Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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A Rota de Al Mutamid invoca o grande poeta de língua árabe, nascido em Beja, rei da Taifa de Sevilha, que estabeleceu em Silves um centro cultural da maior relevância, conhecido pelos contemporâneos como Bagdad do ocidente.
Maomé ibne Abade Almutâmide foi o terceiro e último dos reis abádidas que governaram a taifa de Sevilha no século XI e um dos poetas mais importantes de Al Andalus, tendo ficado conhecido como o "rei-poeta". Nascido em Beja, em dezembro de 1039 (Rabi Alual de 431, no calendário islâmico), foi o segundo filho de Almutadide, originalmente batizado com o nome de seu avô, Abu Alcacime Maomé, e com o título honorífico Almoaíde Bilá. Com cerca de 12 anos, foi nomeado governador de Silves (Chilb) por seu pai. Aí, conheceu o poeta Abenamar, com quem criou uma forte relação de amizade e afeto, ambos dedicando vários poemas um ao outro. No entanto, a atenção de Abu Alcácime mudaria ao conhecer a escrava Rumaiquia (E'etemad al-Rumaikiyya), que, segundo a lenda, o encantou ao terminar um verso que Abenamar não tinha sido capaz de completar. Imediatamente, adquiriu a bela escrava ao seu senhor e, pouco tempo depois, casou com ela, a única mulher legítima do seu harém, algo que afetou a sua relação com Abenamar. A influência de Abenamar e Rumaiquia na vida do filho preocupou bastante Almutadide, que acabou por forçar Abenamar a fugir do reino. Já Rumaiquia foi aceite depois de ser chamada a Sevilha e de aparecer perante o rei com o seu neto Abde.
Em 1069, por morte do seu pai, Abu Alcácime sobe ao trono, adotando o nome "Almutâmide", e uma das primeiras coisas que fez foi nomear Abenamar governador de Silves, designando-o por morte de Ibn Zaidune, ministro de seu pai, vizir do reino. Na década seguinte, Almutâmide viu morrer o seu filho mais velho, Abde, governador de Córdova sendo a cidade incorporada na coroa de Sevilha em 1070. Foi nesta cidade que Abde acabaria por morrer na batalha contra os exércitos de Almamude de Toledo. No início da década de 1080, com o aumento do território cristão, o Al Andalus entrou em declínio, em grande parte devido à intensificação das pressões existentes sobre as Taifas e a exigência de tributos cada vez mais elevados por Afonso VI de Leão. Em 1082, Almutâmide terá tentado pagar a Afonso VI em moeda falsa, tendo crucificado o seu enviado, o judeu Ibn Salibe, quando este protestou. Por vingança, Afonso VI invadiu Sevilha. A situação agravou-se quando Almutâmide foi traído por Abenamar, que, ao conquistar Múrcia, cortou relações com o rei de Sevilha e tentou tornar-se autónomo. A sua posição tornou-se, porém, insustentável, tendo sido aprisionado em Sevilha e morto por ordem do próprio Almutâmide.
Com a conquista de Toledo por Afonso VI em 1085, os reis muçulmanos pediram apoio aos Almorávidas do norte de África tendo em vista das Taifas ameaçadas pela reconquista cristã. O emir dos Almorávidas, Iúçufe Ibn Taxufine viajou com as suas tropas para Al Andalus, ajudando Almutâmide e os outros reis muçulmanos a derrotar os cristãos em 1086 na Batalha de Zalaca. Taxufine voltou ao seu reino posteriormente. Os reinos muçulmanos viram no apoio de Taxufine uma oportunidade para se libertarem da pressão cristã e voltaram a pedir a sua ajuda para a tomada de Aledo, dois anos depois. No entanto, a operação militar não foi bem sucedida, e o exército de Afonso VI venceu, consolidando a sua posição, sobretudo considerando a divisão existente entre os reinos taifas. Finalmente, em 1090, Taxufine voltou a Al Andalus, desta vez não se aliando com os reis das taifas, mas tentando conquistá-los, beneficiando da sua fragmentação. Almutâmide demorou até se aperceber do que estava em causa, tendo inclusive felicitado Taxufine após a sua conquista da Taifa de Granada. Contudo, em 1091, o emir Almorávida chegou a Sevilha. Almutâmide ainda terá pedido apoio a Afonso VI, mas em vão, por ter sido derrotado e feito prisioneiro e desterrado para Agmate perto de Marraquexe, onde passaria os últimos quatro anos da sua vida aprisionado e dedicado à atividade poética, morrendo em 1095.
A poesia de Almutâmide integra-se na poesia árabe, no estilo clássico da qasîda, e revela um perfeito domínio do idioma e de utilização de todas as suas potencialidades. Filho e neto de poetas, educado numa corte de intelectuais e de literatos, provavelmente do grande Ibn Zaîdun, o então jovem príncipe encontra cedo uma voz própria. A linguagem que usa é simples e direta, com a expressão exata que se adequa à expressão dos sentimentos, afastando-se do mero jogo formal ou retórico da poesia. Pelo seu tom confessional e autêntico, os seus poemas constituem um espelho da sua própria vida e, se a sensualidade e o amor são temas tão fortes nas diversas fases da sua vida, no entanto, no final quase desaparece, valorizando uma dimensão mais espiritualizada e contemplativa da vida, em que a poesia é mais elegíaca. No belo poema "Evocação de Silves", compara a beleza de uma donzela com a curva de uma pulseira e descreve a alegria e a melancolia da sua existência. Adalberto Alves publicou na Assírio e Alvim “Al Mu’tamid Poeta do Destino”, onde se revela uma personalidade epicurista, multifacetada e rica, que alia o prazer da vida e uma sensibilidade muito fina, em que o destino marca uma complementaridade entre o prazer e a vontade. Oiçamo-lo: “Solta a alegria! Que fique desatada! Esquece a ânsia que rói o coração. Tanta doença foi assim curada! A vida é uma presa, vai-te a ela! Pois é bem curta a sua duração”.
A Rota Almutâmide é um itinerário cultural e turístico que liga Lisboa a Granada, passando por Silves e Tavira e por terras do al-Andalus, destacando o legado comum dos períodos muçulmanos em Portugal e Espanha, com ênfase para a herança cultural, monumental e para a figura do rei poeta Almutâmide. A rota é estruturada em dois ramos e é um projeto para promover o turismo e a cultura através de uma narrativa partilhada sobre o património cultural.
«Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo» nasceu em 1941, por iniciativa de António Ferro, tendo publicado quatro séries até 1973, dentro da preocupação de promover, interna e externamente, Portugal como destino turístico.
UMA REVISTA NOVA Quando hoje voltamos a folhear a revista «Panorama» fica-nos uma dupla sensação – a da grande qualidade gráfica e a da presença de um conjunto de artistas com reconhecimento geral, sobretudo quando nos reportamos à fase inicial, em que António Ferro tem uma significativa margem de manobra na capacidade de atrair os melhores artistas do momento. As ilustrações de Bernardo Marques, Emmérico Nunes, Ofélia Marques, Paulo Ferreira, Manuel Lapa, Eduardo Anahory ou Júlio Gil marcam a identidade da revista. Para Ferro, seria importante apostar na vertente das artes. E diz: «Enganam-se os homens de ação (…) que desprezam ou esquecem as belas-artes e a literatura, atribuindo-lhes uma função meramente decorativa (…). A política do Espírito (Paul Valéry acaba de fazer uma conferência com o mesmo título) não é apenas necessária, se bem que indispensável em tal aspeto, ao prestígio exterior da nação: é também necessária ao seu prestígio interior, à sua razão de existir». Não por acaso, o Secretário da Propaganda Nacional vai buscar um título muito prestigiado para a nova revista – nem mais nem menos do que o do órgão da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Úteis, que fora dirigida por Alexandre Herculano a partir de 1837, contando com a participação das principais figuras culturais portuguesas da época, como António Feliciano de Castilho, Oliveira Marreca, Camilo Castelo Branco... Lembremo-nos que a revista romântica apresentava um mote «positivo, otimista, apaziguador, apelando ao entendimento entre todos os liberais» - não tendo entrada os assuntos políticos… Agora os tempos eram outros e o conteúdo cultural e científico da velha revista não seria replicado no novo órgão de comunicação. No entanto, a qualidade gráfica tornar-se-ia a marca que compensaria um conteúdo essencialmente de divulgação, sobretudo centrado em iniciativas oficiais ou próximas, apesar de algumas colaborações serem assinadas por especialistas de prestígio, como Reynaldo dos Santos, João Couto, Diogo de Macedo ou Reis Santos. Contudo, António Ferro é, sem dúvida, quem marca a revista nas suas origens e na sua missão, nitidamente orientadas por objetivos de divulgação e propaganda, com um sentido de favorecimento económico – compreendendo a importância crescente do turismo no mundo – e de promoção do regime político. Os sucessores de Ferro seriam, aliás, essencialmente continuadores do projeto, sem carácter inovador. Referimo-nos a António Eça de Queiroz, José Manuel da Costa, Eduardo Brazão, César Moreira Baptista e Pedro Feytor Pinto.
UMA LÓGICA PREMONITÓRIA Quando hoje regressamos à memória histórica da revista, temos de compreender a sua natureza e o facto de o seu fundador ter entendido a importância da ligação entre o turismo e a cultura. Essa compreensão conduz, naturalmente, a que seja a fase inicial a mais interessante da vida da revista, uma vez que estamos perante a sua natureza precursora e o ativismo do seu fundador. Como afirma Reis Torgal, A. Ferro é, sem sombra de dúvidas, um «intelectual do Estado Novo», como o foram D’Annunzio, Marinetti ou Gentile em Itália, supondo esse conceito «um certo nível de produção e intervenção cultural e uma problematização de conceitos, servidos por uma boa leitura, mais ou menos complexa ou simples, de obras e de autores, de estéticas, de sociedades, de políticas e de religiões». E é esse perfil que nos permite hoje debruçarmo-nos sobre a originalidade e a importância do seu papel, fora de juízos de valor ideológicos, que pecariam sempre por anacrónicos. E que visa o ativismo de António Ferro? Valorizar o que os portugueses tinham para dar. E o seu percurso pessoal e intelectual não permite fechar-se numa lógica provinciana. Dir-se-ia que há um culto paradoxal da lógica nacionalista – já que, defendendo-a, não esquece o cosmopolitismo que os modernistas representam. Essa coexistência de fatores diferentes nota-se na revista «Panorama», em que a estética moderna vive paredes meias com a tradição e a lógica conservadora. O folclore, a aldeia mais portuguesa de Portugal, a simbologia popular não deixam de ser cultivados com as audácias de quem não esquecia a participação na aventura de «Orpheu».
O JORNALISTA DE OUTRORA… O jornalista de outrora não esquecia o que dissera um dia nas termas de Vidago, sobre quem jamais conseguiria divertir-se, levando consigo uma «apagada e vil tristeza» «em que a raça se afunda, que dá a Portugal uma atitude sonâmbula, mediúnica, que espectraliza os seres em árvores, que dá às árvores uma expressão humana». Do mesmo modo, não esquecia a «povoação abandonada, suja, uma terra maldita, uma terra de farrapos, de gatos lazarentos, de mendigos torpes, de crianças que são chagas», a propósito de Moledo do Minho… Como poderia haver turismo nessa vil tristeza, nesse abandono ou entre tais farrapos? Mas também lembrava o que dissera de José de Almada Negreiros quando o apresentou no dia em que leu em público a genial «Invenção do dia claro»: «Imaginário quer dizer, para mim, um profissional do Sonho, aquele que desenha imagens no papel, Ingres da Alma»… E não dissera de Mário de Sá-Carneiro: «quando aqueles que se esquecem dele estiverem todos esquecidos, Mário de Sá-Carneiro será lembrado»? Afinal, tal como os seus companheiros de «Orpheu» tinham desejado culturalmente, haveria que abrir portas ao Imaginário. Se virmos o pensamento de António Ferro sobre o turismo, há uma premonição sobre a importância futura dessa indústria – apesar da guerra mundial parecer contradizer essa tendência inexorável. O tempo longo veio a confirmar a intuição do intelectual, desmentindo, porém, a lógica autárcica… Só uma economia aberta e não protecionista poderia favorecer a livre circulação dos turistas… Havia uma inteligência fina que antecipava as grandes tendências, mas descria agora dos ideais republicanos que abraçara outrora – preferindo a mão dura de um Estado forte. Percebe-se, contudo, como a personalidade irrequieta do fundador da nova revista era complexa e contraditória. E essas características permitiram antecipar a tendência dos factos e antever o desenvolvimento da ligação indelével entre cultura e turismo…
Guilherme d'Oliveira Martins
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