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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

DESCOBERTA NA CIDADE VELHA NA ILHA DE SANTIAGO
5 de fevereiro de 2019.

 

Já regressado a terras lusas, vindo da Sildávia, escrevo sob a invocação do pelourinho da Ribeira Grande (Cidade Velha), Cabo Verde, no momento em que acaba de ser descoberta uma capela provavelmente quinhentista na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. E chamo sempre a atenção para a configuração do pelourinho da velha capital, que invoca o melhor municipalismo como nos foi ensinado por Herculano… Nas obras de beneficiação que decorrem no templo, prevendo-se que o mesmo possa ser restituído à sua traça original ainda este ano da Graça de 2019, confirmou-se a descoberta de uma capela que pode datar de 1495 e que se encontra cheia de pedras e entulho, em resultado de diversos desabamentos dos terrenos que ladeiam a Igreja. Não se trata de algo completamente inesperado, uma vez que  os arqueólogos do projeto “Concha” já vinham assinalando a forte probabilidade de encontrarem uma capela antiga dos primórdios da construção do templo. Agora parece tudo apontar nesse sentido, havendo uma grande curiosidade da parte da comunidade científica em conhecer como se apresenta esse precioso elemento que ajudará decisivamente a conhecer a história não apenas da Igreja, mas também da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. É um dos edifícios mais antigos da cidade construído a partir de 1495 no estilo gótico português, foi mais tarde ampliado, sempre sob os auspícios da mesma confraria dos homens pretos, que assim demonstrava ter influência e poder económico assinaláveis. O Padre António Vieira ali pregou, indo de Portugal para o Brasil. Ainda se imagina a verve do imperador da língua portuguesa, perante uma comunidade que o deixa impressionado. E o célebre Pedre disse, sem esconder a admiração: “há aqui padres tão negros como azeviche. Mas só neste particular são diferentes dos de Portugal, porque são doutos, tão morigerados, tão bons músicos que fazem inveja aos melhores das melhores catedrais de Portugal”. Não é preciso dizer mais sobre o que era a Ribeira Grande e sobre qual a sua importância. E hoje perante o esqueleto da velha cidade percebemos que o Padre Vieira encontrou uma população culta e laboriosa. A Cidade, como sabemos foi assaltada no início do século XVIII pelos corsários franceses que levaram tudo, incluindo os sinos da catedral. Daí a mudança da capital para a Cidade da Praia, mais protegida de intempéries e assaltos… Estou, como compreendem, muito curioso por ver o resultado da intervenção dos arqueólogos e para perceber plenamente toda a riqueza do gótico português no sul da Macaronésia. A Cidade Velha está hoje classificada como Património Mundial da UNESCO e é uma importante referência, já que falamos da memória de um antigo entreposto de escravos (enquanto a Goreia foi uma prisão de escravos). Assim, para quantos desejam o debate sobre os claros e escuros da presença africana dos europeus, aqui não há dúvidas. Ninguém quer iludir a História e as suas tragédias – mas isso não pode fazer esquecer tudo o mais. A necessidade de evitar anacronismos, bem como do estudo e da reflexão históricos numa perspetiva crítica, não esquecendo o lado mau e refletindo também sobre os benefícios… Continuaremos neste tema… Por hoje, envio um abraço, aproveitando para deixar-vos com um texto extraordinário de William Shakespeare, o célebre Soneto nº 30, na tradução exemplar de Vasco Graça Moura.     

 

 SONETO Nº 30

 

 "Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as coisas que passaram
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.
E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.
E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.
Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
têm cura as perdas e as tristezas fim."

 

(William Shakespeare, tradução Vasco Graça Moura)

 

Agostinho de Morais

A VIDA DOS LIVROS

 

 


De 25 a 31 de agosto de 2014

 

A publicação de «Retratos de Camões» (editada por Guerra & Paz e pela SPA, Sociedade Portuguesa de Autores) constitui uma justa homenagem ao labor pedagógico de Vasco Graça Moura, trazendo para a ribalta uma personalidade quinhentista fundamental que tão pouco conhecemos.


GRANDE ADMIRADOR DE CAMÕES
Vasco Graça Moura manteve durante a sua vida de homem de cultura uma grande admiração por Camões – e podemos dizer que essa sua relação permitiu uma melhor compreensão do lugar excecional do épico na literatura portuguesa. Ao longo do tempo, e desde relativamente cedo, a aura de Camões foi-se formando e consolidando pela necessidade de encontrarmos um símbolo nacional unificador, sobretudo para momentos especialmente difíceis. Entende-se, por isso, que o século XVII tenha sido uma circunstância propícia, em virtude do domínio castelhano protagonizado pelo Duque de Olivares, contra os compromissos assumidos nas Cortes de Tomar por Filipe I. Perante a ameaça da perda de autonomia ou da afirmação de uma intolerável dependência, nada melhor do que a identificação com o poeta que tão bem soube interpretar a «nossa alma», na feliz expressão de Eduardo Lourenço. Assim como Dante soube identificar-se com o povo de Florença na viagem imaginária ao Além, Camões escreveu «um livro de paixão e amor sem igual pela pequena casa lusitana», dando testemunho sobre uma viagem até aos confins da terra, ditada pelos seus «erros, a má fortuna e o amor ardente», assumindo a celebridade ambígua, de receber, a um tempo, a coroa de louros da glória e a coroa de mirtos, «para servir de modelo romântico a todos os poetas malditos»… Por isso, passados os tempos da Restauração, chegaríamos à onda romântica, ao longo do século XIX, que trouxe à ribalta a continuidade da consagração do «símbolo da Pátria». Garrett considera, assim, o épico como bandeira da renovação literária, de reconhecimento da tradição e da regeneração da pátria liberal, como já fizera o mais singular dos árcades, Bocage, e o fariam diversas gerações marcantes, até às respostas republicanizante e socializante, desde a Geração de Setenta à Renascença Portuguesa. Mas Vasco Graça Moura soube sempre ir além dessa simbologia, dando um sentido autêntico e atual à memória camoniana, justificando plenamente a consideração do dia de Camões como dia de Portugal, à semelhança da hagiografia cristã. Para o poeta e ensaísta contemporâneo, a qualidade intrínseca de Camões, a sua força cultural e literária no sentido universalista, nem sempre entendida além-fronteiras, é que importaria cultivar e desenvolver.

 

CONHECER O HOMEM PELO RETRATO
É o Camões poeta e artista, homem do Renascimento, inovador da língua e das ideias, que Vasco Graça Moura admirava profundamente e que considerava dever ser mais atentamente estudado, lido e compreendido. O exercício de apresentar em oitava rima «Os Lusíadas» aos jovens de hoje, recorrendo essencialmente ao génio camoniano, é a melhor prova da consciência que o poeta tinha da importância da força criadora de Camões na cultura portuguesa – demonstrando a injustiça de um certo esquecimento do poeta em benefício do mito nacional. A recente publicação de «Retratos de Camões» (editada por Guerra e Paz e Sociedade Portuguesa de Autores) constitui uma justa homenagem ao labor pedagógico de Graça Moura, trazendo para a ribalta uma personalidade quinhentista de que tão pouco conhecemos, em termos biográficos, mas cuja obra é de tal modo importante, que leva ao dever de aproximarmos o autor dos leitores de hoje, afastando um véu que tantas vezes dificulta o reconhecimento do valor excecional da obra. Sabemos que a lírica é mais apetecível e acessível, e que o cânon que ela pressupõe nos aproxima mais de Camões, mas VMG sempre procurou dizer-nos que é o grande poeta no seu todo que importa perceber, desbravando-se a sua obra fecunda. E Eduardo Lourenço tem-lhe dado plena razão, numa convergência de visões que resulta de um diálogo intelectual muito significativo e de uma evidente complementaridade nos modos de encarar o lugar do autor de «Os Lusíadas» nas culturas da língua portuguesa. «Camões fez mais do que pintar-nos. Deu-nos o palco do mundo, celebrou nele a nossa aventura descobridora e simbólica, em tais termos que não parece ter-nos deixado outra alternativa como entidade coletiva do que refazer sem fim a viagem do Gama, ou ficar de braços cruzados na praia deserta do Restelo e lamentando-nos do que fomos e já não somos, assistindo humilhados à aventura dos outros» (in «Poesia e Metafísica – Camões, Antero, Pessoa», 1983).

 

A CÉLEBRE FIGURAÇÃO DE FERNÃO GOMES
Em «Retratos de Camões» partimos da mais antiga iconografia até aos contemporâneos Júlio Pomar, João Cutileiro, José Aurélio e José de Guimarães. E nesse percurso, ao procurarmos encontrar o rosto de Camões, descobrimos incentivo para que a leitura da obra nos ajude a vê-la como espelho onde se projeta a nossa «casa lusitana». O certo é que a imagem de Camões chegou primeiro ao público a acompanhar a sua biografia. Manuel Severim de Faria apresenta-o em «Discursos Vários Políticos» (1624) e, meio século depois da morte, o seu retrato surge na publicação em Madrid da obra épica, as «Lusíadas Comentadas», por quem pode ser considerado como o maior camonista de sempre, Manuel de Faria e Sousa (1639). A memória iconográfica e a tradição coletiva seguiram essa precoce representação… E o certo é que até aos anos 20 do século XX, só os retratos referidos eram conhecidos. Em 1924-23 Affonso Dornellas deu a conhecer dois outros retratos que tinham ficado ignorados até essa altura: o de Fernão Gomes e a chamada miniatura da Casa Rio Maior. Finalmente, em 1972, por ocasião do IV Centenário da publicação de «Os Lusíadas» surgiu uma nova representação, dita da prisão, dada a conhecer por Maria Antonieta Soares de Azevedo. Tudo indica que tanto o retrato da prisão como o de Fernão Gomes foram feitos em vida do poeta, enquanto o da Casa Rio Maior será de elaboração póstuma. A célebre figuração de Fernão Gomes (executada entre 1573 e 1576) só é conhecida através de uma cópia, do século XIX, feita a partir de um desenho que se encontrava na posse do marquês do Louriçal, que se terá perdido, apresentando dois adesivos, tendo sido achado depois do terramoto nas ruínas do Palácio da Anunciada, propriedade dos Louriçal. A miniatura da Casa Rio Maior é colorida e foi encomendada em Goa por Fernão Teles de Menezes, sendo o épico figurado com o símbolo da glória. O desenho tosco de Camões na prisão (Moçambique ou Goa?) - «preso e tendo aos pés quem quis perdê-lo. Pintado nas Índias e foi do próprio» - não deixa grandes pistas, mas merece atenção… É a partir destas referências que chega até nós a representação que Severim descreveu como «de meã estatura, grosso e cheio do rosto, e algum tanto carregado da fronte, tinha o nariz comprido levantado no meio, e grosso na ponta; afeava-o notavelmente a falta do olho direito, sendo mancebo teve cabelo tão louro, que tirava o açafroado; ainda que não era gracioso na aparência, era na conversação muito fácil, alegre e dizidor (…) posto que já sobre a idade deu algum tanto em melancólico». «Retratos de Camões» permite-nos, afinal, aproximar-nos do símbolo, superando-o… «Que se lhe redobre em memória / o que em vista lhe faltou»…

Guilherme d'Oliveira Martins