Hotel Astória – Klow, onde estou hospedado, a figura mais bizarra que imaginar se possa, e que aqui veio, como eu, para celebrar os 90 anos de Tintin – bela e vetusta idade – falo-vos da figura rotunda de Oliveira da Figueira, o português mais célebre do mundo. Contou-me, aliás, que é sócio deste Hotel, que nos acolhe. A Bordúria regressou à instabilidade, que parecia afastada. Mas a Sildávia vive momentos de paz e moderada prosperidade, é por isso um bom lugar para prosperar, descansar e comemorar o glorioso aniversário de Tintin… Oliveira da Figueira está velho, mas feliz… Continuarei a escrever-vos desta terra tão acolhedora. Hoje apenas vos escrevo, porém,  para homenagear o herói, prometendo voltar ao relato de viagem nesta terra de História rica e vicissitudes diversas….»

 

Agostinho de Morais