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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

PELO SONHO É QUE VAMOS…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 17 

 

Também eu sou de Vila Nogueira de Azeitão, aí viveram os meus ancestrais ao longo dos séculos. Tenho referências de avós meus, agricultores da terra, desde pelo menos o século XVI. Era uma paisagem de Oliveiras, daí o seu nome, mas  também de pão e de vinhas, cuja história se perde nos confins dos tempos. Há nomes que me soam familiares nas ruas dessa extraordinária povoação. A Arrábida é o santuário natural mais fantástico como não conheço outro. O meu querido amigo António Osório lembra sempre essa antiga genealogia… Dizia Orlando Ribeiro quando se apaixonou por estas paragens que, se alguém deseja sentir o Mediterrâneo puro, tem de vir até aqui. “Nada em Portugal se pode comparar a este bosque de sombras perfumadas”. Tempo houve em que os meus antepassados aprendiam as primeiras letras e os mistérios da natureza ou os nomes das árvores e dos acidentes da costa com os frades do Conventinho. Ah, como não lembrar Frei Agostinho da Cruz, que me foi dado como padrinho na pia batismal. Frei Bernardino vinha todos os dias a pé desde Brancanes até Vila Nogueira pelos trilhos que os séculos foram fixando. Mas, para os meus, o Portinho era um lugar muito especial. “Que deslumbramento! Águas de uma transparência inaudita, permitindo ver o fundo a mais de uma dezena de metros, dando-nos, em alguns ângulos de iluminação a impressão de que o vapor está suspenso no ar sobre aquele fundo branco de areia” (disse Arronches Junqueiro). Sempre que por lá passo recordo a personalidade de Sebastião da Gama. O seu espírito aí continua. E podemos dizer que este é um lugar privilegiado para a palavra e o espírito. Miguel Torga lembra: “Quando a Serra e o mar se juntam / Não há nada a fazer nem dizer. / Com fragas e ondas. / A vida fica tão perfeita / Que seria uma estupidez intervir”. E o meu primo Luiz Saldanha recordava uma biodiversidade incomparável, as algas colossais do Portinho, como serpentes gigantescas, sob a abóbada daquele azul celeste. Ah, como o Oceano é fonte de mil saberes, de mil conhecimentos e de mil amores… E como não lembrar a Lenda de Hildebrandt, em que numa noite de tempestade, surgiu Nossa Senhora sob a forma de uma luz, para salvar do naufrágio iminente uma embarcação britânica na praia de Alpertuche. Em memória dessa graça, iniciaram-se as primeiras peregrinações ao Convento da Arrábida – em paralelo com as da Senhora do Cabo Espichel, que se tornou referência fundamental da fé desde o Cabo até Sintra… E há o vinho, o queijo e o pão – benfeitorias especiais de Azeitão. Quando veio José Maria da Fonseca (o sogro de Henrique da Gama Barros) depois da guerra civil, Periquita tornou-se o melhor dos vinhos maduros (maturado como na Antiguidade) e o Moscatel de Setúbal néctar sem concorrência… E falta referir que o queijo de Azeitão foi trazido por um pastor que acompanhou José Maria da Fonseca, quando este veio de Nelas, Gaspar Maria da Fonseca, que se surpreendeu com um sabor diferente do queijo que fazia na Beira Baixa. Razão? Os pastos diferentes davam especificidade outra ao novo queijo… Agora, deambulo nas ruas de Vila Nogueira, chego mesmo a Aldeia de Irmãos, são caminhos que os meus trilham há muitos séculos. E naturalmente relembrei, perante a Serra-Mãe as palavras singularíssimas de Sebastião da Gama…

 

O agoiro do bufo, nos penhascos,...
foi o sinal da Paz.
O Silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.

Depois, apenas uma linha escura
e a nódoa branca de uma fonte antiga :
a fazer-me sedento, de a ouvir,
a água, num murmúrio de cantiga,
ajuda a Serra a dormir.

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra,
nunca alcançou.

E outros murmúrios de água escuto, mais além :
os Poetas embalam sua Mãe,
que um dia os embalou .

Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia :
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim ;
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castiga
--passam a dar-se em mim .

E todo eu me alevanto e todo eu ardo.
Chego a julgar a Arrábida por Mãe,
quando não serei mais que seu bastardo.

A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr ;
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada ;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
descem da Serra e concentrou-se em mim.

E eu pressinto que a Noite, nesse instante,
se vai ajoelhar ...

Ai não te cales , água murmurante !
Ai não te cales , voz do Poeta errante !

-- se não a Serra pode despertar .

 

Agostinho de Morais

 

O VERDADEIRO GALO DE BARCELOS…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 16

 

Alguns dirão, erradamente, que o galo é uma invenção relativamente recente, vinda de uma lenda, talvez seiscentista ou setecentista, de um galo que salvou um condenado injustamente ou de uma descoberta tardia nas feiras de Entre-Douro-e-Minho. O “nosso“ galo de Barcelos, que Joana Vasconcelos estilizou e enriqueceu decorativamente, tornando-o ainda mais simbólico de nós mesmos, vem inequivocamente do nosso fundo céltico – esse fundo que António Pedro sentia no âmago de si mesmo e que o levava a gostar de gaitas de foles e das cores garridas que Amadeo de Souza Cardoso tão bem soube transmitir nas suas telas inesquecíveis e irrepetíveis. O gal de Portugal não engana. Aí está o elemento indo-europeu que nos liga aos Gálatas, do Médio Oriente à Turquia, à Galicia polaca, ao País de Gales, aos Gauleses, à Galiza – todos irmãos. É verdade que Leitão de Barros, António Manuel Couto Viana e Artur Maciel foram em busca de um símbolo popular – encontrando-o e enriquecendo-o com cores fortes e corações ilustrativos de mil afetos. No entanto, já Rocha Peixoto, no século XIX, nos fala do ”Galo de apito”, que ainda se encontra nas feiras e que tem a ver com a forte simbologia de quem anuncia, na aurora, o novo dia e um novo tempo. O nosso inconfundível galo insere-se na tradição dos druidas, no diálogo com o Oriente e a China, mas também na simbologia cristã de S. Pedro. O galo é arauto da luz do sol, mas sinal da verdade e da fidelidade. Tendo sido redescoberto nas feiras de Entre-Douro-e-Minho e pintado com as cores fortes que conhecemos, é o revelador de um amorável coração, do amor como contentamento descontente da lavra camoniana, mas também da saudade como lembrança e desejo e de magníficos ágapes, banquetes de amor e amizade, que encontram a sua origem na mais afetuosa das palavras gregas. Culturalmente, o galo significa ainda o cadinho que nos caracteriza neste lugar onde a terra se acaba e o mar começa, Finisterra. O Galo liga a cultura popular e a cultura erudita – e liga o presente ao passado e ao futuro. Naturalismo e espiritualismo aqui se encontram como no-lo ensinou Pascoaes. Tradição e modernidade estão aqui. Os azulejos portugueses são, afinal, reminiscência do Oriente! Os múltiplos caminhos do mundo que os portugueses foram trilhando levaram os nossos símbolos até às Índias, a África, ao Brasil.… O tema da identidade cultural exige a compreensão de que só a abertura e o diálogo, a relação fecunda entre a herança e a memória, o entendimento dinâmico de património podem permitir o desenvolvimento de uma cultura de paz e de respeito mútuo. A identidade que cristaliza morre. A memória que se centra exclusivamente no passado mítico torna-se pobre, ensimesmada e ressentida. A herança que não se fortalece com a criação contemporânea e com um permanente renascer crítico dissipa-se. A referência da utopia de Tomás Morus é-nos trazida por um marinheiro português. A ideia da viagem à Índia ou de passar para além da Taprobana corresponde a um apelo à aventura criadora e criticamente reconstituidora dos mitos. E mais. Como podemos entender o Candomblé e a religiosidade sincrética – reunindo animismo e tradição cristã – que liga o Senhor do Bonfim à corte dos orixás, tão presentes desde S. João Baptista de Ajudá a Salvador da Baía? Oxalá, o grande Senhor de Todos, e Iemanjá, a Deusa do Mar, dominam esse Olimpo. E o galo é a ave de batalha, o anunciador de bons augúrios. 

 

E hoje recordamos António Manuel Couto Viana:

 

Queres cantar fados, ler sinas
Por ruas tortas, escusas?
Ou tens pretensões mais finas?
- Não me esperem nas esquinas:
Não marco encontros a musas.

Cantem outros a desgraça
Em quadras fáceis, banais,
Cheias de mofo e de traça:
Soluços de fim de raça,
Com vinho, amor, ódios, ais.

E dos parques silenciosos
De estátuas, buxo e luar,
Cresçam sonetos cheirosos,
Requintados, vaporosos
Qual uma renda de altar.

Para mim basta o que tenho:
Umas rimas sem valia,
Mas próprias, do meu amanho;
Minha colheita, meu ganho
- Poesia! Poesia!

 

Agostinho de Morais 

 

ANTERO DE QUENTAL, SEMPRE!

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 15

 

Hoje citamos Joaquim de Carvalho, um dos espíritos mais brilhantes da cultura portuguesa do século XX sobre a relação de Antero de Quental com Oliveira Martins: «Em vez de uma amizade que se alimentasse da identidade afetiva, da fusão de duas almas, houve entre os dois fraternos amigos o sentimento de que mutuamente se completavam na diversidade e independência dos seus seres. Perdidas as cartas de Oliveira Martins, não é fácil determinar em que é que Antero lhe foi intelectualmente tributário; sabemos apenas que o historiador deveu ao poeta-filósofo indicações bibliográficas e traduções do alemão, aliás publicamente confessadas no Helenismo e a Civilização Cristã, sendo lícito suspeitar que foi Antero quem o conduziu ao germanismo e lhe sugeriu a leitura de Cournot, cuja influência foi capital na sua conceção filosófica da história, designadamente pela teoria do acaso, uma das grandes teses que opôs à ideologia histórica da geração romântica.

 

Na ordem positiva, de sugestão de ideias ou de factos, faltam-nos, pois, elementos seguros; porém, se passarmos para a ordem espiritual, o mútuo tributo surge-nos com alguma claridade. Oliveira Martins admirou em Antero o homem moral e o artista, o espírito subtil e amante das ideias coerentes, e o crítico desapaixonado que lhe discutia as ideias, apontava as omissões ou deficiências e apreciava o estilo. A sua influência foi, pois, moral e intelectual; Martins, pelo contrário, foi para Antero o tipo da ação viril, do pensamento pragmático do homem forte capaz de pensar, de querer e de atuar. Como notou António Sérgio num ensaio famoso sobre Martins, o espírito do historiador trabalhava sobre o concreto. Menos especulativo que Antero, com menos experiência e perspicácia da vida interior, surdo, de certo modo, às antíteses dolorosas que ela desperta, excedia-o grandemente no sentido pragmático, na acuidade da visão prática e na formidável capacidade de trabalho ordenado e metódico. Antero cedo o reconheceu, e com espontânea sinceridade lhe confessava que o seu convívio o chamara “à realidade viva, humanamente natural, que por um insensível mas contínuo desvio, o meu temperamento místico tende sempre a afastar-me, em não havendo influências externas que me chamem à razão — e V. é para mim essa razão, a razão... como direi?, a boa razão numa palavra, positiva, real, justa”».

 

E aproveitemos para ouvir o Poeta micaelense.

 

À VIRGEM SANTÍSSIMA

Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia.

Num sonho todo feito de incerteza, 
De noturna e indizível ansiedade, 
É que eu vi teu olhar de piedade 
E (mais que piedade) de tristeza... 

Não era o vulgar brilho da beleza, 
Nem o ardor banal da mocidade... 
Era outra luz, era outra suavidade, 
Que até nem sei se as há na natureza... 

Um místico sofrer... uma ventura 
Feita só do perdão, só ternura 
E da paz da nossa hora derradeira... 

Ó visão, visão triste e piedosa! 
Fita-me assim calada, assim chorosa.
E deixa-me sonhar a vida inteira!

 

Agostinho de Morais

ROTA DAS CATEDRAIS (II)

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 14

 

Continuamos na Rota das 27 Catedrais portuguesas. Recomeçamos pelo Porto, de onde houve nome Portugal, e aí a (ix, a nona catedral do nosso roteiro) Sé Catedral é dominada pelas influências românica (séculos XII e XIII), maneirista e barroca (séculos XVII e XVIII). Na única cidade-estado portuguesa (como lhe chamou Jaime Cortesão) temos uma Catedral fortaleza – onde se casou D. João, Mestre de Avis e D. Filipa de Lencastre e onde foi batizado o Infante D. Henrique. A estátua de Vímara Peres recorda o tempo da presúria e Sophia lembrou que o Bispo D. António se assemelhou como pessoa à firmeza da Catedral. E chegamos à (x) Guarda – a cidade dos cinco efes: fiel, forte, formosa, fria e farta… A Catedral herda a tradição da Egitânia, construída depois do século XIV, mantendo hoje o seu magnífico traçado gótico… Sente-se a firmeza e a permanência da mais antiga fronteira do mundo. Depois, temos a (xi) Catedral de Aveiro – e já se adoçam os nossos paladares com os melhores doces conventuais do mundo, invocando-se também Santa Joana Princesa, irmã do Príncipe Perfeito. Era a antiga Igreja da Misericórdia, que sofreu alterações nos séculos XVI e XVII. Na cidade de Coimbra, capital de D. Afonso Henriques, cidade do moçárabe Sesinando, temos a (xii) Sé Velha, joia do nosso românico e a (xiv) Sé Nova, o mítico lugar renascentista da nossa cultura, em que houve o mágico encontro entre Antero de Quental e Eça de Queiroz. E chegamos à (xv) Catedral de Castelo Branco, a velha Igreja de S. Miguel do século XIII ou XIV, que foi sendo alterada ao longo dos séculos, até ao barroco e rococó. E continuamos até Leiria, com um novíssimo Cardeal, D. António Marto, e não esquecendo que hoje é 14 de agosto, data de Aljubarrota (1385). A (xvi) Catedral de Leiria é paradigma do maneirismo, numa edificação que abrange os séculos XVI a XVIII. Depois, (xvii) a Catedral de Santarém, belamente renovada, com os justíssimos prémios Europa Nostra e Vilalva – foi a igreja do Convento da Companhia de Jesus, construída sobre o antigo Paço Real em 1647 por iniciativa de D. João IV. Como se teriam regozijado Garrett e Herculano perante o brilho atual do monumento. E seguimos para Portalegre, “cercada / de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros / Morei numa casa velha, / á qual quis como se fora feita para morar nela”… A (xviii) Catedral de Portalegre é dominada pelo maneirismo do arquiteto Afonso Álvares do século XVI… Num salto a Elvas, encontramos a (xix) Sé instalada na antiga Igreja de Nossa Senhora da Assunção – construída sob o traço de Francisco de Arruda, podendo em redor usufruir-se do magnífico artesanato. E (xx) chegamos à Sé Patriarcal de Lisboa, onde se exprime a História da cidade e do mar, de S. Vicente e dos Cónegos Regrantes, bem próximo dos lugares de nascimento de Santo António de Lisboa e do Padre António Vieira. O monumento é riquíssimo e a estação arqueológica que alberga inesgotável – a antiga mesquita, o templo cristão, as reminiscências romanas, visigóticas, suevas, a presença moçárabe… E continuamos. Mais para sul, a jovem diocese de Setúbal, tem sede na (xxi) antiga igreja de Nossa Senhora da Graça, erguida no século XIII, no estilo românico-gótico – chegando até nós como referência maneirista. E se estamos na cidade do Sado não se esqueça a visita da preciosidade que é a Igreja de Jesus, projeto dos Jerónimos. Falando de Évora, a sua (xxii) Catedral foi Igreja episcopal visigótica, onde se situou uma mesquita e onde o Bispo D. Soeiro erigiu o templo em 1186. Porém, o que chegou aos nossos dias associa os estilos românico e gótico, com uma personalidade própria e inimitável. Na reta final deste nosso roteiro – temos a (xxiii) Catedral de Beja, que encerra um mistério por ser a localização primitiva da Igreja de Santiago Maior, com elementos dos séculos XVI a XVIII, e um riquíssimo património. Todos esperamos, aliás, que a diocese continue a ser modelo de defesa do Património Cultural, na linha de D. Manuel Falcão (1922-2012). A (xxiv) Sé Catedral de Faro é emblemática, sendo erigida nas fundações de uma Basílica paleocristã e de uma mesquita – chegando aos nossos dias como exemplo de convergência de tempos e culturas. Mas no Algarve, não esqueçamos a antiga (xxv) Sé de Silves, maioritariamente gótica do século XV, um dos mais importantes exemplos da nossa arte religiosa. Em Angra do Heroísmo (Terceira), a (xxvi) Sé imponente invoca o Santíssimo Salvador, é do século XVI (1570) e constitui mais uma referência essencial.  A (xxvii) Sé do Funchal data da passagem do século XV para o século XVI tem também um grande interesse artístico, tendo a particularidade de ter sido sede da primeira diocese global, donde saíram as outras dioceses do mundo de língua e de influência dos portugueses… Um Roteiro riquíssimo de Catedrais fica ao nosso alcance para deleite e cultivo do património, da herança e da memória…

 

E como habitualmente, depois de termos lembrado José Régio, quem melhor do que Florbela Espanca para nos acompanhar na fantástica Évora?…

 

«Évora! Ruas ermas sob os céus

Cor de violetas roxas ... Ruas frades

Pedindo em triste penitência a Deus

Que nos perdoe as míseras vaidades! 

Tenho corrido em vão tantas cidades!

E só aqui recordo os beijos teus,

E só aqui eu sinto que são meus

Os sonhos que sonhei noutras idades! 

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...

Tua boca sinuosa, um mês de Abril,

Que o coração no peito me alvoroça! 

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...

E a minh'alma soturna escuta e pasma ...

E sente-se passar menina e moça ... »

  

Agostinho de Morais

 

ROTA DAS CATEDRAIS (I)

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 13 

 

A vida cultural faz-se de caminhos e de percursos vários, que nos permitem conhecer melhor a complexidade e o que é diferente. A muito antiga tradição das peregrinações (per agros) permite encadear as influências – e tornar a História próxima e compreensível. Os povos começaram por ser nómadas e passaram a sedentários. Há vantagens e inconvenientes que todos o sabemos . Também as artes se tornaram sedentárias, sem esquecer, porém, o movimento que sempre as anima. Hoje começamos a falar da Rota portuguesa das Catedrais – em boa hora preconizado e oportunidade para termos contacto com a história da Arte e da espiritualidade como realidades bem vivas. Neste Ano Europeu do Património Cultural (AEPC-2018), falar de Catedrais portuguesas constitui uma demonstração da importância da História viva. Para caracterizar o território e as suas gentes, urge considerar o património como um todo – ligando os valores religioso, histórico, paisagístico e artístico. A Rota das Catedrais é das mais ricas da Europa, e permite compreender as evoluções, histórica, cultural e artística, do que recebemos do passado. Há, assim, algumas ideias a considerar: (a) a referência histórica; (b) a integração no conjunto multifacetado do território; (c) a lógica da afirmação cultural portuguesa ligada à religiosidade popular; (d) a compreensão da evolução, desde a Reconquista ao povoamento e depois  à partida das Navegações; e (e) a ideia de peregrinação, originalmente influenciada pela marca de Santiago de Compostela em toda a Península.

 

Vejamos a Rota de norte para sul: (i) A catedral de Viana do Castelo vem do século XV e segue o gótico tardio. (ii) A Sé de Braga tem a marca do século XI e alberga os túmulos de D. Henrique e D. Teresa – tendo sido enriquecida por D. Diogo de Sousa, com a marca do Renascimento no século XV. (iii) A catedral de Vila Real foi construída no século XV sob o orago de S. Domingos, com influência gótica. (iv, v, vi) As Catedrais de Bragança e Miranda do Douro envolvem três monumentos marcantes: a Sé Nova da autoria do Arquiteto Vassalo Rosa (1935-2018) representa a modernidade, a Sé Velha leva-nos ao século XVI e a Sé de Miranda do mesmo século XVI singulariza-se pela sua imponência. (vii, viii) As Catedrais de Lamego e Viseu, merecem uma atenção também especial – sendo a de Lamego, anterior à nacionalidade (1129) e a de Viseu anuncia o gótico, o manuelino e o barroco… (continua)

 

Diz-nos David Almeida escreveu:

 

«Oh! Cidade sem rio grande.

Oh! Cidade sem Mar.

Não quem há na cidade quem mande

Como a magia do velho altar.

Oh! Bela cidade clerical.

Oh! Bela verde fonte.

Tudo desde a sé Catedral,

Ao bom Jesus do monte.

Oh! Bela minhota.

Oh! Bela cidade calma.

De noite pura e marota,

De dia viva e com alma.

Oh! Bela cidade de vida.

Oh! Memória de estudante.

Apesar da partida,

Braga, serás minha amante!”

 

Agostinho de Morais

 

DE SINTRA AO OCEANO…


TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 12 

 

Continuamos a lidar com o inesperado património cultural. Eis os “Eléctricos” de Sintra. Senão vejamos. Foi atribulada a história da linha que hoje se designa como Sintra-Atlântico. Em 1904 foi inaugurada como hoje persiste, primeiro no troço até Colares (março) e depois até à Praia das Maçãs (julho). As ideias iniciais foram mais ambiciosas, envolvendo a hipótese de um troço entre S. Pedro e a Vila Velha e outro até Mafra e Ericeira. Houve até projetos para um ramal para Monte Estoril e Cascais… Mas os sonhos não passaram de intenção e de papel. O que se concretizou é o que existe. E a designação em 1904 foi “De Sintra ao Oceano”… Tecnicamente, é uma ferrovia sazonal de bitola estreita (1000 mm, metro) tração elétrica por trólei. A bitola métrica é a habitual nestes casos. Tem carris clássicos assentes em travessas de madeira ou betão sobre balastro, onde passa em canal próprio, protegido por contracarris no cruzamento de passadeiras para acessos particulares em madeira e terra batida. E permitam-me, como modesto estudioso da ferrovia, falar-vos ainda de carris de encastrar nivelados ao pavimento, no cruzamento de estradas e no espaço urbano.

 

O velho elétrico da Praia das Maçãs está felizmente a circular. Como diz Miguel Esteves Cardoso: “A viagem não podia ser mais calma ou mais bonita, passando pela Ribeira de Sintra, por Galamares e Colares, pelo Banzão e pelo Pinhal, sempre com prioridade sobre os automóveis”. 12 quilómetros em 45 minutos. Três euros. Hoje é uma lembrança. Há cinquenta anos era o natural modo de vida. Ia-se assim à Praia das Maçãs – gozando do microclima em toda a sua pujança. Um dia D. João de Castro trouxe para a Pedra Verde plantas exóticas da Ásia – e tudo mudou. A serra escalvada tornou-se verdejante. Sintra ficou Sintra. E D. Carlos dizia que o Inverno vinha passar o Verão a Sintra. Mas como as acácias não têm com quem dialogar e espraiam-se sem disciplina…

 

Hoje também a literatura não falta, e recordo um velho amigo – Francisco Costa (1900-1988). Não podemos falar de Sintra, da Biblioteca e do Arquivo sem o recordarmos. Num passo pachorrento, estou a vê-lo a ver passar o elétrico para a Praia das Maçãs, que fora inaugurado tinha ele apenas 4 anos, tendo acompanhado todas as crises e sobressaltos desta linha que o Município de Sintra hoje mantém. E antes de irmos abastecer-nos de uma boa pomada vínica ao Chitas de Colares, lá havia dois dedos de conversa com a memória viva de Sintra (como bem tem lembrado Miguel Real). Para não o esquecermos, na sua casa lá está o poema que hoje aqui trazemos:

 

«Quando esta casa, feita mesmo em frente

da Serra Verde, ainda mal se erguia

e as traves da futura moradia

eram belos pinheiros, simplesmente,

houve uma tarde, sob um sol ardente,

em que o suor em bagas escorria

da testa dos pedreiros e fazia

da cal e areia uma argamaça quente.

Hoje há paredes contra os vendavais

Mas é cá dentro que soltamos ais

Nos dias mais aflitos e mais duros.

Enquanto gemem temporais lá fora,

Pagamos nós em lágrimas agora,

A dor incorporada nestes muros.»

 

Agostinho de Morais

 

A CABECINHA ROMANA DE MILREU…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 11

 

Como não apaixonarmo-nos pelo património? Na tarde de domingo dia 5 de agosto em Querença na mesa quadrada sobre Literatura e Artes Plásticas vieram à baila as “Metamorfoses” de Jorge de Sena. E Mário Avelar recordou “A Cabecinha Romana de Milreu”. Uma preciosidade! Não poderia deixar de o fazer aqui em terra algarvia. Jorge de Sena veio ao Algarve em 1959, em fim de fevereiro, em companhia de Erico Veríssimo. E ficou com essa imagem bem marcada, como lembrança daquele momento em que também foi acompanhado pelo poeta Emiliano Costa (1884-1968), médico em Estói.

 

O que resta desse busto encontra-se no Museu Nacional de Arqueologia e é assim descrito: “Cabeça-retrato de uma jovem mulher, bem modelada, de traços expressivos e grande naturalidade. Tem o nariz fragmentado e pequenas falhas na superfície do queixo e do pescoço. É um bom retrato, realista, de feições corretas, tecnicamente bem executado. (…) Ostenta um característico penteado em “ninho de vespa”, a testa curta quase desaparece sob o diadema formado por uma cadeia tripla de caracóis sobrepostos, que as damas romanas mandavam armar sobre uma rede de fio ou de metal, e na parte anterior da cabeça uma mecha de cabelo enrosca-se em largo carrapito sobre a nuca descobrindo as orelhas. A moda deste penteado foi criada por Júlia filha de Tito e esposa de Domiciano, no período flaviano, tratando-se talvez mesmo de um retrato da própria imperatriz. (…) Proveniente da villa romana de Milreu (ruínas de Estói), este retrato espelha da melhor forma a riqueza, importância e a plena atualidade e inserção sociopolítica das elites municipais da Lusitânia meridional em finais do século I – inícios do século II d.C., adotando posturas e modas estereotipadas de evidente prestígio pela sua conotação com a casa imperial”.

 

Em 1963, já em Araraquara, Jorge de Sena pegou no registo poético da memória e escreveu um poema que bem ilustra a riqueza do Algarve, no modo como a literatura se alimenta da arte.  

 

«Esta cabeça evanescente e aguda,
Tão doce no seu ar decapitado,
Do Império portentoso nada tem:
Nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
Na sua boca as legiões não marcham,
Na curva do nariz não há povos
Que foram massacrados e traídos.
E uma doçura que contempla a vida,
Sabendo como, se possível, deve
Ao pensamento dar certa loucura,
Perdendo um pouco, e por instantes só,
A firme frieza da razão tranquila.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
Prados e rios, sombras e colheitas,
E teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
Que os deuses todos tornou seus, não tinha
Um rosto para os deuses. E os humanos,
Para que os deuses fossem, emprestavam
O próprio rosto que perdiam. Esta
Cabeça evanescente resistiu:
Nem deusa, nem mulher, apenas ciência
De que nada nos livra de nós mesmos».

 

Agostinho de Morais

 

QUERENÇA – UM BOM EXEMPLO!

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número 
10

 

Há dias terminou o Festival Literário Internacional de Querença. Foram três dias de intensa atividade de reflexão e de troca de ideias. O momento alto tivemo-lo na justíssima homenagem a Gastão Cruz com a entrega da Medalha de Mérito Cultural pelo Ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes. Um grande poeta merece o justo reconhecimento.

 

E não podemos esquecer a memória de Luís Guerreiro, que há pouco nos deixou, e a quem se deve o impulso para a ação muito relevante da Fundação Manuel Viegas Guerreiro. Este Festival a ele muito deve, e por isso o seu nome tem de ser recordado. Devemos ainda invocar a marca gráfica de José Carlos Fernandes – que em Querença continua a proteger-se das bocas do mundo, sem que faça esquecer que é uma referência nacional e internacional indiscutível no mundo da ilustração. A imagem de marca do FLIQ que aqui publicamos é inseparável do seu criador e ficamos muito agradados e agradecidos por esse facto… Lembramos, assim, Manuel Viegas Guerreiro como ele mais gostaria – em nome da memória viva do tempo!

 

No domingo, Rayma Suprani trouxe-nos a dura experiência venezuelana e Cécile Bertrand falou do equilíbrio entre liberdade e respeito mútuo. Onde estão os limites? A difamação não é aceitável, bem como a violência e a chantagem! E a ilustradora Cristina Sampaio mostrou-nos a sua criação, plena de humor e ironia. A liberdade é uma marca das sociedades abertas e pluralistas!

 

E se se falou do Património Cultural como realidade viva, vieram à memória grandes ilustradores algarvios – como Tóssan, Bernardo Marques e Maria Keil. Eis por que José Carlos Fernandes pertence a uma plêiade extraordinária… E que é o Património Cultural senão muito mais do que monumentos – devendo ligar as pedras mortas às pedras vivas, a arte e a arqueologia, mas também o património imaterial, as tradições, os costumes, as línguas, os falares, além das paisagens (a imagem dos países) e da criação contemporânea. E qual a mensagem essencial? Não deixar ao abandono o que nos foi legado por quem nos antecedeu!

 

Falando da relação entre palavra e imagem, nada melhor do que ouvir E naturalmente devemos ouvir Gastão Cruz:

 

Gravura
Ourives-gravador era o ofício

do meu avô paterno: sobre mesas
dispersos utensílios buris limas
por entre chapas e, há muito, objectos

 

acumulados; lembro-o curvado
com a luneta, fixamente olhando
a dura mão que no metal gravava
por encomenda nomes: desenhava com

 

força as linhas do seu significado
como se para alguma eternidade
ilusória as gravasse, assim o poeta

 

com o buril inscreve na deserta
chapa do mundo não interpretado
o sentido precário de o olhar
(“A moeda do tempo”. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006).

 

Agostinho de Morais

A MAGIA DE UM PILOTO SEM ROSTO…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número 
9

 

Jean Graton (1923) criou e desenhou a partir de 1957 para o “journal Tintin” as aventuras de um corredor de automóveis, Michel Vaillant, que depressa se tornou admirado pelos leitores portugueses, seguidores da Banda Desenhada (BD). Quando a lei portuguesa determinava que os heróis das aventuras traduzidas deveriam adotar nomes portugueses, o jovem corredor chamou-se Miguel Gusmão e viu as suas primeiras aventuras publicadas essencialmente no “Cavaleiro Andante”, a partir de 1958, ainda que “O Falcão” tenha tido a fugaz prioridade logo em 1957. Não me lembro francamente dessa primeira publicação, já que só quando comecei a ler o “Cavaleiro Andante”, na minha primeira classe (1958-59), me tornei fan do “Piloto sem Rosto”. E posso dizer que, só mais tarde viria a convencer os meus professores de português sobre as virtualidades da boa BD para o conhecimento da língua. Nessa altura vivíamos na clandestinidade, mesmo quando recusávamos as más traduções e o pouco cuidado da revisão. Devo dizer que as equipas de Adolfo Simões Müller, como depois as de Dinis Machado e Vasco Granja, tiveram sempre uma muito apurada consciência sobre a exigência quanto à comunicação e à língua. Só nos meus doze anos comecei a convencer os meus professores no Pedro Nunes de que as Histórias aos Quadradinhos (HQ) eram um bom estímulo para a língua e para a cultura. Afinal, líamos a Ilíada e a Odisseia nos textos de João de Barros, não confundíamos as coisas. Tudo se complementava (como agora com o Afonso Cruz). Como o António Mega Ferreira tem dito, a escola do “Cavaleiro Andante” e do “Tintin” belga foi utilíssima para abrir horizontes de cosmopolitismo, conhecimento e ligação às artes – e até de cidadania. Por outro lado, os milagres que os gráficos faziam e o cuidado com a legendagem foram-me, aliás, relatados pelo José Ruy – e constituem uma história fantástica. Hoje falo-vos de Michel Vaillant pela qualidade e rigor do desenho e pelo culto de um certo espírito de cavalaria no mundo dos automóveis. O pretexto, no entanto, é a magnífica imagem de Lisboa e de um avião da TAP. Mas poderia dar muitos outros exemplos.

 

E como não lembrar Álvaro de Campos? Ao volante do Chevrolet pela Estrada de Sintra!

 

«Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero…
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo
sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…»

 

Agostinho de Morais

UN DÎNER EN FAMILLE…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número 8

 

A sabedoria de um velho avô dizia-nos que à mesa não se deveria falar de dinheiro, de política e de religião. Esse era, naturalmente, um intento piedoso que nem sempre era cumprido. A célebre gravura que hoje se apresenta refere-se ao caso Dreyfus, que foi dos mais duros momentos da história do final do século XIX, e o resultado da violação da velha regra está bem à vista. Os riscos eram tremendos. Devo dizer que no caso desse Avô patriarcal o que estava na raiz do alerta era a história da sua própria família, dividida depois de 1828 pela tremenda guerra civil entre liberais e absolutistas. O bisavô de meu avô era filho segundo e foi ministro liberal, enquanto o seu filho primogénito era absolutista em nome do morgadio que lhe caberia. É verdade que não houve um corte pessoal entre famílias – mas politicamente eram como a água e o azeite. Não havia diálogo possível. E quando se encontravam na nossa Azeitão ancestral procuravam falar do que os podia unir e não dos temas incendiários. Devo explicar que não falamos de debates puramente intelectuais uma vez que houve armas, assassinatos e prisões… Sobre dinheiro não se falava mesmo e as partilhas até foram civilizadas. Nas salas de refeições havia uma última ceia em que a bolsa de dinheiro de Iscariotes e o fácies do mesmo possuíam um efeito dissuasor. Quanto à religião, até havia um conviva algo habitual que era um pacato franciscano, frei Bernardino, de pensamento liberal, mas que os miguelistas respeitavam. Volta não volta até havia anedotas anticlericais, em que o próprio frade participava, com mais ou menos entusiasmo… Mas na política, aí tinha de haver mesmo o maior dos cuidados – pois o destempero podia aparecer quando menos se esperava… E o certo é que esse clima de guerra civil continuou mesmo depois de Évora-Monte. Num dos ramos da família o nome Miguel foi mesmo banido – e se as paixões foram adormecendo, a verdade é que a República e as duas Grandes Guerras voltaram a animar os combates verbais, ora sobre a República, ora sobre a entrada ou não entrada de Portugal na Primeira Guerra, ora entre anglófilos e germanófilos… Não é fácil definir como se desenrolaram as coisas. A racionalidade nem sempre existiu. E por isso sempre ouvi o conselho severo e estrito, de quem no caso do patriarca, era monárquico, constitucionalista e anglófilo. O inesquecível Júlio Dinis definiria tudo numa frase sucinta, feliz e clara: «A loucura é inseparável do homem; umas vezes toma-lhe a cabeça e deixa-lhe em paz o coração, que nunca se empenha no desvairar a que ela é arrastada; outras vezes há na cabeça a frieza da razão e ao coração desce a loucura para o perturbar com afetos».

 

Agostinho de Morais