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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

UN DÎNER EN FAMILLE…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número 8

 

A sabedoria de um velho avô dizia-nos que à mesa não se deveria falar de dinheiro, de política e de religião. Esse era, naturalmente, um intento piedoso que nem sempre era cumprido. A célebre gravura que hoje se apresenta refere-se ao caso Dreyfus, que foi dos mais duros momentos da história do final do século XIX, e o resultado da violação da velha regra está bem à vista. Os riscos eram tremendos. Devo dizer que no caso desse Avô patriarcal o que estava na raiz do alerta era a história da sua própria família, dividida depois de 1828 pela tremenda guerra civil entre liberais e absolutistas. O bisavô de meu avô era filho segundo e foi ministro liberal, enquanto o seu filho primogénito era absolutista em nome do morgadio que lhe caberia. É verdade que não houve um corte pessoal entre famílias – mas politicamente eram como a água e o azeite. Não havia diálogo possível. E quando se encontravam na nossa Azeitão ancestral procuravam falar do que os podia unir e não dos temas incendiários. Devo explicar que não falamos de debates puramente intelectuais uma vez que houve armas, assassinatos e prisões… Sobre dinheiro não se falava mesmo e as partilhas até foram civilizadas. Nas salas de refeições havia uma última ceia em que a bolsa de dinheiro de Iscariotes e o fácies do mesmo possuíam um efeito dissuasor. Quanto à religião, até havia um conviva algo habitual que era um pacato franciscano, frei Bernardino, de pensamento liberal, mas que os miguelistas respeitavam. Volta não volta até havia anedotas anticlericais, em que o próprio frade participava, com mais ou menos entusiasmo… Mas na política, aí tinha de haver mesmo o maior dos cuidados – pois o destempero podia aparecer quando menos se esperava… E o certo é que esse clima de guerra civil continuou mesmo depois de Évora-Monte. Num dos ramos da família o nome Miguel foi mesmo banido – e se as paixões foram adormecendo, a verdade é que a República e as duas Grandes Guerras voltaram a animar os combates verbais, ora sobre a República, ora sobre a entrada ou não entrada de Portugal na Primeira Guerra, ora entre anglófilos e germanófilos… Não é fácil definir como se desenrolaram as coisas. A racionalidade nem sempre existiu. E por isso sempre ouvi o conselho severo e estrito, de quem no caso do patriarca, era monárquico, constitucionalista e anglófilo. O inesquecível Júlio Dinis definiria tudo numa frase sucinta, feliz e clara: «A loucura é inseparável do homem; umas vezes toma-lhe a cabeça e deixa-lhe em paz o coração, que nunca se empenha no desvairar a que ela é arrastada; outras vezes há na cabeça a frieza da razão e ao coração desce a loucura para o perturbar com afetos».

 

Agostinho de Morais

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture