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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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TINTIN

 

Camilo,

 

Sempre acontece querer dizer mais de uns textos seus do que de outros, não por faltar qualidade a algum deles, mas, porque saltam palavras mais diretas aos olhos de cada um que as lê e todos somos diferentes no que o olhar, nos olhos, segura.

 

Quando vendi o submarino e o foguetão de Tintin, ambos adquiridos em Paris num antiquário, senti que podia ir neles escondida para poder chorar e rezar quando quisessem fazer mal ao Tintin, ou, se ele se visse aflito na decisão dos seus percursos, pudesse estar eu sempre próxima e atenta e sofresse com ele as loucuras, e mais, pudessem as minhas lágrimas salvá-lo e por elas rezando ao mistério, rezando às perplexidades que buscava nos cantinhos dos quadrados da banda desenhada. O meu pai atualizava a minha coleção de banda desenhada, constantemente, e, recordando-lhe eu sempre essa necessidade sem cerimónia. Colocava ele quase em segredo em cima da cómoda do meu quarto os novos cadernos de Tintin, a fim de me espantar de encantamento quando eu desse conta de que as histórias afinal eram libertação.

 

Quando vendi - promessa cumprida a quem vendi - os objetos que faziam capa das revistas de Tintin, logo pensei que nesse dia tinha crescido muito ainda que não entendesse para que lado.

 

Hoje ao ler o que o Camilo citou

 

Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo (confissão de Alberto Caeiro)  

 

julgo ter entendido o silêncio que muito me fez crescer, mas agora de um outro jeito. Julgo tê-lo entendido como uma possibilidade rara de ser fundamento da própria transgressão: uma seiva. Sim, uma seiva que nos é divulgada existir, mas muito por dentro, muito por comunhão.

 

O António Alçada não era tão tranquilo quanto parecia – assim o compreendi também, e o seu filho Luís, confidenciou-me um dia, ser igualmente essa a sua opinião - e por isso no seu livro de homenagem, e ao contrário de todos os que nele participaram, depois de umas palavras minhas, citei um poema de revolta do seu poeta O’Neill ou não tivesse sido esse poema o que ele escolhera depois de, alternadamente, lermos um ao outro uma das aventuras de Tintin, enquanto a minha mãe nos olhava através de seus contagiantes olhos verdes, e, nos referia, de outro modo, a nossa, a de todos, coisa mais tremenda que há em nós: a incapacidade de total consciência lúcida.

 

E enfim, o despojamento de que me falava o Alçada, sobretudo nos largos meses antes de partir, tinha muito de religioso, muito de clarividência, muito do conteúdo do destino que, em paz, cada um devia tentar aceder sobretudo pelo silêncio.

 

Deste modo Camilo lhe agradeço o texto que enviou, círculo de luz, aparência e essência, e que todos os dias e noites de claro, saibamos olhar o mundo também pela memória.

 

Sua Amiga Teresa

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembro-me de, no princípio dos anos 70, ir muito a Paris, às vezes com o João Cravinho, para reuniões na OCDE. [Ambos trabalhávamos então com o Secretário de Estado da Indústria (SEI), Rogério Martins: o João, muito mais qualificado, era o diretor geral do GEBEI - Gabinete de Estudos Básicos de Economia Industrial; eu era jovem assessor do SEI para as relações internacionais, e delegado ao Comité de Indústria da OCDE].  Costumávamos ficar num pequeno hotel da rue du Bois de Boulogne, à avenue Foch, donde, a pé, partíamos todas as manhãs, em passeio higiénico, para os nossos trabalhos no Château de la Muette. No regresso, ao fim do dia, acontecia-nos, quando mais cansados e com menos tempo, jantar algures nos Champs Élysées e ir comprar uns jornais ou revistas, nalguma drugstore. Por mim, juntava-lhes quase sempre uma banda desenhada, para surpresa do João Cravinho, que não entendia como é que eu podia gostar "daquilo". A verdade é que, desde os meus cinco anos, toda a vida me deliciei com histórias aos quadradinhos, e hoje ainda releio com confessado gosto muitas delas. Esta noite ainda, quase em 2019, calhou-me uma curiosa aventura do Tintin, em dois volumes: Les Sept Boules de Cristal e Le Temple du Soleil. Digo curiosa, porque, para além de temas comuns a muita literatura - como a ilusão e a magia, o secretismo, a descoberta e a maldição - o fio condutor desta história, a sua intriga fulcral, me parece ser a loucura. É ela o castigo que o espírito inca reserva para os cientistas aventureiros que ousem violar os seus mistérios, é dela que eles serão finalmente libertados, depois de Tintin ordenar ao sol em eclipse que reapareça - para assim obter, além do fim da maldição dos sábios hospitalizados, a própria libertação, e a dos seus inseparáveis amigos, em troco da promessa de manter secretos os segredos dos incas clandestinos, escondidos nas altitudes da sua milenar terra natal, em ruínas conservadas do seu perdido império. Mais: é a loucura, sobretudo ela, que espreita toda a gente, desde logo, nas páginas iniciais, a dos pacíficos burgueses que, no compartimento de comboio em que Tintin lê o jornal, espreitam os títulos das notícias de maldições, e logo se assustam muito, receosos do contágio da loucura de sonhos aventureiros... 

 

   Nota bem, Princesa de mim, que, de certo modo, é com audácia -- à qual, como à clarividência, tantas vezes chamamos louca - que Tintin vence a loucura. Esta surge manifestada por histerismos doentios, pelo medo, ou qualquer terror inspirado por fantasmas íntimos que as vítimas sofrem mas não conseguem expulsar. Como se, confusa, a consciência a si mesma se perseguisse... Ou um sonho tenebroso nos habitasse como se fosse real. Tintin também é perseguido: está a dormir no seu quarto, na enorme moradia do professor Bergamotte, onde se conserva a múmia de Rascar Capac, quando esta fantasmática figura lhe entra pela janela aberta e lança ao chão, quebrando-a, uma bola de cristal contendo gás de loucura. Assustado, o nosso herói salta da cama e verifica que, afinal, o vento e a chuva de uma borrasca é que lhe haviam aberto a janela, e quebrando-lhe os vidros. Tudo o mais não passara de sonho. Reparei numa jarra azul com flores, posta numa mesa de canto, junto à janela. Com a violência da rajada que a abriu, esta tombou aquela sobre a tal mesa, e caíram as flores. O pormenor da jarra vê-se claramente em três dos quadradinhos em que surge Rascar Capac. Tombada, surge noutros três, em que o fantasma está ausente e Tintin, bem acordado, regressa à realidade. Ocorreu-me a semelhança entre essa jarra e suas flores e o quadro de Van Gogh, Fleurs dans un Vase Bleu... Evocação da loucura, de uma intoxicação? Apenas pensossinto que, mesmo inconscientemente, Georges Rémy evoca ali, sob a aparência de coloridas flores, a perturbação que o pintor holandês também experimentou. A angústia é ali insídia interior, talvez a nossa consciência imperfeita em atroz desespero por não se nos encontrar nas explicações do universo e da vida. Histórias, novelas, desenhos e filmes de terror são exorcismos dessa coisa mais tremenda que há em nós: a incapacidade de total consciência lúcida.

 

   Só saímos dessa perplexidade respirando fundo, contando até dez, somando dois mais dois, e indo chamar pessoas e coisas pelos nomes que sabemos. Ou, mesmo antes, tocando fisicamente em algo à mão. Ser e sentir-se animal é melhor antídoto da angústia do que qualquer metafísica. Come chocolates, pequena..." aconselharia o Álvaro de Campos. Ou, melhor ainda, outro dos heterónimos do Fernando Pessoa (qualquer deles um exorcista das suas angústias), sabiamente:

 

Creio no mundo como num malmequer, / Porque o vejo. Mas não penso nele / Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. Esta confissão de Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos, é uma profissão de fé quando o mesmo assim fala: Pensar em Deus é desobedecer a Deus, / Porque Deus quis que o não conhecêssemos, Por isso se nos não mostrou...

 

   Alternamente formuladas - outra vez pelo engenheiro Álvaro de Campos, agora no seu Lisbon Revisited (1926) - as mesmas sugestões vão-se deixando tentar pela metafísica literária:

 

   Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
   Mas o que é conhecido? o que é que tu conheces, 
   Para que chames desconhecido a qualquer cousa em especial?

 

   Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
   Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
   Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
   Dispersa-te, sistema físico-químico
   De células noturnamente conscientes
   Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
   Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
   Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
   Pela névoa atómica das cousas,
   Pelas paredes turbilhonantes
   Do vácuo dominante do mundo...

 

   A religião não é mezinha nem cura para a angústia. Não a tentes para o efeito, Princesa de mim. A própria experiência religiosa, mesmo mística, pode sofrer angústia. A presença sentida de Deus não o torna visível nem palpável, já são Paulo ensinava aos hebreus que a fé é a substância das coisas por vir. Todos os dias chamamos: Vinde Senhor Jesus! Como já o salmista interpelava "de profundis da sua angústia" o Senhor que não via.

 

   Ao que outros percebem como inexistência de Deus - por falta de prova experimental ou científica -, e, outros ainda, como simples ausência, chamam os crentes o silêncio de Deus. Destes, há os que reclamam sinais - dos tais que Jesus repetia terem sido já dados - talvez esquecidos da lição a São Tomé: acreditas porque viste; bem aventurados os que creem sem ter visto. Em religião, a resposta ao silêncio de Deus é o nosso silêncio que escuta. A experiência mística não é uma prece.  É uma comunhão. Esta pressupõe disponibilidade e despojamento, cujo exercício é ascese espiritual, a qual não se funde com quaisquer regras mecânicas ou rituais de calculada ou previsível eficácia, ou seja, não é um tratamento. Antes e só uma predisposição à escuta do silêncio que fala. Será difícil, em tempos de pressas e correrias, de fabricação constante de palavras e discursos, explicações e receitas, e, porque pensa que tudo se faz, considera que a escuta do silêncio é uma atitude passiva. Mas, de outro modo, poderemos entendê-la como essa talvez esperança que suspende o final da Ode Mortal de Álvaro de Campos:

 

   E de repente se abrirá a Última Porta das coisas,
   E Deus, como um Homem, me aparecerá por fim.
   E será o Inesperado que eu esperava -
   O Desconhecido que eu conheci sempre -
   O único que eu sempre conheci...

 

   Afinal, pela sua imperfeição, talvez a condição humana seja heroica. E talvez por ser louca e longa a silenciosa espera, na escuridão da noite vá nascendo o dia. Para que possamos dizer, como Ungaretti: M´illumino d´immenso... Poema brevíssimo, intitulado Mattina (Manhã na versão portuguesa de Orlando de Carvalho - Cadernos de Poesia, Publicações Dom Quixote, 1971 - que reza assim: Deslumbro-me / de imenso). Na minha tradução, opto por Alumio-me de imenso: não só, nem tanto, pela maior proximidade ao original italiano, mas por me parecer que, antes do deslumbramento (talvez mais sensorial e subjetivo) a iluminação vem de além, é o dom da luz, é a clarividência, a lucidez. Deslumbro-me depois de ter sido aceso como o Buda ou Paul Claudel em Notre Dame de Paris, ou claramente derrubado - porque perseguia ou desafiava - como São Paulo a caminho de Damasco. Sobre tão imensa luz que me alumia te escrevi, em 18 de maio de 2014, uma carta que o blogue do CNC publicou naquela data... Relia-a hoje.

 

Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira

NOS NOVENTA ANOS DE TINTIN, CRÓNICA DE KLOW

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CADA ROCA COM SEU FUSO…
Episódio especial, 11 de janeiro de 2019

 

«Na sequência de “Tu Cá Tu Lá Com o Património”, iniciámos uma nova série para 2019, da autoria do nosso amigo Agostinho de Morais.

São crónicas amenas deste “gentleman farmer”, afilhado de Frei Agostinho da Cruz, de idade incerta, mas com uns bons anos de vida e de experiência. É um jardineiro nas horas vagas, cuida do seu MGA com mil cuidados e vive obcecado com o Brexit, com pavor que as peças para o seu vetusto automóvel se tornem incomportáveis de preço. É um anglófilo inveterado, cônsul honorário da Sildávia, detetive nas horas vagas, colecionador de borboletas exóticas, especialista em autores como Chesterton e Evelyn Waugh, e de Histórias aos Quadradinhos, pratica xadrez e bridge, e cultiva a teoria dos jogos. Em tempos escreveu três complexos opúsculos com misteriosos títulos “Para o Estudo do Paradoxo de Zenão – Aquiles e a Tartaruga” , “História da Sildávia até à Atualidade” e “ As Misteriosas descobertas do Father Brown”… São páginas de puro humor, história e matemática. É um conhecedor de temas históricos e linguísticos, e lê textos antigos em sânscrito, grego e latim. Quanto ao mais, é o que resultar das suas crónicas, a não perder!».

 

 

 

Eis o telegrama que acabamos de receber da cidade de Klow:

 

«Escrevo no dia 10 de janeiro de 2019, exatamente noventa anos depois da primeira publicação das aventuras de Tintin, no “Petit Vingtième”. Faço-o da cidade de Klow, capital da Sildávia, país adorável dos Balcãs. Aqui passaram-se momentos fundamentais na vida do herói de Hergé., que gosto sempre de lembrar.  Vim passar uns dias de férias a este país, em homenagem a todos os cultores das histórias de quadradinhos. Bianca Castafiore definiu a Sildávia como “um país encantador, para quem gosta de velharias”. A Sildávia nasceu em 1127 quando o chefe tribal Hvegui expulsou turcos e adotou o nome Muskar. A Bordúria, o país arquirrival, ocupou a Sildávia em 1195, mas em 1275 a independência foi reconquistada. O rei Otokar IV tornou-se monarca em 1360 quando o barão Staszrvitch reclamou o trono e o atacou com uma espada, mas Otokar derrubou-o com seu cetro – então tornado símbolo nacional. Eis a razão do célebre título “O Cetro de Otokar” E, desde então, o rei da Sildávia deve trazer consigo o cetro e mostrá-lo ao povo no Dia de São Vladimir, sem o que perderá a sua legitimidade. Aquele que tiver o cetro será o novo rei. Sabemos bem que isso é assim pela leitura da obra de Hergé.. Em 1939 a Sildávia ficou sob o risco de uma invasão de sua vizinha Bordúria como parte de um plano para expulsar Otokar XII. Tintin desenvolveu uma estratégia para neutralizar a situação. Assim, de modo pacífico, Otokar XII viu-se regressado à plenitude poderes no seu pequeno reino, graças ao jovem e destemido Tintin, algo como um monarca constitucional de seu país. Ordenou a seus ministros e generais que se fizessem as mudanças necessárias para evitar um golpe e uma nova invasão. E assim se iniciou um longo paríodo de paz. Podem crer que é com sentida emoção que aqui me acho. O tempo está soalheiro, mas o frio é bastante… E para minha surpresa, aqui me encontrei quando ia a chegar ao Hotel Astória – Klow, onde estou hospedado, a figura mais bizarra que imaginar se possa, e que aqui veio, como eu, para celebrar os 90 anos de Tintin – bela e vetusta idade – falo-vos da figura rotunda de Oliveira da Figueira, o português mais célebre do mundo. Contou-me, aliás, que é sócio deste Hotel, que nos acolhe. A Bordúria regressou à instabilidade, que parecia afastada. Mas a Sildávia vive momentos de paz e moderada prosperidade, é por isso um bom lugar para prosperar, descansar e comemorar o glorioso aniversário de Tintin… Oliveira da Figueira está velho, mas feliz… Continuarei a escrever-vos desta terra tão acolhedora. Hoje apenas vos escrevo, porém,  para homenagear o herói, prometendo voltar ao relato de viagem nesta terra de História rica e vicissitudes diversas….»

 

Agostinho de Morais

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Tenho o meu gabinete no rés do chão, abrindo sobre uma fileira de miosporos e a "minha" cerejeira do Japão, antes de um vale de pereiras, em cujos baixos está a charca grande, rodeada de choupos. Diverti-me, esta manhã, a observar um casalinho de melros espertos que, mesmo à beirinha de mim se ia entretendo com o que chamo a sua, deles, saltitante restauração matinal. Apareceu então uma pega, muito senhora de sua voz. Ave bonita, com graças de senhora estouvada, terá fugido do seu salão no Palácio da Vila, em Sintra, ou saiu direitinha de Les Bijoux de la Castafiore, pega tão ladra quanto rossiniana, atraída talvez pelo fascínio de algum brilho esquecido no chão? Mais certo é ter ninho por aí, alto posto num dos grandes plátanos, aqui mesmo diante da casa, ou num dos choupos que avisto lá em baixo. Irei ver: os ninhos de pegas também são depósito de quinquilharia, não é só nas aventuras do Tintin que atua a operática Gazza Ladra. Mas não creio que esta ave que por aí vai voando e pousando seja cleptómana; antes fará tudo, como as suas parentes de Sintra, por bem... Esta pega rabuda, por enquanto, vai saltitando e picando pelas ervas, como os melros; ao vê-la não diria que é omnívora como o homem, ainda que também seja pega de um só pego, ou pego de pega única, coisa que o humano nem sempre é. Encontro-a muitas vezes silenciosa, é ave prudente e ciosa, ainda que seja tida por palradora, quiçá porque, dizem, imita os sons alheios... Mas eu só lhe surpreendi berros de alarme. Surpreso fui eu, logo pela manhãzinha, quando avistei sobranceiramente, de secreta janela do meu quarto, uma poupa planando no ar sereno, ao carinho de uma luz de oiro que lhe afagava as cores inesperadas da cabeça e do pescoço e o branco e negro das asas abertas... Não era um pássaro, era uma "apassarição"! Fez-se de súbito franciscano o meu coração, noutras vezes tão distraído da beleza: há milagres assim. 

 

   Não sei porquê, deu-me então para pensar a beleza como sentido íntimo e último das coisas todas. A contemplação do belo é a descoberta da nossa vida, o encontro final, a fruição dessa essência trina (belo, bom, vero) que hoje apenas temos enquanto saudade, desejo e busca. Somos peregrinos do amor, eis todo o nosso sentido. A Teresa Calem, querida amiga, reencaminhou-me, um dia destes, um vídeo sobre um miúdo de 12 anos, chamado Campbell, que dedica as suas horas de recreio, enquanto irmãos, amigos e colegas juntos brincam ou jogam à bola, a costurar bonecos de pano, para depois os levar e oferecer a crianças doentes. Os bonecos são todos diferentes, cada um com sua personalidade e seu nome. Em comum apenas têm o cuidado com que foram feitos e a secreta beleza que torna cada um deles um ser amável, um amigo para ser querido, uma companhia como testemunho de humanidade. Campbell também fez um para o pai, ao saber que este era vítima de cancro. E o pai, comovido, diz que já sente melhoras e, com o filho, acredita que anda ali poder mágico...

 

   Pensossinto que as evidências íntimas não têm necessariamente de ser aparições, alucinações, visões ou ilusões: não são, não podem ser, projeções dos nossos nós mesmos. São o reconhecimento do nosso encontro com o Outro. Narciso afogou-se por muito se ter debruçado sobre a água que lhe servia de espelho. Mas eu, quando, ainda que em fotografia, sinto sobre mim o olhar de magoada misericórdia de Madre Teresa de Calcutá, ardo de assombro perante a mulher mais linda do mundo.

 

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Creio que é em Tintin au Pays de l´Or Noir que o nosso herói e o seu inseparável Capitaine Haddock escaqueiram as existências, em armazém, das bilhas de barro que o amigo Oliveira da Figueira ia vendendo às mulheres do sítio, para irem buscar água ao poço. Tal razia não se deveu a qualquer ataque de fúria ou mesquinha vindicta contra o simpático português que, aliás, prestável como sempre, apenas pusera as bilhas ao dispor dos dois amigos, para que, durante a noite, se fossem treinando a levá-las à cabeça... Na verdade, perseguidos pela polícia local, apenas poderiam deixar a cidade que os prendia, partindo de um poço nos limites dela, onde os aguardaria auxílio e transporte. Mas para tanto, teriam de lá chegar incógnitos, vestidos de niqab, uma espécie de burka negra, em que só os olhos se desvendam, levando à cabeça as tais bilhas com que as mulheres iam ao poço abastecer-se. Já o arguto Hergé, nos anos 50, percebia que niqab e burka podem muito bem servir de excelentes disfarces. Por isso mesmo compreendo e concordo que o porte de tal indumentária seja proibido, por exemplo, na União Europeia. Por razões de segurança, não por fobias outras, muito menos por excesso de zelo laicizante.

 

    Quanto ao chamado burkini, neologismo derivado de burka e bikini, é termo inventado pelo ocidental comércio para promover um novo artigo, novidade achada para um potencial mercado que "marketingadamente" os tais comerciantes vão criando. O efeito maior que isso me faz é dar-me riso, não vejo aí qualquer desafio civilizacional - menos ainda um choque -nem manifestação propriamente religiosa. Que umas senhoras queiram banhar-se, em cálidas águas de Verão, envergando calças justas compridas, camisa de manga até aos punhos, xaile e véu longo, parece-me, quanto muito, uma bizarra noção de conforto corporal… mas o desejo é delas, não me diz respeito! Todos nós também já vimos fotos dos nossos pais e avós, gozando as carícias do mar em elegantes estâncias de veraneio europeias, vestidos da cabeça aos pés. Eu mesmo ainda me recordo de que, já em tempos da minha mocidade, o cabo de mar verificava, nas nossas praias, se os próprios homens traziam o peito coberto, e também a extensão do pudor dos fatos de banho femininos. Na própria Câmara Corporativa, uma espécie de câmara alta da Assembleia Nacional do Estado Novo, se discutiram medidas ideais para o vestuário dos banhistas!

 

   Se, desde essa altura, nem o rigor das leis, nem alguma censura social - e religiosa! (lembras-te, Princesa, dos "guardas" que, às portas das igrejas de Lisboa, vigiavam e corrigiam a abertura dos decotes e o comprimento das mangas dos vestidos das senhoras, no Verão, à entrada da missa?) - impediram que, a médio e longo prazo, os veraneantes se fossem progressivamente despindo, quem me garante que, hoje em dia, as banhistas em burkini, muçulmanas ou não, não façam como as meninas finas do Chiado que, invejosas do penteado da violeteira, foram deixando crescer tranças pretas? No caso atualmente presente, digo, deixando decrescer tecidos e vestes?

 

   Mas talvez eu esteja enganado, quiçá venha a acontecer o inverso: antes teremos a visão aterradora de praias europeias pejadas de mulheres veraneantes vestidas, da cabeça aos pés, com pudicos trajes de banho expressamente desenhados pelos nossos "diores" e quejandos... Imagino então uma autoridade política francesa, por exemplo, um governante sóbrio e de austeros costumes, o qual, vendo-as assim, sucintas, tão pouco nuas, vai suspirando, à beira mar, como o nosso queirosiano conde de Steinbroken: C´est très grave, c´est excessivement grave!  E nas cortes hodiernas, um deputado bem republicano, radical e laico, parafraseará, sem conscientemente o saber, outra talentosa personagem do Eça (...os que, nas escolas, com mão ímpia, querem substituir a cruz pelo trapézio!...) exclamando: "Ai daqueles que, com mão ímpia, querem substituir o topless pelo burkini!". Terá razão: é que não se admite mesmo, Princesa de mim, tão insidioso ataque aos pilares morais da democrática república!

 

   Bem sei que a questão deve ser tratada de modo mais severo do que o jeito jocoso desta feita. E procurarei fazê-lo na minha próxima carta.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira